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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 3 1 INTRODUÇÃO A TUTELA, CURATELA E TOMADA DE DECISÃO APOIADA.. ..................................................................................................... 4 2 CONCEPÇÃO HISTÓRICA E ATUAL DE TUTELA E FIGURAS AFINS ...... 7 3 TUTELA ....................................................................................................... 10 3.1 A tutela no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA ............................ 13 3.2 Espécies de tutela ........................................................................................ 14 3.2.1 Tutela testamentária ..................................................................................... 14 3.2.2 Tutela legítima .............................................................................................. 15 3.2.3 Tutela dativa ................................................................................................. 17 3.3 Capacidade para exercer a tutela ................................................................. 18 3.4 Incapacidade para o exercício da tutela ....................................................... 19 3.5 Direito de recusa ........................................................................................... 21 3.6 Ação de nomeação do tutor .......................................................................... 23 3.7 Do exercício da tutela; direitos e obrigações do tutor ................................... 24 3.8 Cessação da tutela e prestação de contas ................................................... 25 3.9 Destituição .................................................................................................... 26 4 CURATELA .................................................................................................. 27 4.1 Quem pode ser curatelado e quem pode requerer a curatela? .................... 29 4.2 Espécies de curatela .................................................................................... 33 4.2.1 Autocuratela ................................................................................................. 33 4.2.2 Curatela provisória ........................................................................................ 34 4.2.3 Curatela compartilhada ................................................................................. 35 4.3 Nascituro ...................................................................................................... 36 4.4 Extinção da curatela e prestação de contas ................................................. 36 5 TOMADA DE DECISÃO APOIADA ............................................................. 37 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................ 40 INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 1 INTRODUÇÃO A TUTELA, CURATELA E TOMADA DE DECISÃO APOIADA A tutela e a curatela se tratam de institutos de direito assistencial voltados a defesa dos interesses dos incapazes, visando à realização de atos civis em seu nome. A principal diferença entre as duas figuras é que a tutela resguarda os interesses de menores não emancipados, não sujeitos ao poder familiar, com o intuito de protegê- los. Já a curatela, trata-se de categoria assistencial para a defesa dos interesses de maiores incapazes, devidamente interditados. É importante ressaltar que a norma 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência), provocou alterações nos artigos do Código Civil sobre a matéria. O referido Estatuto da Pessoa com Deficiência alterou de forma substancial o tratamento relativo aos absoluta e relativamente incapazes, previstos nos arts. 3º e 4º do Código Civil, com vistas a plena inclusão social das pessoas que apresentem algum tipo de deficiência. Insta salientar, que apenas os menores de 16 anos são absolutamente incapazes, não há mais qualquer menção aos enfermos e deficientes mentais sem discernimento para a prática dos atos da vida civil (antigo inciso II do art. 3.º do Código Civil). Além disso, as pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem exprimir vontade deixaram de compor o inciso III do art. 3.º, e agora constam do art. 4.º, inc. III, como relativamente incapazes. De forma sintetizada, a partir da vigência do Estatuto da Pessoa com Deficiência, não existem mais pessoas maiores que são incapazes, e essa afirmação tem sido seguida por diversos julgados prolatados a partir da entrada em vigor da Lei nº 13.146/15 (EPD). Em relação à pessoa com deficiência, reafirme-se que são plenamente capazes, especialmente para atos existenciais de natureza familiar. Conforme o art. 6.º da Lei 13.146/2015, a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para: casar-se e constituir união estável; exercer direitos sexuais e reprodutivos; exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar; conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; e exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e 5 à adoção, como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. (TARTUCE, 2021). Esse novo tratamento legislativo a respeito dos atos familiares, possui grande impacto. Entretanto, não cabe a pessoa com deficiência se adaptar à sociedade, mas cabe a sociedade se adaptar a pessoa com deficiência. De forma eventual, quando se tratar de negócios jurídicos mais complexos, de cunho patrimonial, a pessoa com deficiência poderá fazer uso da tomada de decisão apoiada, instituto incluído pela Lei 13.146/2015. A nomeação de curador ou interdição somente será possível em casos excepcionais. No que se refere aos relativamente incapazes é importante lembrar que não houve alteração nos incisos I (menores entre 16 e 18 anos) e IV (pródigos) do art. 4.º do CC/2002, porém, não consta mais menção às pessoas com discernimento mental reduzido do seu inciso II. Atualmente estão expressos na lei os ébrios habituais (alcoólatras) e os viciados em tóxicos, também não há previsão no que se refere aos excepcionais sem desenvolvimento completo (inciso III do art. 4.º, que possuía aplicação à pessoa com Síndrome de Down). O preceito passou a mencionar as pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem exprimir sua vontade, conforme antes estava no art. 3.º, inc. III, da codificação material. Eventualmente, como qualquer outra pessoa, o deficiente poderá até se enquadrar em qualquer um desses incisos do art. 4.º da codificação material. Porém, em regra, é considerado como plenamente capaz para os atos civis. Em síntese, houve grande mudança na teoria das incapacidades, repercutindo de forma direta para os institutos de direito assistencial, em especial para a curatela. (TARTUCE, 2021). Com o advento da nova norma no ano de 2015 formaram-se duas correntes: A primeira – à qual estão filiados José Fernando Simão e Vitor Kümpel – condena as modificações, pois a dignidade de tais pessoas deveria ser resguardada por meio de sua proteção como vulneráveis (dignidade- vulnerabilidade). A segunda vertente – liderada por Joyceane Bezerra, Paulo Lôbo, Nelson Rosenvald, Jones Figueirêdo Alves, Rodrigo da Cunha Pereira e Pablo Stolze – aplaude a inovação, pela tutela da dignidade-liberdade das pessoas com deficiência, evidenciada pelos objetivos de sua inclusão. (TARTUCE, 2021, p. 2430). 6 Tartuce (2021) em sua obra se manifesta expressamente alinhado aos segundos juristas citados. Porém explica o autor que há sérios problemas no Estatuto, que devem ser resolvidos. O doutrinador ainda lembra que o Estatuto da Pessoa com Deficiência regulamenta a Convenção de Nova York, tratado de direitos humanos do qual o Brasil é signatário, e que gera efeitos como emenda constitucional (art. 5.º, § 3.º, da CF/1988 e Decreto 6.949/2009). Por esse motivo, não cabe sustentar que o EPD é inconstitucional, muito pelo contrário. Nos termos do seu art. 1.º, o propósito da Convenção “é promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente”. Porém, é necessário dar ênfase que somente o tempo e a prática poderão demonstrar se o melhor caminho é mesmo a dignidade-liberdade, em vez da anterior dignidade-vulnerabilidade. (TARTUCE, 2021). O último Título (Título IV) do Livro IV, reservado ao Direito de Família, do vigente Código Civil brasileiro é destinado à disciplina jurídica da Tutela e da Curatela, essa parte é convencionalmente denominada “Direito Assistencial” no estudo das relações familiares. Tem como base principal a solidariedade social, a doutrina explica: E é com base na própria solidariedade social — que é tão cara ao Direito de Família a ponto de constituir um princípio próprio (o “princípio da solidariedade familiar”) — que se constrói e se respalda a normatização, na espécie. Como observa PAULO LÔBO: “O fundamento comum da tutela e da curatela é o dever de solidariedade que se atribui ao Estado, à sociedade e aos parentes. Ao Estado, para que regule as respectivas garantias e assegure a prestação jurisdicional. À sociedade, pois qualquer pessoa que preencha os requisitos legais poderá ser investida pelo Judiciário desse múnus. Aos parentes, porque são os primeiros a serem convocados, salvo se legalmente dispensados”. (LÔBO, apud STOLZE, 2020, p. 2114). A tutela e a curatela são institutos autônomos, porém, há um objetivo comum de propiciar a representação legal e a administração de sujeitos incapazes de praticar atos jurídicos. É evidente que esses institutos se referem a uma proteção jurídica dos interesses das pessoas que estão em situação de incapacidade na gestão de sua vida. 7 A principal diferença, no campo conceitual, entre as duas formas de suprimento de capacidade para a prática de atos de gestão, diz respeito a seus pressupostos: enquanto a tutela se refere à menoridade legal, a curatela se relaciona com situações de deficiência total ou parcial, ou, em hipótese mais peculiar, visa a preservar interesses do nascituro. Note-se, porém, que, em ambas as hipóteses, haverá a responsabilidade do representante legal — tutor ou curador — pelos atos de seus pupilos ou curatelados, que estiverem sob sua autoridade, em sua companhia, conforme o artigo 932, II, do CC/2002. (STOLZE, 2020). 2 CONCEPÇÃO HISTÓRICA E ATUAL DE TUTELA E FIGURAS AFINS No direito romano, a tutela tinha um caráter protetivo e de defesa, esse caráter é indispensável à noção de tutela, à sua importância e às responsabilidades que dela emanam. No antigo direito português, se usavam as expressões ‘guarda’ e ‘guardadores’ para se designarem a tutela, ou a curatela de menores, e os tutores. Porém, o caráter de proteção e defesa era mais relacionado aos bens, sendo o tutor nomeado para proteger os bens dos menores. No direito romano, se dava tutor aos órfãos impúberes, já o curador era nomeado aos púberes. Essa foi a orientação das Ordenações Filipinas. Por ela, impúberes eram os menores de 14 anos, e púberes possuíam de 14 acima. Tais Ordenações, no Livro IV, Tít. 102, 104, § 6º, consagram a distinção romana, mas os códigos modernos a abandonaram, indicando a tutela para a vigilância do menor. Lobão também já a fizera, sem acolher a dicotomia tradicional. Conhecia-se, no direito romano, também a tutela das mulheres, que era perpétua, e tinha como fundamento a insegurança que ela inspirava nos negócios, bem como a inexperiência na administração. Assim, desde seu nascimento vivia sob tutela, até a morte, enquanto aos homens se estendia até os quatorze anos, quando atingiam a puberdade. Daí em diante recebiam curadores, mantendo-se a nomeação enquanto tivessem menos de vinte e oito anos. (RIZZARDO, 2019). No direito brasileiro, é evidente o caráter protetivo e dimensionado aos bens, visto que nessa parte é uma cópia de Portugal. O legislador de 1916, ao abordar sobre a tutela, teve como principal preocupação o órfão rico, porque sobre o tema, o principal 8 objeto é a preservação dos seus bens; ademais, dos quarenta artigos consagrados ao assunto, apenas um se refere aos menores abandonados. Na perspectiva atual, em primeiro lugar, tem-se em conta o interesse da pessoa dos filhos. Domina o caráter assistencial e de acompanhamento dos filhos menores, sem pais vivos, ou com pais suspensos ou destituídos do poder familiar, ou declarados ausentes por sentença judicial. A função de amparo, representação e assistência adquiriu importância diante do desenvolvimento da previdência social, que garante aos menores órfãos o recebimento de pensão por morte dos pais, havendo necessidade de quem os represente judicial e administrativamente perante os órgãos pagadores e os compromissos que assumem nos estabelecimentos comerciais de ensino. Na ausência de quem, por direito natural, exerce o poder familiar, o Estado transfere o encargo a terceira pessoa, em geral ligada por laços de parentesco ao menor, e que revele condições de probidade e mesmo afetividade, a qual deverá zelar pela criação, educação e interesses patrimoniais. Trata-se, pois, a tutela de um munus imposto pelo Estado, de substituição das atribuições inerentes ao poder familiar, com a mesma relevância que era exercido pelos pais, devendo a pessoa revestida da função ter o menor praticamente como filho, dedicando-lhe atenção, carinho, conforto, interesse educacional e profissional, encaminhando-o para a vida, além da preservação do patrimônio e da representação na vida civil. (RIZZARDO, 2019). Outro ponto que possui enorme relevância é a colocação do menor em família substituta, função esta que transparece na política imprimida no Estatuto da Criança e do Adolescente: trata-se de outorgar um lar a quem necessita, em razão de sua tenra idade, ou da adolescência, nas hipóteses de carência, de orfandade, de perda ou de destituição do poder paternal de seus responsáveis, ou ainda da declaração de ausência. Institui-se então vínculo jurídico adequado com outras pessoas, à inexistência de submissão do menor ao poder paternal, aptas a proporcionar-lhe a criação, a assistência e a educação de que necessita, através dos institutos da guarda e da tutela que completam, com a adoção, o esquema de defesa de interesses de menores em nosso sistema. Pode-se dizer que está situada a tutela numa posição intermediária entre a simples guarda e a adoção, aproximando-se mais a este último instituto, por ser uma forma ou um mecanismo de atribuição de família substituta à criança ou adolescente, enquanto, na guarda, os deveres e a representação têm alcances mais reduzidos. Por 9 se inserir mais no direito assistencial, não se equipara totalmente à adoção, que se enquadra no direito parental, onde se institui o vínculo de parentesco civil, o que não acontece na tutela. Diferencia-se da curatela, porquanto, nesta figura, põem-se ao amparo outros incapazes, os afetados na mente e os pródigos, que também são desprotegidos na sua pessoa e no patrimônio. Há um encargo público, de cunho assistencial, dirigido a proteger as pessoas maiores incapazes de velar ou cuidar de seus interesses, de sua pessoa e do patrimônio, em vista de enfermidade grave ou deficiências mentais. Já quanto à ausência, não se fala em incapacidade, mas é nomeado curador por razão do desaparecimento prolongado de uma pessoa de seu domicílio. Desponta, aqui, a finalidade primordial da proteção, que é ao patrimônio, o qual não pode ficar à revelia de medidas assecuratórias no tocante à administração e integridade. Depois de certo prazo, o curador terá que abrir a sucessão, entregando os bens aos herdeiros, até que o desaparecido retorne, quando retomará a titularidade dos negócios e do patrimônio. Nota-se, pois, nesta figura, a finalidade assistencial. Por fim, a dimensão dada à tutela pela vigente ordem constitucional, que se propagou na legislação que sucedeu, onde domina a total igualdade dos pais na indicação do tutor. O direito de nomear tutor competia, segundo o art. 407 do Código, ao pai e à mãe, esta na falta ou incapacidade daquele. Este direito é hoje de ambos, sem qualquer precedência. A mesma derrogação do art. 409, que assegurava igual preferência, na falta de tutor nomeado pelos pais aos avós paternos diante do materno, aos irmãos do sexo masculino ao feminino, e aos tios do sexo masculino. A esta conclusão chegamos com fundamento no art. 5º, da CF, inc. I, que igualou homens e mulheres em direitos e obrigações. Pela mesma razão, julgamos revogado o inc. I do art. 414, que permitia às mulheres escusarem-se da tutela pelo só fato de o serem. Os arts. 407, 409 e 414, inc. I, mencionados equivalem aos arts. 1.729, 1.731 e 1.736, inc. I, do atual Código, com redação substancialmente diferente. (RIZZARDO, 2019). 10 3 TUTELA Durante a menoridade, a pessoa humana necessita de alguém que cuide, defenda e administre seus bens. Naturalmente, essas pessoas que tomarão conta do menor serão pai e mãe. As Crianças e adolescentes não possuem a plena capacidade civil. Até os 16 anos são absolutamente incapazes para exercer pessoalmente os atos da vida civil (artigo 3º do Código Civil). Dos 16 aos 18 anos incompletos, a limitação da capacidade é relativa à prática de determinados atos (artigo 4º, I do Código Civil). Em situações que haja a ausência de plena capacidade, é necessário que alguém supra tal carência. Conforme o artigo 71 do CPC, os absolutamente incapazes necessitam ser representados e os relativamente incapazes precisam ser assistidos. O artigo 1.630 do Código Civil atribui aos pais o encargo denominado poder familiar sobre os filhos enquanto menores. Trata-se de ônus que compete a ambos, ainda que eles não mantenham vida em comum. Na ausência de um, o poder familiar é exercido pelo outro, com exclusividade, de acordo com a previsão do artigo 1.631 do Código Civil. Deixando a criança ou o adolescente de estar sob o poder familiar dos genitores, é preciso que outrem se responsabilize por ele. Na ausência dos dois pais, a representação é atribuída a um tutor, que ocupa o lugar jurídico deixado pelo vazio da autoridade parental. Tal ocorre no caso de morte dos pais, terem eles sido declarados ausentes, ou, ainda, quando tenham “decaído”, por perda ou suspensão do poder familiar. ” Assim, o tutor é investido dos poderes necessários para a proteção que os genitores não podem dispensar aos filhos. (DIAS, 2021). Pereira (2021, p. 768) explica que “a Tutela é o encargo conferido a alguém para dar assistência, representar e administrar os bens de menores de idade que não estejam sob o poder familiar (autoridade parental). Ao menor que está sob tutela dá- se o nome de tutelado ou pupilo, e a quem é atribuído esse encargo, tutor. ” O objetivo da tutela é fazer cumprir as funções daqueles que estariam exercendo o poder familiar, ou seja, alguém que presumivelmente estaria exercendo as funções do pai e/ou mãe. Por isso é que todo o sistema da tutela, sua estrutura, 11 seus mecanismos e efeitos, em todos os ordenamentos jurídicos são desenvolvidos à imagem e semelhança do poder familiar, mas não são idênticos. (PEREIRA, 2021). Conforme Dias (2021) explica, a tutela é um múnus público que tem estrutura de caráter jurídico-familiar, por isso a preferência na nomeação de parentes para zelar pelo menor de idade e administrar seus bens. Até se poderia dizer que a tutela é um sucedâneo do poder familiar. ” O tutor não tem seus cuidados voltados apenas à preservação de ordem patrimonial, pois também possui responsabilidade pela educação e aperfeiçoamento do tutelado. Por isso é encargo só pode ser exercido por pessoa física. Mas o protutor pode ser pessoa jurídica de acordo com o artigo 1.743 do Código Civil. Vejamos uma explicação doutrinária sobre mudanças introduzidas pelo Código Civil de 2002 a qual aborda a figura do protutor e diferencia a tutela e o poder de família: Não houve mudanças substanciais no CCB/2002 em relação ao Código Civil de 1916. Podemos apontar, entretanto, a introdução da figura do protutor (art. 1.742), que deve funcionar como uma espécie de “vice-tutor” ou “tutor adjunto”, para fiscalizar o exercício da tutela. Além disto, e mais significativo, foi a alteração na ordem da vocação da tutela. No código anterior havia uma preferência pela linhagem masculina, como se as mulheres, ou a linhagem materna, fossem menos capacitadas para exercer os encargos da tutela. Na verdade, isto apenas demonstra o caráter patrimonialista e hierarquizado da família patriarcal, que vem perdendo cada vez mais lugar para a família fincada no princípio da afetividade. Além de preconceituosa essa preferência e distinção (art. 409 – CCB/1916), era também equivocada. Historicamente foram as mulheres quem criaram e educaram os filhos, ou seja, sempre foram as mulheres que estiveram mais próximas dos filhos. Prova disto é que até se criou um mito do amor materno e que hoje tem feito com que homens estejam lutando bravamente no Judiciário em disputa de guarda de filhos ou pela guarda compartilhada, para demonstrarem que o pai é capaz de cuidar de filhos tanto quanto a mãe. A tutela é incompatível com o poder família (autoridade parental), já que se existir poder familiar não pode existir tutela, e uma vem em substituição a outra. A exceção à regra é somente quando o testador instituir a um menor de idade, herdeiro ou legatário, e também um curador especial para cuidar dos bens a ele destinados (art. 1.733, § 2º do CCB/2002). (PEREIRA, 2021, p. 770). O tutor é titular de um poder-dever sobre a pessoa e os bens do pupilo. Trata- se de um poder mais limitado do que o poder familiar. O legislador parte da premissa de que pais têm um compromisso maior para com os filhos em decorrência do próprio vínculo de filiação. Tanto é assim que os pais são usufrutuários dos bens dos filhos (CC 1.689, I), condição de que o tutor não desfruta. Daí a constante fiscalização das atividades do tutor. Regula a lei, de forma minuciosa, seus encargos, deveres e 12 obrigações, gerando responsabilidade civil e penal a quem não cumpre com exatidão o encargo que lhe é deferido. É constituído de enorme fragilidade o vínculo entre tutor e tutelado, sendo deferida a guarda de uma criança ou adolescente a pessoa que, se não foi escolhida pelos genitores, é algum parente dentro da ordem de preferência indicada pela lei (CC 1.775). O legislador não se atentou a necessidade de identificar quem tem melhores condições para exercer tal ônus, encargo que fica a critério do julgador. Mediante isso, na nomeação do tutor, é necessário atender ao melhor interesse do tutelado, devendo a tutoria ser atribuída, preferencialmente, quando já houver a existência de um vínculo de convivência e afetividade entre ambos. O Código Civil se limitou a praticamente copiar a legislação anterior, nem sequer adequou à nova terminologia. Persiste ainda as expressões menor absoluta ou relativamente incapaz, enquanto o ECA em seu artigo 2º utiliza o termo criança, quando se refere à pessoa de até 12 anos incompletos, e adolescente, até que complete 18 anos. (DIAS, 2021). Dias (2021) aduz de forma crítica, que os encargos do tutor são basicamente limitados a ordem patrimonial, não possuindo um comprometimento maior com o caráter protetivo ditado pela Constituição e pelo ECA. Parece que a única preocupação com os aspectos psicológicos é a determinação de dar aos irmãos órfãos um só tutor (CC 1.733). Pois já que não possuem pai nem mãe, que pelo menos permaneçam juntos! Busca o dispositivo manter a união familiar. Porém, a unicidade da tutela não pode ser absoluta, podendo o juiz nomear tutores diferentes para os irmãos, tendo em vista o melhor interesse deles. O doutrinador ainda ressalta que o tutor não deve ser mero administrador de bens. São mínimos os ônus atribuídos ao tutor de caráter assistencial ou protetivo. Comprovada a dependência econômica, o tutelado possui direito a pensão previdenciária do tutor se dele era dependente. (DIAS, 2021). Ainda em breve texto é abordado sobre a doutrina da proteção integral: O instituto da tutela, de forma injustificada, olvidou-se da doutrina da proteção integral (CR 227). A atenção constitucional às pessoas até os 18 anos de idade ensejou sensível mudança de paradigma, tornando-se o grande marco para o reconhecimento dos direitos humanos de crianças, adolescentes e jovens. O ECA é todo voltado ao melhor interesse de quem passou a ser reconhecido como sujeito de direito. Atenta mais às suas necessidades pessoais, sociais e familiares, de forma a assegurar seu pleno desenvolvimento. Guarda, tutela e adoção são as formas de colocação de 13 crianças e adolescentes em família substituta, sempre com o intuito de proteger integralmente, de garantir a criação, de assegurar boa educação, desenvolvimento e assistência material e moral àquelas pessoas. Quando o pupilo atinge a maioridade, cessa a tutela. Apresentada a prestação de contas de sua gestão, nenhum liame subsiste entre ambos. Parece que ninguém atenta que a convivência entre ambos, tende a gerar um vínculo de tal intensidade que, muitas vezes, pode o tutelado ter o tutor como seu pai, isto é, adquire a posse do estado de filho. Não há qualquer preocupação com o significado da filiação socioafetiva, havendo somente a possibilidade de o tutor adotar o pupilo (ECA 44). (DIAS, 2021. p. 916) 3.1 A tutela no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA O Estatuto da Criança e Adolescente (Lei nº 8.069/90) também conhecido como ECA, revogou o Código de Menores (Lei nº 6.697/79), e também trata da tutela. Para o ECA, a tutela é uma forma de colocação da criança e do adolescente em família substituta. Além de regras, o ECA estabelece princípios norteadores fundamentais para a infância e juventude. Esta lei instalou novos paradigmas e concepções para o Direito de Família, introduziu uma nova terminologia jurídica, substituindo, por exemplo, a expressão “visitas” por “convivência familiar”, reconheceu que a família é muito mais da ordem da cultura do que da natureza, ao introduzir a expressão “família substituta”. Em um corpo de normas e princípios, o ECA instalou e mudou a concepção filosófica sobre os direitos da infância e juventude, colocando-os como sujeitos de direitos e instituindo de forma definitiva o princípio do melhor interesse e da proteção integral. (PEREIRA, 2021). O Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleceu normas protetivas segundo as diretrizes e princípios constitucionais: Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. (BRASIL, 1990). No mesmo sentido e ampliando a abrangência dos direitos, estabeleceu responsabilidade desta proteção integral além da família. Tais dispositivos traduzem e reafirmam a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de 1989. Esta Convenção 14 foi ratificada no Brasil em 26 de janeiro de 1990, pelo Decreto Legislativo nº 28, de 14/09/1990, promulgada pelo Decreto Presidencial nº 99.710, de 21/11/1990: Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança. (PEREIRA, 2021). 3.2 Espécies de tutela As espécies de tutela são três: a testamentária, a legítima e a dativa, vejamos: 3.2.1 Tutela testamentária Como o próprio nome sugere, a tutela testamentária é aquela que é deferida por meio de testamento ou ato de última vontade, porém é muito pouco empregada. Assegura-se aos pais nomeação de tutor mediante testamento conforme segue a redação do artigo 1.729 do Código Civil: “Art. 1.729. O direito de nomear tutor compete aos pais, em conjunto. ” É notório que na atual redação normativa, a nomeação se dá em ato conjunto, bem diferente de como ocorria no antigo sistema, quando havia uma ordem a ser obedecida. Pelo anterior Código, unicamente se o pai deixasse de nomear caberia à mãe fazê-lo, essa regra discriminava a sua posição no conjunto familiar. Para a nomeação, atualmente restrita aos pais, somente pode ser feita por aqueles que se encontrem revestidos do poder familiar. A ordem vem expressa no art. 1.730 do Código Civil: “É nula a nomeação de tutor pelo pai ou pela mãe que, ao tempo de sua morte, não tinha o poder familiar. ” Da mesma forma, não valerá a nomeação se o outro progenitor sobreviver. Com a morte de um dos pais, o poder familiar concentra-se inteiramente na pessoa do progenitor que ficar. É o que aparece no art. 1.634, inc. VI, em texto da Lei nº 13.058/2014. A nomeação se opera por testamento ou outro documento autêntico, em face do parágrafo único do art. 1.729 do Código Civil: “A nomeação deve constar de testamento ou de qualquer outro documento autêntico”. (PEREIRA, 2021). 15 O testamento pode ser formalizado por meio de escritura pública ou escrito feito pelo testador, definindo-se como o ato pelo qual alguém dispõe, no todo ou em parte, de seu patrimônio, ou emite uma disposição para valer ou ser cumprida depois de sua morte. Pode também ser admitido outro documento autêntico, mesmo que não público, segundo depreende-se da lei. Ou seja, por escritura pública, ou escrito particular, especialmente se reconhecidas pelo tabelião as assinaturas dos pais, o que lhe imprime maior autenticidade. Não se pense, porém, que unicamente a formalidade do reconhecimento das assinaturas confere autenticidade, a qual depreende-se de outros elementos, como da igualdade do padrão da assinatura com o constante em documento oficial. Desde que se faça a prova da procedência daquele que emite o documento, tem-se a autenticidade. Inclusive na forma instrumental não deixa de ser testamentária a nomeação, posto que somente produzirá efeitos depois da morte do nomeante. (RIZZARDO, 2019). 1344 Na hipótese de ser nomeado mais de um tutor, sem a indicação de preferência, deve-se entender que a tutela será deferida ao primeiro, e os outros virão na falta do primeiro nomeado. (PEREIRA, 2021) 777 3.2.2 Tutela legítima Essa tutela é deferida aos parentes consanguíneos, de acordo com a ordem de proximidade. Provém da lei e não da vontade das partes. Daí o termo ‘legítima’. É a mais utilizada na prática forense. Falecendo os pais e na ausência de nomeação testamentária ou qualquer outro documento autêntico, incidirá o encargo na pessoa do parente mais próximo de acordo com a ordem presente no art. 1.731 do CC. (RIZZARDO, 2019). Vejamos: Art. 1.731. Em falta de tutor nomeado pelos pais incumbe a tutela aos parentes consangüíneos do menor, por esta ordem: I - aos ascendentes, preferindo o de grau mais próximo ao mais remoto; II - aos colaterais até o terceiro grau, preferindo os mais próximos aos mais remotos, e, no mesmo grau, os mais velhos aos mais moços; em qualquer 16 dos casos, o juiz escolherá entre eles o mais apto a exercer a tutela em benefício do menor. (BRASIL, 2002). No sistema do Código de 1916, grande parte das preferências importavam em ofensa ao princípio da absoluta igualdade entre o homem e a mulher, por força do art. 5º, inc. I, da Carta Constitucional. Sob a norma anterior, a primazia era sob a nomeação da pessoa do avô paterno em relação ao materno, ou da avó paterna quanto à materna, a preferência dos irmãos ante as irmãs, e dos tios em relação às tias Contudo, entende-se correta a ordem que distingue os parentes mais próximos relativamente aos mais remotos, e, quando do mesmo grau, os colaterais mais velhos frente aos mais novos, porque se presume terem aqueles ascendentes maior afetividade, enquanto os colaterais mais velhos revelarão amadurecimento e experiência superiores que os mais novos. De acordo com o inciso I da norma vigente, escolhem-se primeiro os avós, passando, em segundo lugar, para os bisavós. Já no inciso II, está indicada a escala até o terceiro grau de colaterais, isto é, envolvendo os irmãos e os tios. Não é, entretanto, de rigor a obediência à ordem acima preconizada. Tem preponderância, antes de tudo, os interesses do menor. Nomeará o juiz aquela pessoa que melhores condições apresentar, que sobressai em interesse, ou que se oferece espontaneamente para o munus. Seria até constrangedor impor a obrigação a um parente pela só razão de se encontrar em grau mais próximo, e que aceita a nomeação unicamente por não encontrar qualquer motivo para a escusa. Na escolha da pessoa apta, examinará o juiz as condições econômicas, familiares, de idoneidade de cada parente, optando pelo que apresentar capacidade, abnegação, afeição, desprendimento e afinidade para o cargo. (RIZZARDO, 2019). Pereira (2021) sintetiza que tutela legítima é a que se defere aos parentes na ordem estabelecida em lei, na falta da tutela testamentária válida. Em falta de tutor nomeado pelos pais incumbe a tutela aos parentes do menor, na ordem estabelecida pelo art. 1.731 do Código Civil. 17 3.2.3 Tutela dativa Tutela dativa é a tutela em que o juiz, na falta de tutela legítima ou testamentária, nomeia alguém de sua confiança e estranho à ordem da vocação estabelecida pela tutela legítima. (PEREIRA, 2021) A tutela dativa vem a ser conferida pelo juiz, que escolhe pessoa estranha, ou não parente, para o encargo. Isto justamente ou por inexistirem parentes, ou por considerar coerentes e justas as escusas, ou porque não revelam eles condições para o exercício do cargo. (RIZZARDO, 2019). A redação do artigo 1.732 do Código Civil trata da nomeação: Art. 1.732. O juiz nomeará tutor idôneo e residente no domicílio do menor: I - na falta de tutor testamentário ou legítimo; II - quando estes forem excluídos ou escusados da tutela; III - quando removidos por não idôneos o tutor legítimo e o testamentário. (BRASIL, 2002). Trata-se de uma tutela supletiva, porque ela ocorre somente a partir da falta de tutor testamentário ou legítimo, ou quando qualquer deles não oferecer condições para a nomeação. O tutor deverá residir no mesmo domicílio do menor, e, apresentar condições de idoneidade, ser pessoa conhecida, inteirando-se das razões que o levaram a aceitar a incumbência. (RIZZARDO, 2019). Rizzardo ainda traz instruções bem delineadas de outro autor: O juiz competente para deferir compromisso de tutor será o do lugar em que o menor vivia anteriormente com os pais. Se eles deixarem bens, que estão sendo inventariados, a competência para a nomeação é do juiz do inventário. De um modo geral, a regra é esta: o foro competente para a nomeação e para todos os atos relativos à tutela, ou dela decorrentes, é o do lugar do domicílio do menor no momento em que cessou o pátrio poder, por morte, suspensão ou inibição. (MONTEIRO, apud RIZZARDO, 2019, p. 1347-1348) Porém, é necessário tratar que conforme Rizzardo (2019) há situações especiais em que as regras se alteram. Se o tutor residir em local diferente de onde se processou o inventário, e com ele o menor já se encontra, por conveniência não apenas processual, mas, sobretudo, 18 prática e econômica, não há justificativa para que se impeça o ajuizamento no foro do atual domicílio. Existe ainda, a tutela ad hoc, ou para determinado ato, mais propriamente denominada curatela ad hoc, mesmo que não haja sua expressa previsão em lei. Nomeia-se um curador, que na verdade é tutor, para assistir ou defender o menor em atos processuais específicos. Isso ocorre por exemplo, no inventário, em que o filho participa com a mãe na herança deixada pelo pai; ou numa ação de indenização, proposta pela mãe, contra o espólio de seu companheiro, figurando como herdeiro o filho. Pode-se, por último, apontar a tutela do menor em situação irregular, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, arts. 36 a 38. Encontrando-se o menor em estado de abandono, ou, ainda, vindo a ser apresentado ao Juizado da Criança e do Adolescente, é apropriado que a nomeação de tutor ocorra em tal Juízo, pois deverá ser colocado em família substituta. O art. 36 da Lei nº 8.069, na modificação da Lei nº 12.010, de 3.08.2009, reza: “A tutela será deferida, nos termos da lei civil, a pessoa de até 18 (dezoito) anos incompletos”. Conforme o parágrafo único, o deferimento da tutela pressupõe a prévia decretação da perda ou suspensão do poder familiar, e implica necessariamente o dever da guarda. Aspectos estes também exigidos na tutela disciplinada pelo Código Civil. (RIZZARDO, 2019). 3.3 Capacidade para exercer a tutela A regra é que existe uma preferência prevista no artigo 1.731 do código civil (já abordada em tópico anterior), de forma sucinta a preferência deve ocorrer na seguinte ordem: Primeiramente, os ascendentes partindo dos mais próximos, paternos ou maternos, indistintamente, sendo escolhido o que apresentar melhores condições para o cargo. Em segundo, os colaterais até o terceiro grau, buscando de forma primordial os mais próximos, isto é, os irmãos, independentemente do sexo, mas observada a ordem preferencial, dos bilaterais aos unilaterais, embora omisso o código nessa parte, e sempre os mais velhos, pelo amadurecimento e ascendência que podem 19 exercer sobre os demais; não havendo irmãos em condições, recai a nomeação nos tios, sem distinção de sexo, e dando-se preferência aos mais idosos. Isto se não constar a indicação em testamento ou em outro escrito autêntico A ordem acima não é rígida ou imodificável. Terá, na escolha da pessoa, o juiz em conta o interesse dos menores. De outro lado, elege-se o mesmo tutor para os filhos, não se mostrando prática e nem eficaz a nomeação de um tutor para cada filho. O art. 1.733 conduz a tal inteligência, dispondo o § 1º sobre a precedência e a sucessão no desempenho do encargo se nomeado mais de um tutor: “Aos irmãos órfãos dar-se-á um só tutor. ” O § 1º: “No caso de ser nomeado mais de um tutor por disposição testamentária sem indicação de precedência, entende-se que a tutela foi cometida ao primeiro, e que os outros lhe sucederão pela ordem de nomeação, se ocorrer morte, incapacidade, escusa ou qualquer outro impedimento. ” De sorte que o primeiro nomeado assumirá a tutela, a qual passará para os demais nomeados, sempre na ordem que constar no ato, se disposição diferente não acompanhar o testamento, nas eventualidades de morte, incapacidade, escusa ou qualquer outro impedimento do que figurar precedentemente. No § 2º do mesmo art. 1.733, encontra-se uma disposição especial permitindo à pessoa que institui, por testamento, um menor herdeiro ou legatário, a nomeação de curador especial, mesmo que o beneficiário se encontre sob o poder familiar ou a tutela: “Quem institui um menor herdeiro, ou legatário seu, poderá nomear-lhe curador especial para os bens deixados, ainda que o beneficiário se encontre sob o poder familiar, ou tutela. ” Como se percebe, a designação restringe-se unicamente para a proteção quanto aos bens objeto do testamento, contemplando o menor. (RIZZARDO, 2019). 3.4 Incapacidade para o exercício da tutela A função de tutor provoca não só a entrega de patrimônio, mas também a concessão da guarda de quem não possui uma pessoa que possa zelar por ele. Por isso existem pessoas incapazes ou não legitimadas para exercer esse encargo. O Código Civil em seu artigo 1.735 elenca quem não pode ser tutor e, caso esteja exercendo a tutela, deverá ser exonerado. Vejamos a redação: 20 Art. 1.735. Não podem ser tutores e serão exonerados da tutela, caso a exerçam: I - aqueles que não tiverem a livre administração de seus bens; II - aqueles que, no momento de lhes ser deferida a tutela, se acharem constituídos em obrigação para com o menor, ou tiverem que fazer valer direitos contra este, e aqueles cujos pais, filhos ou cônjuges tiverem demanda contra o menor; III - os inimigos do menor, ou de seus pais, ou que tiverem sido por estes expressamente excluídos da tutela; IV - os condenados por crime de furto, roubo, estelionato, falsidade, contra a família ou os costumes, tenham ou não cumprido pena; V - as pessoas de mau procedimento, ou falhas em probidade, e as culpadas de abuso em tutorias anteriores; VI - aqueles que exercerem função pública incompatível com a boa administração da tutela. (BRASIL, 2002). Por motivos óbvios a pessoa que se enquadra no inciso I do artigo 1.735 não possui condições de administrar os bens, nem de velar ou cuidar do menor. É o caso do falido e do insolvente civil. No inciso II a previsão é para que não ocorra colisão de interesses, por isso a lei impede que aqueles que se acham em obrigação para com o menor, ou que tiverem de fazer valer direitos contra ele, bem como aqueles cujos pais, filhos ou cônjuges tiverem demanda contra o menor, sejam nomeados tutores. Sobre a previsão do inciso III é normal que os desafetos ou inimigos do menor ou de seus pais, ou as pessoas por estes excluídas para o desempenho da tutela, não oferecem condições para o cargo. A tendência seria prever a viabilidade da prática de atos contra o menor, atentatórios ao patrimônio e à própria pessoa do interessado. Também nota-se que conforme o inciso IV é perfeitamente incabível a nomeação de pessoas que não merecem credibilidade no tocante ao patrimônio alheio, e que atentam contra a família ou os costumes, estando incursos em disposições que reprimem condutas como a pedofilia, abuso sexual, corrupção de menores, dentre outras espécies. A previsão do inciso V se justifica porque constituiria um perigo confiar a pessoa do menor e seus bens a um. Indivíduo de mau caráter ou desonesto. Sem dúvida, 21 seria péssima a influência que exerceria sobre a personalidade do menor, em formação. Por fim, o inciso VI que determinadas funções mostram incompatíveis com o exercício da tutela, pelo envolvimento que possa trazer, ou pela assoberbada quantidade de compromissos, que impede a execução normal das funções do encargo e da profissão ou da função pública. Na relação das funções incompatíveis, segundo alguns doutrinadores estão enquadradas as funções de: magistratura; atividades dos oficiais de justiça; escrivães; membros do Ministério Público; militares; chefes de executivos municipais; entre outros. Entretanto, não há propriamente incompatibilidade. Não se pode encontrar uma razão plausível que justifique a impossibilidade do exercício da tutela mesmo pelos magistrados e outras pessoas ligadas aos serviços judiciários, a menos que tenham atuado no procedimento específico que concedeu a tutela a uma delas. Quanto aos militares, a não ser que se trate de parentes, mostra-se mais ponderável a razão que justifica a inviabilidade, em face das constantes mudanças de domicílio a que estão sujeitos, e em virtude da própria atividade que exercem. Não apenas certas funções públicas se revelam impróprias ou incompatíveis para o munus em exame, como também atividades particulares ou privadas. Nesta classe, encontram-se o exercício de trabalho profissional em lugar distante daquele onde se encontra domiciliado o tutelado; ou as atividades de duvidosa legalidade, como a exploração de jogos de azar; ou aquelas que permitem contatos com delinquentes e companhias inconvenientes à formação moral do menor. (RIZZARDO, 2019). 3.5 Direito de recusa A tutela é um encargo imposto por lei, e não pode ser recusada, exceto nos casos previstos no artigo 1.736 do Código Civil. Art. 1.736. Podem escusar-se da tutela: I - mulheres casadas; 22 II - maiores de sessenta anos; III - aqueles que tiverem sob sua autoridade mais de três filhos; IV - os impossibilitados por enfermidade; V - aqueles que habitarem longe do lugar onde se haja de exercer a tutela; VI - aqueles que já exercerem tutela ou curatela; VII - militares em serviço. (BRASIL, 2002). Para declinar da indicação, é necessário haver um motivo a ser apresentado dentro de limitado prazo. Há divergência na lei. O Código Civil atribui o prazo de 10 dias para a recusa em seu artigo 1.738, já o Código Processual Civil estabelece o prazo de cinco dias para recusa em seu artigo 760. Devido ao CPC ser mais recente, é o prazo que prevalece. De qualquer modo, formulando o tutor o pedido de dispensa, dificilmente o juiz irá rejeitar seu afastamento por intempestividade. A tutela tem um componente de pessoalidade, e manter no encargo quem não o quer exercer só pode vir em prejuízo do tutelado. Conforme a redação do artigo 1.739 do CC, caso ocorra o indeferimento da escusa, o tutor exercerá o cargo até o julgamento do recurso, respondendo por eventuais perdas e danos. Os parentes não podem escusar-se do encargo, a não ser que haja algum outro em condições de exercer a tutela. Mas quem não for parente, em princípio, só pode escapar da indicação por um dos motivos nominados. Embora diga a lei que a tutela é obrigatória, possui grande inconveniência atribuir o encargo a alguém contra a sua vontade. Também não se pode reconhecer a relação das justificativas como numerus clausus. Fica a critério do juiz aceitar motivos outros que lhe pareçam plausíveis. O elenco revela certa preocupação em preservar a convivência dos tutores com seus pupilos, tanto que preconiza que sejam pessoas sadias, jovens, não tenham muitos filhos e se mantenham por perto. 23 É importante também abordar que de acordo com o artigo 760 § 1º do CPC, se o tutor não se manifestar, será considerado que renunciou ao direito de declinar do encargo. Por fim, o período da tutela é de, no mínimo, dois anos de acordo com a previsão do CC em seu artigo 1.765. (DIAS, 2021). 3.6 Ação de nomeação do tutor A nomeação do tutor é regulada pelo Código Processual Civil, mas tanto o Código Civil quanto o ECA possuem diversas normas com caráter procedimental. Dias (2021) aborda os procedimentos de forma objetiva: Conforme o CPC no artigo 215, II, trata-se de procedimento de jurisdição voluntária, que tramita durante as férias forenses. O ECA no artigo 201, III, expressa que o Ministério Público dispõe de legitimidade para a ação, quando a criança e o adolescente se encontram em situação de risco com os direitos reconhecidos no Estatuto ameaçados ou violados (artigo 98 do ECA). Quem se candidata ao exercício da tutoria pode buscar sua nomeação. Nada impede, porém, que qualquer outra pessoa proponha a ação. Neste caso, aquele que tem preferência para o exercício do encargo precisa ser citado. A pessoa que não possuir idoneidade, não pode ser nomeada tutor (CC 1.732). Porém, no Código Civil em seu artigo 1.745 parágrafo único há a previsão de que, se considerável for o patrimônio do tutelado e o juiz não reconhecer a idoneidade do tutor, pode condicionar o exercício da tutela à prestação de caução, que pode ser real ou fidejussória. Trata-se de um ônus facultativo que pode ser imposto ou não. O tutor eximir-se do encargo nas hipóteses previstas no artigo 1.736 do CC. Para declinar da nomeação, O CPC atribuiu o prazo para cinco dias a contar da indicação e igual prazo quando sobrevier motivo de escusa (CPC 760). Nomeado, o tutor é intimado a prestar compromisso (ECA 32). Necessária a ouvida do tutelado, sempre que possível (ECA 28 § 1.º). Antes de assumir o encargo, deve o tutor declarar tudo o que o menor lhe deve, sob pena de não poder mais cobrar tais créditos (CC 1.751). Nem o Código Civil, nem o de Processo Civil determinam que o tutor especifique bens em hipoteca legal. Assim, não persiste a atribuição conferida pelo 24 ECA (201 IV) ao Ministério Público para promover, de ofício, a especificação e a inscrição de hipoteca dos curadores. 3.7 Do exercício da tutela; direitos e obrigações do tutor Ao ser nomeado pelo juiz, o tutor deve assinar termo circunstanciado em que se discriminará os bens e valores do tutelado, que ficarão sob sua administração e responsabilidade. O CCB/1916 dizia hipoteca legal dos bens do tutor como garantia, o que também previa o Art. 37 do ECA. O CCB/2002 simplificou o exercício da tutela no que se refere a garantia, estabelecendo apenas uma caução, mas que também pode ser dispensada, e na prática geralmente o é, se o juiz assim entender, de acordo com a idoneidade do tutor. (PEREIRA, 2021). Recebendo os bens do tutelado, o tutor passa a administrá-los. Como não assume o poder familiar, não adquire a condição de usufrutuário (CC 1.689 I). Deve agir com zelo e boa-fé, no interesse do pupilo e sob a inspeção do juiz (CC 1.741). Sendo o patrimônio de valor considerável, pode o juiz determinar que o tutor preste uma caução, podendo ser dispensado se for pessoa de reconhecida idoneidade (CC 1.745 parágrafo único). É de tal importância a intervenção do juiz, que a lei gera sua responsabilidade direta e pessoal se não houver nomeado o tutor (CC 1.744, I). (DIAS, 2021) Ao exercer o encargo, o tutor se investe de obrigações em relação ao tutelado, como se estivesse no exercício da autoridade parental/poder familiar. Assim é sua obrigação, educá-lo, sustentá-lo, representá-lo em juízo e fora dele (art. 1.747 do CC), administrar seus bens, sob a inspeção do juiz (art. 1.740 do CC). Se forem muitos bens e exigirem uma administração mais complexa, mediante aprovação judicial, pode-se a nomeação de um protutor, que tem também a função de fiscalização (art. 1.742 do CC). O juiz também tem a responsabilidade direta, e responsabilidade subsidiária, quando não remover o tutor suspeito de má administração (art. 1.744 do CC). (PEREIRA, 2021) A lei nega ao tutor legitimidade para praticar atos que colidam com os interesses do pupilo (CC 1.749). Praticados sem prévia autorização, ou sem posterior ratificação do juiz, são ineficazes (CC 1.748 parágrafo único). Responde o tutor civil e 25 penalmente pelos prejuízos que, por culpa ou dolo, causar ao tutelado (CC 1.752). (DIAS, 2021) Os bens imóveis do tutelado, assim como os do curatelado, só podem ser vendidos com autorização judicial, quando demonstrada vantagens ao menor, sob pena de nulidade. Da mesma forma, a aquisição de bens, ou disposição gratuita (arts. 1.749 e 1.750 do CC). O tutor deve responder por prejuízos causados com o exercício da tutela. Por outro lado, tem direito a ser ressarcido pelo que tiver gasto com o tutelado. Tutor e protutor são solidários pelo exercício da tutela. O tutor tem direito a remuneração, assim como o curador, quando o tutelado tiver bens ou rendimentos suficientes, cujo valor será fixado pelo juiz com base no patrimônio do tutelado e nas circunstâncias do exercício da tutela. O protutor também tem direito a uma remuneração, obviamente menor, pela fiscalização efetivada do exercício da tutela (art. 1.752 do CCB/2002). (PEREIRA, 2021). 3.8 Cessação da tutela e prestação de contas A tutela é um instituto que nasce com prazo certo para ser extinta, que é com a maioridade. Mas pode também cessar automaticamente com a emancipação, e também se o tutelado for adotado. O tutor deve prestar contas de sua administração, cada final de dois anos de seu exercício, ainda que os pais tenham dispensado, pois os direitos dos menores são indisponíveis (art. 1.745 do CCB/2002). Este período pode ser reduzido se o juiz assim o entender, ou quando o Ministério Público assim o exigir. A aprovação de contas tem que ser homologada pelo juiz, com a anuência do Ministério Público. (PEREIRA, 2021). Ainda que não se trate da ação de exigir contas (CPC 550 a 553), as contas devem ser apresentadas em forma contábil, em procedimento próprio e não nos autos da ação de tutela. Possui o Ministério Público de legitimidade para propor a ação de prestação de contas (ECA 201 IV). Também o tutelado tem legitimidade para exigir contas do tutor. 26 Tem o tutor o direito a ser reembolsado por despesas feitas e que foram proveitosas ao pupilo (CC 1.760). As despesas com a prestação de contas são pagas pelo tutelado (CC 1.761). (DIAS, 2021). Com o fim da tutela, seja pela emancipação, maioridade, ou adoção, a quitação dada ao tutor só terá efeitos depois de aprovada as contas pelo juiz. E se morre o tutor, seus herdeiros são responsáveis por essas contas (art. 1.755 do CCB/2002). (PEREIRA, 2021). 3.9 Destituição De acordo com a previsão legal do artigo 38 do ECA, o tutor pode ser destituído do encargo, quando desprezar o dever de sustento, guarda e educação do pupilo. O procedimento de remoção está previsto no CPC arts. 761 e 762, com aplicação supletiva do procedimento de perda e suspensão do poder familiar previsto no ECA artigo 164. O Ministério Público, ou a pessoa que possuir o interesse legítimo, pode pleitear a remoção ou a dispensa do tutor (CPC 761). Nos casos que a gravidade for extrama será possível a suspensão liminar do encargo (CPC 762). O tutor é responsável pelos prejuízos que causar ao tutelado, quando ocorrer por dolo ou culpa. Quando o tutor descumprir os deveres específicos da tutela de forma dolosa ou culposa, e causar prejuízos ao tutelado, além de responder pelos danos, comete infração administrativa, sujeitando-se à pena de multa (ECA 249). Para a remoção do tutor, não é necessário que haja prova da sua ineficiência. Basta mera suspeita para o juiz afastá-lo, sob pena de, pessoalmente, responder por eventuais desmandos do tutor (CC 1.744 II). Sujeita-se à destituição o tutor que cometer crime doloso contra o pupilo, punido com pena de reclusão. Trata-se de efeito anexo da condenação (CP 92 II). Todos os delitos praticados contra pessoas com deficiência pelo seu tutor ensejam a majoração de um terço da pena (Estatuto da Pessoa com Deficiência 89 a 91). (DIAS, 2021). 27 4 CURATELA A curatela é medida designada à proteção de pessoa maior de idade que, por alguma razão está incapacitada de gerir seus próprios atos ou de administrar seus bens. Trata-se de medida excepcional, que deverá durar o menor tempo possível, conforme expressa previsão do art. 84, § 3º, da Lei n. 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Legalmente falando todas as pessoas adquirem a plena capacidade ao atingir a maioridade, motivo pelo qual se entende que a curatela é uma medida excepcional, devendo ser aplicada somente quando sua necessidade estiver devidamente comprovada. O Estatuto da Pessoa com Deficiência reforça a excepcionalidade da medida, pois é claro ao apregoar que a pessoa com deficiência tem assegurado o direito ao exercício de sua capacidade legal em igualdade de condições com as demais pessoas (art. 84, caput, do Estatuto da Pessoa com Deficiência). Por isso afirma-se que a pessoa com deficiência possui a presunção legal de sua plena capacidade. Porém, uma vez constatada a incapacidade de exprimir sua vontade de forma livre e consciente, ela será considerada relativamente incapaz, podendo ser nomeado em seu favor um curador para assisti-la ou representá-la nos atos da vida civil. Pontua-se que a curatela será restrita aos atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial (art. 85, caput, do EPD). Ademais, o Estatuto da Pessoa com Deficiência é claro ao dispor que “a definição da curatela não alcança o direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto” (art. 85, § 1º, do EPD). Dessa forma, entende-se que o deficiente sob curatela poderá exercer livremente os referidos direitos, independentemente de assistência ou representação do curador, visto que sua atuação restringe-se aos aspectos patrimoniais e negociais. A curatela está limitada aos atos de natureza patrimonial ou negocial, o que significa dizer que o curatelado pode casar-se independentemente da anuência ou autorização do curador. Entretanto, para a celebração de pacto antenupcial, por tratar- se de questão patrimonial, precisará, necessariamente, da assistência de seu curador. Insta salientar que a curatela não se confunde com a tutela, isso porque, conforme visto, a curatela destina-se, em regra, à proteção de pessoa maior de idade, 28 enquanto a tutela é medida direcionada em favor de criança ou adolescente. Além disso, a curatela é restrita à administração dos bens do incapaz, o que não ocorre com a tutela, que é mais ampla, visto que, além da administração dos bens, abrange também a representação da pessoa do tutelado, sua criação e educação. Anota-se, contudo, que, a despeito das diferenças apontadas, tanto a tutela quanto a curatela são institutos de proteção, e, por essa razão, o art. 1.774 do Código Civil consigna que se aplicam à curatela, no que couberem, as disposições concernentes à tutela. (RAMOS, 2020). A Curatela é um dos institutos de proteção aos incapazes, ao lado da TDA – tomada de decisão apoiada), Tutela e do Poder Familiar/ guarda. Está regulamentado no CCB/2002 dos artigos 1.767 a 1.783 e trata da proteção aos maiores incapazes. Tal incapacidade, em geral, decorrente de um estado mental “incompleto” ou que produz uma “certa loucura”, na linguagem do CCB/1916, “ou pessoa com deficiência mental”, na expressão do CCB/2002, inviabilizando e comprometendo o elemento volitivo do sujeito. Com a lei 13.146/2015 – Estatuto da Pessoa com Deficiência – EPD, estas expressões para designar os sujeitos com determinados estados mentais, passaram a ser chamados de “Pessoas com Deficiência”, que é diferente de pessoa deficiente (ver item 15.2.6). Novas expressões ressignificam e introduzem novos significados e significantes para a incapacidade do sujeito. Mas não podemos perder o fio da história e, portanto, é preciso entender como o Direito sempre tratou a loucura. A loucura, a insanidade e a demência interessam ao Direito porque está aí a medida da determinação da capacidade do sujeito para praticar atos da vida civil. Atos que fazem fatos, que fazem contratos, que fazem negócios, enfim, que expressam vontade. Vontade dentro dos limites de uma razão. Interessa, então, ao Direito saber qual o limite da razão e da desrazão, o limite da loucura e da sanidade. Os atos jurídicos são determinados essencialmente pelo elemento volitivo, que por sua vez estão contidos na ordem psíquica, que vão demarcar os limites da capacidade. A expressão “louco de todo gênero”, utilizada pelo Código Civil de 1916, não foi recepcionada pelo CCB/2002. Ela adveio da influência do Código Criminal do Império (1850), tornou-se corriqueira, embora já fosse criticada desde o início de seu uso por Clóvis Beviláqua. Não é fácil encontrar uma expressão totalmente adequada e assertiva para designar aqueles que são passíveis de curatela. O atual código, ao utilizar as 29 expressões “enfermidade ou deficiência mental”, traduz uma evolução do conceito, embora ainda esteja em evolução. Como se disse, o Estatuto da Pessoa com Deficiência passou denominá-las apenas de “Pessoas com Deficiência”. No futuro, já que as palavras evoluem e mudando o seu significante, provavelmente, serão chamadas de “Pessoas com diversidade funcional ou diversidade orgânica”. Independentemente da nomeação que se dê ao sujeito incapaz de praticar atos da vida civil, o cerne da questão está em saber, objetivamente, os limites da capacidade e responsabilidade de seus atos. Para o Direito Penal pode ocasionar a inimputabilidade. No Direito Civil, a incapacidade declarada em processo judicial passa a ter necessidade de alguém que responda civilmente pela pessoa, isto é, um curador. (PEREIRA, 2021). 4.1 Quem pode ser curatelado e quem pode requerer a curatela? Com o início da vigência da Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, ratificada pelo Brasil, por meio do Decreto 6.949/2009, do qual originou a Lei 13.146/2015, mais conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência – EPD, concepção de capacidade foi ressignificada, inclusive com a introdução de uma nova expressão, pessoa com deficiência (e não portadora de deficiência ou pessoa deficiente). E assim não se pode mais falar de interdição e interditado. Não se interdita pessoas e direitos, apenas protege-se. De acordo com o EPD essas expressões ainda presentes no CCB/2002 e no CPC/15 devem ser lidas como curatela, curatelado. (PEREIRA, 2021). Estão sujeitos à curatela as pessoas que não têm total controle de suas vontades, seja em razão de saúde mental, ébrios contumazes, viciados, pródigos, enfim, todos àqueles previstos no artigo 1.767 do Código Civil, vejamos: Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela: I - Aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) II - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) III - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) 30 IV - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) V - Os pródigos. (BRASIL, 2002) A idade avançada, por si só, não é motivo para a curatela. Pode requerer a curatela as pessoas mais próximas do curatelado, seja em razão de parentesco ou conjugalidade. Quem requerer a curatela, não necessariamente a exercerá. Obviamente que não pode ser curador quem tem desavenças com o curatelado. (PEREIRA, 2021) Vejamos a norma do Código Processual Civil que indica os legitimados para requerer a curatela: Art. 747. A interdição pode ser promovida: I - pelo cônjuge ou companheiro; II - pelos parentes ou tutores; III - pelo representante da entidade em que se encontra abrigado o interditando; IV - pelo Ministério Público. Parágrafo único. A legitimidade deverá ser comprovada por documentação que acompanhe a petição inicial. (BRASIL, 2015) Essa legitimidade não possui uma ordem de preferência, por isso qualquer dos indicados pode propor a ação, sendo a legitimação concorrente. A judicialização não é prerrogativa de uma única pessoa. Mais de um legitimado pode requerer a curatela, nesse caso forma-se um litisconsórcio ativo facultativo. Assim, ambos os pais ou mais de um parente, podem propor a ação, cabendo ao juiz escolher, oportunamente, quem vai exercer o encargo. De outro lado, proposta a ação por um dos legitimados, outros dispõem legitimação pode participar do processo na condição de assistente litisconsorcial (CPC 124). A ordem de preferência deve ser obedecida na escolha do curador. Intentada a ação por qualquer dos legitimados, o magistrado irá nomear o curador de acordo com a prioridade estabelecida na lei. Contudo, não pode haver rigidez na escolha, 31 pois é necessário atender ao interesse do curatelado. De preferência, é de ser eleita a pessoa com quem ele tenha alguma afinidade. (DIAS, 2021). O CPC/2015 revogou os artigos 1.768 a 1.773 do CCB/2002, que tratavam da promoção da curatela, que na linguagem antiga, denominava interdição, por não serem regras de direito processual. Entretanto, essas regras do CPC, devem ser interpretadas de acordo com o EPD, que regulamenta a Convenção dobre os Direitos da Pessoa com deficiência, que tem força de Emenda Constitucional (art. 5º, § 3º da CR). Aplica-se as regras da tutela à curatela (art. 1.781 do CCB/2002), inclusive em relação a prestação de contas, à exceção do cônjuge/companheiro, que não precisam prestar contas, se o regime for o da comunhão universal de bens (art. 1.783 do CCB/2002) e art. 1.783-A, §§ 1º, 2º, 3º, 4º e 5º, acrescentados pela Lei 13.146/2015. (PEREIRA, 2021). Sobre o cônjuge ou companheiro legitimado para requerer a decretação da curatela, é a pessoa com quem o interditando é casado ou vive em união estável. Como a separação de fato põe fim ao casamento e à união estável, cessado o vínculo de convívio, não mais cabe falar em cônjuge ou companheiro. De qualquer maneira, o ex-cônjuge ou ex-companheiro deve comunicar ao Ministério Público a ocorrência de doença mental grave, para que promova a ação (CPC 748). No que se refere ao ex-cônjuge e ex-companheiro, esses não podem ser nomeados curador, mesmo que um deles venha a propor a ação, porque a separação de corpos, ou apenas de fato, impede o exercício da curatela (CC 1.775). Aos parentes ou tutores, legitimidade conferida pelo artigo 747, II do CPC, pode qualquer parente promover a ação de curatela. É importante tratar da conceituação de parente, o código civil estabelece: ascendentes e descendentes de qualquer grau (CC 1.591) e parentes em linha colateral até o quarto grau (CC 1.592). Como a afinidade gera relação de parentesco (CC 1.595 § 2º), nada impede que parentes afins requeiram e exerçam a curatela. Não existe ordem de prioridade para os parentes requererem a curatela. A ordem de preferência para a nomeação do curador, não é obrigatória, devendo atentar-se mais ao interesse do curatelado. 32 Ao tratar do representante de entidade de abrigamento, é necessário abordar o abandono de pessoas, em instituições públicas ou privadas, que necessitam de algum cuidado por apresentarem graus de vulnerabilidade física ou psíquica. Além de lá serem abandonados, seus bens e direitos são usufruídos por aqueles que o abandonaram. Daí a legitimidade do representante da entidade em que ele se encontra abrigado de requerer a curatela e ser nomeado curador (CPC 747 III). Essa foi a forma encontrada para que os benefícios da pessoa com deficiência revertam em seu proveito próprio. (DIAS, 2021). No que se refere à legitimidade do Ministério Público: Art. 748. O Ministério Público só promoverá interdição em caso de doença mental grave: I - se as pessoas designadas nos incisos I, II e III do art. 747 não existirem ou não promoverem a interdição; II - se, existindo, forem incapazes as pessoas mencionadas nos incisos I e II do art. 747. (BRASIL, 2015) Conforme observa-se logo no caput do artigo 748, o Ministério Público possui uma competência residual, pois só pode agir se o cônjuge ou o companheiro não promoverem a ação ou forem incapazes para o seu exercício. Também deve propor a ação se a entidade cuidadora não o fizer. Ainda que o instituto da tutela diga respeito a menores e a curatela vise à proteção de maiores incapazes, o ECA defere legitimidade ao Ministério Público para promover ação de nomeação de curador (ECA 201 III), o que alcança também os maiores. Da mesma legitimação, e injustificadamente, não dispõe a Defensoria Pública. Nas hipóteses de deficiência mental ou intelectual a legitimidade ministerial deve se harmonizar com o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Mesmo não sendo o autor da ação, a presença do agente ministerial é sempre indispensável, intervindo como fiscal da ordem pública (CPC 752 § 1º). (DIAS, 2021). 33 4.2 Espécies de curatela Existem diferenças entre os graus de discernimento e inaptidão mental, a curatela admite graduações, gerando efeitos distintos a depender do seu nível de consciência. Quando houver a ausência total de capacidade, é evidente que existe um impedimento da lúcida manifestação de vontade, a interdição é absoluta para todos os atos da vida civil (CC 1.767, I). O incapaz deve ser representado, visto que é nulo o ato quando praticado sozinho (CC 166, I). Não pode nem ser ratificado pelo curador. Quando a pessoa dispor de parcial discernimento, cabe ao juiz limitar a curatela à prática de certos atos. Existe a sugestão para esses casos - não imposição - de que as restrições sejam as mesmas previstas para os pródigos (CC 1.782). Os atos celebrados sem assistência do curador e não ratificados por ele, podem ser anulados. A curatela não torna o curatelado absolutamente incapaz. O grau de incapacidade deve ser distinguido. Desse modo, o curador representa o curatelado absolutamente incapaz e o assiste quando sua incapacidade é relativa. O Estatuto da Pessoa com Deficiência visa resguardar a autonomia de espaços de liberdade. A doutrina explica que: É preciso privilegiar, sempre que possível, as escolhas de vida que o deficiente psíquico é capaz, concretamente, de exprimir, ou em relação às quais manifesta notável propensão. Permitir que o curatelado decida sozinho questões para as quais possui discernimento é uma forma de tutela da pessoa, pois a autonomia da vontade é essencial para o livre desenvolvimento da personalidade. A real necessidade da pessoa com algum tipo de doença mental é menos a substituição na gestão patrimonial e mais, como decorrência do princípio da solidariedade e da função protetiva do curador, garantir a dignidade, a qualidade de vida, a recuperação da saúde e a inserção social do interditado. (PERLINGIERI , apud DIAS, 2021, p. 938). 4.2.1 Autocuratela É a curatela em que o próprio e possível curatelado nomeia seu curador por meio de um mandato futuro. Isto se viabiliza, por meio de uma procuração com poderes específicos outorgados por alguém que já tenha conhecimento de sua doença degenerativa, ou situações em que o mandante poderá ficar incapacitado de expressar sua vontade, outorgando poderes ao mandatário para administrar seus 34 bens e atos da vida civil, bem como respeitar sua vontade estabelecida após sua incapacidade. (PEREIRA, 2021). Uma pessoa capaz pode firmar uma declaração de vontade para que alguém, diante de uma situação de incapacidade, previsível ou não, organize sua futura curatela. Pode eleger um curador bem como indicar órgãos de fiscalização de gestão de seus bens. A autocuratela permite que a pessoa designe quem gostaria que a protegesse e cuidasse. Mesmo que a pessoa com deficiência possa requerer a autocuratela, essa ação não impede a ação de curatela nem a designação de outro curador. O mandato permanente trata-se de um negócio jurídico atípico, visto que o fato de não estar previsto na lei, não impede que se respeite a vontade de alguém, mesmo depois de interditada. O direito das pessoas se autodeterminarem quanto aos seus bens é assegurado pelo princípio da liberdade e o direito ao exercício da autonomia privada. Daí a possibilidade de o mandante agir de acordo com a sua vontade no que concerne a questões patrimoniais. (DIAS, 2021). A autocuratela é uma forma preventiva para garantir direitos do futuro curatelado, assegurando sua vontade, ao escolher antecipada e preventivamente seu curador, sem necessidade de nomeação judicial para as vontades e determinações estabelecidas naquele mandato. Em verdade, a autocuratela é o indicativo de uma autodeterminação, que se concretizará com a curatela propriamente dita, com um processo judicial futuro. É o princípio da liberdade e da autonomia privada que autoriza tais instrumentos, ainda que não haja regras expressas para fazê-lo. Mas afinal, nada melhor para expressar a vontade da pessoa, no caso de futura incapacidade, do que esse instrumento, que muito se assemelha à curatela mandato. O instrumento da autocuratela tem condição suspensiva, pois só terá eficácia caso o mandate perca a capacidade. É baseado no princípio da confiança, e por isto, não pode ter substabelecimento. (PEREIRA, 2021). 4.2.2 Curatela provisória A curatela provisória pode ser concedida diante de três hipóteses: 35 A primeira é quando algum motivo imprevisível faz com que a pessoa fique impossibilitada por um tempo para os atos da vida civil; A segunda ocorre no momento em que comprovada a situação incapacitante por atestado médico, mediante singelo pedido judicial, é possível a concessão de alvará para o atendimento de necessidades específicas. Não cabe falar em incapacidade que dê ensejo à decretação da curatela; Por fim, em casos de relevância e urgência, a fim de proteger os interesses da pessoa em situação de curatela, o Estatuto da Pessoa com Deficiência autoriza o juiz, de ofício ou a requerimento do interessado, ouvido o Ministério Público, nomear, desde logo, curador provisório (EPD 87). Proposta a ação de curatela, o juiz pode nomear curador provisório ao interditando para a prática de determinados atos (CPC 749 parágrafo único). Trata-se de tutela provisória de urgência de natureza satisfativa, a título de tutela antecipada. E, justamente por esta razão não se pode justificar a medida exclusivamente na urgência, porque a tutela de urgência exige também a probabilidade da existência do direito (CPC 300). (DIAS, 2021). 4.2.3 Curatela compartilhada Dias (2021) explica de forma objetiva que o Código Civil confere legitimidade ao pai ou à mãe para o exercício da curatela (CC 1.775 § 1º). Mas a jurisprudência passou conceder curatela compartilhada a ambos os genitores. Esta possibilidade foi acolhida pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, ao conferir legitimidade ao juiz para estabelecer a curatela a mais de uma pessoa (CC 1.775-A). Assim, não só pais, mas quaisquer outras pessoas, que sejam parentes ou não do curatelado, podem dividir o exercício da curatela. Também a pessoa com deficiência pode indicar uma ou mais pessoas para o exercício da curatela. Basta o juiz reconhecer que atende ao seu melhor interesse. 36 4.3 Nascituro Sobre a curatela daquele que ainda não nasceu (nascituro), é expresso no artigo 2º do CC que a personalidade civil da pessoa é adquirida a partir de seu nascimento com vida, porém, o nascituro possui direitos assegurados. O artigo 1.779 do CC disciplina uma curatela especial, determinando que dar-se-á curador ao nascituro, se o pai falecer estando grávida a mulher, e não tendo o poder familiar. E, se a mulher estiver interdita, seu curador será o do nascituro. Nesta hipótese podendo ser titular de direitos, desde que subordinado a condição suspensiva que é o nascimento com vida. (PEREIRA, 2021). Não se encontra muita justificativa para a determinação de nomeação de curador ao nascituro (CC 1.779): dar-se-á curador ao nascituro, se o pai falecer estando grávida a mulher, e não tendo o poder familiar. A finalidade é resguardar os direitos do nascituro, assegurados desde a concepção. Garantia dos direitos do filho nascituro é assegurada em procedimento específico, que prevê a possibilidade de nomeação de curador (CC 1.779). Se a mãe for capaz, não se atina como afastar o poder familiar da mãe, pelo fato de o filho ainda não ter nascido. De qualquer forma, não só no caso de morte do pai haveria de se cogitar da nomeação. Desconhecido, ausente ou incapaz o genitor, cabe a nomeação. Estando a gestante interditada, seu curador será curador do nascituro (CC 1.779 parágrafo único). Trata-se de uma curadoria temporária, eis que, quando do nascimento, a criança deverá ser posta sob tutela. (DIAS, 2021). 4.4 Extinção da curatela e prestação de contas A curatela se extingue, quando não tem prazo determinado pelo juiz, com a morte do curatelado ou quando os motivos geradores dela se modificarem e não há mais necessidade de sua manutenção. As causas mais comuns de suspensão ou extinção da curatela são quando o sujeito recobrou o estado de consciência, saiu do coma, cessou o alcoolismo, ou alguém que mesmo não tendo cura mantém tratamento que restitui sua estabilidade emocional que lhe devolve a lucidez, e o reabilitar a praticar os atos negociais. 37 Independentemente de cessar a curatela deve-se fazer a prestação de contas, como previsto nas regras de tutela (arts. 1.755 e seguintes). O CPC também estabeleceu regras de prestação de contas em seu artigo 763, § 2º. (PEREIRA, 2021). O curador tem o dever de prestar contas, uma vez que está na posse e administração dos bens do curatelado (CC 1.755 e 1.774). O ECA atribui ao Ministério Público legitimidade para promover a ação de prestação de contas (ECA 201 IV). Ou ação de exigir contas, conforme o Código de Processo Civil (550 a 553). Em face do poder familiar os pais são usufrutuários dos bens do filho (CC 1.689). Nomeados os curadores dele, estão dispensados de prestar contas. Quando o regime de bens do casamento for o da comunhão universal, nomeado o cônjuge como curador, está dispensado de prestar contas (CC 1.783). No entanto, nos demais regimes, em que são comuns os bens adquiridos durante a união, nada justifica a imposição. Na união estável também cabe a dispensa da prestação de contas. Afinal, está o curador na posse e administração de bens que são comuns com o incapaz, tendo a responsabilidade como usufrutuário, procurador ou depositário (CC 1.652). De qualquer modo, mesmo quando existe a obrigação de prestar contas, é possível a dispensa de sua apresentação se inexiste patrimônio ou a renda do curatelado é de pequena monta. As contas devem ser apresentadas em procedimento próprio e não nos autos da ação de curatela. (DIAS, 2021). 5 TOMADA DE DECISÃO APOIADA O Estatuto da Pessoa com Deficiência introduziu no Código Civil o art. 1.783- A, esse artigo trata de um instrumento destinado à proteção da pessoa com deficiência, o qual é denominado “tomada de decisão apoiada”. Essa medida permite que a pessoa com deficiência institua ao seu redor uma rede de pessoas confiáveis que lhe apoiará no exercício dos atos da vida civil. (RAMOS, 2020). Segundo dispõe o art. 1.783-A, caput, do Código Civil: A tomada de decisão apoiada é o processo pelo qual a pessoa com deficiência elege pelo menos 2 (duas) pessoas idôneas, com as quais mantenha vínculos e que gozem de sua confiança, para prestar-lhe apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil, fornecendo-lhes os elementos e 38 informações necessários para que possa exercer sua capacidade. (BRASIL, 2002). Determinado instrumento é voltado para as pessoas que, apesar de possuírem alguma restrição de autodeterminação, preservam a capacidade de compreensão, de forma ainda que precária. A tomada de decisão apoiada é uma opção intermediária que pode ser utilizada pela pessoa que, embora não consiga exercer plenamente sua capacidade, possui certa aptidão de fazer-se compreender, de modo que não se mostra razoável atribuir-lhe a incapacidade relativa. Portanto, a pessoa que se vale da tomada de decisão apoiada não poderá ser considerada incapaz, sendo assim, a utilização do referido instituto não interfere na capacidade da pessoa com deficiência, que será conservada. O requerimento para a tomada de decisão apoiada deve ser feito pela pessoa que deseja ser apoiada, por meio judicial, o requerente deve indicar de forma expressa, o nome de pessoas aptas a lhe prestarem o apoio (art. 1.783-A, § 2º, do CC). Também é necessário que a pessoa com deficiência e os apoiadores apresentem um termo em que constem os limites do apoio a ser oferecido e os compromissos dos apoiadores, nesse termo, também deve estar incluso o prazo de vigência do acordo e o respeito à vontade, aos direitos e aos interesses da pessoa que devem apoiar (art. 1.783-A, § 1º, do CC). (RAMOS, 2020). O § 3º do art. 1.783-A do Código Civil prevê que, antes de decidir sobre o pedido de tomada de decisão apoiada, o juiz, assistido por equipe multidisciplinar, ouvirá o Ministério Público, o interessado e os apoiadores. São necessários esses cuidados para que se certifique que o termo de decisão apoiada apresentado realmente atende aos interesses da pessoa com deficiência. Por refletir na esfera da legitimidade, a tomada de decisão apoiada terá validade e efeitos sobre terceiros, que poderão, inclusive, solicitar que os apoiadores contra-assinem o contrato ou acordo, especificando, por escrito, sua função em relação ao apoiado, como forma de conferir maior segurança jurídica (art. 1.783-A, §§ 4º e 5º, do CC). Na tomada de decisão apoiada é necessário dois ou mais apoiadores, motivo pelo qual existe a hipótese da divergência de opinião entre os apoiadores, nesse caso, as divergências que possuem relação com o negócio jurídico e que possa ocasionar risco ou prejuízo relevante à pessoa com deficiência, estas deverão ser decididas pelo 39 juiz, após oitiva do Ministério Público (art. 1.783-A, § 6º, do CC). Por outro lado, tratando-se de negócios jurídicos de menor relevância, será dispensável a intervenção judicial, podendo o apoiado decidir sobre a opinião que prevalecerá. Pode apresentar denúncia ao Ministério Público ou ao juiz, a pessoa apoiada, ou qualquer pessoa em seu favor, quando o apoiador agir com negligência, exercer pressão indevida ou não cumprir com as obrigações assumidas, podendo o juiz destituir o apoiador e nomear outro em seu lugar se este for o interesse do apoiado (art. 1.783-A, §§ 7º e 8º, do CC). O término da tomada de decisão apoiada pode se dar a qualquer tempo, por solicitação da pessoa apoiada, sem necessidade de motivação. Além disso, é possível que um dos apoiadores queira retirar-se do processo de decisão apoiada, nesse caso ele deverá solicitar sua saída ao juiz (art. 1.783-A, § 10, do CC), que ouvirá a pessoa apoiada sobre o interesse de substituí-lo. (RAMOS, 2020). 40 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. LEI Nº 10.406, DE 10 DE JANEIRO DE 2002. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm> BRASIL. LEI Nº 13.105, DE 16 DE MARÇO DE 2015. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. / Maria Berenice Dias - 14. ed. rev. ampl. e atual. — Salvador: Editora JusPodivm, 2021. 932 PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Direito das Famílias / Rodrigo da Cunha Pereira; prefácio Edson Fachin. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2021. 768 RAMOS, Hellen Cristina do Lago. Direito de família / Hellen Cristina do Lago Ramos; Kathya Beja Romero – Coleção defensoria pública – ponto a ponto / coordenador Marcos Vinícius Manso Lopes Gomes. – 1. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. 277 RIZZARDO, Arnaldo. Direitos de Família / Arnaldo Rizzardo. – 10. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2019. 1339 STOLZE, Pablo; Pamplona Filho, Rodolfo. Manual de direito civil – volume único / Pablo Stolze; Rodolfo Pamplona Filho. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020. TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil: volume único / Flávio Tartuce. – 11. ed. – Rio de Janeiro, Forense; METODO, 2021.