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TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
1. DISCUTIR AS BASES 
NEUROBIOLÓGICA DA MEMÓRIA 
 
DEFINIÇÕES BÁSICAS 
De acordo com Piaget (psicologo suíço), qd 
aprendemos algo estamos em equilíbrio com 
aquele conhecimento. Mas para ele existe algumas 
etapas antes de chegar nesse equilíbrio: 
- A assimilação e a acomodação desse 
conhecimento. 
Essas sao as fases que o sujeito passa a interagir 
com aquela nova informação, novo afeto e aí vai 
assimilando e acomodando até chegar no 
equilíbrio. Ao qual posteriormente, vamos acabar 
selecioinando essa informação para memorizá-las. 
 
A memória é a capacidade de codificar, 
armazenar e evocar as experiências, impressões e 
fatos que ocorrem em nossas vidas. Tudo o que 
uma pessoa aprende em sua existência depende 
intimamente da memória. Além disso, como será 
abordado neste capítulo, todos os processos 
relacionados com a memória são altamente 
contextualizados, integrados em uma rede de 
múltiplas informações e contextos da vida. 
A capacidade específica de memorizar 
relaciona-se com vários fatores, entre eles o nível 
de consciência e atenção, o estado emocional e o 
interesse motivacional e, particularmente 
importante, os contextos, como lugar, momento, 
com que pessoas, em que tipo de atividade e em que 
fase da vida a codificação, o armazenamento e a 
evocação das informações ocorrem (para uma 
revisão acessível e de qualidade, ver Foster, 2011). 
Alguns dos principais pesquisadores atuais 
em neurociências da memória atribuem à memória 
um papel central na própria definição e identidade 
do ser humano. Para Iván Izquierdo (2002), “somos 
aquilo que recordamos ou que, de um modo ou de 
outro, resolvemos esquecer”. Perder a memória, 
segundo Squire e Kandel (2003), “leva à perda de 
si mesmo, à perda da história de uma vida e das 
interações duradouras com outros seres humanos”. 
De forma genérica, podem-se distinguir, 
para os seres humanos, os seguintes tipos de 
memória: 
1. Memória psicológica (cognitiva ou 
neuropsicológica). É uma atividade altamente 
diferenciada do sistema nervoso, que permite ao 
indivíduo codificar, conservar e evocar, a qualquer 
momento, os dados aprendidos da experiência. 
2. Memória genética e epigenética. Esse tipo de 
memória abrange conteúdos de informações 
biológicas adquiridos ao longo da história 
filogenética da espécie e ao longo das vivências do 
indivíduo e de seus ancestrais, contidos no material 
biológico (DNA, RNA, cromossomos, 
mitocôndrias, mudanças epigenéticas) dos seres 
vivos. 
3. Memória imunológica. Esse tipo de memória 
reúne informações registradas e potencialmente 
recuperáveis pelo sistema imune de um ser vivo. 
4. Memória coletiva, social ou cultural. Envolve 
conhecimentos e práticas sociais e culturais 
(costumes, valores, práticas, linguagem, 
habilidades artísticas, conceitos e preconceitos, 
ideologias, estilos de vida, rituais, gesticulações, 
etc.) produzidos, acumulados e mantidos por um 
grupo social. Esse tipo de memória tem 
importância fundamental para as sociedades 
humanas. Sem ela, os grupos sociais perdem sua 
identidade básica, a possibilidade de perceber o 
sentido de suas existências, a gratidão e crítica em 
relação ao passado e a esperança e prudência em 
relação ao futuro. 
Apesar da importância da memória 
coletiva, não a estudaremos aqui. Neste capítulo, 
será abordada principalmente a memória 
psicológica, cognitiva ou 
neuropsicológica (usadas neste texto como 
sinônimos). A memória cognitiva é composta de 3 
fases ou elementos básicos: 
- Fase de registro (percepção, gerenciamento e 
início da fixação) 
- Fase de conservação (retenção) 
- fase de evocação (tmb denominada de 
lembranças, recordações ou recuperação) 
Ao longo das últimas décadas, estudos em 
psicologia cognitiva e neuropsicologia idenficaram 
dois aspectos importantes sobre a memória 
psicológica. Primeiro, a memória não é 
um processo unitário. Ela é composta de múltiplos 
elementos, que podem ser organizados e expostos 
de distintas formas e exigem redes e estruturas 
cerebrais diferentes. 
Segundo, a memória não é um processo 
passivo e fidedigno de fixação de elementos e de 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
evocação exata e realista do que foi arquivado. 
Nesse sentido, ela é muito mais um processo ativo, 
no qual vários elementos do indivíduo participam 
da codificação e da evocação, como elementos 
sensoriais, imaginativos, semânticos e afetivos. 
A memória é frequentemente reeditada, ou 
seja, as informações de eventos, cenas e 
acontecimentos do passado, que já foram 
armazenadas, podem ser reconfiguradas com 
acréscimos de elementos novos (vividos ou 
imaginados pelo próprio indivíduo ou instigados 
por estímulos externos, conscientes ou não). 
Assim, há um processo de recriação e 
reinterpretação no arquivo de longo prazo de 
nossas memórias. Elas frequentemente não são “o 
filme realista do que aconteceu”, mas “reedições 
criativas” de vários “diretores” que influem no 
conteúdo do arquivo de memórias. 
FASES OU ELEMENTOS BÁSICOS DA 
MEMÓRIA 
Cabe, agora, apresentar a memória psicológica em 
suas três fases, ou elementos básicos: 
• Codificação: captar, adquirir e codificar 
informações. 
• Armazenamento: reter as informações de 
modo fidedigno. 
• Recuperação ou evocação: também 
denominada de lembranças ou recordações; é 
fase em que as informações são recuperadas 
para distintos fins. 
Usando a metáfora de uma biblioteca (ou de 
um arquivo eletrônico) para a memória, a fase de 
codificação corresponde à escrita de um livro em 
papel ou em arquivo eletrônico (AE). A 
codificação ocorre quando, ao vermos uma coisa 
pequena, de uns 10 centímetros, coberta de uma 
capa colorida (penas), com cabeça, corpo e 
patinhas, que se move e canta, denominamos de 
passarinho. A informação codificada 
semanticamente na palavra “passarinho” passará, 
assim, a ser arquivada, já tendo sido codificada. 
A fase de armazenamento implica a 
classificação do livro (ou do AE) e sua colocação 
em uma determinada estante (ou pasta), assim 
como a conservação desse livro nessa estante 
(protegendo-o do sol e da chuva) ou na memória do 
computador. Por fim, a fase de 
evocação, ou recuperação, significa poder acessar 
o livro na estante (ou o AE, no computador) e poder 
lê-lo da melhor forma possível. 
A codificação é o processo inicial da 
memorização. Ela depende muito da atenção. 
A evocação, a capacidade de acessar os dados 
fixados, seria a etapa final do processo de 
memória. Lembrança é a capacidade de acessar 
elementos no banco da memória de longo 
prazo. Reconhecimento é a capacidade de 
identificar uma informação apresentada ao sujeito 
com informações já disponíveis na memória de 
longo prazo. Esquecimento, por sua vez, é a 
denominação que se dá à impossibilidade de evocar 
e recordar. 
Em relação à evocação, há ainda dois 
aspectos distintos: a disponibilidade e 
a acessibilidade da informação. Às vezes, tentamos 
lembrar o nome de uma pessoa, sentimos que esse 
nome está “na ponta da língua”, sabemos qual a 
primeira sílaba, se o nome é curto ou longo, mas o 
nome inteiro “não vem” (“fenômeno da ponta da 
língua”). Nesse caso, a informação ainda está 
disponível em nossa memória de longo prazo, mas 
não está, no momento exato que queremos lembrar, 
acessível para nós. 
Mais adiante, veremos como há 
peculiaridades neurofuncionais, psicológicas e 
neuropsicológicas em cada uma dessas fases. A 
memória pode falhar e ser destruída em cada uma 
dessas três etapas, por distintos fatores e 
transtornos psicopatológicos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
 
BASES NEUROBIOLÓGICAS 
 
 
 
Emoção – fixação 
A emoção atua e é percebida através da 
estimulação de vias nervosas bem definidas: 
- A via que terminaliberando dopamina e a, 
- A via que libera noradrenalina, sobre 
determinados lugares do SNC, entre eles os que 
fazem memoria. 
A noradrenalina e a dopamina quando agem 
sobre as células que fazem memoria que estão 
localizadas no hipocampo, nos lobos temporais, 
córtex vizinhos, entre outros. Quando esses 
hormônios estimulam essas fibras, elas atuam sobre 
sistemas bioquímicos definidos que aumentam a 
atividade de vias enzimáticas dentro do hipocampo 
que estimulam a síntese proteica. 
Os mecanismos neuroquímicos são os 
mesmo nos peixes, ratos, cavalos e humanos. 
Existe uma capacidade, um limite de 
informações memorizadas no SNC por unidade de 
tempo. Por exemplo, de 1 h a 4 dias eu so consigo 
me lembrar de certas coisas e não mais, não cabe. 
Porque cada memoria utiliza um set de neurônios, 
um set enzimas e atividades bioquímicas (nós 
fazemos uma casa contando com os tijolos que 
temos e não com o que achamos que poderíamos 
ter), isso de certeza forma é benéfico para nós, 
porque, por exemplo, para que vou querer me 
lembrar de onde estacionei o carro a uma semana 
atrás, eu quero saber hoje aonde ele está. 
Ivan Izquierdo diz que nós somos aquilo 
que decidimos esquecer (o que de fato tem 
importância ou conteúdo emocional não 
esquecemos). Mas ele tmb diz, que existe algo que 
o nosso cérebro nunca apaga, as memorias de 
medo, o que é importante para a nossa 
sobrevivência. 
Um argentino chamado Jorge Luiz Borges, 
ele conta que ele era incapaz de esquecer e por 
conta disso sua vida se tornou um verdadeiro 
inferno, pq as memorias estavam presentes o tempo 
interiro. 
Parece haver bastante concordância entre os 
pesquisadores de que, para o fenômeno da 
memorização ou engramação mnéstica, ou seja, 
para a formação das unidades de memória, as 
estruturas límbicas temporomediais, 
principalmente relacionadas ao hipocampo, à 
amígdala e ao córtex entorrinal, são fundamentais 
(Gordon, 1997; Izquierdo, 2002). Elas atuam, em 
especial, na consolidação dos registros e 
na transferência das unidades de memória de 
curto e médio prazos (intermediária) para a 
de longo prazo (estocagem da memória remota). 
O substrato neural da memória de longo 
prazo (registros bem consolidados) repousa 
basicamente no córtex cerebral, ou seja, nas áreas 
de associação neocorticais, principalmente frontais 
e temporoparietoccipitais. 
Há evidências de que o processo neuronal de 
memorização difere entre memórias recentes 
(minutos a horas) e memórias de longo prazo 
(meses a anos). Nas memórias recentes, há 
mudanças e consolidações de sinapses neuronais 
relacionadas a complexas cascatas de eventos 
moleculares e celulares necessárias para a primeira 
estabilização de informações recentemente 
adquiridas, nas redes neuronais coordenadas pelo 
hipocampo. Em contraste, nas memorizações 
lentas e de longo prazo, a consolidação das 
memórias se baseia em processos de nível 
sistêmico (redes neuronais), lentos, tempo-
dependentes, que convertem os traços lábeis de 
memória recente em formas mais permanentes, 
estáveis e ampliadas, baseadas na reorganização de 
redes neurais de suporte à memória, também 
coordenadas pelos hipocampos (Harand et al., 
2012). 
A interrupção bilateral do circuito 
hipocampo-mamilo-tálamo-cíngulo pode 
determinar a incapacidade de fixação de novos 
elementos mnêmicos, produzindo, assim, a 
síndrome amnéstica, de maior ou menor 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
intensidade. As estruturas mais importantes para a 
memória são, certamente, os hipocampos. 
O Quadro 17.2 resume alguns dos aspectos 
principais dos hipocampos. 
 
Os hipocampos (direito e esquerdo) são 
estruturas do cérebro, localizadas na parte medial 
dos lobos temporais, filogeneticamente antigas, de 
importância central para os processos 
de aprendizagem e memória. Entretanto, de certa 
forma, quase toda a cognição está relacionada a 
eles, pois os hipocampos se conectam a múltiplas 
áreas do córtex cerebral, organizam eventos 
relacionados entre si em uma rede estruturada de 
memórias, além de atuarem na percepção e na 
organização mental, espacial e temporal dos 
eventos. Eles são possivelmente a estrutura mais 
bem estudada em neurociências cognitivas, 
havendo uma revista científica específica para eles, 
chamada Hippocampus (Eichenbaum et al., 2016). 
A retirada cirúrgica ou destruição por doença dos 
dois hipocampos causa uma terrível síndrome de 
amnésia anterógrada, na qual o indivíduo fica 
totalmente sem memória para fatos novos e com 
profunda incapacidade para aprender (com exceção 
de funções da memória de procedimentos, como 
abordado a seguir). 
Anatomicamente, o hipocampo dos 
mamíferos tem três grandes regiões: o giro 
denteado (GD), o corno de Ammon (CA, este 
dividido em quatro partes: CA1, CA2, CA3 e CA4) 
e o córtex entorrinal lateral e medial. Essas três 
regiões têm diferentes padrões de conectividade, 
tipos de neurônios e suscetibilidade a fatores 
destrutivos. Funcionalmente, os hipocampos são 
divididos em hipocampo dorsal (mais ligado 
especificamente ao aprendizado e à memória) 
e hipocampo ventral (mais ligado ao 
processamento emocional). Todo o hipocampo tem 
grande capacidade de plasticidade sináptica 
(Strange et al., 2014). 
Os hipocampos foram tradicionalmente 
relacionados à memória explícita consciente, e não 
à implícita. Entretanto, pesquisas têm revelado que 
eles desempenham um papel que vai além dos 
processos conscientes da memória. Estudos 
neuroanatômicos indicam que tanto a memória 
explícita como a implícita usam o hipocampo nos 
mesmos locais, mas com processos funcionais 
diferentes. 
Em nosso cérebro, é criado um modelo 
do mundo a nossa volta. Experienciar e 
reexperienciar vivamente cenas do passado e poder 
imaginar o futuro são ações que dependem 
intimamente da integridade dos hipocampos. 
Utilizamos as representações do mundo para 
perceber e compreender o que ocorre a cada 
momento. Trabalhos recentes indicam que funções 
como percepção, imaginação e lembrança de cenas 
e eventos estão particularmente ligadas ao 
hipocampo anterior (Zeidman; Maguire, 2016). 
Atualmente, os estudos psicológicos e 
neurocientíficos sobre a memória psicológica 
indicam que o processo de 
memorização (codificação, armazenamento e 
futura evocação) de novos elementos da memória 
depende de: 
•Nível de consciência e estado geral do 
organismo: o indivíduo deve estar desperto, 
não muito cansado, calmo, em bom estado 
geral, para que a memorização ocorra da 
melhor maneira possível. 
•Atenção focal: diz respeito à capacidade de 
manutenção de atenção concentrada sobre o 
conteúdo novo a ser fixado. Informações 
novas entram na memória de longo prazo 
principalmente quando se presta bastante 
atenção durante o aprendizado. 
•Organização e distribuição temporal: diz 
respeito a distribuir, no processo de 
aprendizado de novas informações, as 
tentativas de aprendizado ao longo de um 
período de tempo mais longo e cadenciado; é 
melhor praticar “pouco e sempre” do que 
tentar memorizar e aprender tudo 
apressadamente, em um único dia (p. ex., no 
dia antes da prova). 
•Interesse e colorido emocional: relaciona-se 
às informações a serem fixadas, assim como 
ao empenho do indivíduo em aprender 
(vontade e afetividade). 
•Conhecimento anterior: elementos já 
conhecidos ajudam a adquirir elementos 
novos, principalmente quando se articulam os 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
novos conhecimentos a informações, 
classificações e esquemas cognitivos já bem 
assentados, formando uma cadeia de 
elementos mnêmicos. 
•Capacidade de compreensão do significado 
da informação: buscar entender o significado 
da informação ou conhecimento que se está 
tentando aprender é de fundamental ajuda para 
a memorização. Se a informação não tem um 
significado particular (éalgo aleatório), então 
é útil atribuir-lhe um significado arbitrário. 
•Estabelecimento de um contexto rico e 
elaborado: o contexto e as circunstâncias 
associadas à informação que se quer 
memorizar têm papel central na eficácia da 
memorização. 
•Codificação da informação nova em mais 
de uma via: para o armazenamento mais 
eficaz de uma informação nova, quanto maior 
for o número de canais sensoriais e dimensões 
cognitivas distintas, mais eficaz será a fixação. 
Por exemplo, se a informação for uma palavra, 
deve-se buscar associar uma imagem visual; se 
for visual, deve-se buscar associar uma 
palavra. Com isso, são criados mapas mentais, 
que colaboram para o armazenamento eficaz. 
 
2. CLASSIFICAR OS TIPOS DE 
MEMÓRIA SEGUJNDO O TEMPO DE 
AQUISIÇÃO (SENSORIAL, 
IMEDIATA, RECENTE DE LONGO 
PRAZO) E SEGUNDO A ESTRUTURA 
CEREBRAL ENVOLVIDA (DE 
TRABALHO, EPISÓDICA, 
SEMÂNTICA E DE 
PROCEDIMENTO) 
 
 
 
 
- Tipos dependentes do caráter consciente ou 
não consciente do processo mnêmico (memória 
explícita/declarativa versus implícita/não 
declarativa) 
Segundo o caráter consciente ou não consciente do 
processo mnêmico, têm-se as memórias explícita e 
implícita. 
- A memória explícita São adquiridas e 
organizadas de forma consciente. Por exemplo, a 
memoria semântica (lembra que nas aulas de 
geografia a gente precisava decorar os estados do 
Brasil, provavelmente como teve que se esforçar 
para lembrar delas tantas vezes, hj ainda lembra de 
algumas dessas informações. 
(memória declarativa) é relacionada ao 
conhecimento consciente, obtido geralmente com 
algum esforço. Esse tipo de memória é adquirido e 
evocado com plena intervenção da 
consciência (Izquierdo, 2002), incluindo as 
lembranças de fatos autobiográficos (memória 
autobiográfica). Um episódio como ter almoçado 
no último domingo com a avó pode ser lembrado 
com algum esforço e de forma consciente. A 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
memória explícita pode ser de imagens visuais, 
palavras, conceitos ou eventos. 
- A memória implícita Essas são utilizadas de 
maneira inconsciente. O tipo mais comum é o das 
memórias procedurais – que estão relacionadas a 
habilidades motoras e sensoriais, como tocar um 
instrumento, andar de bike ou manusear controle de 
vídeo-game. As estruturas envolvidas aqui são 
cerebelo, córtex motor e o corpo estriado. 
(memória sem consciência ou não declarativa) é 
um tipo de memória que adquirimos e utilizamos 
sem que percebamos, sem consciência e, 
geralmente, sem esforço. É uma forma 
relativamente automática e espontânea. Ela pode 
incluir procedimentos (ver adiante, memória de 
procedimentos), como muitas habilidades 
motoras (andar de bicicleta, saber bordar, saber 
escovar os dentes), assim como conhecimentos 
gerais ancorados em palavras, que adquirimos e 
utilizamos sem perceber, como aprender e falar a 
língua materna. 
Alguns autores ainda colocam como subgrupo das 
implícitas, as meórias 
- associativas e não associativas: Pense num 
cachorro salivando quando exposto a alguma 
comida que o interesse (n associativa). Agora vc 
vai tocar um berrante sempre antes de dar a comida 
a ele, com o tempo ele vai associar o som ao horário 
da comida e consequentemente vai salivar mesmo 
que vc não o alimente logo em seguida. 
(associativa) 
 
- O termo priming (a melhor tradução 
é aprimoramento de repetição) se refere a um tipo 
de memória implícita, importante no processo de 
recordação e execução de tarefas cognitivas. 
Representam as memórias que são ativadas por 
meio de dicas. Sóde ler ou ouvir falar a palavra 
morango, diversas regiões do nosso neocortex faz 
associação com o gosto, as cores e o formato dessa 
fruta. 
 
- Tipos de memória segundo o tempo de 
aquisição, armazenamento e evocação 
Em relação ao processo temporal de aquisição, 
armazenamento e evocação de elementos 
mnêmicos, a neuropsicologia moderna divide 
a memória em quatro momentos 
temporais (Izquierdo, 2002; Foster, 2011): 
1. Memória sensorial e depósito sensorial (até 1 
segundo). Aqui, percepção, atenção e memória se 
sobrepõem. As memórias sensoriais são ricas 
(muitos conteúdos), mas muitíssimo breves (os 
conteúdos se apagam rapidamente). Quando 
estímulos visuais (memória icônica) ou auditivos 
(memória ecoica) são expostos ao indivíduo, ele 
capta (não de modo consciente) um número 
relativamente grande de informações, mas pode 
guardá-las apenas por um período muito curto. 
Há um depósito sensorial, que funciona 
geralmente abaixo do limiar da consciência, em 
apenas 50 milissegundos, quando se deve “decidir” 
(quase sempre sem consciência) se voltamos a 
atenção para certos estímulos ou se estes serão 
rapidamente apagados. Por exemplo, em uma festa, 
passamos por um grupo, nosso nome é rapidamente 
falado por alguém, e, às vezes, mesmo sem 
perceber conscientemente, passamos a dirigir a 
atenção para a fala desse grupo. 
2. Memória imediata ou de curtíssimo prazo (de 
poucos segundos até 1 a 3 minutos). Esse tipo de 
memória se confunde conceitualmente também 
com a atenção e com a memória de trabalho (que 
será abordada adiante). Trata-se da capacidade de 
reter o material (palavras, números, imagens, etc.) 
imediatamente após ser percebido, como reter um 
número telefônico para logo em seguida discar. A 
memória imediata tem também capacidade 
limitada e depende da concentração, da 
fatigabilidade e de certo treino. As memórias 
imediata e de trabalho dependem sobretudo da 
integridade das áreas pré-frontais. Ex: 3 ultimas 
palavras faladas... sera comentado a frente 
 
3. Memória recente ou de curto prazo (de poucos 
minutos até 3 a 6 horas). Funciona como um 
armazenamento provisório e paralelo aos demais. 
Também acontece no hipocampo, mas com 
mecanismos bioquímicos diferentes. Seria como 
uma cópia de segurança que fica disponível no 
sistema, até essa memória seja consolidada e essa 
cópia não seja mais necessária. Fundamental para 
ler um livro (saber que pagina esta tal conteúdo, 
para chegarmos em algum lugar (vira a esquerda, 
segue reto, etc) 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
Refere-se à capacidade de reter a 
informação por curto período. Também é um tipo 
de memória de capacidade limitada. Muitas vezes, 
as memórias de curto prazo e de curtíssimo prazo 
são consideradas simplesmente como memória de 
curto prazo. 
A memória recente depende de estruturas 
cerebrais das partes mediais dos lobos temporais, 
como a região CA1 do hipocampo, do córtex 
entorrinal, assim como do córtex parietal posterior 
(Izquierdo, 2002). 
4. Memória de longo prazo ou remota (nos 
animais até 3 anos, nos humanos de dias, meses até 
muitos anos). Funciona como um disco rígido do 
HD do seu computador (já que o armazenamento 
pode durar por tempo ilimitado). Precisa de um 
processo chamado consolidação (processo 
bioquímico complexo que acontece nas sinapses 
em regiões especificas, especialmente no 
hipocampo e precisa de pelo menos 6 horas para 
consolidar a memoria). 
Para se ter a grandeza disso: 1 único neurônio faz 
cerca de 5 mil sinapses com neurônios vizinhos. 
Podendo em media fazer 360 bilhoes de sinapes por 
cm3. 
Importancia da consolidação: Beber álcool em 
altas doses atrapalha o processo da consolidação. 
Por ex, ontem a noite vc bebeu tanto que nem 
lembra o que aconteceu, isso aconteceu pq de fato 
a memoria nem existiu. Outro ex, foi um jogador 
do grêmio que fez um gol fantástico de cabeça, mas 
logo em seguida ele levou um chute na cabeça e 
caiu desacordado. Qd ele acordou ele não lembrava 
de nada que aconteceu, pq a memoria de 
consolidação não foi construída. 
Importante tmb para as memorias que são fixadas 
por repetição, se consolida um pouco, outra vez 
mais e ai por diante... faz estimular mais células ou 
estimular a mesma célula varias vezes 
Normalmenteas memorias que mais conservamos 
são aquelas de cunho emocional muito forte, por 
ex, o local onde estava qd meu avo morreu, o dia, 
local e pessoas no casamento... 
É a função relacionada à transferência de 
informações para depósitos de longo prazo, tendo 
capacidade quase ilimitada. Ela também se 
relaciona à evocação de informações e 
acontecimentos ocorridos no passado, geralmente 
após muito tempo do evento (pode durar por toda a 
vida). É um tipo de memória de capacidade bem 
mais ampla em termos de itens a serem guardados 
que a memória imediata e a recente. 
As informações a serem guardadas na 
memória de longo prazo são armazenadas de modo 
organizado, em sistemas que proporcionam uma 
estrutura organizacional. Assim, as informações 
são arquivadas e conservadas de acordo com 
seu significado, em redes semânticas nas quais 
conceitos semelhantes ou semanticamente 
relacionados são armazenados de maneira 
vinculada, próximos uns dos outros. 
Portanto, o significado proporciona 
organização no arquivo de longo prazo. Assim, 
podemos ouvir uma história, com várias frases 
distintas, e, meses depois, sermos incapazes de 
reproduzir essas frases corretamente. Contudo, o 
significado geral da história, tendo sido percebido 
por nós, foi armazenado e poderá ser evocado. 
Acredita-se que a memória remota se 
relacione tanto ao hipocampo, no processo de 
transferência de memórias recentes para memórias 
de longo prazo, como implicando também, para o 
armazenamento de longo, amplas e difusas áreas 
corticais de associação em todos os lobos 
cerebrais (mas principalmente nos frontais) (Kroll 
et al., 1997; Gazzaniga; Heatherton, 2005). 
 
- Tipos de memória classificados segundo a 
estrutura cerebral envolvida 
São quatro os principais tipos de memória que 
correspondem a estruturas cerebrais diversas. Esses 
quatro tipos são afetados de forma diferente nas 
doenças e condições que diminuem ou destroem a 
memória (p. ex., demências). São, nesse sentido, as 
principais formas de memória de interesse à 
semiologia neurológica, psicopatológica e 
neuropsicológica (Izquierdo, 2002; Budson; Price, 
2005). São eles: 
1.Memória de trabalho 
2.Memória episódica 
3.Memória semântica 
4.Memória de procedimentos 
Memória de trabalho 
Uma memória especial. Ao contrario das outras, ela 
não deixa rastro bioquímico no cérebro e por isso é 
também chamada de memoria online. Ela serve 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
para gerenciar a realidade no momento presente, 
sem ela não seria possível dar continuidade no 
nosso pensamento e consequentemente na maioria 
das tarefas do nosso dia-a-dia. Por exemplo, 
memorizar rapidamente um telefone que alguém te 
disse para em seguida ligar para o entregador da 
agua. Logo em seguida, vc vai esquecer, pq essa 
informação só foi importante nessa situação, mas 
não tem relevância na sua vida. 
Outro exemplo típico, a 3ª palavra que falei na 
minha ultima frase, já foi esquecida logo depois 
que foi dita. Porem vc a aguardou po r 
milissegundos para entender o resto da frase. Mas 
é bom que ela tenha desaparecido pq senão ela 
estaria atrapalhando toda a nossa conversando o 
tempo todo. 
E exatamente por ter a característica de gerenciar 
novas informações sensórias e compará-las com 
memorias antigas, o mal funcionamento da 
memoria de trabalho está relacionada aos casos de 
alucinações e delírio. 
Ela se assemelha a memoria RAM, no sentido que 
a função da RAM tmb é gerenciar os arquivos que 
estão sendo utilizadosem tempo real pelo usuário. 
A memória de trabalho (working memory) situa-se 
entre os processos e habilidades da atenção e os da 
memória imediata. São exemplos de memória de 
trabalho ouvir um número telefônico e retê-lo na 
mente para, em seguida, discá-lo, assim como, ao 
dirigir em uma cidade desconhecida, perguntar 
sobre um endereço, receber a informação e a 
sugestão do trajeto e, mentalmente, executar o 
itinerário de forma progressiva. 
A memória de trabalho é, de modo geral, uma 
memória explícita, consciente, que exige esforço. 
Para diferenciá-la da memória de curto prazo, deve-
se realçar que a memória de trabalho é 
plenamente ativa, que realiza operações mentais de 
modo constante (por isso, “está trabalhando” 
constantemente). 
Ela representa um conjunto de habilidades que 
permite manter e manipular informações novas 
(acessando-as em face às antigas). Tais 
informações (verbais ou visuoespaciais) são 
mantidas ativas, em operação (on-line), 
geralmente por curto período (poucos segundos 
até, no máximo, alguns minutos), a fim de serem 
manipuladas, com o objetivo de selecionar um 
plano de ação e realizar determinada tarefa. O 
conteúdo mnêmico deve ser utilizado 
imediatamente sob alguma forma de resposta. 
A memória de trabalho também é vista como 
uma gerenciadora da memória. Seu papel não é 
tanto formar arquivos, mas, antes, o de analisar e 
selecionar as informações que chegam 
constantemente e compará-las com as existentes 
nas demais memórias, de curta e de longa duração. 
Esse processo requer mecanismos neurais 
adequados à seleção de informações pertinentes, 
mantendo-as on-line por breve período, até que a 
decisão e a resposta adequada sejam tomadas. 
Investigações têm indicado que a memória de 
trabalho é composta por três componentes: alça 
fonológica, esboço 
visuoespacial e sistema executivo. O esboço 
visuoespacial realiza armazenamento temporário e 
manipulação das imagens. A alça 
fonológica utiliza códigos articulatórios e 
depósitos fonológicos para sintetizar e 
operacionalizar as informações. O sistema 
executivo faz a mediação da atenção e das 
estratégias para coordenar os recursos cognitivos 
entre a alça fonológica e o esboço visuoespacial 
(Foster, 2011). 
As regiões corticais pré-frontais são 
importantes para a integridade da memória de 
trabalho. Nas tarefas verbais, há maior 
envolvimento das áreas pré-frontais esquerdas, 
assim como das áreas de Broca (frontal esquerda 
inferior) e de Wernicke (temporal esquerda 
superior). Nas tarefas visuoespaciais (seguir 
mapas mentalmente, sair de labirintos gráficos e 
montar quebra-cabeças), há maior implicação das 
áreas pré-frontais direitas, assim como de zonas 
visuais de associação 
do carrefour temporoparietoccipital direito. 
Quando o córtex temporal é lesado, há 
prejuízo da memória de trabalho visual (mas a 
memória de trabaho espacial é preservada); quando 
há lesão dos lobos parietais, ocorre o oposto. 
Pacientes com lesões nas áreas cerebrais associadas 
aos conhecimentos semânticos (sentido das 
palavras), como o córtex dos lobos temporais 
laterais e temporoparietais, têm prejuízos nos 
desempenhos da memória de trabalho verbal. 
Investigação semiológica da memória de 
trabalho 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
Observa-se inicialmente o grau de habilidade do 
paciente de prestar atenção e se concentrar. 
Particularmente importante é a dificuldade em 
realizar novas tarefas que incluam a execução de 
várias etapas distintas em uma sequência após 
instrução. 
Um teste simples é aquele incluído 
no Teste Minimental, quando se solicita ao paciente 
que realize a tarefa: “Veja esta folha de papel em 
minha mão; quero que pegue este papel com sua 
mão direita, que o dobre no meio e, depois, o 
coloque no chão”. 
Também são formas de testar a memória de 
trabalho solicitar que uma pessoa repita números 
em sequência direta (a pessoa sem alterações 
repete de 5 a 8 dígitos; 4 é resultado limítrofe; e 3 
ou menos dígitos, resultado alterado) e sequência 
inversa (normal de 4 a 5 dígitos; 3, resultado 
limítrofe; e 2 ou menos dígitos, alterado). Pode-se 
igualmente testar a memória de trabalho de 
natureza visuoespacial, utilizando-se labirintos 
gráficos e quebra-cabeças (Howieson; Loring, 
2004; Lezak, 2012). 
Valor diagnóstico das alteraçõesda memória 
de trabalho 
De modo geral, todas as condições que afetam as 
regiões pré-frontais causam alteração da memória 
de trabalho. Elas ocorrem em distintas condições 
clínicas, mas sobretudo nas demências, como: 
1.demência frontotemporal (DFT), 
sobretudo na variante frontal da DFT 
2.demência de Alzheimer (sobretudo 
na varitante frontal desta demência) 
3.demências vasculares e demência com 
corpos de Lewy 
A memória de trabalho pode também estar 
comprometida na esclerose múltipla e no 
traumatismo craniano. Na demência de 
Alzheimer, o componente “sistema executivo” 
parece ser o que mais está prejudicano na 
memória de trabalho. 
Em quadros psicopatológicos 
como esquizofrenia, transtorno de déficit de 
atenção/hiperatividade e transtorno obsessivo-
compulsivo, também se verificam alterações da 
memória de trabalho. No envelhecimento normal, 
ocorrem frequentemente dificuldades, de leves a 
moderadas, na memória de trabalho. 
Memória episódica 
São memórias mais duradouras e 
importantes. Representam as memórias da nossa 
biografia. Por exemplo, o dia do casamento, o dia 
que um filho nasceu , o dia da formatura, 
basicamente todas as grandes conquistas durante a 
vida. Na amnesia retrograda, o individuo perde a 
capacidade de acesso a esse tipo de memoria. 
Trata-se de memória explícita, de médio e 
longo prazos, relacionada a eventos específicos da 
experiência pessoal do indivíduo, ocorridos em 
determinado contexto. Relatar o que foi feito no 
último fim de semana é um típico exemplo de 
memória episódica. Ela corresponde a eventos 
específicos e concretos, comumente 
autobiográficos, bem circunscritos em determinado 
momento e local. Refere-se, assim, à recordação 
consciente de fatos reais. A perda da memória 
episódica, em geral, se evidencia para eventos 
autobiográficos recentes, mas, com o evoluir da 
doença (p. ex., doença de Alzheimer), pode incluir 
elementos mais antigos. Nesse sentido, a perda de 
memória episódica obedece à lei de 
Ribot (perdem-se primeiro os elementos 
recentemente adquiridos e, depois, os mais 
antigos). 
Esse tipo de memória depende, em essência, 
de mecanismos relacionados àsregiões da face 
medial dos lobos temporais, particularmente 
o hipocampo e os córtices entorrinal e 
perirrinal. Quando tais áreas se deterioram, por 
exemplo, com o avançar da demência de 
Alzheimer, o paciente perde totalmente a 
capacidade de fixar e lembrar eventos ocorridos há 
poucos minutos ou horas, inclusive situações 
marcantes e significativas para ele. Os pacientes 
com síndrome de Wernicke-Korsakoff têm 
déficits graves na memória episódica, uma 
condição relacionada a danos no diencéfalo, 
primariamente nos corpos mamilares, no trato 
mamilo-talâmico e no tálamo anterior. 
Respeitando a lei de Ribot, a memória remota 
de eventos antigos permanece mais tempo sem 
alterações. O hipocampo é um depósito transitório 
de memórias, uma estação de transferência de 
elementos recentemente registrados para um 
arquivo mais permanente de lembranças, 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
localizado de modo difuso em amplas áreas do 
córtex dos distintos lobos cerebrais. A memória 
episódica interage constantemente com a memória 
semântica (de conhecimentos gerais e conceitos; 
ver adiante), contrastando ou se articulando com 
ela. 
Investigação semiológica da memória episódica 
Suspeita-se de alteração da memória 
episódica quando se nota que o sujeito vai se 
tornando incapaz de reter e lembrar informações e 
experiências recentes de maneira correta e acurada. 
Um modo simples de fazer um primeiro 
rastreamento sobre a memória episódica de uma 
pessoa é contar uma pequena história para ela e, 
alguns minutos depois, pedir que a reconte. 
Deve-se entrevistar o paciente investigando a 
evolução temporal das falhas de memória. Nesse 
sentido, o relato de parentes próximos e cuidadores 
é essencial, pois o indivíduo geralmente não tem 
crítica de seu estado cognitivo e não costuma 
perceber suas perdas. Um modo prático de inquirir 
parentes e cuidadores é perguntar se, em 
comparação a alguns anos atrás, o paciente tem 
agora mais dificuldades em se lembrar de coisas 
que acontecem recentemente com ele. 
É importante, para avaliar o significado da 
alteração da memória episódica, que sejam 
investigadas outras áreas cognitivas além da 
memória (como linguagem, atenção, habilidades 
visuoespaciais e funções executivas). Por fim, 
devem ser examinados sinais neurológicos focais e 
alterações de possíveis doenças físicas sistêmicas. 
Valor diagnóstico das alterações da memória 
episódica 
As perdas de memória episódica ocorrem 
principalmente nos transtornos neurocognitivos, 
sobretudo na demência de Alzheimer. Nesses 
casos, os déficits de memória instalam-se de forma 
lenta e progressiva. Também nos transtornos 
neurocognitivos especificamente associados à 
memória, como na síndrome de Wernicke-
Korsakoff, ocorre prejuízo marcante da memória 
episódica. 
Na demência com corpos de Lewy, embora 
se verifiquem déficits importantes nas funções 
executivas frontais, há preservação da memória 
episódica (Simard et al., 2000). 
Até há pouco tempo, considerava-se que a 
memória episódica estaria relativamente 
preservada na DFT. Entretanto, estudos recentes 
indicam que ela pode estar significativamente 
prejudicada, sobretudo na variante comportamental 
dessa doença (Wong et al., 2014). Também é 
relatado prejuízo da memória episódica em 
condições como esquizofrenia, transtorno 
dissociativo (aqui, a dificuldade é na evocação da 
memória episódica) e doença de Parkinson (Pause 
et al., 2013). 
Memória semântica 
Esse tipo de memória se refere ao 
aprendizado, à conservação e à utilização do 
arquivo geral de conceitos e conhecimentos do 
indivíduo (os chamados conhecimentos 
gerais sobre o mundo). Assim, conhecimentos 
como a cor do céu (azul) ou de um papagaio 
(verde), ou quantos dias há na semana (sete), são de 
caráter geral e se cristalizam por meio da 
linguagem, ou seja, também são de caráter 
semântico. Assim como a episódica, a memória 
semântica é frequentemente explícita (mas pode 
ser, eventualmente, implícita). Ela é, enfim, a 
representação de longo prazo dos conhecimentos 
que temos sobre o mundo, entre eles o significado 
das palavras, dos objetos e das ações. 
Também, cabe assinalar, a memória semântica 
diz respeito ao registro e à retenção de conteúdos 
em função do significado que têm. Ela é um 
componente da memória de longo prazo que inclui 
os conhecimentos de objetos, fatos, operações 
matemáticas, assim como das palavras e seu uso. A 
memória semântica é, de modo geral, 
compartilhada socialmente, reaprendida de forma 
constante, não sendo temporalmente específica 
(Dalla Barba et al., 1998). 
A contraposição desses dois tipos de memória 
(episódica e semântica) exemplifica-se da seguinte 
forma: lembrar como foi um almoço com os avós, 
em Belo Horizonte, há três semanas, depende do 
sistema de memória episódica. Já o conhecimento 
do significado das palavras “almoço”, “Belo 
Horizonte”, “avós”, etc., depende da memória 
semântica. 
Embora esses dois tipos de memória tenham 
certa independência, eles constantemente 
interatuam. Memórias episódicas são convertidas, 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
ao longo do tempo e por exposição repetida, em 
memórias semânticas. 
A memória semântica previamente adquirida é 
muitas vezes preservada em pacientes que 
apresentam graves alterações no sistema 
de memória episódica. Indivíduos com síndrome de 
Wernicke-Korsakoff, por exemplo, têm grave 
déficit de memória episódica, mas podem ter a 
memória semântica preservada. 
A memória semântica, em acepção restrita, 
corresponde às capacidades 
de nomeação e categorização. Depende, de forma 
estreita, das regiões inferiores e laterais dos lobostemporais, sobretudo no hemisfério 
esquerdo (diferentemente da memória episódica, 
que depende das regiões mediais desses lobos, 
sobretudo dos hipocampos). 
Investigação semiológica da memória 
semântica 
Pesquisam-se alterações de memória 
semântica verificando-se a dificuldade do paciente 
em tarefas como nomear itens cujos nomes ele 
previamente sabia (mostrar um relógio, uma caneta 
e uma régua e pedir que o indivíduo os nomeie). 
Deve-se diferenciar as dificuldades leves e 
benignas, como lembrar o nome de pessoas ou 
outros nomes próprios (muito comuns em adultos 
de meia-idade e idosos), da verdadeira perda da 
capacidade de lidar com informação semântica. 
Pacientes com disfunções leves na memória 
semântica têm capacidade reduzida em testes de 
geração de palavras (p. ex., solicitar ao indivíduo 
que nomeie o maior número possível de animais em 
1 minuto). Aqueles com alterações mais avançadas 
na memória semântica tipicamente revelam déficits 
de duas vias na nomeação, isto é, são incapazes 
de dizer o nome de um item quando este lhes é 
mostrado e de descrever um item cujo nome lhes é 
apresentado. Os pacientes com déficits de memória 
semântica mais avançada também apresentam 
empobrecimento marcante de conhecimentos 
gerais (não são capazes de citar algumas cidades do 
Brasil, dizer quem é o atual presidente do País, 
dizer a cor do papagaio, etc.). 
Valor diagnóstico das alterações da memória 
semântica 
Na demência de Alzheimer, há alterações 
pronunciadas da memória semântica. Isso ocorre 
devido à deterioração das regiões mediais e 
ventrais dos lobos temporais e de regiões 
temporoparietais do hemisfério esquerdo. 
Na DFT, na variante que afeta mais os lobos 
temporais (variante semântica da DFT), ocorre 
significativa perda da memória semântica, o que 
leva a dificuldades nas tarefas de nomeação e 
compreensão de palavras isoladas, além de 
empobrecimento dos conhecimentos gerais 
(condição descrita por alguns autores 
como demência semântica). Na variante 
comportamental da DFT (que afeta mais os lobos 
frontais), a memória semântica pode estar menos 
comprometida. 
Também na demência com corpos de Lewy, 
embora se verifiquem déficits significativos nas 
funções executivas frontais, há 
relativa preservação da memória 
semântica (Simard et al., 2000). 
Memória de procedimentos 
Trata-se de um tipo de memória 
automática, não consciente. Exemplos desse tipo 
de memória são habilidades motoras e 
perceptuais mais ou menos complexas (andar de 
bicicleta, digitar no computador, tocar um 
instrumento musical, bordar, etc.), habilidades 
visuoespaciais (como a capacidade de aprender 
soluções de labirintos e quebra-cabeças) e 
habilidades automáticas relacionadas ao 
aprendizado de línguas (regras gramaticais 
incorporadas na fala automaticamente, decorar a 
conjugação de verbos de uma língua estrangeira, 
etc.). 
A memória de procedimentos, de modo geral, 
é implícita e não declarativa, mas, durante a 
aquisição da habilidade, pode ser explícita na fase 
de aprendizado, como quando, por exemplo, se 
aprende a dirigir um carro seguindo orientações 
verbais. Na maioria das vezes, a memória de 
procedimentos é implícita, pois manifesta-se 
tipicamente por ações motoras e desempenho de 
atividades, e não pela expressão de palavras 
(tornando-se consciente apenas com esforço). 
Aqui, a memorização ocorre de forma lenta, 
por meio de repetições e múltiplas tentativas. A 
localização da memória de procedimentos está 
relacionada com o sistema motor e/ou sensorial 
específico envolvido na tarefa. As principais áreas 
envolvidas são a área motora suplementar (lobos 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
frontais), osnúcleos da base (sobretudo o striatum)e 
ocerebelo. 
Investigação semiológica da memória de 
procedimentos 
Suspeita-se da presença de alterações da 
memória de procedimentos quando o indivíduo 
apresenta ou perda de habilidades motoras ou 
visuoespaciais previamente aprendidas, ou grande 
dificuldade em aprender novas habilidades. Por 
exemplo, o paciente pode perder a habilidade de 
escrever à mão ou de digitar em um teclado, de 
tocar um instrumento musical, de pregar um botão 
ou de chutar uma bola. Eventualmente, ele pode 
reaprender essas habilidades, mas, para isso, 
necessita de ordens explícitas (verbais, 
conscientes) para realizar cada etapa da habilidade. 
Em consequência, um paciente com lesão no 
sistema de memória de procedimentos pode nunca 
mais readquirir as habilidades motoras automáticas 
que pessoas saudáveis realizam sem perceber. 
Por fim, aqueles cuja memória episódica foi 
devastada (quadros graves de demência de 
Alzheimer ou síndrome de Wernicke-Korsakoff) 
podem ter ganhos relativos em um processo de 
reabilitação que lance mão do sistema de memória 
de procedimentos preservada e, assim, aprender 
novas habilidades (Oudman et al., 2015). 
Valor diagnóstico das alterações da memória 
de procedimentos 
A doença de Parkinson (assim como a 
síndrome de Parkinson por causas vasculares, 
tumorais, etc.) é a condição mais frequente em que 
se observa perda da memória de procedimentos. 
Outras doenças que comprometem a memória de 
procedimentos são doença de Huntington, 
paralisia supranuclear progressiva e degeneração 
olivopontocerebelar. Também tumores, acidentes 
vasculares cerebrais (AVCs), hemorragias, 
degenerações e outras lesões nos núcleos da base 
ou no cerebelo (degeneração cerebelar) podem 
prejudicar a memória de procedimentos. 
Pacientes nas fases iniciais da doença de 
Parkinson e da coreia de Huntington (assim como 
na degeneração olivopontocerebelar e na paralisia 
supranuclear progressiva) apresentam desempenho 
quase normal em testes de memória episódica, mas 
revelam acentuada incapacidade de aprender novas 
habilidades motoras, visuoespaciais e linguísticas. 
Para as demências vasculares, inclusive a 
demência após AVC, os tipos de memória 
comprometidos (de trabalho, episódica, semântica 
ou de procedimentos) dependem muito de fatores 
como tipo de AVC, volume, número de AVCs e 
localização das lesões vasculares. Portanto, as 
perdas de memória nas demências vasculares são 
muito heterogêneas (Kalaria et al., 2016). 
De modo geral, esse tipo de memória não fica 
gravemente prejudicado na demência de 
Alzheimer, apresentando-se mais deteriorado 
(sobretudo como perda da capacidade de 
aprendizado motor) em outras doenças 
degenerativas que envolvem habilidades 
psicomotoras. 
 
3. COMPREENDER AS ALTERAÇÕES 
PATOLÓGICAS QUANTITATIVAS E 
QUALITATIVAS DA MEMÓRIA 
 
ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS 
Hipermnésias 
Em alguns pacientes em mania ou 
hipomania, representações (elementos mnêmicos) 
afluem rapidamente, uma tempestade de 
informações ou imagens, ganhando em número, 
perdendo, porém, em clareza e precisão. A 
hipermnésia, nesses casos, traduz mais a aceleração 
geral do ritmo psíquico que uma alteração 
propriamente da memória (Nobre de Melo, 1979). 
Há outro tipo de hipermnésia, 
chamada hipermnésia para memória 
autobiográfica. Trata-se de um fenômeno raro, no 
qual o indivíduo tem uma memória autobiográfica 
quase perfeita (Parker et al., 2006). 
Foi estudado detalhadamente o caso de HK, 
um rapaz de 20 anos, cego de nascença, que 
apresentava hipermnésia autobiográfica. Sua 
memória para detalhes de vários eventos de sua 
vida passada era profunda e minuciosa, quase 
perfeita. Por meio de várias fontes, a memória de 
HK foi checada em relação ao diário de sua avó, 
entrevistas com vários familiares e registros de 
prontuários médicos do hospital onde ele era 
tratado, revelando-se altamente fidedigna (Ally et 
al., 2013). 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
HK apresentava, em relação a controles, 
hipertrofia da amígdala direita (de cerca de 20%) e 
conectividade aumentada entre a amígdala e o 
hipocampo (10vezes acima do desvio-padrão). A 
hipermnésia autobiográfica é considerada um 
fenômeno complexo, dependente de intricada 
interação entre memória episódica, memória 
semântica, habilidades visuoespaciais, memória 
para emoções, viagem mental no tempo, teoria da 
mente e funções executivas. Embora muito rara, ela 
fornece elementos valiosos para a compreensão da 
memória autobiográfica. 
Amnésias (ou hipomnésias) 
Denomina-se amnésia, de forma genérica, a 
perda da memória, seja da capacidade de fixar, seja 
da capacidade de manter e evocar antigos 
conteúdos mnêmicos. 
Em relação às amnésias associadas à memória 
episódica autobiográfica, cabe citar a Lei da 
regressão mnêmica, de Théodule Ribot (1839-
1916), formulada em seu livro Les Maladies de la 
Mémoire, de 1881. Apesar de ter sido formulada há 
mais de um século, ela pode ser ainda de utilidade 
(Harand et al., 2012). Segundo a lei de Ribot 
(atualmente denominada temporally graded 
amnesia), no indivíduo que sofre uma lesão ou 
doença cerebral, sempre que esse processo 
patológico atinja seus mecanismos mnêmicos de 
codificação, armazenamento e recordação, a perda 
dos elementos da memória (esquecimento) segue 
algumas regularidades: 
1. O sujeito perde as lembranças e seus 
conteúdos na ordem e no sentido inverso que 
os adquiriu. 
2. Consequência do item anterior, ele perde 
primeiro elementos recentemente adquiridos 
e, depois, os mais antigos. 
3. Perde primeiro elementos mais complexos 
e, depois, os mais simples. 
4. Perde primeiro os elementos mais estranhos, 
menos habituais e, só posteriormente, os mais 
familiares. 
Em relação aos processos fisiopatológicos, as 
amnésias podem ser divididas em dois grandes 
grupos: psicogênicas ou dissociativas e orgânicas. 
Nas amnésias dissociativas, ou psicogênicas, 
há perda de elementos mnêmicos seletivos, os 
quais podem ter valor psicológico específico 
(simbólico, afetivo). O indivíduo esquece, por 
exemplo, uma fase ou um evento de sua vida (que 
teve um significado especial para ele), mas 
consegue lembrar de tudo que ocorreu “ao seu 
redor”. É quase sempre uma amnésia 
retrógrada (ver adiante). A amnésia dissociativa 
pode surgir em sequência a um episódio de trauma 
emocional e/ou relacionada a fuga dissociativa 
(quando o indivíduo foge de sua casa, em estado 
dissociativo). 
Já nas amnésias orgânicas, a perda de 
memória é geralmente menos seletiva, em relação 
ao conteúdo emocional e/ou simbólico do material 
esquecido, do que na amnésia psicogênica. Em 
geral, perde-se primeiramente a capacidade de 
memorização de fatos e eventos recentes, e, em 
estados avançados da doença (geralmente 
demência), o indivíduo passa gradualmente a 
perder conteúdos mais antigos. 
Amnésia anterógrada e retrógrada 
Na amnésia anterógrada, o indivíduo não 
consegue mais fixar elementos mnêmicos a partir 
do evento que lhe causou o dano cerebral. Por 
exemplo, ele não lembra o que ocorreu nas semanas 
(ou meses) seguintes a um trauma craniencefálico. 
A amnésia anterógrada é um distúrbio-chave e 
bastante frequente na maior parte dos distúrbios 
neurocognitivos, transtornos de base orgânica. 
Já na amnésia retrógrada (verificável 
na amnésia dissociativa), o indivíduo perde a 
capacidade de acesso de memorias epsodicas pelo 
mal funcionamento do hipocampo, mas em muitos 
casos consegue manter intacta as memorias 
procedurais (andar de bike, etc) 
 o indivíduo perde a memória para fatos 
ocorridos antes do início do transtorno (ou 
trauma). Sua ocorrência, sem amnésia anterógrada, 
é observada em quadros 
dissociativos (psicogênicos), como a amnésia 
dissociativa e a fuga dissociativa. 
De modo geral, é comum, após trauma 
craniencefálico, a ocorrência de amnésias 
retroanterógradas, ou seja, déficits de fixação 
para o que ocorreu dias, semanas ou meses antes e 
depois do evento patógeno. 
 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
ALTERAÇÕES QUALITATIVAS 
(PARAMNÉSIAS) 
As alterações qualitativas da memória 
envolvem sobretudo a deformação do processo de 
evocação de conteúdos mnêmicos previamente 
fixados. O indivíduo apresenta lembrança 
deformada que não corresponde à sensopercepção 
original. Os principais tipos de paramnésias são: 
1. Ilusões mnêmicas. Nesse caso, há o acréscimo 
de elementos falsos a elementos da memória de 
fatos que realmente aconteceram. Por isso, a 
lembrança adquire caráter fictício. Muitos 
pacientes informam sobre seu passado indicando 
claramente deformações marcantes de lembranças 
reais: “Tive 20 filhos com minha mulher” (teve, de 
fato, 4 filhos com ela, mas não 20). Se não for uma 
deformação marcante, é difícil diferenciar a ilusão 
mnêmica do processo normal de recordação (pois a 
memória é um processo construtivo, que se refaz e 
modifica normalmente). As ilusões mnêmicas 
podem ocorrer na esquizofrenia, no transtorno 
delirante e, menos frequentemente, nos transtornos 
da personalidade (borderline, histriônica, 
esquizotípica, etc). 
2. Alucinações mnêmicas. São criações 
imaginativas, dotadas de sensorialidade, 
marcadamente com a aparência de lembranças ou 
reminiscências que não correspondem a qualquer 
elemento mnêmico, a qualquer lembrança 
verdadeira. Podem surgir de modo repentino, sem 
corresponder a qualquer acontecimento. Ocorrem 
principalmente na esquizofrenia e em outras 
psicoses. 
As ilusões e as alucinações mnêmicas 
constituem, muitas vezes, o material básico para a 
formação e a elaboração de delírios (delírio 
imaginativo ou delírio mnêmico). 
Confabulações (ou fabulações) 
Confabulações são produções de relatos, 
narrativas e ações que são involuntariamente 
incongruentes com a história passada do indivíduo, 
com sua situação presente e futura. As 
confabulações são caracterizadas por três aspectos 
básicos: 
1. Elas são memórias ou recordações falsas; a 
falsidade repousa ou no seu conteúdo, ou no seu 
contexto. 
2. A pessoa que confabula não sabe da 
falsidade de suas recordações. 
3. Confabulações são recordações plausíveis, ou 
seja, elas se parecem com o que poderia ter 
acontecido, mas que não aconteceu. 
As chamadas confabulações de 
embaraço são produzidas e estimuladas quando, 
na entrevista, se pergunta “se lembra de um 
encontro que tivemos há dois anos, em uma festa, 
em seu bairro?” ou “o que você fez no domingo 
anterior?”. A pessoa premida pela pergunta, sem 
perceber suas dificuldades de memória, passa a 
relatar fatos falsos relacionados às perguntas; 
plausíveis, mas falsos. 
Tradicionalmente, a psicopatologia 
considerou por muitas décadas que as 
confabulações eram formadas por elementos da 
imaginação do sujeito que completariam 
artificialmente lacunas de memória. Essas lacunas 
ou falhas seriam produzidas por déficit da 
memória de fixação, sobretudo da memória 
episódica. Além do déficit de fixação, a pessoa não 
seria capaz de reconhecer como falsas as imagens 
produzidas pela fantasia. As confabulações seriam, 
portanto, invenções involuntárias, produtos da 
imaginação do paciente, que preencheriam um 
vazio da memória. 
Atualmente, outras teorias têm sido propostas. 
Não cabe aqui apresentá-las detalhadamente. 
Algumas enfatizam a deslocação temporal das 
memórias, outras chamam atenção a déficits na 
monitoração das fontes de memórias (Dalla Barba, 
1993). Outras, ainda, afirmam que as 
confabulações, sendo memórias falsas, mas 
plausíveis, se baseiam em lembranças de eventos 
pessoais que se repetiram, mas que são 
erroneamente associadas a eventos específicos e 
únicos falsos (Shakeel; Docherty, 2015). 
As confabulações ocorrem principalmente na 
síndrome de Wernicke-Korsakoff, frequentemente 
secundária ao alcoolismo crônico associado a 
déficit de tiamina (vitamina B1). Elas também 
podem ocorrer em traumatismo craniencefálico, 
encefalites que implicam os lobos temporais (como 
a encefalite herpética), intoxicaçãopor monóxido 
de carbono, aneurisma da artéria comunicante 
TUTORIA 14 
MEMÓRIA 
FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 
anterior e doença de Alzheimer. No passado, 
pensava-se que ela praticamente só ocorria em 
transtornos psico-orgânicos; entretanto, constatou-
se que também pode ocorrer, não muito raramente, 
na esquizofrenia (ver revisão em Shakeel; 
Docherty, 2015). 
As alterações anatômicas relacionadas às 
confabulações compreendem lesões nos corpos 
mamilares, no núcleo dorsomedial do tálamo, 
assim como no córtex orbitofrontal. Entretanto, 
cerca de outras 20 áreas lesadas já foram associadas 
às confabulações, indicando a complexidade de sua 
fisiopatologia (Dalla Barba; La Corte, 2015). 
Outras alterações qualitativas da memória 
Alguns autores (Alonso-Fernández, 1976; 
Sims, 2001) classificam como alteração qualitativa 
da memória (talvez por sua semelhança com as 
confabulações) a pseudologia fantástica, 
ou mentira patológica (histórias e construções 
fantasiosas, extensas e geralmente mescladas com 
a realidade, experimentadas com tanta intensidade 
que o sujeito quase crê nelas). Embora tal 
fenômeno possa utilizar elementos do passado, este 
não é o capítulo mais adequado para situá-lo. Ele 
será abordado no Capítulo 21, que trata do juízo de 
realidade. 
Criptomnésias 
Trata-se de um falseamento da memória, em que as 
lembranças aparecem como fatos novos ao 
paciente, que não as reconhece como lembranças, 
vivendo-as como uma descoberta. Por exemplo, 
um indivíduo com demência (como do tipo 
Alzheimer) conta aos amigos uma história muito 
conhecida como se fosse inteiramente nova, mas 
que, há poucos minutos, foi relatada por outra 
pessoa do grupo. 
Ecmnésia 
Trata-se da recapitulação e da revivescência 
intensa, abreviada e panorâmica da existência, uma 
recordação condensada de muitos eventos 
passados, que ocorre em breve período. 
Na ecmnésia, o indivíduo tem a vivência 
perceptiva de visão de cenas passadas, como forma 
depresentificação do passado. Esse tipo de 
ecmnésia pode ocorrer em alguns pacientes com 
crises epilépticas. 
O fenômeno denominado visão panorâmica 
da vida, associado às chamadas experiências de 
quase-morte, é, de certa forma, um tipo de 
ecmnésia, que ocorre geralmente associado à 
iminência da morte por acidente (sobretudo 
afogamento, sufocamento ou intoxicação). Quando 
a ecmnésia ocorre associada à proximidade da 
morte, alguns indivíduos que sobreviveram relatam 
ter visto um túnel, uma luz forte e uma névoa 
luminosa, associados a essa visão de “filme 
condensado da própria vida”. 
Lembrança obsessiva 
A lembrança obsessiva, também 
denominada ideia fixa ou representação prevalente, 
manifesta-se como o surgimento espontâneo de 
imagens da memória ou conteúdos ideativos do 
passado que, uma vez instalados na consciência, 
não podem ser repelidos voluntariamente pelo 
indivíduo. A imagem da memória, embora 
reconhecida como indesejável, reaparece de forma 
constante e permanece, como um incômodo, na 
consciência do paciente. Manifesta-se em 
indivíduos com transtornos do espectro obsessivo-
compulsivo.