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ISSN 1413-9928 (versão impressa) UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE ENGENHARIA DE SÃO CARLOS DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA DE ESTRUTURAS 2002 EESSTTRRUUTTUURRAASS MMEETTÁÁLLIICCAASS Departamento de Engenharia de Estruturas Escola de Engenharia de São Carlos – USP Av. do Trabalhador Sãocarlense, 400 – Centro 13566-590 – São Carlos – SP Fone (16) 273-9455 Fax (16) 273-9482 http://www.set.eesc.sc.usp.br ISSN 1413-9928 (versão impressa) SSUUMMÁÁRRIIOO Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite 1 Critérios de dimensionamento de tremonhas piramidais para silos metálicos elevados Ernani Carlos de Araújo & Carlito Calil Junior 33 Contribuição ao estudo das estruturas metálicas espaciais Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves 43 Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades estampadas: estudo dos nós Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves 75 Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras com extremidades estampadas Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite 105 Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de Indústria e Comércio – Rio de Janeiro Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato 127 Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves 149 Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 ANÁLISE DA SEGURANÇA NO PROJETO DE ESTRUTURAS: MÉTODO DOS ESTADOS LIMITES Leila A. de Castro Motta1 & Maximiliano Malite2 R e s u m o Este trabalho aborda a introdução da segurança baseada em métodos probabilísticos, aplicados nos cálculos em estados limites, apresentando informações com o objetivo de esclarecer o meio técnico em geral a respeito dos fundamentos teóricos e das vantagens que tal método apresenta frente ao tradicional método das tensões admissíveis. Apresenta-se ainda alguns exemplos de cálculo, mostrando a determinação do índice de confiabilidade e dos coeficientes adotados no método dos estados limites, os quais são calibrados em relação aos tradicionais coeficientes de segurança do método das tensões admissíveis. Palavras-chave: Estruturas; estruturas de aço; segurança; confiabilidade; estados limites. 1 INTRODUÇÃO 1.1 Avanços na engenharia estrutural A década de 90 do século dezenove foi um período de progressos na construção de edifícios de aço, com o amadurecimento de muitos sistemas estruturais, métodos de cálculo e tecnologia, por exemplo, tecnologia de solda, construção composta aço-concreto, cálculo de estruturas sismo-resistentes, pontes estaiadas, edifícios altos, estruturas de concreto de alta resistência, e muito mais. Estes avanços na construção de edifícios, é claro, não ocorrem isoladamente. Desenvolvimentos paralelos na ciência dos materiais, mecânica aplicada, metalurgia, matemática, ciências da computação, química, física, e em muitos outros campos fizeram do século vinte talvez o mais excitante para todos os cientistas e engenheiros. As forças estimulantes destas mudanças são muitas e é importante destacar que o aparecimento e evolução das normas técnicas direcionaram a construção civil, estabelecendo “regras” a serem cumpridas pelos projetistas e construtores. Buscou-se entender bem a resistência última das estruturas sob carregamentos estáticos e dinâmicos. Este entendimento foi então aplicado na prática de uma forma direta para um projeto específico ou em normas de cálculo. O crescimento da pesquisa em comportamento não linear de estruturas, em análise computacional, projeto ótimo (otimização), análise e cálculo probabilístico também se mostrou intenso. Em particular, a pesquisa na aplicação de métodos 1 Profa. da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Federal de Uberlândia, lacastro@ufu.br 2 Prof. Doutor do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, mamalite@sc.usp.br Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 2 estocásticos tem representado, no tema segurança estrutural, um dos mais proveitosos esforços de pesquisa dos últimos quarenta anos. Esta foi, certamente, uma época de ouro da pesquisa em projeto e construção de edifícios. Os grandes avanços em normas durante os últimos 40 anos foram: - a ênfase no controle e garantia de qualidade no escritório de cálculo, na fábrica e na obra; - a emergência de métodos de introdução da segurança baseados em probabilidade; - a mudança do método de introdução da segurança, de tensões admissíveis para estados limites; - a progressiva internacionalização do processo de elaboração de normas, como por exemplo, os códigos europeus (EUROCODE). O papel das normas de cálculo é garantir a segurança de todas as estruturas construídas sob sua jurisdição. A função do calculista é então criar uma estrutura que atenda às exigências mínimas das normas para a segurança e que seja ao mesmo tempo prática e econômica. É necessário que a norma dê atenção à praticidade e à economia, mas sua principal função é a garantia da segurança. A segurança estrutural pode ser definida pelas duas declarações seguintes: - não haver colapso ou outra má função estrutural durante a construção; - não haver danos sérios à estrutura ou seus componentes, nem provocar qualquer trauma físico ou psicológico para seus ocupantes durante a vida útil da estrutura, como um resultado de eventos extraordinários que podem ser esperados para ocorrer em intervalos raros; Calculistas estruturais, guiados pelas normas de cálculo e por sua perícia e experiência, são cobrados pela sociedade para assegurar tais condições de segurança. 1.2 Segurança estrutural Projetos sempre foram realizados sob condições de incertezas quanto às ações e resistência e, as estruturas sempre foram projetadas para resistir a ações maiores do que as realmente esperadas. Historicamente havia dois métodos básicos de se impor esta condição de resistência maior do que as solicitações: (1) Projeto em ações últimas, em que a ação total é majorada por um coeficiente de segurança e o projetista demonstra que a estrutura ou elemento estrutural considerado pode suportar esta ação majorada. Simbolicamente, isto pode ser expresso por: RSS ≤γ (1) onde: γS é um coeficiente de segurança aplicado ao carregamento S é o carregamento (ações ou solicitações) na estrutura R é a resistência da estrutura (2) Projeto em tensões admissíveis, em que a tensão do material é limitada por alguma fração de sua tensão de falha e o projetista demonstra que, sob o carregamento esperado ou especificado, a tensão alcançada não excede o valor admissível. Isto tem sido expresso simbolicamente por: Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 3 mRS γ≤ (2) onde: γm é um coeficiente de segurança aplicado à tensão última do material A equação 1 poderia tratar com diferentes níveis de incerteza das várias ações atuantes na estrutura, aplicando-se coeficientes distintos a cada uma destas ações. Analogamente a equação 2 pode representar também o caso onde dois ou mais materiais diferentes são utilizados, como por exemplo o concreto armado, aplicando coeficientes diferentes nas tensões últimas do aço e concreto, de acordo com o grau de incerteza associado a cada resistência respectivamente. Do argumento anterior percebe-se um passo óbvio para combinarestas duas aproximações para introdução da segurança nas estruturas, que seria a introdução de coeficientes de segurança separados em cada tipo de ação e em cada material usado, sendo esta a aproximação adotada pelo novo método de introdução da segurança que surgiria, o cálculo em estados limites. Além disto, já se havia percebido também a possibilidade de se quantificar probabilisticamente algumas das incertezas associadas a um projeto estrutural. Vale comentar que o conceito de que uma aproximação probabilística poderia fornecer uma forma razoável para definir os coeficientes de segurança não era novo quando o método dos coeficientes parciais de segurança foi criado e, foi somente natural que a possibilidade de definir estes coeficientes por meios estatísticos deveria ser considerada. É importante ressaltar ainda que o método dos coeficientes parciais é a ferramenta utilizada para a aplicação do princípio dos estados limites, ou seja, os estados limites de cada projeto específico são verificados com a aplicação de coeficientes de cálculo individuais a cada variável do problema (coeficientes parciais). As duas maiores causas de mau funcionamento estrutural são aquelas quantificáveis por teoria probabilística racional e aquelas devidas a causas irracionais. Solicitação S Resistência R Probabilidade de Falha = P (R<S) Densidade de Probabilidade Figura 1- Funções de distribuição das solicitações e resistência As causas quantificáveis são as coincidências de resistência excepcionalmente baixa e solicitações excepcionalmente altas (figura 1). Estes são os domínios de normas de cálculo estrutural, e eles afetam os valores dos coeficientes que fornecem as margens de segurança, por exemplo fatores de segurança, coeficientes de ponderação das ações, coeficientes de resistência, etc. Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 4 As causas irracionais de falha são relacionadas a erro humano. Embora tenha havido vários esforços para quantificar alguns aspectos do erro humano, as principais formas de evitar tal erro são: controle de qualidade no escritório de cálculo e local de construção, educação, desincentivos aos erros (leis e punições), e apontamento de honestidade e integridade de todos os participantes do processo. A maioria das falhas de estruturas são causadas por erro humano e a fuga de tais erros é uma importante atividade dentro do processo de construção. 1.3 A evolução das normas de cálculo A evolução esquemática das normas de cálculo é ilustrada na figura 2, onde o peso da estrutura, refletindo um aspecto do custo da construção, é plotado versus o tempo. Quando uma certa estrutura é usada pela primeira vez, ela em geral resulta pesada, pois há falta de experiência e confiança. Se experiências bem sucedidas são conseguidas, os calculistas ficam mais confiantes e o peso tende a cair. Esta tendência às vezes continua até ocorrer uma falha, em reação, as exigências de peso aumentam novamente, muitas vezes mais do que o necessário. O peso eventualmente decresce gradualmente até que um nível de cálculo satisfatório, testado com o tempo, seja alcançado. O processo descrito pelo esquema da figura 2 é lento, caro e algumas vezes até mesmo trágico. Muitas das pesquisas em cálculo probabilístico têm-se focalizado no alívio destas demoras e no desenvolvimento de esquemas de calibração de normas que permitam evolução mais rápida de otimização. desempenho testado com o tempo Tempo desastre Primeiras Utilizações Peso da Estrutura satisfatoriamente Figura 2 - Evolução do peso de uma estrutura ao longo do tempo À partir de 1960 duas correntes poderosas de mudança no cálculo estrutural começaram a se fazer sentir: a emergência de cálculo em estados limites e a idéia de que os parâmetros de cálculo podem ser racionalmente quantificados através da teoria de probabilidade. 1.4 A emergência de cálculo em estados limites O método de cálculo estrutural tradicional que dominou a maioria do século vinte foi o método de cálculo em tensões admissíveis. Ele teve origem na metade do século anterior quando os princípios de métodos viáveis de análise linear elástica foram formulados, o que levou convenientemente ao cálculo de tensões. No método das tensões admissíveis a estrutura é investigada sob ações de trabalho (nominais), impondo-se que uma tensão admissível não seja excedida. As Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 5 ações de trabalho são as máximas ações esperadas para o tempo de vida útil da estrutura. As tensões resultantes são calculadas admitindo comportamento elástico e linear. A tensão admissível é uma fração de alguma tensão limitante, tal como a tensão de escoamento ou a tensão crítica de flambagem. A relação da tensão limitante para a tensão admissível é denominada fator de segurança. Este fator prevê a possibilidade de ocorrência de valores desfavoráveis das ações e propriedades dos materiais, assim como as incertezas do modelo teórico. Os valores dos fatores de segurança representam o juízo e experiência coletiva da atividade do cálculo estrutural. O cálculo em tensões admissíveis é um método de cálculo muito atrativo, é fácil de usar do ponto de vista computacional e é de fácil compreensão. O calculista verifica que a estrutura é segura sob ações que são fixadas em valores altos, usando uma tensão admissível substancialmente abaixo de um valor limitante. O método assegura que sob condições extremas de carregamento, que podem ser verificadas facilmente, a estrutura responde elasticamente. Não há problemas com a presença de múltiplas ações, podendo haver a superposição de efeitos. Assegurando a não superação de uma tensão admissível elástica, a maioria dos problemas de utilização são também levados em conta automaticamente. Se tem-se um método tão prático, por que a mudança? Inicialmente, o método de cálculo em tensões admissíveis dá pouca informação sobre a capacidade real da estrutura. Para diferentes tipos de estruturas, a relação da ação limite baseada em tensões admissíveis para a resistência última é até certo ponto variável. Isto é especialmente verdade para estruturas indeterminadas estaticamente. Para muitas estruturas (por exemplo estruturas de concreto armado), a suposição de linearidade entre tensões e deformações, esforços e ações, não é muito realista até mesmo sob níveis de ação de trabalho. No começo deste século, ficou também evidente para muitos engenheiros, que o método de tensões admissíveis não foi uma ferramenta de cálculo muito econômica. Isto levou ao desenvolvimento de métodos de cálculo plástico para estruturas de aço no período de 1940 a 1950. Outros pesquisadores começaram a perceber a possibilidade de quantificar os juízos e incertezas que são a base dos fatores de segurança, usando teoria de probabilidade. Fora destas várias raízes tais como, teoria de probabilidade, de plasticidade e pesquisa extensa do comportamento de resistência última de vários tipos de estruturas e conexões, surgiu a primeira geração de normas de cálculo baseadas na capacidade última e, eventualmente, conhecidas como normas de cálculo em estados limites. 1.5 Normas de cálculo em estados limites baseadas em probabilidade No início dos anos 60, haviam duas normas de cálculo em estados limites nos Estados Unidos. Em outros países, especialmente no leste da Europa, normas semelhantes estavam em uso cerca de 10 a 15 anos antes. Mais normas surgiram nos anos posteriores, e estas normas formaram a primeira geração de normas de cálculo em estados limites, e foram colocadas em uso por volta de 1990 na maioria dos países. As linhas comuns entre todas elas são: (1) modelos teóricos para avaliação da capacidade de elementos estruturais baseados em pesquisas recentes; (2)os fatores que consideram as incertezas das variáveis ação e resistência são determinados por juízo (opinião) e calibração com as normas correspondentes em tensões admissíveis. Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 6 A idéia de que as variáveis ação e resistência são quantidades aleatórias tem sido sempre aceita pelos engenheiros estruturais, e é a base para a aceitação filosófica do conceito de fatores de segurança. Como foi difícil usar os preceitos probabilísticos explicitamente, estes foram aplicados implicitamente através do juízo coletivo dos engenheiros construtores e calculistas quando escolheram os fatores de segurança aplicáveis. Quanto maior a incerteza suposta da ação ou resistência, maior o fator de segurança. Os fatores de segurança flutuam acima ou abaixo, dependendo da experiência de insucesso ou sucesso. Dado o tempo suficiente, experiência e juízo produzirão estruturas aceitáveis que são, em média ou na maioria das vezes, seguras e econômicas. De alguma forma nos tempos modernos este processo empírico é julgado não totalmente satisfatório: ele leva muito tempo para adquirir a experiência para os esquemas estruturais novos. Para fazer a verificação da segurança de maneira mais científica, métodos estatísticos e conceitos probabilísticos são mais convenientes. A idéia de que esta aproximação forneceria ferramentas de cálculo práticas foi adiantada nos anos de 1920 a 1930. Bolotin referiu-se a um livro alemão de 1926 por M. Maier, e a uma série de publicações russas, que afirmavam que a teoria de probabilidade poderia ser usada em cálculo estrutural. Murzewiki afirmou que W. Wierzbicki (Polônia, 1936) e N. S. Streleckij (URSS, 1935) foram os propositores dos conceitos probabilísticos de segurança. Pouco depois do fim da segunda guerra mundial em 1945, os métodos de cálculo em estados limites com fatores múltiplos de ação, que eram baseados em teoria de probabilidade, começaram a aparecer na URSS e no leste europeu. No oeste, os dois maiores defensores (proponentes) da aproximação probabilística na era imediata pós-guerra foram Pugsley e Freudenthal. O comitê de Pugsley apresentou à Instituição Britânica de Engenheiros Estruturais, em 1955, recomendações que incluíam uma série de coeficientes de ponderação das ações e combinações de ação que foram obtidos por consenso (opinião) de um conjunto de peritos. O uso de probabilidade foi feito somente de maneira indireta e subjetiva. O trabalho de Pugsley foi o precursor da primeira geração de normas de cálculo em estados limites. A estrutura prática de criar normas baseadas em probabilidade foi desenvolvida nos anos 60 com os “Métodos de Confiabilidade de Primeira Ordem” (FORM) por E. Basler, Benjamin, Cornell, Lind, Ang e outros. No começo dos anos 70, ferramentas estavam disponíveis para desenvolver realmente uma norma de cálculo baseada em probabilidade e, a aproximação básica adotada era considerar as propriedades estatísticas das variáveis envolvidas. Duas linhas de trabalho probabilístico podem ser identificadas: (a) desenvolvimento de métodos de cálculo completamente probabilístico; (b) calibração de coeficientes parciais por meios probabilísticos. Esta última é a linha de maior interesse deste trabalho e é também a linha com maior aplicação para as normas técnicas de cálculo desenvolvidas até então. 1.6 As normas em estados limites Estão listados a seguir os conceitos fundamentais, suposições e metodologias básicas das normas de cálculo em estados limites de segunda geração: (1) O formato do critério de cálculo é mostrado na equação 3: ele usa a capacidade última nominal Rn, que é reduzida pelo coeficiente de Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 7 resistência φ , e as ações especificadas em normas, que são ampliadas pelos coeficientes de ponderação γ . O coeficiente de resistência φ geralmente modifica a expressão toda para Rn, mas em algumas normas de cálculo em estados limites estes coeficientes podem atuar nos componentes individuais da expressão para Rn. (2) As especificações em estados limites reconhecem que as ações, os efeitos das ações e as resistências são todas quantidades aleatórias cujos valores reais são conhecidos somente através da distribuição de probabilidade das quantidades aleatórias individuais que constituem suas partes componentes. É feito o uso de métodos de confiabilidade de primeira ordem ou métodos de confiabilidade de segunda ordem onde estes forem apropriados, para desenvolver os coeficientes de resistência φ , dando confiabilidades aproximadamente uniformes em todo o domínio de cálculo. (3) Os índices de confiabilidade são calibrados para resultar aproximadamente iguais àqueles das especificações anteriores. (4) Para evitar excessivas complicações no cálculo, o número de coeficientes de resistência diferentes é conservado relativamente pequeno. (5) Os coeficientes de ponderação das ações, as ações propriamente ditas e combinações destas devem ser indicadas em normas de ações e segurança para serem utilizadas nos cálculos com as novas normas em estados limites. (6) Os critérios de cálculo são baseados nos estados limites alcançados pelos elementos estruturais (uma viga, pilar, solda individual, parafuso, metal base ou ligação) ou pela estrutura como um todo (plastificação, por exemplo). Ligações (parafusos ou soldas) geralmente têm um maior índice de confiabilidade do que as barras, para forçar a falha na barra e não na ligação. (7) Não é feita distinção quanto às conseqüências de falha. Não há qualquer consideração explícita dada à estrutura como um sistema composto de barras e ligações. φ γi ni j njR Q≥ ∑ (3) ↓ ↓ para i estados limite para j combinações de ações onde: φ é o coeficiente de resistência Rn é a resistência nominal γ é o coeficiente de ponderação das ações Qn é o efeito da ação nominal Fez-se necessário também o desenvolvimento de um conjunto de coeficientes de ponderação das ações mais consistentes com o novo método de cálculo e que pudessem dar à nova geração de normas de cálculo uma base mais ampla, sendo estes coeficientes aplicáveis em estruturas de edifícios feitas de todos os materiais, por exemplo, aço, aço conformado a frio, alumínio, concreto armado e protendido, madeira, alvenaria, etc. As premissas básicas deste trabalho, que resultaria nas normas de ações e segurança, foram as seguintes: Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 8 (1) Os coeficientes de ponderação das ações foram desenvolvidos usando FORM ou SORM por calibração para casos padrões de estruturas determinadas estaticamente, calculadas pelas então correntes especificações estruturais para aço, concreto armado e protendido, madeira, alumínio e estruturas de alvenaria, buscando um produto final com aproximadamente a mesma confiabilidade. (2) Os coeficientes de cálculo foram desenvolvidos para um tempo de vida útil de 50 anos. (3) As combinações de ações obedecem à regra que quando mais de uma ação variável, isto é, sobrecarga de utilização, ações do vento, neve, água ou terremoto, atuam na estrutura, então somente uma destas toma o seu valor máximo e as outras assumem seus valores reduzidos. Estas ações variáveis são então alternadas para fornecer a combinação crítica para o calculista. O esquema é ilustrado pela equação 4. γ γ γD D i ni j njQ Q Q+ + ∑ (4) onde: γ i é o coeficiente de ponderação das ações para o máximo valor previsto da ação durante a vida útil da estrutura. γ j é o coeficiente de ponderação das ações para a ação variável reduzida ou arbitrada em um certo tempo. Em resumo, os aspectos de confiabilidade das normas mais recentespodem ser declarados como segue: são especificações de cálculo em estados limites em conteúdo e formato; seus estados limites aplicam-se aos elementos ou estrutura como um todo; os coeficientes de ponderação das ações e os coeficientes de resistência são calibrados para dar aproximadamente as mesmas confiabilidades inerentes às especificações anteriores, testadas na época para elementos estruturais padrões; e métodos probabilísticos (FORM, SORM) e juízos foram usados em seu desenvolvimento. 2 CONFIABILIDADE DE SISTEMAS DE ENGENHARIA 2.1 Introdução Um dos principais objetivos do cálculo estrutural na engenharia é assegurar o desempenho satisfatório das estruturas com o máximo de economia possível. Certamente a garantia de desempenho, incluindo a segurança, é primeiramente (se não unicamente) responsabilidade de engenheiros. Atingir este objetivo, entretanto, geralmente não é um problema simples, particularmente pelo grande número de sistemas estruturais existentes. Sistemas estruturais podem falhar ao desempenhar suas funções para as quais foram projetados, pois o risco está geralmente implícito nestes sistemas. No caso de uma estrutura, sua segurança é, claramente, uma função da máxima ação (ou combinação de ações) que lhe pode ser imposta durante seu tempo de vida útil e dependerá também da resistência ou capacidade desta estrutura ou seus componentes, de suportar estas ações. Como a máxima ação da vida útil de Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 9 uma estrutura e sua capacidade real são difíceis de serem previstas exatamente, e qualquer previsão está sujeita a incertezas, a garantia absoluta da segurança de uma estrutura é impossível. Na realidade, segurança (ou desempenho) podem ser garantidos somente em termos da probabilidade de que a resistência disponível (ou capacidade estrutural) será suficiente para resistir à máxima ação ou combinação de ações que poderá ocorrer durante a vida útil da estrutura. 2.2 Análise e verificação de confiabilidade 2.2.1 Problema básico Problemas de confiabilidade em engenharia podem ser definidos como a determinação da capacidade de um sistema que atenda a determinadas condições (exigências). Na consideração da segurança de uma estrutura, a preocupação é assegurar que a resistência da estrutura seja suficiente para suportar a atuação da máxima ação ou combinação de ações durante a sua vida útil. Na realidade, a determinação da resistência disponível bem como da máxima solicitação da estrutura não são problemas simples. Estimativas e previsões são sempre necessárias para estes tipos de problemas, incertezas são inevitáveis pela simples razão de que as informações relativas aos problemas de engenharia são invariavelmente incompletas. Diante de tais incertezas, a resistência disponível e a solicitação real não podem ser determinadas precisamente, elas podem ser descritas como pertencentes a determinados intervalos, podendo ser modeladas como variáveis aleatórias. Nestes termos, portanto, a confiabilidade de um sistema pode ser mais realisticamente medida em termos de probabilidade. Para esta proposta, definem-se as seguintes variáveis aleatórias: X = resistência Y = solicitação O objetivo da análise de confiabilidade é assegurar o evento ( )X Y> durante toda a vida útil da estrutura. Esta garantia é possível somente em termos da probabilidade ( )P X Y> . Esta probabilidade, portanto, representa a medida realista da confiabilidade do sistema (da estrutura); a probabilidade do evento complementar ( )X Y< é a correspondente medida da não confiabilidade. Assumindo no momento, que as distribuições de probabilidade necessárias de X e Y são disponíveis, isto é, ( )F xX ou ( )f X x e ( )F yY ou ( )f Y y são conhecidas. Se as variáveis X e Y são contínuas e não correlacionadas, as probabilidades desejadas podem então ser formuladas como segue: ( ) ( )p F y yF X= ∞ ∫ f Y dy 0 ou ( )[ ] ( )p F x xF Y= − ∞ ∫ 1 0 f X dx (5) A equação 4 pode ser interpretada graficamente pela figura 3. A correspondente probabilidade de bom desempenho, portanto, é: pS = 1 - pF (6) Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 10 Como interpretado graficamente na figura 3, a sobreposição das curvas ( )f X x e ( )f Y y representa uma medida da probabilidade de falha pF (CASTRO, 1997). Com isto, observa-se o seguinte: (1) A região sobreposta depende das posições relativas de ( )f X x e ( )f Y y , como pode ser visto na figura 4a; quando as duas curvas ficam mais afastadas, pF diminui, ao passo que pF aumenta quando as curvas ( )f X x e ( )f Y y ficam mais próximas. A posição relativa entre ( )f X x e ( )f Y y pode ser medida pela relação µ µX Y/ , que pode ser chamada de “fator de segurança central” ou pela diferença ( )µ µX Y− que é a “margem de segurança” média. (2) A região sobreposta também depende do grau de dispersão de ( )f X x e ( )f Y y , como mostra a figura 4b, comparando a sobreposição das curvas de linhas pretas com a das curvas de linhas coloridas. Estas dispersões podem ser expressas em termos dos coeficientes de variação δX e δY. x ou y Área = FX(y) y fY(y) fX(x) Figura 3 - Funções densidade de probabilidade ( )f X x e ( )f Y y µY µX2 µX1 x ou y fY(y) fx1(x) fx2(x) Figura 4a - Efeito da posição relativa entre ( )f X x e ( )f Y y em pF Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 11 Em resumo: ( )p gF X Y X Y≅ µ µ δ δ/ ; , Portanto, qualquer medida de segurança confiável deve ser uma função da posição relativa de ( )f X x e ( )f Y y , bem como do grau de dispersão destas curvas. Na equação 5 é assumido que X e Y são variáveis aleatórias não correlacionadas. Em geral, entretanto, estas variáveis podem ser correlacionadas e, para tais casos, a probabilidade de falha pode ser expressa em termos da função densidade de probabilidade conjunta como segue: ( ) dydxy,xp 0 y 0 YX,F ∫ ∫ ∞ = f (7) ao passo que a confiabilidade correspondente é: ( ) dxdyy,xp 0 x 0 YX,S ∫ ∫ ∞ = f (8) x ou yµY µX fY(y) fX(x) Figura 4b - Efeito das dispersões de ( )f X x e ( )f Y y em pF 2.2.2 Formulação de segundo momento O cálculo da probabilidade de segurança ou probabilidade de falha, requer o conhecimento das funções densidade ( )f X x e ( )f Y y , ou da função densidade conjunta ( )f X,Y x,y . Mas, mesmo quando as distribuições requeridas podem ser especificadas, o cálculo exato das probabilidades exigindo uma integração numérica das equações 5 a 8 pode ser impraticável. Como uma alternativa prática, pode-se recorrer a aproximações para as distribuições normais equivalentes. Freqüentemente as informações ou dados disponíveis podem ser suficientes apenas para estimar os primeiros e segundos momentos; isto é, os valores médios e as variâncias das respectivas variáveis aleatórias e, talvez as covariâncias entre pares de variáveis. Medidas práticas de segurança e confiabilidade, portanto, devem ser limitadas a funções destes primeiros momentos. Sob esta condição, a implementação de conceitos de confiabilidade deve, necessariamente, ser limitada à formulação Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 12 baseada nos primeiros e segundos momentos das variáveis aleatórias, ou seja, restrita à formulação de segundo momento. Pode ser enfatizado que a aproximação de segundo momento é consistente também com a representação normal equivalente de distribuições não normais. Com a aproximação de segundo momento, a confiabilidade pode ser inteiramente medida como uma funçãodos primeiros e segundos momentos das variáveis de cálculo através do índice de confiabilidade β, que é definido como função destes primeiros momentos e equivalente a uma distância predeterminada da situação de falha. 2.2.2.1 Generalização A confiabilidade de um sistema de engenharia pode envolver variáveis múltiplas. Em particular, a resistência e a solicitação podem ser, respectivamente, funções de várias outras variáveis. Para tais casos, o problema resistência-solicitação do item 2.2.1 pode ser generalizado. Esta generalização é freqüentemente necessária em engenharia, particularmente quando o problema deve ser formulado em termos das variáveis básicas de cálculo. Num sentido mais amplo, a confiabilidade de um sistema de engenharia pode ser definida como a probabilidade que o mesmo apresenta de desempenhar suas funções ou missões pretendidas. O nível de desempenho de um sistema, obviamente dependerá das propriedades deste sistema. Neste contexto e para a proposta de uma formulação geral, define-se uma função desempenho ou função estado: g(X) = g(X1, X2, …, Xn) (9) onde X = (X1, X2, …, Xn) é um vetor de variáveis de cálculo básicas do sistema. A exigência de desempenho limitante pode ser definida como g( ) = 0X , que é o chamado estado limite do sistema. Segue, portanto, que: [g(X) > 0] = “estado seguro” e [g(X) < 0] = “estado de falha” Geometricamente, a equação estado limite, ( ) 0g =X , é uma superfície n- dimensional que pode ser chamada de “superfície de falha”. De um lado da superfície de falha está o estado seguro, g( ) > 0X , ao passo que do outro lado está o estado de falha, g( ) < 0X . 2.2.2.2 Variáveis não correlacionadas Introduzindo-se o conjunto de variáveis reduzidas não correlacionadas (FREUDENTHAL, 1956): X X i i X X i i ' = − µ σ ; i = 1, 2, …, n (10) obviamente, o estado seguro e o estado de falha podem também ser interpretados no espaço reduzido das variáveis acima, separados pela equação estado limite apropriada. No caso de duas variáveis, esta deverá ser como mostrado na figura 5. Em termos das variáveis reduzidas, X’i, a equação estado limite será: Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 13 ( )g X XX X X n Xi n nσ µ σ µ1 1 0' , , '+ + =K (11) Pode-se observar na figura 5 que quando a superfície estado limite (ou superfície de falha), 0=)g(X , se afasta ou se aproxima da origem, a região segura, g( ) > 0X , aumenta ou diminui. Portanto, a posição da superfície de falha em relação à origem das variáveis reduzidas, determinará a segurança ou a confiabilidade do sistema. A posição da superfície de falha pode ser representada pela distância mínima da superfície g( ) = 0X à origem das variáveis reduzidas; de fato, SHINOZUKA (1983) mostrou que o ponto na superfície de falha com mínima distância da origem é o ponto mais provável de falha. Assim, com algum sentido aproximado, esta distância mínima pode ser usada como uma medida de confiabilidade. 0 x’2 x’1 g (x1, x2) > 0 g (x1, x2) < 0 g (x1, x2) = 0 Figura 5 - Estados de segurança e de falha no espaço de variáveis reduzidas Seguindo SHINOZUKA (1983), a distância mínima requerida pode ser determinada como segue. A distância de um ponto X’ = (X’1, X’2, … , X’n) na superfície de falha g( ) = 0X à origem de X’ é: ( )D X X n= + + =' ' / 1 2 2 1 2K X X' 't o ponto na superfície de falha, ( )x x x n' , ' , , '* * *1 2 K , tendo a mínima distância da origem pode ser determinado pela minimização da função D, sujeita à limitação 0=)g(X : Minimize D, sujeito à g(X) = 0. Para esta proposta, o método de multiplicadores de Lagrange pode ser usado. Minimizando “D” (CASTRO, 1997), chega-se à seguinte expressão para a mínima distância que é chamada de índice de confiabilidade β ( dmin = β ): β ∂ ∂ ∂ ∂ = − ∑ ∑ x g X g X i ii ii ' ' ' * * * 2 (12) onde as derivadas ( )∂ ∂g X i' * são calculadas em ( )x x x n' , ' , , '* * *1 2 K . O ponto mais provável na superfície de falha fica: Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 14 x i i' * *= −α β ; i = 1,2, ,nK (13a) em que: α ∂ ∂ ∂ ∂ i i ii g X g X * * * ' ' = ∑ 2 (13b) são os co-senos diretores ao longo do x’i. 2.2.2.3 Interpretação de primeira ordem As equações 12 e 13a podem ser interpretadas em bases de aproximações de primeira ordem para a função g(X) como segue. Expandindo a função de desempenho g(X) em série de Taylor em um ponto x*, que está na superfície de falha g( *) = 0x , ou seja: ( ) ( ) ( ) ( )( ) g X X X g x x x X x g X X x X x g X X n n i i i n i i i j j i ji n j n 1 2 1 2 1 2 11 , , , , , ,* * * * * * * * K K K = + − + − − + = == ∑ ∑∑ ∂ ∂ ∂ ∂ ∂ onde as derivadas são calculadas em ( )x x xn1 2* * *, , ,K . Mas g ( )x x xn1 2* * *, , ,K = 0 na superfície de falha e, recordando que: ( ) ( ) ( )X x X x X xi i X i X X i X X i ii i i i i− = + − + = −* * *' ' ' 'σ µ σ µ σ e ∂ ∂ ∂ ∂ σ ∂ ∂ g X g X dX dX g Xi i i i X ii = = ' ' ' 1 Então: ( ) ( )g X X X X x gXn i ii n i 1 2 1 , , , ' ' ' * * K K= − = ∑ ∂∂ + Em aproximação de primeira ordem, isto é, truncando a série acima no termo de primeira ordem, o valor médio da função g(X), é (ANG; TANG, 1984): µ ∂ ∂g i ii n x g X ≅ − − ∑ ' ' * *1 (14) Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 15 ao passo que a correspondente variância aproximada em primeira ordem (para variáveis não correlacionadas) é: σ σ ∂ ∂ ∂ ∂g X ii n ii n i g X g X 2 2 1 2 1 2 ≅ = − − ∑ ∑' * *' ' (15) Das equações 14 e 15, tem-se a relação: µ σ ∂ ∂ ∂ ∂ g g i ii n ii n x g X g X ≅ − − − ∑ ∑ ' ' ' * * * 1 1 2 (16) Comparando as equações 12 e 16, percebe-se que a relação acima é a mesma da equação 12 e, assim µ σg g é também a distância do plano tangente à superfície de falha em x* à origem das variáveis reduzidas. Portanto, o índice de confiabilidade é também: β µ σ= g g (17) 2.2.3 Funções lineares de desempenho Uma função linear de desempenho pode ser representada como: ( )g a a Xi i i X = + ∑0 onde a0 e ai’s são constantes. A equação estado limite correspondente é: a a Xi i i 0 0+ =∑ (18) Em termos das variáveis reduzidas a equação estado limite fica: ( )a a Xi X i X i i i0 0+ + =∑ σ µ' (18a) Em três dimensões, a equação 18a é: ( ) ( ) ( )a a X a X a XX X X X X X0 1 1 2 2 3 31 1 2 2 3 3 0+ + + + + + =σ µ σ µ σ µ' ' ' que é uma superfície plana no espaço x’1, x’2, x’3 como mostrado na figura 6. A distância do plano de falha, equação 18a, à origem das variáveis reduzidas X’ é: Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 16 ( ) β µ σ = + ∑ ∑ a a a i X i i X i i i 0 2 (19) x’1 x’3 x’2 Plano da superfície estado limite β 0 Figura 6 - Superfície estado limite no espaço tridimensional x’1, x’2, x’3 A equação 19 pode também ser obtida diretamente da equação 12. Se as variáveis aleatórias X1, X2, …, Xn são variáveis normais não correlacionadas, a probabilidade do estado seguro é, para este caso: p P a a XS i i= + > ∑0 0 ( ) p a a a S i X i i X i i i = − − + ∑ ∑ 1 0 2 Φ µ σ ( ) p a a a S i X i i X i i i = + ∑ ∑ Φ 0 2 µ σ (20)Comparando as equações 19 e 20, percebe-se que o argumento entre colchetes da equação 20 é a distância β . Portanto, a probabilidade pS é uma função da distância do plano de falha ( )g X = 0 à origem das variáveis reduzidas. Portanto, no caso geral de n variáveis normais não correlacionadas, a probabilidade de segurança é: ( )pS = Φ β (20a) Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 17 Se as distribuições de probabilidade das variáveis aleatórias X X Xn1 2, , ,L não são normais, a probabilidade pS pode ser calculada utilizando distribuições normais equivalentes (ANG; TANG, 1984). Com tais distribuições normais equivalentes, o cálculo de pS segue o mesmo procedimento visto para as variáveis normais. O procedimento descrito anteriormente para o cálculo da probabilidade de segurança ou de falha é baseado na suposição de que as variáveis aleatórias X X Xn1 2, , ,L não são correlacionadas. Para variáveis aleatórias correlacionadas, as variáveis originais podem ser transformadas em um conjunto de variáveis não correlacionadas. O procedimento descrito anteriormente, pode então ser aplicado ao conjunto não correlacionado de variáveis transformadas (CASTRO, 1997). Para funções de desempenho, g(X), que não são lineares, o cálculo da probabilidade exata de segurança ou de falha geralmente será envolvido. A equação estado limite, ( )g X = 0 , será também não linear; ao contrário do caso linear, não há uma única distância da superfície de falha à origem das variáveis reduzidas. Como indicado no item 2.2.2, o cálculo da probabilidade exata de segurança envolve a integração da função densidade de probabilidade conjunta sobre a região não linear ( )g X > 0 . Para propósitos práticos, será necessária uma aproximação para a probabilidade de falha ou de segurança. De acordo com os resultados do item 2.2.2, o ponto ( )x x x n' , ' , , '* * *1 2 K na superfície de falha com mínima distância à origem das variáveis reduzidas é o ponto mais provável de falha (SHINOZUKA, 1983). O plano tangente à superfície de falha em ( )x x x n' , ' , , '* * *1 2 K pode então ser utilizado como aproximação para a superfície de falha, e o índice de confiabilidade ou a probabilidade de segurança procurada pode ser calculada como no caso linear do item 2.2.3. Se a superfície de falha não linear exata for convexa ou côncava para a origem, esta aproximação será segura ou insegura, respectivamente (CASTRO, 1997). 3 CRITÉRIO DE CÁLCULO BASEADO EM PROBABILIDADE 3.1 Critério de cálculo O principal objetivo de projetos e cálculos de engenharia é garantir o desempenho do sistema ou produto de cálculo. Como isto só pode ser alcançado sob condições de incertezas, a garantia de desempenho é realmente possível somente em termos de probabilidade, ou seja pS. Em geral, análises probabilísticas serão necessárias para o desenvolvimento de tais cálculos baseados em probabilidade. Entretanto, pode-se também desenvolver cálculos satisfazendo tais condições de confiabilidade sem uma análise probabilística completa, isto é alcançado através da adoção de critérios de cálculos determinísticos apropriados (por exemplo, o uso de tradicionais "coeficientes de segurança"). De fato, bases probabilísticas para o cálculo serão mais efetivas se implementadas desta forma, isto pode ser conseguido se os "coeficientes de segurança” são pré-determinados por condições específicas baseadas em probabilidade. Em particular, para o propósito de cálculos mais Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 18 rotineiros, os métodos de cálculo podem ser especificados em normas de cálculo de estruturas, onde tais métodos também deverão ser desenvolvidos para satisfazer confiabilidades especificadas. Por razões óbvias, os métodos de cálculo deverão ser tão simples quanto possível, além disto, eles deverão ser desenvolvidos de uma forma familiar aos usuários ou calculistas. Uma aproximação tradicional e comum para a introdução da segurança é através do uso de coeficientes de segurança. Estes coeficientes de segurança são utilizados na engenharia estrutural quando os cálculos são feitos em tensões admissíveis. Outra forma é a utilização de coeficientes de ponderação das ações e coeficientes de resistência, ou seja, as ações nominais são majoradas pelos coeficientes de ponderação apropriados e as resistências nominais são minoradas pelos correspondentes coeficientes de resistência, e a segurança é assegurada se a resistência “minorada” for maior ou igual às solicitações “majoradas”, que é a forma mais consistente. 3.1.1 Problema básico de cálculo Com base na premissa de que um projeto de engenharia é destinado a garantir a segurança ou o bom desempenho com uma dada confiabilidade pS, o problema básico de cálculo, portanto, envolve a determinação da posição da função de distribuição de probabilidade da resistência, como mostrado na figura 4.a, tal que esta esteja suficientemente separada da função de distribuição de probabilidade das solicitações para que a probabilidade de falha pF satisfaça a um valor aceitável ou um valor alvo. Novamente, além da separação entre ( )f X x e ( )f Y y , a probabilidade de falha, pF, é também uma função do grau de dispersão ( σ X e σ Y ). Uma quantidade que representa estas duas influências é o índice de confiabilidade ou índice de segurança β . Portanto, especificando um valor de β é equivalente a prescrever uma confiabilidade alvo, pS, ou uma probabilidade de falha aceitável, pF. Para o propósito de cálculo normalizado, isto é, estabelecer previsões de cálculos em normas, a forma mais geral é a utilização de coeficientes múltiplos de ações e coeficientes de resistência, como representado pela seguinte condição; φ γR Si i i n ≥ = ∑ 1 (21) onde: φ = coeficiente de resistência γ i = coeficiente de ponderação das ações para ser aplicado à ação Qi ou à solicitação Si. 3.2 Métodos de segundo momento No espaço das variáveis reduzidas, cálculos em diferentes níveis de segurança podem ser vistos como correspondentes para satisfazer a diferentes superfícies de falha representadas pelas várias distâncias à origem, β . O desenvolvimento de um critério de cálculo é essencialmente equivalente à determinação dos coeficientes de cálculo que resultarão em projetos com superfícies de falha que cumpram com um índice de segurança exigido, isto é, a distância da Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 19 superfície de falha à origem das variáveis reduzidas deve satisfazer a algum valor alvo previamente determinado. Como indicado anteriormente, a forma de cálculo mais geral é aplicar um coeficiente de cálculo em cada uma das variáveis básicas de cálculo, conhecido também como método dos “coeficientes parciais”. Sem perda de generalidade, estes coeficientes podem ser aplicados aos respectivos valores médios das variáveis de cálculo, assim: ( )g X X n Xnγ µ γ µ γ µ1 2 21 0, , ,K = (22) Os valores γ µi Xi da equação 22 deverão estar na superfície de falha, em particular, eles devem estar no ponto mais provável de falha. Assim, os coeficientes parciais de cálculo procurados são: γ µi i X x i = * (23) Portanto, a determinação dos coeficientes de cálculo procurados é também um problema de determinar o ponto mais provável de falha, xi * . No espaço das variáveis reduzidas, o ponto mais provável de falha é: x i i' * *= −α β onde: α ∂ ∂ ∂ ∂ i i ii g X g X * * * ' ' = ∑ 2 As variáveis originais podem ser obtidas de: ( ) iiii X * iXX * iX * i 1x βδα−µ=βσα−µ= Portanto, os coeficientes de cálculo procurados são: iX * ii 1 βδα−=γ (24) Na equação 24, os co-senosdiretores, α i * , devem ser calculados no ponto mais provável de falha xi * . Em geral, a determinação de xi * requer uma solução iterativa. Para este propósito, o algoritmo simples apresentado a seguir pode ser usado: (1) Assume-se xi * e obtém-se: x x i i X X i i '* * = − µ σ Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 20 (2) Calcula-se ( )∂ ∂g X i' * e α i* . (3) Obtém-se xi X i Xi i * *= −µ α βσ . (4) Repete-se os passos de (1) a (3) até atingir a convergência. Os coeficientes de cálculo procurados são então obtidos com a equação 24. Para variáveis não normais, µ Xi e σ Xi devem ser substituídos pelas médias e desvios padrão normais equivalentes µ X N i e σ X N i no algoritmo acima. 4 COEFICIENTES DE CÁLCULO PARA AS NORMAS EM ESTADOS LIMITES 4.1 Introdução Quando os critérios utilizados pelas normas de cálculo estrutural para garantir o bom desempenho das estruturas são desenvolvidos para diferentes materiais e métodos de construção, por grupos profissionais interessados e com diversas filosofias de cálculo, isto não garante níveis consistentes de segurança e desempenho para diferentes estruturas. Esta diversidade considerável complica o processo de introdução da segurança no cálculo. O diferente tratamento dado às ações em cada especificação (norma de cálculo) tende a causar confusão e criar a necessidade de realização de análises separadas para a mesma estrutura, quando mais de um material estrutural for utilizado. Para simplificar estas análises tornou-se desejável o desenvolvimento de coeficientes de ponderação e regras de combinações das ações que estivessem incluídas em normas governando ações e cálculo geral para todos os materiais estruturais. Os grupos individuais de pesquisa e elaboração das normas técnicas do material selecionariam então critérios de resistência compatíveis com as condições gerais de ações. A tendência contemporânea em desenvolvimento de normas é a utilização de conceitos probabilísticos como a base para selecionar critérios de introdução da segurança no cálculo. Se o elemento estrutural estiver submetido a somente uma ação variável além da ação permanente, a confiabilidade pode ser determinada considerando a combinação da ação permanente com a máxima ação variável esperada durante algum período de referência “T”, considerado apropriado para o projeto. Freqüentemente, entretanto, mais de uma ação variável atua em uma estrutura. Quando isto ocorre, é extremamente improvável que cada ação alcance seu valor máximo ao mesmo tempo. Conseqüentemente, um elemento estrutural pode ser calculado sob uma ação total menor do que a soma das máximas ações individuais, isto é correntemente reconhecido e adotado pelas atuais normas de ações e segurança. Conceitualmente, estas combinações de ações deveriam ser tratadas com a utilização da teoria de processos estocásticos que consideram a natureza estocástica e correlação das ações no espaço e no tempo. Para análises práticas de confiabilidade, entretanto, é preferível trabalhar com representações de variáveis aleatórias do que com representações de processos aleatórios. Talvez a aproximação Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 21 mais simples para tratar combinações de ações é assumir que a máxima combinação das ações ocorrerá quando uma das ações estiver com o seu valor máximo, enquanto as outras ações assumem seus valores instantâneos ou arbitrados em um certo tempo. Em outras palavras, a máxima combinação “S” de uma soma de várias ações, Xi, durante o período de referência, T, é: += ∑ ≠ij jiTi XXmaxmaxS (25) 4.2 Análise dos níveis de confiabilidade do cálculo em tensões admissíveis 4.2.1 Análise de dados estatísticos Para o desenvolvimento dos critérios de cálculo baseados em probabilidade são requeridos dados das variáveis ação e resistência estrutural. A informação básica requerida é a distribuição de probabilidade de cada variável ação e resistência e estimativas de suas médias e desvios padrão ou coeficientes de variação. A média e o coeficiente de variação destas variáveis básicas deverão ser representativos dos valores esperados para as estruturas reais. Enquanto frequentemente há dados suficientes para obter uma estimativa razoável da distribuição de probabilidade, em muitos outros casos esta pode ser assumida com base em argumentos físicos ou por conveniência (GALAMBOS, 1982). No contexto da aproximação FOSM (método de segundo momento de primeira ordem) para confiabilidade, o conceito de incerteza, exemplificado pela variabilidade ou dispersão de uma variável, é exprimido através da variância ou do coeficiente de variação (cov). As incertezas usadas nas análises de confiabilidade poderiam incluir variabilidade estatística dos parâmetros da resistência básica e das ações, fontes adicionais de incertezas que surgem devido aos erros de previsão e modelamento e informações incompletas. Incluídos nestas incertezas de modelamento estariam erros em estimativas dos parâmetros das funções de distribuição, idealizações matemáticas da capacidade estrutural e das ações reais, incertezas no processo de cálculo e variações nas aplicações das várias ações ou nas especificações dos materiais dos casos idealizados em seu desenvolvimento. Embora ocasionalmente possa haver alguns dados disponíveis com os quais estima-se estas últimas medidas de incertezas, frequentemente elas devem ser estimadas com base em juízo e experiência profissional. 4.2.1.1 Resistência Valores médios, coeficientes de variação e distribuições de probabilidade para resistências estruturais têm sido determinadas através de dados de ensaios de resistência dos materiais, de testes de laboratório de elementos em escala real sob condições de solicitação idealizadas, e em alguns casos, onde um modelo analítico definido existe claramente, através da simulação Monte Carlo. Uma amostra representativa destes dados é apresentada na tabela 1 que, segundo GALAMBOS (1982), resume resultados de numerosos programas de pesquisa conduzidos durante vários anos. Existe uma quantidade substancial de dados para elementos estruturais de aço e concreto armado. Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 22 Tabela 1 - Resumo dos dados estatísticos de resistência (GALAMBOS, 1982) Descrição (1) R Rn (2) VR (3) Distribuição de probabilidade (4) Concreto armado, flexão Grau 60 ( ksi 60fy = ) 1,05 0,11 Normal Grau 40 ( ksi 40fy = ) 1,14 0,14 Normal Colunas curtas de conc. arm. 0,95 0,14 Normal Vigas de conc. arm., cisalhamento Estribos mínimos 1,00 0,19 Normal Aço estrutural Elementos tracionados, escoamento 1,05 0,11 Lognormal Viga compacta, momento uniforme (cálculo plástico) 1,07 0,13 Lognormal Viga-coluna (cálculo plástico) 1,07 0,15 Lognormal Aço conformado a frio (chapa dobrada) Vigas travadas lateralmente 1,17 0,17 Lognormal Alumínio Vigas travadas lateralmente 1,10 0,08 Lognormal Alvenaria estrutural não armada, compressão Fabricação não inspecionada 5,30 0,18 Lognormal Nota: =R resistência média =nR resistência nominal =RV coeficiente de variação da resistência 4.2.1.2 Ações Estão resumidos na tabela 2 os valores médios, coeficientes de variação e distribuições de probabilidade para efeitos das máximas ações em 50 anos e das ações reduzidas. De modo geral, estes estudos estatísticos são um resumo de valores relatados em vários estudos anteriores de ações e modelos de ações estruturais, comportamento de elementos estruturais e cálculo baseado em confiabilidade. Tanto quanto possível, as estatísticas das ações são baseadas em pesquisas“in loco”, medidas de pressão do vento em edifícios e modelamento probabilístico da conversão de uma ação pesquisada em uma máxima ação usada para propósitos de análise e cálculo de confiabilidade. Além da variabilidade básica da ação, incertezas surgem do modelo que transforma a ação real variável tanto no tempo quanto no espaço, em uma ação estática equivalente distribuída uniformemente que será usada no cálculo. Incertezas também surgem na análise que transforma a ação uniformemente distribuída em efeito desta ação, incluindo idealização bi-dimensional de estruturas tridimensionais, idealização de apoios, rigidez de conexões e continuidade (GALAMBOS, 1982). Estas incertezas são incluídas nos coeficientes de variação listados na tabela 2. Segundo GALAMBOS, 1982, estatísticas das ações devidas a neve, vento e ação variável de ocupação (sobrecarga de utilização) foram determinadas através de Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 23 distribuições de valores extremos usados na análise de confiabilidade usando as porcentagens superiores das distribuições obtidas através da simulação Monte Carlo ou integração numérica. Tabela 2 - Resumo de dados estatísticos das ações (GALAMBOS, 1982) Ação (1) X Xn (2) VX (3) Distribuição de probabilidade (4) D (ação permanente) 1,05 0,10 Normal L (sobrecarga de utilização) 1,00 0,25 Valor extremo tipo I LRED (sobrecarga reduzida) 0,25-0,50 0,60 Gama W (ação do vento) 0,78 0,37 Valor extremo tipo I S (ação da neve) 0,82 0,26 Valor extremo tipo II 4.2.2 Confiabilidades no cálculo em tensões admissíveis Confiabilidades alvos podem ser estabelecidas através de revisão de níveis de confiabilidade pertencentes às normas já existentes que conduziram a resultados satisfatórios no passado. Enquanto confiança absoluta nestes valores pode admitir inconsistências e certas características indesejáveis da prática de cálculo passada, eles são úteis como guias para a seleção de confiabilidades alvos de um critério baseado em probabilidade. O que se fez então foi uma análise dos níveis de confiabilidade que se obtinha com o cálculo segundo as normas em tensões admissíveis e, baseando-se nestes resultados, selecionou-se alguns valores alvos dos índices de confiabilidade para situações de projeto mais gerais e comuns. As mais importantes combinações de ações envolvendo ações gravitacionais são as combinações de ação permanente com máximas ações variáveis de ocupação em pisos. Estes casos de ações gravitacionais governam os projetos em muitas situações práticas e eles são casos particularmente importantes, quando são acumuladas experiências bem sucedidas no passado. Cada situação de cálculo é definida por um conjunto de valores nominais de ações e resistência. Nas especificações em tensões admissíveis tinha-se: R FS D Ln n n= + (26a) onde FS é o fator de segurança. No cálculo plástico de estruturas de aço segundo o AISC/78 tinha-se (GALAMBOS, 1982): ( )R D Ln n n= +17, (26b) Os índices de confiabilidade associados ao cálculo de vigas de aço submetidas a ações permanentes e variável, são mostrados na figura 7 como funções da relação L Dn0 , numa análise feita por GALAMBOS, 1982. Na figura 7 percebe-se que β tende a decrescer quando a relação L Dn0 aumenta. Deve ser lembrado que vigas de aço têm intervalo prático para L Dn0 de 1 a 2. Como mostrado na figura 7, valores representativos para β são em torno de 2,5 para vigas de aço. A sobrecarga L0 é a ação variável uniforme sem redução especificada pelo ANSI A58.1-1972 e sua Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 24 relação com a sobrecarga nominal é dada pela seguinte expressão: L L min A D Ln T n= − + 0 0 1 0 0008 0 23 1 0 6, ; , ; , , em que AT é a área de influência do elemento carregado em ft2. Intervalo típico para concreto armado Intervalo típico para aço4 3 2 1 0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 4 6 5 2 1 3 β L D S Dn n n0 ou Curva Descrição nRR Vn 5 aço (D+L) 1,07 0,13 6 aço (D+S) 1,07 0,13 AT = 37m2 (área de influência do elemento) Figura 7 - Índices de confiabilidade para vigas de aço calculadas em tensões admissíveis Análises semelhantes foram feitas para diferentes combinações (CASTRO, 1997), chegando-se então a valores de β que serviriam como guias para o cálculo dos coeficientes de ponderação das ações a serem utilizados pelas normas de ações e segurança. 4.3 Calibração dos coeficientes de cálculo dos estados limites 4.3.1 Seleção do formato Cálculos em estados limites baseados em probabilidade empregam, tradicionalmente, ações ou efeitos de ações multiplicados pelos coeficientes de ponderação das ações e resistências multiplicadas pelos coeficientes de resistência, em um conjunto de equações que têm a forma geral: resistência fatorada > efeitos das ações fatoradas (27) Vários formatos de equações de verificação da segurança são possíveis. (CASTRO, 1997) A seleção do formato deverá ser guiada pela necessidade de simplicidade e continuidade em relação a formatos existentes, bem como pelas considerações teóricas. Com base em análises de alguns formatos propostos e outros já utilizados por algumas normas (CASTRO, 1997) , uma forma que combina os melhores aspectos Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 25 destes formatos estudados pode ser analisado. Neste formato o efeito último das ações fatoradas ficaria então: U D Q QD n Q n j nj= + + ∑γ γ γ (28) em que γ Q nQ é a ação variável principal fatorada, e os termos γ j njQ são as ações nominais minoradas por um coeficiente γj<1. As ações variáveis individuais consideradas devem ser alternadas na equação, cada ação tomando seu valor máximo, Qn , para se obter a combinação crítica. A resistência fatorada da expressão (27) também pode ser expressa de diferentes formas, mas o método mais familiar é o uso do coeficiente de resistência aplicado à resistência característica ou nominal. A resistência fatorada é definida como o produto, φRn , de uma resistência nominal calculada, Rn , por um coeficiente de resistência φ . As principais vantagens desta forma são que erros do modelo de cálculo da resistência nominal e modo e conseqüência de falha do elemento estrutural podem ser facilmente refletidos na seleção de φ . A desvantagem é que φ não é aplicado diretamente à fonte de incerteza (resistência do material, dimensões e modelos analíticos). E como uma conseqüência, é mais difícil manter confiabilidade constante sobre todas as situações de cálculo. A situação é análoga ao uso de um único coeficiente de ponderação das ações ao invés de um coeficiente para cada incerteza da variável ação. Um segundo método para calcular a resistência fatorada é através do uso de coeficientes de resistência parciais, onde cada uma das variáveis usadas para calcular a resistência é determinada dividindo o seu valor nominal por um coeficiente de segurança parcial antes de calcular a capacidade estrutural, por exemplo, f fy yn y= γ para a tensão de escoamento. A vantagem deste formato é que os coeficientes são aplicados diretamente às fontes de incertezas e assim é relativamente fácil manter constante a confiabilidade para muitas situações de cálculo. Isto é particularmente importante quando vários materiais contribuem para a resistência de um elemento, como em um elemento de concreto armado ou uma viga composta. A desvantagem é que a variabilidade devido a erro no modelamento, efeito do modo de falha e importância do elemento não são tão facilmente incluídos, porque os coeficientes parciais de resistência são tipicamente os mesmos para todosos elementos e estados limites. 4.3.2 Critérios de carregamento baseados em probabilidade Confiabilidades alvos “β0 ” para selecionar coeficientes de ponderação das ações e de resistência podem ser determinados com base em análises das confiabilidades dos cálculos anteriores. GALAMBOS, 1982, estabeleceu confiabilidades alvos para determinadas situações de carregamento e para 50 anos de vida útil da estrutura. Para combinações de ações envolvendo somente ações gravitacionais, β0 3 0= , ; para aquelas combinações envolvendo ações do vento aditivas, β0 2 5= , ; para aquelas envolvendo ações do vento atuando em sentido contrário aos efeitos das ações gravitacionais, β = 2 0, . Deve ser enfatizado que confiabilidades alvos são escolhidas unicamente com o propósito de permitir que os Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 26 coeficientes de ponderação das ações sejam calculados inteligentemente, isto é, para assegurar que com o conjunto de coeficientes de ponderação das ações desenvolvidos, será possível desenvolver critérios de resistência para alcançar projetos que são semelhantes, em um sentido global, àqueles obtidos usando a prática anterior. O critério de cálculo prático é selecionar um conjunto de coeficientes de ponderação das ações para serem aplicados em todas as situações de cálculo, no entanto é interessante, sempre que possível, examinar como os coeficientes de ponderação das ações e de resistência variam para diferentes estados limites e combinações de ações. Este exame tornará possível uma melhor apreciação de algumas das considerações que guiaram a seleção do critério de cálculo dos coeficientes. γS γL φ γD D+L D+S 0 1 2 3 4 5 (L/D) ou (S/D) C oe fic ie nt es γ o u φ 2,0 1,5 1,0 0,5 Figura 8 - Coeficientes de ponderação das ações e de resistência para vigas de aço Exemplos de coeficientes de resistência e coeficientes de ponderação de ações permanentes, variáveis de ocupação e neve são mostrados na figura 8. Estes coeficientes foram calculados de acordo com o que foi exposto no capítulo 3, com β 0 3= , para a combinação de ação permanente mais sobrecarga máxima em vigas metálicas. Resultados semelhantes têm sido obtidos para outras combinações e para outros materiais de construção, segundo ELLINWOOD, 1982. Note que o coeficiente de resistência é relativamente indiferente à sobrecarga na combinação. Similarmente, os coeficientes de ponderação das ações não se apresentam sensíveis às estatísticas da resistência. O coeficiente de ponderação da ação permanente é muito menor do que os valores comumente recomendados pelas normas. Isto porque a variabilidade de D é muito pequena comparada com as variabilidades das outras ações. A magnitude de γ D aparece virtualmente independente da magnitude das sobrecargas, exceto para relações L/D muito pequenas. Estas observações indicam que escolher γ D e φ constantes e separar especificações de coeficientes de ponderação das ações e de resistência, não causa significativos desvios de β0 . Por outro lado, o coeficiente de ponderação da ação variável na combinação, aumenta quando a importância desta ação na combinação aumenta por causa de sua maior variabilidade. Se os coeficientes de ponderação γ γ γL S W, , ,K , para ações variáveis são especificados como constantes, como Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 27 sempre foi feito, haverá algum desvio da confiabilidade alvo (β0 ) para certas situações de carregamento. Assim há uma necessidade de selecionar um conjunto de coeficientes de ponderação das ações e combinações que minimize a extensão deste desvio de β0 sobre todas as situações possíveis de projeto. Fazendo isto, chega-se então aos valores dos coeficientes de cálculo procurados (CASTRO, 1997). Tabela 3 - Coeficientes de ponderação das ações e de resistência para ações gravitacionais atuando com ação do vento Valores ótimos (γD=1,2) φ ótimo quando γw=1,3 Material (1) φ (2) γL (3) γW (4) γL1=0,3 (5) γL1=0,4 (6) γL1=0,5 (7) Vigas de aço 1,11 0,61 1,71 0,85 0,87 0,89 0,93 1,97 0,08 --- 0,81 --- Vigas de concreto 1,06 0,49 1,76 0,82 0,83 0,84 armado 0,86 1,63 0,14 --- 0,81 --- 4.3.3 coeficientes de resistência Com os coeficientes de ponderação das ações fixados, a confiabilidade β pode ser ajustada variando o coeficiente φ e a especificação da resistência nominal para diferentes materiais e estados limites. A escolha de β para selecionar o coeficiente de resistência φ deverá considerar, entre outros fatores, a ductilidade associada a cada modo de resistência, a freqüência relativa da ocorrência de diferentes situações de projeto e a conseqüência de falha. Para um determinado estado limite e material, o coeficiente φ não deverá depender da combinação das ações. Embora referidos às vezes como coeficientes do material, os coeficientes φ também devem considerar outras contribuições para a variabilidade da resistência e não somente a variação da resistência mecânica do material. Quando aplicados à resistência de seções transversais de aço, estes coeficientes devem cobrir as variações nas dimensões dentro das tolerâncias de laminação, as diferenças entre os valores da resistência medida em um produto padrão e a resistência real dos perfis de um lote de laminação, e outros fatores como a possibilidade de correlação entre resistência do material e tolerâncias de laminação. Tratando-se de um material e estado limite, por exemplo, em que a capacidade é descrita por R Rn = 110, e VR = 015, , os intervalos de β, correspondentes ao intervalo para L Dn de 0,25 a 5 e vários valores candidatos φ, são dados na tabela 4. Tendo a relação L Dn prevalecente para cada situação ou a freqüência relativa de cada L Dn , o valor de φ correspondente ao β0 desejado então pode ser calculado. Tabela 4 - Variações de β para valores típicos de φ ( R Rn = 110, e VR = 015, ) φ (1) 0,70 (2) 0,75 (3) 0,80 (4) 0,85 (5) β 3,3 - 3,8 3,0 - 3,4 2,8 - 3,1 2,6 - 2,8 Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 28 5 EXEMPLO A forma mais comum das normas atuais para o cálculo de elementos estruturais é a desigualdade linear abaixo: φ γ γR D Ln D n L n≥ + Onde o subscrito “n” indica os valores nominais da resistência e das ações. As relações destes valores nominais para os seus respectivos valores médios podem ser consideradas como os correspondentes fatores: ν ν νR n D n L nR R D D L L = = =; ; Seja por exemplo, determinar o coeficiente de resistência (φ) e os coeficientes de ponderação das ações (γD e γL) para alcançar projetos com uma confiabilidade de β=2,50. Considera-se uma relação da ação variável para a ação permanente de L D = 2 0, e que as variáveis têm distribuição de probabilidade normal e são não correlacionadas. Admite-se também: δ δ δR D L= = =011 010 0 25, ; , ; , e ν ν νR D L= = =0 95 0 95 118, ; , ; , A equação de cálculo anterior é uma função de desempenho linear, isto é: ( )g X = R - D - L com derivadas parciais: ∂ ∂ σ g R R' = ∂ ∂ σ g D D' = − ∂ ∂ σ g L L' = − Então: R D L R D L − − + + = = σ σ σ β 2 2 2 2 50, Onde L D= 2 e σD D= 0 1, ; ( )σ δ δL L LL D D= = =2 0 5, e σR R= 011, Donde: Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 29 ( ) ( ) ( ) R D D R D D − − + + = 2 0 11 0 10 0 50 2 50 2 2 2 , , , , resultando na seguinte equação quadrática: R RD2 6 491 7 978 0− + =, , A solução de interesse para R é: R D= 4 844, logo, σR D D= × =4 844 0 11 0 533, , ,Os co-senos diretores são: ( ) ( ) ( ) α σ σ σ σ R R R D L D D D D = + + = + + = 2 2 2 2 2 2 0 533 0 533 0 100 0 500 0 722 , , , , , α σ σ σ σ D D R D L D D = − + + = − = − 2 2 2 0100 0 738 0136 , , , α σ σ σ σ L L R D L D D = − + + = − = − 2 2 2 0 500 0 738 0 678 , , , Donde, de acordo com a equação 24, os coeficientes médios de resistência e de ponderação das ações apropriados são: ( )φ = − × × =1 0 722 2 5 0 11 0 80, , , , ( )γ D = + × × =1 0136 2 5 010 103, , , , ( )γ L = + × × =1 0 678 2 5 0 25 142, , , , Estes coeficientes médios deverão ser usados com as correspondentes resistências e ações médias, isto é, a exigência de segurança será: 0 80 103 142, , ,R D L≥ + Observe que neste caso (linear), não é necessário processo iterativo para se obter os coeficientes de cálculo. Para determinar os correspondentes coeficientes nominais de resistência e de ponderação das ações, observa-se que: νR nR R = = 0 95, ou R Rn= 0 95, Similarmente, D Dn= 0 95, e L Ln= 118, Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 30 Portanto, em termos dos valores nominais, a segurança exigida anteriormente fica: 0 80 0 95 103 0 95 142 118 , , , , , , R D Ln n n ≥ + ou 0 84 108 120, , ,R D Ln n n≥ + 6 CONCLUSÕES E COMENTÁRIOS FINAIS A afirmação de que é possível separar coeficientes de segurança afirmando que cada coeficiente é dependente somente da incerteza no parâmetro a que ele é aplicado e é independente da incerteza em todas as outras variáveis tem alguma carência de rigor probabilístico, mas isto não condena o processo como inútil, já que praticamente nenhum processo usado em projeto pode ser justificado rigorosamente. Algumas aproximações são sempre necessárias até mesmo para assegurar outra característica também importante em um processo de cálculo, que é a transparência de lógica ou facilidade com que os princípios básicos do modelo podem ser entendidos. Um dos principais fatores que atraiu a comunidade acadêmica para a aproximação dos coeficientes parciais foi a clareza lógica do sistema: incerteza na ação permanente é coberta por um coeficiente aplicado à ação permanente, incerteza na sobrecarga por um coeficiente aplicado à sobrecarga e assim por diante. Isto não poderia ser sustentado pelo método das tensões admissíveis. Esta aproximação também permite ao engenheiro julgar e tomar decisões sobre o que poderia ser feito em situações atípicas onde a variabilidade de um parâmetro de cálculo não for padrão. Uma outra característica importante de um processo de cálculo é a simplicidade com que ele pode ser aplicado. Inicialmente o método dos estados limites foi criticado por introduzir uma complexidade adicional no cálculo, argumento que foi perdendo força com o passar do tempo, à medida que os calculistas foram se familiarizando com o processo. O método dos estados limites tem sido aplicado a uma vasta gama de situações, por apresentar também flexibilidade e universalidade de aplicação, ou seja, pode ser adaptado com comodidade para a utilização em diferentes áreas. Entretanto, vale comentar que métodos probabilísticos podem ser aplicados somente onde a informação estatística existe e, reconhecimento devido tem que ser dado à forma real das curvas de densidade de probabilidade. A princípio a idéia é simples: as incertezas que afetam o projeto estrutural são identificadas e suas variações potenciais quantificadas estatisticamente, admitindo coeficientes de segurança parciais apropriados a serem calculados. Isto então é reunido para gerar projetos com uma probabilidade de falha aceitável, previamente especificada. Portanto para que esta idéia seja realmente efetivada, os dados utilizados para a determinação destes coeficientes de cálculo devem ser resultados de pesquisas científicas e não valores arbitrados convenientemente para conduzir a Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 31 projetos sobretudo mais econômicos, promovendo assim o uso das novas normas. O objetivo de escapar dos problemas do passado e obter resultados claramente mais racionais deve ser sempre mantido. No entanto, ressalta-se que o método dos estados limites é mais racional do que o das tensões admissíveis, mesmo em se tratando de arbitrar valores A maioria das normas em estados limites adotam valores menores de γf para as ações permanentes do que para as sobrecargas afirmando que o peso próprio da estrutura pode ser determinado com maior precisão do que as sobrecargas. Entretanto muitos estudiosos do assunto contestam esta posição afirmando que o termo ação permanente inclui itens como acabamentos, divisórias, utilidades penduradas e forros que podem ocasionar uma variabilidade maior do que a prevista pelas atuais normas de cálculo. Nas normas de hoje o menor γf cobre quase todas as ações permanentes ou de longa duração, incluindo itens como pressão de terra que são as ações com menos precisão dentre as que atuam nas estruturas. HEGER, 1993, afirma que existe significativamente mais incerteza nas ações permanentes do que é assumido na escolha do corrente coeficiente de ponderação da ação permanente do LRFD, 1986, γf=1,2. Segundo BEAL, 1994, estudos de falhas reais mostram que, exceto em casos evidentes de erros, estas são quase sempre causadas por resistência inadequada ao invés de variabilidade das ações normais. Normas correntes recomendam γf da ordem de 1,4 a 1,6 para as ações e γm da ordem de 1,0 a 1,15 para o aço. Isto sugere que as margens de segurança dos materiais estão insuficientes, o que pode ser corrigido pela alteração dos dados estatísticos utilizados na análise (relação resistência média pela nominal e/ou coeficiente de variabilidade da resistência). Pode-se concluir disto que o problema de introdução da segurança nas estruturas não estará resolvido apenas com boas formulações probabilísticas, mas sobretudo, é necessário que se tenha dados confiáveis das variáveis envolvidas no cálculo. De certa forma a revolução tem ainda que começar, pois as primeiras normas em estados limites não apresentaram diferenças significativas em relação às normas em tensões admissíveis, o que foi desejado realmente em um estágio inicial, para não introduzir mudanças muito bruscas em relação ao produto final, ou seja, os elementos estruturais projetados. Sabe-se que o que foi feito inicialmente foi uma calibração, entretanto, espera-se naturalmente que isto mude com a evolução das normas e com a obtenção de mais dados experimentais. 7 BIBLIOGRAFIA ANG, A.H-S.; TANG, W.H. (1975). Probability concepts in engineering planning and design: basic principles. New York, John Wiley & Sons, Inc. v.1. ANG, A.H-S.; TANG, W.H. (1984). Probability concepts in engineering planning and design: decision, risk, and reliability. New York, John Wiley & Sons, Inc. v.2. BEAL, A.N. (1994). Limit state at 40: new beginning or midlife crisis? The Structural Engineer, v.72, n.2, p.22-23. Leila A. de Castro Motta & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 1-32, 2002 32 CASTRO, L.A. (1997). Análise da segurança no projeto de estruturas: método dos estados limites. São Carlos. 119p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo. ELLINGWOOD, B.; MACGREGOR, J.G.; GALAMBOS, T.V.; CORNELL, C.A. (1982). Probability based load criteria: load factors and load combinations. Journal of the Structural Division, ASCE, v.108, n.ST5, p.978-997, May. FREUDENTHAL, A.M. (1956). Safety and the probability of structural failure. ASCE Transactions, v.121, p.1337-1397. FREUDENTHAL, A.M.; GARRELT, J.M.; SHINOZUKA, M. (1966). The analysisof structural safety. Journal of the Structural Division, ASCE, v.92, n.ST1, February, p.125-159. GALAMBOS, T.V. (1990). Developments in modern steel design standarts. Journal of Construction Steel Research, v.17, n.1 e 2, p. 141-162. GALAMBOS, T.V.; ELLINGWOOD, B.R.; MACGREGOR, J.G.; CORNELL, C.A. (1982). Probability based load criteria: assessment of current design practice. Journal of the Structural Division, ASCE, v.108, n.ST5, p.959-977, May. HEGER, F.J. (1993). Public safety: is it compromised by new LRFD design standarts? Journal of Structural Engineering, ASCE, v.119, n.4, p.1251-1264, April. ROSOWSKY, D.V.; HASSAN, A.F.; KUMAR, N.V.V.P. (1994). Calibration of current factors in LRFD for steel. Journal of the Structural Engineering, ASCE, v.120, n.9, p.2737-2746, September. SHINOZUKA, M. (1983). Basic analysis of structural safety. Journal of the Structural Division, ASCE, v.109, n.3, p.721-740, March. Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 33-42, 2002 CRITÉRIOS DE DIMENSIONAMENTO DE TREMONHAS PIRAMIDAIS PARA SILOS METÁLICOS ELEVADOS Ernani Carlos de Araújo1 & Carlito Calil Junior2 R e s u m o O comportamento estrutural de tremonhas piramidais de aço é estudado através de procedimentos analíticos, numéricos e experimentais. As análises são feitas para modelos de tremonhas não-enrijecida e enrijecida. Os protótipos para ensaios foram feitos em escala real. As análises fornecem recomendações que possibilitam racionalizar as dimensões de placas e enrijecedores com os seus adequados espaçamentos. Palavras-chave: Silos; tremonhas de aço; placas; enrijecedores. 1 INTRODUÇÃO Nos processos industriais, principalmente nas áreas de mineração e agro- indústria, os silos têm um papel de fundamental importância, na armazenagem e manipulação nos processos de produção. O fundo de um silo pode ser plano ou ter a forma afunilada, recebendo, então, a denominação de TREMONHA (FIG.1). É pelo fundo que o produto ensilado é descarregado pela ação da gravidade ou através de equipamentos apropriados. (a) (b) Figura 1 - (a) tremonha não-enrijecida; (b) Tremonha enrijecida 1 Professor Adjunto, Escola de Minas, UFOP, Ouro Preto, MG, ecar@em.ufop.br 2 Professor Titular do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, calil@sc.usp.br Ernani Carlos de Araújo & Carlito Calil Junior Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 33-42, 2002 34 Nas tremonhas de silos prismáticos a flexão estará sempre combinada com a tração. Para o caso de tremonhas de silos de aço, normalmente assume-se que a tração seja resistida pelas placas e a flexão seja resistida pelos enrijecedores externos. As paredes finas permitem grandes deslocamentos antes de trabalhar pelo efeito membrana. No entanto, deslocamentos como estes podem ser evitados projetando-se, adequadamente, os enrijecedores e espessuras de placas de paredes. 2 OBJETIVOS O principal objetivo deste trabalho é apresentar uma metodologia de análise teórica e experimental que possibilite dimensionamentos mais racionais para os elementos de chapas e enrijecedores de tremonhas de aço não-enrijecidas e enrijecidas. 3 MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 Materiais Nos ensaios, utilizaram-se dois tipos de materiais: a areia, como produto granular de carga, e o aço, como material estrutural, utilizado na estrutura de sustentação e nas chapas e enrijecedores do corpo da tremonha. Na tremonha não-enrijecida utilizou-se placa de aço do tipo SAE 1012 com espessura de 3.04 mm. Para a tremonha enrijecida utilizou-se aço do tipo SAE 1008 e com espessura 0.91 mm. Nos enrijecedores utilizou-se aço do tipo SAE 1010 e com seções retangulares de dimensões (4.76 x 50.80 mm), (6.35 x 63.5 mm) e (7.94 x 76.2 mm). 3.2 Métodos 3.2.1 Métodos teóricos As chapas das tremonhas foram analisadas, basicamente, segundo três modelos estruturais. Os dois primeiros modelos tratam-se de placas isoladas e o terceiro modelo trata-se de um sistema em casca trabalhando integradamente. O primeiro modelo consiste de placas retangulares com λ < 3, o que normalmente são aplicadas às tremonhas não-enrijecidas e, eventualmente, às tremonhas enrijecidas. O segundo modelo consiste de placas retangulares com λ > 3. Estes tipos de placas são aplicadas às tremonhas enrijecidas, onde se pode definir, previamente, o espaçamento entre enrijecedores. Para estes dois modelos empregou-se, simplificadamente, o processo de equivalência de cargas e geometrias das placas. Critérios de dimensionamento de tremonhas piramidais para silos metálicos elevados. Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p.33-42, 2002 35 O terceiro modelo é o que mais se aproxima da situação real. As tremonhas (placas e enrijecedores) são discretizadas em elementos finitos, as ações são pressões normais trapezoidais e as vinculações segundo três direções. Para o cálculo das ações sobre as placas das tremonhas utilizou-se o Método de WALKER (1966) para produtos no estado estático. A equação que possibilita calcular as pressões verticais, a partir da altura de transição “y” entre o corpo do silo e a tremonha, levando-se em conta o peso específico “γ” do produto e a pressão vertical “ pvt ” calculada por Janssen na transição é: pVT y pvt= +γ . (1) As forças de tração horizontal ou meridional (FIG.2) por unidade de largura de parede da tremonha são determinadas por condições de equilíbrio. Estas forças são dadas a seguir por: Figura 2 - Forças de tração horizontais e meridionais Th ag pNT bg b bg ( ) ( ) .sen .= α 2 (2) Th bg pNT ag a ag ( ) ( ) .sen .= α 2 (3) onde: pNT ag( ) e pNT bg( ) = pressões normais médias sobre as paredes nas posições genéricas “ag ” e “bg ” = lados de um retângulo genérico transversalmente à tremonha αa e αb = ângulos de inclinações das paredes “a” e “b” relativos à horizontal. Ernani Carlos de Araújo & Carlito Calil Junior Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 33-42, 2002 36 Tm ag W Cag pva Aag G Cag ag a ( ) . . . . sen = + + α (4) Tm bg W Cbg pvb Abg G Cbg bg b ( ) . . . .sen = + + α (5) onde: W = peso total do produto contido na tremonha Cag e Cbg = coeficientes de distribuição para os lados de um retângulo genérico Aag e Abg = áreas de influências dos retângulos genéricos G = peso próprio da tremonha Os esforços de flexão e deslocamentos de placas foram determinados a partir da teoria dos pequenos deslocamentos. Os enrijecedores foram calculados como quadros fechados (FIG.3). Utilizando-se da Equação dos Três Momentos e do teorema da Área-momento chegou-se aos momentos de engastamentos e deslocamentos nos vãos dados respectivamente por: + + = aIbbIa aIbNTbpbIaNTapM .. .3..3. 12 1 (6) +−=∆ 384 4.5 8 2. . 1 aNTapaM aIE a (7) +−=∆ 384 4.5 8 2. . 1 bNTbpbM bIE b (8) Critérios de dimensionamento de tremonhas piramidais para silos metálicos elevados. Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p.33-42, 2002 37 Figura 3 - Quadro hiperestático (Os diagramas de momentos de flexão estão invertidos na figura para facilidade ilustrativa) As verificações foram feitas considerando-se os efeitos dos esforços combinados em placas e enrijecedores. Assim, calculou-se a tensão equivalente para comparação através do critério de resistência de von Mises. As análises numéricas através de elementos finitos foram feitas, inicialmente, utilizando-se o Software SAP90. Posteriormente, as análises passaram a ser feitas através do Programa ANSYS. Para a definição das malhas optou-se pelo elemento finito SHELL63, o qual tem rigidez de membrana e à flexão. 3.2.1 Métodos experimentais A determinaçãodas propriedades físicas do produto granular foi realizada através do Aparelho de Jenike ou “JENIKE SHEAR CELL” (TSG 70-140) (Figura 4). Figura 4 - Aparelho de Jenike Ernani Carlos de Araújo & Carlito Calil Junior Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 33-42, 2002 38 As chapas de aço foram caracterizadas, mecanicamente, através de corpos- de-prova padrão e submetidas a ensaios de tração uni-axial em máquina universal de tração (INSTRON). Protótipos de tremonhas não-enrijecida e enrijecida foram confeccionados em escalas reais. Posteriormente, as malhas de elementos finitos foram fisicamente definidas nas partes internas e externas das tremonhas (FIG.5). (a) (b) Figura 5 - Definição das malhas de elementos finitos nas tremonhas. (a) não-enrijecida (b) enrijecida. Extensômetros foram adaptados aos pares (interno e externamente) com o objetivo de se obterem os efeitos independentes dos esforços devido às tensões combinadas de flexo-tração em placas e enrijecedores. As deformações específicas foram determinadas através de extensômetros do tipo KIOWA (5mm, 120Ω, GF = 2.1) e os deslocamentos através LVDT (Linear Variable Differential Transformer) do tipo DCDT 500 da Hewlett Packard (HP). As posições de colagem dos extensômetros foram definidas em função das análises numéricas obtidas via computador. As leituras dos deslocamentos e das deformações foram feitas, automaticamente, por um Sistema de Aquisição de Dados do tipo HP 9825 - T. Para a tremonha não-enrijecida utilizaram-se 37 canais para extensômetros e 9 para LVDTs. Por outro lado, a tremonha enrijecida utilizou-se de 37 canais para extensômetros e 23 para LVDTs. 4 RESULTADOS Para a tremonha não-enrijecida verificou-se boa compatibilidade entre os resultados numéricos e experimentais. O modelo numérico desenvolvido proporcionou valores para as tensões (FIG.6 e 7) e deslocamentos próximos daqueles obtidos através dos ensaios do protótipo. Critérios de dimensionamento de tremonhas piramidais para silos metálicos elevados. Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p.33-42, 2002 39 0 20 40 60 80 100 0 200 400 600 800 1000 Experimental Analítico Numérico Te ns õe s (M Pa ) Pressões (kPa) 0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 120 Experimental Numérico Analítico D es lo ca m en to s (m m ) Pressões (kPa) Figura 6 - Tensões e deslocamentos em função das pressões (Face maior) 0 20 40 60 80 0 100 200 300 400 500 600 700 Experimental Numérico Analítico Te ns õe s (M Pa ) Pressões (kPa) 0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 Experimental Numérico Analítico D es lo ca m en to s (m m ) Pressões (kPa) Figura 7 - Tensões e deslocamentos em função das pressões (Face menor) Para a tremonha enrijecida, as comparações das tensões e deslocamentos atuantes nas placas da face maior e da face de menor área são mostradas nas figuras 8 e 9. O comportamento da tremonha ficou afetado, substancialmente, devido à introdução de enrijecedores e consequente diminuição da espessura das chapas das paredes. Observando-se as Figuras que 8 a 9 notam-se as aproximações existentes entre os resultados numéricos e analíticos. Por outro lado, os resultados experimentais se mantêm com valores relativamente pequenos e abaixo dos resultados numéricos e analíticos. Ernani Carlos de Araújo & Carlito Calil Junior Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 33-42, 2002 40 0 20 40 60 80 100 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 Experimental Numérico Analítico Te ns õe s (M Pa ) Pressões (kPa) 0 20 40 60 80 100 0 10 20 30 40 50 Experimental Numérico Analítico D es lo ca m en to s (m m ) Pressões (kPa) Figura 8 - Tensões e deslocamentos em função das pressões para placa 1 da face 1. 0 20 40 60 80 100 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 Experimental Numérico Analítico Te ns õe s (M Pa ) Pressões (kPa) 0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 120 140 Experimental Numérico Analítico D es lo ca m en to s (m m ) Pressões (kPa) Figura 9 - Tensões e deslocamentos em função das pressões para placa 1 da face 2. A figura 10 mostra os resultados das tensões máximas nos engastamentos do quadro hiperestático formado por um dos enrijecedores. Os valores das tensões de flexo-tração obtidas para este enrijecedor demonstram que, por via analítica, pode-se chegar a dimensionamentos satisfatórios para a seção transversal. Por outro lado, numericamente, verificou-se que os valores das tensões são mais conservadoras. 0 20 40 60 80 100 0 100 200 300 400 Numério Analítico Experimental Te ns õe s (M Pa ) Pressões (kPa) 0 20 40 60 80 100 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Experimental Numérico Analítico D es lo ca m en to s (m m ) Pressões (kPa) Figura 10 - Tensões e deslocamentos em função das pressões em enrijecedor com vão na face 1. Critérios de dimensionamento de tremonhas piramidais para silos metálicos elevados. Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p.33-42, 2002 41 5 CONCLUSÕES Para as ações estáticas, o Método de Walker mostrou-se estar compatível com os resultados teóricos e com os valores obtidos através de ensaios. Este método apresenta vantagem frente a outras teorias e critérios de normas por apresentar funções de cargas perfeitamente definidas e de fácil geração pelos softwares modernos. Com relação às tremonhas não-enrijecidas, as placas equivalentes de paredes, normalmente, recaem na análise dos casos em que λ < 3. Este tipo de tremonha é viável apenas para silos baixos em que a relação altura lado é pequena, pois os efeitos da flexão em placas de aço podem levar a espessuras anti- econômicas. Os métodos analíticos utilizados na prática para o dimensionamento de chapas de aço são muito conservadores, levando-se a espessuras de placas exageradas. Para dimensionamentos rápidos das placas deste tipo de tremonha propõe-se a utilização de tabelas elaboradas pela Teoria dos Grandes Deslocamentos (TGD), como as propostas por AALAMI & WILLIANS (1975). Com relação às tremonhas enrijecidas, pode-se chegar a uma boa economia em peso de aço utilizando-se enrijecedores. As teorias dos pequenos deslocamentos (TPD) aplicada às vigas ou a elementos finitos levam ao super-dimensionamento das placas. Este fato é atribuído à baixa rigidez à flexão das placas finas. Os resultados experimentais mostraram que os deslocamentos e as tensões para as placas em questão são pequenos quando comparados com aquelas teorias. Portanto, a princípio, supõe-se que as placas trabalhem, primordialmente, pelo efeito membrana. Para dimensionamentos mais racionais para placas com λ > 3, propõe-se a utilização da Teoria dos Grandes Deslocamentos (TGD), desenvolvida por TIMOSHENKO (1940). A teoria analítica para o dimensionamento dos enrijecedores demonstrou ser simples e proporcionou valores satisfatórios para a seção transversal. Para os níveis de cargas aplicadas durante os ensaios verificaram-se rotações desprezíveis nos enrijecedores. Conclui-se, a princípio, que enrijecedores com maior rigidez à torção tornam-se desnecessários. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AALAMI, B.; WILLIAMS, D.G. (1975). Thin plate design for transverse loading. London, Beccles and Colchester. 194p. ARAÚJO, E.C. (1997). Estudo teórico e experimental de tremonhas piramidais para silos metálicos elevados. São Carlos. 317p. Tese (Doutorado) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo. BENINK, E.J. (1989). Flow and stress analysis of cohesionless bulk materials in silos related to codes. 162p. Tese (Doutorado) - Universiteit Twent, The Netherlands. CALIL JR., C. (1990). Recomendações de fluxo e de cargas para o projeto de silos verticais. São Carlos, EESC-USP. 198p. 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Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p.43-74, 2002 CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DAS ESTRUTURAS METÁLICAS ESPACIAIS Alex Sander Clemente de Souza1 & Roberto Martins Gonçalves2 R e s u m o Este trabalho apresenta um estudo sobre as estruturas metálicas espaciais abordando os seguintes aspectos: histórico, desenvolvimento, tipos, vantagens do sistema tridimensional e comportamento estrutural. Atenção especial é dispensada às tipologias de treliças espaciais mais comuns no Brasil, formadas por tubos circulares com variações de inércia nas extremidades. A influência da variação de inércia nas extremidades das barras no comportamento destes elementos isoladamente (resistência à compressão) e comportamento global da estrutura, foi estudada via elementos finitos. Descrevem-se vários sistemas de ligações patenteados utilizados em outros países e os comumente usados no Brasil. Apresentam-se resultados experimentais e teóricos de uma treliça espacial com dimensões em planta de 7,5 x 7,5m. Na análise teórica foram consideradas variação de inércia nas barras e os efeitos não lineares físicos e geométricos. Palavras-chave: Treliças espaciais, estruturas espaciais. 1 INTRODUÇÃO Os registros mais antigos de estruturas espaciais datam dos séculos XVIII e XIX na França e Alemanha, respectivamente. Em 1906 Alexander Graham Bell desenvolveu um sistema de estrutura espacial pré-fabricado para construção de torres, trabalho este que pode ser considerado pioneiro como projeto racional de estruturas espaciais. Nos dias atuais o uso de estruturas espaciais está consagrado e vem crescendo em todo o mundo. O fator mais importante do desenvolvimento das estruturas espaciais foi o grande número de pesquisas, abordando diversos aspectos do seu comportamento e projeto. O Committee on Spacial Structures - ASCE (1972, 1976) reúne uma vasta bibliografia contendo os principais trabalhos sobre estruturas espaciais até então publicados. O termo estrutura espacial é muito genérico, MAKOWSKI (1987) faz uma subdivisão em três grupos: estruturas em cabos, estruturas laminares e estruturas reticuladas, que são as mais utilizadas e nas quais estão incluídas as treliças espaciais, objeto de estudo deste trabalho. 1 Prof. Adjunto do Centro Universitário de Lins, Aluno de Doutorado na EESC-USP, alexsander@fpte.br 2 Professor Associado do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, goncalve@sc.usp.br Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 44 Outras razões para o desenvolvimento das estruturas espaciais são as vantagens que o sistema oferece. MAKOWSKI (1984), um dos principais pesquisadores sobre estruturas espaciais, aponta alguns aspectos dessas estruturas que as tornam um sistema estrutural vantajoso: - as estruturas espaciais possuem peso próprio reduzido e grande rigidez, sendo uma solução viável para cobrir grandes áreas livres, tais como: ginásios esportivos, hangares, pavilhões de exposição, etc; - devido ao seu comportamento tridimensional e alto grau de hiperasticidade, apresenta boa redistribuição de esforços; - por serem constituídas de elementos com peso próprio reduzido são facilmente transportadas, a fabricação é simples apresentando grande repetitividade de elementos, o que resulta na redução de custos; - as estruturas espaciais propiciam grande liberdade aos arquitetos, permitindo que esses projetem grandes vãos, atendendo à necessidade de espaço e ainda tirem partido arquitetônico da estrutura conferindo-lhes estética e funcionalidade às edificações. Treliça espacial é um sistema estrutural com aplicações das mais diversas. Exemplo de treliça espacial funcionando em conjunto com laje de concreto para suportar carregamento de piso é apresentado por GIULIANI & GIULIANI (1996). Um estudo mais detalhado deste tipo de utilização das treliças espaciais como sistema misto de piso é apresentado por EL-SHEIKH (1993). As treliças espaciais podem ser utilizadas também em pontes. Estudos que indicam esta possibilidade foram realizados por SEBASTIAN et. al. (1993) e ASHRAF et al. (1993). No entanto, a utilização predominante das treliças espaciais é, sem dúvida, em grandes coberturas onde se exige grandes espaços livres acarretando vãos bastante elevados. 1.1 Tipos de treliças espaciais No que diz respeito ao projeto de estruturas espaciais MAKOWSKI (1981) e IFFLAND (1982) discutem critérios para elaboração de um projeto preliminar. São apresentadas várias possibilidades de arranjo dos elementos que, em elevação, podem ser de uma, duas ou três camadas paralelas. Quanto ao arranjo em planta tem-se: quadrado sobre quadrado (com ou sem aberturas internas), quadrado diagonal sobre quadrado diagonal, entre outras (Figura 1). Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 45 b d a c Figura 1- Arranjo geométrico de estruturas espaciais: a) quadrado sobre quadrado; b) quadrado sobre quadrado em diagonal, c) quadrado diagonal sobre quadrado diagonal; d) quadrado sobre quadrado sem diagonais esconsas Quanto à forma e tipo de apoio, são várias as possibilidades, os mais comuns são apresentados na Figura 2. Figura 2 - a) apoio direto no banzo inferior; b)pé de galinha; c) viga de transição; d)pé de galinha com travejamento interno; e)apoio direto no banzo superior Para a altura das treliças espaciais, encontram-se as seguintes recomendações apresentadas na Tabela 1. Tabela 1 - Recomendações para altura de treliças espaciais Altura da Treliça Recomendação l l 30 40 a MORONI (1976) l l 20 40 a MAKOWSKI (1981) l l 20 60 a IFFLAND (1982) l l 15 20 a AGERSKOV (1986) a) c)b) d) e) Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 46 1.2 Comportamento não linear Segundo HILL et al. (1989) o comportamento de sistemas estruturais espaciais, em sua grande maioria, só pode ser adequadamente avaliado quando ambas, não linearidades geométrica e física são consideradas. A não linearidade geométrica estáassociada ao equilíbrio de um sistema estrutural na posição deslocada. É necessária a consideração da não linearidade geométrica quando a configuração deformada da estrutura é significativamente diferente da configuração inicial (grandes deslocamentos). A não linearidade física diz respeito ao comportamento não linear da relação tensão x deformação do material. Para realizar uma análise não linear física, é necessário idealizar um modelo constitutivo (tensão x deformação) para o material. Para os elementos tracionados um diagrama tensão x deformação elasto-plástico perfeito é uma boa aproximação para o seu comportamento. Entretanto, para elementos comprimidos é um pouco mais complicado equacionar o comportamento tensão x deformação, pois deve- se considerar o efeito da flambagem. A flambagem destes elementos depende, além das características do material, da esbeltez e das condições de vinculação. Segundo MADI (1984) o diagrama tensão x deformação para elementos comprimidos pode ser dividido em três fases: fase estável, inicia-se com o carregamento e se estende até a carga crítica; fase de “amolecimento”, que corresponde a perda da capacidade de carga com aumento de deformações; e a fase plástica onde se mantém uma capacidade resistente residual constante. A figura 3c ilustra um diagrama tensão x deformação com as três fases descritas acima. SUPPLA & COLLINS (1981) e MADI (1984) apresentaram e discutiram alguns modelos constitutivos de material utilizados em análise não linear de estruturas espaciais de aço. Alguns desses são reproduzidos na Figura 3, nos gráficos desta figura as curvas do primeiro quadrante correspondem a tensões de compressão, enquanto as curvas do terceiro quadrante a tensões de tração. Figura 3 - Modelos constitutivos para elementos de aço utilizados em treliças espaciais Para o caso a) é admitido comportamento elasto-plástico perfeito na tração e compressão, o que não é uma boa aproximação para elementos comprimidos. Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 47 Em b) são adicionadas faixas de ruína, ou seja, se a tensão crítica obtida se encontrar nesta faixa indicará a falha do elemento. No gráfico c) existe um patamar com aumento de deformações para cargas constantes e em seguida uma brusca queda na capacidade resistente do elemento, conservando ainda uma capacidade resistente residual. Em d) o comportamento é semelhante, porém, o patamar referido acima não existe. No comportamento representado pelos gráficos e) e f), após atingida a carga crítica, a capacidade resistente do elemento decresce linearmente. Em f) é admitida uma capacidade resistente residual. Nos gráficos g) e h) são introduzidas características não lineares para o regime pós-crítico e curvas de descarregamento. 1.3 Mecanismos de colapso O colapso das estruturas espaciais é governado, predominantemente, pela flambagem sucessiva de elementos comprimidos. Para esbeltez de projeto, a flambagem dos elementos comprimidos acarreta em perda de estabilidade repentina, e por essa razão apresentam ruptura súbita sem grandes deformações. Este comportamento das treliças espaciais já havia sido confirmado experimentalmente por SCHMIDT et al. (1976). Outro mecanismo de colapso possível é a instabilidade, elástica ou inelástica dos elementos de conexão (juntas ou nós). Algumas tipologias de nós utilizadas no Brasil são bastante suscetíveis a este problema. LAN (1991) descreveu vários casos típicos de ruína em treliças espaciais. Tais catástrofes, caracterizadas por colapso repentino, mostram claramente a necessidade de modelos de análise que representem verdadeiramente o comportamento das estruturas espaciais. Muitas estruturas requerem apenas a consideração da não linearidade do material associada com o modelo de flambagem dos elementos. No entanto, algumas estruturas mais complexas e peculiares requerem ainda a consideração da não linearidade geométrica. MURTHA-SMITH (1988) desenvolveu um método alternativo para analisar a ruína progressiva, (ou seja, propagação de falha nos elementos da estrutura que a leva ao colapso) de estruturas espaciais devido a perda da capacidade resistente de um dos elementos nestas estruturas. O método avalia o efeito da perda de um dos elementos sobre a segurança da estrutura. O fator de segurança dos elementos remanescentes, e da estrutura, foram avaliados usando a análise linear e não linear respectivamente. O autor analisa um modelo de treliça espacial removendo diferentes elementos. Constatou-se que a retirada de um elemento compromete a segurança de uma grande quantidade dos elementos remanescentes, principalmente se o elemento retirado for uma das diagonais de apoio ou banzos da região central. A análise não linear demonstrou que, para o caso mais crítico de elementos removidos, a estrutura apresenta um baixo fator de segurança de apenas 6%. É sugerido, pelo autor, que o prosseguimento dos estudos sobre ruína progressiva considere o efeito de alguns parâmetros, tais como: quantidade e localização dos apoios, tipos de elementos e razão vão/altura. Seguindo a sugestão de MURTHA-SMITH (1988), MURTHA-SMITH & LEARY (1993) analisaram o comportamento de treliças espaciais sob a influência dos seguintes parâmetros: Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 48 - quantidade e localização dos apoios; - relação vão/tamanho do módulo; - relação altura/vão, - relação maior vão/menor vão. Dos parâmetros analisados, a localização dos apoios tem maior influência no comportamento das treliças espaciais, e sobretudo na propagação da ruína. A pior situação é aquela com apoios somente nos cantos. Os demais parâmetros não têm influência significativa na propagação da ruína das treliças espaciais. 2 ELEMENTOS COMPRIMIDOS UTILIZADOS NAS ESTRUTURAS METÁLICAS ESPACIAIS As estruturas espaciais projetadas e construídas no Brasil utilizam, predominantemente, barras de seção tubular circular com extremidades estampadas ou com chapas de extremidades (ponteiras). Os tipos mais comuns de estampagem são apresentados na Figura 4. Reta Tradicional Nova Ponteira Figura 4 - Tipos de extremidades de barras utilizadas em estruturas espaciais A denominação das estampagens apresentadas na Figura 4 é a utilizada no âmbito do LE-EESC3, podendo haver outras nomenclaturas para as mesmas estampagens em lugares diferentes. Na prática corrente, de projeto de estruturas espaciais, os efeitos da variação de inércia não são considerados na determinação da força normal resistente desses elementos. Os motivos pelos quais esses efeitos são negligenciados serão comentados posteriormente. No entanto, percebe-se facilmente que a capacidade resistente dos elementos comprimidos é reduzida quando este apresenta variação de inércia. Essa redução é mais significativa para elementos com baixos valores de índice de esbeltez. 3 LE-EESC: Laboratório de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 49 2.1 Critérios de projeto para elementos comprimidos 2.1.1 Elementos sem variação de inércia Apresentam-se, a seguir, resumo e comentários sobre os procedimentos para dimensionamento de elementos comprimidos presentes em algumas normas de outros países e na norma brasileira NBR-8800(1986). EUROCODE (1992) O EUROCODE 3 (1992) adota a filosofia de curvas múltiplas de flambagem e apresenta um conjunto de 4 curvas que são representadas por uma formulação analítica, sendo cada curva, diferenciada em funçãoda forma da seção e do eixo de flambagem pelo parâmetro α, que também considera os efeitos das imperfeições iniciais e tensões residuais. Estas curvas são as mesmas desenvolvidas pelo ECCS4, entretanto, apresenta equacionamento um pouco diferente para o parâmetro de imperfeições iniciais. A força normal resistente à flambagem por flexão é dada por: N Af b Rd A y M . = χβ γ 1 χ φ φ λ = + − ≤ 1 1 2 2 0 5. ( )φ α λ λ= + − + 0 5 1 0 2 2 . . ( )λ β λ λ β= =A y cr A Af N 1 1 2 λ π 1 2 = E fy γM1: coeficiente de minoração do material. βA: fator que considera a flambagem local dos elementos da seção. χ: fator que considera o efeito da flambagem do elemento λ : esbeltez reduzida λ1 : esbeltez limite entre flambagem elástica e inelástica Ncr: Força normal crítica elástica (Euler) Os valores de α para cada curva são: curva a b c d α 0,210 0,340 0,490 0,760 NBR-8800 (1986) A norma brasileira para estruturas metálicas, no item elementos comprimidos, é baseada nas recomendações do EUROCODE e também adota as múltiplas curvas de flambagem provenientes do ECCS, com a seguinte formulação: N QA fc g y= φρ ρ = 1 0 0 2≤ ≤λ , ρ β β λ = − −2 2 1 λ > 0 2, φ: coeficiente de resistência do material. Q: fator que considera a flambagem local dos elementos da seção. ρ: fator que considera o efeito da flambagem do elemento 4 ECCS – European Convention for Constructional Steelwork Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 50 [ ]β λ α λ λ= + − + 1 2 1 0 042 2 2, λ π = = kL r f E f f y y e 2 λ : esbeltez reduzida fe= Tensão crítica elástica (Euler) Os valores de α para cada curva são: curva a b c d α 0,158 0,281 0,384 0,572 Ressalta-se que, para o caso de seções tubulares a NBR-8800, ao contrário do Eurocode, não faz diferenciação entre tubos com e sem solda de costura. A curva a, desta norma, seria aplicada corretamente somente para seções tubulares sem costura. AISC-LRFD (1994) O AISC-LRFD adota uma única curva de flambagem independente da seção transversal e eixo de flambagem. A equação desta curva foi estabelecida tomando como base a curva 2 do SSRC5 e admitindo uma imperfeição inicial com valor máximo de 1/1500 no meio do elemento. A expressão matemática da curva 2 do SSRC foi modificada a fim de se obter uma forma mais simples. f Qf Qa y= ≤0 658 15 2 , ,λ λ f Qf Qa y= > 0 877 152 . , λ λ λ π = = kL r f E f f y y e 2 Q: fator que considera a flambagem local dos elementos da seção 2.1.2 Elementos comprimidos com variação de inércia Com exceção do EUROCODE(1992) todas as normas citadas anteriormente são omissas em relação à determinação da força normal resistente para elementos comprimidos sujeitos a variação de inércia. Este fato, aliado a outras dificuldades do problema justifica, em parte, a não consideração da variação de inércia pelos projetistas. Segundo o EUROCODE(1992) a força normal resistente para elementos que apresentem variações de inércia pode ser calculada utilizando as mesmas curvas de flambagem para elementos de inércia constante. No entanto, a esbeltez reduzida (λ ) deve ser corrigida para levar em conta a variação de inércia. Fazendo uma analogia do EUROCODE (1992) com a NBR-8800(1986) temos: 5 SSRC – Structural Stability Research Council Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 51 Barras com inércia constante Barras com inércia variável λ π = = kL r f E f f y y e 2 λ * *= f f y e fe = tensão de flambagem elástica (EULER) fe* = tensão de flambagem elástica com variação de inércia (LUSAS) O procedimento sugerido pelo EUROCODE(1992), e que será utilizado incorporando o conceito λ * à NBR-8800(1986), torna-se uma possível solução para o problema. No entanto, não é um procedimento prático para ser utilizado em escritórios de projeto. A determinação da tensão de flambagem elástica fe* é muito trabalhosa, pois envolve equações bastante complexas e/ou simulações numéricas via MEF. As dificuldades agravam-se para o caso de elementos tubulares de seção circular com extremidades estampadas, uma vez que a variação de inércia não segue um padrão bem definido, de maneira que possibilite sua medição e equacionamento. Nos itens subseqüentes será aplicado o procedimento exposto anteriormente para se avaliar o comportamento de elementos comprimidos de seção tubular circular com extremidades estampadas, comparando os resultados teóricos com os resultados experimentais disponíveis 2.2 Análise de tubos circulares com variação de inércia Utilizando as recomendações do EUROCODE(1992) para elementos comprimidos com variação de inércia e aplicando-as às curvas de flambagem da NBR- 8800(1986), far-se-á um estudo dos elementos tubulares tipicamente utilizados nas estruturas espaciais no Brasil. Este estudo consiste em determinar, para barras de seção tubular de vários diâmetros, a força normal resistente considerando a variação de inércia nas extremidades, analisando seu comportamento e comparando com barras de seção constante. Neste estudo considerou-se as barras analisadas livres de flambagem local. Para o material foi utilizado aço tipo USI-SAC 41 com tensão de escoamento fy = 245MPa e módulo de elasticidade E=205000MPa. As condições de extremidades das barras são assumidas bi-rotuladas. Sabe-se que essa hipótese é uma simplificação, pois não reflete as condições reais de barras pertencentes a uma treliça espacial. Na estrutura existe uma situação intermediária entre rótula e engastamento. A tensão de flambagem elástica (fe* ) para elementos com variação de inércia será determinada pelo método dos elementos finitos utilizando o programa LUSAS. O elemento finito utilizado foi o BM3, constante na biblioteca do programa. O elemento possui três graus de liberdade por nó; duas translações ao longo dos eixos X e Y e rotação em torno do eixo Z. As estampagens estudadas podem ser divididas em três grupos: estampagem reta utilizada em barras unidas por nó típico (parafuso único), barras com aparelho de apoio nas estampagens retas, tradicional e nova e barras com chapas de ponteiras. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 52 Os resultados da análise teórica, para alguns tubos serão apresentados, de forma gráfica, comparando os “coeficientes de flambagem’ ρ (sem variação de inércia) e ρ* (com variação de inércia). Tubo φ 76x2,0 (estampagem reta nó típico) 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ inércia constante inércia variável C oe fic ie nt e de fl am ba ge m Índice de esbeltez Figura 5 - Gráfico (λ x ρ) com e sem variação de inércia, barra φ 76x2,0 Tubos φ 88x2,65 (barra com aparelho de apoio estampagem reta) 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ inércia constante inércia variável C oe fic ie nt e de fl am ba ge m Índice de esbeltez Figura 6 - Gráfico (λ x ρ) com e sem variação de inércia, barra φ 88x2,65 (estampagem reta) Tubos φ 88x2,65 (barra com aparelho de apoio estampagem tradicional). 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ inércia constante inércia variável C oe fic ie nt e de fl am ba ge m Índice de esbeltez Figura 7 - Gráfico (λ x ρ) com e sem variação de inércia, barra φ 88x2,65 (estampagem tradicional) Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, SãoCarlos, n. 20, p. 43-74, 2002 53 Tubos φ 88x2,65 (barra com aparelho de apoio estampagem nova) 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ inércia constante inércia variável C oe fic ie nt e de fl am ba ge m Índice de esbeltez Figura 8 - Gráfico (λ x ρ) com e sem variação de inércia, barra φ 88x2,65 (estampagem nova) Tubos φ 101x3,0 (barra com chapa de ponteira) 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ inércia constante inércia variável C oe fic ie nt e de fl am ba ge m Índice de esbeltez Figura 9 - Gráfico (λ x ρ) com e sem variação de inércia barra φ 101x3,0 Tubos φ 114x4,25 (barra com chapa de ponteira) 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ inércia constante inércia variável C oe fic ie nt e de fl am ba ge m Índice de esbeltez Figura 10 - Gráfico (λ x ρ) com e sem variação de inércia, barra φ 114x4,25 A análise teórica de tubos circulares com extremidades estampadas e com chapa de ponteira mostra que a variação de inércia tem grande influência na determinação da força normal resistente de um elemento comprimido. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 54 Para as extremidades estampadas diferentes padrões de estampagem levam a resultados diferentes, mas o comportamento é semelhante. Dentro do intervalo de esbeltez usual, que situa-se entre λ=70 e λ=120, tem-se reduções na capacidade resistente variando entre 5% e 10%. Para as extremidades com chapa de ponteira a redução na capacidade resistente ficou abaixo dos 5% para os índices de esbeltez usuais. No entanto, a espessura e o comprimento não enrijecido da ponteira alteram sensivelmente esses resultados. Quando a flambagem ocorre em regime inelástico (baixo valores de índice de esbeltez) a redução na força normal resistente é bastante elevada, aproximando-se dos 20% em relação a calculada com inércia constante. Pode-se afirmar que o dimensionamento de barras circulares com variação de inércia merece atenção especial por parte dos projetistas. Apesar dos resultados teóricos apresentados aqui não refletirem com total fidelidade o comportamento destes elementos quando inseridos na estrutura, é fácil perceber que uma barra dimensionada no limite de sua capacidade resistente, sem considerar a variação de inércia, pode conduzir a resultados contrários a segurança. O procedimento para se considerar o efeito da variação de inércia, apesar de simples, é muito trabalhoso inviabilizando seu uso prático. Para os casos gerais, aqui estudados, recomenda-se reduzir a capacidade resistente das barras em 20% para λ <70; 10% para esbeltez entre λ=70 e λ =120 e acima destes valores de esbeltez a redução é desnecessária. 2.3 Análise experimental de tubos circulares com variação de inércia GONÇALVES (1996) realizou estudos experimentais em tubos de aço retirados da cobertura espacial colapsada do centro de convenções de Manaus. O objetivo do estudo era comparar a capacidade resistente das barras com aquelas para as quais foram dimensionadas. Foram ensaiados 12 protótipos, divididos em três grupos (Tabela 3.12). Tabela 2 - Grupos de protótipos ensaiados por GONÇALVES (1996) Grupo Seção Comp. (mm) Extremidades A φ 76x2,26 4162 Estampagem reta B φ 101x3,0 4354 Ponteira C φ 114x4,25 4354 Ponteira Os comprimentos constantes na Tabela 2 correspondem ao comprimento entre faces extremas dos aparelhos de apoio que procuraram representar as condições de ligação da estrutura. Os enrijecimentos obtidos com as cantoneiras soldadas ao aparelho de apoio (figura 11) procuram reproduzir as condições de rigidez devido às barras que concorrem no nó. A Figura 11 apresenta esquematicamente os grupos de protótipos ensaiados. Nota-se a variação de inércia nas extremidades das barras. Os tubos utilizados para realização dos ensaios são conformados a frio com solda de costura em aço USI-SAC41 (fy=245MPa) e as chapas de apoio em aço ASTM-A36. Os parafusos são do tipo ASTM-A325. Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 55 GRUPO A GRUPO B GRUPO C Figura 11 - Protótipos ensaiados GONÇALVES (1996) Os protótipos foram ensaiados a compressão axial na posição vertical. A extremidade superior foi simplesmente apoiada na estrutura de reação e a extremidade inferior apoiada em uma superfície esférica junto à célula de carga. Pretendia-se simular um modelo bi-rotulado, no entanto, a extremidade superior junto à estrutura de reação oferece certa restrição ao giro. A Tabela 3 apresenta os resultados experimentais de força normal para as barras. Tabela 3 - Resultados experimentais. GONÇALVES (1996) Força normal critica experimental NU (KN) Protótipos Grupo A Grupo B Grupo C 1 18,2 165,1 258,3 2 17,1 124,7 307,4 3 23,8 164,9 240,1 4 24,2 185,5 300,4 Média 20,8 160,0 276,5 A tabela 4 apresenta um resumo comparativo entre os valores experimentais e teóricos para as barras ensaiadas. Os valores teóricos da força normal resistente foram calculados utilizando a norma NBR-8800 (1986). Considerou-se também a variação de inércia nas extremidades das barras. Admitiram-se extremidades rotuladas e as propriedades do material as nominais. Tabela 4 - Comparação resultados teóricos x experimentais (barra bi-rotulada) Nrot. λ Ncr(teor.) N*cr(teor.) Nu(exp.) Ncr/N*cr Nu/N*cr Nu/Ncr A 159 33,39 19,72 25,34 1,31 1,05 0,63 B 119 96,77 88,84 160,0 1,09 1,79 1,34 C 112 168,22 163,50 276,5 1,03 1,70 1,64 Ncr* Normal crítica teórica considerando variação de inércia ao longo da barra. As extremidades das barras junto à estrutura de reação não são exatamente rótulas uma vez que devido a sua configuração, podem oferecer restrições ao giro. Para efeito de comparação realizou-se uma análise teórica considerando a barra engastada na extremidade da estrutura de reação e rotulada na outra. Percebe-se que os valores são mais próximos dos teóricos quando estes são determinados admitindo o modelo rotulado - engastado. Esse comportamento, no entanto, não se verifica para as barras do Grupo A, o que pode ser atribuído a grande sensibilidade que o tipo de extremidade apresenta em relação às excentricidades, imperfeições iniciais e imperfeições relacionadas ao ensaio, bem como a grande possibilidade de formação de rótulas plásticas na região da estampagem. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 56 Os gráficos das Figuras 12 a 14 apresentam as curvas de flambagem teóricas da NBR-8800(1986), “curva a” juntamente com os resultados experimentais (valores médios) obtidos para as barras ensaiadas. Nestes gráficos é plotado o lugar geométrico dos valores experimentais, ou seja, um segmento de reta horizontal entre as esbeltezes correspondentes ao modelo bi-rotulado e engastatado-rotulado. Adotou-se esse procedimento pois, como foi comentado anteriormente, não se pode precisar o índice de esbeltez efetivo da barra ensaiada. 40 60 80 100 120 140 160 180 200 20 40 60 80 100 120 λ inércia cont. inércia var. experimental N or m al re si st en te (k N ) Índice de esbeltez Figura 12 - Resultados teóricos x experimentais φ 76x2,25 No gráfico da Figura 12 é grande a diferença entre os valores teóricos de força normal resistente com e sem variação de inércia. Analisando o detalhe da extremidade desta barra nota-se um trecho com rigidez muito baixa (chapa do aparelho de apoio), o que pode causar diferenças significativas como as apresentadas na Figura 12. O que ocorre é que este trecho plastifica, transformando-se em um ponto de inflexão e alterando as condições de vinculação do elemento. 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 2040 60 80 100 120 140 160 180 200 λ inércia cont. inércia var. experimental N or m al re si st en te (k N ) Índice de esbeltez Figura 13 - Resultados teóricos x experimentais φ 101x3,0 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 λ inércia cont. inércia var. experimental N or m al re si st en te (k N ) Índice de esbeltez Figura 14 - Resultados teóricos x experimentais φ 141x4,25 Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 57 Nos ensaios dos tubos φ 101x3,0 e φ 141x4,25, a forma de ruína predominante caracterizou-se pela plastificação das seções da chapa de ponteira na região da ligação entre a barra e as chapas de nó, devido a rotações na direção de menor inércia. Para as barras do Grupo A, ao contrário dos outros grupos, os valores de força crítica experimentais resultaram menores que os teóricos. Isso pode ser explicado devido a grande influência da variação de inércia nas extremidades dessas barras que é mais sensível que as extremidades com chapas de ponteiras (grupos B e C). Este fato pode ser comprovado analisando a Tabela 4 onde se percebe que a força crítica experimental aproxima-se bastante da teórica com variação de inércia. Comparando-se os resultados teóricos com e sem variação de inércia percebe-se uma grande redução na capacidade resistente das barras. Para a estampagem do grupo A chega-se a reduções da ordem de 50% na força normal resistente, para as esbeltezes usuais. Para as extremidades dos grupos B e C as reduções na força normal resistente situam-se em torno de 5% para as esbeltezes usuais. A redução na força normal resistente, sob influência da variação de inércia, é mais significativa quando ocorre flambagem inelástica. É necessário salientar que os ensaios de barras isoladas dificilmente representam seu comportamento na estrutura, pois pouco se sabe sobre o comportamento dos nós de tubos amassados e de chapa de ponteira, que exercem grande influência no comportamento da barra e da estrutura como um todo. MALITE et al.(1997) realizaram ensaios de compressão axial em tubos de aço, de seção circular, com extremidades estampadas. O objetivo dos ensaios era comparar o comportamento estrutural na compressão axial de três diferentes tipos de estampagens de extremidades. Foram ensaiados 27 barras (φ 88x2,65), sendo três tipos de estampagens diferentes e para cada uma, três diferentes valores de esbeltez (λ=60, 100, 140) que correspondem a comprimentos, entre placas de apoios, de 1.800mm, 3.000mm e 4.200mm respectivamente. Os protótipos utilizados para realização dos ensaios foram conformados a frio em aço USI-SAC41. A Figura 15 apresenta os modelos de barras e as estampagens (reta, tradicional, nova) ensaiados. Aparelho de Reta Tradicional Nova apoio Figura 15 - Modelos de estampagens ensaiados e aparelho de apoio Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 58 Os protótipos foram ensaiados em posição horizontal. Uma extremidade foi simplesmente apoiada na laje de reação e a outra extremidade apoiada em uma superfície esférica junto à célula de carga. Na posição horizontal a montagem do ensaio é facilitada e também representa uma das posições nas quais a barra se encontra dentro de uma treliça espacial, banzos horizontais ou diagonais inclinadas. Realizou-se caracterização do material mediante ensaio de tração segundo recomendações da ASTM A370-92. Do ensaio determinou-se um valor de fy=421MPa para tensão de escoamento e fu=465MPa para limite de resistência a tração. As tabelas 5 a 7 apresentam um resumo comparativo entre os valores experimentais e teóricos para cada estampagem das barras ensaiadas. Os valores teóricos da força normal resistente foram calculados utilizando a norma NBR-8800 (1986), considerou-se também a variação de inércia nas extremidades das barras. Admitiram-se extremidades rotuladas e as propriedades do material as nominais. Tabela 5 - Estampagem reta λ Ncr(teor.) N*cr(teor.) Pu(exp.) Ncr/N*cr Pu/N*cr Pu/Ncr 60 134.64 117,40 109,67 1,15 0,93 0,81 100 95,50 86,10 108,0 1,11 1,25 1,13 140 56,36 54,80 74,33 1,03 1,36 1,32 Tabela 6 - Estampagem tradicional λ Ncr(teor.) N*cr(teor.) Nu(exp.) Ncr/N*cr Nu/N*cr Nu/Ncr 60 134.64 127,80 151,7 1,06 1,19 1,13 100 95,50 92,37 121,0 1,03 1,31 1,27 140 56,36 56,36 74,33 1,0 1,32 1,32 Tabela 7 - Estampagem nova λ Ncr(teor.) N*cr(teor.) Nu(exp.) Ncr/N*cr Nu/N*cr Nu/Ncr 60 134.64 128,38 146,33 1,05 1,14 1,09 100 95,50 92,37 130,6 1,04 1,41 1,38 140 56,36 56,36 69,67 1,0 1,24 1,24 Da mesma forma do ensaio apresentado anteriormente, fez-se uma análise comparativa de valores teóricos e experimentais, sendo que a barra, neste caso, foi considerada rotulada em uma das extremidades (superfície esférica) e engastada na outra (extremidade junto à estrutura de reação). Para essas condições de vinculação os índices de esbeltez passam a λ=42, 70, 98. Os gráficos das Figuras 16 a 18 apresentam as curvas de flambagem teóricas da NBR-8800(1986), “curva a”, utilizando a tensão de escoamento nominal e experimental, juntamente com os resultados experimentais (valores médios) obtidos para as barras ensaiadas. Nestes gráficos está plotado o lugar geométrico dos valores experimentais, ou seja, um segmento de reta horizontal entre as esbeltezes correspondentes ao modelo bi- rotulado e engastatado-rotulado. Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 59 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 inércia const. f y =245MPa inércia const. f y =421MPa inércia var. f y =245MPa inércia var. f y =421MPa experimental N or m al re si st en te (k N ) Índice de esbeltez 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 inércia const. f y =245MPa inércia const. f y =421MPa inércia var. f y =245MPa inércia var. f y =421MPa experimental N or m al re si st en te (k N ) Índice de esbeltez Figura 16 - Comparação resultados teóricos x experimentais (estampagem reta) Figura 17 - Comparação resultados teóricos x experimentais (estampagem tradicional) 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 inércia const. f y =245MPa inércia const. f y =421MPa inércia varf y =245MPa inércia var. f y =421MPa experimental N or m al re si st en te (k N ) Índice de esbeltez 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 ρ λ tubo seção const. tubo estampagem reta tubo estampagem trad. tubo estampagem nova co ef ic ie nt e de fl am ba ge m índice de esbeltez Figura 18 - Comparação resultados teóricos x experimentais (estampagem nova) Figura 19 - Resultados comparativos entre estampagens (reta, tradicional e nova) tubos φ 88x2,65 O gráfico da Figura 19 apresenta uma análise teórica comparativa entre as três estampagens estudadas, com barras de mesmas dimensões e inércia constante ao longo do comprimento. As curvas representam a capacidade resistente, considerando a variação de inércia, para as barras com os três modelos de estampagens. Analisando os resultados experimentais percebe-se, como era esperado, grande dispersão para baixos índices de esbeltez. Este fato comprova a influência das estampagens de extremidade, bem como as imperfeições iniciais e de ensaio sob o comportamento das barras isoladas. Ressalta-se que a análise de barras isoladas, tanto teórica quanto experimental, é uma aproximação que não reflete o real comportamentodestes elementos em uma estrutura espacial. 3 LIGAÇÕES EM ESTRUTURAS ESPACIAIS O tipo de ligação a ser utilizada em estruturas espaciais é resultado da combinação dos seguintes fatores: forma da estrutura, disposição dos elementos e tipos de seção transversal. Normalmente os esforços solicitantes em treliças espaciais são determinados considerando nós rotulados, porém, um detalhe de ligação que garanta esse comportamento é muito difícil e, sendo assim, a rigidez da ligação influencia sensivelmente o comportamento da estrutura. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 60 Em estruturas metálicas, de modo geral, as ligações entre elementos costumam ser um item oneroso em termos de custo, principalmente quando não são adequadamente detalhadas. Pelas razões acima citadas o estudo de ligações em estruturas espaciais assume um papel importante para o desenvolvimento desse sistema estrutural. 3.1 Dispositivos de ligação Existe uma infinidade de sistemas de ligações utilizáveis em estruturas espaciais. Alguns destes são sistemas patenteados, bem caracterizados experimentalmente. Outros, no entanto, são detalhes de ligações geralmente empíricos, projetados na base da intuição e experiência, sem quaisquer estudos que confirmem seu comportamento, ou baseado em hipóteses simplistas. Não é comum o uso de ligação completamente soldada, já que esta apresenta custo elevado e dificuldades construtivas quando comparada a ligações parafusadas. Um dos poucos exemplos de ligações soldadas pode ser visto na Figura 20. Figura 20 - Sistema de nó OKTAPLATTE (Alemanha) A maioria dos sistemas de nós patenteados são desenvolvidos para estruturas formadas por elementos de seção tubular. Neste caso, o sistema pode ser divido em: elemento estrutural (tubo), nó esférico (ou de formato aproximadamente esférico) e um dispositivo conector. As figuras subseqüentes apresentam sistemas de ligações que seguem este padrão. Figura 21 - Sistema MERO (Alemanha) Figura 22 - VESTRUT (Itália) O sistema MERO foi um dos primeiros sistemas de ligação patenteados para estruturas espaciais. Foi desenvolvido na Alemanha em 1942-43 pelos Engenheiros MENGERINGHAUSEN e ROHBAUWWISE. O MERO é formado por uma esfera de aço com dimensões padronizadas, função dos diâmetros das barras a serem ligadas. Podem ser conectadas com este sistema até dezoito barras em planos diferentes, sem gerar excentricidades na ligação. O nó MERO é de uso mais difundido em todo mundo, inclusive no Brasil onde temos várias estruturas que utilizam o sistema alemão. Em alguns sistemas de ligações, bastante comuns, o nó é formado por associação de chapas planas que são conectadas às barras através de parafusos. As figuras abaixo mostram alguns desses sistemas. Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 61 Figura 23 - Sistema de ligação Italiano Figura 24 - Sistema ECO (Itália) As ligações em estruturas espaciais podem ser realizadas sem qualquer tipo de dispositivo especial, neste caso as barras são conectadas juntas através de parafusos. Neste tipo de detalhe de nó, muitas vezes é necessário variar a seção nas extremidades dos elementos, para facilitar a ligação entre eles. A Figura 25 exemplifica este tipo de ligação. Figura 25 - Sistema de ligação CATRUS 3.2 Dispositivos de ligação utilizados no Brasil No Brasil, com exceção de algumas obras que utilizam o sistema MERO, as ligações em treliças espaciais são realizadas por amassamento das extremidades das barras que são justapostas, para formar um nó conectado por um único parafuso. Utilizam-se também ligações através de chapas de aço isoladas (ponteiras) ou associações de chapas formando um nó capaz de receber barras em várias direções. Os principais sistemas de ligações utilizados no Brasil serão descritos a seguir, ressalta-se que as denominações dos detalhes de nós apresentados aqui não são padronizadas o que não impede que se encontre, em textos ou catálogos técnicos, o mesmo nó com outras denominações. 3.2.1 Nó típico É o mais comum e também o que merece mais atenção quanto ao seu desempenho dentre os sistemas de ligações brasileiros. A Figura 26 apresenta um exemplo desta conexão em que oito barras com extremidades amassadas são unidas por um único parafuso. Figura 26 - Nó típico Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 62 Esse sistema de nó apresenta alguns problemas. Em primeiro lugar o fato das barras serem ligadas por apenas um parafuso, contrariando as recomendações correntes de utilizar no mínimo dois parafusos por ligação. Em segundo lugar, é fácil perceber excentricidades na ligação, o que provoca o surgimento de momentos fletores nas barras, que pode acarretar em plastificação precoce nas extremidades amassadas, sobretudo nas diagonais que também tem as extremidades dobradas. A plastificação precoce, oriunda da flexão devido a forças normais excêntricas e à variação de inércia das extremidades reduz a capacidade resistente das barras. Outro problema é o escorregamento entre as barras que são conectadas por um único parafuso. O escorregamento relativo entre as barras que formam o nó produz aumento significativo nos deslocamentos verticais na estrutura. 3.2.2 Nó típico com chapa complementar O nó típico com chapa complementar é bastante semelhante ao detalhe típico apresentado na Figura 26, a diferença é que são utilizadas chapas horizontais para ligar as barras do banzo (Figura 27). Essas chapas são empregadas quando os esforços nos banzos são elevados e de tal ordem que o uso de apenas um parafuso torna-se inviável. Figura 27 - Nó típico com chapa complementar Esta ligação apresenta, além dos aspectos relatados para o nó típico, um problema adicional que é o fato das chapas que fazem a ligação dos banzos possuírem pequena rigidez. Para os banzos comprimidos a menor excentricidade, perpendicular ao plano da chapa, pode comprometer o desempenho da ligação. 3.2.3 Nó com chapa de extremidade (ponteiras) O nó é formado por duas chapas paralelas soldadas em um rasgo na extremidade do tubo e conectadas a chapas de apoio por meio de parafusos. A Figura 28a apresenta uma foto, na estrutura, de um nó com ponteira. Exceto devido a problemas construtivos, este detalhe de nó não introduz excentricidades nas ligações. No entanto, as chapas de extremidades apresentam baixa rigidez perpendicular a seu plano. Barras com extremidades em ponteiras com chapas muito esbeltas podem apresentar reduções na capacidade de força normal resistente. Uma alternativa para minimizar este problema é a adoção de chapas (aletas) soldadas perpendicularmente às ponteiras, que funcionam como enrijecedores melhorando o desempenho da ligação. (Figura 28b). Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 63 Figura 28a - Nó com chapa de ponteira Figura 28b - Ponteiras c/ aletas perpendiculares enrijecedoras 3.2.4 Nó de aço Dentre os sistemas de ligação apresentados, o nó de aço é o que tem melhor desempenho, produzindo efetivamente um nó de melhor comportamento estrutural. A foto da Figura 29 apresenta um nó de aço na estrutura. Figura 29 - Nó de aço As chapas de composição utilizadas para formar o nó podem ser convenientemente escolhidas de modo que confiram boa rigidez ao conjunto. Não existem problemas com excentricidade, uma vez que as barras concorrem para um único ponto. Resta somente o problema da variação de inércia nas extremidades das barras. É importante ressaltar que, na prática corrente de projetos, os esforços solicitantes nos elementos de treliças espaciaissão determinados supondo-se o modelo de treliça ideal, ou seja, nós rotulados e barras com inércia constante ao longo do seu comprimento. Os detalhes de ligações de uso comum, aqui apresentados, não reproduzem bem as hipóteses de cálculo assumidas. Por outro lado, não existem estudos que expliquem detalhadamente o comportamento destas ligações como também não existem programas práticos que considerem a rigidez da ligação no comportamento da estrutura. Fica então o alerta para o uso cauteloso desses detalhes de ligação e a sugestão para pesquisas mais específicas sobre o comportamento e análise das ligações em estruturas espaciais empregadas no Brasil. Esses estudos devem ter embasamento experimental aliado a análises numéricas. 4 ANÁLISE TEÓRICA E EXPERIMENTAL DE TRELIÇAS ESPACIAIS A utilização de estruturas espaciais tem crescido bastante nos últimos anos, em contrapartida tem crescido também os problemas com este tipo de estrutura acarretando colapso parcial e total de algumas obras. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 64 A grande maioria dos problemas deve-se ao escasso conhecimento sobre o comportamento das estruturas espaciais, principalmente nas tipologias empregadas no Brasil. Com o intuito de suprir a deficiência sobre o comportamento das estruturas espaciais em seus diversos aspectos, o Depto. de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos vem desenvolvendo há alguns anos pesquisas sobre o comportamento, projeto e construção de estruturas metálicas espaciais. A análise experimental é imprescindível na busca do conhecimento do funcionamento estrutural das estruturas espaciais, devido às suas características especiais e, em particular, à dificuldade de simulação e análise dos nós que as compõem. A primeira fase dos estudos experimentais consistiu em ensaios de barras isoladas com extremidades estampadas. Inicia-se agora um programa experimental em que serão ensaiados protótipos de treliças espaciais. Estão previstos inicialmente ensaios em quatro protótipos, com elementos tubulares e ligações em nós típicos e nós de aço, com dimensões em planta de 7,5x7,5m. Pretende-se, com esses estudos, detectar os principais problemas inerentes às estruturas espaciais comumente utilizadas no Brasil e buscar soluções para os mesmos. Possibilitando uma utilização segura do sistema estrutural em treliças espaciais, explorando todas as suas vantagens. A análise experimental do primeiro desse conjunto de protótipos será apresentada neste trabalho. 4.1 Descrição da estrutura ensaiada A estrutura ensaiada é uma treliça espacial formada por elementos tubulares de seção circular. Os tubos são conformados a frio com solda de costura em aço USI-SAC- 41 (fy=245MPa). A geometria e dimensões da estrutura ensaiada são apresentadas na Figura 30. Figura 30 - Detalhe da estrutura ensaiada As seções dos elementos utilizados na treliça espacial e suas respectivas resistências à compressão são apresentadas na Tabela 8. A resistência à compressão Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 65 das barras foi calculada segundo a NBR-8800(1986). Determinou-se, também, a resistência à compressão considerando a variação de inércia nas extremidades das barras. Tabela 8 - Seções dos elementos da treliça e resistência a compressão Tubo Utilização Comp. (mm) Esbeltez Nck (kN) Ncr* (kN) φ 60x2,0 diagonal 2318 113,0 41,0 35,3 φ 76x2,0 banzo 2500 95,4 70,7 66,6 diagonal 2318 88,5 65,6 61,5 φ 88x2,65 diagonal 2318 77,0 120,5 112,7 Ncr* Força normal resistente considerando variação de inércia na barra. O sistema de ligação utilizado é o denominado nó típico, formado pela superposição de barras com extremidades estampadas e conectadas por um único parafuso. Nos pontos de aplicação de força foram utilizados nós de aço para facilitar a montagem do atuador hidráulico. Os parafusos utilizados em todas as ligações são do tipo ASTM-A325. 4.2 Instrumentação e metodologia do ensaio Os deslocamentos verticais e horizontais da estrutura foram medidos por meio de transdutores de deslocamentos da marca KYOWA, com sensibilidade de 0,02 e 0,04 e fundo de escala de 50,0mm e 100,0mm respectivamente. O posicionamento dos transdutores na estrutura é apresentado na Figura 31 Para a medição das deformações nas barras utilizou-se extensômetros elétricos de resistência da marca KYOWA, modelo KFG-5-120C1-11, com base de 5,0mm, resistência de 120Ω e ‘gage factor’ de 2,15. Foram instrumentadas 16 barras da estrutura, sendo algumas barras com dois e outras com quatro extensômetros na seção transversal a meio comprimento. A instrumentação completa da estrutura pode ser vista na Figura 31 com as respectivas numerações das barras e nós em que foram feitas medições de deformações e deslocamentos. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 66 Figura 31 - Instrumentação da estrutura As forças foram aplicadas nos nós do banzo inferior (4 nós ver Figura 31) por meio de atuadores hidráulicos com pistão vazado da marca ENERPAC, modelo RCH com capacidade de 300,0kN, para a medição das forças aplicadas utilizou-se células de carga com capacidade de 300,0kN, fabricadas no LE-EESC. Toda a instrumentação foi conectada a um sistema de aquisição automática de dados, o SYSTEM 4000. A Figura 32 exibe uma visão geral do ensaio. Figura 32 - Visão geral do ensaio Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 67 A primeira fase do ensaio correspondeu ao escorvamento da estrutura, a fim de detectar possíveis falhas nos equipamentos e garantir a perfeita acomodação da estrutura. Para isso aplicou-se à estrutura uma força total de 12,5kN por nó dividida em três etapas de carregamento. Após esta fase, a estrutura foi descarregada e iniciado o ensaio propriamente dito com incrementos de carga de 5,0kN por nó. 4.3 Análise experimental 4.3.1 Ensaio de caracterização mecânica do aço A caracterização mecânica do aço foi feita mediante ensaio de tração axial, conforme especificação ASTM-A370-92 (Standard test methods and definitions for mechanical testing of steel products). Para cada diâmetro de tubo utilizado na estrutura foram retirados quatro corpos de prova. Os corpos de prova foram ensaiados em máquina universal da marca INSTRON instrumentados com extensômetro removível (clip gage). Os resultados da caracterização são apresentados na Tabela 9. Tabela 9 - Resultados da caracterização mecânica do aço Tubo C.P. A (%) fy(med) (MPa) fu(med) (MPa) 1* 17,6 542,7 575,2 φ 60x2,0 3 24,9 420,5 477,9 1* 15,6 504,0 544,0 φ 76x2,0 3 26,7 374,0 457,1 1* 19,4 473,8 520,3 φ 88x2,65 3 32,0 358,8 448,1 fy = limite de escoamento convencional (offset 0,2%) fu = limite de resistência à tração A = alongamento máximo na ruptura (base de medida 50mm) 1* = corpo de prova retirado na região da costura 4.3.2 Ensaio da estrutura Havia sido prevista a necessidade da aplicação de uma força de 60,0kN (análise linear e barras com inércia constante) por nó para a estrutura ensaiada, neste nível de carregamento ocorreria falha dos banzos comprimidos (carga crítica de flambagem). No entanto, o ensaio foi interrompido quando o nível de carga atingiu 40,0kN por nó, sendo a ruína da estrutura caracterizada pelo colapso da ligação. Todos os nós da estrutura sofreram rotação, evidenciando o aparecimento de momentos fletores devido a forças excêntricas, isso ocasionou plastificação nas seções dos banzos e diagonais comprimidas na região da estampagem. A Figura 33 apresenta a configuração de alguns nós da estrutura após a ruína.Figura 33 - Configuração dos nós da estrutura após a ruína Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 68 4.4 Análise teórica Os protótipos foram analisados, via elementos finitos, utilizando-se o programa LUSAS. O elemento finito utilizado na análise é o BS3, com seis graus de liberdade por nó (três translações e três rotações), constante na biblioteca de elementos do programa. Utilizou-se elemento finito de viga com a intenção de avaliar os momentos fletores que surgem nas ligações devido a excentricidades e também para considerar a variação de inércia nas extremidades das barras. Serão consideradas nas análises as variações de inércia nas extremidades das barras, conseqüência do tipo de ligação utilizado no protótipo ensaiado. Para isso as barras da estrutura foram discretizadas considerando a variação de inércia nas extremidades devido à estampagem. Realizou-se um levantamento das propriedades das seções transversais dessas extremidades que são apresentadas na Figura 34. φ 76x2,0 φ 60x2,0 φ 88x2,65 Figura 34 - Variação de inércia ao longo do comprimento das barras - nó típico Para o caso de nós típicos não se pode determinar , com precisão , a rigidez do trecho correspondente ao nó. Portanto, idealizou-se duas situações extremas: - na primeira hipótese, o nó foi formada por uma barra equivalente com largura igual ao tubo estampado e espessura igual a altura dos tubos superpostos na região da ligação. Esta barra possui comprimento de 6,0cm a partir do PT ( eixo do parafuso) até o início do trecho de seção variável. - na segunda hipótese foi considerado o trecho nodal com a inércia correspondente somente a um tubo com a extremidade estampada. Entre esses dois extremos foram feitas análises intermediárias com inércia do trecho nodal equivalendo a 5% e 10% da inércia do nó formado por superposição dos tubos. 4.5 Comparação de relutados teóricos x experimentais O gráfico da Figura 35 apresenta os resultados de deslocamentos verticais para vários valores de rigidez do nó em comparação com deslocamentos obtidos experimentalmente. Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 69 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 0 40 80 120 160 200 240 280 320 360 400 440 Linear NLG - I=100% NLG - I=10% NLG - I=5% NLG - I=tubo Experimental Fo rç a ap lic ad a (k N ) Deslocamentos verticais (cm) NOTAS 1 I =100% - inércia do trecho nodal correspondente a inércia da seção formada pela superposição de todas as barras estampadas concorrentes no nó. 2 I = 10% e I=5%- porcentagens relativas à inércia da seção definida em 1. 3 I = tubo - inércia do trecho nodal correspondente à inércia da seção formada pelo tubo com extremidade estampada. Figura 35 - Deslocamentos verticais máximos Pelo gráfico da Figura 35 percebe-se que o modelo teórico comumente utilizado, ou seja, treliça ideal e análise linear, não representa o modelo físico fornecendo resultados muito discrepantes dos resultados experimentais. Quando são inseridas no modelo teórico as variações de inércia nas extremidades das barras e realizada a análise não linear os resultados teóricos tornam-se mais próximos dos experimentais. Neste modelo os resultados são significativamente afetados pela rigidez dos trechos de barras que formam os nós. Analisando as várias possibilidades de simulação do trecho de variação de inércia, percebe-se que considerando o trecho nodal como uma barra de inércia equivalente à sobreposição das barras nesta região, não produz bons resultados quando comparado aos resultados experimentais. A melhor correlação entre resultados teóricos e experimentais foi obtida quando se utiliza, para inércia do trecho nodal, apenas a inércia da extremidade estampada do tubo ou uma inércia equivalente a 5% da inércia do nó formado pela superposição das barras concorrentes neste ponto. Para deformações axiais, os valores teóricos adotados para comparação com os resultados experimentais são os correspondentes ao modelo cuja inércia da seção do trecho nodal corresponde a inércia do tubo com extremidade estampada. Esse procedimento foi adotado por duas razões: primeiro, este é o modelo que mais se aproxima do modelo físico e segundo, não existiram grandes variações nas deformações entre os modelos teóricos analisados anteriormente, esse resultados são apresentados nos gráficos das figuras seguintes. 0 -50 -100 -150 -200 -250 -300 -350 -400 -450 -500 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 barra 11 - exp. barra 13 - exp. teórico - NLG téorico - ideal Fo rç a ap lic ad a (k N ) ε(µε) 0 -50 -100 -150 -200 -250 -300 -350 -400 -450 -500 -550 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 barra 15 - exp. barra 16 - exp. teórico - NLG teórico - idealFo rç a ap lic ad a (k N ) ε(µε) Figura 36 - Deformações axiais teóricas e experimentais diagonais de apoio - barras 11 e 13 Figura 37 - Deformações axiais teóricas e experimentais diagonais de apoio - barras 15 e 16 Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 70 0 -50 -100 -150 -200 -250 -300 -350 -400 -450 -500 -550 -600 -650 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 barra 3 - exp. barra 4 - exp. teórico - NLG teórico - idealF or ça a pl ic ad a (k N ) ε(µε) 0 -50 -100 -150 -200 -250 -300 -350 -400 -450 -500 -550 -600 -650 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 barra 5 - exp. barra 6 - exp. teórico - NLG teórico - idealFo rç a ap lic ad a (k N ) ε(µε) Figura 38 - Deformações axiais teóricas e experimentais banzos superiores - barras 3/4 Figura 39 - Deformações axiais teóricas e experimentais banzos superiores - barras 5/6 Como era esperado o efeito não linear não afeta, de maneira significativa, as deformações nas barras (nas seções onde foram medidas). No entanto, os deslocamentos são sensivelmente afetados pelos efeitos da não linearidade geométrica quando a estrutura é modelada considerando a variação de inércia nas extremidades das barras. 0 50 100 150 200 -20 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 ε(µε) barra 12 - exp. barra 14 - exp. teórico - NLG teórico - ideal Fo rç a ap lic ad a (k N ) 0 50 100 150 200 250 300 350 -20 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 barra 1 - exp. barra 2 - exp. teórico - NLG téorico - ideal Fo rç a ap lic ad a (k N ) ε(µε) Figura 40 - Deformações axiais teóricas e experimentais diagonais tracionadas Figura 41 - Deformações axiais teóricas e experimentais banzos inferiores tracionados Ao contrário do que ocorre para os deslocamentos, o modelo de treliça ideal representa bem o modelo físico para o caso de esforços axiais em barras. Os gráficos das Figuras 36 a 40 mostram que os resultados experimentais para deformações em barras, salvo perturbações devido a escorregamento relativo entre barras nos nós, são praticamente lineares e apresentam boa correlação com os resultados experimentais, tanto para o modelo de treliça ideal como para o modelo com variação de inércia nas barras e análise não linear geométrica. 6 CONCLUSÕES Inicialmente é interessante ressaltar a grande carência de pesquisas específicas sobre as tipologias de estruturas espaciais construídas no Brasil, são poucos os trabalhos desenvolvidos neste campo da engenharia estrutural em nosso país. Os elementos tubulares são os mais utilizados nas estruturas espaciais no Brasil e em virtude dos sistemas de ligação empregados, apresentam grandes variações de inércia nas regiões das extremidades, Os elementos tubulares comprimidos com variação de inércia apresentam reduções na força normal resistente; este fato foi comprovado por resultados teóricos e experimentais apresentadosneste trabalho e em trabalhos anteriores desenvolvidos no Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC. Contribuição ao estudo de estruturas metálicas espaciais Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 71 A metodologia utilizada no cálculo corrente não considera a redução na força normal resistente advinda da variação de inércia; este fato poderia ser explicado pela ausência de recomendações explícitas em códigos de projeto sobre a consideração da variação de inércia no dimensionamento de barras comprimidas, exceção feita ao Eurocode 3. Para os elementos tubulares com extremidades estampadas e extremidades com ponteiras a redução na força normal resistente é, em geral, superior a 20% quando estes elementos apresentam flambagem em regime inelástico, principalmente para índices de esbeltez inferiores a 60. Para as barras com extremidades estampadas com esbeltez entre 70 e 120 tem- se reduções na força normal resistente variando entre 5% e 10%. Em barras com chapas de ponteiras e extremidades estampadas utilizando aparelhos de apoio, constituído de chapas de aço soldadas, a redução na capacidade resistente para esbeltezes usuais é da ordem de 10%, no entanto, a sensibilidade destas ligações está associada às espessuras e comprimentos não enrijecidos das chapas e regiões amassadas, que geralmente controlam a falha do elemento. Ressalta-se, portanto, a necessidade de continuidade das pesquisas no sentido de se criar rotinas práticas para se considerar a variação de inércia no dimensionamento de barras ou coeficientes de redução adequados. Resultados teóricos e experimentais, além da análise de estruturas que apresentaram colapso, revelam deficiências nas ligações utilizadas no Brasil, principalmente o nó típico, no entanto, esses sistemas apresentam baixo custo e facilidade de execução sendo, portanto, importante o desenvolvimento de estudos mais detalhados que permitam sua utilização com segurança. Neste trabalho foi apresentado o ensaio de um protótipo, que é o primeiro de uma série de ensaios de um programa experimental em treliças espacial que se inicia no Departamento de Estruturas da EESC-USP. Acredita-se ser a análise experimental o caminho natural para o estudo do comportamento das treliças espaciais, associado ao desenvolvimento de programas de computador, que melhor representem essas estruturas. A estrutura ensaiada apresentou comportamento força aplicada x deslocamento fortemente não linear, comportamento este que não pode ser previsto com os modelos teóricos normalmente utilizados. A capacidade resistente da estrutura resultou em cerca de 60% da prevista com análise linear e barras com inércia constante, a falha foi caracterizada pela ruína das ligações, com rotações excessivas, escorregamento relativo entre barras e plastificação na região do nó. A rotação dos nós aconteceu, principalmente, devido a forças excêntricas que concorrem no nó. O escorregamento relativo entre barras conduziu a aumento significativo nos deslocamentos verticais da estrutura e constitui-se em um aspecto deste sistema de ligação que deve ser considerado. Dentre os modelos teóricos adotados na análise numérica da estrutura espacial ensaiada, o que mais aproxima aos resultados experimentais é o modelo de pórtico espacial considerando a variação de inércia nas barras e utilizando análise não linear. Um aprofundamento na análise experimental de protótipos de grandes dimensões e dos nós utilizados nestas estruturas poderá conduzir a um maior entendimento do comportamento global das treliças espaciais e principalmente dos sistemas de ligação, cujo comportamento estrutural poderia ser considerado de forma limitada e estabelecendo critérios adequados, que permitam a sua utilização com segurança. Alex Sander Clemente de Souza & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 43-74, 2002 72 Aliando a análises experimentais, estudos utilizando técnicas numéricas deverão ser realizados para conduzir a modelos mais próximos do comportamento das estruturas espaciais. Um dos trabalhos poderia desenvolver, por exemplo, um elemento finito específico para treliças espaciais com barras de seções variáveis que incorporasse esses efeitos, mesmo que de forma simplificada, facilitando e agilizando o trabalho dos projetistas de estruturas espaciais. A continuidade nas pesquisas em torno do comportamento das estruturas espaciais com os sistemas de ligações utilizados no Brasil, bem como de novos sistemas alternativos e de modelos teóricos representativos que melhor os representassem, iriam contribuir para melhorar a capacidade de projetar e construir estruturas espaciais com mais qualidade e segurança. 7 BIBLIOGRAFIA AMERICAN INSTITUTE OF STEEL CONSTRUCTION (1994). LRFD - Load and resistance factor design. Chicago, AISC. AMERICAN IRON AND STEEL INSTITUTE (1991). LRFD - Load and resistance factor design specification for cold-formed steel design manual. Washington, DC. AMERICAN SOCIETY OF CIVIL ENGINEERS (1972). Bibliography on latticed structures. Journal of the Structural Division, v.98, n.7, p.1545-1566, July. AMERICAN SOCIETY OF CIVIL ENGINEERS (1976). Latticed structures: state-of-the- art report. Journal of the Structural Division, v.102, n.11, p.2197-2230, Nov. ASHRAF, M. et al. (1993). Composite double-layer bridge grids. 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Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 ANÁLISE NUMÉRICA E EXPERIMENTAL DE ESTRUTURAS ESPACIAIS CONSTITUÍDAS DE BARRAS DE EXTREMIDADES ESTAMPADAS: ESTUDO DOS NÓS Adriano Márcio Vendrame1 & Roberto Martins Gonçalves2 R e s u m o A proposição deste trabalho está relacionada com a crescente utilização, no Brasil, de estruturas espaciais planas e também cúpulas constituídas por elementos tubulares de seção transversal circular em aço e alumínio, utilizando o sistema de ligação denominado nó típico. Este estudo tem como objetivo simular o comportamento deste sistema de ligação, mesmo que simplificadamente, quando o mesmo se encontra inserido na estrutura. Para isto, todas as extremidades das barras que se sobrepõem para formação do sistema de ligação foram modeladas com elemento de casca para melhor conhecer a distribuição de tensões nesta região. Sendo uma análise experimental imprescindível para avaliar se as hipóteses adotadas nos modelos matemáticos são convenientes, o nó típico, discretizado com elemento de casca, foi inserido em uma estrutura espacial plana, uma vez que podíamos dispor dos resultados experimentais de protótipos deste tipo de estrutura, ensaiados no Laboratório de Engenharia de Estruturas da EESC-USP. O protótipo é constituído por elementos tubulares de seção circular em aço USI-SAC-41 conformados a frio e com solda de costura. Os parafusos utilizados em todas as ligações são do tipo ASTM-A325. Os resultados comparados limitam-se a deslocamentos , deformações em diagonais de apoio e carga crítica da estrutura. Palavras-chave: estruturas metálicas; estruturas espaciais; cúpulas treliçadas; elementos tubulares; ligações; variação de inércia; análise numérica. 1 INTRODUÇÃO No Brasil, com exceção de algumas obras que utilizam o sistema patenteado MERO, as ligações em treliças espaciais planas e cúpulas, constituídas por elementos de seção transversal circular, são sobrepostas e conectadas por um único parafuso, formando um nó. Sistema de ligação este denominado na EESC-USP como nó típico, projetado com poucos estudos e baseados em hipóteses simplistas. Este sistema de ligação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar o fato das barras serem ligadas por apenas um único parafuso, contrariando as recomendações de norma de utilizar no mínimo dois parafusos por ligação. 1 Mestre em Engenharia de Estruturas 2 Professor Associado do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, goncalve@sc.usp.br Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 76 Em segundo lugar, existe excentricidades nas ligações, provocando o surgimento de momentos fletores nas barras acarretando em plastificação precoce nas extremidades estampadas, sobretudo nas diagonais que também têm suas extremidades dobradas. Outro problema, digno de nota, deste tipo de ligação é o escorregamento relativo entre as extremidades das barras, pelo fato de serem conectadas por um único parafuso, produzindo aumento significativo nos deslocamento verticais. Devido a todos esses problemas, as hipóteses adotadas nos modelos matemáticos para análise deste tipo de estrutura não são satisfeitas, o que pode acarretar em resultados não condizentes com a realidade da estrutura. Ensaios realizados no Laboratório do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP de protótipos de estruturas espaciais planas utilizando este sistema de ligação, mostram que os resultados de carga última da estrutura são inferiores aos valores obtidos teoricamente devido aos problemas já apresentados. Outro aspecto observado nos ensaios é a rotação excessiva da região nodal que pode conduzir a duas situações: a primeira, indução a plastificação da região estampada das barras e a segunda, conduzir a uma flambagem precoce das barras que compõe a estrutura. A necessidade de melhor conhecer o comportamento estrutural, distribuição de tensões e deslocabilidade dos nós típicos, deve-se ao elevado número de acidentes ocorridos nos últimos anos com este sistema de ligação, sendo que por desconhecimento ou relapso, engenheiros têm projetado estruturas, muitas com grandes vãos, sem os devidos cuidados e modelos numéricos simplistas. 2 ANÁLISE EXPERIMENTAL O protótipo ensaiado é uma treliça espacial formada por elementos tubulares de seção circular em aço USI-SAC-41 conformados a frio e com solda de costura. Os parafusos utilizados em todas as ligações são do tipo ASTM-A325. A estrutura é constituída de duas camadas ou banzos, dispostas de forma paralela e plana com configuração de malha quadrada sobre quadrada, unidas por elementos diagonais formando um reticulado de forma piramidal. Os elementos possuem suas extremidades estampadas, que se sobrepõe formando o nó típico. As seções dos elementosutilizados na treliça espacial e suas respectivas forças nominais resistentes à compressão são apresentadas na tabela 1. A força nominal resistente à compressão das barras foi calculada segundo a NBR 8800/86, admitindo o seu comprimento de flambagem como de ponto de trabalho a ponto de trabalho. Foram retirados corpos de prova para a caracterização do aço, sendo obtido o valor médio de MPa350 para tensão de escoamento, que será utilizada para as análises teóricas de tal forma a permitir comparar com os resultados experimentais. Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 77 Tabela 1 – Elementos utilizados no protótipo ensaiado Tubo Utilização Área (mm2) Compr. (mm) Esbeltez Nck (kN) Φ60x2.0 Diagonal 364 2318 113 49,0 Banzo 465 2500 95,4 83,0 Φ76x2.0 Diagonal apoio 465 2318 88,5 92,0 Observação: *ygck fAN ρ= )ensaio(MPa350f *y = A estrutura foi apoiada nos seus quatro nós extremos inferiores, em colunas de aço, as quais por sua vez foram engastadas à laje de reação. A aplicação de força se deu nos quatro nós centrais, no sentido gravitacional. A figura 1 apresenta as características e dimensões do protótipos ensaiado. Figura 1 – Características e dimensões do protótipo ensaiado A figura 2 apresenta a estrutura montada no Laboratório de Estruturas da EESC-USP. Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 78 Figura 2 – Protótipo montado no laboratório A estrutura ensaiada foi instrumentada para obter deslocamentos e deformações, ambas necessárias para avaliação do comportamento da estrutura. Para medição dos deslocamentos verticais e horizontais da estrutura, utilizou- se transdutores de deslocamentos da marca KYOWA, com sensibilidade, de escala de 0,02 mm e 0,04 mm e fundo de escala de 50mm e 100 mm, respectivamente. Na medição das deformações nas barras, utilizaram-se extensômetros elétricos de resistência, marca KYOWA, modelo KFG-5-120C1-11, com base de 5,0 mm, resistência de 120 Ω e “gage factor” de 2,15. As forças foram aplicadas no nós do banzo inferior, por meio de atuadores hidráulicos com pistão vazado da marca ENERPAC, modelo RCH com capacidade de 300 kN e para medição das forças aplicadas utilizaram-se células de carga com capacidade de 300 kN. Toda a instrumentação foi conectada a um sistema de aquisição automática de dados SYSTEM 4000. A figura 3 apresenta a instrumentação completa da estrutura com as respectivas indicações das barras e nós em que foram efetuadas medições de deformações e deslocamentos. Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 79 Figura 3 – Esquema da instrumentação da estrutura A figura 4 apresenta a ruína do protótipo provocado pela plastificação da extremidade da barra associada a deformação excessiva da chapa que constitui a arruela, enfatizando o giro excessivo do parafuso. Figura 4 – Plastificação da extremidade da barra Apresenta-se, a seguir, alguns dos resultados obtidos experimentalmente e os obtidos através de simulação numérica admitida a treliça ideal e comportamento linear, hipóteses utilizadas no cálculo corrente dos escritórios de projetos. Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 80 Os gráficos das figuras 5 e 6 ilustram os resultados teóricos (treliça ideal) e experimentais para o deslocamento do nó central da treliça e deformação da diagonal de apoio em função da força aplicada em cada atuador hidráulico, respectivamente. 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 10 20 30 40 50 60 Força crítica experimental Experimental Teórico (treliça ideal) Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic o (k N ) Deslocamento do nó central (mm) Figura 5 – Deslocamento teórico e experimental do nó central 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 1100 1200 1300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Força crítica experimental Experimental Teórica (treliça ideal) Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic o (k N ) Deformação (µε) Figura 6 – Deformações de compressão média na seção transversal da diagonal de apoio A título de ilustração a força de compressão atuando na diagonal de apoio, medida no ensaio, foi de 57.4 kN )A**EF( gε= enquanto que a força normal resistente, admitindo as hipóteses de nós rotulados e sem variação de inércia, é 92.0 kN, como indicado na tabela 1. Pode-se concluir, pela análise dos resultados apresentados na figura 5, que as hipóteses admitidas no modelo teórico (treliça ideal e comportamento linear) não representam o modelo físico. Enquanto os resultados teóricos do deslocamento são lineares, os resultados experimentais indicam um comportamento não-linear em função, principalmente, dos escorregamentos e rotações excessivas na região do nós típicos. Pela figura 6, observa-se que as deformações e, portanto, os esforços nas seções centrais da barra permanecem em regime elástico linear enquanto que, nas seções da região nodal, ocorre plastificação, caracterizando o módulo de falha deste nó. Plastificação esta decorrente dos momentos provenientes das excentricidades existentes na região da barra com inércia reduzida. Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 81 Associa-se a isto a elevada rotação nodal, observada em todos os ensaios, o que contribui para uma redução na carga crítica se comparada com os resultados obtidos numericamente, não considerando a variação de inércia das extremidade das barras e a influência do comportamento do nó. Em função destes problemas constata-se a necessidade de conhecer melhor o comportamento deste sistema de ligação, modelando-o com elemento finito de casca para melhor simular os efeitos que ocorre nesta região, devido ao amassamento das extremidades das barras e excentricidades. 3 ANÁLISE NUMÉRICA Com o intuito de simular o comportamento da extremidade da barra, onde ocorre a plastificação, a mesma foi modelada com auxílio do programa de análise com elementos finitos, ANSYS. Para modelar esta região, a geometria de várias seções transversais espaçadas de 3 cm foram medidas com auxílio de uma mesa de coordenadas pertencente ao Departamento de Engenharia Elétrica da EESC-USP. Para cada seção transversal, obtiveram-se as coordenadas de vários pontos e, com auxílio do programa ANSYS, construiu-se, por meio de linhas, o contorno da respectiva seção transversal como pode ser observado na figura 7a. Definida a geometria, foi possível gerar uma área contornando a região externa das várias seções transversais formadas pelas linhas, construindo assim, a extremidade do tubo, como pode ser visto na figura 7b. Essa extremidade foi toda discretizada com elemento finitos de casca em todo seu domínio como apresenta a figura 7c. (a) (b) (c) Figura 7 – Modelagem da extremidade da barra Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 82 O elemento de casca utilizado na discretização do modelo é o SHELL43 da biblioteca de elementos do ANSYS. Este elemento é adequado para análise não- linear de estruturas planas ou curvas, com espessura moderada permitindo grandes descolamentos e grandes deformações. O elemento possui seis graus de liberdade em cada nó sendo três translações nas direções x, y e z e três rotações em torno dos eixos x, y e z. O elemento é definido por quatro nós, quatroespessuras e a propriedade do material. A geometria, localização dos nós e o sistema de coordenadas para este elemento estão apresentados na figura 8. Pressão e temperatura podem ser aplicadas ao elemento. A primeira como carregamento de superfície sobre a face do elemento como indicado nos círculos de 1 a 6 e a segunda fornecida ao elemento nos cantos indicados pelos números de 1 a 8, como pode ser visto na figura 8. Figura 83 - Elemento SHELL 43 Outro elemento utilizado nos modelos estudados foi o BEAM24 também pertencente à biblioteca de elementos do ANSYS. Este elemento permite seção transversal arbitrária e seis graus de liberdade em cada nó sendo três translações nas direções x, y e z e três rotações sobre os eixos x, y e z. A seção transversal é formada por uma série de segmentos retos no plano y-z do elemento e a localização do nó pode ser no centroide ou no centro de cisalhamento da seção, dependendo da opção feita pelo usuário. A orientação da viga sobre o eixo longitudinal é especificada por um terceiro nó K, sempre requerido para definir o sistema de eixos do elemento, que não deve ser colinear com os nós I e J. A geometria, localização dos nós e o sistema de coordenada para este elemento estão apresentados na figura 9. As forças são aplicadas nos nós, e as pressões podem ser aplicadas sobre a face do elemento como mostra os círculos de 1 a 5 na figura 9. 3 Ansys Elements Reference - Release 5.4 (1997) Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 83 Figura 94 - Elemento BEAM 24 A utilização do elemento de casca (SHELL43) em conjunto com elemento e barra (BEAM24) pode ser visto na figura 10 . Figura 10 – Utilização do SHELL43 com BEAM24 Para a utilização de elementos de barra conjuntamente com elemento de casca, foi necessário fazer um acoplamento entre estes elementos. Neste acoplamento, os nós pertencentes à borda circular das extremidades dos tubos, formado por elementos de casca, foram “escravizados” a um nó mestre, no centro da seção transversal , onde está vinculado o elemento de barra. A figura 11 apresenta o detalhe deste acoplamento. 4 Ansys Elements Reference - Release 5.4 (1997) Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 84 Figura 11 – Detalhe da “escravização” dos nós Para verificação do acoplamento entre elementos, fez-se uma análise da extremidade do tubo com e sem acoplamento com elemento de barra para uma ação de 50 kN. Os resultados das tensões axiais estão ilustrados na figura 12. Figura 12 – Tensões axiais na extremidade da barra (kN/mm2 ) Percebe-se pela figura 12 a quase coincidência das tensões axiais entre os dois modelos analisados permitindo assim, a utilização do acoplamento. 3.1 Critérios para análise não linear Neste trabalho os modelos são analisados através do programa ANSYS incluindo os efeitos de não-linearidade geométrica. A formulação adotada pelo programa é a Langrangeana Total e o processo iterativo que o programa utiliza para a solução do sistema de equações de equilíbrio é o Newton-Raphson, onde cada iteração gerada no processo é conhecida como uma iteração de Newton-Raphson, ou uma iteração de equilíbrio. Salienta-se que para o protótipo em estudo, não há influência desta análise, porém para estruturas de grandes dimensões é recomendável o cálculo considerando a não-linearidade geométrica. Em se tratando de não-linearidade física adotou-se um modelo bi-linear para representar a curva tensão-deformação do material, tanto na tração quanto na Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 85 compressão. Este modelo, existente no programa ANSYS, é denominado Classical Bilinear Kinematic Hardening (BKIN) e definido por dois segmentos de retas, onde o primeiro, de inclinação maior, representa o comportamento elástico e o segundo, com inclinação menor, representa o comportamento plástico. As constantes requeridas são a tensão de escoamento )f( y , o módulo de elasticidade )E( definido para material isotrópico, e o módulo elastoplástico tangente )E( T que não pode ser negativo e nem maior do que o módulo elástico )E( . A figura 13 apresenta um exemplo da curva bi-linear utilizada para representar o material utilizado em nossa análise. Figura 13 – Curva tensão-deformação do material Os valores apresentados na figura 13 referem-se ao ensaio de caracterização do aço realizado segundo a ASTM – A370/92. 4 APRESENTAÇÃO DOS MODELOS ANALISADOS E RESULTADOS Tendo-se a extremidade da barra modelada com elemento de casca, foi possível modelar o nó como um todo, ou seja, várias extremidades de barras sobrepostas formando o nó típico como ilustra a figura 14. Figura 14 – Modelagem do nó típico completo Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 86 A região de sobreposição das extremidades das barras foi transformada em um “pacote rígido”5, para representar o sistema de ligação formado pelo parafuso e chapa de pressão. Um detalhe desta região esta ilustrado na figura 15. Figura 15 – Região transformada em “pacote rígido” Esta consideração tem como objetivo simplificar a análise nesta região, uma vez que o modelo não considera o deslizamento relativo entre as extremidades e, consequentemente, o atrito entre as superfícies em contato. Outra simplificação adotada nos modelos, refere-se a pressão causada pelo parafuso, também desprezada nas análises6. Para simular o comportamento deste nó, o mesmo foi inserido em um modelo que representa o protótipo ensaiado no laboratório de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, já descrito anteriormente. Devido as limitações da versão do programa ANSYS existente no Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, introduziu-se apenas um nó completo, modelado com elemento de casca, de cada vez na estrutura, sendo o restante da estrutura modelada com o elemento de barra (BEAM24). A figura 16 apresenta o modelo completo analisado através do programa ANSYS sendo que as barras são compostas do BEAM24 e os nós, simulado com elemento de casca, foram introduzidos no nó central (1), nó lateral (2) e nó de extremidade (3), individualmente para cada modelo analisado. Figura 16 – Posições dos nós com elementos de casca 5 Pacote rígido : Todos os nós nesta região estão acoplados uns aos outros para desenvolverem o mesmo descolamento. 6 As considerações de deslizamentos relativo, contato e protensão do parafuso será objeto de estudo na continuidade deste trabalho, possivelmente objeto de Tese de Doutorado. Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 87 4.1 Modelos analisados a) Primeiro modelo – Nó central (1) Neste modelo, o nó completo foi inserido na região central do banzo superior da treliça, onde temos o encontro dos eixos de simetria da estrutura. A figura 17 apresenta o detalhe deste modelo. Figura 17 – Detalhe da posição do nó típico inserido na estrutura O gráfico da figura 18 apresenta os resultados dos deslocamentos verticais do nó central da treliça com e sem utilização do nó típico modelado com elemento de casca. 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Força crítica experimental Treliça com nó típico Treliça ideal Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ulic o (k N ) Deslocamento do nó central (mm) Figura 18 – Deslocamento vertical do nó central da treliça Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 88 Observa-se que há uma concordância entre os resultados da análise com o nó típico inserido na estrutura e como treliça ideal, ambos mantendo um comportamento linear. Este fato pode ser compreendido já que apenas um nó típico, modelado com elemento de casca, foi inserido no modelo, sendo o restante da estrutura considerada como treliça ideal. Sendo assim, a carga crítica da estrutura é alcançada devido a problemas localizados no nó modelado com elemento de casca inserido na estrutura, não alterando, portanto, o comportamento global da mesma. Salienta-se que no modelo ensaiado no Laboratório de Estruturas o nó que conduziu a estrutura ao colapso foi o de extremidade (Terceiro modelo – nó extremidade). Ressalta-se também que o modo de colapso do nó é influenciado pela presença da força cortante nas diagonais que, para este nó específico é nula. Os resultados da simulação numérica são apresentados pela distribuição das tensões na direção axial das barras cuja força correspondente encontra-se indicada sobre a mesma, para várias etapas de carregamento. As figuras 19a a 19f apresentam as tensões axiais )mm/kN( 2 para os tubos analisados. a) Força total aplicada = 40 kN (Tensões em kN/mm2) 7 b) Força total aplicada = 120 kN (Tensões em kN/mm2) 7 A tensão σ representa simplesmente um indicativo da tensão média (Força sobre Área) na barra indicada. 7.7 kN 7.7 kN 23.3 kN 23.3 kN 21 01660 465 77 mm/kN. . A F g −= − ==σ 205010 465 323 mm/kN.. A F g −= − ==σ Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 89 c) Força total aplicada = 160 kN (Tensões em kN/mm2) d) Força total aplicada = 200 kN (Tensões em kN/mm2) e) Força total aplicada = 240 kN (Tensões em kN/mm2) 31.0 kN 31.0 kN 38.8 kN 38.8 kN 46.5 kN 46.5 kN 206670 465 031 mm/kN.. A F g −= − ==σ 208340 465 838 mm/kN.. A F g −= − ==σ 210000 465 546 mm/kN.. A F g −= − ==σ Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 90 f) Força total aplicada = 262 kN (Tensões em kN/mm2) Figura 19 – Tensões para várias etapas de carregamento (kN/mm2) O valor elevado da carga crítica obtido numericamente, deve-se as condições particulares deste nó, posição de dupla simetria na estrutura, o que não implica em grandes rotações nesta região não ocasionando a ruptura precoce do modelo pela plastificação da extremidade da barra. As tensões na direção axial das duas barras do banzo analisadas )mm/kN.( 21090−=σ , indicam que não ocorre a plastificação da seção central da barra )mm/kN.f( y 2350−= porém, a força total aplicada de 262.0 kN correspondeu a carga crítica da estrutura na simulação numérica. Este fato corrobora com as afirmações anteriores de que a ruína da estrutura, que no caso da análise numérica corresponde à carga crítica, é dependente do comportamento do nó. A figura 20 apresenta as tensões axiais da barra do banzo superior para a carga última encontrada na análise numérica (65.5 kN / atuador hidráulico). Figura 20 – Tensões axiais (kN/mm2) da extremidade da barra para carga última obtida numericamente. Percebe-se pela figura 20 a concentração de tensões de compressão na região próxima a borda do parafuso. Tensões essas superiores a do limite de escoamento do aço )mm/kN.f( y 2350−= e que conduziram à determinação da máxima força aplicada na estrutura. 50.7 kN 50.7 kN 210900 465 750 mm/kN.. A F g −= − ==σ Banzo superior Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 91 b) Segundo modelo – Nó lateral (2) Neste modelo, o nó completo foi inserido na região de extremidade do banzo superior da treliça, como apresenta a figura 21. Diferentemente do nó central, neste caso não há a dupla simetria e é possível avaliar a influência da força cortante atuando nas diagonais. Figura 21 - Detalhe da posição do nó inserido na estrutura O gráfico da figura 22 apresenta os resultados dos deslocamentos verticais do nó com elemento de casca, do nó central e do nó simétrico ao nó com elemento de casca. 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 10 20 30 40 50 60 Força crítica experimental Nó simétrico ao nó com elemento de casca Nó central Nó com elemento de casca Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic o (k N ) Deslocamento (mm) Figura 22 – Deslocamento vertical de alguns nós da estrutura Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 92 Percebe-se, pela análise dos resultados dos deslocamentos apresentados no gráfico da figura 22, que o nó com elemento de casca possui deslocamentos maiores que o nó da posição simétrica na estrutura. Este fato pode ser compreendido já que a região da treliça onde temos o nó com elemento de casca torna-se menos rígida se comparada com a região simétrica na estrutura, uma vez que esta possui características de uma treliça ideal sendo, portanto, mais rígida. Em vista disto, pode-se afirmar também que, se a região na qual foi inserido o nó típico torna-se menos rígida se comparada com a região simétrica de características iguais a de uma treliça ideal, as análises utilizando as hipóteses de treliça ideal em estruturas que utilizam o sistema de ligação típico, fornecerão resultados não condizentes com o modelo físico. Motivo este que pode ser relevante e conduzir a ruína de várias estruturas, utilizando este sistema de ligação, em nosso país. Quanto ao deslocamento do nó central, este apresenta valores superiores aos outros dois nós, como deveria ser. As figuras 23a a 23f , apresentam o comportamento em níveis de tensões para várias etapas de carregamento de maneira análoga ao do primeiro modelo - Nó central (1). a) Força total aplicada = 40 kN (Tensões em kN/mm2) b) Força total aplicada 80 kN (Tensões em kN/mm2) 11.8 kN 11.8 kN 24.6 kN 24.6 kN 202530 465 811 mm/kN.. A F g −= − ==σ 205290 465 624 mm/kN.. A F g −= − ==σ Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 93 c) Força total aplicada = 120 kN (Tensões em kN/mm2) d) Força total aplicada = 160 kN (Tensões em kN/mm2) e) Força total aplicada = 200 kN (Tensões em kN/mm2) 35.5 kN 35.5 kN 47.0 kN 47.0 kN 61.5 kN 61.5 kN 207630 465 535 mm/kN. . A F g −= − ==σ 213230 465 561 mm/kN.. A F g −= − ==σ 210100 465 047 mm/kN.. A F g −= − ==σ Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 94 f) Força total aplicada = 210 kN (Tensões em kN/mm2) Figura 23 – Tensões para várias etapas de carregamento (kN/mm2) Neste modelo, pelo fato do nó não estar em uma posição de dupla simetria da estrutura, como no primeiro modelo – nó central, temos uma diminuição da carga crítica da estrutura. Esta diminuição decorre do fato que não temos uma simetria dos esforços nas barras concorrentes ao nó e também devido a influência do esforço cortante nas diagonais causando uma maior rotação do nó, acabando por plastificar a região da extremidade da barra. Na região central da barra o valor da tensão axial )mm/kN.( 21380-=σ fica abaixo do valor de plastificação )mm/kN.f(y 2350−= . Novamente temos a confirmação das afirmações anteriores que a ruína da estrutura, que na análise numérica corresponde à carga crítica, é dependente do comportamento do nó. A figura 24 apresenta as tensões na diagonal e banzo superior obtida para a carga última encontrada na análise numérica (52.5 kN / atuador hidráulico). Figura 24 – Tensões axiais (kN/mm2) da extremidade da barra para carga última obtida numericamente 64.5 kN 64.5 kN 213870 465 564 mm/kN.. A F g −= − ==σ Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 95 Percebe-se, pela figura 24, a elevada concentração de tensões de tração e compressão, acima da tensão de escoamento )mm/kN35.0f( 2y ±= , na região estampada das barras. c) Terceiro modelo – Nó de extremidade (3) Neste modelo, o nó completo foi inserido no canto do banzo superior da treliça onde temos uma maior concentração de esforços axiais, principalmente na diagonal de apoio, e também grande rotação do nó, pois a força cortante é transmitida pela diagonal até o apoio. A figura 25 mostra o detalhe deste modelo. Figura 25 - Detalhe da posição do nó inserido na estrutura O gráfico da figura 26 apresenta os resultados dos deslocamentos verticais do nó com elemento de casca, do nó central e do nó simétrico ao nó com elemento de casca. Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 96 0 2 4 6 8 10 12 14 0 4 8 12 16 20 Nó simétrico ao nó com elemento de casca Nó central Nó com elemento de casca Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic o (k N ) Deslocamento (mm) Figura 26 – Deslocamento vertical de alguns nós da estrutura Os resultados dos deslocamentos apresentados no gráfico da figura 26 ilustram que o nó de extremidade (nó com elemento de casca) apresenta deslocamentos superiores ao nó simétrico na estrutura e também, ao nó central. O motivo dos deslocamentos do nó de extremidade serem maiores que do nó central, é a rápida plastificação da diagonal de apoio e dos banzos que concorrem neste nó, devido a transferência de esforços pela diagonal de apoio à coluna, associado à perda de rigidez nesta região devido a inserção do nó típico modelado com elemento de casca. Comprova-se novamente que, devido a esta perda de rigidez na região com nó típico, as hipóteses de treliça ideal em estruturas que utilizam o sistema de ligação típico, fornecerão resultados não condizentes com o comportamento da estrutura, pois este modelo não é capaz de reproduzir o modo de ruína da estrutura. As figuras 27a e 27b , apresentam o comportamento em níveis de tensões para duas etapas de carregamento de maneira análoga aos modelos anteriores. a) Força total aplicada = 40 kN (Tensões em kN/mm2) 10.8 kN 202320 465 810 mm/kN.. A F g −= − ==σ Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 97 b) Força total aplicada = 60 kN (Tensões em kN/mm2) Figura 27 – Tensões para várias etapas de carregamento (kN/mm2) Neste modelo, o nó com elemento de casca foi inserido na região de maior solicitação da estrutura, uma vez que os esforços são transferidos para as colunas pela diagonal de apoio que concorre a este nó. Percebe-se, pela análise das tensões, uma considerável plastificação na diagonal de apoio. Isto ocorre devido à variação de inércia da barra, dobramento da extremidade para confecção do nó típico e a rotação excessiva desta região. As figuras 28 e 29 ilustram o resultado obtido no ensaio e o observado numericamente, para a barra da diagonal de apoio, respectivamente. Figura 28 – Rotação excessiva e plastificação da região nodal 15.4 kN 203310 465 415 mm/kN.. A F g −= − ==σ Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 98 Figura 29 –Tensões axiais (kN/mm 2) nas extremidade das barras que compõem o nó típico para a carga última obtida numericamente Os fatores apresentados tornam esta região bastante crítica, fazendo com que o modo de falha da estrutura, na simulação numérica, ocorra para um carregamento bastante inferior (15.0kN/atuador hidráulico) ao obtido experimentalmente (40.0kN/atuador hidráulico) no ensaio do protótipo. Justifica-se este fato, pela descrição do comportamento desta região na realização do ensaio. Por ser uma região bastante solicitada da estrutura (diagonal de apoio) e devido aos problemas apresentados (dobramento da extremidade da barra para confecção do sistema de ligação) com baixos valores de carga aplicada, ocorre a plastificação desta região sem, no entanto, conduzir a estrutura à ruína. Na continuidade do ensaio, em função do aumento da carga aplicada, ocorre uma rotação excessiva desta região comprometendo o conjunto, parafuso e chapa de pressão, o que leva a estrutura ao colapso localizado do nó (fig. 28). Para o modelo numérico utilizando o nó típico discretizado com elemento de casca, ainda não foi possível simular o comportamento observado no ensaio. Isto ocorre devido a grande concentração de tensões nesta região, não absorvida pelo modelo numérico, terminando por interromper o processo iterativo da solução não- linear para um nível de carregamento bastante baixo na estrutura (15.0 kN/atuador hidráulico) se comparado com experimental. Estudos futuros, com a melhoria deste modelo (contato, atrito, parafuso, etc.) permitirão uma melhor modelagem desta região para que melhor represente o modelo físico de ruína. 4.2 Comparação entre resultados teóricos e experimentais A figura 30 apresenta os nós e barras que foram medido os deslocamentos e deformações, experimentalmente e numericamente, cujos valores se encontram nos gráficos das figuras 31 a 33. Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 99 Figura 30 – Posição dos nós e barras analisados 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Força crítica experimental Experimental Teórico (modelo 1-nó central) Teórico (modelo 2-nó lateral) Teórico (modelo 3-nó de extremidade) Teórico (treliça ideal) Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic a (k N ) Deslocamento do nó central (mm) Figura 31 – Deslocamento teórico e experimental – nó central 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Força crítica experimental Experimental Teórico (modelo 1-nó central) Teórico (modelo 2-nó lateral) Teórico (modelo 3-nó de extremidade) Teórico (treliça ideal) Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic o (k N ) Deslocamento do nó de extremidade (mm) Figura 32 – Deslocamento teórico e experimental – nó extremidade Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 100 Observando os gráficos das figuras 31 e 32 percebe-se um comportamento fortemente não linear entre força aplicada e deslocamento para os valores experimentais e um comportamento linear para os resultados das análises numéricas. Conclui-se, pela análise dos resultados experimentais, que as hipóteses assumidas em projetos, ou seja, treliça ideal com comportamento elástico linear não representam o comportamento da estrutura que utiliza o sistema de ligação denominada nó típico. Este fato justifica-se pelo deslizamento dos elementos na região nodal e a rotação dos nós devido, principalmente, a presença de um único parafuso e o imperfeito contato pela impossibilidade de que todo o torque do parafuso resulteem contato efetivo das partes que compõem as extremidades das barras. 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 1100 1200 1300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Força crítica experimental Experimental Teórico (modelo 1-nó central) Teórico (modelo 2-nó lateral) Teórico (modelo 3-nó de extremidade) Teórica (treliça ideal) Fo rç a ap lic ad a / a tu ad or h id rá ul ic o (k N ) Deformação (µε) Figura 33 – Deformações de compressão média na seção transversal central da diagonal de apoio No gráfico da figura 33 pode-se observar que os resultados experimentais para deformações na diagonal de apoio são praticamente lineares e apresentam boa correlação com os resultados teóricos, tanto do modelo de treliça ideal como para os modelos 1 e 2, que incluem o nó com elemento de casca. Esta concordância deve-se ao fato que, para estes modelos, a diagonal de apoio analisada possui características iguais à de uma treliça ideal, uma vez que, a inserção do nó típico com elemento de casca, não influencia o comportamento deste elemento. Para o modelo 3 (nó extremidade) os valores das deformações indicam, apesar dos poucos resultados, um comportamento não coincidentes com os outros modelos (fig. 33). Isto ocorre uma vez que, neste modelo, o nó com elemento de casca pertence a extremidade da diagonal de apoio governando o comportamento desta região devido a sua baixa rigidez, e influenciando no comportamento desse elemento fazendo com que a mesmo não apresente um comportamento semelhante aos dos modelos anteriores. Em vista do exposto, conclui-se que a rigidez do nó têm influência fundamental na distribuição dos esforços nos elementos e que os modelos teóricos convencionais não são capazes de reproduzir o modo de colapso observado, caracterizado pela rotação excessiva dos nós e plastificação na região estampada dos tubos. Análise numérica e experimental de estruturas espaciais constituídas de barras de extremidades... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 101 Uma melhoria no modelo do nó típico com elemento de casca, prevista para trabalhos futuros, permitirá um melhor entendimento desse sistema de ligação que, pelos estudos já realizados neste Departamento, apresenta desempenho limitado. 5 CONCLUSÕES A presença deste sistema de ligação tem originado um grande número de acidentes em estruturas de cobertura; o mais recente foi o ocorrido em Belém – PA , causando o colapso global de uma estrutura espacial plana constituída por elementos estruturais de alumínio e sistema de ligação típico, parte da cobertura do Aeroporto Internacional de Belém. Salienta-se que o modelo utilizado para simular o nó típico do protótipo ensaiado no Laboratório de Estruturas da EESC-USP, apresenta limitações que não podem ser negligenciadas: não consideração da protensão do parafuso, atrito, deslizamento e o modelo reológico simplificado para o aço (σ xε bi-linear). Mesmo com este modelo ainda simplificado, pode-se concluir pela análise dos resultados dos modelos estudados, que o modo de ruína de estruturas que utilizam o sistema de ligação típico esta diretamente relacionado com problemas localizados nestes nós. Isto se comprova uma vez que, valores diferentes para carga crítica da estrutura foram obtidos em função da posição em que o nó foi inserido sendo estes, superiores ou inferiores ao encontrado experimentalmente. Pode-se então comentar a frase acima descrita: No modelo 1 – Nó central, pelas particularidades deste nó, ou seja, posição de encontro dos eixos de simetria da estrutura, associado ao fato de que os esforços nas diagonais que concorrem a este nó são nulas, eliminando assim, o esforço cortante, obteve-se um valor elevado para carga crítica da estrutura se comparado com o valor experimental (da ordem de 60% superior). Já no modelo 2 – Nó lateral, o valor da carga crítica apresentou-se menor que do modelo anterior (Nó central). Esta diminuição decorre do fato de não continuidade de um dos banzos, associado a influência do esforço cortante nas diagonais, causando uma maior rotação na região nodal. Apesar da diminuição, o valor da carga crítica se manteve superior ao obtido experimentalmente (da ordem de 30% superior). No modelo 3 – Nó extremidade, encontrou-se um valor bastante inferior ao obtido experimentalmente (da ordem de 60% inferior). Justifica-se este fato pela grande concentrações de tensões na região amassada da extremidade da diagonal, tornando-a bastante crítica do ponto de vista numérico, terminando por interromper o processo iterativo da solução não- linear devido a plastificação precoce desta região . Os resultados indicam que na análise numérica somente a plastificação da diagonal foi a responsável pela carga crítica obtida (da ordem de ≅15kN de força aplicada por nó contra ≅40kN observado experimentalmente), porém observa-se no modelo experimental que os banzos também plastificaram, indicando assim a necessidade de considerar a influência da arruela e pressão de contato devido à protensão do parafuso no modelo numérico. Adriano Márcio Vendrame & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 75-103, 2002 102 Quanto ao deslocamentos obtidos nos modelos estudados, percebe-se um aumento de deslocamento na região que se insere o nó típico modelado com elemento de casca, comprovando a perda de rigidez nesta região. Em vista do exposto, conclui-se que rigidez do nó têm influência fundamental da distribuição dos esforços nos elementos e que os modelos teóricos convencionais não são capazes de reproduzir o modo de colapso observado, caracterizado pela rotação excessiva dos nós e plastificação na região estampada dos tubos. 6 BIBLIOGRAFIA AMERICAM SOCIETY FOR TESTING AND MATERIALS (1992). ASTM A370: Standard test methods for tension testing of metalic materials (metric). Philadelphia. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (1980). NBR 6120 - Cargas para o cálculo de estruturas de edificações: procedimento. Rio de Janeiro. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (1988). NBR 6123 - Forças devidas ao vento em edificações: procedimento. Rio de Janeiro. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (1986). NBR 8800 - Projeto e execução de estruturas de aço de edifícios: método dos estados limites. Rio de Janeiro. EBERLEIN, H. (1984). Single and double-layer MERO domes. In: MAKOWSKI, Z.S. 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Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 ANÁLISE TEÓRICA E EXPERIMENTAL DE TRELIÇAS METÁLICAS ESPACIAIS CONSTITUÍDAS POR BARRAS COM EXTREMIDADES ESTAMPADAS Carlos Henrique Maiola1 & Maximiliano Malite2 R e s u m o Neste trabalho são apresentadas análises teóricas e experimentais de treliças metálicas espaciais, constituídas por barras de seção tubular com extremidades estampadas, onde foram analisadas as situações construtivas usuais: treliça com nós típicos (extremidade das barras estampadas, sobrepostas e unidas por um único parafuso), com nós de aço (sistema de conexão formado por uma peça com aletas de aço soldadas), e com sistema misto de conexão (emprego de nós típicos nas regiões menos solicitadas e nós de aço nas restantes, respeitando imposições construtivas). Os resultados experimentais foram obtidos em ensaios de quatro protótipos que simulavam um trecho de treliça espacial, constituídos por uma malha quadrada sobre quadrada, com 7,5x7,5x1,5 (m). A análise teórica dos protótipos foi feita admitindo-se os casos de linearidade e também de não linearidade física e geométrica, levando-se em consideração a variação de inércia das barras junto aos nós. Os resultados encontrados permitiram avaliar e comparar o comportamento global e os estados limites últimos dos diferentes sistemas de treliça espacial analisados. Palavras-chave: estruturas metálicas; estruturas espaciais; treliças espaciais; elementos tubulares. 1 INTRODUÇÃO O termo ‘treliça espacial’, embora não adequado tecnicamente, é usualmente aplicado para as estruturas tridimensionais constituídas por barras não coplanares, conectadas umas as outras por dispositivos que são chamados de nós. Em geral tais estruturas são empregadas principalmente em coberturas de grandes áreas quando se dispõe de um número reduzido de apoios, como por exemplo edificações esportivas, centros de exposição, centros comerciais, hangares, edificações industriais, etc. A utilização das treliças espaciais está em contínuo crescimento no Brasil, pois apresentam uma série de vantagens quando comparadas a outros sistemas de coberturas, dos quais destaca-se a grande similaridade das dimensões das barras e dos detalhes de nós, facilitando deste modo a industrialização e a montagem, e 1 Mestre em Engenharia de Estruturas, Aluno de Doutorado na EESC-USP, maiola@sc.usp.br 2 Professor Doutor do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, mamalite@sc.usp.br Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 106 conferindo intrínseca leveza e aparência agradável, dispensando muitas vezes a colocação de forros. Nas últimas décadas, dezenas de sistemas de treliças espaciais foram desenvolvidos e patenteados, sendo que muitos não tiveram sucesso comercial, uma vez que o ponto ‘chave’ destas estruturas é o nó, ou seja, a conexão entre as diversas barras que concorrem num único ponto, assim, torna-se necessário desenvolver um sistema ‘barra-nó’ com eficiência estrutural, que seja relativamente barato, e cuja montagem seja simples. Dos sistemas mais conhecidos hoje em dia, cita-se o alemão MERO (fig. 1a), desenvolvido durante os anos de 1942-1943, constituído por barras tubulares conectadas a um nó especial de aço, permitindo a união de até 18 barras sem causar excentricidades na ligação. Destacam-se também os sistemas TRIODETIC e UNISTRUT (fig. 1b e 1c) dos anos 50, e o mais recente o britânico NODUS (fig. 1d) (CODD et al. 1984). a) MERO b) TRIODETIC c) UNISTRUT d) NODUS Figura 1 - Sistemas de nós patenteados mais conhecidos No Brasil, a utilização de sistemas patenteados se reduz a algumas poucas obras, uma vez que apresentam custo relativamente elevado quando comparados a soluções mais simples, como por exemplo as barras de seção tubular circular com extremidades estampadas (amassadas) e conectadas por um único parafuso, denominado usualmente por nó típico (fig. 2). Tal sistema tem sido amplamente empregado, e infelizmente, muito pouco pesquisado sob o ponto de vista do comportamento estrutural. Outro sistema empregado refere-se também à utilização de Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 107 barras tubulares com extremidades estampadas, entretanto conectadas a um nó constituído por chapas de aço soldadas, denominado por nó de aço (fig. 3). Estruturas de grandes vãos têm sido construídas empregando os nós típicos, e muitas delas têm apresentado falhas estruturais ainda na fase de montagem, como por exemplo a ocorrida na cobertura do Aeroporto Internacional de Belém (1999). Em outras foram observados casos de colapso parcial ou até mesmo total com poucos anos de vida, e sem ocorrência de ações que excederam as previstas no projeto, neste caso pode-se citar o colapso global ocorrido na estrutura do Centro de Convenções de Manaus(1995), com 110m de vão, o qual foi observado alguns dias após a colocação das telhas e na ausência da ação do vento. Diante destes fatos, as respostas das prováveis causas destes acidentes eram dadas com base na experiência e intuição de muitos engenheiros, uma vez que não se dispunha de resultados de pesquisa sobre o comportamento de tais estruturas. É intuitivo que o nó típico é limitado do ponto de vista estrutural, pois apresenta elevadas excentricidades e não corresponde a um nó efetivamente constituído. Entretanto, haviam poucos subsídios para se avaliar quantitativamente a rigidez e a capacidade da estrutura, surgindo muitas controvérsias quanto à sua eficiência estrutural, envolvendo projetistas, fabricantes e clientes. É importante ressaltar também que as hipóteses de cálculo assumidas para os detalhes das ligações nestas estruturas, não reproduzem de maneira satisfatória o comportamento real, não existindo estudos que expliquem detalhadamente o comportamento dessas ligações, apesar de ser um dos fatores que influenciam no comportamento global da estrutura além de contribuir significativamente no seu custo total. Portanto, tendo em vista a carência de estudos sobre o comportamento estrutural e a ocorrência de problemas com as estruturas em treliça espacial, foi que a partir de 1995, a Área de Estruturas Metálicas do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, deu início a uma série de pesquisas sobre o tema ‘Treliças Metálicas Espaciais’. Os estudos desenvolvidos inicialmente consistiram simplesmente em ensaios de compressão axial de barras isoladas de aço e alumínio com variação de inércia nas extremidades, barras estas utilizadas na confecção das treliças, visando comparar o desempenho dos diversos detalhes de extremidade (estampagem) [GONÇALVES et al. (1996), MALITE et al.(1997), SÁLES et al.(1996a) e SÁLES et al.(1996b)]. Vale salientar que estes ensaios não permitem fazer extrapolações para barras componentes de uma treliça espacial, tendo em vista que o comportamento de uma barra isolada é conseqüência de condições de contorno que são diferentes das apresentadas pela mesma barra inserida na estrutura. Portanto, para uma análise mais profunda e representativa e um melhor entendimento deste tipo de estrutura, foram realizadas análises teóricas e experimentais de protótipos de treliça metálica espacial, tendo como objetivo principal analisar o comportamento e a capacidade destas estruturas com ênfase nos dois sistemas mais utilizados no Brasil (nó típico e nó de aço), e avaliar a adequabilidade de diversos modelos teóricos. Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 108 Figura 2 - Nó típico Figura 3 - Nó de aço Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 109 2 ENSAIOS DE BARRAS ISOLADAS A primeira fase das pesquisas com treliças metálicas espaciais realizadas no Departamento de Estruturas da EESC - USP consistiu na análise teórica e experimental de barras de seção tubular com extremidades estampadas (amassadas), barras estas amplamente utilizadas nestas estruturas, uma vez que representam uma significativa economia global devido a simplicidade dos nós. Inicialmente, vale salientar que a estampagem da extremidade destas barras leva a uma redução significativa da rigidez à flexão nesta região, o que implica numa redução da sua resistência à compressão. Nos projetos de treliças espaciais, este efeito não é geralmente considerado, o que pode conduzir a uma situação muito desfavorável e portanto contrária à segurança. Assim o objetivo principal desta análise experimental foi comparar o desempenho estrutural de 3 detalhes de estampagem conforme pode ser visto na figura 4, mediante o ensaio de compressão axial de barras isoladas. Portanto foram ensaiadas 27 barras de seção transversal φ 88 x 2,65 (mm) - tubo formado a frio com costura, em aço USI-SAC 41. O comprimento das barras foi determinado de maneira a reproduzir a esbeltez usual nas treliças espaciais: 4.200mm, 3.000mm e 1.800mm, correspondendo à esbeltez de 140, 100 e 60, respectivamente. Figura 4 - Detalhe das extremidades das barras ensaiadas As barras foram parafusadas nas extremidades a aparelhos de apoio de aço (fig.4), simulando o nó de aço usualmente empregado nestas estruturas, e os ensaios à compressão axial foram realizados na posição horizontal, onde numa extremidade o aparelho de apoio foi simplesmente apoiado na estrutura de reação (superfície plana - restrito parcialmente à rotação), e na outra extremidade, apoiado junto a uma superfície esférica (rotulada) acoplada à célula de carga. Durante os ensaios foram medidas deformações específicas na seção central das barras, assim como deslocamentos transversais. O modo de colapso para todas Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 110 as barras ensaiadas correspondeu à formação de rótulas plásticas na extremidade junto à célula de carga, em relação ao eixo de menor inércia. A força última experimental foi comparada aos valores teóricos da resistência à compressão segundo as normas AISI/91 e EUROCODE 3, admitindo-se barras bi- rotuladas e dois valores da resistência ao escoamento: fy = 24,5kN/cm2 (aço virgem) e fy = 41,2kN/cm2 (aço formado a frio, obtido em ensaios de corpo-de-prova à tração). As curvas de resistência à compressão e os resultados dos 27 ensaios são apresentados na figura 5, onde pode-se concluir que: • a dispersão dos resultados aumenta a medida que a esbeltez diminui, uma vez que as imprecisões de ensaio aliadas ao efeito de redução de inércia nas extremidades tornam-se mais significativos; • os detalhes de extremidade B e C são mais favoráveis que o detalhe A (estampagem reta), conduzindo a valores mais elevados da capacidade da barra, pois implicam numa redução de inércia mais gradual se comparada com a região totalmente estampada do detalhe A; • admitindo-se a resistência ao escoamento do aço virgem fy = 24,5kN/cm2 as barras de menor esbeltez (λ = 60) apresentaram, na maioria dos ensaios, força última experimental inferior à teórica, atingindo-se reduções da ordem de 35%. Ao se adotar a resistência ao escoamento do aço trabalhado a frio (fy = 41,2kN/cm2), o que é permitido pela norma AISI, as reduções ultrapassam 50%. 0 50 100 150 200 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 EUROC/93 f y = 24,5 AISI (f y = 24,5) AISI (f y = 41,2) EUROC/93 (f y = 41,2) λ = 14 0 λ = 10 0 λ = 60 EXTREM. TIPO A EXTREM. TIPO B EXTREM. TIPO C te ns ão c rít ic a f c r (k N/ cm 2 ) índice de esbeltez (λ) Figura 5 - Curvas de resistência à compressão e resultados experimentais Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 111 3 ANÁLISE EXPERIMENTAL Os resultados experimentais foram obtidos em ensaios de quatro protótipos que simulavam um trecho de treliça espacial (PROT 1 a PROT 4), constituídos por nós típicos e/ou nós de aço. Os protótipos eram constituídos por nove módulos piramidais com 2,5x2,5x1,5(m), formando uma malha quadrada sobre quadrada de 7,5x7,5x1,5(m), apoiados nos quatro vértices por colunas tubulares de aço com seção φ168 x 7,11(mm) e carregados nos quatro nós centrais do banzo inferior, conforme ilustra a figura 6. A poios Pontos de aplicação de força E L E V A Ç Ã O PL A N T A Figura 6 – Esquema geral dos protótipos ensaiados 1 B D C Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 112 Os protótipos, descritos na tabela 1, eram constituídos por barrasde seção tubular circular com as extremidades estampadas, diferenciando-se apenas nas dimensões transversais de suas diagonais de apoio e nos sistemas de conexões (nós) utilizados. O material empregado foi o aço USI-SAC 41, e as propriedades do aço trabalhado a frio foram obtidas mediante ensaios de tração em corpos-de-prova extraídos de amostras das barras, conforme a especificação norte-americana ASTM A370-96. Tabela 1 - Descrição dos protótipos ensaiados Protótipo Detalhe dos nós Banzos Diagonais Diagonais de apoio Falha prevista PROT 1(1) nós típicos φ76x2,0(mm) φ60x2,0(mm) φ88x2,65(mm) banzo superior PROT 2(2) nós típicos φ76x2,0(mm) φ60x2,0(mm) φ76x2,0(mm) diag. de apoio PROT 3 nós de aço φ76x2,0(mm) φ60x2,0(mm) φ88x2,65(mm) banzo superior PROT 4 sistema misto(3) φ76x2,0(mm) φ60x2,0(mm) φ88x2,65(mm) banzo superior 1 Montados sem controle de torque nos parafusos 2 Montados com controle de torque nos parafusos 3 Emprego de nós típicos e de aço no mesmo protótipo. A execução dos protótipos ficou a cargo da empresa ALUSUD - Eng. e Ind. de Construções Espaciais Ltda., empresa com larga experiência na fabricação e montagem de treliças espaciais. Os ensaios foram realizados no Laboratório de Estruturas da EESC-USP, e a montagem foi feita mediante a técnica de ‘lift slab’, ou seja, montou-se o protótipo no piso, com posterior içamento. Na figura 7 é apresentada uma vista geral de um protótipo montado. Após o posicionamento, foi efetuado o aperto final nos parafusos, com aplicação de torque controlado por torquímetro de estalo, aplicando-se 70% da força de protensão mínima recomendada pela NBR 8800/86. Figura 7 - Vista geral de um protótipo montado Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 113 Sob os protótipos foram montadas quatro estruturas de reação para aplicação do carregamento, fixadas na laje de reação. O carregamento foi aplicado por quatro atuadores hidráulicos do tipo haste vazada com acionamento simultâneo, de modo a garantir a uniformidade da força nos quatros nós centrais do banzo inferior da estrutura, no sentido de cima para baixo, sendo a intensidade da força medida por células de carga acopladas na face inferior dos atuadores (fig. 8). Os deslocamentos horizontais e verticais dos apoios, bem como os verticais do nó central (flechas) e dos nós periféricos junto aos apoios (banzo superior) foram medidos por transdutores de deslocamento. Para a medição das deformações específicas nas barras, devido a dupla simetria dos protótipos, foi implementada uma instrumentação mais detalhada na região do vértice A, sendo que para os outros vértices foi instalada apenas uma instrumentação de controle. As deformações foram medidas por extensômetros elétricos posicionados na seção transversal central das barras, com objetivo de avaliar a compressão e a evolução da flexão na seção central destas, e também nas extremidade de diversas barras, para avaliar as deformações junto ao nó (concentração de tensões). Figura 8 – Vista geral e detalhe da estrutura para aplicação de força Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 114 4 ANÁLISE TEÓRICA As estruturas em geral são projetadas sem a consideração do comportamento não linear (físico e geométrico), ou seja, admite-se que a relação tensão x deformação se mantenha no regime elástico linear e a posição deformada da estrutura se confunda com a posição original. Para as treliças espaciais isto não é diferente, e percebe-se que na prática o modelo teórico utilizado para estas estruturas é o de treliça ideal, não se levando em consideração as características da conexão e a variação de inércia das barras junto aos nós. Entretanto, vários pesquisadores chamam a atenção para a necessidade de se analisar tais estruturas considerando seu comportamento não linear, principalmente a não linearidade geométrica. Neste trabalho, o modelo teórico tomado como referência foi o usualmente empregado na prática de projetos, ou seja, o modelo de treliça ideal, correspondendo a uma análise linear admitindo-se todas as barras com seção constante e os nós perfeitamente articulados. Foi realizada também uma análise teórica não linear levando em consideração as não linearidades física e geométrica, simulando a influência da região nodal, empregando-se o software ANSYS (versão 5.4) Para a não linearidade física o modelo constitutivo adotado foi o bilinear, tanto para tração (hipótese satisfatória), quanto para compressão (hipótese pobre). Na modelação dos protótipos para hipótese de análise não linear foi considerada as variações de inércia das extremidades das barras junto aos nós; para tanto, tomou-se partido das características do elemento de viga utilizado (BEAM 24), o qual permite a discretização da seção transversal do elemento em segmentos retos (fig. 9a), modelando deste modo as barras com suas dimensões reais, avaliadas em mesa tridimensional de alinhamento. Deste modo todas as barras foram modeladas apenas com elementos de barra (BEAM 24), considerando-se um trecho central de inércia constante e trechos extremos com inércia variável (extremidades estampadas), como pode ser visto na figura 9a. A análise não-linear pretendida procurou representar de maneira simples e viável de ser empregada na prática de projetos o detalhe das extremidades das barras e suas conexões, desta forma, foram desenvolvidas as seguintes modelações: • para os nós típicos foram admitidas duas hipóteses: na primeira, as extremidades das barras foram simplesmente unidas no nó (fig. 9b); e na segunda, a região do nó foi composta por elementos de casca com inércia equivalente à soma das inércias das extremidades das barras que concorrem no referido nó (fig. 10); • os nós de aço foram modelados com elementos de casca (fig. 11), com a espessura das chapas na região da união barra-chapa avaliadas de maneira a reproduzir a inércia correspondente à soma das inércias dos elementos componentes, ou seja, chapa de nó mais extremidade estampada da barra. Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 115 a) Modelação das barras b) Extremidades unidas no nó Figura 9 - Detalhe da barra e do nó típico modelados com elemento de barra Figura 10 - Modelação do nó típico com elemento de casca Figura 11 - Modelação do nó de aço com elemento de casca Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 116 5 RESULTADOS A força última teórica dos protótipos foi estimada pela resistência das barras comprimidas, admitindo-se uma análise linear sem a consideração da variação de inércia das extremidades das barras. Na tabela 3 são apresentadas a máxima força aplicada para os quatro protótipos ensaiados bem como as estimadas teoricamente. A resistência à compressão destas barras foi determinada com base nas normas NBR - 8800 (1986) “curva a”, AISI-LRFD (1991) e EUROCODE (1992) “curva c”. O EUROCODE recomenda a curva c, quando da utilização nos cálculos do valor da resistência ao escoamento da aço trabalhado a frio. Para vinculação das barras, foram supostos apoios simples em ambas as extremidades (K=1,0). Na determinação da resistência à compressão foram adotados os valores de resistência ao escoamento do aço obtidos nos ensaios de tração (tab. 2). Para o módulo de elasticidade longitudinal adotou-se E=20500 kN/cm2. Tabela 2 - Propriedades geométricas, esbeltez e resistência ao escoamento das barras analisadas Barra Ag r L λ fy (kN/cm2) (mm) (cm2) (cm) (cm) PROT 1/2 PROT 3/4 φ60 x 2,0 3,6 2,06 231,8 112,5 42,1 39,9 φ76x 2,0 4,7 2,62 250,0 95,4 37,4 39,4 φ76 x 2,0 4,7 2,62 231,8 88,5 37,4 39,4 φ88 x 2,65 7,1 3,02 231,8 76,8 35,9 37,5 Tabela 3 - Forças últimas teóricas e experimentais Forças totais últimas (2) EUROCODE (1992) “curva c” (3) AISI/LRFD (1991) (4) NBR 8800 (1986) “curva a” (5) Resultado s dos ensaios (6) (7) (8) Protótipo Fu (kN) teórico Fu (kN) teórico Fu (kN) teórico Fu (kN) experim. (5)/(2) (5)/(3) (5)/(4) PROT 1 210,2 310,8 259,7 161,3 0,77 0,52 0,62 PROT 2 197,0 289,5 245,9 160,2 0,81 0,55 0,65 PROT 3 210,2 310,8 259,7 259,9 1,24 0,84 1,0 PROT4 210,2 310,8 259,7 179,0 0,85 0,58 0,69 Obs.: Forças totais últimas teóricas (Fu teórico) foram calculadas admitindo-se barras sem variação de inércia. Quanto a capacidade, pode-se observar na tabela 3 que os protótipos constituídos por nós típicos (PROT 1 e PROT 2) apresentaram capacidade da ordem de 65% em relação à prevista teoricamente, enquanto o protótipo constituído por nós de aço (PROT 3) apresentou capacidade próxima a avaliada teoricamente, tendo como base a NBR 8800/86. Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 117 Quanto aos resultados da análise teórica não linear dos protótipos observou- se que estes foram próximos dos obtidos pela análise linear, como pode ser visto nos gráficos da figura 12. Nestes gráficos destaca-se também a significativa diferença apresentada nos deslocamentos verticais avaliados teoricamente com os acorridos experimentalmente. a) PROT 1 b) PROT 2 c) PROT 3 d) PROT 4 Figura 12 - Deslocamentos verticais (flechas) para os quatro protótipos ensaiados Obs.: para as figuras 12a e 12b a legenda ‘teórico H1’ e ‘teórico H2’ referem-se à análise não linear com a sobreposição das extremidades das barras e a composição desta região por um elemento de casca, respectivamente. Destaca-se que pelo fato da análise teórica não linear desenvolvida ter procurado representar de maneira simples e viável de ser empregada na prática de projetos o detalhe das extremidades das barras e suas conexões, efeitos importantes como deslizamento das barras junto aos nós (perda de atrito) e a própria abertura do nó (perda de contato), que são fatores de difícil simulação teórica não foram considerados nesta análise. Outro fator colaborante para a proximidade dos resultados da análise teórica linear e não linear foi o de terem sido analisados pequenos protótipos, com elevada relação altura/vão (1:5), portanto tratando-se de casos com grande influência da força cortante não levando a efeitos significativos da não linearidade geométrica, entretanto, para casos freqüentes das treliças espaciais, 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 experimental teórico H1* teórico H2* teórico linear δ(mm) Fo rç a to ta l ( kN ) 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 experimental teórico H1 teórico H2 teórico linear δ (mm) Fo rç a to ta l ( kN ) 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 experimental teórico não linear teórico linear δ (mm) Fo rç a to ta l ( kN ) 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 0 10 20 30 40 50 60 70 80 experimental teórico não-linear teórico linear δ (mm) Fo rç a to ta l ( kN ) Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 118 onde os vãos são relativamente elevados diante da altura, os efeitos desta não linearidade podem ser significativos e devem ser analisados. Da análise experimental dos quatro protótipos de treliça espacial observou-se dois modos de ruína: • o primeiro associado à falha do nó típico (PROT 1 e PROT 2), caracterizada pela rotação excessiva, abertura do nó e flexão da extremidade da barra, ocasionando a plastificação das barras na região da estampagem (fig.13); • o segundo correspondente à flambagem de barras do banzo superior (comprimido), conforme ilustrado na figura 14, referente ao protótipo com nós de aço (PROT 3) e sistema misto (PROT 4). PROT 1 PROT 2 Figura 13 - Rotação do nó típico (PROT 1 e PROT 2) Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 119 PROT 3 PROT 4 Figura 14 - Flambagem das barras do banzo comprimido (PROT 3 e PROT 4) Da simples observação dos modos de falha, pode-se concluir que a baixa eficiência estrutural do nó típico não permitiu que as barras comprimidas mais solicitadas atingissem sua capacidade, enquanto o nó de aço conduziu à flambagem das barras comprimidas, evidenciando maior eficiência estrutural. Esta eficiência pode ser visualizada nos gráficos das figuras 15 e 16 referentes aos deslocamentos verticais do nó central, sendo que o primeiro compara o PROT 1 com PROT 2 os quais apresentam o mesmo sistema de conexão (nós típicos) mas se diferenciam pela dimensão das diagonais de apoio e o segundo apresenta a comparação para os protótipos PROT 1, PROT 3 e PROT 4 com as mesmas dimensões das seções transversais de suas barras, diferenciando-se apenas pelo sistema de conexão; nós típicos, nós de aço e configuração mista, respectivamente. No gráfico da figura 15 observa-se que os protótipos com nós típicos apresentaram uma significativa acomodação durante o ensaio, que associada à rotação excessiva dos nós, induziu a deslocamentos muito superiores aos previstos teoricamente já nas primeiras etapas de carregamento. A maior rigidez do PROT 2 em relação ao PROT 1, demonstrada neste gráfico, deve-se ao controle de torque aplicado aos parafusos no PROT 2. No gráfico da figura 16 observa-se que o protótipo com nós de aço (PROT 3) apresentou deslocamentos, em serviço, próximos aos previsto teoricamente. A tabela 4 resume os valores teóricos e experimentais de deslocamento de serviço dos quatro protótipos. O PROT 4 (sistema misto de conexão) apresentou valores intermediários de deslocamentos (fig 16). Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 120 0 30 60 90 120 150 180 0 20 40 60 80 100 PROT 1 PROT 2 teórico linear (PROT 1) teórico linear (PROT 2) δ (mm) Fo rç a to ta l ( kN ) Figura 15 - Deslocamento vertical do nó central (PROT 1 x PROT 2) 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 0 20 40 60 80 100 PROT 1 PROT 3 PROT 4 teórico linear δ (mm) Fo rç a to ta l ( kN ) Figura 16 - Deslocamento vertical do nó central(PROT 1, PROT 3 e PROT 4) Tabela 4- Deslocamentos verticais (flechas) de serviço dos protótipos Força total (kN) Deslocamento vertical do nó central (mm) Protótipo Estimativa do valor de serviço1 Teórico Experimental Relação Exp./Teórico PROT 1 105 6,8 24,0 3,5 PROT 2 98,5 6,9 24,4 3,5 PROT 3 105 6,8 7,9 1,2 PROT 4 105 6,8 11,1 1,6 1 Carregamento de serviço na estrutura assumido como aquele correspondente à metade da capacidade nominal da barra mais solicitada. A medição de deformações específicas nas barras comprimidas mais solicitadas indicou a significativa concentração de tensões nas extremidades destas, Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 121 fato este proveniente principalmente das estampagens. A figura 17 apresenta os valores experimentais médios de deformação de uma barra do banzo superior do protótipo PROT 4, onde perceber-se que, enquanto no centro da barra o comportamento foi próximo ao linear, na extremidade ocorreram elevadas deformações(e portanto tensões) e comportamento não-linear. A figura 18 apresenta as deformações da seção transversal na extremidade da diagonal de apoio deste mesmo protótipo (barra comprimida), avaliadas por quatro extensômetros posicionados simetricamente, onde pode-se observar a ocorrência de tensões de tração nas laterais da região estampada (extensômetros 35 e 36), o que evidencia o acentuado efeito das concentrações de tensões nesta região. Na simulação numérica mais detalhada realizada por VENDRAME (1999) são apresentadas curvas de isotensões para a diagonal de apoio e o banzo superior componentes de um nó típico, onde pode-se observar para uma barra totalmente comprimida o aparecimento de uma região com tensões de tração na extremidade das barras, tal como observado nos ensaios. 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 -3500 -3000 -2500 -2000 -1500 -1000 -500 0 meio da barra extremidade da barra teórico linear ε (µε) Fo rç a to ta l ( kN ) Figura 17 - Deformações médias do banzo superior do PROT 4 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 -1200 -1000 -800 -600 -400 -200 0 200 s.g. 33 s.g. 34 s.g. 35 s.g. 36 teórico linear ε (µε) Fo rç a to ta l ( kN ) Figura 18 - Deformações da extremidade da diagonal de apoio do PROT 4 Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 122 6 CONCLUSÕES As treliças metálicas espaciais têm sido cada vez mais empregadas nas coberturas de grandes áreas, apresentando características que fazem desta opção uma solução viável economicamente e esteticamente satisfatória. São leves, geometricamente harmônicas, apresentam grande uniformidade de barras e nós, e necessitam de um número reduzido de apoios nas duas direções (comportamento global de placa). Construtivamente existem no mercado vários sistemas, em aço e alumínio. Em geral empregam-se barras de seção tubular circular, conectadas entre si a dispositivos denominados "nós". Do ponto de vista econômico, os nós representam uma parcela significativa do custo destas estruturas, podendo inviabilizar o emprego de um determinado sistema. Várias empresas e pesquisadores de vários países vêm procurando desenvolver novos sistemas que sejam bem sucedidos em relação a custo e eficiência estrutural. No Brasil são adotados sistemas simples, abordados neste trabalho, onde empregam-se barras de seção tubular circular com extremidades estampadas e conectadas entre si por um único parafuso (denominado usualmente por "nó típico"), ou conectadas a dispositivos constituídos por aletas de aço soldadas, onde cada aleta conecta uma barra (denominado "nó de aço"). O primeiro sistema apresenta excentricidades significativas, enquanto o segundo, teoricamente, não apresenta excentricidades. Na prática de projetos, tem-se observado que o modelo teórico empregado é o de treliça ideal, ou seja, barras sem variação de inércia e nós perfeitamente articulados sem excentricidades, procedendo-se à análise linear. Em seguida, o dimensionamento é feito admitindo-se também as barras sem variação de inércia e perfeitamente articuladas nas extremidades. Entretanto, vários pesquisadores chamam a atenção para a necessidade de se analisar tais estruturas considerando seu comportamento não linear, principalmente a não linearidade geométrica. Ensaios em barras isoladas, realizados no Laboratório de Estruturas da EESC-USP, mostraram que a variação de inércia nas extremidades pode conduzir à uma redução significativa da resistência à compressão da barra, tomando como referência o cálculo admitindo-se barras com inércia constante. Tal efeito é mais pronunciado nas barras com pequena esbeltez, o que na prática é usual nas diagonais de apoio e nas barras mais solicitadas do banzo comprimido, portanto, recomenda-se nesses casos não desprezar os efeitos da variação da inércia. Além da variação de inércia, outros fatores podem influenciar de maneira significativa a resistência das treliças espaciais, como por exemplo: imperfeições geométricas iniciais, excentricidades nos nós, flexibilidade dos sistemas de conexão, e para o caso dos nós típicos, o deslizamento das barras proveniente da perda do atrito nas conexões. A análise teórica não linear desenvolvida neste trabalho procurou representar de maneira simples e viável de ser empregada na prática de projetos, o detalhe das extremidades das barras e suas conexões. Como foram analisados pequenos protótipos, os resultados desta análise não foram significativamente diferentes dos obtidos pela análise linear, tendo em vista que as deformações e os deslocamentos teóricos foram relativamente pequenos. Entretanto, é extremamente difícil considerar numa análise teórica fatores relevantes como os deslizamentos e a abertura dos nós Análise teórica e experimental de treliças metálicas espaciais constituídas por barras.... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 123 típicos e as imperfeições geométricas iniciais, que alteram de maneira significativa a resposta estrutural. Análises preliminares desenvolvidas para estruturas maiores refletem a necessidade de uma análise não linear para melhor avaliar a resposta estrutural. A análise experimental foi realizada em quatro protótipos com elevada relação altura/vão (1:5), cujo objetivo principal foi comparar o desempenho estrutural de dois sistemas usualmente empregados no Brasil: nó típico e nó de aço. Os protótipos constituídos por nós típicos (PROT 1 e PROT 2) apresentaram a falha do nó como estado limite último, caracterizada pela rotação excessiva e flexão da extremidade da barra, conduzindo à rigidez e capacidade muito inferiores às previstas pela análise teórica linear de treliça ideal e também pela análise não-linear. Durante os ensaios, foi notória a significativa acomodação da estrutura, comprovando a limitação estrutural do nó típico. O protótipo constituído por nós de aço (PROT 3) apresentou como estado limite último a flambagem de barras do banzo superior (comprimido), ou seja, o nó permitiu que a resistência à compressão da barra fosse atingida, o que refletiu num carregamento último próximo ao previsto teoricamente. Quanto à rigidez, os valores de deslocamento vertical (flecha) em serviço foram próximos aos calculados teoricamente, o que significa concluir que a análise teórica linear de treliça ideal foi satisfatória neste caso. O protótipo com sistema misto (nós de aço associados a nós típicos em regiões de pequenos esforços - PROT 4) apresentou também como estado limite último a flambagem de barras do banzo superior, entretanto tal fenômeno foi induzido e precipitado pelas rotações e aberturas dos nós típicos, refletindo um carregamento último da estrutura próximo ao atingido pelos protótipos constituídos exclusivamente por nós típicos. O nó típico, com custo de fabricação e montagem relativamente baixo, constitui-se num detalhe limitado do ponto de vista estrutural, não explorando a capacidade das barras e induzindo à uma baixa rigidez da estrutura, tomando-se como parâmetro de comparação a treliça ideal. A falha deste nó é caracterizada por rotação excessiva, abertura e a conseqüente plastificação da extremidade de barras. Desta forma, tais estruturas devem ser empregadas com restrições. Quanto aos nós de aço, o ensaio comprovou sua eficiência estrutural, conduzindo à uma maior rigidez e capacidade da estrutura, estas compatíveis com as obtidas pela análise linear. Conforme esperado, o protótipo PROT 4 constituído pelo sistema misto apresentou valores de rigidez e resistência intermediários aos outros dois sistemas analisados, podendo representar uma solução interessante em alguns casos, embora necessite de mais estudos tendo em vista a limitação estrutural observada pelo nó típico. 7 BIBLIOGRAFIA AMERICAN IRON AND STEEL INSTITUTE (1991). LRFD - Load and resistance factor design specificationfor cold-formed steel manual. Washington, DC. Carlos Henrique Maiola & Maximiliano Malite Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 105-125, 2002 124 AMERICAN SOCIETY FOR TESTING AND MATERIALS (1992). A-370 - Standard test methods and definitions for mechanical testing of steel products. Philadelphia. ANSYS (1995). 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Neste trabalho pretende-se resgatar a importância da obra pioneira no Brasil, ressaltando a sua concepção arquitetônica e o seu projeto estrutural. Através de ensaios realizados no laboratório de Estruturas da EESC-USP foram obtidos dados sobre as características mecânicas do material empregado na estrutura de cabos. Um estudo numérico do comportamento da estrutura da cobertura foi executada, utilizando-se o programa de elementos finitos MEF-cabos. Este programa foi implementado em AGUIAR [1999] para a análise não linear física e geométrica de estruturas de cabos tridimensionais. Palavras-chave: Cobertura pênsil, estruturas de cabos; análise não linear; grandes deslocamentos. 1 DESCRIÇÃO DA OBRA O pavilhão, destinado a exposições, compreendia 32.000 metros quadrados de área livre aproximadamente, e localizava-se no campo de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. A obra, inaugurada em dezembro de 1960, foi projetada pelo arquiteto Sérgio W. Bernardes e calculada pelo Prof. Eng. Paulo R. Fragoso. Na época o pavilhão ostentava a maior cobertura pênsil do mundo, com os apoios dispostos unicamente no seu perímetro. A cobertura de forma elíptica em planta apresentava dois eixos de simetria (o eixo menor com 165 metros e o maior com 250 metros) que dividia o edifício em quatro setores, como mostra a figura 1.1. A mesma figura apresenta, respectivamente, um corte no meio do pavilhão e uma vista lateral do mesmo. A concepção arquitetônica da cobertura do pavilhão, considerada pioneira no país, consistia de uma imensa superfície em forma de sela. A vedação composta de placas de ligas de alumínio era suspensa por uma cesta de cabos de aço, que por sua vez era ancorada na estruturaperiférica em arco de concreto. As águas pluviais eram recolhidas em dois lagos localizados nas extremidades do eixo maior do pavilhão. 1 Profa. Doutora da PUC-Minas, campus de Poços de Caldas, elizabeth@pucpcaldas.br 2 Prof. Associado do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, barbato@sc.usp.br Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 128 BA B A PLANTA 105 CABOS PORTANTES 14 8 C AB O S TE N SO R ES 16 5, 00 m 250,00 m 210,00 m 1/2 CORTE AA CABOS TENSORES CABOS PORTANTES ESPIAS 0 3/8" VIGA CAIXÃO = 22~ 3, 80 m 11 ,1 0 m 14 ,9 0 m 29 ,2 0 m Figura 1.1 - Planta, corte e vista lateral do Pavilhão de São Cristóvão Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 129 2 ASPECTOS ESTRUTURAIS A super-estrutura de concreto compunha-se basicamente de dois grandes arcos parabólicos inclinados, apoiados em 52 pilares (distanciados de eixo a eixo de 8,33 m a 8,50 m), que eram contraventados entre si por lajes de 12 cm de espessura a cada 4,00 m de altura, em média. Externamente, nas junções dos arcos, foram construídos dois encontros estruturais de concreto, preenchidos parcialmente com pedra britada e areia, com a função de resistir aos empuxos ocasionados pela cobertura. A altura dos arcos variava de 19,20 metros na parte central, e diminuía para 14,43 metros. Nesta altura, situavam-se duas articulações tipo “Freyssinet” e os respectivos encontros. Os pilares tinham altura e seções transversais variáveis, acompanhando a altura e largura dos arcos, que eram mais largos na sua parte central. Cada vão entre pilares (com exceção dos vãos centrais e extremidades dos arcos) era preenchido com paredes vazadas de alvenaria, tendo pilaretes de concreto para amarração (figura 2.1). Figura 2.1 - (a) Vista externa, (b) vista interna, (c) entrada do Pavilhão de São Cristóvão A infra-estrutura de concreto compunha-se de blocos de fundação sob os pilares e sob um dos encontros, que se apoiavam sobre um conjunto de estacas “Franki”. O outro encontro possuía fundação direta em função de características locais. A estrutura de cabos, com dupla curvatura reversa, era composta de um conjunto de 105 cabos portantes (transversais) espaçados de 2,0 m, que eram suspensos dos arcos de concreto, e 148 cabos tensores (longitudinais) espaçados de Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 130 1,0 m, que se ancoravam nos encontros de concreto. Existiam ainda os cabos espias verticais junto aos lagos (ancorados no solo) e os tirantes diagonais na região de pequena curvatura mais ao centro (ancorados nos pilares), que colaboravam no combate às oscilações da estrutura de cabos devido à ação do vento. 3 PROBLEMAS DE EXECUÇÃO O projeto original previa a colocação de chapas de plástico poliéster (reforçadas com lã de vidro), que deveriam ser refrigeradas pela água recalcada dos lagos. Mas alguns problemas técnicos ocorreram durante a fase de colocação da vedação, inutilizando as chapas plásticas, o que resultou na troca pelas placas de alumínio. Segundo FRAGOSO [1963] os problemas com as chapas de poliéster, empregadas com sucesso em outras obras no exterior, ocorreram devido a diversos fatores, entre eles a falta de estudos sobre as juntas utilizadas. As juntas rígidas primeiramente escolhidas rachavam com facilidade, e a substituição por juntas elásticas superpostas também não funcionou convenientemente. Além disso, a resina usada na cola das juntas atingiu os cabos, soldando-os de modo que qualquer movimento do cabo era transmitido às chapas, que devido a sua rigidez se rompiam. Outro problema foi o tipo de fixação escolhida, bastante inadequado, ocasionando concentração de tensões junto aos furos de fixação. E finalmente a qualidade do material das chapas adquiridas, que se modificava completamente sob a ação do sol, mudava de cor e endurecia, e que não resistia ao efeito abrasivo das águas da chuva, contribuiu para o fracasso de sua utilização. Um outro fator, que ocasionou um grande atraso no andamento da obra foi o processo de esticamento dos cabos, que apresentou dificuldades não previstas e durou cerca de 10 meses. Após a colocação preliminar dos cabos, constatou-se que estes não apresentavam a força de tração projetada (tanto que sob a ação de sucção do vento chegou a danificar a vedação plástica), e que os esticadores não tinham um comprimento suficiente para permitir os ajustes necessários. Tornou-se necessário um acompanhamento da operação de re-estiramento dos cabos tensores, nos quais deveriam ser criadas as tensões pré-fixadas de tração. Estes cabos, por outro lado, já haviam sofrido um tracionamento prévio, por ocasião da montagem. Figura 3.1 - Detalhe dos esticadores e “protensômetro” Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 131 O Laboratório de Estruturas da EESC foi contratado para realizar todas as medidas de tensões, desde a fase de protensão até a fase das solicitações permanentes. Utilizando um dispositivo especial (denominado “protensômetro”, figura 3.1), desenvolvido pelo próprio Laboratório de Estruturas da EESC, foi possível a verificação imediata das forças atuantes nos cabos, sem a necessidade de afrouxamento dos cabos, e os devidos ajustes foram realizados. As informações do levantamento das tensões realizadas entre 30 de janeiro e 4 de fevereiro de 1960 e os dados da operação de verificação efetuados entre 26 e 30 de abril de 1960 constam em publicação da época, de autoria do Prof. MARTINELLI [1961]. Observou-se que, de maneira geral, os cabos tensores não sofreram considerável perda de tensão, e ao contrário do que se esperava, alguns cabos apresentaram pequeno acréscimo no valor medido. MARTINELLI [1961] atribui o fato, especialmente na faixa central, às diferentes condições de temperatura durante a realização das medições (diferenças da ordem de 10°C). Os deslocamentos sofridos pela estrutura sob mudanças de temperatura e ação de vento foram observados, e medidos através de aparelhos chamados “oscilômetro”, que marcavam as amplitudes máximas e mínimas das oscilações da cobertura. Estes registros compreendidos entre 5 de novembro de 1959 e 26 de abril de 1960 encontram-se em gráfico em MARTINELLI [1961]. Na época da construção não se fabricava no Brasil cabos de aço com alma de aço, e as dificuldades de importação levaram à adoção de cabos com alma de fibra. No caso foram utilizados cabos com alma de cânhamo, que é um material muito mais deformável que o aço e que pode se deteriorar com o tempo. Outro fator desfavorável, para os cabos com alma de fibra, em geral, é a falta de pré-estiramento durante o processo de fabricação, providência que reduz apreciavelmente as perdas de tensão posteriores nos cabos com alma de aço. O tipo de cabo especificado não é indicado para obras estruturais permanentes, necessitando inspeção e ajustes periódicos. MARTINELLI [1961] comenta que os resultados obtidos de deslocamentos da estrutura eram bastante satisfatórios na ocasião da execução da obra, com variações de apenas 2 a 3 cm sob a ação de vento. Nas verificações posteriores, realizadas anos depois, devido ao afrouxamento dos cabos e ruína de algumas espias, os deslocamentos tornaram-se significativos, provocando danos à vedação. Foram realizados três trabalhos de verificação de tensões e deslocamentos pelo Laboratório de Estruturas da EESC, cujo relatório final alertava para a necessidade de execução de um re-esticamento dos cabos e recuperação das espias.Os dados obtidos por ocasião desses levantamentos (janeiro de 1963, outubro de 1973 e junho de 1980) encontram-se anexos ao referido relatório em TAKEYA et alii [1981]. A obra, que foi iniciada no final de 1957, nunca chegou a ser totalmente concluída como previa os detalhes construtivos descritos no projeto original (por exemplo, a impermeabilização da super-estrutura de concreto foi executada apenas parcialmente) segundo informações contidas em laudo pericial em 1974. O pavilhão sofreu ao longo do tempo diversas alterações para se adequar a diferentes usos. Além disso, nenhum trabalho de manutenção adequado foi efetuado, contribuindo para a deterioração precoce da obra. Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 132 4 OS CABOS DE AÇO DA COBERTURA Figura 4.1 - Cabo de 1” de diâmetro (6x19 – filler), alma de fibra natural, empregado nos cabos tensores principais A estrutura da cobertura era formada por uma rede de cabos de aço polido, categoria 6x19, com diâmetros variáveis (1”, 7/8”, ¾”, 5/8”,1/2” e 3/8”), e distribuídos dependendo da região ser mais ou menos solicitada. A distribuição dos cabos é mostrada na figura 4.2. A composição dos cabos tensores principais era do tipo filler, com diâmetro de 1”, sendo as pernas compostas de arames de diâmetros aproximadamente iguais, como mostra a figura 4.1. Figura 4.2 - Distribuição dos cabos, de acordo com o diâmetro 4.1 Propriedades mecânicas do cabo Uma amostra de cabo de 1”, do lote fornecido para o pavilhão de São Cristóvão, foi durante muitos anos usada para calibrar o “protensômetro” (figura 1.3) nas diversas ocasiões em que se mediu in loco a força nos cabos. Recentemente, Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 133 esta amostra foi ensaiada pelo Laboratório de Estruturas da EESC com a finalidade de se obter algumas informações a respeito de suas propriedades mecânicas. -0.1 0.0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.000 0.001 0.002 0.003 0.004 0.005 0.006 0.007 (mm/mm) (k N /m m 2 ) Figura 4.3 - Curva de tensão-deformação do cabo de 1” Os ensaios do cabo foram realizados no equipamento INSTRON do Laboratório de Estruturas da EESC-USP (figura 4.4a), sendo o alongamento monitorado através de um extensômetro de comprimento inicial de 50 mm (figura 4.4b). Num primeiro ensaio, o cabo de 1,25 m foi submetido a 6 ciclos de carga e descarga. Cada ciclo consistiu da aplicação de uma força axial de 150 kN, seguida da retirada da mesma, com um controle da velocidade de deslocamento igual a 0,01 mm/s. Antes do ensaio uma pré-carga de 5 kN foi aplicada para a retificação do cabo e acomodação das pernas do cabo. As curvas obtidas, com a região inicial linear, indicam que praticamente todo o alongamento construtivo já havia sido removido, como mostra a figura (4.3). O módulo de elasticidade obtido foi de aproximadamente 90 kN/mm2, valor que se encontra dentro do intervalo esperado para cabos com alma de fibra (85 a 95 kN/mm2). A carga de ruptura mínima nominal especificada para este cabo de 1” era de 405 kN (40,5 tf). A mesma amostra foi submetida a um ensaio de tração até uma carga de aproximadamente 80% da carga de ruptura nominal. Neste ponto ocorreu uma variação nas medidas do extensômetro, e acreditou-se ter ocorrido um deslizamento dos cabos nos soquetes. Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 134 (a) (b) (c) Figura 4.4 - (a) Montagem do ensaio, (b) extensômetro de garra, (c) detalhe do soquete do cabo O gráfico da figura 4.5 apresenta a variação de deslocamento, medido entre os soquetes, com o aumento da força de tração aplicada no cabo. A região final desta curva mostra uma mudança de inclinação, indicando uma diminuição do módulo de deformação do cabo. Um terceiro ensaio com o mesmo cabo de aço de 1” foi realizado, com o objetivo de medir a resistência efetiva de tração. Um tratamento com fluido lubrificante micro-texturizado foi executado para a remoção de possíveis pontos de ferrugem interna. A ruptura ocorreu sob um carregamento de 320 kN, com um alongamento menor que o esperado (cerca de 1,7%). O fenômeno poderia ser caracterizado como uma ruptura frágil do cabo de aço, devido a mudanças nas suas propriedades mecânicas. No entanto, o material ensaiado esteve guardado em ambiente protegido, e apresentava boas condições visuais. Provavelmente havia uma sobretensão inicial de algumas pernas, causada por defeito na confecção dos soquetes terminais. Pode ser observada na figura 4.7 a ruptura de duas pernas do cabo nas proximidades dos soquetes. Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 135 0.0 50.0 100.0 150.0 200.0 250.0 300.0 350.0 0.0 2.5 5.0 7.5 10.0 12.5 15.0 17.5 20.0 (mm) (k N ) Figura 4.5 - Curva de carga-deslocamento (medido entre os soquetes) do cabo 1” de diâmetro nominal e comprimento de 1,25m 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 0.0E+00 5.0E-03 1.0E-02 1.5E-02 2.0E-02 2.5E-02 (mm/mm) (k N /m m 2 ) Figura 4.6 - Curva de tensão-deformação do cabo de 1” de diâmetro nominal e comprimento de 1,25 m (carregamento e descarregamento) Figura 4.7 - Ruptura do cabo de 1” de diâmetro Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 136 4.2 Propriedades mecânicas dos fios de aço Um ensaio de tração também foi realizado nos arames que compõem o cabo de aço original, utilizando-se um equipamento DARTEC do Laboratório de Estruturas de Madeiras do Departamento de Estruturas da EESC-USP. O alongamento foi monitorado através de um extensômetro apropriado de comprimento inicial de 25 mm. Foi imposto, durante todo o ensaio, um controle da velocidade de deslocamento igual a 0,01 mm/s. Os fios de aço de diâmetro aproximado de 1,7 mm apresentaram a curva de tensão-deformação da figura 4.8. O módulo de elasticidade inicial, medido a 0,2% de deformação chegou a 20.000 kgf/mm2 (200 kN/mm2). O coeficiente estrutural do cabo é igual a 45,0 200 90 E Ek wire cable cable === . 0 20 40 60 80 100 120 140 0 0.002 0.004 0.006 0.008 0.01 (mm/mm) (k gf /m m 2 ) ensaio 3 ensaio 4 ensaio 5 ensaio 6 Figura 4.8 - Curvas de tensão-deformação dos fios de 1,7 mm de diâmetro A curva aproximada de carregamento contra o alongamento total dos fios é mostrada na figura 4.9. Este alongamento foi medido através do deslocamento entre as garras do equipamento, sofrendo o efeito da sua rigidez. Foram ensaiados 6 fios, sendo cada amostra retirada de uma perna do cabo. Dois dos ensaios foram descartados, devido ao rompimento dos fios nas proximidades das garras. 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4 4.5 5 0 1 2 3 4 5 (mm) (k N ) f io 3 fio 4 fio 5 fio 6 Figura 4.9 - Curvas de carga-deslocamento dos fios de 1,7 mm de diâmetro, até a ruptura Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 137 Para os outros 4 ensaios a tensão de ruptura dos fios individuais, entre 140 a 160 kgf/mm2 (tabela 4.1), indica tratar-se de fios de aço de média resistência. Segundo gráfico da figura 4.10, retirado do catálogo C-11 da CIMAFE (Companhia Industrial e Mercantil de Artefatos de Ferro), os fios estão dentro da faixa de classificação Plow Steel. Figura 4.10 - Variação da resistência dos arames em função do seu diâmetro Tabela 4.1 fio 3 4 5 6 Tensão de ruptura (kgf/mm2) 163 157 147 145 força de ruptura do fio (kgf) 370 356 334 329força de ruptura do cabo (kN) 420 405 380 375 A tensão média de 153 Kgf/mm2 corresponde a uma carga de ruptura média de 3,473 kN (347,3 Kgf para uma área do fio de 2,2698 mm2). Este valor resulta em força de ruptura Trup=396 kN para um cabo 6x19, no caso de fios paralelos e máxima eficiência. Para o caso de cabo de alma de fibra a força de ruptura estimada é igual a 0,86.Trup=340 kN. Portanto, conclui-se que não se poderia alcançar a força de 420 kN para o cabo, que corresponde à força de ruptura nominal. A eficiência do cabo, que é quantificada através da relação entre a resistência de ruptura do cabo e a soma das resistências individuais dos fios que compõem o cabo em estudo, foi no caso igual a 80%. Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 138 5 ANÁLISE NUMÉRICA Inicialmente foi obtida a configuração inicial da cesta em forma de parabolóide hiperbólico e contorno elíptico pelas expressões: 22 5,74 9,14 5,122 9 + −= YXZ (5.1) 22 5,745,122 + = YX1 (5.2) Figura 5.1 - Numeração dos nós dos setores B e C da cesta (cabos tensores paralelos ao eixo Y e cabos portantes paralelos ao eixo X) A malha tem espaçamento de 2m segundo a direção X e de 1m na direção Y. Da geração automática dos nós da cesta, resultou um total de 13.906 nós. Problemas de mau condicionamento foram detectados, devido a alguns elementos de comprimento muito pequeno no contorno da cesta. Estes foram posteriormente incorporados aos elementos adjacentes. Além disso, melhorou-se o modelo através da retirada do cabo tensor mais abatido (em ambos os lados). Com estas modificações obteve-se uma malha de 13.863 nós (sendo 480 nós de contorno, com deslocamentos prescritos nulos) e 27.018 elementos. A numeração dos nós resultou numa diferença máxima de 149 entre o nó inicial e final de um elemento, conforme mostra a figura 5.1. 80 160 3069 3205 7006 6858 40 X6932 1402 1518 Y Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 139 5.1 Aplicação da protensão Para a primeira análise numérica considerou-se a cesta uniforme, com todos os cabos de diâmetro igual a 1 in (2,58 cm2 de área metálica) e com um módulo de elasticidade do cabo igual a 90 kN/mm2. Foram aplicados 10 incrementos de 1 kN a todos os cabos tensores. Duas situações de carregamento foram consideradas: no primeiro caso desprezou-se o peso próprio dos cabos e no segundo caso o efeito conjunto do peso próprio e protensão foi levado em conta. O peso próprio foi totalmente aplicado junto com a primeira parcela de protensão. Para a resolução empregou-se o método do Gradiente Conjugado, e adotou-se um resíduo máximo de 1 N como critério de convergência. Tabela 5.1 Número de iterações Parcela de protensão Carreg. protensão Carreg. prot. + pp 1 13606 6018 2 11500 2870 3 10850 2740 4 9591 2275 5 12012 2514 6 9041 2207 7 9731 1972 8 9167 2056 9 8130 2265 10 8241 1941 total de iterações 101.869 26.858 A análise da estrutura foi inicialmente realizada utilizando-se um computador PENTIUM II, de 450 MHz de freqüência e 512 Mbytes de memória RAM. Os resultados em termos de número de iterações encontram-se na tabela 5.1. O método de Newton-Raphson também foi testado, não se obtendo convergência, no primeiro incremento de protensão e peso próprio, com menos de 3 horas de processamento. A matriz gerada é da ordem de 41.589 linhas e 450 colunas. Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 140 -8 -7 -6 -5 -4 -3 -2 -1 0 80 85 90 95 10 0 10 5 11 0 11 5 12 0 12 5 13 0 13 5 14 0 14 5 15 0 15 5 16 0 nó co or d. Z (m ) configuração inicial 1a. Etapa protensão 2a. Etapa protensão Figura 5.2 - Coordenadas verticais do cabo portante mais afastado do centro (x=-104m) Para o segundo estudo considerou-se a estrutura com a distribuição real de cabos, isto é, tomou-se as seções transversais dos cabos como descrito na figura 4.2. Procedeu-se a aplicação da força de protensão em duas etapas, procurando simular o procedimento de execução relatado em documentos da época (citados no item 3). Primeiramente foram esticados apenas os cabos tensores centrais (denominados de cabos 54 - 93 da figura 4.2) de maneira simétrica, com força de protensão igual a 100 kN. Em seguida os cabos restantes foram esticados com 10 kN, também de ambos os lados. Os resultados obtidos com o programa MEF-cabos, com a resolução pelo método do Gradiente Conjugado encontram-se nas figuras 5.2 a 5.10. A análise foi realizada em uma estação de trabalho Sylicom modelo Origin 200. -104.8 -104.7 -104.6 -104.5 -104.4 -104.3 -104.2 -104.1 -104 -103.9 80 85 90 95 10 0 10 5 11 0 11 5 12 0 12 5 13 0 13 5 14 0 14 5 15 0 15 5 16 0 nó co or d. X (m ) configuração inicial 1a. Etapa protensão 2a. Etapa protensão Figura 5.3 - Coordenadas X do cabo portante mais afastado do centro (x=-104m) A observação global dos resultados numéricos mostram maiores efeitos sobre os deslocamentos verticais e horizontais na região próxima à aplicação da protensão, diminuindo na região central da cesta. A análise local do cabo portante das figuras 5.2.e 5.3 indica que os deslocamentos maiores ocorrem nas laterais da região de protensão, na primeira etapa. Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 141 A segunda etapa de protensão providencia uma superfície mais regular e próxima da superfície inicial. -6 -4 -2 0 2 4 6 14 02 14 09 14 16 14 23 14 30 14 37 14 44 14 51 14 58 14 65 14 72 14 79 14 86 14 93 15 00 15 07 15 14 nó co or d. Z (m ) configuração inicial 1a. Etapa protensão 2a. Etapa protensão Figura 5.4 - Coordenadas Y do cabo portante (x=-78m) -4 -2 0 2 4 6 8 10 12 30 69 30 77 30 85 30 93 31 01 31 09 31 17 31 25 31 33 31 41 31 49 31 57 31 65 31 73 31 81 31 89 31 97 32 05 nó co or d. Z (m ) configuração inicial 1a etapa protensão 2a etata protensão Figura 5.5 - Coordenadas Y do cabo portante (x=-52m) -2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 68 58 68 67 68 76 68 85 68 94 69 03 69 12 69 21 69 30 69 39 69 48 69 57 69 66 69 75 69 84 69 93 70 02 nó co or d. Z configuração inicial 1a. Etapa protensão 2a. Etapa protensão Figura 5.6 - Coordenadas verticais do cabo portante central (x=0) Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 142 0.0E+00 5.0E+04 1.0E+05 1.5E+05 2.0E+05 2.5E+05 3.0E+05 3.5E+05 1 7 13 19 25 31 37 43 49 55 61 67 73 79 elemento fo rç a (N ) 1a. Etapa protensão 2a. Etapa protensão Figura 5.7 - Força nos elementos do cabo portante entre os nós 80 a 160 (x=-104m) A primeira etapa de protensão providencia um estado de tração em todos os elementos, com menores valores (entre 300 N a 600 N) nos elementos tensores próximos ao contorno, na área central da cesta (região mais abatida). No entanto, nesta configuração de equilíbrio, as forças nos cabos portantes próximos ao contorno (na região de aplicação da força) são excessivamente altas (figura 5.7) para os cabos dimensionados. A segunda etapa proporciona uma drástica redução da força de tração nestes elementos, chegando-se a valores seguros. Portanto, sugere-se outro esquema de protensão por etapas alternadas de menores valores, entre a região central e os cabos tensores restantes. 2.0E+04 2.5E+04 3.0E+04 3.5E+04 4.0E+04 4.5E+04 12 79 12 88 12 97 13 06 13 15 13 24 13 33 13 42 13 51 13 60 13 69 13 7813 87 elemento fo rç a (N ) 2a. Etapa protensão 1a. Etapa protensão Figura 5.8 - Força nos elementos do cabo portante entre os nós 1402 a 1518 (x=-78m) 3.3E+04 3.4E+04 3.5E+04 3.6E+04 3.7E+04 3.8E+04 29 15 29 25 29 35 29 45 29 55 29 65 29 75 29 85 29 95 30 05 30 15 30 25 30 35 30 45 elemento fo rç a (N ) 2a. Etapa protensão 1a. Etapa protensão Figura 5.9 - Força nos elementos do cabo portante entre os nós 3069 a 3205 (x=-52m) Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 143 3.5E+04 4.0E+04 4.5E+04 5.0E+04 66 71 66 82 66 93 67 04 67 15 67 26 67 37 67 48 67 59 67 70 67 81 67 92 68 03 68 14 elemento fo rç a (N ) 1a. Etapa protensão 2a. Etapa protensão Figura 5.10 - Força nos elementos do cabo portante central - nós 6858 a 7006 (x=0) 5.2 Aplicação dos carregamentos A partir da configuração protendida foram aplicados 1.000 N/m2 de ação de vento (velocidade de 40 m/s) e 100 N/m2 de peso próprio correspondente à vedação. Deste modo resultam forças de 1.100 N/m2 para baixo e 900 N/m2 para cima. Considerando que a rede de cabos é regular de 1 m por 2 m, aplicou-se, em cada nó, uma força de 2.200 N para baixo e 1.800 N para cima. As figuras seguintes mostram os esforços e as configurações deslocadas de alguns cabos portantes, para os carregamentos aplicados. As figuras 5.12 a 5.14 apresentam a força nos elementos de apenas metade do cabo portante, já que os valores são simétricos para a outra metade. 0.0E+00 5.0E+04 1.0E+05 1.5E+05 2.0E+05 2.5E+05 1 6 11 16 21 26 31 36 41 46 51 56 61 66 71 76 elemento fo rç a (N ) configuração de referência vedação + pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.11 - Força nos elementos do cabo portante entre os nós 80 a 160 (x=-104m) Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 144 0.0E+00 5.0E+04 1.0E+05 1.5E+05 2.0E+05 2.5E+05 3.0E+05 3.5E+05 12 79 12 8 2 12 8 5 12 8 8 12 9 1 12 9 4 12 9 7 13 0 0 13 0 3 13 0 6 1 3 09 1 3 12 1 3 15 1 3 18 1 3 21 1 3 24 1 3 27 1 3 30 1 3 33 1 3 36 elemento fo rç a (N ) configuração de referência vedação + pressão de vento Figura 5.12 - Força nos elementos do cabo portante entre os nós 1402 a 1460 (x=-78m) Para o carregamento simulando a sucção de vento os elementos do cabo portante para x=-78 m ficaram com reduzida força de tração (menos que 400 N). O resultado para o primeiro carregamento (vedação + pressão de vento) indicou 688 elementos de cabo destracionados e um grande número de elementos com baixa força de tração (2560 elementos com T<1kN). Por outro lado os cabos portantes atingiram níveis de tensão muito elevados, o que poderia causar a ruptura de vários elementos. Para o carregamento simulando a sucção de vento ocorreu um destracionamento dos cabos portantes na região das extremidades do eixo maior da cesta. Para o interior da cesta as variações de força diminuíram. E na região central, resultaram pequenas variações (para mais e para menos) em torno dos valores de força do estado de referência. Os cabos tensores, por sua vez, chegaram a níveis de tensão muito elevados, bem próximos ao de ruptura. 0.0E+00 5.0E+04 1.0E+05 1.5E+05 2.0E+05 2.5E+05 3.0E+05 3.5E+05 4.0E+05 29 15 29 19 29 23 29 27 29 31 29 35 29 39 29 43 29 47 29 51 29 55 29 59 29 63 29 67 29 71 29 75 29 79 elemento fo rç a (N ) configuração de referência vedação = pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.13 - Força nos elementos do cabo portante entre os nós 3069 a 3137 (x=-52m) Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 145 0.0E+00 5.0E+04 1.0E+05 1.5E+05 2.0E+05 2.5E+05 3.0E+05 3.5E+05 4.0E+05 4.5E+05 66 71 66 76 66 81 66 86 66 91 66 96 67 01 67 06 67 11 67 16 67 21 67 26 67 31 67 36 67 41 elemento fo rç a (N ) configuração de referência vedação + pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.14 - Força nos elementos do cabo portante central - nós 6858 a 6932 (x=0) Quanto aos deslocamentos horizontais, observam-se os maiores valores na região das extremidades do eixo maior da cesta, enquanto que os deslocamentos verticais crescem na região central. -104.8 -104.7 -104.6 -104.5 -104.4 -104.3 -104.2 -104.1 -104 -103.9 80 86 92 98 10 4 11 0 11 6 12 2 12 8 13 4 14 0 14 6 15 2 15 8 nó co or d. X (m ) configuração de referência vedação +pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.15 - Coordenadas X do cabo portante mais afastado do centro (x=-104m) -10 -9 -8 -7 -6 -5 -4 -3 -2 -1 0 80 85 90 95 10 0 10 5 11 0 11 5 12 0 12 5 13 0 13 5 14 0 14 5 15 0 15 5 16 0 nó co or d. Z (m ) configuração de referência vedação + pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.16: Coordenadas verticais do cabo portante mais afastado do centro (x=-104m). Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 146 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 14 02 14 09 14 16 14 23 14 30 14 37 14 44 14 51 14 58 14 65 14 72 14 79 14 86 14 93 15 00 15 07 15 14 nó co or d. Z (m ) configuração de referência vedação + pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.17 - Coordenadas verticais do cabo portante (x=-78m) -7 -3.5 0 3.5 7 10.5 14 30 69 30 78 30 87 30 96 31 05 31 14 31 23 31 32 31 41 31 50 31 59 31 68 31 77 31 86 31 95 32 04 nó co or d. z (m ) configuração de referência vedação + pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.18 - Coordenadas verticais do cabo portante (x=-52m) -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 68 58 68 68 68 78 68 88 68 98 69 08 69 18 69 28 69 38 69 48 69 58 69 68 69 78 69 88 69 98 nó co or d. Z (m ) configuração de referência vedação + pressão de vento vedação + sucção de vento Figura 5.19 - Coordenadas verticais do cabo portante central (x=0) 5.3 Comentários sobre o pavilhão de São Cristóvão Para os casos de carregamento de vento considerados mostrou-se que a protensão aplicada é ineficiente. A ruptura da vedação ocorreria, já que não poderia absorver os deslocamentos excessivos resultantes. Por outro lado, a partir de um determinado deslocamento o sistema vedante passa a trabalhar junto com o sistema de cabos. Utilizando-se elementos de membrana poderia ser simulado essa contribuição das chapas metálicas na rigidez global da estrutura. Análise da estrutura de cabos da cobertura do pavilhão da Feira Internacional de ... Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 147 Além dos problemas com a vedação, devido às pequenas seções metálicas de cabo adotadas, ocorreria a ruptura de um grande número de cabos, o que levaria a estrutura ao colapso. Cabe lembrar que o projeto original especificava cabos com alma de aço, que são menos deformáveis, e cabos espias foram colocados na região de pequena curvatura, como descrito no item 2, para reduzir os deslocamentos devidos à sucção de vento. Na época de sua realização o cálculo da estrutura do pavilhão foi realizada a partir de métodos simplificados, e considerou-se um valor para a ação de vento bem menor que os carregamentos deste estudo. Um sensível aumento da rigidez da estrutura pode ser obtido com o aumento da flecha dos cabos tensores e diminuição da flecha dos cabos portantes, obedecendo as características geométricas do contorno. Com essa providência, certamente a aplicação da protensão seria também mais efetiva. 6 BIBLIOGRAFIA AGUIAR, E.O. (1999). Contribuição ao estudo de estruturas de cabos para coberturas de grandes áreas livres, considerando as não linearidadesfísica e geométrica. São Carlos. 213p. Tese (Doutorado) - Escola de Engenharia de São Carlos, USP. BARBATO, R.L.A. (1972). Sobre o comportamento estático de cabos de coberturas pênseis. São Carlos. 90p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Engenharia de São Carlos, USP. DAVID, R.A. (1995). Estudo de cestas protendidas pela técnica do meio contínuo. São Carlos. 102p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Engenharia de São Carlos, USP. BUCHHOLDT, H.A. (1985). An introduction to cable roof structures. Cambridge, Cambridge University Press. 257p. FRAGOSO, P.R. (1963) Considerações sobre as coberturas suspensas. Estrutura, n.56, p.13-17, n.57, p.33-60. OTTO, F. (1958). Cubiertas colgantes. tradução de Francisco Folguera, Barcelona, Labor. 170p. KADLCÁK, J. (1995). Statics of suspension cable roofs. Brookfield, USA, A.A. Balkema. 295 p. LEONARD, J.W. (1988). Tension structures: behavior and analysis of cable structures. New York, Mc. Graw Hill. 391p. MAJOWIECKI, M. (1985). Tensostrutture: projetto e verifica. Milano, Cisia, 165p. MARTINELLI, D.A.O. (1961) A observação da cobertura pênsil da exposição internacional da indústria e comércio. Engenharia, n.217, p.219-228. Elizabeth Oshima de Aguiar & Roberto Luiz de Arruda Barbato Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 127-148, 2002 148 TAKEYA, T.; BARBATO, R.L.A.; MONTANARI, I. (1980) Verificação da cobertura pênsil do pavilhão de São Cristóvão. São Carlos, EESC-USP, 23p. (Relatório LE- EXT 80/2). Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 PERFIS DE AÇO FORMADOS A FRIO SUBMETIDOS À FLEXÃO: ANÁLISE TEÓRICO-EXPERIMENTAL Carlos Eduardo Javaroni1 & Roberto Martins Gonçalves2 R e s u m o Este artigo apresenta os resultados obtidos nos ensaios realizados em perfis de chapa dobrada submetidos à flexão. Esses ensaios foram realizados em duas situações distintas, sendo que, a primeira compreende ensaios em perfis isolados sob três diferentes tipos de carregamento. Na segunda situação fez-se ensaios em perfis conectados a telhas de aço, onde simulou-se o efeito de sucção devida a ação do vento. Os testes em ensaios isolados foram executados sobre perfis tipo U e Z, com forças transversais concentradas. Esses perfis foram travados lateralmente nos pontos de aplicação das forças e nos apoios. Os testes nos perfis conectados às telhas de aço foram realizados em uma “caixa de sucção” desenvolvida especificamente para este projeto. Foram ensaiados perfis tipo U e tipo Z, conectados às telhas pela mesa tracionada através de parafusos auto-brocantes. As telhas de aço têm seção trapezoidal com espessura de 0,65 mm . Palavras-chave: Estruturas de aço; perfis de aço formados a frio; flexão; instabilidade; terças. 1 INTRODUÇÃO Os perfis de aço formados a frio, os perfis de chapa dobrada, dada a grande variedade das formas de seções transversais que podem ser obtidas e da boa relação massa/resistência, alcançaram lugar de destaque entre as estruturas metálicas, principalmente em obras de menor porte que possuem, em geral, pequenos vãos e carregamentos de pequena intensidade. Como estrutura principal, o uso dos perfis de chapa dobrada dá-se em edifícios de pequena altura, residências e galpões em geral. Fôrmas para concretagem, andaimes e escoramentos, terças, longarinas e armações para forros são outros exemplos que ilustram a versatilidade desses perfis na construção civil. Pode-se citar diversas características que diferenciam o comportamento estrutural desses perfis em relação aos perfis laminados e soldados. A conformação a frio das chapas finas altera as características mecânicas do aço virgem, ocorrendo acréscimo na tensão limite de escoamento e na tensão limite de resistência à tração, como consequências tem-se a redução na ductilidade do 1 Prof. Doutor do Departamento de Engenharia Civil da UNESP, campus de Bauru, javaroni@feb.unesp.br 2 Prof. Associado do Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, goncalve@sc.usp.br Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 150 material e o surgimento de tensões residuais. Esses efeitos são mais pronunciados na região dos cantos dobrados. A pequena espessura das chapas utilizadas resulta em elevada relação largura/espessura dos elementos planos que compõe a seção transversal. Os perfis assim obtidos estão sujeitos à flambagem local dos elementos que compõem a sua seção transversal como ilustra-se na figura 1. Isto não representa, em geral, o esgotamento da capacidade resistente da barra. A teoria da instabilidade de chapas permite prever a carga crítica e a análise do comportamento pós-crítico pode ser feita através do conceito da largura efetiva. A Corte A M M Figura 1 - Flambagem local para a mesa comprimida do perfil fletido Os estudos sobre o comportamento dos perfis de aço formados a frio como elementos estruturais tiveram início nos trabalhos pioneiros do professor George Winter, desenvolvidos a partir de 1939, na Universidade Cornell.3 A instabilidade global de uma barra formada por chapas esbeltas, pode ocorrer ou por flexão, ou por torção, ou por uma combinação de flexão e torção. A flambagem lateral em vigas, esquematizada na figura 2, tem sido muito pesquisada. A teoria de Vlassov (1962) considera a não validade da hipótese de Bernoulli, surgindo tensões normais oriundas do empenamento das seções transversais das vigas. As normas apresentam expressões aproximadas e coeficientes de correção em função do tipo de vinculação, da forma do diagrama de momentos fletores, da posição do carregamento e da forma da seção transversal. 3YU, W. W. (1985) Cold formed steel design. New York: Wiley-Interscience. 545p. Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 151 A M M Corte A Figura 2 - Flambagem lateral com torção de vigas A determinação da resistência de vigas em perfis de aço formados a frio, resultante dos trabalhos de Winter (1943, 1944 e 1959), é ainda adotada nas mais recentes versões das especificações do American Iron and Steel Institute (AISI), edição de 1996, e do Canadian Standarts Association (CSA), edição de 1995, normas específicas sobre o dimensionamento desses elementos estruturais. No caso particular da flexão, a solução teórica de Timoshenko, Gere (1961) para uma viga tipo I sob momento de flexão uniforme, simplesmente apoiada, tem sido usada como uma solução de referência. Para outras situações, um fator de modificação de momentos (Cb), é utilizado para avaliar a resistência à flambagem lateral com torção de vigas sob momento gradiente e com diferentes tipos de seções transversais e condições de apoio. Um outro modo de instabilidade, diferente dos anteriores, pode tamém caracterizar a falha do perfil. Este modo é chamado de flambagem distorcional e nele ocorre, como o próprio nome sugere, a distorção da seção transversal em seu próprio plano. É mais comum para seções com enrijecedores de borda e envolve a rotação da mesa e enrijecedor de borda em torno da junção alma e mesa. A figura 3 apresenta a ocorrência do modo distorcional para um perfil sujeito à flexão. O modo de instabilidade por distorção tem sido estudado sistematicamente por Hancock, entre outros pesquisadores sob sua orientação, cujo estudos conduziram a expressões analíticas para o cálculo da carga crítica para barras comprimidas, Hancock (1985); Lau, Hancock (1987); Kwon, Hancock (1992); e para barras fletidas, Hancock (1997); Bambach et al. (1998). O modelo representativo desses estudos idealiza a mesa e enrijecedor comprimidos do perfil como uma barra comprimida sujeita à instabilidade porflexo- torção, apoiada elasticamente na alma. Este apoio é representado por uma mola lateral e outra mola rotacional. A seção formada pela parte comprimida é considerada indeformável no seu plano. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 152 Corte A M M A Figura 3 - Flambagem por distorção para a mesa comprimida do perfil fletido A expressão analítica é obtida inicialmente para uma barra comprimida, e posteriormente alterada para barras fletidas. Esta alteração corresponde à uma modificação no coeficiente da mola rotacional. Estas expressões estão sendo incorporadas ao texto-base para a norma brasileira sobre dimensionamento dos perfis de aço formados a frio. Cabe ressaltar que no país as pesquisas na área de estruturas de aço tem crescido sistematicamente nos últimos anos e, embora desenvolvida pôr alguns centros de pesquisa, em muito tem contribuído para o crescimento do uso do aço na construção civil e para uma melhor formação e qualificação dos profissionais que desenvolvem suas atividades no projeto e fabricação dessas estruturas. Sob estes aspectos e com o objetivo de incrementar as pesquisas em estruturas de aço, a área de estruturas metálicas do Departamento de Engenharia de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos vem desenvolvendo seu trabalhos nesses últimos anos. Como resultado desses trabalhos de pesquisa, a área de estruturas metálicas vêem coordenando os trabalhos de revisão e atualização da NB 143, os quais devem conduzir à nova edição da norma brasileira sobre o dimensionamento de elementos estruturais de aço formados a frio. Neste trabalho, inserido em uma série de pesquisas sobre o uso e aplicação do aço na construção metálica brasileira, apresentam-se os resultados dos ensaios desenvolvidos em perfis de aço conformados a frio com seção transversal do tipo U e Z, e os resultados dos ensaios desses perfis em sistemas de cobertura, ensaiados em caixa de sucção, simulando-se o efeito de sucção do vento em coberturas de águas planas. Esses ensaios foram desenvolvidos no Laboratório de Estruturas do Departamento de Engenharia de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo. Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 153 2 OBJETIVOS Este trabalho tem como objetivo o estudo de perfis de aço formados a frio, perfis tipo U, U e Z enrijecidos, quando submetidos à flexão. O projeto de pesquisa foi desenvolvido em duas situações distintas. A primeira refere-se à utilização dos perfis tipo U e tipo U enrijecido enquanto perfis fletidos, isoladamente, com travamentos laterais em pontos discretos. Os perfis foram submetidos à ação de forças concentradas, variando-se a distância entre os pontos travados lateralmente e os pontos de aplicação das forças. A segunda situação refere-se ao uso dos perfis U, U e Z enrijecidos como terças, conectados por parafusos auto-brocantes às telhas de aço, sujeitos a ações de sucção devidas ao efeito do vento em coberturas. Os ensaios foram realizados em uma “caixa de sucção” especialmente desenvolvida para estes ensaios. A simulação do carregamento foi realizada através da retirada do ar contido no interior dessa caixa por meio de um aspirador. Os resultados obtidos experimentalmente são confrontados com os procedimentos utilizados no dimensionamento de elementos estruturais de aço formados a frio. 3 MATERIAL Para a determinação das propriedades mecânicas de interesse do aço empregado na confecção dos perfis, denominado comercialmente como USI-SAC 41, foram realizados ensaios à tração em 12 (doze) corpos de prova. Nesses ensaios foram obtidas a tensão limite de escoamento (fy) e a tensão limite de ruptura à tração (fu). Os corpos de prova foram retirados de quatro chapas de aço antes da operação de dobramento (aço virgem), sendo duas chapas de espessura de 2,25 mm e as outras duas com espessura de 3,00 mm. Para cada chapa retirou-se três corpos de prova, em um total de 12. As dimensões nominais para esses corpos de prova estão indicadas na figura 1. Os ensaios à tração foram realizados em máquina universal de ensaio, junto ao Departamento de Materiais da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 154 80 200 1050 10 50 R=13 20 12 .5 Figura 4 - Dimensões nominais do corpo de prova para ensaio à tração Na tabela 1 estão apresentados os resultados obtidos na realização dos ensaios, cujos procedimentos utilizados foram aqueles preconizados pela norma ASTM 370-95 da American Society for Testing and Materials (ASTM). As chapas estão numeradas de 1 a 4 e os três corpos de prova correspondentes a mesma chapa são identificados pelas letras A, B e C. Tabela 1 - Características mecânicas do aço utilizado C.P. A (mm2) Along (mm) Ny (kN) Nu (kN) Along. (%) fy (Mpa) fu (Mpa) 1A 38,130 68,42 13,40 17,45 36,84 351,43 457,64 1B 37,324 67,15 13,00 17,00 34,30 348,30 455,47 1C 38,440 66,75 13,10 17,30 33,50 340,79 450,05 2A 28,125 66,56 9,80 13,35 33,12 348,44 474,67 2B 27,630 64,95 9,85 13,00 29,90 356,50 470,50 2C 27,540 64,45 9,85 13,10 28,90 357,66 475,67 3A 28,409 66,85 9,45 13,10 33,70 332,64 461,12 3B 27,725 65,96 9,30 12,85 31,92 335,44 463,48 3C 28,181 65,91 9,55 13,10 31,82 338,88 464,86 4A 39,122 68,43 13,40 17,80 36,86 342,52 454,99 4B 38,626 66,08 42,70 17,40 32,16 328,79 450,47 4C 38,440 65,12 13,00 17,60 30,24 338,19 457,86 Média 32,77 343,30 461,40 Desvio Padrão 2,50 9,23 8,69 O alongamento foi medido sobre a base de medida de 50 mm e todos os corpos de prova apresentaram patamar de escoamento definido, sendo o valor do módulo de elasticidade (E) admitido igual a 205.000 MPa, valor este normalizado para o aço. Para fins de utilização futura na determinação dos valores de resistência nominal da barra, serão utilizados os valores médios obtidos dos ensaios. As telhas utilizadas para os ensaios desenvolvidos na caixa de sucção têm seção trapezoidal com altura de 40 mm, espessura de 0,65 mm, largura de 1.035 mm e comprimento de 3.750 mm. Na figura 5 apresenta-se a seção transversal da telha utilizada. Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 155 1035 40 t= 0 , 6595105 25 Figura 5 - Seção transversal da telha de aço na posição de montagem 4 ASPECTOS TEÓRICOS Os aspectos teóricos envolvidos no dimensionamento dos elementos estruturais de aço formados a frio estão fundamentados na teoria da instabilidade por flexo-torção de barras de seção aberta e parede delgada. Aqui são apresentadas as equações normalmente empregadas na determinação da resistência ao momento fletor, como apresentadas na norma do AISI (1996) e no texto-base para a norma brasileira sobre o dimensionamento dos perfis de aço formados a frio. Javaroni (1993, 1999) apresenta e discute os vários aspectos da formulação teórica para o dimensionamento de perfis formados a frio às solicitações frequentes. 4.1 Resistência ao momento fletor – flambagem lateral com torção A solução teórica de Timoshenko, Gere (1961), para uma viga “I” sob momento de flexão uniforme, simplesmente apoiada, equação (1), tem sido usada como uma solução de referência. += 2 t 2 tycr LGI EC1GIEI L M ωππ (1) Já os efeitos do momento gradiente e as diversas condições de apoio são ajustadas através de um fator de modificação de momentos aplicado aos resultados obtidos através da equação (1). Esta aproximação tem sido utilizada há mais de 40 anos. Fórmulas aproximadas para o fator de modificaçãode momento, Cb, foram apresentadas por vários pesquisadores. Salvadori (1955) resolveu o problema de uma viga tipo “I”, sob momento fletor constante, também através do método de Raileigh-Ritz, considerando vários termos nas expressões dos deslocamento lateral e giro. Os valores de Cb foram recomendados para 2467.0 GIL EC t 2 2 ≤= ω πγ e vigas simplesmente apoiadas. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 156 Posteriormente, o SSRC (Stability Steel Research Column) aproximou aqueles resultados pela seguinte expressão: 3.2r3.0r05.175.11C 2b ≤++== ω (2) Ao longo dos últimos anos, várias formulações assumindo diferentes hipóteses e condições de apoio têm sido publicadas e discutidas. Segundo Pandey, Sherbourne (1989) e Sherbourne, Pandey (1989), os resultados desses estudos têm sido similares por não incluírem, ou simplesmente aproximarem, a rigidez ao empenamento para simplicidade na análise. Sob este enfoque, o trabalho apresenta uma solução teórica para a flambagem lateral com torção de vigas “I”, em regime elástico, considerando o problema como uma superposição de dois casos hipotéticos: um correspondendo ao empenamento igual a zero e o outro, a rigidez torcional igual a zero. Em sua mais recente edição, a edição do AISI de 1996 sugere a utilização de uma nova expressão para Cb, devida a Kirby e Nethercot: cBAmax max b M3M4M3M5,2 M5,12C +++ = (3) onde: maxM = momento fletor máximo. AM = momento fletor a um quarto do vão. BM = momento fletor no meio do vão. CM = momento fletor a três quartos do vão. Essa mesma expressão é utilizada no texto-base da norma brasileira. Quando as forças transversais são aplicadas excentricamentes em relação ao centro de cisalhamento, as equações de Mcr e Cb diferem das anteriormente mencionadas. A influência da variação das condições de contorno e de carregamentos na instabilidade dos perfis de simetria única é, comparativamente aos perfis de dupla simetria, de menor conhecimento. Kavanagh e Ellifritt (1994), através de resultados de ensaios em vigas de perfis U de chapa dobrada, concluíram que as equações do AISI podem super estimar a resistência à flambagem lateral, especialmente nos casos em que se tem dois ou mais travamentos laterais intermediários. Segundo os autores, os ensaios demonstraram a ocorrência de falhas por distorção na interseção da mesa com o enrijecedor nos pontos travados. Este modo de falha não é previsto nas especificações do AISI e CSA. Para os perfis isolados, sujeitos à flambagem lateral com torção, a resistência à flexão, de acordo com o AISI/96, é obtida através da seguinte expressão: ef,c c cn W MWM = (4) Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 157 onde: Wc = Módulo elástico da seção bruta para a fibra extrema comprimida. Wc,ef = Módulo elástico de seção efetiva calculada com a tensão Mc/Wc na fibra comprimida. Mc = Momento crítico calculado de acordo com a equação (5) ou equação (6). Para Mc > 0.56My −= e y yc M36 M 1M 9 10M (5) Para Me ≤ 0.5My ec MM = (6) My é o momento que provoca o escoamento inicial da fibra extrema comprimida seção transversal bruta e Me é o momento crítico elástico calculado pela equação (4) para flexão em torno do eixo de simetria (x é o eixo de simetria). Quando tem-se Mc ≥ 2,78My a flambagem lateral com torção não mais ocorre, tendo-se como momento resistente o próprio momento de escoamento My. Rescrevendo-se a equação (4) pode-se obter: tey0be ArCM σσ= (7) onde: Cb = Coeficiente de flexão. r0 = Raio polar de giração da seção transversal em torno do centro de cisalhamento. A = Área da seção transversal bruta. ( )2yyy 2 ey r/LK Eπσ = e ( ) += 2 tt w 2 t 0 et LK ECGI Ar 1 πσ . Ky,Kt= Coeficientes de flambagem em relação ao eixo y e à torção, respectivamente. Ly,Lt= Comprimento lateralmente destravado para flexão em torno do eixo y e para a torção, respectivamente. Esta expressão tem como vantagem permitir a consideração dos diferentes comprimentos de flambagem, à flexão e à torção, para os perfis com travamentos laterais intermediários. O texto-base para a norma brasileira determina a resistência à flambagem lateral com torção através da expressão: yef,cFLTc fWM ρ= (8) Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 158 onde FLTρ é o fator de redução da resistência ao momento fletor da barra devido à flambagem lateral com torção. Este fator é dado por: 0,1FLT =ρ para 6,00 ≤λ ( )20FLT 278,0111,1 λρ −= para 336,16,0 0 << λ 2 0 FLT 1 λρ = para 336,10 ≥λ 0λ é o índice de esbeltez reduzido da barra obtido através da equação (9). e yef,c 0 M fW =λ (9) No texto-base para a norma brasileira o momento fletor crítico de flambagem lateral com torção eM é dado por: • para seções I duplamente simétricas e seções U monossimétricas: 2 ycb 2 e L dIEC M π = (10) • para seções Z ponto-simétricas com carregamento no plano da alma: 2 ycb 2 e L2 dIEC M π = (11) onde: d é a altura da seção; L é o comprimento livre (distância entre pontos travados lateralmente) da barra; Iyc é o momento de inércia da parte comprimida da seção em relação ao eixo baricêntrico paralelo à alma, tomando-se a seção bruta; Cb é o coeficiente de equivalência de momento na flexão, que a favor da segurança pode ser tomado igual a 1,0 ou calculado pela expressão (3). Como pode ser observado, o procedimento adotado na norma brasileira é exatamente o mesmo do AISI (1996), a menos da determinação do momento crítico eM , onde a equação (10) representa uma simplificação obtida a partir da equação (1). 4.2 Resistência ao momento fletor – flambagem por distorção O modo de instabilidade por distorção tem sido estudado sistematicamente por Hancock, entre outros pesquisadores sob sua orientação, cujo estudos conduziram a expressões analíticas para o cálculo da carga crítica para barras comprimidas, Hancock (1985); Lau, Hancock (1987); Kwon, Hancock (1992); e para barras fletidas, Hancock (1997); Bambach et al. (1998). Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 159 O modelo representativo desses estudos idealiza a mesa e enrijecedor comprimido do perfil como uma barra comprimida sujeita à instabilidade por flexo- torção, apoiada elasticamente na alma. Este apoio é representado por uma mola lateral e outra mola rotacional. A seção formada pela parte comprimida é considerada indeformável no seu plano. A expressão analítica é obtida inicialmente para uma barra comprimida, e posteriormente alterada para barras fletidas. Esta alteração corresponde à uma modificação no coeficiente da mola rotacional. Tem-se como base para a obtenção da expressão analítica para o cálculo da carga crítica as equações obtidas por Vlasov (1962) e por Timoshenko, Gere (1961) para a instabilidade de uma barra comprimida com apoio elásticos contínuos. Seja a seção transversal indicada na Figura 6.a. k kx C.G. x0 D x y h 0 h y a) Seção transversal b) Modelo idealizado Figura 6 - Modelo de cálculo para instabilidade por distorção Isolando-se a mesa e o enrijecedor da seção, figura 6.b, tem-se as coordenadas do centro de torção D (x0, y0) referidas a um sistema de eixos (xOy), onde o eixo x é paralelo à mesa, com origem no centro de gravidade da seção idealizada (hx,hy). A força de compressão de flambagem elástica pode ser obtida resolvendo-se o sistema de equações diferenciais que governam o equilíbrio da barra, encontrando- se:( ) ( ) ( )[ ] ( )[ ] 0202 2 22 0 0 2 02 2 2 2 2 2 2 002 2 02 2 = +−+ +−− +−+ −+− −−+− φ ω π λ λ π π λ λ π π λ λ π khykNhx A I GIhxEIECNkEI NyhykhxEI yxtx txxxy yxxxy (12) Pode-se, então, determinar um valor mínimo para a força de compressão N, correspondente a um determinado valor de λ, o qual representa o comprimento de uma semi-onda de flambagem. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 160 A influência do coeficiente de mola kx é significativa. Embora a carga crítica tenha grande variação para diferentes valores de kx, os valores correspondente de λ permanecem próximos. A rigidez rotacional kφ ao longo da borda longitudinal de uma placa retangular de largura b, sujeita à tensão de compressão σ e momento fletor distribuído ao longo dessa borda pode ser determinada de acordo com as expressões 13.a a 13.d, Lau, Hancock, (1987). ( ) 122 22 − + + = ββααβαφ tantanhb Dk (13.a) + = kbb λλ πα (13.b) +− = kbb λλ πβ (13.c) σ π D tbk 2 2 = (13.d) Nestas expressões, b é a largura da placa, t é a sua espessura e D é a rigidez unitária à flexão da placa. Com o intuito de se promover o cálculo da carga crítica de flambagem por distorção , Ncr, manualmente, Lau, Hancock (1987), observando que o valor crítico de λ para kx=0 é próximo do valor crítico quando kx→∞, enquanto o valor real permanece entre esses dois, adotaram o valor de kx→∞ como uma primeira aproximação para a determinação do valor crítico para a força de compressão, obtendo-se: 22 2 2 2 2 yx yx tc cr hh A II kGIEI N ++ + ++ = φω π λ λ π (14) ( ) ( ) ( )( )yxxyyyxxc hyhxIhyIhxICI −−−−+−+= 002020 2ωω (15) Fazendo-se: wb Dk 2=φ (16) onde bw é a altura da alma do perfil e derivando-se e igualando-se a zero a expressão de Ncr obtém-se para λ: 250 2 , wc cr D bEI = ωπλ (17) Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 161 Lau, Hancock (1987), a partir dos estudos dos coeficientes de restrição elástica à rotação devidos a Bleich (1952) e estudos desenvolvidos para seções transversais tipo U enrijecidos aproximaram a expressão de kφ como sendo: − + = ww A 'P .b Dk σλφ 1 060 2 (18) Utilizando-se dessas expressões e com kx=0 na equação (14) a carga crítica para a flambagem por distorção será: ( ) ( ) −+±+= 3 2 2121 42 αααααENcr (19) onde: ( ) E k I, t ηβ λβ β ηα φ 1 2 2 1 1 0390 ++= (20.a) −= 1 3 02 2 β βηα yIy (20.b) −= 1 2 3 13 β ηβαηα yI (20.c) A II h yxx + += 21β (20.d) ( )202 xx hxIC −+= ωβ (20.e) ( )xxy hxI −= 03β (20.f) ( ) ( )[ ]30024 2βββ −−−+= yyy hyIhy (20.g) 250 3 4804 , w t b, = β λ (20.h) 2 = λ πη (20.i) ( ) + − + = 2 22 2 2 3 1111 060465 λ λ λφ w w w b b EAt 'P, ,b, Etk (20.j) Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 162 P’ é obtido a partir de (19) fazendo-se kφ=0 em (20.a) e wσ é a tensão de flambagem local para a alma do perfil, equação (21). += w w w w b b tb D λ λ πσ 2 2 (21) Para utilização das equações anteriores para o cálculo da carga crítica em perfis fletidos, Hancock (1997) alterou o coeficiente de rigidez à torção da mola. Para um perfil comprimido, a distorção das mesas ocorre em direções opostas podendo-se idealizar a alma como um elemento restrito nas extremidades, com momentos fletores iguais e contrários ali aplicados, figura 7.a. Já para um perfil fletido, a distorção dá-se apenas na mesa comprimida, idealizando-se a alma do perfil como um elemento restrito nas extremidades, com momento fletor aplicado à apenas uma extremidade, figura 7.b. M M M/ =2EI/L M/ =4EI/L M b) Flexãoa) Compressão Figura 7 - Distorção da alma de perfis: a) comprimido, b) fletido Como sugere a própria figura 7, Hancock (1997) adota como coeficiente de rigidez à rotação o dobro daquele dado pela equação (20.j). Dessa forma, para perfis fletidos, o cálculo da carga crítica de flambagem por distorção é feito como acima, substituindo-se a equação (20.j) pela equação (22). ( ) + − + = 2 22 2 2 3 1111 060465 2 λ λ λφ w w w b b EAt 'P, ,b, Etk (22) Deve-se observar que o termo (0,06λ) foi determinado especificamente para perfis com enrijecedores perpendiculares à mesa, necessitando de maiores estudos para outros tipos de enrijecedores. 4.3 Perfis conectados a painéis através da mesa tracionada Para os perfis fletidos com a mesa tracionada conectado a um painel, a flambagem lateral não mais ocorre na seção transversal como um todo. A resistência Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 163 à flexão é menor que a de um elemento lateralmente contido, porém maior que a de um elemento lateralmente destravado. Neste caso, esta restrição parcial conferida pelo painel pode ser representada pôr um fator de redução obtido pela razão entre o momento fletor que causa o início de escoamento da fibra extrema comprimida (My) e o momento fletor último (Mu) observado nos testes, equação (23), Jonhston e Hancock (1994), LaBoube (1992), LaBoube (1992), Murray e Elhouar (1994). y u M MR = (23) Os valores de R, de acordo com o AISI (1996), são: • R=0,40 for simple span C sections; • R=0,50 for simple span Z sections; • R=0,60 for continuous span C sections; • R=0,70 for continuous span Z sections. 5 ENSAIOS DESENVOLVIDOS 5.1 Perfis isolados As seções transversais dos perfis analisados são do tipo U, U enrijecido e Z enrijecido. Para as seções tipo Z enrijecido foram realizados 4 ensaios com o objetivo de verificar o seu comportamento em caráter exploratório. Na figura 8 está indicada a nomenclatura utilizada para as dimensões geométricas das seções transversais dos perfis. A altura h permaneceu constante em todas as seções e igual a 127 mm. Da mesma forma, a largura da mesa b foi mantida constante e igual a 50 mm. yy xC.G. y r=t r=t xC.G. r=t xC.G. d d hhh bbb t Figura 8 - Seções transversais e nomenclatura Os enrijecedores de borda são formados por virada simples de borda a 90o para os perfis tipo U enrijecido e por virada de borda a 45o para os perfis tipo Z enrijecido. Para estes últimos, o ângulo de 45o facilita o seu transporte e armazenamento. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 164 Para os perfis utilizados no programa experimental, as chapas de aço foram obtidas através de doação da USIMINAS para serem dobradas a frio na Indústria Comércio Ferro Soufer, em São João da Boa Vista (SP). O dobramento deu-se por prensagem, em perfis com 6 metros de comprimento. O processo de prensagem foi escolhido dado o seu grande emprego na conformação de perfis em nossa região. As propriedades geométricas das seções transversais para os vários perfis utilizados estão apresentadas na tabela 2. Estas propriedades estão referidas às dimensões nominais da seção transversal. Os vãos, carregamentos e travamentos laterais foram escolhidos prevendo-se os modos de falha de flambagem local e flambagem global para os perfis de aço formados a frio sujeitos à flexão. Os perfis foram submetidos a dois diferentes vãos sob três diferentes tipos de aplicaçãode forças, conforme ilustra-se na figura 9. Os travamentos laterais intermediários estão indicados através de um x. Tabela 2 - Propriedades geométricas das seções transversais estudadas Perfil A (cm2) Ix (cm4) Wx (cm3) rx (cm) Iy (cm4) ry (cm) It (cm4) r0 (cm) Cw (cm6) x (cm) x0 (cm) U127x50x2,25 4,94 118,8 18,7 4,90 11,7 1,54 0,083 5,88 322,8 1,20 2,85 U127x50x3,00 6,51 153,6 24,2 4,86 15,1 1,53 0,195 5,83 415,8 1,24 2,85 U127x50x17x2,25 5,54 135,2 21,3 4,94 18,9 1,85 0,093 6,57 672,9 1,48 3,92 U127x50x17x3,00 7,24 171,9 27,1 4,87 23,6 1,80 0,217 6,49 839,3 1,44 3,88 Z127x50x17x2,25 5,72 152,4 24,0 5,16 38,5 2,59 0,096 5,77 1032,8 0 0 Z127x50x17x3,00 7,56 188,2 29,6 4,99 49,5 2,56 0,227 5,61 1316,0 0 0 P P P P P PPP 6000 1500 3000 1500 1500 4500 1500 1500 30003000 2250 2250 15001500 3000 15001500 1500 C a rregam en to 2 C a rregam en to 1 C a rregam en to 3 Figura 9 - Esquemas de carregamentos para os ensaios à flexão Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 165 As deformações ocorridas foram medidas através de extensômetros elétricos de resistência posicionados nas mesas superior e inferior do perfil, na seção transversal no meio do vão, como ilustrado na figura 10. 1 2 3 45 6 7 9 8 6 5 2 43 10 9 7 8 1 Perfil A Perfil B Perfil A Perfil B Figura 10 - Posição dos extensômetros nas seções transversais dos perfis Os transdutores de deslocamento linear foram posicionados como ilustrado na figura 11, correspondentes aos números de 3 até 13. As células de carga correspondem aos números 1 e 2, enquanto que, os extensômetros elétricos de resistência receberam os números a partir do 21, crescendo conforme sequência indicada. Essa numeração é correspondente aos números dos canais utilizados no sistema para aquisição de dados. Os deslocamentos horizontais indicados na figura 11.b, foram medidos com o auxílio de fios de aço longos presos em uma extremidade à alma do perfil e ligados aos transdutores em sua outra extremidade. Assim, a influência do deslocamento vertical do conjunto pode ser minimizada. Esses deslocamentos horizontais permitiram o cálculo da rotação da seção transversal em torno do seu centro de torção. A diferença entre os deslocamentos dividida pela distância entre os pontos de medidas fornece o valor da rotação desejada. A aplicação de forças fez-se através do incremento de carga de valor aproximadamente igual a 10% da força última prevista. A cada acréscimo era feita a leitura dos deslocamentos e deformações ocorridas. Previamente, era feita a escorva, de valor igual a 10% da força última prevista, para posterior início do ensaio propriamente dito. 6 7 8 543 13 1500 1500 L/2 L/2 9 12 11 (a) (b) 10 Figura 11 - Transdutores de deslocamento. a) Verticais. b) Horizontais no meio do vão Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 166 Em todos os ensaios o colapso das vigas foi caracterizado pelo modo de instabilidade local da mesa ou pelo modo de instabilidade global, a flambagem lateral com torção. Da execução dos ensaios pode-se observar que o modo de instabilidade local da mesa não apresentou prévio aviso de ruína, praticamente sem nenhuma reserva de resistência, induzindo o perfil a sair de sua posição original, cessando o carregamento. Quando a falha dos perfis deveu-se à flambagem lateral com torção, esta foi acompanhada de grandes deslocamentos, permitindo-se inclusive o descarregamento dos perfis de forma gradual. Na tabela 3 estão apresentados os resultados da força última obtida nos ensaios, bem como aqueles previstos pelo AISI (1996), correspondentes ao esquema de carregamento 1. Pode-se observar que para o conjunto U2 verificou-se a ocorrência da flambagem lateral com torção sendo que, previu-se como estado limite último a flambagem local da mesa. O giro da seção transversal e os deslocamentos horizontais modificam a distribuição de tensões na mesa deixando de ser uniforme e passa a apresentar uma distribuição com variação linear. Através dos extensômetros elétricos posicionados na seção transversal do meio do vão pode-se avaliar a distribuição de tensão na mesa comprimida, obtendo- se uma distribuição conforme indicado na figura 12 para o perfil A do conjunto U2. Tabela 3 - Valores comparativos da força P para o esquema de carregamento 1 Ensaio Perfil Vão (m) Púltimo (kN) Pcr(AISI) (kN) U1 6 3,77 (FLM) 2,90 U2 U127x50x2,25 4,18 (FLT) (FLM) U3 6 6,53 (FLT) 4,52 U4 U127x50x3,00 6,04 (FLT) (FLM) U5 6 6,59 (FLM) 4,12 U6 U127x50x17x2,25 6,96 (FLM) (FLT) U7 6 6,16 (FLT) 3,46 U8 6,80 (FLT) (FLT) U9 U127x50x3,00 6,03 (FLM) U10 6 4,52 (FLM) 2,30 U11 U127x50x2,25 4,31 (FLM) (FLM) U19 4,5 9,95 (FLM) 7,48 U20 10,89 (FLM) (FLM) U21 U127x50x3,00 10,88 (FLM) Z1 6 5,51 5,30 Z2 Z127x50x17x2,25 6,22 (FLT) Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 167 6 , 19 23 ,0 6 Figura 12 - Tensões normais na mesa comprimida – perfil U2A Sob esta distribuição de tensões pode-se avaliar a largura efetiva da mesa comprimida sendo o coeficiente de flambagem de placa obtido através da seguinte expressão: 950 340 5780 1 2 , , ,k = + = σ σ onde 1σ é a menor e 2σ é a maior tensão normal no elemento não enrijecido. Analisando-se as deformações ocorridas ao longo de todo o processo de carregamento verifica-se que a distribuição de tensões deixa de ser uniforme para valores correspondente a aproximadamente 25% da força última, obtendo-se nessa situação a relação 670 2 1 ,=σ σ . Em função dessa variação de tensões de compressão, o cálculo da largura efetiva para o elemento passa a ser efetuado com 950,k = , contra o valor de 0,43 para elemento não enrijecido sobre compressão uniforme. Dessa forma pode-se obter 732,0=λ e, embora maior que 0,673, deve-se observar que λ foi obtido para a tensão indicada na figura 12 cujo valor não reproduz a relação linear entre tensão e deformação, o que deve proporcionar um valor de λ menor que o calculado anteriormente. Em contrapartida, da mesma forma que o giro alterou a distribuição de tensões ao longo da mesa na seção transversal do meio do vão, o giro nos trechos de extremidades dá-se em sentido contrário, neste caso, aumentando a tensão de compressão na borda livre. Então, para seções contidas nesse trecho, o coeficiente de flambagem de K pode ser admitido próximo ao valor de 0,45, justificando-se a ocorrência da flambagem local da mesa nesse trecho, onde o momento fletor, consequentemente a tensão normal correspondente, é menor. O fato da flambagem local da mesa ocorrer a uma distância de 1,5 metros do apoio justifica-se pelos dispositivos de travamento utilizado. Estes dispositivos não permitem a rotação da seção transversal, podendo-se atribuir a eles uma determinada restrição à rotação da seção transversal, indicando um coeficiente de flambagem por torção (Kt) inferior a 1. Como a ocorrência da flambagem local da mesa deu-se a aproximadamente 0,5 metro do ponto contraventado, obtém-se como comprimento efetivo de flambagem por torção 1 metro resultando, portanto, em um valor de Kt≅0,5. Isto justifica-se pelo Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 168 próprio detalhe do dispositivo de travamento, o qual sugere um engastamento ao giro no ponto travado lateralmente. Com referência aos ensaios correspondentes aos conjuntos U5 e U6 previa- se a ocorrência da flambagem lateral com torção, observando-se no ensaio o colapso por flambagem local da mesa. Ao analisar-se o comportamentoda seção transversal no meio do vão pode-se notar que o início da flambagem lateral com torção, indicando-se uma interação entre os dois estados limites. Na tabela 4 estão indicados os resultados da força última obtida nos ensaios, bem como aqueles previstos pelo AISI (1996), correspondentes ao esquema de carregamento 2. Da análise da tabela 4 observa-se que o modo de falha previsto (FLT) foi o modo de falha ocorrido, exceto para o conjunto U22 e U24. A justificativa para tal ocorrência é a mesma já discutida anteriormente, ou seja, a superposição de tensões normais advindas do giro e dos deslocamentos horizontais nas proximidades dos pontos travados lateralmente. Novamente, a ocorrência da flambagem local da mesa não deu-se na seção no meio do vão (ponto travado lateralmente), mas na suas proximidades, aproximadamente a 1,5 metros do apoio, indicando valores de Kt≅0,5. Tabela 4 - Valores comparativos da força P para o esquema de carregamento 2 Ensaio Perfil Vão (m) Púltimo (kN) Pcr(AISI) (kN) U12 6 7,91 (FLT) 5,86 U13 7,81 (FLT) (FLT) U14 U127x50x3,00 7,86 (FLT) U15 6 5,23 (FLT) 3,54 U16 U127x50x2,25 5,18 (FLT) (FLT) U17 6 10,81 (FLT) 8,62 U18 U127x50x17x3,00 10,94 (FLT) U22 4,5 13,51 (FLM) 9,64 U23 13,33 (FLT) (FLT) U24 U127x50x3,00 13,51 (FLM) Quanto ao esquema de carregamento 3, os modos de falha ocorridos e previstos foram os mesmos. Na tabela 5 estão indicados os valores previstos bem como aqueles obtidos nos ensaios. Tabela 5 - Valores comparativos da força P para o esquema de carregamento 3 Ensaio Perfil Vão (m) Púltimo (kN) Pcr(AISI) (kN) U25 4,5 13,90 ( FLM) 9,97 U26 15,55 (FLM) (FLM) U27 U127x50x3,00 15,50 (FLM) U28 6 8,58 (FLT) 3,47 U29 8,53 (FLT) (FLT) U30 U127x50x3,00 9,04 (FLT) Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 169 Em vista dos coeficientes de flambagem sugeridos pelos próprios resultados dos ensaios, na tabela 6 apresentam-se as forças previstas calculadas de acordo com o procedimento do AISI (1996) para os valores de Kt=0,5 e Ky=1,0. Com os novos valores calculados pode-se observar que a razão entre os resultados teóricos e os experimentais apresentam melhor correlação aproximando-se do valor unitário. A expressão adotada pelo texto-base da norma brasileira não permite uma melhor avaliação do coeficiente de flambagem. Tabela 6 - Comparação entre os resultados obtidos (Kt=0,5 ; Ky=1,0) Perfil Vão (m) Esquema Carregamento Púltimo (kN) PAISI (kN) Púltimo/PAISI (kN) 1 6,32 5,73 1,103 U127x50x3,00 6,0 2 7,86 7,84 1,003 3 7,99 6,05 1,321 1 10,57 9,44 1,120 U127x50x3,00 4,5 2 13,45 11,11 1,211 3 15,17 12,83 1,182 U127x50x2,25 6,0 1 4,39 3,60 1,219 2 5,20 5,37 0,968 U127x50x17x2,25 6,0 1 6,78 7,18 0,944 U127x50x17x3,00 6,0 2 10,87 10,28 1,057 U127x50x3,00 6,0 1** 6,28 5,85 1,073 U127x50x2,25 6,0 1** 4,12 3,84 1,073 Z127x50x17x2,25 6,0 1** 5,86 5,30 1,106 *Média dos valores obtidos para os conjuntos ensaiados. **Forças aplicadas a cada 1/3 do vão. 5.2 Perfis com a mesa tracionada conectada às telhas de aço Como nos ensaios à flexão, esta etapa do trabalho teve como objetivo a obtenção de resultados experimentais referentes às terças submetidas ao efeito de sucção devido ao vento, bem como a verificação dos modos de falha possíveis e a verificação dos resultados teóricos em comparação com os obtidos nesses ensaios. Para a execução desses ensaios foi projetada e construída uma, assim denominada, caixa de sucção, executada em módulos de 1 m x 6 m, permitindo-se a variação das suas dimensões em planta para ensaios de painéis de 3 m x 6 m até painéis de 6 m x 12 m. A simulação do efeito de sucção fez-se através da diferença entre a pressão externa e a pressão interna. Para tanto, o ar contido no interior da caixa de sucção foi retirado de maneira gradual por meio de um aspirador. Essa retirada do ar interno à caixa implica em uma diminuição da pressão interna em relação à pressão externa, a pressão atmosférica, proporcionando a diferença de pressão desejada. Os ensaios foram realizados em perfil tipo U, U enrijecido e Z enrijecido com comprimento total de 5.740 mm. Desses ensaios, uma primeira série foi realizada sem linhas de correntes e, em uma segunda série, as terças foram executadas com 2 linhas de correntes a cada terço de vão. As telhas de aço utilizadas têm seção trapezoidal com altura de 40 mm e espessura de chapa de 0,65 mm, conectadas aos perfis de chapa dobrada por meio de parafusos auto-brocantes. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 170 A parte superior da caixa é composta pelo conjunto telha-terça que se deseja ensaiar, disposto em posição invertida à aquela dos telhados convencionais, de tal modo que, ao ser retirado o ar contido dentro da caixa, a diferença entre as pressões interna e externa forneça uma sobrepressão no conjunto, simulando o efeito de sucção devido à ação do vento. Na figura 13 pode-se observar a caixa de sucção durante a execução de um ensaio. Figura 13 - Caixa de sucção em ensaio Foram realizados 15 ensaios com três tipos de seções transversais para os perfis, sendo 7 desses ensaios executados sem linhas de correntes e 8 realizados com duas linhas de correntes, uma a cada 1/3 de vão. Essas linhas de correntes foram executadas com cantoneiras entre os perfis e com barras de seção circular com rosca nas extremidades. Essas barras foram dispostas na diagonal para a fixação aos apoios, como se faz normalmente em coberturas. A figura 14 ilustra a disposição das linhas de correntes junto às terças. Os perfis das extremidades da caixa de sucção foram mantidos constantes, sendo perfil tipo U127x50x17x3,00. Os quinhões de carga correspondente à cada perfil foi determinado proporcionalmente à sua rigidez à flexão. Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 171 Figura 14 - Linhas de correntes para as terças Na tabela 7 apresentam-se os resultados da pressão aplicada nos ensaios realizados. Para efeito de comparação dos valores obtidos, essa pressão está referida a dois valores relativos da flecha: o primeiro para uma flecha igual a 1/180 do vão (31,22 mm) e o segundo, para uma flecha igual a 1/100 do vão (56,2 mm). Tabela 7 - Pressão de referência para as terças p (kN/m2) Ensaio Perfil Corrente L/180 L/100 Mref (kN.m) 1 U127x50x3,00 Não 0,65 0,85 4,30 2 U127x50x17x3,00 Não 0,60 0,93 5,65 3 Z127x50x17x3,00 Não 0,50 0,80 3,60 4 U127x50x3,00 Não 0,40 0,61 3,09 5 U127x50x3,00 Não 0,30 0,50 2,53 6 U127x50x17x3,00 Não 0,33 0,55 2,78 7 U127x50x17x3,00 Não 0,31 0,52 2,15 8 U127x50x2,25 Sim 0,50 0,75 4,74 9 U127x50x2,25 Sim 0,20 0,65 4,41 10 U127x50x2,25 Sim 0,50 0,75 4,62 11 U127x50x3,00 Sim 0,55 1,00 6,87 12 Z127x50x17x2,25 Sim 0,45 0,80 5,81 13 Z127x50x17x2,25 Sim 0,45 0,80 5,81 14 Z127x50x17x3,00 Sim 0,54 0,96 8,03 15 Z127x50x17x3,00 Sim 0,54 0,98 8,20 Mref corresponde ao valor de p para L/100. A utilização desses dois valores justifica-se tendo-se em vista que o primeiro é utilizado como limite de deslocamento máximo para terças enquanto o segundo admite-se como sendo aquele para o qual tem-se o prejuízo do uso da estrutura, caracterizando-se a sua falha. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 172 O valor do momento fletor na seção do meio do vão, Mref, corresponde ao valor da pressão para 1/100 do vão. Este momento é o de um carregamento uniformemente distribuída ao longo do comprimento do perfil cujo valor é obtida pelo produto entre o valor da pressão de referência e a largura de influênciapara o perfil. Na figura 15 pode-se notar a grandeza dos deslocamentos ocorridos e o giro da seção ao longo do vão. Na figura 16 encontra-se a fotografia do ensaio correspondente. 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 Giro (o) p (kN/m2) Ø (Z127x50x17x3,00) Figura 15 - Giro para a seção central (Ensaio 3) Figura 16 - Deslocamentos horizontais e verticais observados (Ensaio 3) A tabela 8 traz o modo de falha ocorrido para cada um dos ensaios realizados observando-se também os deslocamentos relativos medidos. Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 173 Tabela 8 - Modos de falhas para os perfis conectados às telhas Ensaio Perfil Modo de Falha v/L u/L Ensaios sem linhas de corrente 1 U127x50x3,00 Deslocamento excessivo 1/104 1/201 2 U127x50x17x3,00 Deslocamento excessivo 1/75 1/173 3 Z127x50x17x3,00 Deslocamento excessivo 1/64 1/222 4 U127x50x3,00 Deslocamento excessivo 1/88 1/165 5 U127x50x3,00 Deslocamento excessivo 1/58 1/120 6 U127x50x17x3,00 Deslocamento excessivo 1/60 1/112 7 U127x50x17x3,00 Deslocamento excessivo 1/60 1/110 Ensaios com linhas de correntes 8 U127x50x2,25 Flambagem local da mesa 1/67 1/745 9 U127x50x2,25 Flambagem local da mesa 1/67 1/256* 10 U127x50x2,25 Flambagem local da mesa 1/77 1/258* 11 U127x50x3,00 Flambagem local da mesa 1/91 1/430* 12 Z127x50x17x2,25 Deslocamento excessivo 1/67 1/5980 13 Z127x50x17x2,25 Deslocamento excessivo 1/66 1/2400 14 Z127x50x17x3,00 Deslocamento excessivo 1/64 1/2475 15 Z127x50x17x3,00 Deslocamento excessivo 1/65 1/2275 Notas: * Valores medidos após a ocorrência da FLM, sendo que, os deslocamentos horizontais na mesa comprimida permaneceram nulos até a ocorrência da FLM. Nessa tabela pode-se observar os valores das relações entre os deslocamentos verticais para o vão (v/L) e entre os deslocamentos horizontais para o vão (u/L). Nota-se que os valores dos deslocamentos horizontais da mesa destravada são da ordem de metade da flecha para os perfis sem correntes. Os valores da relação entre os deslocamentos horizontais para o vão (u/L), para os perfis tipo U com linhas de corrente, foram considerados como os correspondentes ao fim do carregamento, o qual deu-se após a ocorrência da FLM. Esses deslocamentos permanecem praticamente nulos até a ocorrência deste estado limite. A análise das deformações para a seção transversal do meio do vão permite fazer algumas considerações importantes. Na figura 17 apresenta-se o gráfico das deformações ocorridas nos pontos instrumentados para o ensaio 6, perfil tipo U127x50x17x3,00. 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 -1200 -900 -600 -300 0 300 600 900 1200 Ponto 2 Ponto 3 Ponto 4 Ponto 5 Ponto 6 Ponto 7 Ponto 8 Deformação (ue) p (kN/m2) 2 3 4 7 6 5 8 Figura 17 - Gráfico pressão x deformação – Ensaio 6 Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 174 Nesse gráfico pode-se verificar a diminuição das deformações, em valores absolutos, para o ponto 2, para o ponto 3 e de forma menos pronunciada, para o ponto 5. Tal diminuição ocorre devido a rotação elevada da seção transversal nas proximidades da junção da alma com a mesa tracionada, induzindo o aparecimento de tensões de tração nas proximidades dos enrijecedores e de tensões de compressão na região da alma, provocando, desta forma a variação na distribuição de tensões na seção transversal do perfil. Esta constatação está em consonância com as hipóteses adotadas no modelo de Peköz, Soroushian (1982). Neste modelo, as tensões na seção transversal são calculadas admitindo-se a superposição de dois estágios distintos: o primeiro devido ao deslocamento vertical e o segundo devido ao deslocamento horizontal e giro da seção transversal. Essa evidência foi maior para os perfis tipo U enrijecido, embora também pronuncia-se de forma menos intensa para todos as outras seções transversais ensaiadas sem linha de corrente. Na tabela 9 apresentam-se os momentos fletores correspondentes à pressão aplicada cuja flecha obtida é de 1/100 do vão e o momento fletor de início de escoamento da seção transversal. O momento fletor correspondente ao início de escoamento da seção transversal (My) foi calculado de acordo com as propriedades efetivas da seção transversal para uma tensão de escoamento (fy) igual a 343 MPa, com base nas dimensões nominais da seção transversal do perfil. Como um método de cálculo empírico para a determinação da resistência nominal do perfil, o valor de FR, tabela 9, expressa a razão entre o momento último de ensaio e o momento fletor de início de escoamento, baseado no módulo de resistência elástico da seção efetiva. Tabela 9 – Momentos fletores último e de escoamento Ensaio Perfil p (kN/m2) Mref (kN.m) My (kN.m) FR=Mu/My Ensaios sem linhas de corrente 1 U127x50x3,00 0,85 4,30 7,52 0,57 2 U127x50x17x3,00 0,93 6,54 9,28 0,70 3 Z127x50x17x3,00 0,80 3,60 10,16 0,35 4 U127x50x3,00 0,61 3,09 7,42 0,42 5 U127x50x3,00 0,50 2,53 7,42 0,34 6 U127x50x17x3,00 0,55 3,86 9,28 0,42 7 U127x50x17x3,00 0,52 3,65 9,28 0,39 Ensaios com linhas de corrente 8 U127x50x2,25 0,75 4,74 5,21 0,91 9 U127x50x2,25 0,65 4,41 5,21 0,85 10 U127x50x2,25 0,75 4,62 5,21 0,89 11 U127x50x3,00 1,00 6,87 7,42 0,92 12 Z127x50x17x2,25 0,80 5,81 7,46 0,78 13 Z127x50x17x2,25 0,80 5,81 7,46 0,78 14 Z127x50x17x3,00 0,96 8,03 9,77 0,82 15 Z127x50x17x3,00 0,98 8,20 9,77 0,84 Nota: p(kN/cm2) indica o valor da pressão aplicada correspondente ao deslocamento igual a 1/100 do vão (56,2 mm). Para este valor de pressão foi determinado o valor do momento fletor Mref. Perfis de aço formados a frio submetidos à flexão: análise teórico-experimental Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n. 20, p. 149-178, 2002 175 Como valores médios dos resultado obtidos tem-se: Perfil tipo U sem linha de corrente: FR = 0,50 Perfil tipo U enrijecido sem linha de corrente: FR = 0,50 Perfil tipo U com 2 linhas de corrente: FR = 0,89 Perfil tipo Z enrijecido com 2 linhas de corrente: FR = 0,80 Ressalta-se que esses valores devem ser restritos às condições utilizadas nos ensaios aqui desenvolvidos e a sua extrapolação a outras situações está sujeira a possíveis erros na avaliação da resistência ao momento fletor. Para o perfil tipo Z sem linha de corrente foi realizado apenas um ensaio, portanto, o valor obtido (FR=0,35) não pode ser considerado como representativo para o tipo de perfil. Para efeitos de comparação os valores aqui obtidos podem ser confrontados com os resultados obtidos por LaBoube (1992) e incorporados ao AISI a partir de 1991. Em seu trabalho e aproveitando-se de resultados de outros estudos, LaBoube determina um coeficiente R como sendo uma quantidade empírica que corresponde a razão entre o momento fletor obtido em ensaio e o momento fletor de início de escoamento. Esse coeficiente R foi obtido para perfis tipo U e Z enrijecidos, considerando-se vigas biapoiadas e vigas contínuas, obtendo-se como resultados os seguintes valores médios: Perfil tipo U enrijecido (biapoiado, sem linha de corrente): R=0,40 Perfil tipo Z enrijecido (biapoiado, sem linha de corrente): R=0,50 Perfil tipo U enrijecido (contínuo, sem linha de corrente): R=0,60 Perfil tipo Z enrijecido (contínuo, sem linha de corrente): R=0,70 6 CONCLUSÃO Perfis fletidos: As falhas para as quais o modo previsto não correspondeu ao observado deveu-se a superposição dos efeitos de deslocamento lateral e rotação da seção transversal, alterando a distribuição uniforme de tensões de compressão na mesa superior. Dessa forma, a flambagem local da mesa comprimida não ocorreu na posição de máximo momento fletor. Para os valores do coeficiente de flambagem lembra-se que os mesmos irão depender do detalhe dado ao travamento.Como realizado aqui, proporcionou-se uma restrição ao giro na seção travada lateralmente, podendo-se adotar valores de K menores que 1. Por outro lado, imaginando-se esse travamento realizado através de barra redonda certamente não poderia ser adotado Kt=0,5. Cabe ao engenheiro a avaliação desses parâmetros, observando-se que a sua influência na determinação da resistência do perfil é significativa. As expressões utilizadas pela norma brasileira para a determinação do momento crítico não permitem a consideração dos diferentes valores daqueles coeficientes de flambagem. Carlos Eduardo Javaroni & Roberto Martins Gonçalves Cadernos de Engenharia de Estruturas, São Carlos, n.20, p.149-178, 2002 176 Quanto ao modelo de flambagem por distorção devido a Hancock, os modos de falha ocorridos não permitiram a sua avaliação. Entretanto, observa-se que os valores obtidos para os conjuntos U5 e U6 estão próximos aos dos ensaios, podendo justificar a diferença entre os modos de falha observado e o ocorrido. Ressalta-se também que o efeito distorcional é mais relevante quando a relação largura e espessura dos elementos do perfil (mesa e alma) é superior aos utilizados nos ensaios aqui desenvolvidos. Perfis conectados às telhas de aço: As variáveis envolvidas no equacionamento do problema são em grande número, tornando o método empírico (fator de redução) uma alternativa interessante para fins de projeto, onde não tenha-se a utilização de linhas de correntes. Adicionalmente, para os perfis tipo U o valor de FR=0,40 demonstra ser um valor apropriado tanto para perfis com mesas enrijecidas como para os perfis com mesas não enrijecidas. Esse mesmo procedimento para a determinação da resistência nominal ao momento fletor está incorporado ao texto-base para a norma brasileira para o dimensionamento de estrutura de aço constituída por perfis formado a frio, onde utiliza-se os coeficientes obtidos por LaBoube. Para o conjunto dos 8 ensaios realizados com linhas de correntes, pode-se dividi-lo em dois grupos. O primeiro corresponde aos ensaios dos perfis tipo U, os quais tiveram como modo de falha a flambagem local da mesa. Nos ensaios dos perfis tipo Z, como já observado, a falha ocorreu pelos deslocamentos verticais excessivos. Em ambos os casos, pode-se admitir a hipótese de flexão simples para o seu dimensionamento, observando-se que, através das deformações medidas ao longo da alma dos perfis ensaiados, a linha neutra permanece próxima da meia altura da seção transversal. 7 BIBLIOGRAFIA AMERICAN IRON AND STEEL INSTITUTE (1996). Cold formed steel design manual. Washington, AISI. AMERICAN IRON AND STEEL INSTITUTE (1991). LRFD Cold formed steel design manual. Washington, AISI. ELLIFRITT, D.S.; GLOVER, R.L.; HREN, J.D. (1998). A simplified model for distortional buckling of channels Zees in flexure. In: INTERNATIONAL SPECIALTY CONFERENCE ON COLD-FORMED STEEL STRUCTURES, 14th, St. Louis, Missouri, USA. Proceedings. p.39-52 FRUCHTENGARTEN, J. (1995). Sobre a instabilidade de perfis de seção aberta. São Paulo. Tese (Doutorado) - Escola Politécnica, Universidade de São Paulo. HAUSLLER, R. W. (1964). Strength of elastically stabilized beams. Journal of the Structural Division, ASCE, v.90, n.ST3, p.219-263, June. 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