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111 A Igreja Católica e a reprodu- ção assistida Sem dúvida, dentre os assuntos que mais provocam debates situam-se aqueles referentes à reprodução huma- na, em vista do forte componente reli- gioso, moral e ético que envolve a questão. O dogmatismo da Igreja Ca- tólica sobre o tema, desde o início da era cristã, dando uma conotação divi- na à reprodução humana, tornou, durante quase dois mil anos, essa dis- cussão proibida. Ou, pelo menos, res- trita a grupos de pensadores e filóso- fos que ousaram desafiar os dogmas estabelecidos. No Novo Testamento, no Evangelho segundo S. João, lê-se: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da von- tade do varão, mas de Deus” – por si só esta asserção impõe um silêncio sobre a questão da reprodução e não admite discussão. A influência de diversas religiões, principalmente da católica, impedindo a livre manifestação do pensamento Antônio Henrique Pedrosa Neto José Gonçalves Franco Júnior Reprodução Assistida sobre o assunto, levou à aceitação de que a reprodução humana era uma manifestação exclusiva da vontade de Deus e, portanto, seria inadmissí- vel sua discussão pelo homem. A interferência humana no processo reprodutivo constituía uma agressão à vontade de Deus. Esse dogma perdu- rou durante séculos, mantendo a hu- manidade sob a doutrina de uma reli- gião que impunha seus conceitos a todos, religiosos ou não, em uma ati- tude claramente coercitiva que não reconhecia a diversidade do pensa- mento humano. Um dia, a espécie humana deci- frou os mistérios da reprodução. Co- nheceu o poder de trazer uma nova vida ao mundo, não mais submeten- do-se ao simples acaso da natureza. Corrigindo uma falha desta, permitiu que o homem e a mulher pudessem desenvolver o privilégio da reprodução. Devolveu ao homem e a mulher o di- reito à descendência. Devolveu à mu- lher sua função biológica de conceber uma nova vida. Não quis o homem tornar-se Criador. As sementes da vida 112 são Sua criação. O homem apenas juntou as sementes para que dessem origem a um novo ser. Sob essa lógi- ca, não se pode falar de desvios reli- giosos, morais ou éticos. A respeito da inseminação artifi- cial, Pio XII manifestou-se contraria- mente, pois o esperma do marido não podia ser obtido através da masturbação e a fecundação ser reali- zada sem qualquer contato sexual. Sobre a questão, D. Ivo Lorscheider afirmou: “Todas essas experiências de se fazer nenês artificiais, bebês de pro- veta, são condenáveis. Isso vai ter uma repercussão terrível sobre a humani- dade, porque toda procriação tem como fundamento o amor entre a es- posa e o esposo. Quando o amor não existe mais, qual o significado dessa criança?”. Nesse sentido, a Igreja coloca a questão do amor, do sexo e da repro- dução dentro de sua lógica dogmática: de que a união do homem e da mu- lher, através do matrimônio, tem como objetivo único a reprodução, não im- portando os equívocos da natureza e a satisfação do casal. O cardeal Joseph Ratzinger, a respeito do do- cumento “O pecado maternal”, divul- gado pela Santa Sé, ao ser questiona- do sobre como ficaria o casal que pre- tendendo ter filhos não os pudesse ter, por algum problema de esterilidade, res- pondeu: “As pessoas nessas condições devem se resignar com a sorte”. A respeito da questão, as palavras do padre Guareschi encerram a polê- mica quando coloca o amor e a reali- zação do ser humano, inclusive dentro dos princípios cristãos, acima dos dogmas estabelecidos pela Sagrada Congregação para a doutrina da Fé. “O princípio que dá sentido à família é que ela, à semelhança da Trindade (...), procura a realização e complementação mútua de dois ou mais seres, através do amor. (...) Cos- tuma-se dizer que os filhos são fruto deste amor. Se formos aplicar essas reflexões ao problema da inseminação artificial (in vitro) poderíamos dizer que essa ação, quando contém em si esse princípio fundamental de amor, rea- lização e complementação mútua, se coloca muito bem dentro dos princí- pios cristãos. A experiência nos mos- tra que casais chegam a gastar fortu- nas, fazem sacrifícios ingentes para poderem ter um filho que vai ser o fruto de seu amor. Pode-se reduzir o amor à relação sexual normal? Não poderiam existir outros caminhos para que eles cheguem à realização e complementação de suas vidas, atra- vés do amor?”. Finalmente, a Igreja Protestante apresenta um pensamento mais libe- ral a respeito das técnicas de reprodu- ção assistida (RA). O pastor André Dumas assim manifestou-se sobre o assunto: “Eu sou favorável a inseminação artificial humana, mesmo com esperma de doador, pois é uma possibilidade obtida pela ciência, de superar a esterilidade, mas ela deve ser praticada com a concordância do marido e da mulher. ( ... ) Atualmente, intervém-se, cada vez mais, nos pro- cessos biológicos. A natureza é um mito. É legítimo para o homem inter- vir nos processos da natureza. O pro- blema da doação de esperma deve ser considerado como um problema de transplante, no plano da doação de órgãos. A semente deve ser dessacralizada. Evidentemente, a