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SÉTIMO PRELÚDIO 
Notas Sôbre a Cidade Nova 
(ABRIL DE 1960) 
A ALGUNS quilômetros das tôrres e dos blocos da Cidade 
nova dormita minha velha aldeia. Em alguns minutos, eu vou 
da minha casa vetusta até às tôrres de perfuração, até à cidade 
sem passado . 
De N., cujo caráter medieval não se manifesta aos olhares 
( o burgo foi construído com uma certa regularidade no sé-
culo XIV, na frente de uma ponte sôbre o Gave, passagem de 
uma estrada indo de Puy a Saint-f acques-de-Compostelle, no 
lugar de um lugarejo mais antigo; foi uma cidade então nova, 
reconstruída dois séculos mais tarde com uma regularidade ainda 
mais geomética e cercada de muralhas à italiana), de Navarrenx, 
eu conheço cada pedra . Sôbre essas pedras, eu leio os séculos 
um pouco como os forasteiros nos círculos dos troncos cortados 
lêem as idades das árvores. Mas a analogia que se impõe, 
à N. , como a muitos outros lugares, aldeias ou cidades, é a 
137 
imagem do m?lusc?·, Um se! vivo se?regou len~amente uma 
estrutura; considerai a part~ esse ser vi~o! separai-? da forma 
que êle possui segundo as leis de sua ~speci~, ele esta ali, mole, 
pegajoso, disforme; não compree~de1s mais. sua _relação com 
esta estrutura fina, com estas estnas, estas simetnas, estas ra-
nhuras, nas quais cada detalhe co,ntém ~utras finezas, primeira-
mente ocultas. É a relação que e preciso esforçar-se em com-
preender, resumida numa imensa vida da espécie e num longo 
esfôrço dessa vida para se manter e reter o que lhe convém. 
Curto de história e de civilização, o burgo indica as formas e a 
ação de uma comunidade milenar, ela mesma inscrita numa so-
ciedade e numa cultura cada vez mais largas e mais distantes . 
Esta comunidade trabalhou, organizou e reorganizou, modificou 
e remodificou segundo suas necessidades, sua concha. Muito 
mais: cada casa contém um pouco dêsse animal pegajoso que 
se movimenta lentamente, que muda o calcáreo ambiente em 
forma delicada: uma família. Cada casa tem seu aspecto . É 
preciso ver que diversidade se obtém espontâneamente no país 
utilizando os mesmos elementos estáveis ("estruturais", como 
se diz) a saber: a galeria na qual secava o milho e pela qual 
se comunicavam as peças, o pórtico pelo qual os grandes carros 
entravam nas granjas onde se batia com o mangual o trigo e 
a cevada. N tssas velhas casas e sóbre elas, o funcional, o apro-
pr~ado à vida, o ornamental e o supérfluo encontram-se sem 
brilho, de uma maneira às vêzes agradável ( nem sempre), en-
cantadora tanto como discreta. A palavra "ornamento" con-
v~m mais do _que a palavra "beleza" e do que a palavra "esti!o", 
~mda qu: exista aqui uma espécie de estilo de vida e um gost? 1
1:_co~testavel. As vivas côres das argamassas embelezam as reSI-
dencias ela~ protegem os muros e, segundo a tradição, af~s-
tam as mfluencias maléficas. Cada cidade é uma obra e tambem 
cada casa· Tudo nela se mistura e se une: objetivos, funções, 
forma~, prazeres, atividades. Se bem que haja em N., esboços 
?e 1?airros distintos ( em volta dos locais cte feira em volta da 1
dg ... reJa e da prefeitura e fora dos muros nos subúrbios), nenhum esses ba· ' · la d 1 irros se separa dos outros· o residencial não se iso 
Eos ugares de trabalho ou onde ~os divertimos ( às vêzes) · ntre o cam f -o· po, as ruas e as casas não há corte nem con usa ' passa-se dos ' . - or Uma campos ao coração do burgo e das hab1taçoes P sucessã · · 't' s 0 
mmterrupta: árvores, jardins, pórticos e pa 10 ' 
138 
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animais. A rua, no burgo, não é nem um deserto nem o único 
lugar de encontro da felicidade e da infelicidade, o único lugar 
humano. Transição espontânea, ela não é um simples lugar de 
passagem e também não procura prender as pessoas com ilumi-
nações e objetos expostos. Nela se passeia, se conversa, se 
vive. Nada do que se passa na rua escapa ao olhar das casas 
e as pessoas olham sem se privarem dêsse prazer . Mas os pas-
santes também estendem o olhar até o fundo dos corredores e 
dos pátios. Nada de privilégio abusivo para o meio de com:1-
nicação, mas nada de má sorte atingindo-o com esterilidade . 
A rua integra-se. Escutam os artesãos cantarem, e baterem os 
martelos, e ranger a plaina e chorarem as crianças e as mães 
ralharem. Há mais aprazíveis, mais pitorescos. Existiam pou-
cos - antigamente - mais equilibrados (não sem conflitos 
ocultos, mas isso é outro negócio) . 
Existiam poucos, pois tudo isso não é mais quase verdade. 
O burgo artesanal e comercial, bem inscrito no seu contexto de 
campo e de camponeses, vegeta e esvazia-se como tantas aldeias 
e pequenas cidades moribundas. O molusco, agonizante, boceja 
na luz. Os comerciantes que sobrevivem não são mais do que 
gerentes. Os artesãos? Contam-se nos dedos. O mercado, que 
se realiza no mesmo dia da semana desde o século XIV, per-
deu sua importância. Na rua desfilam carros e caminhões; ela 
é cada vez mais barulhenta e deserta. A gente se entendia em 
N. . . como em outra parte e cada vez mais . A gente se en-
tendia há muito tempo, mas o tédio tinha antigamente a mole 
doçura dos domingos em família, uma tepidez feliz. Havia sem-
pre alguma coisa para contar ou para fazer. Vivia-se numa 
marcha lenta, a gente vivia. Agora a gente se entendia pura-
mente, essencialmente ... 
Chego a Mourenx e horrorizo-me. No entanto, a Cidade 
nova não se apresenta mal. O plano conjunto ( o plano-massa) 
não carece de porte: blocos e tôrres alternam as linhas horizon-
tais e as verticais. O corte entre a paisagem - colinas arbori-
zadas, landas, vinhedos - e a cidade, por mais brusco que seja, 
tolera-se; êle não brutaliza demais os olhos. Os prédios parecem 
bem concebidos e bem construídos; sabe-se o que êles oferecem 
aos habitantes - pelo menor custo, parece - banheiros ou 
quartos com água, secadores, peças bem iluminadas onde as 
pessoas podem instalar seu aparelho de rádio e sua televisão 
139 
----111111 
e contemplar o mundo a domicílio. . . O capitalismo de Estad 
no nosso país, não faz mal às coisas. Técnicos e tecnocratas 
0
-0 ' 
carecem de boa vontade, ainda que esta vontade seja imperios:º 
Não se vê muito bem em que e como o socialismo de Estad~ 
faria de outra maneira e melhor. 
No entanto, tôda vez eu me horrorizo diante dessas "má-
quinas de habitar". Quando os mais novos tecnólogos e "meca-
nólogos" nos descrevem as máquinas modernas, quando êles 
nô-las mostram menos inertes e menos fechadas do que as ima-
ginava e menos esmigalhantes para o trabalho, como constituin-
tes de um "meio" dotado de sua existência e de sua vida pró-
pria, mediação entre os indivíduos como entre os grupos hu-
manos e a natureza, essas descrições têm maior interêsse . 1 
Elas renovam a questão tendo em conta as mais recentes ciên-
cias e técnicas. Mas é a alguns passos daqui, na fascinante e 
gigantesca usina, em Lacq, que é certamente verdade. Em 
Mourenx:, que tenho eu sob os olhos? Os prédios, êles também, 
são "objetos técnicos" e máquinas. Darão êles ou dão já um 
humanismo nôvo? São êles mediadores entre a natureza e o 
homem, entre os humanos? Ligam êles entre si os indivíduos, 
as famílias, os grupos, ou os separam? As pessoas irão dôcil-
mente, como quer o plano, comprar no centro comercial, pedir 
conselho no centro social, brincar no centro de lazeres, cum-
prir pontualmente os atos do cidadão no centro administrativo? 
(sem omitir o fato que êsse centros não existem ainda, apenas 
no papel, e que êles serão já um progresso!) A espontaneidade 
consegue aqui se restituir, e uma comunidade se criar? O fun-
cional integrar-se numa realidade orgânica - uma vida - que 
recebe dela uma estrutura mas a modifica adaptando-a? E_u 
não respondo ainda nem sim nem não . É uma hipótese acei-
tável e uma nova série de interrogações. Aqui, em Mouren~, 
onde entramos? No socialismo ou no supercapitalismo? Na ci-
dade radiosa ou no mundo do tédio sem recurso? A 
Mourenx ensinou-me muita coisa . Aqui, os obje_tos te~ 
0 título ~e sua existência social: sua função . Ca?a. obJeto se;_ve e o diz. Sua função é bem distinta e bem propna. No ll1 
i Cf s· . h' cf P· 253: " . !mondon, Mode de l'existence de l'ob1et tec .!que, · dida em 
A relaçao do objeto técnico não pode instituir-se se?ªº. 1:ª -:3e c~letiva, 
que ela chegar a fazer existir esta realidade intenndiVIdu 
que nós denominamos transindividual. .. " 
140 
d 
lhor caso, quando a cidade nova fôr acabada e bem sucedida, 
tudo nela será funcional, e cada objeto terá uma função pró-
pria: a sua. Esta função, cada objeto a indica, significa-a, gri-
ta-a a sua volta. :8le se repete infinitamente. O objeto redu-
zido a sua função e também reduzido a sua significação; apro-
xima-se indefinidamente do sinal e o conjunto dêsses objetos de 
um sistema de sinais . Em Mourenx, não há ainda muitos sinais 
verdes ou vermelhos . Tudo é apenas sinais verdes ou verme-
lhos: isto exigido, isto proibido. O objeto reduzido à uma sim-
ples significação confunde-se com a coisa nua, despojada, des-
provida de sentido. Nos sinais como nos signos (na linguagem) 
o elemento último ao qual se ligam e do qual se desligam as 
significações é um simples fato, uma coisa: a lâmpada do fogo, 
o fenômeno na linguagem. Aqui nada acontece ( em aparência 
pelo menos) de maneira sensível . Não há acontecimento pos-
sível senão um único: que tudo vá pelos ares, ou que tudo des-
morone . Para falar em têrmos de teoria inf ormacionista: a 
redundância é enorme. Ela se aproxima de 100% . Tudo é 
claro e inteligível. Tudo é banal. Tudo é fechadura e sistema 
materializado. O texto que oferece a cidade aos nossos olhos 
é perfeitamente legível, tão pobre quanto claro apesar dos esfor-
ços dos arquitetos para variar as linhas. A surprêsa? O pos-
sível? Desvanecidos nesse lugar que deveria ser o das possibi-
lidades. 
Em Mourenx:, eu não leio os séculos, nem o tempo, nem 
o passado, nem o possível. Como num romance "objetal" (não, 
eu peço perdão aos romancistas contemporâneos, não é exato: 
como numa brochura de propaganda) eu percorro a moderni-
dade; eu leio sobretudo os temores que ela pode inspirar: o 
abstrato que entre de bom grado, ou à fôrça, no vivido - a 
análise extenuante que divide, reparte, separa - a síntese ilu-
sória que não chega mais a reconstituir um ato - a estrutura 
morta, impotente a suscitar ou ressuscitar o vivo mas que po-
deria muito bem compreendê-lo - os atos dos podêres pater-
nais que castigam bem porque amam bem, ao menos que seja 
pelo contrário: o Estado, a polícia, a Igreja, Deus ( e a ausên-
cia de Deus) a "Gendarmeria", os guardas, os escritórios e a 
burocracia, a organização ( e a falta de organização), a política 
( e os trâmites da política) . 
141 
Jncontestàvelmente, a burguesia teve o gênio da , . 
al, . li " . d análise da razão an itica, o ma gno gemo a abstração e da e 
ção. Ela o guarda, ou pelo menos seus homens mai·ss~par~-
-f', " · 1 mteh gentes, os tecnocratas . ..c.sse gemo, e a nem o criou ( êle -
1, . ) t -f',l b . nasceu com a ogica nem o esgo ou. .e e so revive a ela. Pel , . li d b, o que nos sabemos, o socia smo eve tam em passar por aí. o " 
. d 1 " . 1 pon-to de vista e c asse torna-se smgu armente parcial e grosse· _ 
ºd, . d "l A , ua mente parti ano quan o e e o contesta. s smteses, as totali-
dades, o homem total e os avanços nos dccepcionaram muito· 
é preciso esperarmos com paciência a hora de uma unidad; 
mais alta. A burguesia adotou a razão analítica para consti-
tuir seu espírito próprio . Com tôda sua eficiência, teórica e 
prática, material e não material, o espírito burguês separou 0 
que tinha antigamente por unido e misturado: a natureza e 0 
homem social, o ser e o pensamento, os trabalhos, os atos, as 
atividades, as idades, os sexos, as idéias, os sentimentos, as 
funções, as formas . Continua hoje até separar a palavra e o 
discurso, os elementos do discurso, as "estruturas". :ele levou 
até o extremo a divisão técnica do trabalho ( a tal ponto que a 
unidade e a totalidade reencontradas parecem sempre prestes a 
surgir, tanto a separação torna-se intolerável. 
A época burguesa caracterizava-se sob êsse ângulo por 
uma colossal análise - indispensável, eficiente, terrificante -
realizada objetivamente e projetada sôbre o terreno nas cidades 
novas . Tudo que era separável foi distinguido e separado: não 
somente os domínios e os gestos, mas os lugares e as pessoas• 
O que, desde as idades neolíticas, era quase confundido nos 
lugares espontâneos da vida social foi separadamente jogado 
no tempo e no espaço . De maneira que os intermediários _entre 
êsses elementos separados ( quando êles existem, o que, e_ um 
bem: meios de comunicação, ruas e estradas, sinais e c~digos, 
agentes de câmbio e de comércio, etc. ) recebem uma impor-
tância exagerada. O que liga torna-se mais importante do q~e 
os "sêres" ligados . Mas esta importância não confere em na ª 
vida e atividade a êsses intermediários . A rua e a estrad~ tor-
nam-se essenciais mas desérticas na mesma circulação mceds-
' · · tante 0 sante e sempre repetida A venda torna-se mais impor 
· · terme-q~_e . a pro?ução, a troca mais do que .ª ativi_dade, os ms fins. 
dianos mais do que os criadores, os meios mais do que 0 
E tudo cai no tédio . 
142 
d 
Não está aí um traço diabólico nem uma série de traços 
absurdos da burguesia. Uma necessidade mais objetiva mani-
festa-se. Sem dúvida, seria preciso levar até às mais extremas 
c?nseqüências a distância e a separação. A emprêsa do conhe-
cimento e da ação não se exerce senão sôbre elementos distin-
tos e separados. A análise deve ser levada até o fim - pas-
sando pela ruptura e a morte do que ela detalha - antes que 
o pensamento reencontre a vida. A praxis não reconstitui um 
todo senão depois do esmigalhamento e da separação . Enfim, 
no curso do crescimento do poder do homem sôbre a natureza 
- no desenvolvimento econômico e social - chega um mo-
mento em que todos os podêres crescem · por êles mesmos, de 
maneira quase autônoma: a técnica, a demografia, a arte, a 
ciência, etc. Tudo se separa e no entanto se totaliza. Tudo se 
reifica e no entanto se enfraquece. O aleatório triunfa. 
Paradoxos. Metem-nos diante de um "mundo" dividido 
em pedaços, decomposto em mil pequenos "mundos". Ao 
mesmo tempo, êsse deslocamento - que atinge até as bases 
da prática, até os fundamentos da consciência, até as raízes da 
atividade - se acompanha de uma integração sempre mais 
vigorosa . Sôbre êsse campo imenso de fragmentos humanos, o 
Estado se levanta e vela. A sociedade socializa-se, no momen-
to em que o socialismo não resolveu de maneira convincente 
nenhum dos problemas deixados em suspenso pela sociedade 
burguesa, fora êste - que nos concerne mais diretamente -
da acumulação e do crescimento econômico sem limitações in-
ternas, o que garante a longo têrmo seu triunfo mas nos deixa 
diante de nossas interrogações . 
Um dêsses aspectos faz esquecer o outro, constantemente. 
A tendência à totalização e à "integração" (no conjunto social, 
isto é, no Estado) dissimula as separações. O esmigalhamento 
da cotidianidade, muito mais vasto que o do trabalho ( que 
desaparece já no horizonte) dissimula a unificação pelo alto e 
a supressão das diferenças originais . Ora, a verdade encontra-se 
no movimento do conjunto. É ela que propõe aos olhares êste 
texto obscuro e legível: a Cidade nova. 
Quando eu chego em Mourenx pela estrada, subo sôbre 
uma eminência que domina a cidade nova. Aí se constrói a 
caixa d'água. Sendo intelectual de esquerda e filósofo ( ou ex-fi-
lósofo), não temo o ridículo; é bem evidente que um senhor 
143 
que se senta numa colina para pensar e meditar sôbre O dest· 
d / / mo da cidade que se esten e a seus. pe~ e qua~e perfeitamente ri-
dículo. Eis os temas dessa med1taçao frequentemente retoma-
da: "Como não se lembrar aqui do que escrevia Marx ainda 
jovem: "A grande indústria tira do trabalho até a aparência do 
natural. Ela aniquila em tôda parte o caráter natural dividido 
ao extremo, promulgando somente a unidade do dinheiro. Elasubstitui as cidades naturais pelas cidades industriais modernas 
surgidas numa noite" ( Cf. "Idéologie Allemande, Obras FiI'. 
trad. Molitor, IV, p. 218-219) Sonha pois com as cidades me-
dievais, formigantes de atividades e de vida natural. Nada era 
separado e tudo se abria sôbre tudo; o trabalho e o lugar de 
passagem, a casa e a rua, o campo e a cidade, as trocas e a 
produção, a vida privada e a vida pública. Lá, como diz Marx 
a vida do povo e a do Estado identificam-se; a sociedade civil 
e a sociedade política coincidem . Era a democracia, a da não-
liberdade-vitalidade e miséria, esplendor e zombaria. Resta al-
guma coisa disso nas medinas islamíticas. Resta um último traço 
na tua aldeia. 
Pensa sobretudo nãs cidades gregas, cidades policêntricas. 
A ágora, o tempo, o estádio regulavam orgânicamente não sà-
mente a circulação dos habitantes, mas seus interêsses e suas 
paixões. A estrutura da cidade coincidia quase inteiramente 
com sua vida. Paixões e ritmos, ciclos do tempo e do espaço 
concordavam . Lá, o sentimento da dignidade pessoal e da li-
berdade entrou na vida social. A sociedade civil, isto é, o con-
junto das relações sociais que constituíam o homem individual, 
concordavam com o Estado desde que houvesse Estado, porq~e 
o Estado coincidia com a cidade e a sociedade civil numa um-
dade (que aliás escravizava a vida privada). 
Aqui, e nas cidades análogas, até agora, é o fracasso. Tu 
não pudeste senão constatá-lo . Os habitantes da cidade nova, 
tu o viste, tu lhes falaste. Tu os conheces bem. Para com-
preendê-los tu não encontraste nem na tua pequena cabeça de 
sociólogo conceitos úteis. Pode-se a respeito dêles disc~rrer 
~ôbre a adaptação, sôbre a inadaptação? Adaptar-se, para e!~~ 
e entrar num quadro forçado existente antes dêles, conStrut 
sem êles. É parar de existir . Não se adaptar é sofrer d~ ~:a 
obscuro e constante sofrimento .,,.les escolheram sem duvi 
· e, · nto ( mas a palavra "escolher" é conveniente?) êsse sofnme 
144 
e 
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obscuro do protesto. E é a maneira dêles de se adaptarem . 
:Êles estão lá . Ao chegar, esperaram a vida radiosa. :E:les con-
fundiram a cidade nova com a aldeia das férias. :E:les acredi-
taram na vida nova . A gente lhes prometia. Então veio o cho-
que. A primeira decepção atenua-se. Ela não desaparece mais 
do que a cicatriz de uma grave ferida. As pessoas são apenas 
sensíveis demais aos defeitos desta sociedade que não é delas . 
E apesar dessa consciência aguda, suas vidas cotidianas embo-
tam-se um pouco. Elas caem num torpor indiferente. O dia 
chegará em que elas se declararão satisfeitas . Que esconderá 
essa declaração? Qual pode ser a vida dos casais que habitam 
esta cidade que êles sabem que não poderia durar mais de vinte 
e cinco anos, uma vez que as fontes de energia se esgotam? 
De maneira que êles não têm nenhuma esperança de envelhecer 
ao lado de seus filhos. 
Não esqueça que muitos são transplantados do segundo 
grau. A maior parte já era de desenraizados . A felicidade dêles, 
o refúgio dêles, é a desgraça dêles: as crianças. Logo, tu irás 
ver essas pessoas que tu conheces neste bloco, lá embaixo. Tu 
perguntarás a elas se é sempre insustentável nos prédios por 
causa das crianças . Olha, olha, seria interessante determinar o 
limite a partir do qual o número de crianças por escada torna 
a vida insuportável. Eis um trabalho de bom e honesto sociólogo . 
Tu, tu te orientas muito para grandes idéias . O que te espanta, 
aqui, é que tudo se separa, e que portanto uma estrita hierar-
quia reina entre essas pessoas separadas. Desde que elas se 
reencontrem, a hierarquia constitui-se, fortemente, ferozmente, 
pela vaidade . Em cada prédio e bloco, as pessoas são as mes-
mas e assemelham-se; então elas fazem não importa o que 
para não se assemelharem . As menores satisfações de vaidade, 
o menor ganho de prestígio, tomam uma enorme importância. 
A vaidade envenena a vida. 
Aliás, antigamente a cotidianidade existia . Ela vivia. O 
animal pegajoso segregava sua concha mais bela do que êle. 
A cotidianidade aparecia somente através das metamorfoses: a 
arte, a cultura, os monumentos, ou muito simplesmente o dis-
curso, uma ingênua retórica dos símbolos. E no entanto, ela 
existia com sua dupla dimensão: vulgaridade e profundidade . 
Tu concebias antigamente a autocrítica do cotidiano pelas suas 
próprias transposições : a crítica do animal pegajoso pelo mo-
145 
L 
lusco delicado e inversamente - a crítica do cotidiano pelas 
festas ou do instante banal pelos momentos e inversamente _ 
a crítica da vida pela arte e da arte pela vida, a do real pela sua 
reprodução e sua imagem inversa, sonho, imaginação, ficção. 
Depois os tempos mudaram . As técnicas penetraram na coti-
dianidade; houve novos problemas. E agora, sob teus olhos, 
o que tens? A vida cotidiana esmagadora, reduzida à sua essên-
cia, à suas funções banais e ao mesmo tempo quase dissolvida 
pelo esmigalhamento dos gestos e a repetição dos atos. Ei-la 
diante de ti, inteiramente, ou quase, alienada e reificada, e talvez 
consentida, mas talvez também tentando voltar a si . É preciso, 
dizes ( com Marx, mas quanta amargura e incertezas nesse "é 
preciso!") despojar a vida humana de todo o caráter natural, 
defini-la pelo puro poder da natureza para que enfim os ho-
mens associados e unidos descubram sua própria natureza e 
juntem-se à natureza que lhes é exterior. Aqui, o despojo se 
completa. E em seguida? O que fazer dessa areia humana, 
areia de indivíduos e de gestos, aglomerados em blocos impla-
cáveis e abstratos, plantados ali, na orla das landas que ~ão 
mudaram, não longe das aldeias ancestrais, como uma lâmma 
de faca nova na velha terra? A vida cotidiana, trata-se agora 
de fazê-la, de produzi-la de criá-la conscientemente. Ela está , ' ai, no seu pesado tédio, reduzida à única baixeza. E no entanto, 
ela não está mais aí reduzida a uma fina e opaca matéria h~-
mana, privada de seus jogos e prazeres espontâneos .. • . Vais 
procurar a falha por onde passaria uma liberdade que se mtro-
d_uz nas lacunas, que se insinua nos interstícios? Ela tem neces-
sidade, essa boa velha liberdade que tu conheces bem, de um 
"mu d " h · n ° nem completamente vazio, nem completamente c eio. 
Mas aqu"l " · e . e e, 0 mundo"? :E:le parece ao mesmo tempo vazio cheio " h · ,.. . " 
T ' c eio como um ovo e vazio como um abismo · · · · 
ratar-se-ia po1·s d · N- - · 'dades , . e cnar. ao se pode senao deseJar as ci operarias e os b · , • , · · mes-mo até . airros proletanos reconstruidos. Tu mas . 
q atr_air com teus desejos uma ditadura do proletanado 
ue mudaria em 'd d · Mas enfim • _ ci a es novas todos os casebres antigos. 
socialis isso ~ao resolveria todos os problemas. Eis a prova. O 
muitos :~ na~ tem ~o~er mágico, mesmo se a palavra tem para 
estilo Q p der ~agico • É preciso também lhe encontrar seu 
• uanto a ti · d • 1· t do tédio? ..., , vais eclarar-te esperto e especta 1s a 
· e um pou · co O que tu fazes. Como um conhecedor aspira 
146 
11111 
os vinhos, tu provas os tédios diferentes. Em Nav., o tédio per-
manece carregado do perfume das coisas mortas, que foram 
boas e às vêzes belas. ::f:le tem cheiro de torrão. Os anos que 
passaram sôbre os esplendores decadentes não tiraram ainda o 
perfume. É um tédio modesto e às vêzes satisfeito, o das vigí-
lias de inverno e dos domingos de verão . Aqui, na cidade nova, 
o tédio é grande de desejos, de frenesis insatisfeitos, de possibi-
lidades desfeitas. Uma vida magnífica está ali, tão próxima e 
tão distante. Ela está ali como um doce quando se tem man-
teiga, leite, farinha e açúcar. Aqui, reina a liberdade e ela é 
vazia. Aqui, o poder magnífico sôbre a natureza deixa o homem 
diantede si mesmo impotente. É o tédio da juventude opri-
mida. Gostarias de te contentar, filósofo irônico, em abrir teu 
caminho entre os tédios ou em inventar um nôvo tédio, bem 
apropriado, o tédio delicado de uma noite muito longa que o 
hóspede não soube interromper a tempo, o do orgulho deca-
dente, colorido de intelectualidade sutil? O tédio do intelectual 
de esquerda? Não. Há uma outra coisa a fazer. Haverá para 
criar. E que não venham dizer que é impossível. O homem 
sempre criou, vitalmente, como a vida animal . Cada pai pro-
duziu um vivente. Cada artista, cada época criou obras. Tua 
aldeia não foi, ela também, no seu tempo, uma cidade nova? 
Ela foi também fundada às margens do Gave e uma vez que 
viveu, tomou forma. Precisamente porque tu refutas o este-
ticismo, é a arte que deves tomar como modêlo: a arte tornada 
arte de viver. A vida nova desafia o homem a criar a vida 
humana! . . . Mas que não venham dizer que é fácil! Existe 
hoje uma espantosa analogia entre os diversos domínios do co-
nhecimento e da prática. O cálculo dos matemáticos esforça-se 
em direção ao sensível e ao concreto; parece alcançá-lo e de 
repente o real e o concreto fogem; o fraco intervalo que parecia 
prestes a ser ultrapassado revela-se ainda imenso, considerado 
de mais perto . Mesma surprêsa ( e fecunda surprêsa), para a 
bioquímica que se esforça em alcançar e produzir a substância 
viva. É que o homem criado e produzido de duas maneiras 
que não se recortam ainda: na espontaneidade vital, e depois a 
partir da abstração. De um lado, no prazer e no jôgo, do outro 
no sério, a paciência e a dor consciente, e o labor . Seria o 
mesmo para as cidades, êsses produtos da vida social? Talvez. 
E eis-nos diante do mesmo problema de ainda há pouco: re-
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produzir o que nós antigamente produzimos espontâneamente, 
criá-lo a partir do abstrato. Possível? Impossível? Tomados se-
paradamente, êsses conceitos perdem o sentido . O impossível 
hoje é justamente o objetivo de hoje e o possível de amanhã. 
E ainda que o intervalo se abra tanto que separe o possível do 
impossível e o cumprimento do seu objetivo e o abstrato da 
vida, é em ultrapassá-lo que deves aplicar-te. Lê assim o texto 
da cidade nova, como lêem o dêles o matemático, o físiço, o 
bioquímico. Toma-a como experiência, como laboratório, como 
pequena prova se tu quiseres, mas não no sentido em que qual-
quer experimentador inábil maneja ingredientes inertes. Consi-
dera-a como o lugar de experiência privilegiado onde os homens 
devem enfim conquistar e criar sua vida cotidiana, por fracassos 
e erros corrigidos, por aproximações sucessivas, por abstração 
ultrapassada para o concreto, via do conhecimento para a pre-
visível e imprevisível totalidade . 
Não, não é aqui, mas é assim, sôbre esta via, que a época 
reencontrará seu estilo. Pois é aqui que ela está obrigada for-
malmente e desafiada a criá-lo. Se por sorte ou por conheci-
mento ela o conseguir, se algum dia, no cotidiano a dualidade 
do "objeto técnico" e do "objeto estético" fôr superada, o su-
cesso não será estrepitoso em proporção aos fracassos atraves-
sados e aos pacientes esforços para êsse fim? "Transformar o 
mun_do", de acôrdo. :Êle se transforma. Em que? Aqui, diante 
de tr, tu tens um ponto - pequeno mais crucial - dessa mu-tação" . 
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