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AULA 4 TERAPIA COGNITIVO- COMPORTAMENTAL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES Profª Laís Faria Masulk Cardozo 2 TEMA 1 – INTERVENÇÕES DO TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA No Transtorno do Espectro Autista (TEA) um dos principais pressupostos quando se fala de intervenção é a necessidade de um trabalho multidisciplinar (Caminha et al., 2011; Schmidt; Bosa, 2011). Logo, é importante que o terapeuta cognitivo-comportamental que trabalha com esse público mostre abertura em relação à troca de ideias com profissionais de outras áreas, bem como tenha conhecimentos que facilitem essa comunicação. Embora haja poucos estudos sobre os benefícios da psicoterapia para o trabalho com o TEA, seu trabalho de apoio é considerado adequado para muitos pacientes, principalmente quando o foco está voltado para resoluções de problemas (Caminha et al., 2011), porém o trabalho com crianças e adolescentes com diagnóstico de TEA somente com base no viés da clínica cognitivo- comportamental, de modo isolado, não será efetivo. Como visto anteriormente, esse quadro é caracterizado por falhas na comunicação e padrões restritos e repetitivos de comportamento em diferentes esferas, sendo com isso importante que também seja feito acompanhamento com profissionais de áreas como fonoaudiologia, psicopedagogia, terapia ocupacional, entre outros, de modo a serem planejadas intervenções que, ao mesmo tempo, incluam todos os comprometimentos do paciente e foquem suas potencialidades (Schmidt; Bosa, 2011). A intervenção deve ser definida baseada numa avaliação do perfil do paciente e na compreensão dos pontos fortes e fracos em relação às áreas social, comportamental e de linguagem (Schmidt; Bosa, 2011, p. 91). Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica mostra-se como instrumento importante, pois, desse modo, além da compreensão dos aspectos cognitivo-comportamentais, principalmente nos casos leves e moderados, obtém-se uma compreensão do perfil de desenvolvimento neurológico e de funções executivas, contribuindo assim para o planejamento de estratégias de intervenção condizente com o potencial de cada paciente. As funções executivas, consideradas um aspecto alterado no TEA, devem ser investigadas, especialmente em relação à memória operacional, mais especificamente a viso-espacial, planejamento, flexibilidade cognitiva, inibição e fluência verbal (Czermainski et al., 2014), o que aponta, também nesse quadro, para alteração em relação ao funcionamento da área pré- frontal do cérebro. 3 Vale ressaltar que a intervenção com a TCC, com uso de estratégias cognitivas e comportamentais, será voltada ao trabalho com casos de TEA leves e com alguns casos moderados. Pacientes com perfil mais grave, ou mesmo que apresentam um quadro de TEA não verbal, se beneficiarão de intervenções estritamente comportamentais, que são organizadas em modelos de intervenção específicos. Nestes utilizam-se, com frequência, estímulos visuais e sessões bem estruturadas realizadas até mesmo diariamente. Neste ínterim, de acordo com Schmidt e Bosa (2011), os programas de intervenção no TEA geralmente terão como alvo o desenvolvimento social e cognitivo, aprendizagem, resolução de problemas, habilidades de comunicação verbal e não verbal, redução de comportamentos disfuncionais e apoio às famílias e apontam para a prevalência de intervenções psicoeducacionais e farmacológicas. Para casos mais graves, algumas intervenções psicoeducacionais mostram-se efetivas e têm como objetivo o desenvolvimento de déficits comportamentais, caracterizados pela dificuldade na aquisição de aprendizados que ocorrem naturalmente em pares da mesma idade com desenvolvimento típico (Schmidt; Bosa, 2011, p.91). Alguns programas de intervenção aplicáveis para esses casos são (Schmidt; Bosa, 2011, p. 91): 1. Treatment na Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children (TEACCH): coloca ênfase na organização e estrutura do ambiente, com a criação de rotinas, uso de pistas visuais, instrumentos de apoio organizados sistematicamente e adaptações de atividades escolares em cada caso. As principais estratégias cognitivas e comportamentais envolvem a divisão de atividades complexas em unidades menores, fazendo com que cada etapa proposta seja passível de realização pelo paciente e generalização para outros ambientes. 2. Intervenção de Análise Aplicada do Comportamento (ABA): entendimento de que os comportamentos são mantidos por suas consequências, de modo que, com base na compreensão das contingências ambientais, contribui-se para a redução ou extinção de comportamentos disfuncionais. Para isso, busca-se eliminar as consequências que reforçam esses comportamentos e passa-se a reforçar somente os comportamentos mais adaptativos. A aplicação dos reforços pode ocorrer através de diversas técnicas, como o PECS (Picture Exchange Communication System), que consiste em conjunto de figuras 4 dispostas em forma de cartões utilizadas para que pedidos sejam feitos, substituindo algo desejado. É uma estratégia utilizada quando a criança ou adolescente não apresenta a comunicação verbal desenvolvida, de modo que, com os reforços dispensados após a figura ser mostrada, desenvolve- se uma nova forma de comunicação com base nas imagens. 3. Floor Time e SCERT: abordagem de intervenção voltada para o desenvolvimento da criança/adolescente. As duas favorecem o desenvolvimento da linguagem pré-verbal e verbal e da comunicação em ambientes naturais. Nos casos mais leves ou moderados de TEA, além dos objetivos trabalhados pelas abordagens citadas, outros aspectos podem constituir-se como objetivos do processo terapêutico. Diante disso, as intervenções comportamentais envolvem a modificação de alguns dos interesses demonstrados pela criança ou adolescente com TEA e a tentativa de canalizá-los para vocações e carreiras adequadas (Khouzam et al., 2004, citado por Caminha et al., 2011, p. 639), além do treino de habilidades sociais, que é amplamente aplicado, apesar da comprovação de sua efetividade ainda ser questionada, devido aos estudos realizados não contarem com grupo controle (Caminha et al., 2011, p. 638). Cruz e Nassif (2013, p. 284) falam sobre um protocolo que foi desenvolvido para tratamento de autismo de alto funcionamento, hoje denominado transtorno do espectro autista leve, nível 1. Esse protocolo conta com algumas estratégias cognitivas e comportamentais, sobre as quais se faz um resumo a seguir (Cruz; Nassif, 2013, p.285-296): 1. Reconhecimento e nomeação de emoções próprias: tem por objetivo identificar a emoção no momento em que a está sentindo. O trabalho em conjunto com a família é importante, pois muitas vezes o discurso do paciente é desorganizado ou fragmentado e o relato da família ajudará na compreensão das situações, bem como da construção do feedback para o paciente. 2. Inferência de emoções dos outros: o objetivo é facilitar a inferência de emoções dos outros que sejam coerentes com o contexto, em diferentes pessoas e situações. Algumas intervenções possíveis são iniciar com as emoções básicas através de um processo de decodificação das emoções, apresentação de fotos e gravuras, inversão de papeis (o paciente deve 5 identificar qual é, avaliando a expressão facial, a postura corporal e o tom de voz do terapeuta) e narração de pequenas histórias. 3. Inferência de pensamentos: o objetivo é fazer com que o paciente realize inferências acerca de pensamentos e crenças que sejam coerentes com o contexto, em diferentes pessoas e situações. Deve-se ensinar que é importante tentar entender e respeitar o ponto de vista dos outros, mesmo quando não concordamos com eles. Exemplos de estratégias que podem ser utilizadas para trabalho em relação a esseaspecto são: fotos ou figuras que possuem um contexto (inicialmente apresentar figuras de pessoas em um ambiente rico em detalhes. Perguntar o que a pessoa deve estar sentindo ou pensando. Desenhar um balão de pensamento), fotos ou figuras somente do agente, sair do consultório com a crianças e observar pessoas reais na rua e inversão de papeis. 4. Pensamento automáticos, emoções e comportamentos: o foco principal é trabalhar com a criança/adolescente a identificação de pensamentos automáticos e a compreensão do impacto destes nas emoções e comportamentos. Assim como no Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), se buscará explicar ao paciente que existe uma inter-relação entre pensamento, emoção e comportamento e que antes de uma pessoa se comportar de determinada forma, ela fez uma avaliação da situação e teve alguma emoção, mesmo que não tenha percebido. Esse trabalho é importante, pois é comum os pacientes com TEA relatarem seus pensamentos automáticos como se fossem uma descrição da situação. Possibilidades de intervenções são o baralho dos pensamentos e desenvolvimento de quadro de identificação de pensamentos automático. 5. Prevendo comportamentos dos outros: objetiva antecipar o comportamento das outras pessoas, com base no próprio comportamento do paciente, visando obter a compreensão de que nossos comportamentos geram sentimentos e pensamentos nos outros, o que influenciará no comportamento deles. Essa intervenção se faz relevante, pois pacientes com TEA tendem a ter dificuldades em compreender que o seu comportamento tem um impacto em relação ao outro, sentindo-se confusos diante de uma rejeição, pois costumam ter boas intenções ao se relacionarem com os outros. Para o desenvolvimento desse trabalho pode 6 ser feito mapa social do comportamento, no qual seleciona-se um tema e faz-se o mapa dos comportamentos esperados e outro dos inesperados. 6. Modificando o comportamento – treinamento de habilidades sociais (THS): foco nas seguintes classes e subclasses comportamentais: habilidade de conversação (melhorar o contato visual, modulação da expressão facial, postura corporal, gestos, alternância de turnos nas conversas, distância adequada, iniciar, manter e encerrar conversação, manter foco no assunto, mudança apropriada de assunto, fazer e responder perguntas); habilidade de civilidade; empatia (expressar apoio e solidariedade, oferecer ajuda, renunciar a um interesse em benefício do outro, compreender a importância do perdão); expressão de sentimento positivo; habilidades assertivas de enfrentamento (fazer e recusar pedidos, expressar e discordar de opiniões, solicitar mudança de comportamento, lidar com críticas, lidar com raiva do outro). São estratégias comumente utilizadas: a modelação, inversão de papéis, reforço, feedback (por verbalização ou vídeo), técnicas de relaxamento muscular e de respiração, automonitoramento e autoinstrução. 7. Solução de problemas: diante das alterações em relação às funções executivas, pessoas com diagnóstico de TEA tendem a mostrar-se mais inflexíveis e com dificuldades em pensar de diferentes modos para resolver um problema. Trabalhar, então, a solução de problemas contribuirá para que a criança/adolescente aprenda a manter a calma, quando algo inesperado acontecer, ser flexível e pensar nas diferentes formas de solução. Para tanto, podem ser seguidos os passos da abordagem de solução de problemas estudada anteriormente. 8. Reestruturação cognitiva: etapa essencial do trabalho do terapeuta cognitivo-comportamental, também nos casos de TEA terá como objetivo a modificação de crenças centrais, através da revisão do trabalho já feito, avaliando-se os ganhos e buscando-se trabalhar crenças identificadas ao longo do processo. 9. Propostas complementares: é relevante incluir na sessão um tempo para falar sobre o foco de interesse do paciente. Não utilizar metáforas e expressões idiomáticas e explicar por meio de estímulos visuais, envolver alguém da família e realizar sessões em grupo ou dupla. 7 Devido à variabilidade de comportamentos e características manifestas no espectro autista, não é possível estabelecer a quantidade de sessões para o tratamento ou um plano específico de intervenção. O plano de tratamento deve ser organizado para cada caso e, em geral, costuma durar mais de um ano para ser realizado (Cruz; Nassif, 2013). Em alguns casos, além da intervenção psicoeducacional ou cognitivo- comportamental, é necessária a intervenção farmacológica. Nesta, os medicamentos são utilizados com o objetivo de tratar sintomas comportamentais decorrentes do TEA, não havendo uma medicação específica para o quadro (Schmidt; Bosa, 2011, p.92). Comportamentos passíveis de intervenção medicamentosa são agressividade, comportamento de autolesão, hiperatividade, compulsões, desatenção, estereotipias, entre outros. TEMA 2 – TRANSTORNO DE OPOSIÇÃO DESAFIANTE Transtorno que pertence à categoria diagnóstica de transtornos disruptivos, de controle de impulsos e da conduta, conforme o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 5. ed. (DSM-V) (APA, 2014). A essa categoria pertencem quadros que envolvem problemas de autocontrole de emoções e de comportamentos. Eles diferem de outros quadros também caracterizados por dificuldades de autorregulação devido aos comportamentos neles manifestados violarem os direitos dos outros e os colocarem em conflito significativo com regras, leis e figuras de autoridade (APA, 2014). Além do transtorno de oposição desafiante (TOD), encontram-se também nesta categoria o transtorno explosivo intermitente, transtorno de conduta, transtorno de personalidade antissocial, piromania, cleptomania e outros transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, especificado e não especificado (APA, 2014). Tanto o TOD quantos os demais transtornos pertencentes ao grupo de transtornos disruptivos, de controle de impulsos e da conduta são mais comuns em meninos e tendem a ter seu início na infância e adolescência (APA, 2014). Estudando-se o curso de desenvolvimento destes transtornos, observa-se que, em muitos casos nos quais há o diagnóstico de transtorno de conduta, foram preenchidos critérios para TOD anteriormente, porém isso não quer dizer que todos os casos diagnosticados com TOD irão evoluir para transtorno de conduta. (APA, 2014), mas mostra-se como um fator de risco (Pacheco; Reppold, 2011). O diagnóstico de TOD é um fator de risco também para outros transtornos mentais 8 como transtornos de ansiedade e transtornos depressivos (APA, 2014). Todos os comportamentos apresentados e que se aproximam dos critérios diagnósticos devem ocorrer em frequência e intensidade maiores do que o esperado para o momento do desenvolvimento, e em diferentes contextos (APA, 2014). O TOD, especificamente, é um transtorno caracterizado por padrão frequente e persistente de humor raivoso/irritável, de comportamento questionador e desafiante ou de índole vingativa (APA, 2014). Os comportamentos característicos do quadro podem se limitar a apenas um ambiente ou ocorrer em mais de um local. O mais frequente é que aconteçam em casa e na interação com adultos e pares próximos à criança/adolescente, mas não podem ser exclusivamente direcionados a irmãos (APA, 2014). Esse aspecto referente à familiaridade das pessoas às quais são direcionados com comportamentos típicos do TOD pode dificultar sua avaliação clínica. O número de locais nos quais os comportamentos ocorrem é o medidor da gravidade. Porém, mesmo nos casos considerados mais leves, observa-se prejuízo no funcionamento social. Além dos transtornos de conduta, o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um quadro que comumente tem seu curso concomitante ao TOD (APA, 2014). De acordo com Reis (2017, p.188), os comportamentosdesafiadores podem ser verbais, como gritar, fazer birra, reclamar, insultar, xingar, entre outros; podem ser físicos, como desafiar, ter ataques de fúria, roubar, fugir e perturbar as atividades dos outros; ou podem ser agressivos, como resistir fisicamente a solicitações ou instruções, atirar objetos, destruir propriedade, agredir fisicamente, entre outros. O TOD se mostra mais frequente em crianças e adolescentes advindos de famílias nas quais o cuidado é feito por uma sucessão de cuidadores diferentes, cujas práticas agressivas são comuns, bem como práticas inconsistentes ou negligentes (APA, 2014). Os primeiros sinais deste transtorno surgem durante os anos pré-escolares e raramente após o início da adolescência (APA, 2014). TEMA 3 – TRANSTORNO DA CONDUTA O transtorno de conduta é um padrão de comportamento que viola direitos básicos de outras pessoas ou normas ou regras sociais, categorizados em quatro grupos principais: conduta agressiva que causa ou ameaça causar danos físicos a outras pessoas ou animais; conduta não agressiva que causa perda ou danos à 9 propriedade; falsidade ou furto; e violações graves de regras (APA, 2014, p. 472). As alterações comportamentais causam prejuízos significativos nos âmbitos social e acadêmico e, em geral, estão presentes em mais de um ambiente (APA, 2014). Podem ser identificados três subtipos, que se baseiam na idade de início do transtorno: 1. com início na infância: apresentação de ao menos uma característica antes dos 10 anos de idade; 2. com início na adolescência: não há a apresentação de nenhum sintoma antes dos 10 anos de idade; 3. com início não especificado: quando não há informações suficientes para determinar a idade de início dos sintomas (APA, 2014, p. 470-471). Podem, também, ser classificados de acordo com o nível de gravidade (leve, moderado ou grave) (APA, 2014). Seu início após os 16 anos é raro, e casos iniciados na infância têm maior chance de se tornarem persistentes na vida adulta, além de terem maiores chances de envolverem-se em comportamento criminal e de desenvolver transtornos relacionados ao uso de substâncias (APA, 2014). No período de avaliação inicial de pacientes com hipótese de apresentarem transtorno de conduta, deve-se buscar coletar informações com mais de um informante, mesmo em casos de adolescentes, pois os pacientes tendem a minimizar suas características (APA, 2014). Algumas características de pessoas identificadas com esse transtorno são baixa tolerância a frustrações, irritabilidade, explosões de raiva, desconfiança, insensibilidade a punições, busca de emoções fortes e imprudência (APA, 2014, p. 473). Em crianças e adolescentes com indicativos de transtorno da conduta, do sexo masculino, comportamentos comumente observados são brigas, roubo, vandalismo e problemas de disciplina escolar, ao passo que em meninas com indicativos do mesmo transtorno, são comportamentos comuns o mentir, faltar aula, fugir de casa, usar substâncias e se prostituir (APA, 2014, p. 474). O TDAH e o TOD são frequentemente diagnosticados em crianças e adolescentes com indicativos de transtorno da conduta e, além disso, frequentemente estão abaixo do esperado para a idade e potencial intelectual nas áreas de leitura e escrita levando, também, ao diagnóstico de transtornos específicos de aprendizagem (APA, 2014). 10 TEMA 4 – TRANSTORNO EXPLOSIVO INTERMITENTE Esse transtorno tem início mais frequente no final da infância e começo da adolescência e tem como característica principal explosões de agressividade impulsivas diante de situações vivenciadas subjetivamente, como provocações, que naturalmente não resultariam em explosões agressivas (APA, 2014). Suas características, em geral, são persistentes e perduram por muitos anos, sendo que podem ser manifestadas em episódios marcados por períodos de explosões de agressividade impulsivas recorrentes (APA, 2014). Os comportamentos agressivos são resultado de impulsividade e não de premeditação e estão associados a sofrimento significativo e a prejuízos no funcionamento social (APA, 2014). As explosões iniciam rapidamente e têm curta duração, menos de 30 minutos (APA, 2014). Os episódios podem variar em gravidade, de modo que os mais graves são caracterizados por mais destrutividade e violência e os menos graves caracterizados por comportamentos de violência verbal e/ou física que não causam destruição, danos ou lesões (APA, 2014). O diagnóstico não pode ser feito em crianças menores de 6 anos (APA, 2014) e podem ocorrer em comorbidade com outros transtornos mentais como TDAH, transtorno da conduta, TOD, transtornos depressivos e transtornos de ansiedade (APA, 2014). TEMA 5 – INTERVENÇÕES NOS TRANSTORNOS DISRUPTIVOS, DO CONTROLE DE IMPULSOS E DA CONDUTA Os comportamentos disruptivos trazem prejuízos não somente para a saúde mental do paciente, mas também para o âmbito do custo social, com comportamentos como a evasão escolar ou envolvimento com o sistema de justiça (Pacheco; Reppold, 2011). Seu prognóstico é definido com base em um conjunto de fatores formado pelos comportamentos manifestados, a moderação de variáveis contextuais (práticas familiares, apoio social, história de abuso, entre outros) e disposicionais (como idade, sexo, perfil neuropsicológico, entre outros) (Pacheco; Reppold, 2011, p. 153). Com isso, torna-se evidente a importância da intervenção diante desses quadros diagnósticos, buscando trabalhar não somente com o comportamento apresentado, mas também com as variáveis que o circundam. 11 Conforme as características principais dos quadros descritos acima, que pertencem à categoria diagnóstica de transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, serão discutidas agora as principais estratégias de trabalho para crianças e adolescentes que se enquadram nessa categoria. Como característica comum a esses quadros, encontra-se o comportamento desafiador, em relação ao qual a intervenção se fará importante quando tem ocorrido há muito tempo, quando os pais não estão sabendo lidar com ele, ou se tem ocasionado problemas como recusa da criança ou adolescente em ir para a escola, afastamento das relações familiares ou outras perturbações graves nas esferas de vida do paciente (Reis, 2017). Primeiramente vale ressaltar que decorrentes das alterações fisiológicas, psicológicas e sociais que ocorrem durante o período da adolescência, os jovens tendem a apresentar com maior frequência comportamentos impulsivos, desafiadores, além de desregulação emocional (Macedo; Petersen; Koller, 2017) e, portanto, cabe ao terapeuta cognitivo-comportamental avaliar de forma consistente o caso, bem como as demandas trazidas pelos informantes e pelo próprio cliente, a fim de identificar quais comportamentos poderiam ser indicativos de um transtorno e quais comportamentos fazem parte do desenvolvimento esperado para um adolescente, uma vez que, com muita frequência, pais e professores interpretam comportamentos típicos do desenvolvimento como comportamentos desviantes e encaminham o adolescente para uma avaliação clínica (Pacheco; Reppold, 2011). Para tanto, as etapas de avaliação inicial e conceitualização cognitiva são essenciais. Na avaliação devem ser envolvidas observações, entrevistas e escalas autoaplicáveis, abarcar diferentes informantes, observação do comportamento em diferentes locais e coleta longitudinal de dados (Reis, 2017). Barkley et al. (2016, citado por Reis, 2017, p. 199) apontam algumas perguntas que podem ser feitas e utilizadas como parâmetros a fim de contribuir para a diferenciação entre o que é esperado para a adolescência e o que caracterizaria uma patologia. Algumas dessas perguntas são as seguintes: “O comportamento desafiador do adolescente é muito pior do que o da maioria dos jovens da mesma idade?”, “Essecomportamento está dificultando que o indivíduo funcione conforme o esperado ou existe o risco de provocar sérias consequências para os outros?”, “O comportamento desafiador está causando muita angústia ou dano emocional?”. Durante a avaliação, o terapeuta deve estar atento às tentativas de 12 manipulação ou de mascarar o problema, uma vez que é comum o paciente mostrar comportamentos diferentes, em terapia, do que os relatados pelos informantes (Reis, 2017). Após as etapas iniciais e a identificação dos comportamentos-alvo, é importante que a intervenção contribua para que os pacientes adquiram uma leitura correta acerca da intenção e dos comportamentos das outras pessoas, uma vez que tendem a, principalmente quando há características de agressividade, perceber as intenções dos outros como hostis ou ameaçadoras, mesmo que não o sejam. Com base nisso, os principais modelos de intervenção em terapia cognitivo-comportamental e terapia comportamental enfatizam o papel que essa característica tem para a manutenção de comportamentos disruptivos, bem como a tendência a descrever as pessoas a partir de qualidades concretas e características externas (Burke; Loeber; Birmaher, 2002, citado por Caminha et al., 2011, p. 636), a funcionalidade ambiental dos sintomas disruptivos (Wainer; Wainer, 2011, citados por Caminha et al., 2011, p. 636) e o déficit em habilidades sociais e resolução de problemas (Burke et al., 2002; Wainer; Wainer, 2011, citados por Caminha et al., 2011, p. 636). De acordo com Rocha (2012, citado por Reis, 2017, p. 202), o processo de intervenção deve ter como objetivo o desenvolvimento de comportamentos pró- sociais, como autorrevelação e expressões de arrependimento e de sentimentos positivos. Reis (2017) resume, então, como objetivos principais do tratamento de comportamentos disruptivos, minimizá-los, minimizar as influências dos pares coercitivos, encorajar comportamentos pró-sociais e promover o desenvolvimento de habilidade escolares. Assim como descrito no manual diagnóstico, autores têm destacado a presença de déficits cognitivos específicos, principalmente em funções verbais e executivas, que também podem contribuir para a manutenção dos transtornos (Wainer; Wainer, 2011, citados por Caminha et al., 2011, p. 636) e que podem ser trabalhados a partir de atividades de estimulação e intervenções específicas para isso, como com a neuropsicologia e/ou a fonoaudiologia. Para Caminha et al. (2011), as estratégias mais importantes para trabalho em relação aos transtornos disruptivos, baseadas na TCC, são o automonitoramento, a reestruturação cognitiva de atribuições negativas, o manejo e o controle da raiva e treino em habilidades sociais e de resolução de problemas. A TCC pode se mostrar eficaz também no treinamento de pais (Pacheco; Reppold, 2011), que será estudado de forma mais específica posteriormente. 13 Especificamente sobre o treino de habilidades sociais, ressalta-se, novamente, sua importância diante do trabalho com quadros diagnósticos específicos e comportamentos desviantes do desenvolvimento esperado. No caso dos comportamentos disruptivos e da conduta antissocial, seu aprendizado é acompanhado por déficit nas habilidades sociais e de resolução de problemas, o que contribui para o não pensar nas consequências do comportamento em relação ao outro, trazendo prejuízos para a interação familiar e com pares, bem como para a adaptação social (Pacheco; Reppold, 2011). O trabalho com as habilidades sociais é aplicável, então, com o objetivo de intervir em relação à percepção quanto ao outro, visando mudanças quanto aos diferentes tipos de déficits especialmente em empatia, assertividade, solução de problemas interpessoais e fazer amizades. Um comportamento comum aos quadros pertencentes aos transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, como o próprio nome diz, é a dificuldade em apresentar um controle inibitório satisfatório, agindo em função de recompensas de curto prazo, não conseguindo postergá-las. É um comportamento semelhante ao observado no TDAH, mas acompanhado das condutas desviantes estudadas acima. Devido a isso, é importante trabalhar com o paciente estratégias que permitam o aprendizado em relação às consequências obtidas a curto e longo prazo, tanto negativas quanto positivas, inserindo, para tanto, estratégias como economia de fichas. É importante, também, o trabalho de orientação para familiares e demais pessoas relacionadas à criança ou adolescentes, a fim de permitir que a intervenção em consultório seja generalizada para outros ambientes. É mais indicado o trabalho que abarque múltiplos fatores, como treino de habilidades sociais e acadêmicas com o paciente, orientação para pais e orientação para professores, em detrimento de intervenções que atuem sobre aspectos específicos (Burke et al., 2002, citado por Caminha et al., 2011, p.636- 637). Porém, quando se opta por tratamentos isolados, a intervenção junto aos pais é mais efetiva do que para professores (Caminha et al., 2011). Casos que tenham comorbidades com TDAH devem receber atenção especial, pois tendem a ser mais refratários e menos responsivos ao tratamento (Caminha et al., 2011). Durante o processo terapêutico, o terapeuta deve ter em mente que os comportamentos disruptivos de seu cliente são reforçados por ganhos obtidos por sua apresentação, bem como pela inconsistência de regras e limites, os quais 14 eventualmente eles conseguem desviar. Diante disso, é essencial que também na terapia sejam previstas regras claras e combinadas com o paciente já desde o início do processo, evitando-se, sempre, a intermitência em seu cumprimento. Beauchaine et al. (2005, citados por Caminha et al., 2011, p. 638) realizaram importante estudo de identificação de fatores preditivos, mediadores e moderadores de resposta terapêutica que apontou como principais fatores preditivos de falta de resposta ao tratamento, a psicopatologia dos cuidadores, baixa satisfação da relação conjugal dos cuidadores, quantidade de estresse familiar diário e comorbidade com transtornos de ansiedade, depressivos e de uso de substâncias. Por outro lado, nesse mesmo estudo, foram apontados como principais fatores mediadores de boa resposta ao tratamento, a mudança efetiva de práticas parentais e baixa resistência ao tratamento por parte dos pais (Caminha et al., 2011). Na adolescência, os jovens tendem a buscar se inserir em grupos, o que muitas vezes não se mostra como uma tarefa fácil, principalmente para aqueles que já apresentam alguma dificuldade, em algum grau, em relação às habilidades sociais. Em alguns casos, o agrupamento resulta na formação de vínculos negativos que influenciam no envolvimento em comportamentos delinquentes e uso de drogas, o que, unido a outros fatores, como maior autonomia, menos supervisão e envolvimento parental e características individuais, contribui para o agravamento ou desenvolvimento de comportamento antissocial (Pacheco; Reppold, 2011). Diante disso, atendimentos em grupo de crianças ou adolescentes que tenham somente queixas de comportamentos disruptivos tendem a não ser produtivos, pois tendem a estimular o “treino antissocial”, com o fortalecimento de líderes antissociais, aumento de comportamentos agressivos e reforço de comportamento desviante (Rocha, 2009, citado por Reis, 2017, p. 203). Para trabalho grupal, o mais efetivo seria a composição de grupos mistos, nos quais participem pacientes com comportamentos disruptivos e pacientes com outras demandas, como ansiedade ou depressão, podendo, assim, estimular a ampliação da rede social e o desenvolvimento de relacionamentos pró-sociais (Reis, 2017). Por fim, destaca-se a importância de que comportamentos disruptivos, nos diferentes quadros anteriormente estudados, devem ser identificados e passíveisde intervenção o mais precocemente possível. Esse aspecto é essencial, pois, quando esses comportamentos atingem níveis patológicos e evoluem da infância 15 para a adolescência, pouca melhora é observada ao longo do tempo (Reis, 2017). Os quadros pertencentes à categoria diagnóstica de transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta são então quadros de difícil resposta à intervenção e com prognóstico preservado, sendo extremamente importante que a psicoeducação em relação a suas características e evolução seja feita com pessoas que convivem com crianças e adolescentes com esses comportamentos, buscando um ambiente com regras o mais consistentes possível, favorecendo assim a mudança comportamental máxima para cada caso, bem como a compreensão dos familiares do importante papel que exercem na vida da criança/adolescente. Reis (2017) aponta para os resultados pobres obtidos no trabalho com adolescentes com transtorno de conduta, com início precoce, sendo que ainda não foram observadas melhoras estatisticamente relevantes nestes casos. 16 REFERÊNCIAS AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Tradução de Nascimento, M. I. C. et al. 5. ed. 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