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Princípios da Ética e Moral AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Você consegue imaginar um mundo onde as pessoas não acreditam na ética? Em que os comportamentos e tomadas de decisão não fossem baseados em nada? Quais as consequências que esse pensamento e/ou comportamento trariam para a sociedade? Nunca se falou tanto em ética como na atualidade e, com certeza, a mídia contribuiu muito para essa prática ao disseminá-la por meio de reportagens, escândalos e con�itos nas mais diversas áreas. Contudo, o fato de pessoas falarem sobre ética, não signi�ca que elas saibam de fato o que é ética, suas características e aplicações (BRAGA JÚNIOR, MONTEIRO, 2016). Embora existam muitas teorias e entendimentos diversi�cados sobre a ética, não pretendo aqui entrar na prática �losó�ca no que tange aos preceitos éticos. Minha proposta é provocar a re�exão das teorias, regras e comportamentos diários dos pro�ssionais da saúde e como isso pode implicar na saúde da população. Na prática, devemos re�etir sobre o agir humano e suas propostas; assim como sobre o que podemos considerar um comportamento ético justi�cável e aquilo que não pode ser assim considerado. Compreender a ética signi�ca buscar a conduta do homem no meio social, isto é, o conjunto de preceitos ou regras por meio das quais pode ser �xado o seu comportamento na sociedade, partindo-se da visão de que a ética é desenvolvida por meio de exigências de condutas pessoais e interpessoais, que progressivamente convertem-se em regras de estruturação de moralidade externa de comportamentos e formas de vida (LEÃO, 2010). A palavra ética vem do grego ethos, que signi�ca “caráter”, “modo de ser”, “costumes”, “conduta de vida” (FORTES, 1998). A ética rege a conduta humana de acordo com os costumes. Esta visão da ética, quando analisada num contexto social, é uma tentativa de avaliar as ações pessoais e as ações dos outros de acordo com os valores básicos pelos quais vivemos, mais do que o limite a um conjunto de normas que regem os atos do ser humano (ZUBIOLI, 2004). A palavra moral vem do latim mos ou mores, signi�cando “costumes”, “conduta de vida” e refere-se às regras de conduta humana no cotidiano (FORTES, 1998). Moral é um conjunto de normas e regras destinadas a regular as relações dos indivíduos em uma dada comunidade social (ZUBIOLI, 2004) e de princípios e valores que regulam a conduta humana em suas relações sociais (FORTES, 1998). As duas palavras, como vocês podem ver, identi�cam-se quanto ao conteúdo originário, mas com o passar do tempo, foram adquirindo diferentes signi�cados e compreensões. A tarefa da ética é procurar e estabelecer as razões que justi�cam o que “deve ser feito”, e não o que “pode ser feito” (FORTES, 1998), pois nem tudo o que eu “quero” fazer, eu “posso” fazer... Neste contexto, os atos éticos realizados por seres humanos (sujeitos éticos) devem ter a liberdade de pensamento, sem sofrer coação de forças internas ou externas, portanto, devem ser livres, voluntários e conscientes. Agir eticamente é agir da melhor forma dentre as possibilidades de ação. No entanto, ao existir a possibilidade de agir bem, há também a possibilidade de agir mal (ANGERAMI et al., 1997). Traduzindo, ética é o conjunto de valores e princípios que nós usamos para decidir as três questões consideradas básicas da vida, que são “Quero”, “Devo” e “Posso”: “Tem coisas que eu quero, mas não devo”; “Tem coisas que eu devo, mas não posso” e “Tem coisas que eu posso, mas não quero”. Nós, seres humanos, só teremos “paz de espírito” quando o que eu “quero” passa a ser o que eu “posso” e o que eu “devo”; e eu de�no isso por meo do exemplo do princípio da sociedade (religiosos ou não), etc. A Ética é a concepção, é o princípio. A Moral é a prática. A Ética tem uma tentativa de ser universal (pois é o princípio), já a Moral é relativa. Vamos entender: a ética é o que aprendemos como “correto”, como por exemplo: “Não devo pegar aquilo que não me pertence”, ou seja, é o princípio, o pensamento ético. Decidir se eu roubo ou não, isto é moral, ou seja, a prática. A ética foi construída ao logo da existência humana, e a moral “normatizou” alguns desses princípios. Há muitos anos, já era sabido que deveria existir segurança no trânsito (princípio, concepção) e os veículos deveriam oferecer segurança à população. Portanto, desde que foram concebidos, os carros possuíam cinto de segurança, mas poucas eram as pessoas que se lembravam dele e de sua utilização. Com a normatização e a criação de regras, o cinto passou a ser obrigatório, mas, mesmo assim, as pessoas ainda burlavam as regras e o faziam apenas para não serem pegas em uma �scalização e resultar em multa. Hoje nós colocamos o cinto de segurança sem pensar, pois já faz parte da nossa vida cotidiana, sem que o fator “levar multa” tenha que ser lembrado a todo o momento. Outro exemplo: há alguns anos, os fumantes podiam fazê-lo em qualquer lugar, sem que ninguém proibisse, mas com o passar do tempo, o avanço das ciências da saúde mostrou o quão esta prática era prejudicial para quem fumava (fumante ativo) e para quem não fumava (fumante passivo), em vista disto, alguns locais através de placas indicativas informavam a proibição desta prática, mas mesmo assim a sociedade não respeitava. Com a criação da Lei “antifumo” o comportamento dos fumantes mudou e hoje se deslocar para os locais permitidos é uma constante. Em uma de suas obras, Bertrand Russell a�rmou que moral é uma questão de geogra�a, pois o que é moral na Índia pode ser imoral na Inglaterra e vice-versa. Mas mais que uma questão de geogra�a, é uma questão temporal. O tempo que passa muda as regras morais. Por exemplo, sempre soubemos que as religiões exercem muita in�uência nas condutas dos seres humanos, mas elas também sofrem “adaptações” com o passar do tempo. A igreja católica no princípio era totalmente contra os métodos contraceptivos e era irredutível quando se tratava deste tema. Hoje, com o passar dos anos, dos acontecimentos e da mudança de paradigmas da sociedade, já admite alguns métodos. Conclusão: nós de�nimos a ética por meio de normas e princípios da sociedade, e “aperfeiçoamos” os nossos princípios e condutas com o passar do tempo e das necessidades. Ética e Normas Legais e Deontológicas AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Vimos na aula anterior que ética e moral estão interligadas na prática da vida diária, e como tal, devemos aplicá-las em nossa vida pro�ssional. Ter ética pro�ssional e adequar-se às normas de conduta de uma organização são condições cada vez mais valorizadas no reconhecimento dos membros de uma equipe de saúde. A regulação do convívio social, além da ética, acontece por meio de normas jurídicas – leis e regulamentos – que, apesar de também tratarem de matéria ética, possuem diferenças marcantes (FORTES, 1998). Enquanto o comportamento ético requer adesão íntima do indivíduo, convicção pessoal, necessitando que os indivíduos harmonizem de forma livre e consciente, seus interesses com os da coletividade, o Direito não exige convicção pessoal às suas normas, pois elas são obrigatórias e impostas (FORTES, 1998). As principais semelhanças são: ambas são normas que devem ser seguidas por todos, procuram propor uma melhor convivência entre os indivíduos e resultam de um caráter histórico e social que se orientam por valores próprios de uma determinada sociedade. Já as principais diferenças são: a ética se caracteriza por ser mais informal, enquanto a lei se apresenta como um instrumento formal, escrito e promulgado; a ética poderá assumir uma variação no âmbito de um mesmo grupo, enquanto a lei se apresenta como sendo única para um determinado grupo; o não cumprimento de uma norma ética poderá provocar uma rejeição do grupo ou um isolamento do transgressor, enquanto o não cumprimento de uma lei ou a sua desobediência gera uma penalidade ao transgressor; o âmbito de abrangência da ética é maior e alcança vários aspectosda vida humana, enquanto a lei se restringe a questões especí�cas de condutas sociais; a ética se caracteriza mais pela liberdade dos indivíduos, enquanto que a lei é imposta para o cumprimento obrigatório de todos os indivíduos do grupo (COTRIM, 2002). Traduzindo: as principais diferenças e semelhanças entre ética e lei é que podemos a�rmar que há comportamentos que podem ser considerados éticos e legais. Outros comportamentos podem ser considerados éticos, mas ilegais perante o direito. Outros são legais, mas antiéticos perante a sociedade. Podemos dizer então, que nem sempre o que é legal, inscrito em norma jurídica, deve ser confundido com o que é ético. Em um mundo onde as tomadas de decisão podem estar embasadas nas mais diversas situações e conceitos, vemos que as regras se tornam fundamentais para “nortear” estas condutas. Em todas as pro�ssões há um “código de conduta” que direciona o pro�ssional a realizar o que é considerado ético, portanto, não basta apenas estudarmos e nos inteirarmos sobre ética e moral, mas também dos estudos da Deontologia. Foi Jeremy Bentham, jurista e �lósofo inglês, que no século XVIII tentou unir moral e leis pela primeira vez, fundando o conceito de Deontologia (FINKLER, NEGREIROS, 2018), que por sua vez deve ser entendida como ramo da ética em que o objeto de estudo é o fundamento do dever e das normas, ou seja, é a ciência do dever e da obrigação. Portanto, Ética é aquilo que precisamos nas situações de incerteza, justamente quando o bom, o correto e o justo são desconhecidos. Quando nos deparamos com um con�ito de valores, o melhor que podemos fazer é agir com prudência e responsabilidade (FINKLER, NEGREIROS, 2018), e para isso os códigos de ética e deontologia pro�ssionais são extremamente necessários para uma boa tomada de decisão. O primeiro Código Deontológico foi proposto por Thomas Percival em 1794 em forma de pan�eto e direcionado para a área da Medicina. Este surge numa época em que a ética normativa era praticamente inexistente imperando conceitos como a virtude, a honra e o carácter (DIAS, 2011) Dessa forma, onde não há regras, sempre haverá espaço para tomadas de decisão que poderão ser prejudiciais para o sistema ou para alguém. A diferença entre a decisão ética e as diretrizes e limites dados pelas normas jurídicas pode ser de�nida pela análise da situação da tomada de decisão como este caso a seguir: “Houve um grave acidente em uma rodovia e chegaram ao Pronto Socorro do hospital de uma cidadezinha, três pessoas que estavam clinicamente em grave perigo de vida. O 1º, homem, 47 anos de idade, motorista de caminhão que apresenta cirrose hepática. O 2º, mulher, 14 anos e o 3º, homem de 76 anos. Após avaliação das condições vitais, é mostrado que os 3 nivelam-se quanto à gravidade clínica, necessitando de respiração arti�cial, porém, neste pronto socorro, há apenas 1 aparelho para esta �nalidade”. Uma vez que as normas jurídicas obrigam que em caso de grave e iminente perigo de morte as pessoas sejam atendidas, a quem deve ser dada a prioridade do uso do aparelho? Re�ita sobre isso. Agora você deve estar pensando para dar esta resposta e com certeza você deve estar se apegando a algum princípio ou valor que lhe foi dado na sua educação para tentar não ser injusto. Difícil não é? Pois bem, alguns poderão responder que será o jovem senhor de 47 anos, pois já é portador de cirrose hepática e portanto pode ser considerado o caso mais complicado; outros poderão dizer que este mesmo jovem senhor deve ser deixado pra trás, pois se possui cirrose, deve ser alcoolista (o que deixo claro aqui que o alccolismo não é a única forma de se desenvolver cirrose hepática), emitindo então, um pré-julgamento (tema que discutiremos mais adiante). Alguns poderão dar a prioridade para a jovem de 14 anos, pois é a mais jovem e tem toda a vida pela frente, assim como por ser jovem, pode possuir a maior chance de sobrevivência; e outros poderão dar o aparelho para o senhor de 76 anos, pois a idade avançada pode ser o fator determinante para se ter um maior cuidado, ou vão dizer que como já está “no �m da vida”, deverá ceder seu lugar a outra pessoa (novamente fazendo um pré-julgamento). O fato é que as normas jurídicas não trazem resposta para tal pergunta e ao se deparar com este dilema, os pro�ssionais de saúde estarão em um dilema ético e não legal. Os fatores determinantes para esta tomada de decisão, será fundamentada principalmente em valores e princípios éticos, como a bene�cência (fazer o bem) e avaliação de risco x benefício, dentre outras. Por isso, a criação de normas e regras para algumas situações é de fundamental importância para que as tomadas de decisão sejam “sábias”. Sandro Spisanti, �lósofo italiano, a�rma que os códigos de ética pro�ssionais são importantes mas não se propõem a guiar a consciência ética dos pro�ssionais, mas servem para indicar os comportamentos mais adequados e os que devem ser evitados, para que a categoria pro�ssional não seja socialmente comprometida (FORTES, 1998). Princípios da Bioética AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Van Potter estava preocupado com a dimensão que os avanços da ciência, principalmente no âmbito da biotecnologia, estavam adquirindo. Assim, o pesquisador propôs um novo ramo do conhecimento que ajudasse as pessoas a pensar nas possíveis implicações (positivas ou negativas) dos avanços da ciência sobre a vida (humana ou, de maneira mais ampla, de todos os seres vivos). Ele sugeriu que se estabelecesse uma “ponte” entre duas culturas, a cientí�ca e a humanística, guiado pela seguinte frase: “Nem tudo que é cienti�camente possível é eticamente aceitável” (JUNQUEIRA, 2011). Para Goldim (2006), pensar Bioética é pensar de forma solidária, é assumir uma postura íntegra frente ao outro e, consequentemente, frente à sociedade e à natureza. Desde os primórdios, pensou-se na bioética como fonte de normas, regras gerais e princípios, cujo objetivo principal seria o de disciplinar eticamente o trabalho de investigação cientí�ca e o de aplicação dos seus resultados, protegendo a biologia das ameaças desumanizadoras. A própria comunidade cientí�ca reconheceu essa necessidade, fazendo com que os princípios da bioética constituíssem nas suas formulações iniciais, uma espécie de código de ética pro�ssional para cientistas e pesquisadores (LEÃO, 2010.) A bioética transita entre assuntos polêmicos que podem ser cienti�camente aceitáveis, mas que eticamente não o são. Assim, a bioética tem o objetivo de dar subsídio para decidir entre o certo e o errado sem imposição de uma opinião. O discernimento de cada indivíduo o fará ter uma postura ética diante de uma situação con�ituosa (JUNQUEIRA, 2011). A base da bioética surgiu dos princípios da teoria principialista e são os norteadores para a resolução de dilemas morais. Eles são agrupados em quatro princípios básicos que são a bene�cência, a não male�cência, a autonomia e a justiça (FRANÇA GARCIA et al., 2018). O princípio da bene�cência e o princípio da não male�cência discorrem sobre o dever de ajudar os demais, fazer o bem ou ao menos evitar o mal; ou seja, induz o pro�ssional a se comprometer em avaliar os riscos e os benefícios potenciais (individuais e coletivos) e a buscar o máximo de benefícios, reduzindo ao mínimo os danos e riscos (KOERICH, MACHADO, COSTA, 2005). O princípio da autonomia signi�ca o poder de decisão sobre si mesmo; é a capacidade de decidir sobre a sua saúde sozinho, sem a in�uência de terceiros, porém, para que esse princípio seja mantido, é preciso ter a liberdade e a informação. O princípio da justiça está entrelaçado aos benefícios e aos direitos sociais; ou seja, esse princípio está atrelado à equidade, que menciona que todos devem ter seus direitos respeitados. (PONTES et al., 2007). Embora não seja considerado princípio da bioética, o Paternalismo também deve ser considerado em nossos estudos, pois ele pode transgredir o princípioda autonomia. Na história, os pro�ssionais da saúde eram considerados “semideuses” e por esta razão, muitas vezes eram considerados superiores a outras pessoas, ou seja, melhores que a população em geral. Por conta desta postura, eles também eram considerados “pais”, ou melhores que seus pacientes. Os pro�ssionais da saúde, mesmo tendo mais conhecimento técnico que seus pacientes, não são mais dignos que eles, não possuem mais valor moral – e quando se consideram assim, também estão adotando uma postura paternalista, o que é inadequado, pois podem não respeitar a autonomia destes pacientes, e não permitir que expressem suas vontades e escolhas. Mesmo após tanto tempo, ainda hoje vemos posturas paternalistas na área da saúde. Também quero deixar claro aqui que quando um pro�ssional da saúde omite uma informação a um paciente a pedido da família, ou por entender que a informação trará um agravo na condição de saúde deste paciente, isso também é considerado uma atitude paternalista, mas já não é vista como inadequada. Nos tempos atuais, com o crescimento da pesquisa e de fatores que obrigam os pro�ssionais da saúde a tomarem decisões pensando nos pacientes não como portadores de doenças, mas sim como indivíduos possuidores de direitos, surgem novas de�nições para algumas áreas. A Bioética Clínica se ocupa da identi�cação, análise e resolução dos problemas morais que aparecem no cuidado de um paciente especí�co. Isso não signi�ca que os pro�ssionais da saúde devam ser especialistas e com raciocínios �losó�cos complexos, mas que devem saber ou estar preparados para propor as soluções mais adequadas para o bem da pessoa, sobretudo em relação à saúde. A bioética clínica está centrada, portanto, na tomada de decisões, na qual são necessários ao mesmo tempo, conhecimentos princípios éticos e princípios �losó�cos mais gerais, bem como sua aplicação prática (ROQUÉ-SÁNCHEZ, MACPHERSON, 2018). Em vista disto, mesmo que há séculos os indivíduos com problemas de saúde sejam considerados “pacientes” e de haver inúmeras situações que podem levar ao agravo desta condição, temos que levar em consideração TODOS OS FATORES que predispõe o indivíduo a uma condição de saúde debilitada, respeitando os princípios bioéticos e buscando não só uma melhoria na saúde, mas também na qualidade de vida destas pessoas, pois são merecedoras de atenção. Valores Morais AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Para viver em sociedade, é necessário exercitar a moral e garantir o que chamamos de ordem social e, a �m de estudar e organizar sistematicamente a moral, utilizamos a ética (como vimos anteriormente) (PORFÍRIO, 2019). A “educação de valores” é uma necessidade da sociedade atual que ao longo dos anos vem perdendo seus referenciais de valor, seus costumes e conceitos morais. Valores morais são as qualidades reais das pessoas, das coisas, das ações, das instituições e dos sistemas, que nos permitem analisar o mundo e modi�cá-lo para que possamos viver nele plenamente (FINKLER; CAETANO; RAMOS, 2013). Os valores estão no coração do processo de desenvolvimento moral, entendido como o processo de valoração de atos, comportamentos e características do indivíduo, tais como a capacidade de re�etir sobre aspectos morais e realizar julgamentos pessoais de ordem moral, escolhendo entre o que parece ser certo ou errado, justo ou injusto, bom ou mau. E é por meio do desenvolvimento moral do indivíduo que a dimensão ética da formação pro�ssional se processa, devendo-se buscar uma capacidade de raciocínio autônomo que contribua para uma atuação pro�ssional para conviver em uma sociedade democrática e pluralista, e direcionada a buscar relações sociais mais justas e humanizadas (FINKLER; CAETANO; RAMOS, 2013). Já o que denominamos “inversão de valores” é quando não seguimos essas regras, infringimos a lei e fazemos o contrário do que “deveríamos” ter feito. Fonte: acesse o link Disponível aqui Há algum tempo, considerava-se inversão de valores quando, por exemplo, uma etiqueta de preço era trocada, mas hoje esta de�nição está longe de ser atribuída a um ato dessa natureza. As crianças que viveram nos anos de 1960, 70 e 80 sabiam muito bem os conceitos de respeito e obediência às regras. Lembro-me bem de que bastava um olhar dos nossos pais para que soubéssemos que nossas atitudes não estavam condizentes com a situação. Hoje, vemos que a permissividade dos pais e de alguns familiares resultam em atitudes de desrespeito às regras, falta de educação e até em agressões físicas por parte de alguns. Os valores morais considerados mais importantes são: https://www.mantenanews.com/inversao-de-valores-dos-tempos-modernos-dois-pontos-de-vista/ Trata-se de comportamentos que aprendemos desde nossas primeiras orientações educacionais e que, ao longo dos anos, aperfeiçoamos por meio de nossas experiências e vivências. Na área da saúde, esses valores fazem a diferença na prestação dos serviços e no respeito às pessoas pois, como já vimos, a ética, o bem senso e o respeito aos direitos dos pacientes devem estar entrelaçados nos serviços prestados. Mas, de todos estes valores, o que merece destaque e um pouco mais de discussão é o Juízo. No estudo dos valores, juízo é sinônimo de julgamento. Chamamos de Emissão de Juízo de Valor, que é de�nido como um julgamento baseado num conjunto particular de valores ou num sistema de valores determinado. Nós, como seres humanos, estamos sempre emitindo juízos. Nossa atitude diante da vida, dos outros e de nós mesmos é de�nida por esses julgamentos, e é neste contexto que devemos agir com cautela. Fonte: acesse o link Disponível aqui Ao emitirmos o juízo de valor, sempre usaremos como parâmetro nossas crenças e valores e aquilo que achamos que é importante e válido para a nossa vida, mas essa atitude pode não ter os mesmos parâmetros para quem está sendo julgado. No nosso cotidiano, vários são os estereótipos que recebem julgamento: a religião, a orientação sexual, as atitudes, o visual e a pro�ssão escolhida, dentre outros. Mas o que precisamos nos preocupar em relação às nossas atitudes e emissões de juízo de valor é: julgue e esteja preparado para ser julgado! Assim sendo, sem os costumes e a moralidade, nós cairíamos na barbárie. Cabe a cada indivíduo e a cada comunidade julgar se os costumes e os valores morais vigentes em seu meio e em seu tempo são os melhores e mais adequados para o funcionamento social, sem deixar de respeitar a individualidade e os direitos dos seres que compartilham a vida conjunta naquele lugar (PORFÍRIO, 2019). https://andersonyankee.wordpress.com/2012/02/14/juizos-de-fato-e-juizos-de-valor/ Princípios da Autonomia AUTORIA Cristiane Fátima Guarido A autonomia está relacionada à liberdade de escolha e corresponde à capacidade de o indivíduo decidir sobre si mesmo com base nas alternativas que lhes são apresentadas, livre de coações internas e externas. Para que exista uma decisão autônoma, é necessário que exista uma alternativa de ação, pois se existe apenas uma alternativa de ação, um único caminho a ser seguido, uma única forma de algo a ser realizado, não há o exercício da autonomia (COSAC, 2017; FORTES, 1998). Quando autônomo, o ser humano deve escolher de forma subjetiva, levando em consideração seus próprios princípios, valores, crenças e percepções. Logo, o respeito pela autonomia inclui considerar todos os fatores que interferem na capacidade de decisão do indivíduo (COSAC, 2017). A compreensão da autonomia na relação entre pro�ssionais da saúde/ pacientes está condicionada ao processo saúde/doença. Enquanto na história a doença era considerada fruto de magia ou de castigo, os processos de cura utilizados nos pacientes não observavam a autonomia destes (FORTES, 1998). A conquista em se respeitar o direito de decisão dos usuários dos serviços de saúde se deu ao longo dos anos pelos princípios éticos da bene�cência e não male�cência. Esses princípios éticos vocêjá estudou na aula 3 – Princípios da Bioética. O princípio da autonomia na assistência à saúde requer que o indivíduo, sadio ou doente, não se entregue inteiramente aos pro�ssionais da saúde ou ao primeiro que aparecer, e inclusive deve ser respeitada a busca por uma segunda opinião se lhe for favorável. Esse respeito se dá também pelo princípio da dignidade humana. https://moodle.ead.unifcv.edu.br/pluginfile.php/431629/mod_resource/content/1/book/principios-da-bioetica.html Respeitar a autonomia é reconhecer que cada pessoa possui pontos de vista e expectativas próprias quanto ao seu destino e que ela é quem deve tomar as decisões sobre sua vida, seja embasada em crenças, aspirações ou valores, mesmo que seja contrário aos valores dos pro�ssionais da saúde ou o da sociedade. AUTONOMIA Física Social Liberdade Controle Capacidade de decisão Indepen- dência Conheci- mento Vontade Emocional Mental Fonte: acesse o link Disponível aqui Vejamos este caso: Um homem de 47 anos, empresário, é levado ao pronto socorro de uma clínica credenciada no seu convênio, após um acidente de carro. No ato do atendimento, foi constatada uma fratura óssea na perna direita que necessitava de cirurgia, e um sangramento moderado que estava provocando uma queda na pressão arterial. A equipe médica propôs uma transfusão sanguínea para o reestabelecimento da pressão arterial, mas o paciente se recusou a receber a transfusão, pois alegou ser contra a sua religião e seus princípios. A�rmou ainda conhecer os riscos da sua recusa e que não se nega a assinar documento, se responsabilizando pelos seus atos e desresponsabilizando a equipe médica caso venha a acontecer alguma coisa. Durante a noite, o paciente é sedado e uma transfusão é feita, sem que o paciente e seus familiares saibam. (FORTES, 1998). Muitas pessoas ou pro�ssionais da saúde podem, em um primeiro momento, não aceitar a decisão desse paciente, pois partem do princípio de que devemos socorrer a qualquer custo pacientes com risco de morte, mas devemos analisar o que propomos nesta disciplina, que são os comportamentos éticos, bioéticos e de valores. Se esse paciente é uma pessoa autônoma para decidir e está devidamente esclarecido, compreendendo os riscos que corre, tem o direito moral e legal de tomar esse tipo de decisão, principalmente porque vivemos em um país que admite um pluralismo religioso e passa a ser considerado discriminação religiosa a recusa de tal pedido. Existem então justi�cativas éticas para se opor a esta decisão e tomar a atitude que tomaram sem o conhecimento do paciente? Creio que não. Embora a intenção da equipe tenha sido a de bene�ciar o paciente, houve violação do princípio ético do respeito à autonomia. O ser humano não nasce autônomo: torna-se autônomo e competente para decidir. Para isso, variáveis biológicas, psíquicas e socioculturais podem interferir na tomada de decisão. Dessa forma, a autonomia pode receber classi�cações e ser considerada Plena ou Reduzida. Reduzida, por sua vez, pode ser classi�cada em Temporária ou Permanente. Um autônomo pleno é aquele que possui todas as quali�cações para tomar uma decisão de forma consciente, enquanto um autônomo reduzido é aquele que possui algum fator que o impede de tomar uma decisão. O autônomo reduzido temporário é aquele que possui o poder de tomada de decisão reduzida temporariamente, como por exemplo, as crianças que assim são consideradas apenas até atingirem idade para serem considerados autônomos plenos, pacientes em coma (já que podem sair do coma), pessoas sob o efeito de drogas, dentre outros Já o autônomo reduzido permanente, é aquele que possui fatores que o impedem terminantemente de tomar decisões, ou seja, pacientes com diagnóstico de doenças degenerativas, alguns tipos de de�ciências mentais, e assim por diante. De qualquer forma, quando a autonomia se encontra de forma reduzida, a decisão passa a ser de terceiros, familiares ou até mesmo dos pro�ssionais da saúde. Avaliar a capacidade autônoma de um paciente é um desa�o para os pro�ssionais de saúde, pois alguns indivíduos considerados incapazes para determinadas decisões ou campos de atuação não o são para tomar decisões em todos os assuntos. Adolescência e Autonomia O período da adolescência, no que diz respeito à faixa etária e ao contexto da cultura ocidental, é aquele correspondente à segunda década de vida das pessoas, ou seja, de 10 a 19 anos de idade (VELHO; QUINTANA; ROSSI, 2014). Adolescentes apresentam aspectos próprios de comportamento, de doenças e de necessidades, por isso constituem grupo especí�co de estudo na comunidade médica e cientí�ca (COHEN, 2003). Segre (2006) nos mostra que, a �m de dar suporte às tomadas de decisão, a Sociedade de Pediatria de São Paulo e ao Departamento de Bioética desenvolveram algumas recomendações aos pro�ssionais de saúde, demonstradas. Veja: É importante dizer que a presença dos pais ou responsáveis no atendimento é altamente desejável, e os pro�ssionais da saúde devem incentivar os adolescentes a envolver a família no acompanhamento dos seus problemas. Em situações que envolvam risco (gravidez, abuso de drogas, não adesão ao tratamento recomendado, doenças graves, risco de morte ou à saúde de terceiros) e na realização de procedimentos de maior complexidade (biópsia e intervenções cirúrgicas), tornam-se necessários a intervenção e o consentimento dos pais ou responsáveis. Como vimos, a autonomia deverá sempre ser avaliada antes de qualquer tipo de tomada de decisão para que os pro�ssionais da saúde sempre possam promover bom atendimento e acompanhamento dos pacientes. Privacidade e segredo pro�ssional (parte I) AUTORIA Cristiane Fátima Guarido A privacidade é um princípio derivado da autonomia e engloba a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. O ser autônomo deve ter liberdade para guardar para si mesmo fatos pessoais que não deseja serem revelados a outras pessoas (FORTES, 1998). O princípio do respeito à privacidade e con�dencialidade vem fazendo parte dos principais documentos internacionais relacionados ao campo da ética desde as últimas décadas do século XX (MARTORELL; NASCIMENTO; GARRAFA, 2016). O princípio do respeito à privacidade e con�dencialidade vem fazendo parte dos principais documentos internacionais relacionados ao campo da ética desde as últimas décadas do século XX (MARTORELL; NASCIMENTO; GARRAFA, 2016). A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em 2005, preconizou que A privacidade dos indivíduos envolvidos e a con�dencialidade de suas informações devem ser respeitadas. Com esforço máximo possível de proteção, tais informações não devem ser usadas ou reveladas para outros propósitos que não aqueles para os quais foram coletadas ou consentidas, em consonância com o direito internacional, em particular com a legislação internacional sobre direitos humanos. (MARTORELL; NASCIMENTO; GARRAFA, 2016). Con�dencialidade refere-se a uma relação especial de con�ança entre pessoas, em que se presume que as informações compartilhadas permaneçam em segredo e não devem ser divulgadas a terceiros a menos que haja um interesse estritamente de�nido. O pacto pela con�dencialidade só é compreendido quando as informações são dadas de modo voluntário e consciente. A con�ança não ocorre a menos que envolva indivíduos racionais, conscientes e livres, e esse princípio deve ser estendido até mesmo após a morte do indivíduo (NASCIMENTO, 2018). O segredo pro�ssional nas atividades de assistência à saúde tem origem no pensamento hipocrático, que a�rmava: As coisas que eu verei ou ouvirei dizer no exercício de minha arte, ou fora de minhas funções, no comércio dos homens, e que não deverão ser divulgadas, eu calarei, percebendo-as como segredos invioláveis. (MENDONÇA; VILLAR; TSUJI, 2009). O segredo compreende as informações às quais os pro�ssionaistêm acesso no exercício de suas atividades, quando transmitidas pelos pacientes ou responsáveis, obtidas por meio de anamnese, exame físico, resultados de exames laboratoriais ou radiológicos. As informações contidas no espectro da con�dencialidade são aquelas que possuem uma previsão de que, se reveladas, possam causar danos ao indivíduo (FORTES, 1998). O segredo pro�ssional se estende a todos os pro�ssionais envolvidos em práticas sanitárias e não é exclusivo daqueles que executam atividades a�ns como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, farmacêuticos, enfermeiros, dentre outros. Existe uma obrigação ético-legal de todos os pro�ssionais, assim como do corpo técnico administrativo que atua nos serviços da saúde pela manutenção do sigilo, caso este exista. Por isso, nos códigos deontológicos dos pro�ssionais da saúde, esse direito do indivíduo é imposto como dever do pro�ssional. Entenda que a simples comunicação de que determinada pessoa está doente, internada ou mesmo que foi consultada em estabelecimento de saúde, se for revelada contrariamente a seu desejo, pode representar violação do direito do paciente, pois estar-se-ia rompendo o anonimato que o paciente não teria consentido. Lembrem-se que este direito à con�dencialidade está pautado na Cartilha dos Direitos do Paciente, já estudado anteriormente. Vejamos este caso: Uma senhora de 27 anos de idade, casada, no pré-parto, solicita a presença de uma assistente social e lhe revela que a criança que está para nascer não é �lho legítimo de seu esposo. Pede à assistente social que tome as providências para que o fato não chegue ao conhecimento do marido, nem de seus familiares, alegando que o esposo é muito violento e ela não deseja terminar o casamento. A�rma, ainda, que após seu restabelecimento ela própria revelará o acontecimento. Após o parto, cesariana, a criança nasce em boas condições, não apresentando alterações patológicas, mas o médico obstetra e a equipe de enfermagem se dirigem à assistente social pedindo que ela revele o que a parturiente lhe disse, porque a família estava pressionando a equipe, querendo a con�rmação da paternidade da criança. (FORTES, 1998). Neste caso, vemos claramente a revelação das informações em um contexto de relação pro�ssional entre a paciente e a assistente social. Em um primeiro momento, nada indicava que o segredo deveria ser rompido em benefício da criança recém-nascida, uma vez que ela se apresentava com o estado de saúde muito favorável nos primeiros minutos de vida, e o exame físico e a avaliação posteriores nada indicavam de anormalidade. Diante do exposto, com quais justi�cativas o médico e os enfermeiros precisavam daquelas informações sobre a paternidade real da criança? Considerando que a manutenção do sigilo atende aos princípios éticos expostos nas aulas anteriores, cada pro�ssional deve delimitar as informações que, sem prejuízo ao paciente, devem ser comunicadas aos demais. Uma situação com a qual devemos nos preocupar na área da saúde é com os estudantes que, para sua formação pro�ssional, necessitam cumprir os estágios curriculares obrigatórios e estão constantemente acompanhando os pro�ssionais e com isso têm acesso a informações muitas vezes sigilosas. Os pacientes autônomos, detentores do direito ao sigilo, devem ter conhecimento de que estão tratando com estudantes e por isso devem dar o seu consentimento quanto às informações que consideram potencialmente danosas, se poderão ou não ser compartilhadas pelos estudantes que, por sua vez, também devem manter as informações sob sigilo absoluto. Devemos lembrar ainda que a manutenção do sigilo, embora nosso foco esteja na área da saúde, também se entende à prática cotidiana quando falamos da era digital. Redes sociais e a constante procura por informações também podem ser responsáveis pela não manutenção do sigilo. Os pro�ssionais de saúde devem dar especial atenção às publicações que queiram compartilhar nas redes sociais, principalmente aquelas nas quais informações particulares sobre seus pacientes possam ser identi�cadas. As publicações feitas em redes sociais não proporcionam fundamentação razoável para que pro�ssionais de saúde relativizem seu dever de respeito à privacidade e con�dencialidade com relação aos seus pacientes (MARTORELL; NASCIMENTO, GARRAFA, 2016). Privacidade e segredo pro�ssional (parte II) AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Nossa legislação considera o segredo pro�ssional algo de interesse público, e sua violação constitui infração à ordem social, sancionada pela norma penal. No Art. 154 do Código Penal, temos a citação: “revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ofício ou pro�ssão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem” (BRASIL, 1940). A sanção a ser imposta em caso de comprovado delito doloso (ou seja, que há a intenção de cometer) é multa ou detenção de 3 meses a 1 ano. Porém, nos estudos de Privacidade e Segredo, também devemos saber quando este segredo pode (ou deve) ser rompido. O direito à privacidade das informações não é ético ou legalmente considerado um direito absoluto. A quebra do sigilo pode se dar por meio do consentimento do próprio paciente ou de seu representante legal (FORTES, 1998). Consentimento do Paciente A informação é direito do paciente. Não se pode sonegar informações requeridas pelo próprio usuário. A preocupação de manter o sigilo não pode ser levada ao extremo de atuar em prejuízo de seu titular, por isso, o sigilo é estabelecido em benefício do usuário e não dos pro�ssionais ou dos estabelecimentos de saúde. Se o pedido de informações provém de terceiros, empregadores, seguro de saúde, autoridade policial, etc, as informações sobre o paciente podem e devem ser fornecidas com o consentimento do paciente, seu representante legal ou pela família em caso de falecimento. Caso contrário, sem a existência de consentimento, a informação somente sai do manto do segredo por dever legal ou “justa causa”. Dever Legal É o fundamentado na preservação da saúde da coletividade e no intento de evitar a propagação de determinadas doenças diante de suspeita ou con�rmação. As autoridades consideram como de noti�cação compulsória, maus tratos em crianças e adolescentes, e o segredo pode ser rompido. Outro fator são os casos de apuração de crimes relacionados à prestação de socorro médico ou omissão de socorro. Nesse caso, o segredo não pode obstruir a ação da justiça. Quando o pedido de informações feito por autoridade judiciária não trouxer prejuízo pessoal ao paciente nem o expuser a processo criminal, e, ao contrário, objetivar a apuração de omissão de socorro, homicídio ou lesão corporal que ele tenha sofrido, causados por integrantes da equipe de saúde, o estabelecimento e os pro�ssionais de saúde estão obrigados a revelar as informações necessárias. Por exemplo, caso haja um paciente com o diagnóstico de malária que solicite sigilo de seu diagnóstico, ele não poderá ser respeitado, pois como se trata de uma doença transmissível, temos o “dever legal” de promover a revelação em detrimento à preservação da saúde da coletividade. Tentativa de suicídio Qual a conduta a ser seguida pelo administrador do hospital? Ele deve entregar o prontuário? Pode recusar uma demanda feita por uma autoridade policial? Quais os princípios éticos e legais que devem ser observados nesta situação? Re�itamos: O administrador do hospital não tem que entregar o prontuário, tampouco as �chas da paciente, pois não se trata de apuração de crime relacionada à prestação de socorro médico ou de doença de noti�cação compulsória, mantendo assim o sigilo mesmo que exigido por autoridade policial. Vale aqui lembrar que suicídio no Brasil não é considerado um ato criminoso. Outro motivo é que a paciente se encontra viva e bem, portanto, cabe a ela decidir se permite ou não a entrega de seu prontuário. Ressalto aqui que os prontuários hospitalares são de direito dopaciente, e os estabelecimentos de saúde são obrigados a lhe fornecer cópia quando solicitado. Justas causas De�ne-se “justa causa” uma situação em que, existindo colisão de interesses e de direitos, um deles, no caso, o direito à privacidade, deve ser sacri�cado em benefício de outro direito, por exemplo, a vida ou a saúde de outra pessoa. Adolescentes Diz o Código de Ética Médico: “É vedado ao médico revelar segredo pro�ssional referente a paciente menor de idade, inclusive a seus pais ou responsáveis legais, desde que o menor tenha capacidade de discernimento, salvo quando a não revelação possa acarretar danos ao paciente”. A informação é do Portal Médico. Já o Código dos Psicólogos, no Art. 13, diz: “No atendimento à criança, ao adolescente ou ao interdito, deve ser comunicado aos responsáveis o estritamente essencial para se promoverem medidas em seu benefício” (www.site.cfp.org.br). E o Código de Ética dos Farmacêuticos, no Art. 11, Inciso VI, diz: “guardar sigilo de fatos que tenha conhecimento no exercício da pro�ssão, excetuando-se os de dever legal, amparados pela legislação vigente, os quais exijam comunicação, denúncia ou relato a quem de direito” (www.cff.org.br). Essas normas assumem o princípio da “maioridade sanitária”, que é independente da maioridade estabelecida no Código Civil. Isso posto, devemos nós, pro�ssionais da saúde, respeitar o direito do usuário em manter qualquer informação que queira ou julgue necessário, sob o mais absoluto sigilo. http://www.site.cfp.org.br/ http://www.cff.org.br/ Tecnologias Genéticas AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Está longe a época em que se pensava que a ciência era neutra e que só a política, a economia ou a ética eram assuntos relacionados com os valores, pois estamos em um mundo em que cada vez mais se faz necessário o esclarecimento dos dilemas éticos provocados pelas ações humanas (CASANOVA PERDOMO, 2011). Nesse âmbito, a manipulação genética tornou real a possibilidade de o homem entrar em um laboratório e interferir na natureza, e a clonagem humana, a escolha do sexo do bebê e a cor dos olhos, dentre outros, deixaram de ser hipóteses futuristas. Quanto mais a engenharia genética progredir, mais haverá condições de manipular a espécie humana (RASKIN, 1995). Assim, o avanço nas pesquisas em direção à manipulação do nascimento e das características do homem tem dois lados: sob um aspecto, pode trazer benefícios fantásticos tais como a cura de doenças genéticas, mas por outro, pode, por exemplo, alavancar o uso indevido da energia atômica (RASKIN, 1995). Para você entender melhor essa situação, genética é a ciência que se ocupa de todas as características hereditárias dos seres viventes e da engenharia genética, a produção de novas combinações desse material hereditário, isto é, a transferência de material genético de um ser vivo a outro, o que acaba modi�cando, em parte ou até mesmo estruturalmente, este outro; assim sendo, todo ser vivo submetido a tal processo é denominado transgênico (BARTH, 2005). A manipulação dos genes humanos e a aplicação dos seus potenciais têm implicações sociais, políticas, econômicas e culturais que vão muito mais além do que tradicionalmente tem se preocupado a ciência, devido às consequências tanto bené�cas e quanto nefastas (CASANOVA e PERDOMO, 2011) Santos y Vargas (2002) explicou bem quando observou que todo o conhecimento que faculte ao ser humano intervir e modi�car a realidade física animal, vegetal e especi�camente a humana, convida a uma re�exão e avaliação ética antes de iniciar a intervenção. Assim sendo, sempre haverá os prós e os contras à utilização da manipulação genética e a consideração ética sobre esta atitude. Veja alguns exemplos que Barth (2005) nos apresenta: Benefícios resultantes da engenharia genética 1. Medicina preditiva Por meio da terapia genética, será possível saber o futuro estado de saúde e melhor estabelecer os diagnósticos de doenças e elaborar novos prognósticos. Algumas doenças ou predisposições poderão ser eliminadas no futuro, a�nal, todas as funções �siológicas e morfológicas dependem, de alguma forma, dos genes. Ter uma predisposição a uma determinada doença não signi�ca ser doente, mas fazer a prevenção e assumir cuidados para evitar os fatores desencadeantes da doença, retardando o seu aparecimento ou curando-a na sua origem. Por meio da engenharia genética, pela primeira vez trataremos uma doença antes mesmo que ela se manifeste. A pergunta é: como conviver com uma possível doença? 2. Planejamento privado e público Quanto mais se sabe, melhor se pode planejar. Assim sendo, os programas de saúde públicos poderão mapear melhor o número de doentes e doenças e elaborar políticas públicas para evitar as causas de muitas doenças genéticas e os tratamentos. 3. Remédios “sob medida” Cada indivíduo possui um organismo diferente do outro, e por isso responde a seu modo à utilização de medicamentos. Existem também pacientes alérgicos a determinadas substâncias que, a princípio, deveriam ajudá-los, mas acabam aumentando o risco de morte ou crises. Conhecendo o código genético de cada pessoa, poder-se-á criar medicamentos na medida exata da necessidade do organismo de cada paciente, pois o código genético permite saber o efeito real. Entretanto, essa “personalização” dos medicamentos pode custar caro. 4. Terapia celular somática ou genética Os pais podem transmitir doenças genéticas aos �lhos. Nesse caso, podem ser realizados tratamentos hormonais ou correções genéticas nas células reprodutivas de pais potenciais, isto é, terapias gametócitas (óvulo e espermatozoide). Algumas pessoas e famílias também poderão decidir não ter �lhos e, assim, o mapa genético ajudará a eliminar doenças e mortes de recém-nascidos. 5. Plantas adaptadas ao ambiente Adaptar plantas ao ambiente ou o ambiente às plantas? Em lugar da dependência de adubos e de inseticidas, a biotecnologia possibilita mais proteção biológica das plantas e melhoria das espécies. 6. Diminuição de herbicidas e inseticidas O que mais agride o meio ambiente e a saúde humana é a excessiva aplicação desses produtos. As plantas transgênicas permitirão reduzir drasticamente essa prática, pois diminuem os custos, aumentam a produção e eliminam problemas ambientais. Seria uma nova “revolução verde” ou o colapso total de nossa agricultura? 7. Exames de paternidade e criminais O exame de DNA con�rma a paternidade em 99,9%, e vários casos de trocas de bebês nas maternidades foram solucionados por meio dessa prática. Preocupações éticas resultantes da engenharia genética 1. Reducionismo genético Assim como aconteceu no surgimento de outras ciências, a tentação é acreditar que a explicação de tudo está nos genes. Não somente no aspecto físico, mas principalmente na forma de ser, pensar e agir das pessoas e das sociedades. Nesse caso, ações pessoais, tradições culturais e religiosas se explicam pela in�uência dos genes. A pessoa perde sua autonomia e responsabilidade, �cando reduzida aos seus genes e mapa genético. 2. Determinismo genético ou fatalismo genético A atuação pessoal seria mero efeito dos genes, devido à sua disposição na pessoa? O esforço e empenho pessoal pouco valem nos resultados alcançados? Ações violentas, a solidariedade, a religiosidade, a tranquilidade, o homossexualismo, o alcoolismo e tantas outras ações são explicados a partir da estrutura genética. O “eu pessoal” tem pouca responsabilidade! “Não me culpem, culpem meus genes!” Nesse caso, basta ler ou modi�car o mapa genético e saberemos com quem estamos lidando. “Mostra-me tua identidade genética e eu te direi quem és!” A pessoa seria uma “marionete”, comandada por genes. A genética seria a explicação de tudo, de quem somos ou poderemos ser (essencialismo genético), eliminando até mesmo a liberdade pessoal e a responsabilidade. 3. Evolução neodarwiniana Darwin explicou a origem das espécies. Com a genética, uma boa parte dos geneticistasacreditam poder explicar a origem das culturas, os modos de vida e de pensamento. Herdamos costumes, valores e crenças de nossos pais, porque deles herdamos os genes. Assim, povos violentos, conquistadores, pensadores ou religiosos, têm uma constituição genética particular. Ou seja, um �lho não tem somente os olhos do pai, o nariz da mãe ou os dedos da mão da vovó. 4. Mapa genético Atualmente cada pessoa tem seu Registro Geral (RG), onde consta a informação cadastral básica de cada pessoa. Com a genética, cada pessoa poderá ter o seu chip genético implantado ou seu mapa genético. Nele estarão contidos o tipo sanguíneo, doenças, possíveis doenças, etc. Se implantado sob a pele, poderia ser lido em qualquer estabelecimento público e nas empresas. Tal conhecimento pode também criar o estresse psicológico, por não saber conviver com uma possível doença. 5. Modi�cações genéticas Com a genética produzimos Organismos Geneticamente Modi�cados, tão discutidos nos meios acadêmicos e sociais, devido aos imprevisíveis efeitos que podem causar. Eles englobam desde vegetais, plantas, animais e humanos. Podemos também selecionar geneticamente um embrião humano e, dependendo do caso, implantá-lo ou eliminá-lo a partir do seu DNA. Mas, o homem pode ultrapassar esse limite? Se a natureza não cria essas modi�cações ou não as seleciona naturalmente, pode o homem manipular e alterar a natureza? Os eventuais benefícios justi�cariam os riscos que podem advir dessa ação humana? Não é melhor deixar a natureza seguir seu rumo? Podem criar-se também atletas geneticamente programados, assim como fazemos com animais e plantas? Ao modi�car a constituição genética, os cientistas não estão “brincando de Deus”, modi�cando a criatura que é imagem de Deus? 6. A discriminação genética A predisposição genética pode levar à perda do trabalho, do plano de saúde ou até mesmo a pagar mais pelo seguro-saúde. O conhecimento da pré-disposição pode ser danoso para a pessoa. Esses dados poderiam �car num banco de dados e haver livre acesso a todos? Haveria discriminação, privacidade e segredo? Haveria rejeição de parceiros para o casamento, de candidatos para uma pro�ssão, para a vida religiosa e membros de associações e clubes? Em tal caso, será necessário reestruturar a relação de emprego, de seguro e assistência médica. 7. Rejeição e eliminação de embriões e fetos com defeitos genéticos A genética permite conhecer minuciosamente os embriões. Filhos perfeitos e com características físicas preestabelecidas pelos pais ou pelos padrões sociais poderão contribuir para esse descarte. Além disso, muitos embriões, considerados defeituosos, por portarem doenças genéticas dos pais, poderão ser eliminados. 8. Escolha do sexo do �lho A tendência de quem recorre à fertilização in vitro é também escolher o sexo do �lho. Nas clínicas, os pais decidem, não obstante as questões éticas, religiosas e demográ�cas, quase com 100% de acerto, o sexo do futuro �lho. Através do Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (PGD), o resultado é seguro. Seria uma espécie de “bebê à la carte”, desenhado pelos pais a partir de suas preferências pessoais. 9. Preconceito étnico Identi�car genes signi�ca conhecer as raças. Algumas raças poderiam ser discriminadas por uma propensão maior a ações antissociais, à violência, etc. Relacionar crimes aos genes e genes às raças pode levar a um aumento no preconceito. 10. Bioterrorismo ou microterrorismo biológico Em algumas guerras passadas, se noticiou a realização da “guerra bacteriológica” e a eliminação de povos através de gases e bombas biológicas. Teme-se que a Terceira Guerra Mundial seja à base da bioquímica. Existem diversos agentes tóxicos e químicos que podem ser usados para tais �nalidades. A questão é: como podemos saber se os avanços tecnológicos serão conduzidos para o bem da humanidade? Re�ita! Ética e Sexualidade AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Sexualidade é um termo amplo que abrange inúmeros fatores e di�cilmente se encaixa em uma de�nição única e absoluta, além de nos remeter a um universo onde tudo é relativo, pessoal e muitas vezes paradoxal. Pode-se dizer que é o traço mais íntimo do ser humano e como tal, se manifesta diferentemente em cada indivíduo de acordo com a realidade e as experiências por ele vivenciadas (FAVERO, 2019). Dentro dos estudos da Bioética, é preciso tratar deste assunto, pois não tem como falar de sexualidade sem que esbarremos em questões tais como valores, crenças e religião, e como tal, podem ter inúmeras e diversas interpretações, podendo levar muitas vezes ao preconceito e à emissão de juízo de valor, já estudados nas aulas anteriores. A discriminação pela orientação sexual se encontra em todas as esferas da sociedade, e há anos grupos lutam para o seu reconhecimento e das suas consequências (SILVA, FINKLER, 2016). Nos serviços de saúde, há uma preocupação sobre o impacto das diversas formas de violência para essas pessoas e, para tanto, foram criadas políticas públicas para atendimento à população LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e queers, e o símbolo “+” signi�ca e outros mais que vierem), para que essas pessoas tenham os seus direitos garantidos por lei, assim como todos os seres humanos. A homossexualidade deixou de ser considerada doença pelo Conselho Federal de Medicina em 1985, antes mesmo da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que permitiu um maior entendimento por parte das pessoas e pro�ssionais e a inserção da garantia do uso do nome social na Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde (BRASIL, 2007), e permitiu que essas pessoas tivessem seus direitos assistidos e fossem socialmente reconhecidos. Mais adiante, foi aprovado o Decreto nº 8.727 (BRASIL, 2016) que permite o uso de nome social em todos os órgãos públicos e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais, bem como a garantia da mudança do nome em todos e quaisquer documentos se o interessado assim desejar. Assim sendo, a partir dessas mudanças e considerações, em 2009 foi criado o primeiro Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, vinculado ao Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS em São Paulo (CRT DST/AIDS-SP). O ambulatório oferece assistência integral a travestis e transexuais e conta com atendimento especializado em cardiologia, oftalmologia, endocrinologia, urologia, proctologia, ginecologia, fonoaudiologia e otorrinolaringologia, além de psicólogos e psiquiatras, clínica médica, enfermagem, vacinação, serviço de orientação relacionado à saúde, geração de renda e assessoria jurídica. O serviço realiza também avaliação e encaminhamento para cirurgia para redesignação sexual. Além disso, o ambulatório é responsável por desenvolver e avaliar tecnologias e modelos assistenciais, promover atividades que integrem movimentos sociais e oferecer treinamento para pro�ssionais de saúde nessa área de atuação. Em 2013, o ambulatório foi reconhecido, em relatório da União Europeia, como uma das cinco experiências brasileiras de sucesso para a população LGBT. A partir de então, a iniciativa estimulou a criação de outros ambulatórios em diferentes locais e estados para estimular a população LGBTQ+ a ter garantidos os seus direitos universais de usuários do sistema de saúde. Veja como se dá o funcionamento desse local em relação aos valores éticos e respeito à dignidade da população LGBTQ+ assistindo ao vídeo disponível no Conecte-se. No caso dos transexuais, o acompanhamento multipro�ssional pode ser longo devido às etapas que estes precisam seguir para a cirurgia de redesignação sexual. Para entender melhor essas designações, vamos aos termos corretos citados por Amora (2019): Transgêneros: são todos os indivíduos cuja identidade de gênero não corresponde ao seu sexo biológico. De maneira geral, essas pessoas sentem um grande desconforto com seu corpo por não se identi�car com seu sexo biológico. Por isso, têm a necessidadede adotar roupas características do gênero com o qual se identi�cam, se submetem à terapia com hormônios e realizam procedimentos para a modi�cação corporal tais como a colocação de implantes mamários ou a retirada das mamas, cirurgia plástica facial e a retirada do pomo de Adão. Na maioria das vezes, eles desejam realizar a cirurgia de redesignação sexual (cirurgia genital). Transexual: o termo deriva da classi�cação “transexualismo, transtorno de identidade sexual”, descrita na Classi�cação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e que não é atualizada desde 1989. Segundo a OMS, o transexualismo é “um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Esse desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal-estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a �m de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.” Portanto, transexuais são homens ou mulheres biologicamente saudáveis e normais, mas inconformados com o seu sexo biológico. A�rmam-se socialmente como do sexo oposto, rejeitam o seu próprio corpo e este sofrimento pode causar desequilíbrio psicológico. Geralmente, os indícios de transexualismo começam na infância (rejeição) e quando chega na fase adulta, pode provocar mutilação (do órgão genital, por exemplo) e até suicídio. No Brasil, dados da União Nacional LGBTQ+ apontam que o tempo médio de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 35 anos, enquanto a expectativa de vida da população em geral é de 75,5 anos, de acordo com Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística (IBGE). Homofobia passou a ser considerado crime no Brasil, portanto, mesmo que diante dos nossos valores morais e éticos, deve haver respeito pelos seres humanos, independentemente de qualquer coisa! Ética na pesquisa (parte I) AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Desde tempos remotos, são inúmeros os casos de uso de seres humanos e animais para experimentação dos mais diversos tipos, pois a busca por conhecimento e respostas a perguntas não respondidas na área da saúde levaram pesquisadores a cometerem vários “abusos” na experimentação. A experimentação com seres humanos feita ao longo dos séculos contribuiu para melhorar a qualidade de vida do homem e sua relação com o meio ambiente. A Prevenção do Escorbuto, doença provocada pela falta de vitamina C, foi um exemplo de história de triunfo na pesquisa. Com o início das grandes viagens marítimas no século XVIII, vários marinheiros morriam por �carem grandes períodos no mar alimentando-se basicamente de arroz e peixe, que são pobres em vitamina C, e devido a esse alto tempo de permanência no mar, era comum acabar a água potável. Em uma dessas viagens, sem água potável para beber e a água do mar não servindo para satisfazer a sede da tripulação, os marinheiros começaram a procurar água nas ilhas para encher os barris e assim continuar a viagem, já que vários deles estavam doentes, apresentando sangramento nas gengivas, dores intensas e prostração. Em dado momento, encontraram uma ilha que tinha muitos pés de laranja carregados da fruta. Os tripulantes começaram a ingerir a fruta incessantemente para matar a fome e a sede e “inexplicavelmente” sararam do escorbuto (VELHO, 1999). Ao voltarem da viagem, relataram o acontecido a um cirurgião pesquisador denominado James Lind, que acreditava que o escorbuto não era uma doença contagiosa e que em 1747 realizou o que é considerado o primeiro ensaio clínico da história da epidemiologia (LIND, 1753). São bem conhecidas as experiências conduzidas por médicos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Foram cerca de trinta experimentos diferentes, evidentemente sem o consentimento das vítimas, que provocaram dor intensa, mutilação, de�ciência permanente e morte (ALVES & TUBINO, 2006). Uma das doenças pesquisadas foi a sí�lis, que assolava os soldados e as mulheres deles, pois se desconheciam suas formas de contágio. Como se descon�ava da transmissão por via sexual, os alemães queriam saber se havia outras formas de contágio. Muitas crianças foram inoculadas com a secreção nasal de soldados infectados para se veri�car a transmissão dessa doença. Os tumores mamários também tinham sua etiologia desconhecida e, por isso, tumores que apareciam em uma mama das mulheres eram retirados por meio de procedimentos cirúrgicos e implantados na mama sadia da mesma mulher, ou de outra mulher para se veri�car se ela desenvolvia a doença. Tais experimentos foram considerados “crimes contra a humanidade”, horrorizaram o mundo e mostraram a necessidade de estabelecer recomendações de natureza ética que deveriam ser seguidas na pesquisa médica, pois como podemos ver, os princípios da bene�cência, da não male�cência e da autonomia (já estudados em outras aulas) não foram respeitados ao envolverem esses indivíduos nas pesquisas. Por esse motivo, em 1946 vinte e três pessoas, das quais 20 médicos nazistas, foram acusadas de crimes contra prisioneiros de guerra e julgadas no tribunal de Nuremberg. Os acusados tentaram justi�car seus crimes com a desculpa de que, na época, não havia regras governamentais explícitas que regulamentassem a pesquisa médica na Alemanha, e que as práticas de pesquisa na Alemanha não eram diferentes das existentes nos países aliados (ALVES & TUBINO, 2006). O julgamento dos médicos começou em dezembro de 1946 e terminou em julho do ano seguinte. Foram 23 réus, dos quais somente três não eram médicos. Dezesseis foram declarados culpados, sete dos quais foram sentenciados à pena de morte e cinco à prisão perpétua. Sete foram absolvidos. Para o �scal acusador, o julgamento era de assassinato e sustentou que não era um "mero julgamento de assassinato", porque os réus eram médicos que tinham realizado o juramento de Hipócrates de não causar o mal (CÓDIGO DE NUREMBERG, 1949). Assim sendo, em 1947 foi criado o Código de Nuremberg que é um marco na história da humanidade e, possivelmente, o documento mais importante na história da ética em pesquisa em seres humanos. Foi o primeiro a assegurar os direitos dos sujeitos da pesquisa, enfatizando a necessidade e a qualidade do consentimento do indivíduo pesquisado (ALVES & TUBINO, 2006). O Código de Nuremberg (1949) Em 1964, a Associação Médica Mundial (World Medical Association) aprovou uma codi�cação de maior abrangência que a de Nuremberg – a Declaração de Helsinque (CREMESP, 2000). Embora sem status jurídico, é um código de conduta para investigações médicas reconhecido internacionalmente. Nela, são consagrados o princípio do consentimento informado por parte dos sujeitos da pesquisa e a prevalência da bene�cência do indivíduo sobre o bem comum ou da ciência. Também passa a ser obrigatório que os projetos sejam aprovados por uma comissão de ética independente (que veremos na parte II desta aula). Além de todas essas normas, temos também a preocupação com a ética da pesquisa em animais, que são citadas desde 500 a.C. Em 1638, William Harvey publicou talvez a primeira pesquisa cientí�ca com animais, com resultados da �siologia circulatória de mais de 80 diferentes espécies (MIZIARA et al., 2012). O princípio é também o de não causar danos e tampouco sofrimento aos animais submetidos a experimentos e, por esse motivo, foi criada a Lei nº 11.794/08, conhecida como Lei Arouca, que estabelece a criação do CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) e torna obrigatória a constituição das CEAU (Comissões de Ética no Uso de Animais) em instituições com atividades de ensino ou pesquisa com animais (MIZIARA et al., 2012). Ética na pesquisa (parte II) AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Como vimos na aula anterior, é necessário que mantenhamos assegurado e respeitado o direito e a autonomia dos indivíduos participantes de pesquisas cientí�case, para tanto, é necessário que os projetos sejam analisados e aprovados por comitês para que estes sejam preservados. Em 1982, com novas versões em 1993 e 2002, o Conselho das Organizações Internacionais de Ciências Médicas (CIOMS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) propuseram as Diretrizes Internacionais para Pesquisas Biomédicas em Seres Humanos. Ficou estabelecido que todas as propostas para condução de pesquisas em seres humanos deveriam ser submetidas para revisão e aprovação a um ou mais comitês independentes de revisão ética e cientí�ca, e que o pesquisador deveria obter a aprovação da condução da pesquisa antes de iniciá-la. Foi também abordada a composição dos comitês (ALVES & TUBINO, 2006). Para tanto, foram criados a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP), que têm a função precípua de “garantir e resguardar a integridade e os direitos dos voluntários participantes nas pesquisas” (ALVES & TUBINO, 2006). A CONEP está diretamente ligada ao Conselho Nacional de Saúde (CNS), sendo independente de in�uências corporativas e institucionais. Uma das suas características é a composição multi e transdisciplinar, contando com representantes de diferentes áreas. Sua atribuição principal é a avaliação dos aspectos éticos das pesquisas que envolvem seres humanos no Brasil. Como missão, a Comissão elabora e atualiza as diretrizes e normas para a proteção dos sujeitos de pesquisa e coordena a rede de Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) das instituições. Portanto, cabe à CONEP avaliar e acompanhar os protocolos de pesquisa em áreas temáticas especiais tais como genética e reprodução humana, novos equipamentos, dispositivos para a saúde, novos procedimentos, população indígena e projetos ligados à biossegurança, dentre outros (BRASIL, 2019). Os CEPs terão sempre caráter multi e transdisciplinar, não devendo haver mais que metade de seus membros pertencentes à mesma categoria pro�ssional, participando pessoas dos dois sexos. Sua constituição deverá incluir a participação de pro�ssionais da área de saúde, das ciências exatas, sociais e humanas e pelo menos um membro da sociedade representando os usuários da instituição. É importante ressaltar que é assegurado aos CEP independência na tomada de decisões e que seus membros não podem sofrer qualquer tipo de pressão por parte dos superiores hierárquicos. Todas as pesquisas em seres humanos no Brasil deverão ser submetidas à apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa (ALVES & TUBINO, 2006). Os aspectos éticos das atividades de pesquisa em seres humanos no Brasil são regulados pela Resolução CNS 196/96 (Diretrizes e Normas de Pesquisas em Seres Humanos) (BRASIL, 1996) e pelas resoluções complementares posteriores, como a Resolução 466/12, que aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Com a criação dessas resoluções, o respeito à autonomia, a vulnerabilidade e à vontade do indivíduo foram respeitadas na sua plenitude, e alguns aspectos merecem ser destacados aqui. Essas resoluções devem ser empregadas todas as vezes que o indivíduo for envolvido direta ou indiretamente na pesquisa, ou seja, havendo procedimentos invasivos, aplicação de questionários (direta) ou revisão de prontuários e estudos retrospectivos (indireta), deve-se submeter o projeto de pesquisa à comissão para apreciação e aprovação antes do início do experimento, e este somente poderá ser inicializado após a devida aprovação. Deve ser observado que não se trata de um consentimento simplesmente informado. É livre porque não pode haver nenhum tipo de limitação à decisão do indivíduo em dar ou não o seu consentimento, e esclarecido porque o compromisso com o sujeito da pesquisa não é apenas de informar e sim de esclarecer (ALVES & TUBINO, 2006). O TCLE é um documento de caráter explicativo em que são abordadas todas as questões relativas ao estudo clínico que possam estar relacionadas à decisão do sujeito da pesquisa e, assim, garantir sua participação voluntária. A participação voluntária em estudos humanos é baseada no direito de ser informado de todos os aspectos do estudo, bem como ter respostas para questões em linguagem clara e de fácil entendimento (SOUZA et al., 2013). Para que possamos garantir que o indivíduo participe voluntariamente da pesquisa, este não pode ser pressionado ou estar sob coação. Através do TCLE e de sua assinatura, o sujeito de pesquisa reconhece que ele entende e aceita todos os aspectos do estudo, incluindo os riscos e possíveis benefícios envolvidos. Ele prioriza a garantia da autonomia por meio da ausência de coerção, do respeito através de uma explicação simples, clara e honesta e da possibilidade de recusa ou desistência do paciente, que poderá ocorrer em qualquer fase do estudo clínico (SOUZA et al., 2013). Sua vulnerabilidade também precisa ser analisada e respeitada, de�nida como a incapacidade de tomar a melhor decisão a �m de proteger os próprios interesses. É possível classi�cá-la como vulnerabilidade extrínseca ou intrínseca. A primeira é causada por questões externas, como problemas sociais e culturais, carência de recursos econômicos e baixa escolaridade. A segunda decorre de características internas do indivíduo, como transtornos mentais, de�cit intelectual ou outras doenças, além da faixa etária, que engloba crianças e idosos (COSAC, 2017). Importante lembrar que caso a pesquisa esteja vinculada a algum atendimento e/ou acompanhamento de saúde, o indivíduo deverá ter assegurada a continuidade desses atendimentos, sem prejuízo algum, caso decida se recusar ou desistir de participar da pesquisa mesmo que ela esteja em andamento. A aplicação de TCLE adequada proporciona tratamento ético na relação pesquisador-sujeito da pesquisa e estimula o respeito aos direitos humanos, disso resultando seu crescente uso nos últimos anos (SOUZA et al., 2013). Com a crescente pesquisa no Brasil, o Ministério da Saúde decidiu construir um sistema que permitisse o acompanhamento das pesquisas em nível nacional e, para isso, criou a Plataforma Brasil. A Plataforma Brasil é uma base nacional e uni�cada de registro de pesquisas envolvendo seres humanos que visa integrar todos os CEPs e a CONEP e permitir também a interação com agências regulatórias e de fomento à pesquisa, instituições internacionais, editores cientí�cos, dentre outros, além de fornecer informações sobre os diversos estágios das pesquisas: fase de projeto, fase de campo e relatórios de pesquisas já concluídas, haja vista que uma de suas principais �nalidades será atuar como ferramenta de controle social capaz de proporcionar a análise da situação histórica das pesquisas e o acompanhamento de sua execução (BARBOSA, et al., 2011). Vale lembrar que a submissão de projetos envolvendo seres humanos a esta plataforma pode ser para qualquer nível de pesquisa, desde uma iniciação cientí�ca ou trabalho de conclusão de curso até especialização, mestrado e doutorado. Não podemos nos esquecer de que a submissão para apreciação e aprovação de trabalhos de pesquisa que envolvem animais também deve ser enviada à Comissão de Ética em Pesquisa Animal, normatizada pela Lei 11.794/08 (BRASIL, 2008) e pelo Decreto 6.899/09 (BRASIL, 2009), que garante cuidados especiais aos animais participantes. Ancianidade e Envelhecimento AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Para entendermos o enfoque bioético sobre este tema, devemos partir de algumas de�nições. Ancianidade é o estado ou condição de saúde do ancião, e envelhecimento é um processo de diminuição orgânica e funcional, não decorrente de doença, e que acontece inevitavelmente com o passar do tempo (ERMINDA, 1999). Já o envelhecimento saudável depende das condições sociais e culturais em que o idoso está inserido (SANTOZ, VAZ, 2004). Até a década de 1960, a velhice era praticamente desconsiderada pela sociedade, e como a expressão “velho” trazia uma conotação discriminatória,passou-se a utilizar outras expressões tais como “terceira idade”, seguida de “melhor idade” para minorar o preconceito e o caráter desagradável (CAMPOS, 2019). O rápido envelhecimento populacional é a transformação demográ�ca mais marcante observada nos países em desenvolvimento a partir da segunda metade do século XX. Especi�camente no Brasil, destacam-se três aspectos no processo de envelhecimento populacional: �. tal envelhecimento tem sido gradual e contínuo; �. o segmento populacional dos idosos é aquele que mais cresce e �. em 2050, a população idosa provavelmente representará 22,71% da população total (FREITAS, SCHRAMM, 2013). A população idosa está aumentando graças à melhoria das condições de saúde, novos medicamentos, avanço na tecnologia e medicina, que possibilitam o aumento da expectativa e qualidade de vida. Considera-se o envelhecimento como um fenômeno natural, mas que geralmente apresenta um aumento da fragilidade e vulnerabilidade devido à in�uência dos agravos à saúde e do estilo de vida (ERMINDA, 1999). Silva, Lima, Galhardoni (2010) enumeraram as condições sociais e de saúde que empiricamente podem estar envolvidas no contexto da vulnerabilidade em saúde no processo de envelhecimento, entre elas: a capacidade funcional na velhice, a distribuição das doenças crônico-degenerativas, a disponibilidade de programas e serviços, a posição social que os indivíduos ocupam e os recursos sociais disponíveis. Atualmente, a terminologia “vulnerabilidade” tem sido utilizada para se referir aos idosos com susceptibilidade para desenvolver incapacidades, ou para indicar os idosos com condições sociais desfavoráveis e que possuiriam menos acesso a oportunidades de atingir níveis satisfatórios de saúde e independência. A noção de “risco”, associada ao desenvolvimento de condições desfavoráveis de saúde, aparece subjacente nessas aplicações. Contudo, nem todos os idosos com susceptibilidade a incapacidades as desenvolvem, e nem todos os idosos com condições sociais desfavoráveis possuirão piores condições de saúde (SILVA, LIMA, GALHARDONI, 2010). Acreditamos que a interação entre saúde, independência e autonomia na velhice pede um olhar analítico, e que pode receber contribuições do conceito de vulnerabilidade em saúde. Cabe destacar que a vulnerabilidade em saúde é um conceito apropriado para estimular respostas sociais e que não possui aplicação direta às questões que envolvem a saúde na velhice. Nesse sentido, pode-se indagar se o idoso é socialmente reconhecido como um cidadão de direitos e que, independentemente da condição social, possui o direito de alcançar o envelhecimento saudável e apresentar uma velhice bem-sucedida (SILVA, LIMA, GALHARDONI, 2010). Com o aumento da idade, a passagem do tempo não é o prenúncio de um futuro, mas o distanciamento da juventude. A falta desse futuro é determinante nos sentimentos que a sociedade e o próprio idoso têm relativamente à sua condição, isso signi�ca que ele considera o que é para os outros e o que é para si próprio. Os idosos vivem de lembranças do passado, de uma vida que �cou para trás, e os momentos presentes trazem novidades, mas que geralmente são evitadas. A rigidez de alguns hábitos e mesmo o apego a alguns valores podem auxiliar na redução de inseguranças dessa fase da vida (FREITAS, 2006). Em 2003 foi aprovado o Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003), que estabelece a obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público em assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. Vejamos aqui alguns dos principais: Saúde O idoso tem atendimento preferencial no Sistema Único de Saúde (SUS) e é vedada a discriminação nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade. Na avaliação do Superior Tribunal de Justiça, o que a lei proíbe é a atitude discriminatória do plano de saúde, que eleve tanto o valor da mensalidade de modo a inviabilizar a assistência ao idoso. Transporte Nos veículos de transporte coletivo, serão reservados 10% dos assentos para idosos, assim como é assegurada a reserva, para os idosos, nos termos da lei local, de 5% das vagas nos estacionamentos públicos e privados. Educação e Cultura O idoso tem direito a 50% de desconto nos ingressos para eventos artísticos, culturais, esportivos e de lazer. Trabalho na terceira idade São proibidas a discriminação e a �xação de limite máximo de idade na contratação de empregados, sendo passível de punição quem o �zer, inclusive para concursos, ressalvados os casos em que a natureza do cargo o exigir. O primeiro critério de desempate em concurso público será a idade, dando-se preferência ao de idade mais elevada. Violência Nenhum idoso poderá ser objeto de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão. A lei considera como violência praticada contra idosos qualquer ação ou omissão praticada em local público ou privado que lhe cause morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico. A discriminação de uma pessoa idosa, impedindo ou di�cultando seu acesso a operações bancárias, aos meios de transporte, ou por qualquer outro meio ou instrumento necessário ao exercício da cidadania, por motivo de idade resulta em pena de reclusão de seis meses a um ano e multa. Abandono Abandonar o idoso em hospitais, casas de saúde, entidades de longa permanência, ou congêneres, ou não prover suas necessidades básicas, gera pena de detenção. Exposição a perigo a integridade e a saúde, física ou psíquica, do idoso, submetendo-o a condições desumanas ou degradantes, privar o idoso de alimentos e cuidados indispensáveis, ou quando o sujeitar a trabalho excessivo ou inadequado, detenção e multa. A pena pode ser aumentada de um a quatro anos se houver lesão corporal de natureza grave, e reclusão de quatro a doze anos se o fato resultou em morte. Pensão alimentícia Os idosos que, a partir de 60 anos, não têm condições de se sustentar nem contam com auxílio de parentes próximos têm direito a pensão alimentícia. O benefício funciona nos mesmos moldes que a pensão paga pelos pais aos �lhos. Desta forma, tendo em vista todas essas informações, o estudo e o conhecimento do processo de envelhecimento ganhou interesse considerável nos últimos anos – e agora, mais do que nunca, existe um interesse crescente em identi�car os fatores que levam a um envelhecimento sadio e sem abusos. Sobre Dor e Sofrimento AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Em uma época que falamos tanto sobre a importância da humanização em saúde, torna-se imprescindível falar sobre dor e sofrimento. É muito comum identi�carmos dor com sofrimento, ainda que, em termos rigorosos, trata-se de realidades distintas. Enquanto a dor possui sempre suporte �siologicamente detectável, no sofrimento muitas vezes não é assim (OLIVEIRA, 2016). A de�nição de dor mais comum na prática clínica a identi�ca, de modo mais ou menos consciencializado, como sinal fornecido por tecidos corporais alterados. A dor existe sempre como manifestação de alterações �siológicas, cujas causas técnicas auxiliares de diagnóstico usualmente identi�cam. A maior parte das vezes em que isso não acontece é dito às pessoas que se queixam de dor que ela não decorre de acontecimentos no seu corpo, mas de “fatores psicológicos” (STRICKEN, 2000). No que diz respeito à intensidade, a dor pode ser considerada aguda ou crônica: a primeira é uma forma de alerta do organismo diante de agressão mecânica, química ou térmica; a segunda provoca desequilíbrios orgânicos, diminuindo progressivamente as capacidades funcionais das pessoas. A tipologia �siológica mais comum inclui dor somática, visceral e neuropática. Na primeira, temos dores resultantes de danos no “exterior” do corpo, enquanto a dor visceral remete a dores internas aos órgãos– a sintomatologia clássica são as cólicas abdominais. (OLIVEIRA, 2016). Já o sofrimento é um estado de a�ição severa, associado a acontecimentos que ameaçam a integridade (a capacidade de se manter intacto) de uma pessoa. Sofrimento exige consciência de si, envolve as emoções, tem efeitos nas relações pessoais da pessoa e causa impacto no corpo. Essa situação existencial de a�ição grave veri�ca-se naquilo que a pessoa identi�ca com seu interior, geralmente associado a emoções tais como ansiedade, e a sentimentos como tristeza, frustração, impotência, etc. (CASSELL, 2004). O sofrimento surge sempre associado a eventos, principalmente externos (outras pessoas, doença, desemprego, perda de ente querido, etc.). É importante realçar, no entanto, que o estado de a�ição severa é sentido interiormente, daí ser comum a hipótese de haver algum dano em órgão interno, como no coração, no fígado, etc. Quando isso acontece, mesmo que exames auxiliares de diagnóstico nada identi�quem, pro�ssionais de saúde devem ter muito cuidado antes de concluir que nada ali lhes diz respeito. Ainda que a causa do sofrimento possa ser considerada exterior, não se pode confundi-la com o efeito produzido (o sofrimento), tampouco reduzi-lo àquela única causa (OLIVEIRA, 2016). Grande parte do sofrimento do doente relaciona-se a outros fatores para além de seus problemas �siológicos. Uma pessoa diagnosticada com doença sente-se fragilizada ou pensa que deveria sentir-se assim. Ela acredita que tem limitações de tipo �siológico normalmente descritas por pro�ssionais de saúde. Essa situação afeta o modo como a pessoa se alimenta, se movimenta, interage consigo e com outros. Estados de humor menos positivos geralmente se manifestam em pessoas doentes, e, no que se refere a portadores de doenças crônicas, não é pequena a possibilidade de atingirem estados depressivos. É comum sentirem-se insu�cientemente apoiados, não levados a sério, etc. (OLIVEIRA, 2016). Quando um pro�ssional de saúde promove o alívio da dor, cumpre-se o princípio da bene�cência; por outro lado, se não a trata, contribui para o aparecimento de danos físicos e psicológicos, ferindo o princípio da não-male�cência. Semelhantemente, nos casos em que uma queixa de dor é ignorada ou um atendimento a um pedido de alívio recusado, contraria-se a autonomia do paciente e a autodeterminação dos cuidados à saúde. Entre todos esses princípios, a justiça constitui-se em maior desa�o no tratamento da dor, uma vez que ainda há acesso desigual aos serviços de saúde e tratamentos disponíveis pelas desigualdades socioeconômicas (SOUZA et al., 2013) Em relação à dor, especi�camente, o princípio da bene�cência defronta‑se com três questões básicas: O tratamento inadequado, mesmo em regiões industrialmente desenvolvidas, ainda é constatado com frequência, por mais que, nas duas últimas décadas, tenha sido denunciado, analisado e reavaliado. Possivelmente, os principais motivos dessa insu�ciência terapêutica sejam a desinformação sobre aspectos da dor e a aplicação imprópria dos conhecimentos farmacológicos disponíveis. O descaso assistencial tem razões bastante complexas e multifacetárias, que deixam transparecer certo entendimento da dor e da doença como expiação de culpa, cuja origem encontra‑se em concepções judaico‑cristãs que impregnam nossa cultura ocidental. A concepção da dor (doença) como punição merecida por alguma conduta reprovável ainda está profundamente enraizada no inconsciente de nossa linguagem e nas nossas consciências contemporâneas. A postura paternalista faz com que o princípio da bene�cência seja externado em relações terapêuticas assimétricas e em comportamento pro�ssional impositivo. Tal atitude provém, ao menos, de três situações: �. o autoritarismo médico, de raízes históricas, manifestado nas relações professor/aluno e médico/paciente; �. a vulnerabilidade do paciente, implícita na afecção dolorosa crônica e �. a medicalização da vida, isto é, a onipresença social, às vezes devastadora, das concepções médicas. Além de vulnerável, o paciente atingido pela dor crônica mostra‑se frequentemente depressivo, de maneira que o protecionismo paternalista pode desenvolver grandes dependências e regressões que podem acentuar o sentido de fuga do qual a doença muitas vezes se reveste. Mas nota‑se que a intenção de fugir é própria de quem se acha prisioneiro. A pessoa é tanto mais livre quanto menos procura evadir‑se de si próprio, da sociedade, da vida. (DRUMMOND, 2011). A dor exige compreensão racional, e o sofrimento pede entendimento afetivo. A assistência à dor demanda competência, medicação e cuidados especializados, enquanto a terapêutica do sofrimento solicita atenção, aceitação e solidariedade (DRUMMOND, 2011). Em suma, a preocupação mais profunda da bioética é com a qualidade de vida, cuja limitação é uma decorrência maior ou menor da presença da dor e do sofrimento, que constituem um dos temores fundamentais do mundo contemporâneo, onde o tema do vulnerável e do sofredor ocupa, em nossa consciência, o indivíduo puramente racional (DRUMMOND, 2011). Sobre a Morte e o Morrer (parte I) AUTORIA Cristiane Fátima Guarido A morte pode ser de�nida como a cessação de�nitiva da vida, e o morrer como o intervalo entre o momento em que a doença se torna irreversível e aquele em que o indivíduo deixa de responder a qualquer medida terapêutica, progredindo inexoravelmente para a morte (MORITZ, 2005). A palavra morte frequentemente associa-se a sentimentos de dor, sofrimento, separação e perda. A civilização ocidental moderna foge desse tipo de sentimentos; consequentemente, foge da morte. Os ocidentais, em geral, não veem a morte como parte da vida, mas sim como castigo, algo inaceitável e, portanto, assunto que deve ser socialmente evitado. Sua cultura exige que a morte seja adiada a todo custo, e entre os medos que a envolve, o mais comum é o de que seja dolorosa (MORITZ, 2005). Na civilização ocidental moderna, as crianças são afastadas das cerimônias de despedida. A elas, é omitida a morte de um familiar e são utilizados subterfúgios para explicar sua ausência. São comumente utilizados os termos “foi fazer uma longa viagem” ou “foi para o céu”. A palavra morte não é pronunciada porque é temida. Contudo, cedo ou tarde as crianças perceberão a ausência de quem morreu e descon�arão dos adultos que lhes mentiram (MORITZ, 2005). Como vimos, pouco se fala sobre a morte, tanto na sociedade leiga quanto no diálogo médicos-pacientes. Os pro�ssionais da saúde podem agir de maneiras diferentes quando o assunto é o processo de morrer e a morte propriamente dita, pois a falta de comunicação entre os pro�ssionais e os pacientes é apontada como fator negativo. Outro fator que in�uencia esse “diálogo” é a cultura, a crença e o treinamento dos pro�ssionais de saúde que muito interferem nos procedimentos e comportamentos dos mesmos. Kübler-Ross (1998) a partir de sua experiência e dedicação com pacientes conhecedores da evolução letal de suas doenças, conseguiu categorizar cinco estágios pelos quais eles passam quando da aproximação da morte: A partir dessa categorização, como podemos a�rmar que os próprios pro�ssionais da saúde, bem como os familiares dos pacientes, não passam pelos mesmos estágios? A morte no século XXI é vista como tabu, interdita, vergonhosa; por outro lado, o grande desenvolvimento da medicina permitiu a cura de várias doenças e um prolongamento da vida. Entretanto, esse desenvolvimento pode levar a um impasse quando se trata de buscar a cura e salvar uma vida, com todo o empenho possível, num contexto de “missão impossível”: manter uma vida na qual a morte já está presente. Essa atitude de tentar preservar a vida a todo custo é responsável por um dos maiores temores do ser humano na atualidade, que é o de ter a sua vida mantida às custas de muito sofrimento, solitário numa UTI ou quarto de hospital, tendo por companhia apenas tubos e máquinas(KOVÁCS, 2003). É imposta aos médicos, os responsáveis �nais pelo tratamento dos pacientes no nível hospitalar, uma maior responsabilidade acerca das decisões que englobam o binômio vida-morte. A morte dos pacientes é temida pela maioria dos médicos. Entretanto, treinados para salvar vidas, eles devem saber tratar tanto do ponto de vista técnico quanto emocional o paciente que sofre de doença irreversível e terminal. Portanto, torna-se cada vez mais importante o trabalho em equipe tanto interdisciplinar quanto interpro�ssional (MORITZ, 2005). Ainda neste contexto, cabe aqui a�rmar que todos os procedimentos devem respeitar os princípios éticos de autonomia, bene�cência e não-male�cência em relação à participação do paciente na tomada de decisão sobre sua saúde. Na América do Sul, o Comitê de Bioética da Sociedade Argentina de Terapia Intensiva de�niu em 2000 que as decisões sobre tratamento cabem ao paciente, e que a comunicação adequada entre o médico, o paciente e seus familiares, é fundamental. De�niu também que, embora caiba ao paciente a recusa ou suspensão de um tratamento, estando o mesmo impossibilitado de opinar a decisão é de responsabilidade do médico e deve ser debatida com toda a equipe de saúde. Essas decisões são necessárias ante alguns tratamentos, e as medidas tomadas devem ser comunicadas aos familiares envolvidos. Diante de um caso de urgência, a decisão cabe ao médico. É ressaltado que os pacientes nunca deverão ser privados das medidas que atendam ao seu conforto físico, psíquico e espiritual. A família deve sempre compartilhar das decisões médicas; caso isso não ocorra, deve ser consultado um pro�ssional indicado pelos familiares, seguido de consulta ao Comitê de Ética. Se esses passos não resultarem em consenso, o paciente poderá ser transferido para outra instituição. O paciente sempre terá o direito de recusar um tratamento, mesmo que vital para a manutenção de sua vida. Assim, todas as decisões devem ser registradas na história clínica do enfermo. Cada vez mais constata-se a importância de serem levados em consideração os sentimentos e desejos do paciente e seus familiares, e a adequada comunicação entre eles e a equipe hospitalar interdisciplinar é imprescindível antes que qualquer decisão terapêutica seja tomada (MORITZ, 2005). O médico, porém, não pode se omitir da decisão �nal sobre a terapêutica do seu paciente. Qualquer que seja, essa decisão deve considerar não apenas algoritmos, mas a experiência pro�ssional e os aspectos emocionais tão difíceis de ser dimensionados. Além disso, não se pode esquecer que todos os casos que implicam decisões de vida ou morte envolvem desa�os clínicos e problemas éticos complexos não bem de�nidos do ponto de vista legal (MORITZ, 2005). Para �nalizar, é imprescindível ressaltar a importância do reconhecimento da terminalidade como processo humano, natural e necessário, pois às vésperas da morte, o paciente pode encontrar paz. Finalmente, devemos nos lembrar das palavras de Hipócrates, que destaca como um dos papéis da medicina “recusar-se a tratar daqueles que foram vencidos pela doença, entendendo que, diante de tais casos, a medicina torna-se impotente” (MORITZ, 2005). Sobre a Morte e o Morrer (parte II) AUTORIA Cristiane Fátima Guarido Na aula anterior, vimos claramente que a morte e o processo de morrer ainda possui seus tabus entre os pro�ssionais da saúde e entre os próprios pacientes e familiares. Na sociedade atual, a morte deixou de ser um processo natural. Com os avanços da ciência médica e da tecnologia, o paciente não mais compartilha seus derradeiros dias no seio da família, sendo entregue ao médico e sua equipe nos hospitais onde se procede a manutenção arti�cial das funções vitais de seu organismo debilitado. Nesse contexto, o processo de morrer pode ser dominado, possibilitando tanto a obstinação terapêutica, por intervenções que impedem que a pessoa faleça, quanto a eutanásia, que antecipa o momento da morte (MAGALHÃES, NUNES, 2014). Na década de 1960, com o advento dos transplantes, começaram a ser questionados os limites da vida quando mantida com máquinas. O critério de morte então deixa de ser a parada cardiorrespiratória e passa a ser a morte encefálica. As situações de vida e morte envolvem vários personagens: pacientes, familiares e equipe de saúde, além da instituição hospitalar. Numa relação simétrica, qualquer decisão envolverá todos estes personagens, arrolando-se os prós e os contras de cada uma das opções. Entretanto, na maior parte das instituições hospitalares observa-se a posição paternalista, na qual, baseada no princípio da bene�cência, de se fazer o bem e evitar o sofrimento adicional, a equipe age unilateralmente, justi�cando-se com a ideia de que sabe o que é melhor para o paciente; ou seja, considera que este não está preparado para saber o que é o melhor para si. Assim, a equipe de saúde é a depositária do saber (KOVÁCS, 2003). Toda esta discussão se torna fundamental quando está em jogo a busca da dignidade, não só durante toda a vida, mas também com a aproximação da morte, envolvendo a valorização das necessidades e a diminuição do sofrimento. O princípio da justiça envolve a propriedade natural das coisas, a liberdade contratual, a igualdade social e o bem-estar coletivo entendido como equidade: cada pessoa deve ter suas necessidades atendidas, reconhecendo-se as diferenças e as singularidades (FORTES, 2002; GARRAFA & PORTO, 2002). A promoção à saúde e a bioética se unem pela defesa da vida e têm como objetivo comum a melhoria da qualidade de vida e o respeito à dignidade humana. O morrer com dignidade é consequência do viver dignamente e não apenas o sobreviver sofrido. A vida deve ser vivida com dignidade e o processo de morrer, o qual faz parte da vida humana, também deve ocorrer de modo digno, assim se faz necessária a exigência dos direitos a uma morte digna, incluindo a re�exão a respeito do arsenal terapêutico excessivo (BIONDO, SILVA, SECCO, 2009). Outro ponto que provoca discussões importantes no ramo da bioética é o desenvolvimento da tecnologia médica, o prolongamento da vida, às vezes sem limite, e o dilema entre a sacralidade da vida e uma preocupação com a sua qualidade (KOVÁCS, 2003). Com isto, introduziu-se na área médica a denominação “Cuidados Paliativos” com a intenção de melhorar a qualidade de vida das pessoas doentes e seus familiares e com o preceito de […] reconhecer que todas as pessoas próximas do �m da vida desejam ser tratadas como pessoas de valor pelos pro�ssionais da saúde e ter uma atenção especializada, direcionada para manter a dignidade, incentivar a independência, aliviar os sintomas e maximizar o conforto (EICH et al., 2018). Se é a vida, como valor absoluto, que deve ser mantida a todo custo, nada poderá ser feito para a sua abreviação, e deve se evitar a morte a todo custo. Foi o desenvolvimento da tecnologia que favoreceu a manutenção e prolongamento da vida, e então pergunta-se até quando investir em tratamentos e quando interrompê-los. Esses são os dilemas relativos à eutanásia, à distanásia, ao suicídio assistido e ao morrer com dignidade (KOVÁCS, 2003). De acordo com Oliveira Filho (2011), a eutanásia pode ser classi�cada quanto ao tipo de ação: Ativa: é a ação realizada com o propósito de causar ou acelerar a morte. Essa ação pode incluir injeção letal ou overdose aplicada por um médico. Ocorre atendendo-se à vontade de quem se encontra nos últimos estágios da vida e engloba o auxílio ao suicídio. Passiva: é a ação negada com o propósito de causar ou acelerar a morte. Inclui medidas como suspender ou retirar a alimentação, a hidratação ou a oxigenação do paciente. Desse modo, faz-se uma omissão e não uma ação. Pode-se também classi�car quanto ao tipo de consentimento do paciente: Voluntária: aplica-se quando o doente se encontra em perfeitas condições mentais e ainda possui vontade própria para pedir conscientemente que lhe retirema vida. Involuntária: quando a morte é provocada contra a vontade do paciente. Ortotanásia signi�ca morte correta, ou seja, a morte pelo seu processo natural. Nesse caso, o doente já está em processo natural da morte e recebe uma contribuição do médico para que este estado siga seu curso natural. Assim, em vez de se prolongar arti�cialmente o processo de morte (distanásia), deixa-se que este se desenvolva naturalmente (ortotanásia). Somente o médico pode realizar a ortotanásia, e ainda não está obrigado a prolongar a vida do paciente contra a vontade deste e muito menos aprazar sua dor (GOMES, 2008). Elaborar a ideia de ter entes queridos e/ou pacientes em estado terminal é um processo complexo e delicado devido a diversos consensos e percepções a respeito da morte e do morrer disseminados em nossa sociedade. Familiares e pro�ssionais têm di�culdade de aceitar a �nitude da vida, prolongando a vida dos pacientes fora de possibilidades terapêuticas curativas e aumentando o sofrimento e a tristeza devido às insistentes e vãs tentativas de cura (SANTANA et al., 2017). Desta forma, entendemos que é fundamental a re�exão ética sobre os fatos e valores na tomada de decisão dos pro�ssionais da saúde, pois os problemas éticos consistem em con�itos de valores, e promover os melhores valores possíveis é um dever destes pro�ssionais. Também devemos entender que cada paciente é único e apresenta particularidades. Dessa forma, um relacionamento interpessoal que valoriza o ser humano pode contribuir para humanizar o processo de morte e morrer. Olá! Desde que surgiu, a Bioética nos convida a re�etir sobre comportamentos e valores básicos da existência humana e, por isso, é tão difícil e trabalhoso falarmos dela. Evoluir eticamente em um mundo de constantes transformações requer conhecimentos e comportamentos ajustados à sociedade a ao que ela preconiza, sem deixarmos de fazer valer nossas crenças e valores. E isso é fácil? Não! Ao re�etirmos sobre comportamentos, sempre haverá os prós e os contras, como uma encruzilhada em que eu deva decidir para que lado seguir. Ao abordarmos os temas apresentados aqui, espero ter contribuído para a sua formação pessoal e pro�ssional necessárias para a administração de nossas vidas. Tenho certeza de que, ao estudar esta disciplina, você conseguirá levar essas re�exões, comportamentos e valores para sua vida, seu trabalho e seus relacionamentos interpessoais. Obrigada por estarem comigo nesta jornada, e boa sorte em suas novas conquistas! Conclusão Livro Filme Filme Princípios da ética e moral Ética e normas legais e deontológicas Princípios da Bioética Valores morais Princípios da autonomia Privacidade e segredo profissional (parte I) Privacidade e segredo profissional (parte II) Tecnologias genéticas Ética e sexualidade Ética na pesquisa (parte I) Ética na pesquisa (parte II) Ancianidade e envelhecimento Sobre dor e sofrimento Sobre a morte e o morrer (parte I) Sobre a morte e o morrer (parte II) Material Complementar e Referências