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Psicologia e Análise do Comportamento:Psicologia e Análise do Comportamento:
PSICOLOGIA E ANÁLISE
DO COMPORTAMENTO:
Conceituações e Aplicações à Educação, Organizações, Saúde e Clínica
PSICO
LO
GIA
 E A
N
Á
LISE D
O
 CO
M
PO
RTA
M
EN
TO
Verônica Bender Haydu | Silvia Aparecida Fornazari | Célio Roberto Estanislau
Verônica Bender Haydu | Silvia Aparecida Fornazari | Célio Roberto Estanislau
Nádina Aparecida Moreno
Berenice Quinzani Jordão
Reitora
Vice-Reitora
Comissão CientífiCa
Os capítulos desta obra foram avaliados e receberam pareceres ad hoc 
dos seguintes membros da comissão científica:
Prof. Dr. Alexandre Dittrich
Prof. Dr. Alex Eduardo Gallo
Profª. Dr ª Edneia Perez Hayashi
Profª. Ms. Elen Gongora Moreira
Profª. Dr ª Eliza Dieko Oshiro Tanaka
Prof. Dr. Elizeu Borloti
Prof. Dr. Elizeu Coutinho de Macedo
Profª. Dr ª Elsa Maria Mendes Pessoa Pullin
Prof. Dr. João Juliani
Profª. Dr ª Josiane Cecília Luzia
Profª. Dr ª Josy de Souza Moriyama
Prof. Dr. Kester Carrara
Profª. Dr ª Maria Rita Zoéga Soares
Profª. Dr ª Maura Alves Nunes Gongora 
Profª. Dr ª Rosana Aparecida Salvador Rossit
Profª. Dr ª Silvia Cristiane Murari
Profª. Dr ª Silvia Regina de Souza Arrabal Gil
Profª. Dr ª Solange Maria Beggiato Mezzaroba
Profª. Dr ª Verônica Bender Haydu 
Prof. Dr. Wagner Rogério da Silva
Psicologia e Análise do Comportamento:
Capa
Ivan Inagaki Aristides 
Editoração Eletrônica
Humanidades Comunicação Geral
Impressão e Acabamento
Midiograf
500 exemplares
Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos
Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
O conteúdo do texto é de responsabilidade de seus autores.
 P974 Psicologia e análise do comportamento : conceituações e aplicações 
à educação, organizações, saúde e clínica / Verônica Bender 
Haydu, Silvia Aparecida Fornazari, Célio Roberto Estanislau 
(organizadores). – Londrina : UEL, 2014.
 568 p. : il.
 Vários autores.
 Inclui bibliografia.
 ISBN 978-85-7846-267-3
1. Psicologia. 2. Comportamento – Análise. 3. Psicologia 
educacional. 4. Psicologia clínica da saúde. I. Haydu, Verônica Bender. 
II. Fornazari, Silvia Aparecida. III. Estanislau, Célio Roberto. 
CDU 159.9.019.43 
 9
13
29
41
61
91
115
sumário
apresentação ...............................................................................
seção 1 - Conceituações, teoria e modelos
Crítica à neutralidade científica e suas consequências para a prática 
científica em psicologia .........................................................................
Carolina Laurenti
O comportamento como dimensão biológica dos organismos
Amauri Gouveia Junior
Uma discussão sobre a concepção de ciência no livro Science and 
Human Behavior ...................................................................................
Carlos Eduardo Lopes
História Comportamental: definições e experimentação ......................
Carlos Eduardo Costa; Paulo Guerra Soares
Modelos animais de ansiedade: o labirinto em cruz elevado e a 
microestrutura do comportamento de limpeza ....................................
Célio Estanislau, Naiara Fernanda Costa; Paula Daniele Ferraresi; Heloisa 
Maria Cotta Pires de Carvalho
seção 2 - educação e organizações
Análise do comportamento aplicada às pessoas com necessidades 
educacionais especiais: programa de capacitação para profissionais da 
saúde .....................................................................................................
Silvia Aparecida Fornazari; Raquel Akemi Hamada; Carolina Martins Rizardi; 
Francislaine Flâmia Inácio; Maria Beatriz Carvalho Devides; Marina Rodrigues 
Salviati; Marcio Francisco Dias
137
151
177
199
223
247
267
289
Ansiedade e atitudes relacionadas à disciplina matemática em 
estudantes do ensino fundamental: implicações de um instrumento 
de avaliação ...........................................................................................
Alessandra Campanini Mendes; João dos Santos Carmo
Produção de sentenças: uma contribuição da análise do 
comportamento .....................................................................................
Grauben José Alves de Assis; Diogo Rodrigues Corrêa; Suzana Ferreira Barbosa
O modelo da equivalência de estímulos na forma de jogos educativos 
para o ensino leitura e escrita em contexto coletivo .............................
Verônica Bender Haydu
Psicologia e educação: contribuições do behaviorismo e do cognitivismo 
para a ação docente ...............................................................................
Katya Luciane de Oliveira; Elsa Maria Mendes Pessoa Pullin; Sueli Édi Rufini
Pedagogia construtivista para condicionar o comportamento dos 
alunos? pontos de aproximação e afastamento entre duas correntes 
psicológicas ...........................................................................................
Paulo Sérgio Teixeira Prado; Márcia Josefina Beffa; Thais Pondaco Gonsales
Desafios organizacionais: a utilização do modelo de gestão por 
competências .........................................................................................
Nicole Calsavara Tomazella; Valéria Roncon; Vilma Pimenta Cirilo Munhê
seção 3 - saúde
Uso de medidas diretas e indiretas para avaliação de problemas de 
comportamento em crianças com dermatite atópica ...........................
Robson Zazula; Mariana Salvadori Sartor; Natália Guimarães Dias; Márcia 
Cristina Caserta Gon 
Câncer de mama e distúrbios de sono: análise de produção científica ..
Maria Rita Zoéga Soares; Renatha El Rafihi Ferreira; Tayana Fleury Orlandini; 
Leilah Sant’Ana Sabião
305
321
337
359
379
393
413
433
Psicobiologia do sono e processos de alerta, aprendizagem, memória e 
emoção ...................................................................................................
Maria Laura Nogueira Pires; Raquel de Oliveira Luiz; Guilherme Bracarense 
Filgueiras; Renatha El Rafihi Ferreira; Ana Amélia Benedito-Silva; Célio 
Estanislau
A primeira experiência com álcool entre adolescentes escolares: 
quando, onde começa e alguns fatores associados ...................................
Maria Laura Nogueira Pires; Aline Figueiredo Nunes; Laís Stocco Zancanaro; 
Guilherme Augusto Campesato; Jair Izaías Kappann
Fatores neurobiológicos da dislexia do desenvolvimento ......................
Magda Solange Vanzo Pestun
Problemas de sono no autismo: um estudo exploratório .......................
Maria Laura Nogueira Pires; Márcia Pradella-Hallinan; André Luiz Damião de 
Paula
seção 4 - Clínica
a psicoterapia comportamental dialética (dbt) e sua inclusão nas 
psicoterapias comportmantais da terceira onda ...........................
Yara Kuperstein Ingberman
Terapia analítico-comportamental: a análise funcional como indicativo 
de eficácia para diferentes contextos clínicos.........................................
Bruna de Moraes Aguiar; Cristina Tiemi Okamoto
Hipóteses de relações funcionais: um estudo de caso ............................
Juliana Accioly Gavazzoni; Olivia Justen Brandenburg
Pacientes portadores de esquizofrenia e terapia da aceitacão e do 
compromisso: o uso da desfusão como ferramenta clinica .....................
Vinicius Reis de Siqueira
Treinamento em entrevista clínica inicial: avaliação preliminar dos 
resultados ...............................................................................................
Annie Wielewicki; Mariana de Toledo Chagas; Renata Grossi
Supervisão para terapia comportamental .............................................
Luc Vandenberghe
Avaliação e estratégias comportamentais para o tratamento dos 
problemas de sono em crianças ..............................................................
Renatha El Rafihi Ferreira; Maria Rita Zoéga Soares; Caroline Batista Vilela; 
Mariana Fernandes Moschioni; Maria Laura Nogueira Pires
As amarras da terapia: esquiva emocional e estratégias alternativas debloqueio ..................................................................................................
Josy de Souza Moriyama; Kellen Escaraboto Fernandes; Nicole Calsavara 
Tomazella
Suporte comportamental positivo e treino em comunicação funcional 
no tratamento de comportamentos-problema .......................................
Ana Carolina Sella 
449
477
497
517
543
9
apresentação
Este livro é uma coletânea de capítulos em que são apresentados 
estudos científicos teóricos/conceituais e aplicados que foram 
apresentados em conferências, mesas redondas e simpósios durante 
o I Congresso de Psicologia e Análise do Comportamento (I CPAC), 
o IV Encontro Paranaense de Análise do Comportamento (IV EPAC) 
e o I Encontro Brasileiro de Estudos sobre as Psicoterapias Analítico 
Comportamentais da Terceira Onda (I EBEPAC-3ª O). Na Seção 1, estão 
os capítulos teóricos/conceituais em que são feitas análises críticas e 
estudos epistemológicos, revisões da literatura, e descrição de modelos 
experimentais em Psicologia, os quais fundamentam a ação do psicólogo 
e do analista do comportamento em suas intervenções e estudos. Na 
Seção 2, são apresentados estudos voltados para a Educação e a área 
Organizacional, contendo a descrição de programas de intervenção, 
modelos e métodos de ensino e estudos empíricos que visam avaliar as 
contribuições da Psicologia e da Análise do Comportamento a essas áreas 
de atuação do psicólogo. Na Seção 3, são descritos estudos que mostram 
as possibilidades de atuação do psicólogo em questões de saúde que vão 
desde problemas de sono, uso de bebidas alcoólicas, dislexia, dermatite e 
câncer. Na Seção 4, são descritos e avaliados métodos de intervenção na 
clínica psicológica, análises de comportamentos relevantes no contexto 
clínico e o treinamento de estudantes de Psicologia para atuarem nesse 
tipo de contexto.
A coletânea reuniu autores de diversas regiões do Brasil, a maioria 
está ligada a instituições de Ensino Superior, nas quais atuam como 
docentes, pesquisadores e orientadores de pós-graduação. Uma parte dos 
autores é de profissionais que atuam no mercado de trabalho oferecendo 
serviços que são fundamentados nas teorias psicológicas e científicas, 
conforme mostram os estudos por eles descritos nos capítulos desta obra.
Verônica Bender Haydu
Psicologia e Análise do Comportamento:
13
Crítica à neutralidade científica e suas consequências 
para a prática científica em psicologia
Carolina Laurenti1
Universidade Estadual de Maringá.
O modelo de ciência moderna foi considerado ao longo de ao menos 
três séculos (XVII, XVIII e XIX) o paradigma dominante de conhecimento 
científico (Köche, 2002; Santos, 1987/2004). Boa parte dos projetos 
de Psicologia científica nasceu à luz da ciência moderna, herdando, por 
conseguinte, o compromisso com alguns pressupostos basilares desse 
modelo de ciência (Figueiredo, 2003). Um dos preceitos do paradigma 
científico moderno consiste na noção de neutralidade científica – a ideia 
de que a ciência, mediante a adoção de métodos e técnicas especializados, 
é capaz de produzir conhecimento objetivo, isento da interferência de 
qualquer tipo de valor particular, sejam eles pessoais, sociais, econômicos 
ou políticos. 
Considerando esses aspectos, este texto pretende examinar 
basicamente dois pontos. O primeiro deles consiste em apresentar 
algumas críticas tecidas pela filosofia da ciência contemporânea ao 
modelo moderno de ciência, mais especificamente, aquelas que atingem 
o preceito de neutralidade científica. O segundo ponto insere essa 
discussão no terreno psicológico, extraindo algumas consequências da 
crítica contemporânea à neutralidade do cientista para a prática científica 
em Psicologia.
O texto segue apresentando algumas características gerais da 
idea de neutralidade científica, que servirão como pano de fundo para a 
descrição de algumas objeções endereçadas a ela e aos seus conceitos 
correlatos. Por fim, serão discutidos alguns desdobramentos desse debate 
para as pretensões científicas do conhecimento psicológico.
1 Endereço para correspondência: Rua Vereador Nelson Abrão, 2025. Zona 05. Cep. 87015-230. 
Maringá, PR. E-mail: laurenticarol@gmail.com
14
Psicologia e Análise do Comportamento:
a busca pela neutralidade científica na ciência moderna
A teoria dos ídolos de Francis Bacon (1561-1626) parece ser o 
epítome da busca da neutralidade na ciência moderna. Nessa teoria, 
Bacon (1620/1979) especifica algumas condições prévias para a produção 
de conhecimento científico. Uma delas consiste em uma purificação dos 
fatores (ídolos) que obstruirão o alcance das formas – leis universais 
que especificam relações de necessidade e suficiência causal entre os 
elementos da natureza. São quatro ídolos: da tribo, da caverna, do foro 
e do teatro. Os ídolos da tribo dizem respeito às deficiências oriundas da 
própria constituição humana. Trata-se da ideia de que os sentidos e as 
percepções, sem o devido tratamento, conduzem a ilusões e à falsidade, 
e de que sentimentos e afetos podem corromper o acesso à verdade (cf. 
Bacon, 1620/1979, pp. 21, 25-26). Os ídolos da caverna restituem os 
erros provenientes das idiossincrasias do homem, fruto da história de 
vida do indivíduo, das suas relações interpessoais, de sua personalidade 
e da educação recebida (cf. Bacon, pp. 21-22, 26-28). Já os ídolos do foro 
dão relevo às falhas decorrentes das imprecisões da linguagem, como 
o emprego de conceitos e palavras ambíguos, ou de termos que não 
correspondam a coisas (ficções) (cf. Bacon, pp. 22, 28-30). Por fim, os 
ídolos do teatro são erros decorrentes de sistemas filosóficos ou teorias que 
são empregados de maneira acrítica obedecendo, não raro, ao princípio de 
autoridade (cf. Bacon, pp. 22-23, 30-37).
A teoria baconiana dos ídolos sugere, então, que sentimentos, 
afetos, percepções, personalidade, valores, e teorias “contaminam” 
a constituição do conhecimento verdadeiro. Esse, por sua vez, só é 
alcançado por aqueles capazes de se livrar dessas fontes de erro, tornando-
se, metaforicamente, tão puros quanto uma criança: “o intelecto deve 
ser liberado e expurgado de todos eles [ídolos], de tal modo que o acesso 
ao reino do homem, que repousa sobre as ciências, possa parecer-se ao 
acesso ao reino dos céus, ao qual não se permite entrar senão sob a figura 
de criança” (Bacon, 1620/1979, p. 38, grifos do autor). Livre, portanto, 
das distorções da realidade (ídolos), o pesquisador poderia dedicar-se 
15
Psicologia e Análise do Comportamento:
metódica, sistemática e exaustivamente à observação dos fenômenos da 
natureza (Bacon, 1620/1979; Köche, 2002). 
Esse processo de purificação dos pré-conceitos na produção de 
conhecimento científico subscreve as clássicas dicotomias entre fatos e 
valores, e entre fatos e teorias típicas da ciência moderna. No caso da 
distinção radical entre fatos e valores, o modelo científico moderno entende 
que os fatos encerram descrições causais entre eventos observáveis, cujo 
caráter inexoravelmente ordenado pode fundamentar o conhecimento 
legítimo. Já os valores incorporam emoções e sentimentos; e por serem 
pessoais, relativos e irregulares não podem alicerçar o conhecimento 
verdadeiro. Essa desqualificação dos valores, anunciada desde Bacon, 
esteve presente em Copérnico e Newton, e foi atualizada pelo programa 
positivista lógico de ciência, que não outorgou aos valores significado 
cognitivo (Mariconda, 2006). Com efeito, as questões de fato (objetivas) 
foram reservadas à ciência; e as de valor (subjetivas) aos campos da ética, 
política, estética, religião e senso comum. 
No caso da dicotomia entre fatos e teorias, os primeiros são 
vistos como sólidos e imutáveis, e, por isso, são os árbitros decisivos de 
disputas teóricas, “o último tribunal de recursos” (Kuhn, 2006, p. 135). 
As teorias, diferente dos fatos, são fluidas e mutáveis, pois são calcadas 
na interpretação de pesquisadores individuais. A interpretação, por ser 
um processohumano, difere de pessoa para pessoa. Nessa ótica, dois 
observadores muito bem equipados fariam as mesmas observações, e 
possíveis discordâncias residiriam somente nas eventuais diferenças de 
suas convicções teóricas. Em outras palavras, se os fatos não mudam, 
as diferentes descrições dos fatos devem-se unicamente às “diferentes 
interpretações daquilo que é visto igualmente por observadores normais” 
(Hanson, 1975, p. 130, grifos do autor). Em suma, para a ciência moderna 
os fatos são o fundamento das teorias, pois são “puros”; já as diferenças 
entre os fatos se manifestam apenas na atividade de interpretação, que 
impinge teorias distintas a essa plataforma arquimediana (os fatos). 
Sendo a ciência capaz de descobrir fatos sólidos isentos de qualquer 
compromisso com uma forma de valor particular, o conhecimento 
científico é, pois, objetivo. Objetividade, aqui, pode ser entendida como 
16
Psicologia e Análise do Comportamento:
sinônimo de neutralidade. A objetividade, por seu turno, é a garantia de 
acesso à verdade, isto é, a uma representação fiel do objeto conhecido, 
posto que livre das perturbações do intelecto humano. Desse modo, 
a produção de conhecimento no modelo científico moderno segue o 
itinerário da neutralidade, objetividade e verdade. Nessa ótica, a ciência 
é considerada a única forma de produção humana capaz de receber, com 
justiça, a designação de conhecimento. Sendo “contaminadas” por valores, 
as outras formas de compreensão da realidade são passíveis de falsidade, 
e, portanto, sequer são merecedoras de serem tratadas como formas 
de conhecimento. No limite, recebem a alcunha de opinião. O cientista 
moderno pensava, então, ter descoberto o caminho do conhecimento 
certo e verdadeiro. E “esse caminho era o da ciência” (Köche, 2002, p. 58). 
A ciência moderna inaugura o cientificismo – o dogmatismo moderno –, 
que consiste na crença de que o único conhecimento válido é o científico, 
não admitindo outras formas de se atingir o saber senão aquelas 
consagradas pelos cânones do método científico.
Críticas à noção de neutralidade científica
A despeito do sucesso de suas aplicações teóricas e práticas, o 
modelo de ciência moderna tem sofrido ácidas críticas, advindas da 
própria ciência (Earman, 1986; Mayr, 2004/2005; Prigogine, 2003), e 
também da história, filosofia e sociologia das ciências (Bourdieu, 1983; 
Kuhn, 2006; Santos, 1987/2004). Um dos alvos de crítica é, justamente, 
a noção de neutralidade científica e de seus correlatos, como a dicotomia 
entre fatos e valores (ou fatos e teorias), bem como sua postura dogmática 
cientificista. 
Diferente da visão de ciência moderna, que entende os fatos como 
sendo acessíveis e indubitáveis para qualquer observador bem equipado, 
Kuhn (2006) critica a demarcação rígida entre fatos e teorias. Defende 
que os fatos da ciência não são sólidos, mas fluidos, já que dependem 
das crenças e teorias existentes: “produzi-los [os fatos] exigia uma 
aparelhagem, ela própria dependente de teoria, na maioria das vezes 
17
Psicologia e Análise do Comportamento:
dependente da teoria que os experimentos iriam, supostamente, testar” 
(Kuhn, 2006, p. 136). Kuhn também impugna o itinerário empirista 
que advoga a prioridade dos fatos em relação às teorias – primeiro tem-
se os fatos, e depois, as teorias, que estão assentadas em fatos. Longe 
dessa concepção tradicional de ciência, a própria demarcação dos fatos 
já está circunscrita em uma teoria. Assim, fatos e teorias são construídos 
concomitantemente: as teorias moldam a descrição dos fatos ao mesmo 
tempo em que os fatos moldam as teorias deles extraídas.
Considerando essa relação de interdependência, a delimitação 
dos fatos e das teorias é produto de um processo de negociação do qual 
participam fatores biográficos, sociais, políticos, bem como processos 
advindos da observação da natureza (Kuhn, 2006). Hanson (1975) 
complementa: “elas [observação científica e a interpretação] não podem, 
em princípio, separar-se e seria conceitualmente inútil tentar a cisão. A 
observação e a interpretação vivem uma vida de simbiose mútua, de modo 
que cada uma sustenta a outra, conceitualmente falando, e a separação 
redunda em morte de ambas” (p. 138). 
Com efeito, diferente da teoria dos ídolos baconiana, a discussão 
científica contemporânea sugere que as teorias são inerentes à delimitação 
dos fatos das ciências. Isso significa que ao processo de produção de 
conhecimento científico cumpre explicitar essa participação e como ela 
afeta o delineamento dos fatos, ao invés de se voltar para sua aniquilação, 
como parece propor Bacon (1620/1979). 
Embora tenha sinalizado um abandono gradativo do princípio de 
autoridade da escolástica, sendo responsável pelo próprio surgimento 
do campo da ciência natural (Mariconda, 2006), a distinção absoluta 
entre fato e valor já não apresenta mais esse caráter progressista. O 
abismo entre o conhecimento produzido por cientistas e o conhecimento 
produzido pelo homem comum, que salvaguardava a neutralidade do 
próprio empreendimento científico, não parece mais se sustentar. Isso 
porque há um circuito de retroalimentação entre ciência e sociedade: 
“o desenvolvimento social e a aplicação da ciência determinam, em 
considerável medida, o posterior desenvolvimento conceitual interno da 
18
Psicologia e Análise do Comportamento:
ciência” (Marcuse, 1966/2009, p. 161). O trecho que segue esclarece esse 
ponto:
A ciência está hoje em uma posição de poder que traduz quase 
imediatamente avanços puramente científicos em armas políticas 
e militares de uso global e eficiente. O fato de que a organização 
e o controle de populações inteiras, tanto na paz quanto na guerra, 
tornou-se, em sentido estrito, um controle e organização científicos 
(dos aparelhos domésticos técnicos mais comuns até os mais 
sofisticados métodos de formação da opinião pública, da publicidade 
e da propaganda) une inexoravelmente a pesquisa e os experimentos 
científicos com os poderes e planos do establishment econômico, 
político e militar. Consequentemente, não existem dois mundos: o 
mundo da ciência e o mundo da política (e sua ética), o reino da teoria 
pura e o reino da prática impura – existe apenas um mundo no qual 
a ciência, a política e a ética, a teoria e a prática estão inerentemente 
ligadas. (Marcuse, 1966/2009, p. 160)
Nessa perspectiva, dizer que a intenção do pesquisador é pura, 
que é motivado simplesmente pela curiosidade; que ao trabalhar em 
seu gabinete ou laboratório não pode antever se suas descobertas terão 
efeito benéfico ou destrutivo para a sociedade, e que, em última análise, a 
aplicação de seus achados será feita por técnicos com o aval de políticos, 
não justifica a neutralidade e a irresponsabilidade do cientista perante 
as consequências sociais da ciência (Marcuse, 1966/2009). Desse modo, 
a questão da responsabilidade social da ciência e dos cientistas passa a 
ser vista como algo inseparável da própria atividade científica. Mais uma 
vez, a teoria baconiana dos ídolos é colocada em xeque, pois essas críticas 
sugerem que aspectos políticos e econômicos participam, ativamente, do 
processo de constituição do conhecimento científico. Por conseguinte, 
a ciência não pode mais ser um conhecimento desinteressado – 
desinteressado pelos interesses políticos e econômicos que se utilizam do 
conhecimento científico (Morin, 1990/2008).
A distinção rígida entre fatos e valores, e fatos e teorias da ciência 
moderna não escapa a mais uma crítica. Bourdieu (1983) dá visibilidade 
à disputa de interesses não apenas políticos e econômicos no interior da 
ciência, mas também aos interesses pessoais de cientistas e grupos de 
19
Psicologia e Análise do Comportamento:
cientistas particulares. Bourdieu vê a ciência como um campo, que pode 
ser entendido como um sistema de relações objetivas entre posições 
adquiridas por pesquisadores que concorrem pelo monopólio de uma 
espécie particular de capital simbólico: a autoridade científica– o poder 
de impor os critérios que definem o que é e o que não é científico. A 
autoridade ou competência científica consiste na capacidade técnica e no 
poder social de agir e falar em nome da ciência. Esse tipo de autoridade é 
atribuído a um dado pesquisador ou grupo de pesquisadores não apenas 
pela sua competência técnica, mas também em função de sua posição 
atual no campo, de sua origem social e capital cultural e simbólico herdado 
e acumulado ao longo de sua trajetória de vida acadêmica. Além disso, o 
próprio Bourdieu (1983) destaca que a avaliação da capacidade técnica é 
influenciada pelos títulos escolares, distinções e rituais de consagração 
científica.
Em função desses fatores, a distribuição do capital científico 
no interior do campo não é igualitária, a ponto de poder inscrever os 
praticantes da ciência em dois pólos: dominantes e dominados (Bourdieu, 
1983). Os dominantes, que detêm o capital científico, procuram preservá-
lo por meio de estratégias de conservação, com vistas a perpetuar a ordem 
científica com a qual compactuam. Em outro extremo encontram-se os 
dominados, os que não detêm o capital, mas que, por meio de estratégias 
de subversão, lutam para alcançá-lo. Por meio de um “golpe de estado”, os 
dominados procuram acumular capital científico desviando em proveito 
próprio o crédito que outrora beneficiava os antigos dominantes. Aqui, 
acumular capital é fazer um nome conhecido e reconhecido, que destaca seu 
portador de um fundo indiferenciado, no qual se perde o homem comum. 
É pelo confronto entre dominantes e dominados ou entre ortodoxias e 
heterodoxias que vão se definindo os contornos e os limites de um dado 
campo científico, bem como se explicam parte das transformações que 
ocorrem nas teorias, nos objetos e nos métodos (Bourdieu, 1983). 
Essa distribuição desigual da autoridade científica explica, por 
um lado, a tendência dos pesquisadores em se concentrar em torno dos 
problemas de pesquisa mais prestigiosos. E, por outro, ajuda a elucidar o 
fluxo de migração de pesquisadores para objetos que, mesmo sendo menos 
20
Psicologia e Análise do Comportamento:
prestigiosos, têm a vantagem de atrair um menor número de adeptos. 
Isso pode acarretar um nível de competição mais fraco e, justamente por 
isso, maiores possibilidades de reconhecimento (Bourdieu, 1983). 
A descrição da ciência como um campo no qual participam disputas 
pela autoridade científica desmorona o mundo puro da ciência e da 
infalibilidade de seus produtos. Por outro lado, faz ressurgir a ciência 
como uma prática social atravessada por interesses nem sempre explícitos, 
por posições em luta que, em última análise, vão dando os contornos 
e os limites do universo científico. As análises de Bourdieu (1983) do 
campo científico mostram que, diferente da teoria dos ídolos baconiana, 
idiossincrasias, desejos humanos por reconhecimento e poder interferem 
no processo de tomada de decisão da ciência.
Em suma, a filosofia da ciência contemporânea faz objeções 
severas à noção de neutralidade do pensamento científico moderno. A 
teoria dos ídolos baconiana é colocada em dúvida quando se explicita a 
participação de sentimentos, afetos, interesses particulares, aspectos 
sociais, econômicos e políticos no processo de produção de conhecimento 
científico. 
A crítica à neutralidade científica pode encorajar uma concepção 
que decreta o fim da ciência, instalando o relativismo e o obscurantismo. 
O argumento parece ser o seguinte: para que um dado conhecimento 
seja classificado como científico, o seu processo de produção deve estar 
assentado na neutralidade do cientista. Como essa neutralidade foi 
impugnada pelas críticas de natureza epistemológica e sociológica, 
a possibilidade do próprio empreendimento científico foi colocada 
em suspeita. Enfim, se o conhecimento não puder ser objetivo (isto é, 
neutro), então, não pode ser científico. Não obstante, as objeções à 
idea de neutralidade científica não implicam necessariamente nessa 
ilação. Declarar o fim da ciência com base na impossibilidade de se 
cumprir o preceito da neutralidade subscreve uma relação entre ciência e 
neutralidade passível de desidentificação. 
A filosofia da ciência contemporânea parece investir na possibilidade 
de um empreendimento científico cuja objetividade não é mais pautada

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