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CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA_2022

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
ESCOLA DE ARQUITETURA E URBANISMO 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO 
 
 
 
CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA 
 
 
 
 
Espaços verdes em Oslo, Noruega e Rio de Janeiro, Brasil: a 
relevância socioambiental do Parque Frogner e da Quinta da Boa 
Vista para a paisagem urbana da cidade contemporânea 
 
 
 
 
 
 
 
Niterói 
2022 
 
 
 
CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA 
 
 
 
ESPAÇOS VERDES EM OSLO, NORUEGA E RIO DE 
JANEIRO, BRASIL: A RELEVÂNCIA SOCIOAMBIENTAL 
DO PARQUE FROGNER E DA QUINTA DA BOA VISTA 
PARA A PAISAGEM URBANA DA CIDADE 
CONTEMPORÂNEA 
 
 
 
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação 
em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, 
como requisito para obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura e 
Urbanismo. Linha de Pesquisa: Espaço construído, sustentabilidade e 
ambiente. 
 
ORIENTADORA: 
PROF.ª DR.ª ELOÍSA CARVALHO DE ARAÚJO 
 
 
 
 
 
 
NITERÓI 
2022 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CLARA MARIA SANTOS DE LACERDA 
 
 
ESPAÇOS VERDES EM OSLO, NORUEGA E RIO DE JANEIRO, 
BRASIL: A RELEVÂNCIA SOCIOAMBIENTAL DO PARQUE 
FROGNER E DA QUINTA DA BOA VISTA PARA A PAISAGEM 
URBANA DA CIDADE CONTEMPORÂNEA 
 
 
Dissertação de Mestrado apresentada ao 
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e 
Urbanismo da Universidade Federal 
Fluminense, como requisito para obtenção do 
Grau de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. 
Linha de Pesquisa: Espaço construído, 
sustentabilidade e ambiente. 
 
 
 
Aprovada em 24 de maio de 2022. 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao universo, por me oferecer um determinado tempo 
de vida neste planeta, vivenciando e conhecendo tantas pessoas e lugares significativos. 
Agradeço a minha mãe, pelo exemplo de ser humano que ela é, pelo suporte, pela relação de 
amizade e as histórias que a cada dia construímos juntas. Também sou muito grata aos meus 
amigos que me possibilitam enxergar o mundo por outras perspectivas, dando significado ao 
incompreensível. Agradeço a minha professora orientadora, por ter topado embarcar nesta 
pesquisa, por sua experiência e por me auxiliar a traduzir as minhas inquietações sobre a 
natureza urbana em palavras, conceitos e teorias. Agradeço aos membros da banca, pelo 
aceite e disponibilidade em participar dessa etapa tão importante no meu percurso do 
mestrado acadêmico. Minha gratidão a Glaiane Quinteiro Campos, pela revisão criteriosa das 
normas ABNT desta dissertação. Um muito obrigada também para meu pai e meus demais 
familiares, pelo apoio desde sempre. Manifesto minha gratidão a todas as instituições de 
fomento à pesquisa que investiram no meu progresso pessoal e profissional, por meio da 
concessão de bolsas de estudo, como a International Summer School, Universitetet i Oslo 
(Noruega) e a CAPES -Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 
(Brasil). Também sou grata a todos os meus professores nas escolas por onde passei, na 
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, na Universidade de Oslo e na 
Universidade Federal Fluminense, que de alguma forma me ajudaram a chegar até o momento 
presente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“A vida atravessa tudo, atravessa uma pedra, a camada de ozônio, 
geleiras. A vida vai dos oceanos para a terra firme, atravessa de norte 
a sul, como uma brisa, em todas as direções. A vida é esse 
atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão 
imaterial. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não 
tem uma definição”. 
(Ailton Krenak, 2020, p. 15). 
 
 
RESUMO 
Natureza é um conceito chave para se pensar nas dinâmicas socioespaciais da 
contemporaneidade, tendo em vista que tudo o que existe no mundo se constitui como 
pertencente a ela, inclusive as cidades. As transformações espaciais ocorridas ao longo dos 
séculos, culminando na expansão da lógica urbana pós Revolução Industrial, trouxe um novo 
cenário socioambiental, acarretando em desafios no contexto do bem-estar urbano e da 
resiliência das cidades da atualidade. A partir desse raciocino, a presente pesquisa abordará o 
panorama dos espaços verdes no contexto de planejamento urbano e ambiental de duas 
cidades distintas: Oslo, localizada na Noruega e Rio de Janeiro, no Brasil, dentro de um 
recorte temporal do final do século XIX até o atual século XXI. A questão central diz respeito 
a investigar como os aspectos socioambientais presentes especificamente no Parque Frogner 
(OSL) e na Quinta da Boa Vista (RJ) interferem e se inserem no bem-estar urbano das 
respectivas cidades. Para tanto, o caminho metodológico foi pautado em três categorias 
analíticas, a fim de proporcionar uma maior imersão investigativa na realidade dos fenômenos 
estudados: 1- Sociabilidade, 2- Sustentabilidade e 3- Gestão. A análise da temática da 
natureza urbana se pautou nos campos disciplinares da geografia cultural e arquitetura e 
urbanismo para investigar os aspectos socioambientais dos parques. A investigação buscou 
analisar as conexões entre o campo teórico do urbanismo ecológico e das cidades biofílicas e 
os contextos urbanos de Oslo e do Rio de Janeiro. A partir da análise qualitativa, os dois 
parques públicos foram considerados por meio da pesquisa bibliográfica acerca dos seus 
históricos de formação, além de entrevistas e análise de diferentes fontes investigadas em 
conjunto, visando compreender como as atividades realizadas nos dois contextos empíricos, 
bem como os conjuntos de ações que os preservam são experiências espaciais permeadas de 
significados relevantes para a compreensão das dinâmicas socioambientais da cidade 
contemporânea. Ao final, espera-se contribuir para uma maior conscientização acerca do 
papel dos parques urbanos e públicos como espaços multifuncionais de sociabilidade e 
sustentabilidade, além de inspirar outros estudos sobre a natureza urbana nas cidades, bem 
como trazer novas perspectivas com relação às possibilidades criadas pelos espaços verdes 
para um planejamento urbano e ambiental mais holístico neste século XXI. 
Palavras-chave: Parques públicos; natureza urbana; espaços verdes; paisagem urbana 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
Nature is a key concept to think about the socio-spatial dynamics of contemporaneity, 
considering that everything that exists in the world belongs to it, including cities. The spatial 
transformations that have taken place over the centuries, culminating in the expansion of the 
post-Industrial Revolution urban logic, brought a new socio-environmental scenario, resulting 
in challenges in the context of urban well-being and the resilience of today's cities. Therefore, 
the present research will approach the panorama of green spaces in the context of urban and 
environmental planning of two different cities: Oslo, located in Norway and Rio de Janeiro, in 
Brazil, within a time frame from the end of the 19th century until the current 21st century. 
The central question concerns the investigation of how the socio-environmental aspects 
located specifically in Parque Frogner (OSL) and Quinta da Boa Vista (RJ) interfere in the 
urban well-being of these respective cities. Hence, the methodological pathway of this 
research was based on three analytical categories, in order to provide a greater investigative 
immersion in the reality of the phenomena studied: 1) Sociability, aiming to understand how 
the activities carried out in the two empirical contexts are spatial experiences permeated with 
relevant meanings for the understanding of the socioenvironmental dynamics of the 
contemporary city; 2) Sustainability, seeking to analyse the potential for connectivity between 
these parks and other green spaces in their cities, in addition to understanding the sets of 
actions that preserve them; 3) Management, with the objective of identifyinghow these parks 
are managed by their municipalities and how the image of urban nature is conveyed in official 
media discourses. The analysis was based on the study area of cultural geography and 
urbanism on the theme of urban nature, to investigate the socio-environmental aspects of the 
parks. The investigation sought to analyse the connections between the theoretical field of 
ecological urbanism and biophilic cities and the urban contexts of Oslo and Rio de Janeiro. 
From the qualitative analysis, the two public parks were considered through bibliographic 
research about their histories, in addition to interviews and analysis of different sources 
investigated together. In the end, it is expected to contribute to a greater awareness of the role 
of urban and public parks as multifunctional spaces of sociability and sustainability, in 
addition to inspiring other studies on urban nature in cities, as well as bringing new 
perspectives regarding the possibilities created by green spaces for more holistic urban and 
environmental planning in this 21st century. 
Keywords: Public parks; urban nature; sociability; green spaces, urban landscape 
 
 
Sumário 
 
INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 16 
OBJETIVOS DA PESQUISA ........................................................................................................... 21 
ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS ................................................................................................... 22 
CAPÍTULO 1: CAMINHO METODOLÓGICO .................................................................................. 23 
ETAPAS DA PESQUISA ................................................................................................................. 27 
ENTREVISTAS ................................................................................................................................ 29 
CAPÍTULO 2- A INTERDISCIPLINARIDADE DAS RELAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS ............. 31 
2.1 ARQUITETURA DA PAISAGEM E ESPAÇO URBANO: ALGUMAS DINÂMICAS E 
ATORES ........................................................................................................................................... 33 
2.2 UMA COMPREENSÃO GEOGRÁFICA DA ECOLOGIA NO SÉCULO XX ........................ 42 
2.3 ABRINDO ESPAÇO PARA A NATUREZA NA CIDADE CONTEMPORÂNEA ................. 48 
2.3.1 Natureza urbana .................................................................................................................... 54 
2.3.2 Cidades biofílicas: o lugar da natureza urbana no imaginário urbano emergente ................ 62 
CAPÍTULO 3: UMA VISÃO SOCIOCULTURAL DA NATUREZA URBANA EM OSLO, 
NORUEGA E RIO DE JANEIRO, BRASIL ........................................................................................ 68 
3.1 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DE OSLO ............................................. 69 
 3.2 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DO RIO DE JANEIRO, BRASIL ....... 82 
3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO E A IMAGEM DA NATUREZA URBANA EM 
OSLO E NO RIO DE JANEIRO ...................................................................................................... 94 
CAPÍTULO 4: CONTEXTOS EMPÍRICOS – A CONTEMPORANEIDADE DO PARQUE 
PÚBLICO ............................................................................................................................................ 107 
 4.1 PARQUE FROGNER ................................................................................................................ 107 
4.1.1 A paisagem e as vivências .................................................................................................. 116 
4.1.2 Aspectos da gestão ............................................................................................................. 122 
4.2 QUINTA DA BOA VISTA ....................................................................................................... 126 
4.2.1 Um jardim e muitas histórias ............................................................................................. 137 
4.2.2 Aspectos da gestão ............................................................................................................. 148 
4.3 A RELEVÂNCIA DOS DOIS PARQUES NO AMBIENTE URBANO CONTEMPORÂNEO
 ......................................................................................................................................................... 152 
4.3.1 Abordagens da sustentabilidade e gerenciamento dos parques .......................................... 159 
4.3.2 Natureza urbana e bem-estar .............................................................................................. 169 
CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................................. 174 
OBRAS CITADAS ............................................................................................................................. 180 
OBRAS CONSULTADAS ................................................................................................................. 187 
ANEXOS............................................................................................................................................. 190 
 
 
ANEXO 1: MODELO DOS EIXOS TEMÁTICOS UTILIZADOS NAS ENTREVISTAS COM 
FREQUENTADORES DOS PARQUES ........................................................................................ 190 
ANEXO 2: SÍNTESE DAS RESPOSTAS DAS ENTREVISTAS COM 8 FREQUENTADORES 
DO PARQUE FROGNER .............................................................................................................. 191 
ANEXO 3: TRANSCRIÇÃO, COM TRADUÇÃO LIVRE EM PORTUGUÊS, DA ENTREVISTA 
REALIZADA COM A URBANISTA NORUEGUESA ELLEN DE VIBE, EM 2020 ................. 195 
ANEXO 4: SÍNTESE DAS RESPOSTAS DAS ENTREVISTAS COM 8 FREQUENTADORES 
DA QUINTA DA BOA VISTA ...................................................................................................... 197 
ANEXO 5: TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA REALIZADA EM 2022, COM A EX 
FUNCIONÁRIA DA PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, JEANNE ALMEIDA DA 
TRINDADE .................................................................................................................................... 201 
ANEXO 6: NOTA DA FUNDAÇÃO PARQUES E JARDINS NA ÍNTEGRA, SOBRE O 
VAZAMENTO DE ÓLEO NOS LAGOS EM 2020 ...................................................................... 204 
 
 
 
Lista de figuras 
Figura 1: Desdobramento dos componentes de análise e das categorias utilizadas..................24 
Figura 2: Extensão do alcance da pesquisa. .............................................................................25 
Figura 3: Vista aérea do Central Park atual, Civitatis- Nova Iorque........................................35 
Figura 4: Mapa atual do Emerald Necklace- Boston EUA......................................................36 
Figura 5: Esquema das cidades-jardins desenhado por Ebenezer Howard em 1902................38 
Figura6:RamsayGarden............................................................................................................40 
Figura 7: Práticas urbanas aliadas a ecologia urbana e ao pensamento sistêmico....................54 
Figura 8: Red Ribbon Park, Qinhuangdao , China. .................................................................58 
Figura 9: Mulher admirando as flores no Red Ribbon Park, Qinhuangdao -China..................58 
Figura 10: Drenagem urbana sustentável e cobertura vegetal no Cheonggyecheon, Seul.......60 
Figura 11: Festival das lanternas no Cheonggyecheon, Seul. .................................................60 
Figura 12: Parque ambiental Professor Mello Barreto, Barra da Tijuca-RJ ............................61 
Figura 13: Vegetação no Parque ambiental Professor Mello Barreto- Barra daTijuca-RJ. ....61 
Figura 14: Exemplos de biofilia na cidade do Rio de Janeiro e Niterói- Brasil. .....................66 
Figura 15: Exemplos de biofilia (verão-2019) em Oslo, na Noruega.......................................67 
Figura16:Slottsparken ..............................................................................................................73 
 
 
Figura 17: Mapeamento da Oslomarka realizado pela Associação Norueguesa de Turismo 
(Den Norske Turistforening- DNT)..........................................................................................80 
Figura 18: Nordmarka e lago Sognsvann................................................................................. 80 
Figura 19: Jardim botânico do Rio de Janeiro. ........................................................................84 
Figura 20: Mapa Turístico da Floresta da Tijuca, distribuído no Centro de Visitantes do 
Parque........................................................................................................................................89 
Figura 21: Floresta da Tijuca....................................................................................................89 
Figura 22: Divulgação do programa Adote.Rio....................................................................... 92 
Figura 23: O azul, o verde e a cidade no meio- mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-
IT Oslo......................................................................................................................................98 
Figura 24: Park life- mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-IT Oslo. .........................99 
Figura 25: Revistinha do Zé Carioca e Cartaz do filme Rio (2011).......................................101 
Figura 26: Grafite sobre a Floresta da Tijuca- Gloye............................................................ 104 
Figura 27: Parque Vigeland....................................................................................................108 
Figura 28: Mapeamento da área de cobertura vegetal em Oslo com destaque em vermelho 
para os bairros de Frogner e Sentrum.................................................................................... 109 
Figura 29: Localização do Parque Frogner no contexto do bairro e áreas vizinhas. .............110 
Figura 30: Identificação dos mosaicos internos do Parque Frogner, destacado em laranja...110 
Figura 31: O Parque Frogner no inverno. ..............................................................................111 
Figura 32: O parque Frogner no verão. ..................................................................................112 
Figura 33: Mapa de localização e Entrada lateral do Parque. ................................................112 
Figura 34: Entrada da piscina pública Frognerbadet. ………................................................113 
Figura 35: Norwegian Wood Festival. ..................................................................................113 
Figura 36: Gramado e o Museu da cidade (Bymuseet) ao fundo...........................................114 
Figura 37: Cafeteria. ..............................................................................................................115 
Figura 38: Texto aos fundos da cafeteria do Parque, sobre os grupos étnicos presentes em 
Oslo. ......................................................................................................................................115 
Figura 39: Aspectos da vegetação do Parque Frogner. ..........................................................117 
Figura 40: O parque durante o outono....................................................................................120 
Figura 41: Família realizando um piquenique no gramado e homem passeando com cachorro -
Parque Frogner. ......................................................................................................................121 
Figura 42: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 1,. ...............................................124 
 
 
Figura 43: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 2. ................................................125 
Figura 44: A transição para do outono no Frognerparken. ....................................................125 
Figura 45 : Passeios na Quinta da Boa Vista (1911).. ...........................................................127 
Figura 46: Lago da Quinta da Boa Vista e rochas construídas utilizando a técnica do 
roccaille...................................................................................................................................128 
Figura 47: Projeto para os jardins da Quinta da Boa Vista atribuído à Glaziou. ...................128 
Figura 48: Vista aérea da Quinta da Boa Vista-......................................................................129 
Figura 49: Piquenique na Quinta da Boa Vista...................................................................... 133 
Figura 50: Museu Nacional antes do incêndio........................................................................133 
Figura 51: Jardim Burle Marx. ...............................................................................................135 
Figura 52: Entrada do Bio Parque do Rio. .............................................................................135 
Figura 53: Visitação escolar ao Bio Parque................................ ...........................................135 
Figura 54: Mosaicos espaciais da Quinta da Boa Vista. ........................................................136 
Figura 55: Quinta da Boa Vista. .............................................................................................137 
Figura 56: Lago da Quinta da Boa Vista. ...............................................................................139 
Figura 57: Entrada principal da Quinta da Boa Vista............................................................ 139 
Figura 58: Caminhos da Quinta da Boa Vista. ......................................................................142 
Figura 59: Lago- Quinta da Boa Vista. .................................................................................143 
Figura 60: Bioparque na Quinta da Boa Vista. ......................................................................144 
Figura 61: Bioparque do Rio sobre o Rolé carioca na Quinta da Boa Vista. ........................145 
Figura 62: Propaganda da visitação a Quinta da Boa Vista. ..................................................146 
Figura 63: Postagem após o encontro presencial na Quinta Da Boa Vista-...........................147 
Figura 64: Feira vegana Veg Borá, realizada na Quinta da Boa Vista. .................................147 
Figura 65: A gestão da imagem da Quinta da Boa Vista no perfil turístico da cidade...........150 
Figura 66: Apartheid verde.....................................................................................................154 
Figura 67: Esquema sobre a relação entre os objetivos específicos e os questionamentos da 
pesquisa...................................................................................................................................156 
Figura 68: Foto dos Desgastes no gramado da Quinta da Boa Vista......................................164 
Figura 69: Evelangs Frognerelven, evento cultural de música e dança ao longo rio, com 
alunos das escolas Majorstuen, Skøyen e Uranienborg..........................................................167 
 
 
Figura 70: Castor nadando no seu novo habitat, o Rio Frogner.............................................167 
Figura 71: Nuvem de palavras sobre o Parque Frogner..........................................................170 
Figura 72: Nuvem de palavras sobre a Quinta da Boa Vista..................................................171 
 
Tabelas e Quadros 
 
Tabela 1: Autores clássicos considerados no referencial teórico da pesquisa.........................28 
Tabela 2: Bases de dados e informações obtidas. ....................................................................29 
Tabela 3: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana 
emOslo......................................................................................................................................79 
Tabela 4: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana 
noRiodeJaneiro......................................................................................................................... 94 
Tabela 5: Panorama das respostas obtidas por diferentes fontes de pesquisa sobre a 
sociabilidade, sustentabilidade e gestão do Parque Frogner (OSL) e da Quinta da Boa Vista 
.................................................................................................................................................157 
Tabela 6: Aspectos da sustentabilidade nos contextos empíricos da pesquisa. 
.................................................................................................................................................161 
 
Lista de Siglas 
 
AMASC- Associação de Moradores e Amigos de São Cristóvão 
C.E- Comissão Europeia 
CONLURB- Companhia Municipal de Limpeza Urbana 
DNT- Den Norske Turistforening- Associação Norueguesa de Turismo 
FPJ- Fundação Parques e Jardins 
IBEU- Índice de Bem-Estar Urbano 
IBGE -Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 
IPHAN- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 
ISS- International Summer School 
JBRJ- Jardim Botânico do Rio de Janeiro 
MAM- Museu de Arte Moderna 
 
 
MMA Ministério do Meio Ambiente 
MMA-Ministério do Meio Ambiente 
NIMA-Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente 
OMS- Organização Mundial da Saúde 
ONU - Organização das Nações Unidas (UN - United Nations) 
OSL- Oslo 
PDA- Plano diretor de arborização 
PDDU- Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano 
PDM- Plano diretor municipal 
PUC-Rio- Pontifícia Universidade Católica do Rio de janeiro 
RJ - Rio de Janeiro 
SBN- Soluções baseadas na natureza 
SMAC- Secretária de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro 
SNL- Store norske leksikon- Grande Enciclopédia Norueguesa 
UFF- Universidade Federal Fluninense 
UFRJ- Universidade Federal Do Rio de Janeiro 
UiO- Universitetet i Oslo 
UNESCO- Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (The 
United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) 
WHO- World Health Organization 
ZEE- Zoneamento ecológico econômico 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
“O conhecimento é o que nos liberta: o conhecimento é o que nos permite sair mesmo 
nas situações mais desafiadoras” (BÍSSO, 2021, informação verbal)1. Esta afirmação, em 
palestra pública e online, proferida pela pesquisadora Beatriz Bísso, nos faz refletir acerca do 
lugar do conhecimento na nossa sociedade e sobre o quão importante é aprender e dialogar 
com indivíduos tanto de diferentes campos do saber, quanto de culturas distintas. O ato de 
conhecer e refletir criticamente através do recurso da razão, é o que nos faz humanos e usar 
esse conhecimento para a promoção de uma vida mais plena e próspera é uma questão ética. 
De acordo com Paulo Freire (1996, p. 18), a criatividade existe em conjunto com a 
curiosidade, e é ela que nos “põe pacientemente impacientes diante do mundo que não 
fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos”. Por isso, a curiosidade que impulsiona o 
conhecimento é capaz de nos fazer enxergar a nossa realidade, tendo a potencialidade de 
trazer soluções e novos desafios para questões inerentes ao período histórico no qual estamos 
inseridos. Neste contexto, no ano de 2016, ingressei no estágio voluntário no NIMA (Núcleo 
Interdisciplinar de Meio Ambiente da PUC-Rio), no qual pude trabalhar em conjunto com 
alunos e professores para reformular a Agenda Ambiental da universidade, no quesito de 
espaços de convivência e mobilidade dentro do campus2. 
No ano de 2018, obtive o grau de bacharelado em Geografia na Pontifícia 
Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde defendi a pesquisa sobre a morfologia e a 
simbologia do Campo de São Bento, um parque urbano localizado em Niterói-RJ. A pesquisa 
versou sobre a identidade deste parque como um lugar significativo da cidade, levando em 
consideração conceitos como lugar e espaço público, bem como sua importância histórica 
para o bairro de Icaraí. Além disso, por meio de entrevistas e trabalhos de campo, foi possível 
desenhar três croquis simbólicos com informações sobre o Campo de São Bento, com o 
intuito de divulgação do conhecimento acadêmico para a sociedade3. Neste sentido, conhecer 
e aprender mais sobre esse espaço verde me fez perceber ainda mais a relevância da natureza 
urbana para as cidades, num momento no qual a expansão urbana, por vezes, tende a 
substituir esses locais por construções padronizadas no concreto. 
 
1 Bandung e os não alinhados: Palestra proferida pela professora Beatriz Bíssio (UFRJ) no curso de Atualização 
em estudos asiáticos da coordenadoria de Estudos da Ásia da UFF/UFPE. Disponível em: 
<https://www.youtube.com/watch?v=mjtJYbUFVeg>. Acesso em: 13 maio 2021. 
2 O campus da PUC-Rio, na Gávea, é reconhecido por sua intensa cobertura vegetal da Mata Atlântica, 
oferecendo espaços verdes, como o bosque, à comunidade acadêmica, que usufrui para relaxar, estudar e 
conversar com colegas, sendo um importante espaço social na rotina acadêmica. 
3 Para mais informações consulte: https://clarathegeographer28.wordpress.com/campo-de-sao-bento-croquis/. 
17 
 
 
 
Logo um ano depois, eu tive a oportunidade de participar do curso de verão sobre 
Energia, Meio Ambiente e Mudança Social, oferecido pela International Summer School da 
Universidade de Oslo, na Noruega. Em conjunto com outros estudantes de países e campos de 
estudo distintos, dialogamos sobre as relações entre o ser humano e a natureza, sobre técnicas 
para um consumo energético mais eficiente e sobre infraestrutura verde e azul nas cidades 
pelo mundo. No contexto específico norueguês, viajamos em trabalho de campo por diversas 
regiões do país (cidades e vilarejos nas duas grandes áreas geográficas: Vestlandet e 
Østlandet), para conhecer um pouco mais sobre o passado e a contemporaneidade das 
políticas públicas e do desenvolvimento da Noruega. Porém, o principal questionamento que 
baseava os nossos debates, era justamente o desenvolvimento, sendo algo visto de maneiras 
diferentes de acordo com cada país ali representado. Apesar de estarmos em um curso em 
conjunto, numa realidade global que se pressupunha cada vez mais padronizada por relações 
capitalistas e rígidas, as especificidades sociais, culturais, econômicas e ambientais se 
sobrepunham, mostrando suas influências nas práticas urbanas. 
Tendo esses debates como base, ao retornar ao Brasil, me interessei por conhecer as 
dinâmicas socioespaciais na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente no que tange aos 
espaços verdes urbanos. Dessa forma, fiz minha inscrição no mestrado da Escola de 
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, pois pensei que o diálogo com 
professores e demais colegas seria de grande relevância para a minha reflexão sobre as 
questões socioambientais pelo víeis da prática urbana (tendo em vista que Arquitetura e 
Urbanismo está no campo das Ciências Sociais Aplicadas). Eu penso que o mestrado me 
possibilitou enxergar o espaço urbano por uma outra perspectiva, com relação a práxis das 
dinâmicas de planejamento urbano e ambiental, o que complementa a ótica geográfica mais 
teórica (minha formação original). 
Neste sentido, o caso particular da Quinta da Boa Vista, me chamou a atenção, devido 
a sua mudança estrutural e social nobairro de São Cristóvão, ao longo dos séculos XIX-XX. 
Por exemplo, o século XIX foi o momento da estruturação do Brasil como nação, no qual 
ocorreram profundas transformações para atender à família real e as novas demandas sociais. 
No período, o Rio de Janeiro passou por uma reestruturação para desempenhar suas novas 
funções simbólicas e administrativas e a área onde se localiza a Quinta era essencialmente 
relacionada à aristocracia (MACEDO; SAKATA, 2002). Já no século XX, o espaço do bairro 
de São Cristóvão se tornou o local da classe operária e os jardins da Quinta da Boa Vista se 
adequaram à função de parque público, sendo um importante espaço verde no meio urbano. 
18 
 
 
 
Em paralelo, inspirada pelas experiências na Noruega, acredito que investigar sobre o 
processo de urbanização da cidade de Oslo, nos séculos XIX- XX, em especial sobre o bairro 
Frogner, onde se situa o Parque Frogner, como parte de um histórico de políticas públicas que 
se propunham a integrar os espaços verdes à paisagem urbana no século XX, seja relevante 
para uma análise paralela à realidade socioespacial do contexto carioca. Na Noruega, esse 
recorte temporal também é importante por causa do advento do romantismo e dos 
movimentos nacionalistas. Foi um período no qual o país estava em processo de libertação da 
união com a Dinamarca (1814) e, posteriormente, a Suécia (1905). Neste sentido, as florestas 
e os parques urbanos passaram a simbolizar o pertencimento social da nação que se formava. 
Tanto os intelectuais, quanto a classe operária enxergavam os espaços verdes como parte da 
identidade nacional norueguesa (SYSE, 2016, p. 47). 
De acordo com Brøgger (2016), o Frogner é um parque único na Noruega. Ele não 
somente está conectado à história do bairro de mesmo nome, remontando às origens agrárias 
medievais até o seu posterior desenvolvimento como propriedade burguesa, mas também está 
intimamente ligado à história social de Oslo e às ideias do século XX de planejamento 
urbano, paisagismo, sociabilidade e cultura popular (BRØGGER, 2016, p. 71). Ainda de 
acordo com este autor, o parque possui bastante biodiversidade e este é o principal fator pelo 
qual esse espaço verde é relevante, particularmente, para ele (BRØGGER, 2016, p. 71). 
As origens do parque Frogner e da Quinta da Boa Vista são distintas; na qual o 
primeiro foi projetado nos anos de 1920, e não exerceu a função de residência da realeza, e o 
segundo teve suas áreas ajardinadas em 1869 e era a residência da família imperial. Porém, 
ambos possuem um valor paisagístico relacionado ao processo de formação da identidade 
nacional. Além disso, tanto a Quinta da Boa Vista, quanto o parque Frogner passaram por 
mudanças funcionais e organizacionais, dentro de uma perspectiva do sistema urbano, que 
permitiram a um maior acesso da população aos espaços verdes no século XX. Os dois 
parques se localizam em bairros com diferentes tipos de integração via transporte público, e 
oferecem um lugar de sociabilidade em suas respectivas cidades. 
 Os dois parques possuem uma forma artística distinta, pois foram pensados sob 
contextos diferentes. A área onde se ocupa a Quinta da Boa Vista era parte de uma fazenda 
dos jesuítas, sendo posteriormente passada para proprietários privados. Antes da família real 
chegar ao Brasil, havia no local apenas um casarão do qual se tinha uma vista para a Baía de 
Guanabara. Apenas em 1868, já como posse da família imperial, os jardins da Quinta da Boa 
Vista, foram projetados à mando de D. Pedro II por Auguste François-Marie Glaziou, feitos 
19 
 
 
 
com a técnica dos rocailles, vinda da França e típica dos jardins paisagísticos do século XVIII 
ao XIX. Nela, eram usados materiais de construção que pretendiam imitar os elementos da 
natureza, como as rochas (TRINDADE, 2014, p. 63). 
É interessante observar que Glaziou realizou uma intensa pesquisa botânica sobre as 
espécies nativas brasileiras, a fim de utilizá-las nos jardins que estava em processo de 
construir. Esse fato tem a potencialidade de exercer influência para a área da Quinta da Boa 
Vista até a contemporaneidade, no que diz respeito à biodiversidade presente no parque. Além 
disso, Glaziou tinha a intenção de projetar uma outra natureza4 no espaço dos jardins, de 
modo a promover o deleite da família imperial. No romantismo brasileiro, essa natureza 
tropical recriada e idealizada, significava os ideais nacionais, onde a força motriz da nação em 
processo de libertação eram as suas riquezas naturais. 
Durante o reinado de D. Pedro II, a área total do parque manteve-se praticamente 
inalterada. Entretanto, com a chegada do século XX, o perímetro de extensão foi-se 
reduzindo, pois partes do terreno foram sendo cedidas ao governo republicano para outros fins 
(FERREIRA; MARTINS, 2000). O alargamento da via férrea e a abertura de rodovias fazem 
parte dessas modificações, o que foi progressivamente descaracterizando a morfologia que o 
parque possuía durante o império de D. Pedro II, principalmente na parte sul do parque, no 
qual foi aberta a via férrea, e na parte norte, desde o portão monumental da alameda até o 
portão que dá para o largo da Cancela. Estas intervenções deixaram uma boa parte da área 
original de fora dos limites morfológicos atuais (FERREIRA; MARTINS, 2000). 
De outro ponto, o Parque Frogner era uma área agricultável durante a Idade Média, na 
qual o nome Frogner, significava fértil, se referindo a fertilidade da terra para as plantações. 
Com o advento da burguesia nos séculos XVIII-XIX, o local onde hoje se situa o parque 
também foi uma mansão agrícola, que pertencia a um proprietário particular. Em 1896, a 
prefeitura comprou a propriedade no contexto de expansão urbana da cidade, e em 1900 foi 
implementado um parque público para as pessoas. Em 1924, o escultor norueguês Gustav 
Vigeland projetou o seu próprio espaço em formato neoclássico dentro do parque, e em 1930 
o local ficou conhecido como “parque Vigeland”, composto por suas esculturas com figuras 
humanas expressando diversos sentimentos e que se conectam aos movimentos nacionalistas 
da Noruega5. As ideias de Vigeland foram intensamente criticadas por intelectuais e 
 
4 Simbólica. 
5 A escultura era uma forma artística valorizada para constituir as bases culturais da nação norueguesa em 
formação. 
20 
 
 
 
planejadores urbanos da época, como Marius Røhne, chefe encarregado de planejar as áreas 
verdes da cidade de 1916 até 1948 (JØRGENSEN, 2018). 
Cabe observar que para Røhne, o parque Frogner não deveria ser gerenciado sob uma 
perspectiva individualista e fragmentada, como previa Gustav Vigeland. Marius Røhne 
acreditava que aquele era um lugar na cidade para a garantia da conexão entre a área das 
florestas e dos parques urbanos a partir de um sistema de corredores verdes integrados. Sob 
sua liderança, o planejamento urbano e ambiental da cidade gradualmente assumiu uma 
abordagem mais sistemática, no qual ele se preocupou com Oslo como um todo: desenvolveu 
áreas de parque nas partes leste e mais pobres, ao longo do rio Akerselva, transformando a 
cidade em um lugar onde o planejamento possibilitava os espaços verdes para o público 
dentro e ao redor das áreas residenciais, sem distinção de classes sociais. Essa ‘cultura de 
parques’, pretendia nutrir o sentimento de que as pessoas eram pertencentes à paisagem 
urbana e dessa forma também cuidassem da natureza local (JØRGENSEN, 1997). Sendo 
assim, foram retiradas todas as cercas ao redor das áreas verdes, mantendo um alto padrão de 
manutenção (JØRGENSEN, 1997). 
Atualmente, o parque Frogner é o maior espaço verde nas partes centrais de Oslo e 
possui uma popular área de lazer para a população, contando com inúmeros locais para a 
caminhada e práticas esportivas, além de um museu. Além disso, o parque, assim como a 
Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, se localiza próximo a um importante estádio de 
Futebole a vias de transporte público integradas como metrôs e pontos de ônibus. Outra 
característica em comum entre os dois parques diz respeito a proximidade com as florestas 
urbanas presentes nas duas cidades: enquanto o parque Frogner está geograficamente em 
conexão com a Oslomarka, a Quinta da Boa Vista também se encontra em proximidade com a 
Floresta da Tijuca. Esse fator é potencialmente benéfico para possíveis integrações futuras no 
planejamento urbano dos espaços verdes nas duas cidades. 
 
 
 
 
 
 
 
21 
 
 
 
 OBJETIVOS DA PESQUISA 
 
Diante do exposto acima, durante as etapas de pesquisa, investiguei como a natureza 
urbana, em especial os dois contextos empíricos aqui abordados, são áreas relevantes para a 
rede urbana, possibilitando novas interpretações para o cotidiano de ambas as realidades 
urbanas estudadas. O objetivo geral da pesquisa diz respeito a investigar como os aspectos 
socioambientais presentes no Parque Frogner e na Quinta da Boa Vista interferem no 
bem-estar de suas respectivas cidades. 
A pesquisa engloba cinco objetivos específicos, que pretendem promover uma imersão 
profunda, através da pesquisa bibliográfica acerca dos contextos empíricos, entrevistas e 
análise de diferentes fontes que possam ser interpoladas: 
1. Realizar um levantamento bibliográfico sobre a temática socioambiental e as 
políticas dos espaços verdes nas cidades estudadas (recorte temporal séculos XIX-
XXI); 
2. Analisar como os dois parques se integram à paisagem urbana na concepção da 
sustentabilidade; 
3. Investigar o papel dos dois parques como espaços de sociabilidade, 
promovendo o acesso à natureza urbana; 
4. Verificar como a atual gestão administra esses espaços e contribui (ou não) 
para seu aprimoramento; 
5. Avaliar a potencialidade dos parques na promoção do bem-estar na cidade de 
Oslo e no Rio de Janeiro. 
 
 
Nesta pesquisa, a abordagem do bem-estar urbano considera: 
• Os aspectos multifuncionais dos parques; 
• Atividades sociais realizadas dentro dos parques; 
• Acesso à natureza urbana. 
• Biodiversidade da fauna e flora; 
• Conectividade a outros espaços verdes na rede urbana. 
 
 
 
 
 
 
22 
 
 
 
 ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS 
 
Dentro deste quadro reflexivo, o capítulo 1 pretende demonstrar a metodologia 
utilizada durante as etapas investigativas, trazendo informações sobre a extensão do alcance 
da pesquisa, os esquemas argumentativos, as relações de semelhança e dissemelhança entre os 
casos, bem como os instrumentos utilizados para a análise dos dois contextos empíricos. 
Neste capítulo também serão apresentadas as bases de dados (abordagem perceptiva, 
reflexiva, acadêmica e institucional) acessadas para coleta bibliográfica e imagética. Além 
disso, serão apresentados os eixos temáticos utilizados com os entrevistados com relação ao 
contexto norueguês e brasileiro, bem como o perfil dos relatos obtidos. 
Para explicar e delimitar a visão de mundo à qual dá suporte à investigação aqui 
realizada, no capítulo 2, foram discutidos os questionamentos mais gerais, relacionados a 
natureza e a cidade, abordando as concepções dos jardins e parques públicos dentro da 
perspectiva dos debates ecológicos, num recorte histórico que pretende situar o leitor com 
relação ao desenvolvimento de uma natureza urbana, influenciando o planejamento urbano e 
ambiental contemporâneo. 
O capítulo 3 aborda o espaço urbano de Oslo e do Rio de Janeiro, apresentando o 
cenário socioespacial dessas duas cidades e os principais processos de planejamento de 
espaços verdes que impactaram os dois parques urbanos aqui analisados, dos séculos XIX ao 
XXI. Além disso, foi considerada também a forma pela qual a natureza se insere na paisagem 
urbana. Neste capítulo, foram investigados os aspectos socioculturais relacionados à 
morfologia e ao histórico de formação dos parques e florestas no imaginário coletivo, bem 
como a atual imagem da natureza urbana propagada pela mídia e pelos órgãos de gestão 
dessas duas realidades urbanas. Outro ponto destacado nesse capítulo, diz respeito às 
justificativas dessa pesquisa acadêmica, identificando os fatores que me fizeram iniciar no 
mestrado e as minhas inquietações sobre Oslo e o Rio de Janeiro. 
O capítulo 4 corresponde a análise dos contextos empíricos do Parque Frogner e da 
Quinta da Boa Vista. Neste capítulo as entrevistas, no formato de relatos, foram apresentadas 
e examinadas, bem como as demais fontes de pesquisa que contribuem para revelar a 
importância dos parques públicos como ambientes relevantes de natureza urbana para as 
cidades contemporâneas. A partir das três categorias de análise 1) sustentabilidade, 2) 
sociabilidade e 3) gestão, se buscou contemplar os vários aspectos que tornam os contextos 
empíricos espaços socioambientais essenciais sob a perspectiva do bem-estar e da biofilia. 
23 
 
 
 
 CAPÍTULO 1: CAMINHO METODOLÓGICO 
 
Segundo Cardano (2017), a pergunta a partir da qual se move o estudo sugere o 
contexto empírico no qual se admite poder obter uma resposta pertinente. Ele diz que o 
contexto empírico é o lugar no qual o observador (pesquisador) pode fazer a experiência mais 
coerente com os objetivos da pesquisa (CARDANO, 2017, p. 65-66). Esse lugar não é o 
objeto da pesquisa, mas sim toda a comunidade interpretativa da qual o pesquisador faz parte, 
somado ao objeto de pesquisa que trará novas perspectivas ao questionamento da 
investigação, a partir de um referencial teórico. Dentro da temática cidade e natureza 
urbana, o objeto de estudo parque urbano possibilita uma análise em profundidade por 
meio dos contextos empíricos: Parque Frogner e Quinta da Boa Vista. 
A pesquisa aqui realizada é qualitativa e explicativa, pretendendo descrever a 
complexidade dos casos concretos e explicar o porquê dos fenômenos e dos processos, 
sugerindo algum tipo de ação propositiva, onde pode-se adquirir conhecimento a partir da 
exploração intensa de um único ou mais casos (contextos). De acordo com Mason (2002), 
nesse tipo de exploração científica a análise holística também se faz necessária, pois ela 
considera a unidade social estudada como um todo, com o objetivo de compreende-los em 
seus próprios termos. Além disso, a autora enfatiza que a pesquisa qualitativa deve produzir 
explicações ou argumentos indo além da mera descrição dos fatos estudados (MASON, 2002, 
p. 7). 
Para tanto, como pressuposto teórico metodológico, os dois parques urbanos aqui 
estudados, ilustram formas de experiência com a natureza urbana dentro de duas cidades 
distintas. Nesta pesquisa, ambos os termos natureza urbana e espaços verdes são usados 
para designar as áreas com presença de espécies vegetais num contexto urbano. Ao longo dos 
procedimentos investigativos, pretende-se destacar como justamente esses locais são 
multifuncionais, representando espaços que participam das dinâmicas socioambientais na 
paisagem urbana. A seleção dos recortes geográficos, Oslo e Rio de Janeiro, seguiu quatro 
critérios de seleção: densidade populacional, histórico sociocultural, elementos climáticos e 
geográficos; e políticas de planejamento urbano e ambiental. Esses critérios correspondem 
justamente às principais diferenças entre os dois contextos escolhidos. Optou-se por trabalhar 
com o que Cardano (2017) chama de comparação dos casos mais distantes. 
A hipótese da pesquisa é a de que os dois parques são unidos por uma sólida imagem 
na narrativa urbana, mas são separados por profundas diferenças relativas aos contextos 
24 
 
 
 
socioculturais, econômicos e ambientais onde estão inseridos. A passagem da pergunta de 
partida a partir da qual se move a pesquisa em direção ao contexto empírico é mediada por 
uma escolha estratégica, que se refere aos estudos de caso escolhidos para a pesquisa. Tanto o 
Parque Frogner, em Oslo, quanto a Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, tem a 
potencialidade de fornecer respostaseloquentes à questão principal, procurando chegar ao 
alcance da pesquisa: de que forma os parques são relevantes em diferentes contextos 
urbanos? 
O embasamento teórico da pesquisa e a sustentação empírica utilizada foi o que 
Cardano chamou a Teoria da Argumentação, com a qual é possível construir uma moldura 
teórica, sustentando a legitimidade dos resultados de pesquisa. Analisar os dois parques a 
partir de componentes de análise verificativa como a sociabilidade, a sustentabilidade e a 
gestão, conectam a extensão da pesquisa aos objetivos geral e específicos estipulados, 
averiguando suas conexões às temáticas das cidades biofílicas e do urbanismo ecológico. 
Dessa maneira, a investigação demostra seu desdobramento, seguindo uma dupla trajetória 
dedutiva e indutiva, na qual a representatividade dos estudos de caso é dada pela possibilidade 
de explorar um problema de pesquisa em aprofundamento pelo objeto em questão 
(GOLDENBERG, 2004). 
 
Figura 1: Desdobramento dos componentes de análise e das categorias utilizadas. 
Fonte: Elaborado pela autora. 
25 
 
 
 
 
Estes aspectos foram trabalhados no capítulo 4, onde o parque é visto como uma 
unidade de síntese. Através da pesquisa teórica e conceitual, os dois parques foram abordados, 
sendo analisados de forma crítica, buscando refletir e dialogar com os demais objetivos 
específicos da pesquisa. A análise das entrevistas também entrou nesta seção. Nestes 
capítulos, o caminho metodológico utilizado até então, fornece uma ampla base teórica- 
conceitual, fomentando dados para o universo compreendido pela investigação. Os 
instrumentos de análise foram adaptados, também em função do atual contexto de pandemia 
global (no qual as entrevistas e demais pesquisas foram realizadas de maneira virtual, por 
recursos de comunicação via internet). 
Neste contexto, o parque atua como meio e como fim, onde foram apresentadas as 
características dos contextos empíricos, que foram determinantes para sua escolha, além de 
deixar claro os limites e dificuldades da pesquisa. O caminho metodológico aqui proposto não 
intenta generalizar dados que se baseiem em análises de determinados casos particulares, mas 
sim entender qual é a extensão do alcance da pesquisa, num movimento do geral para o 
particular e do particular para o geral. 
 
Figura 2: Extensão do alcance da pesquisa. 
Fonte: Elaborado pela autora. 
 
26 
 
 
 
Dessa maneira, os dois contextos empíricos aqui analisados são casos exemplares para 
revelar a cultura e os aspectos socioambientais dos locais onde eles se situam. O potencial 
comparativo desses casos mais distantes, perpassa a hipótese que guia o trabalho: apesar de 
estarem em realidades urbanas distintas, existe uma certa semelhança na importância 
socioambiental deles para os seus contextos urbanos. Eles possuem uma sólida imagem na 
narrativa urbana. Dessa forma, a hipótese depende da relação que ocorre entre o perfil dos 
parques (suas características) e o problema de pesquisa a partir do qual a pesquisa se 
movimenta (isto é, de que maneira os parques são relevantes nas cidades atuais). A 
aproximação desses dois casos o máximo possível diferentes, confere particular solidez aos 
traços que os unem (CARDANO, 2017, p. 85). 
Portanto, com as distinções entre o Parque Frogner e a Quinta da Boa Vista, também é 
possível encontrar semelhanças e possíveis ressonâncias que os unam, para promover o 
avanço do conhecimento acerca da temática cidade e natureza urbana, inspirando novas ideias 
tanto para a gestão, quanto para o planejamento urbano e ambiental contemporâneo. Isso se 
coloca em lado oposto ao que uma análise comparativa de casos semelhantes se proporia a 
desvendar. Numa comparação entre casos semelhantes, se esperaria encontrar uma certa 
diferença comparativa entre os casos. 
A pesquisa seguiu um caminho metodológico no qual o objeto de estudo mostrou o 
funcionamento das teorias em contextos empíricos distintos, pretendendo fornecer uma 
análise sobre o papel dos parques públicos em promover o acesso à natureza em dois 
contextos urbanos, assim como demostrar a inserção desses parques na cultura local 
(considerando a relevância deles na dinâmica socioambiental do lugar/região onde operam). 
Esses dois aspectos norteadores da pesquisa, se dedicaram a utilizar o parque como meio e 
como fim. A individuação do contexto empírico passou através da interpretação da sugestão 
fornecida pela pergunta de partida e a qualificação do tipo de contexto a partir do qual foi 
razoável se esperar uma resposta pertinente às próprias perguntas de partida (CARDANO, 
2017, p. 66). 
 
 
 
 
 
27 
 
 
 
ETAPAS DA PESQUISA 
 
Para tanto, o método de análise escolhido contribuiu para delimitar a bibliografia a ser 
entendida como fonte, possibilitando a obtenção de informações e evidências sobre a temática 
estudada. Nesta perspectiva, as fontes geralmente se constituem de textos produzidos e outros 
dados imagéticos e visuais, que nesta pesquisa foram divididos de maneiras distintas. 
Fontes primárias: 
• Documentos históricos (fotografias e mapas...); 
• Artigos e livros escritos pelos autores considerados clássicos (vide Tabela 1); 
• Informações obtidas em sites e páginas de redes sociais governamentais e 
turísticas oficiais; 
• Entrevistas. 
 
Fontes secundárias: 
• Artigos de revisão de literatura científica6; 
• Livros de caráter descritivo com base em pesquisas já realizadas; 
Neste sentido, as fontes secundárias representam produções bibliográficas com 
caráter de revisão da literatura, indicando outros estudos em parques e florestas urbanas em 
diferentes lugares do mundo. Esses estudos são importantes para verificar o conhecimento 
consolidado sobre a relação entre as cidades e os espaços verdes e, por isso, contribuíram para 
o estado da arte, dando sustentação ao problema de pesquisa. Em complementação, como 
parte das fontes primárias, foram analisadas pesquisas acadêmicas específicas sobre as 
dinâmicas de urbanização da cidade de Oslo e do Rio de Janeiro, sobre os contextos empíricos 
do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, além dos autores clássicos dentro do referencial 
teórico da Geografia Cultural; Arquitetura e Urbanismo, e Sociologia/Filosofia, sendo que 
estes últimos mostram pesquisas e teorias consagradas em seus campos teóricos. Isso significa 
que suas produções, em conjunto com as fontes secundárias, contribuem para um maior 
entendimento das raízes temáticas da natureza urbana no contexto acadêmico e científico, 
estando divididos de acordo com as principais teorias das obras bibliográficas consideradas 
(vide Tabela Autores Clássicos): 
 
6 Os artigos e livros atribuídos como fontes secundárias, foram escritos por pesquisadores com base em 
pesquisas originais de outros autores tidos como clássicos. Desta forma, essas fontes são a interpretação 
realizada sobre outras investigações mais antigas. 
28 
 
 
 
 
Tabela 1: Autores clássicos considerados no referencial teórico da pesquisa. 
Fonte: Elaborado pela autora. 
 
 
Bases de dados utilizadas na construção e identificação das realidades urbanas de Oslo e 
do Rio de Janeiro: 
• University of Oslo Library (https://bibsys-almaprimo.hosted.exlibrisgroup.com/primo-
explore/search?vid=UIO&lang=en_US); 
• Google acadêmico (https://scholar.google.com.br/); 
• Periódicos CAPES (https://www-periodicos-capes-gov-
br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php?); 
• Oslo Kommune (https://www.oslo.kommune.no/english/); 
• Oslo City Archives (https://www.digitalarkivet.no/en/actors/35/oslo-city-archives); 
• Historical Archive of Norwegian Landscape Architecture – NMBU University 
(https://blogg.nmbu.no/ila-samling/); 
• Kartverket – Mapas open-source (https://www.kartverket.no/en/api-and-data); 
• Parks in Oslo (https://www.visitoslo.com/en/product/?TLp=229664); 
• Guided Tour: Vigeland Sculpture Park – University of Oslo 
(https://www.uio.no/english/studies/summerschool/social-activities/events/social-events/vigeland%282%29.html); 
https://bibsys-almaprimo.hosted.exlibrisgroup.com/primo-explore/search?vid=UIO&lang=en_US
https://bibsys-almaprimo.hosted.exlibrisgroup.com/primo-explore/search?vid=UIO&lang=en_US
https://scholar.google.com.br/
https://www-periodicos-capes-gov-br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php
https://www-periodicos-capes-gov-br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php
https://www.oslo.kommune.no/english/
https://www.digitalarkivet.no/en/actors/35/oslo-city-archives
https://blogg.nmbu.no/ila-samling/
https://www.kartverket.no/en/api-and-data
https://www.visitoslo.com/en/product/?TLp=229664
https://www.uio.no/english/studies/summerschool/social-activities/events/social-events/vigeland%282%29.html
https://www.uio.no/english/studies/summerschool/social-activities/events/social-events/vigeland%282%29.html
29 
 
 
 
• Norges Naturvernforbund – Associação norueguesa de amigos da natureza 
(https://naturvernforbundet.no/?lang=en_GB); 
• Bymiljøetaten – setor de meio ambiente (https://nyhetsrom.bymiljoetaten.no/opplev-oslo/); 
• IBGE RJ (https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama); 
• Biblioteca Nacional- Brasiliana Fotográfica (https://brasilianafotografica.bn.gov.br/); 
• Plataforma colaborativa WiKi Rio (https://www.wikirio.com.br/Quinta_da_Boa_Vista); 
 
 
Tabela 2: Bases de dados e informações obtidas. 
 Fonte: Elaborado pela autora. 
 
 ENTREVISTAS 
 
As entrevistas, abordadas no capítulo 4, sobre o contexto urbano de Oslo foram 
realizadas no período correspondido aos anos de 2020 e 2021, em língua inglesa, com um 
grupo de oito pessoas, dentre os quais se destacam estudantes, moradores de bairros próximos 
e distantes do parque, professores universitários e a ex urbanista da cidade de Oslo (Ellen de 
Vibe- Ex-chefe da Agência de Planejamento e Construção em Oslo, onde atuou por 20 anos). 
Além disso, de igual maneira, foram entrevistadas oito pessoas sobre a realidade urbana do 
Rio de Janeiro e da Quinta da Boa Vista, no período de 2021 a 2022. Os entrevistados foram 
selecionados de forma a trazerem exemplos de diferentes tipos de experiencias espaciais, 
destacando também estudantes, moradores dos bairros próximos e distantes ao parque e a ex 
https://naturvernforbundet.no/?lang=en_GB
https://nyhetsrom.bymiljoetaten.no/opplev-oslo/
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/
https://www.wikirio.com.br/Quinta_da_Boa_Vista
30 
 
 
 
funcionária da prefeitura do Rio de Janeiro (Jeanne Almeida da Trindade, Arquiteta da 
Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro entre 1986 a 2016). 
As entrevistas ocorreram em meio virtual, através das experiencias relatadas a partir 
de eixos temáticos selecionados sobre as vivências dessas pessoas na natureza urbana e no 
contexto empírico analisado. Isso possibilitou um roteiro para que as pessoas se sentissem 
mais à vontade em discorrer sobre as suas impressões e ideias, tendo em vista que as 
participações em pesquisas acadêmicas no formato de entrevistas discursivas tendem a deixar 
os entrevistados confusos e nervosos em “por onde começar e com o que dizer numa folha em 
branco”. A fim de eliminar esses desconfortos sociais, a técnica utilizada foi a dos eixos 
temáticos, o que facilitou em muito o processo. As respostas ocorreram nos formatos escrito, 
de áudios e também audiovisual (videochamada gravada), de acordo com a preferência e 
disponibilidade dos entrevistados (vide modelo da entrevista Anexo 1). 
No contexto da pesquisa qualitativa, a abordagem teórico-metodológica se pautou 
numa análise em formato de relatos, os quais atuam como a mediação entre a pesquisa e a 
realidade investigada. Nesta perspectiva, a experiencia vivida e relatada por cada indivíduo é 
considerada ao mesmo tempo única e coletiva, pois contribui para se conhecer as diferentes 
formas de ser no mundo, identificando as maneiras com as quais essas pessoas vivenciam a 
natureza urbana e se relacionam com as cidades. Além disso, a coletividade dessas 
experiencias está no fato de cada pessoa pertencer a um determinado contexto sociocultural, 
que influencia também os aspectos sociais que dão base as suas percepções individuais sobre 
o meio ambiente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31 
 
 
 
CAPÍTULO 2- A INTERDISCIPLINARIDADE DAS RELAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS 
 
“As palavras são ação”. Assim já falava o Geógrafo Yi-Fu Tuan em seu artigo The city 
and the human speech (TUAN, 1994, p. 144). A maneira pela qual o discurso urbano é 
conduzido através das palavras, que vão sendo introduzidas e/ ou criadas pelos mais diversos 
agentes e atores espaciais, tem a capacidade de tornar visível ou invisível determinada porção 
da cidade ou até mesmo a cidade inteira (TUAN, 1991). A construção simbólica/ social das 
palavras, que é transmitida a cada geração, influencia até mesmo na maneira como 
enxergamos o mundo e participamos da nossa realidade no decorrer do tempo. O ato de 
nomear confere certa existência à elementos antes presentes apenas na mente. Nomear, 
portanto, é dar vida concreta à processos socioculturais e socioambientais, que antes estavam 
apenas no nível do pensamento. 
No caso da palavra jardim, por exemplo, é necessário traçar um percurso histórico que 
nos conduza para o momento no qual o ser humano começou a separar uma determinada 
porção do espaço para o cultivo de práticas agrícolas de subsistência. Isto é, a ideia do jardim 
remonta períodos históricos anteriores à ideia de cidade. Todavia, é o jardim uma construção 
simbólica que não somente influenciou o processo de desenvolvimento social e espacial da 
humanidade, como também influencia as cidades contemporâneas até os dias atuais. 
Em obra relativamente recente, a filósofa francesa Anne Cauquelin (2007) discute as 
origens do jardim em um capítulo do livro “A invenção da paisagem”. Para ela, o jardim, em 
sua gênese, representava um todo contido num lugar simbólico, e a ideia de paisagem era a 
mediação na qual a realidade mais extensa da natureza universal, era transposta para o jardim 
(CAUQUELIN, 2007, p. 60). A autora retorna ao pensamento aristotélico sobre a mímesis, no 
qual ela explica que a ideia de imitar a natureza, não quer dizer imitar o modelo, mas sim o 
modo de produção do modelo. Sendo assim, não é mimetizar os artefatos naturais, mas sim 
imitar o sistema pelo qual a natureza ecônoma age (CAUQUELIN, 2007, p. 70). 
Em contrapartida, Panzini (2013) discute que o jardim é uma forma compositiva que 
nunca se separou totalmente de sua origem agrícola. Ainda assim, os jardins foram assumindo 
outros simbolismos, em outros níveis de leitura socioespacial. Para este autor, eles 
participaram do desenvolvimento da mitologia nas mais diversas culturas humanas, além de 
representarem uma imagem do poderio técnico de manejo do solo, se constituindo em 
territórios (PANZINI, 2013, p. 15). Neste sentido, trazendo essa discussão para a 
contemporaneidade, podemos refletir se os ambientes de natureza urbana das cidades atuais 
32 
 
 
 
podem ser considerados como releituras do jardim, ao serem gerenciados, implementados e 
utilizados cotidianamente; adquirindo novas simbologias e características socioambientais em 
conexão aos discursos e teorias do momento histórico em questão. 
Por isso, neste capítulo, os parques e demais locais de vegetação nas cidades, como 
um prolongamento dos jardins, serão abordados a partir de uma perspectiva ampla, 
contextualizando suas importâncias sociais, compreendendo como a noção de natureza urbana 
ganhou espaço nas cidades e se transformou no decorrer do tempo. Como foi apresentado nos 
parágrafos acima, a ideia de jardim tem acompanhado o ser humano há muito tempo, já os 
parques, por sua vez, surgiram para denominar uma área verde e de lazer, aberta ao público, 
principalmente nos séculos XVII e XVIII com a Revolução Industrial, tendo sido aprimorados 
desde então. Nestesentido, ao longo do subitem 2.1, será abordado o contexto para o 
surgimento da disciplina acadêmica de Arquitetura da Paisagem durante, sobretudo, a segunda 
metade do século XIX, e como isso influenciou em novas dinâmicas socioambientais em 
alguns contextos do mundo. Também será visto o lócus político-social e ecológico para o 
planejamento urbano e ambiental dessas áreas verdes, além de alguns dos atores envolvidos 
neste processo e quais impactos e legados eles deixaram para as práticas urbanas da 
atualidade. 
Já o subitem 2.2, discutirá como os conhecimentos biológicos e geográficos 
contribuíram para uma maior conscientização acerca das questões ambientais no século XX. 
Ademais, será apresentado como a Noruega e o Brasil se inserem neste contexto, 
identificando também algumas políticas e participações dos dois países em conferências sobre 
o meio ambiente. 
Ao final do capítulo, no subitem 2.3, será apresentado o panorama socioambiental 
relacionado às discussões sobre meio ambiente e sustentabilidade ocorridas globalmente no 
final do século XX até a contemporaneidade, além de abordar como as novas práticas do fazer 
urbano inserem os conhecimentos sobre a biogeografia local em seus projetos. Portanto, as 
análises aqui propostas buscam propiciar uma maior compreensão de como a natureza urbana 
vem sendo tratada na contemporaneidade, por meio de exemplos práticos do urbanismo verde 
e do urbanismo ecológico. Em seguida, será discutido o termo “cidade biofílica” e como ele 
está relacionado às vivências cotidianas nos locais de natureza urbana presentes nas cidades 
do século XXI. 
 
33 
 
 
 
2.1 ARQUITETURA DA PAISAGEM E ESPAÇO URBANO: ALGUMAS DINÂMICAS E 
ATORES 
 
Para Leonardo Benevolo, em sua obra História da cidade (2019), a Revolução 
Industrial pode ser considerada uma das grandes transições pelas quais a humanidade passou, 
estando no mesmo patamar da Revolução Agrícola do período Neolítico e das novas técnicas 
provenientes da Idade do Bronze, pois influenciou a sociedade de maneira global 
(BENEVOLO, 2019, p. 240). Ele ainda complementa que a evolução e expansão da indústria, 
permitiu um aumento considerável da população mundial, além do aumento dos bens e 
serviços. Nesse momento, camponeses se tornaram assalariados e muitos migraram para as 
cidades na condição de operários industriais. Com isso, inúmeros pequenos núcleos urbanos 
começaram a surgir justamente ao redor das fábricas (BENEVOLO, 2019). 
Em reflexão mais recente, Herzog (2013, p. 38) aborda o fato das mudanças 
tecnológicas trazidas pelo desenvolvimento da Indústria, representarem um marco no espaço 
geográfico, com reflexos ambientais extremos. A utilização da máquina à vapor e do motor 
em combustão, levaram inúmeras florestas ao desmatamento, para a obtenção de madeira e 
carvão como insumos industriais. Já a energia advinda dos combustíveis de origem fóssil, 
como o petróleo, impactou na forma como a cidade passou a ser planejada. Com a 
disseminação das infraestruturas cinzas, vias asfaltadas foram sendo modeladas para a melhor 
utilização dos automóveis, assim como córregos foram gradualmente sendo canalizados e, 
muitas vezes, até mesmo escondidos embaixo do asfalto. Ao mesmo tempo, o ar foi se 
tornando mais poluído no interior das cidades industriais. 
Durante a primeira metade do século XIX, a rápida expansão urbana originou novos 
centros de confluência. Enquanto a vila medieval era formada nos burgos, e as cidades 
renascentistas possuíam um traçado regular com praças e avenidas de funções bem 
demarcadas, as cidades do período industrial se expandiam para fora destes antigos centros 
urbanos, originando assim as chamadas periferias e subúrbios (BENEVOLO, 2019). Este 
movimento é denominado pelo filósofo Henri Lefebvre como um processo histórico de 
implosão-explosão: num primeiro momento há uma concentração de pessoas, atividades e 
riquezas num local específico e, após a conclusão do processo de urbanização, ocorre a 
projeção da lógica urbana para outros lugares periféricos, formando diferentes subnúcleos 
subordinados à metrópole (LEFEBVRE, 2001). 
34 
 
 
 
Essa nova forma de cidade, cunhada pelo liberalismo econômico, não foi plenamente 
planejada ou coordenada. Sua base era no núcleo privado da vida, ou seja, o indivíduo, 
originando uma ocupação desordenada do espaço urbano, além de condições de salubridade 
que beiravam o caos. Na segunda metade do século XIX, houve uma mudança de interesses, e 
a cidade passou a conferir à administração pública, a gestão e o planejamento da infraestrutura 
dos núcleos urbanos (BENEVOLO, 2019). Foi nesse período que as regras e os planos 
diretores passaram a regulamentar o tecido urbano de cada realidade social. 
Porém, é preciso notar que o período não garantiu a melhoria da qualidade de vida nas 
cidades, tendo em vista que a urbanização se expandiu ainda mais, os centros urbanos ficaram 
cada vez mais densos, com uma maior concentração de serviços em determinadas ruas 
centrais. Os interesses econômicos continuaram a perpassar pela lógica de produção do 
urbano, no qual as novas classes de maior poder aquisitivo (os burgueses), construíam casas 
em localidades mais ajardinadas e à classe operária eram destinadas áreas menos privilegiadas 
(LEFEBVRE, 1999, p. 23). 
Neste sentido, Lefebvre (2001, p.23) afirma que a produção agrícola foi subvertida ao 
setor da produção industrial. O tecido urbano se expandiu não apenas na construção das 
cidades propriamente ditas, mas também numa determinada cultura e forma de pensar 
tipicamente industrial que encontrou seu caminho para as regiões campestres (LEFEBVRE, 
2001, p. 23). É interessante observar que, na história humana, a cidade política sempre 
acompanhou a vida social. Foi assim na ressignificação de diversos centros, como no caso da 
ágora grega ou do fórum romano, que foram simbolicamente substituídos pelas praças do 
mercado medievais. No caso da Revolução Industrial, a cidade ou vila que antes era um lugar 
de heterotopia, especializado nas trocas comerciais e que nas palavras de Lefebvre “eram uma 
ilha urbana num oceano camponês” (LEFBVRE, 2001, p. 23), passam a condição de centro, 
na qual o rural produz para a cidade, o campo é uma região situada no horizonte/limite dos 
centros urbanos. 
No decorrer dos séculos XIX e XX, a concepção dos jardins passou a abarcar projetos 
em áreas maiores, como os dos parques, que se tornaram cada vez mais essenciais na 
produção do espaço urbano. Ao tornar determinada porção de terra visível no contexto das 
cidades modernas, o ser humano pôde resgatar seu contato com um espaço mais “natural”, 
mesmo que o processo de urbanização continuasse se alastrando. Esse pensamento pode ser 
exemplificado na afirmação do arquiteto paisagista norte-americano Frederick Law Olmsted 
(1857), onde o paisagismo ganhou um teor de transformação social: 
35 
 
 
 
Duas classes de melhorias deveriam ser planejadas com este propósito: uma dirigida 
para assegurar o ar puro e saudável, para atuar através dos pulmões; a outra para 
assegurar uma antítese de objetos visuais àqueles das ruas e casas que pudessem agir 
como terapia, através de impressões na mente e de sugestões para a imaginação 
(OLMSTED, 1857 apud MACEDO; SAKATA, 2002, p. 56). 
 
Olmsted exerceu grande influência nas práticas urbanas, podendo ser considerado o 
fundador da disciplina de “arquitetura da paisagem” (PANZINI, 2013). Embora ele tenha 
exercido uma gama variada de profissões, desde jornalista, escritor, administrador até 
agricultor e horticultor, foi com o projeto do Central Park, na ilha de Manhattan em Nova 
Iorque (Figura 3), que o termo arquiteto paisagista se efetivou no contexto social em 1899, 
com a criação da American Society of Landscape Architects (PANZINI, 2013). 
 
 
Figura 3: Vista aérea do Central Park atual. 
Fonte: Civitatis Nova York (n.d.). 
 
Nesta perspectiva,o planejamento urbano não se pautou numa lógica puramente 
higienista ou estética, mas sim em princípios ecológicos aliados ao bem estar urbano. Olmsted 
foi o pioneiro a considerar a paisagem das cidades como um sistema, no qual era necessário 
compreender as dinâmicas naturais dos ecossistemas, considerando que as cidades estavam 
inseridas num contexto ambiental que deveria ser previamente entendido e respeitado. 
Portanto, ele foi um dos precursores do planejamento urbano e regional (OLMSTED, 1870). 
Um de seus mais influentes legados foi o Movimento dos parques7, que revolucionou não 
 
7 Park movement- processo político e social de reconhecimento da importância da proteção de áreas naturais no 
meio urbano, no final do século XIX. 
36 
 
 
 
somente o contexto norte-americano, como também o de outras realidades urbanas pelo 
mundo. 
O denominado Emerald Necklace em Boston, EUA, pode ser considerado um exemplo 
marcante desta visão integradora de Olmsted. Neste projeto ocorrido entre os anos 1878 e 
1895, o paisagista mimetizou a natureza, usando os próprios princípios ecossistêmicos 
presentes no meio ambiente, para despoluir o rio Muddy, por meio da criação de áreas 
alagadas purificadoras (OLMSTED, 1870). Além disso, ele criou um sistema de espaços 
verdes conectados através de um corredor ecológico, como pode ser observado na figura 4. 
 
Figura 4: Mapa atual do Emerald Necklace, Boston, EUA. 
Fonte: Arboretum of Harvad University (c2022). 
 
Dentro do contexto estadunidense também podemos citar o arquiteto Frank Lloyd 
Wright, que propôs uma outra vertente urbanística e paisagística para integrar o ser humano à 
natureza (HERZOG, 2013). Em 1935, através da utópica ideia da cidade de Broadacre8, 
Wright queria construir realidades urbanas menores, com menos densidade, menos 
verticalizações e mais áreas agricultáveis, nas quais os alimentos seriam produzidos 
localmente. Era uma visão relativamente complementar às das cidades-jardim de Ebenezer 
Howard9, que serão apresentadas no próximo item. Porém, para Wright, essa realidade urbana 
 
8 Broadacre nunca chegou a ser efetivamente construída, sendo materializada apenas em maquetes expositivas. 
9 Howard propunha investir no transporte público de qualidade, destacando-se as vias férreas, para conectar as 
cidades-jardim. 
37 
 
 
 
não seria cooperativa e suas conexões seriam feitas por vias rodoviárias, fato que atenderia à 
indústria automobilística dos Estados Unidos. 
Frank Lloyd Wright recebeu inúmeras críticas (HILL, 1988). Ao propor cidades 
menos densas, ocorreria um descontrole da expansão urbana, onde as cidades ocupariam cada 
vez mais áreas, ocasionando um maior desflorestamento e injúrias à ecossistemas e à 
biodiversidade (HERZOG, 2013). Um outro exemplo de perspectiva divergente, é o da 
urbanista estadunidense Jane Jacobs, que também criticava o pensamento de Wright, pois o 
considerava individualista, que promovia o nacionalismo e o romanticismo campestre. Sua 
principal divergência diz respeito ao fato de Wright ser um antiurbanista, enquanto para a 
intelectual norte-americana, a cidade era o local da cooperação, sociabilidade e diversidade 
(HILL, 1998, p. 307). 
O desenvolvimento da disciplina de arquiteto paisagista abarcou também inspirações 
do mundo intelectual, onde a projeção da natureza ganhou tons de potencial mudança social, 
como na concepção das cidades-jardim, do pensador Ebenezer Howard. Desiludido com a 
sociedade industrial inglesa, Howard escreveu sua principal obra10: To-morrow a Peaceful 
Path to Real Reform (1898) ou Cidades do amanhã, na reedição do ano de 1902. De acordo 
com Howard (1902, p. 110), o aumento do número de pessoas vivendo em cidades era 
causado, principalmente, pela migração proveniente das áreas rurais. Sendo assim, se fazia 
necessário equilibrar a relação entre a cidade e o campo (HOWARD, 1902). 
Em suas análises, ao passo que a cidade era o local da sociabilização, cooperação e 
oportunidades de emprego, ela carecia de elementos naturais que melhorariam seu o clima e 
salubridade. De outro lado, as áreas rurais tinham abundância de natureza, com campos e 
lagos, mas lhes faltava as oportunidades sociais e a infraestrutura. Por isso, ele idealizou a 
cidade-jardim11, como um meio termo a este dilema. Nessa perspectiva, a mescla do que havia 
de melhor em cada um desses espaços, originaria “uma nova esperança, uma nova vida, uma 
nova civilização” (HOWARD, 1902, p. 110). 
As ideias de Howard também influenciaram na criação da Garden cities association 
Ltda, em 1903. Essa associação cooperativa seria a responsável por obter recursos financeiros 
 
10 Obra inspirada no caso de New Lanark, na Escócia, onde o filantropo e idealista utópico Robert Owen 
havia moldado uma comunidade industrial modelo, baseada na produção têxtil no início do século XIX. 
 
11 O protótipo desse tipo de cidade- jardim deveria ser materializado numa área circular com até 2400 hectares, 
sendo 400 hectares destinados à cidade propriamente dita e o restante às áreas agrícolas (cinturão ajardinado). 
Para Howard, cada espaço urbano teria uma função social diferente e era importante que cada cidade-jardim 
fosse autossuficiente e mantida por trabalho cooperativo, sendo capaz de suprir seus moradores com alimentos e 
serviços, além de gerir os resíduos gerados pelos habitantes (HOWARD, 1902). 
 
38 
 
 
 
para a compra dos lotes de terra nos quais as cidades-jardim seriam construídas. Entretanto, 
aos poucos, a associação foi se tornando uma empresa, e seus benfeitores/ doadores passaram 
a coletar juros sobre seus investimentos, ao passo que a cidade-jardim gerasse lucros por meio 
de aluguéis ou por meio da "especulação de terras filantrópicas" (HALL, 2014). Dessa forma, 
Howard preocupado com os rumos de seus projetos, tentou inserir organizações cooperativas 
da classe trabalhadora, mas não conseguiu apoio financeiro suficiente. Ao final, ao ter de 
contar apenas com os investidores ricos e influentes, seu plano de cidade-jardim se modificou 
drasticamente: ocorreu a eliminação do esquema de propriedade cooperativa sem 
proprietários; aumentos de aluguel de curto prazo e contratação de arquitetos que não 
concordavam com o design rígido e funcional da cidade-jardim original. 
 
Figura 5: Esquema das cidades-jardins desenhado por Ebenezer Howard em 1902. 
 Fonte: The Guardian (2014). 
 
Dessa forma, Letchworth (1910-1920), considerada a primeira cidade-jardim12 inglesa, 
teve o seu planejamento desenhado pelos arquitetos Raymond Unwin e Barry Parker (HALL, 
2014). Situada em uma área a 55 km de Londres, a terra onde a cidade foi implementada era 
considerada barata e foi adquirida num momento de depressão agrícola. Com o passar do 
tempo, Letchworth não conseguiu se tornar autossuficiente e se transformou num subúrbio 
londrino, onde a metrópole Londres ainda mantinha sua centralidade política, econômica e 
social. 
 
12 O plano foi considerado o maior e mais completo planejamento de cidade desenvolvido no início do século 
XX na Inglaterra, sendo planejada para abrigar 30 mil habitantes. 
39 
 
 
 
Isso aconteceu em muitas tentativas de implementação de cidades-jardim pelo mundo. 
O conceito imaginado por Howard não conseguiu ser fielmente executado. A cidade-jardim se 
converteu em bairros nobres e/ ou pequenos núcleos urbanos, onde a palavra jardim passou a 
agregar um valor de troca, sendo apropriada pelo setor imobiliário (HERZOG, 2013). Porém, 
apesar de ter sofrido duras críticas na prática (sobretudo com relação ao funcionalismo), a 
ideia de Ebenezer Howard intensificou a importância da natureza urbana no cotidiano das 
cidades, indicando novos caminhos para o fazer urbano do século XX. 
Ainda com relação às transformações e aos atores que influenciaram as práticas 
urbanas deste período histórico, outro intelectual de destaque é o escocês Patrick Geddes. 
Embora fosse biólogode formação, ele promoveu uma mudança de paradigmas com relação 
ao planejamento urbano do início do século XX. A partir do livro Cidades em evolução, 
publicado em 1915, o autor buscava compreender a cidade de maneira holística, dentro da 
região, analisando todos os aspectos que pudessem ter influencias no ambiente físico e social. 
Geddes também foi um visionário e percussor do planejamento participativo (GEDDES, 
1915). 
Ele transitou nos mais diversos campos do saber13, e enxergava o papel do planejador 
urbano como o do promotor de uma boa condição de vida às pessoas, levando em conta os 
aspectos ecológicos locais, sendo um dos pioneiros no bioregionalismo, e a história e cultura 
da região (WAHL, 2017)14. Para tanto, um de seus focos era a educação da comunidade com a 
qual estava trabalhando, pois a única maneira de se alcançar resultados promissores era 
trabalhando em equipe, onde os cidadãos se sentissem engajados e confiantes nas práticas do 
fazer urbano. 
A cidade de Edimburgo, na Escócia, foi um dos locais onde Geddes desenvolveu suas 
ideias de gestão. A partir do que ele chamou de síntese, ele se empenhou em promover o 
planejamento da cidade, começando pelas áreas do centro histórico, que se encontravam 
deterioradas e com habitações precárias (GEDDES, 1915; WAHL, 2017). Os habitantes do 
local foram envolvidos em todas as etapas do projeto, se organizando de maneira coletiva para 
limpar e reestruturar seus próprios bairros. Ao contrário do pensamento de Darwin sobre a 
evolução e a competição, Geddes percebia a evolução através da cooperação: para a sociedade 
evoluir, era necessário um alto grau de cooperação e consciência coletiva (WAHL, 2017). Por 
isso, a participação cívica nos processos de planejamento era essencial. Nesta perspectiva, ele 
 
13 Foi o precursor do: Think global, act local. Era filósofo, sociólogo, artista, planejador urbano e biólogo. 
14 Consute: “Design and Planning for People in Place: Sir Patrick Geddes (1854–1932) and the Emergence of 
Ecological Planning, Ecological Design, and Bioregionalism” (2017). 
40 
 
 
 
implementou um centro de educação regional em Edimburgo, que recebeu o nome de Outlook 
tower15, além de ter construído o Ramsay Gardens na esplanada do castelo e os prédios para 
estudantes ao longo do Royal Mile (GEDDES, 1915). 
 
Figura 6: Ramsay Garden. 
Fonte: Wikipedia (2021). 
 
Ao longo do século XX, sobretudo no pós-guerra, houve uma intensa modificação nas 
relações internacionais e na geopolítica. A lógica urbana, fecundada no contexto da Europa 
central e dos Estados Unidos, se expandiu para outras regiões do mundo, e o crescimento das 
cidades industriais atingiu um nível global, mesmo em realidades distantes (SILVA et al., 
2014). Gradualmente, o mundo se dividiu entre desenvolvido e subdesenvolvido, 
terminologias originadas em conjunto com as Nações Unidas, que identificam os níveis de 
desenvolvimento econômico e social, marcando as diferenças entre os países industrializados 
e os exportadores de matéria-prima, a partir de alguns critérios como: grau de riqueza, nível 
de industrialização e desenvolvimento, Produto Interno Bruto (PIB), renda per capita e Índice 
de Desenvolvimento Humano (IDH). 
Segundo o teórico Giovanni Arrighi (1996), a ascensão hegemônica estadunidense 
após as duas grandes guerras mundiais, trouxe novas situações, às quais referem-se à 
capacitação estatal em liderar e inovar, onde um determinado Estado consegue exercer 
liderança sobre um sistema de nações soberanas (ARRIGHI, 1996, p. 27). Essa característica 
hegemônica confere ao país em questão um poder mundial, que vai além da pura dominação 
territorial, mas se direciona para uma liderança intelectual e cultural, universalizando sua 
 
15 Edifício em Edimburgo, na seção Castlehill da Royal Mile, próximo ao Castelo de Edimburgo. Foi comprado e 
reformado por Patrick Geddes em 1892, que o transformou em um “lugar de visão e um museu-tipo como uma 
chave para uma melhor compreensão de Edimburgo e sua região, mas também para ajudar as pessoas a ter uma 
ideia clara de sua relação para o mundo em geral” (Para mais informações, consulte: 
https://www.dundee.ac.uk/geddesinstitute/outlooktower/). 
41 
 
 
 
concepção de mundo (ARRIGHI, 1996, p. 28; CECEÑA, 2004, p. 112). Isso se encontra no 
cerne da lógica desenvolvimentista que tem por base, garantir os fluxos da economia mundial, 
através da difusão da informação e dos novos padrões de consumo (SANTOS, 2004). 
Os processos de industrialização, característicos da história de Revolução Industrial na 
Europa continental e dos Estados Unidos, foram exportados para outros contextos 
socioculturais pelo mundo, numa lógica de reconstrução e reestruturação após os efeitos das 
guerras e do imperialismo. Por outro lado, a ascensão da União Soviética no contexto do leste 
europeu e dos países da Ásia Central, numa lógica de dominação territorialista, também 
influenciou em novas dinâmicas e organizações do espaço urbano, que eram essencialmente 
marcados pela funcionalidade e padronização, para um maior controle estatal do ambiente em 
questão. 
Esse novo panorama mundial possibilitou a expansão e consolidação do meio-técnico–
científico-informacional de ambos os polos hegemônicos, trazendo como consequências 
negativas a padronização urbana e a criação e/ou exportação dos problemas ambientais para 
outras realidades sociais. Além disso, contribuiu para a perpetuação e, até mesmo, 
agravamento da pobreza em locais já historicamente pauperizados, em grande parte, devido às 
heranças colonialistas de épocas passadas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
42 
 
 
 
2.2 UMA COMPREENSÃO GEOGRÁFICA DA ECOLOGIA NO SÉCULO XX 
 
Como foi observado, a expansão da cidade industrial pelo mundo trouxe desafios dos 
mais diversos níveis. Neste sentido, a publicação do livro primavera silenciosa em 1962, da 
bióloga americana Rachel Carson, abriu novos horizontes de debate ambiental, sobretudo 
acerca dos efeitos nocivos da chamada revolução verde16 e do uso dos agrotóxicos para a 
saúde humana e para a natureza (CARSON, 1962). Neste momento, não somente a cidade 
industrial se encontrava deteriorada, mas também o campo, que se industrializava e se 
mecanizava para a produção em massa de alimentos para as cidades. Rachel Carson foi um 
ícone na luta pela conscientização ambiental, destacando sua preocupação com as 
monoculturas norte-americanas e as doenças provenientes do uso de produtos químicos na 
produção agrícola, que afetariam tanto a saúde dos trabalhadores rurais e consumidores, 
quanto dos ecossistemas e da biodiversidade (CARSON, 1962). 
Os anos de 1960 a 1990 foram importantes para a consolidação das ideias 
ambientalistas e o reconhecimento de que as gerações futuras herdarão as consequências do 
modo de viver industrial. Esse período também originou questionamentos sobre a pesquisa 
científica puramente positivista, sem englobar a análise crítica sobre a produção 
social/econômica e as subjetividades presentes no mundo vivido. Por isso, é um momento que 
pode ser denominado de renovação cultural17 (MOREIRA, 2009). Essa mudança de 
paradigma no meio científico foi importante, pois identificou que para solucionar as questões 
ambientais, não era possível analisar apenas de modo objetivo e quantitativo, tendo em vista 
que a origem dos problemas era, muitas vezes, de nível socioambiental, acerca das mudanças 
(econômicas, políticas, sociais...) pelas quais as sociedades passaram na transição para a 
lógica industrial. 
Dentro desse panorama, a ciência geográfica também passou por transições. Sobre 
isso, destaca-se a geógrafa irlandesa Anne Buttimer, que realizou intensas pesquisas, 
sobretudo na Irlanda e na Suécia, acerca da percepção ambiental e dos aspectos subjetivos 
presentes nas áreas residenciais, que conectavam as pessoas de maneira emocional ao espaço 
geográfico. Para esta autora,o ser humano se afilia e se relaciona aos lugares por meio de 
uma intricada rede de construções simbólicas e mentais, que funcionam como verdadeiros 
 
16 Mecanização da produção agrícola e uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos, através do conhecimento 
oriundo na indústria de bombas e armamentos bélicos, que com o final da 2ª Guerra Mundial, se converteu para a 
produção agrícola. 
17 No caso da ciência geográfica, ocorreram divisões entre a geografia crítica e a geografia cultural. 
43 
 
 
 
elos entre cada indivíduo, sua memória e o espaço (BUTTIMER et al., 1980). Por ter 
participado de estudos com vertentes culturais, a autora compreendia as questões ambientais 
sob uma ótica mais ampla, relacionando diferentes fatores pautados, por exemplo, na 
diversidade étnica, religiosa e política. Isso significava que para se encarar os desafios postos, 
os cientistas deveriam cooperar e investigar de uma maneira holística, pois existe um mosaico 
de identidades e mundos sociais, que interferem no meio ambiente de maneira direta ou 
indireta (BUTTIMER, 2004). 
No contexto do planejamento urbano/ regional, um nome importante para o 
pensamento ecológico no pós-guerra é o do arquiteto paisagista escocês Ian McHarg18. Assim 
como Patrick Geddes e Frederick Law Olmsted, no início do mesmo século, foram 
precursores em projetar áreas urbanas levando em consideração os sistemas naturais, McHarg 
acreditava que para manter a vida nas cidades num estágio de harmonia, era preciso pensar no 
ser humano e na natureza sem dualismos. 
No ano de 1969, Ian McHarg escreveu seu livro mais famoso, denominado de Design 
With Nature, no qual ele narra toda a sua trajetória pessoal e intelectual que o levou a propor 
novas atitudes para a prática do planejamento urbano regional. Os primeiros capítulos da obra 
são dedicados às lembranças da sua infância no período entre a primeira e a segunda guerra, 
nos arredores da cidade de Glasgow19. 
Repleto de nostalgia, McHarg analisa as mudanças pelas quais a Escócia passou no 
início do século XX. Para tanto, ele cita o caminho que costumava fazer para se locomover de 
seu vilarejo até a cidade de Glasgow, passando por diversas florestas e campos facilmente 
alcançáveis a pé ou de bicicleta (MCHARG, 1969, p. 2). Na infância (no período de 1920-
1935), a cidade industrial já existia, materializada em Glasgow, poluída e congestionada. 
Porém, ele ressalta que ainda era possível ter acesso às terras altas e ilhas escocesas, através 
da floresta negra de Rannoch, que o conduziam ao mais profundo countryside (MCHARG, 
1969, p. 19). 
Em 1949, McHarg completou seus estudos em arquitetura da paisagem e planejamento 
urbano na Universidade de Harvard (Estados Unidos da América) e, ao retornar ao seu país 
natal, encontrou as áreas florestadas próximas à Glasgow já anexadas pela cidade, dando lugar 
 
18 McHarg tentou discutir acerca do papel do ser humano no planeta terra. Os capítulos de seu livro trazem, 
dentre outras análises, contribuições relacionadas aos seus anos no magistério e no planejamento regional, 
criticando as concepções modernas e pós-industriais de que a natureza e o ser humano existem em pontos 
diferentes, onde a natureza passa a ser apenas um recurso e um pano de fundo para o progresso e lucro 
(MCHARG, 1969, p. 44). 
 
19 Atualmente Glasgow é a maior cidade da Escócia, com 1.673,000 de pessoas. 
44 
 
 
 
a enormes blocos de apartamentos residenciais. Com o tempo, ele foi percebendo que houve 
um enorme espraiamento da urbanização, e o horizonte campestre com o qual ele estava 
acostumado, havia sido deslocado para cada vez mais distante. Sobretudo a população pobre 
no meio urbano, em grande parte, operários das fábricas, só tinham contato com a natureza 
por meio das propagandas televisivas sobre o campo e as florestas (MCHARG, 1969, p. 20). 
Sendo um fervoroso crítico da cultura automobilística norte-americana, McHarg 
também analisou a forma da típica cidade pós-industrial e as suas incontáveis rodovias e 
estacionamentos (MCHARG, 1969, p. 22). Para ele, era possível perceber a degradação da 
cidade grande ao se locomover de carro, por meio dos engarrafamentos, da poluição e da 
transformação e deterioração dos rios. Além disso, seu raciocínio se aproximava ao de Rachel 
Carson, ao afirmar que as áreas campestres também passavam pela mesma lógica urbana, nas 
quais os cinturões verdes representavam grandes áreas de monocultura, esterilizando a terra e 
dando origem a sedimentos corrompidos (MCHARG, 1969, p. 22). 
Assim como os cientistas durante a revolução cultural, McHarg (1969) considerava a 
diversidade dos ambientes, percebendo o planeta terra como um organismo vivo e pulsante. 
Por isso, suas práticas urbanas tendiam a investigar a maneira com a qual esse organismo, do 
qual o ser humano faz parte, enfrenta os desafios e demonstra a sua resiliência. De fato, esse é 
o principal objetivo de seu livro: trazer uma abordagem reflexiva sobre o nosso lugar no 
cosmos e pensar em formas de ocupar o espaço com e não contra a natureza. O autor fez um 
verdadeiro inventário sobre as diferentes áreas geográficas, nos mais diversos climas, 
destacando suas características e possíveis formas de ocupação humana em conformidade 
com a hidrologia, geologia e pedologia locais (MCHARG, 1969, p. 56-67). 
A visão ecológica do planejador urbano deveria orientá-lo para “perceber o mundo e a 
evolução como um processo criativo” (MCHARG, 1969, p. 53). Segundo ele20, o mundo 
social é permeado de regras que afetam a maneira com a qual os arquitetos e urbanistas agem. 
Com base nisso, McHarg questionava o porquê de as questões sobre o meio ambiente não 
terem a mesma preocupação à nível social/político. Em 1969, ele já indagava o seu leitor qual 
era o lugar da natureza na grande metrópole, e o motivo de não haver legislações e 
regulamentações que prevenissem desastres naturais, além de garantir os valores intrínsecos 
do meio ambiente. 
 
20 Ao trazer argumentos biológicos para seu pensamento enquanto arquiteto paisagista e urbanista, McHarg 
reafirmava a importância de considerar os conhecimentos das ciências biológicas e sociais juntos, quando for 
preciso projetar ou reestruturar uma área urbana. 
 
45 
 
 
 
Entretanto, foi principalmente na década de 1980, que os conhecimentos da ecologia 
ganharam força e passaram de algo puramente biológico sobre o funcionamento dos sistemas 
naturais ~ ecologia natural~, para dar bases a um movimento social heterogêneo, 
denominado de ecologia social (LAGO; PÁDUA, 2017, p. 14-15). Um exemplo disso foram 
as grandes manifestações pelas cidades estadunidenses, onde as pessoas protestavam contra os 
riscos trazidos pela energia nuclear. Neste momento ocorreu uma incorporação ecológica nos 
discursos políticos, criando um palco nas sociedades (pós) industriais para o debate sobre 
outras possibilidades e modos de vida ao até então vigente (LAGO; PÁDUA, 2017). A 
consolidação dos partidos verdes, que pretendiam resolver as crises da cidade industrial pelo 
viés de uma modificação econômica e cultural aliada a práticas conservacionistas, também 
data deste período de turbulência social. 
No panorama atual, cabe destacar o exemplo do pensador indígena Ailton Krenak. 
Oriundo da etnia Krenak, em Minas Gerais, o autor afirma não conseguir perceber a 
existência de algo no mundo que não seja natureza, pois “a natureza engloba absolutamente 
tudo o que nós conhecemos e vivenciamos” (KRENAK, 2020, p. 46). É importante trazer o 
exemplo de Krenak ao falar sobre ecologia social, uma vez que ele teve ampla participação 
no processo de redemocratização do Brasil pós ditadura militar, no que tange os direitos 
indígenas, que por sua vez também são os direitos das florestas e áreas ribeirinhas. Em 1988, 
Krenak21 fez um discurso na Câmara dos Deputados, como participação na Assembleia 
Nacional Constituinte, no qual pintou seu rosto comtinta de jenipapo, em protesto contra o 
fato de não haver até então uma legislação que abordasse a situação da terra indígena no 
Brasil22. Sendo assim, o movimento dos povos indígenas também é um caso relevante da 
extensão política da ecologia social. 
Neste sentido, Diegues (1996) e Freitas (2008) destacam a existência de três correntes 
ambientalistas que se originaram no pós-guerra: preservacionista, conservacionista e a 
justiça ambiental (DIEGUES, 1996; FREITAS, 2008). Porém, no decorrer do tempo, 
prevaleceram duas correntes principais: a preservacionista e a conservacionista. 
• Segundo a primeira corrente, a natureza possui direitos intrínsecos, que se 
justificam pelo fato dela existir. Nesse raciocínio, há de se preservar o meio 
 
21 Ele também contribuiu para a fundação da União dos Povos Indígenas21 e da Aliança dos Povos da Floresta, 
para estabelecer reservas naturais na região amazônica. 
 
22 VIVAN, Danilo. Ailton Krenak: os frutos do discurso que comoveu o país. Conexão Planeta, inspiração para a 
ação, 5 mar. 2019. Disponível em: <https://conexaoplaneta.com.br/blog/ailton-krenak-os-frutos-do-discurso-que-
comoveu-o-pais/#fechar>. Acesso em: 30 ago. 2021. 
https://conexaoplaneta.com.br/blog/ailton-krenak-os-frutos-do-discurso-que-comoveu-o-pais/#fechar
https://conexaoplaneta.com.br/blog/ailton-krenak-os-frutos-do-discurso-que-comoveu-o-pais/#fechar
46 
 
 
 
ambiente, mesmo que para isso seja necessário afastar o ser humano do contato 
com essa natureza a ser preservada e isolada da vida social. 
• Já na corrente conservacionista, a natureza é vista como recurso, estando ligada 
às práticas econômicas e de desenvolvimento. Os recursos minerais, os aquíferos, 
e demais componentes ambientais existem e devem ser conservados para garantir 
os meios de sobrevivência da vida humana na Terra. A vegetação, nesta corrente, 
presta serviços ambientais à sociedade (FREITAS, 2008). 
• No caso da Justiça ambiental, ela é uma corrente que engloba um conjunto de 
princípios que garantam aos indivíduos, independente da classe social, gênero ou 
etnia, o acesso à natureza em seus cotidianos de vida. Além disso, a justiça 
ambiental também se propõe a pensar em práticas que minimizem os impactos 
ambientais negativos da ocupação humana no ambiente e, para tanto, busca 
legislações coerentes com esses propósitos. 
No mundo contemporâneo, as ideologias de proteção ambiental se tornaram muito 
frequentes nos discursos políticos e nas práticas para as cidades, onde projetos de intervenção 
urbana passam por avaliações quanto ao seu impacto ambiental, como previsto em Leis 
específicas (áreas de interesse ambiental, áreas de interesse social, etc.), mas que nem sempre 
são seguidas à risca. Apesar das três correntes apresentadas de certa forma, considerarem a 
natureza e a sociedade em patamares distintos, a que se refere a justiça social tem maiores 
possibilidades de sintetizar o que se espera para políticas urbanas futuras, devido ao seu 
caráter inclusivo. A partir de legislações ambientais que também tenham como objetivo a 
redistribuição social com equidade em relação ao acesso aos espaços verdes, colocando a 
natureza como fator de infraestrutura urbana importante para todas as camadas da população, 
se pode criar melhores bases para o oferecimento de condições dignas de habitação e acesso a 
demais infraestruturas, como saneamento básico (FREITAS, 2008, p. 7). 
No nível de políticas globais, um exemplo do ativismo ecológico social, pautado 
sobretudo na justiça ambiental, pode ser observado com a publicação do Relatório 
Brundtland23 em 1987, também intitulado Nosso Futuro Comum. Sob a supervisão da política 
norueguesa Gro Harlem Brundtland24, se pretendeu discutir o papel dos países desenvolvidos 
 
23 É interessante observar que o relatório não condenava o desenvolvimento, mas sim a forma como ele ocorria. 
O principal objetivo era refletir sobre maneiras de garantir o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, garantir o 
equilíbrio dos sistemas naturais para sustentar as populações humanas no decorrer do tempo. 
24 Ex-Primeira-ministra da Noruega. É uma política, diplomata e médica norueguesa, e uma líder internacional 
em desenvolvimento sustentável e saúde pública. Foi membro do Partido dos Trabalhadores da Noruega desde a 
47 
 
 
 
na degradação ambiental e na produção e perpetuação da pobreza em escala global. Na seção 
denominada common concerns25, o relatório buscou localizar as causas sociais e econômicas, 
além de propor novas visões para a ideia de desenvolvimento ao lado das questões ecológicas 
(BRUNDTLAND, 1987). Foi também neste documento onde foi cunhada a noção de 
desenvolvimento sustentável, segundo a qual “é o desenvolvimento capaz de suprir as 
necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das 
futuras gerações” (BRUNDTLAND, 1987, p. 54, tradução livre). 
O relatório final foi um marco na produção literária cooperativa, envolvendo diversos 
países que trabalharam em conjunto para identificar as preocupações socioambientais nas 
mais distintas realidades sociais, climáticas e culturais (NEWMAN, 2011). Além disso, o 
Relatório Brundtland foi importante para pressionar à ONU no estabelecimento de um 
Programa de Ações para o Desenvolvimento Sustentável, para cumprir as diretrizes 
delineadas durante as etapas de pesquisa (NEWMAN, 2011). Outra relevância do documento 
reside no fato de ele ter aberto novos horizontes de diálogo sobre o meio ambiente num nível 
mundial, favorecendo as bases para a realização da Eco-92 (Cúpula da Terra), na cidade do 
Rio de Janeiro em 1992, evento que culminou na criação da Comissão das Nações Unidas 
para o Desenvolvimento Sustentável naquele mesmo ano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
sua juventude (Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Gro-Harlem-Brundtland>. Acesso em: 
10 maio 2021). 
25 Preocupações em comum (Tradução livre). 
 
https://www.britannica.com/biography/Gro-Harlem-Brundtland
48 
 
 
 
2.3 ABRINDO ESPAÇO PARA A NATUREZA NA CIDADE CONTEMPORÂNEA 
 
No geral, a cidade, mesmo em toda a sua artificialidade, faz parte da natureza pelo 
simples fato de tudo o que existe no mundo ser natureza. Dentro desta perspectiva, Ellis e 
Ramankutty (2008, p. 439-441), apresentam a noção de biomas antropogênicos26, que 
identificam as paisagens produzidas pelas relações humanas no espaço (ELLIS; 
RAMANKUTTY, 2008, p. 439-441). Os autores discutem o fato de que é necessário situar as 
relações sociais mesmo nos mapas de cunho físico, sobre a “natureza”, tendo em vista que: 
 
Dos 6,4 bilhões de habitantes humanos da Terra, 40% vive em biomas de 
assentamentos densos (82% da população urbana), 40% vive em biomas de vilarejos 
(38% urbanos), 15% vivem em biomas de terras agrícolas (7% urbanos) e 5% vive 
em biomas de pastagem (5% urbano; dos quais os biomas florestais tem 0,6% da 
população global). Embora a maioria das pessoas viva em assentamentos densos e 
vilas, eles cobrem apenas 7% da área livre de gelo da Terra, e cerca de 60% desta 
população é urbana, vivendo em cidades e vilas embutidas nesses biomas (ELLIS; 
RAMANKUTTY, 2008, p. 439, tradução e grifo da autora). 
 
Dessa forma, a ideia de abrir espaço para a natureza nas urbes não significa 
considerar a cidade como uma entidade que não participa das dinâmicas biológicas 
planetárias, mas sim que é preciso relembrar cotidianamente através de medidas de gestão, 
planejamento urbano e educação ambiental a natureza urbana em todos os seus níveis, desde o 
ecológico até o sociocultural. E esse é justamente o debate trazido pelo geógrafo Marcelo 
Lopes de Souza em sua recente obra Ambientes e territórios: uma introdução à ecologia 
política (DE SOUZA, 2019). Segundo ele, o espaço urbano está imerso no complexo sistema 
naturogênico, no qual há interação entre fauna e flora, ciclos de hidrológicos e demais 
aspectos quepropiciam a nossa existência material neste planeta (DE SOUZA, 2019, p. 66). 
Porém, ele também afirma ser necessário identificar que a natureza das cidades produz 
situações biológicas distintas. Por exemplo: 
 Mesmo que a chuva seja, em princípio, um processo naturogênico, e as substâncias 
contidas nas gotas da chuva sejam, em princípio, também naturogênicas, a chuva 
ácida é um produto da sociedade (e mais exatamente de processos e relações sociais 
específicos no contexto da sociedade industrial); embora a fauna e a flora urbanas 
sejam, enquanto tal, não produzidas pelo homem (descontadas todas as situações 
 
26 Dentro do estudo realizado, os autores identificaram 21 tipos de biomas antropogênicos divididos dentro de 6 
categorias (assentamentos densos, vilarejos, terra cultivada, pastagem, área florestal e wildland. (ELLIS; 
RAMANKUTTY, 2008, p. 441). 
 
49 
 
 
 
representadas pela seleção artificial que está por trás da seleção de nossos animais 
domésticos...), processos humano-sociais, como a poluição ambiental afetam todos 
os animais e plantas que existem em nossas cidades, acarretando fenômenos como o 
mimetismo e a busca de novos nichos ecológicos (DE SOUZA, 2019, p. 66). 
 
Dentro desse contexto, a autora Skjerve-Nielssen (2009) aborda que uma cidade 
sustentável é aquela que consegue colocar em equilíbrio o progresso em níveis econômicos, 
as características do meio ambiente e os aspectos socioculturais, por meio de processos de 
participação ativa de cada cidadão (SKJERVE-NIELSSEN, 2009). Em paralelo, Butters 
(2021), afirma que apesar do termo ter sido banalizado e apropriado de forma mercadológica 
no mundo contemporâneo, em essência, a palavra sustentável significa algo que tenha 
qualidade e meios para perdurar ao longo do tempo (BUTTERS, 2021, p. 2). Para tanto, no 
contexto urbano, sustentabilidade condiz com um ambiente com grande capacidade de 
resiliência, superando as crises e evitando os riscos de desastres ambientais para a população 
que o habita. 
O autor destaca também que existem alguns mitos envolvendo a sustentabilidade 
(BUTTERS, 2021), como se ela fosse algo difícil de ser alcançado ou apenas disponível para 
aqueles que possuem um nível econômico elevado, que possam custear o valor excessivo de 
produtos que ofereçam eficiência energética ou que foram feitos com materiais licenciados 
(como no caso de madeiras legalizadas), de qualidade e duradouros. Butters (2021, p. 2) 
compreende que o grande desafio para a sustentabilidade é, de fato, o modelo econômico 
vigente mundialmente, que impede a promoção de uma sociedade mais justa (BUTTERS, 
2021). No entanto, ele também afirma que existem maneiras de se iniciar o alcance a tão 
almejada durabilidade das cidades com ações mais pontuais, a começar pela presença de 
espaços verdes urbanos, que garantam amenidades e oportunidades socioambientais na 
microescala de cada bairro27 (BUTTERS, 2021, p. 2-7). 
De maneira semelhante, Jaime Lerner (2003, p. 4), já havia argumentado que atitudes 
em locais estratégicos podem oferecer grande auxilio para a vida nos centros urbanos, fazendo 
uma analogia com as agulhas da prática da acupuntura chinesa, que perfuram pontos 
específicos na pele humana, com o intuito de ajudar na cura de doenças, pela criação de 
reações positivas em cadeia, que influenciarão outras áreas do corpo, num efeito dominó 
(LERNER, 2003, p. 4). Neste sentido, “abrir” espaço para a natureza urbana representa 
 
27 Como no exemplo dos pocket parks, que são pequenos parques vistos como pontos verdes no tecido urbano. 
Eles podem funcionar como um complemento para parques maiores e também como elementos de sociabilidade 
em meio a natureza urbana no contexto dos bairros. Essas pequenas áreas urbanas podem prevenir desgastes 
físicos e mentais no dia a dia das cidades (NORDH; ØSTBY, 2013, p. 12-17). 
50 
 
 
 
justamente essa lógica de ações propositivas no nível local, como se fossem agulhas no 
espaço urbano, que tem a potencialidade de atingir outras áreas de outras cidades, como uma 
reação sistemática através do exemplo e da mudança de comportamento e perspectiva de 
gestão urbana. 
Isso pode ser visto nas atuais hortas comunitárias28, existentes em inúmeras realidades 
urbanas. De acordo com Twiss et al. (2003, p. 52), esse tipo de empreendimento também tem 
resultados para a saúde, uma vez que melhora a nutrição da população e possibilita a atividade 
física, promovendo o papel da saúde pública na melhoria da qualidade de vida. Por meio de 
iniciativas de jardins comunitários, as cidades são capazes de conceber políticas para terra 
interina e uso de água complementar, além de melhorar o acesso à produtos locais, elevando a 
consciência pública sobre a saúde coletiva, segurança alimentar, além de criar materiais 
educacionais e de treinamento culturalmente adequados e fortalecendo as habilidades de 
construção e cooperação da comunidade (TWISS et al., 2003). 
Em ideia complementar, Tonkiss (2013) analisa que o planejamento urbano num 
contexto de austeridade (econômica) pode ser um desafio, mas ao mesmo tempo, há vários 
graus onde o planejamento alternativo pode se concretizar também, dentre os quais os jardins 
e hortas urbanas são muito relevantes. Para ele, a jardinagem feita no espaço urbano demostra 
a persistência de um modo de pensar comunitário que insiste em se fazer presente mesmo em 
meio à uma lógica hegemônica dos espaços privados. Tonkiss analisa os diferentes modos de 
experimentação urbana que ajudam a “escapar” da maneira homogênea de se (re)produzir o 
espaço (TONKISS, 2013). 
Dessa forma, a criatividade encontra espaço de existência mesmo em momentos 
inóspitos à sua presença. Entretanto, é importante destacar que o autor também analisa como 
esses espaços criativos e alternativos podem acabar sendo apropriados pelo pensamento 
neoliberal, onde a diferenciação espacial, marcada pela multiculturalidade, contribui para a 
valorização de determinada área urbana, numa lógica mercadológica (TONKISS, 2013). É 
relevante pensar nesses dois contextos ao mesmo tempo, para que possamos compreender o 
que ocorre nos espaços a nossa volta e fazer proposições críticas a respeito. No mesmo 
momento em que é essencial que se tenha um planejamento urbano alternativo e em diálogo 
com a comunidade (até mesmo produzido por ela), também é preciso verificar quando esse 
planeamento é apropriado para vender uma imagem de cidade e quais as consequências disso 
para a comunidade presente no espaço. 
 
28 Um outro exemplo são as Ecovilas. 
51 
 
 
 
Atitudes e projetos locais podem ocorrer nos espaços multifuncionais das cidades, 
aproveitando um mesmo ambiente para uma gama de atividades, que vão além das funções 
primárias para qual determinado lugar foi idealizado. De acordo com Araujo, Mello e Sbaffi 
(2019, p. 63), a cidade é um espaço por si só heterogêneo, formado por diferentes mosaicos 
que são vivenciados de maneiras distintas. Por isso, para as autoras, ademais o aspecto 
prático-funcional, a multifuncionalidade também significa que o espaço abrange dimensões 
materiais e subjetivas intercaladas, que ampliam o papel deles nas cidades e recuperam as 
vivências sociais dos habitantes (ARAUJO; MELLO; SBAFFI, 2019, p. 72). 
Neste aspecto, a Horta das Corujas, criada em 2012 e localizada numa praça pública 
na Zona Oeste de São Paulo, Brasil, é um exemplo de sucesso da multifuncionalidade da 
agricultura urbana numa grande metrópole. O espaço foi implementado através da 
organização dos moradores dos bairros da Vila Madalena, Vila Beatriz e Alto de Pinheiros, 
que começaram a conversar sobre o projeto por meio de uma página da internet chamada 
“Hortelões urbanos”. De acordo com Nagib (2019), o nome da horta comunitária se deve ao 
fato de a praça ser popularmente conhecida como “Praça das Corujas”, e o principal objetivo 
do empreendimento é de contribuir para reconectar os moradorese demais frequentadores da 
praça com à origem dos alimentos (NAGIB, 2019). Os moradores se revezam em trabalho 
voluntário para gerir o local, reconstruindo cursos d’água para irrigação e promovendo 
atividades de educação ambiental, utilizando as mais de 200 espécies de plantas alimentícias e 
medicinais presentes na horta. Sobre o aspecto comunitário e transcultural29 das hortas, 
Azevedo (2018, p. 116) complementa: 
 
A presença de uma horta, ou pequeno sítio em uma cidade pode 
ser considerada uma heterotopia30 na cidade moderna, mas antes do 
século XIX, hortas e até mesmo animais eram comuns nas cidades. 
Atualmente, movidas por novos agenciamentos, as hortas ressurgem 
como lazer ou como necessidade de subsistência em diversas 
paisagens urbanas. 
 
 
29 Diferente de uma paisagem multicultural, na qual cada cultura compartilha uma mesma área geográfica, porém 
estabelece territórios distintos e separados (como no caso de bairros étnicos ou guetos), a paisagem transcultural 
é aquela que compreende uma nova síntese sociocultural no espaço. De acordo com Azevedo (2018, p. 115), a 
paisagem transcultural é “capaz da produção de singularidades e pertencimentos a partir da hibridização de 
elementos ou aspectos simbólicos associados a diferentes culturas, podendo superar ou mesmo diluir seus 
aspectos distintivos no conjunto”. 
30 A heterotopia (hetero = outro + topia = espaço) é uma noção elaborada pelo filósofo Michel Foucault, que 
indica espaços que exercem a função da diferença. A heterotopia é uma utopia que se manifesta na vida real, e 
não apenas no imaginário. 
52 
 
 
 
Existem algumas ideias e conceitos que permeiam e possibilitam essas ações pontuais 
e a duração das cidades, dentre as quais podemos destacar: o reflorestamento e, como 
consequência a promoção de cidades biofílicas, o paisagismo ecológico, bem como a adoção 
de infraestruturas verdes e Soluções Baseadas na Natureza (SBNs). Sobre esses aspectos, Per 
Gunnar Røe e Mark Luccarelli (2016, p. 3) debatem que estão em ampla conexão com o 
surgimento do chamado Urbanismo Verde. Segundo os autores, essa corrente urbanística 
trabalha justamente com a relação entre o design urbano e a natureza, possibilitando a 
idealização e a construção de uma sensação de autoconsciência da cidade em seu contexto 
geográfico. Isto é, tanto a gestão, quanto o planejamento urbano passam a considerar medidas 
de gerenciamento que levem em conta o ambiente climático/natural no qual a cidade está 
inevitavelmente inserida, implementando ações de conservação dos recursos naturais e 
espaços verdes (RØE; LUCCARELLI, 2016, p. 1-5). 
Ainda segundo os autores, o discurso do Urbanismo Verde também se conecta à 
questões de cunho cultural, onde a terminologia “verde” remete às práticas culturais, 
influenciando a memória coletiva no contexto histórico da paisagem, tendo em vista que uma 
praça, um jardim, um parque, ou até mesmo uma árvore numa rua específica, enquanto 
componentes verdes do urbano, tem a potencialidade de guardar um valor simbólico, ligado às 
emoções e afetividades, para aqueles que por gerações vivenciaram situações diárias no local 
onde esses espaços verdes se encontram (RØE; LUCCARELLI, 2016). Além disso, a cor 
também pode estar associada a um determinado tipo de imagem da cidade a ser disseminada 
no nível da gestão urbana. 
Nesta perspectiva, quando pensamos numa cidade “verde”, imagens transitam pelo 
imaginário social e individual, identificando a cor à um aspecto do espaço que tem sido cada 
vez mais valorizado por suas características ecológicas e de sociabilidade para a duração das 
cidades. Um exemplo disso pode ser visualizado no prêmio “cidades/ capitais verdes” da 
Europa31, que por meio de critérios de seleção preestabelecidos, confere o título a cidades do 
continente europeu que tenham alcançado o patamar de manutenção dos espaços verdes em 
seu interior, além de outras medidas urbanísticas e energéticas para a mitigação do 
aquecimento global. 
Promover um sistema de premiações e reconhecimentos no nível internacional ao 
aspecto da natureza urbana, pode gerar também questionamentos e críticas com relação ao 
consumo do espaço. Neste sentido, é importante pensar os espaços verdes também dentro da 
 
31 European Green Capitals. Disponível em: <https://ec.europa.eu/environment/europeangreencapital/winning-
cities/>. Acesso em: 29 ago. 2021. 
53 
 
 
 
lógica capitalista. O maior desafio na busca por uma cidade durável e benéfica são os 
obstáculos econômicos (sobretudo no sul global), onde as cidades que obtém o título de 
sustentáveis (muitas vezes no norte global) passam a receber maiores investimentos de 
mercado, sendo a todo instante vendidas e consumidas como verdadeiros produtos do espaço 
capitalista. 
Essa crítica é feita sobretudo devido ao fato de que, em muitas ocasiões, cidades de 
países ricos recebem a titulação de sustentável ou verde, mas ao mesmo tempo, exportam 
insustentabilidade para outros contextos sociais, como no caso de indústrias multinacionais 
com sedes executivas nessas cidades, mas que produzem suas mercadorias em outros 
contextos socioambientais, não somente utilizando, como também poluindo os recursos 
naturais de localidades já há séculos deterioradas por contextos coloniais (LEFEBVRE, 2001, 
p. 116-117). 
Esse paradoxo não significa que as ações das cidades “verdes” para se tornarem 
sustentáveis não sejam benéficas na escala local, mas sim que, por vezes, também é 
necessário levar em conta as relações entre os sistemas urbanos globais. E nessa perspectiva, 
o atual sistema econômico teria de ser repensado para de fato promover sociedades mais 
justas (tanto socialmente, quanto ambientalmente). 
É interessante notar que nestes casos, o espaço urbano passa a ter um valor de uso e de 
troca que é incrementado pela presença do adjetivo verde. No contexto atual, as cidades 
passam a competir entre si, e se tornam a tal ponto protagonistas no mercado de investimentos 
que superam a noção do estado-nação, fato que levou a socióloga Saskia Sassen (2005) a 
produzir trabalhos sobre a denominada “cidade global”, na qual as dinâmicas e processos 
globais passam a ser territorializados nos grandes centros urbanos (SASSEN, 2005). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
54 
 
 
 
2.3.1 Natureza urbana 
 
Dentre as práticas contemporâneas de urbanismo que consagram a importância da 
natureza urbana, enquanto política ambiental, resultando em experiências que fortaleçam à 
preservação ambiental, o Urbanismo Ecológico surgiu como uma maneira de impulsionar as 
ideias já abordadas pelo Urbanismo Verde, no sentido de promover pesquisas teóricas e 
práticas que identifiquem os aspectos geográficos e ecológicos de uma determinada área, para 
promover uma maior união entre o espaço natural concreto e a ocupação urbana, além de uma 
maior conectividade entre os diversos elementos de natureza urbana presente nas cidades, 
tornando-as mais resilientes e biodiversas (vide Figura 7). 
 
 
Figura 7: Práticas urbanas aliadas a ecologia urbana e ao pensamento sistêmico. 
Fonte: Adaptado pela autora a partir de esquema do Ecological design Lab. 
 
Para tanto, em 2014, Gareth Doherty e Mohsen Mostafavi32 reuniram no livro 
“Urbanismo Ecológico”, autores que refletiram sobre sete premissas 1) Antecipar, 2) 
Colaborar, 3) Sentir, 4) Incluir, 5) Mobilizar, 6) Curar, 7) Adaptar; que ajudam a situar o 
debate e a pensar no espaço urbano em conexão com a comunidade e o ambiente 
biogeográfico (DOHERTY; MOHSEN, 2014). O livro foi (e tem sido) de grande base para 
pesquisas urbanísticas da atualidade, demostrando que o projeto é a síntese capaz de unir os 
 
32 Graduate School of Design, Universidade de Harvard. 
55 
 
 
 
princípios ecológicos, o urbanismo e as relações políticas e socioculturais na promoção de 
cidades mais sustentáveis. 
Por antecipar, os autores consideram prever os tiposde desafios socioambientais de 
uma determinada área, na qual pode-se projetar em conjunto com a colaboração da 
comunidade, que vivência e sente o lugar no dia- a dia. Dessa maneira, a inclusão social 
possibilita uma maior mobilização e engajamento. A população aprende mais sobre seu local 
de moradia, além de ter voz para ensinar conhecimentos já adquiridos ao longo do tempo 
também. Essa troca de informações permite a cura e a adaptação, que se relacionam a 
resiliência urbana. 
Ainda neste raciocínio, segundo a arquiteta paisagista Patrícia Akinaga (2014), o 
urbanismo ecológico surgiu em oposição ao denominado “Novo Urbanismo” dos Estados 
Unidos da década de 1980, cujo planejamento urbano era pautado para o automóvel e os 
edifícios multifamiliares numa lógica de densidade de serviços e moradias (AKINAGA, 
2014). Já o Urbanismo Ecológico apareceu ao final do século XX e início do século XXI, 
como consequência dos debates ambientais do período. É interessante refletir que os 
pesquisadores do Urbanismo Ecológico (e urbanismo verde) resgatam ideias como as de 
Frederik Law Olmstead ou Ian McHarg no pós-guerra, no que tange ao desenho urbano seguir 
o delineamento da natureza. Isso também foi refletido por Per Hedfors e Clas Florgård (RØE, 
2016, p. 197), que identificaram a relevância desses autores clássicos, pois ambos trouxeram 
conceitos-chave como agricultura e silvicultura, tecnologia, sociologia, conhecimento da 
natureza, arte e design para o planejamento urbano do século XX. 
Neste contexto, a ocupação do espaço urbano passa a englobar espaços verdes não 
somente como acessório ligado à beleza estética, mas principalmente no sentido de utilizar o 
espaço verde como estruturador da paisagem urbana, por meio de ferramentas da 
infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza (SBN). Algumas das infraestruturas 
verdes existentes atualmente são: paredes verdes, arborização, parques, praças e telhados 
verdes. Já as Soluções Baseadas na Natureza são práticas inspiradas na forma de agir típica da 
natureza. Isto é, a diferença entre os dois tipos de ferramentas consiste no fato de as SBNs 
tentarem mimetizar o funcionamento do sistema ecológico local, por seus próprios meios. Um 
exemplo disso são as construções de superfícies permeáveis e úmidas, que permitem um 
maior escoamento da água, como os jardins de chuva em área alagáveis. 
Com relação ao papel especifico dos jardins urbanos em termos de ecologia para as 
cidades, um autor que vem se destacando é o britânico Matt James, com seu conhecimento 
56 
 
 
 
prático sobre paisagismo e jardinagem. De acordo com James (2014:p.11), existem seis 
aspectos positivos em se considerar o “verde” dentro da estrutura urbana: 
1. Combater os malefícios do carbono em excesso, pois as folhas podem deter 
impurezas vindas com a poluição gerada por fábricas e veículos, de forma a 
dissolver essas impurezas no solo, com a ajuda da água das chuvas. Além disso, a 
vegetação também tem a capacidade de capturar grandes quantidades de gás 
carbônico no processo chamado fotossíntese, liberando oxigênio para a atmosfera; 
 
2. Melhorar o microclima urbano, pois a vegetação reflete a radiação solar, ao 
invés de a absorver (como ocorre em lugares intensamente asfaltados e com 
concreto, provocando ilhas de calor). Além disso, as árvores propiciam áreas 
sombreadas, de inegável redução térmica, auxiliando em lugares mais frescos para 
as cidades; 
 
 
3. Prevenir enchentes e garantir uma melhor gestão da água da chuva, uma 
vez que “o solo e a relva absorvem água da chuva, ajudando a reduzir 
alagamentos localizados. As plantas, especialmente as árvores, interceptam a 
chuva e desaceleram sua descida ao solo, o que, por sua vez, alivia a pressão sobre 
bueiros” (JAMES, 2014:p.12). Para isso, a manutenção da drenagem do solo é 
essencial, a fim de que ele não se torne compactado. 
 
4. Reduzir custos energéticos e melhorar o isolamento térmico, pois a 
vegetação tem a capacidade de, ao mesmo tempo, resfriar edificações no verão e 
as aquecer no inverno, o que representa uma redução no uso de ar condicionados e 
aquecedores; 
 
5. Conservar a água; tendo em vista as variadas formas de reciclagem hídrica 
num jardim (aproveitamento da água da chuva, direcionamento de água limpa 
proveniente de outros setores da cidade...); 
 
6. Propiciar espaço para a biodiversidade da fauna e flora urbana, pois o 
ambiente dos jardins é um ecossistema propício a existência de diversos tipos de 
57 
 
 
 
aves, insetos e outros animais essenciais para o equilíbrio ecológico e, até mesmo, 
para a nossa segurança alimentar (a garantia da diversidade genética por meio da 
polinização das plantas, por exemplo). James (2014, p. 15) enfatiza que, 
dependendo do tamanho e das características biogeográficas, “os jardins urbanos 
podem sustentar mais de 250 espécies de animais silvestres”. 
 
A partir dessas características, podemos observar que a presença da natureza urbana 
propicia benefícios que se multiplicam quando são planejados em conjunto no espaço urbano. 
Neste sentido, um grande nome no campo do paisagismo ecológico contemporâneo se refere 
ao chinês Kongjian Yu33 , que por mais de 20 anos vem estudando sobre a deterioração 
ambiental na China. YU tem várias publicações interessantes, como Padrão de Segurança 
Ecológica (1995) e Infraestrutura Ecológica, Planejamento Negativo e Cidades Esponja 
(2003), tendo esta última sido acolhida pelo governo chinês para implementar um sistema de 
restauração ecológica por todo o país. Além disso, Kongjian Yu também publicou em 2006 a 
obra “The art of survival: Positioning Contemporary Landscape Architecture Design”, na 
qual ele aborda os desafios impostos pela industrialização chinesa e como os conhecimentos 
milenares da China podem contribuir para o planejamento urbano atual, tendo em vista que a 
formação do país na Antiguidade está relacionada às plantações alagadiças do arroz. 
Neste sentido, Yu associa esses ambientes ancestrais ao desenvolvimento das cidades 
esponja, que utilizam o paisagismo ecológico para promover uma melhor vivência com os 
corpos d’água. Por isso, o autor afirma que a profissão de arquiteto paisagista confere a 
possibilidade de 1) Encontrar soluções para as crises energética e ambiental; 2) recuperar a 
identidade cultural de determinada área e; 3) aumentar nossa conexão espiritual com a terra 
(YU, 2006, p. 7). 
Um de seus projetos mais internacionalmente conhecidos é o do Red Ribbon Park34 na 
cidade de Qinhuangdao, localizado na área de 20 hectares de um antigo lixão a céu aberto. A 
construção foi um marco, pois utilizou o recurso visual da cor vermelha na idealização de um 
banco de fibra de vidro que permeia o parque de norte a sul, possibilitando que os 
frequentadores sigam “a fita vermelha”, que por sua vez acompanha o curso do rio no interior 
do parque, cuja mata ciliar foi restruturada (Figuras 8 e 9). Ademais, o local também funciona 
 
33 Fundador de Turenscape, uma das primeiras e maiores empresas privadas de arquitetura paisagística e 
urbanismo da China. 
34 Mais informações sobre este e outros projetos do Turenscape: 
https://www.turenscape.com/en/project/detail/336.html 
https://www.turenscape.com/en/project/detail/336.html
58 
 
 
 
como ponto de encontro entre as pessoas, que podem sentar no banco para descansar e 
conversar em meio às densas árvores no entorno. 
 
 
Figura 8: Red Ribbon Park, Qinhuangdao, China. 
Fonte: Turenscape. 
 
 
Figura 9: Mulher admirando as flores no Red Ribbon Park, Qinhuangdao, China. 
Fonte: Turenscape. 
 
Em análise complementar, os rios urbanos também são amplamente importantes para a 
temática do urbanismo ecológico. Na reportagem publicada pela revista Ciência e Cultura 
(2013), a engenheira agrônoma Leonor Assad destaca que o desenvolvimento das cidades no 
Brasil, assim como em outras realidades pelo mundo, ocorreua partir de seus rios, mas esse 
59 
 
 
 
conhecimento é pouco difundido, tendo em vista o descaso com os corpos d’água, que muitas 
vezes se encontram deteriorados pela poluição, bem como escondidos pela canalização ou até 
mesmo desmantelados35. Por esta razão, é crescente o volume de pesquisas sobre a história 
das cidades e de seus rios, que tentam resgatar a memória desses corpos hídricos por meio de 
práticas envolvendo diretamente o paisagismo ecológico e a educação ambiental. 
Um exemplo disso é o caso do rio Cheonggyecheon, localizado em Seul na Coréia do 
Sul. Em coreano, a palavra que nomeia este rio significa águas puras e, durante séculos, ele 
serviu de abastecimento às pessoas que moravam em seu entorno (PANZINI, 2013). No 
entanto, no século XX, com a separação entre a Coreia do Norte e a do Sul, após a Segunda 
Guerra Mundial, as margens do rio receberam diversos imigrantes que se instalaram na cidade 
de Seul, expandindo a densidade demográfica em níveis extremos, num contexto de falta de 
investimentos que ocasionou em moradias irregulares, em condições insalubres e sem 
saneamento básico no local (PANZINI, 2013). Na década de 1970, após o rio ter ficado 
poluído, as autoridades de gestão pública decidiram construir um viaduto e uma avenida, 
removendo a população que ali habitava, pois o aspecto deplorável do corpo hídrico não 
condizia com o processo de modernização que estava em curso na cidade. Dessa forma, o rio 
foi completamente desfeito, com obras de engenharia. 
Entretanto, no ano de 2002 o prefeito da cidade de Seul iniciou um processo de 
revitalização, retirando o viaduto e a avenida por meio de um projeto paisagístico que se 
pautou em reconhecer a ecologia local e resgatar o curso d’água através de uma nova 
canalização que permitisse aos habitantes da cidade um contato mais íntimo com este espaço. 
A obra foi finalizada em 2005, e é considerada um lócus da biodiversidade urbana (PANZINI, 
2013). Atualmente a área nas margens do Cheonggyecheon é marcada pela presença da mata 
ciliar, além de um parque linear de 8km de extensão, no qual ocorrem diversos eventos 
sociais. Além disso, as pessoas podem caminhar do centro à periferia da cidade, seguindo o 
caminho do rio. 
 
35 Em “Cidades nascem abraçadas a seus rios, mas lhes viram as costas no crescimento” (ASSAD, 2013). 
60 
 
 
 
 
Figura 10: Drenagem urbana sustentável e cobertura vegetal no Cheonggyecheon, Seul. 
Fonte: Depositphotos (c2009-2022). 
 
 
Figura 11: Festival das lanternas no Cheonggyecheon, Seul. 
Fonte: Expedia (c2022). 
 
 
 No contexto brasileiro, o conceito de ecogênese praticado por Fernando Chacel na 
década de 1990, também se relaciona às práticas do paisagismo ecológico da atualidade. 
Ecogênese se refere a reconstituir os ecossistemas que passaram por algum tipo de distúrbio 
ou degradação, fazendo com que espaços como os jardins, por exemplo, tenham espécies 
vegetais organizadas em harmonia com o seu habitat de origem, com o intuito da regeneração 
(PANZINI, 2013, p. 640). Para a ecogênese ser posta em ação, Chacel reunia uma equipe 
multidisciplinar, com profissionais de diversas áreas e campos do saber. 
Segundo Panzini (2013, p. 644), um de seus mais expoentes trabalhos ocorreu nas 
margens da lagoa da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde Chacel criou dois parques: Gleba (1990) 
e Professor Mello Barreto (1998). Foi um desafio bem sucedido, pois o paisagista e sua 
61 
 
 
 
equipe conseguiram recuperar a margem da lagoa, através da reintrodução da cobertura 
vegetal (PANZINI, 2013, p. 644). 
 
Figura 12: Parque ambiental Professor Mello Barreto, Barra da Tijuca-RJ. 
Fonte: Wikimapia (s.f.). 
 
 
Figura 13: Vegetação no Parque ambiental Professor Mello Barreto- Barra da Tijuca-RJ. 
Fonte: Ecogênese (2015). 
 
 
Além disso, a vegetação contribuiu para restabelecer as dinâmicas ecossistêmicas da 
área pantanosa no entorno da lagoa, bem como criar um caminho de transição entre a lagoa e 
a parte edificada (PANZINI, 2013). Atualmente o parque serve também como lugar de 
educação ambiental, oferecendo inúmeras atividades sociais na Barra da Tijuca, como pode 
ser visto nas Figuras 12 e 13. 
 
 
62 
 
 
 
2.3.2 Cidades biofílicas: o lugar da natureza urbana no imaginário urbano emergente 
 
Dentro do contexto da ecologia e das práticas urbanas, existe também a dimensão 
psicológica e subjetiva que conecta cada indivíduo ao espaço no qual ele vive e transita. Para 
o Geógrafo francês Eric Dardel (1899-1967), isso condiz com a realidade geográfica, que é o 
lugar concreto das vivências do ser humano, “terras que ele pisa ou onde trabalha, o horizonte 
do seu vale, ou a sua rua, o seu bairro, seus deslocamentos cotidianos através da cidade” 
(DARDEL, 1990, p. 34). Ainda de acordo com o geógrafo, essa multiplicidade de vivências 
por meio dos elementos geográficos, encontram na paisagem, a sua síntese: “Muito mais do 
que uma justaposição de detalhes pitorescos, a paisagem é um conjunto, uma convergência, 
um momento vivido, uma ligação interna, uma impressão, que une todos os elementos” 
(DARDEL, 1990, p. 30). 
 Em 2001, a Geógrafa Lívia de Oliveira escreveu sobre essas questões, em seu artigo 
“Percepção do meio ambiente e Geografia” (DE OLIVEIRA, 2001). Nele, ela enfatiza os 
primeiros esforços mundiais em compreender “como um grupo cultural percebe, quer como 
indivíduo, quer como grupo o seu meio ambiente” (DE OLIVEIRA, 2001, p. 15), através do 
trabalho da UNESCO no projeto Man and the biosphere, em colaboração com os intelectuais 
Ian Burton e Anne Whyte, resultando na primeira publicação do gênero: Environmental 
Perception Research, nas décadas de 1970-1980. 
É interessante notar que justamente essa dimensão subjetiva possibilita 
compreendermos que não existe paisagem sem o ser humano, pois é ele quem confere sentido 
ao seu espaço geográfico. A isso Dardel denominou de geograficidade (1990, p. 31), ou seja, 
a materialização das relações sociais no espaço concreto que formam as paisagens que 
conhecemos (e as que ainda conheceremos). Nesta lógica, existe uma relação dialética entre 
sociedade e espaço, na qual as dinâmicas sociais produzem o espaço, mas ao mesmo tempo, o 
espaço produz a sociedade, pois ele pode influenciar em novas maneiras de vida, adaptadas à 
determinada realidade física (como é o caso da concepção das cidades resilientes, por 
exemplo, no qual a gestão pública, planejadores e habitantes devem se adaptar ao contexto 
ambiental, evitando riscos para a população). 
 
Sobre isso, De Oliveira (2001, p. 18) afirma: 
 Deve-se considerar a paisagem inseparável da observação e da cognição. Na 
paisagem o sujeito e o objeto são inseparáveis, não apenas porque o objeto espacial 
63 
 
 
 
é constituído pelo sujeito, mas também, porque o sujeito está envolvido pela 
paisagem; isto é, o sujeito está envolvido por e está dentro da paisagem. 
 
Em paralelo, Besse (2014, p. 41-42) afirma que “a paisagem é o elemento onde a 
humanidade se naturaliza e onde a natureza se humaniza (e se simboliza)”. Neste sentido, o 
autor, assim como outras referências trazidas nos subitens anteriores, identifica que a 
paisagem é o meio pelo qual uma outra natureza (ou segunda natureza, de acordo com Santos, 
1992), simbólica, é constituída como produto das relações socioambientais. Dessa forma, as 
cidades, enquanto paisagens urbanas, representam a concretude dessas relações e possibilitam 
sentimentos de filia36 aos seus cidadãos. 
Neste contexto, o termo cidades biofílicas, apresentado por Timothy Beatley (2011)37, 
no livro “Biophilic Cities: Integrating Nature into Urban Design and Planning”, é 
interessante, pois o autor considera as relações de filia sob outra perspectiva no espaço 
urbano, indo além da filia com determinado espaço concreto (como no caso de topofilia), mas 
especificando o elo sentimental com a natureza urbana/ espaços verdes. Cabedestacar que o 
termo biofilia significa originalmente amor pela vida e foi pensado por Edward O. Wilson38, 
ecologista norte-americano, em 1984. Em sua obra, Beatley (2011, p. 51) discute sobre como 
o desenho urbano pode possibilitar aos habitantes desenvolverem atividades ao ar livre, em 
meio à vegetação e corpos hídricos, além de oferecer um estilo de vida que os deixe aprender 
com a “natureza” e a comprometer-se com ela. Por isso, proporcionar a experiência dos 
cidadãos na natureza urbana é benéfico para o desenvolvimento da biofilia na paisagem das 
cidades contemporâneas. 
Beatley (2011, p. 50) também afirma que uma cidade biofílica é aquela cuja a gestão e 
os demais agentes sociais enxergam o acesso à natureza urbana através da ótica da justiça 
ambiental, na qual a natureza é vista como essencial para se ter uma vida significativa e feliz 
e, por isso, é um direito de todos os bairros, sem distinção social e econômica. Uma cidade 
biofílica encoraja seus habitantes a caminhar pelas ruas, exercitando a percepção ambiental 
por meio da imersão da vegetação aliada ao urbanismo. Sobre este aspecto, o autor argumenta 
 
36 Philia retirado do tratado de Ética a Nicômaco de Aristóteles, o termo é traduzido geralmente como 
“amizade”, e às vezes também como “amor”. Embora de fato o uso deste termo é muito mais amplo do que o 
primeiro. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Philia>. Acesso em: 2 set. 2021. 
37 Timothy Beatley ajudou a criar a rede de Cidades Biofílicas, em um projeto que inclui 8 cidades do mundo. 
São elas: Singapura; Vitoria-Gasteiz, Espanha; Oslo, Noruega; Portland, EUA; São Francisco, EUA; 
Birmingham, Inglaterra; Nova Iorque, EUA; Seattle, EUA. 
38 (BEATLEY, 2011 apud RØE; LUCCARELLI, 2016). 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Philia
64 
 
 
 
que “a habilidade de andar a pé ou de bicicleta, ou de transitar por um parque ou floresta 
urbana é essencial” (BEATLEY, 2011, p. 50, tradução livre). 
Em análise semelhante, Besse (2014) afirma que a paisagem é o que nos permite 
produzir o encontro entre a “cidade” e a “natureza”. De acordo com o autor: 
 
As preocupações ecológicas e ambientais são hoje determinantes, como sabemos. A 
natureza já não significa mais apenas o “outro” da cidade, essa coisa verde mais ou 
menos selvagem que é encontrada no exterior do universo urbano. A natureza está 
na cidade, e está presente por um lado, na forma de preocupações quanto à qualidade 
das águas e do ar, por exemplo, por outro lado na forma de projetos de parques e 
jardins públicos e, enfim, na forma de reflexões e experiências relativas à 
diversidade das essências vegetais que podem ser instaladas nela de forma 
sustentável. Em outros termos, a cidade é, hoje, um meio natural híbrido, de um tipo 
particular (BESSE, 2014, p. 58-59). 
 
Em complementação, Beatley (2011), identifica 6 princípios39 norteadores das cidades 
biofílicas: 
• 1º Princípio: Natureza em abundância localizada próxima a um grande 
número de habitantes; 
• 2º Princípio: Conexão dos cidadãos com flora e fauna nativas; 
• 3º Princípio: Interligar espaços ao ar livre promovendo e facilitando o uso da 
população; 
• 4º Princípio: Ambientes multissensoriais; 
• 5º Princípio: Educação no campo da natureza; 
• 6º Princípio: Investimento em infraestrutura que favoreça a conexão entre 
cidade e natureza. 
Portanto, no contexto dessa pesquisa, a biofilia no meio urbano, pressupõe que a 
paisagem nas cidades seja formada em conjunto com elementos da natureza urbana, que 
propiciarão uma percepção ambiental distinta no nível do espaço vivido. Com relação a este 
aspecto, em sua obra clássica The experience of nature, os autores Rachel e Stephen Kaplan 
(1989), explicam através de exemplos e entrevistas, as experiências com a natureza em 
diversos cenários, destacando que muitas vezes no imaginário social, a natureza, é vista como 
um ambiente natural sem edifícios, distante das cidades. Apesar do livro ter sido escrito no 
 
39 Disponível em: <https://wikihaus.com.br/blog/cidade-biofilica-integrando-natureza-ao-planejamento-
urbano/>. Acesso em: 3 set. 2021. 
https://wikihaus.com.br/blog/cidade-biofilica-integrando-natureza-ao-planejamento-urbano/
https://wikihaus.com.br/blog/cidade-biofilica-integrando-natureza-ao-planejamento-urbano/
65 
 
 
 
final do século passado, este pensamento ainda se encontra presente na sociedade atual, e ele 
vai em oposição às ideias da cidade biofílica. Por exemplo, no livro Habitar, do arquiteto 
finlandês Juhani Pallasmaa (2017, p. 51-54), ele argumenta que: 
 
Parques e praças silenciam o murmúrio contínuo da cidade, permitindo que 
escutemos o som da água em uma fonte ou o gorjeio dos pássaros. Os parques criam 
um oásis no deserto urbano e nos possibilitam sentir a fragrância das flores e o 
aroma das ervas. Eles tornam possível que estejamos simultaneamente rodeados 
pela cidade e fora dela; são metáforas da ausência da cidade e, ao mesmo tempo, 
naturezas em miniatura e imagens de um paraíso construído (PALLASMAA, 2017, 
p. 52, grifo da autora). 
 
É interessante notar que Pallasmaa (2017), considera um espaço verde como o parque, 
como ausência de cidade. Essa é uma percepção individual do autor, com base em suas 
leituras e suas experiências cotidianas, e também é válida. No entanto, não representa os 
esforços do conceito de cidades biofílicas em trazer a “natureza” de fato para a consciência da 
população que vive nas cidades, estas que são e produzem uma forma específica de natureza 
urbana. Neste sentido, Kaplan e Kaplan (1989) abordam a separação ser humano e natureza 
presente na cultura ocidental, na qual um ambiente urbano, e por sua vez repleto de 
construções, por vezes não representa na consciência coletiva, a natureza. 
Sobre isso, os autores argumentam: 
 
A justaposição de uma natureza próxima ao local de moradia atinge algumas 
pessoas como uma contradição. A palavra natureza é frequentemente 
reservada para áreas que não foram afetadas por influência humana e que 
tem árvores e outras vegetações numa extensão considerável. O que está 
próximo para a maioria das pessoas, na maioria das vezes, dificilmente 
poderia ser descrito sem influência humana e é improvável que sejam áreas 
vastas. No entanto, a vegetação pode muito bem estar presente, e talvez essa 
característica em si mesma se qualifique para a designação de "natureza", 
mesmo que esteja à porta da casa de alguém. As questões aqui não são 
simplesmente semânticas. O fracasso em reconhecer as satisfações e 
benefícios que o ambiente natural próximo ao local de moradia pode 
oferecer tem consequências importantes. Isso significa que muitas vezes o 
paisagismo é considerado apenas uma "amenidade" opcional e supérflua. Ter 
66 
 
 
 
coisas verdes por perto é inegavelmente agradável, mas muitas vezes é 
considerado menos essencial no contexto de muitas paisagens urbanas 
(KAPLAN; KAPLAN, 1989, p. 150, tradução livre). 
 
 Ao longo do livro, os pesquisadores mostram evidências com bases em trabalhos de 
campo e entrevistas, de como a presença da natureza urbana é vital para o bem-estar físico e 
mental das pessoas nas cidades, estando amplamente conectada à percepção e experiência. E, 
por isso, a cobertura vegetal, os corpos d’água e demais elementos devem ser considerados 
como estruturadores da paisagem urbana, não somente por oferecer amenidades, ou tornar 
determinada cidade sustentável e resiliente, mas também, pelos aspectos psicológicos que 
interferem na qualidade de vida de cada cidadão. 
A seguir são apresentadas algumas imagens, com exemplos de biofilia por lugares 
onde passei. São fotografias que representam como a natureza urbana está presente no 
cotidiano, moldando nossas paisagens urbanas. A primeira série de fotos é das cidades do Rio 
de Janeiro e Niterói, Brasil. E foram tiradas pelos caminhos urbanos que percorri 
cotidianamente entre 2014 e 2020, seja para ir àuniversidade, seja a vista da minha janela 
durante o isolamento social na pandemia. São contextos urbanos nos quais a presença de 
espaços verdes se torna essencial para a percepção de diferentes aspectos tais como: perceber 
a mudança das estações, a floração de uma árvore, o barulho dos pássaros, o vento a levantar 
as folhas do chão e os raios de sol a incidir nas árvores, por exemplo. 
 
 
Figura 14: Exemplos de biofilia na cidade do Rio de Janeiro e Niterói-Brasil. 
Fonte: Arquivo pessoal. 
67 
 
 
 
 
 
Figura 15: Exemplos de biofilia (verão-2019) em Oslo, na Noruega. 
Fonte: Arquivo pessoal. 
 
A segunda série de fotos, representa exemplos de biofilia na cidade de Oslo, Noruega. 
Também foram tiradas por lugares onde percorri durante o verão de 2019 (junho-agosto). O 
rio Akerselva, com suas águas, é como uma divisão entre a parte oeste e leste da cidade. O 
metrô percorre espaços a céu aberto, por meio de florestas urbanas (Oslomarka), algumas 
construções pela cidade são cobertas por vegetação, possibilitando interpretar a arquitetura e 
natureza em uma síntese. 
 
 
 
 
 
 
 
 
68 
 
 
 
CAPÍTULO 3: UMA VISÃO SOCIOCULTURAL DA NATUREZA URBANA EM OSLO, 
NORUEGA E RIO DE JANEIRO, BRASIL 
 
Como foi visto ao longo do capítulo 2, as relações espaciais de modificação do 
ambiente natural ocorreram progressivamente, sendo parte da história humana num 
movimento que perpassa diversos períodos históricos. A perspectiva analítica abordada nesta 
pesquisa, delimitou um recorte temporal a partir do século XIX, analisando a lógica de 
incorporação dos espaços ditos naturais aos processos de urbanização e industrialização de 
alguns países afluentes do norte global, e posterior disseminação cultural e econômica do 
modelo desenvolvimentista para outras realidades planetárias, que se adaptaram de acordo 
com suas próprias culturas e modos de funcionamento político-social. 
Refletir sobre o termo sociocultural é essencial para compreender os fenômenos que 
envolvem os componentes sociais e culturais de uma determinada comunidade. Sendo assim, 
neste capítulo 3, buscou-se investigar os componentes socioculturais40, presentes nas 
realidades urbanas de Oslo e do Rio de Janeiro, a fim de analisar como eles contribuíram e 
contribuem para a organização social e espacial das duas cidades, influenciando tanto na 
constituição da paisagem, como também em alguns dos significados sociais dos espaços 
verdes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
40 Tais como os espaços verdes e as tradições populares que os permeiam; as Leis referentes a gestão e 
planejamento da vegetação no meio urbano; alguns termos linguísticos que simbolizam a conexão entre a 
população urbana e a natureza, e como a gestão urbana utiliza a natureza em benefício da imagem da cidade. 
69 
 
 
 
3.1 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DE OSLO 
 
A Noruega é um país do norte europeu que, conjuntamente com a Dinamarca e a 
Suécia, forma a península da Escandinávia. Com pouco mais de 5 milhões de habitantes, a 
Noruega é marcada pela presença de um longo e rigoroso inverno e verões curtos e amenos. O 
país possui uma vasta extensão de norte a sul, e a sua zona costeira abrange cerca de 103,000 
quilômetros de comprimento, sendo considerada a segunda maior do mundo 41. 
Sua capital, a cidade de Oslo42, situada no sudeste do país, conta com uma população 
de aproximadamente 680.000 habitantes de acordo com o censo de 201943. Localizada numa 
das extremidades do fiorde44, Oslo possui uma ampla relação com o ambiente geográfico do 
qual faz parte e, no passado, a cidade foi gradualmente se constituindo por intermédio dos 
seus rios e córregos para o transporte da madeira retirada da floresta, produto esse que foi, 
durante muito tempo, a base econômica local, tendo em vista que era um artefato essencial 
para a construção das casas e dos navios, além de ter sido uma importante fonte energética 
(SYSE, 2016). 
No geral, as florestas já possuíam grande relevância para a Noruega, desde muitos 
séculos. Até mesmo devido a característica geográfica do país, com inúmeras áreas 
montanhosas e de difícil acesso, a urbanização ocorreu de maneira tardia, fragmentada e 
concentrada em pequenos núcleos, onde as florestas e os rios eram o único caminho de 
ligação entre os vilarejos nas regiões mais interioranas. Entretanto, foi com Henrik Ibsen 
(1828-1906), poeta e dramaturgo norueguês, que o conceito de frilufsliv aprofundou a 
importância da natureza no contexto social da nação em formação (ELGVIN, 2009). De 
acordo com Elgvin (2009), numa tradução literal para outros idiomas, frilufstliv diz respeito a 
“vida ao ar livre”, porém esse termo significa muito mais do que isso: 
É uma total apreciação da experiência que alguém tem ao se comunicar com o 
ambiente natural, não por esporte ou recreação, mas por seu valor no 
 
41 Disponível em: <https://www.norwegianamerican.com/norway-is-longer-than-you-think/>. Acesso em: 20 jun. 
2021. 
42 Oslo foi fundada como uma cidade no final da Era Viking no ano de 1040 com o nome de Ánslo. Depois de 
ser destruída por um incêndio em 1624, durante o reinado do rei Christian IV, uma nova cidade foi construída 
mais perto da Fortaleza de Akershus e batizada de Christiania em homenagem ao rei. E em 1925, a cidade 
recebeu o nome de Oslo (https://www.nasjonalmuseet.no/). 
43 Disponível em:<https://ec.europa.eu/environment/europeangreencapital/winning-cities/2019-oslo/>. 
44 Oslofjorden: O Fiorde de Oslo é uma grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas, que vai do 
Skagerrak aproximadamente na direção norte até a cidade de Oslo. O Oslofjord exterior vai do farol Færder no 
sul até Hurumlandet, onde o fiorde se divide em Drammensfjord e no interior Oslofjord (Original em: 
https://snl.no/Oslofjorden). 
 
https://www.nasjonalmuseet.no/
https://snl.no/Oslofjorden
70 
 
 
 
desenvolvimento de todo o ser espiritual e físico. Frilufstliv é a plena identificação e 
realização do corpo e da alma que uma pessoa experimenta quando imerso na 
natureza afastada dos núcleos urbanos. (...) (ELGVIN, 2009, p. 1, tradução livre 
e grifo da autora). 
 
No legado literário de Ibsen, o poeta retratou a natureza de maneira a identificar nela 
as emoções humanas. Além disso, sua obra, como parte do movimento realista, também 
descrevia minuciosamente o ambiente, destacando a importância do friluftsliv para a 
constituição física e mental de seus personagens, influenciando a forma como seus leitores se 
identificavam com a história (ELGVIN, 2009). Da literatura, este termo foi levado para a 
pintura, na qual um grande expoente foi o artista e horticultor Nikolai Astrup (1880–1928), 
que se dedicou a representar o meio ambiente em sua terra natal, Jølster (região oeste do país), 
com cores fortes e expressivas, de modo a transmitir através de suas pinturas, a vibrante vida 
ao ar livre e os costumes45 da área rural.46 
Em 1900, foi a vez do explorador e cientista Fridtjof Nansen popularizar ainda mais a 
noção de friluftsliv, ao retornar de uma expedição científica ao polo norte e publicar seus 
testemunhos de viagem numa série de livros (SAMUELSEN, 2010). Nessa perspectiva e de 
acordo com o site oficial da enciclopédia norueguesa47: 
A sua apresentação clara e lógica é sustentada em todas estas obras por uma série de 
desenhos que, para além de serem tecnicamente bons, também testemunham um 
bom sentido da forma e um profundo sentido da natureza. Com Friluftsliv (1916) 
Nansen quis despertar nos jovens o desejo de viajar pelas montanhas e pelos campos 
(LEKSIKON…, 2021, tradução livre). 
 
Apesar de, em sua essência, o friluftsliv, representar uma experiência transcendental 
entre o ser humano e o meio, numa natureza localizada distante das fronteiras urbanas, o 
termo foi ganhando espaço na cultura diária do país, sendo relacionado também às 
experiências com a natureza urbana. Neste sentido, autores como Skjeggedal,Vistad e Thorén 
(2019, p. 2-3), abordam o fato do friluftsliv contemporâneo englobar os espaços intraurbanos, 
como os parques públicos, as praças e os locais de caminhada (SKJEGGEDAL; VISTAD; 
THORÉN, 2019, p. 2-3). 
 
45 Midsommer fetivalen- O festival do solstício de verão, foi uma grande temática em suas obras. 
46 Disponível em: <https://www.clarkart.edu/exhibition/detail/nikolai-astrup>. Acesso em: 20 jun. 2021. 
47 Disponível em: <https://snl.no/Fridtjof_Nansen>. Acesso em: 20 jun. 2021. 
71 
 
 
 
Na recente publicação (2019) Planlegging for nærtur og folkehelse48, os autores 
consideram que as cidades norueguesas devem ter um planejamento urbano que dedique mais 
espaço para a caminhabilidade em meio a vegetação, facilitando e estimulando o 
deslocamento a pé nas proximidades dos locais de residência (SKJEGGEDAL; VISTAD; 
THORÉN, 2019, p.2-3). Dessa maneira, a vegetação seria um tipo de atrativo no meio urbano, 
uma maneira de exercer o friluftsliv cotidianamente, para que as pessoas se sintam 
confortáveis em percorrer suas distâncias, permeadas de infraestruturas verdes e, sem 
necessariamente a utilização de automóveis, por exemplo (SKJEGGEDAL; VISTAD; 
THORÉN, 2019). 
Somando-se a isso, Nilsen (2008, p. 11), discute no artigo Children in nature: Cultural 
ideas and social practices in Norway49, que o estímulo à natureza no contexto norueguês, é 
algo presente desde a infância, onde as práticas sociais num processo de (re) produção cultural 
consideram as crianças e os jovens como essenciais tanto na valorização da natureza, quanto 
na propagação de conhecimentos sobre a geografia local (NILSEN, 2008). A autora debate a 
existência do Livro Branco50 do Ministério do Meio Ambiente da Noruega que trouxe o 
friluftsliv para o debate parlamentar nos anos 2000 relacionado a essa temática: 
As questões ambientais e de saúde estão no topo da agenda. Por exemplo, afirma-se 
que o governo trabalhará para ‘aumentar as oportunidades de crianças e jovens de se 
desenvolverem física, mental e socialmente, brincando, caminhando e 
experimentando a natureza (...). (NILSEN, 2008, p. 11, tradução livre). 
 
Neste sentido, toda essa a cultura de acesso aos espaços florestados, além do passado 
agrário do país, influenciou no contexto histórico que propiciou a criação de uma ampla rede 
de espaços verdes na malha urbana de Oslo, que se desenvolveu sobretudo no século XX. 
Idealizada, principalmente, a partir dos movimentos nacionalistas e românticos, que 
pretendiam materializar no espaço urbano a essencialidade da nacionalidade norueguesa 
(SYSE, 2016). 
Em complementação, Røe e Luccarelli (2016, p. 2, tradução livre) argumentam que: 
 
48 “Planejando para a caminhada e a saúde pública”, tradução livre. 
49 “Crianças na natureza: ideias culturais e práticas sociais na Noruega”, tradução livre. 
 
50 É importante destacar que a cultura norueguesa preza pela construção da independência das crianças frente às 
adversidades diárias. E isso se reflete pela forma como o ensino e a educação ambiental são geridos, com base 
nos aspectos geográficos e climatológicos do país, tendo em vista que as crianças são ensinadas desde cedo a se 
portar em ambientes de neve e florestas de tundra densas. É muito comum os jardins da infância terem dias 
específicos da semana nos quais as aulas são realizadas ao ar livre, no espaço florestal, mesmo durante o intenso 
inverno. 
72 
 
 
 
Embora seja inegável que Oslo tenha sido marcada por muitas das mesmas práticas 
e resultados não sustentáveis que caracterizaram outras cidades do mundo ocidental, 
afirmamos que Oslo também tem uma longa história em ser uma 'cidade verde' tanto 
no sentimento de uma forte autoconsciência com relação a sua configuração 
geográfica dentro de um contexto mais amplo, como também em sua longa tradição 
de conservação dos recursos naturais e espaços verdes. Significativamente, "verde", 
neste sentido, está relacionado à cultura e à memória cultural - ou seja, a práticas, 
paisagens e monumentos que fornecem um contexto histórico para a identificação 
com o lugar. Isso constitui um recurso importante na construção de um discurso 
urbanista verde local. 
 
No século final do XIX e início do XX, a chamada Oslomarka51, área florestada que 
circunda a cidade, passou a representar bem essa dinâmica sociocultural, na qual as florestas 
foram ressignificadas, transmitindo a sensação de pertencimento social, pois era esse o espaço 
que simbolizava a “alma” do país52. Tanto a classe operária, quanto os intelectuais da época, 
passaram a utilizar a floresta urbana para uma diversidade de atividades, desde o esqui até a 
escrita de suas reflexões e contos de fada (SYSE, 2016). 
De acordo com a pesquisadora Karen Syse (2016, p. 48, tradução livre): 
Oslomarka é uma área que contém lugares onde as pessoas internalizam significados 
e identidades, é uma área importante para as ideias de patrimônio cultural e também 
de nacionalidade e, nas últimas décadas, também se tornou uma área importante para 
a biodiversidade. 
 
Ainda de acordo com Syse (2016, p. 58-59, tradução livre): 
O ano de 1898 foi um ponto de virada para os cidadãos de Oslo, com a 
inauguração do Holmenkollbanen (um serviço de bonde de Marjorstuen até 
Holmenkollen), que é uma boa entrada para a floresta. Marka, desde então, 
 
51 Em nórdico antigo, Marka significava 'floresta', ou 'fronteira’. Atualmente o termo é usado para designar o 
campo externo de uma cidade, mais frequentemente o terreno florestal urbano. (Para mais informações: 
<https://ordbok.uib.no/perl/ordbok.cgi?OPP=+mark&ant_bokmaal=5&ant_nynorsk=5&bokmaal=+&ordbok=be
gge>). 
 
52 É interessante observar que toda essa dinâmica simbólica ocorreu por todo o país, nas florestas no contexto 
urbano das cidades. Um outro exemplo de ressignificação se encontra em Trondheim, onde a Bymarka também 
possui uma grande importância cultural e ambiental para a cidade. 
https://ordbok.uib.no/perl/ordbok.cgi?OPP=+mark&ant_bokmaal=5&ant_nynorsk=5&bokmaal=+&ordbok=begge
https://ordbok.uib.no/perl/ordbok.cgi?OPP=+mark&ant_bokmaal=5&ant_nynorsk=5&bokmaal=+&ordbok=begge
73 
 
 
 
tornou-se acessível a todos. E, a partir disso, toda uma nova área suburbana 
se desenvolveu ao longo das linhas de bonde. 
 
Durante todo o século XIX não havia uma ampla tradição em construir parques na 
cidade (JØRGENSEN, 2018; THOREN, 2016). Os poucos que existiam eram construídos por 
cidadãos, associações ou pelo Tribunal Real, como por exemplo o The Promenade, idealizado 
pela associação Oslo Byes Vel, em 1810- 1820, além do complexo de Bygdøy, desenvolvido 
como um parque público pela Corte Real a partir de 1837 (JØRGENSEN, 2018; THOREN, 
2016). Até 1814, Oslo, que se chamava Christiania, ainda era uma cidade de pequeno porte 
com cerca de 10 mil habitantes, pertencente ao reino Sueco-Norueguês. A cidade não possuía 
as bases necessárias para a criação de parques, diferentemente do que ocorreu em outros 
lugares da Europa, como visto no capítulo 2. Além disso, não haviam grandes castelos com 
jardins em Oslo, que poderiam se tornar um parque público, com exceção do Slottsparken, 
criado em 1840 para servir como jardim do palácio sede da monarquia – que se transformou 
em parque público, nos dias atuais. 
 
 
Figura 16: Slottsparken. 
Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
74 
 
 
 
De acordo com Jørgensen (1997, p. 245, tradução livre): 
 A história da arte de jardim na Noruega ainda não foi escrita. Um 
observador indiferente pode perguntar se há alguma história para registrar, 
porque a arte do jardim não é o que impressiona quando você visita o país. 
Cenários e paisagens naturais, ao invés de jardins, são os motivos mais 
comuns para visitar a Noruega. Mas, quando você olha um pouco mais de 
perto, na verdade existem jardins, e eles têm uma história. Não é a história 
dos jardins do palácio real ou das grandes propriedades dos príncipes. Olharpara a história dos jardins na Noruega significa procurar as nuances mais 
sutis. 
A Noruega foi uma província da Dinamarca do século XIV a 1814, e quase 
destituída durante a maior parte dos séculos XVI e XVII, quando a arte do 
projeto de jardins floresceu em outras partes da Europa. Portanto, 
dificilmente havia designers de jardins profissionais na Noruega até o final 
do século XIX. 
 
Por outro lado, o século XX representou em uma grande modificação no fazer urbano 
norueguês, na qual novas infraestruturas foram implementadas, com o intuito de transformar a 
capital da Noruega em um epicentro da inovação e natureza. Até certo ponto, a profissão 
norueguesa de arquitetura paisagística conseguiu alcançar uma posição central no 
planejamento e design urbano e rural. Ao contrário do contexto da Europa central, onde a 
tradição dos jardins é mais antiga, na Noruega, a profissão de arquiteto paisagista foi 
estabelecida e apoiada no início do século XX, por uma educação de nível universitário, tendo 
em vista o crescente contexto de urbanização do país (JØRGENSEN, 2011). 
Isso estava intimamente relacionado à ideologia política do Partido Trabalhista 
norueguês, que formou a base da social-democracia no país (JØRGENSEN, 2011). Uma 
noção central do movimento era a igualdade em todos os aspectos da vida em comunidade, no 
qual o papel dos paisagistas e horticultores era o de projetar para que todos os cidadãos 
recebessem benefícios sociais iguais, e no qual os espaços verdes passaram a fazer parte do 
bem-estar urbano, como parte do allemannsretten, ou o direito de acesso público, instituído na 
legislação do país (JØRGENSEN, 2011, p. 254). 
Na primeira metade do século, os processos de idealização e construção se 
configuravam numa narrativa paisagística urbana, tecida por uma série de sujeitos, desde 
planejadores urbanos, horticultores e até mesmo escultores. Neste sentido, um ponto de 
75 
 
 
 
destaque foi a criação do Departamento de Parques em 1916, cujo o arquiteto paisagista 
Marius Røhne foi nomeado chefe encarregado de planejar as áreas verdes de Oslo, ocupando 
o cargo de Chefe do Departamento de Parques até 1948 (JØRGENSEN, 2018). Røhne foi o 
primeiro arquiteto de jardins/ paisagens na Noruega e fez um esforço pioneiro para tornar 
Oslo uma cidade verde moderna. 53 
Cabe observar que o que antes era fragmentado, gradualmente assumiu uma 
abordagem mais sistemática sob a liderança de Røhne. Ele se preocupou com Oslo como um 
todo: desenvolveu áreas de parque nas partes leste e mais pobres, ao longo do rio Akerselva, 
transformando a cidade em um lugar onde o planejamento possibilitava os espaços verdes 
para o público dentro e ao redor das áreas residenciais, sem distinção de classes sociais. Essa 
‘cultura de parques’, pretendia nutrir o sentimento de que as pessoas eram pertencentes à 
paisagem urbana e dessa forma também cuidassem da natureza local (JØRGENSEN, 2018). O 
planejamento e a criação de espaços verdes ocorreu com o apoio de pesquisas científicas e 
botânicas sobre a flora norueguesa, para garantir a implementação de espécies adequadas ao 
meio urbano. Sendo assim, foram retiradas todas as cercas ao redor das áreas verdes, 
mantendo um alto padrão de manutenção da vegetação (JØRGENSEN, 2018). 
A importância dada aos parques e demais espaços verdes, bem como a qualidade da 
habitação, foi o esforço conjunto entre o Departamento de Parques e o Setor de Planejamento 
Urbano. Isso nos traz ao segundo sujeito desta narrativa: Harald Hals, planejador da cidade de 
Oslo de 1926 a 1947 (JØRGENSEN, 2018). Ele participou ativamente da modernização da 
cidade, e pensava que a inclusão do componente verde na paisagem era essencial para a vida 
comunitária, uma vez que eles eram lugares de sociabilidade, além de serem benéficos para o 
ecossistema urbano. A base para essa maneira de enxergar o ofício do planejador urbano foi 
adquirida após um intercâmbio nos Estados Unidos da América, onde Hals teve a 
oportunidade de conhecer os trabalhos de Frederick Law Olmstead no projeto paisagístico do 
cinturão de esmeralda em Boston. 
Além disso, Harald Hals também se interessava por diferentes vertentes do 
planejamento, em especial pelo movimento das cidades jardim e do bioregionalismo. Foi 
dessa maneira que o Ullevål Hageby, construído nos arredores do centro da cidade, foi 
primeiramente pensado para se tornar uma cidade jardim, antes de se tornar um bairro. De 
acordo com o pesquisador Jørgensen (1997), já em 1929, HALS afirmava que “é a nossa 
época que transformou os parques e os espaços verdes em uma parte muito importante e 
 
53 Para mais informações: Den Store Norske Leksikon (https://nbl.snl.no/Marius_R%C3%B8hne). 
76 
 
 
 
absolutamente indispensável do organismo urbano” (HALS, 1929, p. 182 apud JØRGENSEN, 
1997, p. 245)54. 
 Jørgensen (2018) discute que Hals e Røhne enfatizavam mais as vantagens sociais e 
ambientais de ter espaços verdes integrados na estrutura urbana, do que apenas definir 
padrões urbanos com vegetação em áreas residenciais (JØRGENSEN, 2018). Foi neste 
período que as florestas, parques e os corredores verdes apareceram pela primeira vez como 
elementos principais no plano diretor municipal de 1929, no qual foram usadas categorias55 de 
áreas verdes para melhor integrar urbanização e vegetação. Syse (2016, p. 46) corrobora essa 
ideia. Em especial, ela destaca que foi o começo de uma série de medidas para relacionar as 
áreas suburbanas, interurbanas e florestais, marcando um período benéfico no fazer urbano no 
contexto norueguês (SYSE, 2016). A idealização do plano diretor previa que essas categorias 
se relacionassem umas com as outras, numa ideia sistêmica, na qual os espaços verdes, antes 
isolados, pudessem se conectar uns aos outros, formando um sistema de parques coeso 
(HALS, 1929 apud JØRGENSEN, 2018). 
É importante frisar que o planejamento se preocupou em manter as áreas de floresta, 
como parte do sistema de parques da cidade, não somente pelo histórico cultural da relação 
social com a natureza, mas também, por conta dos aspectos geográficos de risco para a 
cidade, caso a expansão de construção urbana se propagasse pela zona florestal. Segundo 
Thorén (2016, p. 23), estudos técnico-científicos foram realizados já em 1934, resultando 
numa decisão municipal de limitar as áreas desenvolvidas em Oslo a uma certa altitude, 
devido à restrição da pressão da água. Dessa maneira, a expansão habitacional foi proibida na 
Oslomarka, porque os sistemas hidráulicos não podiam garantir o pleno abastecimento da 
água, caso a floresta fosse desmatada (THOREN, 2016). 
Neste sentido, Næs, Næss e Strand (2011, p. 113-120), afirmam que a fronteira 
representada pela floresta frente à expansão urbana, foi oficialmente regulamentada no Plano 
Municipal de Oslo no ano de 1936, tendo se mantido quase inalterada até os dias atuais 
(NÆS; NÆSS; STRAND, 2011). Os autores conferem esse resultado tanto às dinâmicas do 
planejamento e do sistema de parques na primeira metade do século XX, mas também ao 
pensamento urbanístico norueguês a partir da década de 1980, seguindo uma política de 
aumentar a densidade das áreas já urbanizadas, sem assim expandir a urbanização para a 
floresta e demais áreas agricultáveis. 
 
54 Tradução livre. 
55 Categorias: 1) parques distritais, 2) parques comunitários, 3) parques naturais, 4) playgrounds, 5) locais de 
prática, 6) campos esportivos, 7) jardins escolares, 8) jardins em parcelas 9) cinturões verdes (JØRGENSEN, 
2018). 
77 
 
 
 
Por meio de pesquisas bibliográficas em artigos científicos, é notável perceber o 
crescimento urbano hiper concentrado da cidade do final do século XX até a 
contemporaneidade. De acordo com Jørgensen (2018), sobretudo as décadas de 1980-1990 
representaram um declínio na política dos parques na cidade, por conta de crises econômicas e 
a falta de investimentos no legado deixado por Halse Røhne (JØRGENSEN, 2018). 
Entretanto, este mesmo período é citado por outros pesquisadores, Næs, Næss e Strand (2011) 
e Thorén e Aradi (2010), como o momento de desenvolvimento de políticas públicas ligadas 
às ideias de sustentabilidade, embora o foco não tenha sido especificamente os parques 
públicos, mas sim a integração ainda maior do componente verde da cidade, sendo 
compreendido dentro de um sistema urbano multifuncional, com diferentes valores e funções 
para a estrutura ecológica da paisagem (THORÉN; ARADI, 2010, p. 1). 
Pode-se dizer que o declínio da política de implementação de parques citado por 
Jørgensen (2018) possa estar conectado a referência feita por Røe e Luccarelli (2016), no que 
tange ao surgimento da política de densificação na cidade e a ameaça aos pequenos núcleos de 
vegetação, presentes sobretudo em praças e jardins urbanos. Segundo esses autores: 
O esforço para tornar a cidade mais densa e, portanto, mais orientada para o trânsito, 
pode ameaçar pequenos bolsões de áreas verdes e destruir monumentos - um 
paradoxo para planejadores urbanos e formuladores de políticas. Nossa posição é 
que esse conflito pode ser administrado de forma mais adequada e democrática se 
uma perspectiva ampla da cidade, suas tradições, trajetória histórica e possibilidades 
de mudanças construtivas forem desenvolvidas (RØE; LUCCARELLI, 2016, p. 2, 
tradução livre). 
 
O ano de 1987 foi importante pela realização da Conferência das Nações Unidas em 
Oslo, na qual foi apresentado o relatório Bruntland, onde o termo desenvolvimento 
sustentável apareceu pela primeira vez. Isso teve uma forte influência nas práticas urbanas em 
curso no nível local, uma vez que foi intensificado o pensamento que a floresta é o limitador 
do espraiamento da cidade para áreas adjacentes. Ainda assim, Oslo não parou de crescer em 
termos de densidade populacional e construção civil. Já no século XXI, a cidade viu sua 
população aumentar de 167,500 no ano de 2008, para 196,600 no ano de 2009, sem que tenha 
ocorrido expansão da terra urbana (NÆS; NÆSS; STRAND, 2011). A solução encontrada 
pelos planejadores e políticos (que é seguida até a atualidade), foi a de compactar a 
urbanização em determinados centros já urbanizados, aumentando a infraestrutura de 
transportes e serviços intraurbanos, além de aumentar a atratividade na habitação e no 
78 
 
 
 
mercado de trabalho dentro da própria cidade, desenvolvendo sem converter as terras 
florestais para novas terras urbanas. 
Os autores Næs, Næss e Strand (2011), também afirmam que alguns fatores históricos 
e ambientais podem explicar essa propensão à política de densidade urbana concentrada. Para 
eles, o primeiro fator é o custo em infraestrutura, uma vez que nessa parte do sudeste 
norueguês, há a presença predominante de terreno rochoso, o que muitas vezes torna a 
expansão urbana para terras florestais e agrícolas algo caro. Este é justamente o caso da 
cidade de Oslo, cercada por colinas. Além disso, políticas nacionais rigorosas da década de 
1970 proíbem a conversão de terras agrícolas para outros fins, pois o país possui uma escassez 
em áreas agricultáveis, que cobrem apenas cerca de 3% do território nacional, tornando a 
densificação mais rentável e influenciando no desenvolvimento urbano posteriormente (NÆS; 
NÆSS; STRAND ,2011). 
No entanto, apenas em 2009, a floresta passou efetivamente a possuir uma lei própria 
– a Markaloven (BUGGE; REUSCH, 2010). Nessa recente legislação, foram mapeadas as 
fronteiras da floresta e seus limites com a cidade e áreas suburbanas. Isso permitiu ainda mais 
medidas de proteção. Porém é importante ressaltar que a legislação não teve por objetivo 
separar a floresta da população, numa ótica preservacionista. Ao contrário, a Lei de 2009 
deixa claro que a marka é um bem comum dos noruegueses e deve ser gerenciada para que a 
proteção ambiental esteja em equilíbrio com as atividades humanas. Portanto, o objetivo da lei 
é facilitar a vida ao ar livre, as experiências na natureza e os esportes, mas também garantir os 
limites do espaço urbano e o uso sustentável da área. A lei também concedeu proteção mais 
rigorosa a algumas áreas, como reservas naturais56. 
 
56 Na contemporaneidade, a Câmara Municipal está trabalhando para transformar partes de Østmarka em um 
parque nacional, em colaboração com o estado e municípios vizinhos (Para mais informações consulte Oslo 
Kommune em: https://www.oslo.kommune.no/miljo-og-klima-1/slik-jobber-vi-med-miljo-og-klima/beskyttelse-
av-oslomarka). 
 
79 
 
 
 
 
Tabela 3: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana na Noruega. 
 
 
 
 
80 
 
 
 
 
Figura 17: Mapeamento da Oslomarka realizado pela Associação Norueguesa de Turismo (Den Norske 
Turistforening- DNT). 
Fonte: Den Norske Turistforening (n.d.). 
 
 
Figura 18: Nordmarka e lago Sognsvann. 
Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
81 
 
 
 
Atualmente, o Município de Oslo apresenta estatísticas para várias divisões 
geográficas. O mais comum é a divisão distrital. Desde 2004, Oslo foi dividida em 15 
distritos, além da Marka e do Sentrum (centro da cidade)57. Neste sentido, a zona da 
Oslomarka engloba 19 municípios, divididos em cinco condados: Oslo, Akershus, Buskerud, 
Oppland e Østfold. O terreno florestal consiste em um total de 1.700 km2, cujos 310 km2 
estão localizados no município de Oslo, representando dois terços de toda a área da cidade, 
como mostra a figura (17) acima. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
57 Para mais informações consulte Oslo Kommune em: https://www.oslo.kommune.no/statistikk/geografiske-
inndelinger/. 
https://www.oslo.kommune.no/statistikk/geografiske-inndelinger/
https://www.oslo.kommune.no/statistikk/geografiske-inndelinger/
82 
 
 
 
3.2 OS ESPAÇOS VERDES NA PAISAGEM URBANA DO RIO DE JANEIRO, BRASIL 
 
O Brasil é um país com cerca de 212,6 milhões de pessoas58 (segundo projeções do 
IBGE 2020), situado na América do Sul, e sua capital é a cidade de Brasília. No entanto, 
mundialmente, uma das cidades brasileiras mais conhecidas e visitadas diz respeito a antiga 
capital imperial, Rio de Janeiro, na região Sudeste, cuja população atual é de entorno 6,748 
milhões59 (também baseado em projeções do IBGE 2020). De acordo com Arbilla e Silva 
(2018), a cobertura vegetal da cidade é composta por cerca de 28,9% de vegetação da Mata 
Atlântica, cujas principais áreas se encontram nas florestas e alguns parques dentro do 
perímetro urbano (ARBILLA; SILVA, 2018). A cidade também recebeu algumas creditações 
internacionais, como o certificado conferido pela UNESCO60 de Patrimônio Mundial da 
paisagem cultural, no ano de 2016. Além disso, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, é um 
reduto de pesquisa científica e de preservação ambiental, com espécies vegetais ameaçadas de 
extinção. Por esse motivo, em 1991, recebeu o título de Reserva da Biosfera, também 
concedido pela UNESCO. 
Segundo Macedo e Sakata (2002, p. 16), no Brasil, os parques públicos se originaram 
como uma iconografia acessória, conectada aos interesses das elites ao longo do século XIX, 
que queriam se aproximar da forma e da cultura presentes no cotidiano europeu (MACEDO; 
SAKATA, 2002, p. 16). Pelo fato do século XIX ter sido o período da constituição do Brasil 
como nação e, ainda mais, com a vinda da família real portuguesa em 1808, novas estruturas 
foram sendo moldadas nas cidades, que passaram a desempenhar outras funções sociais e 
econômicas e precisavam aparentar certa tradição formal e cultural das grandes cidades e 
impérios da Europa Central, mas adaptadas a realidade tropical do país. 
De acordo com Enders (2008, p. 89-91), o momento em que o sentimento nacional 
brasileiro surge é incerto, sendo uma consequência dos movimentos de independência entre o 
final do século XVII e o início dos anos de 1830. Sob esta perspectiva analítica, o autor 
destacaa importância de se compreender o papel da cidade do Rio de janeiro, enquanto um 
dos atores no processo político-social que estava em curso: 
 
58 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Projeção da população do Brasil e das Unidades da 
Federação. Rio de Janeiro: IBGE, n.d. Disponível em: 
<https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/index.html>. Acesso em: 4 jan. 2022. 
59 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Rio de Janeiro. População. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. 
Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama>. Acesso em: 4 jan. 2022. 
60 UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência, e a Cultura. 
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rj/rio-de-janeiro/panorama
83 
 
 
 
 É, contudo, no Rio de Janeiro, capital de um efêmero império luso-brasileiro 
entre 1808 e 1821, que a independência apresenta uma parte de suas 
intrigantes singularidades. A cidade passa a ser o coração de um Estado 
centralizador, ao redor do qual gravita o território brasileiro. Até a perda de 
seu estatuto de capital, em1960, os grandes momentos de sua história se 
confundem com os da história do Brasil. É também no Rio de Janeiro, 
investido da missão de civilizar todo o país, que se elaboram as diferentes 
maneiras de se transformar os habitantes do Brasil em brasileiros (ENDERS, 
2008, p. 90). 
 
Neste sentido, a cidade passa a ser o lócus de uma série de transições socioculturais 
que marcaram o desenvolvimento de uma identidade comum aos integrantes da nação em 
formação. Acerca das mudanças morfológicas e funcionais no Rio de Janeiro durante a 
passagem da colônia para Império, Macedo e Sakata (2002, p. 16) argumentam que: 
A capital, o Rio de Janeiro, é, naturalmente, a cidade que passa pelas mais rápidas e 
urgentes transformações urbanas, já que incorpora de imediato funções antes 
exercidas por Lisboa, e, a partir da proclamação da Independência, em 1822, torna-
se a capital de uma nova nação, rica em recursos, carreando para si investimentos de 
porte vindos de todo o país. Telégrafo, telefone, palacetes, boulevards, correios, 
serviços bancários, ministérios, faculdades, embaixadas e sedes de novas 
corporações surgem e instalam-se na cidade, que assume a vanguarda no processo de 
urbanização nacional durante todo o século. Nesse contexto são criados, no Rio de 
Janeiro, os três primeiros parques públicos, com as características morfológicas e 
funcionais que conhecemos hoje: o Campo de Santana e o Passeio Público, situados 
junto ao núcleo histórico e centro tradicional da cidade, e o Jardim Botânico, junto à 
então distante Lagoa Rodrigo de Freitas. 
 O Jardim Botânico do Rio de Janeiro, criado como Jardim da Aclimação por Dom 
João VI para o cultivo de especiarias trazidas das Índias Orientais, é um dos mais 
impressionantes cenários do Ecletismo paisagístico brasileiro por seu porte, 
elegância e manutenção, que se tem conservado estável ao longo dos anos 
(MACEDO; SAKATA,, 2002, p. 16-17). 
 
84 
 
 
 
 
Figura 19: Jardim botânico do Rio de Janeiro. 
Fonte: Arquivo pessoal (2015). 
 
Cabe ressaltar que o Rio de Janeiro não passou apenas por mudanças urbanísticas e 
funcionais, mas também por mudanças populacionais. Enders (2008) afirma que a presença da 
Corte contribuiu para atrair ondas de migrantes, movidos por razões diversas. Sendo assim, 
em um curto espaço de tempo (de 1799 a 1821), a expansão populacional foi tão expressiva 
que o centro da cidade passou de 43.000 a 79.000 habitantes (ENDERS, 2008, p. 92). 
Somando-se a isso, Benchimol (2010, p. 116) reitera também o progressivo aumento 
populacional nos anos seguintes: em 1822, o número de habitantes na cidade chegou à cifra 
de 100 mil e em 1840, a cidade contava com 135 mil habitantes. 
Isso trouxe uma demanda maior por espaços verdes, como parte dos ideais de 
modernidade e requinte, além de uma maior pressão nos recursos hídricos e energéticos. 
Dentre esses espaços, contam-se inúmeros jardins privados, anexos a palacetes e casarões, 
seguindo o modelo dos jardins burgueses franceses. Se até a metade do século XIX, o Rio de 
Janeiro era uma cidade de ruas estreitas, sem passeios para pedestres, nos quais os espaços 
85 
 
 
 
públicos eram ocupados primordialmente por escravos61, mulheres, crianças e “animais de 
trabalho” (BENCHIMOL, 2010, p. 120), após os anos 1870, com a consolidação do império e 
fim da escravatura, já sob reinado de D. Pedro II, a cidade passou a representar novas relações 
de trabalho assalariado, e novas morfologias se originaram como símbolo da modernização 
capitalista. 
A expansão da população urbana carioca no final do século XIX deu um salto, 
sobretudo devido à chegada de imigrantes em 1875 com a construção da Central do Brasil. 
Ocorreu a formação de novos bairros e o congestionamento ainda maior da área central da 
cidade, marcando a incompatibilidade entre a antiga morfologia urbana e as novas relações 
socioeconômicas62. Além disso, mudanças foram realizadas com relação ao fluxo de 
mercadorias, principalmente relacionadas ao setor cafeeiro paulista e mineiro. 
Sobre este aspecto, Benchimol (2010, p. 120), afirma: 
 Substituindo o transporte fluvial e em lombo de mulas, os trilhos das 
estradas de ferro de D. Pedro II e Leopoldina, articularam o Rio de Janeiro 
mais profundamente e suas retaguardas rurais, reconfigurando a rede de 
povoados, estradas e rios por meio da qual eram recolhidos ao porto os 
gêneros de exportação e os de abastecimento da cidade (BENCHIMOL, 
2010, p. 120). 
 
Foi também durante o reinado de D. Pedro II (1840-1889) que a questão da natureza 
urbana foi tratada de maneira mais efetiva por meio do reflorestamento da Floresta da Tijuca. 
Influenciado pelas ideias naturalistas sobre o conhecimento e a catalogação de plantas em 
herbários, além da compreensão de que o maciço da Tijuca era essencial para a manutenção 
dos recursos hídricos da cidade e um refúgio em meio a crescente expansão urbana pela qual 
o Rio de Janeiro passava, o imperador promoveu políticas públicas63 para a conservação 
 
61 Escravos e negros alforriados predominavam nos ofícios de base artesanal. Eram a mão de obra mais usada na 
construção de casas. Erguidas sem plantas ou desenhos, com base no saber empírico dos mestres de obras 
(BENCHIMOL, 2010, p. 120). 
62 O período do final do século XIX também foi marcado pelas epidemias que surgiam na cidade e pelo 
desenvolvimento da ciência no mundo intelectual. Por isso, medidas higienistas foram adotadas pelo setor de 
saúde pública (no qual o nome principal é o de Pereira Passos), sobretudo durante a transição do império para a 
República (1888-1890), resultando em amplas modificações da forma urbana, como a derrubada de morros para 
melhor circulação de ar, desapropriação de cortiços para construção de largas avenidas centrais e assoreamento 
de áreas pantanosas. 
63 No ano de 1961, a Floresta da Tijuca foi declarada como “Floresta protetora”, por D. Pedro II, que 
desapropriou antigas fazendas cafeeiras. A Floresta também obteve o reconhecimento de área protegida, 
constando na Portaria Imperial de 18 de dezembro de 1861, com a proibição de atividades extrativistas e de 
desmatamento na região (ARBILLA; SILVA, 2018). 
 
86 
 
 
 
hidrológica, produção de um clima saudável e de áreas de lazer para a elite carioca pautado na 
lógica de estruturar a urbanização pela presença da vegetação (FERNANDEZ, 2011). 
Dessa forma, em 1860, foi criado o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura 
(IIFA), que tinha por objetivo administrar os progressos e questões relacionadas a agricultura 
na cidade e seus entornos, tendo em vista o precário legado deixado pela colonização e a falta 
de conhecimentos técnicos e ambientais para evitar a deterioração dos solos e vegetação. A 
implementação do IIFA, em conjunto com a criação da Diretoria de Parques e Jardins da CasaImperial em 1869 por D. Pedro II, também contribuiu com o reflorestamento da floresta da 
tijuca e o plantio de cerca de 100 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, no período 
de 1861 a1874, no qual o raciocínio era o de que “das montanhas deveria descer o plantio das 
árvores para as praças, para as ruas” (IMPERIAL INSTITUTO FLUMINENSE DE 
AGRICULTURA, 1870, p. 31 apud HEYNEMANN, 2009, p. 4). 
É relevante ressaltar que o reflorestamento também pretendia resgatar a memória de 
uma imagem romântica pela qual a floresta era admirada e retratada nas obras dos artistas-
viajantes64 que estiveram no Brasil na Missão Artística Francesa, ainda no período da 
colonização portuguesa e posterior independência, quando a área ainda não havia passado por 
seu processo de deterioração completa. Neste caso, a Floresta da Tijuca é um marco 
iconográfico, no qual a cidade do Rio de Janeiro era usualmente pintada como o limite da área 
vegetada. Segundo HEYNEMANN (2009, p. 3): 
 Os viajantes naturalistas compuseram, em sua passagem pelo Brasil, um 
quadro no qual a Floresta da Tijuca comparece como exemplo de vegetação 
subtropical, confirmando a máxima do Brasil como “paraíso dos 
naturalistas”. Aquarelas, pinturas, diários, coleções e tratados científicos são 
os objetos que em sua materialidade contribuíram, decisivamente, para o 
projeto de identidade nacional perseguido pelo Estado Imperial. O 
reconhecimento desse valor na Floresta viria da parte do poder público, na 
segunda metade do século XIX, com o projeto de reflorestamento. 
 
A área constituída pelas florestas da Gávea, Andaraí, dos Ciganos e Sumaré, onde a 
floresta da Tijuca se encontra atualmente, foi uma criação, um vir a ser, metodicamente 
pensado e planejado ao longo do segundo império65. Por isso, a própria floresta pode ser 
 
64 Dentre eles, Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay. 
65 Com a contribuição sobretudo de D. Pedro II, Major Acher e Glaziou. 
 
87 
 
 
 
considerada como um grande projeto tropical de jardim romântico, sobretudo devido ao 
período de 1877 a 1887, no qual diversas intervenções de embelezamento foram realizadas, 
como a construção de estradas conectando-a às partes baixas da cidade, além da contribuição 
do horticultor e paisagista francês Auguste François-Marie Glaziou66 na criação de mirantes, 
fontes, belvederes e lagos, num ambiente totalmente refeito a luz do bem-estar e da 
contemplação (HEYNEMANN, 2009). 
De acordo com Fernandez (2011:p. 2), as iniciativas para a reimplantação dessa 
floresta, que havia quase desaparecido por completo, por conta da extração predatória de 
madeira e do desmatamento para o cultivo do café, em épocas anteriores67; representa as 
relações entre as ideias nacionalistas, os discursos de conservação ambiental que começavam 
a entrar em vigor no âmbito internacional, além de representar os primórdios de uma 
formação política e ambiental nacional (FERNANDEZ, 2011, p.2). 
Com o advento do período republicano, em 1889, a floresta passou por um momento 
de abandono até meados do século XX, por ser considerada como ícone e legado do estilo de 
vida imperial (FERNANDEZ, 2011). Após anos sendo gerida a distância pela Federação, em 
1944, a área da floresta voltou a ser administrada localmente pela prefeitura da cidade do Rio 
de Janeiro68, através do Serviço de Águas e Esgoto municipal. A partir dessa etapa, a área 
recebeu o apoio do paisagista Roberto Burle Marx, para a recuperação da vegetação, além de 
ter suas vias restauradas, facilitando sua reconexão física e simbólica com o restante da cidade 
e os frequentadores, que voltaram a utilizar a floresta para uma série de atividades, tanto 
contemplativas, quanto esportivas. 
Outro momento marcante na história desse espaço verde diz respeito ao ano de 1961, 
quando o complexo montanhoso do qual a Floresta faz parte foi considerado como Parque 
Nacional69, e tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1966. Neste 
contexto, a autora Fernandez (2011, p. 6-7) afirma que, ao se tornar floresta-parque, essa área 
consagrou e institucionalizou valores não apenas conservacionistas, mas também estéticos, 
 
66 Os trabalhos de Glaziou na cidade do Rio de Janeiro, assim como sua nomeação como chefe da Diretoria de 
Parques e Jardins da Casa Imperial, em 1889, se conecta ao próprio desenvolvimento da arte do jardim no Brasil 
(ANDRADE; TERRA, 2016). 
 
67 “Para a produção de carvão, extração de madeira e plantação de café, a floresta foi quase totalmente destruída, 
o que ocasionou problemas nas fontes que abasteciam a cidade com água. O desmatamento, somado ao aumento 
da população, ao clima seco em alguns anos e à falta de infraestrutura no Rio, acabou, por vezes, deixando a 
capital imperial sem abastecimento de água, o que gerou o surgimento de um mercado paralelo de venda de água 
e também a disseminação de doenças” (“A Floresta da Tijuca no Dia Mundial do Meio Ambiente”, de Andrea C. 
T. Wanderley, disponível em: <https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=15070>. Acesso em: 6 jan. 2022). 
68 Embora as terras continuassem a pertencer a União. 
69 Em 1967, sob Decreto n. 60.183, a área do Parque foi redefinida. 
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=15070
88 
 
 
 
relacionados a propagação da imagem da floresta “intocada” e sua vinculação com a cidade, e 
identidade tanto do Rio de Janeiro, quanto do Brasil, na qual a paisagem composta por uma 
fauna e flora específicas, expressa a nação brasileira (FERNANDEZ, 2011, p. 7). 
Em 2004, a Floresta da Tijuca teve sua área delimitada em 39,52 km2, e atualmente 
faz parte do cotidiano urbano, como uma importante área de lazer e esportiva, por meio da 
trilha transcarioca que cruza a cidade do bairro de Guaratiba (zona oeste), até o Morro da 
Urca, como pode ser visualizado na figura 20. De acordo com o site oficial do Parque 
Nacional da Tijuca: 
A maior trilha urbana do país é uma iniciativa do Mosaico Carioca de Áreas 
Protegidas e representa um símbolo da união entre as três esferas do poder 
público. O percurso de aproximadamente 180 km sai da Barra de Guaratiba e 
segue até o Morro da Urca, integrando seis unidades de conservação, 
incluindo o Parque Nacional da Tijuca. Dentro do PNT a Trilha Transcarioca 
se inicia no acesso à Represa dos Ciganos, no Setor Floresta, passando por 
atrativos como Pico da Tijuca, Bico do Papagaio, Bom Retiro e Meu 
Recanto. O percurso continua pela Serra da Carioca, onde os visitantes têm 
uma experiência única de visual do Morro do Queimado, Mesa do Imperador 
e Vista Chinesa. Descendo em direção ao Horto e Jardim Botânico, mais 
atrações: o histórico Jequitibá de imensas raízes, paradas para se refrescar 
nas Cachoeiras da Gruta e dos Primatas e o clássico Parque Lage para 
finalizar (PARQUE NACIONAL DA TIJUCA, c2020, n.p.). 
 
Contudo, apesar de todo o contexto de integração de áreas verdes citado 
anteriormente, um dos grandes desafios desses espaços na cidade é o de garantir um ambiente 
de tranquilidade para os seus frequentadores, tendo em vista o alto índice de assaltos nas 
trilhas da floresta e até mesmo relatos de violência física. Muitos são os casos de assaltantes 
escondidos nas matas e as vítimas usualmente reclamam da falta de policiamento e da 
sensação de insegurança ao percorrer esse corredor verde. Neste sentido a questão da 
segurança urbana, habitação, igualdade social e natureza urbana tem de ser consideradas em 
conjunto pelos gestores e planejadores, a fim de propiciar uma cidade realmente melhor para 
todos. 
 
89 
 
 
 
 
Figura 20: Mapa Turístico da Floresta da Tijuca, distribuído no Centro de Visitantes do Parque. 
Fonte: Rio de Janeiro Aqui (n.d). 
 
 
Figura 21: Floresta da Tijuca. 
Fonte: Arquivo pessoal (2013). 
90 
 
 
 
De acordo com Segawa (1996), os jardins e parques públicos apenas foram inseridos 
efetivamente no contexto social do Brasil a partir do século XX (SEGAWA,1996), e pode-se 
dizer que o panorama geral das alterações paisagísticas das cidades no país foi seguido de 
políticas públicas relacionadas à saúde coletiva e à higiene, onde “o jardim foi eleito como um 
elemento único na configuração de espaços públicos” (ANDRADE; TERRA, 2016, p. 11). 
Nesse contexto, o período pós 2ª Guerra Mundial influenciou os modos de vida urbana 
brasileiros, transformando e remodelando cidades, dentre as quais pode-se citar Rio de Janeiro 
e São Paulo, que já estavam em amplo processo de industrialização, atingindo também 
municípios vizinhos com a expansão de sua malha urbana (expansão dos serviços, dos 
transportes e da comunicação). 
Com o pós-guerra e a consolidação da República no Brasil, período no qual a maioria 
da população passa a habitar os núcleos urbanos, os parques começaram a atender a uma 
gama de habitantes com interesses diversos, e entre os anos de 1950 e 1960, já havia uma 
profunda carência de espaços ao ar livre para o lazer de massa (MACEDO; SAKATA, 2002). 
Apesar de cidades costeiras, como é o caso do Rio de Janeiro, contarem com a praia como um 
forte elemento sociocultural em seu espaço urbano, além de outras cidades terem o benefício 
de serem próximas a cachoeiras e matas, possibilitando o lazer da grande massa populacional, 
somente com o esgotamento dessas áreas, os parques e demais espaços verdes tornaram-se 
essenciais para a vida nas cidades do país (MACEDO; SAKATA, 2002), que passam a 
englobar os parques públicos em seus planejamentos urbanos, como uma maneira de oferecer 
serviços esportivos, contemplativos e culturais, não mais exclusivamente para as elites. 
O Rio de Janeiro, neste período capital da República, mais uma vez foi um local que 
recebeu inúmeras transformações. Se no início do século XX, com a reforma Pereira Passos, 
largas avenidas já haviam sido construídas sobretudo no centro da cidade e áreas adjacentes, 
numa lógica higienista de “expulsão de estábulos, hortas e capinzais, prejudicando os 
pequenos agricultores de áreas até então rurais como a Tijuca e Catumbi” (BENCHIMOL, 
2010, p. 142), com o plano Agache, no final da década de 20, as diretrizes de morfologia 
urbana seguiram a racionalidade e o modernismo funcional e estético, no qual o 
Departamento de Parques e Jardins deveria gerenciar os espaços verdes. 
Já nos anos de 1970 a 1980, os parques modernos estavam consolidados no país e se 
serviam do advento das ideias ambientalistas da época, que favoreciam a existência dos 
mesmos, uma vez que eles contribuíam para a melhora da qualidade de vida urbana, como 
sendo tanto um local para o lazer, quanto um ambiente de mitigação, propiciando melhora da 
91 
 
 
 
qualidade do ar e do microclima da cidade, por causa da presença de vegetação. Com a ampla 
contribuição do arquiteto paisagista Roberto Burle Marx, os conceitos de parque moderno e 
parque ecológico foram, então, introduzidos no cotidiano desses espaços públicos brasileiros 
(PANZINI, 2013). 
Burle Marx utilizava plantas nativas de biomas do Brasil em seus projetos, aliando 
formas modernas e suaves de acordo com a geografia local. Seu trabalho teve uma grande 
influência mundialmente no design de jardins tropicais no século XX, além de ter sido grande 
ambientalista. No Rio de Janeiro, ele projetou desde jardins públicos acoplados a Instituições 
como os jardins do Museu de Arte Moderna (MAM), até mesmo contribuiu com grandes 
parques como o Parque do Flamengo, inaugurado em 1965, e que se estende ao longo da orla, 
servindo como conector entre diferentes zonas da cidade. 
Sobre isto Oliveira (2006, p. 3) afirma: 
O Parque do Flamengo é antes de tudo uma importante experiência no contexto 
brasileiro em termos de utilização de um parque como instrumento específico de 
planejamento urbano, que precede e orienta as iniciativas da administração pública e 
de particulares. Paralelamente à sua criação, melhorou-se a conexão viária entre a 
Zona Sul e o centro do Rio, criou-se uma praia artificial, integraram-se importantes 
equipamentos urbanos como o aeroporto Santos Dumont, o MAM, o Iate Clube. O 
parque é também uma vitória à ofensiva da especulação imobiliária e à 
espacialização de caráter excludente prática arraigada na cidade do Rio. 
 
 Do final da década de 1970 aos anos de 1990, a cidade passou por um boom em seu 
crescimento urbano, marcado pelo aumento de espaços asfaltados, empreendimentos 
imobiliários, política habitacional precária em áreas periféricas, densificação e criação de 
novos viadutos e avenidas, guiados pelo pensamento automobilístico, que aumentou a 
quantidade de veículos transitando (FERREIRA et al., 2020). Além disso, conflitos relativos à 
presença de vegetação nos bairros da cidade tem sido, desde então, gerados por um plantio de 
espécies inadequadas para o meio urbano e sem a devida manutenção, que trazem problemas 
para o cotidiano de moradores70, somado ao discurso de que são apenas áreas ligadas a 
estética paisagística, sendo por este motivo, supérfluas no ambiente urbano. 
A falta de interesse de alguns integrantes dos setores privado, público e político em 
proporcionar espaços verdes de qualidade em todas as zonas da cidade, aliada ao carecimento 
de divulgação de informação sobre os benefícios públicos que a vegetação oferece para o 
 
70 Como é visível nas solicitações de poda e remoção de árvores a prefeitura (FERREIRA et al., 2020). 
92 
 
 
 
espaço urbano e o bem-estar das pessoas em seus cotidianos, dificulta ainda mais tanto a 
manutenção da natureza urbana já existente, quanto os processos de viabilização de mais 
espaços verdes e públicos na cidade do Rio de Janeiro. 
É interessante notar que desde 1986, a cidade conta com um programa de adoção e 
concessão de áreas verdes por moradores, empresas e/ou organizações que se proponham a 
gerenciar desde os serviços de jardinagem, até mesmo a administração dos equipamentos de 
lazer que existam no interior da área verde. Até mesmo nas redes sociais (Instagram) da 
Fundação Parques e Jardins da cidade, pode-se observar a divulgação desse tipo de prática, 
como visto na figura 22. Para obter a licença de adoção ou concessão, é necessária uma 
autorização da Fundação de Parques e Jardins, e no caso da concessão, uma licitação por meio 
da prefeitura. Se por um lado a adoção por parte de moradores pode ser uma maneira de 
aproximar as pessoas da natureza urbana presente em seus bairros, onde elas tem a 
potencialidade de exercer ainda mais a educação ambiental no nível local, por outro a 
concessão pode gerar uma gestão fragmentada e pouco abrangente dos espaços verdes da 
malha urbana, visto que cada entidade estaria apenas administrando a área verde sob sua 
responsabilidade, não se preocupando com o entorno e as conexões socioambientais entre 
diferentes espaços. 
 
 
Figura 22: Divulgação do programa Adote.Rio. 
Fonte: Fundação Parques e Jardins (n.d.). 
93 
 
 
 
Dessa maneira, em específico, as políticas de concessão de espaços verdes têm 
ocasionado a descentralização da atuação da Fundação de Parques e Jardins, que a partir dos 
anos 2000 tem visto seu espaço de gestão e influencia ser diminuído frente a outras entidades 
públicas e privadas que não necessariamente tem corpo técnico e científico para administrar 
espaços verdes, como a CONLURB, Secretaria Municipal de Infraestrutura, Subsecretaria de 
Esporte e Lazer e até mesmo a Secretaria Municipal de Transporte. 
Nesse contexto, a revisão do Plano Diretor que está em curso desde 2018, é uma 
oportunidade para novas abordagens no planejamento urbano e ambiental do Rio de Janeiro, 
bem como a regulamentação do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Ambiental, que 
servirá de estrutura para toda a Política Urbana no município. Apesar da cidade ter sediado, 
em 1992, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento 
(popularmente conhecida como ECO 92/ Rio 92),no qual houve um maior envolvimento 
sociocultural com as questões ecológicas, além de ter tido importantes avanços com a 
proposta do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável no ano de 2011, ainda 
hoje a presença do verde, as políticas de integração ambiental e a luta política por espaços de 
maior justiça socioambiental são um desafio. 
 
 
94 
 
 
 
 
Tabela 4: Situações/políticas que influenciaram a gestão e o planejamento da natureza urbana no Rio de Janeiro. 
 
 
3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO E A IMAGEM DA NATUREZA URBANA 
EM OSLO E NO RIO DE JANEIRO 
 
Como foi abordado anteriormente, Oslo e Rio de Janeiro, passaram por processos 
culturais, sociais e ambientais distintos com relação ao desenvolvimento urbano ao longo dos 
séculos XIX e XX. Porém, ainda assim, é possível estabelecer parâmetros de proximidade 
entre as duas cidades. Enquanto, num primeiro momento, a cidade do norte europeu se 
consolidou de maneira mais localizada, ligada, sobretudo, às respectivas situações de união 
com a Dinamarca e com a Suécia, num contexto sociocultural que tentava materializar em 
Oslo, as tendências e tradições formais que já estavam em curso nos países vizinhos; o mesmo 
ocorreu com o Rio de Janeiro, quando pensamos a respeito do contexto de chegada da família 
real portuguesa, em 1808. 
Além disso, ambas as cidades receberam influencias do movimento nacionalista e 
romântico do século XIX ao início do século XX, impactando na superação das relações de 
união (contexto norueguês), e colonização (contexto brasileiro), que possibilitaram as 
respectivas independências nacionais, nas quais as duas cidades foram palco de novas 
95 
 
 
 
políticas e estruturas urbanas que pretendiam transmitir a imagem moderna das duas nações 
em formação. 
A Noruega obteve sua independência com a aprovação da Constituição em 1905; e o 
Brasil já havia se tornado independente há mais tempo, em 1822, mas neste mesmo período 
do início do século XX, passava pelo turbulento processo de institucionalização da República. 
De uma maneira ou de outra, tanto a cidade de Oslo, quanto a do Rio de Janeiro, enquanto 
capitais, foram um dos pontos de convergência política, econômica e social, atraindo e 
refletindo a modernização de seus respectivos países, além de inserir o aporte cultural como 
elemento de conexão às dinâmicas globais que ocorriam pelo mundo. 
Neste sentido, podemos abordar a questão da gestão dos dois espaços urbanos dos 
países analisados nesta pesquisa. Se, por um lado, a Noruega e o Brasil possuem expressivas 
disparidades socioeconômicas, climáticas-ambientais e culturais, que se concretizam na forma 
distinta com a qual a natureza urbana é vivenciada pelos habitantes, além de considerada e 
planejada no nível institucional da atualidade, ao mesmo tempo, a gestão dessas duas 
realidades urbanas, por estarem inseridas na lógica das cidades globais, participando e 
competindo ativamente por investimentos, possuem algumas questões em comum. Nos dois 
casos, a gestão contribui para conferir maior visibilidade à cidade, enfatizando os elementos 
culturais, construídos através de narrativas e identidades coletivas, que trarão justamente a 
diferenciação sociocultural das imagens urbanas a serem veiculadas71. 
A maneira como a imagem se forma no imaginário coletivo está presente nos estudos 
de Azambuja (2007), onde a autora aborda o conceito de imagem socioambiental, dando uma 
dimensão mais específica para o famoso conceito de Kevin Lynch sobre a imagem da cidade 
(LYNCH, 1997). Para essa pesquisadora, a imagem socioambiental representa um recorte 
ainda maior do objeto de análise urbano, pois ela ajuda a identificar os aspectos que 
influenciam na “apreensão” e significação da base material, que é o espaço. Ao se referir a 
imagem socioambiental, a autora considera: 
A imagem de um ambiente é uma construção social cuja base são as características 
físicas do local em estudo, as quais são decodificadas pelos indivíduos (diversos 
tipos de usuários) em função de suas próprias peculiaridades (idade, gênero, 
características e limitações físicas, personalidade, motivações, modo de contato com 
 
71 No caso brasileiro, em todo aparato legal a imagem da natureza está relacionada como bem de interesse 
comum ao povo. Dentro de uma ótica que se apregoa como sustentável, mas como bem, tem valor de mercado. 
Mais recentemente, embora a política nacional não tenha sido modificada, a legislação das cidades começa a 
incorporar a natureza como patrimônio, riqueza social. Com um viés mais sensível e de mudança 
comportamental frente a escassez e degradação dos recursos. 
96 
 
 
 
a área) e dos elementos da cultura local que influenciam o processo perceptivo 
(AZAMBUJA ELALI, 2007, p. 6). 
 
 Azambuja se baseia em estudos de psicologia ambiental, onde o ambiente tem valor 
simbólico formado a partir de um conjunto de imagens mentais. Além disso, ela também 
aponta que não há ambiente físico que não seja envolvido por um sistema social e 
inseparavelmente relacionado a ele (AZAMBUJA ELALI, 2007). Por isso, pode-se dizer que 
o espaço e a sociedade são reflexos um do outro. No contexto das cidades globais, essa 
imagem que é formada a partir de identidades individuais e coletivas, unindo o mundo social 
e o mundo ambiental, se relaciona também ao quanto a gestão urbana é capaz de investir, por 
meio de aparatos como as redes sociais, para agregar ainda mais características estéticas e 
qualitativas à cidade. 
Dessa maneira, percebe-se que no mundo contemporâneo, as cidades e, não mais 
exclusivamente os países, se destacam no nível internacional. E neste grande jogo da 
geopolítica urbana, muitas ações são efetuadas em favor da Cidade. De acordo com o 
sociólogo David Harvey (2012, p. 271), “a ideia da natureza como um produto social tem de 
ser acompanhada pelo reconhecimento de que os recursos naturais são apreciações culturais, 
econômicas e tecnológicas.” (HARVEY, 2012, p. 271) Além disso, Harvey também analisa 
que: 
“Então, nossas cidades são projetadas para as pessoas ou para os lucros? O fato de 
tal questão ser colocada com tanta frequência nos leva imediatamente para o terreno 
da grande variedade de lutas sociais e de classe na formação do lugar. Estas são as 
paisagens em que a vida diária tem de ser vivida, as relações afetivas e 
solidariedades sociais são estabelecidas e as subjetividades políticas e os 
significados simbólicos são construídos. Os interesses da classe capitalista e dos 
desenvolvedores são conscientes dessa dimensão e procuram mobilizá-la por meio 
do apoio à comunidade ou à cidade e da promoção deliberada de um sentido de 
identidade local ou regional, fundamentando-se às vezes com sucesso sobre as 
sensibilidades populares derivadas das fortes relações com a terra e o lugar.” 
 
 
 
 
 
97 
 
 
 
Sobre este aspecto, cabe citar tanto o exemplo de Oslo, ao receber a premiação de 
Capital Verde da Europa em 2019, pela Comissão Europeia, quanto o do Rio de Janeiro, 
quando lhe foi conferido o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO72 em 
2012. 
É interessante apontar que a cidade norueguesa já passava por um processo histórico e 
cultural de implementação de políticas de acesso e manutenção de espaços verdes, além de 
medidas de sustentabilidade como parte de seu planejamento urbano e ambiental. Isso pode 
ser verificado na pesquisa feita sobre a natureza urbana em Oslo, além da entrevista realizada 
com a ex-arquiteta e urbanista da cidade, apresentada e discutida no capítulo 4, sobre os 
aspectos da gestão do Parque Frogner. 
Porém, foi justamente essa cultura de espaços verdes, já presente na cidade, que 
concedeu a sua diferenciação em meio aos outros contextos urbanos que também estavam 
concorrendo ao título de Capital Verde. Foi nesse mesmo período que a expressão: “o azul, o 
verde e a cidade no meio”, se popularizou aindamais tanto no vocabulário acadêmico, quanto 
nas mídias sociais, ao fazer referência à Oslo, e essa expressão carrega em si mesma a 
imagem da cidade, como pode ser visto no trecho traduzido e na figura abaixo, obtida no 
mapa turístico colaborativo, USE-IT OSLO73, feito por jovens moradores da cidade em 2018, 
no qual pode ser lido: 
“ O azul, o verde e a cidade no meio... 
... é o que nosso antigo prefeito costumava dizer sobre Oslo. A cidade 
é circundada por floresta e água. A área de Oslo é, na verdade, 60% 
floresta, e nós Osloites74 passamos muito do nosso tempo livre nas 
matas. Nós a chamamos de Marka e tem boa sinalização e marcação 
nas rotas para escolher, de forma que você não se perca pela floresta. 
Vá para o número 21 deste mapa, DNT (Associação Norueguesa de 
Caminhada) na rua Storgata 3, para obter dicas e mapas grátis. Você 
encontrará muitas pessoas caminhando felizes na floresta. Fato 
divertido: Noruegueses dizem olá, quando encontram outros 
caminhantes na floresta ou montanha, mas o mesmo não acontece nas 
ruas. 
 
72 UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. 
73 Para maiores informações, consulte: https://use-it.no/. 
74 Osloites – Denominação dos habitantes de Oslo. 
https://use-it.no/
98 
 
 
 
 O inverno pode ser o que os noruegueses fazem melhor. Nossa dica é 
andar de trenó na colina de 2km chamada Korketrekkeren, ou ir a 
Sauna no Floating Sauna. Vá ao quiosque de informações da Use-it 
maps e peça por dicas e direções. Tenha em mente que não há mau 
tempo, apenas roupas ruins (nossa versão norueguesa dessa expressão 
rima melhor e somos muito orgulhosos dela)” (USE-IT OSLO, 2018, 
p. 5, tradução livre). 
 
 
Figura 23: O azul, o verde e a cidade no meio. 
 Fonte: mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-IT Oslo, em 2018. 
 
Além disso, no ano de 2021, o mesmo mapeamento colaborativo produziu um novo 
mapa da cidade, enfatizando os parques que se encontram disponíveis. É interessante notar 
que, de igual forma a cartografia confeccionada em 2018, nesta também a imagem principal 
de Oslo se relaciona aos seus espaços verdes e a vida ao ar livre, como pode ser visto na 
figura abaixo, com o título de Park Life, ou vida de parque, e especificando algumas 
características dos parques mais conhecidos: 
99 
 
 
 
“Nós visitamos os parques como se estivessem em nosso próprio quintal. Junte-se a 
nós em um piquenique com cerveja durante o verão, ou a andar de trenó, e depois 
tomar um chocolate quente no inverno (...)” (USE-IT OSLO, 2021, p. 5, tradução 
livre). 
 
 
 
Figura 24: Park life. 
 Fonte: Mapa da cidade de Oslo, produzido pela USE-IT Oslo, em 2021. 
 
Nesta perspectiva, a contribuição do pesquisador Laurent Jégou (2016) se faz 
importante, ao afirmar que a eficácia de um mapa é medida pela sua capacidade de 
comunicação e a maneira como o idealizador/ cartógrafo apresenta visualmente a informação 
ao leitor do mapa. Segundo ele, o mapa é uma criação gráfica que afeta diretamente o seu 
leitor a partir do aspecto visível. Isto é, a imagem é um fator importante no desenvolvimento 
da memória espacial, através de representações gráficas presentes nas produções cartográficas 
(JÉGOU, 2016). 
100 
 
 
 
É interessante observar que a autor discute também o papel dos meios de comunicação 
na formação dessa imagem espacial. Dessa forma, sendo a cartografia um meio de 
comunicação geográfico e (re) produtor de imagens, pode-se considerar que a imagem contida 
numa representação cartográfica, como a que foi mostrada sobre Oslo, pode contribuir para a 
formação tanto da imagem individual, de um visitante que esteja conhecendo a cidade no 
momento presente, como também realça a síntese de imagens coletivas de uma determinada 
cultura, no caso, a norueguesa. É justamente nessa relação que a imagem vai se formando, 
sendo constantemente construída pelos atores e agentes do espaço, tecendo os fios de conexão 
da paisagem urbana. 
De igual forma, o Rio de Janeiro também se beneficiou de todo o seu cenário natural, 
com a presença de elementos como o Corcovado, o Pão de açúcar, a Floresta da Tijuca e as 
praias, para propagar a sua imagem de “cidade maravilhosa”, que já vinha sendo narrada e 
internacionalizada por diversos componentes culturais ao longo do século XX, como no 
gênero musical da Bossa Nova, em especial nas músicas do compositor e maestro Tom Jobim. 
Este aspecto pode ser visualizado no trecho da música abaixo, Corcovado, composta por Tom 
Jobim em 1959: 
“Um cantinho, um violão 
Esse amor, uma canção 
Pra fazer feliz a quem se ama 
Muita calma pra pensar 
E ter tempo pra sonhar 
Da janela vê-se o Corcovado 
O Redentor, que lindo!” 
(TOM JOBIM, 1959) 
 
Dois outros exemplos da imagem da cidade veiculada internacionalmente são os casos 
das produções da Disney e da 20th century Fox animations, nas quais a primeira se refere ao 
personagem de revistinhas, denominado de Zé Carioca, um papagaio amigo dos também 
personagens Pato Donald e Mickey Mouse, produzido na década de 1940 pelos estúdios de 
desenhos cinematográficos, após uma viagem do próprio Walt Disney ao Rio de Janeiro em 
1941; e a segunda se refere ao filme de animação Rio, produzido em 2011 e que narra a 
101 
 
 
 
história de uma arara-azul contrabandeada para os Estados Unidos e suas aventuras para 
retornar ao ambiente florestal de sua cidade natal, o Rio de Janeiro. 
Em ambos os casos, a imagem propagada da cidade é, principalmente, ligada a 
paisagem do Pão de açúcar, corcovado e Floresta da Tijuca, como pode ser visto na 
publicação recente do Zé Carioca, em que o personagem aparece tirando foto com a paisagem 
do Pão de Açúcar ao fundo e no cartaz em inglês do filme Rio, no qual se pode ler: “Ele está 
indo para o mais selvagem e mágico lugar da terra... seu lar”: 
 
 
Figura 25: Revistinha do Zé Carioca e Cartaz do filme Rio (2011). 
Fonte: Vieira (2020) e Filmow (c2016). 
 
 
Sendo assim, seja no Norte ou no Sul global, as duas cidades analisadas nesta 
investigação, se relacionam a ideia de que a natureza urbana lhes confere uma determinada 
imagem (imagens), na qual a paisagem atua como um recurso de atração tanto de pessoas, 
como no caso do turismo, quanto de investimentos, como no estabelecimento de empresas e 
novas infraestruturas de transporte e comunicação nessas cidades. Ademais, o fato de a 
102 
 
 
 
premiação de Oslo e do Rio de Janeiro surgir a partir do reconhecimento de duas respeitadas 
instituições mundiais, como é o caso da Comissão Europeia e da UNESCO, enfatiza ainda 
mais a imagem culturalizada do meio ambiente disponível nessas duas realidades urbanas 
perante o contexto global, conferindo crédito e confiabilidade a esses locais. 
Um exemplo recente da imagem transmitida através de elementos da cultura popular é 
a música “Nós não precisamos de jardim75”composta pela cantora norueguesa Ine Hoem no 
ano de 2020. Nesta canção, é abordado o fato da cidade de Oslo estar se expandindo por meio 
da verticalização e da presença de novos condomínios habitacionais, em oposição a habitação 
tradicional das famílias norueguesas, constituída de uma casa unifamiliar, com um amplo 
jardim. A cantora enfatiza, ao longo da música, a questão de morar em apartamento e não 
precisar de um jardim particular, pois a própria cidade oferece a todos os habitantes parques e 
praças, onde eles podem se sentir livres e, até mesmo correr, se quiserem. 
“Vi trenger ikke hage vi 
For vi har mange parker vi kan løpe i 
I byen føler vi oss fri 
Når de spør oss er det én ting vi skal si 
Vi trenger ikke hage vi” 
Nós não precisamos de jardim 
Porque nós temos muitos parques por onde podemos 
correr 
Na cidade nós nos sentimos livres 
Quando nos perguntam só há uma coisa a dizer 
Nós não precisamos de jardim 
(INE HOEM, 2020, tradução livre). 
 
Sendo assim, a imagem veiculada por meio da música, diz respeito,sobretudo, às 
mudanças na forma urbana e no planejamento pelas quais Oslo vem passando na 
contemporaneidade. É interessante notar que o título, por vezes inesperado e contraditório, 
nos faz pensar: “como uma população que valoriza tanto os momentos passados na natureza 
pode compor uma música cujo título diz não precisar de jardins?”. No entanto, por meio da 
letra, percebemos que a importância dos espaços verdes se sobressai na canção, e 
 
75 Tradução livre do título: Vi trenger ikke hage, vi. 
103 
 
 
 
compreende-se que, na realidade, o tema central é o acesso pleno a esses espaços no meio 
urbano de Oslo, que não somente é historicamente relevante, como continua sendo essencial 
para a vida dos moradores. 
Já na perspectiva da cidade do Rio de Janeiro, um exemplo recente é o do grafite feito 
pelo artista Gloye, em 2021, no qual a imagem transmitida foi a da Floresta da Tijuca. Neste 
caso, Gloye foi indicado por moradores do bairro de Laranjeiras, zona sul da cidade, para 
criar um painel num muro que previamente era coberto por heras, mas que após um acidente 
de carro, foi necessário retirar a vegetação do local. O muro, localizado na rua Alice, faz 
parte das ações dos moradores para transformar essa via pública em um “parque”, consistindo 
em um corredor de manifestações artísticas que remetem a natureza presente no Rio de 
Janeiro. Além disso, o interesse em utilizar o espaço do muro partiu também da preocupação 
da população com os altos índices de acidentes automobilísticos no local, que corresponde a 
uma perigosa curva no entorno dos acessos à Floresta da Tijuca. 
Dessa maneira, o artista Gloye produziu um amplo grafite, cobrindo o muro com 
imagens das árvores típicas da Mata Atlântica, bem como de animais silvestres presentes na 
floresta urbana, dentre os quais tucanos e micos. Em reportagem ao Jornal O Globo76, em 24 
de abril de 2021, Gloye afirma: 
“Revitalizar. Amar. Canalizar essa energia para ficar saudável; porque 
hoje está fácil se desequilibrar. Tem muita coisa para acontecer na 
cidade do Rio. A gente tem muita parede, muito assunto.” (AQUINO, 
2020). 
 
 
76 Para maiores informações consulte: <https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/gloye-desponta-na-street-
art-assina-mural-na-rua-alice-grafite-uma-arte-sem-limites-24978501>. Acesso em: 14 fev. 2022. 
https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/gloye-desponta-na-street-art-assina-mural-na-rua-alice-grafite-uma-arte-sem-limites-24978501
https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/gloye-desponta-na-street-art-assina-mural-na-rua-alice-grafite-uma-arte-sem-limites-24978501
104 
 
 
 
 
Figura 26: Grafite sobre a Floresta da Tijuca- Gloye. 
Fonte: Jornal O Globo (2021). 
Neste sentido, a imagem da natureza urbana presente no grafite, não só aumenta a 
visibilidade do bairro de Laranjeiras, como também da importância da Floresta da Tijuca para 
a cidade. Ademais, Freitas (2019, p. 66), diz que a paisagem-grafite vai além do aspecto 
visual, pois ela também é criada e vivenciada pelo seu artista criador. Sendo assim, 
compreender as experiências que Gloye obteve nos processos de elaboração do grafite 
também é relevante para entender os significados que transitam pela paisagem grafitada, e 
modificam a maneira de habitar a cidade. Por meio do trecho narrado durante a entrevista ao 
jornal, percebemos que Gloye relaciona o espaço verde da floresta a sensação de equilíbrio e 
bem-estar, ao mencionar o fato da pintura do mural significar uma revitalização, conectada a 
sua própria percepção de cidade saudável, a partir do recurso visual. 
No entanto, cabe ressaltar que, no caso do Rio de Janeiro, por vezes apenas uma parte 
da cidade, comumente associada a zona sul, é considerada, transmitida, e também vendida, 
como a imagem que trará a tão almejada visibilidade. Esse aspecto pode ser analisado a partir 
do histórico de formação carioca e de todas as desigualdades existentes no contexto 
socioeconômico, nas questões de habitação, infraestruturas e acesso a espaços públicos de 
qualidade, que difere de acordo com o bairro em que se está. 
Esse fato não é tão marcante na história sociocultural de Oslo. Apesar de existirem 
certas desigualdades na cidade, sobretudo nas áreas administrativas seccionadas pelo rio 
Akerselva, em bairros mais tradicionais a oeste, e os redutos da classe trabalhadora a leste. 
Entretanto, as diferenças tanto no acesso aos bens públicos, como as disponibilidades de 
infraestruturas por toda a cidade, são muito tênues. 
105 
 
 
 
Justamente essas duas questões presentes em Oslo e no Rio de Janeiro, no que tange a 
presença de espaços verdes, a manutenção e o acesso deles por parte da população, é que me 
instigaram a pesquisar sobre o desenvolvimento da natureza urbana nesses dois contextos 
sociais. A partir da minha experiência como estudante em Oslo, no ano de 2019, pude 
vivenciar a natureza por todos os lugares onde passei, de uma maneira muito mais facilitada 
do que em comparação a minha vivência no Rio de Janeiro. Mas por quê? As minhas 
inquietações me levaram a refletir sobre o fato de que a resposta não está no fato do Rio de 
Janeiro ser muito mais extensivo e populoso do que Oslo. A questão principal é a falta de uma 
política urbana e ambiental associada ao desenvolvimento socioeconômico, de forma 
integrada em todas as áreas da cidade carioca. 
A facilidade em se percorrer a paisagem urbana de Oslo, tanto a pé, quanto por 
transportes públicos, em meio a marcante presença dos espaços verdes, públicos e com alto 
grau de manutenção, influenciou na minha saúde física e mental. Isto é, a rica cobertura 
vegetal da cidade, além de seus rios, lagos e pequenas praias e ilhas na zona costeira, 
articularam a minha percepção sobre o efetivo sentido de biofilia urbana, a partir de uma 
sensação de bem-estar e plenitude, que me acompanhavam em absolutamente todos os meus 
trajetos. Apesar do meu curto tempo no território norueguês, o fato de poder colher frutinhas 
na floresta, durante o verão, e poder andar despreocupada de um espaço verde a outro, várias 
vezes ao dia, era algo novo para mim, mas completamente corriqueiro para a população da 
Noruega. 
Com relação a minha experiência enquanto estudante no Rio de Janeiro, embora seja 
inegável que a cidade tenha uma natureza urbana notável, com ampla relevância em termos de 
biodiversidade, o acesso a essa natureza é algo bastante restrito; no qual a desigualdade 
socioeconômica também se reflete em uma desigualdade ambiental, nos diferentes bairros 
cariocas. A partir do meu trajeto de ônibus, durante meus anos estudando na Pontifícia 
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), entre o período de 2013 e 2018, eu 
percebia nitidamente as diferenças em termos de natureza, entre as zonas norte, central e sul 
da cidade. Ao chegar à universidade, que se localiza na zonal sul, em proximidade a diversas 
áreas verdes, como o Jardim Botânico, Floresta da Tijuca, Parque da Gávea, entre outros, não 
apenas a sensação térmica se diferenciava (era sempre bem mais fresco), como também a 
minha sensação de bem-estar, por poder estar em um lugar tão arborizado e repleto de vida. 
Dessa maneira, a minha escolha por pesquisar sobre a relevância da Quinta da Boa 
Vista, sob a perspectiva socioambiental para a cidade, ocorreu devido a este parque específico 
106 
 
 
 
estar conectado a um passado importante para o desenvolvimento da nação, que teve a sua 
imagem sociocultural modificada na passagem do império para a república. Na atualidade, o 
fato do parque se situar em um bairro da zona norte, tendo um papel considerável em oferecer 
acesso a natureza urbana a moradores de contextos socioeconômicos distintos e seu potencial 
de conectividade a outros espaços verdes, como pode ser observado no capítulo 4, pode o 
relacionar a uma possibilidade de maior justiça ambiental na cidade do Rio de Janeiro. 
Em complementação,o Parque Frogner, em Oslo, representa também um momento 
histórico importante de formação da nação da qual ele faz parte. Porém, na 
contemporaneidade, esse parque possui ainda mais relevância socioambiental no contexto de 
uma região distrital que vem passando pela tendência a verticalização através das políticas de 
densificação do espaço urbano, onde o parque se torna o espaço de maior biodiversidade da 
área central da cidade; além de ser um elo de conexão entre os demais espaços de cobertura 
vegetal presentes nesta paisagem urbana. 
 Portanto, em meio a todo o meu percurso profissional e experiencial acerca dos 
espaços urbanos citados, o objetivo principal desta investigação acadêmica, é o de 
compreender como os aspectos socioambientais desses dois parques, isto é, como o histórico 
deles e as multifuncionalidades, enquanto espaços ao mesmo tempo de sociabilidade e 
ecológicos, podem se relacionar às dinâmicas de bem-estar urbano da atualidade das cidades 
das quais esses parques são partes essenciais77. 
 
 
 
 
 
 
 
 
77 Conceitos: 1) Sociabilidade- as atividades realizadas nos dois contextos empíricos são experiências espaciais 
permeadas de significados relevantes para a compreensão das dinâmicas socioculturais da cidade 
contemporânea; 2) Sustentabilidade- a conectividade entre esses parques e os outros espaços verdes das cidades, 
e os conjuntos de ações que os preservam; 3) Gestão- como esses parques são gerenciados por suas 
municipalidades e como a imagem da natureza urbana é veiculada nos discursos midiáticos oficiais. 
 
107 
 
 
 
CAPÍTULO 4: CONTEXTOS EMPÍRICOS – A CONTEMPORANEIDADE DO PARQUE 
PÚBLICO 
 
4.1 PARQUE FROGNER 
 
O parque Frogner é um parque urbano e público com origens na Idade Média, quando 
ainda era uma mansão agrícola. No século XVIII, a municipalidade da Kristiania (Oslo)78, 
comprou suas terras, e em 1896 o espaço se tornou propriedade oficial do estado, com a 
intenção original de transformá-lo num cemitério para a parte ocidental da cidade, ideia que 
foi cancelada por decisão do conselho urbano em 1902, onde sua função de parque foi 
mantida79. Situado no bairro de mesmo nome, na cidade de Oslo-Noruega, esse espaço já 
passou por diversas transformações ao longo de sua existência, dentre as quais podemos 
destacar a reestruturação de uma de suas áreas internas em estilo neoclássico, idealizada pelo 
escultor norueguês Gustav Vigeland no ano de 1934, local hoje conhecido como Parque 
Vigeland. Essa distinção se deve justamente pelas esculturas feitas por esse artista no interior 
do parque, representando figuras humanas em diversas posições e atividades diárias, o que o 
faz ser um espaço bastante peculiar e famoso na paisagem urbana da cidade. 
Brøgger (2016, p. 74) argumenta que entre as décadas de 1910 e 1920, quando a 
cidade de Oslo estava imersa numa ampla discussão política acerca do planejamento urbano e 
da presença de parques públicos, o então jardineiro-chefe da cidade, Marius Røhne, e Gustav 
Vigeland tiveram embates acirrados com relação às suas ideias opostas perante o futuro do 
Parque Frogner no contexto de integração de áreas verdes. De um lado, Røhne temia que 
Vigeland “transformasse o parque em um parque de esculturas particular”, desconectado da 
essência básica do movimento político que estava em curso na cidade, que o concebia como 
lugar com abundância de vegetação, projetado como ambiente natural e próximo a população 
(RØHNE, 1965, p. 155 apud BRØGGER, 2016, p. 74). 
Cabe destacar que, mesmo com essa disputa de interesses, Vigeland acabou sendo 
convidado a projetar um local para suas esculturas na parte central do parque, fato que gerou 
ainda mais desavenças, tendo em vista que ele não tinha conhecimentos prévios sobre 
paisagismo ou alguma experiência com projetos urbanos. Porém, o resultado foi aceito pela 
Câmara Municipal sem contestação, gerando “indignação entre os críticos em muitos campos, 
 
78 Oslo se chamava Kristiania entre os anos de 1624 e 1925. 
79 O Cemitério acabou sendo construído ao lado do Parque Frogner, localizado no mapa da Figura 29 como 
Vestre Gravlund (cemitério ocidental). 
108 
 
 
 
desde artistas, arquitetos e planejadores próprios, até sobretudo jardineiros e arquitetos 
paisagistas” (JØRGENSEN, 1997, p. 255). 
 
 
Figura 27: Parque Vigeland. 
Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
 
Apesar de todo esse histórico, as esculturas representam um grande atrativo turístico 
na atualidade do parque, sendo um dos espaços públicos mais visitados em Oslo 
(JØRGENSEN, 2018). Entretanto, não é apenas pela arte que o parque é tão relevante, mas 
também por ser a maior área verde, com 320.000 m2 na parte central da cidade, favorecendo 
sobretudo os moradores dos bairros Frogner, Majorstuen, Blindern e Ullevål, vide Figura 29. 
Sob esta perspectiva analítica, podemos dizer que também o legado de Marius Røhne pode ser 
sentido nos dias atuais. Isso é considerativo tendo em vista a tendência da recente política 
urbana de Oslo a densificação nas áreas já urbanizadas, fazendo do centro da cidade e bairros 
adjacentes, locais com menor presença de cobertura vegetal, quando comparados a outros 
espaços mais distantes do centro. 
 
109 
 
 
 
 
Figura 28: Mapeamento da área de cobertura vegetal em Oslo com destaque em vermelho para os bairros de 
Frogner e Sentrum. 
Fonte: Adaptado de Bymiljøetaten (2021). 
 
110 
 
 
 
 
Figura 29: Localização do Parque Frogner no contexto do bairro e áreas vizinhas. 
 Fonte: Google Maps 2022. 
 
 
Figura 30: Identificação dos mosaicos internos do Parque Frogner, destacado em laranja. 
Fonte: Adaptado pela autora através de Arcgis Earth (2022). 
111 
 
 
 
De acordo com Gísladóttir (2014, p. 43), em seu estudo sobre a importância das áreas 
verdes de Oslo para a saúde da população idosa, o Parque Frogner representa um espaço de 
refúgio, além de ser um ótimo local para leituras, encontrar amigos e fazer exercícios físicos 
durante a semana (GÍSLADÓTTIR, 2014). A pesquisadora realizou entrevistas durante todas 
as estações do ano, para identificar como os idosos vivenciavam o parque em climas distintos, 
e como a arquitetura paisagística presente nesta área verde contribuía sobretudo para facilitar 
o acesso desse grupo de pessoas, como por exemplo, a presença de bancos no interior do 
parque, além de rampas e corrimões seguindo o desenho universal. 
Um de seus resultados foi o fato de o Parque Frogner estar localizado num bairro 
antigo e tradicional da cidade, influenciando o nível de manutenção e atenção que este espaço 
recebe por parte da prefeitura. Ela constatou também que, em Frogner, existe um grande 
número de residências para idosos, o que favorece ainda mais as atividades sociais que este 
grupo realiza no parque, local próximo de suas moradias. Gísladóttir (2014) argumenta que, 
especialmente as pontes e o lago, bem como o jardim inglês (Skøyenparken), que são mais 
afastados das esculturas e das áreas centrais, “proporcionam um ambiente de calma e 
relaxamento, onde se observa o rio Frogner seguir seu curso por baixo da ponte e ir em 
direção ao oceano” (GÍSLADÓTTIR, 2014, p. 57, tradução livre).80 
 
 
Figura 31: O Parque Frogner no inverno. 
 Fonte: Lisabethwasp - Own work, CC BY-SA 4.0. 
 
80 Por outro lado, ela identifica que a presença de músicos de rua, por vezes imigrantes, localizados 
especificamente no Parque Vigeland, causa desconforto, por conta do som alto de suas canções e falatório 
(GÍSLADÓTTIR, 2014, p. 57). 
112 
 
 
 
 
Figura 32: O parque Frogner no verão. 
Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
Além disso, o Parque Frogner se localiza próximo a diversas conexões de transportes 
públicos como estações de metrô (na rua Kirkeveien), pontos de ônibus e bondes, facilitando 
o acesso do público de outras localidades a este espaço, por meio de integrações de diferentes 
linhas de deslocamento. Os principais bairrosque mantém conexões diretas através do sistema 
de transportes coletivos são: Majorstuen, Blindern e Sentrum, além do próprio bairro Frogner. 
Com relação aos veículos privados, não existem muitas áreas para estacionamento ao redor do 
parque, com exceção do espaço na entrada principal (rua Kirkeveien), destinado aos ônibus de 
turismo, o que implica num movimento limitado de carros no acesso a esta área verde. 
 
Figura 33: Mapa de localização e Entrada lateral do Parque. 
Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
113 
 
 
 
Como foi dito anteriormente, as esculturas de Vigeland atraem sobretudo turistas, que 
se sentem impactados num primeiro contato com a arte permanentemente exposta no local, 
porém, outros fatores também influenciam nas dinâmicas multifuncionais presentes ali, como 
por exemplo, a presença de três ambientes com entrada paga, como a piscina pública 
frognerbadet e o complexo esportivo, com uma quadra de tênis e um estádio de futebol, além 
da cafeteria. Com relação as atividades e espaços gratuitos, destacam-se a ampla área de lazer 
com gramados extensos, playgrounds para crianças e adultos, bem como a maior coleção de 
rosas do país, com 150 espécies diferentes, atraindo famílias aos finais de semana, que se 
reúnem no parque para realizar desde piqueniques, e até mesmo passear com animais de 
estimação ou assistir a um concerto ao ar livre (sendo este último uma atividade onde se cobra 
ingressos). 
 
Figura 34: Entrada da piscina pública Frognerbadet. 
Fonte: Hans-Petter Fjeld - Own work, CC BY-SA 2.5 (WIKIPEDIA, 2020). 
 
 
Figura 35: Norwegian Wood Festival. 
Fonte: Visit Oslo (2019). 
114 
 
 
 
É interessante notar que a história do Parque Frogner está associada ao 
desenvolvimento do bairro, remontando às origens agrárias na Idade Média até o seu posterior 
desenvolvimento como propriedade burguesa e, enfim, propriedade da municipalidade. Neste 
sentido, o parque se relaciona tanto à história sociocultural de Oslo, quanto ao sistema de 
parques pensado por Marius Røhne e Harald Hals, como foi visto no capítulo anterior. É um 
lugar que mantém significados socioculturais, perpetuando não somente o passado e o 
presente, mas também o futuro da cidade. Isso pode ser visto no fato do museu que narra a 
história de Oslo (Bymuseet) estar situado dentro do Parque Frogner, podendo indicar que o 
parque mantém as raízes históricas da cidade, além de instalações artísticas, como as 
esculturas de Vigeland, que representam o momento no qual a Noruega buscava sua 
identidade nacional através das artes. No que tange ao presente e ao futuro, o painel sobre a 
presença de imigrantes na Noruega81, vide figura 38, pode ser interpretado como relatos do 
presente de um ambiente urbano em constante transformação, em direção a um novo futuro 
sociocultural, do qual o Parque faz parte. 
 
 
Figura 36: Gramado e o Museu da cidade (Bymuseet) ao fundo. 
Fonte: Arquivo Pessoal (2019). 
 
81 Onde pode ser lido: “A maior minoria étnica em Oslo é a de paquistaneses, seguidos por imigrantes da 
Suécia, Somália e Polônia” ( tradução livre da autora). 
115 
 
 
 
 
Figura 37: Cafeteria. 
 Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
 
 
 
Figura 38: Texto aos fundos da cafeteria do Parque, sobre os grupos étnicos presentes em Oslo. 
Fonte: Arquivo Pessoal (2019). 
 
116 
 
 
 
 4.1.1 A paisagem e as vivências 
 
Em uma análise fenomenológica, o autor Brøgger (2016, p. 72-75), descreve suas 
interações com o Parque Frogner durante a infância, destacando a simbologia que o lugar 
ainda guarda em sua memória: 
As partes do parque que eu procurava quando criança eram, acima de tudo, 
os projetos de jardins naturalistas de Røhne, que também convidavam a 
impressões de "um ambiente rico e sem foco" que apelava a todos e cada um 
dos meus sentidos. De acordo com a minha percepção, o Parque Frogner era 
um ambiente semelhante ao Éden para um menino como eu. Muito antes de 
saber os nomes das muitas plantas e animais que habitavam o parque, eu 
estava eternamente apaixonado por eles. O nome de Frogner pode ter origem 
no antigo nórdico fraun, que significava "solo fértil" - e, embora altamente 
cultivado, este era um ambiente exuberante com seus amplos gramados, duas 
lagoas, riacho e seus vários milhares de árvores que incluíam alguns bordos, 
olmos e tílias do ano de 1700 (alguns deles com mais de cinco metros de 
circunferência), para não falar da selva densa de árvores menores e arbustos 
ao longo do riacho Frogner abaixo do segundo lago, e as encostas cobertas 
de arbustos abaixo do Monolito que ofereciam, em seus caramanchões, 
esconderijos secretos tanto para mim quanto para os pardais (BRØGGER, 
2016, p. 75, tradução livre). 
 
Neste sentido, o autor que morava na parte baixa de Kirkeveien, do outro lado do 
parque, pôde vivenciar durante seus primeiros anos de vida (a partir dos anos de 1960), uma 
natureza que ele associa às suas memórias de infância, tornando o espaço deste parque 
específico como uma fonte de resgate das suas primeiras descobertas da natureza. O Parque 
Frogner ofereceu a ele uma espécie de santuário natural, onde ele tinha um refúgio. Além de 
ser a sua “floresta encantada” (BRØGGER, 2016, p. 72), o autor destaca que, de dentro do 
parque podia-se ter uma visão panorâmica das diversas colinas (koller), que estão presentes 
em Oslo, impelindo nele a curiosidade de conhecer os outros espaços verdes que a cidade 
tinha a oferecer. 
Dessa maneira, podemos dizer que, a partir das recordações do pesquisador, a conexão 
entre os parques e demais áreas verdes promovida pelo planejamento urbano e o sistema de 
parques do século XX, visto no capítulo 3, não era apenas algo delimitado e gerenciado 
genericamente nos mapas, mas era também uma percepção visual daqueles que frequentavam 
117 
 
 
 
o local, onde a paisagem do parque, como se fosse um leque, se expandia para além de seu 
perímetro inicial, proporcionando um horizonte de interligação entre os diversos espaços 
verdes na paisagem urbana de Oslo. 
Brøgger (2016, p. 80) também narra que o Parque Frogner era um local onde ele 
costumava brincar durante todas as estações do ano, subindo em árvores em Gratishaugen, no 
verão, ou jogando bolas de neve nas estátuas nuas durante o inverno. Foi neste local de 
natureza urbana e idealizações humanas que o autor afirma ter começado a observar a vida de 
todos os animais que preenchiam os vários biótopos do parque, expandindo sua consciência 
sobre o mundo e as diferentes maneiras pelas quais partilhamos o ambiente com outras formas 
de vida (BRØGGER, 2016). 
De uma certa maneira, a partir das informações acima, o Parque Frogner ativou duas 
formas de expansão no cotidiano do autor: tanto para o exterior, ligando-o às colinas de Oslo 
e aos aspectos socioculturais do contexto urbano da cidade, mas também para o interior, 
desencadeando a noção de que, dentro do próprio parque, existiam mundos ecossistêmicos 
com dinâmicas e elementos completamente novos, e por si só, únicos. 
 
 
Figura 39: Aspectos da vegetação do Parque Frogner. 
Fonte: Arquivo Pessoal (2019). 
 
 
118 
 
 
 
No período de 2020 a 2021, foram realizadas entrevistas (vide modelo Anexo 1), no 
formato de pequenos relatos, com frequentadores recentes do Parque Frogner. O grupo foi 
selecionado com base na idade e local de moradia (cidade de Oslo), onde buscou-se abordar 
com profundidade analítica, a experiencia de um grupo restrito de pessoas dentro do Parque. 
Neste sentido, destacam-se as pessoas na faixa etária dos 20 anos aos 30 anos, bem como dos 
40 anos aos 70 anos, estrangeiros e noruegueses nativos, que comentaram sobre a experiencia 
deles tanto com relação aos espaços verdes da cidade de Oslo, quanto com relação específica 
ao Parque Frogner. 
O eixo central das respostas foi a questão dos espaços públicos preferidos dos 
entrevistados na cidade, que variaram desde o lago Sognsvanne a floresta Nordmarka, para 
nadar, fazer caminhadas e trilhas, até mesmo pequenos parques urbanos e feirinhas no bairro 
Grunerlokka, além das ilhas presentes no fiorde, que promovem um bom local para nadar e se 
refrescar no verão. Neste contexto, o Parque Frogner foi citado como lugar muito escolhido 
para levar os turistas que visitam a cidade, além de ser um espaço para caminhadas e 
exercícios físicos daqueles que moram nas imediações do local. 
A paisagem verde da cidade foi amplamente percebida como algo benéfico e que 
promove o bem-estar. A partir do eixo das respostas com relação aos espaços verdes, pode-se 
destacar que a presença da vegetação afeta as pessoas de maneira positiva, deixando-as mais 
calmas e centradas, além de lhes possibilitar acompanhar as diferentes estações do ano, pelas 
mudanças na coloração e aspecto das folhas. Isto é, tendo efeitos sobretudo na saúde mental 
de todos os entrevistados. 
É interessante notar que, para a entrevistada norueguesa 1 (vide Anexo 2), não os 
parques, mas sim a floresta é um local onde pode-se permanecer durante muitas horas do dia, 
realizando inúmeras atividades diferentes. Porém, apesar de afirmar que alguns parques não 
são tão atrativos assim, ela reconhece que justamente a presença da vegetação dentro e ao 
redor de Oslo é o que influencia na vontade das pessoas a saírem de suas casas e enfrentarem 
a neve e o frio do inverno, o que talvez não ocorresse se apenas houvessem prédios por toda a 
paisagem urbana. Desse modo, a vegetação, a zona costeira e demais áreas de rios e lagos, 
exercem uma função dupla, relacionada tanto a questão da cidade biofílica (a), quanto a 
questão da sustentabilidade (b): (a) oferece um rico espaço de sociabilidade e bem-estar para 
os habitantes, como também auxilia na regulação hídrica e resiliência urbana (b). 
 
119 
 
 
 
De acordo com as respostas neste mesmo eixo temático, sendo a primeira do 
entrevistado de 70 anos -3, e a entrevistada americana de 46 anos- 4 (vide Anexo 2), percebe-
se que os espaços verdes também tem o papel de aproximar as pessoas dos outros animais que 
convivem conosco no meio urbano. Assim como Brøgger (2016) afirmou ter iniciado seu 
contato com a fauna no Parque Frogner, ainda em sua infância, o entrevistado, um senhor de 
70 anos -3, nesta pesquisa, enfatiza o fato dos espaços de natureza favorecerem o contato com 
animais, influenciando até mesmo na noção de que não estamos sozinhos neste mundo, fato 
que é o contrário do ambiente solitário e individual que muitos contextos das grandes 
metrópoles oferecem atualmente. 
Além disso, na fala da entrevistada imigrante dos Estados Unidos- 4, percebe-se a 
relevância do verão para os habitantes da Noruega. A luz do sol influencia na quantidade de 
horas que as pessoas passam ao ar livre e, neste sentido, o Parque Frogner aparenta ser um 
bom lugar na cidade para celebrar esse tão importante momento do ano, no qual se comemora 
o solstício de verão no hemisfério norte. Além disso, a pandemia do Coronavirus também 
influenciou em novas maneiras de se aproveitar a cidade. Essa entrevistada enfatiza também 
a questão da arte. A partir da fala dela, o espaço ao ar livre influencia na percepção que se tem 
sobre o artefato artístico. E, no caso do Parque Frogner, se nota que o próprio parque pode ser 
considerado como uma obra de arte, pois a natureza, as construções e as esculturas possuem 
conexão entre si, formando um complexo paisagístico82. 
Com relação a importância do Parque Frogner para a estrutura e história urbana da 
cidade, a temática do turismo foi muito citada. Para os entrevistados noruegueses, apesar de 
ser um parque de grandes dimensões, ele é um local frequentado, principalmente, por 
moradores do próprio bairro Frogner e adjacências. Também este grupo enfatizou ser o 
parque um marco turístico de Oslo, relevante para desafogar as outras áreas verdes, como 
pode ser percebido na entrevista realizada com a norueguesa de 28 anos -1, moradora do 
bairro Sagene, não tão próximo de Frogner e o entrevistado de 70 anos -3 (vide Anexo 2). 
Neste sentido, podemos analisar que a entrevistada norueguesa, corrobora com o fato 
de que as esculturas representam uma enorme atração turística para a cidade, além de fazerem 
parte da cultura da Noruega, mas que enquanto espaço verde, o Parque Frogner é tão relevante 
quanto os outros parques de Oslo, exercendo o seu papel de espaço de sociabilidade num 
 
82 Atualmente, muitos parques pelo mundo possuem arte em seus interiores, como o Museu de Kistefos, no 
interior da Noruega, que é um parque com instalações artísticas dentro. E o próprio Instituto Inhotim no Brasil, 
localizado em Minas Gerais, abrigando um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil e 
considerado o maior museu a céu aberto do mundo. 
120 
 
 
 
contexto mais local, fato que também ocorre com os outros parques da cidade. Isso se conecta 
às análises de Gísladóttir (2014), a respeito do Parque Frogner ser um local de visitação 
escolhido por idosos do próprio bairro Frogner, bem como a narrativa de Brøgger (2016), que 
morou na rua Kirkeveien, próximo à entrada principal do parque durante a infância, além da 
política e o sistema de áreas verdes idealizado até a primeira metade do século XX, como foi 
abordado no capítulo 3, segundo a qual Marius Røhne implementou espaços verdes nos 
bairros para oferecer espaços com natureza urbana próxima aos locais de moradia das 
pessoas. 
Além disso, cabe destacar que, o fato de o parque ser muito visado pelo turismo e ter 
uma grande área de extensão, é visto de maneira positiva pela entrevistada, quando ela afirma 
que estas características contribuem para desafogar outros parques menores, localizados em 
outras áreas da cidade. Este aspecto é relevante uma vez que, se não fosse a presença de um 
Parque com 320 mil m2 nas imediações centrais de Oslo, talvez outros espaços verdes 
menores tivessem suas capacidades sobrecarregadas, influenciando na sensação de bem-estar 
desses locais. Isso representa mais uma das conexões que o Parque Frogner possui com esses 
outros parques, que vai além da conexão visual e cartográfica, mas também tem a ver com o 
fluxo de pessoas que transita por esses espaços. 
 
 
Figura 40: O parque durante o outono. 
 Fonte: Visit Oslo e Vigeland… (2020). 
 Ainda sobre a temática da percepção dos moradores de Oslo sobre o Parque Frogner, e 
com base nos relatos do entrevistado norueguês de 32 anos- 6 e do entrevistado de 70 anos- 3 
(vide Anexo 2), pode-se observar que a relação entre este parque e a história da Noruega é 
algo bastante presente na consciência das pessoas que moram em Oslo, sejam elas 
121 
 
 
 
norueguesas de nascença ou imigrantes. Como o senhor de 70 anos-3 afirmou, a construção 
do local foi premeditadamente pensada para ser algo marcante; algo que transmitisse a 
mensagem de que o país possuía grandes obras arquitetônicas e artísticas. Tendo em vista que 
demarcar e construir um determinado empreendimento confere significado de poder ao 
espaço, transformando-o em território, onde “as construções arquitetônicas materializam e 
concretizam a ordem social, ideológica e mental” (PALLASMAA, 2017, p. 96), e que “uma 
obra de arte é uma imagem, um complexo experiencial e emocional que penetra diretamente 
em nossa consciência” (PALLASMAA, 2017, p. 59), podemos dizer que a integração entre a 
arte e a natureza presentes neste parque (enquanto obra paisagística), contribui para perpetuar 
a consciência de independência e comunidade nacional do país, de geração em geração que 
frequenta ou já ouviu falar no parque. 
A questão da união entre natureza, arte e momentos de lazer também foi abordada 
pelas entrevistadas da Indonésia- 7 e Estados Unidos -8, ambas estudantes internacionais em 
Oslo, na faixa etária dos 20 anos, ao afirmarem que o Parque Frogner é um ótimo local na 
cidade paraa realização de exercícios físicos ao ar livre, além de atividades de lazer coletivas 
e individuais, como piqueniques, e até mesmo a pintura e o desenho, por exemplo. 
 
 
Figura 41: Família realizando um piquenique no gramado (1) e homem passeando com cachorro (2) – Parque 
Frogner. 
Fonte: Arquivo pessoal (2019). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
122 
 
 
 
 4.1.2 Aspectos da gestão 
 
O Parque Frogner é administrado pelo Departamento de Meio Ambiente da cidade de 
Oslo, chamado Bymiljøetaten83, criado em 2011. O objetivo desse departamento é o de 
gerenciar áreas comuns como ruas, praças, parques, áreas de lazer, instalações esportivas, 
campos e o interior de Oslofjord, além de também ser responsável pelo ar, ruído, água e o 
solo. Segundo informações do próprio website do Bymiljøetaten, o objetivo é tornar Oslo 
uma cidade segura, bonita, verde e ativa84. 
Apesar de ser um parque público e de responsabilidade do Departamento de Meio 
Ambiente, o Parque Frogner também recebe verbas e repasses através da associação 
“Frognerparkens Venner”, ou “Amigos do Parque Frogner” em português. Tendo sido 
fundada em 1971, essa associação reúne pessoas interessadas pelo parque, bem como 
frequentadores e moradores dos arredores, que investem na manutenção do espaço e 
cooperam com o Departamento de Meio Ambiente, as administrações do Museu Vigeland e 
do Museu da Cidade de Oslo, para preservar o parque da melhor maneira possível, com o 
intuito de que o maior número possível de pessoas desfrute do local. 
De acordo com informações do website do Departamento de Meio Ambiente, o Parque 
Frogner não somente é o maior parque do centro de Oslo, como também é muito popular entre 
os habitantes da cidade. Por esse motivo, é um parque que fica aberto 24 horas por dia, em 
todas as estações do ano e tem entrada gratuita. Ainda segundo o website, o Parque Frogner é 
protegido pela Lei do Patrimônio Cultural da Noruega. É interessante destacar que não apenas 
as esculturas são consideradas parte desse patrimônio, mas também a vegetação, como as 
flores, destacando as 150 espécies diferentes de rosas, e os vários tipos de árvores encontradas 
dentro do parque; como a tília, bordo, plátano, olmo, álamo e o freixo. Além disso, o fato do 
rio Frogner fluir para o norte e passar por dentro do parque, formando duas barragens, 
frognerdammene, também influencia na importância que este parque possui. 
Nesse sentido, para compreender mais sobre as dinâmicas de gestão da cidade de Oslo, 
no que tange o seu planejamento urbano e ambiental, da trama verde e azul da cidade, da qual 
o Parque Frogner faz parte, eu realizei, em 2020, entrevista com a urbanista norueguesa Ellen 
de Vibe, ex-chefe de urbanismo da Agência de Planejamento e Serviços de Construção em 
 
83 Anteriormente, este espaço, bem como todos os outros parques da cidade eram geridos pelo Departamento do 
esporte, friluftsliv e parques. 
84 Disponível em: <https://www.oslo.kommune.no/etater-foretak-og-ombud/bymiljoetaten/#gref>. Acesso em: 1 
fev. 2022. 
https://www.oslo.kommune.no/etater-foretak-og-ombud/bymiljoetaten/#gref
123 
 
 
 
Oslo. Ela respondeu a questões relacionadas às políticas urbanas implementadas na cidade ao 
longo de seus 20 anos de trabalho na prefeitura, além da nomeação de Oslo como “Capital 
verde da Europa” em 2019, bem como a sua percepção com relação a presença de espaços 
verdes públicos e as políticas urbanas do século XX (como pode ser verificado no Anexo 2). 
 A entrevistada realça a importância dos espaços verdes para a malha urbana da 
cidade, bem como as políticas públicas recentes que deram continuidade ao trabalho que foi 
feito ao longo do século XX. Por exemplo, em 2009, a Câmara Municipal da cidade aprovou 
novas diretrizes para o Plano Diretor, onde consta que as ruas devem ser permeadas por 
infraestruturas verde e azuis, além de que a cidade deve oferecer 1000m2 de espaço público 
por 20000m2 de área construída. Esses aspectos podem ser visualizados ao estudarmos a 
contemporaneidade dos parques públicos de Oslo, e como eles se associam aos demais 
componentes urbanos. 
 É interessante notar que, em sua experiência pessoal, Ellen de Vibe utiliza o Parque 
Frogner para caminhar e, sobretudo, encontrar seus netos e promover brincadeiras com eles 
no local. Isto é, o Parque se relaciona à saúde e a encontros familiares. Além disso, na questão 
número 8, de Vibe aponta que esse parque exerce a função de conexão entre áreas verdes 
dentro e fora da cidade; é como se fosse uma transição entre o espaço da floresta urbana até a 
área verde localizada na península de Bygdøy, interligando a paisagem verde a paisagem 
costeira, dos fiordes e do mar. Isso se reflete muito bem na famosa descrição da cidade de 
Oslo, popularizada pela pesquisadora Elin Børrud- “Azul, verde e a cidade no meio”85. Neste 
sentido, a floresta encontra nos parques presentes na cidade, uma conexão paisagística com o 
mar, fazendo de Oslo um lugar com uma paisagem urbana bem estruturada através de sua 
trama verde-azul. 
Um outro aspecto da gestão e, também da sociabilidade, se relaciona a maneira pela 
qual o Parque Frogner é noticiado das redes sociais (neste caso Instagram) de setores de 
Turismo e Meio Ambiente da cidade (Visit Oslo e Bymiljøetaten, respectivamente). Vale 
notar que não é apenas uma forma de transmissão imagética unilateral, mas também as redes 
sociais têm a função de manter um contato mais próximo com o público que as seguem, 
estabelecendo, muitas vezes, uma relação de aproximação entre a gestão, os locais públicos e 
turísticos, e as pessoas, que se utilizam do espaço virtual para dar suas opiniões sobre o que 
está sendo publicado. 
 
85 Conferir Børrud em “How wide is the border” (2015). 
124 
 
 
 
Neste contexto, os espaços da cidade vão se reinventado a todo instante, numa 
velocidade muito rápida de diálogo e compartilhamento de informações. Por exemplo, a 
figura 42 abaixo, postada pela página Visit Oslo, em abril de 2021, traduz o parque como “o 
lugar favorito de muitos, sendo o pulsar do coração de Oslo, pois reúne elementos 
socioculturais da cidade”. E, em destaque, o comentário de um dos seguidores da página, se 
referindo ao parque como “um bom lugar para experimentar as mudanças de estação na 
cidade”. Isso caracteriza uma reprodução da imagem turística do parque, que ganha 
legitimidade através da postagem da página Visit Oslo e, principalmente, através dos 
comentários de pessoas que já estiveram ou gostariam de estar no local referido. Como num 
efeito dominó, outras pessoas pelo mundo verão as postagens, e poderão sentir curiosidade em 
viajar e/ou conhecer o Parque. Essa mesma lógica é seguida na figura 43, de junho de 2021, 
na qual é enfatizado o período das férias escolares e a visitação das crianças ao Parque 
Frogner. 
 
 
Figura 42: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 1. 
 Fonte: Instagram Visit Oslo (2020). 
 
 
 
125 
 
 
 
 
Figura 43: Imagem do Instagram sobre o Parque Frogner 2. 
Fonte: Instagram Visit Oslo (2022). 
 
Figura 44: A transição para do outono no Frognerparken. 
Fonte: Instagram Bymiljoetaten (2021). 
 
Já a página Bymiljøetaten (figura 44), em agosto de 2021, nos apresenta o Parque 
sendo noticiado a partir da mudança de estação do ano, neste caso do verão para o outono. As 
fotos são particularmente convidativas e bonitas, mostrando a natureza urbana presente no 
local, sobretudo, as árvores com folhas tendendo ao amarelo/laranja. Esse tipo de publicação 
tem a potencialidade de influenciar as formas de ocupação e lazer dos espaços da cidade. 
Ainda mais num contexto de um outono que se aproxima, e com ele dias mais frios. Cabe 
destacar que a legitimidade da postagem ocorre, pois é justamente o setor de Meio Ambiente 
da cidade, quem administra os espaços verdes, incluindo a área do Parque Frogner e a floresta 
urbana Oslomarka. 
126 
 
 
 
4.2QUINTA DA BOA VISTA 
 
 A Quinta da Boa Vista é um parque público localizado no bairro de São Cristóvão, 
zona norte do Rio de Janeiro. Atualmente, é administrada pela Fundação Parques e Jardins do 
município. É interessante notar que o Parque conta com instituições importantes em seu 
interior, como o zoológico Bio Parque (antiga fundação Rio Zoo), o Museu Nacional- que 
compreende o antigo palácio imperial e o horto botânico, este último sendo mantido pela 
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Originalmente localizada no vale, entre 
morros e colinas, o local no período até 1759, se situava em terras de origem jesuítas, 
compreendendo uma extensão territorial “das margens do rio Maracanã até as imediações de 
Inhaúma. A parte litorânea dessa imensa propriedade incluía a Ponta do Caju, de um lado, e 
quase toda a margem oeste do atual Canal do Mangue, no outro extremo” (FERREIRA; 
MARTINS, 2000, p. 130). 
 
Depois, em 1808, a área foi cedida para ser nova moradia da Família Real Portuguesa 
e, posteriormente, foi também residência da Família Imperial Brasileira, durante os dois 
impérios. No Segundo Império, seus jardins foram idealizados pelo horticultor francês 
Auguste François-Marie Glaziou, em 1868, a pedido do então imperador D. Pedro II. De 
acordo com Trindade (2014, p.60), o complexo paisagístico foi construído para o uso da 
família imperial e demais pessoas que moravam no interior da propriedade, mas também, aos 
domingos, a área da Quinta da Boa Vista era aberta à população. 
 
 Foi somente após a reforma paisagística idealizada por Glaziou que os jardins 
passaram a ser frequentados pelo público (FERREIRA; MARTINS, 2000). Isso foi favorecido 
também pelas mudanças do entorno da área, dentre as quais destacam-se: 
 
Estabelecimento de linhas regulares de ônibus puxados à tração animal e 
mais tarde pelos bondes, que faziam a ligação entre São Cristóvão e a 
cidade, ou seja, é a partir do reinado de D. Pedro II que, aos poucos, o povo 
teve acesso aos jardins do palácio e passou a assumi-lo como também seu 
(FERREIRA, 2000, p.145). 
 
127 
 
 
 
 
Figura 45: Passeios na Quinta da Boa Vista (1911). 
Fonte: Brasiliana fotográfica, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (c2002-2012). 
 
Entretanto, é interessante observar que segundo Macedo e Sakata (2002), não era toda 
a população que poderia ter acesso à Quinta da Boa Vista, mas: 
Por suas alamedas desfilavam senhoras, cavalheiros e crianças ostentando o 
elaborado vestuário da época, com fraques pesados, vestidos com armações e muitas 
saias, e sombrinhas, a maior parte das roupas totalmente inadequada a um país 
tropical como o Brasil. Repetia-se no uso do espaço público o mesmo tipo de 
comportamento social que caracterizava as demais esferas da vida do novo país em 
formação: a cópia, a reprodução dos padrões anglo-franceses. Essa tendência pode 
ser constatada na arquitetura (MACEDO; SAKATA, 2002, p. 23). 
 
Tendo sido inspirado nos jardins burgueses franceses, o projeto de Glaziou também 
incluiu conhecimentos da flora brasileira, produzindo uma paisagem bucólica e mística, com a 
presença de grutas artificialmente construídas, lagos com margens curvilíneas e canteiros com 
espécies nativas do Brasil. Vale ressaltar que neste mesmo período, o reflorestamento da 
Floresta da Tijuca estava em curso, e Glaziou utilizou muitos dos conhecimentos adquiridos 
com a Floresta para a Quinta da Boa Vista. 
De acordo com Magalhães (2017, p. 19), Glaziou fazia parte de um grupo extenso de 
imigrantes que chegou na segunda metade do século XIX, e trazendo suas tradições 
paisagísticas com a recriação de inúmeros espaços públicos e privados por todo o país, 
promovendo o cenário pitoresco do jardim paysager no contexto brasileiro. A autora também 
destaca que a própria formulação dos jardins, era como obras de arte, feitas utilizando a 
técnica do cimento armado (roccailles), como ornamentos de decoração, mimetizando os 
128 
 
 
 
diversos elementos da natureza, como rochas, grutas e cascatas, por exemplo 
(MAGALHÃES, 2017, p. 19-20). 
 
 
Figura 46: Lago da Quinta da Boa Vista e rochas construídas utilizando a técnica do roccaille. 
Fonte: Arquivo pessoal (2021). 
 
Neste sentido, a idealização específica dos jardins da Quinta da Boa Vista, seguiu o 
ritmo nacionalista e romântico, pois materializou no espaço da residência imperial, uma nova 
tradição formal, unindo a riqueza florística do país a arte projetual em voga, principalmente 
na França, representando concretamente no espaço tanto a consolidação de poder do Império 
em território brasileiro, quanto as relações que este império possuía com a estética e cultura 
da Europa Continental. 
 
Figura 47: Projeto para os jardins da Quinta da Boa Vista atribuído à Glaziou. 
 Fonte: Museu Nacional (TRINDADE, 2014, p. 64). 
A larga alameda das Sapucaias que conduzia os pedestres até a residência imperial 
(hoje Museu Nacional), foi pensada para que os habitantes/ visitantes pudessem ser envoltos 
na atmosfera dos terrenos modelados com aclives e declives e caminhos que proporcionavam 
129 
 
 
 
diferentes pontos de vista. É importante destacar que o local da residência imperial foi 
construído no topo de um pequeno monte pré-existente na região. E o projeto original de 
Glaziou pretendia dar visibilidade a edificação, pois de todos os caminhos circulares 
pensados, se podia obter uma visão do casario. Isso se modificou após reformas nos jardins, 
durante o período da República. 
Durante o reinado de D. Pedro II, a área total da Quinta manteve-se praticamente 
inalterada, com cerca de 1.033.800 m2. Entretanto, com a chegada do século XX, o perímetro 
de extensão foi-se reduzindo, pois partes do terreno foram sendo cedidas ao governo 
republicano para outras finalidades (FERREIRA; MARTINS, 2000). O alargamento da via 
férrea e a abertura de ruas e viadutos fazem parte dessas modificações, o que foi 
progressivamente descaracterizando a morfologia que o parque possuía durante o império de 
D. Pedro II, principalmente na parte sul da Quinta, na qual foi aberta a via férrea, e na parte 
norte, desde o portão monumental da alameda até o portão que dá para o largo da Cancela. 
Estas intervenções deixaram uma boa parte da área original de fora dos limites físicos atuais 
(FERREIRA; MARTINS, 2000). 
 
 
 
Figura 48: Vista aérea da Quinta da Boa Vista. 
 
Fonte: Wikimapia. 
 
Nos dias atuais, a Quinta da Boa Vista possui uma área verde de 155 mil m2. Segundo 
o site de notícias do Jornal O Globo86,em publicação de 2014, caso tivessem sido mantidos 
 
86 Vide infográfico sobre a Quinta da Boa Vista disponível em: https://infograficos.oglobo.globo.com/rio/quinta-
da-boa-vista.html. 
https://infograficos.oglobo.globo.com/rio/quinta-da-boa-vista.html
https://infograficos.oglobo.globo.com/rio/quinta-da-boa-vista.html
130 
 
 
 
seus terrenos originais, podemos dizer que toda a área onde se localiza o Estádio do 
Maracanã, bem como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em Vila Isabel, o 
edifício do Museu do Índio e partes do Morro da Mangueira, fariam parte do Parque. Porém, 
apesar de ter perdido espaço, Macedo e Sakata (2002, p. 144) afirmam que os jardins da 
Quinta da Boa Vista se enquadraram bem nas dinâmicas urbanas que estavam em curso 
durante o século XX, e “se adequaram perfeitamente à função de parque urbano” (MACEDO; 
SAKATA, 2002, p. 144). Provavelmente pelo valor histórico e cultural, além da facilidade de 
acesso, uma vez que a área é “cercada por viadutos, linhas de trem e pelo Estádio do 
Maracanã, a Quinta é o espaço público mais precioso dessa área da cidade, abrigando ainda o 
Museu Nacional, desde 1892, e o Jardim Zoológico, desde 1945.” (MACEDO; SAKATA, 
2002, p. 144). 
 
De acordo com Trindade (2013, p. 220): 
Em números absolutos, o parque da Quinta da Boa Vista possui uma área em 
torno de 38 hectares. O Jardim Zoológicoocupa uma área de 13,5 hectares e 
o Museu Nacional e o horto e pesquisa da UFRJ 5 hectares. O complexo da 
Quinta da Boa Vista totaliza 56,5 ha e ocupa um grande território dentro do 
bairro Imperial de São Cristóvão (14%) que, segundo dados oficiais, possui 
área territorial de 410,56 há. 
 
O fato de as primeiras ocupações da área terem sido realizadas pela família real e 
imperial, contribuiu para a transformação do bairro de São Cristóvão com a imagem de área 
nobre e aristocrática. Os autores Ferreira e Martins (2000) afirmam que durante toda a época 
imperial, a área onde hoje situa-se o parque urbano da Quinta da Boa Vista, foi um relevante 
ponto de referência para a sociedade brasileira que ainda estava se reconhecendo enquanto 
nação. Portanto, além da imagem aristocrática, o bairro possuía também uma imagem de força 
política e social, onde o ponto central de convergência entre os poderes estava na Quinta da 
Boa Vista (FERREIRA; MARTINS, 2000). 
Ao longo do período republicano, a moradia e o planejamento urbano se modificou no 
contexto social carioca. É possível perceber que a elite, antiga aristocracia que habitava o 
entorno da Quinta, migrou para a zona sul da cidade, sobretudo devido à presença das praias 
(FERREIRA; MARTINS, 2000). Além disso, o deslocamento de poder para o Palácio do 
Catete com o advento da República, também influenciou em novas questões e disputas, na 
131 
 
 
 
qual se refutava manter um espaço imperial como o lócus da gestão republicana (FERREIRA; 
MARTINS, 2000). Neste aspecto, o bairro de São Cristóvão foi perdendo um pouco de seu 
prestígio e passou a abrigar indústrias e operários recém chegados ao Rio de Janeiro87. Ao 
longo do século XX, a imagem do bairro de São Cristóvão e da Quinta da Boa Vista foi 
incorporando o contexto popular de fato, sendo o local de encontro, sobretudo, das classes 
trabalhadoras. 
De acordo com pesquisas realizadas sobre os tipos de atividades sociais realizadas 
nesse parque, Ferreira e Martins (2000), afirmam que, no contexto da Quinta da Boa Vista, no 
período de 1940-1980, ela era o local de encontro de famílias aos finais de semana para 
confraternizações e piqueniques. Com a criação do Jardim Zoológico, em 1945, a Quinta 
ganhou mais uma área de lazer com o potencial de atrair ainda mais visitantes (FERREIRA; 
MARTINS, 2000). Atualmente, o parque ainda é um local de lazer da população de camadas 
mais populares da sociedade, sobretudo devido a facilidade de acesso. No próprio website da 
Supervia, empresa de trens urbanos, existe a informação de como se chegar até “um dos 
maiores parques urbanos da cidade do Rio de Janeiro88”, 
Como chegar: 
Você pode pegar um trem do ramal Deodoro e desembarcar na estação São 
Cristóvão. A Quinta da Boa Vista fica a 5 minutos (à pé) da estação. 
(SUPERVIA, 2021). 
 
Já no site das áreas verdes das cidades, existe um verdadeiro itinerário sobre como se 
chegar ao parque: 
De Metrô e Trem, salte na estação São Cristóvão e caminhe até uma das 
entradas da Quinta da Boa Vista. 
Há várias linhas de ônibus que servem o local, entre as quais, partindo da 
zona sul, as de números 462 e 463. A partir das zonas norte e oeste, a linha 
371. 
 
87 No período imperial, a área do entorno da Quinta da Boa Vista não era tão densamente povoada. No entanto, 
isso se modificou ao longo do período republicano, onde percebe-se a presença de arruamentos e rodovias, num 
momento de industrialização do bairro, o que demonstra a mudança da imagem tanto de São Cristóvão, quanto 
da Quinta da Boa Vista, que se tornou um parque urbano. 
88 Para informações consulte: https://www.supervia.com.br/pt-br/quinta-da-boa-vista. 
https://www.supervia.com.br/pt-br/quinta-da-boa-vista
132 
 
 
 
Há estacionamentos para veículos no interior do parque (R$30,00 a diária 
em setembro/2021), sendo um próximo ao Jardim Zoológico. (ÁREAS 
VERDES …, 2021). 
 
De acordo com Trindade (2013, p. 182), a Quinta da Boa Vista é caracterizada por sua 
intensa cobertura vegetal, composta por árvores de diferentes espécies, além também de 
gramados. Com relação ao acesso, a autora afirma ter havido uma obra de reestruturação na 
década de 1990, período em que foram construídos estacionamentos em piso intertravado de 
concreto. Ela enfatiza o fato dessa obra ter sido realizada “em pequenas depressões criadas 
por Glaziou para modelar o terreno com um aspecto mais “natural” e foram aterrados e 
nivelados na ocasião da execução dos estacionamentos” (TRINDADE, 2013, p. 182). Nesse 
sentido, houve também a perda de algumas espécies arbóreas que existiam no local, pois elas 
não sobreviveram a reforma, apesar de terem sido construídos canteiros permeáveis para as 
mesmas. Ainda assim, o parque teve sua infraestrutura melhorada, influenciando no acesso 
das pessoas ao local89. 
Além disso, outra característica que o parque ganhou no final dos anos 1990 e que se 
perpetua nestas primeiras duas décadas do século XXI, diz respeito à imagem que ele assume 
perante o contexto educacional. A Quinta é presença constante nos roteiros de trabalhos de 
campo das escolas, principalmente públicas, onde crianças no período escolar visitam o local 
para conhecer um pouco mais sobre a história do país, além da flora da Mata Atlântica. Cabe 
ressaltar que, por se tratar de um espaço com ampla presença de vegetação, na zona norte, 
esse parque também representa uma oportunidade para a população vivenciar a natureza 
urbana de uma maneira mais próxima, tendo em vista a falta desse tipo de espaço em bairros 
mais afastados da zona sul. 
 
89 Para mais informações sobre as mudanças estruturais na Quinta da Boa Vista ao longo do século XX, 
verificar: Trindade (2013). 
133 
 
 
 
 
Figura 49: Piquenique na Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Áreas Verdes Das Cidades (2016). 
 
 Nesta perspectiva, a área do parque é considerada como um jardim histórico do 
Brasil, tendo funções que vão além do lazer e relaxamento em meio a natureza urbana, mas 
também estando relacionada a educação sociocultural, pois foi um lugar projetado com a 
composição de diversos elementos que se relacionam ao testemunho histórico de uma época, 
transmitindo o passado e o presente do contexto social não somente da cidade do Rio de 
Janeiro, mas também brasileiro. Isto é, o complexo paisagístico da Quinta da Boa Vista reúne 
obras arquitetônicas, artísticas e vegetais de interesse público, preconizando a função 
idealizada, de uso coletivo (PAIVA; ALVES; LAURA, 2015, p. 57). 
 
Figura 50: Museu Nacional antes do incêndio. 
 Fonte: Roberto da Silva para website do Museu Nacional (c2022). 
134 
 
 
 
Dentre os acontecimentos negativos na história recente da Quinta da Boa Vista, 
podemos abordar o fato ocorrido em setembro de 2018, no qual o Parque passou por um 
período de turbulência, com o incêndio no Museu Nacional. Neste evento, praticamente todo 
o acervo foi perdido, contabilizando o prejuízo incalculável de inúmeros artefatos históricos 
de coleções antigas de D. Pedro II, documentos do período republicano, bem como espécies 
da flora nativa que se encontravam em herbários, além de outros bens de valor social, cultural 
e ambiental da nação90. O Museu se encontra fechado desde então, com reabertura prevista 
para 2026, afetando a pesquisa universitária realizada no local, além das práticas e visitas 
escolares e do público no geral. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, vem negociando o 
recebimento de “novos repasses e doações em meio à falta de investimentos diretos do 
Ministério da Educação (MEC)”91. 
Ademais, um outro aspecto de mudança no interior do Parque, que tem a 
potencialidade de modificar a forma com a qual as pessoas transitam pelo lugar, é o caso da 
antiga Fundação Rio Zoo, que se transformou em BioParque do Rio, através de processo de 
concessão do local para a empresa privada do Grupo Cataratas, em 2016. Podemos dizer que 
o zoológico representaum parque dentro do Parque da Quinta da Boa Vista, com dinâmicas 
internas relativamente diferentes, devido a sua função de manter os animais, além de ser um 
espaço de gestão privada, mas que ao mesmo tempo, não se desassocia das dinâmicas 
presentes na Quinta da Boa Vista. 
Segundo informações do próprio website do novo zoológico, inaugurado em 2021, 
será realizado em sistema de venda de ingressos, bem como de pagamento mensal para 
sócios, no qual as pessoas poderão usufruir de um espaço diferenciado de visitação aos 
animais, pois “um BioParque é um lugar voltado para o bem-estar dos animais, que 
desenvolve projetos de pesquisa para a conservação de espécies e possui também como foco 
a educação ambiental dos visitantes92”. 
 
 
90 Segundo informações do Jornal O Globo (ALTINO, 2021), ainda após três anos do incêndio, apenas se 
alcançou 65% da verba para a reconstrução da instituição. A estimação do montante total necessário é de 
cerca de R$ 380 milhões de reais. 
 
91 Para maiores informações veja a matéria em: <https://oglobo.globo.com/rio/verba-para-recuperacao-do-
museu-nacional-ainda-nao-foi-alcancada-tres-anos-apos-incendio-25181331>. 
 
92 Bio Parque do Rio, disponível em: https://bioparquedorio.com.br/duvidas. 
https://oglobo.globo.com/rio/verba-para-recuperacao-do-museu-nacional-ainda-nao-foi-alcancada-tres-anos-apos-incendio-25181331
https://oglobo.globo.com/rio/verba-para-recuperacao-do-museu-nacional-ainda-nao-foi-alcancada-tres-anos-apos-incendio-25181331
https://bioparquedorio.com.br/duvidas
135 
 
 
 
 
Figura 51: Jardim Burle Marx. 
Fonte: Fotos de divulgação do Bio Parque do Rio (n.d.). 
 
 
Figura 52: Entrada do BioParque do Rio. 
Fonte: BioParque do Rio (n.d.). 
 
Figura 53: Visitação escolar ao Bio Parque. 
Fonte: BioParque do Rio (n.d.). 
136 
 
 
 
Além disso, ainda com relação ao BioParque, houve também a redescoberta e 
revitalização do jardim Burle Marx, fato desencadeado pelas obras de restruturação do espaço 
no momento da transição para a nova administração, como pode ser visto nas figuras 51 e 53. 
No local, durante as últimas décadas do século XX, existia um parquinho infantil, porém, de 
acordo com o blog do zoológico93, foram feitas pesquisas junto ao Instituto do Patrimônio 
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e descobriu-se que se tratava do Jardim projetado 
por Roberto Burle Marx entre 1946-1947, para abrigar as aves aquáticas da Fundação Rio 
Zoo. A pesquisa realizada na área destacou que, originalmente, a implementação desse jardim 
teve seu término na década de 1970, e já nos anos 1990, o local foi modificado para exercer a 
função de área de lazer das crianças, substituindo a vegetação e demais elementos que 
existiam ali. Desde então, o Jardim de Burle Marx dentro do Zoológico estava escondido e 
deteriorado, mas agora está disponível novamente e exercendo a sua função original. 
 
 
 
Figura 54: Mosaicos espaciais da Quinta da Boa Vista. 
Fonte: adaptado do ArcGis Earth (2022). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
93 Disponível em: https://blog.bioparquedorio.com.br/2021/04/06/roberto-burle-marx-o-genio-brasileiro/. Acesso 
em: 25 jan. 2022. 
137 
 
 
 
4.2.1 Um jardim e muitas histórias 
 
Na busca pela compreensão de como a população vivencia o espaço da Quinta da Boa 
Vista na contemporaneidade, foram realizadas entrevistas, no decorrer de 2021 e janeiro de 
2022, no formato de pequenos relatos, sobre a experiência de moradores da cidade do Rio de 
Janeiro nesse parque público. Os critérios de seleção dos entrevistados foram baseados no 
local de moradia e na idade, buscando englobar um contexto diversificado de pessoas num 
número restrito de relatos. Isso foi feito para se analisar com profundidade alguns tipos 
recentes de vivências dentro do Parque. Para tanto, foram entrevistados brasileiros, na faixa 
etária dos 20 aos 30 anos e dos 30 aos 63 anos, homens e mulheres de bairros próximos e 
distantes da Quinta da Boa Vista. 
 
Figura 55: Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Cedida de arquivo pessoal, por Phelipe Steves (2021). 
 
 O eixo central das respostas sobre a questão dos lugares preferidos dos entrevistados 
na cidade, variaram desde o Alto da Boa Vista, no topo do Maciço da Tijuca, para admirar 
paisagem, o Jardim Botânico e a Quinta da Boa Vista e as praias da zona sul, em particular 
Copacabana e Ipanema e, na zona oeste, a praia da Barra da Tijuca. Neste contexto, 
percebemos que a paisagem costeira tem grande relevância, por exercer grande atratividade, 
principalmente durante os meses mais quentes de verão. 
No entanto, também se nota por meio das respostas que a disponibilidade de espaços 
verdes na cidade, como a própria floresta da Tijuca, além de pracinhas e parques urbanos, é 
considerada benéfica e essencial para a saúde física e mental dos entrevistados. Sobretudo, 
aos finais de semana, período no qual a maioria das pessoas tem tempo de lazer para 
138 
 
 
 
frequentar esses espaços. Essa perspectiva é realçada pela entrevistada de 37 anos (3), 
moradora de Vila Isabel, e que passou a frequentar o parque durante a pandemia (vide Anexo 
4). 
 Ao ser indagada sobre o que significaria “ser um espaço que precisaria de muito mais 
cuidado”, a entrevistada esclareceu que se referiu ao fato de ser um parque muito grande, e 
que apesar de se sentir muito segura dentro dele aos finais de semana, por causa do 
policiamento e da quantidade de pessoas que o frequentam, o mesmo não ocorre durante a 
semana, quando o parque está mais vazio e deserto. Ela enfatizou a vontade de levar a filha 
para brincar no parque durante a semana, mas ao mesmo tempo o medo que tem de estar 
sozinha no local. Além disso, ela citou aspectos negativos com relação a conservação da 
Quinta da Boa Vista, como por exemplo, a grama mal cuidada, a falta de limpeza do local e a 
falta de sinalização indicando o que existe dentro do parque, como os banheiros94. 
Ela também mencionou que, na sua opinião, se a Quinta da Boa Vista estivesse 
localizada na zona sul da cidade, receberia muito mais atenção por parte dos órgãos públicos. 
Por ser frequentadora assídua dos espaços públicos dos bairros do Jardim Botânico, de 
Ipanema, Laranjeiras e Botafogo, ela considera que a localização influencia muito na 
qualidade de manutenção dos espaços na cidade do Rio de Janeiro. Inclusive, ela percebe que 
as pessoas que frequentam a Quinta são, em suas palavras, “muitas vezes pessoas de baixa 
renda”, por isso não somente a localização, como também o público que visita o local também 
influencia no nível de atenção por parte da gestão, bem como na disponibilidade de recursos 
financeiros para a contínua manutenção do parque. Isso é negativo, pois ela considera que 
todos os espaços públicos deveriam receber o mesmo tipo de cuidado, e por esse motivo, ela 
acaba tendo que se deslocar para mais distante, em busca de espaços verdes e públicos, 
mesmo tendo opções a poucos minutos de sua casa. 
 
 
94 A entrevistada não sabia informar sobre a presença de banheiros na Quinta da Boa Vista. Justamente por não 
saber se existem ou não, e caso eles existam, não saber as condições em que se encontram, é que ela não fará 
o aniversário de 2 anos de sua filha nesse parque. 
139 
 
 
 
 
Figura 56: Lago da Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Arquivo pessoal (2020). 
 
 
Figura 57: Entrada principal da Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Halley Pacheco de Oliveira (2011). 
 
De acordo com Ferreira e Martins (2000), em pesquisa realizada entre os anos 1990 e 
2000, o parque da Quinta da Boa Vista passou por um período de renegação, no qual o poder 
público não atuou de forma efetiva na manutenção do espaço com relação a sua infraestrutura. 
Na pesquisa realizada por esses autores, eles identificaram que: 
“Nos últimos anos, algumas das estruturas decorativas têm sido bastante 
danificadas, não só pela ação do tempo, como pela intensa visitação pública, 
principalmentenos finais de semana, e ainda por contínuos atos de 
vandalismo, praticados no parque. Infelizmente a Quinta da Boa Vista é o 
140 
 
 
 
grande (e praticamente o único) parque em que a população de menor 
renda ainda pode usufruir de um lazer gratuito no subúrbio do Rio de 
Janeiro, por isto ela acode em massa a este lugar nas suas horas de lazer. 
Assim, o aspecto geral do parque vem dando sinais de desgaste já há algum 
tempo, necessitando seu paisagismo de um trabalho profundo e extenso de 
recuperação ambiental, além de procurar dotá-lo de uma infraestrutura mais 
moderna, trabalho que naturalmente deverá ser seguido de uma manutenção 
contínua, para que esse parque continue a cumprir sua função social como 
área de lazer e de cultura para o povo carioca. 
A própria população está consciente do mau estado de conservação da 
Quinta; por isto, indagada acerca das suas sugestões para a melhoria da 
qualidade do parque ela apontou algumas necessidades: da instalação de 
banheiros públicos para acabar com o cheiro e a degradação causada pela 
urina, principalmente nas grutas; de mais segurança policial no parque; de 
acabar com a prostituição dentro das grutas e nos arredores da Quinta; de 
melhorar os gramados e os jardins, dotando o parque de certos equipamentos 
para o lazer como: barquinhos, trenzinho, pedalinhos, brinquedos (como 
havia antes, segundo os próprios visitantes); da instalação de bebedouros 
públicos; de melhorar os estacionamentos; e, finalmente, de dar mais vida 
diurna e principalmente noturna à Quinta” (FERREIRA; MARTINS, 
2000, p. 144, grifo meu). 
 
Dos anos 2000 até os dias atuais, verifica-se que algumas questões mudaram, como 
por exemplo, a construção de banheiros públicos dentro do Parque e a disponibilização de 
pedalinhos como uma das atividades de lazer, além da reestruturação da antiga Fundação Rio 
Zoo. Porém, por meio dos relatos obtidos em 2021-2022, percebe-se que ainda existem 
desafios a serem superados, e as pessoas frequentemente os associam ao fato de este parque 
não estar situado numa área nobre da cidade. Assim como a entrevistada, moradora de Vila 
Isabel, destacou a relação entre a sensação de insegurança no local e a falta de frequentadores 
no parque durante a semana, além do mau estado de manutenção dos jardins do parque, no 
geral, podemos perceber que são basicamente as mesmas questões levantadas pelos 
pesquisadores Ferreira e Martins nos anos 2000, ou seja, os problemas se repetem há 22 anos. 
O caso da prostituição nos portões do Parque também chama a atenção. Para a 
entrevistada de 63 anos, ela cita que desde 1998, deixou de circular pelo entorno da Quinta da 
Boa Vista, ao retornar de carro do trabalho para casa, em Vila Isabel, por conta do intenso 
141 
 
 
 
movimento noturno de mulheres do lado de fora dos portões do parque, à espera de seus 
clientes, que paravam por ali a qualquer momento. No entanto, também se verifica que o 
mercado da prostituição sofreu um abalo coma pandemia do coronavírus95, o que pode ter 
afetado as dinâmicas do ponto de encontro desse tipo de atividade noturna na Quinta da Boa 
Vista. 
No período anterior a pandemia, o contexto da prostituição também foi abordado por 
Trindade (2013, p. 187), no qual a pesquisadora discute a relação entre o horário de 
fechamento do parque, os edifícios do entorno e a prostituição: 
Poucas são as edificações que possuem aberturas para as vias, excetuando o 
hospital Quinta D’or, e as calçadas possuem em média 3,00 metros. Esse 
desenho das edificações em conjunto com as pistas de deslocamento rápido 
para veículos gera pouca movimentação de pedestres no entorno do parque 
tanto de dia como, principalmente, à noite quando o percurso imprime uma 
sensação de insegurança (o parque é fechado ao público às 18:00h). Nesse 
horário observamos com frequência a presença de prostituição, tanto 
feminina como masculina, o que reforça o mal-estar em fazer o percurso. 
Ocasionalmente, é possível observar a prostituição em dias de semana em 
período diurno, porém ocorrendo em menor número. A copa das árvores do 
parque e das calçadas forma um ambiente sombrio e a falta de edificações 
com aberturas para a rua e movimento, com uso diferenciado de atividades 
que atraiam pessoas tanto de dia como de noite, fazem com que as ruas no 
entorno da Quinta da Boa Vista sejam pouco convidativas para um passeio a 
pé. (TRINDADE, 2013, p. 187). 
 
Ademais, um outro aspecto relatado nas entrevistas é o caso do incêndio no Museu 
Nacional. Para um dos entrevistados, um homem de 40 anos, pensar no museu, o faz 
“relembrar os passeios da época de escola” e isso o entristece pelo descaso com a instituição 
que infelizmente foi destruída. Isso se complementa ao relato de uma outra entrevistada, 
moradora de Vila Isabel- 4 (vide Anexo 4). 
A partir desse relato, é interessante observar a ocorrência de uma dupla simbologia 
presente na Quinta da Boa Vista, por meio, principalmente, da memória escolar, e do espaço 
enquanto provedor de natureza urbana. Nesse contexto, as imagens presentes no imaginário 
 
95 Para maiores informações conferir: “Mercado de prostituição sofre impacto durante pandemia”, disponível 
em: https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Mercado-de-prostituicao-sofre-impacto-durante-
pandemia/75147 . 
https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Mercado-de-prostituicao-sofre-impacto-durante-pandemia/75147
https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Mercado-de-prostituicao-sofre-impacto-durante-pandemia/75147
142 
 
 
 
particular de cada pessoa que já frequentou esse parque, acabam conectando esses indivíduos 
de maneira afetiva ao espaço da Quinta da Boa Vista, a partir de lembranças de diferentes 
períodos da vida, como pode ser visto num outro relato, realizado com uma entrevistada de 63 
anos-5. 
No caso dessa entrevistada, o fato dela ter se mudado de um bairro como Oswaldo 
Cruz, que não oferecia um espaço verde em grandes proporções, para outro, como Vila Isabel, 
próximo a São Cristóvão, influenciou na descoberta do espaço da Quinta da Boa Vista, como 
uma relevante área de lazer gratuita para ela e sua família, nos anos de 1960, justamente o 
período no qual o bairro de São Cristóvão começou a se popularizar, atraindo grande fluxo de 
pessoas, como foi visto no início deste capítulo. Além disso, a sua escola se localizava no 
mesmo bairro do Parque, fazendo com que ela o frequentasse durante algumas aulas de 
biologia e, também, como ponto de encontro de lazer com seus amigos da escola. Dessa 
maneira, percebe-se, não somente a rica história de desenvolvimento da Quinta da Boa Vista 
com relação ao desenrolar político e social da nação brasileira, como também a história que 
este lugar guarda na memória individual da população que algum dia teve contato com ele. 
 
 
Figura 58: Caminhos da Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Cedida de arquivo pessoal de Phelipe Steves (2021). 
 
143 
 
 
 
O relato de um morador da Pavuna -6, aborda a questão de seu redescobrimento da 
Quinta da Boa Vista por causa tanto da pandemia, quanto da inauguração do Bioparque, em 
junho de 2021, enfatizando a importância deste espaço para pessoas que moram em locais 
distantes e que não tem outro local de natureza urbana para frequentar (vide Anexo 4, p.205). 
Em complementação, o entrevistado, um morador de Copacabana de 30 anos -7, aborda a 
vivência dele na Quinta. Ao contrário da moradora de Vila Isabel, apresentada no início, este 
entrevistado prefere o parque durante a semana, exatamente porque é mais vazio. Além disso, 
ele afirma se sentir muito bem na Quinta, apesar de, pelo fato de ser negro, pensar que no 
passado imperial, ele talvez não pudesse frequentar o local. Por meio da sua narrativa, 
também se percebe o conteúdo turístico que este parque tem a oferecer a cidade do Rio de 
Janeiro, principalmente quando ele afirma levar seus amigos estrangeiros para conhecera 
Quinta da Boa Vista. Já uma outra entrevistada, moradora de Vila Isabel- 8, narra sua 
experiência no novo zoológico, o Bioparque, o qual ela considera que é diferente do tipo de 
vivência que teve na Quinta da Boa Vista, apesar de o novo zoológico se situar dentro do 
parque. A experiência foi diferente, não somente por ser um local de gestão privada, mas 
também porque a função é distinta, estando relacionado ao cuidado dos animais (vide Anexo 
4). 
 
 
Figura 59: Lago Quinta da Boa Vista. 
Fonte: cedida de arquivo pessoal por Phelipe Steves (2022). 
 
 
144 
 
 
 
 
 
Figura 60: Bioparque na Quinta da Boa Vista. 
 Fonte: Instagram do Bioparque do Rio (n.d.). 
 
Na atualidade da Quinta da Boa Vista, apesar de o espaço enfrentar problemas e ter 
muitos desafios no nível de gestão e manutenção, como foi abordado anteriormente, também 
existem inúmeras atividades sociais e culturais promovidas por grupos de educadores, 
entusiastas, além de encontros culinários, transformando o parque num ambiente atraente e 
conectado à população. Todas essas ações são realizadas por grupos da sociedade civil que 
enxergam na Quinta, um local prazeroso para os encontros, revigorando o espaço com novas 
práticas e eventos. Neste contexto, as redes sociais atuam de forma bastante importante, pois 
propiciam a troca de informações entre as pessoas, influenciando nas dinâmicas do mundo 
concreto do espaço vivido. 
Um exemplo disso é o caso da rede social Instagram. Através dela, o 
compartilhamento de imagens sobre o parque e as atividades que ocorrem dentro dele, tem um 
poder de alcance imensurável. Nas figuras (62 e 63) abaixo, pode-se observar as páginas do 
Bioparque do Rio e do Rolé carioca, transmitindo a notícia do evento gratuito, que ocorre há 
10 anos na cidade do Rio, e que tem por objetivo promover uma caminhada pela cidade, 
conhecendo um pouco mais dos locais a serem visitados com os guias, que são professores de 
história. E, nota-se que o novo zoológico utiliza esse passeio, como meio de propaganda dele 
145 
 
 
 
próprio, mas que acaba influenciando nas dinâmicas da Quinta da Boa Vista também. Pela 
postagem, percebe-se que se trata de um roteiro no parque da Quinta da Boa Vista, ocorrido 
em 19 de dezembro de 2021. 
 
 
Figura 61: Bioparque do Rio sobre o Rolé carioca na Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Instagram do Role Carioca. 
 
 
Já nesta outra figura (63), também disponível na página do Role Carioca no Instagram, 
há a divulgação do evento e também, a informação de que o parque é “um dos maiores 
parques urbanos da cidade, de grande valor histórico e um refúgio para a população carioca 
em busca de cultura, lazer e natureza”. Além disso, a postagem dá ênfase para os participantes 
levarem seus lanches, pois ao final do encontro, haverá um piquenique, como destacado no 
círculo vermelho: 
 
146 
 
 
 
 
Figura 62: Propaganda da visitação a Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Role Carioca (n.d.). 
 
 
A partir dessa postagem, é interessante realçar o termo: “Rolé presencial”, pois até 
então, os encontros estavam apenas sendo virtuais, por conta das medidas sanitárias no 
contexto de pandemia. Um rolé virtual, se baseava em reuniões através de lives em redes 
sociais, om os participantes, para eles conhecerem e transitarem virtualmente pelos espaços da 
cidade do Rio de Janeiro, no qual uma plataforma muito utilizada era o Google Maps e o 
Google Street View. Desta maneira, percebe-se que a relevância dos espaços públicos da 
cidade foi revigorada mesmo que de forma virtual. 
147 
 
 
 
 
Figura 63: Postagem após o encontro presencial na Quinta Da Boa Vista. 
 Fonte: Página do Instagram do Rolé Carioca (n.d.). 
 
Um outro contexto de atividade social realizada no parque e transmitida por meio da 
mídia digital é o caso da feira vegana Veg Borá, realizada na Quinta da Boa Vista aos finais 
de semana, evento que reúne um público bastante específico a procura de produtos de origem 
não animal, e provenientes de pequenos produtores da própria cidade, vide figura 65. 
 
Figura 64: Feira vegana Veg Borá, realizada na Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Página do Instagram Veg Borá (n.d.). 
148 
 
 
 
4.2.2 Aspectos da gestão 
 
A Quinta da Boa Vista é um parque público, gerido, sobretudo, pela Fundação Parques 
e Jardins (FPJ), com atuação também da CONLURB e Guarda Municipal da prefeitura do Rio 
de Janeiro. Cabe destacar que a gestão ocorre de maneira distinta em alguns estabelecimentos 
do interior do parque, como é o caso do Bioparque do Rio, que é administrado pela empresa 
privada: Grupo Cataratas; e o Museu Nacional e Horto Botânico/ Museu da Fauna, ambos sob 
responsabilidade da Universidade Federal Do Rio de Janeiro (UFRJ). 
No geral, a gestão do parque ocorre de forma integrativa, pois apesar de abranger 
diversas entidades, a Quinta da Boa Vista é um espaço único, e por isso, é necessário existir a 
cooperação entre os diferentes setores e interesses que se encontram ali, apesar dos desafios 
que isso possa ocasionar. Sendo assim, se considera o Parque a partir da área de planejamento 
1, a qual se refere a presença da CONLURB, que efetua a limpeza do parque, a Guarda 
Municipal, responsável pela segurança e a Fundação Parques e Jardins, com a 
responsabilidade pela conservação/manutenção das áreas ajardinadas da Quinta da Boa Vista, 
bem como infraestrutura hídrica geral do parque. 
Ademais, a Secretária de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro (SMAC), 
também atua no parque, através das políticas de planejamento urbano e ambiental na 
“coordenação, formulação, execução, avaliação e atualização da Política Estadual de Meio 
Ambiente e Sustentabilidade, análise e acompanhamento das políticas públicas setoriais que 
tenham impacto no meio ambiente da cidade e articulação e coordenação dos planos e ações 
relacionados à área ambiental”. (BRASIL, 2011). 
Em diferenciação ao que foi visto sobre a gestão do Parque Frogner na Noruega, e de 
acordo com pesquisa sobre a Quinta da Boa Vista realizada por Trindade (2013, p. 220, grifo 
meu): 
Não encontramos em nossa pesquisa uma Associação de Amigos da Quinta da Boa 
Vista, semelhante a que existe em outros parques como por exemplo: o Jardim 
Botânico do Rio de Janeiro que, de acordo com a página oficial da entidade, é uma 
associação civil sem fins lucrativos, que visa contribuir para a conservação, 
aprimoramento, difusão e ampliação do patrimônio histórico, natural, paisagístico, 
científico e cultural do o Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro – 
IPJB . Existe no bairro de São Cristóvão uma Associação de Moradores e 
Amigos de São Cristóvão – AMASC, porém não verificamos sua atuação o 
interior do parque. 
 
149 
 
 
 
Porém, ao realizar pesquisas em redes sociais, como o Facebook da AMASC, 
constatei que existe uma conexão entre as ações dessa associação de moradores e o parque da 
Quinta da Boa Vista, principalmente com relação a denúncia de atividades ilícitas e/ou 
perturbadoras que tem a potencialidade de ocorrer dentro do parque e afetar o bairro como um 
todo96. A notícia do jornal O globo, do ano de 2016, sobre o impasse entre moradores do 
bairro de São Cristóvão e os idealizadores de um festival de música eletrônica que ocorreria 
no interior do parque, sem autorização da prefeitura para ocorrer97, também reflete a interação 
entre o parque e os seus vizinhos. Mas, além desses fatos, não observei outra menção ao 
parque, podendo indicar uma falta de maiores proximidades entre a Associação de Moradores 
e Amigos de São Cristóvão (AMASC) e a gestão do parque da Quinta da Boa Vista, 
necessitando de maiores pesquisas acerca da atuação ou não dessa entidade coletiva num 
parque historicamente importante para o bairro. 
Numa outra perspectiva, foi constatada a existência da Câmara Comunitária de São 
Cristóvão, citada por Marfetan (2016, p. 130), sendo uma entidade no nível do bairro,que há 
27 anos promove encontros entre moradores e comerciantes de São Cristóvão para discussão 
de questões vivenciadas por eles cotidianamente, além de ações para a valorização do bairro e 
da Quinta da Boa Vista, onde as demandas e ideias são direcionadas à prefeitura do Rio de 
Janeiro e aos responsáveis pela gestão do parque, por meio de reivindicações. 
Um outro fator relacionado a gestão também engloba o setor de Turismo da cidade, a 
Rio Tur, com relação a gestão da imagem e narrativa paisagística deste parque na cidade do 
Rio de Janeiro. A partir das figuras abaixo, percebe-se uma administração constante da 
imagem e perfil turístico do parque nas redes sociais, com destaque para o Instagram, no qual 
a Quinta aparece como um local histórico da cidade, onde muitos personagens do Brasil 
Imperial nasceram e viveram. Além disso, o parque também aparece sob a narrativa do lazer 
em meio a vegetação exuberante, características que são atrativas para futuros visitantes. 
 
 
96 Informação disponível na página da Associação de Moradores e Amigos de São Cristóvão: 
https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-
6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-
5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-
1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62. 
97 Conferir reportagem “Moradores contrários a festival na Quinta da Boa Vista relatam ameaças” em 
https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/moradores-contrarios-festival-na-quinta-da-boa-vista-
relatam-ameacas.html. 
https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62
https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62
https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62
https://scontent.fsdu8-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/241022247_179062974313200_497018956991323746_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-5&_nc_sid=8bfeb9&_nc_ohc=6UZ4f74MN2kAX9EJYQE&_nc_ht=scontent.fsdu8-1.fna&oh=00_AT8iEM4oUgJrMFfX7wPBu-pbUPU_qsuVwNkQiFDt_5-GxA&oe=61FF0B62
https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/moradores-contrarios-festival-na-quinta-da-boa-vista-relatam-ameacas.html
https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/10/moradores-contrarios-festival-na-quinta-da-boa-vista-relatam-ameacas.html
150 
 
 
 
 
Figura 65: A gestão da imagem da Quinta da Boa Vista no perfil turístico da cidade. 
 Fonte: Instagram do RioTur (n.d.). 
Nesse sentido, para ampliar a compreensão dos aspectos de gestão cariocas, no que 
tange o planejamento urbano e ambiental, do qual a Quinta da Boa Vista faz parte, eu realizei 
em janeiro de 2022, entrevista com a pesquisadora Jeanne Almeida da Trindade, urbanista 
especialista em Planejamento Ambiental e Paisagístico, ex funcionária da prefeitura do Rio de 
Janeiro e atual professora do Centro Universitário IBMR. Ela respondeu a questões 
relacionadas às políticas urbanas implementadas na cidade ao longo da década de 1990, a sua 
experiencia de trabalho na prefeitura, além de suas pesquisas, incluindo o doutorado sobre a 
importância do jardim histórico da Quinta da Boa Vista (como pode ser verificado no anexo 
3). 
Neste contexto, a experiência da entrevistada como funcionária da prefeitura do Rio de 
Janeiro, sendo responsável pela coordenadoria de conservação de diversos parques da cidade, 
a fez se interessar ainda mais pela Quinta da Boa Vista, justamente pelo seu estado de 
degradação no início dos anos 90. Ao propor melhorias e solicitar verbas a prefeitura para 
uma melhor preservação deste jardim histórico, Jeanne também se interessou em estudar mais 
sobre o parque sob a perspectiva acadêmica em seu doutorado, este último tendo sido 
151 
 
 
 
defendido em 2013, tendo em vista a lacuna de informações detalhadas sobre a Quinta da Boa 
Vista que poderia contribuir para futuros gestores desse espaço público. 
Além desses aspectos mais relacionados a Quinta, a análise da entrevista também 
revela o percurso de medidas e instrumentos de gestão pública que foram sendo criados na 
cidade entre os anos de 1990 e 2010, os quais a entrevistada, por ser funcionária e atuar 
ativamente nas questões de planejamento e gestão das áreas verdes, testemunhou em seu 
próprio dia a dia de trabalho. Ao citar que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAC) 
apenas foi criada em 1993 e, que após isso, a política ambiental começou a ter mais relevância 
no Rio de Janeiro, notamos uma mudança de posicionamento político perante o meio 
ambiente, que passa a ser mais valorizado como um elemento essencial da paisagem urbana 
carioca. Sobre este aspecto, Jeanne aborda o fato de esse ter sido um momento onde os 
projetos de reflorestamento passaram a ser mais englobados como parte das políticas urbanas, 
garantindo a criação da figura do “administrador dos parques” também em 1993, e em 2000 a 
Lei de implantação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC, 2000), que 
propiciou o desenvolvimento de Planos de Manejo em Unidades de Conservação (UC). 
Porém, apesar de todos esses avanços, podemos verificar que a cidade do Rio de 
Janeiro ainda carece de uma maior integração de políticas urbanas e instrumentos de gestão 
que favoreçam uma visão mais abrangente do espaço urbano como um todo. Com base na 
entrevista e nas demais fontes analisadas nesta pesquisa, percebemos que ainda falta uma 
maior conectividade da paisagem urbana carioca, além de medidas para aproximar a 
população da natureza urbana. Dessa forma, os desafios e as questões socioambientais que 
permeiam os dois contextos empíricos desta pesquisa serão analisados com mais detalhes no 
próximo subitem. 
 
 
 
 
 
 
 
152 
 
 
 
4.3 A RELEVÂNCIA DOS DOIS PARQUES NO AMBIENTE URBANO 
CONTEMPORÂNEO 
 
A descrição inicial do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, bem como a análise 
das entrevistas realizadas no período de 2020-2022, demostram como esses dois espaços 
possuem multifuncionalidades que se conectam a esferas não apenas físicas do espaço 
concreto, mas também simbólicas, relacionadas às formas de utilização e a memória coletiva e 
individual. Isso significa que esses parques, apesar de estarem em contextos urbanos distintos, 
representam ambientes de sociabilidade em meio a natureza, participando ativamente das 
dinâmicas socioambientais das sociedades de suas respectivas paisagens urbanas. 
As maneiras pelas quais os parques são utilizados na vida diária, diferem na mesma 
medida que suas realidades culturais, geográficas e socioeconômicas também são diferentes. 
Por exemplo, os usos do Parque Frogner se modificam conforme a estação do ano, enquanto 
que na Quinta da Boa Vista, não há grandes distinções, pois, as mudanças de estação são mais 
tênues no contexto geográfico de clima tropical úmido da cidade do Rio de Janeiro. Neste 
sentido, as entrevistas e as fontes bibliográficas analisadas, demonstram como as vivências no 
Parque Frogner, durante o verão, se conectam ao contexto da disponibilidade da luz solar de 
quase 24h por dia, em contraste com o inverno, onde os dias são mais curtos e escuros. Além 
disso, no inverno, os tipos de atividades sociais também são distintos, relacionados, 
sobretudo, ao aproveitamento da neve para programas de lazer ao ar livre, ao passo que no 
verão e, em parte do outono e primavera, a principal atividade consiste em piqueniques e 
banhosde sol. 
Um outro exemplo de distinções verificado nas fontes de pesquisa, diz respeito ao 
público principal que frequenta os dois parques. Cabe destacar que ambos possuem bom 
acesso por meio de transportes públicos, pois estão localizados em proximidade a pontos de 
ônibus, estações de metrô e trem. Entretanto, o Parque Frogner recebe um público diário mais 
local, composto por moradores do bairro Frogner e arredores, combinado a um público 
turístico nacional e internacional; enquanto que a Quinta da Boa Vista atende a uma enorme 
carência de espaços verdes na zona norte e na baixada fluminense, por vezes recebendo 
visitantes de bairros, e até mesmo municípios, geograficamente distantes, mas próximos em 
termos de ligações via transporte público. Além disso, o caráter turístico deste parque carioca 
se relaciona mais a um turismo local, alternativo e cultural, não sendo este espaço um dos 
pontos turísticos mais procurados, em comparação aos que existem na zona sul da cidade. 
153 
 
 
 
O Parque Frogner possui uma relação bem desenvolvida com as áreas ao seu redor, e 
foram verificadas ações de preservação e aprimoramento do parque por parte de setores da 
prefeitura de Oslo, como o Bymiljøetaten – Departamento de Meio Ambiente e a 
Frognerparkens Venner – Associação de Amigos do Parque Frogner, composta por 
moradores que frequentam o espaço, bem como pessoas interessadas no geral, que investem 
na preservação dos gramados, bancos, banheiros públicos e demais componentes em conjunto 
aos setores de administração pública. Ao verificar as fontes de pesquisa, não foram 
encontradas questões sobre a segurança do parque, além disso, apenas uma referência 
bibliográfica (GÍSLADOTTIR, 2014), relacionou a excelente manutenção do espaço ao fato 
dele estar localizado no tradicional bairro de Frogner, e representar um local cultural 
importante para a cidade de Oslo. 
Em contrapartida, os relatos e a bibliografia sobre a Quinta da Boa Vista demonstram 
que o parque possui diversos desafios a serem superados, apesar dos esforços de gestão por 
parte da Fundação Parques e Jardins. Problemas, como a sensação de insegurança nos dias de 
segunda-feira a sexta-feira, aspectos de falta de manutenção nas áreas ajardinadas do parque, 
banheiros públicos com pouca infraestrutura, além da pouca movimentação de pedestres no 
entorno do parque e as atividades de prostituição no período noturno (pré pandemia), ainda 
necessitam de maior atenção e investimentos por parte dos setores administrativos do 
município do Rio de Janeiro. 
É interessante observar que os desafios presentes na Quinta da Boa Vista, não são 
questões intrínsecas ao parque, mas sim relacionadas aos principais problemas urbanos da 
cidade brasileira e, por isso, existe um reflexo das dinâmicas do espaço urbano carioca dentro 
da realidade do parque98. Isto é, a falta de segurança no parque e de maiores investimentos 
para a preservação e aprimoramento do bem público e cultural, acarretando, dentre outras 
coisas no incêndio do Museu Nacional em 2018; a necessidade de homens e mulheres se 
prostituirem as portas de um parque público, por falta de melhores oportunidades de vida, são 
consequências do histórico de renegação e descaso político com os aspectos sociais, 
econômicos e ambientais na sociedade brasileira, ocasionando uma extrema desigualdade 
socioambiental na contemporaneidade. 
Neste sentido, a expressão Apartheid Verde, vem sendo utilizada na mídia, como pode 
ser verificado na reportagem da Revista Veja, publicada pela página do Instagram da 
 
98 Esse aspecto pode ser visto nas transformações pelas quais a Quinta da Boa Vista passou no decorrer do 
império para a república, acompanhando as políticas sociopolíticas em curso, onde o bairro de São Cristóvão 
passou de aristocrático a popular. 
154 
 
 
 
Fundação Parques e Jardins do Rio, em 16 de abril de 2021. Nesta postagem, o contexto 
socioambiental da urbanização da cidade do Rio de Janeiro é definido a partir de sua distinção 
entre a cobertura vegetal das zonas sul, norte e oeste cariocas. Esse aspecto também foi 
verificado nas entrevistas, que associaram a falta de investimentos na Quinta da Boa Vista ao 
fato desse parque não estar localizado numa área nobre da cidade. 
 
 
Figura 66: Apartheid verde. 
 Fonte: Instagram da FPJ-Oficial, publicado em 15/02/2022. 
 
Dessa forma, a situação da falta de arborização em bairros mais periféricos, existe 
concomitantemente a desigualdade social. De acordo com a publicação, essas áreas com 
carência de espaços verdes de qualidade são justamente as que mais sofrem com fenômenos 
climáticos produzidos pela própria cidade, como é o caso das ilhas de calor, além de 
enchentes e deslizamentos de terra. Sendo assim, existe a proposição, desde 2016, do Plano 
Diretor de Arborização Urbana, buscando solucionar o problema através de uma investigação 
sobre as espécies arbóreas da cidade, com identificação das áreas de plantio de espécies 
inadequadas para o meio urbano, o que pode ocasionar problemas nos calçamentos e fiação 
elétrica, gerando conflitos e falta de apoio por parte da população. 
155 
 
 
 
Porém, também cabe dizer que, apesar dos desafios, a Quinta da Boa Vista é um lugar 
de relevância para os seus frequentadores, para a história do Brasil e do Rio de Janeiro, e para 
o meio ambiente, enquanto espaço de natureza urbana com uma rica cobertura vegetal e 
espécies animais. Isso pode ser analisado em todas as fontes analisadas nesta pesquisa, 
principalmente, por meio dos relatos que identificam a Quinta da Boa Vista em relação a todo 
o significado cultural e afetivo que esse espaço carrega consigo na atualidade da paisagem 
urbana. 
Por outro ângulo, a realidade do contexto urbano de Oslo, em conexão às 
características sociopolíticas da Noruega, difere em grande medida em comparação a tudo o 
que foi apresentado sobre o contexto brasileiro. Todas essas características não querem dizer 
que o cenário norueguês seja perfeito e sem defeitos, indicando um modelo a ser seguido, mas 
sim que, embora, enquanto nação independente, a Noruega seja bem jovem, datando do 
século XX, o país possui um desenvolvimento social e político antigo, no qual o estado de 
bem-estar social atual se desdobrou com base na importância e discussão sobre as questões 
sociais da vida coletiva. Isso influencia na educação sobre os direitos e deveres do cidadão, 
elevando os níveis de participação popular na vida política, bem como na consciência de que 
o sucesso do país, bem marcado pela sua reconhecida qualidade de vida, depende também do 
sucesso comunitário. 
Neste sentido esses aspectos históricos do país, são refletidos nas políticas para o 
desenvolvimento do sistema de parques em Oslo, o qual foi abordado no capítulo 3; e que 
demonstra uma preocupação em aliar a urbanização à disponibilidade de espaços verdes e 
públicos em proximidade aos locais de moradia das pessoas, em todas as áreas da cidade. 
Entretanto, o maior desafio vivenciado por Oslo na contemporaneidade, é o de manter um alto 
padrão de manutenção e conectividade em seus parques, num contexto de aumento da 
densidade populacional e da intensa verticalização do centro da cidade, que faz do espaço 
urbano um palco confluente de interesses de diferentes setores privados e públicos. 
Por conseguinte, as duas tabelas a seguir mostram os principais questionamentos da 
pesquisa e como eles foram respondidos por intermédio das fontes analisadas. Esses 
questionamentos são os desdobramentos dos objetivos específicos desta investigação (vide 
figura 68), mostrando a extensão de alcance da pesquisa, através das variáveis relacionadas a 
sustentabilidade, aos espaços multifuncionais, bem como à biofilia e ao bem-estar no espaço 
urbano dos contextos empíricos considerados. 
 
156 
 
 
 
 
Figura 67: Esquema sobre a relação entre os objetivos específicos e os questionamentos dapesquisa. 
Fonte: Elaborado pela autora. 
 
 
157 
 
 
 
158 
 
 
 
 
159 
 
 
 
4.3.1 Abordagens da sustentabilidade e gerenciamento dos parques 
 
As práticas urbanas de gestão aliadas aos conhecimentos geográficos e biológicos 
sobre os componentes da ecologia urbana, neste caso, por meio da infraestrutura dos jardins, 
podem influenciar na efetiva sustentabilidade, significando na capacidade de se sustentar ao 
longo do tempo, ou seja, implicando em cidades resilientes. Tendo em vista o contexto de 
transformações nos ecossistemas gerado pela expansão da urbanização no nível global, como 
foi abordado em todo o capítulo 2, com áreas impermeáveis, de alta redução na capacidade de 
infiltração do solo, afetando diretamente os ciclos hidrológicos, além da discussão específica 
sobre as realidades urbanas de Oslo e do Rio de Janeiro, como foi visto no capítulo 3, os dois 
parques analisados nesta pesquisa têm a potencialidade de representar espaços de maior 
permeabilidade para o contexto dos bairros dos quais eles fazem parte. 
No caso do Parque Frogner, como já foi abordado anteriormente, ele possui uma área 
de 320 mil m2, dos quais apenas o parque Vigeland, a piscina pública e as quadras esportivas 
não possuem vegetação em números expressivos. Cabe destacar que nessa última década, a 
cidade de Oslo vem sofrendo com dias mais quentes e chuvas mais intensas no final da 
primavera e durante o verão, e o próprio Instituto de Meteorologia do país (Meteorologisk 
Institutt -Met.no), sinalizou em abril de 2021, um alerta laranja para uma precipitação intensa 
que ocorreria na cidade, onde foi destacado que: 
O fato de chover tão intensamente em um curto período de tempo significa 
que muitas vezes há problemas com as águas superficiais, especialmente em 
áreas densamente povoadas, em estradas ou outras cidades com muitas 
superfícies densas ou má drenagem. Relâmpagos, trovões, granizo e fortes 
rajadas de vento são frequentemente associados a chuvas torrenciais. 
Outras consequências possíveis dessas pancadas de chuva são as mudanças 
de curso de córregos e rios, e deslizamentos de terra. Um aviso de chuva 
torrencial pode ser enviado pouco antes da chuva, e nenhum aviso separado 
de inundação e deslizamento de terra será enviado do NVE (STYRTREGN, 
2021, n.p., tradução livre). 
 
Com isso, a cidade pode ter maior risco a alagamentos no futuro, caso a expansão 
urbana e as políticas de densificação nas áreas centrais, não considerem uma morfologia 
urbana aliada a também expansão e manutenção da infraestrutura verde e azul, por exemplo, 
por meio de pequenos núcleos vegetativos, como jardins urbanos em praças e parques, 
160 
 
 
 
conectados de maneira estrutural (parques lineares, ruas arborizadas...) a outros espaços 
verdes de grande extensão da cidade, como o Parque Frogner e a Oslomarka. 
De igual forma, a Quinta da Boa Vista, com 155 mil m2, representa um local 
importante para a zona norte carioca. O fato desta área da cidade ser intensamente 
verticalizada e asfaltada, com carência de cobertura vegetal e uma drenagem urbana efetiva, 
implica numa menor capacidade de infiltração da água no solo, favorecendo a ocorrência do 
escoamento superficial e uma maior propensão a enchentes. Além disso, a Quinta da Boa 
Vista, assim como os outros espaços verdes, também influencia em termos de resfriamento da 
temperatura nos meses do verão, contribuindo para a regulação do microclima urbano. 
Nesta perspectiva, Cunha e Guerra (2012, p. 337), argumentam que é preciso olhar o 
problema, ou no caso o risco, de maneira holística, considerando todas as relações de causa e 
consequência entre a degradação do meio ambiente e os modos de viver da sociedade 
contemporânea. Os autores afirmam que apenas assim será possível identificar o que deve ser 
modificado, para poder recuperar e promover sistemas urbanos mais resilientes (CUNHA; 
GUERRA, 2012, p. 337-339). 
Sendo assim, o diagnóstico é composto pela análise de vários componentes separados, 
que depois em conjunto, possibilitam uma ação integrada por parte da gestão urbana. Em 
ambos os contextos empíricos analisados nesta pesquisa, o Parque Frogner e a Quinta da Boa 
Vista são elementos no amplo sistema urbano de Oslo e do Rio de Janeiro. Isso significa que 
esses dois parques possuem benefícios ambientais, como outros locais de vegetação urbana, 
sobretudo com a ajuda e o interesse por parte da gestão dos parques em investir nos níveis de 
manutenção desses espaços, a fim de garantir a boa drenagem do solo, a qualidade da água e a 
biodiversidade urbana, podendo ter as suas relevâncias expandidas, quando os colocamos em 
conexão aos outros elementos da paisagem urbana. 
Dessa maneira, cabe ressaltar que a política urbana está em contínua construção e que, 
através da Lei, exercida no plano diretor específico a cada realidade urbana aqui abordada, 
existe uma estruturação na forma de princípios, objetivos, diretrizes e áreas prioritárias para 
intervenção, a serem alcançados e que serão progressivamente acompanhados, além de 
avaliados e reformulados ao longo do tempo. No caso de Oslo, ambos o sistema de parques, o 
Stortingmelding nr 58, o Kommunedelplan e o Compehensiveplan têm exercido a 
potencialidade de integração socioambiental da cidade, sendo discutidos na Câmara municipal 
com urbanistas, ONGs locais e os representantes distritais, onde os parques urbanos são 
considerados como áreas de vegetação e atividades sociais relevantes para a estrutura urbana. 
161 
 
 
 
Já no espaço urbano do Rio de Janeiro, a revisão do Plano Diretor iniciada em 2018, com a 
discussão do Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável, aliado a outros instrumentos de 
gestão, como o Plano Diretor de Arborização Urbana, em diálogo com a sociedade civil e com 
pesquisadores do espaço urbano, tem a intenção de promover um projeto de Lei com 
estratégias interdependentes de planejamento, por meio do Sistema Integrado de Planejamento 
e Gestão Ambiental, onde os parques e demais espaços verdes estejam efetivamente 
conectados uns aos outros de forma sistêmica, promovendo um melhor gerenciamento e 
ressignificação das áreas verdes da cidade. 
Por conseguinte, a tabela a seguir99 resume os fatores abordados e apresentados 
durante as demais etapas de investigação sobre a manutenção do Parque Frogner e da Quinta 
da Boa Vista, indicando as informações encontradas, o que elas representam em níveis de 
sustentabilidade para cada parque, e quais políticas de gestão urbana e ambientais poderiam 
ser importantes nessas realidades urbanas. 
 
*Não se aplica, pois não este não foi um componente considerado nesta abordagem de pesquisa. 
Tabela 6: Aspectos da sustentabilidade nos contextos empíricos da pesquisa. 
Fonte: Elaborado pela autora. 
 
 
99 Tabela confeccionada a partir dos parâmetros utilizados por James (2014) e identificados e discutidos na 
pesquisa teórica presente no capítulo 2 desta pesquisa. 
162 
 
 
 
Sobre a biodiversidade na Quinta da Boa Vista, não foram encontradas informações de 
estudos realizados acerca das atuais fauna e flora específicas do parque, nem da conexão deste 
espaço verde a outros da cidade do Rio de Janeiro. Apenas na referência bibliográfica 
(TRINDADE, 2013, p. 257), é abordada a menção e a descrição das diretrizes de manutenção 
da Quinta, por parte da gestão, além do anexo 1 citando “ A Carta dos Jardins Históricos 
Brasileiros”, publicada em 2010 (TRINDADE, 2013, p. 227), mostrando as medidas de 
gestão em vigência na legislação urbana do Brasil, visando preservar os aspectos 
fisioquímicos dos solos, bem como a fim de possibilitar a existência dos organismos vegetais 
que constituem esse jardim histórico, em alusão à manutenção das espécies vegetais usadas no 
paisagismo de Glaziou. 
Além disso, foram encontrados informativos gerais no site do Horto Botânico, 
supervisionado e sob a responsabilidade daUniversidade Federal do Rio de Janeiro, sobre o 
cultivo vegetal para fins de pesquisa, no qual pode-se ler: 
O Horto Botânico está localizado dentro do Parque da Quinta da Boa Vista, 
no bairro Imperial de São Cristóvão, Rio de Janeiro. Pertence ao Museu 
Nacional e consequentemente a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu 
terreno foi anexado ao Museu Nacional em 30 de setembro de 1896. 
Esta área destina-se ao cultivo de plantas e a experiências biológicas para 
fins de estudos, pesquisas e demonstrações práticas. Há construções 
históricas como tanques e um sistema de canais para canteiros de plantas 
aquáticas cuja água era suprida por uma caixa d’água que ficava sobre uma 
torre, todas estas construções são datadas de 1910. Por volta de 1950, o 
Horto Botânico perdeu uma grande área com a construção de avenidas no 
seu entorno e posteriormente teve que ser reestruturado o que ocorreu com o 
auxílio do Prof. Luiz Emygdio de Mello Filho. 
Atualmente possui uma área de 40.748,50m², onde estão: uma importante 
área verde, com ca. 20.000m², constituída por vegetação de vários 
ecossistemas brasileiros e espécies exóticas; a Biblioteca do Museu Nacional 
e alguns prédios que abrigam os Departamentos de Botânica e de 
Vertebrados, o Acervo Arqueológico do Museu Nacional (Casa de Pedra) e 
instalações do Projeto Coral Vivo. (MUSEU…, c2022). 
 
Apesar de não representar de maneira efetiva a flora do parque, essa apresentação 
sobre o Horto é importante para compreender que existem pesquisas relacionadas a ecologia 
163 
 
 
 
em andamento dentro do Parque, sendo necessário mais investigações sobre como essas 
dinâmicas universitárias poderiam contribuir com o aprimoramento do espaço da Quinta da 
Boa Vista em relação a ecologia urbana. E em complementação, na atualidade do parque um 
outro componente que poderia ser um aliado no conhecimento e manutenção da 
biodiversidade, diz respeito ao Bioparque do Rio (novo zoológico), cujo princípio é o de ser 
um “centro de conservação ecológica, com diversos serviços de educação ambiental, 
estabelecendo parcerias com Institutos de pesquisa e universidades nacionais e 
internacionais.” 100 
Embora haja uma lacuna na divulgação e/ou nas investigações sobre os componentes 
biológicos desse parque urbano, a cidade do Rio de Janeiro possui medidas de gerenciamento 
de espécies arbóreas que, em conjunto com a administração da Fundação Parques e Jardins, 
teriam a possibilidade de contribuir para um conhecimento e gerenciamento desse espaço em 
conexão a paisagem urbana. Dentre elas, pode-se destacar o Plano Diretor de Arborização 
Urbana, e as pesquisas botânicas realizadas pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do 
Rio de Janeiro101 sobre as áreas ecológicas, por meio da identificação das espécies ameaçadas 
da Mata Atlântica102, com o intuito de catalogar a biodiversidade urbana, reconhecer áreas 
prioritárias para a preservação e iniciar processos de restauração. 
Em termos de hidrologia, a Quinta da Boa Vista vem passando por problemas. No ano 
de 2015, os lagos do parque foram notícias nos principais jornais (Extra e O Globo103), devido 
ao mau cheiro e a coloração esverdeada, indicando a presença de cianobactérias que se 
proliferam em águas contaminadas. O problema, identificado por pesquisadores como 
eutrofização da água, aconteceu pelo acumulo de matéria orgânica, no qual as cianobactérias 
atuam na decomposição, produzindo gases sulfídricos e metano. Além do desconforto olfativo 
pelo fato do cheiro se assemelhar ao esgoto, as águas contaminadas, se ingeridas, podem 
ocasionar intoxicações104. 
Em outra notícia sobre uma mancha de óleo nas águas dos lagos, em 2020, o website 
do projeto colabora105 destaca que “a Fundação Parques e Jardins tem tido dificuldades em 
gerir um espaço de 155 mil m2”, por causa do baixo orçamento e capital investidos pelo poder 
 
100 Conferir Mendonça (2021). 
101 Órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. 
102 Programa Mata Atlântica-PMA.. 
103 Matéria sobre a contaminação da Quinta da Boa Vista, disponível em: 
<https://extra.globo.com/noticias/rio/quinta-da-boa-vista-tem-lago-contaminado-por-bacterias-15830016.html>. 
104 Na ocasião, a Fundação Parques e Jardins escreveu uma nota sobre o ocorrido, vide Anexo 1. 
105 Matéria completa sobre o projeto colabora: https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-
da-boa-vista/. 
https://extra.globo.com/noticias/rio/quinta-da-boa-vista-tem-lago-contaminado-por-bacterias-15830016.html
https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/
https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/
164 
 
 
 
municipal. A reportagem ainda menciona que o óleo diesel de coloração avermelhada, de 
origem até então desconhecida, expos peixes e aves ao risco de intoxicação imediata, o que é 
contraditório em um parque que abriga um zoológico e um horto botânico. Na ocasião, 
técnicos do INEA (Instituto Estadual do Ambiente) e da Defesa Civil, bem como o gestor do 
parque, avaliaram a possibilidade de o vazamento ter sido realizado em uma “galeria pluvial 
fora dos limites da Quinta da Boa Vista”106, o que intensifica ainda mais a importância em se 
analisar o parque em conexão aos outros elementos do espaço carioca, num sistema de 
planejamento e gestão integrado. 
Neste sentido, Rufatto-Ferreira et al. (2018) argumentam que o Zoneamento Ecológico 
Econômico (ZEE)107, enquanto modelo de planejamento urbano com ênfase na 
sustentabilidade, representaria uma ferramenta importante para o munícipio do Rio de Janeiro, 
indicando diretrizes de gestão para uma melhor utilização das áreas da cidade, buscando 
integrar a economia aos aspectos sociais e ecológicos. Para os autores, essa ferramenta 
possibilitaria uma maior compreensão dos desafios socioambientais da cidade por ser feito em 
etapas, que contribuiriam na formação de uma visão geral, ou diagnóstico, para se chegar às 
soluções. 
 
Figura 68: Foto dos Desgastes no gramado da Quinta da Boa Vista. 
Fonte: Yasuyoshi Chiba – AFP – Agence France-Presse (2020). 
 
106 Matéria sobre o projeto colabora: https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-
vista/.. 
107 O Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) é um instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, 
regulamentado pelo Decreto nº 4.297/2002, e tem como objetivo viabilizar o desenvolvimento sustentável a 
partir da compatibilização do desenvolvimento socioeconômico com a proteção ambiental (IBGE, n.d.). 
 
https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/
https://projetocolabora.com.br/ods11/oleo-misterioso-na-quinta-da-boa-vista/
165 
 
 
 
Com relação ao Parque Frogner, não foram encontradas fontes bibliográficas sobre 
degradação ambiental neste espaço verde. Ao contrário, as informações sobre os aspectos 
ambientais do parque são muito promissoras e se relacionam ao fato dele consistir em habitat 
de mamíferos como esquilos e morcegos, este últimos sendo constantemente monitorados no 
local à noite. Além disso, o parque possui uma grande quantidade de espécies arbóreas 
compostas por árvores bastante antigas e de folhas caducas108, que são importantes para a 
filtragem do ar. De acordo com o website Miljølare109, justamente esses tipos de árvores 
decíduas agem como um biótopo essencial na manutenção de animais e plantas, uma vez que 
árvores antigas fornecem mais habitats por meio de espaços ocos, e também pela presença de 
líquens e musgos, atraindo insetos, mamíferos e aves, como é o caso das corujas que 
constroem seus ninhos nesses locais vazios dentro dos troncos arbóreos.110 
É interessante observar que, no contexto das cidades norueguesas, a maioria dos 
parques tem uma área pequena demais para sustentar uma grande quantidade de habitats da 
vida selvagem em comparação com o ambiente das florestas e prados. Porém, o valor desses 
espaçosverdes em termos ecológicos de biodiversidade se multiplica à medida que eles 
estiverem em conexão, por meio de corredores verdes, a outros espaços verdes, sejam eles 
grandes ou pequenos. 
Segundo o jornal eletrônico Vårt Oslo111 (Nossa Oslo), existem cerca de 15 mil 
espécies vegetais e animais na capital norueguesa, e isso está amplamente relacionado a 
manutenção conjunta dos córregos e espaços verdes que cortam a cidade, e que conectam a 
floresta ao mar. Por isso, o manejo da diversidade biológica tem sido feito de forma a 
identificar as espécies exóticas que se proliferam e ameaçam as espécies nativas, a fim de 
evitar a propagação de pragas que comprometam os vários ecossistemas presentes em Oslo. 
Dessa maneira, a biodiversidade do Parque Frogner tem a sua relevância incrementada 
devido ao conjunto urbano de espaços verdes na paisagem da cidade, do qual o parque faz 
 
108 “Em botânica, caducifólia, caduca ou decídua é uma planta que, numa certa estação do ano, perde suas folhas, 
geralmente nos meses mais frios e sem chuva (outono e inverno), ou em que a água se encontra congelada ou de 
difícil acesso à terra” (WIKIPEDIA, 2020). 
 
109 Para maiores informações consulte: https://www.miljolare.no/tema/planterogdyr/artikler/urban_natur.php. 
 
110 “Os ninhos das corujas são geralmente estruturas feitas nos buracos de árvores, cavernas, tocas subterrâneas, 
celeiros, casas abandonadas, campanários e em ninhos velhos de gaviões ou de corvos.” (PORTAL SÃO 
FRANCISCO, c2022). 
 
111 Sobre biodiversidade na capital da Noruega, consulte Vårt Oslo em: https://cm.vartoslo.no/annonsorinnhold-
hele-oslo-oslo-europeisk-miljohovedstad-2019/biomangfoldsuka-opplev-oslos-ville-hjerte/218940 
https://www.miljolare.no/tema/planterogdyr/artikler/urban_natur.php
https://cm.vartoslo.no/annonsorinnhold-hele-oslo-oslo-europeisk-miljohovedstad-2019/biomangfoldsuka-opplev-oslos-ville-hjerte/218940
https://cm.vartoslo.no/annonsorinnhold-hele-oslo-oslo-europeisk-miljohovedstad-2019/biomangfoldsuka-opplev-oslos-ville-hjerte/218940
166 
 
 
 
parte. Com isso, percebemos que a sustentabilidade tem de ser considerada de maneira 
sistêmica, na qual a manutenção das espécies da fauna e da flora do parque dependem da 
também manutenção das demais áreas verdes e dos aspectos hidrológicos urbanos. 
Neste sentido, é importante a produção de conhecimento sobre a biodiversidade 
urbana, como consta no relatório do parlamento norueguês (Storting nº 58), produzido nos 
anos 1996 e 1997, no qual todos os municípios do país foram incentivados a mapear a 
diversidade biológica presente no espaço urbano. No caso do Parque Frogner, o Departamento 
de Meio Ambiente de Oslo conta com convênios público-privados, onde o Grupo Mercell112 
(empresa privada), dá suporte a operacionalização da gestão do parque, por meio do 
mapeamento de espécies exóticas, bem como no estabelecimento de diretrizes de conservação 
da biodiversidade das espécies arbóreas e da coleção de rosas, com mais de 14.000 plantas de 
150 espécies diferentes. 
 Dentro dessa perspectiva, as áreas com maior diversidade biológica do Parque 
Frogner correspondem as árvores, arbustos e flores localizadas nos jardins próximos ao rio 
Frogner, bem como os que circundam o parque. A área onde se situa o Parque Vigeland, 
especificamente o monolito, nesta lógica, seria uma das menos diversas, justamente por ser 
um local sem muita vegetação e com forte presença de concreto. 
Um dos aspectos hidrológicos do parque se constitui pelo rio Frogner, que é formado 
na confluência entre Gaustadbekken e Sognsvannbekken no bairro Frøen, sendo canalizado 
seguindo na direção sul, passando pelo bairro Frogner. Dentro do parque, o rio flui pelas 
barragens (drammensveien), sendo essencial para o ecossistema do entorno. Por meio de 
pesquisas bibliográficas, foi constatado que, o rio Frogner possui a sua própria associação de 
amigos (frognervassdragets venner113), a qual contribui para a manutenção da qualidade 
hídrica, por meio de “trabalhos de limpeza, sinalização, preparação de trilhas, testes de água 
e acompanhamento de planos de zoneamento, se manifestando em casos que afetam o curso 
d'água”, além de organizar “passeios fluviais” ao longo desse rio urbano, no período de maio 
a outubro, e eventos culturais, sobretudo com moradores e estudantes de ensino fundamental 
das escolas localizadas nos bairros por onde o rio passa. 
 
112 Sobre a empresa MERCELL: https://www.mercell.com/en/tender/51430752/drift-og-skjoetsel-av-
frognerparken-tender.aspx 
113 Maiores informações em https://www.osloelveforum.org/frognerelvas-venner/. 
https://www.mercell.com/en/tender/51430752/drift-og-skjoetsel-av-frognerparken-tender.aspx
https://www.mercell.com/en/tender/51430752/drift-og-skjoetsel-av-frognerparken-tender.aspx
https://www.osloelveforum.org/frognerelvas-venner/
167 
 
 
 
 
Figura 69: Evelangs Frognerelven, evento cultural de música e dança ao longo rio, com alunos das escolas 
Majorstuen, Skøyen e Uranienborg. 
Fonte: Frognerelven (n.d.). 
 
Outra questão relacionada a esse rio, diz respeito a sua relação a vida animal. De 
acordo com uma reportagem publicada pelo jornal online Nettavisen114, em 21 de maio de 
2020, um castor que foi encontrado dentro do Parque Frogner, “nadando ao redor do riacho e 
se alimentando de repolhos a margem do rio. O animal aparentemente havia se mudado para 
o rio Frogner, que é o córrego que flui através de Frognerparken e deságua em 
Frognerkilen115”. 
 
 
Figura 70: Castor nadando no seu novo habitat, o Rio Frogner. 
Fonte: Ørn E. Borgen (NTB scanpix) (2020). 
 
Sendo assim, podemos observar como a natureza presente nas duas cidades 
contempladas nesta pesquisa, também se relaciona a perspectiva das questões de qualidade 
ambiental e de vida, onde se identificou como a biodiversidade, a vegetação e a hidrologia, 
 
114 En bever har flyttet inn i Frognerparken [Um castor se mudou para o Parque Frogner], disponível em: 
https://www.nettavisen.no/nyheter/en-bever-har-flyttet-inn-i-frognerparken/s/12-95-3423971871. 
115 Tradução livre da autora a partir da reportagem do Nettavisen. 
168 
 
 
 
por exemplo, representam elementos essenciais da paisagem urbana, e se conectam aos 
desafios em níveis de sustentabilidade que cada espaço urbano possui. 
A partir dessa perspectiva, cabe ressaltar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) 
publicou no ano de 2016 o livro intitulado Urban green spaces and health - A review of 
evidence. Nele se enfatiza as comprovações científicas sobre as áreas arborizadas que ajudam 
na produção de oxigênio, filtrando a poluição do ar e as áreas com a presença de corpo d’água 
que contribuem para certa moderação na temperatura, além do papel de relevância social 
desses espaços (OMS,2016). Essas questões foram analisadas de acordo com o panorama 
específico tanto do parque Frogner, quanto da Quinta da Boa Vista, e espera-se que as 
discussões trazidas aqui tenham a capacidade de gerar novos questionamentos para pesquisas 
futuras, além de auxiliar em uma compreensão mais holística sobre os aspectos 
socioambientais para planejadores e gestores urbanos da atualidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
169 
 
 
 
4.3.2 Natureza urbana e bem-estar 
 
O bem-estar, por vezes, é encarado como algo subjetivo na sociedade, com base em 
diferentes fatores de ordem psicológica, socioambiental e até mesmo econômica. Sobre isto, 
Londe et al (2014) argumentam que o bem-estar seria o resultado da relação entre os 
conceitos de qualidade de vida e de qualidade ambiental, partindo do princípio de que as 
pessoas necessitam de espaços na cidade que sejam capazes de desempenhar funções 
ecológicas e sociais ao mesmo tempo (LONDE et al., 2014, p. 268). Por esse motivo, a 
multifuncionalidade dos espaços verdes vem sendo considerada como de grande importância 
na contemporaneidade da vida urbana. 
Apesar de existirem bons indicadoresde bem-estar e qualidade de vida em pesquisas 
qualitativas sobre o espaço urbano, como por exemplo, no projeto financiado por diversas 
Fundações de Fomento à pesquisa do Brasil, denominado Índice de Bem-Estar Urbano 
(IBEU), que identifica “as condições urbanas necessárias para se viver nas cidades, 
especialmente nos grandes centros urbanos do país116”, favorecendo pesquisas acerca da 
condição da habitação, transportes públicos e demais características urbanas, a fim de 
promover uma melhora na vivência das cidades brasileiras; ainda assim, é importante realçar 
que cada indicador é inerente ao interesse e aos questionamentos da pesquisa a qual ele está 
sendo utilizado, pois é difícil mensurar o significado das sensações de satisfação, 
contentamento e plenitude que fazem parte do estado emocional de cada um, e articular tudo 
isso num indicador genérico e universal. 
Neste sentido, ao longo das etapas de pesquisa sobre os espaços verdes e contextos 
empíricos do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, não foram analisados índices 
padronizados elaborados por outras pesquisas de outros contextos e temáticas urbanas. 
Justamente pelas peculiaridades e subjetividades dos entrevistados, na investigação aqui 
realizada, buscou-se refletir sobre os aspectos citados e relatados por eles com relação ao 
aporte teórico das cidades biofílicas e da paisagem, promovendo uma maior imersão e 
compreensão da percepção ambiental apresentada nos relatos. A partir dessa abordagem, foi 
possível elencar índices próprios, relacionados ao que foi estudado por essa pesquisa 
específica. 
Com base nos contextos de Oslo e do Rio de Janeiro, percebe-se a ocorrência de 
valores socioculturais semelhantes, no que tange a importância dada a natureza urbana pelas 
 
116 IBEU – Índice de Bem-estar Urbano, consulte em https://ibeu.observatoriodasmetropoles.net.br/. 
https://ibeu.observatoriodasmetropoles.net.br/
170 
 
 
 
pessoas. Embora as vivências sejam distintas nas duas cidades, o fato de haver algum tipo de 
disponibilidade e acesso aos espaços verdes, foi considerado como extremamente positivo e 
até mesmo essencial para a vida nessas realidades urbanas. Sendo assim, foi utilizado o 
recurso da nuvem de palavras, através da conta pessoal no website Mentimeter117, para 
apresentar as palavras mais pronunciadas e/ou escritas nos relatos. Essas palavras se 
apresentam em tamanhos diferentes (em ordem crescente), representando visualmente os 
termos mais citados, indicando os índices de bem-estar que esta pesquisa se baseia, como 
pode ser visto a seguir: 
 
 
Parque Frogner: 
 
Figura 71: Nuvem de palavras sobre o Parque Frogner. 
Fonte: Elaborado pela autora com base nos relatos. 
 
 
 
 
 
117 Mentimeter, consulte em: https://www.mentimeter.com/pt-BR. 
https://www.mentimeter.com/pt-BR
171 
 
 
 
Quinta da Boa Vista: 
 
Figura 72: Nuvem de palavras sobre a Quinta da Boa Vista. 
 Fonte: Elaborado pela autora com base nos relatos. 
 
Nesta perspectiva, pode-se compreender que os dois parques representam ambientes 
multifuncionais de aspectos ambientais e sociais de grande relevância. A partir das palavras/ 
expressões destacadas pelas figuras, foi possível organizar os termos em três índices: 
• Valores socioambientais: Biodiversidade, luz do sol, estações do ano, contato 
com a natureza, frescor, temperatura amena. 
• Valores culturais: Arte e natureza, esculturas de Vigeland, identidade da 
Noruega, arte e cultura, Museus, Zoológico. 
• Benefícios sociais: Relaxamento, saúde mental, acessibilidade, tranquilidade, 
felicidade, piqueniques, descanso, memórias da infância, lembranças. 
 
Esses resultados mostram que os valores socioambientais são qualidades que o meio 
ambiente, ou nesse caso os dois parques, possuem de acordo com a perspectiva da sociedade 
da qual eles fazem parte, sendo, portanto, também relacionados a cultura local. Já os 
benefícios sociais indicam efetivamente a melhoria do estado de bem-estar por conta da 
disponibilidade desses valores (tanto socioambientais, quanto culturais), indicando que todos 
os aspectos existem e devem ser analisados em conjunto nos parques. Por exemplo, a melhora 
172 
 
 
 
na saúde física e mental e o alivio do estresse são benefícios sociais que dependem dos 
valores socioambientais analisados como a disponibilidade ad luz do sol, a biodiversidade e 
uma temperatura mais amena. De igual forma, as memórias da infância se conectam aos 
valores culturais presentes nas visitas ao Museu (Nacional) e ao parque das esculturas 
(Vigeland). 
Seguindo a narrativa dos relatos e a visualização da nuvem de palavras, pode-se 
interpretar que o valor dado a natureza urbana presente no Parque Frogner é mais conectado 
aos aspectos ecológicos da sustentabilidade e da biodiversidade, que foram considerados 
como um valor socioambiental presente neste espaço. Além disso, o componente da luz do 
sol, ou luz do dia, também foi bastante citado como importante nas vivências das pessoas 
neste parque urbano, o que pode indicar a relação entre o parque e demais espaços verdes da 
cidade aos aspectos climáticos do país, onde é essencial que haja disponibilidade de natureza 
urbana para que a população consiga usufruir da cidade mesmo nos dias mais curtos e gelados 
do inverno. De igual forma, isso se conecta a biofilia neste espaço, onde as estações do ano 
são percebidas ao passar de cada mês, e a percepção das pessoas muda à medida que a 
coloração da paisagem também muda, por meio do aspecto das folhas das árvores, do branco 
da neve, ou do verde do gramado e o desabrochar dos primeiros botões de flores na 
primavera, além da disponibilidade de 24 horas de luminosidade no verão. 
A saúde mental também teve sua importância realçada. As pessoas entrevistadas 
associaram a presença de espaços verdes a manutenção de um bem-estar físico e mental 
imprescindível na vida diária. Neste sentido, os parques também atuariam como uma espécie 
de estrutura da sustentabilidade não só ambiental, mas também psicológica dos moradores de 
Oslo, enquanto lugares nos quais pode-se ter uma sensação de relaxamento e tranquilidade, 
além de fazer uma gama de atividades diferentes em meio a presença da vegetação e de toda 
uma vida animal (biodiversidade). 
As questões da arte relacionada às esculturas de Vigeland e ao caráter turístico do 
parque também foram muito enunciadas nos relatos, demonstrando que esse espaço cultural 
faz parte do passado histórico do país. Além disso, a arte e as esculturas foram consideradas 
como integrantes da identidade cultural da Noruega, como um tipo de legado cultural na 
contemporaneidade do parque, fato que atrai muitos turistas. 
Com relação a Quinta da Boa Vista, nota-se que, ao contrário do Parque Frogner, a 
questão ecológica e de sustentabilidade não foi o aspecto principal a ser citado nos relatos. 
Porém, numa análise socioambiental, percebe-se que o vocábulo “fresco” e a indicação do 
173 
 
 
 
parque possuir uma “temperatura amena”, mesmo que indiretamente, se relaciona a questão 
da importância ecológica deste parque para a cidade, onde os relatos mostram que a presença 
da vegetação se conecta a um lugar mais aprazível, sobretudo numa cidade de clima quente 
como o Rio de Janeiro. Isso também é um exemplo de relação biofílica com a vegetação da 
Quinta da Boa Vista, onde a percepção ambiental presente nos relatos implica num valor dado 
às árvores e demais plantas do parque, percebidas e sentidas de inúmeras formas. 
Para os entrevistados o fato de haver um local de convivência em meio a natureza 
urbana foi a experiência fundamental. Até mesmo a expressão “espaço de bem-estar” foi 
utilizada para se referir ao parque em relação ao “contato com a natureza”. Outra questão 
muito abordada foi a das memórias da infância, ou lembranças. Isso se reflete nos relatos 
sobre os passeios escolares ao parque, bem como aos piqueniques em famíliarealizados neste 
espaço, que indicam que as pessoas guardam uma relação de afetividade com a Quinta da Boa 
Vista. 
Termos como descanso e relaxamento indicam que a Quinta da Boa Vista, apesar dos 
desafios em níveis de infraestrutura e segurança, ainda possui muita relevância, por ser um 
lugar de tranquilidade, especificamente, na zona norte, sendo esta última uma outra palavra 
muito citada nas entrevistas. O fato do parque se localizar na zona norte e ser acessível a 
muitas pessoas via transporte público, é algo que influencia no bem-estar geral dos 
entrevistados, pois eles podem frequentar o espaço por uma maneira mais facilitada e 
próxima. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
174 
 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
No presente trabalho, ao longo das etapas de pesquisa, verificou-se como a natureza 
urbana se desenvolveu em meio aos desafios trazidos pela lógica da industrialização e da 
expansão urbana nos séculos XIX e XX. A maneira com a qual a arquitetura da paisagem se 
inseriu nessa expansão urbana nos possibilita enxergar a cidade como palco concreto das 
relações socioambientais, compreendendo que as sociedades e todas as suas dinâmicas 
também fazem parte do mundo natural, vivenciando e imprimindo marcas no espaço com a 
potencialidade de gerar consequências ambientais dos mais diversos níveis e características. 
Sendo assim, é essencial o entendimento da atuação dos principais personagens 
mundiais que contribuíram para um olhar mais integrador e multidisciplinar do planejamento 
urbano e ambiental, como por exemplo Frederick Law Olsmted e Ian McHarg. Soma-se a 
isso, alguns aspectos dos debates ecológicos do século XX e das questões trazidas no 
contexto das cidades biofílicas sobre a percepção ambiental e a paisagem urbana que, em 
conjunto, permite uma reflexão sobre como as pessoas vivenciam e conferem significado ao 
espaço por meio das experiencias diárias e, dentro desse contexto, como as cidades 
contemporâneas podem usufruir de conhecimentos de diferentes áreas do saber, como a 
biologia, a geografia e a sociologia, para a idealização de cidades mais resilientes e com mais 
qualidade de vida para seus habitantes. 
Neste sentido, tendo a natureza urbana como fio condutor desta pesquisa, se buscou 
abordar o contexto de planejamento em duas realidades urbanas geograficamente distantes, 
Oslo e Rio de Janeiro, com o intuito de analisar como os aspectos socioambientais presentes 
no Parque Frogner (OSL) e na Quinta da Boa Vista (RJ), isto é, especificamente em dois 
espaços verdes, se relacionam ao bem-estar urbano das respectivas cidades. A resposta a 
essa indagação principal não é evidente, e foi necessário traçar os caminhos pelos quais o 
contexto de Oslo e do Rio de Janeiro lidaram com o seu meio ambiente, sobretudo do final do 
século XIX até os dias atuais. Isso foi importante para compreender as bases socioculturais 
que permitiram a existência dos dois parques que foram estudados posteriormente. 
Para tanto, ao realizar um levantamento bibliográfico sobre a temática socioambiental 
e as políticas dos espaços verdes nas cidades estudadas, foi possível notar que no século XX, 
a cidade norueguesa recebeu grande influência das ideias ambientalistas em vigor no 
planejamento urbano ocidental, onde foi criado um amplo sistema de parques interligando os 
espaços verdes urbanos e propiciando a construção de ainda mais parques e jardins por todos 
os bairros, numa maneira de proporcionar acesso a natureza urbana nas imediações das 
175 
 
 
 
moradias. Esse sistema, pensado e executado em meados do século, foi a primeira de uma 
série de políticas urbanas posteriores que visavam tornar a cidade verde. Nessa perspectiva, o 
Parque Frogner se insere nessa lógica, mas possui algumas especificidades, por ter sido um 
espaço também construído com o objetivo de exercer a função cultural importante por meio 
das esculturas de Vigeland, num momento no qual a Noruega buscava uma maior 
independência sociocultural de seus países vizinhos. 
No caso da cidade do Rio de Janeiro, se observa que seu contexto de urbanização é 
distinto, se relacionando às funções de capital do Império, com a chegada da família imperial 
portuguesa no final do século XVIII. Com relação aos espaços verdes, sobretudo no segundo 
Império de D. Pedro II, a natureza urbana presente na cidade começou a receber mais ênfase, 
com o reflorestamento da floresta da Tijuca e a idealização de alguns parques pela cidade. 
Além disso, como foi estudado ao longo da pesquisa, os maiores avanços em políticas urbanas 
para um planejamento urbano e ambiental da cidade ocorreu, de fato, a partir da segunda 
metade do século XX. Nessa perspectiva, a criação inicial da Quinta da Boa Vista não se 
relaciona a um parque urbano, mas sim aos jardins da residência da família imperial brasileira 
no Paço de São Cristóvão, que após a chegada da República, começaram a exercer a função 
de parque público considerado como jardim histórico. 
A análise do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista expôs os contextos de criação 
desses espaços, mas não se limitando a uma análise historiográfica, pois foram discutidas as 
transformações pelas quais os parques passaram até a atualidade, mostrando as características 
de multifuncionalidade ecológica, social e cultural que os tornam centrais em termos 
socioambientais. Para a compreensão de como os aspectos presentes nesses parques se 
relacionam a noção de bem-estar, a investigação aqui realizada buscou apoio nas categorias 
de análise, sustentabilidade, sociabilidade e gestão, a fim de proporcionar uma maior imersão 
investigativa na realidade dos parques. 
Para alcançar esse propósito, foi preciso analisar como os dois parques se integram à 
paisagem urbana na concepção da sustentabilidade, no qual foi investigada a existência ou 
não de conectividade entre esses parques e os outros espaços verdes das cidades, além da 
compreensão dos conjuntos de ações que os preservam, bem como as características 
ecológicas que eles possuem, dentre as quais destaca-se a biodiversidade desses espaços. 
Dessa maneira, a análise dos dois contextos empíricos dessa pesquisa mostrou que 
ambos possuem relevância ecológica para as cidades, porém, no caso do Rio de Janeiro, existe 
uma carência na divulgação de estudos sobre os aspectos biológicos específicos da Quinta da 
176 
 
 
 
Boa Vista (fato que abre brechas para futuras pesquisas), bem como uma falta de 
conectividade entre esse espaço verde e os demais locais de natureza urbana no âmbito do 
planejamento urbano e ambiental da cidade. Apesar do parque estar ligado a várias 
instituições de pesquisas relacionadas a biodiversidade (vide as que são gerenciadas pela 
UFRJ como o Museu da fauna e o Horto botânico, e mais recentemente sob responsabilidade 
do setor privado, o Bioparque), e dele contemplar diversas espécies arbóreas e animais, foram 
identificados problemas de cunho ambiental, como a poluição do lago, o que representa um 
desafio para a gestão desse espaço, devido à falta de recursos e de integração com a gestão 
das áreas adjacentes ao parque. 
Com relação ao Parque Frogner, foram encontradas muitas evidências em estudos 
acadêmicos sobre a conectividade deste espaço aos outros componentes de natureza urbana, o 
que se relaciona claramente às políticas urbanas de criação de espaços verdes em Oslo, 
discutidas anteriormente. É importante mencionar que foram identificadas fontes 
bibliográficas sobre elementos de biodiversidade do parque, e as medidas que são tomadas 
tanto pela prefeitura, quanto pelos moradores do bairro Frogner para a manutenção ecológica 
local. Foi mostrado como os aspectos hidrológicos presentes no parque, em complementação 
às árvores e demais elementos vegetais, constituem um espaço repleto de ecossistemas 
interligados e interdependentes, sendo considerados de relevância para a cidade como um 
todo. 
Apesar da criaçãodo parque Frogner ter sido controversa no meio intelectual dos 
arquitetos paisagistas noruegueses, por ter sido especialmente idealizado para oferecer local 
às esculturas de Vigeland, aparentemente indo em oposição ao que se pretendia na época em 
questões ambientais, percebe-se que, ainda assim, esse espaço conseguiu atender aos 
múltiplos interesses de promoção de uma paisagem urbana onde o verde está bem integrado, e 
o parque representa um importante meio de transição entre a floresta urbana e a península de 
Bygdøy. 
Além das questões trazidas acima, foi também preciso investigar o papel dos dois 
parques como espaços de sociabilidade, promovendo o acesso à natureza urbana, onde se 
pretendeu analisar como as atividades realizadas nos dois contextos empíricos se constituem 
por experiências cotidianas de relevância simbólica para a compreensão das dinâmicas 
socioculturais. Sendo assim, as entrevistas no formato de relatos com frequentadores dos dois 
parques, permitiram a compreensão da multifuncionalidade desses espaços, seja enquanto 
177 
 
 
 
lugar ecológico, ou como palco das experiências de vida das pessoas, estando amplamente 
relacionados às memórias e histórias pessoais de cada um. 
Embora os parques se situem em realidades urbanas distintas, foi possível perceber 
que a possibilidade de visitar um espaço verde na proximidade do local de moradia ou com 
fácil acesso por meio de transportes públicos, é essencial para ambos os contextos. Enquanto 
os entrevistados sobre o Parque Frogner, no geral, o consideram como mais uma opção de 
natureza urbana em meio a muitas outras de fácil visitação presentes em Oslo; os 
entrevistados sobre a Quinta da Boa Vista indicam que a principal questão sobre esse espaço é 
o de ele estar situado perto das residências deles via transporte público, num panorama de 
desigualdade no acesso ao verde da cidade do Rio de Janeiro. 
Nesse sentido, a análise conjunta sobre como esses parques são gerenciados por suas 
municipalidades e como essa gestão contribui ou deixa de contribuir para o aprimoramento 
dessa natureza urbana, também foi relevante para a pesquisa, conectando os demais objetivos 
específicos e nos permitindo observar como a sustentabilidade e a sociabilidade se relacionam 
a gestão e ao planejamento urbano e ambiental. Em adição, a imagem da natureza urbana 
também foi importante para compreender como esses parques são abordados nos discursos 
midiáticos oficiais, onde foi possível observar o contexto no qual as duas cidades se 
beneficiam da natureza urbana não apenas no nível social e ecológico, mas também com 
relação aos interesses socioeconômicos globais. Já a partir das entrevistas com duas 
profissionais do planejamento urbano e ambiental, sendo uma em Oslo e a outra no Rio de 
Janeiro, foi possível investigar as principais maneiras com as quais os dois parques vêm sendo 
considerados a partir da perspectiva da gestão na contemporaneidade. 
A entrevista sobre a realidade urbana de Oslo proporcionou, dentre outros aspectos, o 
entendimento sobre o papel do Parque Frogner como espaço essencial de biodiversidade e 
conectividade na paisagem urbana, no qual foram apresentadas algumas diretrizes que a 
cidade tem seguido, sobretudo num momento no qual Oslo está passando por transformações, 
através das políticas de densificação e verticalização do centro da cidade, o que demostra os 
desafios que estão por vir nos próximos anos, quando se terá mais pessoas circulando e 
morando na cidade, enfatizando a importância dos espaços verdes justamente nessas áreas 
mais densas do espaço urbano, que tendem a se intensificar na contemporaneidade. 
Já a entrevista sobre o contexto do Rio de Janeiro mostrou os primeiros esforços 
presenciados pela entrevistada, enquanto funcionária da prefeitura do Rio de Janeiro, para a 
incorporação do meio ambiente ao planejamento urbano (já na década de 1990). Dentro desse 
178 
 
 
 
contexto, ela cita que a cidade do Rio de Janeiro possui um bom número de parques públicos, 
incluindo os parques naturais e os parques urbanos, mas que a distribuição, oferecimento e 
conservação desses espaços não é equilibrada (e isso coincide com os relatos das outras 
entrevistas). A Quinta da Boa Vista também não é alheia a essa situação, e a profissional 
comentou sobre como esse local esteve degradado no período de 1993 a 1997, tendo sido esse 
o motivo pelo qual ela se interessou ainda mais pelo parque e se sentiu estimulada a lutar por 
mais verbas para uma manutenção efetiva. 
Neste sentido, foi possível avaliar a potencialidade dos parques na promoção do bem-
estar na cidade de Oslo e no Rio de Janeiro, tendo em vista que cada categoria de análise 
contribuiu para a formação de um parâmetro da realidade contemporânea de cada parque. Os 
vários aspectos que tornam os contextos empíricos relevantes em termos de bem-estar se 
relacionam aos conteúdos desvendados durante as etapas de investigação sobre a 
sustentabilidade, a sociabilidade e a gestão, e permitiu compreender que as categorias 
influenciam umas às outras, pois, por exemplo, se existem problemas de poluição ambiental 
em um determinado parque, isso influenciará a maneira pela qual as pessoas vivenciam o 
lugar, podendo notar dentre outras coisas, cheiros desagradáveis nos rios, o que pode as 
impedir de utilizar determinados locais. E tanto a questão da ecologia, quanto da sociabilidade 
também depende da gestão do espaço promovendo uma maior manutenção ou não do local. 
Sendo assim, as políticas urbanas que influenciam a gestão de ambos os parques, quando 
contribuem para uma maior consideração do papel da natureza para o espaço urbano, também 
influenciam no nível de preservação dos parques, que por sua vez influenciam as experiências 
sociais. 
A partir da tabela sobre os aspectos de sustentabilidade dos contextos empíricos (vide 
Tabela 6, Capítulo 4), foi possível visualizar a potencialidade ecológica dos parques em 
conexão às políticas urbanas que poderiam ser úteis para cada caso. Além disso, os índices 
construídos através das fontes analisadas durante a pesquisa (Valores socioambientais; 
Valores culturais e Benefícios sociais), mostraram como os dois contextos empíricos 
respondem aos desafios que lhes são colocados cotidianamente em cada realidade urbana e, 
ainda assim, conseguem representar elementos de biofilia e bem-estar. 
Portanto, no contexto de uma cidade mais saudável tanto em níveis ecológicos, quanto 
sociais, os dois parques se apresentam com intensa relevância para os seus espaços urbanos, 
oferecendo exemplos contemporâneos que promovem uma reflexão sobre a importância e 
consideração dos aspectos sociais e ambientais nas práticas de gestão, contribuindo e 
179 
 
 
 
instigando novas pesquisas acadêmicas sobre essa temática. Neste sentido, as duas cidades 
possuem características que podem ser aprimoradas por novas políticas urbanas e 
instrumentos de planejamento urbano e ambiental, bem como de gestão integrada, como foi 
discutido ao longo do subitem 4.3, onde as escalas de planejamento e políticas setoriais 
necessitam ser vinculadas em uma estrutura coesa. 
Sendo assim, a pesquisa aqui realizada fornece um conteúdo atualizado sobre a 
realidade urbana do Parque Frogner e da Quinta da Boa Vista, podendo auxiliar em novas 
maneiras de se gerenciar não apenas esses dois parques, como também outros elementos da 
paisagem urbana contemporânea. Tendo em vista que a resiliência não é apenas a capacidade 
ambiental de recuperação após uma crise, mas também a possibilidade das pessoas 
conseguirem efetivamente viver nas cidades, onde suas relações sociais consigam também se 
sustentar, a ampla rede de conexões e subjetividades que coexistem no ambiente urbano e 
propiciam a existência do bem-estar individual e coletivo, devem ser levadas em consideração 
tanto por pesquisadores, quanto por planejadores e gestores urbanos.180 
 
 
 
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190 
 
 
 
ANEXOS 
 
ANEXO 1: MODELO DOS EIXOS TEMÁTICOS UTILIZADOS NAS ENTREVISTAS 
COM FREQUENTADORES DOS PARQUES 
 
 
 
 
Eixos temáticos das entrevistas realizadas com frequentadores do Parque Frogner e da Quinta 
da Boa Vista no período de 2020 a 2022 
1- Há quanto tempo você mora em Oslo/ Rio de Janeiro? Quais são as suas 
impressões sobre essa cidade? 
2- Você tem algum lugar favorito na cidade de Oslo/ Rio de Janeiro? Se sim, qual 
e por quê? 
3- Como você se sente com a presença de espaços verdes na cidade? 
4- Como é o acesso a natureza urbana nessa cidade? 
5- Quais são as suas impressões sobre o Parque Frogner/ Quinta da Boa Vista? 
Que tipos de sensações você tem ao pensar neste parque? Por que este foi 
um local escolhido para visitação? 
6- Quais tipos de atividades você pratica nesse parque? 
7- Como você percebe o Parque Frogner/ a Quinta da Boa Vista em termos 
culturais e históricos? 
8- Para você, qual a importância deste espaço na malha urbana da cidade?191 
 
 
 
ANEXO 2: SÍNTESE DAS RESPOSTAS DAS ENTREVISTAS COM 8 
FREQUENTADORES DO PARQUE FROGNER 
 
1-“Estou muito feliz por Oslo ter tantos espaços verdes. Quando eu morava em 
Paris, a falta de parques e árvores realmente afetava meu humor – 
principalmente durante o inverno. O que é ainda melhor do que os parques de 
Oslo (alguns deles são muito pequenos e não são realmente um lugar para se 
passar muito tempo), eu realmente gosto das florestas que cercam Oslo. No 
verão elas são perfeitas para uma caminhada e no inverno pode-se esquiar. 
Estar ao ar livre e perto da natureza é muito importante para a minha saúde 
mental. Não sei se se trata apenas de espaços verdes, acho que também tem 
muito a ver com a luz do dia (o que pode ser bastante raro aqui em algumas 
partes do ano). No entanto, estar ao ar livre é muito mais tentador quando 
você está cercado por espaços verdes do que quando está cercado por 
prédios e concreto. 
 Com relação ao Parque Frogner, eu não sei se é tão importante para a estrutura 
urbana de toda a cidade, mas para as pessoas que moram perto dele, 
provavelmente é bom ter um parque para passear. Acho que também tem uma 
importância cultural devido ao Parque das Esculturas de Vigeland. Talvez, 
também por ser uma atração turística, ele acabe liberando alguns dos outros 
parques para os habitantes de Oslo, pois se tornam menos cheios de turistas. 
O Parque Frogner, sendo o local das Esculturas de Vigeland, acredito que um 
dos maiores parques de esculturas (criado por apenas um artista), seu 
significado cultural é enorme. A maioria dos noruegueses já o visitou em 
algum momento da vida, e Vigeland é um dos artistas mais famosos da 
Noruega, então é claro que todo mundo sabe disso. Eu diria que faz parte da 
Identidade Cultural Norueguesa. Além disso, no entanto, não acho que tenha 
um significado cultural maior do que qualquer outro parque.” 
 
2-“ As minhas impressões de Oslo são que não se precisa ter um carro para se 
locomover pela cidade. Basicamente tudo pode ser feito por transporte público, 
o que é muito bom. Isso é diferente, quando eu comparo com a vida que eu 
tinha em Minsk. Agora morando em Oslo, eu gosto muito da zona costeira da 
cidade e as ilhas, que são meus locais favoritos. Com relação aos espaços 
verdes, os parques são muito bons e tranquilos, quando preciso focar e me 
manter relaxada”. 
 
3- “Eles (os espaços verdes) ajudam a me deixar relaxado na cidade, além de 
sociável. Eu também amo árvores, elas são como amigas. E há patos nas lagoas 
para conversar, e pássaros… 
Numa cidade grande e densa sem bons espaços abertos, ou onde os únicos 
espaços “abertos” reais são as autoestradas e as rodovias, sinto-me um pouco 
sufocado – tão logo já quero sair.” 
192 
 
 
 
Com relação as mudanças das estações: 
“O inverno nos espaços verdes também pode ficar muito bonito, branco, se 
houver neve. Mas o clima está mudando, menos confiável, períodos quentes 
mesmo no meio do inverno, aquecimento global quase certo… Então, eu gosto 
mais deles no verão, quando eles são realmente verdes. Ainda assim, é bom 
passar por eles no inverno também. 
Nos dias ensolarados de inverno, pode haver muita gente andando, muitas 
crianças brincando na neve, fazendo tobogã… 
Os muitos espaços verdes de Oslo são por vezes descritos como “pérolas num 
fio”, ou seja, a maioria das pessoas tem acesso a um espaço verde muito perto 
de onde vive. 
Em contraste com algumas outras cidades, especialmente em países em 
desenvolvimento, aqui não há como invadir ou permitir o desenvolvimento de 
construções nas áreas verdes ou nas zonas florestais ao redor de Oslo. Eles 
estão muito em uso e, em alguns dos espaços verdes, novas atividades, como 
jardinagem urbana, também estão se tornando populares - parte da onda 
ambiental, eu acho. 
Em termos ambientais esses espaços são como sabemos muito importantes 
tanto para um ar mais limpo, como barreiras sonoras, para um microclima 
urbano saudável, para a biodiversidade e assim por diante, além de suas 
funções sociais e de lazer extremamente importantes – para a sustentabilidade 
da comunidade.” 
 
4- Eu passo por perto do Parque Frogner todos os dias na volta para casa. Eu 
fico surpresa de ver tantas pessoas frequentando o parque em todas as estações 
do ano. O inverno tem um pouco menos de gente, mas ainda assim já vi muitas 
crianças brincando por lá nessa época do ano. No verão há sempre pessoas 
fazendo piqueniques, grelhando salsichas... Eu acho inclusive que o Parque 
Frogner é um dos primeiros locais na cidade, em que as pessoas frequentam 
com mais assiduidade com a chegada da primavera. É um bom lugar para 
relaxar e curtir o retorno do sol. Também já vi alguns estudantes de ensino 
médio irem a esse parque para fazer confraternizações e dar início as férias 
escolares. É bom lembrar que o solstício de verão é uma data bastante 
comemorada por todo o país, e é marcada pelos dias mais longos do ano. Ainda 
às 22h pode-se andar pelo parque curtindo a claridade da luz solar. Isso 
influencia tanto no tempo de permanência das pessoas nas áreas livres da 
cidade, quanto na quantidade de gente nesses espaços. Também há muitas 
festas ao ar livre para celebrar o solstício! Faz parte da cultura dos países 
nórdicos. E as crianças adoram! Muitas meninas costumam colocar uma coroa 
de flores, colhidas por elas mesmas, encima da cabeça. Muitos adultos 
combinam encontros ao ar livre com os amigos, para curtir o sol. E a prefeitura 
organiza inúmeros eventos gratuitos nesses espaços abertos, como teatros, 
shows... O verão não é o momento em que os noruegueses queiram ficar tanto 
em casa. 
193 
 
 
 
 Principalmente agora na pandemia, eles não estão viajando muito para passar 
as férias em países como a Espanha ou Grécia, por exemplo. Isso também 
influencia na permanência deles dentro do próprio país, viajando para as 
cabanas (casas de campo das famílias nas montanhas) ou curtindo os espaços 
públicos das cidades. 
 As esculturas do Parque Frogner são uma atração à parte. Eu fico pensando 
que o parque é um bom local para se ter esse tipo de exposição artística 
permanente. Se as esculturas de Vigeland estivessem dentro de um museu, por 
exemplo, eu acho que não seria a mesma sensação.... Digamos que a natureza 
projetada neste parque e as esculturas formam um bom conjunto. 
5 - “O Parque Frogner tem um lugar único na história artística e cultural da 
Noruega e é uma espécie de ícone do país. Por isso, faz parte da “identidade” 
norueguesa. Pode-se lembrar que a Noruega era bastante pobre e rural, e só se 
tornou um país totalmente independente em 1905; não há tantas relíquias 
culturais muito antigas espalhadas pela Noruega (as igrejas de madeira, a 
catedral de Trondheim …) – e o projeto do Parque Frogner foi uma parte 
importante de uma era de construção da nação. Então, tem muito significado 
cultural.” 
 
6- “Eu moro em Storo. Tem muitos parques por perto e lugares onde você pode 
jogar futebol ou levar seus cães para passear. 
Quando penso no Parque Frogner tenho a sensação de liberdade, leveza, 
natureza e arte combinadas. É uma sensação boa. O Parque Frogner é um lugar 
importante para muitas pessoas fugirem da agitada vida urbana. As esculturas 
também são uma importante atração turística. É um lugar muito grande que 
oferece uma grande variedade de coisas para fazer. Infelizmente, não vou lá 
com a frequência que gostaria. 
A última vez que eu estive nesse parque, foi para mostrar o local para um 
turista japonês. Mas eu gostaria de ir lá dar uma olhada em todas as 
esculturas.” 
 
7- “O Parque Frogner é um lindo parque que reúne arte e natureza. Você pode 
ver famílias, amigos e pessoas lá curtindo a natureza e é um lugar público 
muito legal. Estive lá várias vezes com várias pessoas ou sozinha. A primeira 
vez que fui lá estava com meus amigos numa excursão, onde estávamos sendo 
apresentadosa diferentes locais culturais em Oslo. Depois disso, fiz minha 
corrida noturna lá algumas vezes, pois era perto de onde morava em Blindern 
(apenas 5 minutos de metrô). Eu também fui lá algumas vezes com meus 
amigos só para conversar e passear.” 
 
8- “Eu fui a esse parque algumas vezes, principalmente no verão, com o 
objetivo de ver as esculturas. Eu acho que é um local muito espaçoso, com 
194 
 
 
 
muitas áreas para fazer piqueniques e jogar freesbee. Em algumas idas minhas 
lá, eu sentei no gramado para ler um livro e fazer meu dever de casa da 
faculdade. Eu também curti tirar fotos de todas as plantas interessantes e flores 
bonitas que tem lá dentro... Eu também gostei de apenas ficar lá dentro vendo o 
tempo passar, pintando e observando as outras pessoas! Quando eu penso no 
Parque Frogner, eu me sinto relaxada. Lembro da sensação do meu pé descalço 
na grama e dos raios de sol no meu rosto. 
Eu acho que esse parque tem uma função ecológica na cidade, porque ele 
oferece espaço para o desenvolvimento das plantas, além de ser o habitat de 
vários animais. Ele também oferece espaço para fazermos exercício físico, 
relaxar e passar um tempo com familiares e amigos. Ótimo para piqueniques e 
pequenas aventuras. 
 O parque também é um local na cidade, onde tem muitos turistas e moradores 
de Oslo ao mesmo tempo. Isso é diferente quando a gente pensa nos parques 
menos conhecidos, que só tem pessoas daqui.” 
Entrevistas realizadas por meio virtuais em 2020. Respostas em inglês, 
tradução livre da autora. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
195 
 
 
 
ANEXO 3: TRANSCRIÇÃO, COM TRADUÇÃO LIVRE EM PORTUGUÊS, DA 
ENTREVISTA REALIZADA COM A URBANISTA NORUEGUESA ELLEN DE VIBE, 
EM 2020 
 
1- Como foi liderar a agência e lidar com projetos profissionais de longo prazo e as 
decisões políticas na prefeitura? 
Resposta: É importante focar nos projetos profissionais de longo prazo e ter uma voz 
profissional clara internamente na organização da autoridade local, mas também 
externamente. Ao mesmo tempo, é importante ouvir atentamente os sinais dados pelos nossos 
órgãos de comissão política (por exemplo, nosso vice-prefeito para o desenvolvimento urbano 
a quem me reportei diretamente). E para ajudá-los a definir desde cedo uma boa agenda para o 
debate geral sobre desenvolvimento urbano. Nosso trabalho como administração foi propor 
desafios e estratégias relevantes para o avanço dos processos políticos, à luz dos objetivos 
políticos e políticas públicas. 
2- Que tipo de mudanças políticas você viu em Oslo durante seus anos de trabalho? E 
como isso afetou o planejamento urbano e ambiental da cidade? 
Resposta: Passamos de uma prática de processamento de projetos de construção individuais 
para focar mais no planejamento da estrutura e nas normas e diretrizes de qualidade. Do foco 
em edifícios individuais às redes de ruas, espaços públicos e estruturas verdes/azuis. Por 
exemplo, fizemos planos de estrutura para o Cinturão Verde (Marka) e vários dos 10 rios da 
cidade. Nos últimos 5-10 anos, a ênfase na adaptação ao clima, tratamento de águas 
superficiais e emissão de CO2 teve um foco fortemente aumentado. 
3- Qual a importância de ter parques públicos disponíveis em Oslo? Como os parques 
ainda são relevantes? 
Resposta: Oslo tem uma densidade de cerca de ¼ de Copenhague e 1/10 de Paris e, como tal, 
é uma cidade bastante verde. A Noruega não tem uma longa história de urbanismo, e nossos 
habitantes geralmente têm uma relação muito próxima com a natureza. Muitas pessoas 
anseiam pelo cinturão verde ou vão para suas segundas residências nas montanhas (temos 
cerca de 450.000 segundas residências!) durante as férias ou folga do trabalho. Assim, os 
espaços verdes públicos são muito importantes; eles são usados regularmente na vida 
cotidiana, e estar ao ar livre é típico independente do clima. Por exemplo; as crianças que 
ficam em creches/berçários durante a semana dormem ao meio-dia em seus carrinhos do lado 
de fora, mesmo com temperaturas abaixo de 10-15 graus centígrados. - Além disso; quanto 
mais denso construímos, mais importante se torna o espaço público. Há 11 anos, a Câmara 
Municipal aprovou um plano de estrutura (Kommunedelplan para torg og møteplasser) que 
exige 1000m2 de espaço público por 20000m2 de área construída. Este é um requisito que 
vem além do requisito para espaços comuns/privados dentro de um projeto de 
desenvolvimento individual (de 0-20% do espaço, dependendo da variação de densidade e 
tipologias de construção). 
4- Como você vê as ideias e esforços de Marius Røhne como o primeiro arquiteto 
paisagista de destaque na Noruega? Qual é a sua opinião sobre as políticas do sistema de 
parques durante o século XX? 
Resposta: Marius Røhne teve um papel excepcionalmente importante na introdução da 
arquitetura paisagista como profissão nas políticas governamentais federais e locais. Harald 
196 
 
 
 
Hals (planejador-chefe da cidade no mesmo período) e Røhne influenciaram um ao outro, 
respectivamente, de maneiras que ainda são legíveis nos planos de estrutura de Oslo (por 
exemplo, no plano de estrutura do Parque de 1949 e no plano de desenvolvimento 
Compehensive de hoje). Røhne tinha uma abordagem de design interessante a meio caminho 
entre o formalismo clássico e o modernismo. Ele também se concentrou em espaços comuns e 
públicos fora dos parques maiores, como importantes locais de encontro social. Isto foi 
seguido no plano «KDP torg og møteplass», onde os programas de ação foram desenvolvidos 
em conjunto com as ONGs locais e os distritos distritais. 
5-Qual foi a mudança mais significativa em Oslo após a nomeação da cidade como 
Capital Verde Europeia 2019? 
Resposta: Acho que a razão pela qual Oslo foi nomeada Capital Verde Europeia em 2019 foi 
devido ao que havíamos realizado antes e planejamos realizar após o ano da Capital Verde. 
Recebemos o prêmio pelo que faríamos de qualquer maneira. A mudança mais notável 
relacionada a esse prêmio talvez tenha sido que a implementação do programa The Car free 
Livability Program aconteceu mais rápido do que teria acontecido de outra forma. O CityHive 
(centro de inovação para a mudança verde destinada a mobilizar ONGs e o público em geral) 
também foi estabelecido rapidamente antes daquele ano. 
6- Há quanto tempo você mora em Oslo (e onde)? Você tem um lugar público favorito 
na cidade? Se sim, qual e por quê? 
Resposta: Moramos em Oslo há 22 anos e sempre moramos nas partes centrais da cidade, 
anteriormente adjacentes ao parque St. Hanshaugen. Atualmente, meu marido e eu moramos 
no Parque Marienlyst, ao lado da sede da NRK, próximo ao parque linear verde Harald Hals 
(e Røhne?) em Blindern. Frequentemente usamos o Frognerparken, principalmente para 
caminhadas rápidas e saudáveis, mas também para caminhadas mais lentas e sessões de 
brincadeiras com os nossos netos. Acho que meu espaço público favorito é o calçadão do 
porto (que nossa Agência de Serviços de Planejamento e Construção permitiu a criação) e o 
banho de mar (Sjøbadet) em Sørenga, que se tornou muito popular tanto para os habitantes 
quanto para os visitantes da cidade. Eu gosto do lugar porque deu a Oslo uma arena recreativa 
completamente nova, acessível a todos. E a interface entre o mar e a cidade é importante. No 
futuro, acho que essa interface e a biologia marinha serão ainda mais importantes. 
(grifo meu) 
 7- Como você se sente com a enorme presença de espaços verdes em Oslo? 
Resposta: Espero que Oslo consiga manter seu caráter verde no futuro, mas as áreas 
construídas provavelmente se tornarão mais densamente desenvolvidas. 
8- Qual a importância do Parque Frogner para a estrutura urbana da cidade? 
Resposta: A combinação do parque e das esculturas de Vigeland deu ao parque um caráter 
diferente e marcante que o torna muito popular tanto para os visitantes quanto para o público 
em geral. O parque também faz parte

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