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DIREITO CONSTITUCIONAL
Administração Pública (arts. 37 a 43 da CF/1988)
Disposições Gerais (Administração Pública - arts. 37 e 38 da
CF/1988)
Atenção: este módulo foi revisto e atualizado em 19/8/2022
Administração Pública
Vamos juntos estudar agora um assunto denso na matéria de Direito
Administrativo, mas com forte matriz no Direito Constitucional, que diz
respeito ao Capítulo VII da Constituição Federal, o qual trata da disciplina
da Administração Pública e de seus servidores.
Vamos tratar especificamente da vertente constitucional da Administração,
que naturalmente lança sua influência sobre as demais disciplinas que tratem
do assunto. Por isso, costumo dizer que Direito Constitucional bem estudado
assegura 50% de acerto das questões envolvendo as demais disciplinas do
Direito, e em Direito Administrativo possivelmente mais do que isso. Assim, as
questões envolvendo a Administração, no seu aspecto constitucional,
poderão cair tanto na prova de Direito Constitucional como de Administrativo.
Bem, toda e qualquer norma infraconstitucional submete-se à tutela e ao
regramento da Constituição. Tenha em mente que a Administração Pública é
uma só, com três esferas distintas de governo – federal, estadual e
municipal.
Da mesma forma, o poder estatal é um só, porém dividido funcionalmente
em três (Executivo, Legislativo e Judiciário) no plano federal e estadual e em
dois no âmbito municipal (Executivo e Legislativo).
As normas da Constituição abrangem e obrigam a todos os entes federativos,
independentemente do estatuto jurídico de cada um. Inclusive, esse tema do
regime jurídico único foi objeto de discussão, em diversas oportunidades, pelo
Supremo. Mas, o que é a Administração Pública?
Na verdade, a Administração Pública é o conjunto de entidades e de órgãos
incumbidos de realizar a atividade administrativa visando a satisfação das
necessidades coletivas e segundo as políticas públicas definidas pelo Poder
Executivo, pelo Poder Legislativo e também pelo Poder Judiciário para
atingimento dos fins desejados pelo Estado.
Gostaria de chamar sua atenção para alguns conceitos relativos à organização
dos poderes e da administração pública.
Muito comum a referência a governo em sentido objetivo ou material e
governo em sentido subjetivo ou formal; a administração pública em
sentido objetivo e administração em sentido subjetivo.
Bom, mas governo e administração não são a mesma coisa? Você verá
que não, pois o governo relaciona-se à forma ou ao sistema de exercício do
poder, enquanto que a administração diz respeito aos instrumentos de ação
governamental (atividades, órgãos, entidades ou agentes públicos).
Quando falamos de governo em sentido objetivo, material ou funcional,
estamos nos referindo às funções de Estado: legislativa, executiva e judicial.
Já quando dizemos governo em sentido subjetivo, formal ou orgânico,
referimo-nos aos poderes de Estado: Legislativo, Executivo e Judiciário.
Quando nos referimos à administração pública, em sentido objetivo,
queremos dizer das atividades exercidas pelos órgãos, entidades e agente
públicos, como fomento, poder de polícia ou serviços e já a administração em
sentido subjetivo diz respeito aos órgãos, entidades e agentes que
manifestam a vontade do Estado. O quadro abaixo sintetiza este
entendimento.
A vontade do Estado é manifestada pelo Governo em sentido subjetivo
(Poderes da República), os quais, no exercício da atividade
administrativa (Administração Pública em sentido objetivo), devem
obediência aos comandos emanados da Constituição.
Dessa forma, temos que a Administração Pública em sentido subjetivo, objeto
de nosso estudo neste capítulo, compreende a disciplina constitucional que
envolve os Órgãos, as Entidades e os agentes públicos que os manejam e
operam.
Princípios da Administração Pública
A Constituição Federal inicia o Capítulo sobre a Administração, em seu art. 37,
discorrendo sobre os Princípios da Administração Pública
– LIMPE (legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência):
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos
princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência
e, também, ao seguinte:
Antes de discorrer sobre os princípios, convém esclarecer que eles constituem
corolário (decorrência) do chamado REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO, e
que diz respeito às normas de direito público que regem a Administração e
seus agentes.
Por sua vez, o regime jurídico-administrativo é caracterizado pelos princípios
da supremacia do interesse público e a indisponibilidade do interesse
público.
O princípio da supremacia do interesse público fundamenta a existência das
prerrogativas e dos poderes da Administração Pública, de que decorre a
denominada relação vertical Administração-particular. Toda atuação
administrativa em que existe imperatividade, em que são impostas,
unilateralmente, obrigações para o administrado, ou em que são restringidos
ou condicionados direitos dos particulares é respaldada pelo princípio da
supremacia do interesse público.
Já o princípio da indisponibilidade do interesse público faz contraponto ao
primeiro. Ao mesmo tempo em que exerce seus poderes especiais,
exorbitantes do Direito comum, a Administração também sofre restrições em
sua atuação. Essas restrições decorrem do fato de que o dona da coisa
pública, o proprietário do patrimônio público, titular do interesse público é o
povo e não a Administração.
Em decorrência do princípio da indisponibilidade do interesse público, a
Administração somente pode agir quando houver lei que autorize sua
atuação, nos limites estipulados por essa norma. O que há não é a “vontade”
da Administração, mas sim a “vontade” da lei, que é quem legitimamente
traduz a vontade geral, vontade do povo, manifestada pelos seus
representantes no Poder Legislativo.
Bom, mas e os princípios constitucionais?
Você deve ter em mente que um princípio é uma norma jurídica geral, com
alto grau de abstração e abrangência, que dá coerência, dá organicidade,
confere lógica ao conjunto de normas jurídicas integrantes de um subsistema,
orientando a produção e a interpretação das outras normas jurídicas que o
integram ou integrarão.
Como a Constituição é o mais elevado ato normativo de nosso ordenamento,
representando o fundamento de validade de todas as demais normas
jurídicas, os princípios, justamente por serem normas de grande abrangência,
encontram-se, em regra, na própria Constituição.
Mas, notem bem, os princípios constitucionais podem
ser expressos ou implícitos.
Os princípios da razoabilidade e proporcionalidade não estão expressos na
Constituição, mas são considerados princípios constitucionais implícitos,
tendo sido identificados pela jurisprudência, e passaram, a partir de 1999, na
esfera federal, a constituir princípios legais expressos na Lei nº 9.784/1999, art.
2º:
Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da
legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade,
moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e
eficiência.
Já o princípio da eficiência passou a estar expresso no texto constitucional, no
caput do art. 37, a partir da Emenda Constitucional 19/1998. Vamos, então,
estudar cada um dos princípios expressos nesse artigo.
Princípio da legalidade: Tendo em conta o fato de que a Administração
Pública está sujeita ao princípio da indisponibilidade do interesse público, e
como não é ela quem determina o que é de interesse público, mas somente a
lei (e a própria Constituição, obviamente), que é aexpressão legítima da
vontade geral, para que a Administração possa atuar, diferentemente dos
particulares, não basta a inexistência de proibição na lei, é necessária a
existência de determinação ou autorização da atuação administrativa na lei.
Diz-se que a Administração, além de não poder atuar contra a lei ou além da
lei, somente pode agir segundo a lei (a atividade administrativa não pode
ser contra legem nem praeter legem, mas apenas secundum legem). Os atos
eventualmente praticados em desobediência a tais parâmetros são atos
inválidos e podem ter sua invalidade decretada pela própria Administração
que o haja editado ou pelo Poder Judiciário.
Princípio da Impessoalidade: atua como determinante da finalidade de toda
a atuação administrativa (também chamado princípio da finalidade,
considerado um princípio implícito, inserido no princípio expresso da
impessoalidade).
Dessa forma, ele impede perseguições ou favorecimentos, discriminações
benéficas ou prejudiciais aos administrados. Qualquer ato praticado com
objetivo diverso da satisfação do interesse público será inválido por desvio de
finalidade.
Essa é a acepção mais conhecida do princípio da impessoalidade, e traduz a
ideia de que toda atuação da Administração deve visar ao interesse público, e
deve ter como finalidade a sua satisfação.
A segunda acepção do princípio da impessoalidade está ligada à ideia
de vedação à pessoalização das realizações da Administração, à promoção
pessoal do agente público. Essa acepção está consagrada no § 1º do art. 37 da
Constituição, segundo o qual:
Art. 37.....
§ 1º A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos
órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de
orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens
que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores
públicos.”
Uma terceira vertente do princípios da impessoalidade, contida em José
Afonso da Silva, assevera que "os atos e provimentos administrativos são
imputáveis não ao funcionário que os pratica, mas ao órgão ou
entidade administrativa da Administração Pública, de sorte que ele é o autor
institucional do ato. Ele é apenas o órgão que formalmente manifesta a vontade
estatal". Acrescenta o autor que, em virtude disso "as realizações
governamentais não são do funcionário ou autoridade, mas da entidade
pública em nome de quem as produzira. A própria Constituição dá uma
consequência expressa a essa regra, quando, no § 1 º do artigo 3 7, proíbe que
conste nome, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de
autoridades ou servidores públicos em publicidade de atos, programas, obras,
serviços e campanhas dos órgãos públicos". (SILVA, José Afonso da. Curso de
direito constitucional positivo. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2003, p.
647)
Outras manifestações do princípio da impessoalidade, você encontra nos
incisos II e XXI do art. 37:
II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação
prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo
com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista
em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em
lei de livre nomeação e exoneração;”
XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços,
compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação
pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes,
com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as
condições efetivas da proposta, nos termos da lei, o qual somente
permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica
indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações.”
Princípio da Moralidade: outro princípio expresso no caput do art. 37. A moral
administrativa está ligada à ideia de probidade e de boa-fé, dentro de padrões
éticos esperados de um agente público. Está expressa ainda na Lei nº
9.784/1999, no seu art. 2º, parágrafo único:
Art. 2º..............
Parágrafo Único: nos processos administrativos serão observados, entre outros,
os critérios de atuação segundo padrões éticos de probidade, decoro e boa-fé.
É importante destacar, ainda que a noção de moral administrativa não se
vincula às crenças e convicções íntimas do agente público, mas sim à noção
de adequação e ética existentes em determinado grupo social, e que deve ser
aplicada nas ações conduzidas pelos servidores e agentes públicos em geral.
Um ato praticado com o intuito de favorecer alguém pode ser legal do ponto
de vista formal, mas, certamente, comprometido com a moralidade
administrativa, sob o aspecto material.
Maria Sylvia Zanella di Pietro, citando Antônio José Brandão, leciona que foi
no direito civil que a regra moral primeiro se imiscuiu na esfera jurídica, por
meio da doutrina do exercício abusivo dos direitos e, depois, pelas doutrinas
do não locupletamento à custa alheia e da obrigação natural. O mesmo
ocorreu no âmbito do direito público, em especial no Direito Administrativo,
no qual penetrou quando se começou a discutir o problema do exame
jurisdicional do desvio de poder.
Afirma que Maurice Hauriou define a moralidade administrativa como
"conjunto de regras de conduta tiradas da disciplina interior da
Administração". Implica, portanto, saber distinguir não só o bem e o mal,
o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, mas
também entre o honesto e o desonesto; nesse caso, existe uma moral
institucional, prevista na lei e a moral administrativa, que "é imposta de
dentro e vigora no próprio ambiente institucional e condiciona a utilização de
qualquer poder jurídico, mesmo o discricionário" (PIETRO, Marya Sylvia
Zanella. Direito Administrativo. 27ª ed. 2014. São Paulo, Atlas, p. 77-78).
Princípio da Publicidade: uma boa definição para o princípio da publicidade
vem de José Afonso da Silva, para quem “a publicidade sempre foi tida como
um princípio administrativo, porque se entende que o Poder Público, por ser
público, deve agir com a maior transparência possível, a fim de que os
administrados tenham, a toda hora, conhecimento do que os administradores
estão fazendo”.
Exemplo da manifestação desse princípio, você encontra no art. 31, §3º, da
CF/88, o qual exige a publicidade das contas municipais:
Art. 31. A fiscalização do Município será exercida pelo Poder Legislativo
Municipal, mediante controle externo, e pelos sistemas de controle interno do
Poder Executivo Municipal, na forma da lei. (...)
§ 3º - As contas dos Municípios ficarão, durante sessenta dias, anualmente, à
disposição de qualquer contribuinte, para exame e apreciação, o qual poderá
questionar-lhes a legitimidade, nos termos da lei.”
Segundo o STF, a divulgação no Diário Oficial, seja da União, Estado, DF ou
município, é suficiente para atender ao requisito da publicidade do ato
administrativo:
2. Desnecessária a sua veiculação em jornais de grande circulação. A
divulgação no Diário Oficial é suficiente per se para dar publicidade a um ato
administrativo. (RE 390.939, rel. min. Ellen Gracie, julgamento 16/8/2005)
Princípio da Eficiência: o princípio da eficiência foi concebido originalmente
nos anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1985 como "serviço público
de qualidade", tendo como mentor o então Ministro Luís Carlos Bresser
Pereira. Em determinado momento, um consultor legislativo do Senado,
sugeriu retirar aquela locução pela expressão "eficiência", que ficou gravada
no caput do art. 37. Um termo eminentemente da economia e não do Direito.
Esse substantivo eficiência, portanto, significa que o gestor público deve agir
visando o melhor resultado, com o melhor aproveitamento possível dos
recursos disponíveis.,no menor prazo possível. Trata-se, portanto, de um
modelo de administração que privilegia resultados ao invés de processos, a
especialização e a priorização de determinados setores governamentais, no
sentido de buscar a economicidade dos gastos. A busca do melhor resultado é
normalmente vinculado à noção de eficácia, enquanto que a conjugação de
eficiência e eficácia tem como resultante a efetividade.
Está vinculado à noção da nova administração pública ou da administração
pública gerencial, proposta pelo Plano Diretor da Reforma do Aparelho do
Estado (PDRAE), apresentado em 1995. Preconiza que o gestor público deve
agir visando o melhor resultado, com o melhor aproveitamento possível dos
recursos disponíveis.
Trata-se de um modelo de administração que privilegia resultados ao invés de
processos, a especialização e a priorização de determinados setores
governamentais, no sentido de buscar a economicidade dos gastos, evitando
o desperdício e assegurando maior rentabilidade ao cidadão-cliente, e por
consequência, maior rentabilidade social.
Grosso modo, defende-se a ideia de que a atuação da Administração deve ser,
em termos de eficiência, semelhante à das empresas do setor privado,
ou segundo setor. Daí a ênfase no atingimento de resultados e a tentativa de
reduzir os controles de meios. Tome, como exemplo, os chamados contratos
de gestão, previsto no art. 37, §8º:
§ 8º A autonomia gerencial, orçamentária e financeira dos órgãos e entidades
da administração direta e indireta poderá ser ampliada mediante contrato, a
ser firmado entre seus administradores e o poder público, que tenha por objeto
a fixação de metas de desempenho para o órgão ou entidade, cabendo à lei
dispor sobre: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) (contrato de
gestão)
I - o prazo de duração do contrato;
II - os controles e critérios de avaliação de desempenho, direitos, obrigações e
responsabilidade dos dirigentes;
III - a remuneração do pessoal.”
Aqui, vale anotar uma importante jurisprudência do STF, de abril/2015,
relativa à Ação Direta de Inconstitucionalidade 1.923, revisor Min. Luiz Fux,
julg. em 16/4/2015, no bojo da qual o Supremo deu interpretação conforme a
Constituição para considerar constitucionais as normas que dispensam
licitação em celebração de contratos de gestão firmados entre o Poder
Público e as organizações sociais para a prestação de serviços públicos de
ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, proteção e
preservação ao meio ambiente, cultura e saúde, em especial a Lei 9.637/1998
(Lei das Organizações Sociais), e o inciso XXIV do artigo 24 da Lei 8.666/1993,
dispositivos legais atacados pelos autores da ADI, o PDT e o PT.
Nesse sentido, o STF assentou que a celebração de contratos de gestão com
tais entidades deve ser conduzido de forma pública, objetiva e impessoal,
com observância dos princípios constitucionais que regem a Administração
Pública (caput do artigo 37). É dizer, as Organizações Sociais poderão ser
contratadas por dispensa de licitação e não precisarão, no âmbito de sua
atuação, observar estritamente a Lei de Licitações (Lei 8.666/1993 e agora a
Lei 14.133/2021) ou realizar concurso público para contratação de pessoal,
não obstante tenham de observar princípios gerais da Administração, como a
impessoalidade e a moralidade. Na contratação de pessoal, por exemplo,
deverão adotar processo seletivo público, ainda que não estritamente
qualificado como "concurso público".
Na realidade, o Supremo está dando empoderamento a essas entidades, que
foram criadas no âmbito do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado,
em 1995, justamente para, por intermédio de um processo denominado
"publicização", fundações e associações pudessem ser qualificadas como
organizações sociais, com o objetivo de prestação de serviços públicos não
exclusivos de Estado, em penhor do princípio da eficiência da
Administração. O objetivo do STF é reforçar esse novo modelo gerencial de
administração pública, que possa se revelar mais eficiente do que o
tradicional, mas sob os controles do Estado.
De igual modo, as OSCIP's, organizações da sociedade civil de interesse
público, que firmarem termo de parceria com o Poder Público, poderão
adotar regulamento próprio para contratação de serviços e obras, a teor do
art. 14, da Lei 9.790/1990:
Art. 14. A organização parceira fará publicar, no prazo máximo de trinta dias,
contado da assinatura do Termo de Parceria, regulamento próprio contendo os
procedimentos que adotará para a contratação de obras e serviços, bem como
para compras com emprego de recursos provenientes do Poder Público,
observados os princípios estabelecidos no inciso I do art. 4o desta Lei.
O Supremo decidiu também que a CF, no art. 37, XXI, determina a
obrigatoriedade de obediência aos procedimentos licitatórios para a
administração pública direta e indireta de qualquer um dos poderes da União,
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. A mesma regra não existe
para as entidades privadas que atuam em colaboração com a
administração pública ( ADI 1.864, rel. p/ o ac. min. Joaquim Barbosa, julg.
8/8/2007).
Vale ressaltar que o Supremo não afastou a competência do Tribunal de
Contas da União e do Ministério Público para o controle e a fiscalização de
recursos públicos que essas entidades eventualmente recebam do erário. O
STF perfilhou vertente semelhante à adotada com relação aos serviços sociais
autônomos (Sistema S) que possuem natureza jurídica de direito privado e
não estão sujeitos à regra do artigo 37, inciso II, da Constituição. Nesse
sentido, segundo o STF, as organizações sociais e as do Sistema S são
financiadas de alguma forma por recursos públicos, e quando há dinheiro
público envolvido, deve haver necessariamente uma fiscalização por parte do
Ministério Público e o controle de Estado pelos tribunais de contas.
Outro exemplo de desdobramento do princípio da eficiência é a exigência
de avaliação especial de desempenho para a aquisição da estabilidade pelo
servidor público e a perda do cargo do servidor estável “mediante
procedimento de avaliação periódica de desempenho, na forma de lei
complementar, assegurada ampla defesa”, conforme a CF/88, art. 41.
Ainda no princípio da eficiência, temos no art. 39, § 2º, da CF/88, que dispõe:
A União, os Estados e o Distrito Federal manterão escolas de governo para
a formação e o aperfeiçoamento dos servidores públicos, constituindo-se a
participação nos cursos um dos requisitos para a promoção na carreira,
facultada, para isso, a celebração de convênios ou contratos entre os
entes federados.
Mais uma manifestação do princípio da eficiência você encontra no art. 241 da
CF/88:
Art. 241. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de
cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de
serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos,
serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviços
transferidos.”
Da investidura em cargo ou emprego público
Continuemos, agora com a disciplina do concurso público (art. 37, II a IV):
II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação
prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo
com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista
em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em
lei de livre nomeação e exoneração;
As exceções à regra do concurso público para ingresso em cargo ou emprego
público incluem:
I - a nomeação para cargos em comissão, declarados de livre nomeação e
exoneração, de acordo com o art. 37, II, da CF/88.II - O art. 37, IX da CF/88 prevê ainda como exceção a contratação por tempo
determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse
público, nos termos da lei, no caso a lei 8.745/1993.
III - Contratação de professores, técnicos e cientistas estrangeiros, na forma
da lei, de acordo com o art. 207, §1º;
Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica,
administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio
de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
§ 1º É facultado às universidades admitir professores, técnicos e cientistas
estrangeiros, na forma da lei.
IV - a contratação e admissão de agentes comunitários da saúde e agente de
combate a endemias, por processo seletivo público, por parte dos gestores
locais do sistema único de saúde, nos termos do art. 198, §4º da CF/88;
V - ingresso nos Tribunais Regionais Federais, Tribunais Regionais do
Trabalho, Tribunais de Justiça e no Tribunal Superior do Trabalho
pelo chamado "quinto constitucional", regra do art. 94 da CF, e de um terço
no Superior Tribunal de Justiça, de advogados com mais de dez anos de
efetiva atividade profissional, os quais nem mesmo se sujeitam a qualquer
prazo de estágio probatório para aquisição de vitaliciedade (não é
estabilidade!).
ATENÇÃO: No julgamento do MS 22643, em 4/12/1998, o Supremo decidiu que
:
i) os Conselhos de Fiscalização Profissional foram criadas por lei, tendo
personalidade jurídica de direito público, com autonomia administrativa e
financeira;
ii) eles exercem atividade de fiscalização de exercício profissional, atividade
tipicamente de natureza pública;
iii) as atividades de fiscalização de exercício profissional exercidas pelos
conselhos são tipicamente públicas, e que estes têm o dever de prestar contas
ao TCU.
Nesse ínterim, foi aprovada a Lei 9.649/1998, que atribuiu personalidade
jurídica de direito privado aos Conselhos.
Foi então proposta a ADI 1717, no âmbito da qual o Supremo declarou, em
28/3/2003, a inconstitucionalidade de dispositivos da Lei 9.649/1998, e
decidiu, com eficácia vinculante e efeitos erga omnes, que:
i) a fiscalização das profissões, por se tratar de uma atividade típica de Estado,
que abrange o poder de polícia, de tributar e de punir, não pode ser delegada;
ii) são de natureza autárquica os conselhos profissionais, pelo caráter público
da atividade desenvolvida;
iii) a fiscalização das profissões, por se tratar de atividade típica de Estado,
que abrange o poder de polícia, de tributar e de punir, não pode ser delegada.
A partir dessa ação, reconheceu-se a incidência do regime jurídico-
administrativo aos Conselhos Profissionais e às regras dele derivadas, como
observância do concurso público e submissão ao controle externo pelo TCU.
Nesse sentido, o MS 28.469, Rel. Min. Luiz Fux, , Primeira Turma, DJe de
31/7/2015; MS 26.424, Rel. Min. Dias Toffoli, Primeira Turma, DJe de 20/3/2013;
RE 539.224, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, Dje de 15/6/2012.
Você se lembra também que no julgamento da ADI 3026, o Supremo afastou o
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil da observância das
regras do concurso público e da fiscalização do TCU, considerando essa
entidade como "instituição sui generis", exercendo função
constitucionalmente privilegiada, qual seja a representação dos profissionais
indispensáveis à administração da Justiça, além da defesa da cidadania e da
sociedade civil (ADI 3.026, rel. Min. Eros Grau, DJ 29/9/2006).
Agora, parece dar Supremo uma guinada, e mesmo reconhecendo a
incidência de normas de direito público sobre os Conselhos de Fiscalização
em geral, autarquias corporativas criadas por lei para o exercício de atividade
típica de Estado, assenta que possuem maior grau de autonomia
administrativa e financeira do que aquele conferido às autarquias comuns.
Nesse overruling, o STF afasta algumas regras de direito público, em virtude
de sua natureza sui generis. Nesse sentido, o Supremo agora assentou que
(ADI 5.367). O julgamento foi suspenso para aguardar o voto do Ministro Dias
Toffoli, mas a maioria já está formada:
i) a desvinculação de seus recursos financeiros do orçamento público e a
desnecessidade de lei para criação de cargos permite concluir que os
conselhos configuram uma espécie sui generis de pessoa jurídica de Direito
Público não estatal;
ii) O regime jurídico único previsto pelo art. 39, caput, da CF, que compele a
adoção do regime estatutário à Administração Direta, autárquica e
fundacional, não se aplica aos Conselhos Profissionais;
iii) não há exigência de lei em sentido formal para criação de cargos e fixação
da remuneração, característica da própria independência desses entes;
iv) os recursos dessas entidades provêm de contribuições parafiscais pagas
pelas respectivas categorias e, não havendo a destinação de recursos
orçamentários da União, suas despesas não são fixadas pela lei orçamentária
anual;
v) é válida a opção do legislador (Lei Federal 9.649/199, art. 58, § 3º), no
sentido da formação dos quadros dos Conselhos Profissionais com pessoas
admitidas por vínculo celetista.
Segundo o STF,
"a natureza peculiar dos Conselhos Profissionais, autarquias corporativas
criadas por lei para o exercício de atividade típica do Estado, mas com maior
grau de autonomia administrativa e financeira que o conferido às autarquias
comuns, possibilita o afastamento de algumas regras impostas ao Poder
Público em geral. (...) a autonomia na escolha de seus dirigentes, o exercício
de funções de representação de interesses profissionais (além da fiscalização),
a desvinculação de seus recursos financeiros do orçamento público e a
desnecessidade de lei para criação de cargos permite concluir que os
conselhos configuram uma espécie sui generis de pessoa jurídica de Direito
Público não estatal. (...) Os recursos dessas entidades são provenientes de
contribuições parafiscais pagas pela respectiva categoria. Não são destinados
recursos orçamentários da União, suas despesas, como disse, não são fixadas
pela lei orçamentária anual (ADI 5.367, red. p/ o acórdão Min. Alexandre de
Moraes, julg. em 8/6/2020)
Art. 37..........
......
III - o prazo de validade do concurso público será de até dois anos, prorrogável
uma vez, por igual período;
IV - durante o prazo improrrogável previsto no edital de convocação, aquele
aprovado em concurso público de provas ou de provas e títulos
será convocado com prioridade sobre novos concursados para assumir cargo
ou emprego, na carreira;
Antes de continuar, quero deixar com você um entendimento acerca
dos editais de concursos públicos. Entende o Supremo que administração
pode alterar as condições constantes do edital, enquanto não homologado
o mesmo o mesmo. Por exemplo, saindo uma nova Emenda Constitucional
enquanto abertas as inscrições, pode ser lançado um novo edital cobrando
esse novo conhecimento.
Entretanto, preste atenção! A Administração não pode, apenas via edital,
prever exigências ou pré-requisitos para o preenchimento do cargo que não
estejam previstas em lei! Por exemplo, cargos exclusivos para servidores do
sexo feminino ou masculino (presídios femininos) ou teste
psicotécnico (famoso teste “psicodoido”), limitações de idade, sexo ou
altura, assim como exigência de determinados cursos superiores para este ou
aquele cargo são requisitos que somente a lei de criação e regramento do
cargo podem prever. Jamais podem ser incluídos somente no edital.
Súmula Vinculante 44/STF: Só por lei se pode sujeitar a exame psicotécnico a
habilitação de candidato a cargo público
Também o verbete 683 da Súmula de Jurisprudência predominante do do
Supremo Tribunal Federal estabelece a possibilidade de limite de idade para
inscriçãoem concurso público, desde que justificada pela natureza das
atribuições do cargo:
Súmula 683/STF: O limite de idade para a inscrição em concurso público só se
legitima em face do art. 7º, XXX, da Constituição, quando possa ser justificado
pela natureza das atribuições do cargo a ser preenchido.
Entretanto, essas características do cargo deverão ser estabelecidas por
lei, nunca unicamente pelo edital ou outro ato administrativo.
É isso também o que preconiza o verbete 14 da Súmula do Supremo:
Súmula 14/STF: Não é admissível, por ato administrativo, restringir, em razão
da idade, inscrição em concurso para cargo público.
Segundo sólida jurisprudência do STF, "o exame psicotécnico, especialmente
quando possuir natureza eliminatória, deve revestir-se de rigor científico,
submetendo-se, em sua realização, à observância de critérios técnicos que
propiciem base objetiva destinada a viabilizar o controle jurisdicional da
legalidade, da correção e da razoabilidade dos parâmetros norteadores da
formulação e das conclusões resultantes dos testes psicológicos, sob pena de
frustrar -se, de modo ilegítimo, o exercício, pelo candidato, da garantia de
acesso ao Poder Judiciário, na hipótese de lesão a direito (dentre outros, AI
625.617 AgR, rel. min. Celso de Mello, j. 19.6.2007). É dizer, pode haver
apreciação judicial em procedimento de avaliação psicológica em etapa
eliminatória de concurso público.
Além disso, o STF já firmou a orientação de que o requisito etário deve ser
comprovado na data da inscrição no certame, e não em momento posterior
(dentre outros, ARE 901.899 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, julg. 15.12.2015).
Ainda segundo o STF, as etapas do concurso prescindem de disposição
expressa em lei no sentido formal e material, sendo suficientes a previsão no
edital e o nexo de causalidade consideradas as atribuições do cargo (MS
30.177, rel. Min. Marco Aurélio, julg. 24.4.2012).
Também segundo o STF, a apresentação de documentos que comprovem a
habilitação para o cargo concorrido pode se dar inclusive após a nomeação e
antes da posse (RE 613.376 ED, rel. min. Gilmar Mendes, j. 13.12.2011).
E mais esta: o STF deu provimento ao Recurso Extraordinário (RE) 898.450, em
17/8/2016, com repercussão geral reconhecida, no qual um candidato a
soldado da Polícia Militar de São Paulo foi eliminado por ter tatuagem na
perna. Assentou a seguinte tese de repercussão geral:
" Editais de concurso público não podem estabelecer restrição a pessoas com
tatuagem, salvo situações excepcionais, em razão de conteúdo que viole valores
constitucionais”.
O Relator do Extraordinário, Ministro Luiz Fux, observou que a criação de
barreiras arbitrárias para impedir o acesso de candidatos a cargos públicos
afronta os princípios constitucionais da isonomia e da razoabilidade.
Remontou a entendimento consolidado na Corte de que qualquer obstáculo a
acesso a cargo público deve estar relacionado unicamente ao exercício das
funções como, por exemplo, idade ou altura que impossibilitem o exercício de
funções específicas.
Ainda para o Relator, a tatuagem passou a representar autêntica forma
de liberdade de manifestação do indivíduo, pela qual não pode ser punido,
sob pena de flagrante violação também a esse direito (art. 5º, IV, CF/88).
Outra jurisprudência do STF (RE 789.874/DF, Rel. Teori Zavaski, 17/9/2014),
assentou também o entendimento de que os Serviços Sociais Autônomos
(Sistema S), por possuírem natureza jurídica de direito privado e não
integrarem a Administração Pública, mesmo que desempenhem atividade de
interesse público em cooperação com o ente estatal, não estão sujeitos à
observância da regra de concurso público (CF, art. 37, II) para contratação de
seu pessoal.
O STF considerou, entretanto, que a autonomia conferida a essas entidades
(Senac, Sest, Sescoop, Senai etc), patrocinadas por recursos recolhidos do
setor produtivo beneficiado, encontra limites no controle finalístico do
TCU quanto à aplicação dos recursos, bem como auditorias a cargo de
Ministérios afins e aprovação de eventuais recursos orçamentários pelo Poder
Executivo.
Bom, ainda sobre concurso público, temos o prazo de validade máximo de 2
anos, prorrogável por igual período (dois anos, neste caso). Isso quer dizer,
por exemplo, que um concurso com validade de 6 meses não poderá ser
prorrogado por período maior que o original. O mesmo vale para um concurso
com validade original de 1 ou 2 anos.
Estabelece o inciso IV do art. 37 que durante o prazo improrrogável previsto
no edital de convocação, aquele aprovado em concurso público de provas ou
de provas e títulos será convocado com prioridade sobre novos concursados
para assumir cargo ou emprego, na carreira.
O STF assentou ainda que a prova de títulos em concursos públicos somente
possui natureza classificatória, jamais eliminatória. Segundo o Supremo,
eventual caráter eliminatório da prova de títulos ofende a isonomia,
porquanto exige maior pontuação de candidatos mais jovens, os quais sequer
viveram o suficiente para se qualificar, lesionando o princípio da igualdade (AI
nº 194188 AgR; MC-MS 32.074/DF).
Outro tópico que merece atenção na sua prova é que cada vez mais os editais
dos concursos públicos estipulem critérios que restringem o número de
candidatos de uma fase para outra dos certames. As regras editalícias que
impedem o candidato de prosseguir no certame, denominadas regras
restritivas, subdividem-se em eliminatórias e cláusulas de barreira.
As regras eliminatórias preveem, por exemplo, a exclusão dos candidatos
que não acertarem, pelo menos, 50% (cinquenta por cento) das questões
objetivas de cada matéria. Outro exemplo são os testes de prova escrita,
provas orais, aptidão física ou testes psicotécnicos.
É comum que se conjugue outra regra que restringe o número de candidatos
para a fase seguinte do concurso. São as denominadas cláusulas de
barreira que não eliminam por insuficiência de desempenho mas por um
corte deliberado no número de candidatos que passam para a fase posterior.
Por exemplo, a banca determina que só irá corrigir 200 ou 150 redações, em
fase posterior do certame, de acordo com a classificação da prova objetiva e
discursiva.
Segundo o Supremo Tribunal Federal, as regras restritivas em editais de
concurso público, como as eliminatórias e as cláusulas de barreira, quando
fundadas em critérios objetivos relacionados ao desempenho meritório do
candidato, concretizam o princípio da igualdade e da impessoalidade no
âmbito do concurso público. O denominado ‘afunilamento’ de candidatos no
decorrer das fases do concurso viabiliza a investidura em cargo público com
aprovação em concurso de provas ou de provas e títulos, obedecendo aos
princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência
(RE 635.739, voto do rel. min. Gilmar Mendes, julgamento em 19-2-2014,
Plenário).
Segundo também o Supremo Tribunal Federal, os serviços sociais
autônomos, embora colaborem com ela na execução de atividades de
relevante significado social, não integram a Administração Pública, sendo
consideradas entidades paraestatais. Nesse sentido, estão sujeitas
formalmente, apenas ao controle finalístico do Tribunal de Contas da União,
da aplicação de eventuais recursos federais recebidos e de suas contribuições
parafiscais, devendo ainda prestar obediência aos princípios gerais de
licitação (não à Lei 8.666/1993 estritamente). O STF assentou que essas
entidades não estão submetidas à exigência de concurso público para a
contratação de pessoal, nos moldes do art. 37, II, da CF. (RE 789.874, rel. min.
Teori Zavascki, julgamento em 17-9-2014, Plenário).
O STJ e o STF, durante muito tempo, instados a se manifestarem sobre o
tema, não haviam fechado questãoquanto ao chamado direito subjetivo à
convocação para nomeação de aprovado em concurso público dentro do
número de vagas. Muitas decisões divergentes, não obstante grande parte
delas em favor dos concursados aprovados.
Entretanto, essa discussão acabou por perder em relevância, a partir do
momento em que os órgãos e entidades começaram a realizar concursos para
preenchimento de cadastros de reserva. Foi uma maneira que muitos órgãos
encontraram de não se verem com problemas judiciais de candidatos que
exigem a convocação, dentro do prazo de validade do concurso! Mas o STJ
não entrou nessa...
De acordo com decisões do STJ de 2013 ( RMS 38117 e RMS 37882), a
aprovação de candidato em concurso público dentro do cadastro de
reservas, ainda que fora do número de vagas inicialmente previstas no edital,
garante o direito subjetivo à nomeação se houver o surgimento de novas
vagas, dentro do prazo de validade do concurso. Para os Ministros, o gestor
público não pode alegar não ter direito líquido e certo a nomeação o
concursando aprovado e classificado dentro do chamado cadastro de reserva,
se as vagas decorrentes da criação legal de cargos novos ou vacância
ocorrerem no prazo do concurso ao qual se habilitou e foi aprovado. A
exceção a esta regra poderá ocorrer se for alcançado o limite prudencial de
despesas de pessoal, conforme prevê a Lei de Responsabilidade Fiscal.
O STJ também já tinha firmado o entendimento de que candidato
aprovado em primeiro lugar tem direito à nomeação, ainda que o edital do
concurso não tivesse fixado número de vagas ( RMS 33.426):
"ADMINISTRATIVO. CONCURSO PARA O QUADRO DE CARREIRA DO
MAGISTÉRIOPÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. CANDIDATA
APROVADA EMPRIMEIRO LUGAR. DIREITO À NOMEAÇÃO. CONTROVÉRSIA
DECIDIDA PELO STFNO JULGAMENTO DO RE 598.099/MS. AGRAVO IMPROVIDO,
ACOMPANHANDO O RELATOR". (STJ - AgRg no RMS: 33426 RS 2010/0217695-0,
Relator: Ministro Teori Zavascki, julgamento em 23/8/2011)
No âmbito do Supremo Tribunal Federal, o leading case, ou seja, o que
conduz o entendimento do direito subjetivo à nomeação dentro do número
de vagas é justamente o RE 598.099/MS:
"Dentro do prazo de validade do concurso, a Administração poderá escolher o
momento no qual se realizará a nomeação, mas não poderá dispor sobre a
própria nomeação, a qual, de acordo com o edital, passa a constituir um
direito do concursando aprovado e, dessa forma, um dever imposto ao poder
público. Uma vez publicado o edital do concurso com número específico de
vagas, o ato da Administração que declara os candidatos aprovados no
certame cria um dever de nomeação para a própria Administração e,
portanto, um direito à nomeação titularizado pelo candidato aprovado dentro
desse número de vagas." ( RE 598.099, Relator Ministro Gilmar Mendes,
Tribunal Pleno, julgamento em 10.8.2011, DJe de 3/10/2011, c/ repercussão
geral - tema 161).
É importante ainda anotar que a antiga jurisprudência do Supremo, sumulada
no Enunciado de Súmula 15/1963, permanece válida, ao admitir a existência
do direito adquirido à nomeação do candidato preterido em razão de
desrespeito à ordem de classificação dos candidatos aprovados:
Súmula 15/STF: Dentro do prazo de validade do concurso, o candidato
aprovado tem o direito à nomeação, quando o cargo for preenchido sem
observância da classificação.
Essa regra antiga coexiste perfeitamente com a novel jurisprudência da
mesma Corte Suprema segundo a qual está assegurado o direito subjetivo à
nomeação dos candidatos aprovados dentro do número de vagas prevista no
edital do concurso. Isso porque, haja ou não especificação do número de
vagas no edital, e tenham ou não as nomeações ocorrido dentro do número
de vagas eventualmente previstas, aplica-se o entendimento da Súmula 15,
caso haja preterição da ordem de classificação do candidato.
Por exemplo, se você foi aprovado no concurso de Auditor de Controle
Externo do TCU em 30º lugar, tendo o edital previsto a existência de 25 vagas,
e o Tribunal convoca para nomeação, dentro do prazo de validade do
certame, o 38º colocado, você adquire direito líquido e certo à nomeação, por
ter sido preterido pelo candidato "pulão".
Outra jurisprudência do Supremo e que você deve memorizar:
Configura preterição do direito de nomeação a nomeação ou mesmo a
contratação de pessoal a título precário (temporário), na forma de cargo em
comissão de livre nomeação e exoneração, temporários ou funcionários
terceirizados, mesmo que não haja previsão específica de vagas no edital do
concurso. Havendo vagas e candidatos aprovados no prazo de validade do
certame, o exercício precário de atribuições próprias do servidor efetivo faz
nascer para o candidato aprovado o direito subjetivo à nomeação ( dentre
outros julgados, o ARE 853.712/RJ, 5/12/2014; ARE 759.580 RS, 11/9/2013 ).
Na hipótese de posse em cargo público determinada por decisão judicial, o
servidor não faz jus à indenização , sob fundamento de que deveria ter sido
investido em momento anterior, salvo situação de arbitrariedade
flagrante ( RE 724.347/DF. Red. Min. Roberto Barroso, 26/2/2015) .
Esse é o caso de candidatos aprovados dentro do número de vagas, na
primeira fase do concurso, e que somente participaram da segunda fase e
foram nomeados e empossados em cargos públicos por força de decisão
transitada em julgado, e que pleiteiam indenização por danos
materiais em decorrência da demora na nomeação determinada
judicialmente.
O Supremo não se arriscou a definir a partir de que momento a nomeação de
candidato aprovado fora do número de vagas deixa de constituir opção
administrativa e se transforma em direito subjetivo, ainda que o surgimento
de novas vagas, exceto quando tais candidatos forem preteridos na ordem de
classificação.
O surgimento de novas vagas ou a abertura de novo concurso para o mesmo
cargo, durante o prazo de validade do certame anterior, não gera
automaticamente o direito à nomeação dos candidatos aprovados fora das
vagas previstas no edital, ressalvadas as hipóteses de preterição arbitrária e
imotivada por parte da administração, caracterizada por comportamento
tácito ou expresso do Poder Público capaz de revelar a inequívoca
necessidade de nomeação do aprovado durante o período de validade do
certame, a ser demonstrada de forma cabal pelo candidato. Assim, o direito
subjetivo à nomeação do candidato aprovado em concurso público exsurge
nas seguintes hipóteses: 1 - Quando a aprovação ocorrer dentro do número
de vagas dentro do edital; 2 - Quando houver preterição na nomeação por não
observância da ordem de classificação; 3 - Quando surgirem novas vagas, ou
for aberto novo concurso durante a validade do certame anterior, e ocorrer a
preterição de candidatos de forma arbitrária e imotivada por parte da
administração nos termos acima. (RE 837.311/PI, rel. Min. Luiz Fux, julg.
9/12/2015).
Assim, o direito subjetivo à nomeação do candidato aprovado em concurso
público exsurge nas seguintes hipóteses:
a) quando a aprovação ocorrer dentro do número de vagas previsto no
edital;
b) quando houver preterição na nomeação por não observância da ordem
de classificação, dentro do prazo de validade do concurso; e
c) quando surgirem novas vagas, ou for aberto novo concurso durante a
validade do certame anterior, e ocorrer a preterição de candidatos de
forma arbitrária e imotivada por parte da administração nos termos
acima.
O STF reassentou o entendimento de que os critérios adotados por banca
examinadora de concurso público não podem ser revistos pelo Poder
Judiciário. O STF afirmou não competir ao Poder Judiciário substituir a banca
examinadora para reexaminar o conteúdo das questões e os critérios de
correção utilizados, salvo ocorrência de ilegalidade e inconstitucionalidade.Nesse sentido, seria exigível apenas que a banca examinadora dê tratamento
igual a todos os candidatos, ou seja, que aplicasse a eles, indistintamente, a
mesma orientação ( RE 632.853/CE, rel. Min. Gilmar Mendes, 23.4.2015).
Divergir dessa orientação seria adentrar no mérito do ato
administrativo e substituir a banca examinadora para renovar a correção de
questões de concurso público, a violar o princípio da separação de Poderes
e a reserva de Administração. Caberia ao Judiciário, quando muito,
apenas verificar se as questões formuladas estariam no programa do
certame, dado que o edital seria a lei do concurso.
Quanto ao sistema de cotas raciais, o STF entende que é constitucional a
reserva de 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento
de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública
direta e indireta e é legítima a utilização, além da autodeclaração, de critérios
subsidiários de heteroidentificação:
"É constitucional a Lei 12.990/2014, que reserva a pessoas negras 20% das
vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e
empregos públicos no âmbito da administração pública federal direta e
indireta, por três fundamentos (...) É legítima a utilização, além da
autodeclaração, de critérios subsidiários de heteroidentificação (e.g., a
exigência de autodeclaração presencial perante a comissão do concurso),
desde que respeitada a dignidade da pessoa humana e garantidos o
contraditório e a ampla defesa". (ADC 41 rel. min. Roberto Barroso, j. 8/6/2017)
O que é certo, e que você deve guardar pra a prova, é que, havendo um
concurso público, com validade de, por exemplo, 1 ano, e não tendo sido
chamados todos os candidatos, a Administração lança novo edital dentro do
prazo do concurso anterior (até aí nenhum problema) e convoca novos
candidatos antes daqueles já aprovados no concurso anterior, pode entrar
com mandado de segurança porque seu direito é líquido e certo!
Para chamar os candidatos aprovados no novo certame, a Administração
deverá convocar primeiro, necessariamente, os concurseiros aprovados
anteriormente dentro do número de vagas, sob pena de violação do
princípio da ordem de aprovação prevista no inciso IV do art. 37. Essa
jurisprudência é assente.
Assim, caro concurseiro, mesmo que a banca examinadora entre em
contradição ao adotar certa linha doutrinária no edital, mas não o fazê-lo
quanto à solução das questões impugnadas, ou não responder ou justificar a
negativa de recurso que você interpôs contra a banca, não adianta chorar no
mandado de segurança, ao menos enquanto a posição do STF for essa...
Investigado x presunção de inocência
Em mudança de postura do STF, o princípio da presunção de
inocência impede a proibição de investigados que ainda não foram
condenados de participar de concursos públicos. Seguindo o voto do Relator,
Min. Roberto Barroso, o Tribuna entendeu que a mera existência de processo
penal em curso, não autoriza a eliminação de candidato em concurso público,
externo ou interno, para promoção, mesmo que em carreiras da magistratura,
funções essenciais à Justiça e da segurança pública:
"Como regra geral, a simples existência de inquéritos ou processos penais em
curso não autoriza a eliminação de candidatos em concursos públicos, o que
pressupõe: (i) condenação por órgão colegiado ou definitiva; e (ii) relação de
incompatibilidade entre a natureza do crime em questão e as atribuições do
cargo concretamente pretendido, a ser demonstrada de forma motivada por
decisão da autoridade competente. 2. A lei pode instituir requisitos mais
rigorosos para determinados cargos, em razão da relevância das atribuições
envolvidas, como é o caso, por exemplo, das carreiras da magistratura, das
funções essenciais à justiça e da segurança pública (CRFB/1988, art. 144),
sendo vedada, em qualquer caso, a valoração negativa de simples processo
em andamento, salvo situações excepcionalíssimas e de indiscutível
gravidade" (RE 560.900, rel. Min. Roberto Barroso, julg. em 5/2/2020)
O Supremo Tribunal Federal possui precedentes firmando entendimento de
que a exigência de experiência profissional prevista apenas em edital, sem
estar prevista e justificada em lei, em razão das características do cargo a ser
exercido, importa em ofensa constitucional,, não se justificando em nome do
princípio da eficiência:
"3. Ressalte-se que a regra geral é o acesso de todos aos cargos ou empregos
públicos, salvo limitações decorrentes de lei. Essas ressalvas podem ocorrer,
por exemplo, em razão da idade, da altura, da colação de grau em nível
superior ou mesmo do tempo de prática profissional. Entretanto, elas só são
legítimas se forem fixadas, de forma razoável, para atender às exigências das
funções do cargo a ser preenchido. O referido edital não poderia estabelecer,
portanto, exigência além da escolaridade mínima, de período de experiência
em atividades correlatas com as funções a serem desenvolvidas no exercício
dos cargos administrativos a serem providos, sendo ilegítima tal exigência"
(RE 558.833 AgR, rel. min. Ellen Gracie, julgamento 8/9/2009)
No julgamento do RE 560.900 o STF decidiu ainda:
a) É inconstitucional exclusão de candidato de concurso público que esteja
respondendo a processo criminal;
b) a exclusão do candidato apenas em razão da tramitação de processo penal
contraria o entendimento do STF sobre a presunção de inocência
c) A decisão se deu em sede de concurso interno de promoção para progressão
na carreira militar;
O inciso V do art. 37 trata do exercício das funções de confiança e dos cargos
em comissão:
Art. 37............
....
V - as funções de confiança, exercidas exclusivamente por servidores ocupantes
de cargo efetivo, e os cargos em comissão, a serem preenchidos por servidores
de carreira nos casos, condições e percentuais mínimos previstos em lei,
destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e assessoramento;
Ou seja, as funções de confiança, assim determinadas em lei, só serão
exercidas por servidores públicos de cargo efetivo, concursados. Já
os cargos em comissão poderão ser preenchidos por servidores não
concursados, nos limites mínimos estabelecidos em lei.
Apesar de a Constituição exigir lei, no Poder Executivo Federal, essa
regulamentação foi dada pelo Decreto 5.497/2005, com as alterações
do Decreto 9.021/2017, e o qual disciplina o preenchimento dos cargos em
comissão por servidores efetivos, (DAS 1 a DAS 6), com os respectivos
percentuais para cada Nível de Assessoramento.
No âmbito do Ministério Público da União, foi editada a Lei 11.415/2006,
que em seu art. 4º, determina que em cada ramo do Ministério Público, no
mínimo 50% dos cargos em comissão devem ser destinados aos integrantes
da carreira do MPU.
No âmbito do Poder Judiciário Federal, a Lei 11.416/2006, em seu art. 5º, § 7º,
determina que pelo menos 50% dos cargos em comissão, a que se refere
o caput deste artigo, no âmbito de cada órgão do Poder Judiciário, serão
destinados a servidores efetivos integrantes de seu quadro de pessoal, na
forma prevista em regulamento, que no caso é a Portaria Conjunta do STF,
CNJ e Tribunais Superiores nº 3/2007.
Isso nos leva a crer que a norma emanada do Poder Competente nem sempre
será “lei” em sentido formal, e diz respeito ao princípio da legalidade e não
ao da reserva legal ou da estrita reserva legal. Ou seja, a regra pode ser
definida em norma regulamentadora, como decreto, portaria etc. Isso apesar
de o Supremo Tribunal Federal ter assentado que a norma do inciso V do art.
37 deve ser disciplinada em lei ordinária:
"Cargos em comissão a serem preenchidos por servidores efetivos. A norma
inscrita no art. 37, V, da Carta da República é de eficácia contida, pendente de
regulamentaçãopor lei ordinária" ( RMS 24.287, rel. min. Maurício Corrêa, julg.
26/11/2002, 2ª Turma).
Entretanto, jamais foi arguida a inconstitucionalidade do Decreto
5.497/2005, no âmbito do Poder Executivo Federal, que permanece vigente e
válido há quase duas décadas!
Em resumo:
Funções de Confiança ⇒ Exclusivas para servidores efetivos
Cargos em Comissão ⇒ Para servidores de carreira (efetivos) nos
percentuais mínimos definidos em lei
Por exemplo, no Poder Judiciário Federal, 80% dos cargos em comissão
devem ser exercidos por servidores efetivos; no Poder Executivo Federal, para
cada DAS – Designação de Assessoramento Superior, há um percentual
definido em Decreto, e assim por diante.
E por quê essa regra foi estabelecida na Constituição? Isso ocorreu porque os
cargos comissionados têm sido utilizados como prática patrimonialista de
favorecimento político, com a concessão de cargos a aliados e parentes
(nepotismo) em troca de apoio político. O nepotismo é prática que afronta os
Princípios da impessoalidade e da moralidade, previstos no caput do art. 37.
Não por outro motivo, o STF editou o Enunciado de Súmula Vinculante 13:
A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta,
colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da
autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica
investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para
o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função
gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos
Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios,
compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a
Constituição Federal.
Interessante posicionamento do Supremo diz respeito à nomeação de parente
para cargo de agente político, que segundo o STF é perfeitamente lícita. É o
caso dos secretários de estado indicados pelo governador, secretário de
município indicado pelo prefeito e dos Ministros de Estado indicados pelo
Presidente da República.
Também de acordo com o STF, os cargos em comissão, de livre nomeação e
exoneração, não poderão ser criados para o exercício de atividades técnicas,
burocráticas ou típicas da Administração. Para o Supremo Tribunal Federal,
nas hipóteses em que ocorre criação de cargos em comissão, para o
desempenho de atividades técnica, em que inexiste o necessário requisito
da confiança para sua nomeação, tem entendido a jurisprudência ser possível
a interferência judicial, para sanar uma situação de ilegalidade, verificada pela
edição de uma tal legislação.
Segundo o Supremo, é inegavelmente inconstitucional diploma legal que cria
cargos em comissão para funções que não pressupõem a necessária relação
de confiança entre a autoridade nomeante e o servidor nomeado, impondo
que seu preenchimento deva recair sobre determinada classe de servidores,
por violação expressa às normas do artigo 37, incisos I, II e V, da Constituição
Federal (ADI 4.125/TO, Rel. Min. Cármen Lúcia, RE 470.928/RS, Rel. Min. Dias
Tóffoli):
Art. 37...........
I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros
que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos
estrangeiros, na forma da lei;
II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação
prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo
com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista
em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em
lei de livre nomeação e exoneração;
..........
V - as funções de confiança, exercidas exclusivamente por servidores
ocupantes de cargo efetivo, e os cargos em comissão, a serem preenchidos
por servidores de carreira nos casos, condições e percentuais mínimos
previstos em lei, destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e
assessoramento;
Livre associação sindical
Ao servidor público é assegurado o direito à livre associação sindical (art. 37,
VI, CF). Quanto a esta garantia, o Supremo assentou que o exercício de função
executiva por servidor público em instituição sindical não se confunde com o
exercício de mandato eletivo, previsto no art. 38 da CF. Firmou a possibilidade
de norma constitucional estadual assegurar aos servidores públicos estaduais
dirigentes sindicais o afastamento do exercício do cargo, sem prejuízo da
remuneração e das vantagens inerentes ao cargo público (ADI 510, rel. min.
Cármen Lúcia, julgamento em 11-6-2014, Plenário, DJE de 3/10/2014).
O STF decidiu ainda ser inconstitucional a vedação de desconto de
contribuição sindical, previsto no art. 8º, IV, c/c o art. 37, VI, da Constituição,
bem como a exclusão do regime da contribuição legal compulsória exigível
dos membros da categoria. (ADI 1.416, rel. min. Gilmar Mendes, julgamento
em 10-10-2002, Plenário; ADIn 962, 11/11/1993).
Direito de Greve do Servidor
Não podemos deixar de comentar o inciso VII do art. 37, que dispõe sobre o
direito de greve do servidor público. Durante muito tempo, esse dispositivo,
de eficácia limitada, careceu de regulamentação por absoluta inércia do
Poder Executivo em apresentar projeto de lei sobre o assunto.
Art. 37................
VII - o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei
específica;
Pois bem, por três vezes o STF foi instado a se manifestar em sede de
mandado de injunção coletivo (MI 670, 708 e 712) para que obrigasse o
Executivo a apresentar o PL sobre o assunto, declarando em mora o poder
competente.
Tradicionalmente, ao julgar um mandado de injunção, o STF apenas
declarava a mora legislativa em editar lei que regulamentasse determinado
direito. Essa posição era classificada como não concretista e tinha pouca
efetividade para o impetrante do Mandado de Injunção, pois a norma
constitucional permanecia não regulamentada e o exercício do seu direito
obstado. Então o que acontecia? O Supremo declarava o órgão faltoso em
mora e aguardava que o próprio órgão editasse a norma faltante. Então, a
nova Lei do Mandado de Injunção trouxe algumas inovações:
A posição concretista individual intermediária manifesta-se quando o STF
determina a edição da norma faltante, estabelecendo prazo para a feitura da
lei. É o que determina inclusive o art. 8º, I, da Lei 13.300/2016:
Art. 8º Reconhecido o estado de mora legislativa, será deferida a injunção
para:
I - determinar prazo razoável para que o impetrado promova a edição da
norma regulamentadora;
.....
Parágrafo único. Será dispensada a determinação a que se refere o inciso I
do caput quando comprovado que o impetrado deixou de atender, em
mandado de injunção anterior, ao prazo estabelecido para a edição da norma.
A posição concretista geral direta decorre de decisão que formata
diretamente a norma ou indica a norma a ser aplicada à situação. Nesse
sentido, por exemplo, o STF adotou essa posição, em sede de três mandados
de injunção coletivo (MI 670, 708 e 712), e ao invés de simplesmente declarar a
demora do legislador, atribuiu, nos casos concretos, a eficácia da lei de greve
do setor privado para os servidores públicos, hipótese em que se aplica aos
servidores públicos de todo o país a Lei nº 7.783/89:
"6.1. Aplicabilidade aos servidores públicos civis da Lei no 7.783/1989, sem
prejuízo de que, diante do caso concreto e mediante solicitação de entidade
ou órgão legítimo, seja facultado ao juízo competente a fixação de regime de
greve mais severo, em razão de tratarem de "serviços ou atividades
essenciais" (Lei no 7.783/1989, arts. 9o a 11). 6.2. Nessa extensão do
deferimento do mandado de injunção, aplicação da Lei no 7.701/1988, no que
tange à competência para apreciar e julgar eventuais conflitos judiciais
referentes à grevede servidores públicos que sejam suscitados até o
momento de colmatação legislativa específica da lacuna ora declarada, nos
termos do inciso VII do art. 37 da CF" (MI 670 ES, relator Min. Maurício Corrêa,
julg. 25/10/2007).
O art. 8º, inciso II, da Lei 13.300/2016 também admite a adoção da teoria
geral concretista, no caso de o legislador ou gestor não tomar as
providências no prazo determinado, a injunção será deferida para que o
direito seja exercido nas condições deferidas pelo Tribunal, até a edição da
norma definitiva:
Art. 8º Reconhecido o estado de mora legislativa, será deferida a injunção
para:
......
II - estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das
liberdades ou das prerrogativas reclamados ou, se for o caso, as condições em
que poderá o interessado promover ação própria visando a exercê-los, caso
não seja suprida a mora legislativa no prazo determinado.
Portanto, desde 2007, no julgamento definitivo dos referidos mandados de
injunção, o STF assegurou o direito do exercício de greve dos servidores, com
base na Lei da iniciativa privada, até que seja editada a lei exigida pelo
constituinte.
Quanto à possibilidade de desconto nos vencimentos dos servidores dos dias
paralisados, durante a greve, o Supremo Tribunal Federal firmou a seguinte
tese de repercussão geral, no julgamento do RE 693.456, rel. Min. Dias Toffoli,
julg. 27/10/2016:
"A administração pública deve proceder ao desconto dos dias de
paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores
públicos, em virtude da suspensão do vínculo funcional que dela decorre,
permitida a compensação em caso de acordo. O desconto será, contudo,
incabível se ficar demonstrado que a greve foi provocada por conduta ilícita
do Poder Público".
Reserva de vagas para portadores de deficiência
Estabelece o inciso VIII do art. 37 da Constituição:
Art. 37........
VIII - a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as
pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão;
A Lei nº 8.112/90 assegura às pessoas portadoras de deficiência o direito de
se inscrever em concurso público para provimento de cargo público
federal cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de que são, no
percentual de no máximo 20% das vagas oferecidas no concurso.
Esse dispositivo foi inicialmente regulamentado pelo Decreto nº 3.298/1999, e
posteriormente pelo Decreto 9.508/2018, que reserva às pessoas com
deficiência percentual de 5% de cargos e empregos públicos ofertados em
concursos públicos e em processos seletivos no âmbito da administração
pública federal direta e indireta:
Art. 1º Fica assegurado à pessoa com deficiência o direito de se inscrever, no
âmbito da administração pública federal direta e indireta e em igualdade de
oportunidade com os demais candidatos, nas seguintes seleções:
I - em concurso público para o provimento de cargos efetivos e de empregos
públicos; e
II - em processos seletivos para a contratação por tempo determinado para
atender necessidade temporária de excepcional interesse público, de que
trata a Lei nº 8.745, de 9 de dezembro de 1993 .
§ 1º Ficam reservadas às pessoas com deficiência, no mínimo, cinco por cento
das vagas oferecidas para o provimento de cargos efetivos e para a
contratação por tempo determinado para atender necessidade temporária de
excepcional interesse público, no âmbito da administração pública federal
direta e indireta.
§ 2º Ficam reservadas às pessoas com deficiência os percentuais de cargos de
que trata o art. 93 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991 , às empresas
públicas e às sociedades de economia mista.
§ 3º Na hipótese de o quantitativo a que se referem os § 1º e § 2º resultar em
número fracionado, este será aumentado para o primeiro número inteiro
subsequente.
Perceba que o Decreto estabelece que em caso de número fracionado, este é
arredondado para cima. Mas quanto ao limite máximo (20%), o Supremo
tinha jurisprudência no sentido de também se arredondar para cima o
número de vagas, ainda que se extrapolasse o limite de 20%. Mas a orientação
predominante hoje é outra.
Pela possibilidade de arredondamento acima dos limites:
"A exigência constitucional de reserva de vagas para portadores de deficiência
em concurso público se impõe ainda que o percentual legalmente previsto
seja inferior a um, hipótese em que a fração deve ser arredondada.
Entendimento que garante a eficácia do art. 37, VIII, da CF, que, caso
contrário, restaria violado". (RE 227.299, rel. min. Ilmar Galvão, j. 14-6-2000,
Pleno)
Pela impossibilidade de arredondamento acima dos limites:
"É certo que esta Corte, no julgamento do RE nº 227.299/MG, Tribunal Pleno,
Relator o Ministro Ilmar Galvão, DJ de 6/10/2000, entendeu, à época, que,
independentemente do número de vagas oferecidas, a fração resultante do
percentual mínimo destinado aos deficientes físicos deveria ser arredondada
para o primeiro número inteiro subsequente. Este Supremo Tribunal Federal,
entretanto, na sessão Plenária de 20/9/07, modificou seu entendimento sobre
a matéria, ao apreciar o MS nº 26.310/DF, Relator o Ministro Marco Aurélio,
publicado no DJe de 31/10/07, no qual fixou entendimento no sentido de que
a reserva de vagas para portadores de deficiência física deve-se ater aos
limites da lei, na medida da viabilidade das vagas oferecidas, reconhecendo a
impossibilidade de arredondamento no caso de majoração das porcentagens
mínima e máxima previstas (RE: 1.089.393/SE, Relator Min. Dias Toffoli,
Julgamento 7/11/2017)
"Agravo regimental no recurso extraordinário. Concurso público. Reserva de
vagas para portadores de deficiência. Arredondamento do coeficiente
fracionário para o primeiro número inteiro
subsequente. Impossibilidade. Precedentes. 1. A jurisprudência desta Corte
fixou entendimento no sentido de que a reserva de vagas para portadores de
deficiência deve ater-se aos limites da lei, na medida da viabilidade das vagas
oferecidas, não sendo possível seu arredondamento no caso de majoração
das porcentagens mínima e máxima previstas". (RE 440.988/DF, Relator: Min.
Dias Toffoli, julgamento 28/2/2012)
"O STF, buscando garantir razoabilidade à aplicação do disposto no Decreto
3.298/1999, entendeu que o referido diploma legal deve ser interpretado em
conjunto com a Lei 8.112/1990. Assim, as frações mencionadas no art. 37, § 2º,
do Decreto 3.298/1999 deverão ser arredondadas para o primeiro número
subsequente, desde que respeitado o limite máximo de 20% das vagas
oferecidas no certame". (RMS 27.710 AgR, rel. min. Dias Toffoli, j.
28/5/2015; MS 30.861/DF, Relator Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, DJe de
8/6/12; MS 31.715/DF, Relatora a Ministra Rosa Weber, decisão monocrática,
DJe de 4/9/2014)
"4. Impossibilidade de arredondamento do coeficiente fracionário para o
primeiro número inteiro subsequente. 5. Agravo regimental a que se nega
provimento. Cumpre ressaltar, por necessário, que esse entendimento vem
sendo observado em sucessivos julgamentos, proferidos no âmbito desta
Corte, a propósito de questão essencialmente idêntica à que ora se examina
nesta sede recursal. (RE 613.151/DF, relator Min. Celso de Mello, julgamento:
03/08/2015)
Ainda nessa seara, depois de idas e vindas jurisprudenciais, o Superior
Tribunal de Justiça alterou anterior posicionamento para considerar que o
candidato portador de surdez unilateral não deve concorrer em concurso
público nas vagas destinadas a portadores de deficiência (MS 18.966/DF, rel.
Min. Castro Meira, rel. p/ Acórdão Min. Humberto Martins, julg. 2/10/2013),
seguindo posicionamento do Supremo Tribunal Federal, no MS
29.210/AgR/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, julg. 21/6/2011, que assentou: "a
perda auditiva unilateral não é condiçãoapta a qualificar o candidato a
concorrer às vagas destinadas aos portadores de deficiência".
Já quanto à visão monocular, o STJ em seu Enunciado 377, considera que “o
portador de visão monocular tem direito de concorrer, em concurso público,
às vagas reservadas aos deficientes.”
Essa posição é corroborada pelo STF: "Concurso público. Candidato portador
de deficiência visual. Ambliopia. Reserva de vaga. O candidato com visão
monocular padece de deficiência que impede a comparação entre os dois
olhos para saber-se qual deles é o "melhor". A visão univalente –
comprometedora das noções de profundidade e distância – implica limitação
superior à deficiência parcial que afete os dois olhos". (RMS 26.071, rel. min.
Carlos Ayres Britto, julg. 13/11/2007).
Portanto, consoante posição do STF e do STJ, os portadores de surdez
unilateral não podem concorrer às vagas destinadas a portadores de
deficiência. Já os portadores de visão monocular, nos termos da Súmula
377/STJ e da jurisprudência do STF, poderão concorrer a essas vagas.
Por que essa diferença Jean? Com base nos critérios técnicos e médicos
aplicáveis, o Decreto 3.298/99, que regulamentou a Lei nº 7.853/89, que dispõe
sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência, estabeleceu em seu art. 4º, II e III, os critérios para deficiência
auditiva e visual, exigindo a perda bilateral apenas para caracterizar
a deficiência auditiva:
Art. 4º É considerada pessoa portadora de deficiência a que se enquadra nas
seguintes categorias:
............
II - deficiência auditiva - perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um
decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500HZ,
1.000HZ, 2.000Hz e 3.000Hz;
III - deficiência visual - cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que
0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa
acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica;
os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos
for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das
condições anteriores;
Segundo o STJ, o candidato que não se declara portador de necessidades
especiais no ato da inscrição não pode, após a divulgação do resultado final
do certame, ser incluído na lista especial em virtude de debilidade residual
permanente,supervenientemente atestada em laudo técnico, oriundo de fato
ocorrido antes do edital (EDCL-RMS 29.625/DF, rel. Min. Maria Thereza Moura,
julg. 20/9/2011).
Também segundo o Superior Tribunal de Justiça, a "reserva de percentual de
cargo para as pessoas portadoras de deficiência física, nos termos do art. 37,
VIII, da CF, não afasta a exigência de aprovação em etapa do concurso
público em que se avalia a capacitação física do candidato, indispensável
para o desempenho do cargo" (ROMS 10.481/DF, Rel. Min. Felix Fischer, DJU
16/8/1999).
Contratação temporária no serviço público
Estabelece o art. 37, IX, da Constituição Federal:
Art. 37......
IX - a lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para
atender a necessidade temporária de excepcional interesse público;
O Supremo Tribunal Federal assentou os seguintes requisitos para a validade
da contratação por tempo determinado para atender a necessidade
temporária de excepcional interesse público (ADI 2.229, Rel. Min. Carlos
Velloso, DJ de 25/6/2004):
a) previsão em lei dos cargos;
b) tempo determinado;
c) necessidade temporária de interesse público;
d) interesse público excepcional.
Em 2014, a questão foi reexaminada pelo Pleno do STF em processo
submetido à sistemática da repercussão geral, ocasião na qual foi assentada a
tese de que:
"(…) para que se considere válida a contratação temporária, é preciso que: a)
os casos excepcionais estejam previstos em lei; b) o prazo de contratação seja
predeterminado; c) a necessidade seja temporária; d) o interesse público seja
excepcional; e) a necessidade de contratação seja indispensável, sendo
vedada a contratação para os serviços ordinários permanentes do Estado, e
que devam estar sob o espectro das contingências normais da Administração"
(RE 658.026, Rel. Min. Dias Toffoli, DJe de 31/10/2014, Tema 612).
Remuneração e subsídio dos servidores
Questão que sempre dá azo a discussões e polêmicas, por envolver os
interesses de diversas categorias de servidores e agentes públicos. O assunto
é disciplinado basicamente nos incisos X a XV do art. 37, os quais vamos
estudar agora.
Nos termos do inciso X a remuneração e o subsídio dos servidores somente
podem ser fixados ou alterados por lei específica, observada a iniciativa
privativa em cada caso, assegurada a revisão geral anual, na mesma data e
sem distinção de índices. Essa regra foi introduzida pela Emenda
Constitucional 19/1998, evitando que aumentos de remuneração fossem
dados por simples ato de cada Poder, como acontecia com a Câmara dos
Deputados e o Senado Federal, que fixavam, por Resolução, a remuneração de
seus servidores.
A esse respeito, o Supremo decidiu, em sede de repercussão geral, que esse
direito não implica necessariamente a concessão de reajuste no valor:
"2. O art. 37, X, da CF/1988 não estabelece um dever específico de que a
remuneração dos servidores seja objeto de aumentos anuais, menos ainda em
percentual que corresponda, obrigatoriamente, à inflação apurada no
período. Isso não significa, porém, que a norma constitucional não tenha
eficácia. Ela impõe ao Chefe do Poder Executivo o dever de se pronunciar,
anualmente e de forma fundamentada, sobre a conveniência e possibilidade
de reajuste ao funcionalismo. 3. Recurso extraordinário a que se nega
provimento, com a fixação da seguinte tese: “O não encaminhamento de
projeto de lei de revisão anual dos vencimentos dos servidores públicos,
previsto no inciso X do art. 37 da CF/1988, não gera direito subjetivo a
indenização. Deve o Poder Executivo, no entanto, pronunciar-se de forma
fundamentada acerca das razões pelas quais não propôs a revisão" (RE
565.089/SP, red. p/ o acórdão Min. Roberto Barroso, julg. em 25/9/2019)
Merece menção ainda o seguinte enunciado Súmula do STF:
Súmula 679: a fixação de vencimentos dos servidores públicos não pode ser
objeto de convenção coletiva.
O entendimento prevalecente no Supremo Tribunal Federal é no sentido de
que o reajuste automático de vencimentos de servidores públicos, tomando-
se como base a variação de indexadores de atualização monetária, como o
Índice de Preços ao Consumidor (IPC), desrespeita a autonomia dos Estados-
membros e a vedação constitucional de vinculação, para efeito de
remuneração de servidores públicos, nos termos dos arts. 25 e 37, XIII, da
Constituição, respectivamente. Nesse sentido, o Supremo editou a Súmula
Vinculante 42:
Súmula Vinculante 42/STF: É inconstitucional a vinculação do reajuste de
vencimentos de servidores estaduais ou municipais a índices federais de
correção monetária
Já os limites de remuneração no serviço público (teto) estão estabelecidos no
inciso XI do art. 37; um inciso bastante longo e que vamos esquematizá-lo aqui
pra facilitar o seu entendimento, com os limites gerais e por cada Poder nas
diversas esferas da Federação:
Subsídios
Federal
Estadual/DF
Municipal
Teto
Máximo
Geral
de Ministro STF
de Ministro do STF
de Ministro
do STF
Poder
Legislativo
de Ministro do
STF
dos deputados estaduais/distritais
do Prefeito
Poder
Executivo
de Ministro do
STF
do Governador
do Prefeito
Poder
Judiciário
Tribunais
Superiores
⇒ 95% do STF
(art. 93, V)**
de Desembargador do TJ ⇒ 90,25%do STF , também aplicado a
membros do MP, Procuradores de
Justiça e Defensoria Pública**
Não há
poder
Judiciário
** Estes subtetos de remuneração foram suprimidos pelo Supremo Tribunal
Federal, no julgamento da ADI-MC 3.854/DF, Rel. Min. Cezar Peluso, julg. em
28/2/2007, que deu interpretação conforme ao inciso XI do artigo 37 da CF, e
por arrastamento, ao art. 93, V, para excluir do subteto de 90,25% os
magistrados e desembargadores estaduais de justiça e do subteto de 95% os
magistrados dos Tribunais Superiores.
Isso significa que os magistrados estaduais e desembargadores dos
tribunais de justiça fazem jus ao mesmo limite dos juízes federais (95% do
subsídio dos Ministros do STF), conforme o art. 93, V?
Art. 93.........
V - o subsídio dos Ministros dos Tribunais Superiores corresponderá a noventa e
cinco por cento do subsídio mensal fixado para os Ministros do Supremo
Tribunal Federal e os subsídios dos demais magistrados serão fixados em lei e
escalonados, em nível federal e estadual, conforme as respectivas categorias da
estrutura judiciária nacional, não podendo a diferença entre uma e outra ser
superior a dez por cento ou inferior a cinco por cento, nem exceder a noventa e
cinco por cento do subsídio mensal dos Ministros dos Tribunais Superiores,
obedecido, em qualquer caso, o disposto nos arts. 37, XI, e 39, § 4º;
Então, por incrível que pareça, não. Entendeu o Supremo que o subteto
estabelecido pelo constituinte originário estaria violando o princípio da
isonomia, ao dar tratamento assimétrico aos magistrados federais e
estaduais, que desempenham funções semelhantes e se submetem ao mesmo
regramento constitucional e estatutário, motivo pelo qual às Emendas
Constitucionais 41/2003 e 47/2005 foi dada interpretação conforme à
Constituição, para submeter toda a magistratura nacional ao teto dos
Ministros do Supremo Tribunal Federal:
"MAGISTRATURA. Remuneração. Limite ou teto remuneratório constitucional.
Fixação diferenciada para os membros da magistratura federal e estadual.
Inadmissibilidade. Caráter nacional do Poder Judiciário. Distinção arbitrária.
Ofensa à regra constitucional da igualdade ou isonomia. Interpretação
conforme dada ao art. 37, inc. XI, e § 12, da CF. Aparência de
inconstitucionalidade do art. 2º da Resolução nº 13/2006 e do art. 1º, § único,
da Resolução nº 14/2006, ambas do Conselho Nacional de Justiça. Ação direta
de inconstitucionalidade. Liminar deferida. Vencido o Senhor Ministro
Joaquim Barbosa, que indeferia a liminar, e parcialmente vencido o Senhor
Ministro Marco Aurélio, que a deferia em menor extensão, tão-somente para
suspender a eficácia das resoluções do Conselho Nacional de Justiça. (ADI-MC
3.854/DF, Rel. Min. Cezar Peluso, julg. em 28/2/2007)
Portanto, também tiveram a eficácia suspensa o art. 2º da Resolução 13/2006,
bem como do parágrafo único do art. 1º da Resolução 14/2007, ambas do
Conselho Nacional de Justiça:
Art. 2º Nos órgãos do Poder Judiciário dos Estados, o teto remuneratório
constitucional é o valor do subsídio de Desembargador do Tribunal de Justiça,
que não pode exceder a 90,25% (noventa inteiros e vinte e cinco centésimos
por cento) do subsídio mensal de Ministro do Supremo Tribunal Federal.
Art. 1º O teto remuneratório para os servidores do Poder Judiciário da União,
nos termos do inciso XI do art. 37 da Constituição Federal, é o subsídio de
Ministro do Supremo Tribunal Federal e corresponde a R$ 24.500,00 (vinte e
quatro mil e quinhentos reais).
Parágrafo único. Enquanto não editadas as leis estaduais referidas no art. 93,
inciso V, da Constituição Federal, o limite remuneratório dos magistrados e
servidores dos Tribunais de Justiça corresponde a 90,25% (noventa inteiros e
vinte e cinco centésimos por cento) do teto remuneratório constitucional
referido no caput, nos termos do disposto no art. 8º da Emenda Constitucional
nº 41/2003.
Na prática, a decisão do STF tornou letra morta o inciso V do art. 93 da CF.
Entretanto, o subteto de 90,25% continua valendo para os demais agente
públicos mortais, ou seja, servidores do Judiciário estadual, membros do
Ministério Público estadual, procuradores de justiça e defensores estaduais.
Segue a redação do inciso XI do art. 37, que permanece incólume mesmo após
a ADI-MC 3.854/DF, pois o STF deu interpretação conforme ao inciso:
XI - a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos
públicos da administração direta, autárquica e fundacional, dos membros de
qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e
os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos
cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra
natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do
Supremo Tribunal Federal, aplicando-se como limite, nos Municípios, o subsídio
do Prefeito, e nos Estados e no Distrito Federal, o subsídio mensal do
Governador no âmbito do Poder Executivo, o subsídio dos Deputados Estaduais
e Distritais no âmbito do Poder Legislativo e o subsídio dos Desembargadores
do Tribunal de Justiça, limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por
cento do subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal
Federal, no âmbito do Poder Judiciário, aplicável este limite aos membros do
Ministério Público, aos Procuradores e aos Defensores Públicos;
Estabelece ainda o § 12 do art. 37 que:
§ 12. Para os fins do disposto no inciso XI do caput deste artigo, fica facultado
aos Estados e ao Distrito Federal fixar, em seu âmbito, mediante emenda às
respectivas Constituições e Lei Orgânica, como limite único, o subsídio mensal
dos Desembargadores do respectivo Tribunal de Justiça, limitado a noventa
inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do subsídio mensal dos Ministros
do Supremo Tribunal Federal, não se aplicando o disposto neste parágrafo aos
subsídios dos Deputados Estaduais e Distritais e dos Vereadores.
A Emenda Constitucional 103/2019 (Pec da Previdência), acrescentou os
seguintes parágrafos ao artigo 37:
§ 13. O servidor público titular de cargo efetivo poderá ser readaptado para
exercício de cargo cujas atribuições e responsabilidades sejam compatíveis
com a limitação que tenha sofrido em sua capacidade física ou mental,
enquanto permanecer nesta condição, desde que possua a habilitação e o
nível de escolaridade exigidos para o cargo de destino, mantida a
remuneração do cargo de origem. (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 103, de 2019)
§ 14. A aposentadoria concedida com a utilização de tempo de contribuição
decorrente de cargo, emprego ou função pública, inclusive do Regime Geral
de Previdência Social, acarretará o rompimento do vínculo que gerou o
referido tempo de contribuição. (Incluído pela Emenda Constitucional nº
103, de 2019)
§ 15. É vedada a complementação de aposentadorias de servidores públicos e
de pensões por morte a seus dependentes que não seja decorrente do
disposto nos §§ 14 a 16 do art. 40 ou que não seja prevista em lei que extinga
regime próprio de previdência social. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
Quanto ao § 13, a Reforma instituiu que a readaptação de servidores que
sofreram limitação em sua capacidade está condicionada à existência de
habilitação e nível de escolaridade exigido para o novo cargo, mas com a
remuneração do cargo de origem, mas apenas enquanto permanecer nessa
condição.
O § 14 determina que servidor ou empregado público aposentado com base
em tempo de contribuição, inclusive pelo Regime Geral, tem seu vínculo
originário, que gerou o tempo de contribuição, rompido, para quaisquer
efeitosfuturos.
O § 15 estabelece a vedação de complementação de aposentadorias de
servidores e de pensões por morte a seus dependentes fora da hipóteses dos
§§ 14 a 16 do art. 40 (Regime Complementar Público), ou que não esteja
prevista em lei que extinguiu o regime próprio de Previdência:
Art. 40.......
....
§ 14. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, por lei
de iniciativa do respectivo Poder Executivo, regime de previdência
complementar para servidores públicos ocupantes de cargo efetivo,
observado o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência
Social para o valor das aposentadorias e das pensões em regime próprio de
previdência social, ressalvado o disposto no § 16. (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
§ 15. O regime de previdência complementar de que trata o § 14 oferecerá
plano de benefícios somente na modalidade contribuição definida, observará
o disposto no art. 202 e será efetivado por intermédio de entidade fechada de
previdência complementar ou de entidade aberta de previdência
complementar. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de
2019)
§ 16 - Somente mediante sua prévia e expressa opção, o disposto nos § § 14 e
15 poderá ser aplicado ao servidor que tiver ingressado no serviço público até
a data da publicação do ato de instituição do correspondente regime de
previdência complementar. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20,
de 15/12/98)
Já o inciso XII estabelece que os vencimentos dos cargos do Poder Legislativo e
do Poder Judiciário não poderão ser superiores aos pagos pelo Poder Executivo.
Essa regra acaba por não ter muita eficácia prática, pois refere-se aos
vencimentos básicos, não incluindo gratificações e outros adicionais que
normalmente levam determinados cargos administrativos do Poder
Legislativo e do Poder Judiciário e terem uma remuneração total superior aos
do Poder Executivo, dentre outras razões, pela quantidade menor de
servidores, o que acaba facilitando a obtenção de condições mais vantajosas
de remuneração e de planos de carreira.
Agora dê uma olhada no § 9º do art. 37:
§ 9º O disposto no inciso XI (teto constitucional) aplica-se às empresas
públicas e às sociedades de economia mista, e suas subsidiárias, que
receberem recursos da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos
Municípios para pagamento de despesas de pessoal ou de custeio em
geral.
Ele afirma que apenas as Empresas Estatais dependentes é que estarão
sujeitas ao teto remuneratório constitucional. Banco do Brasil, Petrobrás e
outras estatais que não recebam recursos do orçamento fiscal para
pagamento de despesas correntes (pessoal e custeio), são autorizadas a
oferecer salários a seus executivos similares à da iniciativa privada, se preciso,
pois, dentre outras razões, competem em condição de igualdade com outras
empresas do ramo no setor econômico em que atuam.
O art. 173, § 1º, II, da Constituição Federal, que estabelece que os empregados
públicos das empresas estatais, sejam elas dependentes ou não dependentes,
e de suas subsidiárias, são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho e
não pelo regime estatutário:
Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração
direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando
necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse
coletivo, conforme definidos em lei.
§ 1º A lei estabelecerá o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de
economia mista e de suas subsidiárias que explorem atividade econômica de
produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, dispondo
sobre:
II - a sujeição ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive
quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais, trabalhistas e tributários;
Nesse sentido, já assentou o Tribunal Superior do Trabalho:
O artigo 173, § 1º, da Constituição da República é categórico ao dispor que a
empresa pública e a sociedade de economia mista estão sujeitas ao regime
próprio das empresas privadas, inclusive quanto às obrigações trabalhistas e
tributária (TST - E-RR: 5103035719985015555 510303-57.1998.5.01.5555,
Relator: Milton de Moura França, Data de Julgamento: 22/11/2004)
O Supremo Tribunal Federal confirmou que a EC nº 19/98 incluiu o § 9º ao art.
37 da Constituição Federal, com a finalidade de excluir do teto
remuneratório os empregados das empresas estatais não
dependentes (ADI 1.282/SP, rel. Min. Dias Tóffoli, julg. 27/8/2012):
"A figura do teto remuneratório foi alterada, deixando de lado o limite então
vigente para o Poder Executivo estadual, qual seja, a remuneração dos
Secretários de Estado, para na atualidade fixar como baliza última o subsídio
dos Ministros do Supremo Tribunal Federal e, no âmbito do Executivo
estadual, a remuneração do Governador do Estado, exceção feita a algumas
carreiras. Ademais, a EC nº 19/98 incluiu o § 9º ao art. 37 da Constituição
Federal, com a finalidade de excluir do teto remuneratório os empregados das
empresas estatais não dependentes, in verbis: “Art. 37. (…) § 9º (...)".
Já o § 11 do artigo 37 exclui do teto remuneratório do inciso XI as
chamadas verbas indenizatórias previstas em lei, tais como diárias,
passagens, ajudas de custo de combustível e alimentação para serviço
externo, hospedagem e outras:
§ 11. Não serão computadas, para efeito dos limites remuneratórios de
que trata o inciso XI do caput deste artigo, as parcelas de caráter
indenizatório previstas em lei.
Por exemplo, suponha que um servidor tenha vencimentos de R$ 8.000,00 e
uma gratificação de desempenho de 20% (R$ 2.000,00), num total de R$ R$
10.000,00. Se posteriormente for instituída uma nova gratificação, digamos,
de conclusão de pós-graduação strito senso, de 10%, esse percentual incidirá
sobre os R$ 8.000,00 e não sobre o total de R$ 10.000,00.
Além das verbas indenizatórias (auxílio-moradia, auxílio-paletó,
ressarcimento de despesas médicas, etc), estão excluídos do teto de
remuneração dos servidores do Judiciário e magistrados (Resolução 14/2006
do CNJ):
i) hipóteses de acumulação de cargos públicos; por exemplo, servidores do
Judiciário ou magistrados que também dê aula em uma universidade pública,
poderão ganhar além do teto remuneratório, se a soma dos contracheques
ultrapassar esse valor;
ii) auxílio-funeral, auxílio-reclusão, auxílio-transporte, diárias, auxílio-
alimentação e outras parcelas indenizatórias previstas em lei;
iii) benefícios recebidos de planos de previdência fechados, ainda que
extintos;
iv) benefícios de caráter temporário ou eventual, como auxílio-creche,
benefícios de plano de assistência médica, abono de permanência em serviço,
bolsa de estudo e devolução de tributos/contribuições previdenciárias
indevidamente recolhidos;
v) acúmulo da função da magistratura com a função eleitoral; é o caso dos
desembargadores de tribunal de justiça que atuem nos Tribunais Regionais
Eleitorais, bem como Ministros do Supremo Tribunal Federal que integram o
Tribunal Superior Eleitoral.
O teto constitucional previsto no art. 37, XI, da Constituição incide em cada
cargo em que é permitida a acumulação de cargos públicos. O Supremo
firmou posição em sede de repercussão geral no sentido de que nas situações
jurídicas em que a Constituição Federal autoriza a acumulação de cargos, o
teto remuneratório é considerado em relação à remuneração de cada um
deles, e não ao somatório do que recebido.
"O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, vencido o Ministro
Edson Fachin, apreciando o tema 377 da repercussão geral, negou provimento
ao recurso e fixou a seguinte tese de repercussão geral: Nos casos autorizados
constitucionalmente deacumulação de cargos, empregos e funções, a
incidência do art. 37, inciso XI, da Constituição Federal pressupõe
consideração de cada um dos vínculos formalizados, afastada a observância
do teto remuneratório quanto ao somatório dos ganhos do agente público".
(RE 612.975/MT, Relator Marco Aurélio, julgamento 27/4/2017)
O STF assentou ainda a impossibilidade de acumulação tríplice de cargos
públicos:
"impossibilidade da acumulação tríplice de cargos públicos, ainda que os
provimentos nestes tenham ocorrido antes da vigência da EC 20/1998. (...) o
art. 11 da EC 20/1998 possibilita a acumulação, apenas, de um provento de
aposentadoria com a remuneração de um cargo na ativa, no qual se tenha
ingressado por concurso público antes da edição da referida emenda, ainda
que inacumuláveis os cargos. Em qualquer hipótese, é vedada a acumulação
tríplice de remunerações, sejam proventos, sejam vencimentos" (ARE 848.993
RG, voto do rel. min. Gilmar Mendes, julg. 6/10/2016).
O inciso XIII do art. 37 trata da não vinculação ou equiparação de espécies
remuneratórias:
XIII - é vedada a vinculação ou equiparação de quaisquer espécies
remuneratórias para o efeito de remuneração de pessoal do serviço
público;
É dizer, não pode ser pleiteado que a remuneração de um auditor do INSS, por
exemplo, seja equiparada à remuneração de um auditor da Receita Federal ou
analista de finanças e controle da CGU. A Constituição Federal
estabelece hipóteses taxativas de limites e parâmetros para determinadas
categorias de vencimentos, como nos dispositivos abaixo:
Art. 29, VI - o subsídio dos Vereadores será fixado pelas respectivas Câmaras
Municipais em cada legislatura para a subseqüente, observado o que dispõe
esta Constituição, observados os critérios estabelecidos na respectiva Lei
Orgânica e os seguintes limites máximos: (...)
Art. 39, § 5º: Lei da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
poderá estabelecer a relação entre a maior e a menor remuneração dos
servidores públicos;
Já o inciso XIV do art. 37 veda o chamado aumento "em cascata" e o inciso XV
estabelece o princípio da irredutibilidade salarial (subsídios e vencimentos):
XIV - os acréscimos pecuniários percebidos por servidor público não serão
computados nem acumulados para fins de concessão de acréscimos ulteriores;
XV - o subsídio e os vencimentos dos ocupantes de cargos e empregos públicos
são irredutíveis, ressalvado o disposto nos incisos XI (teto constitucional) e XIV
(efeito cascata) deste artigo e nos arts. 39, § 4º (subsídio em parcela única), 150,
II, 153, III, e 153, § 2º, I (imposto de renda);
É assente a jurisprudência do Supremo de que não há direito adquirido a
regime jurídico, ficando entretanto, assegurada a irredutibilidade de
vencimentos.
É importante também que você saiba que o STF decidiu que o princípio da
irredutibilidade salarial de que trata o inciso XV do art. 37, além das
limitações que o próprio inciso já prevê, é nominal, ou seja, não pode ser
invocada para reposição da perda de poder aquisitivo em virtude de
desvalorização inflacionária da remuneração ou vencimento.
Segundo o Supremo Tribunal Federal, a mudança de regime jurídico
pertinente à composição dos vencimentos, desde que a eventual
modificação introduzida por ato legislativo superveniente preserve o
montante global da remuneração e, em consequência, não provoque decesso
de caráter pecuniário, não viola o direito adquirido (Dentre outros, RE
227.755 CE, Rel. Min. Dias Tóffoli).
"O Supremo Tribunal Federal fixou jurisprudência no sentido de que não há
direito adquirido à regime jurídico-funcional pertinente à composição dos
vencimentos ou à permanência do regime legal de reajuste de vantagem,
desde que eventual modificação introduzida por ato legislativo superveniente
preserve o montante global da remuneração, não acarretando decesso de
caráter pecuniário. Precedentes". (RE 593.304 AgR, rel. min. Eros Grau, 2ª T, j.
29/9/2009)
não há direito adquirido a regime jurídico pertinente à composição dos
vencimentos, desde que a eventual modificação introduzida por ato
legislativo superveniente preserve o montante global da remuneração e,
em consequência, não provoque decesso de caráter pecuniário. Não há
garantia de manutenção do valor real (atualizado monetariamente) da
remuneração. É possível, portanto, a redução ou mesmo a supressão de
gratificações ou outras parcelas remuneratórias, desde que preservado o
valor nominal da remuneração.
Precedentes: RE n. 597.838-AgR, Relator o Ministro Ricardo Lewandowski, 1ª
Turma, DJe de 24/2/11; RE n. 601.985-AgR, Relatora a Ministra Cármen Lúcia,
1ª Turma, DJe de 1/10/10; RE n. 550.650-AgR, Relator o Ministro Eros Grau, 2ª
Turma, DJe de 27/6/08; RE n. 375.936-AgR, Relator o Ministro Carlos Britto, 1ª
Turma, DJ de 25/8/06.
Além disso, o STF tem assente também a inexistência de direito adquirido a
regime jurídico previdenciário e da aplicação do princípio tempus regit
actum nas relações previdenciárias. Entende não existir direito que possa se
mostrar como adquirido antes de se cumprirem os requisitos imprescindíveis
à aposentadoria, cujo regime constitucional pode vir a ser modificado. Por
exemplo, apenas os servidores públicos que haviam preenchido os requisitos
previstos na EC 20/98, antes do advento da EC 41/2003, adquiriram o direito
de aposentar-se de acordo com as normas naquela previstas, conforme
assegurado pelo art. 3º da EC 41/2003 ("Art. 3º É assegurada a concessão, a
qualquer tempo, de aposentadoria aos servidores públicos, bem como pensão
aos seus dependentes, que, até a data de publicação desta Emenda,
tenham cumprido todos os requisitos para obtenção desses benefícios, com
base nos critérios da legislação então vigente." ( ADI 3105/DF e ADI 3128/DF).
Acumulação de Cargos e Empregos Públicos
É um assunto que adora cair nas provas, e na sua não será diferente. Está
disciplinado nos incisos XVI e XVII do art. 37, além de outros dispositivos que
esquematizamos a seguir:
A disciplina constitucional de acumulação lícita de cargos ou empregos
públicos, havendo compatibilidade de horários, é a seguinte:
a) dois cargos de professor; 1 cargo de professor + 1 cargo técnico ou
científico; 2 cargos privativos da área de saúde; (art. 37, XVI, da CF/88),
estendida a proibição a empregos e funções da administração indireta,
subsidiárias e sociedades controladas pelo poder público (art. 37, XVII, CF/88).
Art. 37.........
XVI - é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando
houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no
inciso XI:
a) a de dois cargos de professor;
b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico;
c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com
profissões regulamentadas;
XVII - a proibição de acumular estende-se a empregos e funções e abrange
autarquias, fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista, suas
subsidiárias, e sociedades controladas, direta ou indiretamente, pelo poder
público;
b) mandato de vereador e cargo ou função pública (art. 38, III da CF/88):
Art. 38.....
III - investido no mandato de Vereador, havendo compatibilidade de horários,
perceberá as vantagens de seu cargo, emprego ou função, sem prejuízo da
remuneração do cargo eletivo, e, não havendo compatibilidade, será aplicada a
norma do inciso anterior;
c) cargo de magistério público e cargo de juiz (art. 95, parágrafo único, I da
CF/88);
Art. 95.....
Parágrafo único. Aos juízes é vedado:
I - exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de
magistério;
d) cargo de magistério público e cargo de membro do Ministério Público;
(art. 128, §5º, II, d daCF/88).
Art. 128....
§ 5º Leis complementares da União e dos Estados, cuja iniciativa é facultada aos
respectivos Procuradores-Gerais, estabelecerão a organização, as atribuições e
o estatuto de cada Ministério Público, observadas, relativamente a seus
membros:
II - as seguintes vedações:
..............
d) exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo
uma de magistério;
e) Proventos de aposentadoria pelo regime próprio de previdência social
de cargos acumuláveis na forma da Constituição, proventos de
aposentadoria do RPPS com cargo eletivo e cargos em comissão (art. 37, §
10º, da CF/88).
Art. 37......
§ 10. É vedada a percepção simultânea de proventos de aposentadoria
decorrentes do art. 40 ou dos arts. 42 e 142 com a remuneração de cargo,
emprego ou função pública, ressalvados os cargos acumuláveis na forma desta
Constituição, os cargos eletivos e os cargos em comissão declarados em lei de
livre nomeação e exoneração.
f) cargo de magistrado e exercício de função eleitoral em Tribunal
Eleitoral, conforme Lei 8.350/1991 e Conselho Nacional de Justiça, Resolução
14/2006; aqui, temos uma hipótese de acumulação de funções e proventos
admitida fora do texto da Constituição.
Além disso, a referida Resolução do CNJ afastou a gratificação do
magistrado pelo exercício de função eleitoral da incidência do teto
remuneratório do inciso XI do art. 37, por considerar a verba de caráter
eventual ou temporário.
g) ressalvadas as aposentadorias decorrentes dos cargos acumuláveis na
forma da Constituição, é vedada a percepção de mais de uma aposentadoria
à conta do regime de previdência do serviço público (art. 40, § 6º);
h) A Emenda Constitucional 77/2014 estendeu aos profissionais de saúde
que atuam nas Forças Armadas a possibilidade de acumulação lícita de
cargos e empregos públicos na área de saúde, modificando o art. 142, § 3º,
incisos II e III da Constituição, que você pode verificar em maiores detalhes no
módulo Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, caso essa parte
caia no seu concurso:
Art. 142........
............
§ 3º Os membros das Forças Armadas são denominados militares, aplicando-
se-lhes, além das que vierem a ser fixadas em lei, as seguintes disposições:
II - o militar em atividade que tomar posse em cargo ou emprego público civil
permanente, ressalvada a hipótese prevista no art. 37, inciso XVI, alínea "c",
será transferido para a reserva, nos termos da lei; (Redação da EC 77/2014)
III - o militar da ativa que, de acordo com a lei, tomar posse em cargo,
emprego ou função pública civil temporária, não eletiva, ainda que da
administração indireta, ressalvada a hipótese prevista no art. 37, inciso XVI,
alínea "c", ficará agregado ao respectivo quadro e somente poderá, enquanto
permanecer nessa situação, ser promovido por antiguidade, contando-se-lhe
o tempo de serviço apenas para aquela promoção e transferência para a
reserva, sendo depois de dois anos de afastamento, contínuos ou não,
transferido para a reserva, nos termos da lei; (Redação da EC 77/2014)
...
VIII - aplica-se aos militares o disposto no art. 7º, incisos VIII, XII, XVII, XVIII, XIX
e XXV, e no art. 37, incisos XI, XIII, XIV e XV, bem como, na forma da lei e com
prevalência da atividade militar, no art. 37, inciso XVI, alínea "c"; (Redação da
EC 77/2014)
i) A Emenda Constitucional 101/2019 incluiu os militares estaduais nas
hipóteses de acumulação do inciso XVI:
Art. 42 Os membros das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares,
instituições organizadas com base na hierarquia e disciplina, são militares dos
Estados, do Distrito Federal e dos Territórios.
......
§ 3º Aplica-se aos militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios o
disposto no art. 37, inciso XVI, com prevalência da atividade militar. (Incluído
pela EC 101/2019)
Observações:
I - Naturalmente, a possibilidade de cumulação de cargos de magistério a que
se refere a Constituição diz respeito ao magistério público. Se o juiz,
promotor ou ocupante de cargo técnico-científico exercer o magistério em
instituição de ensino particular, poderá fazê-lo em quantas desejar,
conquanto haja compatibilidade de horários com a função pública que exerce.
II - Bem, o que precisamos verificar agora é esse tal cargo técnico-científico.
A maior parte das questões da espécie que chegaram ao Supremo Tribunal
Federal o foram pela via do recurso extraordinário, que não admite reanálise
de fato ou reexame de provas, para aferir se o cargo é técnico-científico ou
não. Num dos poucos julgados do Supremo em que se referiu à questão , o
STF assim se manifestou:
"Acumulação de emprego de atendente de telecomunicações de sociedade de
economia mista, com cargo público de magistério. Quando viável, em recurso
extraordinário, o reexame das atribuições daquele emprego (atividade de
telefonista), correto, ainda assim, o acórdão recorrido, no sentido de se
revestirem elas de "características simples e repetitivas", de modo a afastar-se
a incidência do permissivo do art. 37, XVI, "b", da Constituição". No tocante
às atividades relacionadas ao cargo de atendente de telecomunicações, é
exigido o conhecimento técnico específico, com submissão a cursos
específicos ."( AI 192.918-AgR/DF, rel. Min. Octavio Gallotti, julg. em 3.6.1997)
Restou ao Superior Tribunal de Justiça e ao Tribunal de Contas da
União deliberarem a respeito. Segundo o STJ, cargo técnico ou científico,
para fins de acumulação com o de professor, nos termos do art. 37, XVII, da Lei
Fundamental, é aquele para cujo exercício sejam exigidos conhecimentos
técnicos específicos e habilitação legal, não necessariamente de nível
superior. ( STJ, 5ª Turma, RMS 20.033/RS, Relator Ministro Arnaldo Esteves
Lima, DJ de 12.03.2007).
Para o TCU, a conceituação de cargo técnico ou científico, para fins da
acumulação permitida pelo texto constitucional, abrange os cargos de nível
superior e os cargos de nível médio cujo provimento exige a habilitação
específica para o exercício de determinada atividade profissional, a
exemplo do técnico em enfermagem, do técnico em contabilidade, entre
outros (Acórdão 408/2004-TCU-1ª Câmara e outros)
Abrange, por exemplo: técnico de redes de informática, técnico em
contabilidade, engenheiro, advogado, auditor, analista de sistemas, analista
judiciário área judiciária (exige o curso de Direito) etc etc. Dessa forma, o
Superior Tribunal de Justiça tem entendido inconstitucional a acumulação de
cargo de natureza burocrática com o de magistério.
As bancas oscilam no assunto, mas tem prevalecido o entendimento que
expus acima. O Cespe/Unb já considerou inconstitucional o acúmulo do
cargo de analista de controle externo do TCU com o de professor:
(Cespe/Analista de Controle Externo/Auditoria/2008) Maria, servidora pública
federal, com 25 anos de idade, tomou posse e entrou em exercício no seu cargo
efetivo de analista no TCU, cargo para o qual se exige formação de nível
superior em qualquer área do conhecimento. Tempos depois, ela tomou posse e
entrou em exercício no cargo público de professor universitário, na Universidade
de Brasília (UnB). Somente um ano depois de ter tomado posse na UnB, Maria
comunicou esse fato ao setor de pessoal do TCU, ocasião em que tomou posse
em cargo em comissão nesse tribunal.
A respeito da situação hipotética acima, julgue os seguintes itens.
O exercício do cargo de analista é legalmente acumulável com o cargo de
professor, conforme jurisprudência do STJ, desde que haja compatibilidade
de horários. Gabarito: Errado.
Agora veja esta questão da ESAF. A banca considerou que o cargo de Auditor
da Receita (aposentado) ou de Gestor, que não exigem curso superior
específico, são acumuláveis com o deprofessor universitário público, pois o
gabarito da questão foi "c" (veja que a estão é antiga)!
(ESAF/Especialista em Políticas Públicas/MPOG/2002) Tratando-se de
acumulação de cargos e empregos públicos, avalie a seguinte situação:José,
Auditor aposentado da Receita Federal, é Professor da autarquia Universidade
Federal do Rio de Janeiro — UFRJ. Pretende, agora, submeter-se ao concurso
público para Gestor governamental. Uma vez aprovado, aponte a sua conduta
licita.
a) Pediria licença sem remuneração da UFRJ para tomar posse como Gestor.
b) Poderia assumir o novo cargo, sem qualquer alteração em sua situação
funcional.
c) Somente poderia assumir o novo cargo de Gestor se renunciasse à
aposentadoria de Auditor.
d) Para assumir o novo cargo de Gestor, teria de deixar o magistério na UFRJ e
renunciar à aposentadoria de Auditor.
e) Pediria aposentadoria proporcional na UFRJ para tomar posse como Gestor.
Já a FCC seguiu a posição do CESPE, marcando como correta a alternativa
"d", conforme a questão a seguir:
(FCC/Analista Judiciário/Área Judiciária/2003) A Constituição Federal veda a
percepção simultânea de remuneração de cargo público com proventos de
aposentadoria à conta do regime previdenciário previsto para os servidores
públicos, ressalvando alguns casos em que possibilita essa acumulação. Assim é
que os proventos de aposentadoria no cargo de analista judiciário junto ao TRT
da 5ª Região
a) poderão ser acumulados com a remuneração de cargo vinculado ao Poder
Judiciário Federal.
b) poderão ser acumulados com a remuneração de um cargo privativo de
profissionais da saúde.
c) não poderão ser acumulados com a remuneração de qualquer outro cargo
público.
d) poderão ser acumulados com a remuneração de um cargo de professor.
e) poderão ser acumulados com a remuneração de um cargo de médico.
Bem, como a questão apenas mencionou "analista judiciário", não indicando
qualquer especialização, ficamos na dúvida. O cargo da prova era para a área
judiciária, área fim, mas isso não ficou claro na questão!! Diante desse
"salseiro", só nos resta acompanhar a "jurisprudência" dos tribunais e "das
bancas"!!!!!
O inciso XVII do art. 37 determina ainda que a proibição de acumular
estende-se a empregos e funções e abrange autarquias, fundações,
empresas públicas, sociedades de economia mista, suas subsidiárias, e
sociedades controladas, direta ou indiretamente, pelo poder público.
Cumpre acrescentar que o Supremo Tribunal Federal, no julgamento dos
RE's 602.043 e 612.975, decidiu que deve ser aplicado o teto remuneratório
constitucional de forma isolada para cada cargo público acumulado, nas
formas autorizadas pela Constituição, aprovando a seguinte tese de
repercussão geral:
"Nos casos autorizados, constitucionalmente, de acumulação de cargos,
empregos e funções, a incidência do artigo 37, inciso XI, da Constituição
Federal, pressupõe consideração de cada um dos vínculos formalizados,
afastada a observância do teto remuneratório quanto ao somatório dos
ganhos do agente público" ( RE 602.043 e 612.975, rel. Min. Marco Aurélio, julg.
em 27/4/2017).
Precedência da Administração Fazendária
Dois incisos do art. 37 tratam especialmente do setor fazendário e tributário
das administrações federal, estaduais e municipais. Isso ocorre, naturalmente,
em função de que a atividade tributária represente a principal fonte de renda
do Estado, receita derivada dos tributos impostos aos cidadãos-contribuintes,
para que o Estado possa, teoricamente, devolvê-los em forma de serviços e
produtos úteis à coletividade.
XVIII - a administração fazendária e seus servidores fiscais terão, dentro de
suas áreas de competência e jurisdição, precedência sobre os demais
setores administrativos, na forma da lei;
XXII - as administrações tributárias da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, atividades essenciais ao funcionamento do
Estado, exercidas por servidores de carreiras específicas, terão recursos
prioritários para a realização de suas atividades e atuarão de forma
integrada, inclusive com o compartilhamento de cadastros e de
informações fiscais, na forma da lei ou convênio.
Mas o que significa essa “precedência” sobre os demais setores
administrativos? Algum privilégio especial de casta??
Nada disso. Os servidores da administração fazendária compõem aquilo que
se convencionou chamar, no Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado,
uma das carreiras típicas de Estado, assim como os militares, gestores,
auditores, policiais federais e outros.
Assim, a administração tributária é função essencial para a própria
manutenção do Estado e de sua atuação. Assim, a precedência possui um
caráter objetivo e um subjetivo.
O caráter objetivo diz respeito à estrutura da gestão fazendária, articulada no
âmbito federal, estadual e municipal, dentro do poder de auto-organização de
cada ente federado, estrutura essa que disporá prioritariamente dos recursos
necessários à execução de suas atividades de arrecadação e fiscalização.
O caráter subjetivo diz respeito aos servidores que atuam na gestão
fazendária, estabelecidos em carreira típica de Estado, e com atenção especial
no que se refere a remuneração, estabilidade, prerrogativas e planos de
carreira.
Exemplo do caráter objetivo da precedência é que o STF, por
maioria, entendeu constitucionais dispositivos da Lei 105/2001 que
permitem à Receita Federal receber dados bancários de contribuintes
fornecidos diretamente pelos bancos. O Relator dos processos, Dias Toffoli,
destacou, em seu voto, que não se trata propriamente a quebra de sigilo
bancário, o que pressupõe a circulação desses dados, mas sim a transferência
desse sigilo dos bancos ao agentes do Fisco, e que a lei prevê severas punições
ao servidor público que vazar essas informações (RE 601.314, rel. min. Edson
Fachin e ADIs 2.859, 2.390, 2.386 e 2.397, rel. min. Dias Toffoli, julg. em
24/2/2016).
Mais recentemente ainda, permitiu ao Tribunal de Contas da União acessar
essas informações, quando estiverem em análise suspeitas de desvio de
recursos públicos federais.
Administração Pública Indireta
Estabelece o inciso XIX do art. 37 que:
XIX - somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a
instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de
fundação, cabendo à lei complementar, neste último caso, definir as áreas
de sua atuação.
Ou seja: Autarquia e Fundação Pública de Direito Público: criação por lei
específica;
Fundação pública de direito privado e empresas estatais e suas subsidiárias:
criação autorizada por lei específica.
Atente para o fato de que existe a figura jurídica da Fundação Autárquica, ou
seja, Fundação com formato de autarquia, pessoa jurídica de direito público,
e que exige lei específica para sua criação (ex. Fundação Universidade de
Brasília). A fundação cuja criação é autorizada por lei, é a fundação pública
de direito privado, ou seja, com o mesmo regime jurídico de direito
privado das empresas públicas e das sociedades de economia mista.
É dizer: para criação de autarquia ou fundação autárquica (por exemplo,
Fundação Universidade de Brasília), é a própria lei que irá criar a entidade da
Administração Indireta. Nos demais casos, a lei autorizará a criação, que
poderá se dar, por exemplo, por decreto ou no registro civil. No caso da
fundação pública de direito privado, a personalidade é adquirida com a
inscrição da escritura pública de sua constituição no Registro Civil de Pessoas
Jurídicas. Exemplo de fundação pública de direito privado? A Fundação
Roquette Pinto, que foi qualificada como organização social pela Lei
9.637/1998.
Portanto, a leiserá de criação para autarquia e de autorização para empresa
pública, sociedade de economia mista e fundação, cabendo, neste último
caso, a uma outra lei complementar, definir as áreas de sua atuação.
Vale aqui ainda relembrar o conceito de autarquia, visto na parte de Direito
Administrativo: trata-se de um serviço da administração autônomo,
criado por lei, com personalidade jurídica,patrimônio e receita próprios, para
executar ATIVIDADES TÍPICAS da Administração Pública, que requeiram, para
seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira
descentralizada.
Outras espécies de autarquia (pessoas jurídicas de direito público) abrangem
as autarquias territoriais (Territórios Federais), as autarquias em regime
especial (agências executivas e agências reguladoras), autarquias
profissionais (conselhos de fiscalização profissional), associações públicas e
outras.
Guarde ainda outra dica importante, relacionada à interpretação do inciso XX
do mesmo artigo:
XX - depende de autorização legislativa, em cada caso, a criação de
subsidiárias das entidades mencionadas no inciso anterior, assim como a
participação de qualquer delas em empresa privada;
Com relação a este inciso XX, o Supremo Tribunal Federal assentou o
entendimento de que se a lei de criação ou que autorizou a criação da
empresa pública ou da sociedade de economia mista contiver autorização
para a criação de subsidiárias, não haverá necessidade de uma
autorização legislativa para cada nova empresa controlada do grupo (ADI
1.649, rel. Min. Maurício Corrêa, julg. em 25/3/1994).
Essa autorização só será imprescindível se os estatutos jurídicos da estatal
não previrem a possibilidade de criação de subsidiárias.
Ressalte-se que essas subsidiárias, pessoas jurídicas de direito privado, assim
como as estatais que lhes deram origem, diferentemente destas últimas, não
pertencem à Administração Indireta.
O quadro a seguir sintetiza as principais características das entidades da
administração indireta, que você estudará com mais detalhes na disciplina
Direito Administrativo:
Importante ainda anotar que as autarquias submetem-se ao
chamado controle finalístico do órgão ao qual ela se vincula. Não se trata de
hierarquia, mas de obediência às orientações políticas e estratégicas
emanadas do Ministério vinculante. Por exemplo, o INSS, autarquia federal,
deverá seguir, na execução de suas políticas, as diretrizes previdenciárias
emanadas do Ministério da Previdência e Assistência Social.
Por fim, vale lembrar que as entidades da Administração Indireta
possuem personalidade jurídica própria. É dizer, podem postular em juízo,
pois detém capacidade postulatória, o que sói acontecer com quem detenha
personalidade jurídica, seja de direito público ou de direito privado.
Já os órgãos, integrantes da Administração Direta, não possuem
personalidade jurídica, são entes despersonalizados, pois essa pertence à
pessoa política respectiva - União, Estado, DF ou município. Desse modo, não
poderiam postular em nome próprio, sendo representados judicialmente por
órgão específico, que no caso da União, é a Advocacia Geral da União. Por
exemplo, o Ministério Público da União não possui personalidade jurídica,
quem tem é a União, Pessoa Jurídica de Direito Público Interno. Então, de
ordinário, esses Órgãos não poderiam exercer atos processuais próprios de
pessoas jurídicas ou físicas.
Contudo, o STF manifestou-se no sentido de que alguns Órgãos, notadamente
aqueles com status constitucional – tribunais, tribunais de contas,
procuradorias, advocacias públicas, possuem algumas prerrogativas
processuais próprias das pessoas jurídicas, tais como figurarem em pólo ativo
e passivo de mandado de segurança, realizar sustentação oral em juízo,
dentre outras.
"...personalidade judiciária (capacidade para ser parte) ou mesmo, como no
caso, capacidade processual (para estar em juízo). Tal legitimidade existe
quando o órgão despersonalizado, por não dispor de meios extrajudiciais
eficazes para garantir seus direitos-função contra outra instância de Poder do
Estado, necessita da tutela jurisdicional. Essa capacidade, que decorre do
próprio sistema de freios e contrapesos, não exime o julgador de verificar a
legitimidade ad causam do órgão despersonalizado, isto é, sua legitimidade
para a causa concretamente apreciada (RE 595.176, Rel. Min. Joaquim
Barbosa, julg. 12/4/2010)".
No final de 2017, o Supremo reafirmou a tese de que as empresas públicas e
sociedades de economia mista não têm direito à prerrogativa de execução
via precatório, previsto no art. 100 da CF .
A 1ª turma do STF entendeu pela aplicação do art. 173, §1º, inciso II, da CF, o
qual submete a empresa pública ao regime jurídico próprio das empresas
privadas, inclusive quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais,
trabalhistas e tributários. Observou incongruente considerar os bens
integrantes do patrimônio de empresas públicas, enquanto pessoas jurídicas
de direito privado, como bens públicos, a fim de gozar das vantagens
decorrentes do regime de precatórios (RE 851.711 AgR/DF, rel. Min. Marco
Aurélio, julgamento em 12/12/2017).
Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta
de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos
imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme
definidos em lei.
§ 1º A lei estabelecerá o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de
economia mista e de suas subsidiárias que explorem atividade econômica de
produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, dispondo
sobre:
(...) II - a sujeição ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive
quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais, trabalhistas e tributários;
Essa norma é a Lei 13.303/2016, que dispôs sobre o estatuto jurídico da
empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias, no
âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.
A Constituição estabelece a competência dos juízes federais para processar e
julgar as causas, em geral, em que a União, entidade autárquica ou empresa
pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes
ou oponentes e as infrações penais praticadas em detrimento de bens,
serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas
públicas, excluídas as contravenções e ressalvada as causas judiciais de
falência, as de acidentes de trabalho e a competência da Justiça Militar, da
Justiça do Trabalho e da Justiça Eleitoral, nos termos do art. 109, I e IV, da CF:
Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal
forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes,
exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça
Eleitoral e à Justiça do Trabalho; (...)
IV - os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de
bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou
empresas públicas, excluídas as contravenções e ressalvada a competência da
Justiça Militar e da Justiça Eleitoral;
E as empresas estatais dependentes, ou executoras de serviços púbicos?
Essas também não se sujeitam ao regime de precatórios, tendo o
professor/Ministro Alexandre de Moraes ficado vencido nesse ponto, no
mesmo julgado acima citado.
Improbidade Administrativa
A improbidade administrativa bem como a prescritibilidade das ações contra
atos de agentes contra o erário, estão previstas no art. 37, §§ 4º e 5º:
§ 4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos
direitos políticos, a perda da função pública,a indisponibilidade dos
bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei,
sem prejuízo da ação penal cabível.
§ 5º - A lei estabelecerá os prazos de prescrição para ilícitos praticados por
qualquer agente, servidor ou não, que causem prejuízos ao
erário, ressalvadas as respectivas ações de ressarcimento.
Quanto às ações de ressarcimento, o STF havia assentado que
são imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário, ex vi do que
decidido no âmbito do MS 26.210-9/DF, que cuidou de processos de tomada
de contas especial perante o Tribunal de Contas da União. Entretanto, mais
recentemente, nos autos do RE 669.069, relator Min. Teori Zavascki, os
Ministros da Suprema Corte firmaram tese de repercussão geral no sentido de
que “é prescritível a ação de reparação de danos à Fazenda Pública
decorrente de ilícito civil". Essa tese não alcança prejuízos que decorram
de atos de improbidade administrativa, espécie de ilícito civil, regida pela
Lei 8.429/1992 ou os de direito penal, que permanecem imprescritíveis.
O Supremo considerou que a ressalva contida no final do parágrafo 5º do art.
37 da Constituição Federal, o qual remete à lei a fixação de prazos de
prescrição para ilícitos que causem prejuízos ao erário, mas excetua as
respectivas ações de ressarcimento, deve ser interpretado de forma restrita.
Uma interpretação ampla da ressalva final conduziria à imprescritibilidade de
toda e qualquer ação de ressarcimento movida pelo erário, mesmo as
fundadas em ilícitos civis que não decorram de culpa ou dolo.
Dessa decisão, a Procuradoria-Geral da República opôs embargos de
declaração, o que instou o STF, em 16/6/2016, a posicionar-se mais
claramente acerca de alguns pontos, especialmente quanto à delimitação do
alcance do julgado, não obstante formalmente tenha rejeitado os embargos:
i) a tese da prescritibilidade alcança somente os atos danosos ao erário que
violem normas de direito privado, como, por exemplo, acidentes de trânsito
provocados por agentes públicos ou privados que causem dano ao erário;
ii) A prescritibilidade da pretensão de ressarcimento ao erário em face de
agentes públicos por ato de improbidade administrativa, objeto do Tema
897 de repercussão geral, ou atos cometidos no âmbito de relações jurídicas
de caráter administrativo, não foi alcançada pela tese da prescritibilidade
fixada no julgado embargado;
iii) a tese firmada no julgamento do MS 26.210/DF já foi apreciada nos autos
do RE 636.886, prescrevem em cinco anos as pretensões de ressarcimento
ao erário decorrentes decisões do TCU em processos de tomada de contas
especial (Tema 899 de repercussão geral).
Tema 899: Possui repercussão geral a controvérsia relativa à prescritibilidade
da pretensão de ressarcimento ao erário fundada em decisão de Tribunal de
Contas.
Fixação da seguinte tese para o TEMA 899: “É prescritível a pretensão de
ressarcimento ao erário fundada em decisão de Tribunal de Contas”.
Segundo o STF,
"3. A excepcionalidade reconhecida pela maioria do SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL no TEMA 897, portanto, não se encontra presente no caso em
análise, uma vez que, no processo de tomada de contas, o TCU não julga
pessoas, não perquirindo a existência de dolo decorrente de ato de
improbidade administrativa, mas, especificamente, realiza o julgamento
técnico das contas à partir da reunião dos elementos objeto da fiscalização e
apurada a ocorrência de irregularidade de que resulte dano ao erário,
proferindo o acórdão em que se imputa o débito ao responsável, para fins de
se obter o respectivo ressarcimento. 4. A pretensão de ressarcimento ao erário
em face de agentes públicos reconhecida em acórdão de Tribunal de Contas
prescreve na forma da Lei 6.830/1980 (Lei de Execução Fiscal)".
(RE 636.886/AL, rel. Min. julgamento em 20/4/2020)
O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a
imprescritibilidade de ações de ressarcimento de danos ao erário decorrentes
de ato doloso de improbidade administrativa, mas não de ato culposo:
"Nos casos em que o Constituinte visou prever a imprescritibilidade, ele o fez.
Não cabe ao intérprete excluir do campo da aplicação da norma situação
jurídica contemplada, como não cabe também incluir situação não prevista.
(...) O comando estabelece, como um verdadeiro ideal republicano, que a
ninguém, ainda que pelo longo transcurso de lapso temporal, é autorizado
ilicitamente causar prejuízo ao erário, locupletando-se da coisa pública ao se
eximir do dever de ressarci-lo". (RE 852.475, rel. min. Alexandre de Moraes julg.
em 8/8/2018)
Foi aprovada a seguinte tese de repercussão geral:
"São imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário fundadas na prática
de ato doloso tipificado na Lei de Improbidade Administrativa".
Bem, preciso agora que você guarde que o Supremo Tribunal Federal, nos
autos da Reclamação 2138-6, havia decidido que os agentes políticos que
respondiam constitucionalmente por crime de responsabilidade, não
respondiam segundo a lei de improbidade administrativa, mas apenas
pelo crime de responsabilidade, definido na Constituição e em lei federal (Lei
1.079/1950). Em regra esses agentes políticos são, além dos Chefes do Poder
Executivo federal, estadual e municipal, os Ministros do Supremo Tribunal
Federal, os Ministros de Estado e os Secretários estaduais e municipais,
além do Chefe do Poder Legislativo Municipal (Constituição Federal e Lei
1079/1950).
Entretanto, posteriormente, o Supremo assentou a repercussão geral da
questão para permitir o julgamento, por ação civil de improbidade
administrativa, de agentes políticos com prerrogativa por foro de
função, à exceção do Presidente da República, ao argumento, já exarado
nos autos da Pet 3.923-QO, Rel. Min. Joaquim Barbosa, de que “as condutas
descritas na lei de improbidade administrativa, quando imputadas a
autoridades detentoras de prerrogativa de foro, não se convertem em crimes
de responsabilidade", assentando aí o princípio da independência das
instâncias (ARE 683.235/PA, Red. p/ o Ac. Min. Gilmar Mendes, Plenário, julg.
30/8/2012). Lembre-se ainda que aquela decisão da Reclamação 2138-6 não
detinha eficácia erga omnes e efeito vinculante, apesar de ter se tornado um
orientador para julgamentos posteriores da Suprema Corte; entretanto, o
entendimento ali assentado foi superado.
Mais recentemente, o Supremo reiterou este entendimento, de que os agentes
políticos, à exceção do Presidente da Republica, que só responde por crime de
responsabilidade estão sujeitos a uma “dupla normatividade em matéria de
improbidade, com objetivos distintos”, tanto aquela fundada na Lei nº
8.429/92, quanto aquela decorrente da Lei nº 1.079/50. Desse modo,
Governador de Estado, em pleno exercício de seu mandato eletivo, tanto
quanto o que não mais exerce mandato eletivo, submete-se, em tema de
processo civil de improbidade administrativa, ao regime jurídico da Lei nº
8.429/92, definindo a competência de órgãos judiciários de primeira
instância, ou seja, confirmando também a ausência de prerrogativa de
foro por função para ações de natureza civil:
"O que se conclui, em suma, é que, excetuada a hipótese de atos de
improbidade praticados pelo Presidente da República (sujeitos, por força
da própria Constituição, a regime especial), não há norma constitucional
alguma que imunize os agentes políticos, sujeitos a crime de
responsabilidade, de qualquer das sanções por ato de improbidade previstas
no art. 37, § 4º. Seria igualmente incompatível com a Constituição eventual
preceito normativo infraconstitucional que impusesse imunidade dessa
natureza" (RE 803.297/RS, rel. min. Celso de Mello, julg. 6/2/2017).
Bem, as consequências para os condenados por improbidade administrativa,
cuja regulamentação está contida na Lei 8.429/1992,incluem:
I - SUSPENSÃO dos direitos políticos (e não cassação);
II - PERDA da função pública;
III - INDISPONIBILIDADE dos bens;
IV - RESSARCIMENTO ao erário.
A decisão terá que transitar em julgado para a suspensão dos direitos
políticos, conforme já se pronunciou o Supremo:
"3. Competência do Tribunal de origem para suspender os direitos políticos de
membro do Congresso Nacional. Permite-se ao Poder Judiciário decretar a
suspensão dos direitos políticos nos casos de improbidade administrativa,
cabendo à respectiva Casa apenas dar fiel execução à decisão transitada em
julgado e declarar a perda do mandato do parlamentar. Precedentes. (...) 17.
Nesse contexto, afastada a incidência do § 2º do art. 55 da Constituição à
hipótese, conclui-se que pode o Poder Judiciário decretar a suspensão dos
direitos políticos nos casos de improbidade administrativa, cabendo ao Poder
Legislativo, apenas, dar fiel execução à decisão transitada em julgado e
declarar a perda do mandato". (AgR-RE 640.466/DF, rel. Min. Roberto Barroso,
julg. em 26/9/2014)
Importante ainda você saber que a Ação de Improbidade não possui natureza
penal, mas sim civil. Nesse sentido, não se submete ao foro por
prerrogativa de função, assim como as demais ações de natureza cível,
interpostas contra autoridades políticas, tais como a ação civil pública e a
ação popular.
Quanto à prescritibilidade de atos ilícitos cometidos por agentes públicos,
servidores ou não, prevista no § 5º do art. 37, acima transcrito, a Lei
8.112/1990 estabeleceu diversos prazos de prescrição para punição dos
agentes, que não iremos tratar aqui em detalhes por ser matéria de Direito
Administrativo. Entretanto, de forma resumida, os prazos para punição no
âmbito do Processo Administrativo Disciplinar são:
I - 5 anos:
II - 2 anos:
III - 180 dias:
Por força da jurisprudência do Supremo, consolidada na Súmula Vinculante nº
5, a falta de defesa técnica por advogado no PAD não viola o direito à ampla
defesa e ao contraditório, consectários do devido processo legal, previstos
no art. 5º, LIV e LV, da Constituição:
Súmula Vinculante 5/STF. A falta de defesa técnica por advogado no processo
administrativo disciplinar não ofende a Constituição.
Os prazos começam a correr a partir de quando o fato se tornou conhecido
pela Administração, e podem ser interrompidos pela abertura da sindicância
ou instauração do PAD, iniciando novamente a contagem do prazo desde o
início após a decisão do processo.
Responsabilidade Civil do Estado
Importante tópico, que despenca (não cai) nas provas de Direito
Constitucional e Direito Administrativo. Dispõe o § 6º do art. 37:
§ 6º - As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras
de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa
qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o
responsável nos casos de dolo ou culpa.
No ordenamento constitucional e jurídico brasileiro, a responsabilidade do
poder público é objetiva, adotando-se a Teoria do Risco Administrativo, e
que é fundada na ideia de solidariedade social, ou seja, na justa repartição dos
ônus decorrentes da prestação dos serviços públicos, exigindo-se a presença
dos seguintes requisitos:
I - dano;
II - conduta administrativa e
III - nexo causal entre a conduta da administração e o dano causado a terceiro.
Sendo a responsabilidade objetiva, não é necessária a demonstração do
elemento volitivo subjetivo da conduta - dolo ou culpa. A culpa ou o dolo do
agente somente serão verificados no caso de ação regressiva do Estado, que é
uma ação proposta contra o agente causador do dano para ressarcimento do
Erário, que arcou com a indenização ao particular.
Admite-se o abrandamento ou mesmo a exclusão da responsabilidade
objetiva do Estado, se coexistirem atenuantes ou excludentes que atuem
sobre o nexo de causalidade, como a culpa concorrente ou exclusiva da
vítima, respectivamente. A conduta administrativa diz respeito à função
pública exercida pelo agente, seja de um órgão, de uma entidade da
administração ou mesmo de uma concessionária de serviço público.
Isso porque a teoria do risco administrativo impõe o dever de
indenizar independentemente da culpa do agente. Afere-se, tão somente, a
culpa concorrente ou exclusiva da vítima, quando se aferirá o abrandamento
ou exclusão da responsabilidade do Estado. No caso da culpa exclusiva da
vítima, fica afastado o dever de indenizar do Estado. Essa tese é
corroborada pelo Supremo Tribunal Federal:
"A administração pública pode anular seus próprios atos, quando inquinados
de ilegalidade (Súmula 473) mas, se a atividade do agente público acarretou
danos patrimoniais ou morais a outrem – salvo culpa exclusiva dele –, eles
deverão ser ressarcidos, de acordo com o disposto no art. 37, § 6º, da CF" ( RE
460.881, rel. min. Sepúlveda Pertence, j. 18/4/2006, 1ª Turma).
"A discussão relativa à responsabilidade extracontratual do Estado, referente
ao suicídio de paciente internado em hospital público, no caso, foi excluída
pela culpa exclusiva da vítima, sem possibilidade de interferência do ente
público". ( RE 318.725 AgR, rel. min. Ellen Gracie, julg. 16/12/2008, 2ª Turma).
Mas nem sempre foi assim. As bancas adoram transitar entre as diversas
teorias da responsabilidade do Estado, que resumimos abaixo pra você:
1º ⇒ irresponsabilidade total do Estado;
2º ⇒ culpa civil: Havia a diferenciação entre atos de império sem
responsabilidade, e os atos de gestão, que eram responsabilizados desde que
com culpa do agente;
3º ⇒ culpa civil subjetiva: responsabilidade subjetiva, na qual era necessário
provar o dolo ou a culpa do agente (elementos subjetivos), e nexo causal (já
havia elementos objetivos). Essa é aplicada hoje na ampla maioria das
relações particulares.
4º ⇒ culpa administrativa ou culpa anônima: estágio de transição entre a
doutrina civilista e a tese objetiva do risco administrativo. Exige apenas a
comprovação da falta do serviço (faute du service) e independe do agente.
5º ⇒ teoria do risco objetivo ou risco administrativo: é a nossa atual teoria
vigente, que prescinde do elemento subjetivo, bastando o nexo de
causalidade entre o dano e o ato do agente. Para danos nucleares, não há
consenso na doutrina. Boa parte entende que se aplica o risco administrativo
para as ações e as omissões estatais. Como não tivemos, até hoje, nenhum
desastre nuclear de grandes proporções, a teoria não foi posta à prova.
6º ⇒ Em se tratando de omissão no cumprimento do dever genérico, o
Supremo Tribunal Federal havia historicamente decidido que somente é
possível perquirir a responsabilidade subjetiva do Poder Público (STF, 2ª
Turma, RE nº 369.820/RS, rel. Min. Carlos Velloso, julg. em 04/11/2003).
Entretanto, esse posicionamento foi invertido no recurso extraordinário nº
841.526, relator ministro Luiz Fux, oportunidade na qual ficou consolidado
o entendimento quanto à necessária observância do artigo 37, § 6º, da
Constituição Federal no tocante a omissões administrativas
(responsabilidade objetiva):
"1. A responsabilidade civil estatal, segundo a Constituição Federal de 1988,
em seu artigo 37, § 6º, subsume-se à teoria do risco administrativo, tanto para
as condutas estatais comissivas quanto paras as omissivas, posto rejeitada a
teoria do risco integral. 2. A omissão do Estado reclama nexo de causalidade
em relação ao dano sofrido pela vítima nos casos em que o Poder Público
ostenta o dever legal e a efetiva possibilidade de agir para impedir o resultado
danoso. 3. É dever do Estado e direito subjetivo do preso que a execução da
pena se dê de forma humanizada, garantindo-se os direitos fundamentaisdo
detento, e o de ter preservada a sua incolumidade física e moral (artigo 5º,
inciso XLIX, da Constituição Federal)".
Posteriormente, o Supremo confirmou esse vertente, ao julgar recurso
extraordinário em que o recorrente teve o caminhão roubado enquanto era
lavrado auto de infração por excesso de peso por parte da concessionária de
serviços de gestão rodoviária. Na hipótese em apreço, o Tribunal assentou
a responsabilidade objetiva da empresa concessionária de serviço público,
pela omissão no dever de guarda do veículo estacionado em suas
dependências enquanto era lavrado o auto de infração:
"A Turma reconheceu o nexo causal entre a conduta omissiva da empresa
prestadora de serviços que deixou de agir com o cuidado necessário quanto à
vigilância no posto de pesagem, por ocasião do estacionamento obrigatório
do veículo para lavratura do auto de infração, e o dano causado ao recorrente.
Desse modo, entendeu caracterizada a falha na prestação e organização do
serviço. Afirmou não haver espaço para afastar
a responsabilidade, independentemente de culpa, ainda que sob a óptica da
omissão, ante o princípio da legalidade, presente a teoria do risco
administrativo. A responsabilidade objetiva do Estado tem por fundamento a
proteção do cidadão, que se encontra em posição de subordinação e está
sujeito aos danos provenientes da ação ou omissão do Estado, o qual deve
suportar o ônus de suas atividades". (RE 598.356/SP, rel. min. Marco Aurélio,
julg. em 8/5/2018)
7º A teoria do risco integral, que impõe a responsabilidade do Estado,
mesmo quando há culpa exclusiva da vítima, nunca foi acolhida em nosso
ordenamento.
Apesar de a teoria do risco administrativo a regra geral, o Supremo Tribunal
Federal reconheceu a possibilidade de responsabilização objetiva na hipótese
de “infração a um dever específico de cuidado”. Foi o que ocorreu em
julgamento no qual a Administração Pública omitiu-se em garantir
a indenidade física dos presos (RE 841.526/RS, rel. Min. Luiz Fux, julg. em
20/03/2016).
É plenamente admissível que surja um dano em decorrência de lei
inconstitucional, caso em que o Estado não poderá afastar sua
responsabilidade civil objetiva em face da atuação indevida do Poder
Legislativo. Essa posição é adotada tanto pela doutrina (José dos Santos
Carvalho Filho), quanto chancelada pelo Supremo:
“Desse modo, é plenamente possível que, se o dano surge em decorrência de
lei inconstitucional, a qual evidentemente reflete atuação indevida do órgão
legislativo, não pode o Estado simplesmente eximir-se da obrigação de
repará-lo, porque nessa hipótese configurada estará a sua responsabilidade
civil. Como já acentuou autorizada doutrina, a noção de lei inconstitucional
corresponde à de ato ilícito, provocando o dever de ressarcir os danos
patrimoniais dele decorrentes.” (FILHO, José dos Santos Carvalho. Manual de
Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Atlas. 2017, p. 614)
Segundo o STF:
"O Supremo Tribunal Federal consagrou esse entendimento e prestigiou essa
orientação em pronunciamentos nos quais deixou consignado que "O Estado
responde civilmente pelo dano causado em virtude de ato praticado com
fundamento em lei declarada inconstitucional." (RDA 20/42, ReI. Min. CASTRO
NUNES) (...) Todas essas considerações - que traduzem mera reflexão sobre os
efeitos decorrentes de comportamentos legislativos inconstitucionais do
Poder Público - decorrem de minha pessoal convicção sobre a
inconstitucionalidade do bloqueio dos cruzados novos, já registrada, quanto
aos seus fundamentos jurídicos, por ocasião do julgamento da ADIn 534-DF"
(RE 158.962, rel. Min. Celso de Mello, julg. em 4/12/1992)
Algumas premissas importantíssimas que eu desejo que você guarde em
relação a este tópico:
I - Para configurar a responsabilidade civil do Estado, o agente público
causador do prejuízo a terceiros deve ter agido na qualidade de agente
público, sendo irrelevante o fato de ele atuar dentro, fora ou além de sua
competência legal;
II - A responsabilidade objetiva do Estado abrange danos materiais e
morais;
III - Assim como os órgãos e entidades estatais, as pessoas jurídicas de
direito privado prestadoras de serviços públicos, respondem
objetivamente, independentemente de dolo ou culpa;
IV - Segundo o mais recente entendimento do STF, firmado em tese de
repercussão geral (Tema 130) a responsabilidade civil das pessoas jurídicas de
direito privado prestadoras de serviço público é objetiva relativamente a
terceiros usuários e não usuários do serviço:
"A responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras
de serviço público é objetiva relativamente a terceiros usuários, e não
usuários do serviço, segundo decorre do art. 37, § 6º, da CF. A inequívoca
presença do nexo de causalidade entre o ato administrativo e o dano causado
ao terceiro não usuário do serviço público é condição suficiente para
estabelecer a responsabilidade objetiva da pessoa jurídica de direito privado".
(RE 591.874, rel. min. Ricardo Lewandowski, julg. 26/8/2009, P, DJE de 18-12-
2009, Tema 130)
V - Caso haja dano a algum cidadão, por exemplo decorrente da má
conservação de vias ou estradas, e reste provada conduta omissiva do
Estado, a responsabilidade deste será subjetiva. Trata-se da teoria da
culpa administrativa ou culpa anônima, ou ainda da faute du service ou falta
do serviço, e é aplicada nos casos em que o dano é derivado por ausência ou
retardamento do serviço;
VI - A simples existência de nexo causal entre a ação ou omissão e o resultado
danoso é suficiente para haver a responsabilização civil do Estado,
independe das responsabilidades criminais e/ou administrativos dos agentes
públicos;
VII - O valor da indenização deve abranger o que a vítima efetivamente
perdeu e o que gastou, com advogado p.ex., para ressarci-se do prejuízo, bem
assim como o que deixou de ganhar em consequência direta do ato lesivo
causado pelo agente (lucros cessantes).
VIII - Segundo o CESPE, o caso fortuito e a força maior excluem o nexo
causal, pois são eventos externos à vontade das partes;
IX - O Estado, regra geral, não é responsabilizado pela atuação do juiz ou do
parlamentar, em suas funções típicas. Entretanto, a CF/88 estabelece duas
exceções em seu art.5, inciso LXXV: erro judiciário e prisão alem do tempo
fixado na sentença, ambas na esfera penal:
Art. 5º....
LXXV - o Estado indenizará o condenado por erro judiciário, assim como o que
ficar preso além do tempo fixado na sentença;
A esse respeito, o STF se pronunciou que a responsabilidade civil do Estado
pelo erro judiciário não impediria eventual reconhecimento dessa
responsabilidade pela falta do serviço judiciário:
"O direito à indenização da vítima de erro judiciário e daquela presa além do
tempo devido, previsto no art. 5º, LXXV, da Constituição, já era previsto no art.
630 do CPP (...) A regra constitucional não veio para aditar pressupostos
subjetivos à regra geral da responsabilidade fundada no risco administrativo,
conforme o art. 37, § 6º, da Lei Fundamental: a partir do entendimento
consolidado de que a regra geral é a irresponsabilidade civil do Estado por
atos de jurisdição, estabelece que, naqueles casos, a indenização é uma
garantia individual e, manifestamente, não a submete à exigência de dolo ou
culpa do magistrado. (...) nem impede eventuais construções doutrinárias que
venham a reconhecer a responsabilidade do Estado em hipóteses que não a
de erro judiciário stricto sensu, mas de evidente falta objetiva do serviço
público da Justiça. (RE 505.393, rel. min. Sepúlveda Pertence, julg. 26/6/2007)
Já a responsabilidade civil regressiva dos magistrados dar-se-á somente
por dolo, fraude, recusa, omissão ou retardamento injustificadodo
processo.
X - a responsabilidade objetiva de empresas fornecedoras de bens e
serviços (farmácias, supermercados), diversamente do que ocorre com os
bancos, que demandam segurança ostensiva, não há direito a indenização a
cliente assaltado, pois esse caso equipara-se a caso fortuito externo, que
rompe o nexo de causalidade (boa para sua prova de Direito Civil). Nesse
sentido, o STJ:
"1. Em se tratando de responsabilidade civil de empresa fornecedora de bens
e serviços, de natureza diversa à das instituições financeiras ou outras
atividades que demandam vigilância e segurança ostensivas reforçadas, não
tem obrigação de indenizar as lesões material e extrapatrimonial, pelo roubo
mediante uso de arma de fogo ocorrido no interior de seu estabelecimento
comercial. 2. Em tais situações, a jurisprudência desta Casa entende que o
evento é equiparado a fortuito externo, situando fora do risco da atividade
mercantil. 3. O roubo, mediante uso de arma de fogo, em regra é fato de
terceiro equiparável a força maior, que deve excluir o dever de indenizar,
mesmo no sistema de responsabilidade civil objetiva". (Resp 1.801.784 - SP,
rel. Min. Luís Felipe Salomão, julg. em 30/4/2019)
Dispositivos gerais
Os incisos e parágrafos abaixo do art. 37 costumam ser cobrados em sua
literalidade, não merecendo maiores comentários, pelo menos na disciplina
de Direito Constitucional:
XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços,
compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública
que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas
que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da
proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de
qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento
das obrigações.
§ 1º - A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos
órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação
social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que
caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.
§ 3º A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração
pública direta e indireta, regulando especialmente:
I - as reclamações relativas à prestação dos serviços públicos em geral,
asseguradas a manutenção de serviços de atendimento ao usuário e a
avaliação periódica, externa e interna, da qualidade dos serviços;
II - o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre
atos de governo, observado o disposto no art. 5º, X e XXXIII;
III - a disciplina da representação contra o exercício negligente ou abusivo
de cargo, emprego ou função na administração pública.
§ 7º A lei disporá sobre os requisitos e as restrições ao ocupante de cargo ou
emprego da administração direta e indireta que possibilite o acesso a
informações privilegiadas.
§ 8º A autonomia gerencial, orçamentária e financeira dos órgãos e entidades
da administração direta e indireta poderá ser ampliada mediante contrato, a
ser firmado entre seus administradores e o poder público, que tenha por objeto
a fixação de metas de desempenho para o órgão ou entidade, cabendo à lei
dispor sobre:
I - o prazo de duração do contrato:
II - os controles e critérios de avaliação de desempenho, direitos,
obrigações e responsabilidade dos dirigentes;
III - a remuneração do pessoal.
Servidores no Exercício de Mandatos Eletivos
Os servidores públicos de quaisquer dos entes federativos – União, Estados,
DF e Municípios que forem habilitados para o exercício de cargo eletivo
deverão obedecer às regras do art. 38 da Constituição:
Art. 38. Ao servidor público da administração direta, autárquica e fundacional,
no exercício de mandato eletivo, aplicam-se as seguintes disposições:
I - tratando-se de mandato eletivo federal, estadual ou distrital, ficará afastado
de seu cargo, emprego ou função;
II - investido no mandato de Prefeito, será afastado do cargo, emprego ou
função, sendo-lhe facultado optar pela sua remuneração;
III - investido no mandato de Vereador, havendo compatibilidade de horários,
perceberá as vantagens de seu cargo, emprego ou função, sem prejuízo da
remuneração do cargo eletivo, e, não havendo compatibilidade, será aplicada a
norma do inciso anterior;
IV - em qualquer caso que exija o afastamento para o exercício de mandato
eletivo, seu tempo de serviço será contado para todos os efeitos legais, exceto
para promoção por merecimento;
V - para efeito de benefício previdenciário, no caso de afastamento, os valores
serão determinados como se no exercício estivesse.
Guarde, portanto, este resumo:
Mandato federal, estadual ou distrital
Afastado do cargo, emprego ou
função
Mandato de prefeito
Afastado, mas pode optar pela
remuneração
Mandato de vereador
Havendo Compatibilidade de horários Não havendo compatibilidade
Acumulará a remuneração do cargo efetivo com
o de vereador
Opta pela remuneração (mesmo do
prefeito)
O Supremo Tribunal Federal assentou que o cargo de secretário municipal
não permite o exercício concomitante com o da vereança, uma vez que
exige dedicação exclusiva, como auxiliar direto do Chefe do Poder Executivo
Municipal. Portanto, não poderá haver a acumulação. É o que se extrai do
entendimento firmado no RE 497.554/PR:
“RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS. MATÉRIA CONSTITUCIONAL.
VEREADOR. SECRETÁRIO MUNICIPAL. ACUMULAÇÃO DE CARGOS E
VENCIMENTOS IMPOSSIBILIDADE. CONHECIMENTO E PROVIMENTO DOS
RECURSOS.
I - Em virtude do disposto no art. 29, IX, da Constituição, a lei orgânica
municipal deve guardar, no que couber, correspondência com o modelo
federal acerca das proibições e incompatibilidades dos vereadores.
II - Impossibilidade de acumulação dos cargos e da remuneração de
vereador e de secretário municipal.
III - Interpretação sistemática dos arts. 36, 54 e 56 da Constituição
Federal."
A Emenda Constitucional 103/2019 (Pec da Previdência) alterou a redação do
inciso V do art. 38:
Art. 38. Ao servidor público da administração direta, autárquica e fundacional,
no exercício de mandato eletivo, aplicam-se as seguintes disposições:
....
V - para efeito de benefício previdenciário, no caso de afastamento, os valores
serão determinados como se no exercício estivesse.
V - na hipótese de ser segurado de regime próprio de previdência social,
permanecerá filiado a esse regime, no ente federativo de origem. (Redação
dada pela EC 103/2019)
(CESPE/PROCURADOR/ BACEN/2009) A responsabilidade das autarquias
pelos prejuízos causados a terceiros não é direta, de modo que, diante da
ocorrência de dano, o lesado deve buscar a reparação diretamente ao
ente federativo e não à autarquia.
ERRADO. O erro decorre do fato de que a responsabilidade é da pessoa
jurídica, no caso a autarquia, e não da pessoa política. Caso o dano fosse
causado por um órgão da administração direta, aí sim a responsabilidade
seria imputada à pessoa jurídica (política) à qual o Órgão pertence.
(VUNESP/AGENTE DE FISCALIZAÇÃO JUDICIÁRIA/TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE
SP/2010) Assinale a alternativa que está de acordo com a Constituição
Federal.
(A) Somente por decreto do chefe do Poder Executivo poderão ser criadas
autarquias e fundações públicas, bem como de suas subsidiárias ou coligadas.
(B) O ato de improbidade administrativa acarretará a cassação dos direitos
políticos do servidor público ou do particular responsável pelo ato lesivo aos
cofres públicos.
(C) O ilícito praticado pelo agente público que cause prejuízo ao erário será
imprescritível.
(D) O subsídio mensal dosDesembargadores do Tribunal de Justiça poderá
atingir no máximo 80,25 % do subsídio mensal dos Ministros do Supremo
Tribunal Federal.
(E) É vedada a vinculação ou equiparação de quaisquer espécies
remuneratórias para o efeito de remuneração de pessoal do serviço público.
A letra “A” está incorreta porque a criação de autarquias e fundações públicas
será feita mediante Lei.
A letra “B” está incorreta porque o ato de improbidade administrativa não
acarretará a cassação dos direitos políticos mas sim a suspensão destes.
A letra “C” está errada porque só seriam imprescritíveis, nos termos do art.
37, §5º da CF as ações de ressarcimento: “ § 5º - A lei estabelecerá os prazos de
prescrição para ilícitos praticados por qualquer agente, servidor ou não, que
causem prejuízos ao erário, ressalvadas as respectivas ações de
ressarcimento.” Entretanto, nova orientação do STF, nos autos do (RE)
669.069 afastou a imprescritibilidade mesmo nas ações de ressarcimento
por danos causados ao erário, não alcançando essa tese, entretanto, os
prejuízos decorrentes de ato de improbidade administrativa.
Errada também a letra “D” porque, como vimos, o STF derrubou o subteto da
magistratura estadual, no julgamento do ADI 3.854-MC/2007, Relator Min.
César Peluso. Mesmo que a questão falasse em 90,25%, e o gabarito fosse esse
item, seria passível de recurso à banca.
A letra “E” está correta, pois reproduz o inciso XIII do art. 37: “ XIII - é vedada a
vinculação ou equiparação de quaisquer espécies remuneratórias para o efeito
de remuneração de pessoal do serviço público.”
Gabarito: item “E”.
(CESPE/ANALISTA/TRE RJ/2012) Servidor público, no exercício de suas
atividades, não pode responder perante a Fazenda Pública, mesmo no
caso de causar dano a terceiros, pois a responsabilidade, nessas
ocorrências, pertence ao Estado.
ERRADO. O servidor responderá em ação regressiva, uma vez comprovada a
sua culpa. Repare que, na teoria da responsabilidade civil objetiva do Estado,
a indenização ao particular independe de culpa do agente, mas a ação
regressiva não prescinde dessa evidenciação.
Dos Servidores Públicos (arts. 39 a 41 da CF/1988)
Atenção: este capítulo foi revisto e atualizado em 31/7/2020
Servidores Públicos
A Emenda Constitucional 19/1998, no bojo do Plano Diretor da Reforma do
Aparelho do Estado (PDRAE), buscou acabar com a obrigatoriedade de a
Administração Pública contratar servidores públicos exclusivamente pelo
regime estatutário, abrindo a possibilidade de contratação por regimes
híbridos e pela própria CLT, e dando a seguinte redação ao art. 39 da CF:
Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão
conselho de política de administração e remuneração de pessoal, integrado
por servidores designados pelos respectivos Poderes.
Contudo, com o julgamento cautelar da Ação Direta de
Inconstitucionalidade 2.135, o STF suspendeu a vigência do caput do art. 39
da Constituição, modificado pela referida Emenda:
Decisão: O Tribunal, por maioria, vencidos os Senhores Ministros Nelson
Jobim, Ricardo Lewandowski e Joaquim Barbosa, deferiu parcialmente a
medida cautelar para suspender a eficácia do artigo 39, caput, da Constituição
Federal, com a redação da Emenda Constitucional nº 19, de 04 de junho de
1998, tudo nos termos do voto do relator originário, Ministro Néri da Silveira,
esclarecido, nesta assentada, que a decisão - como é próprio das medidas
cautelares - terá efeitos ex nunc, subsistindo a legislação editada nos termos
da emenda declarada suspensa. Votou a Presidente, Ministra Ellen Gracie, que
lavrará o acórdão. Não participaram da votação a Senhora Ministra Cármen
Lúcia e o Senhor Ministro Gilmar Mendes por sucederem, respectivamente,
aos Senhores Ministros Nelson Jobim e Néri da Silveira. Plenário, red. p/ o
acórdão Ministra Ellen Gracie, julgamento em 2/8/2007.
Assim, voltou a viger a redação original do art. 39:
Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, no
âmbito de sua competência, regime jurídico único e planos de carreira para os
servidores da administração pública direta, das autarquias e das fundações
públicas.
O § 1º do art. 39 fixa os padrões de vencimento dos servidores e o § 2º trata
dos incentivos à eficiência, ambos com redação dada pela Emenda
Constitucional 19/1998:
Art. 39...........
§ 1º A fixação dos padrões de vencimento e dos demais componentes do sistema
remuneratório observará:
I - a natureza, o grau de responsabilidade e a complexidade dos cargos
componentes de cada carreira;
II - os requisitos para a investidura;
III - as peculiaridades dos cargos.
§ 2º A União, os Estados e o Distrito Federal manterão escolas de governo para a
formação e o aperfeiçoamento dos servidores públicos, constituindo-se a
participação nos cursos um dos requisitos para a promoção na carreira,
facultada, para isso, a celebração de convênios ou contratos entre os entes
federados.
O § 3º do art. 39 trata dos direitos dos trabalhadores que são devidos aos
servidores públicos:
Art. 39........
§ 3º Aplica-se aos servidores ocupantes de cargo público o disposto no art. 7º, IV,
VII, VIII, IX, XII, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX, XXII e XXX, podendo a lei estabelecer
requisitos diferenciados de admissão quando a natureza do cargo o exigir.
São devidos, portanto, os seguintes direitos trabalhistas aos servidores
públicos:
Salário mínimo, garantia de salário nunca inferior ao mínimo, para os que
percebem remuneração variável, décimo-terceiro salário, remuneração do
trabalho noturno superior à do diurno, duração do trabalho normal não
superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, repouso semanal
remunerado, preferencialmente aos domingos, remuneração do serviço
extraordinário superior, no mínimo, em cinqüenta por cento à do normal, gozo
de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o
salário normal, licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a
duração de cento e vinte dias, licença-paternidade, nos termos fixados em
lei, proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos
específicos, nos termos da lei, redução dos riscos inerentes ao trabalho, por
meio de normas de saúde, higiene e segurança e proibição de diferença de
salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo,
idade, cor ou estado civil.
Não são devidos aos servidores públicos os seguintes direitos:
Proteção contra demissão sem justa, FGTS, seguro-desemprego, piso salarial
proporcional, irredutibilidade salarial salvo convenção, proteção do salário na
forma da lei, participação nos lucros, jornada de 6 horas para turnos
ininterruptos de revezamento, aviso prévio, adicional de atividade penosa,
aposentadoria ( para os servidores aplicam-se as regras do regime especial
de previdência) , assistência gratuita dos filhos até 5 anos em creches
( atentar que é dever do Estado a educação infantil, em creche e pré-
escola, às crianças até 5 anos ), aviso prévio proporcional ao tempo de
serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei; adicional de
remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da
lei, reconhecimento das convenções acordos coletivos de trabalho, proteção
contra automação, seguro contra acidentes do trabalho ( redução dos riscos
inerentes ao trabalho está incluída ), ação, quanto aos créditos resultantes
das relações de trabalho, com prazo prescricional, proibição de qualquer
discriminação salarial e critérios diferenciados para admissão de deficientes,
proibição de distinção entre trabalho manual e intelectual, proibição trabalho
noturnopara menores, igualdade de direitos entre trabalhador com vínculo e
avulso.
A tabela abaixo apresenta cada um dos direitos dos trabalhadores
adicionados ou não à categoria dos servidores públicos:
Direitos dos trabalhadores (art. 7º, CF)
Servidores
Públicos (art.
39, § 3º)
I - Relação de emprego protegida contra despedida
arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei
complementar...
Não
II - Seguro-desemprego, em caso de desemprego
involuntário
Não
III - Fundo de garantia do tempo de serviço
Não
IV - Salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente
unificado...
Sim
V - Piso salarial proporcional à extensão e complexidade
do trabalho
Não
VI - irredutibilidade do salário, salvo o disposto em
convenção ou acordo coletivo;
Não (inciso XV
do art. 37
assegura)
VII - garantia de salário, nunca inferior ao mínimo,
para os que percebem remuneração variável;
Sim
VIII - décimo terceiro salário com base na
remuneração integral ou no valor da aposentadoria;
Sim
IX - remuneração do trabalho noturno superior à do
diurno;
Sim
X - proteção do salário na forma da lei, constituindo
crime sua retenção dolosa;
Não
XI - participação nos lucros, ou resultados, desvinculada
da remuneração, e, excepcionalmente, participação na
gestão da empresa, conforme definido em lei
Não
XII - salário-família pago em razão do dependente do
trabalhador de baixa renda nos termos da lei;
Sim
XIII - duração do trabalho normal não superior a
oito horas diárias e quarenta e quatro semanais,
facultada a compensação
Sim
XIV - jornada de seis horas para o trabalho realizado em
turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação
coletiva;
Não
XV - repouso semanal remunerado,
preferencialmente aos domingos;
Sim
XVI - remuneração do serviço extraordinário
superior, no mínimo, em cinqüenta por cento à do
normal;
Sim
XVII - gozo de férias anuais remuneradas com, pelo
menos, um terço a mais do que o salário normal;
Sim
XVIII - licença à gestante, sem prejuízo do emprego e
do salário, com a duração de cento e vinte dias;
Sim
XIX - licença-paternidade, nos termos fixados em lei; Sim
XX - proteção do mercado de trabalho da mulher,
mediante incentivos específicos, nos termos da lei;
Sim
XXI - aviso prévio proporcional ao tempo de serviço,
sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei;
Não
XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por
meio de normas de saúde, higiene e segurança;
Sim
XXIII - adicional de remuneração para as atividades
penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei;
Não
XXIV - aposentadoria;
Não
XXV - assistência gratuita aos filhos e dependentes
desde o nascimento até 5 (cinco) anos de idade em
creches e pré-escolas;
Não
XXVI - reconhecimento das convenções e acordos
coletivos de trabalho;
Não
XXVII - proteção em face da automação, na forma da
lei;
Não
XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do
empregador, sem excluir a indenização a que este está
obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa.
Não
XXIX - ação, quanto aos créditos resultantes das relações
de trabalho, com prazo prescricional
Não
XXX - proibição de diferença de salários, de exercício
de funções e de critério de admissão por motivo de
sexo, idade, cor ou estado civil;
Sim
XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante a
salário e critérios de admissão do trabalhador portador de
deficiência;
Não
XXXII - proibição de distinção entre trabalho manual,
técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos;
Não
XXXIII - proibição de trabalho noturno, perigoso ou
insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a
menores de dezesseis anos, salvo na condição de
aprendiz, a partir de quatorze anos;
Não
XXXIV - igualdade de direitos entre o trabalhador com
vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso
Não
Como vimos na parte geral de Administração Pública, algumas categorias de
agentes públicos devem ser remuneradas remuneradas mediante subsídio
fixado em parcela única, na forma do § 4º do art. 39:
§ 4º O membro de Poder, o detentor de mandato eletivo, os Ministros de Estado e
os Secretários Estaduais e Municipais serão remunerados exclusivamente por
subsídio fixado em parcela única, vedado o acréscimo de qualquer gratificação,
adicional, abono, prêmio, verba de representação ou outra espécie
remuneratória, obedecido, em qualquer caso, o disposto no art. 37, X e XI.
À parcela de subsídio, pode haver o acréscimo de parcelas indenizatórias,
que nos termos da Lei 8.112/1990, incluem ajuda de custo, diárias, transporte
e auxílio-moradia. O subsídio é também aplicado às seguintes categorias de
servidores, podendo ser estendido a outras categorias, na forma do § 8º, do
art. 39:
⇒ Membros das corporações policiais ( art. 144, § 9º);
⇒ Membros do Ministério Público (a rt. 128, § 5º, I, c);
⇒ Defensores públicos e membros da AGU ( art. 135);
⇒ Outras categorias que a lei estabelecer ( art. 39, § 8º), como aconteceu, por
exemplo, com os servidores da Receita Federal:
§ 8º A remuneração dos servidores públicos organizados em carreira poderá ser
fixada nos termos do § 4º.
Os parágrafos 5º a 7º do art. 39, também incluídos pela Emenda
Constitucional 19/1998, introduziram mecanismos de transparência e
controle dos gastos com remuneração no serviço público, bem como a
aplicação de economia com despesas correntes para aplicação no
aperfeiçoamento de pessoal.
§ 5º Lei da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios poderá
estabelecer a relação entre a maior e a menor remuneração dos servidores
públicos, obedecido, em qualquer caso, o disposto no art. 37, XI.
§ 6º Os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário publicarão anualmente os
valores do subsídio e da remuneração dos cargos e empregos públicos.
§ 7º Lei da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios disciplinará a
aplicação de recursos orçamentários provenientes da economia com despesas
correntes em cada órgão, autarquia e fundação, para aplicação no
desenvolvimento de programas de qualidade e produtividade, treinamento e
desenvolvimento, modernização, reaparelhamento e racionalização do serviço
público, inclusive sob a forma de adicional ou prêmio de produtividade.
O § 9º, do art. 39, incluído pela EC 103/2019 (Pec da Previdência), vedou a
incorporação de vantagens oriundas do exercício do cargo demissível ad
nutum à remuneração do cargo efetivo, quando aquele foi exercido por
servidor concursado:
Art. 39....
§ 9º É vedada a incorporação de vantagens de caráter temporário ou
vinculadas ao exercício de função de confiança ou de cargo em comissão à
remuneração do cargo efetivo.
Atualmente, a Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) , já obriga aos
Órgãos e Entidades da Administração a disponibilizarem, independentemente
de requerimentos, informações relativas às despesas em geral, inclusive da
remuneração dos servidores. O Supremo Tribunal Federal, nos autos
da Suspensão de Liminar SL 623, decisão do Ministro Ayres Britto, de
11/7/2012, permitiu a divulgação de salários de servidores públicos na
internet, asseverando que a remuneração dos servidores públicos é “gasto do
Poder Público que deve guardar correspondência com a previsão legal, com o
teto remuneratório do serviço público e, em termos globais, com as metas de
responsabilidade fiscal". Posteriormente, o STF reiterou o entendimento de
que é constitucional a veiculação da remuneração deservidores públicos na
internet (ARE 652.777, rel. Min. Teori Zavascki, julg. 23/4/2015).
Regime Próprio de Previdência dos Servidores Públicos
o artigo 40 da CF, que trata das regras de aposentadoria em regime especial
definida para os servidores públicos. Trata-se de regras cobradas na maioria
das vezes, em cima da literalidade da Constituição nos concursos públicos,
bastando para isso uma leitura atenta do artigo. Os pontos eventualmente
polêmicos ou que mereçam discussão doutrinária serão comentados a seguir.
Estabelece o art. 40, com a redação dada pela Emenda Constitucional
103/2019 (Pec da Previdência):
Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é
assegurado regime de previdência de caráter contributivo e solidário,
mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e
inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio
financeiro e atuarial e o disposto neste artigo.
Art. 40. O regime próprio de previdência social dos servidores titulares de
cargos efetivos terá caráter contributivo e solidário, mediante contribuição do
respectivo ente federativo, de servidores ativos, de aposentados e de
pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e
atuarial. (Redação da EC 103/2019)
§ 1º Os servidores abrangidos pelo regime de previdência de que trata este
artigo serão aposentados, calculados os seus proventos a partir dos valores
fixados na forma dos §§ 3º e 17:
§ 1º. O servidor abrangido por regime próprio de previdência social será
aposentado: (Redação da EC 103/2019)
I - por invalidez permanente, sendo os proventos proporcionais ao tempo de
contribuição, exceto se decorrente de acidente em serviço, moléstia
profissional ou doença grave, contagiosa ou incurável, na forma da lei;
I - por incapacidade permanente para o trabalho, no cargo em que estiver
investido, quando insuscetível de readaptação, hipótese em que será
obrigatória a realização de avaliações periódicas para verificação da
continuidade das condições que ensejaram a concessão da aposentadoria, na
forma de lei do respectivo ente federativo; (Redação da EC 103/2019)
II - compulsoriamente, com proventos proporcionais ao tempo de
contribuição, aos 70 (setenta) anos de idade, ou aos 75 (setenta e cinco) anos
de idade, na forma de lei complementar;
III - voluntariamente, desde que cumprido tempo mínimo de dez anos de
efetivo exercício no serviço público e cinco anos no cargo efetivo em que se
dará a aposentadoria, observadas as seguintes condições:
a) sessenta anos de idade e trinta e cinco de contribuição, se homem, e
cinquenta e cinco anos de idade e trinta de contribuição, se mulher;
b) sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se
mulher, com proventos proporcionais ao tempo de contribuição.
III - no âmbito da União, aos 62 (sessenta e dois) anos de idade, se mulher, e
aos 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e, no âmbito dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios, na idade mínima estabelecida mediante
emenda às respectivas Constituições e Leis Orgânicas, observados o tempo de
contribuição e os demais requisitos estabelecidos em lei complementar do
respectivo ente federativo. (Redação da EC 103/2019)
O caráter contributivo e solidário diz respeito a que todos contribuem para
todos, isto é, não há uma plano atuarial com uma conta individualizada por
servidor beneficiado, o que seria desejável do ponto de vista econômico, dado
o enorme desequilíbrio desse tipo de sistema, não obstante haja quem afirme
que esse déficit não existe...
Importante jurisprudência do STF assentou que os servidores ocupantes de
cargo exclusivamente em comissão não se submetem à regra da
aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II, da CF, a qual atinge
apenas os ocupantes de cargo de provimento efetivo, inexistindo,
também, qualquer idade limite para fins de nomeação a cargo em
comissão. Ressalvados outros impedimentos legais, não há óbice
constitucional a que o servidor efetivo aposentado compulsoriamente
permaneça no cargo comissionado que já desempenhava ou a que seja
nomeado para cargo de livre nomeação e exoneração, uma vez que não se
trata de continuidade ou criação de vínculo efetivo com a Administração. Pra
variar, vencido o Min. Marco Aurélio (RE 786.540/DF, rel. Min. Dias Toffoli, julg.
em 15/12/2016).
Assim, as regras para aposentadoria no serviço público, para quem adentrou
na Administração após a EC 41/2003 estão no §1º do art. 40 e são as seguintes
(com a redação da EC 103/2019):
I - por invalidez permanente, sendo os proventos proporcionais (e não
integrais) ao tempo de contribuição, exceto se decorrente de acidente em
serviço, moléstia profissional ou doença grave, contagiosa ou incurável, na
forma da lei, caso em que os proventos serão integrais;
I - por incapacidade permanente para o trabalho, no cargo em que estiver
investido, quando insuscetível de readaptação, hipótese em que será
obrigatória a realização de avaliações periódicas para verificação da
continuidade das condições que ensejaram a concessão da aposentadoria, na
forma de lei do respectivo ente federativo; (Redação da EC 103/2019)
II - compulsoriamente, com proventos proporcionais ao tempo de
contribuição, aos 70 (setenta) anos de idade, ou aos 75 (setenta e cinco)
anos de idade, na forma de lei complementar; (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 88, de 2015)
III - voluntariamente, desde que cumprido tempo mínimo de dez anos de
efetivo exercício no serviço público e cinco anos no cargo efetivo em que se
dará a aposentadoria, observadas as seguintes condições:
a) sessenta anos de idade e trinta e cinco de contribuição, se homem,
e cinqüenta e cinco anos de idade e trinta de contribuição, se mulher;
b) sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se
mulher, com proventos proporcionais ao tempo de contribuição.
III - no âmbito da União, aos 62 (sessenta e dois) anos de idade, se mulher, e
aos 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e, no âmbito dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios, na idade mínima estabelecida mediante
emenda às respectivas Constituições e Leis Orgânicas, observados o tempo de
contribuição e os demais requisitos estabelecidos em lei complementar do
respectivo ente federativo. (Redação da EC 103/2019)
Aqui, é importante falarmos um pouco da Emenda Constitucional 88/2015,
promulgada em 7/5/2015, também chamada jocosamente de "Pec da
Bengala". A Emenda alterou a redação do art. 40, § 1º, inciso II (acima
destacado), da Constituição e introduziu o artigo 100 no Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias, assegurando, desde logo, a aposentadoria
compulsória aos 75 anos de idade para Ministros do STF, de Tribunais
Superiores e do Tribunal de Contas da União:
ADCT - art. 100: Até que entre em vigor a lei complementar de que trata o
inciso II do § 1º do art. 40 da Constituição Federal, os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, dos Tribunais Superiores e do Tribunal de Contas da
União aposentar-se-ão, compulsoriamente, aos 75 (setenta e cinco) anos
de idade, nas condições do art. 52 da Constituição Federal.
Afinal, a Emenda estendeu a aposentadoria "expulsória" para todos os
servidores públicos ou não? Essa Emenda Constitucional teve as seguintes
consequências:
(i) Estendeu, de imediato, a possibilidade ( não é obrigatoriedade) para os
Ministros do STF, dos Tribunais Superiores e do Tribunal de Contas da União,
de se aposentarem não mais aos 70 mas aos 75 anos; ou seja, se quiserem se
aposentar antes, podem, desde que preencham os requisitos para
aposentadoria do artigo 40 da CF; chegandoaos 75, serão compulsoriamente
aposentados.
(ii) Abriu a possibilidade para que os demais servidores públicos e
magistrados não abrangidos pelo art. 100 do ADCT (dos tribunais regionais e
tribunais dos estados) possam se aposentar aos 75 anos de idade, desde que
Lei Complementar, de iniciativa do Presidente da República e aprovada pelo
Congresso Nacional, estabeleça essa regra; ou seja, se você é servidor,
somente após a edição dessa Lei Complementar, e se ela abranger a sua
carreira, poderá continuar trabalhando após os 70 anos.
(iii) A interpretação da expressão " nas condições do art. 52 da Constituição
Federal " do art. 100 do ADCT que permanecia uma incógnita, foi resolvida
pelo Supremo . Para o STF, a necessidade de nova sabatina perante o Senado
Federal violação à separação dos poderes (CF, art. 60, §4º, III). Significa ultraje
à independência e à imparcialidade do Poder Judiciário. Nesse sentido,
declarou a inconstitucionalidade da expressão "nas condições do art. 52 da
Constituição Federal" do artigo 100 do ADCT. Com relação ao sentido da
expressão "lei complementar" na nova redação do art. 40, §1º, II, da CF,
assentou que com relação aos membros do Poder Judiciário, há
necessidade de lei complementar de iniciativa do STF (Art. 93, VI, da CF).
Assentou ainda a invalidade de leis estaduais que disponham sobre
aposentadoria de magistrados ( ADI 5.316-MC, rel. min. Luiz Fux, j. 21-5-2015,
Plenário).
Boa parte da doutrina já entendia essa sabatina como teratológica e
desnecessária, uma vez que o art. 52, III, "a", da Constituição Federal, refere-
se à necessidade de aprovar previamente, por voto secreto e arguição
pública, a escolha dos membros do STF, TCU e outros Tribunais Superiores e
não para simples extensão de mandato dos Ministros.
Decorre disso tudo, que tanto a Lei Complementar que se destina a regular a
aposentação aos 75 anos de magistrados (de iniciativa do STF), quanto a Lei
Complementar destinada a regular a situação dos demais servidores públicos,
seriam necessárias para dar eficácia aos dispositivos constitucionais em
comento (art. 40, §1º, II e art. 100, do ADCT), configurando-as como normas
constitucionais de eficácia limitada.
Referida Lei Complementar foi aprovada pelo Congresso Nacional. É a Lei
Complementar 152, de 3 de dezembro de 2015, que alterou a idade da
aposentadoria por limite de idade, com proventos proporcionais, para 75
anos, na forma prevista no art. 40, § 1º, II, da CF/1988, para todos os
servidores públicos da União, Estados, DF e Municípios, de todos os
Poderes, e cujo art. 2º assim dispôs:
Art. 2º Serão aposentados compulsoriamente, com proventos proporcionais ao
tempo de contribuição, aos 75 (setenta e cinco) anos de idade:
I – os servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações;
II – os membros do Poder Judiciário;
III – os membros do Ministério Público;
IV – os membros das Defensorias Públicas;
V – os membros dos Tribunais e dos Conselhos de Contas.
Parágrafo único. Aos servidores do Serviço Exterior Brasileiro, regidos pela Lei nº
11.440, de 29 de dezembro de 2006, o disposto neste artigo será aplicado
progressivamente à razão de 1 (um) ano adicional de limite para aposentadoria
compulsória ao fim de cada 2 (dois) anos, a partir da vigência desta Lei
Complementar, até o limite de 75 (setenta e cinco) anos previsto no caput.
Apenas para os servidores no exterior (missões diplomáticas, p. ex.), a idade
para aposentadoria compulsória será estendida de forma gradual.
Aqui temos um pequeno conflito com o que foi decidido no âmbito da ADI
5.316-MC, pois para o STF apenas Lei de iniciativa do Supremo poderia
dispor sobre as novos limites de aposentadoria dos demais membros do
Poder Judiciário. Mas lembre-se de que as leis já nascem com presunção de
constitucionalidade, portanto, a nova Lei Complementar só poderia ser
atacada, se fosse o caso, em sede ação direta de inconstitucionalidade, no
âmbito abstrato ou concentrado, pelo vício forma de iniciativa quanto à
aposentadoria dos magistrados. Lembre-se também de que a Emenda
Constitucional 88/2015 somente havia estendido o limite de aposentadoria
(75 anos) para os Ministros do Supremo Tribunal Federal, dos Tribunais
Superiores e do Tribunal de Contas da União.
Outro possível questionamento quanto à constitucionalidade da LC 152/2015,
também de natureza formal, diz respeito ao vício de iniciativa. Isso porque,
como você sabe, compete privativamente ao Presidente da República a
iniciativa de projeto de lei que verse sobre regime jurídico dos servidores da
União e Territórios, provimento de cargos, estabilidade e aposentadoria:
Art. 61....
§ 1º São de iniciativa privativa do Presidente da República as leis que:
............
II - disponham sobre:
......................
c) servidores públicos da União e Territórios, seu regime jurídico, provimento de
cargos, estabilidade e aposentadoria;
A Lei Complementar 152/2015 teve iniciativa parlamentar (no Senado
Federal) e mesmo tendo sido vetada pelo Presidente da República por
inconstitucionalidade formal quanto ao vício de iniciativa, teve o veto
derrubado no Congresso Nacional e a LC foi promulgada como está. Desse
modo, até que a LC seja considerada inconstitucional em sede de controle
abstrato ou revogada por outra lei, a aposentadoria compulsória no serviço
público para os servidores civis agora tem como limite os 75 anos de
idade.
STF: "Não se aplica a aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II, da
CF (70 ou 75 anos) aos titulares de serventias judiciais não estatizadas, desde
que não sejam ocupantes de cargo público efetivo e não recebam
remuneração proveniente dos cofres públicos" (RE 647.827, rel. min. Gilmar
Mendes, julg. 15/2/2017, Plenário)
STF: "Os servidores ocupantes de cargo exclusivamente em comissão não se
submetem à regra da aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, II,
da CF, a qual atinge apenas os ocupantes de cargo de provimento efetivo,
inexistindo, também, qualquer idade limite para fins de nomeação a cargo em
comissão" (RE 786.540, rel. min. Dias Toffoli, julg. 15/12/2016, Plenário)
A Emenda Constitucional 20/1998 aboliu a aposentadoria integral no
serviço público. Pelas regras atuais, o servidor irá se aposentar
voluntariamente com base nos 80% maiores salários de contribuição, na
forma da lei, observadas as regras do art. 40, parágrafo § 1º, com a redação
da EC 103/2019 (PEC da Previdência), que também remete à lei federal a
forma de cálculo da aposentadoria:
Art. 40......
.........
§ 1º. O servidor abrangido por regime próprio de previdência social será
aposentado: (Redação da EC 103/2019)
I - por invalidez permanente, sendo os proventos proporcionais ao tempo de
contribuição, exceto se decorrente de acidente em serviço, moléstia
profissional ou doença grave, contagiosa ou incurável, na forma da
lei; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 41, 19.12.2003)
I - por incapacidade permanente para o trabalho, no cargo em que estiver
investido, quando insuscetível de readaptação, hipótese em que será
obrigatória a realização de avaliações periódicas para verificação da
continuidade das condições que ensejaram a concessão da aposentadoria, na
forma de lei do respectivo ente federativo; (Redação da EC 103/2019)
II - compulsoriamente, com proventos proporcionais ao tempo de
contribuição, aos 70 (setenta) anos de idade, ou aos 75 (setenta e cinco) anos
de idade, na forma de lei complementar;
III - voluntariamente, desde que cumprido tempo mínimo de dez anos de
efetivo exercício no serviço público e cinco anos no cargo efetivo em que se
dará a aposentadoria, observadas as seguintes condições:(Redação dada
pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998)
a) sessenta anos de idade e trinta e cinco de contribuição, se homem, e
cinqüenta e cinco anos de idade e trinta de contribuição, se
mulher; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de
1998) (Vide Emenda Constitucional nº 20, de 1998)
b) sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se
mulher, com proventos proporcionais ao tempo de contribuição (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998)
III - no âmbito da União, aos 62 (sessenta e dois) anos de idade, se mulher, e
aos 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e, no âmbito dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios, na idade mínima estabelecida mediante
emenda às respectivas Constituições e Leis Orgânicas, observados o tempo de
contribuição e os demais requisitos estabelecidos em lei complementar do
respectivo ente federativo. (Redação da EC 103/2019)
§ 2º Os proventos de aposentadoria e as pensões, por ocasião de sua
concessão, não poderão exceder a remuneração do respectivo servidor, no
cargo efetivo em que se deu a aposentadoria ou que serviu de referência para
a concessão da pensão. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20,
de 1998)
§ 2º. Os proventos de aposentadoria não poderão ser inferiores ao valor
mínimo a que se refere o § 2º do art. 201 ou superiores ao limite máximo
estabelecido para o Regime Geral de Previdência Social, observado o disposto
nos §§ 14 a 16. (Redação da EC 103/2019)
§ 3º Para o cálculo dos proventos de aposentadoria, por ocasião da sua
concessão, serão consideradas as remunerações utilizadas como base para as
contribuições do servidor aos regimes de previdência de que tratam este
artigo e o art. 201, na forma da lei. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 41, 19.12.2003)
§ 3º. As regras para cálculo de proventos de aposentadoria serão disciplinadas
em lei do respectivo ente federativo. (Redação da EC 103/2019)
§ 4º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a
concessão de aposentadoria aos abrangidos pelo regime de que trata este
artigo, ressalvados, nos termos definidos em leis complementares, os casos
de servidores: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 47, de 2005)
I portadores de deficiência; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 47, de
2005)
II que exerçam atividades de risco; (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 47, de 2005)
III cujas atividades sejam exercidas sob condições especiais que prejudiquem
a saúde ou a integridade física. (Incluído pela Emenda Constitucional nº
47, de 2005)
§ 4º. É vedada a adoção de requisitos ou critérios diferenciados para
concessão de benefícios em regime próprio de previdência social, ressalvado
o disposto nos §§ 4º-A, 4º-B, 4º-C e 5º. (Redação da EC 103/2019)
§ 4º-A. Poderão ser estabelecidos por lei complementar do respectivo ente
federativo idade e tempo de contribuição diferenciados para aposentadoria
de servidores com deficiência, previamente submetidos a avaliação
biopsicossocial realizada por equipe multiprofissional e
interdisciplinar. (Incluído pela EC 103/2019)
§ 4º-B. Poderão ser estabelecidos por lei complementar do respectivo ente
federativo idade e tempo de contribuição diferenciados para aposentadoria
de ocupantes do cargo de agente penitenciário, de agente socioeducativo ou
de policial dos órgãos de que tratam o inciso IV do caput do art. 51, o inciso
XIII do caput do art. 52 e os incisos I a IV do caput do art. 144. (Incluído pela EC
103/2019)
§ 4º-C. Poderão ser estabelecidos por lei complementar do respectivo ente
federativo idade e tempo de contribuição diferenciados para aposentadoria
de servidores cujas atividades sejam exercidas com efetiva exposição a
agentes químicos, físicos e biológicos prejudiciais à saúde, ou associação
desses agentes, vedada a caracterização por categoria profissional ou
ocupação. (Incluído pela EC 103/2019)
O § 5º do art. 40, com a redação da EC 103/2019 (PEC da Previdência),
estabelece a redução da idade mínima para o cargo de professor, desde que
comprovem tempo de efetivo exercício das funções de magistério na
educação infantil e no ensino fundamental e médio fixado em lei
complementar da União, Estados, DF ou Municípios:
Art. 40.....
§ 5º Os requisitos de idade e de tempo de contribuição serão reduzidos em
cinco anos, em relação ao disposto no § 1º, III, "a", para o professor que
comprove exclusivamente tempo de efetivo exercício das funções de
magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio.
§ 5º Os ocupantes do cargo de professor terão idade mínima reduzida em 5
(cinco) anos em relação às idades decorrentes da aplicação do disposto no
inciso III do § 1º, desde que comprovem tempo de efetivo exercício das
funções de magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio
fixado em lei complementar do respectivo ente federativo. (Redação da EC
103/2019)
O § 7º do art. 40 também sofreu mudança significativa com a EC 103/2019
(PEC da Previdência), remetendo o cálculo da pensão por morte para a lei
do respectivo ente federativo, garantido o valor correspondente ao salário
mínimo, conforme o Regime Geral de Previdência (art. 201, § 2º, CF) e caso se
trate da única fonte de renda formal auferida pelo dependente:
Art. 40....
§ 7º Lei disporá sobre a concessão do benefício de pensão por morte, que será
igual: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 41, 19.12.2003)
I - ao valor da totalidade dos proventos do servidor falecido, até o limite
máximo estabelecido para os benefícios do regime geral de previdência social
de que trata o art. 201, acrescido de setenta por cento da parcela excedente a
este limite, caso aposentado à data do óbito; ou (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 41, 19.12.2003)
II - ao valor da totalidade da remuneração do servidor no cargo efetivo em que
se deu o falecimento, até o limite máximo estabelecido para os benefícios do
regime geral de previdência social de que trata o art. 201, acrescido de setenta
por cento da parcela excedente a este limite, caso em atividade na data do
óbito. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 41, 19.12.2003)
§ 7º Observado o disposto no § 2º do art. 201, quando se tratar da única fonte
de renda formal auferida pelo dependente, o benefício de pensão por morte
será concedido nos termos de lei do respectivo ente federativo, a qual tratará
de forma diferenciada a hipótese de morte dos servidores de que trata o § 4º-B
decorrente de agressão sofrida no exercício ou em razão da função. (Redação
da EC 103/2019)
I - 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e 62 (sessenta e dois) anos
de idade, se mulher, observado tempo mínimo de contribuição; (Redação da
EC 103/2019)
II - 60 (sessenta) anos de idade, se homem, e 55 (cinquenta e cinco) anos de
idade, se mulher, para os trabalhadores rurais e para os que exerçam suas
atividades em regime de economia familiar, nestes incluídos o produtor rural,
o garimpeiro e o pescador artesanal. (Redação da EC 103/2019)
Art. 201....
§ 2º Nenhum benefício que substitua o salário de contribuição ou o
rendimento do trabalho do segurado terá valor mensal inferior ao salário
mínimo.
O § 8º, do art. 40, não foi modificado pela EC 103/2019:
Art. 40........
....
§ 8º É assegurado o reajustamento dos benefícios para preservar-lhes, em
caráter permanente, o valor real, conforme critérios estabelecidos em lei.
(Redação da EC 41/2003)
A contagem do tempo de contribuição federal, estadual e municipal foi
mantida pela EC 103/2019, que incluiu o Distrito Federal, e a observância da
contagem de tempo recíproca prevista no art. 201, §§ 9º e § 9º-A:
Art. 40....
§ 9º O tempo de contribuição federal, estadual ou municipal serácontado
para efeito de aposentadoria e o tempo de serviço correspondente para efeito
de disponibilidade. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de
15/12/98)
§ 9º O tempo de contribuição federal, estadual, distrital ou municipal será
contado para fins de aposentadoria, observado o disposto nos §§ 9º e 9º-A do
art. 201, e o tempo de serviço correspondente será contado para fins de
disponibilidade.
Veja o art. 201, § 9º e § 9º-A da Constituição:
Art. 201....
§ 9º Para efeito de aposentadoria, é assegurada a contagem recíproca do
tempo de contribuição na administração pública e na atividade privada, rural
e urbana, hipótese em que os diversos regimes de previdência social se
compensarão financeiramente, segundo critérios estabelecidos em lei.
§ 9º Para fins de aposentadoria, será assegurada a contagem recíproca do
tempo de contribuição entre o Regime Geral de Previdência Social e os
regimes próprios de previdência social, e destes entre si, observada a
compensação financeira, de acordo com os critérios estabelecidos em
lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
§ 9º-A. O tempo de serviço militar exercido nas atividades de que tratam os
arts. 42, 142 e 143 e o tempo de contribuição ao Regime Geral de Previdência
Social ou a regime próprio de previdência social terão contagem recíproca
para fins de inativação militar ou aposentadoria, e a compensação financeira
será devida entre as receitas de contribuição referentes aos militares e as
receitas de contribuição aos demais regimes. (Incluído dada pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
A EC 103/2019 remeteu agora à lei complementar a disciplina sobre a
cobertura de benefícios excepcionais, como acidente de trabalho, a ser
atendido pelo Regime Geral e pelo setor privado (art. 40, § 10):
Art. 40.....
§ 10. Lei disciplinará a cobertura do risco de acidente do trabalho, a ser
atendida concorrentemente pelo regime geral de previdência social e pelo
setor privado. (Incluído dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998)
§ 10. Lei complementar poderá disciplinar a cobertura de benefícios não
programados, inclusive os decorrentes de acidente do trabalho, a ser atendida
concorrentemente pelo Regime Geral de Previdência Social e pelo setor
privado. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
Os §§ 10 e 11 foram mantidos pela EC 103/2019, a qual no entanto modificou
a disciplina do §12 e do § 13, para aplicar o regime geral de Previdência
também aos detentores de cargo eletivo:
Art. 40......
§ 10 - A lei não poderá estabelecer qualquer forma de contagem de tempo de
contribuição fictício. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de
1998)
§ 11. Os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão
incorporados ao salário para efeito de contribuição previdenciária e
consequente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da
lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998)
§ 12 - Além do disposto neste artigo, o regime de previdência dos servidores
públicos titulares de cargo efetivo observará, no que couber, os requisitos e
critérios fixados para o regime geral de previdência social. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 20, de 15/12/98)
§ 12. Além do disposto neste artigo, serão observados, em regime próprio de
previdência social, no que couber, os requisitos e critérios fixados para o
Regime Geral de Previdência Social. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
§ 13 - Ao servidor ocupante, exclusivamente, de cargo em comissão declarado
em lei de livre nomeação e exoneração bem como de outro cargo temporário
ou de emprego público, aplica-se o regime geral de previdência
social. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de 15/12/98)
§ 13. Aplica-se ao agente público ocupante, exclusivamente, de cargo em
comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração, de outro cargo
temporário, inclusive mandato eletivo, ou de emprego público, o Regime
Geral de Previdência Social. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº
103, de 2019)
Uma regra importantíssima relativa ao regime próprio de aposentadoria diz
respeito à possibilidade de a União os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios, desde que instituam regime de previdência complementar para os
seus respectivos servidores titulares de cargo efetivo (lembre-se que os
servidores de livre nomeação e exoneração vinculam-se ao regime geral!),
poderão fixar, para o valor das aposentadorias e pensões a serem concedidas
pelo regime de que trata este artigo (RGPS), o limite máximo estabelecido
para os benefícios do regime geral de previdência social de que trata o art.
201.
Já o § 15, com a redação dada pela EC 103/2019, determina que o regime de
previdência complementar de que trata o § 14 será instituído por lei de
iniciativa do respectivo Poder Executivo, observado o disposto no art. 202 e
seus parágrafos, no que couber, por intermédio de entidades fechadas de
previdência complementar, de natureza pública, que oferecerão aos
respectivos participantes planos de benefícios somente na modalidade
de contribuição definida. Contribuição definida consiste no compromisso de
contribuir com determinado percentual mínimo, que no serviço público
federal, por exemplo, é de 11%.
Regime de Previdência Complementar
A EC 103/2019 modificou ainda os §§ 14 e 15 do art. 40, para instituir a
obrigatoriedade da instituição do regime de previdência complementar dos
servidores da União, Estados, DF e municípios, cujos planos poderão ser
oferecidos por entidade fechada de previdência complementar ou
de entidade aberta de previdência complementar:
Art. 40.....
§ 14 - A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, desde que
instituam regime de previdência complementar para os seus respectivos
servidores titulares de cargo efetivo, poderão fixar, para o valor das
aposentadorias e pensões a serem concedidas pelo regime de que trata este
artigo, o limite máximo estabelecido para os benefícios do regime geral de
previdência social de que trata o art. 201. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 20, de 15/12/98)
§ 14. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, por lei
de iniciativa do respectivo Poder Executivo, regime de previdência
complementar para servidores públicos ocupantes de cargo efetivo,
observado o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência
Social para o valor das aposentadorias e das pensões em regime próprio de
previdência social, ressalvado o disposto no § 16. (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
§ 15. O regime de previdência complementar de que trata o § 14 será
instituído por lei de iniciativa do respectivo Poder Executivo, observado o
disposto no art. 202 e seus parágrafos, no que couber, por intermédio de
entidades fechadas de previdência complementar, de natureza pública, que
oferecerão aos respectivos participantes planos de benefícios somente na
modalidade de contribuição definida. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 41, 19.12.2003)
§ 15. O regime de previdência complementar de que trata o § 14 oferecerá
plano de benefícios somente na modalidade contribuição definida, observará
o disposto no art. 202 e será efetivado por intermédio de entidade fechada de
previdência complementar ou de entidade aberta de previdência
complementar. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
E isso, na verdade, já aconteceu, inclusive no âmbito da União! a Lei
12.618/2012 criou a Funpresp - Fundação de Previdência Complementar
do Servidor Público Federal, que instituiu o regime de previdência
complementar para os servidores da União que ingressaram no serviço
público a partir de então, e aqueles quejá eram servidores e assim desejarem
optar. Portanto, haverá duas categorias de servidores públicos, aqueles com a
aposentadoria pelas regras antigas e os que vão aderir ao fundo.
A lei trouxe a limitação das aposentadorias dos servidores públicos federais
até o teto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), previsto no § 14
do art. 40. Para os servidores que ganham acima desse valor, a
complementação das aposentadorias será realizada por meio desse Fundo,
para a qual será destinada a contribuição paritária do servidor e da União até
o limite previsto na lei do que excede o teto do RGPS.
Os defensores da nova sistemática de complementação das aposentadorias
argumentam que em 20 anos o déficit atuarial do Regime Especial de
Previdência dos Servidores estaria zerado, reduzindo o "rombo" gerado
anualmente no orçamento da seguridade social, o que faz sentido, pois com
uma régua atuarial bem gerida é possível que o sistema passe a gerar mesmo
superávits, a exemplos de outros fundos de previdência complementar
existentes.
Quando um servidor público federal sujeito as novas regras se aposentar, ele
receberá, no máximo, o teto previsto em lei (R$ 5.189,80 - 2016). Para garantir
um valor equivalente ao salário que tem na ativa, a aposentadoria do servidor
será complementada pela fundação de previdência complementar relativa ao
poder para o qual trabalha.
Os parágrafos 16 e 17 do art. 40 não foram modificados pela EC 103/2019:
Art. 40....
§ 16 - Somente mediante sua prévia e expressa opção, o disposto nos § § 14 e
15 poderá ser aplicado ao servidor que tiver ingressado no serviço público até
a data da publicação do ato de instituição do correspondente regime de
previdência complementar. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20,
de 15/12/98)
§ 17. Todos os valores de remuneração considerados para o cálculo do
benefício previsto no § 3° serão devidamente atualizados, na forma da
lei. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 41, 19.12.2003)
Significa dizer que se você entrou no serviço público até a data de instituição
do Funpresp, por exemplo, poderá optar voluntariamente pela adesão ao
fundo ou permanecer na regra geral. Aqueles que entraram no serviço público
federal após a Lei 12.618/2012, já estão automaticamente inseridos na
sistemática dos §§ 14 e 15 do art. 40.
Abono de Permanência
O §19 do art. 40 traz a regra do chamado abono de permanência, que é um
benefício concedido ao servidor que permanece trabalhando após ter
cumprido todos os requisitos para aposentadoria voluntária não proporcional
ao tempo de contribuição. Os §§ 18 e 21 tratam da cobrança da contribuição
previdenciária sobre os proventos de aposentados e pensionistas servidores
públicos que ultrapassarem o teto do Regime Geral de Previdência, com a
modificação da EC 103/2019, que afastou a obrigatoriedade do abono de
permanência:
Art. 40..........
§ 18. Incidirá contribuição sobre os proventos de aposentadorias e pensões
concedidas pelo regime de que trata este artigo que superem o limite máximo
estabelecido para os benefícios do regime geral de previdência social de que
trata o art. 201, com percentual igual ao estabelecido para os servidores
titulares de cargos efetivos. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 41,
19.12.2003)
§ 19. O servidor de que trata este artigo que tenha completado as exigências
para aposentadoria voluntária estabelecidas no § 1º, III, a, e que opte por
permanecer em atividade fará jus a um abono de permanência equivalente ao
valor da sua contribuição previdenciária até completar as exigências para
aposentadoria compulsória contidas no § 1º, II. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 41, 19.12.2003)
§ 19. Observados critérios a serem estabelecidos em lei do respectivo ente
federativo, o servidor titular de cargo efetivo que tenha completado as
exigências para a aposentadoria voluntária e que opte por permanecer em
atividade poderá fazer jus a um abono de permanência equivalente, no
máximo, ao valor da sua contribuição previdenciária, até completar a idade
para aposentadoria compulsória. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
§ 20. Fica vedada a existência de mais de um regime próprio de previdência
social para os servidores titulares de cargos efetivos, e de mais de uma
unidade gestora do respectivo regime em cada ente estatal, ressalvado o
disposto no art. 142, § 3º, X. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 41,
19.12.2003)
§ 20. É vedada a existência de mais de um regime próprio de previdência
social e de mais de um órgão ou entidade gestora desse regime em cada ente
federativo, abrangidos todos os poderes, órgãos e entidades autárquicas e
fundacionais, que serão responsáveis pelo seu financiamento, observados os
critérios, os parâmetros e a natureza jurídica definidos na lei complementar
de que trata o § 22. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103,
de 2019)
§ 21. A contribuição prevista no § 18 deste artigo incidirá apenas sobre as
parcelas de proventos de aposentadoria e de pensão que superem o dobro do
limite máximo estabelecido para os benefícios do regime geral de previdência
social de que trata o art. 201 desta Constituição, quando o beneficiário, na
forma da lei, for portador de doença incapacitante. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 47, de 2005)(Revogado pela Emenda Constitucional nº 103,
de 2019) (Vigência) (Vide Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
§ 21. (Revogado). (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de
2019)
Na prática, o servidor fica dispensado de pagar a contribuição
previdenciária até que complete as exigências para a aposentadoria
compulsória, carinhosamente chamada de "expulsória". Portanto, na
verdade, não se trata de um abono propriamente dito, mas uma suspensão de
recolhimento de contribuição previdenciária.
A jurisprudência do STF concluiu que, uma vez preenchidos os requisitos para
o recebimento do abono de permanência, esse direito não pode estar
condicionado a outra exigência. (RE 648.727 AgR, rel. min. Roberto Barroso,
julg. 2/6/2017)
A ocupação de novo cargo dentro da estrutura do Poder Judiciário, pelo
titular do abono de permanência, não implica a cessação do benefício ( MS
33.424, rel. min. Marco Aurélio, julg. 28/3/2017)
A EC 103/2019 incluiu ainda o § 22 no art. 40, que veda a instituição de novos
regimes próprios de previdência dos servidores públicos:
§ 22. Vedada a instituição de novos regimes próprios de previdência social, lei
complementar federal estabelecerá, para os que já existam, normas gerais de
organização, de funcionamento e de responsabilidade em sua gestão,
dispondo, entre outros aspectos, sobre: (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
I - requisitos para sua extinção e consequente migração para o Regime Geral
de Previdência Social; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 103, de
2019)
II - modelo de arrecadação, de aplicação e de utilização dos
recursos; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
III - fiscalização pela União e controle externo e social; (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
IV - definição de equilíbrio financeiro e atuarial; (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
V - condições para instituição do fundo com finalidade previdenciária de que
trata o art. 249 e para vinculação a ele dos recursos provenientes de
contribuições e dos bens, direitos e ativos de qualquer
natureza; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
VI - mecanismos de equacionamento do deficit atuarial; (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
VII - estruturação do órgão ou entidadegestora do regime, observados os
princípios relacionados com governança, controle interno e
transparência; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
VIII - condições e hipóteses para responsabilização daqueles que
desempenhem atribuições relacionadas, direta ou indiretamente, com a
gestão do regime; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
IX - condições para adesão a consórcio público; (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
X - parâmetros para apuração da base de cálculo e definição de alíquota de
contribuições ordinárias e extraordinárias. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 103, de 2019)
Além disso tudo, é importante que você saiba que em se tratando de Regime
Próprio estadual, distrital ou municipal, as alíquotas cobradas para o seu
financiamento não poderão ser inferiores às cobradas pela União, nos
termos do art. 149, § 1º, da Constituição, amplamente modificado pela EC
103/2019 (Pec da Previdência):
Art. 149. Compete exclusivamente à União instituir contribuições sociais, de
intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais
ou econômicas, como instrumento de sua atuação nas respectivas áreas,
observado o disposto nos arts. 146, III, e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto
no art. 195, § 6º, relativamente às contribuições a que alude o dispositivo.
§ 1º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir
contribuição, cobrada de seus servidores, para o custeio, em benefício destes,
de sistemas de previdência e assistência social.
§ 1º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão contribuição,
cobrada de seus servidores, para o custeio, em benefício destes, do regime
previdenciário de que trata o art. 40, cuja alíquota não será inferior à da
contribuição dos servidores titulares de cargos efetivos da União.
§ 1º A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, por
meio de lei, contribuições para custeio de regime próprio de previdência
social, cobradas dos servidores ativos, dos aposentados e dos pensionistas,
que poderão ter alíquotas progressivas de acordo com o valor da base de
contribuição ou dos proventos de aposentadoria e de pensões. (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
§ 1º-A. Quando houver deficit atuarial, a contribuição ordinária dos
aposentados e pensionistas poderá incidir sobre o valor dos proventos de
aposentadoria e de pensões que supere o salário-mínimo. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
§ 1º-B. Demonstrada a insuficiência da medida prevista no § 1º-A para
equacionar o deficit atuarial, é facultada a instituição de contribuição
extraordinária, no âmbito da União, dos servidores públicos ativos, dos
aposentados e dos pensionistas. (Incluído pela Emenda Constitucional nº
103, de 2019)
§ 1º-C. A contribuição extraordinária de que trata o § 1º-B deverá ser instituída
simultaneamente com outras medidas para equacionamento do deficit e
vigorará por período determinado, contado da data de sua
instituição. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
Devem, assim, contribuir para o Regime Próprio:
I - o Ente Federativo;
II - os servidores ativos;
III - os servidores inativos e pensionistas, apenas em relação ao valor do
provento que ultrapassar o teto das aposentadorias do Regime Geral (RGPS),
para que haja isonomia com os trabalhadores da iniciativa privada, para os
quais o art. 195, II estabelece (com a redação da EC 103/2019):
Art. 195 - A Seguridade Social será financiada (...) II - do trabalhador e dos
demais segurados da previdência social, podendo ser adotadas alíquotas
progressivas de acordo com o valor do salário de contribuição, não incidindo
contribuição sobre aposentadoria e pensão concedidas pelo Regime Geral de
Previdência Social; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de
2019)
O art. 4º da EC 103/2019 estabeleceu ainda as regras para aposentadoria dos
servidores públicos:
Art. 4º O servidor público federal que tenha ingressado no serviço público em
cargo efetivo até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional
poderá aposentar-se voluntariamente quando preencher, cumulativamente,
os seguintes requisitos:
I - 56 (cinquenta e seis) anos de idade, se mulher, e 61 (sessenta e um) anos de
idade, se homem, observado o disposto no § 1º;
II - 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de
contribuição, se homem;
III - 20 (vinte) anos de efetivo exercício no serviço público;
IV - 5 (cinco) anos no cargo efetivo em que se der a aposentadoria; e
V - somatório da idade e do tempo de contribuição, incluídas as frações,
equivalente a 86 (oitenta e seis) pontos, se mulher, e 96 (noventa e seis)
pontos, se homem, observado o disposto nos §§ 2º e 3º.
§ 1º A partir de 1º de janeiro de 2022, a idade mínima a que se refere o inciso I
do caput será de 57 (cinquenta e sete) anos de idade, se mulher, e 62 (sessenta
e dois) anos de idade, se homem.
§ 2º A partir de 1º de janeiro de 2020, a pontuação a que se refere o inciso V do
caput será acrescida a cada ano de 1 (um) ponto, até atingir o limite de 100
(cem) pontos, se mulher, e de 105 (cento e cinco) pontos, se homem.
§ 3º A idade e o tempo de contribuição serão apurados em dias para o cálculo
do somatório de pontos a que se referem o inciso V do caput e o § 2º.
§ 4º Para o titular do cargo de professor que comprovar exclusivamente
tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação infantil e
no ensino fundamental e médio, os requisitos de idade e de tempo de
contribuição de que tratam os incisos I e II do caput serão:
I - 51 (cinquenta e um) anos de idade, se mulher, e 56 (cinquenta e seis) anos
de idade, se homem;
II - 25 (vinte e cinco) anos de contribuição, se mulher, e 30 (trinta) anos de
contribuição, se homem; e
III - 52 (cinquenta e dois) anos de idade, se mulher, e 57 (cinquenta e sete)
anos de idade, se homem, a partir de 1º de janeiro de 2022.
§ 5º O somatório da idade e do tempo de contribuição de que trata o inciso V
do caput para as pessoas a que se refere o § 4º, incluídas as frações, será de 81
(oitenta e um) pontos, se mulher, e 91 (noventa e um) pontos, se homem, aos
quais serão acrescidos, a partir de 1º de janeiro de 2020, 1 (um) ponto a cada
ano, até atingir o limite de 92 (noventa e dois) pontos, se mulher, e de 100
(cem) pontos, se homem.
§ 6º Os proventos das aposentadorias concedidas nos termos do disposto
neste artigo corresponderão:
I - à totalidade da remuneração do servidor público no cargo efetivo em que se
der a aposentadoria, observado o disposto no § 8º, para o servidor público
que tenha ingressado no serviço público em cargo efetivo até 31 de dezembro
de 2003 e que não tenha feito a opção de que trata o § 16 do art. 40 da
Constituição Federal, desde que tenha, no mínimo, 62 (sessenta e dois) anos
de idade, se mulher, e 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, ou, para
os titulares do cargo de professor de que trata o § 4º, 57 (cinquenta e sete)
anos de idade, se mulher, e 60 (sessenta) anos de idade, se homem;
II - ao valor apurado na forma da lei, para o servidor público não contemplado
no inciso I.
§ 7º Os proventos das aposentadorias concedidas nos termos do disposto
neste artigo não serão inferiores ao valor a que se refere o § 2º do art. 201 da
Constituição Federal e serão reajustados:
I - de acordo com o disposto no art. 7º da Emenda Constitucional nº 41, de 19
de dezembro de 2003, se cumpridos os requisitos previstos no inciso I do § 6º;
ou II - nos termos estabelecidos para o Regime Geral de Previdência Social, na
hipótese prevista no inciso II do § 6º.
§ 8º Considera-se remuneração do servidor público no cargoefetivo, para fins
de cálculo dos proventos de aposentadoria com fundamento no disposto no
inciso I do § 6º ou no inciso I do § 2º do art. 20, o valor constituído pelo
subsídio, pelo vencimento e pelas vantagens pecuniárias permanentes do
cargo, estabelecidos em lei, acrescidos dos adicionais de caráter individual e
das vantagens pessoais permanentes, observados os seguintes critérios:
I - se o cargo estiver sujeito a variações na carga horária, o valor das rubricas
que refletem essa variação integrará o cálculo do valor da remuneração do
servidor público no cargo efetivo em que se deu a aposentadoria,
considerando-se a média aritmética simples dessa carga horária proporcional
ao número de anos completos de recebimento e contribuição, contínuos ou
intercalados, em relação ao tempo total exigido para a aposentadoria;
II - se as vantagens pecuniárias permanentes forem variáveis por estarem
vinculadas a indicadores de desempenho, produtividade ou situação similar,
o valor dessas vantagens integrará o cálculo da remuneração do servidor
público no cargo efetivo mediante a aplicação, sobre o valor atual de
referência das vantagens pecuniárias permanentes variáveis, da média
aritmética simples do indicador, proporcional ao número de anos completos
de recebimento e de respectiva contribuição, contínuos ou intercalados, em
relação ao tempo total exigido para a aposentadoria ou, se inferior, ao tempo
total de percepção da vantagem.
§ 9º Aplicam-se às aposentadorias dos servidores dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios as normas constitucionais e infraconstitucionais
anteriores à data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional, enquanto
não promovidas alterações na legislação interna relacionada ao respectivo
regime próprio de previdência social.
§ 10. Estende-se o disposto no § 9º às normas sobre aposentadoria de
servidores públicos incompatíveis com a redação atribuída por esta Emenda
Constitucional aos §§ 4º, 4º-A, 4º-B e 4º-C do art. 40 da Constituição Federal.
O art. 10 estabeleceu uma regra de transição para os servidores federais, até
que entre em vigor a Lei que discipline o Regime Próprio de Previdência da
União:
Art. 10. Até que entre em vigor lei federal que discipline os benefícios do
regime próprio de previdência social dos servidores da União, aplica-se o
disposto neste artigo.
§ 1º Os servidores públicos federais serão aposentados:
I - voluntariamente, observados, cumulativamente, os seguintes requisitos:
a) 62 (sessenta e dois) anos de idade, se mulher, e 65 (sessenta e cinco) anos
de idade, se homem; e
b) 25 (vinte e cinco) anos de contribuição, desde que cumprido o tempo
mínimo de 10 (dez) anos de efetivo exercício no serviço público e de 5
(cinco) anos no cargo efetivo em que for concedida a aposentadoria;
II - por incapacidade permanente para o trabalho, no cargo em que estiverem
investidos, quando insuscetíveis de readaptação, hipótese em que será
obrigatória a realização de avaliações periódicas para verificação da
continuidade das condições que ensejaram a concessão da aposentadoria; ou
III - compulsoriamente, na forma do disposto no inciso II do § 1º do art. 40 da
Constituição Federal.
Para os servidores do Regime Geral de Previdência (que aderiram ao
FUNPRESP, por exemplo), o regime é o do art. 20:
Art. 20. O segurado ou o servidor público federal que se tenha filiado ao
Regime Geral de Previdência Social ou ingressado no serviço público em cargo
efetivo até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional poderá
aposentar-se voluntariamente quando preencher, cumulativamente, os
seguintes requisitos:
I - 57 (cinquenta e sete) anos de idade, se mulher, e 60 (sessenta) anos de
idade, se homem;
II - 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de
contribuição, se homem;
III - para os servidores públicos, 20 (vinte) anos de efetivo exercício no serviço
público e 5 (cinco) anos no cargo efetivo em que se der a aposentadoria;
Estabilidade dos Servidores Públicos
Dispõe o art. 41 da CF:
Art. 41. São estáveis após três anos de efetivo exercício os servidores nomeados
para cargo de provimento efetivo em virtude de concurso público.
§ 1º O servidor público estável só perderá o cargo:
I - em virtude de sentença judicial transitada em julgado;
II - mediante processo administrativo em que lhe seja assegurada ampla
defesa;
III - mediante procedimento de avaliação periódica de desempenho, na forma
de lei complementar, assegurada ampla defesa.
§ 2º Invalidada por sentença judicial a demissão do servidor estável, será ele
reintegrado, e o eventual ocupante da vaga, se estável, reconduzido ao cargo
de origem, sem direito a indenização, aproveitado em outro cargo ou posto em
disponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço.
§ 3º Extinto o cargo ou declarada a sua desnecessidade, o servidor estável ficará
em disponibilidade, com remuneração proporcional ao tempo de serviço, até
seu adequado aproveitamento em outro cargo.
§ 4º Como condição para a aquisição da estabilidade, é obrigatória a avaliação
especial de desempenho por comissão instituída para essa finalidade.
Para a aquisição da estabilidade é necessário atender, cumulativamente, a
aos seguintes requisitos:
I - aprovação em concurso público;
II - nomeação para cargo público efetivo;
III - três anos de efetivo exercício do cargo;
IV - avaliação especial de desempenho por comissão instituída para essa
finalidade.
Essa avaliação especial de desempenho é feita com base no
acompanhamento feito durante o estágio probatório do servidor. Esse
acompanhamento é feito pelo chefe imediato do servidor, devendo ser
observado o devido processo legal e a ampla defesa quanto às avaliações
negativas. Nesse sentido, o seguinte julgado do Tribunal Regional Federal da
1ª Região e do Supremo Tribunal Federal:
"Determinando a Instrução Normativa 10, de 14/09/1994, que o servidor em
estágio probatório deve ser avaliado por seu chefe imediato, é irregular
avaliação procedida pelo superior imediato [do chefe]. 2. O estágio probatório
do servidor público não autoriza sua exoneração por insuficiência de
desempenho profissional sem a observância do devido processo legal, já que
deve ser facultada a ampla defesa quanto às avaliações negativas". (AMS
1997.34.00.014588-3/DF, Rel. Desembargador Federal Antônio Sávio de
Oliveira Chaves, Primeira Turma, DJ p.4 de 01/10/2007).
Ainda segundo o STF, servidor efetivo, ainda que em estágio probatório, não
pode ser exonerado ex officio, com base em decreto que extingue o cargo:
"O servidor público ocupante de cargo efetivo, ainda que em estágio
probatório, não pode ser exonerado ad nutum, com base em decreto que
declara a desnecessidade do cargo, sob pena de ofensa à garantia do devido
processo legal, do contraditório e da ampla defesa. Incidência da Súmula 21
do STF" ( ARE 878.278, Relatora: Min. Cármen Lúcia, julgado em 03/04/2015).
A esse respeito, extinto o cargo ou declarada a sua desnecessidade, o
servidor estável ficará em disponibilidade, com remuneração proporcional ao
tempo de serviço, até seu adequado aproveitamento em outro cargo (art. 41, §
3º, CF).
Entretanto, a avaliação especial de desempenho destinada à atribuição
da estabilidade ao servidor é feita por comissão instituída para essa
finalidade, nos termos do art. 41, §4º, da CF.
Com relação a este ponto (estágio probatório) apesar de o prazo não estar
explícito na Constituição, vale a pena discutirmos. Desde 2009 está
relativamente assentada a questão do estágio probatório no âmbito do STJ,
em decorrência do julgamento do MS 12.523, conforme se depreende do
informativo daquele Tribunal:
Depois de algumas idas e vindas legislativas, a Terceira Seção do
Superior Tribunalde Justiça (STJ) definiu: com a Emenda Constitucional
(EC) n. 19/1998, o prazo do estágio probatório dos servidores públicos é
de três anos. A mudança no texto do artigo 41 da Constituição Federal
instituiu o prazo de três anos para o alcance da estabilidade, o que, no
entender dos ministros, não pode ser dissociado do período de estágio
probatório.
O novo posicionamento, unânime, baseou-se em voto do ministro Felix
Fischer, relator do mandado de segurança que rediscutiu a questão no STJ. O
ministro Fischer verificou que a alteração do prazo para a aquisição da
estabilidade repercutiu sim no prazo do estágio probatório. Isso porque esse
período seria a sede apropriada para avaliar a viabilidade ou não da
estabilização do servidor público mediante critérios de aptidão, eficiência e
capacidade, verificáveis no efetivo exercício do cargo.
Perguntinha: a Constituição assegura a estabilidade sindical ao servidor em
estágio probatório? Lembre-se que a estabilidade sindical está prevista no art.
8º, inciso VIII, da CF:
Art. 8º..........
VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da
candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que
suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos
termos da lei.
Agora guarde que os empregados públicos de empresas estatais - empresas
públicas e sociedades de economia mista - ingressam nos quadros dessas
empresas mediante concurso público, por força do art. 37, II, da Constituição,
independentemente de serem ou não prestadoras de serviço público, como
por exemplo os Correios. Entretanto, não gozam da estabilidade conferida
somente aos servidores públicos de cargo efetivo (art. 41, CF).
Art. 41. São estáveis após três anos de efetivo exercício os servidores
nomeados para cargo de provimento efetivo em virtude de concurso
público.
Entretanto, o Supremo já se pronunciou no sentido de que a demissão dos
empregados públicos, apesar de não estáveis, deve ser devidamente
motivada:
"I - Os empregados públicos não fazem jus à estabilidade prevista no art. 41 da
CF, salvo aqueles admitidos em período anterior ao advento da EC nº 19/1998.
Precedentes. II - Em atenção, no entanto, aos princípios da impessoalidade e
isonomia, que regem a admissão por concurso publico, a dispensa do
empregado de empresas públicas e sociedades de economia mista que
prestam serviços públicos deve ser motivada, assegurando-se, assim, que tais
princípios, observados no momento daquela admissão, sejam também
respeitados por ocasião da dispensa. III - A motivação do ato de dispensa,
assim, visa a resguardar o empregado de uma possível quebra do
postulado da impessoalidade por parte do agente estatal investido do poder
de demitir" (RE 589.998, rel. min. Ricardo Lewandowski, julg. em 20/3/2013).
No julgamento dos embargos desse julgado, foi aprovada a seguinte tese de
repercussão geral e a dispensa de processo administrativo para a demissão:
Tema 131 - Despedida imotivada de empregados de Empresa Pública: Os
empregados públicos das empresas públicas e sociedades de economia mista
não fazem jus à estabilidade prevista no art. 41 da Constituição Federal, mas
sua dispensa deve ser motivada. (...) Não se pode exigir, em especial,
instauração de processo administrativo ou a abertura de prévio contraditório
(RE 589.998-ED, rel. min. Roberto Barroso, julg. em 10/10/2018).
Bem, o Supremo Tribunal Federal, em jurisprudência bem sedimentada,
assentou que conquanto haja estendido ao servidor público o exercício de
prerrogativas próprias do empregado regido pelo direito comum do trabalho,
incluindo a de liberdade de associação sindical (art. 37, VI, CF), a
Constituição cuidou de estabelecer limitações a que o exercício de tais
direitos não entre em choque com as vigas mestras do regime administrativo
que preside as relações funcionais, entre essas, a relativa à estabilidade
sindical do art. 8º, VIII, que importaria a supressão do estágio probatório, a
que estão sujeitos todos os servidores.
Desse modo, para o Supremo (e para a sua prova), a condição de dirigente ou
representante sindical não impede a exoneração do servidor público
estatutário, regularmente reprovado em estágio probatório. A
estabilidade sindical não alcança nem mesmo o servidor público regido por
regime especial, ocupante de cargo em comissão de livre nomeação e
exoneração e que, concomitantemente, exerça cargo de direção no sindicato
da categoria, pois poderá ser exonerado ad nutum.
Agora deixa eu lhe fazer uma outra pergunta que o CESPE já fez: o servidor
público federal tem direito de retornar a cargo federal anterior, mesmo após o
estágio probatório de novo cargo assumido?
Instado a se manifestar diversas vezes sobre o assunto, o Supremo firmou
posição no sentido de que somente enquanto estiver no estágio probatório
do novo cargo, o servidor poderá ser reconduzido ao cargo anterior, se assim
desejar. Além disso, não poderá ter pedido exoneração do cargo anterior,
mas sim vacância para posse em cargo inacumulável.
Por exemplo, vamos supor que você, Auditor Federal de Controle Interno da
CGU, área de correição, cansado do marasmo do PAD e outras sindicâncias,
resolve fazer concurso para a Polícia Federal e agregar emoção à sua vida
profissional. Após algumas operações especiais, em que você atua agora do
lado do perigo, com apreensão de drogas, troca de tiros e tudo o mais que
você sonhou, você acha que sua vida é preciosa, está correndo riscos
demasiados e deseja voltar à tranquilidade. Caso já se tenham passados os
três anos, ou seja, o seu estágio probatório na Polícia já se completou, não
poderá mais voltar ao cargo de auditor. Resultado: vai continuar fazendo
operações especiais, ou pedir para realizar serviços internos. Mas lembre-se:
Você precisa ser estável no cargo de origem, no caso Auditor da CGU, para
poder retornar.
Quanto à perda do cargo do servidor estável, ela poderá ocorrer em quatro
hipóteses (§ 1º do art. 41 e art. 169, § 4º):
I - em virtude de sentença judicial transitada em julgado;
II - mediante processo administrativo em que lhe seja assegurada ampla
defesa;
III - mediante procedimento de avaliação periódica de desempenho, na
forma de lei complementar, assegurada ampla defesa;
IV – uma outra hipótese de perda do cargo pelo servidor estável, que nem
todos se lembram, é a do art. 169, § 4º, o qual prevê a possibilidade de o
servidor estável vir a perder o cargo, em virtude de ultrapassagem do
limite com despesa de pessoal previsto em lei complementar.
Nesse caso, não sendo suficientes as providências para retorno aos
limites previstas no § 3º do art. 169, o servidor estável poderá vir a perder
o cargo, desde que ato normativo motivado de cada um dos Poderes
especifique a atividade funcional, o órgão ou unidade administrativa objeto
da redução de pessoal.
Art. 169.........
.........
§ 3º Para o cumprimento dos limites estabelecidos com base neste artigo,
durante o prazo fixado na lei complementar referida no caput, a União, os
Estados, o Distrito Federal e os Municípios adotarão as seguintes providências:
I - redução em pelo menos vinte por cento das despesas com cargos em
comissão e funções de confiança;
II - exoneração dos servidores não estáveis.
§ 4º Se as medidas adotadas com base no parágrafo anterior não forem
suficientes para assegurar o cumprimento da determinação da lei
complementar referida neste artigo, o servidor estável poderá perder o cargo,
desde que ato normativo motivado de cada um dos Poderes especifique a
atividade funcional, o órgão ou unidade administrativa objeto da redução de
pessoal.
O servidor que perder o cargo dessa forma fará jus a indenizaçãocorrespondente a um mês de remuneração por ano de serviço (art. 169, § 5º,
CF). Além disso, o cargo objeto da redução será considerado extinto, vedada a
criação de cargo, emprego ou função com atribuições iguais ou assemelhadas
pelo prazo de quatro anos, na forma do § 6º, do art. 169:
Art. 169......
§ 5º O servidor que perder o cargo na forma do parágrafo anterior fará jus a
indenização correspondente a um mês de remuneração por ano de
serviço.
§ 6º O cargo objeto da redução prevista nos parágrafos anteriores será
considerado extinto, vedada a criação de cargo, emprego ou função com
atribuições iguais ou assemelhadas pelo prazo de quatro anos.
§ 7º Lei federal disporá sobre as normas gerais a serem obedecidas na
efetivação do disposto no § 4º.
Conforme o § 7º acima, o dispositivo do § 4º é norma de eficácia limitada, cuja
exequibilidade é condicionada à edição da lei federal.
O art. 247 das Disposições Constitucionais Gerais, incluído pela EC 19/1998,
estabelece que na hipótese de insuficiência de desempenho, a perda do cargo
de servidor público estável que, em decorrência das atribuições de seu cargo
efetivo, desenvolva atividades exclusivas de Estado, deverá ocorrer por
processo administrativo, com critérios e garantias especiais para a perda do
cargo. Na realidade, a perda do cargo de todo e qualquer servidor
estável dependerá de processo administrativo em que sejam assegurados a
ampla defesa e o contraditório:
Art. 247. As leis previstas no inciso III do § 1º do art. 41 e no § 7º do art. 169
estabelecerão critérios e garantias especiais para a perda do cargo pelo
servidor público estável que, em decorrência das atribuições de seu cargo
efetivo, desenvolva atividades exclusivas de Estado.
Parágrafo único. Na hipótese de insuficiência de desempenho, a perda do cargo
somente ocorrerá mediante processo administrativo em que lhe sejam
assegurados o contraditório e a ampla defesa.
PAD - Processo Administrativo Disciplinar
Quanto ao processo administrativo disciplinar, visto em detalhes na disciplina
de Direito Administrativo, cumpre lembrarmos a Súmula Vinculante 5/STF:
"A falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar
não ofende a Constituição".
A validade dessa súmula foi reafirmada pelo STF em 30 de novembro de
2016, coma rejeição do pedido de cancelamento da Súmula feito pelo ainda
em 2008 pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, pedido
esse recebido como mera petição e que foi reautuado em 2011 como
"Proposta de Súmula Vinculante 58 - PSV 58, Rel. Min. Ricardo Lewandowski,
julg. 30/11/2016", após a regulamentação legal da proposta de edição, revisão
e cancelamento de Súmulas.
O Conselho argumentava que não havia reiteradas decisões sobre o tema e
não seria possível aceitar que um leigo, sem conhecimento do processo em
sua complexidade (prescrição, juiz natural, devido processo legal,
contraditório e ampla defesa), possa ser incumbido de manejar ingredientes
tão complicados de modo a promover um trabalho que seja minimamente
eficiente e à altura dos postulados constitucionais. A Súmula, quando editada,
assegurou e confirmou a legalidade da demissão de 1.711 servidores públicos
que responderam a PAD.
O Relator do feito considerou que o mero descontentamento ou divergência
quanto ao conteúdo do verbete vinculante não propicia a reabertura das
discussões sobre tema já debatido à exaustão pelo STF. Ressaltou ainda que
para admitir-sea revisão ou o cancelamento de súmula vinculante, é
necessário que seja evidenciada a superação da jurisprudência da Suprema
Corte no trato da matéria, que haja alteração legislativa quanto ao tema ou,
ainda, modificação substantiva de contexto político, econômico ou social,
o que não ocorreu na espécie.
(CESPE/AUDITOR FEDERAL DE CONTROLE
EXTERNO/TCU/2009) Atualmente, em razão de decisão do Supremo
Tribunal Federal, a União, os estados, o Distrito Federal (DF) e os
municípios devem instituir, no âmbito de suas competências, regime
jurídico único e planos de carreira para os servidores da administração
pública direta, das autarquias e das fundações públicas.
CERTO. De início, você deve guardar que o fim do regime jurídico único,
ocorrido com a edição da EC 19/98, foi revogado pelo STF, com efeitos ex
nunc, ou seja, da decisão do Supremo para a frente. A redação do art. 39,
revogada pelo STF era a seguinte:
“ Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão
conselho de política de administração e remuneração de pessoal, integrado por
servidores designados pelos respectivos Poderes.”
Assim, retorna a redação anterior do art. 39, que estabelece o regime jurídico
único no âmbito de cada ente da Federação:
“ Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão, no
âmbito de sua competência, regime jurídico único e planos de carreira para os
servidores da administração pública direta, das autarquias e das fundações
públicas.”
Isso significa que cada Estado, Município e a União deverão editar regime
jurídico próprio, que abrangerá os servidores de todos os Poderes do Ente
Federativo.
(CESPE/PROMOTOR DE JUSTIÇA SUBSTITUTO/MPE ES/2010) É vedada a
filiação ao RGPS, na qualidade de segurado obrigatório, de pessoa
participante de regime próprio de previdência, ainda que servidor
ocupante exclusivamente de cargo em comissão declarado em lei de livre
nomeação e exoneração.
ERRADO. O regime de aposentadoria dos servidores ocupantes de cargo em
comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração são filiados
obrigatórios do Regime Geral de Previdência Social.
Mas cuidado! Se a questão vier dizendo em servidores ocupantes de cargo de
confiança declarado em lei de livre nomeação e exoneração, lembre-se que
tais cargos são ocupados exclusivamente por servidores de cargo efetivo.
Assim, neste caso, tais servidores são, naturalmente, filiados ao Regime
Especial de Previdência.