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TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 1. DISCUTIR AS BASES NEUROBIOLÓGICA DA MEMÓRIA DEFINIÇÕES BÁSICAS De acordo com Piaget (psicologo suíço), qd aprendemos algo estamos em equilíbrio com aquele conhecimento. Mas para ele existe algumas etapas antes de chegar nesse equilíbrio: - A assimilação e a acomodação desse conhecimento. Essas sao as fases que o sujeito passa a interagir com aquela nova informação, novo afeto e aí vai assimilando e acomodando até chegar no equilíbrio. Ao qual posteriormente, vamos acabar selecioinando essa informação para memorizá-las. A memória é a capacidade de codificar, armazenar e evocar as experiências, impressões e fatos que ocorrem em nossas vidas. Tudo o que uma pessoa aprende em sua existência depende intimamente da memória. Além disso, como será abordado neste capítulo, todos os processos relacionados com a memória são altamente contextualizados, integrados em uma rede de múltiplas informações e contextos da vida. A capacidade específica de memorizar relaciona-se com vários fatores, entre eles o nível de consciência e atenção, o estado emocional e o interesse motivacional e, particularmente importante, os contextos, como lugar, momento, com que pessoas, em que tipo de atividade e em que fase da vida a codificação, o armazenamento e a evocação das informações ocorrem (para uma revisão acessível e de qualidade, ver Foster, 2011). Alguns dos principais pesquisadores atuais em neurociências da memória atribuem à memória um papel central na própria definição e identidade do ser humano. Para Iván Izquierdo (2002), “somos aquilo que recordamos ou que, de um modo ou de outro, resolvemos esquecer”. Perder a memória, segundo Squire e Kandel (2003), “leva à perda de si mesmo, à perda da história de uma vida e das interações duradouras com outros seres humanos”. De forma genérica, podem-se distinguir, para os seres humanos, os seguintes tipos de memória: 1. Memória psicológica (cognitiva ou neuropsicológica). É uma atividade altamente diferenciada do sistema nervoso, que permite ao indivíduo codificar, conservar e evocar, a qualquer momento, os dados aprendidos da experiência. 2. Memória genética e epigenética. Esse tipo de memória abrange conteúdos de informações biológicas adquiridos ao longo da história filogenética da espécie e ao longo das vivências do indivíduo e de seus ancestrais, contidos no material biológico (DNA, RNA, cromossomos, mitocôndrias, mudanças epigenéticas) dos seres vivos. 3. Memória imunológica. Esse tipo de memória reúne informações registradas e potencialmente recuperáveis pelo sistema imune de um ser vivo. 4. Memória coletiva, social ou cultural. Envolve conhecimentos e práticas sociais e culturais (costumes, valores, práticas, linguagem, habilidades artísticas, conceitos e preconceitos, ideologias, estilos de vida, rituais, gesticulações, etc.) produzidos, acumulados e mantidos por um grupo social. Esse tipo de memória tem importância fundamental para as sociedades humanas. Sem ela, os grupos sociais perdem sua identidade básica, a possibilidade de perceber o sentido de suas existências, a gratidão e crítica em relação ao passado e a esperança e prudência em relação ao futuro. Apesar da importância da memória coletiva, não a estudaremos aqui. Neste capítulo, será abordada principalmente a memória psicológica, cognitiva ou neuropsicológica (usadas neste texto como sinônimos). A memória cognitiva é composta de 3 fases ou elementos básicos: - Fase de registro (percepção, gerenciamento e início da fixação) - Fase de conservação (retenção) - fase de evocação (tmb denominada de lembranças, recordações ou recuperação) Ao longo das últimas décadas, estudos em psicologia cognitiva e neuropsicologia idenficaram dois aspectos importantes sobre a memória psicológica. Primeiro, a memória não é um processo unitário. Ela é composta de múltiplos elementos, que podem ser organizados e expostos de distintas formas e exigem redes e estruturas cerebrais diferentes. Segundo, a memória não é um processo passivo e fidedigno de fixação de elementos e de TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO evocação exata e realista do que foi arquivado. Nesse sentido, ela é muito mais um processo ativo, no qual vários elementos do indivíduo participam da codificação e da evocação, como elementos sensoriais, imaginativos, semânticos e afetivos. A memória é frequentemente reeditada, ou seja, as informações de eventos, cenas e acontecimentos do passado, que já foram armazenadas, podem ser reconfiguradas com acréscimos de elementos novos (vividos ou imaginados pelo próprio indivíduo ou instigados por estímulos externos, conscientes ou não). Assim, há um processo de recriação e reinterpretação no arquivo de longo prazo de nossas memórias. Elas frequentemente não são “o filme realista do que aconteceu”, mas “reedições criativas” de vários “diretores” que influem no conteúdo do arquivo de memórias. FASES OU ELEMENTOS BÁSICOS DA MEMÓRIA Cabe, agora, apresentar a memória psicológica em suas três fases, ou elementos básicos: • Codificação: captar, adquirir e codificar informações. • Armazenamento: reter as informações de modo fidedigno. • Recuperação ou evocação: também denominada de lembranças ou recordações; é fase em que as informações são recuperadas para distintos fins. Usando a metáfora de uma biblioteca (ou de um arquivo eletrônico) para a memória, a fase de codificação corresponde à escrita de um livro em papel ou em arquivo eletrônico (AE). A codificação ocorre quando, ao vermos uma coisa pequena, de uns 10 centímetros, coberta de uma capa colorida (penas), com cabeça, corpo e patinhas, que se move e canta, denominamos de passarinho. A informação codificada semanticamente na palavra “passarinho” passará, assim, a ser arquivada, já tendo sido codificada. A fase de armazenamento implica a classificação do livro (ou do AE) e sua colocação em uma determinada estante (ou pasta), assim como a conservação desse livro nessa estante (protegendo-o do sol e da chuva) ou na memória do computador. Por fim, a fase de evocação, ou recuperação, significa poder acessar o livro na estante (ou o AE, no computador) e poder lê-lo da melhor forma possível. A codificação é o processo inicial da memorização. Ela depende muito da atenção. A evocação, a capacidade de acessar os dados fixados, seria a etapa final do processo de memória. Lembrança é a capacidade de acessar elementos no banco da memória de longo prazo. Reconhecimento é a capacidade de identificar uma informação apresentada ao sujeito com informações já disponíveis na memória de longo prazo. Esquecimento, por sua vez, é a denominação que se dá à impossibilidade de evocar e recordar. Em relação à evocação, há ainda dois aspectos distintos: a disponibilidade e a acessibilidade da informação. Às vezes, tentamos lembrar o nome de uma pessoa, sentimos que esse nome está “na ponta da língua”, sabemos qual a primeira sílaba, se o nome é curto ou longo, mas o nome inteiro “não vem” (“fenômeno da ponta da língua”). Nesse caso, a informação ainda está disponível em nossa memória de longo prazo, mas não está, no momento exato que queremos lembrar, acessível para nós. Mais adiante, veremos como há peculiaridades neurofuncionais, psicológicas e neuropsicológicas em cada uma dessas fases. A memória pode falhar e ser destruída em cada uma dessas três etapas, por distintos fatores e transtornos psicopatológicos. TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO BASES NEUROBIOLÓGICAS Emoção – fixação A emoção atua e é percebida através da estimulação de vias nervosas bem definidas: - A via que terminaliberando dopamina e a, - A via que libera noradrenalina, sobre determinados lugares do SNC, entre eles os que fazem memoria. A noradrenalina e a dopamina quando agem sobre as células que fazem memoria que estão localizadas no hipocampo, nos lobos temporais, córtex vizinhos, entre outros. Quando esses hormônios estimulam essas fibras, elas atuam sobre sistemas bioquímicos definidos que aumentam a atividade de vias enzimáticas dentro do hipocampo que estimulam a síntese proteica. Os mecanismos neuroquímicos são os mesmo nos peixes, ratos, cavalos e humanos. Existe uma capacidade, um limite de informações memorizadas no SNC por unidade de tempo. Por exemplo, de 1 h a 4 dias eu so consigo me lembrar de certas coisas e não mais, não cabe. Porque cada memoria utiliza um set de neurônios, um set enzimas e atividades bioquímicas (nós fazemos uma casa contando com os tijolos que temos e não com o que achamos que poderíamos ter), isso de certeza forma é benéfico para nós, porque, por exemplo, para que vou querer me lembrar de onde estacionei o carro a uma semana atrás, eu quero saber hoje aonde ele está. Ivan Izquierdo diz que nós somos aquilo que decidimos esquecer (o que de fato tem importância ou conteúdo emocional não esquecemos). Mas ele tmb diz, que existe algo que o nosso cérebro nunca apaga, as memorias de medo, o que é importante para a nossa sobrevivência. Um argentino chamado Jorge Luiz Borges, ele conta que ele era incapaz de esquecer e por conta disso sua vida se tornou um verdadeiro inferno, pq as memorias estavam presentes o tempo interiro. Parece haver bastante concordância entre os pesquisadores de que, para o fenômeno da memorização ou engramação mnéstica, ou seja, para a formação das unidades de memória, as estruturas límbicas temporomediais, principalmente relacionadas ao hipocampo, à amígdala e ao córtex entorrinal, são fundamentais (Gordon, 1997; Izquierdo, 2002). Elas atuam, em especial, na consolidação dos registros e na transferência das unidades de memória de curto e médio prazos (intermediária) para a de longo prazo (estocagem da memória remota). O substrato neural da memória de longo prazo (registros bem consolidados) repousa basicamente no córtex cerebral, ou seja, nas áreas de associação neocorticais, principalmente frontais e temporoparietoccipitais. Há evidências de que o processo neuronal de memorização difere entre memórias recentes (minutos a horas) e memórias de longo prazo (meses a anos). Nas memórias recentes, há mudanças e consolidações de sinapses neuronais relacionadas a complexas cascatas de eventos moleculares e celulares necessárias para a primeira estabilização de informações recentemente adquiridas, nas redes neuronais coordenadas pelo hipocampo. Em contraste, nas memorizações lentas e de longo prazo, a consolidação das memórias se baseia em processos de nível sistêmico (redes neuronais), lentos, tempo- dependentes, que convertem os traços lábeis de memória recente em formas mais permanentes, estáveis e ampliadas, baseadas na reorganização de redes neurais de suporte à memória, também coordenadas pelos hipocampos (Harand et al., 2012). A interrupção bilateral do circuito hipocampo-mamilo-tálamo-cíngulo pode determinar a incapacidade de fixação de novos elementos mnêmicos, produzindo, assim, a síndrome amnéstica, de maior ou menor TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO intensidade. As estruturas mais importantes para a memória são, certamente, os hipocampos. O Quadro 17.2 resume alguns dos aspectos principais dos hipocampos. Os hipocampos (direito e esquerdo) são estruturas do cérebro, localizadas na parte medial dos lobos temporais, filogeneticamente antigas, de importância central para os processos de aprendizagem e memória. Entretanto, de certa forma, quase toda a cognição está relacionada a eles, pois os hipocampos se conectam a múltiplas áreas do córtex cerebral, organizam eventos relacionados entre si em uma rede estruturada de memórias, além de atuarem na percepção e na organização mental, espacial e temporal dos eventos. Eles são possivelmente a estrutura mais bem estudada em neurociências cognitivas, havendo uma revista científica específica para eles, chamada Hippocampus (Eichenbaum et al., 2016). A retirada cirúrgica ou destruição por doença dos dois hipocampos causa uma terrível síndrome de amnésia anterógrada, na qual o indivíduo fica totalmente sem memória para fatos novos e com profunda incapacidade para aprender (com exceção de funções da memória de procedimentos, como abordado a seguir). Anatomicamente, o hipocampo dos mamíferos tem três grandes regiões: o giro denteado (GD), o corno de Ammon (CA, este dividido em quatro partes: CA1, CA2, CA3 e CA4) e o córtex entorrinal lateral e medial. Essas três regiões têm diferentes padrões de conectividade, tipos de neurônios e suscetibilidade a fatores destrutivos. Funcionalmente, os hipocampos são divididos em hipocampo dorsal (mais ligado especificamente ao aprendizado e à memória) e hipocampo ventral (mais ligado ao processamento emocional). Todo o hipocampo tem grande capacidade de plasticidade sináptica (Strange et al., 2014). Os hipocampos foram tradicionalmente relacionados à memória explícita consciente, e não à implícita. Entretanto, pesquisas têm revelado que eles desempenham um papel que vai além dos processos conscientes da memória. Estudos neuroanatômicos indicam que tanto a memória explícita como a implícita usam o hipocampo nos mesmos locais, mas com processos funcionais diferentes. Em nosso cérebro, é criado um modelo do mundo a nossa volta. Experienciar e reexperienciar vivamente cenas do passado e poder imaginar o futuro são ações que dependem intimamente da integridade dos hipocampos. Utilizamos as representações do mundo para perceber e compreender o que ocorre a cada momento. Trabalhos recentes indicam que funções como percepção, imaginação e lembrança de cenas e eventos estão particularmente ligadas ao hipocampo anterior (Zeidman; Maguire, 2016). Atualmente, os estudos psicológicos e neurocientíficos sobre a memória psicológica indicam que o processo de memorização (codificação, armazenamento e futura evocação) de novos elementos da memória depende de: •Nível de consciência e estado geral do organismo: o indivíduo deve estar desperto, não muito cansado, calmo, em bom estado geral, para que a memorização ocorra da melhor maneira possível. •Atenção focal: diz respeito à capacidade de manutenção de atenção concentrada sobre o conteúdo novo a ser fixado. Informações novas entram na memória de longo prazo principalmente quando se presta bastante atenção durante o aprendizado. •Organização e distribuição temporal: diz respeito a distribuir, no processo de aprendizado de novas informações, as tentativas de aprendizado ao longo de um período de tempo mais longo e cadenciado; é melhor praticar “pouco e sempre” do que tentar memorizar e aprender tudo apressadamente, em um único dia (p. ex., no dia antes da prova). •Interesse e colorido emocional: relaciona-se às informações a serem fixadas, assim como ao empenho do indivíduo em aprender (vontade e afetividade). •Conhecimento anterior: elementos já conhecidos ajudam a adquirir elementos novos, principalmente quando se articulam os TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO novos conhecimentos a informações, classificações e esquemas cognitivos já bem assentados, formando uma cadeia de elementos mnêmicos. •Capacidade de compreensão do significado da informação: buscar entender o significado da informação ou conhecimento que se está tentando aprender é de fundamental ajuda para a memorização. Se a informação não tem um significado particular (éalgo aleatório), então é útil atribuir-lhe um significado arbitrário. •Estabelecimento de um contexto rico e elaborado: o contexto e as circunstâncias associadas à informação que se quer memorizar têm papel central na eficácia da memorização. •Codificação da informação nova em mais de uma via: para o armazenamento mais eficaz de uma informação nova, quanto maior for o número de canais sensoriais e dimensões cognitivas distintas, mais eficaz será a fixação. Por exemplo, se a informação for uma palavra, deve-se buscar associar uma imagem visual; se for visual, deve-se buscar associar uma palavra. Com isso, são criados mapas mentais, que colaboram para o armazenamento eficaz. 2. CLASSIFICAR OS TIPOS DE MEMÓRIA SEGUJNDO O TEMPO DE AQUISIÇÃO (SENSORIAL, IMEDIATA, RECENTE DE LONGO PRAZO) E SEGUNDO A ESTRUTURA CEREBRAL ENVOLVIDA (DE TRABALHO, EPISÓDICA, SEMÂNTICA E DE PROCEDIMENTO) - Tipos dependentes do caráter consciente ou não consciente do processo mnêmico (memória explícita/declarativa versus implícita/não declarativa) Segundo o caráter consciente ou não consciente do processo mnêmico, têm-se as memórias explícita e implícita. - A memória explícita São adquiridas e organizadas de forma consciente. Por exemplo, a memoria semântica (lembra que nas aulas de geografia a gente precisava decorar os estados do Brasil, provavelmente como teve que se esforçar para lembrar delas tantas vezes, hj ainda lembra de algumas dessas informações. (memória declarativa) é relacionada ao conhecimento consciente, obtido geralmente com algum esforço. Esse tipo de memória é adquirido e evocado com plena intervenção da consciência (Izquierdo, 2002), incluindo as lembranças de fatos autobiográficos (memória autobiográfica). Um episódio como ter almoçado no último domingo com a avó pode ser lembrado com algum esforço e de forma consciente. A TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO memória explícita pode ser de imagens visuais, palavras, conceitos ou eventos. - A memória implícita Essas são utilizadas de maneira inconsciente. O tipo mais comum é o das memórias procedurais – que estão relacionadas a habilidades motoras e sensoriais, como tocar um instrumento, andar de bike ou manusear controle de vídeo-game. As estruturas envolvidas aqui são cerebelo, córtex motor e o corpo estriado. (memória sem consciência ou não declarativa) é um tipo de memória que adquirimos e utilizamos sem que percebamos, sem consciência e, geralmente, sem esforço. É uma forma relativamente automática e espontânea. Ela pode incluir procedimentos (ver adiante, memória de procedimentos), como muitas habilidades motoras (andar de bicicleta, saber bordar, saber escovar os dentes), assim como conhecimentos gerais ancorados em palavras, que adquirimos e utilizamos sem perceber, como aprender e falar a língua materna. Alguns autores ainda colocam como subgrupo das implícitas, as meórias - associativas e não associativas: Pense num cachorro salivando quando exposto a alguma comida que o interesse (n associativa). Agora vc vai tocar um berrante sempre antes de dar a comida a ele, com o tempo ele vai associar o som ao horário da comida e consequentemente vai salivar mesmo que vc não o alimente logo em seguida. (associativa) - O termo priming (a melhor tradução é aprimoramento de repetição) se refere a um tipo de memória implícita, importante no processo de recordação e execução de tarefas cognitivas. Representam as memórias que são ativadas por meio de dicas. Sóde ler ou ouvir falar a palavra morango, diversas regiões do nosso neocortex faz associação com o gosto, as cores e o formato dessa fruta. - Tipos de memória segundo o tempo de aquisição, armazenamento e evocação Em relação ao processo temporal de aquisição, armazenamento e evocação de elementos mnêmicos, a neuropsicologia moderna divide a memória em quatro momentos temporais (Izquierdo, 2002; Foster, 2011): 1. Memória sensorial e depósito sensorial (até 1 segundo). Aqui, percepção, atenção e memória se sobrepõem. As memórias sensoriais são ricas (muitos conteúdos), mas muitíssimo breves (os conteúdos se apagam rapidamente). Quando estímulos visuais (memória icônica) ou auditivos (memória ecoica) são expostos ao indivíduo, ele capta (não de modo consciente) um número relativamente grande de informações, mas pode guardá-las apenas por um período muito curto. Há um depósito sensorial, que funciona geralmente abaixo do limiar da consciência, em apenas 50 milissegundos, quando se deve “decidir” (quase sempre sem consciência) se voltamos a atenção para certos estímulos ou se estes serão rapidamente apagados. Por exemplo, em uma festa, passamos por um grupo, nosso nome é rapidamente falado por alguém, e, às vezes, mesmo sem perceber conscientemente, passamos a dirigir a atenção para a fala desse grupo. 2. Memória imediata ou de curtíssimo prazo (de poucos segundos até 1 a 3 minutos). Esse tipo de memória se confunde conceitualmente também com a atenção e com a memória de trabalho (que será abordada adiante). Trata-se da capacidade de reter o material (palavras, números, imagens, etc.) imediatamente após ser percebido, como reter um número telefônico para logo em seguida discar. A memória imediata tem também capacidade limitada e depende da concentração, da fatigabilidade e de certo treino. As memórias imediata e de trabalho dependem sobretudo da integridade das áreas pré-frontais. Ex: 3 ultimas palavras faladas... sera comentado a frente 3. Memória recente ou de curto prazo (de poucos minutos até 3 a 6 horas). Funciona como um armazenamento provisório e paralelo aos demais. Também acontece no hipocampo, mas com mecanismos bioquímicos diferentes. Seria como uma cópia de segurança que fica disponível no sistema, até essa memória seja consolidada e essa cópia não seja mais necessária. Fundamental para ler um livro (saber que pagina esta tal conteúdo, para chegarmos em algum lugar (vira a esquerda, segue reto, etc) TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO Refere-se à capacidade de reter a informação por curto período. Também é um tipo de memória de capacidade limitada. Muitas vezes, as memórias de curto prazo e de curtíssimo prazo são consideradas simplesmente como memória de curto prazo. A memória recente depende de estruturas cerebrais das partes mediais dos lobos temporais, como a região CA1 do hipocampo, do córtex entorrinal, assim como do córtex parietal posterior (Izquierdo, 2002). 4. Memória de longo prazo ou remota (nos animais até 3 anos, nos humanos de dias, meses até muitos anos). Funciona como um disco rígido do HD do seu computador (já que o armazenamento pode durar por tempo ilimitado). Precisa de um processo chamado consolidação (processo bioquímico complexo que acontece nas sinapses em regiões especificas, especialmente no hipocampo e precisa de pelo menos 6 horas para consolidar a memoria). Para se ter a grandeza disso: 1 único neurônio faz cerca de 5 mil sinapses com neurônios vizinhos. Podendo em media fazer 360 bilhoes de sinapes por cm3. Importancia da consolidação: Beber álcool em altas doses atrapalha o processo da consolidação. Por ex, ontem a noite vc bebeu tanto que nem lembra o que aconteceu, isso aconteceu pq de fato a memoria nem existiu. Outro ex, foi um jogador do grêmio que fez um gol fantástico de cabeça, mas logo em seguida ele levou um chute na cabeça e caiu desacordado. Qd ele acordou ele não lembrava de nada que aconteceu, pq a memoria de consolidação não foi construída. Importante tmb para as memorias que são fixadas por repetição, se consolida um pouco, outra vez mais e ai por diante... faz estimular mais células ou estimular a mesma célula varias vezes Normalmenteas memorias que mais conservamos são aquelas de cunho emocional muito forte, por ex, o local onde estava qd meu avo morreu, o dia, local e pessoas no casamento... É a função relacionada à transferência de informações para depósitos de longo prazo, tendo capacidade quase ilimitada. Ela também se relaciona à evocação de informações e acontecimentos ocorridos no passado, geralmente após muito tempo do evento (pode durar por toda a vida). É um tipo de memória de capacidade bem mais ampla em termos de itens a serem guardados que a memória imediata e a recente. As informações a serem guardadas na memória de longo prazo são armazenadas de modo organizado, em sistemas que proporcionam uma estrutura organizacional. Assim, as informações são arquivadas e conservadas de acordo com seu significado, em redes semânticas nas quais conceitos semelhantes ou semanticamente relacionados são armazenados de maneira vinculada, próximos uns dos outros. Portanto, o significado proporciona organização no arquivo de longo prazo. Assim, podemos ouvir uma história, com várias frases distintas, e, meses depois, sermos incapazes de reproduzir essas frases corretamente. Contudo, o significado geral da história, tendo sido percebido por nós, foi armazenado e poderá ser evocado. Acredita-se que a memória remota se relacione tanto ao hipocampo, no processo de transferência de memórias recentes para memórias de longo prazo, como implicando também, para o armazenamento de longo, amplas e difusas áreas corticais de associação em todos os lobos cerebrais (mas principalmente nos frontais) (Kroll et al., 1997; Gazzaniga; Heatherton, 2005). - Tipos de memória classificados segundo a estrutura cerebral envolvida São quatro os principais tipos de memória que correspondem a estruturas cerebrais diversas. Esses quatro tipos são afetados de forma diferente nas doenças e condições que diminuem ou destroem a memória (p. ex., demências). São, nesse sentido, as principais formas de memória de interesse à semiologia neurológica, psicopatológica e neuropsicológica (Izquierdo, 2002; Budson; Price, 2005). São eles: 1.Memória de trabalho 2.Memória episódica 3.Memória semântica 4.Memória de procedimentos Memória de trabalho Uma memória especial. Ao contrario das outras, ela não deixa rastro bioquímico no cérebro e por isso é também chamada de memoria online. Ela serve TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO para gerenciar a realidade no momento presente, sem ela não seria possível dar continuidade no nosso pensamento e consequentemente na maioria das tarefas do nosso dia-a-dia. Por exemplo, memorizar rapidamente um telefone que alguém te disse para em seguida ligar para o entregador da agua. Logo em seguida, vc vai esquecer, pq essa informação só foi importante nessa situação, mas não tem relevância na sua vida. Outro exemplo típico, a 3ª palavra que falei na minha ultima frase, já foi esquecida logo depois que foi dita. Porem vc a aguardou po r milissegundos para entender o resto da frase. Mas é bom que ela tenha desaparecido pq senão ela estaria atrapalhando toda a nossa conversando o tempo todo. E exatamente por ter a característica de gerenciar novas informações sensórias e compará-las com memorias antigas, o mal funcionamento da memoria de trabalho está relacionada aos casos de alucinações e delírio. Ela se assemelha a memoria RAM, no sentido que a função da RAM tmb é gerenciar os arquivos que estão sendo utilizadosem tempo real pelo usuário. A memória de trabalho (working memory) situa-se entre os processos e habilidades da atenção e os da memória imediata. São exemplos de memória de trabalho ouvir um número telefônico e retê-lo na mente para, em seguida, discá-lo, assim como, ao dirigir em uma cidade desconhecida, perguntar sobre um endereço, receber a informação e a sugestão do trajeto e, mentalmente, executar o itinerário de forma progressiva. A memória de trabalho é, de modo geral, uma memória explícita, consciente, que exige esforço. Para diferenciá-la da memória de curto prazo, deve- se realçar que a memória de trabalho é plenamente ativa, que realiza operações mentais de modo constante (por isso, “está trabalhando” constantemente). Ela representa um conjunto de habilidades que permite manter e manipular informações novas (acessando-as em face às antigas). Tais informações (verbais ou visuoespaciais) são mantidas ativas, em operação (on-line), geralmente por curto período (poucos segundos até, no máximo, alguns minutos), a fim de serem manipuladas, com o objetivo de selecionar um plano de ação e realizar determinada tarefa. O conteúdo mnêmico deve ser utilizado imediatamente sob alguma forma de resposta. A memória de trabalho também é vista como uma gerenciadora da memória. Seu papel não é tanto formar arquivos, mas, antes, o de analisar e selecionar as informações que chegam constantemente e compará-las com as existentes nas demais memórias, de curta e de longa duração. Esse processo requer mecanismos neurais adequados à seleção de informações pertinentes, mantendo-as on-line por breve período, até que a decisão e a resposta adequada sejam tomadas. Investigações têm indicado que a memória de trabalho é composta por três componentes: alça fonológica, esboço visuoespacial e sistema executivo. O esboço visuoespacial realiza armazenamento temporário e manipulação das imagens. A alça fonológica utiliza códigos articulatórios e depósitos fonológicos para sintetizar e operacionalizar as informações. O sistema executivo faz a mediação da atenção e das estratégias para coordenar os recursos cognitivos entre a alça fonológica e o esboço visuoespacial (Foster, 2011). As regiões corticais pré-frontais são importantes para a integridade da memória de trabalho. Nas tarefas verbais, há maior envolvimento das áreas pré-frontais esquerdas, assim como das áreas de Broca (frontal esquerda inferior) e de Wernicke (temporal esquerda superior). Nas tarefas visuoespaciais (seguir mapas mentalmente, sair de labirintos gráficos e montar quebra-cabeças), há maior implicação das áreas pré-frontais direitas, assim como de zonas visuais de associação do carrefour temporoparietoccipital direito. Quando o córtex temporal é lesado, há prejuízo da memória de trabalho visual (mas a memória de trabaho espacial é preservada); quando há lesão dos lobos parietais, ocorre o oposto. Pacientes com lesões nas áreas cerebrais associadas aos conhecimentos semânticos (sentido das palavras), como o córtex dos lobos temporais laterais e temporoparietais, têm prejuízos nos desempenhos da memória de trabalho verbal. Investigação semiológica da memória de trabalho TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO Observa-se inicialmente o grau de habilidade do paciente de prestar atenção e se concentrar. Particularmente importante é a dificuldade em realizar novas tarefas que incluam a execução de várias etapas distintas em uma sequência após instrução. Um teste simples é aquele incluído no Teste Minimental, quando se solicita ao paciente que realize a tarefa: “Veja esta folha de papel em minha mão; quero que pegue este papel com sua mão direita, que o dobre no meio e, depois, o coloque no chão”. Também são formas de testar a memória de trabalho solicitar que uma pessoa repita números em sequência direta (a pessoa sem alterações repete de 5 a 8 dígitos; 4 é resultado limítrofe; e 3 ou menos dígitos, resultado alterado) e sequência inversa (normal de 4 a 5 dígitos; 3, resultado limítrofe; e 2 ou menos dígitos, alterado). Pode-se igualmente testar a memória de trabalho de natureza visuoespacial, utilizando-se labirintos gráficos e quebra-cabeças (Howieson; Loring, 2004; Lezak, 2012). Valor diagnóstico das alteraçõesda memória de trabalho De modo geral, todas as condições que afetam as regiões pré-frontais causam alteração da memória de trabalho. Elas ocorrem em distintas condições clínicas, mas sobretudo nas demências, como: 1.demência frontotemporal (DFT), sobretudo na variante frontal da DFT 2.demência de Alzheimer (sobretudo na varitante frontal desta demência) 3.demências vasculares e demência com corpos de Lewy A memória de trabalho pode também estar comprometida na esclerose múltipla e no traumatismo craniano. Na demência de Alzheimer, o componente “sistema executivo” parece ser o que mais está prejudicano na memória de trabalho. Em quadros psicopatológicos como esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e transtorno obsessivo- compulsivo, também se verificam alterações da memória de trabalho. No envelhecimento normal, ocorrem frequentemente dificuldades, de leves a moderadas, na memória de trabalho. Memória episódica São memórias mais duradouras e importantes. Representam as memórias da nossa biografia. Por exemplo, o dia do casamento, o dia que um filho nasceu , o dia da formatura, basicamente todas as grandes conquistas durante a vida. Na amnesia retrograda, o individuo perde a capacidade de acesso a esse tipo de memoria. Trata-se de memória explícita, de médio e longo prazos, relacionada a eventos específicos da experiência pessoal do indivíduo, ocorridos em determinado contexto. Relatar o que foi feito no último fim de semana é um típico exemplo de memória episódica. Ela corresponde a eventos específicos e concretos, comumente autobiográficos, bem circunscritos em determinado momento e local. Refere-se, assim, à recordação consciente de fatos reais. A perda da memória episódica, em geral, se evidencia para eventos autobiográficos recentes, mas, com o evoluir da doença (p. ex., doença de Alzheimer), pode incluir elementos mais antigos. Nesse sentido, a perda de memória episódica obedece à lei de Ribot (perdem-se primeiro os elementos recentemente adquiridos e, depois, os mais antigos). Esse tipo de memória depende, em essência, de mecanismos relacionados àsregiões da face medial dos lobos temporais, particularmente o hipocampo e os córtices entorrinal e perirrinal. Quando tais áreas se deterioram, por exemplo, com o avançar da demência de Alzheimer, o paciente perde totalmente a capacidade de fixar e lembrar eventos ocorridos há poucos minutos ou horas, inclusive situações marcantes e significativas para ele. Os pacientes com síndrome de Wernicke-Korsakoff têm déficits graves na memória episódica, uma condição relacionada a danos no diencéfalo, primariamente nos corpos mamilares, no trato mamilo-talâmico e no tálamo anterior. Respeitando a lei de Ribot, a memória remota de eventos antigos permanece mais tempo sem alterações. O hipocampo é um depósito transitório de memórias, uma estação de transferência de elementos recentemente registrados para um arquivo mais permanente de lembranças, TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO localizado de modo difuso em amplas áreas do córtex dos distintos lobos cerebrais. A memória episódica interage constantemente com a memória semântica (de conhecimentos gerais e conceitos; ver adiante), contrastando ou se articulando com ela. Investigação semiológica da memória episódica Suspeita-se de alteração da memória episódica quando se nota que o sujeito vai se tornando incapaz de reter e lembrar informações e experiências recentes de maneira correta e acurada. Um modo simples de fazer um primeiro rastreamento sobre a memória episódica de uma pessoa é contar uma pequena história para ela e, alguns minutos depois, pedir que a reconte. Deve-se entrevistar o paciente investigando a evolução temporal das falhas de memória. Nesse sentido, o relato de parentes próximos e cuidadores é essencial, pois o indivíduo geralmente não tem crítica de seu estado cognitivo e não costuma perceber suas perdas. Um modo prático de inquirir parentes e cuidadores é perguntar se, em comparação a alguns anos atrás, o paciente tem agora mais dificuldades em se lembrar de coisas que acontecem recentemente com ele. É importante, para avaliar o significado da alteração da memória episódica, que sejam investigadas outras áreas cognitivas além da memória (como linguagem, atenção, habilidades visuoespaciais e funções executivas). Por fim, devem ser examinados sinais neurológicos focais e alterações de possíveis doenças físicas sistêmicas. Valor diagnóstico das alterações da memória episódica As perdas de memória episódica ocorrem principalmente nos transtornos neurocognitivos, sobretudo na demência de Alzheimer. Nesses casos, os déficits de memória instalam-se de forma lenta e progressiva. Também nos transtornos neurocognitivos especificamente associados à memória, como na síndrome de Wernicke- Korsakoff, ocorre prejuízo marcante da memória episódica. Na demência com corpos de Lewy, embora se verifiquem déficits importantes nas funções executivas frontais, há preservação da memória episódica (Simard et al., 2000). Até há pouco tempo, considerava-se que a memória episódica estaria relativamente preservada na DFT. Entretanto, estudos recentes indicam que ela pode estar significativamente prejudicada, sobretudo na variante comportamental dessa doença (Wong et al., 2014). Também é relatado prejuízo da memória episódica em condições como esquizofrenia, transtorno dissociativo (aqui, a dificuldade é na evocação da memória episódica) e doença de Parkinson (Pause et al., 2013). Memória semântica Esse tipo de memória se refere ao aprendizado, à conservação e à utilização do arquivo geral de conceitos e conhecimentos do indivíduo (os chamados conhecimentos gerais sobre o mundo). Assim, conhecimentos como a cor do céu (azul) ou de um papagaio (verde), ou quantos dias há na semana (sete), são de caráter geral e se cristalizam por meio da linguagem, ou seja, também são de caráter semântico. Assim como a episódica, a memória semântica é frequentemente explícita (mas pode ser, eventualmente, implícita). Ela é, enfim, a representação de longo prazo dos conhecimentos que temos sobre o mundo, entre eles o significado das palavras, dos objetos e das ações. Também, cabe assinalar, a memória semântica diz respeito ao registro e à retenção de conteúdos em função do significado que têm. Ela é um componente da memória de longo prazo que inclui os conhecimentos de objetos, fatos, operações matemáticas, assim como das palavras e seu uso. A memória semântica é, de modo geral, compartilhada socialmente, reaprendida de forma constante, não sendo temporalmente específica (Dalla Barba et al., 1998). A contraposição desses dois tipos de memória (episódica e semântica) exemplifica-se da seguinte forma: lembrar como foi um almoço com os avós, em Belo Horizonte, há três semanas, depende do sistema de memória episódica. Já o conhecimento do significado das palavras “almoço”, “Belo Horizonte”, “avós”, etc., depende da memória semântica. Embora esses dois tipos de memória tenham certa independência, eles constantemente interatuam. Memórias episódicas são convertidas, TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO ao longo do tempo e por exposição repetida, em memórias semânticas. A memória semântica previamente adquirida é muitas vezes preservada em pacientes que apresentam graves alterações no sistema de memória episódica. Indivíduos com síndrome de Wernicke-Korsakoff, por exemplo, têm grave déficit de memória episódica, mas podem ter a memória semântica preservada. A memória semântica, em acepção restrita, corresponde às capacidades de nomeação e categorização. Depende, de forma estreita, das regiões inferiores e laterais dos lobostemporais, sobretudo no hemisfério esquerdo (diferentemente da memória episódica, que depende das regiões mediais desses lobos, sobretudo dos hipocampos). Investigação semiológica da memória semântica Pesquisam-se alterações de memória semântica verificando-se a dificuldade do paciente em tarefas como nomear itens cujos nomes ele previamente sabia (mostrar um relógio, uma caneta e uma régua e pedir que o indivíduo os nomeie). Deve-se diferenciar as dificuldades leves e benignas, como lembrar o nome de pessoas ou outros nomes próprios (muito comuns em adultos de meia-idade e idosos), da verdadeira perda da capacidade de lidar com informação semântica. Pacientes com disfunções leves na memória semântica têm capacidade reduzida em testes de geração de palavras (p. ex., solicitar ao indivíduo que nomeie o maior número possível de animais em 1 minuto). Aqueles com alterações mais avançadas na memória semântica tipicamente revelam déficits de duas vias na nomeação, isto é, são incapazes de dizer o nome de um item quando este lhes é mostrado e de descrever um item cujo nome lhes é apresentado. Os pacientes com déficits de memória semântica mais avançada também apresentam empobrecimento marcante de conhecimentos gerais (não são capazes de citar algumas cidades do Brasil, dizer quem é o atual presidente do País, dizer a cor do papagaio, etc.). Valor diagnóstico das alterações da memória semântica Na demência de Alzheimer, há alterações pronunciadas da memória semântica. Isso ocorre devido à deterioração das regiões mediais e ventrais dos lobos temporais e de regiões temporoparietais do hemisfério esquerdo. Na DFT, na variante que afeta mais os lobos temporais (variante semântica da DFT), ocorre significativa perda da memória semântica, o que leva a dificuldades nas tarefas de nomeação e compreensão de palavras isoladas, além de empobrecimento dos conhecimentos gerais (condição descrita por alguns autores como demência semântica). Na variante comportamental da DFT (que afeta mais os lobos frontais), a memória semântica pode estar menos comprometida. Também na demência com corpos de Lewy, embora se verifiquem déficits significativos nas funções executivas frontais, há relativa preservação da memória semântica (Simard et al., 2000). Memória de procedimentos Trata-se de um tipo de memória automática, não consciente. Exemplos desse tipo de memória são habilidades motoras e perceptuais mais ou menos complexas (andar de bicicleta, digitar no computador, tocar um instrumento musical, bordar, etc.), habilidades visuoespaciais (como a capacidade de aprender soluções de labirintos e quebra-cabeças) e habilidades automáticas relacionadas ao aprendizado de línguas (regras gramaticais incorporadas na fala automaticamente, decorar a conjugação de verbos de uma língua estrangeira, etc.). A memória de procedimentos, de modo geral, é implícita e não declarativa, mas, durante a aquisição da habilidade, pode ser explícita na fase de aprendizado, como quando, por exemplo, se aprende a dirigir um carro seguindo orientações verbais. Na maioria das vezes, a memória de procedimentos é implícita, pois manifesta-se tipicamente por ações motoras e desempenho de atividades, e não pela expressão de palavras (tornando-se consciente apenas com esforço). Aqui, a memorização ocorre de forma lenta, por meio de repetições e múltiplas tentativas. A localização da memória de procedimentos está relacionada com o sistema motor e/ou sensorial específico envolvido na tarefa. As principais áreas envolvidas são a área motora suplementar (lobos TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO frontais), osnúcleos da base (sobretudo o striatum)e ocerebelo. Investigação semiológica da memória de procedimentos Suspeita-se da presença de alterações da memória de procedimentos quando o indivíduo apresenta ou perda de habilidades motoras ou visuoespaciais previamente aprendidas, ou grande dificuldade em aprender novas habilidades. Por exemplo, o paciente pode perder a habilidade de escrever à mão ou de digitar em um teclado, de tocar um instrumento musical, de pregar um botão ou de chutar uma bola. Eventualmente, ele pode reaprender essas habilidades, mas, para isso, necessita de ordens explícitas (verbais, conscientes) para realizar cada etapa da habilidade. Em consequência, um paciente com lesão no sistema de memória de procedimentos pode nunca mais readquirir as habilidades motoras automáticas que pessoas saudáveis realizam sem perceber. Por fim, aqueles cuja memória episódica foi devastada (quadros graves de demência de Alzheimer ou síndrome de Wernicke-Korsakoff) podem ter ganhos relativos em um processo de reabilitação que lance mão do sistema de memória de procedimentos preservada e, assim, aprender novas habilidades (Oudman et al., 2015). Valor diagnóstico das alterações da memória de procedimentos A doença de Parkinson (assim como a síndrome de Parkinson por causas vasculares, tumorais, etc.) é a condição mais frequente em que se observa perda da memória de procedimentos. Outras doenças que comprometem a memória de procedimentos são doença de Huntington, paralisia supranuclear progressiva e degeneração olivopontocerebelar. Também tumores, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hemorragias, degenerações e outras lesões nos núcleos da base ou no cerebelo (degeneração cerebelar) podem prejudicar a memória de procedimentos. Pacientes nas fases iniciais da doença de Parkinson e da coreia de Huntington (assim como na degeneração olivopontocerebelar e na paralisia supranuclear progressiva) apresentam desempenho quase normal em testes de memória episódica, mas revelam acentuada incapacidade de aprender novas habilidades motoras, visuoespaciais e linguísticas. Para as demências vasculares, inclusive a demência após AVC, os tipos de memória comprometidos (de trabalho, episódica, semântica ou de procedimentos) dependem muito de fatores como tipo de AVC, volume, número de AVCs e localização das lesões vasculares. Portanto, as perdas de memória nas demências vasculares são muito heterogêneas (Kalaria et al., 2016). De modo geral, esse tipo de memória não fica gravemente prejudicado na demência de Alzheimer, apresentando-se mais deteriorado (sobretudo como perda da capacidade de aprendizado motor) em outras doenças degenerativas que envolvem habilidades psicomotoras. 3. COMPREENDER AS ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS QUANTITATIVAS E QUALITATIVAS DA MEMÓRIA ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS Hipermnésias Em alguns pacientes em mania ou hipomania, representações (elementos mnêmicos) afluem rapidamente, uma tempestade de informações ou imagens, ganhando em número, perdendo, porém, em clareza e precisão. A hipermnésia, nesses casos, traduz mais a aceleração geral do ritmo psíquico que uma alteração propriamente da memória (Nobre de Melo, 1979). Há outro tipo de hipermnésia, chamada hipermnésia para memória autobiográfica. Trata-se de um fenômeno raro, no qual o indivíduo tem uma memória autobiográfica quase perfeita (Parker et al., 2006). Foi estudado detalhadamente o caso de HK, um rapaz de 20 anos, cego de nascença, que apresentava hipermnésia autobiográfica. Sua memória para detalhes de vários eventos de sua vida passada era profunda e minuciosa, quase perfeita. Por meio de várias fontes, a memória de HK foi checada em relação ao diário de sua avó, entrevistas com vários familiares e registros de prontuários médicos do hospital onde ele era tratado, revelando-se altamente fidedigna (Ally et al., 2013). TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO HK apresentava, em relação a controles, hipertrofia da amígdala direita (de cerca de 20%) e conectividade aumentada entre a amígdala e o hipocampo (10vezes acima do desvio-padrão). A hipermnésia autobiográfica é considerada um fenômeno complexo, dependente de intricada interação entre memória episódica, memória semântica, habilidades visuoespaciais, memória para emoções, viagem mental no tempo, teoria da mente e funções executivas. Embora muito rara, ela fornece elementos valiosos para a compreensão da memória autobiográfica. Amnésias (ou hipomnésias) Denomina-se amnésia, de forma genérica, a perda da memória, seja da capacidade de fixar, seja da capacidade de manter e evocar antigos conteúdos mnêmicos. Em relação às amnésias associadas à memória episódica autobiográfica, cabe citar a Lei da regressão mnêmica, de Théodule Ribot (1839- 1916), formulada em seu livro Les Maladies de la Mémoire, de 1881. Apesar de ter sido formulada há mais de um século, ela pode ser ainda de utilidade (Harand et al., 2012). Segundo a lei de Ribot (atualmente denominada temporally graded amnesia), no indivíduo que sofre uma lesão ou doença cerebral, sempre que esse processo patológico atinja seus mecanismos mnêmicos de codificação, armazenamento e recordação, a perda dos elementos da memória (esquecimento) segue algumas regularidades: 1. O sujeito perde as lembranças e seus conteúdos na ordem e no sentido inverso que os adquiriu. 2. Consequência do item anterior, ele perde primeiro elementos recentemente adquiridos e, depois, os mais antigos. 3. Perde primeiro elementos mais complexos e, depois, os mais simples. 4. Perde primeiro os elementos mais estranhos, menos habituais e, só posteriormente, os mais familiares. Em relação aos processos fisiopatológicos, as amnésias podem ser divididas em dois grandes grupos: psicogênicas ou dissociativas e orgânicas. Nas amnésias dissociativas, ou psicogênicas, há perda de elementos mnêmicos seletivos, os quais podem ter valor psicológico específico (simbólico, afetivo). O indivíduo esquece, por exemplo, uma fase ou um evento de sua vida (que teve um significado especial para ele), mas consegue lembrar de tudo que ocorreu “ao seu redor”. É quase sempre uma amnésia retrógrada (ver adiante). A amnésia dissociativa pode surgir em sequência a um episódio de trauma emocional e/ou relacionada a fuga dissociativa (quando o indivíduo foge de sua casa, em estado dissociativo). Já nas amnésias orgânicas, a perda de memória é geralmente menos seletiva, em relação ao conteúdo emocional e/ou simbólico do material esquecido, do que na amnésia psicogênica. Em geral, perde-se primeiramente a capacidade de memorização de fatos e eventos recentes, e, em estados avançados da doença (geralmente demência), o indivíduo passa gradualmente a perder conteúdos mais antigos. Amnésia anterógrada e retrógrada Na amnésia anterógrada, o indivíduo não consegue mais fixar elementos mnêmicos a partir do evento que lhe causou o dano cerebral. Por exemplo, ele não lembra o que ocorreu nas semanas (ou meses) seguintes a um trauma craniencefálico. A amnésia anterógrada é um distúrbio-chave e bastante frequente na maior parte dos distúrbios neurocognitivos, transtornos de base orgânica. Já na amnésia retrógrada (verificável na amnésia dissociativa), o indivíduo perde a capacidade de acesso de memorias epsodicas pelo mal funcionamento do hipocampo, mas em muitos casos consegue manter intacta as memorias procedurais (andar de bike, etc) o indivíduo perde a memória para fatos ocorridos antes do início do transtorno (ou trauma). Sua ocorrência, sem amnésia anterógrada, é observada em quadros dissociativos (psicogênicos), como a amnésia dissociativa e a fuga dissociativa. De modo geral, é comum, após trauma craniencefálico, a ocorrência de amnésias retroanterógradas, ou seja, déficits de fixação para o que ocorreu dias, semanas ou meses antes e depois do evento patógeno. TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO ALTERAÇÕES QUALITATIVAS (PARAMNÉSIAS) As alterações qualitativas da memória envolvem sobretudo a deformação do processo de evocação de conteúdos mnêmicos previamente fixados. O indivíduo apresenta lembrança deformada que não corresponde à sensopercepção original. Os principais tipos de paramnésias são: 1. Ilusões mnêmicas. Nesse caso, há o acréscimo de elementos falsos a elementos da memória de fatos que realmente aconteceram. Por isso, a lembrança adquire caráter fictício. Muitos pacientes informam sobre seu passado indicando claramente deformações marcantes de lembranças reais: “Tive 20 filhos com minha mulher” (teve, de fato, 4 filhos com ela, mas não 20). Se não for uma deformação marcante, é difícil diferenciar a ilusão mnêmica do processo normal de recordação (pois a memória é um processo construtivo, que se refaz e modifica normalmente). As ilusões mnêmicas podem ocorrer na esquizofrenia, no transtorno delirante e, menos frequentemente, nos transtornos da personalidade (borderline, histriônica, esquizotípica, etc). 2. Alucinações mnêmicas. São criações imaginativas, dotadas de sensorialidade, marcadamente com a aparência de lembranças ou reminiscências que não correspondem a qualquer elemento mnêmico, a qualquer lembrança verdadeira. Podem surgir de modo repentino, sem corresponder a qualquer acontecimento. Ocorrem principalmente na esquizofrenia e em outras psicoses. As ilusões e as alucinações mnêmicas constituem, muitas vezes, o material básico para a formação e a elaboração de delírios (delírio imaginativo ou delírio mnêmico). Confabulações (ou fabulações) Confabulações são produções de relatos, narrativas e ações que são involuntariamente incongruentes com a história passada do indivíduo, com sua situação presente e futura. As confabulações são caracterizadas por três aspectos básicos: 1. Elas são memórias ou recordações falsas; a falsidade repousa ou no seu conteúdo, ou no seu contexto. 2. A pessoa que confabula não sabe da falsidade de suas recordações. 3. Confabulações são recordações plausíveis, ou seja, elas se parecem com o que poderia ter acontecido, mas que não aconteceu. As chamadas confabulações de embaraço são produzidas e estimuladas quando, na entrevista, se pergunta “se lembra de um encontro que tivemos há dois anos, em uma festa, em seu bairro?” ou “o que você fez no domingo anterior?”. A pessoa premida pela pergunta, sem perceber suas dificuldades de memória, passa a relatar fatos falsos relacionados às perguntas; plausíveis, mas falsos. Tradicionalmente, a psicopatologia considerou por muitas décadas que as confabulações eram formadas por elementos da imaginação do sujeito que completariam artificialmente lacunas de memória. Essas lacunas ou falhas seriam produzidas por déficit da memória de fixação, sobretudo da memória episódica. Além do déficit de fixação, a pessoa não seria capaz de reconhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia. As confabulações seriam, portanto, invenções involuntárias, produtos da imaginação do paciente, que preencheriam um vazio da memória. Atualmente, outras teorias têm sido propostas. Não cabe aqui apresentá-las detalhadamente. Algumas enfatizam a deslocação temporal das memórias, outras chamam atenção a déficits na monitoração das fontes de memórias (Dalla Barba, 1993). Outras, ainda, afirmam que as confabulações, sendo memórias falsas, mas plausíveis, se baseiam em lembranças de eventos pessoais que se repetiram, mas que são erroneamente associadas a eventos específicos e únicos falsos (Shakeel; Docherty, 2015). As confabulações ocorrem principalmente na síndrome de Wernicke-Korsakoff, frequentemente secundária ao alcoolismo crônico associado a déficit de tiamina (vitamina B1). Elas também podem ocorrer em traumatismo craniencefálico, encefalites que implicam os lobos temporais (como a encefalite herpética), intoxicaçãopor monóxido de carbono, aneurisma da artéria comunicante TUTORIA 14 MEMÓRIA FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO anterior e doença de Alzheimer. No passado, pensava-se que ela praticamente só ocorria em transtornos psico-orgânicos; entretanto, constatou- se que também pode ocorrer, não muito raramente, na esquizofrenia (ver revisão em Shakeel; Docherty, 2015). As alterações anatômicas relacionadas às confabulações compreendem lesões nos corpos mamilares, no núcleo dorsomedial do tálamo, assim como no córtex orbitofrontal. Entretanto, cerca de outras 20 áreas lesadas já foram associadas às confabulações, indicando a complexidade de sua fisiopatologia (Dalla Barba; La Corte, 2015). Outras alterações qualitativas da memória Alguns autores (Alonso-Fernández, 1976; Sims, 2001) classificam como alteração qualitativa da memória (talvez por sua semelhança com as confabulações) a pseudologia fantástica, ou mentira patológica (histórias e construções fantasiosas, extensas e geralmente mescladas com a realidade, experimentadas com tanta intensidade que o sujeito quase crê nelas). Embora tal fenômeno possa utilizar elementos do passado, este não é o capítulo mais adequado para situá-lo. Ele será abordado no Capítulo 21, que trata do juízo de realidade. Criptomnésias Trata-se de um falseamento da memória, em que as lembranças aparecem como fatos novos ao paciente, que não as reconhece como lembranças, vivendo-as como uma descoberta. Por exemplo, um indivíduo com demência (como do tipo Alzheimer) conta aos amigos uma história muito conhecida como se fosse inteiramente nova, mas que, há poucos minutos, foi relatada por outra pessoa do grupo. Ecmnésia Trata-se da recapitulação e da revivescência intensa, abreviada e panorâmica da existência, uma recordação condensada de muitos eventos passados, que ocorre em breve período. Na ecmnésia, o indivíduo tem a vivência perceptiva de visão de cenas passadas, como forma depresentificação do passado. Esse tipo de ecmnésia pode ocorrer em alguns pacientes com crises epilépticas. O fenômeno denominado visão panorâmica da vida, associado às chamadas experiências de quase-morte, é, de certa forma, um tipo de ecmnésia, que ocorre geralmente associado à iminência da morte por acidente (sobretudo afogamento, sufocamento ou intoxicação). Quando a ecmnésia ocorre associada à proximidade da morte, alguns indivíduos que sobreviveram relatam ter visto um túnel, uma luz forte e uma névoa luminosa, associados a essa visão de “filme condensado da própria vida”. Lembrança obsessiva A lembrança obsessiva, também denominada ideia fixa ou representação prevalente, manifesta-se como o surgimento espontâneo de imagens da memória ou conteúdos ideativos do passado que, uma vez instalados na consciência, não podem ser repelidos voluntariamente pelo indivíduo. A imagem da memória, embora reconhecida como indesejável, reaparece de forma constante e permanece, como um incômodo, na consciência do paciente. Manifesta-se em indivíduos com transtornos do espectro obsessivo- compulsivo.