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VOCÊ PAGARIA POR UM MEME?
JOÃO PAULO CAPELOTTÍ Í 19. 08.2019
Imagem: TJGO
O dono das páginas de humor “Te sento a vara” foi recentemente condenado ao
pagamento de indenização de RS 100.000,00 (cem mil reais) em virtude da utilização da
foto de um idoso em memes. A notícia teve ampla repercussão na imprensa, tendo sido
veiculada inclusive no Veja-se ainda, por exemplo: L11, Lz] e Bl.
A sentença, proferida pela 25' Vara Civel de Cristalina/GO e ainda sujeita a recurso,
entende que É “inquestionável que um idoso prestes a completar 92 anos de idade,
nascido nos idos de 1927, no interior de Goiás, sertanejo (folha 15), que guarda consigo
tradições e costumes divorciados da desvairada era da internet mal usada, abala-se
psicologicamente ao deparar se com sua imagem veiculada em situaçoes extremamente
vexatórias, sem contar que difundida mundo afora”LJ_1.
A situação é muito semelhante ao caso da Irmã Zuleide, já abordado gmgfligãganzezigz
 .O criador dos memes em questão encontrou em banco de imagens na
internet uma foto adequada ao tipo de humor que pretendia fazer. O retrato em preto e
branco de um senhor sisudo, com bigodes e olhar denotando reprovação,
complementava-se com a proposta da página de “punir”, pelo riso, qualquer traço que
se apresentasse como “frescura”, numa visao conservadora de mundo que a foto parece
sintetizar.
Ocorre que, tal como no caso da Inna Zuleide, a foto era de uma pessoa real, que nao
havia autorizado seu uso para fins humorísticos. Consta que a foto do idoso encontrava-
se gcom fotos antigas dos moradores de Campo Alegre de
Goiás, onde ele nasceu. A pedido do idoso, sua foto foi removida do portal.
A redação do art. 20 do Codigo Civil brasileiro é bastante restritiva a respeito do uso da
imagem alheiaL2,1. Foi utilizado como fator de aumento da indenizaçãojgl, o fato de
(novamente, tal como no caso da Irmã Zuleide) ele estar ganhando dinheiro graças à
imagem, não só pela ampla repercussão das páginas no Instagram e no Facebook (que,
segundo a sentença, teriam alcançado mais de quatro milhões de pessoas), mas também
pela 1_Qj_a_Q11],11,1g que comercializa produtos como bonés, chapéus, chinelos e camisetas
com a logomarca “Sento a vara”.
U fato de a logomarca dos produtos ser apenas uma silhueta com bigode, de o msjagmzn
 ,e de a utilizar uma foto paródica (com
direito a chapéu, bigode, enquadramento e cor semelhantes á original, mas estrelada por
pessoa diversa) provavelmente não salvarão o humorista da condenação, considerando o
caráter restritivo da lei brasileira sobre direito de imagem.
Não se trata, aqui, apenas de liberdade de expressão humorística (na medida em que não
se discute somente o direito de fazer memes), mas também (e talvez principalmente) da
repercussão econörníro do uso da imagem alheia. Vale dizer: tem-se a impressão que o
valor da indenização só atingiu patamares tão altos porque a imagem alheia foi
transfonnada em produto. Caso isso não tivesse ocorrido no caso concreto, talvez não só
a indenizaçao fosse menor, como o proprio direito de criaçao de memes pudesse ganhar
maior fôlego argumentativo.
De um modo geral, os tribunais têm mitigado a necessidade de autorização para uso de
imagem apenas em situaçoes específicas (por exemplo, para a ilustração de fatos
jornalísticos; quando a obtençao da imagem É feita em local público de acesso irrestrito;
no caso de pessoas públicas, entre outros).
O que tanto este caso do “Te sento a vara” como o da Irmã Zuleide parecem indicar é que
há consequências jurídicas para o que se faz na internet, por mais que ela ainda seja
encarada como um ambiente de liberdade absoluta - em parte porque muitas das
irregularidades (ou ilícitos) que se praticam nao sao descobertas.
Por outro lado, é pertinente questionar se o ordenamento jurídico, do modo como está
configurado para a proteção dos direitos de autor e de imagem, não termina por
dificultar de modo desproporcional a criação de conteúdo humorístico.
Veia-Se. PDI' Exemplo. 0 
A0 COHUÉIÍO C10 CEISD ÚO “TE
sento a vara”, aqui discutido, não se falava em direito de imagem do pinguim, mas sim
na utilização não consentida de uma foto de um banco de imagens (protegida por direito
autoral) para um meme.
Esse tipo de produção humorística - que, como também abordado em coluna anterior,
surge e se espalha do nada - depende usualmente de um componente visual forte.
Chegaremos a um momento em que será preciso pagar para ter acesso a um meme,
como resultado direto do custo que seu criador teve ao adquirir a imagem que lhe serve
de base?
É preciso ponderaçao para que a proteçao ã imagem e ao direito de autor 11ao eclipsem de
modo irreparável a liberdade de expressão.
No que diz respeito a direitos de autor, como ressaltado em coluna anterior, a regulaçao
aprovada recentemente pela União Europeia foi alvo de diversas críticas, que acabaram
levandfl a um
(caricatura, paródia e pastiche) do âmbito de
incidência da nova diretiva. Todavia, este ainda é um campo de conflitos e tensões, que
devem ser notados no Brasil durante os debates em torno da refonna da Lei de Direitos
AL1t0r‹'=1iS(qL1@. aliás.
Com relaçao a direitos de imagem, conquanto pessoas que não são notórias como o
idoso cuja foto foi utilizada pelo “Te sento a vara” - podem esperar um grau de proteção
maior (ainda que não absoluto), não parece certo que pessoas públicas, em especial
aquelas ocupantes de cargos públicos, se vejam beneficiadas da mesma forma. Pense-se,
por exemplo, em toda a produção humorística feita utilizando imagens dos últimos
presidentes da República, que 11ao ensejaria (ou ao menos nao deveria ensejar)
condenação em danos morais como ocorreu com o “Te sento a vara”.
LU Tribunal de Iustiça de Goiás, 2” Vara Cível e da Fazenda Pública, Autos n. 26 5¿,17-
83.201?.8.09.oo3ó, luiz de Direito Thiago Inácio de Oliveira, julg. 17,t0?/2019.
Lz] Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias ã administração da justiça ou á
manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a
publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas,
a seu requerimento e sem prejuízo da indenizaçao que couber, se lhe atingirem a honra,
a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.
[31 “Em arremate, eleva o dano moral experimentado, o comércio de produtos como
camiseta, chapéu e boné contendo a imagem do idoso, objetos espalhados em todo o
pais, usados, inclusive, por artistas (folha 119) e jogador de futebol (folha 124)”
(Tribunal de Iustiça de Goiás, 2” Vara Cível e da Fazenda Pública, Autos n. 2051.1?-
83.201?.8.09.o03ó, luiz de Direito Thiago Inácio de Oliveira, julg. 17¡'0?/2019).
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AULO CÀPELOTTIP
Doutor e mestre em direito pela Universidade Federal do
Paraná (UFPR). Membro associado da International Society
ƒor Humor Studies (ISHS) e da International Sorielyƒor
Luso-Hispanir Humor Studies (ISLHI-IS). Advogado.
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