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Por que estudar Arte? A linguagem artística é a que usamos desde os primeiros anos de vida, para nos expressar. Por meio dela representamos o mundo que está ao nosso redor. Ela é nossa forma de comunicação. A arte é uma disciplina obrigatória nas escolas (LDB 9 394/96). Ela promove o desenvolvimento de competências, habilidades e conhecimentos, além de ter valor intrínseco como construção humana e patrimônio comum a ser apropriado por todos. Para responder ao porquê de estudar Arte, precisamos antes saber o que é Arte. Se consultarmos um dicionário, veremos que Arte é a capacidade de o homem pôr em prática uma ideia. Por- tanto, Arte é, antes de tudo, um meio de comunicação. Porém, como qualquer meio de comunicação, é preciso dominar a técnica e conhecer de que maneira deve ser utilizado o material escolhido para comunicar-se. Da mesma forma que um escritor precisa co- nhecer o alfabeto, o pintor deve conhecer as tintas, os suportes, os elementos para fazer uma composição, e assim por diante. O artista, então, deve dominar as técnicas de sua arte. O estudo da Arte desperta o indivíduo para outros saberes, pois é por meio dessa investigação que entendemos como se deram as manifestações sociais, culturais e históricas, isto é, como os di- ferentes povos viveram e divulgaram suas crenças, saudaram seus deuses, interpretaram os fenômenos da natureza e expressaram sentimentos e emoções pessoais, deixando um caminho pronto para os que viriam depois. O belo na Arte Voltando à definição de Arte — que é a capacidade de criação do homem, atentando para valores estéticos —, temos que definir o que é Estética. A palavra estética tem origem grega (aisthesis), 11 o estudo da Arte1 Arte00_CS5 - DENILSON.indd 11 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte12 e significa “sentir”, ou “aquilo que pode ser percebido pelos sentidos humanos”. A Estética é um ramo da Filosofia, que ques- tiona o que é o belo e como ele aparece na Arte, já que esta nos possibilita produzir uma pintura esteticamente bela, por meio de uma técnica apurada, porém com um tema que não nos agrade, como a guerra, por exemplo. Podemos comprovar isso no quadro Guernica, de Pablo Picasso. picasso, Pablo. Guernica. 1937. Óleo sobre tela, 350 cm × 782 cm. Madri: Centro Nacional de Arte Rainha Sofia. Saiba No quadro, Picasso mostra os horrores da guerra e exibe seu pró- prio repúdio perante a aniquilação da cidade sob bombardeio alemão. Pintado em branco e preto para realçar a dramaticidade, o quadro, em estilo cubista, mostra animais e homens em desespero. Apesar de ter o terror como tema e de apresentar figuras esquartejadas, Guernica é, inegavelmente, uma pintura esteticamente bela. “A pintura não foi feita para decorar casas. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo”, disse Pablo Picasso sobre o quadro. Quando um oficial nazista lhe perguntou “Foi você quem fez isso?”, o artista respondeu: “Não, vocês fizeram isso. Eu só pintei!”. Trata-se da destruição da “sua cidade, de seus amigos e de parentes”. Comunicação não verbal Como já dissemos, passamos por obras de arte todos os dias e não nos damos conta, não paramos para observar e analisar toda 1 Arte00_CS5 - DENILSON.indd 12 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte 13 sua beleza. Vivemos apressados para trabalhar e estudar e nos esquecemos de viver, observar e apreciar as manifestações artís- ticas, principalmente quando a comunicação é feita por desenho, gestos, expressões faciais, sons, dança etc., ou seja, por meio de comunicação não verbal, quando o código não é a palavra. Para que haja aprendizado é preciso que haja assimilação. As figuras a seguir são exemplos de comunicação não verbal. São figuras simples e de fácil interpretação. Feminino Masculino Placas indicativas de sanitário feminino e masculino. Leitura de imagem A leitura de imagem ocorre de maneira diferente de indivíduo para indivíduo, ou mesmo quando um observador se vê diante de uma mesma obra em circunstâncias distintas. Isso ocorre não só porque cada indivíduo tem uma experiência de vida, mas também pelo fato de que, quanto mais aumentamos nosso olhar artístico (bagagem cultural), passamos a perceber de modo diferente aquilo que nos cerca. 2 Arte00_CS5 - DENILSON.indd 13 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte14 Ao olhar para uma obra de arte, o observador inicialmente percebe os elementos mais simples. Gradualmente, passa a notar os mais complexos. Para que você enriqueça seus conhecimentos, mostraremos alguns elementos que facilitam a observação e a análise de uma obra, seja ela uma escultura, um filme, uma pintura ou outro tipo de arte. Para entender uma figura mais complexa, precisamos apren- der a fazer a leitura de alguns elementos fundamentais, os quais dividiremos, aqui, em três grupos. elementos básicos na arte O ponto: pode ser geométrico, indicando o local onde duas retas se cruzam. Porém, na arte, ele é identificado como ponto gráfico, que, diferentemente do ponto geométrico, possui dimen- sões e cor, ou físico, quando se manifesta na realidade (a natureza está repleta de pontos físicos, como é o caso de uma laranja, por exemplo). Iremos reconhecê-los ao estudarmos o Impressionismo. Claude Monet, Auguste Renoir e Degas, entre outros artistas, introduziram pontos gráficos em sua pintura, dando origem ao movimento “pontilhista”. A linha: consiste numa sucessão de pontos e pode ser classi- ficada quanto à forma e direção. Dependendo do modo como é usada em uma composição, a linha pode dar ideia de tranquilidade ou de inquietude. Veja os exemplos a seguir: Linha reta Linha pontilhada Arte00_CS5 - DENILSON.indd 14 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte 15 Linha tracejada Linha quebrada Linha inclinada Linha mista Quanto à forma, as linhas podem ser: • Retas • Curvas • Sinuosas • Mistas • Tracejadas • Pontilhadas • Cheias Arte00_CS5 - DENILSON.indd 15 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte16 Quanto à direção, as linhas podem ser: • Horizontais • Verticais • Inclinadas Harmonia de cores: baseia-se no círculo cromático. Partindo das três cores primárias de pigmentos — vermelho, amarelo e azul —, obtemos as cores secundárias e as terciárias. As cores são chamadas de primárias pois elas são extraídas da natureza, não possuem mistura. Não há regras fixas para a harmonização de cores; a combinação depende do efeito que se deseja obter. Observe o círculo cromático: Número 1 = cores primárias Número 2 = cores secundárias Número 3 = cores terciárias Círculo cromático elementos secundários Em segundo lugar, analisa-se a composição, verificando as possibilidades de lidar com características como equilíbrio, tex- 3 Arte00_CS5 - DENILSON.indd 16 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte 17 tura, ritmo e localização espacial, além das sensações provocadas no observador. Ou seja, tal análise leva em conta a organização dos elementos básicos usados na composição. elementos vivenciais Aqui se investiga o tema da obra. É o momento de definir se se trata de uma crítica social ou do retrato de um momento histórico. O que acontecia no mundo na época em que a obra foi concebida e que influências do meio em que vivia o artista provocaram-lhe essa manifestação? Tomemos o movimento surrealista como exemplo. Na época de seu surgimento na França, durante os anos 1920, o mundo tomava conhecimento das teorias psicanalíticas de Sigmund Freud; então, os surrealistas caracterizam-se, entre outros aspectos, por enfatizar o inconsciente na produção artística. Releitura Precisamos, em primeiro lugar, estabelecer as diferenças entre releitura e cópia. A cópia ocorre quando se representa em detalhes a obra original, tentando imitar os procedimentos usados pelo artista que a produziu, procurando fazer o mesmo traço, adotar a mesma forma e usar a mesma técnica. Isso, contudo, não se classifica como falsificação.Muitos estudantes de arte fazem cópias durante seu tra- balho de pesquisa e estudo, pois a imitação de grandes mestres é boa prática para quem deseja aprender a produzir arte. Para se fazer uma cópia, é necessário atentar para todos os detalhes da obra original. Já na releitura, tomamos a obra como um exemplo: só depois de fazer uma leitura inicial (na qual se analisam os elementos anteriormente citados) é que entramos com nossas próprias in- terferências, como a percepção e a sensibilidade, diferenciando nossa produção da obra original de acordo com nossa própria imaginação. Na História da Arte a releitura é prática comum, tendo sido adotada por artistas renomados, como Pablo Picasso, que, dentre muitas releituras, fez 44 interpretações de As meninas, de Velásquez. Muitos outros artistas seguiram esse caminho, entre os quais se podem citar Van Gogh, Magritte, Matisse, Salvador Dalí Arte00_CS5 - DENILSON.indd 17 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte18 e Botero. Deste último, pintor e escultor colombiano nascido em 1932 e detentor de um estilo próprio, de características marcantes, com formas arredondadas e grande apresentamos a releitura que fez da famosa Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Da Vinci, Leonardo. Mona Lisa. 1507. Óleo sobre madeira de álamo, 77 cm × 53 cm. Paris: Museu do Louvre. Botero, Fernando. Mona Lisa. 1978. Óleo e têmpera sobre tela, 211 cm × 195,5 cm. Bogotá: Museu Botero. 4 5 Arte00_CS5 - DENILSON.indd 18 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte 19 “Minha Mona Lisa não é a de Leonardo da Vinci. Pode- -se usar um mesmo tema e criar um quadro totalmente diferente. Aí reside a verdadeira originalidade: tomar emprestados personagens que todos já tenham feito e fazê-los de maneira diferente”. Fernando Botero Releitura não é simplesmente uma cópia, nem plágio, muito menos uma falsificação. Consiste, sim, na criação de uma nova obra, realizada a partir de outra feita anteriormente, acrescentando nessa nova produção um toque pessoal e uma nova maneira de ver e sentir, de acordo com a cultura e a vivência próprias de cada pessoa. “(...) a releitura implica produzir aquilo que se entendeu da obra, sem preocupações com semelhanças. É o sentimento se aliando à observação na produção de um trabalho.” Heleny Galati “O exemplo é um estímulo para a ação e para uma nova configuração (...) Imitar não o pensamento contido no sistema, mas a atividade criadora que produziu o pensamento.” Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1876) Podemos dizer, então, que realizar uma releitura é tomar um elemento de uma obra e, usando características, emoções e sen- sibilidade próprias, reproduzi-lo de maneira diferente. Experimente Com base nos elementos descritos no texto, use papel canson e tinta guache para produzir uma releitura do quadro de Renoir apresentado a seguir. Antes de fazê-lo, responda ao Teste seu saber da p. 21. Arte00_CS5 - DENILSON.indd 19 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte20 renoir, Pierre-Auguste. Rosa e Azul. 1881. Óleo sobre tela, 119 cm × 74 cm. São Paulo: Masp. “Renoir, pintando Rosa e Azul, mostra na vibração da superfície e das cores vivas, que compõem os vestidos das meninas, toda a vivacidade e a graça instintivamente feminina que se esconde atrás da convenção da pose, todo o frescor e a candura da infância. As meninas quase se materializam diante do observador, a de azul com o seu ar vaidoso e a de rosa com um certo enfado, quase beirando as lágrimas.” Texto que acompanha a obra, no Museu de Arte de São Paulo. 6 Arte00_CS5 - DENILSON.indd 20 26/11/10 17:28 Capítulo 1 - O estudo da Arte 21 TesTe seu saber 1) Por que estudar Arte? 2) O que é Arte? 3) O que é Estética? 4) O que você entende por comunicação não verbal? 5) Como deve ser feita uma leitura de imagem? 6) Quais são os elementos básicos de uma imagem? 7) Numa leitura de imagem, o que se entende por elementos secundários? 8) Quais são os elementos vivenciais envolvidos quando se lê uma imagem? 9) O que você entende por releitura? 10) Faça uma leitura do quadro Rosa e Azul, de Pierre-Auguste Renoir. Arte00_CS5 - DENILSON.indd 21 26/11/10 17:28