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A massa humana que marchou em direção à Bastilha era composta de guardas, marceneiros, sapateiros, diaristas, escultores, operários, negociantes de vinhos, chapeleiros, alfaiates e outros artesãos. Era o povo de Paris que pegava em armas e, à força, transformava em realidade os ideais defendidos pelos filósofos iluministas. A Revolução Francesa havia começado. Suas consequências mudariam o perfil político, social e cultural da Europa. O Século das Luzes havia chegado ao fim. BROTHERS, L. Demolição da Bastilha. 1789. Guache sobre cartão, 35,5 3 53,6 cm. 17 60 Revolução Francesa: fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea. 17 99 18 08 18 09 18 10 A Corte portuguesa chega ao Brasil. Os portos são abertos ao comércio internacional. Em Londres, Hipólito da Costa publica o Correio Braziliense. 18 15 Criação da Imprensa Régia em Lisboa. Napoleão assume o poder na França. 18 18 Revolução do Porto. Mary Shelley publica Frankenstein. Derrota de Napoleão em Waterloo. Publicação de O Diário Lisbonense. 18 20 18 22 18 30 Proibição da circulação do jornal Correio Braziliense em Portugal e seus domínios. 17 68 17 89 18 17 Goya começa a pintar Os desastres da guerra. A série retrata as trágicas consequências da ocupação napoleônica na Espanha. GOYA, F. Os desastres da guerra número 15. 1810-1815. Início da Revolução Industrial na Inglaterra. MATAS, V. Barco a vapor. 1837. Independência do Brasil. Revolução liberal na França.Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br Filme: trecho de Dalton — O processo da Revolução, de Andrzej Wajda. Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br Filme: trecho de A Marselhesa, de Jean Renoir. Filme: trechos de Casanova e a Revolução, de Ettore Scola. O nascimento do cidadão A Revolução Francesa dá destaque a uma nova personagem na cena europeia: o povo. Os heróis solitários se tornaram elementos do passado. Agora, quem faz a história, pela força de seus braços e pela convicção de seus ideais, é o indivíduo. Em meio a todos os acontecimentos desencadeados pela tomada do poder, na França, a Assembleia Nacional Constituinte começou a elaborar os artigos da nova constituição. Aprovado em 1789, o texto resumia os direitos básicos da sociedade moderna. Em todos eles se pode identificar o desejo de autonomia da burguesia, que, como classe universal, falava em nome do povo inteiro e tomava para si a tarefa de emancipar o mundo do feudalismo e dos privilégios da monarquia. A influência dos principais filósofos iluministas e do texto da Declaração de Independência dos Estados Unidos foi decisiva para a redação final dos 17 artigos da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”. Art. 1o — Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ter como fundamento a utilidade comum. Art. 2o — A finalidade de toda associação política é a preservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a prosperidade, a segurança e a resistência à opressão. [...] Art. 6o — A lei é a expressão da vontade geral. [...] Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos. [...] Disponível em: <http://www.ambafrance.org.br/14%20julho/decldroits.html>. Acesso em: 6 fev. 2005. (Fragmento). 225 C ap ít u lo 1 2 • A e st ti ca r om nt ic a id ea li a o e ar re at am en to om an ti sm o em or tu al R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap12_D.indd 225 20/10/10 3:32:48 PM Tome nota O termo Romantismo faz referência à estética definida pela expressão da imaginação, das emoções e da criatividade individual do artista. Representa uma ruptura com os padrões clássicos de beleza. Após séculos de segregação, exploração e sofri- mento nas mãos da monarquia, o homem comum tem sua liberdade e igualdade afirmadas e, mais importan- te, transforma-se em cidadão. Agora ele é súdito das leis que existem para assegurar seus direitos, desde que elas sejam a expressão da vontade geral. Da revolução política à revolução econômica A queda da monarquia, na França, abalou as monar- quias absolutistas europeias e desencadeou uma sé- rie de transformações políticas em outros países. Na Inglaterra, onde a monarquia era mais estável, as mudanças aconte- ceram no terreno econômico. Em meados do século XVIII, o país começou a acompanhar a passagem do modo de produção artesanal para o fabril. A máquina a vapor, os motores movidos a carvão e os teares mecânicos multiplicaram o rendimento do trabalho e aumentaram muito o ganho do burguês dono do capital: depois de fazer fortuna com o comércio, ele investiu seu capital nas fábricas e passou a acumular lucros cada vez maiores. Com isso, alteram-se as relações sociais, que colocam, de um lado, os em- presários (capitalistas), detentores do capital, dos imóveis, das máquinas, da matéria-prima e dos bens produzidos pelo trabalho, e, de outro, o proletariado, que vende sua força de trabalho e produz mercadorias em troca de salários. No início do século XIX, a Inglaterra estava em plena Revolução In- dustrial. Ferrovias foram construídas para melhorar a distribuição da produção fabril pelo país. A instalação de fábricas próximo aos centros urbanos atraiu um significativo número de camponeses, que abando- naram o campo em busca da promessa de prosperidade associada ao crescimento do comércio na zona urbana. A onda do progresso tecnológico se expande da Inglaterra para outros países da Europa e consolida as chamadas revoluções burguesas do século XVIII. Juntas, a Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial determinaram a queda do Antigo Regime e con- solidaram o capitalismo como novo sistema econômico. O Romantismo: a força dos sentimentos Até o século XVIII, a arte sempre esteve voltada para os nobres e seus valores. Quando o burguês conquista poder político, precisa criar as suas referências artísticas, definir padrões estéticos nos quais se reconheça e que o diferenciem da nobreza deposta. É nesse contexto que o movimento romântico surge, provocando uma verdadeira revolu- ção na produção artística. Para romper com a postura racional da estética árcade, o movimento romântico interpreta a realidade pelo filtro da emoção. Combinada à originalidade e ao subjetivismo, a expressão das emoções definirá os princípios da nova produção artística. O reinado do indivíduo Tomo uma resolução de que jamais houve exemplo e que não terá imitador. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade de sua natureza, e esse homem serei eu. Somente eu. Conheço meu coração e conheço os homens. Não sou da mesma massa daqueles com quem lidei; ouso crer que não sou feito como os outros. Mesmo que não tenha maior mérito, pelo menos sou diferente ROUSSEAU, Jean-Jacques. Apud: PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 1985. p. 468. (Fragmento). As palavras de Rousseau resumem a essência do olhar romântico para o mundo: tudo o que é escrito parte de uma perspectiva individual e, portanto, subjetiva. Litografia de 1855 representando as casas aglomeradas e as altas chaminés das fábricas de Sheffield, na Inglaterra. A introdução das máquinas a vapor nessa cidade do norte, conhecida pela qualidade de sua cutelaria, assegurou-lhe lugar de destaque na indústria do aço. 226 U n id ad e 4 • om an ti sm o R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap12_D.indd 226 20/10/10 3:32:49 PMA estética romântica substitui a exaltação da nobreza pela valorização do indivíduo e de seu caráter. Em lugar de louvar a beleza clássica, que exige uma natureza e um físico perfeitos, o novo artista elogia o esforço individual, a sinceridade, o trabalho. Pouco a pouco, os valores burgueses vão sendo apresentados como modelos de comportamento social nas obras de arte que começam a ser produzidas. O projeto literário do Romantismo O filósofo que inspirou boa parte dos princípios românticos foi Jean- -Jacques Rousseau. Quando ele afirma, na autobiografia As confissões, que deseja mostrar a seus semelhantes “um homem em toda a verdade de sua natureza”, ilumina o grande projeto literário a ser cumprido pelo Roman- tismo: criar uma identidade estética para o burguês. Assim, o Romantismo pode ser definido como uma arte da burguesia. O primeiro passo para alcançar esse objetivo é valorizar, na obra literá- ria, o indivíduo e toda a sua complexidade emocional, abolindo o controle racional. Em lugar da origem nobre que assegura o direito à distinção e ao reconhecimento social, os textos literários traçarão o perfil de heróis que precisam agir, sofrer, superar obstáculos de toda natureza para se qualificarem como exemplares. Na sociedade capitalista que remunera o trabalho, sacrifício e esforço passam a valer mais que a nobreza que se recebe de herança. A literatura será mais importante do que nunca para difundir os valores burgueses. Os agentes do discurso O contexto de produção modifica-se bastante durante o movimento romântico. O desaparecimento da figura do mecenas contribui para a pro- fissionalização dos artistas. Os escritores românticos, pela primeira vez na história, escrevem para sobreviver. Por esse motivo, procuram conciliar dois objetivos distintos: divulgar os valores da burguesia e ao mesmo tempo divertir os leitores. Esse é também um novo contexto de circulação para a literatura. Como vimos, nos séculos XVII e XVIII, o número de leitores era bastante limitado e muitas vezes os textos eram lidos somente pelos nobres e por outros escri- tores. Com a possibilidade de publicação em veículos de grande circulação, como os jornais e revistas, o alcance da literatura se amplia bastante. • O Romantismo e o público O público que lê os textos românticos tem um perfil bem mais hetero- gêneo do que o público de séculos anteriores, que vivia nos salões da Corte e no ambiente restrito das academias e das arcádias. Os burgueses que leem jornais e folhetins não contam com a mesma formação dos nobres. Não conhecem os autores clássicos, têm dificuldade em decifrar as referências à mitologia greco-latina. Por isso, preferem uma linguagem mais direta, passional, que não se ligue necessariamente aos padrões da herança literária. Esse novo perfil fará com que se estabeleça um outro tipo de relação entre escritor e leitor. Com a necessidade de conquistar o interesse dos leitores para vender as histórias e garantir sua sobrevivência, os escritores procurarão atender ao gosto pelo pitoresco, pela aventura, de modo que a leitura seja também um momento de diversão e entretenimento. CONSTABLE, J. Senhoras da família de William Mason de Colchester. s.d. Detalhe. Óleo sobre tela, 59,5 ! 49,5 cm. As narrativas do século XIX cativam as leitoras, mulheres burguesas que se beneficiam do acesso à escola, facilitado pelo processo de urbanização. Ao lado das aulas de música, costura e bordado, a leitura passa a ser mais uma atividade nos ambientes familiares. Esse público também é considerado por quem escreve romances. As histórias de amores idealizados alimentam a imaginação das jovens em relação ao casamento e à criação de suas próprias famílias. Nesse sentido, os romances românticos realizam a educação sentimental das mulheres e ajudam a divulgar a imagem da família como base da sociedade burguesa. Projeto literário do Romantismo Valorização do indivíduo Divulgação dos valores burgueses: trabalho, sacrifício e esforço Exaltação do amor à pátria e dos símbolos nacionais Material complementar Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br Exercícios adicionais. 227 C ap ít u lo 1 2 • A e st ti ca r om nt ic a id ea li a o e ar re at am en to om an ti sm o em or tu al R ep ro du •‹ o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C —d ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap12_D.indd 227 10/21/10 4:53 PM