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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ARQUITETURA E URBANISMO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA Espaços verdes em Oslo, Noruega e Rio de Janeiro, Brasil: a relevância socioambiental do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista para a paisagem urbana da cidade contemporânea Niterói 2022 CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA ESPAÇOS VERDES EM OSLO, NORUEGA E RIO DE JANEIRO, BRASIL: A RELEVÂNCIA SOCIOAMBIENTAL DO PARQUE FROGNER E DA QUINTA DA BOA VISTA PARA A PAISAGEM URBANA DA CIDADE CONTEMPORÂNEA Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, como requisito para obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Linha de Pesquisa: Espaço construído, sustentabilidade e ambiente. ORIENTADORA: PROF.ª DR.ª ELOÍSA CARVALHO DE ARAÚJO NITERÓI 2022 CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA ESPAÇOS VERDES EM OSLO, NORUEGA E RIO DE JANEIRO, BRASIL: A RELEVÂNCIA SOCIOAMBIENTAL DO PARQUE FROGNER E DA QUINTA DA BOA VISTA PARA A PAISAGEM URBANA DA CIDADE CONTEMPORÂNEA Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, como requisito para obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Linha de Pesquisa: Espaço construído, sustentabilidade e ambiente. Aprovada em 24 de maio de 2022. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao universo, por me oferecer um determinado tempo de vida neste planeta, vivenciando e conhecendo tantas pessoas e lugares significativos. Agradeço a minha mãe, pelo exemplo de ser humano que ela é, pelo suporte, pela relação de amizade e as histórias que a cada dia construímos juntas. Também sou muito grata aos meus amigos que me possibilitam enxergar o mundo por outras perspectivas, dando significado ao incompreensível. Agradeço a minha professora orientadora, por ter topado embarcar nesta pesquisa, por sua experiência e por me auxiliar a traduzir as minhas inquietações sobre a natureza urbana em palavras, conceitos e teorias. Agradeço aos membros da banca, pelo aceite e disponibilidade em participar dessa etapa tão importante no meu percurso do mestrado acadêmico. Minha gratidão a Glaiane Quinteiro Campos, pela revisão criteriosa das normas ABNT desta dissertação. Um muito obrigada também para meu pai e meus demais familiares, pelo apoio desde sempre. Manifesto minha gratidão a todas as instituições de fomento à pesquisa que investiram no meu progresso pessoal e profissional, por meio da concessão de bolsas de estudo, como a International Summer School, Universitetet i Oslo (Noruega) e a CAPES -Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Brasil). Também sou grata a todos os meus professores nas escolas por onde passei, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, na Universidade de Oslo e na Universidade Federal Fluminense, que de alguma forma me ajudaram a chegar até o momento presente. “A vida atravessa tudo, atravessa uma pedra, a camada de ozônio, geleiras. A vida vai dos oceanos para a terra firme, atravessa de norte a sul, como uma brisa, em todas as direções. A vida é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão imaterial. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem uma definição”. (Ailton Krenak, 2020, p. 15). RESUMO Natureza é um conceito chave para se pensar nas dinâmicas socioespaciais da contemporaneidade, tendo em vista que tudo o que existe no mundo se constitui como pertencente a ela, inclusive as cidades. As transformações espaciais ocorridas ao longo dos séculos, culminando na expansão da lógica urbana pós Revolução Industrial, trouxe um novo cenário socioambiental, acarretando em desafios no contexto do bem-estar urbano e da resiliência das cidades da atualidade. A partir desse raciocino, a presente pesquisa abordará o panorama dos espaços verdes no contexto de planejamento urbano e ambiental de duas cidades distintas: Oslo, localizada na Noruega e Rio de Janeiro, no Brasil, dentro de um recorte temporal do final do século XIX até o atual século XXI. A questão central diz respeito a investigar como os aspectos socioambientais presentes especificamente no Parque Frogner (OSL) e na Quinta da Boa Vista (RJ) interferem e se inserem no bem-estar urbano das respectivas cidades. Para tanto, o caminho metodológico foi pautado em três categorias analíticas, a fim de proporcionar uma maior imersão investigativa na realidade dos fenômenos estudados: 1- Sociabilidade, 2- Sustentabilidade e 3- Gestão. A análise da temática da natureza urbana se pautou nos campos disciplinares da geografia cultural e arquitetura e urbanismo para investigar os aspectos socioambientais dos parques. A investigação buscou analisar as conexões entre o campo teórico do urbanismo ecológico e das cidades biofílicas e os contextos urbanos de Oslo e do Rio de Janeiro. A partir da análise qualitativa, os dois parques públicos foram considerados por meio da pesquisa bibliográfica acerca dos seus históricos de formação, além de entrevistas e análise de diferentes fontes investigadas em conjunto, visando compreender como as atividades realizadas nos dois contextos empíricos, bem como os conjuntos de ações que os preservam são experiências espaciais permeadas de significados relevantes para a compreensão das dinâmicas socioambientais da cidade contemporânea. Ao final, espera-se contribuir para uma maior conscientização acerca do papel dos parques urbanos e públicos como espaços multifuncionais de sociabilidade e sustentabilidade, além de inspirar outros estudos sobre a natureza urbana nas cidades, bem como trazer novas perspectivas com relação às possibilidades criadas pelos espaços verdes para um planejamento urbano e ambiental mais holístico neste século XXI. Palavras-chave: Parques públicos; natureza urbana; espaços verdes; paisagem urbana ABSTRACT Nature is a key concept to think about the socio-spatial dynamics of contemporaneity, considering that everything that exists in the world belongs to it, including cities. The spatial transformations that have taken place over the centuries, culminating in the expansion of the post-Industrial Revolution urban logic, brought a new socio-environmental scenario, resulting in challenges in the context of urban well-being and the resilience of today's cities. Therefore, the present research will approach the panorama of green spaces in the context of urban and environmental planning of two different cities: Oslo, located in Norway and Rio de Janeiro, in Brazil, within a time frame from the end of the 19th century until the current 21st century. The central question concerns the investigation of how the socio-environmental aspects located specifically in Parque Frogner (OSL) and Quinta da Boa Vista (RJ) interfere in the urban well-being of these respective cities. Hence, the methodological pathway of this research was based on three analytical categories, in order to provide a greater investigative immersion in the reality of the phenomena studied: 1) Sociability, aiming to understand how the activities carried out in the two empirical contexts are spatial experiences permeated with relevant meanings for the understanding of the socioenvironmental dynamics of the contemporary city; 2) Sustainability, seeking to analyse the potential for connectivity between these parks and other green spaces in their cities, in addition to understanding the sets of actions that preserve them; 3) Management, with the objective of identifyinghow these parks are managed by their municipalities and how the image of urban nature is conveyed in official media discourses. The analysis was based on the study area of cultural geography and urbanism on the theme of urban nature, to investigate the socio-environmental aspects of the parks. The investigation sought to analyse the connections between the theoretical field of ecological urbanism and biophilic cities and the urban contexts of Oslo and Rio de Janeiro. From the qualitative analysis, the two public parks were considered through bibliographic research about their histories, in addition to interviews and analysis of different sources investigated together. In the end, it is expected to contribute to a greater awareness of the role of urban and public parks as multifunctional spaces of sociability and sustainability, in addition to inspiring other studies on urban nature in cities, as well as bringing new perspectives regarding the possibilities created by green spaces for more holistic urban and environmental planning in this 21st century. Keywords: Public parks; urban nature; sociability; green spaces, urban landscape Sumário INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 16 OBJETIVOS DA PESQUISA ........................................................................................................... 21 ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS ................................................................................................... 22 CAPÍTULO 1: CAMINHO METODOLÓGICO .................................................................................. 23 ETAPAS DA PESQUISA ................................................................................................................. 27 ENTREVISTAS ................................................................................................................................ 29 CAPÍTULO 2- A INTERDISCIPLINARIDADE DAS RELAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS ............. 31 2.1 ARQUITETURA DA PAISAGEM E ESPAÇO URBANO: ALGUMAS DINÂMICAS E ATORES ........................................................................................................................................... 33 2.2 UMA COMPREENSÃO GEOGRÁFICA DA ECOLOGIA NO SÉCULO XX ........................ 42 2.3 ABRINDO ESPAÇO PARA A NATUREZA NA CIDADE CONTEMPORÂNEA ................. 48 2.3.1 Natureza urbana .................................................................................................................... 54 2.3.2 Cidades biofílicas: o lugar da natureza urbana no imaginário urbano emergente ................ 62 CAPÍTULO 3: UMA VISÃO SOCIOCULTURAL DA NATUREZA URBANA EM OSLO, NORUEGA E RIO DE JANEIRO, BRASIL ........................................................................................ 68 3.1 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DE OSLO ............................................. 69 3.2 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DO RIO DE JANEIRO, BRASIL ....... 82 3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO E A IMAGEM DA NATUREZA URBANA EM OSLO E NO RIO DE JANEIRO ...................................................................................................... 94 CAPÍTULO 4: CONTEXTOS EMPÍRICOS – A CONTEMPORANEIDADE DO PARQUE PÚBLICO ............................................................................................................................................ 107 4.1 PARQUE FROGNER ................................................................................................................ 107 4.1.1 A paisagem e as vivências .................................................................................................. 116 4.1.2 Aspectos da gestão ............................................................................................................. 122 4.2 QUINTA DA BOA VISTA ....................................................................................................... 126 4.2.1 Um jardim e muitas histórias ............................................................................................. 137 4.2.2 Aspectos da gestão ............................................................................................................. 148 4.3 A RELEVÂNCIA DOS DOIS PARQUES NO AMBIENTE URBANO CONTEMPORÂNEO ......................................................................................................................................................... 152 4.3.1 Abordagens da sustentabilidade e gerenciamento dos parques .......................................... 159 4.3.2 Natureza urbana e bem-estar .............................................................................................. 169 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................................. 174 OBRAS CITADAS ............................................................................................................................. 180 OBRAS CONSULTADAS ................................................................................................................. 187 ANEXOS............................................................................................................................................. 190 ANEXO 1: MODELO DOS EIXOS TEMÁTICOS UTILIZADOS NAS ENTREVISTAS COM FREQUENTADORES DOS PARQUES ........................................................................................ 190 ANEXO 2: SÍNTESE DAS RESPOSTAS DAS ENTREVISTAS COM 8 FREQUENTADORES DO PARQUE FROGNER .............................................................................................................. 191 ANEXO 3: TRANSCRIÇÃO, COM TRADUÇÃO LIVRE EM PORTUGUÊS, DA ENTREVISTA REALIZADA COM A URBANISTA NORUEGUESA ELLEN DE VIBE, EM 2020 ................. 195 ANEXO 4: SÍNTESE DAS RESPOSTAS DAS ENTREVISTAS COM 8 FREQUENTADORES DA QUINTA DA BOA VISTA ...................................................................................................... 197 ANEXO 5: TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA REALIZADA EM 2022, COM A EX FUNCIONÁRIA DA PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, JEANNE ALMEIDA DA TRINDADE .................................................................................................................................... 201 ANEXO 6: NOTA DA FUNDAÇÃO PARQUES E JARDINS NA ÍNTEGRA, SOBRE O VAZAMENTO DE ÓLEO NOS LAGOS EM 2020 ...................................................................... 204 Lista de figuras Figura 1: Desdobramento dos componentes de análise e das categorias utilizadas..................24 Figura 2: Extensão do alcance da pesquisa. .............................................................................25 Figura 3: Vista aérea do Central Park atual, Civitatis- Nova Iorque........................................35 Figura 4: Mapa atual do Emerald Necklace- Boston EUA......................................................36 Figura 5: Esquema das cidades-jardins desenhado por Ebenezer Howard em 1902................38 Figura6:RamsayGarden............................................................................................................40 Figura 7: Práticas urbanas aliadas a ecologia urbana e ao pensamento sistêmico....................54 Figura 8: Red Ribbon Park, Qinhuangdao , China. .................................................................58 Figura 9: Mulher admirando as flores no Red Ribbon Park, Qinhuangdao -China..................58 Figura 10: Drenagem urbana sustentável e cobertura vegetal no Cheonggyecheon, Seul.......60 Figura 11: Festival das lanternas no Cheonggyecheon, Seul. .................................................60 Figura 12: Parque ambiental Professor Mello Barreto, Barra da Tijuca-RJ ............................61 Figura 13: Vegetação no Parque ambiental Professor Mello Barreto- Barra daTijuca-RJ. ....61 Figura 14: Exemplos de biofilia na cidade do Rio de Janeiro e Niterói- Brasil. .....................66 Figura 15: Exemplos de biofilia (verão-2019) em Oslo, na Noruega.......................................67 Figura16:Slottsparken ..............................................................................................................73 Figura 17: Mapeamento da Oslomarka realizado pela Associação Norueguesa de Turismo (Den Norske Turistforening- DNT)..........................................................................................80 Figura 18: Nordmarka e lago Sognsvann................................................................................. 80 Figura 19: Jardim botânico do Rio de Janeiro. ........................................................................84 Figura 20: Mapa Turístico da Floresta da Tijuca, distribuído no Centro de Visitantes do Parque........................................................................................................................................89 Figura 21: Floresta da Tijuca....................................................................................................89 Figura 22: Divulgação do programa Adote.Rio....................................................................... 92 Figura 23: O azul, o verde e a cidade no meio- mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE- IT Oslo......................................................................................................................................98 Figura 24: Park life- mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-IT Oslo. .........................99 Figura 25: Revistinha do Zé Carioca e Cartaz do filme Rio (2011).......................................101 Figura 26: Grafite sobre a Floresta da Tijuca- Gloye............................................................ 104 Figura 27: Parque Vigeland....................................................................................................108 Figura 28: Mapeamento da área de cobertura vegetal em Oslo com destaque em vermelho para os bairros de Frogner e Sentrum.................................................................................... 109 Figura 29: Localização do Parque Frogner no contexto do bairro e áreas vizinhas. .............110 Figura 30: Identificação dos mosaicos internos do Parque Frogner, destacado em laranja...110 Figura 31: O Parque Frogner no inverno. ..............................................................................111 Figura 32: O parque Frogner no verão. ..................................................................................112 Figura 33: Mapa de localização e Entrada lateral do Parque. ................................................112 Figura 34: Entrada da piscina pública Frognerbadet. ………................................................113 Figura 35: Norwegian Wood Festival. ..................................................................................113 Figura 36: Gramado e o Museu da cidade (Bymuseet) ao fundo...........................................114 Figura 37: Cafeteria. ..............................................................................................................115 Figura 38: Texto aos fundos da cafeteria do Parque, sobre os grupos étnicos presentes em Oslo. ......................................................................................................................................115 Figura 39: Aspectos da vegetação do Parque Frogner. ..........................................................117 Figura 40: O parque durante o outono....................................................................................120 Figura 41: Família realizando um piquenique no gramado e homem passeando com cachorro - Parque Frogner. ......................................................................................................................121 Figura 42: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 1,. ...............................................124 Figura 43: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 2. ................................................125 Figura 44: A transição para do outono no Frognerparken. ....................................................125 Figura 45 : Passeios na Quinta da Boa Vista (1911).. ...........................................................127 Figura 46: Lago da Quinta da Boa Vista e rochas construídas utilizando a técnica do roccaille...................................................................................................................................128 Figura 47: Projeto para os jardins da Quinta da Boa Vista atribuído à Glaziou. ...................128 Figura 48: Vista aérea da Quinta da Boa Vista-......................................................................129 Figura 49: Piquenique na Quinta da Boa Vista...................................................................... 133 Figura 50: Museu Nacional antes do incêndio........................................................................133 Figura 51: Jardim Burle Marx. ...............................................................................................135 Figura 52: Entrada do Bio Parque do Rio. .............................................................................135 Figura 53: Visitação escolar ao Bio Parque................................ ...........................................135 Figura 54: Mosaicos espaciais da Quinta da Boa Vista. ........................................................136 Figura 55: Quinta da Boa Vista. .............................................................................................137 Figura 56: Lago da Quinta da Boa Vista. ...............................................................................139 Figura 57: Entrada principal da Quinta da Boa Vista............................................................ 139 Figura 58: Caminhos da Quinta da Boa Vista. ......................................................................142 Figura 59: Lago- Quinta da Boa Vista. .................................................................................143 Figura 60: Bioparque na Quinta da Boa Vista. ......................................................................144 Figura 61: Bioparque do Rio sobre o Rolé carioca na Quinta da Boa Vista. ........................145 Figura 62: Propaganda da visitação a Quinta da Boa Vista. ..................................................146 Figura 63: Postagem após o encontro presencial na Quinta Da Boa Vista-...........................147 Figura 64: Feira vegana Veg Borá, realizada na Quinta da Boa Vista. .................................147 Figura 65: A gestão da imagem da Quinta da Boa Vista no perfil turístico da cidade...........150 Figura 66: Apartheid verde.....................................................................................................154 Figura 67: Esquema sobre a relação entre os objetivos específicos e os questionamentos da pesquisa...................................................................................................................................156 Figura 68: Foto dos Desgastes no gramado da Quinta da Boa Vista......................................164 Figura 69: Evelangs Frognerelven, evento cultural de música e dança ao longo rio, com alunos das escolas Majorstuen, Skøyen e Uranienborg..........................................................167 Figura 70: Castor nadando no seu novo habitat, o Rio Frogner.............................................167 Figura 71: Nuvem de palavras sobre o Parque Frogner..........................................................170 Figura 72: Nuvem de palavras sobre a Quinta da Boa Vista..................................................171 Tabelas e Quadros Tabela 1: Autores clássicos considerados no referencial teórico da pesquisa.........................28 Tabela 2: Bases de dados e informações obtidas. ....................................................................29 Tabela 3: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana emOslo......................................................................................................................................79 Tabela 4: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana noRiodeJaneiro......................................................................................................................... 94 Tabela 5: Panorama das respostas obtidas por diferentes fontes de pesquisa sobre a sociabilidade, sustentabilidade e gestão do Parque Frogner (OSL) e da Quinta da Boa Vista .................................................................................................................................................157 Tabela 6: Aspectos da sustentabilidade nos contextos empíricos da pesquisa. .................................................................................................................................................161 Lista de Siglas AMASC- Associação de Moradores e Amigos de São Cristóvão C.E- Comissão Europeia CONLURB- Companhia Municipal de Limpeza Urbana DNT- Den Norske Turistforening- Associação Norueguesa de Turismo FPJ- Fundação Parques e Jardins IBEU- Índice de Bem-Estar Urbano IBGE -Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPHAN- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ISS- International Summer School JBRJ- Jardim Botânico do Rio de Janeiro MAM- Museu de Arte Moderna MMA Ministério do Meio Ambiente MMA-Ministério do Meio Ambiente NIMA-Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente OMS- Organização Mundial da Saúde ONU - Organização das Nações Unidas (UN - United Nations) OSL- Oslo PDA- Plano diretor de arborização PDDU- Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano PDM- Plano diretor municipal PUC-Rio- Pontifícia Universidade Católica do Rio de janeiro RJ - Rio de Janeiro SBN- Soluções baseadas na natureza SMAC- Secretária de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro SNL- Store norske leksikon- Grande Enciclopédia Norueguesa UFF- Universidade Federal Fluninense UFRJ- Universidade Federal Do Rio de Janeiro UiO- Universitetet i Oslo UNESCO- Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (The United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) WHO- World Health Organization ZEE- Zoneamento ecológico econômico 16 INTRODUÇÃO “O conhecimento é o que nos liberta: o conhecimento é o que nos permite sair mesmo nas situações mais desafiadoras” (BÍSSO, 2021, informação verbal)1. Esta afirmação, em palestra pública e online, proferida pela pesquisadora Beatriz Bísso, nos faz refletir acerca do lugar do conhecimento na nossa sociedade e sobre o quão importante é aprender e dialogar com indivíduos tanto de diferentes campos do saber, quanto de culturas distintas. O ato de conhecer e refletir criticamente através do recurso da razão, é o que nos faz humanos e usar esse conhecimento para a promoção de uma vida mais plena e próspera é uma questão ética. De acordo com Paulo Freire (1996, p. 18), a criatividade existe em conjunto com a curiosidade, e é ela que nos “põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos”. Por isso, a curiosidade que impulsiona o conhecimento é capaz de nos fazer enxergar a nossa realidade, tendo a potencialidade de trazer soluções e novos desafios para questões inerentes ao período histórico no qual estamos inseridos. Neste contexto, no ano de 2016, ingressei no estágio voluntário no NIMA (Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da PUC-Rio), no qual pude trabalhar em conjunto com alunos e professores para reformular a Agenda Ambiental da universidade, no quesito de espaços de convivência e mobilidade dentro do campus2. No ano de 2018, obtive o grau de bacharelado em Geografia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde defendi a pesquisa sobre a morfologia e a simbologia do Campo de São Bento, um parque urbano localizado em Niterói-RJ. A pesquisa versou sobre a identidade deste parque como um lugar significativo da cidade, levando em consideração conceitos como lugar e espaço público, bem como sua importância histórica para o bairro de Icaraí. Além disso, por meio de entrevistas e trabalhos de campo, foi possível desenhar três croquis simbólicos com informações sobre o Campo de São Bento, com o intuito de divulgação do conhecimento acadêmico para a sociedade3. Neste sentido, conhecer e aprender mais sobre esse espaço verde me fez perceber ainda mais a relevância da natureza urbana para as cidades, num momento no qual a expansão urbana, por vezes, tende a substituir esses locais por construções padronizadas no concreto. 1 Bandung e os não alinhados: Palestra proferida pela professora Beatriz Bíssio (UFRJ) no curso de Atualização em estudos asiáticos da coordenadoria de Estudos da Ásia da UFF/UFPE. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mjtJYbUFVeg>. Acesso em: 13 maio 2021. 2 O campus da PUC-Rio, na Gávea, é reconhecido por sua intensa cobertura vegetal da Mata Atlântica, oferecendo espaços verdes, como o bosque, à comunidade acadêmica, que usufrui para relaxar, estudar e conversar com colegas, sendo um importante espaço social na rotina acadêmica. 3 Para mais informações consulte: https://clarathegeographer28.wordpress.com/campo-de-sao-bento-croquis/. 17 Logo um ano depois, eu tive a oportunidade de participar do curso de verão sobre Energia, Meio Ambiente e Mudança Social, oferecido pela International Summer School da Universidade de Oslo, na Noruega. Em conjunto com outros estudantes de países e campos de estudo distintos, dialogamos sobre as relações entre o ser humano e a natureza, sobre técnicas para um consumo energético mais eficiente e sobre infraestrutura verde e azul nas cidades pelo mundo. No contexto específico norueguês, viajamos em trabalho de campo por diversas regiões do país (cidades e vilarejos nas duas grandes áreas geográficas: Vestlandet e Østlandet), para conhecer um pouco mais sobre o passado e a contemporaneidade das políticas públicas e do desenvolvimento da Noruega. Porém, o principal questionamento que baseava os nossos debates, era justamente o desenvolvimento, sendo algo visto de maneiras diferentes de acordo com cada país ali representado. Apesar de estarmos em um curso em conjunto, numa realidade global que se pressupunha cada vez mais padronizada por relações capitalistas e rígidas, as especificidades sociais, culturais, econômicas e ambientais se sobrepunham, mostrando suas influências nas práticas urbanas. Tendo esses debates como base, ao retornar ao Brasil, me interessei por conhecer as dinâmicas socioespaciais na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente no que tange aos espaços verdes urbanos. Dessa forma, fiz minha inscrição no mestrado da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, pois pensei que o diálogo com professores e demais colegas seria de grande relevância para a minha reflexão sobre as questões socioambientais pelo víeis da prática urbana (tendo em vista que Arquitetura e Urbanismo está no campo das Ciências Sociais Aplicadas). Eu penso que o mestrado me possibilitou enxergar o espaço urbano por uma outra perspectiva, com relação a práxis das dinâmicas de planejamento urbano e ambiental, o que complementa a ótica geográfica mais teórica (minha formação original). Neste sentido, o caso particular da Quinta da Boa Vista, me chamou a atenção, devido a sua mudança estrutural e social nobairro de São Cristóvão, ao longo dos séculos XIX-XX. Por exemplo, o século XIX foi o momento da estruturação do Brasil como nação, no qual ocorreram profundas transformações para atender à família real e as novas demandas sociais. No período, o Rio de Janeiro passou por uma reestruturação para desempenhar suas novas funções simbólicas e administrativas e a área onde se localiza a Quinta era essencialmente relacionada à aristocracia (MACEDO; SAKATA, 2002). Já no século XX, o espaço do bairro de São Cristóvão se tornou o local da classe operária e os jardins da Quinta da Boa Vista se adequaram à função de parque público, sendo um importante espaço verde no meio urbano. 18 Em paralelo, inspirada pelas experiências na Noruega, acredito que investigar sobre o processo de urbanização da cidade de Oslo, nos séculos XIX- XX, em especial sobre o bairro Frogner, onde se situa o Parque Frogner, como parte de um histórico de políticas públicas que se propunham a integrar os espaços verdes à paisagem urbana no século XX, seja relevante para uma análise paralela à realidade socioespacial do contexto carioca. Na Noruega, esse recorte temporal também é importante por causa do advento do romantismo e dos movimentos nacionalistas. Foi um período no qual o país estava em processo de libertação da união com a Dinamarca (1814) e, posteriormente, a Suécia (1905). Neste sentido, as florestas e os parques urbanos passaram a simbolizar o pertencimento social da nação que se formava. Tanto os intelectuais, quanto a classe operária enxergavam os espaços verdes como parte da identidade nacional norueguesa (SYSE, 2016, p. 47). De acordo com Brøgger (2016), o Frogner é um parque único na Noruega. Ele não somente está conectado à história do bairro de mesmo nome, remontando às origens agrárias medievais até o seu posterior desenvolvimento como propriedade burguesa, mas também está intimamente ligado à história social de Oslo e às ideias do século XX de planejamento urbano, paisagismo, sociabilidade e cultura popular (BRØGGER, 2016, p. 71). Ainda de acordo com este autor, o parque possui bastante biodiversidade e este é o principal fator pelo qual esse espaço verde é relevante, particularmente, para ele (BRØGGER, 2016, p. 71). As origens do parque Frogner e da Quinta da Boa Vista são distintas; na qual o primeiro foi projetado nos anos de 1920, e não exerceu a função de residência da realeza, e o segundo teve suas áreas ajardinadas em 1869 e era a residência da família imperial. Porém, ambos possuem um valor paisagístico relacionado ao processo de formação da identidade nacional. Além disso, tanto a Quinta da Boa Vista, quanto o parque Frogner passaram por mudanças funcionais e organizacionais, dentro de uma perspectiva do sistema urbano, que permitiram a um maior acesso da população aos espaços verdes no século XX. Os dois parques se localizam em bairros com diferentes tipos de integração via transporte público, e oferecem um lugar de sociabilidade em suas respectivas cidades. Os dois parques possuem uma forma artística distinta, pois foram pensados sob contextos diferentes. A área onde se ocupa a Quinta da Boa Vista era parte de uma fazenda dos jesuítas, sendo posteriormente passada para proprietários privados. Antes da família real chegar ao Brasil, havia no local apenas um casarão do qual se tinha uma vista para a Baía de Guanabara. Apenas em 1868, já como posse da família imperial, os jardins da Quinta da Boa Vista, foram projetados à mando de D. Pedro II por Auguste François-Marie Glaziou, feitos 19 com a técnica dos rocailles, vinda da França e típica dos jardins paisagísticos do século XVIII ao XIX. Nela, eram usados materiais de construção que pretendiam imitar os elementos da natureza, como as rochas (TRINDADE, 2014, p. 63). É interessante observar que Glaziou realizou uma intensa pesquisa botânica sobre as espécies nativas brasileiras, a fim de utilizá-las nos jardins que estava em processo de construir. Esse fato tem a potencialidade de exercer influência para a área da Quinta da Boa Vista até a contemporaneidade, no que diz respeito à biodiversidade presente no parque. Além disso, Glaziou tinha a intenção de projetar uma outra natureza4 no espaço dos jardins, de modo a promover o deleite da família imperial. No romantismo brasileiro, essa natureza tropical recriada e idealizada, significava os ideais nacionais, onde a força motriz da nação em processo de libertação eram as suas riquezas naturais. Durante o reinado de D. Pedro II, a área total do parque manteve-se praticamente inalterada. Entretanto, com a chegada do século XX, o perímetro de extensão foi-se reduzindo, pois partes do terreno foram sendo cedidas ao governo republicano para outros fins (FERREIRA; MARTINS, 2000). O alargamento da via férrea e a abertura de rodovias fazem parte dessas modificações, o que foi progressivamente descaracterizando a morfologia que o parque possuía durante o império de D. Pedro II, principalmente na parte sul do parque, no qual foi aberta a via férrea, e na parte norte, desde o portão monumental da alameda até o portão que dá para o largo da Cancela. Estas intervenções deixaram uma boa parte da área original de fora dos limites morfológicos atuais (FERREIRA; MARTINS, 2000). De outro ponto, o Parque Frogner era uma área agricultável durante a Idade Média, na qual o nome Frogner, significava fértil, se referindo a fertilidade da terra para as plantações. Com o advento da burguesia nos séculos XVIII-XIX, o local onde hoje se situa o parque também foi uma mansão agrícola, que pertencia a um proprietário particular. Em 1896, a prefeitura comprou a propriedade no contexto de expansão urbana da cidade, e em 1900 foi implementado um parque público para as pessoas. Em 1924, o escultor norueguês Gustav Vigeland projetou o seu próprio espaço em formato neoclássico dentro do parque, e em 1930 o local ficou conhecido como “parque Vigeland”, composto por suas esculturas com figuras humanas expressando diversos sentimentos e que se conectam aos movimentos nacionalistas da Noruega5. As ideias de Vigeland foram intensamente criticadas por intelectuais e 4 Simbólica. 5 A escultura era uma forma artística valorizada para constituir as bases culturais da nação norueguesa em formação. 20 planejadores urbanos da época, como Marius Røhne, chefe encarregado de planejar as áreas verdes da cidade de 1916 até 1948 (JØRGENSEN, 2018). Cabe observar que para Røhne, o parque Frogner não deveria ser gerenciado sob uma perspectiva individualista e fragmentada, como previa Gustav Vigeland. Marius Røhne acreditava que aquele era um lugar na cidade para a garantia da conexão entre a área das florestas e dos parques urbanos a partir de um sistema de corredores verdes integrados. Sob sua liderança, o planejamento urbano e ambiental da cidade gradualmente assumiu uma abordagem mais sistemática, no qual ele se preocupou com Oslo como um todo: desenvolveu áreas de parque nas partes leste e mais pobres, ao longo do rio Akerselva, transformando a cidade em um lugar onde o planejamento possibilitava os espaços verdes para o público dentro e ao redor das áreas residenciais, sem distinção de classes sociais. Essa ‘cultura de parques’, pretendia nutrir o sentimento de que as pessoas eram pertencentes à paisagem urbana e dessa forma também cuidassem da natureza local (JØRGENSEN, 1997). Sendo assim, foram retiradas todas as cercas ao redor das áreas verdes, mantendo um alto padrão de manutenção (JØRGENSEN, 1997). Atualmente, o parque Frogner é o maior espaço verde nas partes centrais de Oslo e possui uma popular área de lazer para a população, contando com inúmeros locais para a caminhada e práticas esportivas, além de um museu. Além disso, o parque, assim como a Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, se localiza próximo a um importante estádio de Futebole a vias de transporte público integradas como metrôs e pontos de ônibus. Outra característica em comum entre os dois parques diz respeito a proximidade com as florestas urbanas presentes nas duas cidades: enquanto o parque Frogner está geograficamente em conexão com a Oslomarka, a Quinta da Boa Vista também se encontra em proximidade com a Floresta da Tijuca. Esse fator é potencialmente benéfico para possíveis integrações futuras no planejamento urbano dos espaços verdes nas duas cidades. 21 OBJETIVOS DA PESQUISA Diante do exposto acima, durante as etapas de pesquisa, investiguei como a natureza urbana, em especial os dois contextos empíricos aqui abordados, são áreas relevantes para a rede urbana, possibilitando novas interpretações para o cotidiano de ambas as realidades urbanas estudadas. O objetivo geral da pesquisa diz respeito a investigar como os aspectos socioambientais presentes no Parque Frogner e na Quinta da Boa Vista interferem no bem-estar de suas respectivas cidades. A pesquisa engloba cinco objetivos específicos, que pretendem promover uma imersão profunda, através da pesquisa bibliográfica acerca dos contextos empíricos, entrevistas e análise de diferentes fontes que possam ser interpoladas: 1. Realizar um levantamento bibliográfico sobre a temática socioambiental e as políticas dos espaços verdes nas cidades estudadas (recorte temporal séculos XIX- XXI); 2. Analisar como os dois parques se integram à paisagem urbana na concepção da sustentabilidade; 3. Investigar o papel dos dois parques como espaços de sociabilidade, promovendo o acesso à natureza urbana; 4. Verificar como a atual gestão administra esses espaços e contribui (ou não) para seu aprimoramento; 5. Avaliar a potencialidade dos parques na promoção do bem-estar na cidade de Oslo e no Rio de Janeiro. Nesta pesquisa, a abordagem do bem-estar urbano considera: • Os aspectos multifuncionais dos parques; • Atividades sociais realizadas dentro dos parques; • Acesso à natureza urbana. • Biodiversidade da fauna e flora; • Conectividade a outros espaços verdes na rede urbana. 22 ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS Dentro deste quadro reflexivo, o capítulo 1 pretende demonstrar a metodologia utilizada durante as etapas investigativas, trazendo informações sobre a extensão do alcance da pesquisa, os esquemas argumentativos, as relações de semelhança e dissemelhança entre os casos, bem como os instrumentos utilizados para a análise dos dois contextos empíricos. Neste capítulo também serão apresentadas as bases de dados (abordagem perceptiva, reflexiva, acadêmica e institucional) acessadas para coleta bibliográfica e imagética. Além disso, serão apresentados os eixos temáticos utilizados com os entrevistados com relação ao contexto norueguês e brasileiro, bem como o perfil dos relatos obtidos. Para explicar e delimitar a visão de mundo à qual dá suporte à investigação aqui realizada, no capítulo 2, foram discutidos os questionamentos mais gerais, relacionados a natureza e a cidade, abordando as concepções dos jardins e parques públicos dentro da perspectiva dos debates ecológicos, num recorte histórico que pretende situar o leitor com relação ao desenvolvimento de uma natureza urbana, influenciando o planejamento urbano e ambiental contemporâneo. O capítulo 3 aborda o espaço urbano de Oslo e do Rio de Janeiro, apresentando o cenário socioespacial dessas duas cidades e os principais processos de planejamento de espaços verdes que impactaram os dois parques urbanos aqui analisados, dos séculos XIX ao XXI. Além disso, foi considerada também a forma pela qual a natureza se insere na paisagem urbana. Neste capítulo, foram investigados os aspectos socioculturais relacionados à morfologia e ao histórico de formação dos parques e florestas no imaginário coletivo, bem como a atual imagem da natureza urbana propagada pela mídia e pelos órgãos de gestão dessas duas realidades urbanas. Outro ponto destacado nesse capítulo, diz respeito às justificativas dessa pesquisa acadêmica, identificando os fatores que me fizeram iniciar no mestrado e as minhas inquietações sobre Oslo e o Rio de Janeiro. O capítulo 4 corresponde a análise dos contextos empíricos do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista. Neste capítulo as entrevistas, no formato de relatos, foram apresentadas e examinadas, bem como as demais fontes de pesquisa que contribuem para revelar a importância dos parques públicos como ambientes relevantes de natureza urbana para as cidades contemporâneas. A partir das três categorias de análise 1) sustentabilidade, 2) sociabilidade e 3) gestão, se buscou contemplar os vários aspectos que tornam os contextos empíricos espaços socioambientais essenciais sob a perspectiva do bem-estar e da biofilia. 23 CAPÍTULO 1: CAMINHO METODOLÓGICO Segundo Cardano (2017), a pergunta a partir da qual se move o estudo sugere o contexto empírico no qual se admite poder obter uma resposta pertinente. Ele diz que o contexto empírico é o lugar no qual o observador (pesquisador) pode fazer a experiência mais coerente com os objetivos da pesquisa (CARDANO, 2017, p. 65-66). Esse lugar não é o objeto da pesquisa, mas sim toda a comunidade interpretativa da qual o pesquisador faz parte, somado ao objeto de pesquisa que trará novas perspectivas ao questionamento da investigação, a partir de um referencial teórico. Dentro da temática cidade e natureza urbana, o objeto de estudo parque urbano possibilita uma análise em profundidade por meio dos contextos empíricos: Parque Frogner e Quinta da Boa Vista. A pesquisa aqui realizada é qualitativa e explicativa, pretendendo descrever a complexidade dos casos concretos e explicar o porquê dos fenômenos e dos processos, sugerindo algum tipo de ação propositiva, onde pode-se adquirir conhecimento a partir da exploração intensa de um único ou mais casos (contextos). De acordo com Mason (2002), nesse tipo de exploração científica a análise holística também se faz necessária, pois ela considera a unidade social estudada como um todo, com o objetivo de compreende-los em seus próprios termos. Além disso, a autora enfatiza que a pesquisa qualitativa deve produzir explicações ou argumentos indo além da mera descrição dos fatos estudados (MASON, 2002, p. 7). Para tanto, como pressuposto teórico metodológico, os dois parques urbanos aqui estudados, ilustram formas de experiência com a natureza urbana dentro de duas cidades distintas. Nesta pesquisa, ambos os termos natureza urbana e espaços verdes são usados para designar as áreas com presença de espécies vegetais num contexto urbano. Ao longo dos procedimentos investigativos, pretende-se destacar como justamente esses locais são multifuncionais, representando espaços que participam das dinâmicas socioambientais na paisagem urbana. A seleção dos recortes geográficos, Oslo e Rio de Janeiro, seguiu quatro critérios de seleção: densidade populacional, histórico sociocultural, elementos climáticos e geográficos; e políticas de planejamento urbano e ambiental. Esses critérios correspondem justamente às principais diferenças entre os dois contextos escolhidos. Optou-se por trabalhar com o que Cardano (2017) chama de comparação dos casos mais distantes. A hipótese da pesquisa é a de que os dois parques são unidos por uma sólida imagem na narrativa urbana, mas são separados por profundas diferenças relativas aos contextos 24 socioculturais, econômicos e ambientais onde estão inseridos. A passagem da pergunta de partida a partir da qual se move a pesquisa em direção ao contexto empírico é mediada por uma escolha estratégica, que se refere aos estudos de caso escolhidos para a pesquisa. Tanto o Parque Frogner, em Oslo, quanto a Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, tem a potencialidade de fornecer respostaseloquentes à questão principal, procurando chegar ao alcance da pesquisa: de que forma os parques são relevantes em diferentes contextos urbanos? O embasamento teórico da pesquisa e a sustentação empírica utilizada foi o que Cardano chamou a Teoria da Argumentação, com a qual é possível construir uma moldura teórica, sustentando a legitimidade dos resultados de pesquisa. Analisar os dois parques a partir de componentes de análise verificativa como a sociabilidade, a sustentabilidade e a gestão, conectam a extensão da pesquisa aos objetivos geral e específicos estipulados, averiguando suas conexões às temáticas das cidades biofílicas e do urbanismo ecológico. Dessa maneira, a investigação demostra seu desdobramento, seguindo uma dupla trajetória dedutiva e indutiva, na qual a representatividade dos estudos de caso é dada pela possibilidade de explorar um problema de pesquisa em aprofundamento pelo objeto em questão (GOLDENBERG, 2004). Figura 1: Desdobramento dos componentes de análise e das categorias utilizadas. Fonte: Elaborado pela autora. 25 Estes aspectos foram trabalhados no capítulo 4, onde o parque é visto como uma unidade de síntese. Através da pesquisa teórica e conceitual, os dois parques foram abordados, sendo analisados de forma crítica, buscando refletir e dialogar com os demais objetivos específicos da pesquisa. A análise das entrevistas também entrou nesta seção. Nestes capítulos, o caminho metodológico utilizado até então, fornece uma ampla base teórica- conceitual, fomentando dados para o universo compreendido pela investigação. Os instrumentos de análise foram adaptados, também em função do atual contexto de pandemia global (no qual as entrevistas e demais pesquisas foram realizadas de maneira virtual, por recursos de comunicação via internet). Neste contexto, o parque atua como meio e como fim, onde foram apresentadas as características dos contextos empíricos, que foram determinantes para sua escolha, além de deixar claro os limites e dificuldades da pesquisa. O caminho metodológico aqui proposto não intenta generalizar dados que se baseiem em análises de determinados casos particulares, mas sim entender qual é a extensão do alcance da pesquisa, num movimento do geral para o particular e do particular para o geral. Figura 2: Extensão do alcance da pesquisa. Fonte: Elaborado pela autora. 26 Dessa maneira, os dois contextos empíricos aqui analisados são casos exemplares para revelar a cultura e os aspectos socioambientais dos locais onde eles se situam. O potencial comparativo desses casos mais distantes, perpassa a hipótese que guia o trabalho: apesar de estarem em realidades urbanas distintas, existe uma certa semelhança na importância socioambiental deles para os seus contextos urbanos. Eles possuem uma sólida imagem na narrativa urbana. Dessa forma, a hipótese depende da relação que ocorre entre o perfil dos parques (suas características) e o problema de pesquisa a partir do qual a pesquisa se movimenta (isto é, de que maneira os parques são relevantes nas cidades atuais). A aproximação desses dois casos o máximo possível diferentes, confere particular solidez aos traços que os unem (CARDANO, 2017, p. 85). Portanto, com as distinções entre o Parque Frogner e a Quinta da Boa Vista, também é possível encontrar semelhanças e possíveis ressonâncias que os unam, para promover o avanço do conhecimento acerca da temática cidade e natureza urbana, inspirando novas ideias tanto para a gestão, quanto para o planejamento urbano e ambiental contemporâneo. Isso se coloca em lado oposto ao que uma análise comparativa de casos semelhantes se proporia a desvendar. Numa comparação entre casos semelhantes, se esperaria encontrar uma certa diferença comparativa entre os casos. A pesquisa seguiu um caminho metodológico no qual o objeto de estudo mostrou o funcionamento das teorias em contextos empíricos distintos, pretendendo fornecer uma análise sobre o papel dos parques públicos em promover o acesso à natureza em dois contextos urbanos, assim como demostrar a inserção desses parques na cultura local (considerando a relevância deles na dinâmica socioambiental do lugar/região onde operam). Esses dois aspectos norteadores da pesquisa, se dedicaram a utilizar o parque como meio e como fim. A individuação do contexto empírico passou através da interpretação da sugestão fornecida pela pergunta de partida e a qualificação do tipo de contexto a partir do qual foi razoável se esperar uma resposta pertinente às próprias perguntas de partida (CARDANO, 2017, p. 66). 27 ETAPAS DA PESQUISA Para tanto, o método de análise escolhido contribuiu para delimitar a bibliografia a ser entendida como fonte, possibilitando a obtenção de informações e evidências sobre a temática estudada. Nesta perspectiva, as fontes geralmente se constituem de textos produzidos e outros dados imagéticos e visuais, que nesta pesquisa foram divididos de maneiras distintas. Fontes primárias: • Documentos históricos (fotografias e mapas...); • Artigos e livros escritos pelos autores considerados clássicos (vide Tabela 1); • Informações obtidas em sites e páginas de redes sociais governamentais e turísticas oficiais; • Entrevistas. Fontes secundárias: • Artigos de revisão de literatura científica6; • Livros de caráter descritivo com base em pesquisas já realizadas; Neste sentido, as fontes secundárias representam produções bibliográficas com caráter de revisão da literatura, indicando outros estudos em parques e florestas urbanas em diferentes lugares do mundo. Esses estudos são importantes para verificar o conhecimento consolidado sobre a relação entre as cidades e os espaços verdes e, por isso, contribuíram para o estado da arte, dando sustentação ao problema de pesquisa. Em complementação, como parte das fontes primárias, foram analisadas pesquisas acadêmicas específicas sobre as dinâmicas de urbanização da cidade de Oslo e do Rio de Janeiro, sobre os contextos empíricos do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, além dos autores clássicos dentro do referencial teórico da Geografia Cultural; Arquitetura e Urbanismo, e Sociologia/Filosofia, sendo que estes últimos mostram pesquisas e teorias consagradas em seus campos teóricos. Isso significa que suas produções, em conjunto com as fontes secundárias, contribuem para um maior entendimento das raízes temáticas da natureza urbana no contexto acadêmico e científico, estando divididos de acordo com as principais teorias das obras bibliográficas consideradas (vide Tabela Autores Clássicos): 6 Os artigos e livros atribuídos como fontes secundárias, foram escritos por pesquisadores com base em pesquisas originais de outros autores tidos como clássicos. Desta forma, essas fontes são a interpretação realizada sobre outras investigações mais antigas. 28 Tabela 1: Autores clássicos considerados no referencial teórico da pesquisa. Fonte: Elaborado pela autora. Bases de dados utilizadas na construção e identificação das realidades urbanas de Oslo e do Rio de Janeiro: • University of Oslo Library (https://bibsys-almaprimo.hosted.exlibrisgroup.com/primo- explore/search?vid=UIO&lang=en_US); • Google acadêmico (https://scholar.google.com.br/); • Periódicos CAPES (https://www-periodicos-capes-gov- br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php?); • Oslo Kommune (https://www.oslo.kommune.no/english/); • Oslo City Archives (https://www.digitalarkivet.no/en/actors/35/oslo-city-archives); • Historical Archive of Norwegian Landscape Architecture – NMBU University (https://blogg.nmbu.no/ila-samling/); • Kartverket – Mapas open-source (https://www.kartverket.no/en/api-and-data); • Parks in Oslo (https://www.visitoslo.com/en/product/?TLp=229664); • Guided Tour: Vigeland Sculpture Park – University of Oslo (https://www.uio.no/english/studies/summerschool/social-activities/events/social-events/vigeland%282%29.html); https://bibsys-almaprimo.hosted.exlibrisgroup.com/primo-explore/search?vid=UIO&lang=en_US https://bibsys-almaprimo.hosted.exlibrisgroup.com/primo-explore/search?vid=UIO&lang=en_US https://scholar.google.com.br/ https://www-periodicos-capes-gov-br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php https://www-periodicos-capes-gov-br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php https://www.oslo.kommune.no/english/ https://www.digitalarkivet.no/en/actors/35/oslo-city-archives https://blogg.nmbu.no/ila-samling/ https://www.kartverket.no/en/api-and-data https://www.visitoslo.com/en/product/?TLp=229664 https://www.uio.no/english/studies/summerschool/social-activities/events/social-events/vigeland%282%29.html https://www.uio.no/english/studies/summerschool/social-activities/events/social-events/vigeland%282%29.html 29 • Norges Naturvernforbund – Associação norueguesa de amigos da natureza (https://naturvernforbundet.no/?lang=en_GB); • Bymiljøetaten – setor de meio ambiente (https://nyhetsrom.bymiljoetaten.no/opplev-oslo/); • IBGE RJ (https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama); • Biblioteca Nacional- Brasiliana Fotográfica (https://brasilianafotografica.bn.gov.br/); • Plataforma colaborativa WiKi Rio (https://www.wikirio.com.br/Quinta_da_Boa_Vista); Tabela 2: Bases de dados e informações obtidas. Fonte: Elaborado pela autora. ENTREVISTAS As entrevistas, abordadas no capítulo 4, sobre o contexto urbano de Oslo foram realizadas no período correspondido aos anos de 2020 e 2021, em língua inglesa, com um grupo de oito pessoas, dentre os quais se destacam estudantes, moradores de bairros próximos e distantes do parque, professores universitários e a ex urbanista da cidade de Oslo (Ellen de Vibe- Ex-chefe da Agência de Planejamento e Construção em Oslo, onde atuou por 20 anos). Além disso, de igual maneira, foram entrevistadas oito pessoas sobre a realidade urbana do Rio de Janeiro e da Quinta da Boa Vista, no período de 2021 a 2022. Os entrevistados foram selecionados de forma a trazerem exemplos de diferentes tipos de experiencias espaciais, destacando também estudantes, moradores dos bairros próximos e distantes ao parque e a ex https://naturvernforbundet.no/?lang=en_GB https://nyhetsrom.bymiljoetaten.no/opplev-oslo/ https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama https://brasilianafotografica.bn.gov.br/ https://www.wikirio.com.br/Quinta_da_Boa_Vista 30 funcionária da prefeitura do Rio de Janeiro (Jeanne Almeida da Trindade, Arquiteta da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro entre 1986 a 2016). As entrevistas ocorreram em meio virtual, através das experiencias relatadas a partir de eixos temáticos selecionados sobre as vivências dessas pessoas na natureza urbana e no contexto empírico analisado. Isso possibilitou um roteiro para que as pessoas se sentissem mais à vontade em discorrer sobre as suas impressões e ideias, tendo em vista que as participações em pesquisas acadêmicas no formato de entrevistas discursivas tendem a deixar os entrevistados confusos e nervosos em “por onde começar e com o que dizer numa folha em branco”. A fim de eliminar esses desconfortos sociais, a técnica utilizada foi a dos eixos temáticos, o que facilitou em muito o processo. As respostas ocorreram nos formatos escrito, de áudios e também audiovisual (videochamada gravada), de acordo com a preferência e disponibilidade dos entrevistados (vide modelo da entrevista Anexo 1). No contexto da pesquisa qualitativa, a abordagem teórico-metodológica se pautou numa análise em formato de relatos, os quais atuam como a mediação entre a pesquisa e a realidade investigada. Nesta perspectiva, a experiencia vivida e relatada por cada indivíduo é considerada ao mesmo tempo única e coletiva, pois contribui para se conhecer as diferentes formas de ser no mundo, identificando as maneiras com as quais essas pessoas vivenciam a natureza urbana e se relacionam com as cidades. Além disso, a coletividade dessas experiencias está no fato de cada pessoa pertencer a um determinado contexto sociocultural, que influencia também os aspectos sociais que dão base as suas percepções individuais sobre o meio ambiente. 31 CAPÍTULO 2- A INTERDISCIPLINARIDADE DAS RELAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS “As palavras são ação”. Assim já falava o Geógrafo Yi-Fu Tuan em seu artigo The city and the human speech (TUAN, 1994, p. 144). A maneira pela qual o discurso urbano é conduzido através das palavras, que vão sendo introduzidas e/ ou criadas pelos mais diversos agentes e atores espaciais, tem a capacidade de tornar visível ou invisível determinada porção da cidade ou até mesmo a cidade inteira (TUAN, 1991). A construção simbólica/ social das palavras, que é transmitida a cada geração, influencia até mesmo na maneira como enxergamos o mundo e participamos da nossa realidade no decorrer do tempo. O ato de nomear confere certa existência à elementos antes presentes apenas na mente. Nomear, portanto, é dar vida concreta à processos socioculturais e socioambientais, que antes estavam apenas no nível do pensamento. No caso da palavra jardim, por exemplo, é necessário traçar um percurso histórico que nos conduza para o momento no qual o ser humano começou a separar uma determinada porção do espaço para o cultivo de práticas agrícolas de subsistência. Isto é, a ideia do jardim remonta períodos históricos anteriores à ideia de cidade. Todavia, é o jardim uma construção simbólica que não somente influenciou o processo de desenvolvimento social e espacial da humanidade, como também influencia as cidades contemporâneas até os dias atuais. Em obra relativamente recente, a filósofa francesa Anne Cauquelin (2007) discute as origens do jardim em um capítulo do livro “A invenção da paisagem”. Para ela, o jardim, em sua gênese, representava um todo contido num lugar simbólico, e a ideia de paisagem era a mediação na qual a realidade mais extensa da natureza universal, era transposta para o jardim (CAUQUELIN, 2007, p. 60). A autora retorna ao pensamento aristotélico sobre a mímesis, no qual ela explica que a ideia de imitar a natureza, não quer dizer imitar o modelo, mas sim o modo de produção do modelo. Sendo assim, não é mimetizar os artefatos naturais, mas sim imitar o sistema pelo qual a natureza ecônoma age (CAUQUELIN, 2007, p. 70). Em contrapartida, Panzini (2013) discute que o jardim é uma forma compositiva que nunca se separou totalmente de sua origem agrícola. Ainda assim, os jardins foram assumindo outros simbolismos, em outros níveis de leitura socioespacial. Para este autor, eles participaram do desenvolvimento da mitologia nas mais diversas culturas humanas, além de representarem uma imagem do poderio técnico de manejo do solo, se constituindo em territórios (PANZINI, 2013, p. 15). Neste sentido, trazendo essa discussão para a contemporaneidade, podemos refletir se os ambientes de natureza urbana das cidades atuais 32 podem ser considerados como releituras do jardim, ao serem gerenciados, implementados e utilizados cotidianamente; adquirindo novas simbologias e características socioambientais em conexão aos discursos e teorias do momento histórico em questão. Por isso, neste capítulo, os parques e demais locais de vegetação nas cidades, como um prolongamento dos jardins, serão abordados a partir de uma perspectiva ampla, contextualizando suas importâncias sociais, compreendendo como a noção de natureza urbana ganhou espaço nas cidades e se transformou no decorrer do tempo. Como foi apresentado nos parágrafos acima, a ideia de jardim tem acompanhado o ser humano há muito tempo, já os parques, por sua vez, surgiram para denominar uma área verde e de lazer, aberta ao público, principalmente nos séculos XVII e XVIII com a Revolução Industrial, tendo sido aprimorados desde então. Nestesentido, ao longo do subitem 2.1, será abordado o contexto para o surgimento da disciplina acadêmica de Arquitetura da Paisagem durante, sobretudo, a segunda metade do século XIX, e como isso influenciou em novas dinâmicas socioambientais em alguns contextos do mundo. Também será visto o lócus político-social e ecológico para o planejamento urbano e ambiental dessas áreas verdes, além de alguns dos atores envolvidos neste processo e quais impactos e legados eles deixaram para as práticas urbanas da atualidade. Já o subitem 2.2, discutirá como os conhecimentos biológicos e geográficos contribuíram para uma maior conscientização acerca das questões ambientais no século XX. Ademais, será apresentado como a Noruega e o Brasil se inserem neste contexto, identificando também algumas políticas e participações dos dois países em conferências sobre o meio ambiente. Ao final do capítulo, no subitem 2.3, será apresentado o panorama socioambiental relacionado às discussões sobre meio ambiente e sustentabilidade ocorridas globalmente no final do século XX até a contemporaneidade, além de abordar como as novas práticas do fazer urbano inserem os conhecimentos sobre a biogeografia local em seus projetos. Portanto, as análises aqui propostas buscam propiciar uma maior compreensão de como a natureza urbana vem sendo tratada na contemporaneidade, por meio de exemplos práticos do urbanismo verde e do urbanismo ecológico. Em seguida, será discutido o termo “cidade biofílica” e como ele está relacionado às vivências cotidianas nos locais de natureza urbana presentes nas cidades do século XXI. 33 2.1 ARQUITETURA DA PAISAGEM E ESPAÇO URBANO: ALGUMAS DINÂMICAS E ATORES Para Leonardo Benevolo, em sua obra História da cidade (2019), a Revolução Industrial pode ser considerada uma das grandes transições pelas quais a humanidade passou, estando no mesmo patamar da Revolução Agrícola do período Neolítico e das novas técnicas provenientes da Idade do Bronze, pois influenciou a sociedade de maneira global (BENEVOLO, 2019, p. 240). Ele ainda complementa que a evolução e expansão da indústria, permitiu um aumento considerável da população mundial, além do aumento dos bens e serviços. Nesse momento, camponeses se tornaram assalariados e muitos migraram para as cidades na condição de operários industriais. Com isso, inúmeros pequenos núcleos urbanos começaram a surgir justamente ao redor das fábricas (BENEVOLO, 2019). Em reflexão mais recente, Herzog (2013, p. 38) aborda o fato das mudanças tecnológicas trazidas pelo desenvolvimento da Indústria, representarem um marco no espaço geográfico, com reflexos ambientais extremos. A utilização da máquina à vapor e do motor em combustão, levaram inúmeras florestas ao desmatamento, para a obtenção de madeira e carvão como insumos industriais. Já a energia advinda dos combustíveis de origem fóssil, como o petróleo, impactou na forma como a cidade passou a ser planejada. Com a disseminação das infraestruturas cinzas, vias asfaltadas foram sendo modeladas para a melhor utilização dos automóveis, assim como córregos foram gradualmente sendo canalizados e, muitas vezes, até mesmo escondidos embaixo do asfalto. Ao mesmo tempo, o ar foi se tornando mais poluído no interior das cidades industriais. Durante a primeira metade do século XIX, a rápida expansão urbana originou novos centros de confluência. Enquanto a vila medieval era formada nos burgos, e as cidades renascentistas possuíam um traçado regular com praças e avenidas de funções bem demarcadas, as cidades do período industrial se expandiam para fora destes antigos centros urbanos, originando assim as chamadas periferias e subúrbios (BENEVOLO, 2019). Este movimento é denominado pelo filósofo Henri Lefebvre como um processo histórico de implosão-explosão: num primeiro momento há uma concentração de pessoas, atividades e riquezas num local específico e, após a conclusão do processo de urbanização, ocorre a projeção da lógica urbana para outros lugares periféricos, formando diferentes subnúcleos subordinados à metrópole (LEFEBVRE, 2001). 34 Essa nova forma de cidade, cunhada pelo liberalismo econômico, não foi plenamente planejada ou coordenada. Sua base era no núcleo privado da vida, ou seja, o indivíduo, originando uma ocupação desordenada do espaço urbano, além de condições de salubridade que beiravam o caos. Na segunda metade do século XIX, houve uma mudança de interesses, e a cidade passou a conferir à administração pública, a gestão e o planejamento da infraestrutura dos núcleos urbanos (BENEVOLO, 2019). Foi nesse período que as regras e os planos diretores passaram a regulamentar o tecido urbano de cada realidade social. Porém, é preciso notar que o período não garantiu a melhoria da qualidade de vida nas cidades, tendo em vista que a urbanização se expandiu ainda mais, os centros urbanos ficaram cada vez mais densos, com uma maior concentração de serviços em determinadas ruas centrais. Os interesses econômicos continuaram a perpassar pela lógica de produção do urbano, no qual as novas classes de maior poder aquisitivo (os burgueses), construíam casas em localidades mais ajardinadas e à classe operária eram destinadas áreas menos privilegiadas (LEFEBVRE, 1999, p. 23). Neste sentido, Lefebvre (2001, p.23) afirma que a produção agrícola foi subvertida ao setor da produção industrial. O tecido urbano se expandiu não apenas na construção das cidades propriamente ditas, mas também numa determinada cultura e forma de pensar tipicamente industrial que encontrou seu caminho para as regiões campestres (LEFEBVRE, 2001, p. 23). É interessante observar que, na história humana, a cidade política sempre acompanhou a vida social. Foi assim na ressignificação de diversos centros, como no caso da ágora grega ou do fórum romano, que foram simbolicamente substituídos pelas praças do mercado medievais. No caso da Revolução Industrial, a cidade ou vila que antes era um lugar de heterotopia, especializado nas trocas comerciais e que nas palavras de Lefebvre “eram uma ilha urbana num oceano camponês” (LEFBVRE, 2001, p. 23), passam a condição de centro, na qual o rural produz para a cidade, o campo é uma região situada no horizonte/limite dos centros urbanos. No decorrer dos séculos XIX e XX, a concepção dos jardins passou a abarcar projetos em áreas maiores, como os dos parques, que se tornaram cada vez mais essenciais na produção do espaço urbano. Ao tornar determinada porção de terra visível no contexto das cidades modernas, o ser humano pôde resgatar seu contato com um espaço mais “natural”, mesmo que o processo de urbanização continuasse se alastrando. Esse pensamento pode ser exemplificado na afirmação do arquiteto paisagista norte-americano Frederick Law Olmsted (1857), onde o paisagismo ganhou um teor de transformação social: 35 Duas classes de melhorias deveriam ser planejadas com este propósito: uma dirigida para assegurar o ar puro e saudável, para atuar através dos pulmões; a outra para assegurar uma antítese de objetos visuais àqueles das ruas e casas que pudessem agir como terapia, através de impressões na mente e de sugestões para a imaginação (OLMSTED, 1857 apud MACEDO; SAKATA, 2002, p. 56). Olmsted exerceu grande influência nas práticas urbanas, podendo ser considerado o fundador da disciplina de “arquitetura da paisagem” (PANZINI, 2013). Embora ele tenha exercido uma gama variada de profissões, desde jornalista, escritor, administrador até agricultor e horticultor, foi com o projeto do Central Park, na ilha de Manhattan em Nova Iorque (Figura 3), que o termo arquiteto paisagista se efetivou no contexto social em 1899, com a criação da American Society of Landscape Architects (PANZINI, 2013). Figura 3: Vista aérea do Central Park atual. Fonte: Civitatis Nova York (n.d.). Nesta perspectiva,o planejamento urbano não se pautou numa lógica puramente higienista ou estética, mas sim em princípios ecológicos aliados ao bem estar urbano. Olmsted foi o pioneiro a considerar a paisagem das cidades como um sistema, no qual era necessário compreender as dinâmicas naturais dos ecossistemas, considerando que as cidades estavam inseridas num contexto ambiental que deveria ser previamente entendido e respeitado. Portanto, ele foi um dos precursores do planejamento urbano e regional (OLMSTED, 1870). Um de seus mais influentes legados foi o Movimento dos parques7, que revolucionou não 7 Park movement- processo político e social de reconhecimento da importância da proteção de áreas naturais no meio urbano, no final do século XIX. 36 somente o contexto norte-americano, como também o de outras realidades urbanas pelo mundo. O denominado Emerald Necklace em Boston, EUA, pode ser considerado um exemplo marcante desta visão integradora de Olmsted. Neste projeto ocorrido entre os anos 1878 e 1895, o paisagista mimetizou a natureza, usando os próprios princípios ecossistêmicos presentes no meio ambiente, para despoluir o rio Muddy, por meio da criação de áreas alagadas purificadoras (OLMSTED, 1870). Além disso, ele criou um sistema de espaços verdes conectados através de um corredor ecológico, como pode ser observado na figura 4. Figura 4: Mapa atual do Emerald Necklace, Boston, EUA. Fonte: Arboretum of Harvad University (c2022). Dentro do contexto estadunidense também podemos citar o arquiteto Frank Lloyd Wright, que propôs uma outra vertente urbanística e paisagística para integrar o ser humano à natureza (HERZOG, 2013). Em 1935, através da utópica ideia da cidade de Broadacre8, Wright queria construir realidades urbanas menores, com menos densidade, menos verticalizações e mais áreas agricultáveis, nas quais os alimentos seriam produzidos localmente. Era uma visão relativamente complementar às das cidades-jardim de Ebenezer Howard9, que serão apresentadas no próximo item. Porém, para Wright, essa realidade urbana 8 Broadacre nunca chegou a ser efetivamente construída, sendo materializada apenas em maquetes expositivas. 9 Howard propunha investir no transporte público de qualidade, destacando-se as vias férreas, para conectar as cidades-jardim. 37 não seria cooperativa e suas conexões seriam feitas por vias rodoviárias, fato que atenderia à indústria automobilística dos Estados Unidos. Frank Lloyd Wright recebeu inúmeras críticas (HILL, 1988). Ao propor cidades menos densas, ocorreria um descontrole da expansão urbana, onde as cidades ocupariam cada vez mais áreas, ocasionando um maior desflorestamento e injúrias à ecossistemas e à biodiversidade (HERZOG, 2013). Um outro exemplo de perspectiva divergente, é o da urbanista estadunidense Jane Jacobs, que também criticava o pensamento de Wright, pois o considerava individualista, que promovia o nacionalismo e o romanticismo campestre. Sua principal divergência diz respeito ao fato de Wright ser um antiurbanista, enquanto para a intelectual norte-americana, a cidade era o local da cooperação, sociabilidade e diversidade (HILL, 1998, p. 307). O desenvolvimento da disciplina de arquiteto paisagista abarcou também inspirações do mundo intelectual, onde a projeção da natureza ganhou tons de potencial mudança social, como na concepção das cidades-jardim, do pensador Ebenezer Howard. Desiludido com a sociedade industrial inglesa, Howard escreveu sua principal obra10: To-morrow a Peaceful Path to Real Reform (1898) ou Cidades do amanhã, na reedição do ano de 1902. De acordo com Howard (1902, p. 110), o aumento do número de pessoas vivendo em cidades era causado, principalmente, pela migração proveniente das áreas rurais. Sendo assim, se fazia necessário equilibrar a relação entre a cidade e o campo (HOWARD, 1902). Em suas análises, ao passo que a cidade era o local da sociabilização, cooperação e oportunidades de emprego, ela carecia de elementos naturais que melhorariam seu o clima e salubridade. De outro lado, as áreas rurais tinham abundância de natureza, com campos e lagos, mas lhes faltava as oportunidades sociais e a infraestrutura. Por isso, ele idealizou a cidade-jardim11, como um meio termo a este dilema. Nessa perspectiva, a mescla do que havia de melhor em cada um desses espaços, originaria “uma nova esperança, uma nova vida, uma nova civilização” (HOWARD, 1902, p. 110). As ideias de Howard também influenciaram na criação da Garden cities association Ltda, em 1903. Essa associação cooperativa seria a responsável por obter recursos financeiros 10 Obra inspirada no caso de New Lanark, na Escócia, onde o filantropo e idealista utópico Robert Owen havia moldado uma comunidade industrial modelo, baseada na produção têxtil no início do século XIX. 11 O protótipo desse tipo de cidade- jardim deveria ser materializado numa área circular com até 2400 hectares, sendo 400 hectares destinados à cidade propriamente dita e o restante às áreas agrícolas (cinturão ajardinado). Para Howard, cada espaço urbano teria uma função social diferente e era importante que cada cidade-jardim fosse autossuficiente e mantida por trabalho cooperativo, sendo capaz de suprir seus moradores com alimentos e serviços, além de gerir os resíduos gerados pelos habitantes (HOWARD, 1902). 38 para a compra dos lotes de terra nos quais as cidades-jardim seriam construídas. Entretanto, aos poucos, a associação foi se tornando uma empresa, e seus benfeitores/ doadores passaram a coletar juros sobre seus investimentos, ao passo que a cidade-jardim gerasse lucros por meio de aluguéis ou por meio da "especulação de terras filantrópicas" (HALL, 2014). Dessa forma, Howard preocupado com os rumos de seus projetos, tentou inserir organizações cooperativas da classe trabalhadora, mas não conseguiu apoio financeiro suficiente. Ao final, ao ter de contar apenas com os investidores ricos e influentes, seu plano de cidade-jardim se modificou drasticamente: ocorreu a eliminação do esquema de propriedade cooperativa sem proprietários; aumentos de aluguel de curto prazo e contratação de arquitetos que não concordavam com o design rígido e funcional da cidade-jardim original. Figura 5: Esquema das cidades-jardins desenhado por Ebenezer Howard em 1902. Fonte: The Guardian (2014). Dessa forma, Letchworth (1910-1920), considerada a primeira cidade-jardim12 inglesa, teve o seu planejamento desenhado pelos arquitetos Raymond Unwin e Barry Parker (HALL, 2014). Situada em uma área a 55 km de Londres, a terra onde a cidade foi implementada era considerada barata e foi adquirida num momento de depressão agrícola. Com o passar do tempo, Letchworth não conseguiu se tornar autossuficiente e se transformou num subúrbio londrino, onde a metrópole Londres ainda mantinha sua centralidade política, econômica e social. 12 O plano foi considerado o maior e mais completo planejamento de cidade desenvolvido no início do século XX na Inglaterra, sendo planejada para abrigar 30 mil habitantes. 39 Isso aconteceu em muitas tentativas de implementação de cidades-jardim pelo mundo. O conceito imaginado por Howard não conseguiu ser fielmente executado. A cidade-jardim se converteu em bairros nobres e/ ou pequenos núcleos urbanos, onde a palavra jardim passou a agregar um valor de troca, sendo apropriada pelo setor imobiliário (HERZOG, 2013). Porém, apesar de ter sofrido duras críticas na prática (sobretudo com relação ao funcionalismo), a ideia de Ebenezer Howard intensificou a importância da natureza urbana no cotidiano das cidades, indicando novos caminhos para o fazer urbano do século XX. Ainda com relação às transformações e aos atores que influenciaram as práticas urbanas deste período histórico, outro intelectual de destaque é o escocês Patrick Geddes. Embora fosse biólogode formação, ele promoveu uma mudança de paradigmas com relação ao planejamento urbano do início do século XX. A partir do livro Cidades em evolução, publicado em 1915, o autor buscava compreender a cidade de maneira holística, dentro da região, analisando todos os aspectos que pudessem ter influencias no ambiente físico e social. Geddes também foi um visionário e percussor do planejamento participativo (GEDDES, 1915). Ele transitou nos mais diversos campos do saber13, e enxergava o papel do planejador urbano como o do promotor de uma boa condição de vida às pessoas, levando em conta os aspectos ecológicos locais, sendo um dos pioneiros no bioregionalismo, e a história e cultura da região (WAHL, 2017)14. Para tanto, um de seus focos era a educação da comunidade com a qual estava trabalhando, pois a única maneira de se alcançar resultados promissores era trabalhando em equipe, onde os cidadãos se sentissem engajados e confiantes nas práticas do fazer urbano. A cidade de Edimburgo, na Escócia, foi um dos locais onde Geddes desenvolveu suas ideias de gestão. A partir do que ele chamou de síntese, ele se empenhou em promover o planejamento da cidade, começando pelas áreas do centro histórico, que se encontravam deterioradas e com habitações precárias (GEDDES, 1915; WAHL, 2017). Os habitantes do local foram envolvidos em todas as etapas do projeto, se organizando de maneira coletiva para limpar e reestruturar seus próprios bairros. Ao contrário do pensamento de Darwin sobre a evolução e a competição, Geddes percebia a evolução através da cooperação: para a sociedade evoluir, era necessário um alto grau de cooperação e consciência coletiva (WAHL, 2017). Por isso, a participação cívica nos processos de planejamento era essencial. Nesta perspectiva, ele 13 Foi o precursor do: Think global, act local. Era filósofo, sociólogo, artista, planejador urbano e biólogo. 14 Consute: “Design and Planning for People in Place: Sir Patrick Geddes (1854–1932) and the Emergence of Ecological Planning, Ecological Design, and Bioregionalism” (2017). 40 implementou um centro de educação regional em Edimburgo, que recebeu o nome de Outlook tower15, além de ter construído o Ramsay Gardens na esplanada do castelo e os prédios para estudantes ao longo do Royal Mile (GEDDES, 1915). Figura 6: Ramsay Garden. Fonte: Wikipedia (2021). Ao longo do século XX, sobretudo no pós-guerra, houve uma intensa modificação nas relações internacionais e na geopolítica. A lógica urbana, fecundada no contexto da Europa central e dos Estados Unidos, se expandiu para outras regiões do mundo, e o crescimento das cidades industriais atingiu um nível global, mesmo em realidades distantes (SILVA et al., 2014). Gradualmente, o mundo se dividiu entre desenvolvido e subdesenvolvido, terminologias originadas em conjunto com as Nações Unidas, que identificam os níveis de desenvolvimento econômico e social, marcando as diferenças entre os países industrializados e os exportadores de matéria-prima, a partir de alguns critérios como: grau de riqueza, nível de industrialização e desenvolvimento, Produto Interno Bruto (PIB), renda per capita e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Segundo o teórico Giovanni Arrighi (1996), a ascensão hegemônica estadunidense após as duas grandes guerras mundiais, trouxe novas situações, às quais referem-se à capacitação estatal em liderar e inovar, onde um determinado Estado consegue exercer liderança sobre um sistema de nações soberanas (ARRIGHI, 1996, p. 27). Essa característica hegemônica confere ao país em questão um poder mundial, que vai além da pura dominação territorial, mas se direciona para uma liderança intelectual e cultural, universalizando sua 15 Edifício em Edimburgo, na seção Castlehill da Royal Mile, próximo ao Castelo de Edimburgo. Foi comprado e reformado por Patrick Geddes em 1892, que o transformou em um “lugar de visão e um museu-tipo como uma chave para uma melhor compreensão de Edimburgo e sua região, mas também para ajudar as pessoas a ter uma ideia clara de sua relação para o mundo em geral” (Para mais informações, consulte: https://www.dundee.ac.uk/geddesinstitute/outlooktower/). 41 concepção de mundo (ARRIGHI, 1996, p. 28; CECEÑA, 2004, p. 112). Isso se encontra no cerne da lógica desenvolvimentista que tem por base, garantir os fluxos da economia mundial, através da difusão da informação e dos novos padrões de consumo (SANTOS, 2004). Os processos de industrialização, característicos da história de Revolução Industrial na Europa continental e dos Estados Unidos, foram exportados para outros contextos socioculturais pelo mundo, numa lógica de reconstrução e reestruturação após os efeitos das guerras e do imperialismo. Por outro lado, a ascensão da União Soviética no contexto do leste europeu e dos países da Ásia Central, numa lógica de dominação territorialista, também influenciou em novas dinâmicas e organizações do espaço urbano, que eram essencialmente marcados pela funcionalidade e padronização, para um maior controle estatal do ambiente em questão. Esse novo panorama mundial possibilitou a expansão e consolidação do meio-técnico– científico-informacional de ambos os polos hegemônicos, trazendo como consequências negativas a padronização urbana e a criação e/ou exportação dos problemas ambientais para outras realidades sociais. Além disso, contribuiu para a perpetuação e, até mesmo, agravamento da pobreza em locais já historicamente pauperizados, em grande parte, devido às heranças colonialistas de épocas passadas. 42 2.2 UMA COMPREENSÃO GEOGRÁFICA DA ECOLOGIA NO SÉCULO XX Como foi observado, a expansão da cidade industrial pelo mundo trouxe desafios dos mais diversos níveis. Neste sentido, a publicação do livro primavera silenciosa em 1962, da bióloga americana Rachel Carson, abriu novos horizontes de debate ambiental, sobretudo acerca dos efeitos nocivos da chamada revolução verde16 e do uso dos agrotóxicos para a saúde humana e para a natureza (CARSON, 1962). Neste momento, não somente a cidade industrial se encontrava deteriorada, mas também o campo, que se industrializava e se mecanizava para a produção em massa de alimentos para as cidades. Rachel Carson foi um ícone na luta pela conscientização ambiental, destacando sua preocupação com as monoculturas norte-americanas e as doenças provenientes do uso de produtos químicos na produção agrícola, que afetariam tanto a saúde dos trabalhadores rurais e consumidores, quanto dos ecossistemas e da biodiversidade (CARSON, 1962). Os anos de 1960 a 1990 foram importantes para a consolidação das ideias ambientalistas e o reconhecimento de que as gerações futuras herdarão as consequências do modo de viver industrial. Esse período também originou questionamentos sobre a pesquisa científica puramente positivista, sem englobar a análise crítica sobre a produção social/econômica e as subjetividades presentes no mundo vivido. Por isso, é um momento que pode ser denominado de renovação cultural17 (MOREIRA, 2009). Essa mudança de paradigma no meio científico foi importante, pois identificou que para solucionar as questões ambientais, não era possível analisar apenas de modo objetivo e quantitativo, tendo em vista que a origem dos problemas era, muitas vezes, de nível socioambiental, acerca das mudanças (econômicas, políticas, sociais...) pelas quais as sociedades passaram na transição para a lógica industrial. Dentro desse panorama, a ciência geográfica também passou por transições. Sobre isso, destaca-se a geógrafa irlandesa Anne Buttimer, que realizou intensas pesquisas, sobretudo na Irlanda e na Suécia, acerca da percepção ambiental e dos aspectos subjetivos presentes nas áreas residenciais, que conectavam as pessoas de maneira emocional ao espaço geográfico. Para esta autora,o ser humano se afilia e se relaciona aos lugares por meio de uma intricada rede de construções simbólicas e mentais, que funcionam como verdadeiros 16 Mecanização da produção agrícola e uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos, através do conhecimento oriundo na indústria de bombas e armamentos bélicos, que com o final da 2ª Guerra Mundial, se converteu para a produção agrícola. 17 No caso da ciência geográfica, ocorreram divisões entre a geografia crítica e a geografia cultural. 43 elos entre cada indivíduo, sua memória e o espaço (BUTTIMER et al., 1980). Por ter participado de estudos com vertentes culturais, a autora compreendia as questões ambientais sob uma ótica mais ampla, relacionando diferentes fatores pautados, por exemplo, na diversidade étnica, religiosa e política. Isso significava que para se encarar os desafios postos, os cientistas deveriam cooperar e investigar de uma maneira holística, pois existe um mosaico de identidades e mundos sociais, que interferem no meio ambiente de maneira direta ou indireta (BUTTIMER, 2004). No contexto do planejamento urbano/ regional, um nome importante para o pensamento ecológico no pós-guerra é o do arquiteto paisagista escocês Ian McHarg18. Assim como Patrick Geddes e Frederick Law Olmsted, no início do mesmo século, foram precursores em projetar áreas urbanas levando em consideração os sistemas naturais, McHarg acreditava que para manter a vida nas cidades num estágio de harmonia, era preciso pensar no ser humano e na natureza sem dualismos. No ano de 1969, Ian McHarg escreveu seu livro mais famoso, denominado de Design With Nature, no qual ele narra toda a sua trajetória pessoal e intelectual que o levou a propor novas atitudes para a prática do planejamento urbano regional. Os primeiros capítulos da obra são dedicados às lembranças da sua infância no período entre a primeira e a segunda guerra, nos arredores da cidade de Glasgow19. Repleto de nostalgia, McHarg analisa as mudanças pelas quais a Escócia passou no início do século XX. Para tanto, ele cita o caminho que costumava fazer para se locomover de seu vilarejo até a cidade de Glasgow, passando por diversas florestas e campos facilmente alcançáveis a pé ou de bicicleta (MCHARG, 1969, p. 2). Na infância (no período de 1920- 1935), a cidade industrial já existia, materializada em Glasgow, poluída e congestionada. Porém, ele ressalta que ainda era possível ter acesso às terras altas e ilhas escocesas, através da floresta negra de Rannoch, que o conduziam ao mais profundo countryside (MCHARG, 1969, p. 19). Em 1949, McHarg completou seus estudos em arquitetura da paisagem e planejamento urbano na Universidade de Harvard (Estados Unidos da América) e, ao retornar ao seu país natal, encontrou as áreas florestadas próximas à Glasgow já anexadas pela cidade, dando lugar 18 McHarg tentou discutir acerca do papel do ser humano no planeta terra. Os capítulos de seu livro trazem, dentre outras análises, contribuições relacionadas aos seus anos no magistério e no planejamento regional, criticando as concepções modernas e pós-industriais de que a natureza e o ser humano existem em pontos diferentes, onde a natureza passa a ser apenas um recurso e um pano de fundo para o progresso e lucro (MCHARG, 1969, p. 44). 19 Atualmente Glasgow é a maior cidade da Escócia, com 1.673,000 de pessoas. 44 a enormes blocos de apartamentos residenciais. Com o tempo, ele foi percebendo que houve um enorme espraiamento da urbanização, e o horizonte campestre com o qual ele estava acostumado, havia sido deslocado para cada vez mais distante. Sobretudo a população pobre no meio urbano, em grande parte, operários das fábricas, só tinham contato com a natureza por meio das propagandas televisivas sobre o campo e as florestas (MCHARG, 1969, p. 20). Sendo um fervoroso crítico da cultura automobilística norte-americana, McHarg também analisou a forma da típica cidade pós-industrial e as suas incontáveis rodovias e estacionamentos (MCHARG, 1969, p. 22). Para ele, era possível perceber a degradação da cidade grande ao se locomover de carro, por meio dos engarrafamentos, da poluição e da transformação e deterioração dos rios. Além disso, seu raciocínio se aproximava ao de Rachel Carson, ao afirmar que as áreas campestres também passavam pela mesma lógica urbana, nas quais os cinturões verdes representavam grandes áreas de monocultura, esterilizando a terra e dando origem a sedimentos corrompidos (MCHARG, 1969, p. 22). Assim como os cientistas durante a revolução cultural, McHarg (1969) considerava a diversidade dos ambientes, percebendo o planeta terra como um organismo vivo e pulsante. Por isso, suas práticas urbanas tendiam a investigar a maneira com a qual esse organismo, do qual o ser humano faz parte, enfrenta os desafios e demonstra a sua resiliência. De fato, esse é o principal objetivo de seu livro: trazer uma abordagem reflexiva sobre o nosso lugar no cosmos e pensar em formas de ocupar o espaço com e não contra a natureza. O autor fez um verdadeiro inventário sobre as diferentes áreas geográficas, nos mais diversos climas, destacando suas características e possíveis formas de ocupação humana em conformidade com a hidrologia, geologia e pedologia locais (MCHARG, 1969, p. 56-67). A visão ecológica do planejador urbano deveria orientá-lo para “perceber o mundo e a evolução como um processo criativo” (MCHARG, 1969, p. 53). Segundo ele20, o mundo social é permeado de regras que afetam a maneira com a qual os arquitetos e urbanistas agem. Com base nisso, McHarg questionava o porquê de as questões sobre o meio ambiente não terem a mesma preocupação à nível social/político. Em 1969, ele já indagava o seu leitor qual era o lugar da natureza na grande metrópole, e o motivo de não haver legislações e regulamentações que prevenissem desastres naturais, além de garantir os valores intrínsecos do meio ambiente. 20 Ao trazer argumentos biológicos para seu pensamento enquanto arquiteto paisagista e urbanista, McHarg reafirmava a importância de considerar os conhecimentos das ciências biológicas e sociais juntos, quando for preciso projetar ou reestruturar uma área urbana. 45 Entretanto, foi principalmente na década de 1980, que os conhecimentos da ecologia ganharam força e passaram de algo puramente biológico sobre o funcionamento dos sistemas naturais ~ ecologia natural~, para dar bases a um movimento social heterogêneo, denominado de ecologia social (LAGO; PÁDUA, 2017, p. 14-15). Um exemplo disso foram as grandes manifestações pelas cidades estadunidenses, onde as pessoas protestavam contra os riscos trazidos pela energia nuclear. Neste momento ocorreu uma incorporação ecológica nos discursos políticos, criando um palco nas sociedades (pós) industriais para o debate sobre outras possibilidades e modos de vida ao até então vigente (LAGO; PÁDUA, 2017). A consolidação dos partidos verdes, que pretendiam resolver as crises da cidade industrial pelo viés de uma modificação econômica e cultural aliada a práticas conservacionistas, também data deste período de turbulência social. No panorama atual, cabe destacar o exemplo do pensador indígena Ailton Krenak. Oriundo da etnia Krenak, em Minas Gerais, o autor afirma não conseguir perceber a existência de algo no mundo que não seja natureza, pois “a natureza engloba absolutamente tudo o que nós conhecemos e vivenciamos” (KRENAK, 2020, p. 46). É importante trazer o exemplo de Krenak ao falar sobre ecologia social, uma vez que ele teve ampla participação no processo de redemocratização do Brasil pós ditadura militar, no que tange os direitos indígenas, que por sua vez também são os direitos das florestas e áreas ribeirinhas. Em 1988, Krenak21 fez um discurso na Câmara dos Deputados, como participação na Assembleia Nacional Constituinte, no qual pintou seu rosto comtinta de jenipapo, em protesto contra o fato de não haver até então uma legislação que abordasse a situação da terra indígena no Brasil22. Sendo assim, o movimento dos povos indígenas também é um caso relevante da extensão política da ecologia social. Neste sentido, Diegues (1996) e Freitas (2008) destacam a existência de três correntes ambientalistas que se originaram no pós-guerra: preservacionista, conservacionista e a justiça ambiental (DIEGUES, 1996; FREITAS, 2008). Porém, no decorrer do tempo, prevaleceram duas correntes principais: a preservacionista e a conservacionista. • Segundo a primeira corrente, a natureza possui direitos intrínsecos, que se justificam pelo fato dela existir. Nesse raciocínio, há de se preservar o meio 21 Ele também contribuiu para a fundação da União dos Povos Indígenas21 e da Aliança dos Povos da Floresta, para estabelecer reservas naturais na região amazônica. 22 VIVAN, Danilo. Ailton Krenak: os frutos do discurso que comoveu o país. Conexão Planeta, inspiração para a ação, 5 mar. 2019. Disponível em: <https://conexaoplaneta.com.br/blog/ailton-krenak-os-frutos-do-discurso-que- comoveu-o-pais/#fechar>. Acesso em: 30 ago. 2021. https://conexaoplaneta.com.br/blog/ailton-krenak-os-frutos-do-discurso-que-comoveu-o-pais/#fechar https://conexaoplaneta.com.br/blog/ailton-krenak-os-frutos-do-discurso-que-comoveu-o-pais/#fechar 46 ambiente, mesmo que para isso seja necessário afastar o ser humano do contato com essa natureza a ser preservada e isolada da vida social. • Já na corrente conservacionista, a natureza é vista como recurso, estando ligada às práticas econômicas e de desenvolvimento. Os recursos minerais, os aquíferos, e demais componentes ambientais existem e devem ser conservados para garantir os meios de sobrevivência da vida humana na Terra. A vegetação, nesta corrente, presta serviços ambientais à sociedade (FREITAS, 2008). • No caso da Justiça ambiental, ela é uma corrente que engloba um conjunto de princípios que garantam aos indivíduos, independente da classe social, gênero ou etnia, o acesso à natureza em seus cotidianos de vida. Além disso, a justiça ambiental também se propõe a pensar em práticas que minimizem os impactos ambientais negativos da ocupação humana no ambiente e, para tanto, busca legislações coerentes com esses propósitos. No mundo contemporâneo, as ideologias de proteção ambiental se tornaram muito frequentes nos discursos políticos e nas práticas para as cidades, onde projetos de intervenção urbana passam por avaliações quanto ao seu impacto ambiental, como previsto em Leis específicas (áreas de interesse ambiental, áreas de interesse social, etc.), mas que nem sempre são seguidas à risca. Apesar das três correntes apresentadas de certa forma, considerarem a natureza e a sociedade em patamares distintos, a que se refere a justiça social tem maiores possibilidades de sintetizar o que se espera para políticas urbanas futuras, devido ao seu caráter inclusivo. A partir de legislações ambientais que também tenham como objetivo a redistribuição social com equidade em relação ao acesso aos espaços verdes, colocando a natureza como fator de infraestrutura urbana importante para todas as camadas da população, se pode criar melhores bases para o oferecimento de condições dignas de habitação e acesso a demais infraestruturas, como saneamento básico (FREITAS, 2008, p. 7). No nível de políticas globais, um exemplo do ativismo ecológico social, pautado sobretudo na justiça ambiental, pode ser observado com a publicação do Relatório Brundtland23 em 1987, também intitulado Nosso Futuro Comum. Sob a supervisão da política norueguesa Gro Harlem Brundtland24, se pretendeu discutir o papel dos países desenvolvidos 23 É interessante observar que o relatório não condenava o desenvolvimento, mas sim a forma como ele ocorria. O principal objetivo era refletir sobre maneiras de garantir o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, garantir o equilíbrio dos sistemas naturais para sustentar as populações humanas no decorrer do tempo. 24 Ex-Primeira-ministra da Noruega. É uma política, diplomata e médica norueguesa, e uma líder internacional em desenvolvimento sustentável e saúde pública. Foi membro do Partido dos Trabalhadores da Noruega desde a 47 na degradação ambiental e na produção e perpetuação da pobreza em escala global. Na seção denominada common concerns25, o relatório buscou localizar as causas sociais e econômicas, além de propor novas visões para a ideia de desenvolvimento ao lado das questões ecológicas (BRUNDTLAND, 1987). Foi também neste documento onde foi cunhada a noção de desenvolvimento sustentável, segundo a qual “é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações” (BRUNDTLAND, 1987, p. 54, tradução livre). O relatório final foi um marco na produção literária cooperativa, envolvendo diversos países que trabalharam em conjunto para identificar as preocupações socioambientais nas mais distintas realidades sociais, climáticas e culturais (NEWMAN, 2011). Além disso, o Relatório Brundtland foi importante para pressionar à ONU no estabelecimento de um Programa de Ações para o Desenvolvimento Sustentável, para cumprir as diretrizes delineadas durante as etapas de pesquisa (NEWMAN, 2011). Outra relevância do documento reside no fato de ele ter aberto novos horizontes de diálogo sobre o meio ambiente num nível mundial, favorecendo as bases para a realização da Eco-92 (Cúpula da Terra), na cidade do Rio de Janeiro em 1992, evento que culminou na criação da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável naquele mesmo ano. sua juventude (Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Gro-Harlem-Brundtland>. Acesso em: 10 maio 2021). 25 Preocupações em comum (Tradução livre). https://www.britannica.com/biography/Gro-Harlem-Brundtland 48 2.3 ABRINDO ESPAÇO PARA A NATUREZA NA CIDADE CONTEMPORÂNEA No geral, a cidade, mesmo em toda a sua artificialidade, faz parte da natureza pelo simples fato de tudo o que existe no mundo ser natureza. Dentro desta perspectiva, Ellis e Ramankutty (2008, p. 439-441), apresentam a noção de biomas antropogênicos26, que identificam as paisagens produzidas pelas relações humanas no espaço (ELLIS; RAMANKUTTY, 2008, p. 439-441). Os autores discutem o fato de que é necessário situar as relações sociais mesmo nos mapas de cunho físico, sobre a “natureza”, tendo em vista que: Dos 6,4 bilhões de habitantes humanos da Terra, 40% vive em biomas de assentamentos densos (82% da população urbana), 40% vive em biomas de vilarejos (38% urbanos), 15% vivem em biomas de terras agrícolas (7% urbanos) e 5% vive em biomas de pastagem (5% urbano; dos quais os biomas florestais tem 0,6% da população global). Embora a maioria das pessoas viva em assentamentos densos e vilas, eles cobrem apenas 7% da área livre de gelo da Terra, e cerca de 60% desta população é urbana, vivendo em cidades e vilas embutidas nesses biomas (ELLIS; RAMANKUTTY, 2008, p. 439, tradução e grifo da autora). Dessa forma, a ideia de abrir espaço para a natureza nas urbes não significa considerar a cidade como uma entidade que não participa das dinâmicas biológicas planetárias, mas sim que é preciso relembrar cotidianamente através de medidas de gestão, planejamento urbano e educação ambiental a natureza urbana em todos os seus níveis, desde o ecológico até o sociocultural. E esse é justamente o debate trazido pelo geógrafo Marcelo Lopes de Souza em sua recente obra Ambientes e territórios: uma introdução à ecologia política (DE SOUZA, 2019). Segundo ele, o espaço urbano está imerso no complexo sistema naturogênico, no qual há interação entre fauna e flora, ciclos de hidrológicos e demais aspectos quepropiciam a nossa existência material neste planeta (DE SOUZA, 2019, p. 66). Porém, ele também afirma ser necessário identificar que a natureza das cidades produz situações biológicas distintas. Por exemplo: Mesmo que a chuva seja, em princípio, um processo naturogênico, e as substâncias contidas nas gotas da chuva sejam, em princípio, também naturogênicas, a chuva ácida é um produto da sociedade (e mais exatamente de processos e relações sociais específicos no contexto da sociedade industrial); embora a fauna e a flora urbanas sejam, enquanto tal, não produzidas pelo homem (descontadas todas as situações 26 Dentro do estudo realizado, os autores identificaram 21 tipos de biomas antropogênicos divididos dentro de 6 categorias (assentamentos densos, vilarejos, terra cultivada, pastagem, área florestal e wildland. (ELLIS; RAMANKUTTY, 2008, p. 441). 49 representadas pela seleção artificial que está por trás da seleção de nossos animais domésticos...), processos humano-sociais, como a poluição ambiental afetam todos os animais e plantas que existem em nossas cidades, acarretando fenômenos como o mimetismo e a busca de novos nichos ecológicos (DE SOUZA, 2019, p. 66). Dentro desse contexto, a autora Skjerve-Nielssen (2009) aborda que uma cidade sustentável é aquela que consegue colocar em equilíbrio o progresso em níveis econômicos, as características do meio ambiente e os aspectos socioculturais, por meio de processos de participação ativa de cada cidadão (SKJERVE-NIELSSEN, 2009). Em paralelo, Butters (2021), afirma que apesar do termo ter sido banalizado e apropriado de forma mercadológica no mundo contemporâneo, em essência, a palavra sustentável significa algo que tenha qualidade e meios para perdurar ao longo do tempo (BUTTERS, 2021, p. 2). Para tanto, no contexto urbano, sustentabilidade condiz com um ambiente com grande capacidade de resiliência, superando as crises e evitando os riscos de desastres ambientais para a população que o habita. O autor destaca também que existem alguns mitos envolvendo a sustentabilidade (BUTTERS, 2021), como se ela fosse algo difícil de ser alcançado ou apenas disponível para aqueles que possuem um nível econômico elevado, que possam custear o valor excessivo de produtos que ofereçam eficiência energética ou que foram feitos com materiais licenciados (como no caso de madeiras legalizadas), de qualidade e duradouros. Butters (2021, p. 2) compreende que o grande desafio para a sustentabilidade é, de fato, o modelo econômico vigente mundialmente, que impede a promoção de uma sociedade mais justa (BUTTERS, 2021). No entanto, ele também afirma que existem maneiras de se iniciar o alcance a tão almejada durabilidade das cidades com ações mais pontuais, a começar pela presença de espaços verdes urbanos, que garantam amenidades e oportunidades socioambientais na microescala de cada bairro27 (BUTTERS, 2021, p. 2-7). De maneira semelhante, Jaime Lerner (2003, p. 4), já havia argumentado que atitudes em locais estratégicos podem oferecer grande auxilio para a vida nos centros urbanos, fazendo uma analogia com as agulhas da prática da acupuntura chinesa, que perfuram pontos específicos na pele humana, com o intuito de ajudar na cura de doenças, pela criação de reações positivas em cadeia, que influenciarão outras áreas do corpo, num efeito dominó (LERNER, 2003, p. 4). Neste sentido, “abrir” espaço para a natureza urbana representa 27 Como no exemplo dos pocket parks, que são pequenos parques vistos como pontos verdes no tecido urbano. Eles podem funcionar como um complemento para parques maiores e também como elementos de sociabilidade em meio a natureza urbana no contexto dos bairros. Essas pequenas áreas urbanas podem prevenir desgastes físicos e mentais no dia a dia das cidades (NORDH; ØSTBY, 2013, p. 12-17). 50 justamente essa lógica de ações propositivas no nível local, como se fossem agulhas no espaço urbano, que tem a potencialidade de atingir outras áreas de outras cidades, como uma reação sistemática através do exemplo e da mudança de comportamento e perspectiva de gestão urbana. Isso pode ser visto nas atuais hortas comunitárias28, existentes em inúmeras realidades urbanas. De acordo com Twiss et al. (2003, p. 52), esse tipo de empreendimento também tem resultados para a saúde, uma vez que melhora a nutrição da população e possibilita a atividade física, promovendo o papel da saúde pública na melhoria da qualidade de vida. Por meio de iniciativas de jardins comunitários, as cidades são capazes de conceber políticas para terra interina e uso de água complementar, além de melhorar o acesso à produtos locais, elevando a consciência pública sobre a saúde coletiva, segurança alimentar, além de criar materiais educacionais e de treinamento culturalmente adequados e fortalecendo as habilidades de construção e cooperação da comunidade (TWISS et al., 2003). Em ideia complementar, Tonkiss (2013) analisa que o planejamento urbano num contexto de austeridade (econômica) pode ser um desafio, mas ao mesmo tempo, há vários graus onde o planejamento alternativo pode se concretizar também, dentre os quais os jardins e hortas urbanas são muito relevantes. Para ele, a jardinagem feita no espaço urbano demostra a persistência de um modo de pensar comunitário que insiste em se fazer presente mesmo em meio à uma lógica hegemônica dos espaços privados. Tonkiss analisa os diferentes modos de experimentação urbana que ajudam a “escapar” da maneira homogênea de se (re)produzir o espaço (TONKISS, 2013). Dessa forma, a criatividade encontra espaço de existência mesmo em momentos inóspitos à sua presença. Entretanto, é importante destacar que o autor também analisa como esses espaços criativos e alternativos podem acabar sendo apropriados pelo pensamento neoliberal, onde a diferenciação espacial, marcada pela multiculturalidade, contribui para a valorização de determinada área urbana, numa lógica mercadológica (TONKISS, 2013). É relevante pensar nesses dois contextos ao mesmo tempo, para que possamos compreender o que ocorre nos espaços a nossa volta e fazer proposições críticas a respeito. No mesmo momento em que é essencial que se tenha um planejamento urbano alternativo e em diálogo com a comunidade (até mesmo produzido por ela), também é preciso verificar quando esse planeamento é apropriado para vender uma imagem de cidade e quais as consequências disso para a comunidade presente no espaço. 28 Um outro exemplo são as Ecovilas. 51 Atitudes e projetos locais podem ocorrer nos espaços multifuncionais das cidades, aproveitando um mesmo ambiente para uma gama de atividades, que vão além das funções primárias para qual determinado lugar foi idealizado. De acordo com Araujo, Mello e Sbaffi (2019, p. 63), a cidade é um espaço por si só heterogêneo, formado por diferentes mosaicos que são vivenciados de maneiras distintas. Por isso, para as autoras, ademais o aspecto prático-funcional, a multifuncionalidade também significa que o espaço abrange dimensões materiais e subjetivas intercaladas, que ampliam o papel deles nas cidades e recuperam as vivências sociais dos habitantes (ARAUJO; MELLO; SBAFFI, 2019, p. 72). Neste aspecto, a Horta das Corujas, criada em 2012 e localizada numa praça pública na Zona Oeste de São Paulo, Brasil, é um exemplo de sucesso da multifuncionalidade da agricultura urbana numa grande metrópole. O espaço foi implementado através da organização dos moradores dos bairros da Vila Madalena, Vila Beatriz e Alto de Pinheiros, que começaram a conversar sobre o projeto por meio de uma página da internet chamada “Hortelões urbanos”. De acordo com Nagib (2019), o nome da horta comunitária se deve ao fato de a praça ser popularmente conhecida como “Praça das Corujas”, e o principal objetivo do empreendimento é de contribuir para reconectar os moradorese demais frequentadores da praça com à origem dos alimentos (NAGIB, 2019). Os moradores se revezam em trabalho voluntário para gerir o local, reconstruindo cursos d’água para irrigação e promovendo atividades de educação ambiental, utilizando as mais de 200 espécies de plantas alimentícias e medicinais presentes na horta. Sobre o aspecto comunitário e transcultural29 das hortas, Azevedo (2018, p. 116) complementa: A presença de uma horta, ou pequeno sítio em uma cidade pode ser considerada uma heterotopia30 na cidade moderna, mas antes do século XIX, hortas e até mesmo animais eram comuns nas cidades. Atualmente, movidas por novos agenciamentos, as hortas ressurgem como lazer ou como necessidade de subsistência em diversas paisagens urbanas. 29 Diferente de uma paisagem multicultural, na qual cada cultura compartilha uma mesma área geográfica, porém estabelece territórios distintos e separados (como no caso de bairros étnicos ou guetos), a paisagem transcultural é aquela que compreende uma nova síntese sociocultural no espaço. De acordo com Azevedo (2018, p. 115), a paisagem transcultural é “capaz da produção de singularidades e pertencimentos a partir da hibridização de elementos ou aspectos simbólicos associados a diferentes culturas, podendo superar ou mesmo diluir seus aspectos distintivos no conjunto”. 30 A heterotopia (hetero = outro + topia = espaço) é uma noção elaborada pelo filósofo Michel Foucault, que indica espaços que exercem a função da diferença. A heterotopia é uma utopia que se manifesta na vida real, e não apenas no imaginário. 52 Existem algumas ideias e conceitos que permeiam e possibilitam essas ações pontuais e a duração das cidades, dentre as quais podemos destacar: o reflorestamento e, como consequência a promoção de cidades biofílicas, o paisagismo ecológico, bem como a adoção de infraestruturas verdes e Soluções Baseadas na Natureza (SBNs). Sobre esses aspectos, Per Gunnar Røe e Mark Luccarelli (2016, p. 3) debatem que estão em ampla conexão com o surgimento do chamado Urbanismo Verde. Segundo os autores, essa corrente urbanística trabalha justamente com a relação entre o design urbano e a natureza, possibilitando a idealização e a construção de uma sensação de autoconsciência da cidade em seu contexto geográfico. Isto é, tanto a gestão, quanto o planejamento urbano passam a considerar medidas de gerenciamento que levem em conta o ambiente climático/natural no qual a cidade está inevitavelmente inserida, implementando ações de conservação dos recursos naturais e espaços verdes (RØE; LUCCARELLI, 2016, p. 1-5). Ainda segundo os autores, o discurso do Urbanismo Verde também se conecta à questões de cunho cultural, onde a terminologia “verde” remete às práticas culturais, influenciando a memória coletiva no contexto histórico da paisagem, tendo em vista que uma praça, um jardim, um parque, ou até mesmo uma árvore numa rua específica, enquanto componentes verdes do urbano, tem a potencialidade de guardar um valor simbólico, ligado às emoções e afetividades, para aqueles que por gerações vivenciaram situações diárias no local onde esses espaços verdes se encontram (RØE; LUCCARELLI, 2016). Além disso, a cor também pode estar associada a um determinado tipo de imagem da cidade a ser disseminada no nível da gestão urbana. Nesta perspectiva, quando pensamos numa cidade “verde”, imagens transitam pelo imaginário social e individual, identificando a cor à um aspecto do espaço que tem sido cada vez mais valorizado por suas características ecológicas e de sociabilidade para a duração das cidades. Um exemplo disso pode ser visualizado no prêmio “cidades/ capitais verdes” da Europa31, que por meio de critérios de seleção preestabelecidos, confere o título a cidades do continente europeu que tenham alcançado o patamar de manutenção dos espaços verdes em seu interior, além de outras medidas urbanísticas e energéticas para a mitigação do aquecimento global. Promover um sistema de premiações e reconhecimentos no nível internacional ao aspecto da natureza urbana, pode gerar também questionamentos e críticas com relação ao consumo do espaço. Neste sentido, é importante pensar os espaços verdes também dentro da 31 European Green Capitals. Disponível em: <https://ec.europa.eu/environment/europeangreencapital/winning- cities/>. Acesso em: 29 ago. 2021. 53 lógica capitalista. O maior desafio na busca por uma cidade durável e benéfica são os obstáculos econômicos (sobretudo no sul global), onde as cidades que obtém o título de sustentáveis (muitas vezes no norte global) passam a receber maiores investimentos de mercado, sendo a todo instante vendidas e consumidas como verdadeiros produtos do espaço capitalista. Essa crítica é feita sobretudo devido ao fato de que, em muitas ocasiões, cidades de países ricos recebem a titulação de sustentável ou verde, mas ao mesmo tempo, exportam insustentabilidade para outros contextos sociais, como no caso de indústrias multinacionais com sedes executivas nessas cidades, mas que produzem suas mercadorias em outros contextos socioambientais, não somente utilizando, como também poluindo os recursos naturais de localidades já há séculos deterioradas por contextos coloniais (LEFEBVRE, 2001, p. 116-117). Esse paradoxo não significa que as ações das cidades “verdes” para se tornarem sustentáveis não sejam benéficas na escala local, mas sim que, por vezes, também é necessário levar em conta as relações entre os sistemas urbanos globais. E nessa perspectiva, o atual sistema econômico teria de ser repensado para de fato promover sociedades mais justas (tanto socialmente, quanto ambientalmente). É interessante notar que nestes casos, o espaço urbano passa a ter um valor de uso e de troca que é incrementado pela presença do adjetivo verde. No contexto atual, as cidades passam a competir entre si, e se tornam a tal ponto protagonistas no mercado de investimentos que superam a noção do estado-nação, fato que levou a socióloga Saskia Sassen (2005) a produzir trabalhos sobre a denominada “cidade global”, na qual as dinâmicas e processos globais passam a ser territorializados nos grandes centros urbanos (SASSEN, 2005). 54 2.3.1 Natureza urbana Dentre as práticas contemporâneas de urbanismo que consagram a importância da natureza urbana, enquanto política ambiental, resultando em experiências que fortaleçam à preservação ambiental, o Urbanismo Ecológico surgiu como uma maneira de impulsionar as ideias já abordadas pelo Urbanismo Verde, no sentido de promover pesquisas teóricas e práticas que identifiquem os aspectos geográficos e ecológicos de uma determinada área, para promover uma maior união entre o espaço natural concreto e a ocupação urbana, além de uma maior conectividade entre os diversos elementos de natureza urbana presente nas cidades, tornando-as mais resilientes e biodiversas (vide Figura 7). Figura 7: Práticas urbanas aliadas a ecologia urbana e ao pensamento sistêmico. Fonte: Adaptado pela autora a partir de esquema do Ecological design Lab. Para tanto, em 2014, Gareth Doherty e Mohsen Mostafavi32 reuniram no livro “Urbanismo Ecológico”, autores que refletiram sobre sete premissas 1) Antecipar, 2) Colaborar, 3) Sentir, 4) Incluir, 5) Mobilizar, 6) Curar, 7) Adaptar; que ajudam a situar o debate e a pensar no espaço urbano em conexão com a comunidade e o ambiente biogeográfico (DOHERTY; MOHSEN, 2014). O livro foi (e tem sido) de grande base para pesquisas urbanísticas da atualidade, demostrando que o projeto é a síntese capaz de unir os 32 Graduate School of Design, Universidade de Harvard. 55 princípios ecológicos, o urbanismo e as relações políticas e socioculturais na promoção de cidades mais sustentáveis. Por antecipar, os autores consideram prever os tiposde desafios socioambientais de uma determinada área, na qual pode-se projetar em conjunto com a colaboração da comunidade, que vivência e sente o lugar no dia- a dia. Dessa maneira, a inclusão social possibilita uma maior mobilização e engajamento. A população aprende mais sobre seu local de moradia, além de ter voz para ensinar conhecimentos já adquiridos ao longo do tempo também. Essa troca de informações permite a cura e a adaptação, que se relacionam a resiliência urbana. Ainda neste raciocínio, segundo a arquiteta paisagista Patrícia Akinaga (2014), o urbanismo ecológico surgiu em oposição ao denominado “Novo Urbanismo” dos Estados Unidos da década de 1980, cujo planejamento urbano era pautado para o automóvel e os edifícios multifamiliares numa lógica de densidade de serviços e moradias (AKINAGA, 2014). Já o Urbanismo Ecológico apareceu ao final do século XX e início do século XXI, como consequência dos debates ambientais do período. É interessante refletir que os pesquisadores do Urbanismo Ecológico (e urbanismo verde) resgatam ideias como as de Frederik Law Olmstead ou Ian McHarg no pós-guerra, no que tange ao desenho urbano seguir o delineamento da natureza. Isso também foi refletido por Per Hedfors e Clas Florgård (RØE, 2016, p. 197), que identificaram a relevância desses autores clássicos, pois ambos trouxeram conceitos-chave como agricultura e silvicultura, tecnologia, sociologia, conhecimento da natureza, arte e design para o planejamento urbano do século XX. Neste contexto, a ocupação do espaço urbano passa a englobar espaços verdes não somente como acessório ligado à beleza estética, mas principalmente no sentido de utilizar o espaço verde como estruturador da paisagem urbana, por meio de ferramentas da infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza (SBN). Algumas das infraestruturas verdes existentes atualmente são: paredes verdes, arborização, parques, praças e telhados verdes. Já as Soluções Baseadas na Natureza são práticas inspiradas na forma de agir típica da natureza. Isto é, a diferença entre os dois tipos de ferramentas consiste no fato de as SBNs tentarem mimetizar o funcionamento do sistema ecológico local, por seus próprios meios. Um exemplo disso são as construções de superfícies permeáveis e úmidas, que permitem um maior escoamento da água, como os jardins de chuva em área alagáveis. Com relação ao papel especifico dos jardins urbanos em termos de ecologia para as cidades, um autor que vem se destacando é o britânico Matt James, com seu conhecimento 56 prático sobre paisagismo e jardinagem. De acordo com James (2014:p.11), existem seis aspectos positivos em se considerar o “verde” dentro da estrutura urbana: 1. Combater os malefícios do carbono em excesso, pois as folhas podem deter impurezas vindas com a poluição gerada por fábricas e veículos, de forma a dissolver essas impurezas no solo, com a ajuda da água das chuvas. Além disso, a vegetação também tem a capacidade de capturar grandes quantidades de gás carbônico no processo chamado fotossíntese, liberando oxigênio para a atmosfera; 2. Melhorar o microclima urbano, pois a vegetação reflete a radiação solar, ao invés de a absorver (como ocorre em lugares intensamente asfaltados e com concreto, provocando ilhas de calor). Além disso, as árvores propiciam áreas sombreadas, de inegável redução térmica, auxiliando em lugares mais frescos para as cidades; 3. Prevenir enchentes e garantir uma melhor gestão da água da chuva, uma vez que “o solo e a relva absorvem água da chuva, ajudando a reduzir alagamentos localizados. As plantas, especialmente as árvores, interceptam a chuva e desaceleram sua descida ao solo, o que, por sua vez, alivia a pressão sobre bueiros” (JAMES, 2014:p.12). Para isso, a manutenção da drenagem do solo é essencial, a fim de que ele não se torne compactado. 4. Reduzir custos energéticos e melhorar o isolamento térmico, pois a vegetação tem a capacidade de, ao mesmo tempo, resfriar edificações no verão e as aquecer no inverno, o que representa uma redução no uso de ar condicionados e aquecedores; 5. Conservar a água; tendo em vista as variadas formas de reciclagem hídrica num jardim (aproveitamento da água da chuva, direcionamento de água limpa proveniente de outros setores da cidade...); 6. Propiciar espaço para a biodiversidade da fauna e flora urbana, pois o ambiente dos jardins é um ecossistema propício a existência de diversos tipos de 57 aves, insetos e outros animais essenciais para o equilíbrio ecológico e, até mesmo, para a nossa segurança alimentar (a garantia da diversidade genética por meio da polinização das plantas, por exemplo). James (2014, p. 15) enfatiza que, dependendo do tamanho e das características biogeográficas, “os jardins urbanos podem sustentar mais de 250 espécies de animais silvestres”. A partir dessas características, podemos observar que a presença da natureza urbana propicia benefícios que se multiplicam quando são planejados em conjunto no espaço urbano. Neste sentido, um grande nome no campo do paisagismo ecológico contemporâneo se refere ao chinês Kongjian Yu33 , que por mais de 20 anos vem estudando sobre a deterioração ambiental na China. YU tem várias publicações interessantes, como Padrão de Segurança Ecológica (1995) e Infraestrutura Ecológica, Planejamento Negativo e Cidades Esponja (2003), tendo esta última sido acolhida pelo governo chinês para implementar um sistema de restauração ecológica por todo o país. Além disso, Kongjian Yu também publicou em 2006 a obra “The art of survival: Positioning Contemporary Landscape Architecture Design”, na qual ele aborda os desafios impostos pela industrialização chinesa e como os conhecimentos milenares da China podem contribuir para o planejamento urbano atual, tendo em vista que a formação do país na Antiguidade está relacionada às plantações alagadiças do arroz. Neste sentido, Yu associa esses ambientes ancestrais ao desenvolvimento das cidades esponja, que utilizam o paisagismo ecológico para promover uma melhor vivência com os corpos d’água. Por isso, o autor afirma que a profissão de arquiteto paisagista confere a possibilidade de 1) Encontrar soluções para as crises energética e ambiental; 2) recuperar a identidade cultural de determinada área e; 3) aumentar nossa conexão espiritual com a terra (YU, 2006, p. 7). Um de seus projetos mais internacionalmente conhecidos é o do Red Ribbon Park34 na cidade de Qinhuangdao, localizado na área de 20 hectares de um antigo lixão a céu aberto. A construção foi um marco, pois utilizou o recurso visual da cor vermelha na idealização de um banco de fibra de vidro que permeia o parque de norte a sul, possibilitando que os frequentadores sigam “a fita vermelha”, que por sua vez acompanha o curso do rio no interior do parque, cuja mata ciliar foi restruturada (Figuras 8 e 9). Ademais, o local também funciona 33 Fundador de Turenscape, uma das primeiras e maiores empresas privadas de arquitetura paisagística e urbanismo da China. 34 Mais informações sobre este e outros projetos do Turenscape: https://www.turenscape.com/en/project/detail/336.html https://www.turenscape.com/en/project/detail/336.html 58 como ponto de encontro entre as pessoas, que podem sentar no banco para descansar e conversar em meio às densas árvores no entorno. Figura 8: Red Ribbon Park, Qinhuangdao, China. Fonte: Turenscape. Figura 9: Mulher admirando as flores no Red Ribbon Park, Qinhuangdao, China. Fonte: Turenscape. Em análise complementar, os rios urbanos também são amplamente importantes para a temática do urbanismo ecológico. Na reportagem publicada pela revista Ciência e Cultura (2013), a engenheira agrônoma Leonor Assad destaca que o desenvolvimento das cidades no Brasil, assim como em outras realidades pelo mundo, ocorreua partir de seus rios, mas esse 59 conhecimento é pouco difundido, tendo em vista o descaso com os corpos d’água, que muitas vezes se encontram deteriorados pela poluição, bem como escondidos pela canalização ou até mesmo desmantelados35. Por esta razão, é crescente o volume de pesquisas sobre a história das cidades e de seus rios, que tentam resgatar a memória desses corpos hídricos por meio de práticas envolvendo diretamente o paisagismo ecológico e a educação ambiental. Um exemplo disso é o caso do rio Cheonggyecheon, localizado em Seul na Coréia do Sul. Em coreano, a palavra que nomeia este rio significa águas puras e, durante séculos, ele serviu de abastecimento às pessoas que moravam em seu entorno (PANZINI, 2013). No entanto, no século XX, com a separação entre a Coreia do Norte e a do Sul, após a Segunda Guerra Mundial, as margens do rio receberam diversos imigrantes que se instalaram na cidade de Seul, expandindo a densidade demográfica em níveis extremos, num contexto de falta de investimentos que ocasionou em moradias irregulares, em condições insalubres e sem saneamento básico no local (PANZINI, 2013). Na década de 1970, após o rio ter ficado poluído, as autoridades de gestão pública decidiram construir um viaduto e uma avenida, removendo a população que ali habitava, pois o aspecto deplorável do corpo hídrico não condizia com o processo de modernização que estava em curso na cidade. Dessa forma, o rio foi completamente desfeito, com obras de engenharia. Entretanto, no ano de 2002 o prefeito da cidade de Seul iniciou um processo de revitalização, retirando o viaduto e a avenida por meio de um projeto paisagístico que se pautou em reconhecer a ecologia local e resgatar o curso d’água através de uma nova canalização que permitisse aos habitantes da cidade um contato mais íntimo com este espaço. A obra foi finalizada em 2005, e é considerada um lócus da biodiversidade urbana (PANZINI, 2013). Atualmente a área nas margens do Cheonggyecheon é marcada pela presença da mata ciliar, além de um parque linear de 8km de extensão, no qual ocorrem diversos eventos sociais. Além disso, as pessoas podem caminhar do centro à periferia da cidade, seguindo o caminho do rio. 35 Em “Cidades nascem abraçadas a seus rios, mas lhes viram as costas no crescimento” (ASSAD, 2013). 60 Figura 10: Drenagem urbana sustentável e cobertura vegetal no Cheonggyecheon, Seul. Fonte: Depositphotos (c2009-2022). Figura 11: Festival das lanternas no Cheonggyecheon, Seul. Fonte: Expedia (c2022). No contexto brasileiro, o conceito de ecogênese praticado por Fernando Chacel na década de 1990, também se relaciona às práticas do paisagismo ecológico da atualidade. Ecogênese se refere a reconstituir os ecossistemas que passaram por algum tipo de distúrbio ou degradação, fazendo com que espaços como os jardins, por exemplo, tenham espécies vegetais organizadas em harmonia com o seu habitat de origem, com o intuito da regeneração (PANZINI, 2013, p. 640). Para a ecogênese ser posta em ação, Chacel reunia uma equipe multidisciplinar, com profissionais de diversas áreas e campos do saber. Segundo Panzini (2013, p. 644), um de seus mais expoentes trabalhos ocorreu nas margens da lagoa da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde Chacel criou dois parques: Gleba (1990) e Professor Mello Barreto (1998). Foi um desafio bem sucedido, pois o paisagista e sua 61 equipe conseguiram recuperar a margem da lagoa, através da reintrodução da cobertura vegetal (PANZINI, 2013, p. 644). Figura 12: Parque ambiental Professor Mello Barreto, Barra da Tijuca-RJ. Fonte: Wikimapia (s.f.). Figura 13: Vegetação no Parque ambiental Professor Mello Barreto- Barra da Tijuca-RJ. Fonte: Ecogênese (2015). Além disso, a vegetação contribuiu para restabelecer as dinâmicas ecossistêmicas da área pantanosa no entorno da lagoa, bem como criar um caminho de transição entre a lagoa e a parte edificada (PANZINI, 2013). Atualmente o parque serve também como lugar de educação ambiental, oferecendo inúmeras atividades sociais na Barra da Tijuca, como pode ser visto nas Figuras 12 e 13. 62 2.3.2 Cidades biofílicas: o lugar da natureza urbana no imaginário urbano emergente Dentro do contexto da ecologia e das práticas urbanas, existe também a dimensão psicológica e subjetiva que conecta cada indivíduo ao espaço no qual ele vive e transita. Para o Geógrafo francês Eric Dardel (1899-1967), isso condiz com a realidade geográfica, que é o lugar concreto das vivências do ser humano, “terras que ele pisa ou onde trabalha, o horizonte do seu vale, ou a sua rua, o seu bairro, seus deslocamentos cotidianos através da cidade” (DARDEL, 1990, p. 34). Ainda de acordo com o geógrafo, essa multiplicidade de vivências por meio dos elementos geográficos, encontram na paisagem, a sua síntese: “Muito mais do que uma justaposição de detalhes pitorescos, a paisagem é um conjunto, uma convergência, um momento vivido, uma ligação interna, uma impressão, que une todos os elementos” (DARDEL, 1990, p. 30). Em 2001, a Geógrafa Lívia de Oliveira escreveu sobre essas questões, em seu artigo “Percepção do meio ambiente e Geografia” (DE OLIVEIRA, 2001). Nele, ela enfatiza os primeiros esforços mundiais em compreender “como um grupo cultural percebe, quer como indivíduo, quer como grupo o seu meio ambiente” (DE OLIVEIRA, 2001, p. 15), através do trabalho da UNESCO no projeto Man and the biosphere, em colaboração com os intelectuais Ian Burton e Anne Whyte, resultando na primeira publicação do gênero: Environmental Perception Research, nas décadas de 1970-1980. É interessante notar que justamente essa dimensão subjetiva possibilita compreendermos que não existe paisagem sem o ser humano, pois é ele quem confere sentido ao seu espaço geográfico. A isso Dardel denominou de geograficidade (1990, p. 31), ou seja, a materialização das relações sociais no espaço concreto que formam as paisagens que conhecemos (e as que ainda conheceremos). Nesta lógica, existe uma relação dialética entre sociedade e espaço, na qual as dinâmicas sociais produzem o espaço, mas ao mesmo tempo, o espaço produz a sociedade, pois ele pode influenciar em novas maneiras de vida, adaptadas à determinada realidade física (como é o caso da concepção das cidades resilientes, por exemplo, no qual a gestão pública, planejadores e habitantes devem se adaptar ao contexto ambiental, evitando riscos para a população). Sobre isso, De Oliveira (2001, p. 18) afirma: Deve-se considerar a paisagem inseparável da observação e da cognição. Na paisagem o sujeito e o objeto são inseparáveis, não apenas porque o objeto espacial 63 é constituído pelo sujeito, mas também, porque o sujeito está envolvido pela paisagem; isto é, o sujeito está envolvido por e está dentro da paisagem. Em paralelo, Besse (2014, p. 41-42) afirma que “a paisagem é o elemento onde a humanidade se naturaliza e onde a natureza se humaniza (e se simboliza)”. Neste sentido, o autor, assim como outras referências trazidas nos subitens anteriores, identifica que a paisagem é o meio pelo qual uma outra natureza (ou segunda natureza, de acordo com Santos, 1992), simbólica, é constituída como produto das relações socioambientais. Dessa forma, as cidades, enquanto paisagens urbanas, representam a concretude dessas relações e possibilitam sentimentos de filia36 aos seus cidadãos. Neste contexto, o termo cidades biofílicas, apresentado por Timothy Beatley (2011)37, no livro “Biophilic Cities: Integrating Nature into Urban Design and Planning”, é interessante, pois o autor considera as relações de filia sob outra perspectiva no espaço urbano, indo além da filia com determinado espaço concreto (como no caso de topofilia), mas especificando o elo sentimental com a natureza urbana/ espaços verdes. Cabedestacar que o termo biofilia significa originalmente amor pela vida e foi pensado por Edward O. Wilson38, ecologista norte-americano, em 1984. Em sua obra, Beatley (2011, p. 51) discute sobre como o desenho urbano pode possibilitar aos habitantes desenvolverem atividades ao ar livre, em meio à vegetação e corpos hídricos, além de oferecer um estilo de vida que os deixe aprender com a “natureza” e a comprometer-se com ela. Por isso, proporcionar a experiência dos cidadãos na natureza urbana é benéfico para o desenvolvimento da biofilia na paisagem das cidades contemporâneas. Beatley (2011, p. 50) também afirma que uma cidade biofílica é aquela cuja a gestão e os demais agentes sociais enxergam o acesso à natureza urbana através da ótica da justiça ambiental, na qual a natureza é vista como essencial para se ter uma vida significativa e feliz e, por isso, é um direito de todos os bairros, sem distinção social e econômica. Uma cidade biofílica encoraja seus habitantes a caminhar pelas ruas, exercitando a percepção ambiental por meio da imersão da vegetação aliada ao urbanismo. Sobre este aspecto, o autor argumenta 36 Philia retirado do tratado de Ética a Nicômaco de Aristóteles, o termo é traduzido geralmente como “amizade”, e às vezes também como “amor”. Embora de fato o uso deste termo é muito mais amplo do que o primeiro. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Philia>. Acesso em: 2 set. 2021. 37 Timothy Beatley ajudou a criar a rede de Cidades Biofílicas, em um projeto que inclui 8 cidades do mundo. São elas: Singapura; Vitoria-Gasteiz, Espanha; Oslo, Noruega; Portland, EUA; São Francisco, EUA; Birmingham, Inglaterra; Nova Iorque, EUA; Seattle, EUA. 38 (BEATLEY, 2011 apud RØE; LUCCARELLI, 2016). https://pt.wikipedia.org/wiki/Philia 64 que “a habilidade de andar a pé ou de bicicleta, ou de transitar por um parque ou floresta urbana é essencial” (BEATLEY, 2011, p. 50, tradução livre). Em análise semelhante, Besse (2014) afirma que a paisagem é o que nos permite produzir o encontro entre a “cidade” e a “natureza”. De acordo com o autor: As preocupações ecológicas e ambientais são hoje determinantes, como sabemos. A natureza já não significa mais apenas o “outro” da cidade, essa coisa verde mais ou menos selvagem que é encontrada no exterior do universo urbano. A natureza está na cidade, e está presente por um lado, na forma de preocupações quanto à qualidade das águas e do ar, por exemplo, por outro lado na forma de projetos de parques e jardins públicos e, enfim, na forma de reflexões e experiências relativas à diversidade das essências vegetais que podem ser instaladas nela de forma sustentável. Em outros termos, a cidade é, hoje, um meio natural híbrido, de um tipo particular (BESSE, 2014, p. 58-59). Em complementação, Beatley (2011), identifica 6 princípios39 norteadores das cidades biofílicas: • 1º Princípio: Natureza em abundância localizada próxima a um grande número de habitantes; • 2º Princípio: Conexão dos cidadãos com flora e fauna nativas; • 3º Princípio: Interligar espaços ao ar livre promovendo e facilitando o uso da população; • 4º Princípio: Ambientes multissensoriais; • 5º Princípio: Educação no campo da natureza; • 6º Princípio: Investimento em infraestrutura que favoreça a conexão entre cidade e natureza. Portanto, no contexto dessa pesquisa, a biofilia no meio urbano, pressupõe que a paisagem nas cidades seja formada em conjunto com elementos da natureza urbana, que propiciarão uma percepção ambiental distinta no nível do espaço vivido. Com relação a este aspecto, em sua obra clássica The experience of nature, os autores Rachel e Stephen Kaplan (1989), explicam através de exemplos e entrevistas, as experiências com a natureza em diversos cenários, destacando que muitas vezes no imaginário social, a natureza, é vista como um ambiente natural sem edifícios, distante das cidades. Apesar do livro ter sido escrito no 39 Disponível em: <https://wikihaus.com.br/blog/cidade-biofilica-integrando-natureza-ao-planejamento- urbano/>. Acesso em: 3 set. 2021. https://wikihaus.com.br/blog/cidade-biofilica-integrando-natureza-ao-planejamento-urbano/ https://wikihaus.com.br/blog/cidade-biofilica-integrando-natureza-ao-planejamento-urbano/ 65 final do século passado, este pensamento ainda se encontra presente na sociedade atual, e ele vai em oposição às ideias da cidade biofílica. Por exemplo, no livro Habitar, do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa (2017, p. 51-54), ele argumenta que: Parques e praças silenciam o murmúrio contínuo da cidade, permitindo que escutemos o som da água em uma fonte ou o gorjeio dos pássaros. Os parques criam um oásis no deserto urbano e nos possibilitam sentir a fragrância das flores e o aroma das ervas. Eles tornam possível que estejamos simultaneamente rodeados pela cidade e fora dela; são metáforas da ausência da cidade e, ao mesmo tempo, naturezas em miniatura e imagens de um paraíso construído (PALLASMAA, 2017, p. 52, grifo da autora). É interessante notar que Pallasmaa (2017), considera um espaço verde como o parque, como ausência de cidade. Essa é uma percepção individual do autor, com base em suas leituras e suas experiências cotidianas, e também é válida. No entanto, não representa os esforços do conceito de cidades biofílicas em trazer a “natureza” de fato para a consciência da população que vive nas cidades, estas que são e produzem uma forma específica de natureza urbana. Neste sentido, Kaplan e Kaplan (1989) abordam a separação ser humano e natureza presente na cultura ocidental, na qual um ambiente urbano, e por sua vez repleto de construções, por vezes não representa na consciência coletiva, a natureza. Sobre isso, os autores argumentam: A justaposição de uma natureza próxima ao local de moradia atinge algumas pessoas como uma contradição. A palavra natureza é frequentemente reservada para áreas que não foram afetadas por influência humana e que tem árvores e outras vegetações numa extensão considerável. O que está próximo para a maioria das pessoas, na maioria das vezes, dificilmente poderia ser descrito sem influência humana e é improvável que sejam áreas vastas. No entanto, a vegetação pode muito bem estar presente, e talvez essa característica em si mesma se qualifique para a designação de "natureza", mesmo que esteja à porta da casa de alguém. As questões aqui não são simplesmente semânticas. O fracasso em reconhecer as satisfações e benefícios que o ambiente natural próximo ao local de moradia pode oferecer tem consequências importantes. Isso significa que muitas vezes o paisagismo é considerado apenas uma "amenidade" opcional e supérflua. Ter 66 coisas verdes por perto é inegavelmente agradável, mas muitas vezes é considerado menos essencial no contexto de muitas paisagens urbanas (KAPLAN; KAPLAN, 1989, p. 150, tradução livre). Ao longo do livro, os pesquisadores mostram evidências com bases em trabalhos de campo e entrevistas, de como a presença da natureza urbana é vital para o bem-estar físico e mental das pessoas nas cidades, estando amplamente conectada à percepção e experiência. E, por isso, a cobertura vegetal, os corpos d’água e demais elementos devem ser considerados como estruturadores da paisagem urbana, não somente por oferecer amenidades, ou tornar determinada cidade sustentável e resiliente, mas também, pelos aspectos psicológicos que interferem na qualidade de vida de cada cidadão. A seguir são apresentadas algumas imagens, com exemplos de biofilia por lugares onde passei. São fotografias que representam como a natureza urbana está presente no cotidiano, moldando nossas paisagens urbanas. A primeira série de fotos é das cidades do Rio de Janeiro e Niterói, Brasil. E foram tiradas pelos caminhos urbanos que percorri cotidianamente entre 2014 e 2020, seja para ir àuniversidade, seja a vista da minha janela durante o isolamento social na pandemia. São contextos urbanos nos quais a presença de espaços verdes se torna essencial para a percepção de diferentes aspectos tais como: perceber a mudança das estações, a floração de uma árvore, o barulho dos pássaros, o vento a levantar as folhas do chão e os raios de sol a incidir nas árvores, por exemplo. Figura 14: Exemplos de biofilia na cidade do Rio de Janeiro e Niterói-Brasil. Fonte: Arquivo pessoal. 67 Figura 15: Exemplos de biofilia (verão-2019) em Oslo, na Noruega. Fonte: Arquivo pessoal. A segunda série de fotos, representa exemplos de biofilia na cidade de Oslo, Noruega. Também foram tiradas por lugares onde percorri durante o verão de 2019 (junho-agosto). O rio Akerselva, com suas águas, é como uma divisão entre a parte oeste e leste da cidade. O metrô percorre espaços a céu aberto, por meio de florestas urbanas (Oslomarka), algumas construções pela cidade são cobertas por vegetação, possibilitando interpretar a arquitetura e natureza em uma síntese. 68 CAPÍTULO 3: UMA VISÃO SOCIOCULTURAL DA NATUREZA URBANA EM OSLO, NORUEGA E RIO DE JANEIRO, BRASIL Como foi visto ao longo do capítulo 2, as relações espaciais de modificação do ambiente natural ocorreram progressivamente, sendo parte da história humana num movimento que perpassa diversos períodos históricos. A perspectiva analítica abordada nesta pesquisa, delimitou um recorte temporal a partir do século XIX, analisando a lógica de incorporação dos espaços ditos naturais aos processos de urbanização e industrialização de alguns países afluentes do norte global, e posterior disseminação cultural e econômica do modelo desenvolvimentista para outras realidades planetárias, que se adaptaram de acordo com suas próprias culturas e modos de funcionamento político-social. Refletir sobre o termo sociocultural é essencial para compreender os fenômenos que envolvem os componentes sociais e culturais de uma determinada comunidade. Sendo assim, neste capítulo 3, buscou-se investigar os componentes socioculturais40, presentes nas realidades urbanas de Oslo e do Rio de Janeiro, a fim de analisar como eles contribuíram e contribuem para a organização social e espacial das duas cidades, influenciando tanto na constituição da paisagem, como também em alguns dos significados sociais dos espaços verdes. 40 Tais como os espaços verdes e as tradições populares que os permeiam; as Leis referentes a gestão e planejamento da vegetação no meio urbano; alguns termos linguísticos que simbolizam a conexão entre a população urbana e a natureza, e como a gestão urbana utiliza a natureza em benefício da imagem da cidade. 69 3.1 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DE OSLO A Noruega é um país do norte europeu que, conjuntamente com a Dinamarca e a Suécia, forma a península da Escandinávia. Com pouco mais de 5 milhões de habitantes, a Noruega é marcada pela presença de um longo e rigoroso inverno e verões curtos e amenos. O país possui uma vasta extensão de norte a sul, e a sua zona costeira abrange cerca de 103,000 quilômetros de comprimento, sendo considerada a segunda maior do mundo 41. Sua capital, a cidade de Oslo42, situada no sudeste do país, conta com uma população de aproximadamente 680.000 habitantes de acordo com o censo de 201943. Localizada numa das extremidades do fiorde44, Oslo possui uma ampla relação com o ambiente geográfico do qual faz parte e, no passado, a cidade foi gradualmente se constituindo por intermédio dos seus rios e córregos para o transporte da madeira retirada da floresta, produto esse que foi, durante muito tempo, a base econômica local, tendo em vista que era um artefato essencial para a construção das casas e dos navios, além de ter sido uma importante fonte energética (SYSE, 2016). No geral, as florestas já possuíam grande relevância para a Noruega, desde muitos séculos. Até mesmo devido a característica geográfica do país, com inúmeras áreas montanhosas e de difícil acesso, a urbanização ocorreu de maneira tardia, fragmentada e concentrada em pequenos núcleos, onde as florestas e os rios eram o único caminho de ligação entre os vilarejos nas regiões mais interioranas. Entretanto, foi com Henrik Ibsen (1828-1906), poeta e dramaturgo norueguês, que o conceito de frilufsliv aprofundou a importância da natureza no contexto social da nação em formação (ELGVIN, 2009). De acordo com Elgvin (2009), numa tradução literal para outros idiomas, frilufstliv diz respeito a “vida ao ar livre”, porém esse termo significa muito mais do que isso: É uma total apreciação da experiência que alguém tem ao se comunicar com o ambiente natural, não por esporte ou recreação, mas por seu valor no 41 Disponível em: <https://www.norwegianamerican.com/norway-is-longer-than-you-think/>. Acesso em: 20 jun. 2021. 42 Oslo foi fundada como uma cidade no final da Era Viking no ano de 1040 com o nome de Ánslo. Depois de ser destruída por um incêndio em 1624, durante o reinado do rei Christian IV, uma nova cidade foi construída mais perto da Fortaleza de Akershus e batizada de Christiania em homenagem ao rei. E em 1925, a cidade recebeu o nome de Oslo (https://www.nasjonalmuseet.no/). 43 Disponível em:<https://ec.europa.eu/environment/europeangreencapital/winning-cities/2019-oslo/>. 44 Oslofjorden: O Fiorde de Oslo é uma grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas, que vai do Skagerrak aproximadamente na direção norte até a cidade de Oslo. O Oslofjord exterior vai do farol Færder no sul até Hurumlandet, onde o fiorde se divide em Drammensfjord e no interior Oslofjord (Original em: https://snl.no/Oslofjorden). https://www.nasjonalmuseet.no/ https://snl.no/Oslofjorden 70 desenvolvimento de todo o ser espiritual e físico. Frilufstliv é a plena identificação e realização do corpo e da alma que uma pessoa experimenta quando imerso na natureza afastada dos núcleos urbanos. (...) (ELGVIN, 2009, p. 1, tradução livre e grifo da autora). No legado literário de Ibsen, o poeta retratou a natureza de maneira a identificar nela as emoções humanas. Além disso, sua obra, como parte do movimento realista, também descrevia minuciosamente o ambiente, destacando a importância do friluftsliv para a constituição física e mental de seus personagens, influenciando a forma como seus leitores se identificavam com a história (ELGVIN, 2009). Da literatura, este termo foi levado para a pintura, na qual um grande expoente foi o artista e horticultor Nikolai Astrup (1880–1928), que se dedicou a representar o meio ambiente em sua terra natal, Jølster (região oeste do país), com cores fortes e expressivas, de modo a transmitir através de suas pinturas, a vibrante vida ao ar livre e os costumes45 da área rural.46 Em 1900, foi a vez do explorador e cientista Fridtjof Nansen popularizar ainda mais a noção de friluftsliv, ao retornar de uma expedição científica ao polo norte e publicar seus testemunhos de viagem numa série de livros (SAMUELSEN, 2010). Nessa perspectiva e de acordo com o site oficial da enciclopédia norueguesa47: A sua apresentação clara e lógica é sustentada em todas estas obras por uma série de desenhos que, para além de serem tecnicamente bons, também testemunham um bom sentido da forma e um profundo sentido da natureza. Com Friluftsliv (1916) Nansen quis despertar nos jovens o desejo de viajar pelas montanhas e pelos campos (LEKSIKON…, 2021, tradução livre). Apesar de, em sua essência, o friluftsliv, representar uma experiência transcendental entre o ser humano e o meio, numa natureza localizada distante das fronteiras urbanas, o termo foi ganhando espaço na cultura diária do país, sendo relacionado também às experiências com a natureza urbana. Neste sentido, autores como Skjeggedal,Vistad e Thorén (2019, p. 2-3), abordam o fato do friluftsliv contemporâneo englobar os espaços intraurbanos, como os parques públicos, as praças e os locais de caminhada (SKJEGGEDAL; VISTAD; THORÉN, 2019, p. 2-3). 45 Midsommer fetivalen- O festival do solstício de verão, foi uma grande temática em suas obras. 46 Disponível em: <https://www.clarkart.edu/exhibition/detail/nikolai-astrup>. Acesso em: 20 jun. 2021. 47 Disponível em: <https://snl.no/Fridtjof_Nansen>. Acesso em: 20 jun. 2021. 71 Na recente publicação (2019) Planlegging for nærtur og folkehelse48, os autores consideram que as cidades norueguesas devem ter um planejamento urbano que dedique mais espaço para a caminhabilidade em meio a vegetação, facilitando e estimulando o deslocamento a pé nas proximidades dos locais de residência (SKJEGGEDAL; VISTAD; THORÉN, 2019, p.2-3). Dessa maneira, a vegetação seria um tipo de atrativo no meio urbano, uma maneira de exercer o friluftsliv cotidianamente, para que as pessoas se sintam confortáveis em percorrer suas distâncias, permeadas de infraestruturas verdes e, sem necessariamente a utilização de automóveis, por exemplo (SKJEGGEDAL; VISTAD; THORÉN, 2019). Somando-se a isso, Nilsen (2008, p. 11), discute no artigo Children in nature: Cultural ideas and social practices in Norway49, que o estímulo à natureza no contexto norueguês, é algo presente desde a infância, onde as práticas sociais num processo de (re) produção cultural consideram as crianças e os jovens como essenciais tanto na valorização da natureza, quanto na propagação de conhecimentos sobre a geografia local (NILSEN, 2008). A autora debate a existência do Livro Branco50 do Ministério do Meio Ambiente da Noruega que trouxe o friluftsliv para o debate parlamentar nos anos 2000 relacionado a essa temática: As questões ambientais e de saúde estão no topo da agenda. Por exemplo, afirma-se que o governo trabalhará para ‘aumentar as oportunidades de crianças e jovens de se desenvolverem física, mental e socialmente, brincando, caminhando e experimentando a natureza (...). (NILSEN, 2008, p. 11, tradução livre). Neste sentido, toda essa a cultura de acesso aos espaços florestados, além do passado agrário do país, influenciou no contexto histórico que propiciou a criação de uma ampla rede de espaços verdes na malha urbana de Oslo, que se desenvolveu sobretudo no século XX. Idealizada, principalmente, a partir dos movimentos nacionalistas e românticos, que pretendiam materializar no espaço urbano a essencialidade da nacionalidade norueguesa (SYSE, 2016). Em complementação, Røe e Luccarelli (2016, p. 2, tradução livre) argumentam que: 48 “Planejando para a caminhada e a saúde pública”, tradução livre. 49 “Crianças na natureza: ideias culturais e práticas sociais na Noruega”, tradução livre. 50 É importante destacar que a cultura norueguesa preza pela construção da independência das crianças frente às adversidades diárias. E isso se reflete pela forma como o ensino e a educação ambiental são geridos, com base nos aspectos geográficos e climatológicos do país, tendo em vista que as crianças são ensinadas desde cedo a se portar em ambientes de neve e florestas de tundra densas. É muito comum os jardins da infância terem dias específicos da semana nos quais as aulas são realizadas ao ar livre, no espaço florestal, mesmo durante o intenso inverno. 72 Embora seja inegável que Oslo tenha sido marcada por muitas das mesmas práticas e resultados não sustentáveis que caracterizaram outras cidades do mundo ocidental, afirmamos que Oslo também tem uma longa história em ser uma 'cidade verde' tanto no sentimento de uma forte autoconsciência com relação a sua configuração geográfica dentro de um contexto mais amplo, como também em sua longa tradição de conservação dos recursos naturais e espaços verdes. Significativamente, "verde", neste sentido, está relacionado à cultura e à memória cultural - ou seja, a práticas, paisagens e monumentos que fornecem um contexto histórico para a identificação com o lugar. Isso constitui um recurso importante na construção de um discurso urbanista verde local. No século final do XIX e início do XX, a chamada Oslomarka51, área florestada que circunda a cidade, passou a representar bem essa dinâmica sociocultural, na qual as florestas foram ressignificadas, transmitindo a sensação de pertencimento social, pois era esse o espaço que simbolizava a “alma” do país52. Tanto a classe operária, quanto os intelectuais da época, passaram a utilizar a floresta urbana para uma diversidade de atividades, desde o esqui até a escrita de suas reflexões e contos de fada (SYSE, 2016). De acordo com a pesquisadora Karen Syse (2016, p. 48, tradução livre): Oslomarka é uma área que contém lugares onde as pessoas internalizam significados e identidades, é uma área importante para as ideias de patrimônio cultural e também de nacionalidade e, nas últimas décadas, também se tornou uma área importante para a biodiversidade. Ainda de acordo com Syse (2016, p. 58-59, tradução livre): O ano de 1898 foi um ponto de virada para os cidadãos de Oslo, com a inauguração do Holmenkollbanen (um serviço de bonde de Marjorstuen até Holmenkollen), que é uma boa entrada para a floresta. Marka, desde então, 51 Em nórdico antigo, Marka significava 'floresta', ou 'fronteira’. Atualmente o termo é usado para designar o campo externo de uma cidade, mais frequentemente o terreno florestal urbano. (Para mais informações: <https://ordbok.uib.no/perl/ordbok.cgi?OPP=+mark&ant_bokmaal=5&ant_nynorsk=5&bokmaal=+&ordbok=be gge>). 52 É interessante observar que toda essa dinâmica simbólica ocorreu por todo o país, nas florestas no contexto urbano das cidades. Um outro exemplo de ressignificação se encontra em Trondheim, onde a Bymarka também possui uma grande importância cultural e ambiental para a cidade. https://ordbok.uib.no/perl/ordbok.cgi?OPP=+mark&ant_bokmaal=5&ant_nynorsk=5&bokmaal=+&ordbok=begge https://ordbok.uib.no/perl/ordbok.cgi?OPP=+mark&ant_bokmaal=5&ant_nynorsk=5&bokmaal=+&ordbok=begge 73 tornou-se acessível a todos. E, a partir disso, toda uma nova área suburbana se desenvolveu ao longo das linhas de bonde. Durante todo o século XIX não havia uma ampla tradição em construir parques na cidade (JØRGENSEN, 2018; THOREN, 2016). Os poucos que existiam eram construídos por cidadãos, associações ou pelo Tribunal Real, como por exemplo o The Promenade, idealizado pela associação Oslo Byes Vel, em 1810- 1820, além do complexo de Bygdøy, desenvolvido como um parque público pela Corte Real a partir de 1837 (JØRGENSEN, 2018; THOREN, 2016). Até 1814, Oslo, que se chamava Christiania, ainda era uma cidade de pequeno porte com cerca de 10 mil habitantes, pertencente ao reino Sueco-Norueguês. A cidade não possuía as bases necessárias para a criação de parques, diferentemente do que ocorreu em outros lugares da Europa, como visto no capítulo 2. Além disso, não haviam grandes castelos com jardins em Oslo, que poderiam se tornar um parque público, com exceção do Slottsparken, criado em 1840 para servir como jardim do palácio sede da monarquia – que se transformou em parque público, nos dias atuais. Figura 16: Slottsparken. Fonte: Arquivo pessoal (2019). 74 De acordo com Jørgensen (1997, p. 245, tradução livre): A história da arte de jardim na Noruega ainda não foi escrita. Um observador indiferente pode perguntar se há alguma história para registrar, porque a arte do jardim não é o que impressiona quando você visita o país. Cenários e paisagens naturais, ao invés de jardins, são os motivos mais comuns para visitar a Noruega. Mas, quando você olha um pouco mais de perto, na verdade existem jardins, e eles têm uma história. Não é a história dos jardins do palácio real ou das grandes propriedades dos príncipes. Olharpara a história dos jardins na Noruega significa procurar as nuances mais sutis. A Noruega foi uma província da Dinamarca do século XIV a 1814, e quase destituída durante a maior parte dos séculos XVI e XVII, quando a arte do projeto de jardins floresceu em outras partes da Europa. Portanto, dificilmente havia designers de jardins profissionais na Noruega até o final do século XIX. Por outro lado, o século XX representou em uma grande modificação no fazer urbano norueguês, na qual novas infraestruturas foram implementadas, com o intuito de transformar a capital da Noruega em um epicentro da inovação e natureza. Até certo ponto, a profissão norueguesa de arquitetura paisagística conseguiu alcançar uma posição central no planejamento e design urbano e rural. Ao contrário do contexto da Europa central, onde a tradição dos jardins é mais antiga, na Noruega, a profissão de arquiteto paisagista foi estabelecida e apoiada no início do século XX, por uma educação de nível universitário, tendo em vista o crescente contexto de urbanização do país (JØRGENSEN, 2011). Isso estava intimamente relacionado à ideologia política do Partido Trabalhista norueguês, que formou a base da social-democracia no país (JØRGENSEN, 2011). Uma noção central do movimento era a igualdade em todos os aspectos da vida em comunidade, no qual o papel dos paisagistas e horticultores era o de projetar para que todos os cidadãos recebessem benefícios sociais iguais, e no qual os espaços verdes passaram a fazer parte do bem-estar urbano, como parte do allemannsretten, ou o direito de acesso público, instituído na legislação do país (JØRGENSEN, 2011, p. 254). Na primeira metade do século, os processos de idealização e construção se configuravam numa narrativa paisagística urbana, tecida por uma série de sujeitos, desde planejadores urbanos, horticultores e até mesmo escultores. Neste sentido, um ponto de 75 destaque foi a criação do Departamento de Parques em 1916, cujo o arquiteto paisagista Marius Røhne foi nomeado chefe encarregado de planejar as áreas verdes de Oslo, ocupando o cargo de Chefe do Departamento de Parques até 1948 (JØRGENSEN, 2018). Røhne foi o primeiro arquiteto de jardins/ paisagens na Noruega e fez um esforço pioneiro para tornar Oslo uma cidade verde moderna. 53 Cabe observar que o que antes era fragmentado, gradualmente assumiu uma abordagem mais sistemática sob a liderança de Røhne. Ele se preocupou com Oslo como um todo: desenvolveu áreas de parque nas partes leste e mais pobres, ao longo do rio Akerselva, transformando a cidade em um lugar onde o planejamento possibilitava os espaços verdes para o público dentro e ao redor das áreas residenciais, sem distinção de classes sociais. Essa ‘cultura de parques’, pretendia nutrir o sentimento de que as pessoas eram pertencentes à paisagem urbana e dessa forma também cuidassem da natureza local (JØRGENSEN, 2018). O planejamento e a criação de espaços verdes ocorreu com o apoio de pesquisas científicas e botânicas sobre a flora norueguesa, para garantir a implementação de espécies adequadas ao meio urbano. Sendo assim, foram retiradas todas as cercas ao redor das áreas verdes, mantendo um alto padrão de manutenção da vegetação (JØRGENSEN, 2018). A importância dada aos parques e demais espaços verdes, bem como a qualidade da habitação, foi o esforço conjunto entre o Departamento de Parques e o Setor de Planejamento Urbano. Isso nos traz ao segundo sujeito desta narrativa: Harald Hals, planejador da cidade de Oslo de 1926 a 1947 (JØRGENSEN, 2018). Ele participou ativamente da modernização da cidade, e pensava que a inclusão do componente verde na paisagem era essencial para a vida comunitária, uma vez que eles eram lugares de sociabilidade, além de serem benéficos para o ecossistema urbano. A base para essa maneira de enxergar o ofício do planejador urbano foi adquirida após um intercâmbio nos Estados Unidos da América, onde Hals teve a oportunidade de conhecer os trabalhos de Frederick Law Olmstead no projeto paisagístico do cinturão de esmeralda em Boston. Além disso, Harald Hals também se interessava por diferentes vertentes do planejamento, em especial pelo movimento das cidades jardim e do bioregionalismo. Foi dessa maneira que o Ullevål Hageby, construído nos arredores do centro da cidade, foi primeiramente pensado para se tornar uma cidade jardim, antes de se tornar um bairro. De acordo com o pesquisador Jørgensen (1997), já em 1929, HALS afirmava que “é a nossa época que transformou os parques e os espaços verdes em uma parte muito importante e 53 Para mais informações: Den Store Norske Leksikon (https://nbl.snl.no/Marius_R%C3%B8hne). 76 absolutamente indispensável do organismo urbano” (HALS, 1929, p. 182 apud JØRGENSEN, 1997, p. 245)54. Jørgensen (2018) discute que Hals e Røhne enfatizavam mais as vantagens sociais e ambientais de ter espaços verdes integrados na estrutura urbana, do que apenas definir padrões urbanos com vegetação em áreas residenciais (JØRGENSEN, 2018). Foi neste período que as florestas, parques e os corredores verdes apareceram pela primeira vez como elementos principais no plano diretor municipal de 1929, no qual foram usadas categorias55 de áreas verdes para melhor integrar urbanização e vegetação. Syse (2016, p. 46) corrobora essa ideia. Em especial, ela destaca que foi o começo de uma série de medidas para relacionar as áreas suburbanas, interurbanas e florestais, marcando um período benéfico no fazer urbano no contexto norueguês (SYSE, 2016). A idealização do plano diretor previa que essas categorias se relacionassem umas com as outras, numa ideia sistêmica, na qual os espaços verdes, antes isolados, pudessem se conectar uns aos outros, formando um sistema de parques coeso (HALS, 1929 apud JØRGENSEN, 2018). É importante frisar que o planejamento se preocupou em manter as áreas de floresta, como parte do sistema de parques da cidade, não somente pelo histórico cultural da relação social com a natureza, mas também, por conta dos aspectos geográficos de risco para a cidade, caso a expansão de construção urbana se propagasse pela zona florestal. Segundo Thorén (2016, p. 23), estudos técnico-científicos foram realizados já em 1934, resultando numa decisão municipal de limitar as áreas desenvolvidas em Oslo a uma certa altitude, devido à restrição da pressão da água. Dessa maneira, a expansão habitacional foi proibida na Oslomarka, porque os sistemas hidráulicos não podiam garantir o pleno abastecimento da água, caso a floresta fosse desmatada (THOREN, 2016). Neste sentido, Næs, Næss e Strand (2011, p. 113-120), afirmam que a fronteira representada pela floresta frente à expansão urbana, foi oficialmente regulamentada no Plano Municipal de Oslo no ano de 1936, tendo se mantido quase inalterada até os dias atuais (NÆS; NÆSS; STRAND, 2011). Os autores conferem esse resultado tanto às dinâmicas do planejamento e do sistema de parques na primeira metade do século XX, mas também ao pensamento urbanístico norueguês a partir da década de 1980, seguindo uma política de aumentar a densidade das áreas já urbanizadas, sem assim expandir a urbanização para a floresta e demais áreas agricultáveis. 54 Tradução livre. 55 Categorias: 1) parques distritais, 2) parques comunitários, 3) parques naturais, 4) playgrounds, 5) locais de prática, 6) campos esportivos, 7) jardins escolares, 8) jardins em parcelas 9) cinturões verdes (JØRGENSEN, 2018). 77 Por meio de pesquisas bibliográficas em artigos científicos, é notável perceber o crescimento urbano hiper concentrado da cidade do final do século XX até a contemporaneidade. De acordo com Jørgensen (2018), sobretudo as décadas de 1980-1990 representaram um declínio na política dos parques na cidade, por conta de crises econômicas e a falta de investimentos no legado deixado por Halse Røhne (JØRGENSEN, 2018). Entretanto, este mesmo período é citado por outros pesquisadores, Næs, Næss e Strand (2011) e Thorén e Aradi (2010), como o momento de desenvolvimento de políticas públicas ligadas às ideias de sustentabilidade, embora o foco não tenha sido especificamente os parques públicos, mas sim a integração ainda maior do componente verde da cidade, sendo compreendido dentro de um sistema urbano multifuncional, com diferentes valores e funções para a estrutura ecológica da paisagem (THORÉN; ARADI, 2010, p. 1). Pode-se dizer que o declínio da política de implementação de parques citado por Jørgensen (2018) possa estar conectado a referência feita por Røe e Luccarelli (2016), no que tange ao surgimento da política de densificação na cidade e a ameaça aos pequenos núcleos de vegetação, presentes sobretudo em praças e jardins urbanos. Segundo esses autores: O esforço para tornar a cidade mais densa e, portanto, mais orientada para o trânsito, pode ameaçar pequenos bolsões de áreas verdes e destruir monumentos - um paradoxo para planejadores urbanos e formuladores de políticas. Nossa posição é que esse conflito pode ser administrado de forma mais adequada e democrática se uma perspectiva ampla da cidade, suas tradições, trajetória histórica e possibilidades de mudanças construtivas forem desenvolvidas (RØE; LUCCARELLI, 2016, p. 2, tradução livre). O ano de 1987 foi importante pela realização da Conferência das Nações Unidas em Oslo, na qual foi apresentado o relatório Bruntland, onde o termo desenvolvimento sustentável apareceu pela primeira vez. Isso teve uma forte influência nas práticas urbanas em curso no nível local, uma vez que foi intensificado o pensamento que a floresta é o limitador do espraiamento da cidade para áreas adjacentes. Ainda assim, Oslo não parou de crescer em termos de densidade populacional e construção civil. Já no século XXI, a cidade viu sua população aumentar de 167,500 no ano de 2008, para 196,600 no ano de 2009, sem que tenha ocorrido expansão da terra urbana (NÆS; NÆSS; STRAND, 2011). A solução encontrada pelos planejadores e políticos (que é seguida até a atualidade), foi a de compactar a urbanização em determinados centros já urbanizados, aumentando a infraestrutura de transportes e serviços intraurbanos, além de aumentar a atratividade na habitação e no 78 mercado de trabalho dentro da própria cidade, desenvolvendo sem converter as terras florestais para novas terras urbanas. Os autores Næs, Næss e Strand (2011), também afirmam que alguns fatores históricos e ambientais podem explicar essa propensão à política de densidade urbana concentrada. Para eles, o primeiro fator é o custo em infraestrutura, uma vez que nessa parte do sudeste norueguês, há a presença predominante de terreno rochoso, o que muitas vezes torna a expansão urbana para terras florestais e agrícolas algo caro. Este é justamente o caso da cidade de Oslo, cercada por colinas. Além disso, políticas nacionais rigorosas da década de 1970 proíbem a conversão de terras agrícolas para outros fins, pois o país possui uma escassez em áreas agricultáveis, que cobrem apenas cerca de 3% do território nacional, tornando a densificação mais rentável e influenciando no desenvolvimento urbano posteriormente (NÆS; NÆSS; STRAND ,2011). No entanto, apenas em 2009, a floresta passou efetivamente a possuir uma lei própria – a Markaloven (BUGGE; REUSCH, 2010). Nessa recente legislação, foram mapeadas as fronteiras da floresta e seus limites com a cidade e áreas suburbanas. Isso permitiu ainda mais medidas de proteção. Porém é importante ressaltar que a legislação não teve por objetivo separar a floresta da população, numa ótica preservacionista. Ao contrário, a Lei de 2009 deixa claro que a marka é um bem comum dos noruegueses e deve ser gerenciada para que a proteção ambiental esteja em equilíbrio com as atividades humanas. Portanto, o objetivo da lei é facilitar a vida ao ar livre, as experiências na natureza e os esportes, mas também garantir os limites do espaço urbano e o uso sustentável da área. A lei também concedeu proteção mais rigorosa a algumas áreas, como reservas naturais56. 56 Na contemporaneidade, a Câmara Municipal está trabalhando para transformar partes de Østmarka em um parque nacional, em colaboração com o estado e municípios vizinhos (Para mais informações consulte Oslo Kommune em: https://www.oslo.kommune.no/miljo-og-klima-1/slik-jobber-vi-med-miljo-og-klima/beskyttelse- av-oslomarka). 79 Tabela 3: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana na Noruega. 80 Figura 17: Mapeamento da Oslomarka realizado pela Associação Norueguesa de Turismo (Den Norske Turistforening- DNT). Fonte: Den Norske Turistforening (n.d.). Figura 18: Nordmarka e lago Sognsvann. Fonte: Arquivo pessoal (2019). 81 Atualmente, o Município de Oslo apresenta estatísticas para várias divisões geográficas. O mais comum é a divisão distrital. Desde 2004, Oslo foi dividida em 15 distritos, além da Marka e do Sentrum (centro da cidade)57. Neste sentido, a zona da Oslomarka engloba 19 municípios, divididos em cinco condados: Oslo, Akershus, Buskerud, Oppland e Østfold. O terreno florestal consiste em um total de 1.700 km2, cujos 310 km2 estão localizados no município de Oslo, representando dois terços de toda a área da cidade, como mostra a figura (17) acima. 57 Para mais informações consulte Oslo Kommune em: https://www.oslo.kommune.no/statistikk/geografiske- inndelinger/. https://www.oslo.kommune.no/statistikk/geografiske-inndelinger/ https://www.oslo.kommune.no/statistikk/geografiske-inndelinger/ 82 3.2 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DO RIO DE JANEIRO, BRASIL O Brasil é um país com cerca de 212,6 milhões de pessoas58 (segundo projeções do IBGE 2020), situado na América do Sul, e sua capital é a cidade de Brasília. No entanto, mundialmente, uma das cidades brasileiras mais conhecidas e visitadas diz respeito a antiga capital imperial, Rio de Janeiro, na região Sudeste, cuja população atual é de entorno 6,748 milhões59 (também baseado em projeções do IBGE 2020). De acordo com Arbilla e Silva (2018), a cobertura vegetal da cidade é composta por cerca de 28,9% de vegetação da Mata Atlântica, cujas principais áreas se encontram nas florestas e alguns parques dentro do perímetro urbano (ARBILLA; SILVA, 2018). A cidade também recebeu algumas creditações internacionais, como o certificado conferido pela UNESCO60 de Patrimônio Mundial da paisagem cultural, no ano de 2016. Além disso, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, é um reduto de pesquisa científica e de preservação ambiental, com espécies vegetais ameaçadas de extinção. Por esse motivo, em 1991, recebeu o título de Reserva da Biosfera, também concedido pela UNESCO. Segundo Macedo e Sakata (2002, p. 16), no Brasil, os parques públicos se originaram como uma iconografia acessória, conectada aos interesses das elites ao longo do século XIX, que queriam se aproximar da forma e da cultura presentes no cotidiano europeu (MACEDO; SAKATA, 2002, p. 16). Pelo fato do século XIX ter sido o período da constituição do Brasil como nação e, ainda mais, com a vinda da família real portuguesa em 1808, novas estruturas foram sendo moldadas nas cidades, que passaram a desempenhar outras funções sociais e econômicas e precisavam aparentar certa tradição formal e cultural das grandes cidades e impérios da Europa Central, mas adaptadas a realidade tropical do país. De acordo com Enders (2008, p. 89-91), o momento em que o sentimento nacional brasileiro surge é incerto, sendo uma consequência dos movimentos de independência entre o final do século XVII e o início dos anos de 1830. Sob esta perspectiva analítica, o autor destacaa importância de se compreender o papel da cidade do Rio de janeiro, enquanto um dos atores no processo político-social que estava em curso: 58 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE, n.d. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/index.html>. Acesso em: 4 jan. 2022. 59 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Rio de Janeiro. População. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama>. Acesso em: 4 jan. 2022. 60 UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência, e a Cultura. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama 83 É, contudo, no Rio de Janeiro, capital de um efêmero império luso-brasileiro entre 1808 e 1821, que a independência apresenta uma parte de suas intrigantes singularidades. A cidade passa a ser o coração de um Estado centralizador, ao redor do qual gravita o território brasileiro. Até a perda de seu estatuto de capital, em1960, os grandes momentos de sua história se confundem com os da história do Brasil. É também no Rio de Janeiro, investido da missão de civilizar todo o país, que se elaboram as diferentes maneiras de se transformar os habitantes do Brasil em brasileiros (ENDERS, 2008, p. 90). Neste sentido, a cidade passa a ser o lócus de uma série de transições socioculturais que marcaram o desenvolvimento de uma identidade comum aos integrantes da nação em formação. Acerca das mudanças morfológicas e funcionais no Rio de Janeiro durante a passagem da colônia para Império, Macedo e Sakata (2002, p. 16) argumentam que: A capital, o Rio de Janeiro, é, naturalmente, a cidade que passa pelas mais rápidas e urgentes transformações urbanas, já que incorpora de imediato funções antes exercidas por Lisboa, e, a partir da proclamação da Independência, em 1822, torna- se a capital de uma nova nação, rica em recursos, carreando para si investimentos de porte vindos de todo o país. Telégrafo, telefone, palacetes, boulevards, correios, serviços bancários, ministérios, faculdades, embaixadas e sedes de novas corporações surgem e instalam-se na cidade, que assume a vanguarda no processo de urbanização nacional durante todo o século. Nesse contexto são criados, no Rio de Janeiro, os três primeiros parques públicos, com as características morfológicas e funcionais que conhecemos hoje: o Campo de Santana e o Passeio Público, situados junto ao núcleo histórico e centro tradicional da cidade, e o Jardim Botânico, junto à então distante Lagoa Rodrigo de Freitas. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro, criado como Jardim da Aclimação por Dom João VI para o cultivo de especiarias trazidas das Índias Orientais, é um dos mais impressionantes cenários do Ecletismo paisagístico brasileiro por seu porte, elegância e manutenção, que se tem conservado estável ao longo dos anos (MACEDO; SAKATA,, 2002, p. 16-17). 84 Figura 19: Jardim botânico do Rio de Janeiro. Fonte: Arquivo pessoal (2015). Cabe ressaltar que o Rio de Janeiro não passou apenas por mudanças urbanísticas e funcionais, mas também por mudanças populacionais. Enders (2008) afirma que a presença da Corte contribuiu para atrair ondas de migrantes, movidos por razões diversas. Sendo assim, em um curto espaço de tempo (de 1799 a 1821), a expansão populacional foi tão expressiva que o centro da cidade passou de 43.000 a 79.000 habitantes (ENDERS, 2008, p. 92). Somando-se a isso, Benchimol (2010, p. 116) reitera também o progressivo aumento populacional nos anos seguintes: em 1822, o número de habitantes na cidade chegou à cifra de 100 mil e em 1840, a cidade contava com 135 mil habitantes. Isso trouxe uma demanda maior por espaços verdes, como parte dos ideais de modernidade e requinte, além de uma maior pressão nos recursos hídricos e energéticos. Dentre esses espaços, contam-se inúmeros jardins privados, anexos a palacetes e casarões, seguindo o modelo dos jardins burgueses franceses. Se até a metade do século XIX, o Rio de Janeiro era uma cidade de ruas estreitas, sem passeios para pedestres, nos quais os espaços 85 públicos eram ocupados primordialmente por escravos61, mulheres, crianças e “animais de trabalho” (BENCHIMOL, 2010, p. 120), após os anos 1870, com a consolidação do império e fim da escravatura, já sob reinado de D. Pedro II, a cidade passou a representar novas relações de trabalho assalariado, e novas morfologias se originaram como símbolo da modernização capitalista. A expansão da população urbana carioca no final do século XIX deu um salto, sobretudo devido à chegada de imigrantes em 1875 com a construção da Central do Brasil. Ocorreu a formação de novos bairros e o congestionamento ainda maior da área central da cidade, marcando a incompatibilidade entre a antiga morfologia urbana e as novas relações socioeconômicas62. Além disso, mudanças foram realizadas com relação ao fluxo de mercadorias, principalmente relacionadas ao setor cafeeiro paulista e mineiro. Sobre este aspecto, Benchimol (2010, p. 120), afirma: Substituindo o transporte fluvial e em lombo de mulas, os trilhos das estradas de ferro de D. Pedro II e Leopoldina, articularam o Rio de Janeiro mais profundamente e suas retaguardas rurais, reconfigurando a rede de povoados, estradas e rios por meio da qual eram recolhidos ao porto os gêneros de exportação e os de abastecimento da cidade (BENCHIMOL, 2010, p. 120). Foi também durante o reinado de D. Pedro II (1840-1889) que a questão da natureza urbana foi tratada de maneira mais efetiva por meio do reflorestamento da Floresta da Tijuca. Influenciado pelas ideias naturalistas sobre o conhecimento e a catalogação de plantas em herbários, além da compreensão de que o maciço da Tijuca era essencial para a manutenção dos recursos hídricos da cidade e um refúgio em meio a crescente expansão urbana pela qual o Rio de Janeiro passava, o imperador promoveu políticas públicas63 para a conservação 61 Escravos e negros alforriados predominavam nos ofícios de base artesanal. Eram a mão de obra mais usada na construção de casas. Erguidas sem plantas ou desenhos, com base no saber empírico dos mestres de obras (BENCHIMOL, 2010, p. 120). 62 O período do final do século XIX também foi marcado pelas epidemias que surgiam na cidade e pelo desenvolvimento da ciência no mundo intelectual. Por isso, medidas higienistas foram adotadas pelo setor de saúde pública (no qual o nome principal é o de Pereira Passos), sobretudo durante a transição do império para a República (1888-1890), resultando em amplas modificações da forma urbana, como a derrubada de morros para melhor circulação de ar, desapropriação de cortiços para construção de largas avenidas centrais e assoreamento de áreas pantanosas. 63 No ano de 1961, a Floresta da Tijuca foi declarada como “Floresta protetora”, por D. Pedro II, que desapropriou antigas fazendas cafeeiras. A Floresta também obteve o reconhecimento de área protegida, constando na Portaria Imperial de 18 de dezembro de 1861, com a proibição de atividades extrativistas e de desmatamento na região (ARBILLA; SILVA, 2018). 86 hidrológica, produção de um clima saudável e de áreas de lazer para a elite carioca pautado na lógica de estruturar a urbanização pela presença da vegetação (FERNANDEZ, 2011). Dessa forma, em 1860, foi criado o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (IIFA), que tinha por objetivo administrar os progressos e questões relacionadas a agricultura na cidade e seus entornos, tendo em vista o precário legado deixado pela colonização e a falta de conhecimentos técnicos e ambientais para evitar a deterioração dos solos e vegetação. A implementação do IIFA, em conjunto com a criação da Diretoria de Parques e Jardins da CasaImperial em 1869 por D. Pedro II, também contribuiu com o reflorestamento da floresta da tijuca e o plantio de cerca de 100 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, no período de 1861 a1874, no qual o raciocínio era o de que “das montanhas deveria descer o plantio das árvores para as praças, para as ruas” (IMPERIAL INSTITUTO FLUMINENSE DE AGRICULTURA, 1870, p. 31 apud HEYNEMANN, 2009, p. 4). É relevante ressaltar que o reflorestamento também pretendia resgatar a memória de uma imagem romântica pela qual a floresta era admirada e retratada nas obras dos artistas- viajantes64 que estiveram no Brasil na Missão Artística Francesa, ainda no período da colonização portuguesa e posterior independência, quando a área ainda não havia passado por seu processo de deterioração completa. Neste caso, a Floresta da Tijuca é um marco iconográfico, no qual a cidade do Rio de Janeiro era usualmente pintada como o limite da área vegetada. Segundo HEYNEMANN (2009, p. 3): Os viajantes naturalistas compuseram, em sua passagem pelo Brasil, um quadro no qual a Floresta da Tijuca comparece como exemplo de vegetação subtropical, confirmando a máxima do Brasil como “paraíso dos naturalistas”. Aquarelas, pinturas, diários, coleções e tratados científicos são os objetos que em sua materialidade contribuíram, decisivamente, para o projeto de identidade nacional perseguido pelo Estado Imperial. O reconhecimento desse valor na Floresta viria da parte do poder público, na segunda metade do século XIX, com o projeto de reflorestamento. A área constituída pelas florestas da Gávea, Andaraí, dos Ciganos e Sumaré, onde a floresta da Tijuca se encontra atualmente, foi uma criação, um vir a ser, metodicamente pensado e planejado ao longo do segundo império65. Por isso, a própria floresta pode ser 64 Dentre eles, Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay. 65 Com a contribuição sobretudo de D. Pedro II, Major Acher e Glaziou. 87 considerada como um grande projeto tropical de jardim romântico, sobretudo devido ao período de 1877 a 1887, no qual diversas intervenções de embelezamento foram realizadas, como a construção de estradas conectando-a às partes baixas da cidade, além da contribuição do horticultor e paisagista francês Auguste François-Marie Glaziou66 na criação de mirantes, fontes, belvederes e lagos, num ambiente totalmente refeito a luz do bem-estar e da contemplação (HEYNEMANN, 2009). De acordo com Fernandez (2011:p. 2), as iniciativas para a reimplantação dessa floresta, que havia quase desaparecido por completo, por conta da extração predatória de madeira e do desmatamento para o cultivo do café, em épocas anteriores67; representa as relações entre as ideias nacionalistas, os discursos de conservação ambiental que começavam a entrar em vigor no âmbito internacional, além de representar os primórdios de uma formação política e ambiental nacional (FERNANDEZ, 2011, p.2). Com o advento do período republicano, em 1889, a floresta passou por um momento de abandono até meados do século XX, por ser considerada como ícone e legado do estilo de vida imperial (FERNANDEZ, 2011). Após anos sendo gerida a distância pela Federação, em 1944, a área da floresta voltou a ser administrada localmente pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro68, através do Serviço de Águas e Esgoto municipal. A partir dessa etapa, a área recebeu o apoio do paisagista Roberto Burle Marx, para a recuperação da vegetação, além de ter suas vias restauradas, facilitando sua reconexão física e simbólica com o restante da cidade e os frequentadores, que voltaram a utilizar a floresta para uma série de atividades, tanto contemplativas, quanto esportivas. Outro momento marcante na história desse espaço verde diz respeito ao ano de 1961, quando o complexo montanhoso do qual a Floresta faz parte foi considerado como Parque Nacional69, e tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1966. Neste contexto, a autora Fernandez (2011, p. 6-7) afirma que, ao se tornar floresta-parque, essa área consagrou e institucionalizou valores não apenas conservacionistas, mas também estéticos, 66 Os trabalhos de Glaziou na cidade do Rio de Janeiro, assim como sua nomeação como chefe da Diretoria de Parques e Jardins da Casa Imperial, em 1889, se conecta ao próprio desenvolvimento da arte do jardim no Brasil (ANDRADE; TERRA, 2016). 67 “Para a produção de carvão, extração de madeira e plantação de café, a floresta foi quase totalmente destruída, o que ocasionou problemas nas fontes que abasteciam a cidade com água. O desmatamento, somado ao aumento da população, ao clima seco em alguns anos e à falta de infraestrutura no Rio, acabou, por vezes, deixando a capital imperial sem abastecimento de água, o que gerou o surgimento de um mercado paralelo de venda de água e também a disseminação de doenças” (“A Floresta da Tijuca no Dia Mundial do Meio Ambiente”, de Andrea C. T. Wanderley, disponível em: <https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=15070>. Acesso em: 6 jan. 2022). 68 Embora as terras continuassem a pertencer a União. 69 Em 1967, sob Decreto n. 60.183, a área do Parque foi redefinida. https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=15070 88 relacionados a propagação da imagem da floresta “intocada” e sua vinculação com a cidade, e identidade tanto do Rio de Janeiro, quanto do Brasil, na qual a paisagem composta por uma fauna e flora específicas, expressa a nação brasileira (FERNANDEZ, 2011, p. 7). Em 2004, a Floresta da Tijuca teve sua área delimitada em 39,52 km2, e atualmente faz parte do cotidiano urbano, como uma importante área de lazer e esportiva, por meio da trilha transcarioca que cruza a cidade do bairro de Guaratiba (zona oeste), até o Morro da Urca, como pode ser visualizado na figura 20. De acordo com o site oficial do Parque Nacional da Tijuca: A maior trilha urbana do país é uma iniciativa do Mosaico Carioca de Áreas Protegidas e representa um símbolo da união entre as três esferas do poder público. O percurso de aproximadamente 180 km sai da Barra de Guaratiba e segue até o Morro da Urca, integrando seis unidades de conservação, incluindo o Parque Nacional da Tijuca. Dentro do PNT a Trilha Transcarioca se inicia no acesso à Represa dos Ciganos, no Setor Floresta, passando por atrativos como Pico da Tijuca, Bico do Papagaio, Bom Retiro e Meu Recanto. O percurso continua pela Serra da Carioca, onde os visitantes têm uma experiência única de visual do Morro do Queimado, Mesa do Imperador e Vista Chinesa. Descendo em direção ao Horto e Jardim Botânico, mais atrações: o histórico Jequitibá de imensas raízes, paradas para se refrescar nas Cachoeiras da Gruta e dos Primatas e o clássico Parque Lage para finalizar (PARQUE NACIONAL DA TIJUCA, c2020, n.p.). Contudo, apesar de todo o contexto de integração de áreas verdes citado anteriormente, um dos grandes desafios desses espaços na cidade é o de garantir um ambiente de tranquilidade para os seus frequentadores, tendo em vista o alto índice de assaltos nas trilhas da floresta e até mesmo relatos de violência física. Muitos são os casos de assaltantes escondidos nas matas e as vítimas usualmente reclamam da falta de policiamento e da sensação de insegurança ao percorrer esse corredor verde. Neste sentido a questão da segurança urbana, habitação, igualdade social e natureza urbana tem de ser consideradas em conjunto pelos gestores e planejadores, a fim de propiciar uma cidade realmente melhor para todos. 89 Figura 20: Mapa Turístico da Floresta da Tijuca, distribuído no Centro de Visitantes do Parque. Fonte: Rio de Janeiro Aqui (n.d). Figura 21: Floresta da Tijuca. Fonte: Arquivo pessoal (2013). 90 De acordo com Segawa (1996), os jardins e parques públicos apenas foram inseridos efetivamente no contexto social do Brasil a partir do século XX (SEGAWA,1996), e pode-se dizer que o panorama geral das alterações paisagísticas das cidades no país foi seguido de políticas públicas relacionadas à saúde coletiva e à higiene, onde “o jardim foi eleito como um elemento único na configuração de espaços públicos” (ANDRADE; TERRA, 2016, p. 11). Nesse contexto, o período pós 2ª Guerra Mundial influenciou os modos de vida urbana brasileiros, transformando e remodelando cidades, dentre as quais pode-se citar Rio de Janeiro e São Paulo, que já estavam em amplo processo de industrialização, atingindo também municípios vizinhos com a expansão de sua malha urbana (expansão dos serviços, dos transportes e da comunicação). Com o pós-guerra e a consolidação da República no Brasil, período no qual a maioria da população passa a habitar os núcleos urbanos, os parques começaram a atender a uma gama de habitantes com interesses diversos, e entre os anos de 1950 e 1960, já havia uma profunda carência de espaços ao ar livre para o lazer de massa (MACEDO; SAKATA, 2002). Apesar de cidades costeiras, como é o caso do Rio de Janeiro, contarem com a praia como um forte elemento sociocultural em seu espaço urbano, além de outras cidades terem o benefício de serem próximas a cachoeiras e matas, possibilitando o lazer da grande massa populacional, somente com o esgotamento dessas áreas, os parques e demais espaços verdes tornaram-se essenciais para a vida nas cidades do país (MACEDO; SAKATA, 2002), que passam a englobar os parques públicos em seus planejamentos urbanos, como uma maneira de oferecer serviços esportivos, contemplativos e culturais, não mais exclusivamente para as elites. O Rio de Janeiro, neste período capital da República, mais uma vez foi um local que recebeu inúmeras transformações. Se no início do século XX, com a reforma Pereira Passos, largas avenidas já haviam sido construídas sobretudo no centro da cidade e áreas adjacentes, numa lógica higienista de “expulsão de estábulos, hortas e capinzais, prejudicando os pequenos agricultores de áreas até então rurais como a Tijuca e Catumbi” (BENCHIMOL, 2010, p. 142), com o plano Agache, no final da década de 20, as diretrizes de morfologia urbana seguiram a racionalidade e o modernismo funcional e estético, no qual o Departamento de Parques e Jardins deveria gerenciar os espaços verdes. Já nos anos de 1970 a 1980, os parques modernos estavam consolidados no país e se serviam do advento das ideias ambientalistas da época, que favoreciam a existência dos mesmos, uma vez que eles contribuíam para a melhora da qualidade de vida urbana, como sendo tanto um local para o lazer, quanto um ambiente de mitigação, propiciando melhora da 91 qualidade do ar e do microclima da cidade, por causa da presença de vegetação. Com a ampla contribuição do arquiteto paisagista Roberto Burle Marx, os conceitos de parque moderno e parque ecológico foram, então, introduzidos no cotidiano desses espaços públicos brasileiros (PANZINI, 2013). Burle Marx utilizava plantas nativas de biomas do Brasil em seus projetos, aliando formas modernas e suaves de acordo com a geografia local. Seu trabalho teve uma grande influência mundialmente no design de jardins tropicais no século XX, além de ter sido grande ambientalista. No Rio de Janeiro, ele projetou desde jardins públicos acoplados a Instituições como os jardins do Museu de Arte Moderna (MAM), até mesmo contribuiu com grandes parques como o Parque do Flamengo, inaugurado em 1965, e que se estende ao longo da orla, servindo como conector entre diferentes zonas da cidade. Sobre isto Oliveira (2006, p. 3) afirma: O Parque do Flamengo é antes de tudo uma importante experiência no contexto brasileiro em termos de utilização de um parque como instrumento específico de planejamento urbano, que precede e orienta as iniciativas da administração pública e de particulares. Paralelamente à sua criação, melhorou-se a conexão viária entre a Zona Sul e o centro do Rio, criou-se uma praia artificial, integraram-se importantes equipamentos urbanos como o aeroporto Santos Dumont, o MAM, o Iate Clube. O parque é também uma vitória à ofensiva da especulação imobiliária e à espacialização de caráter excludente prática arraigada na cidade do Rio. Do final da década de 1970 aos anos de 1990, a cidade passou por um boom em seu crescimento urbano, marcado pelo aumento de espaços asfaltados, empreendimentos imobiliários, política habitacional precária em áreas periféricas, densificação e criação de novos viadutos e avenidas, guiados pelo pensamento automobilístico, que aumentou a quantidade de veículos transitando (FERREIRA et al., 2020). Além disso, conflitos relativos à presença de vegetação nos bairros da cidade tem sido, desde então, gerados por um plantio de espécies inadequadas para o meio urbano e sem a devida manutenção, que trazem problemas para o cotidiano de moradores70, somado ao discurso de que são apenas áreas ligadas a estética paisagística, sendo por este motivo, supérfluas no ambiente urbano. A falta de interesse de alguns integrantes dos setores privado, público e político em proporcionar espaços verdes de qualidade em todas as zonas da cidade, aliada ao carecimento de divulgação de informação sobre os benefícios públicos que a vegetação oferece para o 70 Como é visível nas solicitações de poda e remoção de árvores a prefeitura (FERREIRA et al., 2020). 92 espaço urbano e o bem-estar das pessoas em seus cotidianos, dificulta ainda mais tanto a manutenção da natureza urbana já existente, quanto os processos de viabilização de mais espaços verdes e públicos na cidade do Rio de Janeiro. É interessante notar que desde 1986, a cidade conta com um programa de adoção e concessão de áreas verdes por moradores, empresas e/ou organizações que se proponham a gerenciar desde os serviços de jardinagem, até mesmo a administração dos equipamentos de lazer que existam no interior da área verde. Até mesmo nas redes sociais (Instagram) da Fundação Parques e Jardins da cidade, pode-se observar a divulgação desse tipo de prática, como visto na figura 22. Para obter a licença de adoção ou concessão, é necessária uma autorização da Fundação de Parques e Jardins, e no caso da concessão, uma licitação por meio da prefeitura. Se por um lado a adoção por parte de moradores pode ser uma maneira de aproximar as pessoas da natureza urbana presente em seus bairros, onde elas tem a potencialidade de exercer ainda mais a educação ambiental no nível local, por outro a concessão pode gerar uma gestão fragmentada e pouco abrangente dos espaços verdes da malha urbana, visto que cada entidade estaria apenas administrando a área verde sob sua responsabilidade, não se preocupando com o entorno e as conexões socioambientais entre diferentes espaços. Figura 22: Divulgação do programa Adote.Rio. Fonte: Fundação Parques e Jardins (n.d.). 93 Dessa maneira, em específico, as políticas de concessão de espaços verdes têm ocasionado a descentralização da atuação da Fundação de Parques e Jardins, que a partir dos anos 2000 tem visto seu espaço de gestão e influencia ser diminuído frente a outras entidades públicas e privadas que não necessariamente tem corpo técnico e científico para administrar espaços verdes, como a CONLURB, Secretaria Municipal de Infraestrutura, Subsecretaria de Esporte e Lazer e até mesmo a Secretaria Municipal de Transporte. Nesse contexto, a revisão do Plano Diretor que está em curso desde 2018, é uma oportunidade para novas abordagens no planejamento urbano e ambiental do Rio de Janeiro, bem como a regulamentação do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Ambiental, que servirá de estrutura para toda a Política Urbana no município. Apesar da cidade ter sediado, em 1992, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (popularmente conhecida como ECO 92/ Rio 92),no qual houve um maior envolvimento sociocultural com as questões ecológicas, além de ter tido importantes avanços com a proposta do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável no ano de 2011, ainda hoje a presença do verde, as políticas de integração ambiental e a luta política por espaços de maior justiça socioambiental são um desafio. 94 Tabela 4: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana no Rio de Janeiro. 3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO E A IMAGEM DA NATUREZA URBANA EM OSLO E NO RIO DE JANEIRO Como foi abordado anteriormente, Oslo e Rio de Janeiro, passaram por processos culturais, sociais e ambientais distintos com relação ao desenvolvimento urbano ao longo dos séculos XIX e XX. Porém, ainda assim, é possível estabelecer parâmetros de proximidade entre as duas cidades. Enquanto, num primeiro momento, a cidade do norte europeu se consolidou de maneira mais localizada, ligada, sobretudo, às respectivas situações de união com a Dinamarca e com a Suécia, num contexto sociocultural que tentava materializar em Oslo, as tendências e tradições formais que já estavam em curso nos países vizinhos; o mesmo ocorreu com o Rio de Janeiro, quando pensamos a respeito do contexto de chegada da família real portuguesa, em 1808. Além disso, ambas as cidades receberam influencias do movimento nacionalista e romântico do século XIX ao início do século XX, impactando na superação das relações de união (contexto norueguês), e colonização (contexto brasileiro), que possibilitaram as respectivas independências nacionais, nas quais as duas cidades foram palco de novas 95 políticas e estruturas urbanas que pretendiam transmitir a imagem moderna das duas nações em formação. A Noruega obteve sua independência com a aprovação da Constituição em 1905; e o Brasil já havia se tornado independente há mais tempo, em 1822, mas neste mesmo período do início do século XX, passava pelo turbulento processo de institucionalização da República. De uma maneira ou de outra, tanto a cidade de Oslo, quanto a do Rio de Janeiro, enquanto capitais, foram um dos pontos de convergência política, econômica e social, atraindo e refletindo a modernização de seus respectivos países, além de inserir o aporte cultural como elemento de conexão às dinâmicas globais que ocorriam pelo mundo. Neste sentido, podemos abordar a questão da gestão dos dois espaços urbanos dos países analisados nesta pesquisa. Se, por um lado, a Noruega e o Brasil possuem expressivas disparidades socioeconômicas, climáticas-ambientais e culturais, que se concretizam na forma distinta com a qual a natureza urbana é vivenciada pelos habitantes, além de considerada e planejada no nível institucional da atualidade, ao mesmo tempo, a gestão dessas duas realidades urbanas, por estarem inseridas na lógica das cidades globais, participando e competindo ativamente por investimentos, possuem algumas questões em comum. Nos dois casos, a gestão contribui para conferir maior visibilidade à cidade, enfatizando os elementos culturais, construídos através de narrativas e identidades coletivas, que trarão justamente a diferenciação sociocultural das imagens urbanas a serem veiculadas71. A maneira como a imagem se forma no imaginário coletivo está presente nos estudos de Azambuja (2007), onde a autora aborda o conceito de imagem socioambiental, dando uma dimensão mais específica para o famoso conceito de Kevin Lynch sobre a imagem da cidade (LYNCH, 1997). Para essa pesquisadora, a imagem socioambiental representa um recorte ainda maior do objeto de análise urbano, pois ela ajuda a identificar os aspectos que influenciam na “apreensão” e significação da base material, que é o espaço. Ao se referir a imagem socioambiental, a autora considera: A imagem de um ambiente é uma construção social cuja base são as características físicas do local em estudo, as quais são decodificadas pelos indivíduos (diversos tipos de usuários) em função de suas próprias peculiaridades (idade, gênero, características e limitações físicas, personalidade, motivações, modo de contato com 71 No caso brasileiro, em todo aparato legal a imagem da natureza está relacionada como bem de interesse comum ao povo. Dentro de uma ótica que se apregoa como sustentável, mas como bem, tem valor de mercado. Mais recentemente, embora a política nacional não tenha sido modificada, a legislação das cidades começa a incorporar a natureza como patrimônio, riqueza social. Com um viés mais sensível e de mudança comportamental frente a escassez e degradação dos recursos. 96 a área) e dos elementos da cultura local que influenciam o processo perceptivo (AZAMBUJA ELALI, 2007, p. 6). Azambuja se baseia em estudos de psicologia ambiental, onde o ambiente tem valor simbólico formado a partir de um conjunto de imagens mentais. Além disso, ela também aponta que não há ambiente físico que não seja envolvido por um sistema social e inseparavelmente relacionado a ele (AZAMBUJA ELALI, 2007). Por isso, pode-se dizer que o espaço e a sociedade são reflexos um do outro. No contexto das cidades globais, essa imagem que é formada a partir de identidades individuais e coletivas, unindo o mundo social e o mundo ambiental, se relaciona também ao quanto a gestão urbana é capaz de investir, por meio de aparatos como as redes sociais, para agregar ainda mais características estéticas e qualitativas à cidade. Dessa maneira, percebe-se que no mundo contemporâneo, as cidades e, não mais exclusivamente os países, se destacam no nível internacional. E neste grande jogo da geopolítica urbana, muitas ações são efetuadas em favor da Cidade. De acordo com o sociólogo David Harvey (2012, p. 271), “a ideia da natureza como um produto social tem de ser acompanhada pelo reconhecimento de que os recursos naturais são apreciações culturais, econômicas e tecnológicas.” (HARVEY, 2012, p. 271) Além disso, Harvey também analisa que: “Então, nossas cidades são projetadas para as pessoas ou para os lucros? O fato de tal questão ser colocada com tanta frequência nos leva imediatamente para o terreno da grande variedade de lutas sociais e de classe na formação do lugar. Estas são as paisagens em que a vida diária tem de ser vivida, as relações afetivas e solidariedades sociais são estabelecidas e as subjetividades políticas e os significados simbólicos são construídos. Os interesses da classe capitalista e dos desenvolvedores são conscientes dessa dimensão e procuram mobilizá-la por meio do apoio à comunidade ou à cidade e da promoção deliberada de um sentido de identidade local ou regional, fundamentando-se às vezes com sucesso sobre as sensibilidades populares derivadas das fortes relações com a terra e o lugar.” 97 Sobre este aspecto, cabe citar tanto o exemplo de Oslo, ao receber a premiação de Capital Verde da Europa em 2019, pela Comissão Europeia, quanto o do Rio de Janeiro, quando lhe foi conferido o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO72 em 2012. É interessante apontar que a cidade norueguesa já passava por um processo histórico e cultural de implementação de políticas de acesso e manutenção de espaços verdes, além de medidas de sustentabilidade como parte de seu planejamento urbano e ambiental. Isso pode ser verificado na pesquisa feita sobre a natureza urbana em Oslo, além da entrevista realizada com a ex-arquiteta e urbanista da cidade, apresentada e discutida no capítulo 4, sobre os aspectos da gestão do Parque Frogner. Porém, foi justamente essa cultura de espaços verdes, já presente na cidade, que concedeu a sua diferenciação em meio aos outros contextos urbanos que também estavam concorrendo ao título de Capital Verde. Foi nesse mesmo período que a expressão: “o azul, o verde e a cidade no meio”, se popularizou aindamais tanto no vocabulário acadêmico, quanto nas mídias sociais, ao fazer referência à Oslo, e essa expressão carrega em si mesma a imagem da cidade, como pode ser visto no trecho traduzido e na figura abaixo, obtida no mapa turístico colaborativo, USE-IT OSLO73, feito por jovens moradores da cidade em 2018, no qual pode ser lido: “ O azul, o verde e a cidade no meio... ... é o que nosso antigo prefeito costumava dizer sobre Oslo. A cidade é circundada por floresta e água. A área de Oslo é, na verdade, 60% floresta, e nós Osloites74 passamos muito do nosso tempo livre nas matas. Nós a chamamos de Marka e tem boa sinalização e marcação nas rotas para escolher, de forma que você não se perca pela floresta. Vá para o número 21 deste mapa, DNT (Associação Norueguesa de Caminhada) na rua Storgata 3, para obter dicas e mapas grátis. Você encontrará muitas pessoas caminhando felizes na floresta. Fato divertido: Noruegueses dizem olá, quando encontram outros caminhantes na floresta ou montanha, mas o mesmo não acontece nas ruas. 72 UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. 73 Para maiores informações, consulte: https://use-it.no/. 74 Osloites – Denominação dos habitantes de Oslo. https://use-it.no/ 98 O inverno pode ser o que os noruegueses fazem melhor. Nossa dica é andar de trenó na colina de 2km chamada Korketrekkeren, ou ir a Sauna no Floating Sauna. Vá ao quiosque de informações da Use-it maps e peça por dicas e direções. Tenha em mente que não há mau tempo, apenas roupas ruins (nossa versão norueguesa dessa expressão rima melhor e somos muito orgulhosos dela)” (USE-IT OSLO, 2018, p. 5, tradução livre). Figura 23: O azul, o verde e a cidade no meio. Fonte: mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-IT Oslo, em 2018. Além disso, no ano de 2021, o mesmo mapeamento colaborativo produziu um novo mapa da cidade, enfatizando os parques que se encontram disponíveis. É interessante notar que, de igual forma a cartografia confeccionada em 2018, nesta também a imagem principal de Oslo se relaciona aos seus espaços verdes e a vida ao ar livre, como pode ser visto na figura abaixo, com o título de Park Life, ou vida de parque, e especificando algumas características dos parques mais conhecidos: 99 “Nós visitamos os parques como se estivessem em nosso próprio quintal. Junte-se a nós em um piquenique com cerveja durante o verão, ou a andar de trenó, e depois tomar um chocolate quente no inverno (...)” (USE-IT OSLO, 2021, p. 5, tradução livre). Figura 24: Park life. Fonte: Mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-IT Oslo, em 2021. Nesta perspectiva, a contribuição do pesquisador Laurent Jégou (2016) se faz importante, ao afirmar que a eficácia de um mapa é medida pela sua capacidade de comunicação e a maneira como o idealizador/ cartógrafo apresenta visualmente a informação ao leitor do mapa. Segundo ele, o mapa é uma criação gráfica que afeta diretamente o seu leitor a partir do aspecto visível. Isto é, a imagem é um fator importante no desenvolvimento da memória espacial, através de representações gráficas presentes nas produções cartográficas (JÉGOU, 2016). 100 É interessante observar que a autor discute também o papel dos meios de comunicação na formação dessa imagem espacial. Dessa forma, sendo a cartografia um meio de comunicação geográfico e (re) produtor de imagens, pode-se considerar que a imagem contida numa representação cartográfica, como a que foi mostrada sobre Oslo, pode contribuir para a formação tanto da imagem individual, de um visitante que esteja conhecendo a cidade no momento presente, como também realça a síntese de imagens coletivas de uma determinada cultura, no caso, a norueguesa. É justamente nessa relação que a imagem vai se formando, sendo constantemente construída pelos atores e agentes do espaço, tecendo os fios de conexão da paisagem urbana. De igual forma, o Rio de Janeiro também se beneficiou de todo o seu cenário natural, com a presença de elementos como o Corcovado, o Pão de açúcar, a Floresta da Tijuca e as praias, para propagar a sua imagem de “cidade maravilhosa”, que já vinha sendo narrada e internacionalizada por diversos componentes culturais ao longo do século XX, como no gênero musical da Bossa Nova, em especial nas músicas do compositor e maestro Tom Jobim. Este aspecto pode ser visualizado no trecho da música abaixo, Corcovado, composta por Tom Jobim em 1959: “Um cantinho, um violão Esse amor, uma canção Pra fazer feliz a quem se ama Muita calma pra pensar E ter tempo pra sonhar Da janela vê-se o Corcovado O Redentor, que lindo!” (TOM JOBIM, 1959) Dois outros exemplos da imagem da cidade veiculada internacionalmente são os casos das produções da Disney e da 20th century Fox animations, nas quais a primeira se refere ao personagem de revistinhas, denominado de Zé Carioca, um papagaio amigo dos também personagens Pato Donald e Mickey Mouse, produzido na década de 1940 pelos estúdios de desenhos cinematográficos, após uma viagem do próprio Walt Disney ao Rio de Janeiro em 1941; e a segunda se refere ao filme de animação Rio, produzido em 2011 e que narra a 101 história de uma arara-azul contrabandeada para os Estados Unidos e suas aventuras para retornar ao ambiente florestal de sua cidade natal, o Rio de Janeiro. Em ambos os casos, a imagem propagada da cidade é, principalmente, ligada a paisagem do Pão de açúcar, corcovado e Floresta da Tijuca, como pode ser visto na publicação recente do Zé Carioca, em que o personagem aparece tirando foto com a paisagem do Pão de Açúcar ao fundo e no cartaz em inglês do filme Rio, no qual se pode ler: “Ele está indo para o mais selvagem e mágico lugar da terra... seu lar”: Figura 25: Revistinha do Zé Carioca e Cartaz do filme Rio (2011). Fonte: Vieira (2020) e Filmow (c2016). Sendo assim, seja no Norte ou no Sul global, as duas cidades analisadas nesta investigação, se relacionam a ideia de que a natureza urbana lhes confere uma determinada imagem (imagens), na qual a paisagem atua como um recurso de atração tanto de pessoas, como no caso do turismo, quanto de investimentos, como no estabelecimento de empresas e novas infraestruturas de transporte e comunicação nessas cidades. Ademais, o fato de a 102 premiação de Oslo e do Rio de Janeiro surgir a partir do reconhecimento de duas respeitadas instituições mundiais, como é o caso da Comissão Europeia e da UNESCO, enfatiza ainda mais a imagem culturalizada do meio ambiente disponível nessas duas realidades urbanas perante o contexto global, conferindo crédito e confiabilidade a esses locais. Um exemplo recente da imagem transmitida através de elementos da cultura popular é a música “Nós não precisamos de jardim75”composta pela cantora norueguesa Ine Hoem no ano de 2020. Nesta canção, é abordado o fato da cidade de Oslo estar se expandindo por meio da verticalização e da presença de novos condomínios habitacionais, em oposição a habitação tradicional das famílias norueguesas, constituída de uma casa unifamiliar, com um amplo jardim. A cantora enfatiza, ao longo da música, a questão de morar em apartamento e não precisar de um jardim particular, pois a própria cidade oferece a todos os habitantes parques e praças, onde eles podem se sentir livres e, até mesmo correr, se quiserem. “Vi trenger ikke hage vi For vi har mange parker vi kan løpe i I byen føler vi oss fri Når de spør oss er det én ting vi skal si Vi trenger ikke hage vi” Nós não precisamos de jardim Porque nós temos muitos parques por onde podemos correr Na cidade nós nos sentimos livres Quando nos perguntam só há uma coisa a dizer Nós não precisamos de jardim (INE HOEM, 2020, tradução livre). Sendo assim, a imagem veiculada por meio da música, diz respeito,sobretudo, às mudanças na forma urbana e no planejamento pelas quais Oslo vem passando na contemporaneidade. É interessante notar que o título, por vezes inesperado e contraditório, nos faz pensar: “como uma população que valoriza tanto os momentos passados na natureza pode compor uma música cujo título diz não precisar de jardins?”. No entanto, por meio da letra, percebemos que a importância dos espaços verdes se sobressai na canção, e 75 Tradução livre do título: Vi trenger ikke hage, vi. 103 compreende-se que, na realidade, o tema central é o acesso pleno a esses espaços no meio urbano de Oslo, que não somente é historicamente relevante, como continua sendo essencial para a vida dos moradores. Já na perspectiva da cidade do Rio de Janeiro, um exemplo recente é o do grafite feito pelo artista Gloye, em 2021, no qual a imagem transmitida foi a da Floresta da Tijuca. Neste caso, Gloye foi indicado por moradores do bairro de Laranjeiras, zona sul da cidade, para criar um painel num muro que previamente era coberto por heras, mas que após um acidente de carro, foi necessário retirar a vegetação do local. O muro, localizado na rua Alice, faz parte das ações dos moradores para transformar essa via pública em um “parque”, consistindo em um corredor de manifestações artísticas que remetem a natureza presente no Rio de Janeiro. Além disso, o interesse em utilizar o espaço do muro partiu também da preocupação da população com os altos índices de acidentes automobilísticos no local, que corresponde a uma perigosa curva no entorno dos acessos à Floresta da Tijuca. Dessa maneira, o artista Gloye produziu um amplo grafite, cobrindo o muro com imagens das árvores típicas da Mata Atlântica, bem como de animais silvestres presentes na floresta urbana, dentre os quais tucanos e micos. Em reportagem ao Jornal O Globo76, em 24 de abril de 2021, Gloye afirma: “Revitalizar. Amar. Canalizar essa energia para ficar saudável; porque hoje está fácil se desequilibrar. Tem muita coisa para acontecer na cidade do Rio. A gente tem muita parede, muito assunto.” (AQUINO, 2020). 76 Para maiores informações consulte: <https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/gloye-desponta-na-street- art-assina-mural-na-rua-alice-grafite-uma-arte-sem-limites-24978501>. Acesso em: 14 fev. 2022. https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/gloye-desponta-na-street-art-assina-mural-na-rua-alice-grafite-uma-arte-sem-limites-24978501 https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/gloye-desponta-na-street-art-assina-mural-na-rua-alice-grafite-uma-arte-sem-limites-24978501 104 Figura 26: Grafite sobre a Floresta da Tijuca- Gloye. Fonte: Jornal O Globo (2021). Neste sentido, a imagem da natureza urbana presente no grafite, não só aumenta a visibilidade do bairro de Laranjeiras, como também da importância da Floresta da Tijuca para a cidade. Ademais, Freitas (2019, p. 66), diz que a paisagem-grafite vai além do aspecto visual, pois ela também é criada e vivenciada pelo seu artista criador. Sendo assim, compreender as experiências que Gloye obteve nos processos de elaboração do grafite também é relevante para entender os significados que transitam pela paisagem grafitada, e modificam a maneira de habitar a cidade. Por meio do trecho narrado durante a entrevista ao jornal, percebemos que Gloye relaciona o espaço verde da floresta a sensação de equilíbrio e bem-estar, ao mencionar o fato da pintura do mural significar uma revitalização, conectada a sua própria percepção de cidade saudável, a partir do recurso visual. No entanto, cabe ressaltar que, no caso do Rio de Janeiro, por vezes apenas uma parte da cidade, comumente associada a zona sul, é considerada, transmitida, e também vendida, como a imagem que trará a tão almejada visibilidade. Esse aspecto pode ser analisado a partir do histórico de formação carioca e de todas as desigualdades existentes no contexto socioeconômico, nas questões de habitação, infraestruturas e acesso a espaços públicos de qualidade, que difere de acordo com o bairro em que se está. Esse fato não é tão marcante na história sociocultural de Oslo. Apesar de existirem certas desigualdades na cidade, sobretudo nas áreas administrativas seccionadas pelo rio Akerselva, em bairros mais tradicionais a oeste, e os redutos da classe trabalhadora a leste. Entretanto, as diferenças tanto no acesso aos bens públicos, como as disponibilidades de infraestruturas por toda a cidade, são muito tênues. 105 Justamente essas duas questões presentes em Oslo e no Rio de Janeiro, no que tange a presença de espaços verdes, a manutenção e o acesso deles por parte da população, é que me instigaram a pesquisar sobre o desenvolvimento da natureza urbana nesses dois contextos sociais. A partir da minha experiência como estudante em Oslo, no ano de 2019, pude vivenciar a natureza por todos os lugares onde passei, de uma maneira muito mais facilitada do que em comparação a minha vivência no Rio de Janeiro. Mas por quê? As minhas inquietações me levaram a refletir sobre o fato de que a resposta não está no fato do Rio de Janeiro ser muito mais extensivo e populoso do que Oslo. A questão principal é a falta de uma política urbana e ambiental associada ao desenvolvimento socioeconômico, de forma integrada em todas as áreas da cidade carioca. A facilidade em se percorrer a paisagem urbana de Oslo, tanto a pé, quanto por transportes públicos, em meio a marcante presença dos espaços verdes, públicos e com alto grau de manutenção, influenciou na minha saúde física e mental. Isto é, a rica cobertura vegetal da cidade, além de seus rios, lagos e pequenas praias e ilhas na zona costeira, articularam a minha percepção sobre o efetivo sentido de biofilia urbana, a partir de uma sensação de bem-estar e plenitude, que me acompanhavam em absolutamente todos os meus trajetos. Apesar do meu curto tempo no território norueguês, o fato de poder colher frutinhas na floresta, durante o verão, e poder andar despreocupada de um espaço verde a outro, várias vezes ao dia, era algo novo para mim, mas completamente corriqueiro para a população da Noruega. Com relação a minha experiência enquanto estudante no Rio de Janeiro, embora seja inegável que a cidade tenha uma natureza urbana notável, com ampla relevância em termos de biodiversidade, o acesso a essa natureza é algo bastante restrito; no qual a desigualdade socioeconômica também se reflete em uma desigualdade ambiental, nos diferentes bairros cariocas. A partir do meu trajeto de ônibus, durante meus anos estudando na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), entre o período de 2013 e 2018, eu percebia nitidamente as diferenças em termos de natureza, entre as zonas norte, central e sul da cidade. Ao chegar à universidade, que se localiza na zonal sul, em proximidade a diversas áreas verdes, como o Jardim Botânico, Floresta da Tijuca, Parque da Gávea, entre outros, não apenas a sensação térmica se diferenciava (era sempre bem mais fresco), como também a minha sensação de bem-estar, por poder estar em um lugar tão arborizado e repleto de vida. Dessa maneira, a minha escolha por pesquisar sobre a relevância da Quinta da Boa Vista, sob a perspectiva socioambiental para a cidade, ocorreu devido a este parque específico 106 estar conectado a um passado importante para o desenvolvimento da nação, que teve a sua imagem sociocultural modificada na passagem do império para a república. Na atualidade, o fato do parque se situar em um bairro da zona norte, tendo um papel considerável em oferecer acesso a natureza urbana a moradores de contextos socioeconômicos distintos e seu potencial de conectividade a outros espaços verdes, como pode ser observado no capítulo 4, pode o relacionar a uma possibilidade de maior justiça ambiental na cidade do Rio de Janeiro. Em complementação,o Parque Frogner, em Oslo, representa também um momento histórico importante de formação da nação da qual ele faz parte. Porém, na contemporaneidade, esse parque possui ainda mais relevância socioambiental no contexto de uma região distrital que vem passando pela tendência a verticalização através das políticas de densificação do espaço urbano, onde o parque se torna o espaço de maior biodiversidade da área central da cidade; além de ser um elo de conexão entre os demais espaços de cobertura vegetal presentes nesta paisagem urbana. Portanto, em meio a todo o meu percurso profissional e experiencial acerca dos espaços urbanos citados, o objetivo principal desta investigação acadêmica, é o de compreender como os aspectos socioambientais desses dois parques, isto é, como o histórico deles e as multifuncionalidades, enquanto espaços ao mesmo tempo de sociabilidade e ecológicos, podem se relacionar às dinâmicas de bem-estar urbano da atualidade das cidades das quais esses parques são partes essenciais77. 77 Conceitos: 1) Sociabilidade- as atividades realizadas nos dois contextos empíricos são experiências espaciais permeadas de significados relevantes para a compreensão das dinâmicas socioculturais da cidade contemporânea; 2) Sustentabilidade- a conectividade entre esses parques e os outros espaços verdes das cidades, e os conjuntos de ações que os preservam; 3) Gestão- como esses parques são gerenciados por suas municipalidades e como a imagem da natureza urbana é veiculada nos discursos midiáticos oficiais. 107 CAPÍTULO 4: CONTEXTOS EMPÍRICOS – A CONTEMPORANEIDADE DO PARQUE PÚBLICO 4.1 PARQUE FROGNER O parque Frogner é um parque urbano e público com origens na Idade Média, quando ainda era uma mansão agrícola. No século XVIII, a municipalidade da Kristiania (Oslo)78, comprou suas terras, e em 1896 o espaço se tornou propriedade oficial do estado, com a intenção original de transformá-lo num cemitério para a parte ocidental da cidade, ideia que foi cancelada por decisão do conselho urbano em 1902, onde sua função de parque foi mantida79. Situado no bairro de mesmo nome, na cidade de Oslo-Noruega, esse espaço já passou por diversas transformações ao longo de sua existência, dentre as quais podemos destacar a reestruturação de uma de suas áreas internas em estilo neoclássico, idealizada pelo escultor norueguês Gustav Vigeland no ano de 1934, local hoje conhecido como Parque Vigeland. Essa distinção se deve justamente pelas esculturas feitas por esse artista no interior do parque, representando figuras humanas em diversas posições e atividades diárias, o que o faz ser um espaço bastante peculiar e famoso na paisagem urbana da cidade. Brøgger (2016, p. 74) argumenta que entre as décadas de 1910 e 1920, quando a cidade de Oslo estava imersa numa ampla discussão política acerca do planejamento urbano e da presença de parques públicos, o então jardineiro-chefe da cidade, Marius Røhne, e Gustav Vigeland tiveram embates acirrados com relação às suas ideias opostas perante o futuro do Parque Frogner no contexto de integração de áreas verdes. De um lado, Røhne temia que Vigeland “transformasse o parque em um parque de esculturas particular”, desconectado da essência básica do movimento político que estava em curso na cidade, que o concebia como lugar com abundância de vegetação, projetado como ambiente natural e próximo a população (RØHNE, 1965, p. 155 apud BRØGGER, 2016, p. 74). Cabe destacar que, mesmo com essa disputa de interesses, Vigeland acabou sendo convidado a projetar um local para suas esculturas na parte central do parque, fato que gerou ainda mais desavenças, tendo em vista que ele não tinha conhecimentos prévios sobre paisagismo ou alguma experiência com projetos urbanos. Porém, o resultado foi aceito pela Câmara Municipal sem contestação, gerando “indignação entre os críticos em muitos campos, 78 Oslo se chamava Kristiania entre os anos de 1624 e 1925. 79 O Cemitério acabou sendo construído ao lado do Parque Frogner, localizado no mapa da Figura 29 como Vestre Gravlund (cemitério ocidental). 108 desde artistas, arquitetos e planejadores próprios, até sobretudo jardineiros e arquitetos paisagistas” (JØRGENSEN, 1997, p. 255). Figura 27: Parque Vigeland. Fonte: Arquivo pessoal (2019). Apesar de todo esse histórico, as esculturas representam um grande atrativo turístico na atualidade do parque, sendo um dos espaços públicos mais visitados em Oslo (JØRGENSEN, 2018). Entretanto, não é apenas pela arte que o parque é tão relevante, mas também por ser a maior área verde, com 320.000 m2 na parte central da cidade, favorecendo sobretudo os moradores dos bairros Frogner, Majorstuen, Blindern e Ullevål, vide Figura 29. Sob esta perspectiva analítica, podemos dizer que também o legado de Marius Røhne pode ser sentido nos dias atuais. Isso é considerativo tendo em vista a tendência da recente política urbana de Oslo a densificação nas áreas já urbanizadas, fazendo do centro da cidade e bairros adjacentes, locais com menor presença de cobertura vegetal, quando comparados a outros espaços mais distantes do centro. 109 Figura 28: Mapeamento da área de cobertura vegetal em Oslo com destaque em vermelho para os bairros de Frogner e Sentrum. Fonte: Adaptado de Bymiljøetaten (2021). 110 Figura 29: Localização do Parque Frogner no contexto do bairro e áreas vizinhas. Fonte: Google Maps 2022. Figura 30: Identificação dos mosaicos internos do Parque Frogner, destacado em laranja. Fonte: Adaptado pela autora através de Arcgis Earth (2022). 111 De acordo com Gísladóttir (2014, p. 43), em seu estudo sobre a importância das áreas verdes de Oslo para a saúde da população idosa, o Parque Frogner representa um espaço de refúgio, além de ser um ótimo local para leituras, encontrar amigos e fazer exercícios físicos durante a semana (GÍSLADÓTTIR, 2014). A pesquisadora realizou entrevistas durante todas as estações do ano, para identificar como os idosos vivenciavam o parque em climas distintos, e como a arquitetura paisagística presente nesta área verde contribuía sobretudo para facilitar o acesso desse grupo de pessoas, como por exemplo, a presença de bancos no interior do parque, além de rampas e corrimões seguindo o desenho universal. Um de seus resultados foi o fato de o Parque Frogner estar localizado num bairro antigo e tradicional da cidade, influenciando o nível de manutenção e atenção que este espaço recebe por parte da prefeitura. Ela constatou também que, em Frogner, existe um grande número de residências para idosos, o que favorece ainda mais as atividades sociais que este grupo realiza no parque, local próximo de suas moradias. Gísladóttir (2014) argumenta que, especialmente as pontes e o lago, bem como o jardim inglês (Skøyenparken), que são mais afastados das esculturas e das áreas centrais, “proporcionam um ambiente de calma e relaxamento, onde se observa o rio Frogner seguir seu curso por baixo da ponte e ir em direção ao oceano” (GÍSLADÓTTIR, 2014, p. 57, tradução livre).80 Figura 31: O Parque Frogner no inverno. Fonte: Lisabethwasp - Own work, CC BY-SA 4.0. 80 Por outro lado, ela identifica que a presença de músicos de rua, por vezes imigrantes, localizados especificamente no Parque Vigeland, causa desconforto, por conta do som alto de suas canções e falatório (GÍSLADÓTTIR, 2014, p. 57). 112 Figura 32: O parque Frogner no verão. Fonte: Arquivo pessoal (2019). Além disso, o Parque Frogner se localiza próximo a diversas conexões de transportes públicos como estações de metrô (na rua Kirkeveien), pontos de ônibus e bondes, facilitando o acesso do público de outras localidades a este espaço, por meio de integrações de diferentes linhas de deslocamento. Os principais bairrosque mantém conexões diretas através do sistema de transportes coletivos são: Majorstuen, Blindern e Sentrum, além do próprio bairro Frogner. Com relação aos veículos privados, não existem muitas áreas para estacionamento ao redor do parque, com exceção do espaço na entrada principal (rua Kirkeveien), destinado aos ônibus de turismo, o que implica num movimento limitado de carros no acesso a esta área verde. Figura 33: Mapa de localização e Entrada lateral do Parque. Fonte: Arquivo pessoal (2019). 113 Como foi dito anteriormente, as esculturas de Vigeland atraem sobretudo turistas, que se sentem impactados num primeiro contato com a arte permanentemente exposta no local, porém, outros fatores também influenciam nas dinâmicas multifuncionais presentes ali, como por exemplo, a presença de três ambientes com entrada paga, como a piscina pública frognerbadet e o complexo esportivo, com uma quadra de tênis e um estádio de futebol, além da cafeteria. Com relação as atividades e espaços gratuitos, destacam-se a ampla área de lazer com gramados extensos, playgrounds para crianças e adultos, bem como a maior coleção de rosas do país, com 150 espécies diferentes, atraindo famílias aos finais de semana, que se reúnem no parque para realizar desde piqueniques, e até mesmo passear com animais de estimação ou assistir a um concerto ao ar livre (sendo este último uma atividade onde se cobra ingressos). Figura 34: Entrada da piscina pública Frognerbadet. Fonte: Hans-Petter Fjeld - Own work, CC BY-SA 2.5 (WIKIPEDIA, 2020). Figura 35: Norwegian Wood Festival. Fonte: Visit Oslo (2019). 114 É interessante notar que a história do Parque Frogner está associada ao desenvolvimento do bairro, remontando às origens agrárias na Idade Média até o seu posterior desenvolvimento como propriedade burguesa e, enfim, propriedade da municipalidade. Neste sentido, o parque se relaciona tanto à história sociocultural de Oslo, quanto ao sistema de parques pensado por Marius Røhne e Harald Hals, como foi visto no capítulo anterior. É um lugar que mantém significados socioculturais, perpetuando não somente o passado e o presente, mas também o futuro da cidade. Isso pode ser visto no fato do museu que narra a história de Oslo (Bymuseet) estar situado dentro do Parque Frogner, podendo indicar que o parque mantém as raízes históricas da cidade, além de instalações artísticas, como as esculturas de Vigeland, que representam o momento no qual a Noruega buscava sua identidade nacional através das artes. No que tange ao presente e ao futuro, o painel sobre a presença de imigrantes na Noruega81, vide figura 38, pode ser interpretado como relatos do presente de um ambiente urbano em constante transformação, em direção a um novo futuro sociocultural, do qual o Parque faz parte. Figura 36: Gramado e o Museu da cidade (Bymuseet) ao fundo. Fonte: Arquivo Pessoal (2019). 81 Onde pode ser lido: “A maior minoria étnica em Oslo é a de paquistaneses, seguidos por imigrantes da Suécia, Somália e Polônia” ( tradução livre da autora). 115 Figura 37: Cafeteria. Fonte: Arquivo pessoal (2019). Figura 38: Texto aos fundos da cafeteria do Parque, sobre os grupos étnicos presentes em Oslo. Fonte: Arquivo Pessoal (2019). 116 4.1.1 A paisagem e as vivências Em uma análise fenomenológica, o autor Brøgger (2016, p. 72-75), descreve suas interações com o Parque Frogner durante a infância, destacando a simbologia que o lugar ainda guarda em sua memória: As partes do parque que eu procurava quando criança eram, acima de tudo, os projetos de jardins naturalistas de Røhne, que também convidavam a impressões de "um ambiente rico e sem foco" que apelava a todos e cada um dos meus sentidos. De acordo com a minha percepção, o Parque Frogner era um ambiente semelhante ao Éden para um menino como eu. Muito antes de saber os nomes das muitas plantas e animais que habitavam o parque, eu estava eternamente apaixonado por eles. O nome de Frogner pode ter origem no antigo nórdico fraun, que significava "solo fértil" - e, embora altamente cultivado, este era um ambiente exuberante com seus amplos gramados, duas lagoas, riacho e seus vários milhares de árvores que incluíam alguns bordos, olmos e tílias do ano de 1700 (alguns deles com mais de cinco metros de circunferência), para não falar da selva densa de árvores menores e arbustos ao longo do riacho Frogner abaixo do segundo lago, e as encostas cobertas de arbustos abaixo do Monolito que ofereciam, em seus caramanchões, esconderijos secretos tanto para mim quanto para os pardais (BRØGGER, 2016, p. 75, tradução livre). Neste sentido, o autor que morava na parte baixa de Kirkeveien, do outro lado do parque, pôde vivenciar durante seus primeiros anos de vida (a partir dos anos de 1960), uma natureza que ele associa às suas memórias de infância, tornando o espaço deste parque específico como uma fonte de resgate das suas primeiras descobertas da natureza. O Parque Frogner ofereceu a ele uma espécie de santuário natural, onde ele tinha um refúgio. Além de ser a sua “floresta encantada” (BRØGGER, 2016, p. 72), o autor destaca que, de dentro do parque podia-se ter uma visão panorâmica das diversas colinas (koller), que estão presentes em Oslo, impelindo nele a curiosidade de conhecer os outros espaços verdes que a cidade tinha a oferecer. Dessa maneira, podemos dizer que, a partir das recordações do pesquisador, a conexão entre os parques e demais áreas verdes promovida pelo planejamento urbano e o sistema de parques do século XX, visto no capítulo 3, não era apenas algo delimitado e gerenciado genericamente nos mapas, mas era também uma percepção visual daqueles que frequentavam 117 o local, onde a paisagem do parque, como se fosse um leque, se expandia para além de seu perímetro inicial, proporcionando um horizonte de interligação entre os diversos espaços verdes na paisagem urbana de Oslo. Brøgger (2016, p. 80) também narra que o Parque Frogner era um local onde ele costumava brincar durante todas as estações do ano, subindo em árvores em Gratishaugen, no verão, ou jogando bolas de neve nas estátuas nuas durante o inverno. Foi neste local de natureza urbana e idealizações humanas que o autor afirma ter começado a observar a vida de todos os animais que preenchiam os vários biótopos do parque, expandindo sua consciência sobre o mundo e as diferentes maneiras pelas quais partilhamos o ambiente com outras formas de vida (BRØGGER, 2016). De uma certa maneira, a partir das informações acima, o Parque Frogner ativou duas formas de expansão no cotidiano do autor: tanto para o exterior, ligando-o às colinas de Oslo e aos aspectos socioculturais do contexto urbano da cidade, mas também para o interior, desencadeando a noção de que, dentro do próprio parque, existiam mundos ecossistêmicos com dinâmicas e elementos completamente novos, e por si só, únicos. Figura 39: Aspectos da vegetação do Parque Frogner. Fonte: Arquivo Pessoal (2019). 118 No período de 2020 a 2021, foram realizadas entrevistas (vide modelo Anexo 1), no formato de pequenos relatos, com frequentadores recentes do Parque Frogner. O grupo foi selecionado com base na idade e local de moradia (cidade de Oslo), onde buscou-se abordar com profundidade analítica, a experiencia de um grupo restrito de pessoas dentro do Parque. Neste sentido, destacam-se as pessoas na faixa etária dos 20 anos aos 30 anos, bem como dos 40 anos aos 70 anos, estrangeiros e noruegueses nativos, que comentaram sobre a experiencia deles tanto com relação aos espaços verdes da cidade de Oslo, quanto com relação específica ao Parque Frogner. O eixo central das respostas foi a questão dos espaços públicos preferidos dos entrevistados na cidade, que variaram desde o lago Sognsvanne a floresta Nordmarka, para nadar, fazer caminhadas e trilhas, até mesmo pequenos parques urbanos e feirinhas no bairro Grunerlokka, além das ilhas presentes no fiorde, que promovem um bom local para nadar e se refrescar no verão. Neste contexto, o Parque Frogner foi citado como lugar muito escolhido para levar os turistas que visitam a cidade, além de ser um espaço para caminhadas e exercícios físicos daqueles que moram nas imediações do local. A paisagem verde da cidade foi amplamente percebida como algo benéfico e que promove o bem-estar. A partir do eixo das respostas com relação aos espaços verdes, pode-se destacar que a presença da vegetação afeta as pessoas de maneira positiva, deixando-as mais calmas e centradas, além de lhes possibilitar acompanhar as diferentes estações do ano, pelas mudanças na coloração e aspecto das folhas. Isto é, tendo efeitos sobretudo na saúde mental de todos os entrevistados. É interessante notar que, para a entrevistada norueguesa 1 (vide Anexo 2), não os parques, mas sim a floresta é um local onde pode-se permanecer durante muitas horas do dia, realizando inúmeras atividades diferentes. Porém, apesar de afirmar que alguns parques não são tão atrativos assim, ela reconhece que justamente a presença da vegetação dentro e ao redor de Oslo é o que influencia na vontade das pessoas a saírem de suas casas e enfrentarem a neve e o frio do inverno, o que talvez não ocorresse se apenas houvessem prédios por toda a paisagem urbana. Desse modo, a vegetação, a zona costeira e demais áreas de rios e lagos, exercem uma função dupla, relacionada tanto a questão da cidade biofílica (a), quanto a questão da sustentabilidade (b): (a) oferece um rico espaço de sociabilidade e bem-estar para os habitantes, como também auxilia na regulação hídrica e resiliência urbana (b). 119 De acordo com as respostas neste mesmo eixo temático, sendo a primeira do entrevistado de 70 anos -3, e a entrevistada americana de 46 anos- 4 (vide Anexo 2), percebe- se que os espaços verdes também tem o papel de aproximar as pessoas dos outros animais que convivem conosco no meio urbano. Assim como Brøgger (2016) afirmou ter iniciado seu contato com a fauna no Parque Frogner, ainda em sua infância, o entrevistado, um senhor de 70 anos -3, nesta pesquisa, enfatiza o fato dos espaços de natureza favorecerem o contato com animais, influenciando até mesmo na noção de que não estamos sozinhos neste mundo, fato que é o contrário do ambiente solitário e individual que muitos contextos das grandes metrópoles oferecem atualmente. Além disso, na fala da entrevistada imigrante dos Estados Unidos- 4, percebe-se a relevância do verão para os habitantes da Noruega. A luz do sol influencia na quantidade de horas que as pessoas passam ao ar livre e, neste sentido, o Parque Frogner aparenta ser um bom lugar na cidade para celebrar esse tão importante momento do ano, no qual se comemora o solstício de verão no hemisfério norte. Além disso, a pandemia do Coronavirus também influenciou em novas maneiras de se aproveitar a cidade. Essa entrevistada enfatiza também a questão da arte. A partir da fala dela, o espaço ao ar livre influencia na percepção que se tem sobre o artefato artístico. E, no caso do Parque Frogner, se nota que o próprio parque pode ser considerado como uma obra de arte, pois a natureza, as construções e as esculturas possuem conexão entre si, formando um complexo paisagístico82. Com relação a importância do Parque Frogner para a estrutura e história urbana da cidade, a temática do turismo foi muito citada. Para os entrevistados noruegueses, apesar de ser um parque de grandes dimensões, ele é um local frequentado, principalmente, por moradores do próprio bairro Frogner e adjacências. Também este grupo enfatizou ser o parque um marco turístico de Oslo, relevante para desafogar as outras áreas verdes, como pode ser percebido na entrevista realizada com a norueguesa de 28 anos -1, moradora do bairro Sagene, não tão próximo de Frogner e o entrevistado de 70 anos -3 (vide Anexo 2). Neste sentido, podemos analisar que a entrevistada norueguesa, corrobora com o fato de que as esculturas representam uma enorme atração turística para a cidade, além de fazerem parte da cultura da Noruega, mas que enquanto espaço verde, o Parque Frogner é tão relevante quanto os outros parques de Oslo, exercendo o seu papel de espaço de sociabilidade num 82 Atualmente, muitos parques pelo mundo possuem arte em seus interiores, como o Museu de Kistefos, no interior da Noruega, que é um parque com instalações artísticas dentro. E o próprio Instituto Inhotim no Brasil, localizado em Minas Gerais, abrigando um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil e considerado o maior museu a céu aberto do mundo. 120 contexto mais local, fato que também ocorre com os outros parques da cidade. Isso se conecta às análises de Gísladóttir (2014), a respeito do Parque Frogner ser um local de visitação escolhido por idosos do próprio bairro Frogner, bem como a narrativa de Brøgger (2016), que morou na rua Kirkeveien, próximo à entrada principal do parque durante a infância, além da política e o sistema de áreas verdes idealizado até a primeira metade do século XX, como foi abordado no capítulo 3, segundo a qual Marius Røhne implementou espaços verdes nos bairros para oferecer espaços com natureza urbana próxima aos locais de moradia das pessoas. Além disso, cabe destacar que, o fato de o parque ser muito visado pelo turismo e ter uma grande área de extensão, é visto de maneira positiva pela entrevistada, quando ela afirma que estas características contribuem para desafogar outros parques menores, localizados em outras áreas da cidade. Este aspecto é relevante uma vez que, se não fosse a presença de um Parque com 320 mil m2 nas imediações centrais de Oslo, talvez outros espaços verdes menores tivessem suas capacidades sobrecarregadas, influenciando na sensação de bem-estar desses locais. Isso representa mais uma das conexões que o Parque Frogner possui com esses outros parques, que vai além da conexão visual e cartográfica, mas também tem a ver com o fluxo de pessoas que transita por esses espaços. Figura 40: O parque durante o outono. Fonte: Visit Oslo e Vigeland… (2020). Ainda sobre a temática da percepção dos moradores de Oslo sobre o Parque Frogner, e com base nos relatos do entrevistado norueguês de 32 anos- 6 e do entrevistado de 70 anos- 3 (vide Anexo 2), pode-se observar que a relação entre este parque e a história da Noruega é algo bastante presente na consciência das pessoas que moram em Oslo, sejam elas 121 norueguesas de nascença ou imigrantes. Como o senhor de 70 anos-3 afirmou, a construção do local foi premeditadamente pensada para ser algo marcante; algo que transmitisse a mensagem de que o país possuía grandes obras arquitetônicas e artísticas. Tendo em vista que demarcar e construir um determinado empreendimento confere significado de poder ao espaço, transformando-o em território, onde “as construções arquitetônicas materializam e concretizam a ordem social, ideológica e mental” (PALLASMAA, 2017, p. 96), e que “uma obra de arte é uma imagem, um complexo experiencial e emocional que penetra diretamente em nossa consciência” (PALLASMAA, 2017, p. 59), podemos dizer que a integração entre a arte e a natureza presentes neste parque (enquanto obra paisagística), contribui para perpetuar a consciência de independência e comunidade nacional do país, de geração em geração que frequenta ou já ouviu falar no parque. A questão da união entre natureza, arte e momentos de lazer também foi abordada pelas entrevistadas da Indonésia- 7 e Estados Unidos -8, ambas estudantes internacionais em Oslo, na faixa etária dos 20 anos, ao afirmarem que o Parque Frogner é um ótimo local na cidade paraa realização de exercícios físicos ao ar livre, além de atividades de lazer coletivas e individuais, como piqueniques, e até mesmo a pintura e o desenho, por exemplo. Figura 41: Família realizando um piquenique no gramado (1) e homem passeando com cachorro (2) – Parque Frogner. Fonte: Arquivo pessoal (2019). 122 4.1.2 Aspectos da gestão O Parque Frogner é administrado pelo Departamento de Meio Ambiente da cidade de Oslo, chamado Bymiljøetaten83, criado em 2011. O objetivo desse departamento é o de gerenciar áreas comuns como ruas, praças, parques, áreas de lazer, instalações esportivas, campos e o interior de Oslofjord, além de também ser responsável pelo ar, ruído, água e o solo. Segundo informações do próprio website do Bymiljøetaten, o objetivo é tornar Oslo uma cidade segura, bonita, verde e ativa84. Apesar de ser um parque público e de responsabilidade do Departamento de Meio Ambiente, o Parque Frogner também recebe verbas e repasses através da associação “Frognerparkens Venner”, ou “Amigos do Parque Frogner” em português. Tendo sido fundada em 1971, essa associação reúne pessoas interessadas pelo parque, bem como frequentadores e moradores dos arredores, que investem na manutenção do espaço e cooperam com o Departamento de Meio Ambiente, as administrações do Museu Vigeland e do Museu da Cidade de Oslo, para preservar o parque da melhor maneira possível, com o intuito de que o maior número possível de pessoas desfrute do local. De acordo com informações do website do Departamento de Meio Ambiente, o Parque Frogner não somente é o maior parque do centro de Oslo, como também é muito popular entre os habitantes da cidade. Por esse motivo, é um parque que fica aberto 24 horas por dia, em todas as estações do ano e tem entrada gratuita. Ainda segundo o website, o Parque Frogner é protegido pela Lei do Patrimônio Cultural da Noruega. É interessante destacar que não apenas as esculturas são consideradas parte desse patrimônio, mas também a vegetação, como as flores, destacando as 150 espécies diferentes de rosas, e os vários tipos de árvores encontradas dentro do parque; como a tília, bordo, plátano, olmo, álamo e o freixo. Além disso, o fato do rio Frogner fluir para o norte e passar por dentro do parque, formando duas barragens, frognerdammene, também influencia na importância que este parque possui. Nesse sentido, para compreender mais sobre as dinâmicas de gestão da cidade de Oslo, no que tange o seu planejamento urbano e ambiental, da trama verde e azul da cidade, da qual o Parque Frogner faz parte, eu realizei, em 2020, entrevista com a urbanista norueguesa Ellen de Vibe, ex-chefe de urbanismo da Agência de Planejamento e Serviços de Construção em 83 Anteriormente, este espaço, bem como todos os outros parques da cidade eram geridos pelo Departamento do esporte, friluftsliv e parques. 84 Disponível em: <https://www.oslo.kommune.no/etater-foretak-og-ombud/bymiljoetaten/#gref>. Acesso em: 1 fev. 2022. https://www.oslo.kommune.no/etater-foretak-og-ombud/bymiljoetaten/#gref 123 Oslo. Ela respondeu a questões relacionadas às políticas urbanas implementadas na cidade ao longo de seus 20 anos de trabalho na prefeitura, além da nomeação de Oslo como “Capital verde da Europa” em 2019, bem como a sua percepção com relação a presença de espaços verdes públicos e as políticas urbanas do século XX (como pode ser verificado no Anexo 2). A entrevistada realça a importância dos espaços verdes para a malha urbana da cidade, bem como as políticas públicas recentes que deram continuidade ao trabalho que foi feito ao longo do século XX. Por exemplo, em 2009, a Câmara Municipal da cidade aprovou novas diretrizes para o Plano Diretor, onde consta que as ruas devem ser permeadas por infraestruturas verde e azuis, além de que a cidade deve oferecer 1000m2 de espaço público por 20000m2 de área construída. Esses aspectos podem ser visualizados ao estudarmos a contemporaneidade dos parques públicos de Oslo, e como eles se associam aos demais componentes urbanos. É interessante notar que, em sua experiência pessoal, Ellen de Vibe utiliza o Parque Frogner para caminhar e, sobretudo, encontrar seus netos e promover brincadeiras com eles no local. Isto é, o Parque se relaciona à saúde e a encontros familiares. Além disso, na questão número 8, de Vibe aponta que esse parque exerce a função de conexão entre áreas verdes dentro e fora da cidade; é como se fosse uma transição entre o espaço da floresta urbana até a área verde localizada na península de Bygdøy, interligando a paisagem verde a paisagem costeira, dos fiordes e do mar. Isso se reflete muito bem na famosa descrição da cidade de Oslo, popularizada pela pesquisadora Elin Børrud- “Azul, verde e a cidade no meio”85. Neste sentido, a floresta encontra nos parques presentes na cidade, uma conexão paisagística com o mar, fazendo de Oslo um lugar com uma paisagem urbana bem estruturada através de sua trama verde-azul. Um outro aspecto da gestão e, também da sociabilidade, se relaciona a maneira pela qual o Parque Frogner é noticiado das redes sociais (neste caso Instagram) de setores de Turismo e Meio Ambiente da cidade (Visit Oslo e Bymiljøetaten, respectivamente). Vale notar que não é apenas uma forma de transmissão imagética unilateral, mas também as redes sociais têm a função de manter um contato mais próximo com o público que as seguem, estabelecendo, muitas vezes, uma relação de aproximação entre a gestão, os locais públicos e turísticos, e as pessoas, que se utilizam do espaço virtual para dar suas opiniões sobre o que está sendo publicado. 85 Conferir Børrud em “How wide is the border” (2015). 124 Neste contexto, os espaços da cidade vão se reinventado a todo instante, numa velocidade muito rápida de diálogo e compartilhamento de informações. Por exemplo, a figura 42 abaixo, postada pela página Visit Oslo, em abril de 2021, traduz o parque como “o lugar favorito de muitos, sendo o pulsar do coração de Oslo, pois reúne elementos socioculturais da cidade”. E, em destaque, o comentário de um dos seguidores da página, se referindo ao parque como “um bom lugar para experimentar as mudanças de estação na cidade”. Isso caracteriza uma reprodução da imagem turística do parque, que ganha legitimidade através da postagem da página Visit Oslo e, principalmente, através dos comentários de pessoas que já estiveram ou gostariam de estar no local referido. Como num efeito dominó, outras pessoas pelo mundo verão as postagens, e poderão sentir curiosidade em viajar e/ou conhecer o Parque. Essa mesma lógica é seguida na figura 43, de junho de 2021, na qual é enfatizado o período das férias escolares e a visitação das crianças ao Parque Frogner. Figura 42: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 1. Fonte: Instagram Visit Oslo (2020). 125 Figura 43: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 2. Fonte: Instagram Visit Oslo (2022). Figura 44: A transição para do outono no Frognerparken. Fonte: Instagram Bymiljoetaten (2021). Já a página Bymiljøetaten (figura 44), em agosto de 2021, nos apresenta o Parque sendo noticiado a partir da mudança de estação do ano, neste caso do verão para o outono. As fotos são particularmente convidativas e bonitas, mostrando a natureza urbana presente no local, sobretudo, as árvores com folhas tendendo ao amarelo/laranja. Esse tipo de publicação tem a potencialidade de influenciar as formas de ocupação e lazer dos espaços da cidade. Ainda mais num contexto de um outono que se aproxima, e com ele dias mais frios. Cabe destacar que a legitimidade da postagem ocorre, pois é justamente o setor de Meio Ambiente da cidade, quem administra os espaços verdes, incluindo a área do Parque Frogner e a floresta urbana Oslomarka. 126 4.2QUINTA DA BOA VISTA A Quinta da Boa Vista é um parque público localizado no bairro de São Cristóvão, zona norte do Rio de Janeiro. Atualmente, é administrada pela Fundação Parques e Jardins do município. É interessante notar que o Parque conta com instituições importantes em seu interior, como o zoológico Bio Parque (antiga fundação Rio Zoo), o Museu Nacional- que compreende o antigo palácio imperial e o horto botânico, este último sendo mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Originalmente localizada no vale, entre morros e colinas, o local no período até 1759, se situava em terras de origem jesuítas, compreendendo uma extensão territorial “das margens do rio Maracanã até as imediações de Inhaúma. A parte litorânea dessa imensa propriedade incluía a Ponta do Caju, de um lado, e quase toda a margem oeste do atual Canal do Mangue, no outro extremo” (FERREIRA; MARTINS, 2000, p. 130). Depois, em 1808, a área foi cedida para ser nova moradia da Família Real Portuguesa e, posteriormente, foi também residência da Família Imperial Brasileira, durante os dois impérios. No Segundo Império, seus jardins foram idealizados pelo horticultor francês Auguste François-Marie Glaziou, em 1868, a pedido do então imperador D. Pedro II. De acordo com Trindade (2014, p.60), o complexo paisagístico foi construído para o uso da família imperial e demais pessoas que moravam no interior da propriedade, mas também, aos domingos, a área da Quinta da Boa Vista era aberta à população. Foi somente após a reforma paisagística idealizada por Glaziou que os jardins passaram a ser frequentados pelo público (FERREIRA; MARTINS, 2000). Isso foi favorecido também pelas mudanças do entorno da área, dentre as quais destacam-se: Estabelecimento de linhas regulares de ônibus puxados à tração animal e mais tarde pelos bondes, que faziam a ligação entre São Cristóvão e a cidade, ou seja, é a partir do reinado de D. Pedro II que, aos poucos, o povo teve acesso aos jardins do palácio e passou a assumi-lo como também seu (FERREIRA, 2000, p.145). 127 Figura 45: Passeios na Quinta da Boa Vista (1911). Fonte: Brasiliana fotográfica, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (c2002-2012). Entretanto, é interessante observar que segundo Macedo e Sakata (2002), não era toda a população que poderia ter acesso à Quinta da Boa Vista, mas: Por suas alamedas desfilavam senhoras, cavalheiros e crianças ostentando o elaborado vestuário da época, com fraques pesados, vestidos com armações e muitas saias, e sombrinhas, a maior parte das roupas totalmente inadequada a um país tropical como o Brasil. Repetia-se no uso do espaço público o mesmo tipo de comportamento social que caracterizava as demais esferas da vida do novo país em formação: a cópia, a reprodução dos padrões anglo-franceses. Essa tendência pode ser constatada na arquitetura (MACEDO; SAKATA, 2002, p. 23). Tendo sido inspirado nos jardins burgueses franceses, o projeto de Glaziou também incluiu conhecimentos da flora brasileira, produzindo uma paisagem bucólica e mística, com a presença de grutas artificialmente construídas, lagos com margens curvilíneas e canteiros com espécies nativas do Brasil. Vale ressaltar que neste mesmo período, o reflorestamento da Floresta da Tijuca estava em curso, e Glaziou utilizou muitos dos conhecimentos adquiridos com a Floresta para a Quinta da Boa Vista. De acordo com Magalhães (2017, p. 19), Glaziou fazia parte de um grupo extenso de imigrantes que chegou na segunda metade do século XIX, e trazendo suas tradições paisagísticas com a recriação de inúmeros espaços públicos e privados por todo o país, promovendo o cenário pitoresco do jardim paysager no contexto brasileiro. A autora também destaca que a própria formulação dos jardins, era como obras de arte, feitas utilizando a técnica do cimento armado (roccailles), como ornamentos de decoração, mimetizando os 128 diversos elementos da natureza, como rochas, grutas e cascatas, por exemplo (MAGALHÃES, 2017, p. 19-20). Figura 46: Lago da Quinta da Boa Vista e rochas construídas utilizando a técnica do roccaille. Fonte: Arquivo pessoal (2021). Neste sentido, a idealização específica dos jardins da Quinta da Boa Vista, seguiu o ritmo nacionalista e romântico, pois materializou no espaço da residência imperial, uma nova tradição formal, unindo a riqueza florística do país a arte projetual em voga, principalmente na França, representando concretamente no espaço tanto a consolidação de poder do Império em território brasileiro, quanto as relações que este império possuía com a estética e cultura da Europa Continental. Figura 47: Projeto para os jardins da Quinta da Boa Vista atribuído à Glaziou. Fonte: Museu Nacional (TRINDADE, 2014, p. 64). A larga alameda das Sapucaias que conduzia os pedestres até a residência imperial (hoje Museu Nacional), foi pensada para que os habitantes/ visitantes pudessem ser envoltos na atmosfera dos terrenos modelados com aclives e declives e caminhos que proporcionavam 129 diferentes pontos de vista. É importante destacar que o local da residência imperial foi construído no topo de um pequeno monte pré-existente na região. E o projeto original de Glaziou pretendia dar visibilidade a edificação, pois de todos os caminhos circulares pensados, se podia obter uma visão do casario. Isso se modificou após reformas nos jardins, durante o período da República. Durante o reinado de D. Pedro II, a área total da Quinta manteve-se praticamente inalterada, com cerca de 1.033.800 m2. Entretanto, com a chegada do século XX, o perímetro de extensão foi-se reduzindo, pois partes do terreno foram sendo cedidas ao governo republicano para outras finalidades (FERREIRA; MARTINS, 2000). O alargamento da via férrea e a abertura de ruas e viadutos fazem parte dessas modificações, o que foi progressivamente descaracterizando a morfologia que o parque possuía durante o império de D. Pedro II, principalmente na parte sul da Quinta, na qual foi aberta a via férrea, e na parte norte, desde o portão monumental da alameda até o portão que dá para o largo da Cancela. Estas intervenções deixaram uma boa parte da área original de fora dos limites físicos atuais (FERREIRA; MARTINS, 2000). Figura 48: Vista aérea da Quinta da Boa Vista. Fonte: Wikimapia. Nos dias atuais, a Quinta da Boa Vista possui uma área verde de 155 mil m2. Segundo o site de notícias do Jornal O Globo86,em publicação de 2014, caso tivessem sido mantidos 86 Vide infográfico sobre a Quinta da Boa Vista disponível em: https://infograficos.oglobo.globo.com/rio/quinta- da-boa-vista.html. https://infograficos.oglobo.globo.com/rio/quinta-da-boa-vista.html https://infograficos.oglobo.globo.com/rio/quinta-da-boa-vista.html 130 seus terrenos originais, podemos dizer que toda a área onde se localiza o Estádio do Maracanã, bem como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em Vila Isabel, o edifício do Museu do Índio e partes do Morro da Mangueira, fariam parte do Parque. Porém, apesar de ter perdido espaço, Macedo e Sakata (2002, p. 144) afirmam que os jardins da Quinta da Boa Vista se enquadraram bem nas dinâmicas urbanas que estavam em curso durante o século XX, e “se adequaram perfeitamente à função de parque urbano” (MACEDO; SAKATA, 2002, p. 144). Provavelmente pelo valor histórico e cultural, além da facilidade de acesso, uma vez que a área é “cercada por viadutos, linhas de trem e pelo Estádio do Maracanã, a Quinta é o espaço público mais precioso dessa área da cidade, abrigando ainda o Museu Nacional, desde 1892, e o Jardim Zoológico, desde 1945.” (MACEDO; SAKATA, 2002, p. 144). De acordo com Trindade (2013, p. 220): Em números absolutos, o parque da Quinta da Boa Vista possui uma área em torno de 38 hectares. O Jardim Zoológicoocupa uma área de 13,5 hectares e o Museu Nacional e o horto e pesquisa da UFRJ 5 hectares. O complexo da Quinta da Boa Vista totaliza 56,5 ha e ocupa um grande território dentro do bairro Imperial de São Cristóvão (14%) que, segundo dados oficiais, possui área territorial de 410,56 há. O fato de as primeiras ocupações da área terem sido realizadas pela família real e imperial, contribuiu para a transformação do bairro de São Cristóvão com a imagem de área nobre e aristocrática. Os autores Ferreira e Martins (2000) afirmam que durante toda a época imperial, a área onde hoje situa-se o parque urbano da Quinta da Boa Vista, foi um relevante ponto de referência para a sociedade brasileira que ainda estava se reconhecendo enquanto nação. Portanto, além da imagem aristocrática, o bairro possuía também uma imagem de força política e social, onde o ponto central de convergência entre os poderes estava na Quinta da Boa Vista (FERREIRA; MARTINS, 2000). Ao longo do período republicano, a moradia e o planejamento urbano se modificou no contexto social carioca. É possível perceber que a elite, antiga aristocracia que habitava o entorno da Quinta, migrou para a zona sul da cidade, sobretudo devido à presença das praias (FERREIRA; MARTINS, 2000). Além disso, o deslocamento de poder para o Palácio do Catete com o advento da República, também influenciou em novas questões e disputas, na 131 qual se refutava manter um espaço imperial como o lócus da gestão republicana (FERREIRA; MARTINS, 2000). Neste aspecto, o bairro de São Cristóvão foi perdendo um pouco de seu prestígio e passou a abrigar indústrias e operários recém chegados ao Rio de Janeiro87. Ao longo do século XX, a imagem do bairro de São Cristóvão e da Quinta da Boa Vista foi incorporando o contexto popular de fato, sendo o local de encontro, sobretudo, das classes trabalhadoras. De acordo com pesquisas realizadas sobre os tipos de atividades sociais realizadas nesse parque, Ferreira e Martins (2000), afirmam que, no contexto da Quinta da Boa Vista, no período de 1940-1980, ela era o local de encontro de famílias aos finais de semana para confraternizações e piqueniques. Com a criação do Jardim Zoológico, em 1945, a Quinta ganhou mais uma área de lazer com o potencial de atrair ainda mais visitantes (FERREIRA; MARTINS, 2000). Atualmente, o parque ainda é um local de lazer da população de camadas mais populares da sociedade, sobretudo devido a facilidade de acesso. No próprio website da Supervia, empresa de trens urbanos, existe a informação de como se chegar até “um dos maiores parques urbanos da cidade do Rio de Janeiro88”, Como chegar: Você pode pegar um trem do ramal Deodoro e desembarcar na estação São Cristóvão. A Quinta da Boa Vista fica a 5 minutos (à pé) da estação. (SUPERVIA, 2021). Já no site das áreas verdes das cidades, existe um verdadeiro itinerário sobre como se chegar ao parque: De Metrô e Trem, salte na estação São Cristóvão e caminhe até uma das entradas da Quinta da Boa Vista. Há várias linhas de ônibus que servem o local, entre as quais, partindo da zona sul, as de números 462 e 463. A partir das zonas norte e oeste, a linha 371. 87 No período imperial, a área do entorno da Quinta da Boa Vista não era tão densamente povoada. No entanto, isso se modificou ao longo do período republicano, onde percebe-se a presença de arruamentos e rodovias, num momento de industrialização do bairro, o que demonstra a mudança da imagem tanto de São Cristóvão, quanto da Quinta da Boa Vista, que se tornou um parque urbano. 88 Para informações consulte: https://www.supervia.com.br/pt-br/quinta-da-boa-vista. https://www.supervia.com.br/pt-br/quinta-da-boa-vista 132 Há estacionamentos para veículos no interior do parque (R$30,00 a diária em setembro/2021), sendo um próximo ao Jardim Zoológico. (ÁREAS VERDES …, 2021). De acordo com Trindade (2013, p. 182), a Quinta da Boa Vista é caracterizada por sua intensa cobertura vegetal, composta por árvores de diferentes espécies, além também de gramados. Com relação ao acesso, a autora afirma ter havido uma obra de reestruturação na década de 1990, período em que foram construídos estacionamentos em piso intertravado de concreto. Ela enfatiza o fato dessa obra ter sido realizada “em pequenas depressões criadas por Glaziou para modelar o terreno com um aspecto mais “natural” e foram aterrados e nivelados na ocasião da execução dos estacionamentos” (TRINDADE, 2013, p. 182). Nesse sentido, houve também a perda de algumas espécies arbóreas que existiam no local, pois elas não sobreviveram a reforma, apesar de terem sido construídos canteiros permeáveis para as mesmas. Ainda assim, o parque teve sua infraestrutura melhorada, influenciando no acesso das pessoas ao local89. Além disso, outra característica que o parque ganhou no final dos anos 1990 e que se perpetua nestas primeiras duas décadas do século XXI, diz respeito à imagem que ele assume perante o contexto educacional. A Quinta é presença constante nos roteiros de trabalhos de campo das escolas, principalmente públicas, onde crianças no período escolar visitam o local para conhecer um pouco mais sobre a história do país, além da flora da Mata Atlântica. Cabe ressaltar que, por se tratar de um espaço com ampla presença de vegetação, na zona norte, esse parque também representa uma oportunidade para a população vivenciar a natureza urbana de uma maneira mais próxima, tendo em vista a falta desse tipo de espaço em bairros mais afastados da zona sul. 89 Para mais informações sobre as mudanças estruturais na Quinta da Boa Vista ao longo do século XX, verificar: Trindade (2013). 133 Figura 49: Piquenique na Quinta da Boa Vista. Fonte: Áreas Verdes Das Cidades (2016). Nesta perspectiva, a área do parque é considerada como um jardim histórico do Brasil, tendo funções que vão além do lazer e relaxamento em meio a natureza urbana, mas também estando relacionada a educação sociocultural, pois foi um lugar projetado com a composição de diversos elementos que se relacionam ao testemunho histórico de uma época, transmitindo o passado e o presente do contexto social não somente da cidade do Rio de Janeiro, mas também brasileiro. Isto é, o complexo paisagístico da Quinta da Boa Vista reúne obras arquitetônicas, artísticas e vegetais de interesse público, preconizando a função idealizada, de uso coletivo (PAIVA; ALVES; LAURA, 2015, p. 57). Figura 50: Museu Nacional antes do incêndio. Fonte: Roberto da Silva para website do Museu Nacional (c2022). 134 Dentre os acontecimentos negativos na história recente da Quinta da Boa Vista, podemos abordar o fato ocorrido em setembro de 2018, no qual o Parque passou por um período de turbulência, com o incêndio no Museu Nacional. Neste evento, praticamente todo o acervo foi perdido, contabilizando o prejuízo incalculável de inúmeros artefatos históricos de coleções antigas de D. Pedro II, documentos do período republicano, bem como espécies da flora nativa que se encontravam em herbários, além de outros bens de valor social, cultural e ambiental da nação90. O Museu se encontra fechado desde então, com reabertura prevista para 2026, afetando a pesquisa universitária realizada no local, além das práticas e visitas escolares e do público no geral. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, vem negociando o recebimento de “novos repasses e doações em meio à falta de investimentos diretos do Ministério da Educação (MEC)”91. Ademais, um outro aspecto de mudança no interior do Parque, que tem a potencialidade de modificar a forma com a qual as pessoas transitam pelo lugar, é o caso da antiga Fundação Rio Zoo, que se transformou em BioParque do Rio, através de processo de concessão do local para a empresa privada do Grupo Cataratas, em 2016. Podemos dizer que o zoológico representaum parque dentro do Parque da Quinta da Boa Vista, com dinâmicas internas relativamente diferentes, devido a sua função de manter os animais, além de ser um espaço de gestão privada, mas que ao mesmo tempo, não se desassocia das dinâmicas presentes na Quinta da Boa Vista. Segundo informações do próprio website do novo zoológico, inaugurado em 2021, será realizado em sistema de venda de ingressos, bem como de pagamento mensal para sócios, no qual as pessoas poderão usufruir de um espaço diferenciado de visitação aos animais, pois “um BioParque é um lugar voltado para o bem-estar dos animais, que desenvolve projetos de pesquisa para a conservação de espécies e possui também como foco a educação ambiental dos visitantes92”. 90 Segundo informações do Jornal O Globo (ALTINO, 2021), ainda após três anos do incêndio, apenas se alcançou 65% da verba para a reconstrução da instituição. A estimação do montante total necessário é de cerca de R$ 380 milhões de reais. 91 Para maiores informações veja a matéria em: <https://oglobo.globo.com/rio/verba-para-recuperacao-do- museu-nacional-ainda-nao-foi-alcancada-tres-anos-apos-incendio-25181331>. 92 Bio Parque do Rio, disponível em: https://bioparquedorio.com.br/duvidas. https://oglobo.globo.com/rio/verba-para-recuperacao-do-museu-nacional-ainda-nao-foi-alcancada-tres-anos-apos-incendio-25181331 https://oglobo.globo.com/rio/verba-para-recuperacao-do-museu-nacional-ainda-nao-foi-alcancada-tres-anos-apos-incendio-25181331 https://bioparquedorio.com.br/duvidas 135 Figura 51: Jardim Burle Marx. Fonte: Fotos de divulgação do Bio Parque do Rio (n.d.). Figura 52: Entrada do BioParque do Rio. Fonte: BioParque do Rio (n.d.). Figura 53: Visitação escolar ao Bio Parque. Fonte: BioParque do Rio (n.d.). 136 Além disso, ainda com relação ao BioParque, houve também a redescoberta e revitalização do jardim Burle Marx, fato desencadeado pelas obras de restruturação do espaço no momento da transição para a nova administração, como pode ser visto nas figuras 51 e 53. No local, durante as últimas décadas do século XX, existia um parquinho infantil, porém, de acordo com o blog do zoológico93, foram feitas pesquisas junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e descobriu-se que se tratava do Jardim projetado por Roberto Burle Marx entre 1946-1947, para abrigar as aves aquáticas da Fundação Rio Zoo. A pesquisa realizada na área destacou que, originalmente, a implementação desse jardim teve seu término na década de 1970, e já nos anos 1990, o local foi modificado para exercer a função de área de lazer das crianças, substituindo a vegetação e demais elementos que existiam ali. Desde então, o Jardim de Burle Marx dentro do Zoológico estava escondido e deteriorado, mas agora está disponível novamente e exercendo a sua função original. Figura 54: Mosaicos espaciais da Quinta da Boa Vista. Fonte: adaptado do ArcGis Earth (2022). 93 Disponível em: https://blog.bioparquedorio.com.br/2021/04/06/roberto-burle-marx-o-genio-brasileiro/. Acesso em: 25 jan. 2022. 137 4.2.1 Um jardim e muitas histórias Na busca pela compreensão de como a população vivencia o espaço da Quinta da Boa Vista na contemporaneidade, foram realizadas entrevistas, no decorrer de 2021 e janeiro de 2022, no formato de pequenos relatos, sobre a experiência de moradores da cidade do Rio de Janeiro nesse parque público. Os critérios de seleção dos entrevistados foram baseados no local de moradia e na idade, buscando englobar um contexto diversificado de pessoas num número restrito de relatos. Isso foi feito para se analisar com profundidade alguns tipos recentes de vivências dentro do Parque. Para tanto, foram entrevistados brasileiros, na faixa etária dos 20 aos 30 anos e dos 30 aos 63 anos, homens e mulheres de bairros próximos e distantes da Quinta da Boa Vista. Figura 55: Quinta da Boa Vista. Fonte: Cedida de arquivo pessoal, por Phelipe Steves (2021). O eixo central das respostas sobre a questão dos lugares preferidos dos entrevistados na cidade, variaram desde o Alto da Boa Vista, no topo do Maciço da Tijuca, para admirar paisagem, o Jardim Botânico e a Quinta da Boa Vista e as praias da zona sul, em particular Copacabana e Ipanema e, na zona oeste, a praia da Barra da Tijuca. Neste contexto, percebemos que a paisagem costeira tem grande relevância, por exercer grande atratividade, principalmente durante os meses mais quentes de verão. No entanto, também se nota por meio das respostas que a disponibilidade de espaços verdes na cidade, como a própria floresta da Tijuca, além de pracinhas e parques urbanos, é considerada benéfica e essencial para a saúde física e mental dos entrevistados. Sobretudo, aos finais de semana, período no qual a maioria das pessoas tem tempo de lazer para 138 frequentar esses espaços. Essa perspectiva é realçada pela entrevistada de 37 anos (3), moradora de Vila Isabel, e que passou a frequentar o parque durante a pandemia (vide Anexo 4). Ao ser indagada sobre o que significaria “ser um espaço que precisaria de muito mais cuidado”, a entrevistada esclareceu que se referiu ao fato de ser um parque muito grande, e que apesar de se sentir muito segura dentro dele aos finais de semana, por causa do policiamento e da quantidade de pessoas que o frequentam, o mesmo não ocorre durante a semana, quando o parque está mais vazio e deserto. Ela enfatizou a vontade de levar a filha para brincar no parque durante a semana, mas ao mesmo tempo o medo que tem de estar sozinha no local. Além disso, ela citou aspectos negativos com relação a conservação da Quinta da Boa Vista, como por exemplo, a grama mal cuidada, a falta de limpeza do local e a falta de sinalização indicando o que existe dentro do parque, como os banheiros94. Ela também mencionou que, na sua opinião, se a Quinta da Boa Vista estivesse localizada na zona sul da cidade, receberia muito mais atenção por parte dos órgãos públicos. Por ser frequentadora assídua dos espaços públicos dos bairros do Jardim Botânico, de Ipanema, Laranjeiras e Botafogo, ela considera que a localização influencia muito na qualidade de manutenção dos espaços na cidade do Rio de Janeiro. Inclusive, ela percebe que as pessoas que frequentam a Quinta são, em suas palavras, “muitas vezes pessoas de baixa renda”, por isso não somente a localização, como também o público que visita o local também influencia no nível de atenção por parte da gestão, bem como na disponibilidade de recursos financeiros para a contínua manutenção do parque. Isso é negativo, pois ela considera que todos os espaços públicos deveriam receber o mesmo tipo de cuidado, e por esse motivo, ela acaba tendo que se deslocar para mais distante, em busca de espaços verdes e públicos, mesmo tendo opções a poucos minutos de sua casa. 94 A entrevistada não sabia informar sobre a presença de banheiros na Quinta da Boa Vista. Justamente por não saber se existem ou não, e caso eles existam, não saber as condições em que se encontram, é que ela não fará o aniversário de 2 anos de sua filha nesse parque. 139 Figura 56: Lago da Quinta da Boa Vista. Fonte: Arquivo pessoal (2020). Figura 57: Entrada principal da Quinta da Boa Vista. Fonte: Halley Pacheco de Oliveira (2011). De acordo com Ferreira e Martins (2000), em pesquisa realizada entre os anos 1990 e 2000, o parque da Quinta da Boa Vista passou por um período de renegação, no qual o poder público não atuou de forma efetiva na manutenção do espaço com relação a sua infraestrutura. Na pesquisa realizada por esses autores, eles identificaram que: “Nos últimos anos, algumas das estruturas decorativas têm sido bastante danificadas, não só pela ação do tempo, como pela intensa visitação pública, principalmentenos finais de semana, e ainda por contínuos atos de vandalismo, praticados no parque. Infelizmente a Quinta da Boa Vista é o 140 grande (e praticamente o único) parque em que a população de menor renda ainda pode usufruir de um lazer gratuito no subúrbio do Rio de Janeiro, por isto ela acode em massa a este lugar nas suas horas de lazer. Assim, o aspecto geral do parque vem dando sinais de desgaste já há algum tempo, necessitando seu paisagismo de um trabalho profundo e extenso de recuperação ambiental, além de procurar dotá-lo de uma infraestrutura mais moderna, trabalho que naturalmente deverá ser seguido de uma manutenção contínua, para que esse parque continue a cumprir sua função social como área de lazer e de cultura para o povo carioca. A própria população está consciente do mau estado de conservação da Quinta; por isto, indagada acerca das suas sugestões para a melhoria da qualidade do parque ela apontou algumas necessidades: da instalação de banheiros públicos para acabar com o cheiro e a degradação causada pela urina, principalmente nas grutas; de mais segurança policial no parque; de acabar com a prostituição dentro das grutas e nos arredores da Quinta; de melhorar os gramados e os jardins, dotando o parque de certos equipamentos para o lazer como: barquinhos, trenzinho, pedalinhos, brinquedos (como havia antes, segundo os próprios visitantes); da instalação de bebedouros públicos; de melhorar os estacionamentos; e, finalmente, de dar mais vida diurna e principalmente noturna à Quinta” (FERREIRA; MARTINS, 2000, p. 144, grifo meu). Dos anos 2000 até os dias atuais, verifica-se que algumas questões mudaram, como por exemplo, a construção de banheiros públicos dentro do Parque e a disponibilização de pedalinhos como uma das atividades de lazer, além da reestruturação da antiga Fundação Rio Zoo. Porém, por meio dos relatos obtidos em 2021-2022, percebe-se que ainda existem desafios a serem superados, e as pessoas frequentemente os associam ao fato de este parque não estar situado numa área nobre da cidade. Assim como a entrevistada, moradora de Vila Isabel, destacou a relação entre a sensação de insegurança no local e a falta de frequentadores no parque durante a semana, além do mau estado de manutenção dos jardins do parque, no geral, podemos perceber que são basicamente as mesmas questões levantadas pelos pesquisadores Ferreira e Martins nos anos 2000, ou seja, os problemas se repetem há 22 anos. O caso da prostituição nos portões do Parque também chama a atenção. Para a entrevistada de 63 anos, ela cita que desde 1998, deixou de circular pelo entorno da Quinta da Boa Vista, ao retornar de carro do trabalho para casa, em Vila Isabel, por conta do intenso 141 movimento noturno de mulheres do lado de fora dos portões do parque, à espera de seus clientes, que paravam por ali a qualquer momento. No entanto, também se verifica que o mercado da prostituição sofreu um abalo coma pandemia do coronavírus95, o que pode ter afetado as dinâmicas do ponto de encontro desse tipo de atividade noturna na Quinta da Boa Vista. No período anterior a pandemia, o contexto da prostituição também foi abordado por Trindade (2013, p. 187), no qual a pesquisadora discute a relação entre o horário de fechamento do parque, os edifícios do entorno e a prostituição: Poucas são as edificações que possuem aberturas para as vias, excetuando o hospital Quinta D’or, e as calçadas possuem em média 3,00 metros. Esse desenho das edificações em conjunto com as pistas de deslocamento rápido para veículos gera pouca movimentação de pedestres no entorno do parque tanto de dia como, principalmente, à noite quando o percurso imprime uma sensação de insegurança (o parque é fechado ao público às 18:00h). Nesse horário observamos com frequência a presença de prostituição, tanto feminina como masculina, o que reforça o mal-estar em fazer o percurso. Ocasionalmente, é possível observar a prostituição em dias de semana em período diurno, porém ocorrendo em menor número. A copa das árvores do parque e das calçadas forma um ambiente sombrio e a falta de edificações com aberturas para a rua e movimento, com uso diferenciado de atividades que atraiam pessoas tanto de dia como de noite, fazem com que as ruas no entorno da Quinta da Boa Vista sejam pouco convidativas para um passeio a pé. (TRINDADE, 2013, p. 187). Ademais, um outro aspecto relatado nas entrevistas é o caso do incêndio no Museu Nacional. Para um dos entrevistados, um homem de 40 anos, pensar no museu, o faz “relembrar os passeios da época de escola” e isso o entristece pelo descaso com a instituição que infelizmente foi destruída. Isso se complementa ao relato de uma outra entrevistada, moradora de Vila Isabel- 4 (vide Anexo 4). A partir desse relato, é interessante observar a ocorrência de uma dupla simbologia presente na Quinta da Boa Vista, por meio, principalmente, da memória escolar, e do espaço enquanto provedor de natureza urbana. Nesse contexto, as imagens presentes no imaginário 95 Para maiores informações conferir: “Mercado de prostituição sofre impacto durante pandemia”, disponível em: https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Mercado-de-prostituicao-sofre-impacto-durante- pandemia/75147 . https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Mercado-de-prostituicao-sofre-impacto-durante-pandemia/75147 https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Mercado-de-prostituicao-sofre-impacto-durante-pandemia/75147 142 particular de cada pessoa que já frequentou esse parque, acabam conectando esses indivíduos de maneira afetiva ao espaço da Quinta da Boa Vista, a partir de lembranças de diferentes períodos da vida, como pode ser visto num outro relato, realizado com uma entrevistada de 63 anos-5. No caso dessa entrevistada, o fato dela ter se mudado de um bairro como Oswaldo Cruz, que não oferecia um espaço verde em grandes proporções, para outro, como Vila Isabel, próximo a São Cristóvão, influenciou na descoberta do espaço da Quinta da Boa Vista, como uma relevante área de lazer gratuita para ela e sua família, nos anos de 1960, justamente o período no qual o bairro de São Cristóvão começou a se popularizar, atraindo grande fluxo de pessoas, como foi visto no início deste capítulo. Além disso, a sua escola se localizava no mesmo bairro do Parque, fazendo com que ela o frequentasse durante algumas aulas de biologia e, também, como ponto de encontro de lazer com seus amigos da escola. Dessa maneira, percebe-se, não somente a rica história de desenvolvimento da Quinta da Boa Vista com relação ao desenrolar político e social da nação brasileira, como também a história que este lugar guarda na memória individual da população que algum dia teve contato com ele. Figura 58: Caminhos da Quinta da Boa Vista. Fonte: Cedida de arquivo pessoal de Phelipe Steves (2021). 143 O relato de um morador da Pavuna -6, aborda a questão de seu redescobrimento da Quinta da Boa Vista por causa tanto da pandemia, quanto da inauguração do Bioparque, em junho de 2021, enfatizando a importância deste espaço para pessoas que moram em locais distantes e que não tem outro local de natureza urbana para frequentar (vide Anexo 4, p.205). Em complementação, o entrevistado, um morador de Copacabana de 30 anos -7, aborda a vivência dele na Quinta. Ao contrário da moradora de Vila Isabel, apresentada no início, este entrevistado prefere o parque durante a semana, exatamente porque é mais vazio. Além disso, ele afirma se sentir muito bem na Quinta, apesar de, pelo fato de ser negro, pensar que no passado imperial, ele talvez não pudesse frequentar o local. Por meio da sua narrativa, também se percebe o conteúdo turístico que este parque tem a oferecer a cidade do Rio de Janeiro, principalmente quando ele afirma levar seus amigos estrangeiros para conhecera Quinta da Boa Vista. Já uma outra entrevistada, moradora de Vila Isabel- 8, narra sua experiência no novo zoológico, o Bioparque, o qual ela considera que é diferente do tipo de vivência que teve na Quinta da Boa Vista, apesar de o novo zoológico se situar dentro do parque. A experiência foi diferente, não somente por ser um local de gestão privada, mas também porque a função é distinta, estando relacionado ao cuidado dos animais (vide Anexo 4). Figura 59: Lago Quinta da Boa Vista. Fonte: cedida de arquivo pessoal por Phelipe Steves (2022). 144 Figura 60: Bioparque na Quinta da Boa Vista. Fonte: Instagram do Bioparque do Rio (n.d.). Na atualidade da Quinta da Boa Vista, apesar de o espaço enfrentar problemas e ter muitos desafios no nível de gestão e manutenção, como foi abordado anteriormente, também existem inúmeras atividades sociais e culturais promovidas por grupos de educadores, entusiastas, além de encontros culinários, transformando o parque num ambiente atraente e conectado à população. Todas essas ações são realizadas por grupos da sociedade civil que enxergam na Quinta, um local prazeroso para os encontros, revigorando o espaço com novas práticas e eventos. Neste contexto, as redes sociais atuam de forma bastante importante, pois propiciam a troca de informações entre as pessoas, influenciando nas dinâmicas do mundo concreto do espaço vivido. Um exemplo disso é o caso da rede social Instagram. Através dela, o compartilhamento de imagens sobre o parque e as atividades que ocorrem dentro dele, tem um poder de alcance imensurável. Nas figuras (62 e 63) abaixo, pode-se observar as páginas do Bioparque do Rio e do Rolé carioca, transmitindo a notícia do evento gratuito, que ocorre há 10 anos na cidade do Rio, e que tem por objetivo promover uma caminhada pela cidade, conhecendo um pouco mais dos locais a serem visitados com os guias, que são professores de história. E, nota-se que o novo zoológico utiliza esse passeio, como meio de propaganda dele 145 próprio, mas que acaba influenciando nas dinâmicas da Quinta da Boa Vista também. Pela postagem, percebe-se que se trata de um roteiro no parque da Quinta da Boa Vista, ocorrido em 19 de dezembro de 2021. Figura 61: Bioparque do Rio sobre o Rolé carioca na Quinta da Boa Vista. Fonte: Instagram do Role Carioca. Já nesta outra figura (63), também disponível na página do Role Carioca no Instagram, há a divulgação do evento e também, a informação de que o parque é “um dos maiores parques urbanos da cidade, de grande valor histórico e um refúgio para a população carioca em busca de cultura, lazer e natureza”. Além disso, a postagem dá ênfase para os participantes levarem seus lanches, pois ao final do encontro, haverá um piquenique, como destacado no círculo vermelho: 146 Figura 62: Propaganda da visitação a Quinta da Boa Vista. Fonte: Role Carioca (n.d.). A partir dessa postagem, é interessante realçar o termo: “Rolé presencial”, pois até então, os encontros estavam apenas sendo virtuais, por conta das medidas sanitárias no contexto de pandemia. Um rolé virtual, se baseava em reuniões através de lives em redes sociais, om os participantes, para eles conhecerem e transitarem virtualmente pelos espaços da cidade do Rio de Janeiro, no qual uma plataforma muito utilizada era o Google Maps e o Google Street View. Desta maneira, percebe-se que a relevância dos espaços públicos da cidade foi revigorada mesmo que de forma virtual. 147 Figura 63: Postagem após o encontro presencial na Quinta Da Boa Vista. Fonte: Página do Instagram do Rolé Carioca (n.d.). Um outro contexto de atividade social realizada no parque e transmitida por meio da mídia digital é o caso da feira vegana Veg Borá, realizada na Quinta da Boa Vista aos finais de semana, evento que reúne um público bastante específico a procura de produtos de origem não animal, e provenientes de pequenos produtores da própria cidade, vide figura 65. Figura 64: Feira vegana Veg Borá, realizada na Quinta da Boa Vista. Fonte: Página do Instagram Veg Borá (n.d.). 148 4.2.2 Aspectos da gestão A Quinta da Boa Vista é um parque público, gerido, sobretudo, pela Fundação Parques e Jardins (FPJ), com atuação também da CONLURB e Guarda Municipal da prefeitura do Rio de Janeiro. Cabe destacar que a gestão ocorre de maneira distinta em alguns estabelecimentos do interior do parque, como é o caso do Bioparque do Rio, que é administrado pela empresa privada: Grupo Cataratas; e o Museu Nacional e Horto Botânico/ Museu da Fauna, ambos sob responsabilidade da Universidade Federal Do Rio de Janeiro (UFRJ). No geral, a gestão do parque ocorre de forma integrativa, pois apesar de abranger diversas entidades, a Quinta da Boa Vista é um espaço único, e por isso, é necessário existir a cooperação entre os diferentes setores e interesses que se encontram ali, apesar dos desafios que isso possa ocasionar. Sendo assim, se considera o Parque a partir da área de planejamento 1, a qual se refere a presença da CONLURB, que efetua a limpeza do parque, a Guarda Municipal, responsável pela segurança e a Fundação Parques e Jardins, com a responsabilidade pela conservação/manutenção das áreas ajardinadas da Quinta da Boa Vista, bem como infraestrutura hídrica geral do parque. Ademais, a Secretária de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro (SMAC), também atua no parque, através das políticas de planejamento urbano e ambiental na “coordenação, formulação, execução, avaliação e atualização da Política Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade, análise e acompanhamento das políticas públicas setoriais que tenham impacto no meio ambiente da cidade e articulação e coordenação dos planos e ações relacionados à área ambiental”. (BRASIL, 2011). Em diferenciação ao que foi visto sobre a gestão do Parque Frogner na Noruega, e de acordo com pesquisa sobre a Quinta da Boa Vista realizada por Trindade (2013, p. 220, grifo meu): Não encontramos em nossa pesquisa uma Associação de Amigos da Quinta da Boa Vista, semelhante a que existe em outros parques como por exemplo: o Jardim Botânico do Rio de Janeiro que, de acordo com a página oficial da entidade, é uma associação civil sem fins lucrativos, que visa contribuir para a conservação, aprimoramento, difusão e ampliação do patrimônio histórico, natural, paisagístico, científico e cultural do o Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro – IPJB . Existe no bairro de São Cristóvão uma Associação de Moradores e Amigos de São Cristóvão – AMASC, porém não verificamos sua atuação o interior do parque. 149 Porém, ao realizar pesquisas em redes sociais, como o Facebook da AMASC, constatei que existe uma conexão entre as ações dessa associação de moradores e o parque da Quinta da Boa Vista, principalmente com relação a denúncia de atividades ilícitas e/ou perturbadoras que tem a potencialidade de ocorrer dentro do parque e afetar o bairro como um todo96. A notícia do jornal O globo, do ano de 2016, sobre o impasse entre moradores do bairro de São Cristóvão e os idealizadores de um festival de música eletrônica que ocorreria no interior do parque, sem autorização da prefeitura para ocorrer97, também reflete a interação entre o parque e os seus vizinhos. Mas, além desses fatos, não observei outra menção ao parque, podendo indicar uma falta de maiores proximidades entre a Associação de Moradores e Amigos de São Cristóvão (AMASC) e a gestão do parque da Quinta da Boa Vista, necessitando de maiores pesquisas acerca da atuação ou não dessa entidade coletiva num parque historicamente importante para o bairro. Numa outra perspectiva, foi constatada a existência da Câmara Comunitária de São Cristóvão, citada por Marfetan (2016, p. 130), sendo uma entidade no nível do bairro,que há 27 anos promove encontros entre moradores e comerciantes de São Cristóvão para discussão de questões vivenciadas por eles cotidianamente, além de ações para a valorização do bairro e da Quinta da Boa Vista, onde as demandas e ideias são direcionadas à prefeitura do Rio de Janeiro e aos responsáveis pela gestão do parque, por meio de reivindicações. Um outro fator relacionado a gestão também engloba o setor de Turismo da cidade, a Rio Tur, com relação a gestão da imagem e narrativa paisagística deste parque na cidade do Rio de Janeiro. A partir das figuras abaixo, percebe-se uma administração constante da imagem e perfil turístico do parque nas redes sociais, com destaque para o Instagram, no qual a Quinta aparece como um local histórico da cidade, onde muitos personagens do Brasil Imperial nasceram e viveram. Além disso, o parque também aparece sob a narrativa do lazer em meio a vegetação exuberante, características que são atrativas para futuros visitantes. 96 Informação disponível na página da Associação de Moradores e Amigos de São Cristóvão: https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808- 6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1- 5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8- 1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62. 97 Conferir reportagem “Moradores contrários a festival na Quinta da Boa Vista relatam ameaças” em https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/moradores-contrarios-festival-na-quinta-da-boa-vista- relatam-ameacas.html. https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62 https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62 https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62 https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62 https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/moradores-contrarios-festival-na-quinta-da-boa-vista-relatam-ameacas.html https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/moradores-contrarios-festival-na-quinta-da-boa-vista-relatam-ameacas.html 150 Figura 65: A gestão da imagem da Quinta da Boa Vista no perfil turístico da cidade. Fonte: Instagram do RioTur (n.d.). Nesse sentido, para ampliar a compreensão dos aspectos de gestão cariocas, no que tange o planejamento urbano e ambiental, do qual a Quinta da Boa Vista faz parte, eu realizei em janeiro de 2022, entrevista com a pesquisadora Jeanne Almeida da Trindade, urbanista especialista em Planejamento Ambiental e Paisagístico, ex funcionária da prefeitura do Rio de Janeiro e atual professora do Centro Universitário IBMR. Ela respondeu a questões relacionadas às políticas urbanas implementadas na cidade ao longo da década de 1990, a sua experiencia de trabalho na prefeitura, além de suas pesquisas, incluindo o doutorado sobre a importância do jardim histórico da Quinta da Boa Vista (como pode ser verificado no anexo 3). Neste contexto, a experiência da entrevistada como funcionária da prefeitura do Rio de Janeiro, sendo responsável pela coordenadoria de conservação de diversos parques da cidade, a fez se interessar ainda mais pela Quinta da Boa Vista, justamente pelo seu estado de degradação no início dos anos 90. Ao propor melhorias e solicitar verbas a prefeitura para uma melhor preservação deste jardim histórico, Jeanne também se interessou em estudar mais sobre o parque sob a perspectiva acadêmica em seu doutorado, este último tendo sido 151 defendido em 2013, tendo em vista a lacuna de informações detalhadas sobre a Quinta da Boa Vista que poderia contribuir para futuros gestores desse espaço público. Além desses aspectos mais relacionados a Quinta, a análise da entrevista também revela o percurso de medidas e instrumentos de gestão pública que foram sendo criados na cidade entre os anos de 1990 e 2010, os quais a entrevistada, por ser funcionária e atuar ativamente nas questões de planejamento e gestão das áreas verdes, testemunhou em seu próprio dia a dia de trabalho. Ao citar que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAC) apenas foi criada em 1993 e, que após isso, a política ambiental começou a ter mais relevância no Rio de Janeiro, notamos uma mudança de posicionamento político perante o meio ambiente, que passa a ser mais valorizado como um elemento essencial da paisagem urbana carioca. Sobre este aspecto, Jeanne aborda o fato de esse ter sido um momento onde os projetos de reflorestamento passaram a ser mais englobados como parte das políticas urbanas, garantindo a criação da figura do “administrador dos parques” também em 1993, e em 2000 a Lei de implantação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC, 2000), que propiciou o desenvolvimento de Planos de Manejo em Unidades de Conservação (UC). Porém, apesar de todos esses avanços, podemos verificar que a cidade do Rio de Janeiro ainda carece de uma maior integração de políticas urbanas e instrumentos de gestão que favoreçam uma visão mais abrangente do espaço urbano como um todo. Com base na entrevista e nas demais fontes analisadas nesta pesquisa, percebemos que ainda falta uma maior conectividade da paisagem urbana carioca, além de medidas para aproximar a população da natureza urbana. Dessa forma, os desafios e as questões socioambientais que permeiam os dois contextos empíricos desta pesquisa serão analisados com mais detalhes no próximo subitem. 152 4.3 A RELEVÂNCIA DOS DOIS PARQUES NO AMBIENTE URBANO CONTEMPORÂNEO A descrição inicial do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, bem como a análise das entrevistas realizadas no período de 2020-2022, demostram como esses dois espaços possuem multifuncionalidades que se conectam a esferas não apenas físicas do espaço concreto, mas também simbólicas, relacionadas às formas de utilização e a memória coletiva e individual. Isso significa que esses parques, apesar de estarem em contextos urbanos distintos, representam ambientes de sociabilidade em meio a natureza, participando ativamente das dinâmicas socioambientais das sociedades de suas respectivas paisagens urbanas. As maneiras pelas quais os parques são utilizados na vida diária, diferem na mesma medida que suas realidades culturais, geográficas e socioeconômicas também são diferentes. Por exemplo, os usos do Parque Frogner se modificam conforme a estação do ano, enquanto que na Quinta da Boa Vista, não há grandes distinções, pois, as mudanças de estação são mais tênues no contexto geográfico de clima tropical úmido da cidade do Rio de Janeiro. Neste sentido, as entrevistas e as fontes bibliográficas analisadas, demonstram como as vivências no Parque Frogner, durante o verão, se conectam ao contexto da disponibilidade da luz solar de quase 24h por dia, em contraste com o inverno, onde os dias são mais curtos e escuros. Além disso, no inverno, os tipos de atividades sociais também são distintos, relacionados, sobretudo, ao aproveitamento da neve para programas de lazer ao ar livre, ao passo que no verão e, em parte do outono e primavera, a principal atividade consiste em piqueniques e banhosde sol. Um outro exemplo de distinções verificado nas fontes de pesquisa, diz respeito ao público principal que frequenta os dois parques. Cabe destacar que ambos possuem bom acesso por meio de transportes públicos, pois estão localizados em proximidade a pontos de ônibus, estações de metrô e trem. Entretanto, o Parque Frogner recebe um público diário mais local, composto por moradores do bairro Frogner e arredores, combinado a um público turístico nacional e internacional; enquanto que a Quinta da Boa Vista atende a uma enorme carência de espaços verdes na zona norte e na baixada fluminense, por vezes recebendo visitantes de bairros, e até mesmo municípios, geograficamente distantes, mas próximos em termos de ligações via transporte público. Além disso, o caráter turístico deste parque carioca se relaciona mais a um turismo local, alternativo e cultural, não sendo este espaço um dos pontos turísticos mais procurados, em comparação aos que existem na zona sul da cidade. 153 O Parque Frogner possui uma relação bem desenvolvida com as áreas ao seu redor, e foram verificadas ações de preservação e aprimoramento do parque por parte de setores da prefeitura de Oslo, como o Bymiljøetaten – Departamento de Meio Ambiente e a Frognerparkens Venner – Associação de Amigos do Parque Frogner, composta por moradores que frequentam o espaço, bem como pessoas interessadas no geral, que investem na preservação dos gramados, bancos, banheiros públicos e demais componentes em conjunto aos setores de administração pública. Ao verificar as fontes de pesquisa, não foram encontradas questões sobre a segurança do parque, além disso, apenas uma referência bibliográfica (GÍSLADOTTIR, 2014), relacionou a excelente manutenção do espaço ao fato dele estar localizado no tradicional bairro de Frogner, e representar um local cultural importante para a cidade de Oslo. Em contrapartida, os relatos e a bibliografia sobre a Quinta da Boa Vista demonstram que o parque possui diversos desafios a serem superados, apesar dos esforços de gestão por parte da Fundação Parques e Jardins. Problemas, como a sensação de insegurança nos dias de segunda-feira a sexta-feira, aspectos de falta de manutenção nas áreas ajardinadas do parque, banheiros públicos com pouca infraestrutura, além da pouca movimentação de pedestres no entorno do parque e as atividades de prostituição no período noturno (pré pandemia), ainda necessitam de maior atenção e investimentos por parte dos setores administrativos do município do Rio de Janeiro. É interessante observar que os desafios presentes na Quinta da Boa Vista, não são questões intrínsecas ao parque, mas sim relacionadas aos principais problemas urbanos da cidade brasileira e, por isso, existe um reflexo das dinâmicas do espaço urbano carioca dentro da realidade do parque98. Isto é, a falta de segurança no parque e de maiores investimentos para a preservação e aprimoramento do bem público e cultural, acarretando, dentre outras coisas no incêndio do Museu Nacional em 2018; a necessidade de homens e mulheres se prostituirem as portas de um parque público, por falta de melhores oportunidades de vida, são consequências do histórico de renegação e descaso político com os aspectos sociais, econômicos e ambientais na sociedade brasileira, ocasionando uma extrema desigualdade socioambiental na contemporaneidade. Neste sentido, a expressão Apartheid Verde, vem sendo utilizada na mídia, como pode ser verificado na reportagem da Revista Veja, publicada pela página do Instagram da 98 Esse aspecto pode ser visto nas transformações pelas quais a Quinta da Boa Vista passou no decorrer do império para a república, acompanhando as políticas sociopolíticas em curso, onde o bairro de São Cristóvão passou de aristocrático a popular. 154 Fundação Parques e Jardins do Rio, em 16 de abril de 2021. Nesta postagem, o contexto socioambiental da urbanização da cidade do Rio de Janeiro é definido a partir de sua distinção entre a cobertura vegetal das zonas sul, norte e oeste cariocas. Esse aspecto também foi verificado nas entrevistas, que associaram a falta de investimentos na Quinta da Boa Vista ao fato desse parque não estar localizado numa área nobre da cidade. Figura 66: Apartheid verde. Fonte: Instagram da FPJ-Oficial, publicado em 15/02/2022. Dessa forma, a situação da falta de arborização em bairros mais periféricos, existe concomitantemente a desigualdade social. De acordo com a publicação, essas áreas com carência de espaços verdes de qualidade são justamente as que mais sofrem com fenômenos climáticos produzidos pela própria cidade, como é o caso das ilhas de calor, além de enchentes e deslizamentos de terra. Sendo assim, existe a proposição, desde 2016, do Plano Diretor de Arborização Urbana, buscando solucionar o problema através de uma investigação sobre as espécies arbóreas da cidade, com identificação das áreas de plantio de espécies inadequadas para o meio urbano, o que pode ocasionar problemas nos calçamentos e fiação elétrica, gerando conflitos e falta de apoio por parte da população. 155 Porém, também cabe dizer que, apesar dos desafios, a Quinta da Boa Vista é um lugar de relevância para os seus frequentadores, para a história do Brasil e do Rio de Janeiro, e para o meio ambiente, enquanto espaço de natureza urbana com uma rica cobertura vegetal e espécies animais. Isso pode ser analisado em todas as fontes analisadas nesta pesquisa, principalmente, por meio dos relatos que identificam a Quinta da Boa Vista em relação a todo o significado cultural e afetivo que esse espaço carrega consigo na atualidade da paisagem urbana. Por outro ângulo, a realidade do contexto urbano de Oslo, em conexão às características sociopolíticas da Noruega, difere em grande medida em comparação a tudo o que foi apresentado sobre o contexto brasileiro. Todas essas características não querem dizer que o cenário norueguês seja perfeito e sem defeitos, indicando um modelo a ser seguido, mas sim que, embora, enquanto nação independente, a Noruega seja bem jovem, datando do século XX, o país possui um desenvolvimento social e político antigo, no qual o estado de bem-estar social atual se desdobrou com base na importância e discussão sobre as questões sociais da vida coletiva. Isso influencia na educação sobre os direitos e deveres do cidadão, elevando os níveis de participação popular na vida política, bem como na consciência de que o sucesso do país, bem marcado pela sua reconhecida qualidade de vida, depende também do sucesso comunitário. Neste sentido esses aspectos históricos do país, são refletidos nas políticas para o desenvolvimento do sistema de parques em Oslo, o qual foi abordado no capítulo 3; e que demonstra uma preocupação em aliar a urbanização à disponibilidade de espaços verdes e públicos em proximidade aos locais de moradia das pessoas, em todas as áreas da cidade. Entretanto, o maior desafio vivenciado por Oslo na contemporaneidade, é o de manter um alto padrão de manutenção e conectividade em seus parques, num contexto de aumento da densidade populacional e da intensa verticalização do centro da cidade, que faz do espaço urbano um palco confluente de interesses de diferentes setores privados e públicos. Por conseguinte, as duas tabelas a seguir mostram os principais questionamentos da pesquisa e como eles foram respondidos por intermédio das fontes analisadas. Esses questionamentos são os desdobramentos dos objetivos específicos desta investigação (vide figura 68), mostrando a extensão de alcance da pesquisa, através das variáveis relacionadas a sustentabilidade, aos espaços multifuncionais, bem como à biofilia e ao bem-estar no espaço urbano dos contextos empíricos considerados. 156 Figura 67: Esquema sobre a relação entre os objetivos específicos e os questionamentos dapesquisa. Fonte: Elaborado pela autora. 157 158 159 4.3.1 Abordagens da sustentabilidade e gerenciamento dos parques As práticas urbanas de gestão aliadas aos conhecimentos geográficos e biológicos sobre os componentes da ecologia urbana, neste caso, por meio da infraestrutura dos jardins, podem influenciar na efetiva sustentabilidade, significando na capacidade de se sustentar ao longo do tempo, ou seja, implicando em cidades resilientes. Tendo em vista o contexto de transformações nos ecossistemas gerado pela expansão da urbanização no nível global, como foi abordado em todo o capítulo 2, com áreas impermeáveis, de alta redução na capacidade de infiltração do solo, afetando diretamente os ciclos hidrológicos, além da discussão específica sobre as realidades urbanas de Oslo e do Rio de Janeiro, como foi visto no capítulo 3, os dois parques analisados nesta pesquisa têm a potencialidade de representar espaços de maior permeabilidade para o contexto dos bairros dos quais eles fazem parte. No caso do Parque Frogner, como já foi abordado anteriormente, ele possui uma área de 320 mil m2, dos quais apenas o parque Vigeland, a piscina pública e as quadras esportivas não possuem vegetação em números expressivos. Cabe destacar que nessa última década, a cidade de Oslo vem sofrendo com dias mais quentes e chuvas mais intensas no final da primavera e durante o verão, e o próprio Instituto de Meteorologia do país (Meteorologisk Institutt -Met.no), sinalizou em abril de 2021, um alerta laranja para uma precipitação intensa que ocorreria na cidade, onde foi destacado que: O fato de chover tão intensamente em um curto período de tempo significa que muitas vezes há problemas com as águas superficiais, especialmente em áreas densamente povoadas, em estradas ou outras cidades com muitas superfícies densas ou má drenagem. Relâmpagos, trovões, granizo e fortes rajadas de vento são frequentemente associados a chuvas torrenciais. Outras consequências possíveis dessas pancadas de chuva são as mudanças de curso de córregos e rios, e deslizamentos de terra. Um aviso de chuva torrencial pode ser enviado pouco antes da chuva, e nenhum aviso separado de inundação e deslizamento de terra será enviado do NVE (STYRTREGN, 2021, n.p., tradução livre). Com isso, a cidade pode ter maior risco a alagamentos no futuro, caso a expansão urbana e as políticas de densificação nas áreas centrais, não considerem uma morfologia urbana aliada a também expansão e manutenção da infraestrutura verde e azul, por exemplo, por meio de pequenos núcleos vegetativos, como jardins urbanos em praças e parques, 160 conectados de maneira estrutural (parques lineares, ruas arborizadas...) a outros espaços verdes de grande extensão da cidade, como o Parque Frogner e a Oslomarka. De igual forma, a Quinta da Boa Vista, com 155 mil m2, representa um local importante para a zona norte carioca. O fato desta área da cidade ser intensamente verticalizada e asfaltada, com carência de cobertura vegetal e uma drenagem urbana efetiva, implica numa menor capacidade de infiltração da água no solo, favorecendo a ocorrência do escoamento superficial e uma maior propensão a enchentes. Além disso, a Quinta da Boa Vista, assim como os outros espaços verdes, também influencia em termos de resfriamento da temperatura nos meses do verão, contribuindo para a regulação do microclima urbano. Nesta perspectiva, Cunha e Guerra (2012, p. 337), argumentam que é preciso olhar o problema, ou no caso o risco, de maneira holística, considerando todas as relações de causa e consequência entre a degradação do meio ambiente e os modos de viver da sociedade contemporânea. Os autores afirmam que apenas assim será possível identificar o que deve ser modificado, para poder recuperar e promover sistemas urbanos mais resilientes (CUNHA; GUERRA, 2012, p. 337-339). Sendo assim, o diagnóstico é composto pela análise de vários componentes separados, que depois em conjunto, possibilitam uma ação integrada por parte da gestão urbana. Em ambos os contextos empíricos analisados nesta pesquisa, o Parque Frogner e a Quinta da Boa Vista são elementos no amplo sistema urbano de Oslo e do Rio de Janeiro. Isso significa que esses dois parques possuem benefícios ambientais, como outros locais de vegetação urbana, sobretudo com a ajuda e o interesse por parte da gestão dos parques em investir nos níveis de manutenção desses espaços, a fim de garantir a boa drenagem do solo, a qualidade da água e a biodiversidade urbana, podendo ter as suas relevâncias expandidas, quando os colocamos em conexão aos outros elementos da paisagem urbana. Dessa maneira, cabe ressaltar que a política urbana está em contínua construção e que, através da Lei, exercida no plano diretor específico a cada realidade urbana aqui abordada, existe uma estruturação na forma de princípios, objetivos, diretrizes e áreas prioritárias para intervenção, a serem alcançados e que serão progressivamente acompanhados, além de avaliados e reformulados ao longo do tempo. No caso de Oslo, ambos o sistema de parques, o Stortingmelding nr 58, o Kommunedelplan e o Compehensiveplan têm exercido a potencialidade de integração socioambiental da cidade, sendo discutidos na Câmara municipal com urbanistas, ONGs locais e os representantes distritais, onde os parques urbanos são considerados como áreas de vegetação e atividades sociais relevantes para a estrutura urbana. 161 Já no espaço urbano do Rio de Janeiro, a revisão do Plano Diretor iniciada em 2018, com a discussão do Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável, aliado a outros instrumentos de gestão, como o Plano Diretor de Arborização Urbana, em diálogo com a sociedade civil e com pesquisadores do espaço urbano, tem a intenção de promover um projeto de Lei com estratégias interdependentes de planejamento, por meio do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Ambiental, onde os parques e demais espaços verdes estejam efetivamente conectados uns aos outros de forma sistêmica, promovendo um melhor gerenciamento e ressignificação das áreas verdes da cidade. Por conseguinte, a tabela a seguir99 resume os fatores abordados e apresentados durante as demais etapas de investigação sobre a manutenção do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, indicando as informações encontradas, o que elas representam em níveis de sustentabilidade para cada parque, e quais políticas de gestão urbana e ambientais poderiam ser importantes nessas realidades urbanas. *Não se aplica, pois não este não foi um componente considerado nesta abordagem de pesquisa. Tabela 6: Aspectos da sustentabilidade nos contextos empíricos da pesquisa. Fonte: Elaborado pela autora. 99 Tabela confeccionada a partir dos parâmetros utilizados por James (2014) e identificados e discutidos na pesquisa teórica presente no capítulo 2 desta pesquisa. 162 Sobre a biodiversidade na Quinta da Boa Vista, não foram encontradas informações de estudos realizados acerca das atuais fauna e flora específicas do parque, nem da conexão deste espaço verde a outros da cidade do Rio de Janeiro. Apenas na referência bibliográfica (TRINDADE, 2013, p. 257), é abordada a menção e a descrição das diretrizes de manutenção da Quinta, por parte da gestão, além do anexo 1 citando “ A Carta dos Jardins Históricos Brasileiros”, publicada em 2010 (TRINDADE, 2013, p. 227), mostrando as medidas de gestão em vigência na legislação urbana do Brasil, visando preservar os aspectos fisioquímicos dos solos, bem como a fim de possibilitar a existência dos organismos vegetais que constituem esse jardim histórico, em alusão à manutenção das espécies vegetais usadas no paisagismo de Glaziou. Além disso, foram encontrados informativos gerais no site do Horto Botânico, supervisionado e sob a responsabilidade daUniversidade Federal do Rio de Janeiro, sobre o cultivo vegetal para fins de pesquisa, no qual pode-se ler: O Horto Botânico está localizado dentro do Parque da Quinta da Boa Vista, no bairro Imperial de São Cristóvão, Rio de Janeiro. Pertence ao Museu Nacional e consequentemente a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu terreno foi anexado ao Museu Nacional em 30 de setembro de 1896. Esta área destina-se ao cultivo de plantas e a experiências biológicas para fins de estudos, pesquisas e demonstrações práticas. Há construções históricas como tanques e um sistema de canais para canteiros de plantas aquáticas cuja água era suprida por uma caixa d’água que ficava sobre uma torre, todas estas construções são datadas de 1910. Por volta de 1950, o Horto Botânico perdeu uma grande área com a construção de avenidas no seu entorno e posteriormente teve que ser reestruturado o que ocorreu com o auxílio do Prof. Luiz Emygdio de Mello Filho. Atualmente possui uma área de 40.748,50m², onde estão: uma importante área verde, com ca. 20.000m², constituída por vegetação de vários ecossistemas brasileiros e espécies exóticas; a Biblioteca do Museu Nacional e alguns prédios que abrigam os Departamentos de Botânica e de Vertebrados, o Acervo Arqueológico do Museu Nacional (Casa de Pedra) e instalações do Projeto Coral Vivo. (MUSEU…, c2022). Apesar de não representar de maneira efetiva a flora do parque, essa apresentação sobre o Horto é importante para compreender que existem pesquisas relacionadas a ecologia 163 em andamento dentro do Parque, sendo necessário mais investigações sobre como essas dinâmicas universitárias poderiam contribuir com o aprimoramento do espaço da Quinta da Boa Vista em relação a ecologia urbana. E em complementação, na atualidade do parque um outro componente que poderia ser um aliado no conhecimento e manutenção da biodiversidade, diz respeito ao Bioparque do Rio (novo zoológico), cujo princípio é o de ser um “centro de conservação ecológica, com diversos serviços de educação ambiental, estabelecendo parcerias com Institutos de pesquisa e universidades nacionais e internacionais.” 100 Embora haja uma lacuna na divulgação e/ou nas investigações sobre os componentes biológicos desse parque urbano, a cidade do Rio de Janeiro possui medidas de gerenciamento de espécies arbóreas que, em conjunto com a administração da Fundação Parques e Jardins, teriam a possibilidade de contribuir para um conhecimento e gerenciamento desse espaço em conexão a paisagem urbana. Dentre elas, pode-se destacar o Plano Diretor de Arborização Urbana, e as pesquisas botânicas realizadas pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro101 sobre as áreas ecológicas, por meio da identificação das espécies ameaçadas da Mata Atlântica102, com o intuito de catalogar a biodiversidade urbana, reconhecer áreas prioritárias para a preservação e iniciar processos de restauração. Em termos de hidrologia, a Quinta da Boa Vista vem passando por problemas. No ano de 2015, os lagos do parque foram notícias nos principais jornais (Extra e O Globo103), devido ao mau cheiro e a coloração esverdeada, indicando a presença de cianobactérias que se proliferam em águas contaminadas. O problema, identificado por pesquisadores como eutrofização da água, aconteceu pelo acumulo de matéria orgânica, no qual as cianobactérias atuam na decomposição, produzindo gases sulfídricos e metano. Além do desconforto olfativo pelo fato do cheiro se assemelhar ao esgoto, as águas contaminadas, se ingeridas, podem ocasionar intoxicações104. Em outra notícia sobre uma mancha de óleo nas águas dos lagos, em 2020, o website do projeto colabora105 destaca que “a Fundação Parques e Jardins tem tido dificuldades em gerir um espaço de 155 mil m2”, por causa do baixo orçamento e capital investidos pelo poder 100 Conferir Mendonça (2021). 101 Órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. 102 Programa Mata Atlântica-PMA.. 103 Matéria sobre a contaminação da Quinta da Boa Vista, disponível em: <https://extra.globo.com/noticias/rio/quinta-da-boa-vista-tem-lago-contaminado-por-bacterias-15830016.html>. 104 Na ocasião, a Fundação Parques e Jardins escreveu uma nota sobre o ocorrido, vide Anexo 1. 105 Matéria completa sobre o projeto colabora: https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta- da-boa-vista/. https://extra.globo.com/noticias/rio/quinta-da-boa-vista-tem-lago-contaminado-por-bacterias-15830016.html https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/ https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/ 164 municipal. A reportagem ainda menciona que o óleo diesel de coloração avermelhada, de origem até então desconhecida, expos peixes e aves ao risco de intoxicação imediata, o que é contraditório em um parque que abriga um zoológico e um horto botânico. Na ocasião, técnicos do INEA (Instituto Estadual do Ambiente) e da Defesa Civil, bem como o gestor do parque, avaliaram a possibilidade de o vazamento ter sido realizado em uma “galeria pluvial fora dos limites da Quinta da Boa Vista”106, o que intensifica ainda mais a importância em se analisar o parque em conexão aos outros elementos do espaço carioca, num sistema de planejamento e gestão integrado. Neste sentido, Rufatto-Ferreira et al. (2018) argumentam que o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE)107, enquanto modelo de planejamento urbano com ênfase na sustentabilidade, representaria uma ferramenta importante para o munícipio do Rio de Janeiro, indicando diretrizes de gestão para uma melhor utilização das áreas da cidade, buscando integrar a economia aos aspectos sociais e ecológicos. Para os autores, essa ferramenta possibilitaria uma maior compreensão dos desafios socioambientais da cidade por ser feito em etapas, que contribuiriam na formação de uma visão geral, ou diagnóstico, para se chegar às soluções. Figura 68: Foto dos Desgastes no gramado da Quinta da Boa Vista. Fonte: Yasuyoshi Chiba – AFP – Agence France-Presse (2020). 106 Matéria sobre o projeto colabora: https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa- vista/.. 107 O Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) é um instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, regulamentado pelo Decreto nº 4.297/2002, e tem como objetivo viabilizar o desenvolvimento sustentável a partir da compatibilização do desenvolvimento socioeconômico com a proteção ambiental (IBGE, n.d.). https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/ https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/ 165 Com relação ao Parque Frogner, não foram encontradas fontes bibliográficas sobre degradação ambiental neste espaço verde. Ao contrário, as informações sobre os aspectos ambientais do parque são muito promissoras e se relacionam ao fato dele consistir em habitat de mamíferos como esquilos e morcegos, este últimos sendo constantemente monitorados no local à noite. Além disso, o parque possui uma grande quantidade de espécies arbóreas compostas por árvores bastante antigas e de folhas caducas108, que são importantes para a filtragem do ar. De acordo com o website Miljølare109, justamente esses tipos de árvores decíduas agem como um biótopo essencial na manutenção de animais e plantas, uma vez que árvores antigas fornecem mais habitats por meio de espaços ocos, e também pela presença de líquens e musgos, atraindo insetos, mamíferos e aves, como é o caso das corujas que constroem seus ninhos nesses locais vazios dentro dos troncos arbóreos.110 É interessante observar que, no contexto das cidades norueguesas, a maioria dos parques tem uma área pequena demais para sustentar uma grande quantidade de habitats da vida selvagem em comparação com o ambiente das florestas e prados. Porém, o valor desses espaçosverdes em termos ecológicos de biodiversidade se multiplica à medida que eles estiverem em conexão, por meio de corredores verdes, a outros espaços verdes, sejam eles grandes ou pequenos. Segundo o jornal eletrônico Vårt Oslo111 (Nossa Oslo), existem cerca de 15 mil espécies vegetais e animais na capital norueguesa, e isso está amplamente relacionado a manutenção conjunta dos córregos e espaços verdes que cortam a cidade, e que conectam a floresta ao mar. Por isso, o manejo da diversidade biológica tem sido feito de forma a identificar as espécies exóticas que se proliferam e ameaçam as espécies nativas, a fim de evitar a propagação de pragas que comprometam os vários ecossistemas presentes em Oslo. Dessa maneira, a biodiversidade do Parque Frogner tem a sua relevância incrementada devido ao conjunto urbano de espaços verdes na paisagem da cidade, do qual o parque faz 108 “Em botânica, caducifólia, caduca ou decídua é uma planta que, numa certa estação do ano, perde suas folhas, geralmente nos meses mais frios e sem chuva (outono e inverno), ou em que a água se encontra congelada ou de difícil acesso à terra” (WIKIPEDIA, 2020). 109 Para maiores informações consulte: https://www.miljolare.no/tema/planterogdyr/artikler/urban_natur.php. 110 “Os ninhos das corujas são geralmente estruturas feitas nos buracos de árvores, cavernas, tocas subterrâneas, celeiros, casas abandonadas, campanários e em ninhos velhos de gaviões ou de corvos.” (PORTAL SÃO FRANCISCO, c2022). 111 Sobre biodiversidade na capital da Noruega, consulte Vårt Oslo em: https://cm.vartoslo.no/annonsorinnhold- hele-oslo-oslo-europeisk-miljohovedstad-2019/biomangfoldsuka-opplev-oslos-ville-hjerte/218940 https://www.miljolare.no/tema/planterogdyr/artikler/urban_natur.php https://cm.vartoslo.no/annonsorinnhold-hele-oslo-oslo-europeisk-miljohovedstad-2019/biomangfoldsuka-opplev-oslos-ville-hjerte/218940 https://cm.vartoslo.no/annonsorinnhold-hele-oslo-oslo-europeisk-miljohovedstad-2019/biomangfoldsuka-opplev-oslos-ville-hjerte/218940 166 parte. Com isso, percebemos que a sustentabilidade tem de ser considerada de maneira sistêmica, na qual a manutenção das espécies da fauna e da flora do parque dependem da também manutenção das demais áreas verdes e dos aspectos hidrológicos urbanos. Neste sentido, é importante a produção de conhecimento sobre a biodiversidade urbana, como consta no relatório do parlamento norueguês (Storting nº 58), produzido nos anos 1996 e 1997, no qual todos os municípios do país foram incentivados a mapear a diversidade biológica presente no espaço urbano. No caso do Parque Frogner, o Departamento de Meio Ambiente de Oslo conta com convênios público-privados, onde o Grupo Mercell112 (empresa privada), dá suporte a operacionalização da gestão do parque, por meio do mapeamento de espécies exóticas, bem como no estabelecimento de diretrizes de conservação da biodiversidade das espécies arbóreas e da coleção de rosas, com mais de 14.000 plantas de 150 espécies diferentes. Dentro dessa perspectiva, as áreas com maior diversidade biológica do Parque Frogner correspondem as árvores, arbustos e flores localizadas nos jardins próximos ao rio Frogner, bem como os que circundam o parque. A área onde se situa o Parque Vigeland, especificamente o monolito, nesta lógica, seria uma das menos diversas, justamente por ser um local sem muita vegetação e com forte presença de concreto. Um dos aspectos hidrológicos do parque se constitui pelo rio Frogner, que é formado na confluência entre Gaustadbekken e Sognsvannbekken no bairro Frøen, sendo canalizado seguindo na direção sul, passando pelo bairro Frogner. Dentro do parque, o rio flui pelas barragens (drammensveien), sendo essencial para o ecossistema do entorno. Por meio de pesquisas bibliográficas, foi constatado que, o rio Frogner possui a sua própria associação de amigos (frognervassdragets venner113), a qual contribui para a manutenção da qualidade hídrica, por meio de “trabalhos de limpeza, sinalização, preparação de trilhas, testes de água e acompanhamento de planos de zoneamento, se manifestando em casos que afetam o curso d'água”, além de organizar “passeios fluviais” ao longo desse rio urbano, no período de maio a outubro, e eventos culturais, sobretudo com moradores e estudantes de ensino fundamental das escolas localizadas nos bairros por onde o rio passa. 112 Sobre a empresa MERCELL: https://www.mercell.com/en/tender/51430752/drift-og-skjoetsel-av- frognerparken-tender.aspx 113 Maiores informações em https://www.osloelveforum.org/frognerelvas-venner/. https://www.mercell.com/en/tender/51430752/drift-og-skjoetsel-av-frognerparken-tender.aspx https://www.mercell.com/en/tender/51430752/drift-og-skjoetsel-av-frognerparken-tender.aspx https://www.osloelveforum.org/frognerelvas-venner/ 167 Figura 69: Evelangs Frognerelven, evento cultural de música e dança ao longo rio, com alunos das escolas Majorstuen, Skøyen e Uranienborg. Fonte: Frognerelven (n.d.). Outra questão relacionada a esse rio, diz respeito a sua relação a vida animal. De acordo com uma reportagem publicada pelo jornal online Nettavisen114, em 21 de maio de 2020, um castor que foi encontrado dentro do Parque Frogner, “nadando ao redor do riacho e se alimentando de repolhos a margem do rio. O animal aparentemente havia se mudado para o rio Frogner, que é o córrego que flui através de Frognerparken e deságua em Frognerkilen115”. Figura 70: Castor nadando no seu novo habitat, o Rio Frogner. Fonte: Ørn E. Borgen (NTB scanpix) (2020). Sendo assim, podemos observar como a natureza presente nas duas cidades contempladas nesta pesquisa, também se relaciona a perspectiva das questões de qualidade ambiental e de vida, onde se identificou como a biodiversidade, a vegetação e a hidrologia, 114 En bever har flyttet inn i Frognerparken [Um castor se mudou para o Parque Frogner], disponível em: https://www.nettavisen.no/nyheter/en-bever-har-flyttet-inn-i-frognerparken/s/12-95-3423971871. 115 Tradução livre da autora a partir da reportagem do Nettavisen. 168 por exemplo, representam elementos essenciais da paisagem urbana, e se conectam aos desafios em níveis de sustentabilidade que cada espaço urbano possui. A partir dessa perspectiva, cabe ressaltar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou no ano de 2016 o livro intitulado Urban green spaces and health - A review of evidence. Nele se enfatiza as comprovações científicas sobre as áreas arborizadas que ajudam na produção de oxigênio, filtrando a poluição do ar e as áreas com a presença de corpo d’água que contribuem para certa moderação na temperatura, além do papel de relevância social desses espaços (OMS,2016). Essas questões foram analisadas de acordo com o panorama específico tanto do parque Frogner, quanto da Quinta da Boa Vista, e espera-se que as discussões trazidas aqui tenham a capacidade de gerar novos questionamentos para pesquisas futuras, além de auxiliar em uma compreensão mais holística sobre os aspectos socioambientais para planejadores e gestores urbanos da atualidade. 169 4.3.2 Natureza urbana e bem-estar O bem-estar, por vezes, é encarado como algo subjetivo na sociedade, com base em diferentes fatores de ordem psicológica, socioambiental e até mesmo econômica. Sobre isto, Londe et al (2014) argumentam que o bem-estar seria o resultado da relação entre os conceitos de qualidade de vida e de qualidade ambiental, partindo do princípio de que as pessoas necessitam de espaços na cidade que sejam capazes de desempenhar funções ecológicas e sociais ao mesmo tempo (LONDE et al., 2014, p. 268). Por esse motivo, a multifuncionalidade dos espaços verdes vem sendo considerada como de grande importância na contemporaneidade da vida urbana. Apesar de existirem bons indicadoresde bem-estar e qualidade de vida em pesquisas qualitativas sobre o espaço urbano, como por exemplo, no projeto financiado por diversas Fundações de Fomento à pesquisa do Brasil, denominado Índice de Bem-Estar Urbano (IBEU), que identifica “as condições urbanas necessárias para se viver nas cidades, especialmente nos grandes centros urbanos do país116”, favorecendo pesquisas acerca da condição da habitação, transportes públicos e demais características urbanas, a fim de promover uma melhora na vivência das cidades brasileiras; ainda assim, é importante realçar que cada indicador é inerente ao interesse e aos questionamentos da pesquisa a qual ele está sendo utilizado, pois é difícil mensurar o significado das sensações de satisfação, contentamento e plenitude que fazem parte do estado emocional de cada um, e articular tudo isso num indicador genérico e universal. Neste sentido, ao longo das etapas de pesquisa sobre os espaços verdes e contextos empíricos do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, não foram analisados índices padronizados elaborados por outras pesquisas de outros contextos e temáticas urbanas. Justamente pelas peculiaridades e subjetividades dos entrevistados, na investigação aqui realizada, buscou-se refletir sobre os aspectos citados e relatados por eles com relação ao aporte teórico das cidades biofílicas e da paisagem, promovendo uma maior imersão e compreensão da percepção ambiental apresentada nos relatos. A partir dessa abordagem, foi possível elencar índices próprios, relacionados ao que foi estudado por essa pesquisa específica. Com base nos contextos de Oslo e do Rio de Janeiro, percebe-se a ocorrência de valores socioculturais semelhantes, no que tange a importância dada a natureza urbana pelas 116 IBEU – Índice de Bem-estar Urbano, consulte em https://ibeu.observatoriodasmetropoles.net.br/. https://ibeu.observatoriodasmetropoles.net.br/ 170 pessoas. Embora as vivências sejam distintas nas duas cidades, o fato de haver algum tipo de disponibilidade e acesso aos espaços verdes, foi considerado como extremamente positivo e até mesmo essencial para a vida nessas realidades urbanas. Sendo assim, foi utilizado o recurso da nuvem de palavras, através da conta pessoal no website Mentimeter117, para apresentar as palavras mais pronunciadas e/ou escritas nos relatos. Essas palavras se apresentam em tamanhos diferentes (em ordem crescente), representando visualmente os termos mais citados, indicando os índices de bem-estar que esta pesquisa se baseia, como pode ser visto a seguir: Parque Frogner: Figura 71: Nuvem de palavras sobre o Parque Frogner. Fonte: Elaborado pela autora com base nos relatos. 117 Mentimeter, consulte em: https://www.mentimeter.com/pt-BR. https://www.mentimeter.com/pt-BR 171 Quinta da Boa Vista: Figura 72: Nuvem de palavras sobre a Quinta da Boa Vista. Fonte: Elaborado pela autora com base nos relatos. Nesta perspectiva, pode-se compreender que os dois parques representam ambientes multifuncionais de aspectos ambientais e sociais de grande relevância. A partir das palavras/ expressões destacadas pelas figuras, foi possível organizar os termos em três índices: • Valores socioambientais: Biodiversidade, luz do sol, estações do ano, contato com a natureza, frescor, temperatura amena. • Valores culturais: Arte e natureza, esculturas de Vigeland, identidade da Noruega, arte e cultura, Museus, Zoológico. • Benefícios sociais: Relaxamento, saúde mental, acessibilidade, tranquilidade, felicidade, piqueniques, descanso, memórias da infância, lembranças. Esses resultados mostram que os valores socioambientais são qualidades que o meio ambiente, ou nesse caso os dois parques, possuem de acordo com a perspectiva da sociedade da qual eles fazem parte, sendo, portanto, também relacionados a cultura local. Já os benefícios sociais indicam efetivamente a melhoria do estado de bem-estar por conta da disponibilidade desses valores (tanto socioambientais, quanto culturais), indicando que todos os aspectos existem e devem ser analisados em conjunto nos parques. Por exemplo, a melhora 172 na saúde física e mental e o alivio do estresse são benefícios sociais que dependem dos valores socioambientais analisados como a disponibilidade ad luz do sol, a biodiversidade e uma temperatura mais amena. De igual forma, as memórias da infância se conectam aos valores culturais presentes nas visitas ao Museu (Nacional) e ao parque das esculturas (Vigeland). Seguindo a narrativa dos relatos e a visualização da nuvem de palavras, pode-se interpretar que o valor dado a natureza urbana presente no Parque Frogner é mais conectado aos aspectos ecológicos da sustentabilidade e da biodiversidade, que foram considerados como um valor socioambiental presente neste espaço. Além disso, o componente da luz do sol, ou luz do dia, também foi bastante citado como importante nas vivências das pessoas neste parque urbano, o que pode indicar a relação entre o parque e demais espaços verdes da cidade aos aspectos climáticos do país, onde é essencial que haja disponibilidade de natureza urbana para que a população consiga usufruir da cidade mesmo nos dias mais curtos e gelados do inverno. De igual forma, isso se conecta a biofilia neste espaço, onde as estações do ano são percebidas ao passar de cada mês, e a percepção das pessoas muda à medida que a coloração da paisagem também muda, por meio do aspecto das folhas das árvores, do branco da neve, ou do verde do gramado e o desabrochar dos primeiros botões de flores na primavera, além da disponibilidade de 24 horas de luminosidade no verão. A saúde mental também teve sua importância realçada. As pessoas entrevistadas associaram a presença de espaços verdes a manutenção de um bem-estar físico e mental imprescindível na vida diária. Neste sentido, os parques também atuariam como uma espécie de estrutura da sustentabilidade não só ambiental, mas também psicológica dos moradores de Oslo, enquanto lugares nos quais pode-se ter uma sensação de relaxamento e tranquilidade, além de fazer uma gama de atividades diferentes em meio a presença da vegetação e de toda uma vida animal (biodiversidade). As questões da arte relacionada às esculturas de Vigeland e ao caráter turístico do parque também foram muito enunciadas nos relatos, demonstrando que esse espaço cultural faz parte do passado histórico do país. Além disso, a arte e as esculturas foram consideradas como integrantes da identidade cultural da Noruega, como um tipo de legado cultural na contemporaneidade do parque, fato que atrai muitos turistas. Com relação a Quinta da Boa Vista, nota-se que, ao contrário do Parque Frogner, a questão ecológica e de sustentabilidade não foi o aspecto principal a ser citado nos relatos. Porém, numa análise socioambiental, percebe-se que o vocábulo “fresco” e a indicação do 173 parque possuir uma “temperatura amena”, mesmo que indiretamente, se relaciona a questão da importância ecológica deste parque para a cidade, onde os relatos mostram que a presença da vegetação se conecta a um lugar mais aprazível, sobretudo numa cidade de clima quente como o Rio de Janeiro. Isso também é um exemplo de relação biofílica com a vegetação da Quinta da Boa Vista, onde a percepção ambiental presente nos relatos implica num valor dado às árvores e demais plantas do parque, percebidas e sentidas de inúmeras formas. Para os entrevistados o fato de haver um local de convivência em meio a natureza urbana foi a experiência fundamental. Até mesmo a expressão “espaço de bem-estar” foi utilizada para se referir ao parque em relação ao “contato com a natureza”. Outra questão muito abordada foi a das memórias da infância, ou lembranças. Isso se reflete nos relatos sobre os passeios escolares ao parque, bem como aos piqueniques em famíliarealizados neste espaço, que indicam que as pessoas guardam uma relação de afetividade com a Quinta da Boa Vista. Termos como descanso e relaxamento indicam que a Quinta da Boa Vista, apesar dos desafios em níveis de infraestrutura e segurança, ainda possui muita relevância, por ser um lugar de tranquilidade, especificamente, na zona norte, sendo esta última uma outra palavra muito citada nas entrevistas. O fato do parque se localizar na zona norte e ser acessível a muitas pessoas via transporte público, é algo que influencia no bem-estar geral dos entrevistados, pois eles podem frequentar o espaço por uma maneira mais facilitada e próxima. 174 CONSIDERAÇÕES FINAIS No presente trabalho, ao longo das etapas de pesquisa, verificou-se como a natureza urbana se desenvolveu em meio aos desafios trazidos pela lógica da industrialização e da expansão urbana nos séculos XIX e XX. A maneira com a qual a arquitetura da paisagem se inseriu nessa expansão urbana nos possibilita enxergar a cidade como palco concreto das relações socioambientais, compreendendo que as sociedades e todas as suas dinâmicas também fazem parte do mundo natural, vivenciando e imprimindo marcas no espaço com a potencialidade de gerar consequências ambientais dos mais diversos níveis e características. Sendo assim, é essencial o entendimento da atuação dos principais personagens mundiais que contribuíram para um olhar mais integrador e multidisciplinar do planejamento urbano e ambiental, como por exemplo Frederick Law Olsmted e Ian McHarg. Soma-se a isso, alguns aspectos dos debates ecológicos do século XX e das questões trazidas no contexto das cidades biofílicas sobre a percepção ambiental e a paisagem urbana que, em conjunto, permite uma reflexão sobre como as pessoas vivenciam e conferem significado ao espaço por meio das experiencias diárias e, dentro desse contexto, como as cidades contemporâneas podem usufruir de conhecimentos de diferentes áreas do saber, como a biologia, a geografia e a sociologia, para a idealização de cidades mais resilientes e com mais qualidade de vida para seus habitantes. Neste sentido, tendo a natureza urbana como fio condutor desta pesquisa, se buscou abordar o contexto de planejamento em duas realidades urbanas geograficamente distantes, Oslo e Rio de Janeiro, com o intuito de analisar como os aspectos socioambientais presentes no Parque Frogner (OSL) e na Quinta da Boa Vista (RJ), isto é, especificamente em dois espaços verdes, se relacionam ao bem-estar urbano das respectivas cidades. A resposta a essa indagação principal não é evidente, e foi necessário traçar os caminhos pelos quais o contexto de Oslo e do Rio de Janeiro lidaram com o seu meio ambiente, sobretudo do final do século XIX até os dias atuais. Isso foi importante para compreender as bases socioculturais que permitiram a existência dos dois parques que foram estudados posteriormente. Para tanto, ao realizar um levantamento bibliográfico sobre a temática socioambiental e as políticas dos espaços verdes nas cidades estudadas, foi possível notar que no século XX, a cidade norueguesa recebeu grande influência das ideias ambientalistas em vigor no planejamento urbano ocidental, onde foi criado um amplo sistema de parques interligando os espaços verdes urbanos e propiciando a construção de ainda mais parques e jardins por todos os bairros, numa maneira de proporcionar acesso a natureza urbana nas imediações das 175 moradias. Esse sistema, pensado e executado em meados do século, foi a primeira de uma série de políticas urbanas posteriores que visavam tornar a cidade verde. Nessa perspectiva, o Parque Frogner se insere nessa lógica, mas possui algumas especificidades, por ter sido um espaço também construído com o objetivo de exercer a função cultural importante por meio das esculturas de Vigeland, num momento no qual a Noruega buscava uma maior independência sociocultural de seus países vizinhos. No caso da cidade do Rio de Janeiro, se observa que seu contexto de urbanização é distinto, se relacionando às funções de capital do Império, com a chegada da família imperial portuguesa no final do século XVIII. Com relação aos espaços verdes, sobretudo no segundo Império de D. Pedro II, a natureza urbana presente na cidade começou a receber mais ênfase, com o reflorestamento da floresta da Tijuca e a idealização de alguns parques pela cidade. Além disso, como foi estudado ao longo da pesquisa, os maiores avanços em políticas urbanas para um planejamento urbano e ambiental da cidade ocorreu, de fato, a partir da segunda metade do século XX. Nessa perspectiva, a criação inicial da Quinta da Boa Vista não se relaciona a um parque urbano, mas sim aos jardins da residência da família imperial brasileira no Paço de São Cristóvão, que após a chegada da República, começaram a exercer a função de parque público considerado como jardim histórico. A análise do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista expôs os contextos de criação desses espaços, mas não se limitando a uma análise historiográfica, pois foram discutidas as transformações pelas quais os parques passaram até a atualidade, mostrando as características de multifuncionalidade ecológica, social e cultural que os tornam centrais em termos socioambientais. Para a compreensão de como os aspectos presentes nesses parques se relacionam a noção de bem-estar, a investigação aqui realizada buscou apoio nas categorias de análise, sustentabilidade, sociabilidade e gestão, a fim de proporcionar uma maior imersão investigativa na realidade dos parques. Para alcançar esse propósito, foi preciso analisar como os dois parques se integram à paisagem urbana na concepção da sustentabilidade, no qual foi investigada a existência ou não de conectividade entre esses parques e os outros espaços verdes das cidades, além da compreensão dos conjuntos de ações que os preservam, bem como as características ecológicas que eles possuem, dentre as quais destaca-se a biodiversidade desses espaços. Dessa maneira, a análise dos dois contextos empíricos dessa pesquisa mostrou que ambos possuem relevância ecológica para as cidades, porém, no caso do Rio de Janeiro, existe uma carência na divulgação de estudos sobre os aspectos biológicos específicos da Quinta da 176 Boa Vista (fato que abre brechas para futuras pesquisas), bem como uma falta de conectividade entre esse espaço verde e os demais locais de natureza urbana no âmbito do planejamento urbano e ambiental da cidade. Apesar do parque estar ligado a várias instituições de pesquisas relacionadas a biodiversidade (vide as que são gerenciadas pela UFRJ como o Museu da fauna e o Horto botânico, e mais recentemente sob responsabilidade do setor privado, o Bioparque), e dele contemplar diversas espécies arbóreas e animais, foram identificados problemas de cunho ambiental, como a poluição do lago, o que representa um desafio para a gestão desse espaço, devido à falta de recursos e de integração com a gestão das áreas adjacentes ao parque. Com relação ao Parque Frogner, foram encontradas muitas evidências em estudos acadêmicos sobre a conectividade deste espaço aos outros componentes de natureza urbana, o que se relaciona claramente às políticas urbanas de criação de espaços verdes em Oslo, discutidas anteriormente. É importante mencionar que foram identificadas fontes bibliográficas sobre elementos de biodiversidade do parque, e as medidas que são tomadas tanto pela prefeitura, quanto pelos moradores do bairro Frogner para a manutenção ecológica local. Foi mostrado como os aspectos hidrológicos presentes no parque, em complementação às árvores e demais elementos vegetais, constituem um espaço repleto de ecossistemas interligados e interdependentes, sendo considerados de relevância para a cidade como um todo. Apesar da criaçãodo parque Frogner ter sido controversa no meio intelectual dos arquitetos paisagistas noruegueses, por ter sido especialmente idealizado para oferecer local às esculturas de Vigeland, aparentemente indo em oposição ao que se pretendia na época em questões ambientais, percebe-se que, ainda assim, esse espaço conseguiu atender aos múltiplos interesses de promoção de uma paisagem urbana onde o verde está bem integrado, e o parque representa um importante meio de transição entre a floresta urbana e a península de Bygdøy. Além das questões trazidas acima, foi também preciso investigar o papel dos dois parques como espaços de sociabilidade, promovendo o acesso à natureza urbana, onde se pretendeu analisar como as atividades realizadas nos dois contextos empíricos se constituem por experiências cotidianas de relevância simbólica para a compreensão das dinâmicas socioculturais. Sendo assim, as entrevistas no formato de relatos com frequentadores dos dois parques, permitiram a compreensão da multifuncionalidade desses espaços, seja enquanto 177 lugar ecológico, ou como palco das experiências de vida das pessoas, estando amplamente relacionados às memórias e histórias pessoais de cada um. Embora os parques se situem em realidades urbanas distintas, foi possível perceber que a possibilidade de visitar um espaço verde na proximidade do local de moradia ou com fácil acesso por meio de transportes públicos, é essencial para ambos os contextos. Enquanto os entrevistados sobre o Parque Frogner, no geral, o consideram como mais uma opção de natureza urbana em meio a muitas outras de fácil visitação presentes em Oslo; os entrevistados sobre a Quinta da Boa Vista indicam que a principal questão sobre esse espaço é o de ele estar situado perto das residências deles via transporte público, num panorama de desigualdade no acesso ao verde da cidade do Rio de Janeiro. Nesse sentido, a análise conjunta sobre como esses parques são gerenciados por suas municipalidades e como essa gestão contribui ou deixa de contribuir para o aprimoramento dessa natureza urbana, também foi relevante para a pesquisa, conectando os demais objetivos específicos e nos permitindo observar como a sustentabilidade e a sociabilidade se relacionam a gestão e ao planejamento urbano e ambiental. Em adição, a imagem da natureza urbana também foi importante para compreender como esses parques são abordados nos discursos midiáticos oficiais, onde foi possível observar o contexto no qual as duas cidades se beneficiam da natureza urbana não apenas no nível social e ecológico, mas também com relação aos interesses socioeconômicos globais. Já a partir das entrevistas com duas profissionais do planejamento urbano e ambiental, sendo uma em Oslo e a outra no Rio de Janeiro, foi possível investigar as principais maneiras com as quais os dois parques vêm sendo considerados a partir da perspectiva da gestão na contemporaneidade. A entrevista sobre a realidade urbana de Oslo proporcionou, dentre outros aspectos, o entendimento sobre o papel do Parque Frogner como espaço essencial de biodiversidade e conectividade na paisagem urbana, no qual foram apresentadas algumas diretrizes que a cidade tem seguido, sobretudo num momento no qual Oslo está passando por transformações, através das políticas de densificação e verticalização do centro da cidade, o que demostra os desafios que estão por vir nos próximos anos, quando se terá mais pessoas circulando e morando na cidade, enfatizando a importância dos espaços verdes justamente nessas áreas mais densas do espaço urbano, que tendem a se intensificar na contemporaneidade. Já a entrevista sobre o contexto do Rio de Janeiro mostrou os primeiros esforços presenciados pela entrevistada, enquanto funcionária da prefeitura do Rio de Janeiro, para a incorporação do meio ambiente ao planejamento urbano (já na década de 1990). Dentro desse 178 contexto, ela cita que a cidade do Rio de Janeiro possui um bom número de parques públicos, incluindo os parques naturais e os parques urbanos, mas que a distribuição, oferecimento e conservação desses espaços não é equilibrada (e isso coincide com os relatos das outras entrevistas). A Quinta da Boa Vista também não é alheia a essa situação, e a profissional comentou sobre como esse local esteve degradado no período de 1993 a 1997, tendo sido esse o motivo pelo qual ela se interessou ainda mais pelo parque e se sentiu estimulada a lutar por mais verbas para uma manutenção efetiva. Neste sentido, foi possível avaliar a potencialidade dos parques na promoção do bem- estar na cidade de Oslo e no Rio de Janeiro, tendo em vista que cada categoria de análise contribuiu para a formação de um parâmetro da realidade contemporânea de cada parque. Os vários aspectos que tornam os contextos empíricos relevantes em termos de bem-estar se relacionam aos conteúdos desvendados durante as etapas de investigação sobre a sustentabilidade, a sociabilidade e a gestão, e permitiu compreender que as categorias influenciam umas às outras, pois, por exemplo, se existem problemas de poluição ambiental em um determinado parque, isso influenciará a maneira pela qual as pessoas vivenciam o lugar, podendo notar dentre outras coisas, cheiros desagradáveis nos rios, o que pode as impedir de utilizar determinados locais. E tanto a questão da ecologia, quanto da sociabilidade também depende da gestão do espaço promovendo uma maior manutenção ou não do local. Sendo assim, as políticas urbanas que influenciam a gestão de ambos os parques, quando contribuem para uma maior consideração do papel da natureza para o espaço urbano, também influenciam no nível de preservação dos parques, que por sua vez influenciam as experiências sociais. A partir da tabela sobre os aspectos de sustentabilidade dos contextos empíricos (vide Tabela 6, Capítulo 4), foi possível visualizar a potencialidade ecológica dos parques em conexão às políticas urbanas que poderiam ser úteis para cada caso. Além disso, os índices construídos através das fontes analisadas durante a pesquisa (Valores socioambientais; Valores culturais e Benefícios sociais), mostraram como os dois contextos empíricos respondem aos desafios que lhes são colocados cotidianamente em cada realidade urbana e, ainda assim, conseguem representar elementos de biofilia e bem-estar. Portanto, no contexto de uma cidade mais saudável tanto em níveis ecológicos, quanto sociais, os dois parques se apresentam com intensa relevância para os seus espaços urbanos, oferecendo exemplos contemporâneos que promovem uma reflexão sobre a importância e consideração dos aspectos sociais e ambientais nas práticas de gestão, contribuindo e 179 instigando novas pesquisas acadêmicas sobre essa temática. Neste sentido, as duas cidades possuem características que podem ser aprimoradas por novas políticas urbanas e instrumentos de planejamento urbano e ambiental, bem como de gestão integrada, como foi discutido ao longo do subitem 4.3, onde as escalas de planejamento e políticas setoriais necessitam ser vinculadas em uma estrutura coesa. Sendo assim, a pesquisa aqui realizada fornece um conteúdo atualizado sobre a realidade urbana do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, podendo auxiliar em novas maneiras de se gerenciar não apenas esses dois parques, como também outros elementos da paisagem urbana contemporânea. Tendo em vista que a resiliência não é apenas a capacidade ambiental de recuperação após uma crise, mas também a possibilidade das pessoas conseguirem efetivamente viver nas cidades, onde suas relações sociais consigam também se sustentar, a ampla rede de conexões e subjetividades que coexistem no ambiente urbano e propiciam a existência do bem-estar individual e coletivo, devem ser levadas em consideração tanto por pesquisadores, quanto por planejadores e gestores urbanos.180 OBRAS CITADAS ANDRADE, Rubens; TERRA, Carlos. A historiography on the gardens of Brazil. Ornamental Horticulture, Campinas, v. 22, n. 1, p. 7-19, 2016. ANDREATTA, Verena. 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Por que este foi um local escolhido para visitação? 6- Quais tipos de atividades você pratica nesse parque? 7- Como você percebe o Parque Frogner/ a Quinta da Boa Vista em termos culturais e históricos? 8- Para você, qual a importância deste espaço na malha urbana da cidade?191 ANEXO 2: SÍNTESE DAS RESPOSTAS DAS ENTREVISTAS COM 8 FREQUENTADORES DO PARQUE FROGNER 1-“Estou muito feliz por Oslo ter tantos espaços verdes. Quando eu morava em Paris, a falta de parques e árvores realmente afetava meu humor – principalmente durante o inverno. O que é ainda melhor do que os parques de Oslo (alguns deles são muito pequenos e não são realmente um lugar para se passar muito tempo), eu realmente gosto das florestas que cercam Oslo. No verão elas são perfeitas para uma caminhada e no inverno pode-se esquiar. Estar ao ar livre e perto da natureza é muito importante para a minha saúde mental. Não sei se se trata apenas de espaços verdes, acho que também tem muito a ver com a luz do dia (o que pode ser bastante raro aqui em algumas partes do ano). No entanto, estar ao ar livre é muito mais tentador quando você está cercado por espaços verdes do que quando está cercado por prédios e concreto. Com relação ao Parque Frogner, eu não sei se é tão importante para a estrutura urbana de toda a cidade, mas para as pessoas que moram perto dele, provavelmente é bom ter um parque para passear. Acho que também tem uma importância cultural devido ao Parque das Esculturas de Vigeland. Talvez, também por ser uma atração turística, ele acabe liberando alguns dos outros parques para os habitantes de Oslo, pois se tornam menos cheios de turistas. O Parque Frogner, sendo o local das Esculturas de Vigeland, acredito que um dos maiores parques de esculturas (criado por apenas um artista), seu significado cultural é enorme. A maioria dos noruegueses já o visitou em algum momento da vida, e Vigeland é um dos artistas mais famosos da Noruega, então é claro que todo mundo sabe disso. Eu diria que faz parte da Identidade Cultural Norueguesa. Além disso, no entanto, não acho que tenha um significado cultural maior do que qualquer outro parque.” 2-“ As minhas impressões de Oslo são que não se precisa ter um carro para se locomover pela cidade. Basicamente tudo pode ser feito por transporte público, o que é muito bom. Isso é diferente, quando eu comparo com a vida que eu tinha em Minsk. Agora morando em Oslo, eu gosto muito da zona costeira da cidade e as ilhas, que são meus locais favoritos. Com relação aos espaços verdes, os parques são muito bons e tranquilos, quando preciso focar e me manter relaxada”. 3- “Eles (os espaços verdes) ajudam a me deixar relaxado na cidade, além de sociável. Eu também amo árvores, elas são como amigas. E há patos nas lagoas para conversar, e pássaros… Numa cidade grande e densa sem bons espaços abertos, ou onde os únicos espaços “abertos” reais são as autoestradas e as rodovias, sinto-me um pouco sufocado – tão logo já quero sair.” 192 Com relação as mudanças das estações: “O inverno nos espaços verdes também pode ficar muito bonito, branco, se houver neve. Mas o clima está mudando, menos confiável, períodos quentes mesmo no meio do inverno, aquecimento global quase certo… Então, eu gosto mais deles no verão, quando eles são realmente verdes. Ainda assim, é bom passar por eles no inverno também. Nos dias ensolarados de inverno, pode haver muita gente andando, muitas crianças brincando na neve, fazendo tobogã… Os muitos espaços verdes de Oslo são por vezes descritos como “pérolas num fio”, ou seja, a maioria das pessoas tem acesso a um espaço verde muito perto de onde vive. Em contraste com algumas outras cidades, especialmente em países em desenvolvimento, aqui não há como invadir ou permitir o desenvolvimento de construções nas áreas verdes ou nas zonas florestais ao redor de Oslo. Eles estão muito em uso e, em alguns dos espaços verdes, novas atividades, como jardinagem urbana, também estão se tornando populares - parte da onda ambiental, eu acho. Em termos ambientais esses espaços são como sabemos muito importantes tanto para um ar mais limpo, como barreiras sonoras, para um microclima urbano saudável, para a biodiversidade e assim por diante, além de suas funções sociais e de lazer extremamente importantes – para a sustentabilidade da comunidade.” 4- Eu passo por perto do Parque Frogner todos os dias na volta para casa. Eu fico surpresa de ver tantas pessoas frequentando o parque em todas as estações do ano. O inverno tem um pouco menos de gente, mas ainda assim já vi muitas crianças brincando por lá nessa época do ano. No verão há sempre pessoas fazendo piqueniques, grelhando salsichas... Eu acho inclusive que o Parque Frogner é um dos primeiros locais na cidade, em que as pessoas frequentam com mais assiduidade com a chegada da primavera. É um bom lugar para relaxar e curtir o retorno do sol. Também já vi alguns estudantes de ensino médio irem a esse parque para fazer confraternizações e dar início as férias escolares. É bom lembrar que o solstício de verão é uma data bastante comemorada por todo o país, e é marcada pelos dias mais longos do ano. Ainda às 22h pode-se andar pelo parque curtindo a claridade da luz solar. Isso influencia tanto no tempo de permanência das pessoas nas áreas livres da cidade, quanto na quantidade de gente nesses espaços. Também há muitas festas ao ar livre para celebrar o solstício! Faz parte da cultura dos países nórdicos. E as crianças adoram! Muitas meninas costumam colocar uma coroa de flores, colhidas por elas mesmas, encima da cabeça. Muitos adultos combinam encontros ao ar livre com os amigos, para curtir o sol. E a prefeitura organiza inúmeros eventos gratuitos nesses espaços abertos, como teatros, shows... O verão não é o momento em que os noruegueses queiram ficar tanto em casa. 193 Principalmente agora na pandemia, eles não estão viajando muito para passar as férias em países como a Espanha ou Grécia, por exemplo. Isso também influencia na permanência deles dentro do próprio país, viajando para as cabanas (casas de campo das famílias nas montanhas) ou curtindo os espaços públicos das cidades. As esculturas do Parque Frogner são uma atração à parte. Eu fico pensando que o parque é um bom local para se ter esse tipo de exposição artística permanente. Se as esculturas de Vigeland estivessem dentro de um museu, por exemplo, eu acho que não seria a mesma sensação.... Digamos que a natureza projetada neste parque e as esculturas formam um bom conjunto. 5 - “O Parque Frogner tem um lugar único na história artística e cultural da Noruega e é uma espécie de ícone do país. Por isso, faz parte da “identidade” norueguesa. Pode-se lembrar que a Noruega era bastante pobre e rural, e só se tornou um país totalmente independente em 1905; não há tantas relíquias culturais muito antigas espalhadas pela Noruega (as igrejas de madeira, a catedral de Trondheim …) – e o projeto do Parque Frogner foi uma parte importante de uma era de construção da nação. Então, tem muito significado cultural.” 6- “Eu moro em Storo. Tem muitos parques por perto e lugares onde você pode jogar futebol ou levar seus cães para passear. Quando penso no Parque Frogner tenho a sensação de liberdade, leveza, natureza e arte combinadas. É uma sensação boa. O Parque Frogner é um lugar importante para muitas pessoas fugirem da agitada vida urbana. As esculturas também são uma importante atração turística. É um lugar muito grande que oferece uma grande variedade de coisas para fazer. Infelizmente, não vou lá com a frequência que gostaria. A última vez que eu estive nesse parque, foi para mostrar o local para um turista japonês. Mas eu gostaria de ir lá dar uma olhada em todas as esculturas.” 7- “O Parque Frogner é um lindo parque que reúne arte e natureza. Você pode ver famílias, amigos e pessoas lá curtindo a natureza e é um lugar público muito legal. Estive lá várias vezes com várias pessoas ou sozinha. A primeira vez que fui lá estava com meus amigos numa excursão, onde estávamos sendo apresentadosa diferentes locais culturais em Oslo. Depois disso, fiz minha corrida noturna lá algumas vezes, pois era perto de onde morava em Blindern (apenas 5 minutos de metrô). Eu também fui lá algumas vezes com meus amigos só para conversar e passear.” 8- “Eu fui a esse parque algumas vezes, principalmente no verão, com o objetivo de ver as esculturas. Eu acho que é um local muito espaçoso, com 194 muitas áreas para fazer piqueniques e jogar freesbee. Em algumas idas minhas lá, eu sentei no gramado para ler um livro e fazer meu dever de casa da faculdade. Eu também curti tirar fotos de todas as plantas interessantes e flores bonitas que tem lá dentro... Eu também gostei de apenas ficar lá dentro vendo o tempo passar, pintando e observando as outras pessoas! Quando eu penso no Parque Frogner, eu me sinto relaxada. Lembro da sensação do meu pé descalço na grama e dos raios de sol no meu rosto. Eu acho que esse parque tem uma função ecológica na cidade, porque ele oferece espaço para o desenvolvimento das plantas, além de ser o habitat de vários animais. Ele também oferece espaço para fazermos exercício físico, relaxar e passar um tempo com familiares e amigos. Ótimo para piqueniques e pequenas aventuras. O parque também é um local na cidade, onde tem muitos turistas e moradores de Oslo ao mesmo tempo. Isso é diferente quando a gente pensa nos parques menos conhecidos, que só tem pessoas daqui.” Entrevistas realizadas por meio virtuais em 2020. Respostas em inglês, tradução livre da autora. 195 ANEXO 3: TRANSCRIÇÃO, COM TRADUÇÃO LIVRE EM PORTUGUÊS, DA ENTREVISTA REALIZADA COM A URBANISTA NORUEGUESA ELLEN DE VIBE, EM 2020 1- Como foi liderar a agência e lidar com projetos profissionais de longo prazo e as decisões políticas na prefeitura? Resposta: É importante focar nos projetos profissionais de longo prazo e ter uma voz profissional clara internamente na organização da autoridade local, mas também externamente. Ao mesmo tempo, é importante ouvir atentamente os sinais dados pelos nossos órgãos de comissão política (por exemplo, nosso vice-prefeito para o desenvolvimento urbano a quem me reportei diretamente). E para ajudá-los a definir desde cedo uma boa agenda para o debate geral sobre desenvolvimento urbano. Nosso trabalho como administração foi propor desafios e estratégias relevantes para o avanço dos processos políticos, à luz dos objetivos políticos e políticas públicas. 2- Que tipo de mudanças políticas você viu em Oslo durante seus anos de trabalho? E como isso afetou o planejamento urbano e ambiental da cidade? Resposta: Passamos de uma prática de processamento de projetos de construção individuais para focar mais no planejamento da estrutura e nas normas e diretrizes de qualidade. Do foco em edifícios individuais às redes de ruas, espaços públicos e estruturas verdes/azuis. Por exemplo, fizemos planos de estrutura para o Cinturão Verde (Marka) e vários dos 10 rios da cidade. Nos últimos 5-10 anos, a ênfase na adaptação ao clima, tratamento de águas superficiais e emissão de CO2 teve um foco fortemente aumentado. 3- Qual a importância de ter parques públicos disponíveis em Oslo? Como os parques ainda são relevantes? Resposta: Oslo tem uma densidade de cerca de ¼ de Copenhague e 1/10 de Paris e, como tal, é uma cidade bastante verde. A Noruega não tem uma longa história de urbanismo, e nossos habitantes geralmente têm uma relação muito próxima com a natureza. Muitas pessoas anseiam pelo cinturão verde ou vão para suas segundas residências nas montanhas (temos cerca de 450.000 segundas residências!) durante as férias ou folga do trabalho. Assim, os espaços verdes públicos são muito importantes; eles são usados regularmente na vida cotidiana, e estar ao ar livre é típico independente do clima. Por exemplo; as crianças que ficam em creches/berçários durante a semana dormem ao meio-dia em seus carrinhos do lado de fora, mesmo com temperaturas abaixo de 10-15 graus centígrados. - Além disso; quanto mais denso construímos, mais importante se torna o espaço público. Há 11 anos, a Câmara Municipal aprovou um plano de estrutura (Kommunedelplan para torg og møteplasser) que exige 1000m2 de espaço público por 20000m2 de área construída. Este é um requisito que vem além do requisito para espaços comuns/privados dentro de um projeto de desenvolvimento individual (de 0-20% do espaço, dependendo da variação de densidade e tipologias de construção). 4- Como você vê as ideias e esforços de Marius Røhne como o primeiro arquiteto paisagista de destaque na Noruega? Qual é a sua opinião sobre as políticas do sistema de parques durante o século XX? Resposta: Marius Røhne teve um papel excepcionalmente importante na introdução da arquitetura paisagista como profissão nas políticas governamentais federais e locais. Harald 196 Hals (planejador-chefe da cidade no mesmo período) e Røhne influenciaram um ao outro, respectivamente, de maneiras que ainda são legíveis nos planos de estrutura de Oslo (por exemplo, no plano de estrutura do Parque de 1949 e no plano de desenvolvimento Compehensive de hoje). Røhne tinha uma abordagem de design interessante a meio caminho entre o formalismo clássico e o modernismo. Ele também se concentrou em espaços comuns e públicos fora dos parques maiores, como importantes locais de encontro social. Isto foi seguido no plano «KDP torg og møteplass», onde os programas de ação foram desenvolvidos em conjunto com as ONGs locais e os distritos distritais. 5-Qual foi a mudança mais significativa em Oslo após a nomeação da cidade como Capital Verde Europeia 2019? Resposta: Acho que a razão pela qual Oslo foi nomeada Capital Verde Europeia em 2019 foi devido ao que havíamos realizado antes e planejamos realizar após o ano da Capital Verde. Recebemos o prêmio pelo que faríamos de qualquer maneira. A mudança mais notável relacionada a esse prêmio talvez tenha sido que a implementação do programa The Car free Livability Program aconteceu mais rápido do que teria acontecido de outra forma. O CityHive (centro de inovação para a mudança verde destinada a mobilizar ONGs e o público em geral) também foi estabelecido rapidamente antes daquele ano. 6- Há quanto tempo você mora em Oslo (e onde)? Você tem um lugar público favorito na cidade? Se sim, qual e por quê? Resposta: Moramos em Oslo há 22 anos e sempre moramos nas partes centrais da cidade, anteriormente adjacentes ao parque St. Hanshaugen. Atualmente, meu marido e eu moramos no Parque Marienlyst, ao lado da sede da NRK, próximo ao parque linear verde Harald Hals (e Røhne?) em Blindern. Frequentemente usamos o Frognerparken, principalmente para caminhadas rápidas e saudáveis, mas também para caminhadas mais lentas e sessões de brincadeiras com os nossos netos. Acho que meu espaço público favorito é o calçadão do porto (que nossa Agência de Serviços de Planejamento e Construção permitiu a criação) e o banho de mar (Sjøbadet) em Sørenga, que se tornou muito popular tanto para os habitantes quanto para os visitantes da cidade. Eu gosto do lugar porque deu a Oslo uma arena recreativa completamente nova, acessível a todos. E a interface entre o mar e a cidade é importante. No futuro, acho que essa interface e a biologia marinha serão ainda mais importantes. (grifo meu) 7- Como você se sente com a enorme presença de espaços verdes em Oslo? Resposta: Espero que Oslo consiga manter seu caráter verde no futuro, mas as áreas construídas provavelmente se tornarão mais densamente desenvolvidas. 8- Qual a importância do Parque Frogner para a estrutura urbana da cidade? Resposta: A combinação do parque e das esculturas de Vigeland deu ao parque um caráter diferente e marcante que o torna muito popular tanto para os visitantes quanto para o público em geral. O parque também faz parte