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HUMANISMO: GIL VICENTE
Prof. Mariana Neto
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TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Para responder à(s) questão(ões) a seguir, leia o excerto de Auto da Barca
do Inferno do escritor português Gil Vicente (1465?-1536?). A peça prefigura
o destino das almas que chegam a um braço de mar onde se encontram
duas barcas (embarcações): uma destinada ao Paraíso, comandada pelo
anjo, e outra destinada ao Inferno, comandada pelo diabo.
Vem um Frade com uma Moça pela mão […]; e ele mesmo fazendo a 1baixa
começou a dançar, dizendo
Frade: Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
Tã-tã-ta-ri-rim-rim-rã, huha!
Diabo: Que é isso, padre? Quem vai lá?
Frade: 2Deo gratias! Sou cortesão.
Diabo: Danças também o 3tordião?
Frade: Por que não? Vê como sei.
Diabo: Pois entrai, eu 4tangerei
e faremos um serão.
E essa dama, porventura?
Frade: Por minha a tenho eu,
e sempre a tive de meu.
Diabo: Fizeste bem, que é lindura!
Não vos punham lá censura
no vosso convento santo?
Frade: E eles fazem outro tanto!
Diabo: Que preciosa 5clausura!
Entrai, padre reverendo!
Frade: Para onde levais gente?
Diabo: Para aquele fogo ardente
que não temestes vivendo.
Frade: Juro a Deus que não te entendo!
E este 6hábito não me 7val?
Diabo: Gentil padre 8mundanal,
a Belzebu vos encomendo!
Frade: Corpo de Deus consagrado!
Pela fé de Jesus Cristo,
que eu não posso entender isto!
Eu hei de ser condenado?
Um padre tão namorado
e tanto dado à virtude?
Assim Deus me dê saúde,
que eu estou maravilhado!
Diabo: Não façamos mais 9detença
embarcai e partiremos;
tomareis um par de remos.
Frade: Não ficou isso na 10avença.
Diabo: Pois dada está já a sentença!
Frade: Por Deus! Essa seria ela?
Não vai em tal caravela
minha senhora Florença?
Como? Por ser namorado
e folgar c’uma mulher?
Se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?!
Diabo: Ora estás bem arranjado!
Frade: Mas estás tu bem servido.
Diabo: Devoto padre e marido,
haveis de ser cá 11pingado…
(Auto da Barca do Inferno, 2007.)
1baixa: dança popular no século XVI.
2Deo gratias: graças a Deus.
3tordião: outra dança popular no século XVI.
4tanger: fazer soar um instrumento.
5clausura: convento.
6hábito: traje religioso.
7val: vale.
8mundanal: mundano.
9detença: demora.
10avença: acordo.
11ser pingado: ser pingado com gotas de gordura fervendo (segundo o
imaginário popular, processo de tortura que ocorreria no inferno).
1. (Unesp 2017) Assinale a alternativa cuja máxima está em conformidade
com o excerto e com a proposta do teatro de Gil Vicente.
a) “O riso é abundante na boca dos tolos.”
b) “A religião é o ópio do povo.”
c) “Pelo riso, corrigem-se os costumes.”
d) “De boas intenções, o inferno está cheio.”
e) “O homem é o único animal que ri dos outros.”
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Incidente em Antares (fragmento)
Durante alguns minutos a defunta fica a olhar em torno – para a esplanada,
o céu, o muro do cemitério, a lanterna acesa caída no chão... Depois se põe
de joelhos e nessa posição, lentamente, faz a volta do esquife vizinho,
desatarraxando-lhe a tampa, que tenta em vão erguer, terminada a
operação. Bate três vezes com o punho cerrado na tampa do caixão negro,
cujo ocupante responde, após segundos, com três batidas semelhantes. D.
Quitéria vê a tampa que ela desaparafusou erguer-se lentamente e por fim
cair para um lado. Um homem de estatura mediana e vestido de escuro sai
do seu féretro, dá alguns passos com uma rigidez de boneco de mola, olha
a seu redor, inclina-se, apanha a lanterna, passeia a sua luz pelo muro do
cemitério, depois pela copa dos cinamomos, projeta-a contra a
esplanada e por fim foca o rosto da dama, que continua ajoelhada.
— D. Quitéria Campolargo! – exclama o desconhecido. — Que honra! Que
prazer!
Érico Veríssimo
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Auto da Barca do Inferno (fragmento)
ANJO
FIDALGO
ANJO
FIDALGO
ANJO
FIDALGO
ANJO
FIDALGO
ANJO
Que quereis?
Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
Esta é; que demandais?
Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
Não se embarca tirania
neste batel divinal.
Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria...
Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?
Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.
Gil Vicente
A armadilha (fragmento)
Meu nome é Mort. Ed Mort. 1Sou detetive particular. Pelo menos isso é o que
está escrito numa plaqueta na minha porta. Estava sem trabalho há meses.
Meu último caso tinha sido um flagrante de adultério. 2Fotografias e tudo.
3Quando não me pagaram, vendi as fotografias. Eu sou assim. Duro. Em
todos os sentidos. O aluguel da minha sala – o apelido que eu dou para este
cubículo que ocupo, entre uma escola de cabeleireiros e uma pastelaria em
alguma galeria de Copacabana – estava atrasado. 4Meu 38 estava
empenhado. Minha gata me deixara por um delegado. A sala estava cheia
de baratas. 5E o pior é que elas se reuniam num canto para rir de mim. Mort.
Ed Mort. Está na plaqueta.
Luis Fernando Veríssimo
2. (Mackenzie 2017) Assinale a alternativa que NÃO pode ser associada ao
teatro de Gil Vicente.
a) [...] aparecem os homens livres pobres e também os escravos, tidos os
primeiros como parasitas, e os segundos como tipos preguiçosos que
nada fazem e devem ser frequentemente punidos. (Fernando Juarez De
Cardoso)
b) Muitas de suas peças são moralidades [...] Seus autos, contudo, não
têm a rigidez das moralidades da época; as alegorias transformam-se em
vida, em personagens saborosos. (Anatol Rosenfeld)
c) [...] predomina [...] a sucessão de pequeninos quadros, a lembrar a
mesma técnica da pintura narrativa medieval e das novelas de cavalaria.
(Segismundo Spina)
d) Seu teatro, essencialmente moral e social, é marcado pela intenção
crítica. O riso, a sátira e os gracejos tinham um endereço certo: o público
que assistia às encenações e que acabava por rir de si mesmo, sem que,
por cegueira ou vaidade, se reconhecesse. (João Domingues Maia)
e) [...] traz em si características de um momento de transição portuguesa,
assim é marcado por traços que indicam desde elementos medievais até
elementos renascentistas. (Alexandre Huady Torres Guimarães)
3. (Upe-ssa 1 2016) Aristóteles, ao admitir a arte como recriação da
realidade, também sistematizou e organizou parâmetros, em seu livro Arte
Poética, para distinguir os tipos de produção literária existentes na época.
Hoje denominamos esses três diferentes tipos de texto de lírico (palavra
cantada), épico (palavra narrada) e dramático (palavra representada).
Partindo dos conceitos acima expressos, leia os três textos a seguir:
Texto 1
Corridinho
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber
se é ou não é.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é
(Adélia Prado)
Texto 2
Enquanto isto se passa na formosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da bandado Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em peixes converteu.
Tão brandamente os ventos os levavam
Como quem o Céu tinha por amigo;
Sereno o ar e os tempos se mostravam,
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.
(Camões)
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Texto 3
Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa
que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama
Ninguém e diz:
Ninguém: Que andas tu aí buscando?
Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Belzebu: Que ninguém busca
consciência.
e todo o mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo o Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra todo o mundo
e ninguém busca virtude.
(Gil Vicente)
Analise as afirmativas a seguir e coloque V nas Verdadeiras e F nas Falsas.
( ) Os três textos, consoante Aristóteles, pertencem aos gêneros
dramático, lírico e épico, respectivamente.
( ) O texto 2 expressa uma visão do sentimento amoroso, traduzida por
uma voz lírica emotiva, que corresponde ao eu poético criado pela autor.
( ) O texto 2 traz o relato do início da viagem de Vasco da Gama, recurso
usado por Camões para narrar a história do povo lusitano, em Os Lusíadas,
única epopeia em Língua Portuguesa.
( ) O texto 3 é um fragmento do Auto da Lusitânia, em que o autor Gil
Vicente critica os vícios humanos com base nas ações de quatro
personagens: Todo o Mundo, Ninguém, Dinato e Belzebu.
( ) O texto 3 retrata uma realidade social que perdura até os dias atuais, o
que justifica o fato de as peças vicentinas serem consideradas atemporal e
aespacial. É a atualidade dos temas utilizados pelo teatrólogo medieval, que
torna suas peças aceitas por expectadores de diferentes épocas.
Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA.
a) F - F - F - V - F
b) V - V - V - F - F
c) V - V - F - F - F
d) F - V - F - V - F
e) F - F - V - V - V
4. (G1 - ifsp 2016) Considere o trecho para responder à questão.
No final do século XV, a Europa passava por grandes mudanças provocadas
por invenções como a bússola, pela expansão marítima que incrementou a
indústria naval e o desenvolvimento do comércio com a substituição da
economia de subsistência, levando a agricultura a se tornar mais intensiva e
regular. Deu-se o crescimento urbano, especialmente das cidades
portuárias, o florescimento de pequenas indústrias e todas as demais
mudanças econômicas do mercantilismo, inclusive o surgimento da
burguesia.
Tomando-se por base o contexto histórico da época e os conhecimentos a
respeito do Humanismo, marque (V) para verdadeiro ou (F) para falso e
assinale a alternativa correta.
( ) O Humanismo é o nome que se dá à produção escrita e literária do final
da Idade Média e início da moderna, ou seja, parte do século XV e início do
XVI.
( ) Fernão Lopes é um importante prosador do Humanismo português.
Destacam-se entre suas obras: Crônica Del-Rei D. Pedro I, Crônica Del-Rei
Fernando e Crônica de El-Rei D. João.
( ) Gil Vicente é um importante autor do teatro português e suas principais
obras são: Auto da Barca do Inferno e Farsa de Inês Pereira.
( ) Gil Vicente é um autor não reconhecido em Portugal, em virtude de sua
prosa e documentação histórica não participarem da cultura portuguesa.
a) V, V, V, F.
b) V, F, V, V.
c) F, V, V, F.
d) V, V, F, F.
e) V, F, F, V.
5. (G1 - ifsp 2016) Leia o texto abaixo, um trecho do Auto da Barca do
Inferno, de Gil Vicente, para assinalar a alternativa correta no que se refere
à obra desse autor e ao Humanismo em Portugal.
Nota: foram feitas pequenas alterações no trecho para facilitar a leitura.
Vem um Frade com uma Moça pela mão, e um 1broquel e uma espada na
outra, e um 1casco debaixo do 2capelo; e, ele mesmo fazendo a baixa,
começou de dançar, dizendo:
FRADE Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;
ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã: tã-tã;
ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!
DIABO Que é isso, padre?! Que vai lá?
FRADE Deo gratias! Sou cortesão.
DIABO Sabes também o tordião?
FRADE Por que não? Como ora sei!
DIABO Pois entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama é ela vossa?
FRADE Por minha a tenho eu,
e sempre a tive de meu
DIABO
Fizestes bem, que é formosa!
E não vos punham lá 3grosa
no vosso convento santo?
FRADE E eles fazem outro tanto!
DIABO Que cousa tão preciosa...
Entrai, padre reverendo!
FRADE Para onde levais gente?
DIABO Pera aquele fogo ardente
que não temestes vivendo.
FRADE Juro a Deus que não te entendo!
E este hábito não me vale?
DIABO Gentil padre mundanal,
a Belzebu vos encomendo!
1broquel e casco – respectivamente, escudo e armadura para cabeça – são
elementos por meio dos quais o autor descreve o frade.
2capelo – chapéu ou capuz usado pelos religiosos.
3pôr grosa – censurar.
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a) O destino do frade é exemplar no que se refere à principal característica
da obra de Gil Vicente: a crítica severa, de sabor renascentista, à Igreja
Católica, de cuja moral se distancia a obra do dramaturgo.
b) A proposta do teatro vicentino alegórico – especialmente a Trilogia das
Barcas – era a montagem de peças complexas, de linguagem rebuscada,
distante do falar popular, para criticar, nos termos da moral medieval, os
homens do povo.
c) A imagem cômica, mas condenável, de um frade que canta, dança e
namora, trazendo consigo uma dama, é exemplo cabal do pressuposto das
peças de Gil Vicente de que, rindo, é possível corrigir os costumes.
d) O frade terá como destino o inferno porque é homem “mundanal”, ligado
aos gozos do mundo material, em cujo pano de fundo percebe-se o sistema
de valores do homem medieval, para o qual não há salvação após a morte.
e) O sistema de valores que pode ser entrevisto nas peças de Gil Vicente, e
especialmente no Auto da Barca do Inferno, revela uma mentalidade avessa
aos valores da Idade Média.
6. (Uepa 2014) Analise os trechos abaixo, retirados da peça Pranto de Maria
Parda, de Gil Vicente, e assinale aquele que comunica ao leitor uma visão
preconceituosa de caráter racial.
a) Eu só quero prantear
este mal que a muitos toca;
que estou já como minhoca
que puseram a secar.
b) Ó bebedores irmãos
que nos presta ser cristãos,
pois nos Deus tirou o vinho?
c) Martim Alho, amigo meu,
Martim Alho, meu amigo,
tão seco trago o umbigo
como nariz de Judeu.
d) Ó Rua da Mouraria,
quem vos fez matar a sede
pela lei de Mafamede
com a triste da água fria?
e) Devoto João Cavaleiro
que pareceis Isaías,
dai-me de beber três dias,
e far-vos-ei meu herdeiro.
7. (Unicamp 2012) Os excertos abaixo foram extraídos do Auto da barca do
inferno, de Gil Vicente.
(...) FIDALGO: Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO: (...) E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezem lá por ti!...(...)
ANJO: Que querês?
FIDALGO: Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do paraíso
é esta em que navegais.
ANJO: Esta é; que me demandais?
FIDALGO: Que me leixês embarcar.
sô fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
ANJO: Não se embarca tirania
nestebatel divinal.
FIDALGO: Não sei por que haveis por mal
Que entr’a minha senhoria.
ANJO: Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO: Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia? (...)
ANJO: Não vindes vós de maneira
pera ir neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Vós irês mais espaçoso
com fumosa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso;
e porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso. (…)
SAPATEIRO: (...) E pera onde é a viagem?
DIABO: Pera o lago dos danados.
SAPATEIRO: Os que morrem confessados,
onde têm sua passagem?
DIABO: Nom cures de mais linguagem!
Esta é a tua barca, esta!
(...) E tu morreste excomungado:
não o quiseste dizer.
Esperavas de viver,
calaste dous mil enganos...
tu roubaste bem trint'anos
o povo com teu mester. (...)
SAPATEIRO: Pois digo-te que não quero!
DIABO: Que te pês, hás-de ir, si, si!
SAPATEIRO: Quantas missas eu ouvi,
não me hão elas de prestar?
DIABO: Ouvir missa, então roubar,
é caminho per'aqui.
(Gil Vicente, Auto da barca do inferno, em Cleonice Berardinelli (org.), Antologia do teatro de
Gil Vicente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1984, p. 57-59 e 68-69.)
a) Por que razão específica o fidalgo é condenado a seguir na barca do
inferno? E o sapateiro?
b) Além das faltas específicas desses personagens, há uma outra, comum a
ambos e bastante praticada à época, que Gil Vicente condena. Identifique
essa falta e indique de que modo ela aparece em cada um dos personagens.
8. (Unicamp 2011) Os trechos abaixo, do Auto da barca do inferno e das
Memórias de um sargento de milícias, tratam, de maneira cômica, dos
“pecados” de duas personagens que, cada uma a seu modo, representam
uma autoridade.
Leia-os com atenção e responda às questões propostas em seguida.
Frade
Ah, Corpo de Deus
consagrado!
Pela fé de Jesus
Cristo,
qu’eu não posso
entender isto!
Eu hei-de ser
condenado?
Um padre tão
namorado
e tanto dado à virtude!
Assi Deus me dê
saúde
que eu estou
maravilhado!
Diabo
Não façamos mais
detença.
Embarcai e
partiremos:
tomareis um par de
remos.
Frade
Não ficou isso
n’avença!
Diabo
Pois dada está já a
sentença!
Frade
Par Deus! Essa
seri’ela!
Não vai em tal
caravela
minha senhora
Florença.
Como? Por ser
namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de se
perder,
com tanto salmo
rezado?
Diabo
Ora estás bem aviado!
Frade
Mas estás bem
corregido!
Diabo
Devoto padre marido,
haveis de ser cá
pingado...
(Gil Vicente, Auto da barca do inferno. São Paulo: Ática, 2006, p. 35-36.)
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Os leitores estão já curiosos por saber quem é ela, e têm razão; vamos já
satisfazê-los. O major era pecador antigo, e no seu tempo fora daqueles de
quem se diz que não deram o seu quinhão ao vigário: restava-lhe ainda hoje
alguma coisa que às vezes lhe recordava o passado: essa alguma coisa era
a Maria-Regalada que morava na Prainha. Maria-Regalada fora no seu
tempo uma mocetona de truz, como vulgarmente se diz: era de um gênio
sobremaneira folgazão, vivia em contínua alegria, ria-se de tudo, e de cada
vez que se ria fazia-o por muito tempo e com muito gosto: daí é que vinha o
apelido – regalada – que haviam juntado ao seu nome.
(Manuel Antonio de Almeida, Memória de um sargento de milícias. São Paulo: Ática, 2004,
Capítulo XLV - “Empenhos”, p. 142.)
a) O que há de comum na caracterização da conduta do Frade, na peça, e
do major Vidigal, no romance?
b) Que diferença entre as obras faz com que essas personagens tenham
destinos distintos?
9. (Ufes 2010) Um dos pontos comuns na crítica sobre o Auto da barca do
inferno, do dramaturgo português Gil Vicente, é a atualidade da
representação dos problemas sociais e morais de sua época, 1517. Por meio
de personagens de diversas ordens sociais, como o Fidalgo, o Frade ou a
Alcoviteira, o autor tipifica e alegoriza, sobretudo, os vícios.
A partir da cena abaixo entre o Diabo e o Corregedor (“magistrado que tem
jurisdição sobre todos os outros juízes de uma comarca, e que tem a função
de fiscalizar a distribuição da justiça, o exercício da advocacia e o andamento
dos serviços forenses” – Dicionário eletrônico Houaiss da língua
portuguesa), elabore uma carta dirigida a Gil Vicente, em que seja observada
a permanência, na realidade brasileira contemporânea, de problemas que
ele apontou satiricamente.
DIABO [...] Entrai, entrai, corregedor!
CORREGEDOR Hou! Videtis qui petatis! (Vede o que reclamais)
Super jure majestatis (Acima do direito de majestade)
tem vosso mando vigor?
DIABO Quando éreis ouvidor
non ne accepistis rapina? (acaso não recebestes roubo?)
Pois ireis pela bolina (cabo de sustentação da vela do barco)
como havemos de dispor...
Oh! Que isca esse papel
para um fogo que eu sei!
CORREGEDOR Domine, memento mei! (Senhor, lembra-te de mim)
DIABO Non est tempus, Bacharel!
Imbarquemini in batel
quia judicastis malicia. (porque sentenciastes com malícia)
(VICENTE, Gil. Auto da barca do inferno. In: ______ . O velho da horta. Auto da barca do
inferno. Farsa de Inês Pereira. Ed. Segismundo Spina. 32ª ed. São Paulo: Atelier, 1998, p.
155-156.)
10. (Unicamp 2009) Na seguinte cena do Auto da Barca do Inferno, o
Corregedor e o Procurador dirigem-se à Barca da Glória, depois de se
recusarem a entrar na Barca do Inferno.
Corregedor: Ó arrais dos gloriosos, passai-nos neste batel!
Anjo: Ó pragas pera papel, pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
sendo filhos da ciência!
Corregedor: Ó ! habeatis clemência
e passai-nos como vossos!
Joane (Parvo): Hou, homens dos breviairos,
rapinastis coelhorum
et perniz perdiguitorum
e mijais nos campanairos !
Corregedo:r Ó! Não nos sejais contrairos,
Pois nom temos outra ponte!
Joane (Parvo): Beleguinis ubi sunt?
Ego latinus macairos.
pera: para
habeatis: tende
homens dos breviairos: homens de leis
Rapinastis coelhorum/Et perniz perdiguitorum:
Recebem coelhos e pernas de perdiz como suborno
Beleguinis ubi sunt?: Onde estão os oficiais de justiça?
Ego latinus macairos: Eu falo latim macarrônico
(Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996, p. 107-109.)
a) De que pecado o Parvo acusa o homem de leis (Corregedor)? Este é o
único pecado de que ele é acusado na peça?
b) Com que propósito o latim é empregado pelo Corregedor? E pelo Parvo?
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Gabarito:
Resposta da questão 1:
[C]
Está correta a alternativa [C], pois Gil Vicente usava a sátira para fazer uma
crítica à sociedade e aos costumes do seu tempo. Assim, sugeria ao público
uma reflexão sobre seus próprios atos e, consequentemente, uma revisão
dos valores.
Resposta da questão 2:
[A]
As afirmações transcritas em [A] dizem respeito à obra de Martins Pena e
não à de Gil Vicente. O teatro vicentino é marcado pela intenção crítica à
sociedade portuguesa do século XVI, expondo de forma satírica e despojada
os grandes vícios humanos em todas as classes sociais. No entanto,
personagens que demonstrem uma alma pura e cujos valores sejam
legítimos e sinceros são poupados de crítica, como por exemplo, o Parvo
que, humildemente, se nomeia “Ninguém” quando o Anjo lhe pergunta quem
é. .
Resposta da questão 3:
[E]
I. Falso. Segundo a definição proposta por Aristóteles, os textos são,
respectivamente: lírico, épico e dramático.
II. Falso. O Texto 2 é um trecho de Os Lusíadas, poema épico de Camões,
no qual a viagem de Vasco da Gama às Índias é retratada.
III. Verdadeiro. O trecho mencionado de Os Lusíadas compõe o início da
narrativa.
IV. Verdadeiro. Gil Vicente emprega tipos sociais e personagens alegóricos
para criticar e moralizar a sociedade portuguesado século XVI: é o caso de
Todo Mundo e Ninguém, representando, respectivamente, o comportamento
usual e o comportamento raro em tal sociedade, e dos diabos.
V. Verdadeiro. A obra de Gil Vicente consolidou-se como clássica porque
atravessou o tempo e o espaço. Críticas feitas naquele momento persistem
na sociedade atual.
Resposta da questão 4:
[A]
Última afirmação incorreta: Gil Vicente foi um autor do teatro português,
como colocado na terceira afirmativa. Sua importância para Portugal é
bastante reconhecida, uma vez que é considerado o primeiro dramaturgo do
país. Suas peças tinham um caráter moralizante, e faziam coro com as
mudanças que aconteciam na transição da Idade Média para a Idade
Moderna.
Resposta da questão 5:
[C]
A obra de Gil Vicente faz crítica a algumas práticas corruptas da sociedade,
ao mesmo tempo em que se aproxima de valores religiosos. Assim, ao criar
uma personagem de um frade corrompido pelos pecados da luxúria, mas
que a princípio deveria seguir as regras morais, o autor faz uma crítica social.
É interessante notar que a crítica é feita de forma cômica, a partir do perfil
do Frade: nota-se que ele chega à barca acompanhado de uma mulher, o
que por si só já é cômico, tratando-se de um frade. Dessa forma, a partir do
riso, Gil Vicente constrói uma obra de caráter moralista e correcional dos
costumes.
Resposta da questão 6:
[C]
Na alternativa [C], Maria Parda dirige-se a Martim Alho, implorando que lhe
dê de beber. Como justificativa, diz que tem o estômago tão seco como o
nariz de um judeu (“tão seco trago o umbigo/como nariz de Judeu”),
comparação que demonstra uma visão preconceituosa de caráter racial.
Resposta da questão 7:
a) As personagens desta obra são divididas em dois grupos: as alegóricas
e as personagens-tipo. No primeiro grupo inserem-se o Anjo e o Diabo,
representando respectivamente o Bem e o Mal, o Céu e o Inferno. No
segundo grupo incluem-se todas as restantes, nomeadamente o fidalgo D.
Anrique e o sapateiro Joanantão, personagens que, como todas as outras,
trazem elementos simbólicos que representam os seus pecados na vida
terrena e dos quais não conseguiram libertar-se. O fidalgo veste um longo
manto vermelho e vem acompanhado de um criado que porta uma cadeira,
elementos que simbolizam a vaidade e a arrogância. O sapateiro transporta
o avental e formas para fazer sapatos, símbolos da exploração interesseira
da classe burguesa comercial.
b) Tanto o fidalgo quanto o sapateiro acreditavam que os rituais
recomendados pela igreja católica para salvação da alma eram garantia
absoluta para entrar no Paraíso, o que é desmentido pelo diabo. O fidalgo
usa o argumento de que deixou na terra alguém que reza por ele (“Que leixo
na outra vida /quem reze sempre por mi”) e o sapateiro alega que o fato de
ter ouvido missas e se ter confessado antes de morrer lhe assegurariam a
entrada no Céu (“Os que morrem confessados, /onde têm sua passagem?”,
“Quantas missas eu ouvi, /não me hão elas de prestar?”).
Resposta da questão 8:
a) Tanto o major Vidigal como o Frade eram homens dados aos prazeres
mundanos: o primeiro ainda se sentia seduzido pelos encantos da Maria
Regalada, com quem tinha vivido maritalmente durante algum tempo, o
segundo contrariara os votos de castidade que a sua condição de frade
exigia. Na condição de pessoas que deveriam ser exemplo moral para os
outros, apresentam-se ambos em situação criticável pela conduta que
tiveram.
b) Gil Vicente, dramaturgo inserido no século XVI, escrevia as suas peças
com finalidade moralizante e didática. A sua crítica dirigia-se, sobretudo, às
pessoas que não seguiam as leis da moral e da ética e não às instituições a
que pertenciam. Assim, o Frade é castigado, pois é condenado ao Inferno,
onde será levado pelo Diabo e seu ajudante. Manuel Antônio de Almeida,
autor do Romantismo brasileiro, não pretendeu fazer crítica social, apenas
elaborou uma divertida crônica de costumes que retratava a classe média-
baixa no Rio de Janeiro, no tempo do rei D.João VI. A ausência de moralismo
é evidenciada no destino final dos personagens, que, de uma maneira geral,
não são punidos pelas faltas que cometem ao longo da sua vida.
Resposta da questão 9:
Trata-se de proposta muito interessante e que dá margem à criatividade do
aluno. Ela privilegia o aluno leitor e com repertório cultural, na medida em
que relaciona literatura e redação. A modalidade de escrita cobrada é a carta
argumentativa. Assim, apesar de o excerto do texto e o enunciado ditarem
características de Gil Vicente e sua obra, quem possui conhecimentos mais
profundos sobre autor e obra tem como explorá-los crítica e criativamente e
enriquecer o seu texto. Deve-se escrever a Gil Vicente argumentando sobre
a permanência, na realidade brasileira contemporânea, de problemas que
ele apontou na sociedade do século XVI. Ou seja, o aluno deve ter:
conhecimentos sobre aspectos da realidade em que vive, mantendo-se
informado por meio da leitura de jornais e revistas, por exemplo; senso crítico
para questioná-los; e conhecimentos literários para fazer a relação pedida
entre passado e presente.
Resposta da questão 10:
a) O Parvo acusa o Corregedor de se deixar subornar com as ofertas de
coelhos e pernas de perdiz.
O Corregedor é acusado de outros pecados, como: ter explorado os
trabalhadores inocentes ("ignorantes do pecado").
b) Para o Corregedor, o latim é instrumento de autoridade; para o Parvo, ao
contrário, é um meio de contestação da autoridade e de zombaria da pompa
de que se reveste o discurso autoritário.