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Indaial – 2021 ClíniCa Prof. Elder Ferri Lourenzi Profª. Maria Carolina Stipp Gonçalves 1a Edição Urinálise e Citopatologia Elaboração: Prof. Elder Ferri Lourenzi Profª. Maria Carolina Stipp Gonçalves Copyright © UNIASSELVI 2021 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI. Núcleo de Educação a Distância. LOURENZI, Elder Ferri. Urinálise e citopatologia clínica. Elder Ferri Lourenzi; Maria Carolina Stipp Gonçalves. Indaial - SC: UNIASSELVI, 2021. 201p. ISBN 978-65-5663-689-4 “Graduação - EaD”. 1. Urinálise 2. Citopatologia 3. Clínica CDD 610 Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático Urinálise e Citopatologia Clínica. A análise da urina compreende fatores físicos, químicos e microscópicos, sendo essencial para a triagem de pacientes em diferentes condições patológicas, principalmente aquelas que afetam os sistemas geniturinário, renal, hepático e metabólico do organismo. Na Unidade 1, abordaremos a fisiologia do sistema renal, com foco no funcionamento das estruturas renais para formar a urina, tal como os glomérulos e túbulos renais. Em seguida, veremos a importância dos cui dados nos parâmetros pré- analíticos, que envolvem a coleta e o transporte da amostra de urina tipo 1 de pacientes pediátricos e adultos, e da urina de 24 horas. Com esses conceitos introdutórios em mente, compreenderemos a análise analítica do exame de urina, como: análise macroscópica ou físi ca, com avaliação da coloração, pH, densidade e aspecto; análise química, por meio da avaliação de glicose, bilirrubinas, urobilinogênio, leucócitos, sangue, nitritos e proteínas; análise microscópica, na qual se verifica a pre sença de cristais, células, cilindros, entre outros componentes que fazem parte da urina. Na Unidade 2, estudaremos a citologia clínica, um ramo voltado ao rastrea- mento e à detecção de lesões celulares importantes do tipo neoplásica ou inflamató- ria, bem como à identificação de agentes patogênicos nas mais diversas amostras de material celular. Também conhecida como citopatologia ou citologia oncótica, veremos temas voltados aos aspectos históricos no Brasil e no mundo, suas aplicações e com- plicações, além da definição de citologia oncótica e seus objetivos, da estrutura de um laboratório e da epidemiologia do câncer, tema de fundamental importância para o entendimento da necessidade da atuação profissional nesse campo diagnóstico. Na Unidade 3, exploraremos a área da citopatologia que mais apresenta demanda: a citologia de colo uterino, que está ligada a muitos programas de prevenção do câncer dessa região anatômica, por meio do rastreamento. Assim, descreveremos células normais, inflamatórias e neoplásicas, micro-organismos e demais componentes presentes em uma amostra obtida do colo de útero – importantes para a o monitoramento interno e externo de qualidade, bem como para a nomenclatura padrão dos laudos citopatológicos. Boa leitura! Prof. Elder Ferri Lourenzi Profª. Maria Carolina Stipp Gonçalves APRESENTAÇÃO Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. 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SUMÁRIO UNIDADE 1 - URINÁLISE ........................................................................................................ 1 TÓPICO 1 - FORMAÇÃO DA URINA E PROCEDIMENTOS PRÉ-ANALÍTICOS .......................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3 2 FISIOLOGIA RENAL .............................................................................................................4 2.1 FORMAÇÃO DA URINA ......................................................................................................................... 5 2.2 COMPOSIÇÃO DA URINA ....................................................................................................................8 3 FASE PRÉ-ANALÍTICA .....................................................................................................10 3.1 COLETA DE URINA TIPO 1 PARA PARCIAL DE URINA ................................................................. 10 3.2 COLETA DE AMOSTRA EM BEBÊS ..................................................................................................12 3.3 COLETA DE URINA EM TEMPO MARCADO (24 HORAS) ............................................................ 13 4 TRANSPORTE, ARMAZENAMENTO E IDENTIFICAÇÃO DE AMOSTRA DE URINA .............14 RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 15 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................16 TÓPICO 2 - ANÁLISE FÍSICA E QUÍMICA DA URINA ........................................................... 19 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 19 2 CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DA URINA ........................................................................ 20 2.1 COR ........................................................................................................................................................20 2.1.1 Urina amarelo escuro, amarelo claro e transparente .........................................................21 2.1.2 Urina laranja, âmbar e mel .......................................................................................................21 2.1.3 Urina verde/azul ........................................................................................................................21 2.1.4 Urina rosa, vermelha, marrom ou preta ...............................................................................22 2.2 VOLUME ................................................................................................................................................23 2.3 DENSIDADE .........................................................................................................................................24 2.4 ASPECTO .............................................................................................................................................25 2.5 ODOR .....................................................................................................................................................26 3 AVALIAÇÃO QUÍMICA DA URINA ......................................................................................27 3.1 PH URINÁRIO .......................................................................................................................................28 3.2 GLICOSE ...............................................................................................................................................30 3.3 CORPOS CETÔNICOS .........................................................................................................................31 3.4 PROTEÍNAS .........................................................................................................................................32 3.5 UROBILINOGÊNIO/BILIRRUBINA .....................................................................................................32 3.6 HEMOGLOBINA E MIOGLOBINA .......................................................................................................33 3.7 NITRITOS ...............................................................................................................................................34 3.8 LEUCÓCITOS .......................................................................................................................................34 3.9 ÁCIDO ASCÓRBICO ............................................................................................................................35 3.10 RESULTADOS NA TIRA REATIVA ....................................................................................................35 4 URINA DE 24 HORAS ....................................................................................................... 36 4.1 CLEARANCE DE CREATININA .......................................................................................................... 37 4.2 PROTEINÚRIA ......................................................................................................................................39 4.3 SÓDIO URINÁRIO ................................................................................................................................39 4.4 CÁLCIO URINÁRIO ............................................................................................................................. 40 4.5 ÁCIDO ÚRICO ....................................................................................................................................... 41 4.6 POTÁSSIO .............................................................................................................................................42 4.7 UROPORFIRINAS ................................................................................................................................42 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 44 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 45 TÓPICO 3 - ANÁLISE SEDIMENTOSCÓPICA DA URINA .....................................................47 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................47 2 CÉLULAS .......................................................................................................................... 48 2.1 CÉLULAS EPITELIAIS ......................................................................................................................... 48 2.2 LEUCÓCITOS NA URINA ....................................................................................................................50 2.3 HEMÁCIAS NA URINA ........................................................................................................................50 3 CRISTAIS .......................................................................................................................... 51 3.1 CRISTAL DE FOSFATO TRIPLO ...........................................................................................................51 3.2 CRISTAL DE ÁCIDO ÚRICO ...............................................................................................................52 3.3 CRISTAL DE OXALATO DE CÁLCIO .................................................................................................52 3.4 URATO AMORFO .................................................................................................................................53 3.5 OUTROS CRISTAIS .............................................................................................................................54 4 CILINDROS ....................................................................................................................... 55 4.1 CILINDRO HIALINO .............................................................................................................................56 4.2 CILINDRO HEMÁTICO ........................................................................................................................56 4.3 CILINDRO LEUCOCITÁRIO ................................................................................................................ 57 4.4 CILINDRO EPITELIAL ......................................................................................................................... 57 4.5 OUTROS CILINDROS ......................................................................................................................... 57 5 OUTROS COMPONENTES URINÁRIOS ............................................................................ 58 5.1 BACTÉRIAS, LEVEDURAS E PARASITAS ........................................................................................59 5.2 MUCO ....................................................................................................................................................60 5.3 ESPERMATOZOIDES ...........................................................................................................................61 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 62 RESUMO DO TÓPICO 3 .........................................................................................................67AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 68 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................... 71 UNIDADE 2 — CITOLOGIA CLÍNICA .....................................................................................75 TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À CITOLOGIA CLÍNICA.............................................................. 77 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 77 2 ASPECTOS HISTÓRICOS E OBJETIVOS DA CITOLOGIA CLÍNICA .................................. 77 2.1 CITOPATOLOGIA NÃO GINECOLÓGICA.............................................................................................79 2.2 CITOPATOLOGIA GINECOLÓGICA ................................................................................................... 81 3 ESTRUTURA LABORATORIAL ......................................................................................... 83 3.1 LABORATÓRIO DE CITOLOGIA CLÍNICA .........................................................................................85 3.1.1 Materiais de escritório e administrativo ................................................................................85 3.1.2 Área técnica ................................................................................................................................86 4 ARQUIVAMENTO .............................................................................................................. 88 5 EPIDEMIOLOGIA DO CÂNCER .......................................................................................... 89 5.1 FATORES PARA O DESENVOLVIMENTO DAS NEOPLASIAS .......................................................90 5.1.1 Hereditariedade .......................................................................................................................... 91 5.1.2 Infecções ..................................................................................................................................... 91 5.1.3 Exposição solar e a radiações ...............................................................................................92 5.1.4 Tabagismo ...................................................................................................................................93 6 FATORES PREVENTIVOS ................................................................................................. 93 6.1 ALIMENTAÇÃO ......................................................................................................................................94 6.2 EXERCÍCIOS FÍSICOS .........................................................................................................................94 6.3 PREVENÇÃO DE CÂNCERES DE ETIOLOGIA MICROBIANA ......................................................94 RESUMO DO TÓPICO 1 .........................................................................................................96 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................97 TÓPICO 2 - COLETA E PROCESSAMENTO DE AMOSTRAS CITOLÓGICAS ........................99 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................99 2 CITOLOGIA ESFOLIATIVA .................................................................................................99 3 CITOLOGIA ASPIRATIVA .................................................................................................100 3.1 PAAF GUIADA POR PALPAÇÃO ......................................................................................................100 3.2 PAAF GUIADA POR ULTRASSOM ...................................................................................................101 3.3 CITOLOGIA EM MEIO LÍQUIDO ........................................................................................................102 4 COLETA E PROCESSAMENTO ........................................................................................103 4.1 COLETA DE EXAMES POR ESFOLIAÇÃO ......................................................................................103 4.2 LAVADOS ............................................................................................................................................105 4.3 MATERIAIS OBTIDOS ESPONTÂNEAMENTE ...............................................................................105 4.4 PUNÇÃO ASPIRATIVA POR AGULHA FINA (PAAF) ....................................................................105 5 PROCESSAMENTO DO MATERIAL CITOLÓGICO ...........................................................106 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................109 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 110 TÓPICO 3 - PRINCIPAIS APLICAÇÕES DA CITOLOGIA NÃO GINECOLÓGICA ................. 113 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 113 2 CITOLOGIA DA MAMA ..................................................................................................... 113 3 CITOLOGIA DA TIREOIDE .................................................................................................117 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................120 RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................125 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................126 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................128 UNIDADE 3 — CITOLOGIA GINECOLÓGICA .......................................................................133 TÓPICO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA DO COLO UTERINO .......................135 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................135 2 ANATOMIA DO TRATO GENITAL FEMININO ...................................................................135 2.1 OVÁRIOS .............................................................................................................................................. 136 2.2 TUBAS UTERINAS ............................................................................................................................. 137 2.3 ÚTERO ................................................................................................................................................. 137 3 FISIOLOGIA DO TRATO GENITAL FEMININO .................................................................139 4 COMPONENTES NORMAIS DO EXAME CITOPATOLÓGICO DE COLO DE ÚTERO ............. 141 4.1 CÉLULAS EPITELIAIS .........................................................................................................................141 4.1.1 Células escamosas .................................................................................................................. 142 4.1.2 Células glandulares endocervicais .....................................................................................144 4.1.3 Metaplasia escamosa ............................................................................................................. 145 4.1.4 Células endometriais ..............................................................................................................146 4.2 COMPONENTES NÃO EPITELIAIS .................................................................................................146 4.2.1 Hemácias...................................................................................................................................146 4.2.2 Leucócitos ................................................................................................................................ 147 4.2.3 Neutrófilos polimorfonucleares (PMN) .............................................................................. 147 4.2.4 Linfócitos e histiócitos ..........................................................................................................148 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................................149 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................150 TÓPICO 2 - CITOLOGIA INFLAMATÓRIA E MICRO-ORGANISMOS ..................................153 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................153 2 CITOLOGIA INFLAMATÓRIA ...........................................................................................153 2.1 VACUOLIZAÇÃO DO CITOPLASMA ................................................................................................ 154 2.2 HALO PERINUCLEAR ....................................................................................................................... 154 2.3 PSEUDOEOSINOFILIA ...................................................................................................................... 155 2.4 CERVICITE FOLICULAR E VAGINITE ATRÓFICA ......................................................................... 155 2.5 HIPERQUERATOSE E PARAQUERATOSE ..................................................................................... 156 3 REPARO TECIDUAL .........................................................................................................156 4 MICRO-ORGANISMOS .....................................................................................................158 4.1 BACTÉRIAS .........................................................................................................................................158 4.1.1 Bacilos de Döderlein (lactobacilos) ......................................................................................158 4.1.2 Gardnerella vaginalis .............................................................................................................. 159 4.1.3 Cocos e bacilos ........................................................................................................................160 4.1.4 Actinomyces .............................................................................................................................160 4.2 MICOSES (FUNGOS) ..........................................................................................................................161 4.2.1 Candida sp .................................................................................................................................161 4.3 PROTOZOÁRIOS ................................................................................................................................ 162 4.3.1 Trichomonas vaginalis ........................................................................................................... 162 4.4 INFECÇÕES VIRAIS ........................................................................................................................... 163 4.4.1 Herpes vírus .............................................................................................................................. 163 4.4.2 Papilomavírus humano (HPV) .............................................................................................164 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................168 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................169 TÓPICO 3 - LESÕES PRÉ-NEOPLÁSICAS E MALIGNAS DE COLO DE ÚTERO..................171 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................171 2 ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS .....................................................................................171 3 LESÕES INTRAEPITELIAIS ESCAMOSAS DO COLO UTERINO ..................................... 172 3.1 CRITÉRIOS CITOMORFOLÓGICOS DAS LESÕES INTRAEPITELIAIS DE BAIXO GRAU (LSIL) ..................................................................................................................... 174 3.1.1 Conduta médica recomendada após resultado ............................................................... 175 3.2 CARACTERÍSTICAS CITOMORFOLÓGICAS DAS LESÕES INTRAEPITELIAIS DE ALTO GRAU (HSIL) .....................................................................................176 3.2.1 Conduta médica recomendada após resultado ...............................................................177 3.3 ATIPIAS EM CÉLULAS ESCAMOSAS (ASC) ..................................................................................177 3.3.1 Atipias em células escamosas de significado indeterminado: ASC-US ........................177 3.3.2 Atipias em células escamosas não podendo afastar lesão de alto grau: ASC-H .................................................................................................................177 3.4 CARCINOMA ESCAMOSO ................................................................................................................ 179 3.4.1 Características citológicas e subclassificação ................................................................. 179 3.5 TUMORES MENOS FREQUENTES ..................................................................................................181 4 LESÕES GLANDULARES DO COLO UTERINO ................................................................ 181 4.1 ASPECTOS GERAIS ............................................................................................................................181 4.1.1 Atipia em células glandulares: AGC .....................................................................................182 4.2 ADENOCARCINOMA IN SITU (AIS).................................................................................................183 4.3 ADENOCARCINOMA INVASIVO ......................................................................................................184 4.4 LAUDO CITOPATOLÓGICO DO COLO DE ÚTERO........................................................................185 4.4.1 Avaliação pré-analítica ........................................................................................................... 187 4.4.2 Adequabilidade do material ................................................................................................. 187 4.4.3 Epitélios representados na amostra .................................................................................. 187 4.4.4 Dentro dos limites da normalidade ....................................................................................188 4.4.5 Microbiologia ............................................................................................................................188 4.4.6 Alterações celulares...............................................................................................................189 4.4.7 Observações .............................................................................................................................189 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................190 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 197 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................198REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 200 1 UNIDADE 1 - URINÁLISE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender os processos envolvidos na fisiologia renal para formação da urina e composição da urina; • realizar boas práticas laboratoriais para parâmetros pré-analíticos, como coleta e transporte de amostra de urina para diferentes análises; • interpretar as análises físicas e químicas da urina; • identificar células, cristais, cilindros, entre outros constituintes urinários observados no microscópio óptico. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – FORMAÇÃO DA URINA E PROCESSOS PRÉ-ANALÍTICOS TÓPICO 2 – ANÁLISE FÍSICA E QUÍMICA DA URINA TÓPICO 3 – ANÁLISE SEDIMENTOSCÓPICA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 FORMAÇÃO DA URINA E PROCEDIMENTOS PRÉ-ANALÍTICOS 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, será realizada uma introdução ao processo de formação da urina e aos aspectos pré-analíticos para a análise de amostras de urina. A formação da urina é um processo complexo, que envolve aspectos importantes da fisiologia renal e que, para ser compreendido, é necessário recordarmos a anatomia dos rins. Os rins (Figura 1) são órgãos com formato de feijão, encontrados abaixo do diafragma, um em cada lado da coluna vertebral. Cada rim é amplamente inervado pelo sistema nervoso central (SNC) e irrigado por vasos sanguíneos, além de conter um ureter. Os ureteres são responsáveis por direcionar a urina até a bexiga. Eles formam cálices na estrutura interna dos rins, que coletam a urina formada pelo tecido renal. Cada cálice encaixa-se em pirâmides renais, que constituem a medula do rim, e, no ápice das pirâmides, também conhecida como papila, projeta-se para um cálice menor. Esses componentes são constituídos por néfrons, túbulos e vasos sanguíneos, sendo localizados no interstício, em que podemos observar células como fibroblastos, responsáveis pela secreção de matriz extracelular e colágeno, proteoglicanos e glicoproteínas. Dessa forma, os rins somam uma série de importantes constituintes e funções fisiológicas que serão discutidas com mais detalhes mais adiante (EATON; POOLER, 2015). Entre elas, podemos destacar a formação da urina, que é analisada dentro da urinálise. Para que essa análise aconteça, torna-se necessária uma etapa denominada como fase pré-analítica, quando ocorre a coleta da amostra. TÓPICO 1 - UNIDADE 1 4 FIGURA 1 – ANATOMIA DO SISTEMA URINÁRIO E RENAL FONTE: Os autores No entanto, a fase pré-analítica não compreende somente a coleta da amostra biológica, mas também as etapas de transporte e armazenamento da amostra. Embora sejam aspectos básicos, esses processos são essenciais, uma vez que grande parte dos erros em laboratórios clínicos ocorrem na fase pré-analítica. Para amostras urinárias, isso não é diferente. Assim, caso as etapas que correspondem a essa fase sejam realizadas de forma incorreta, a análise torna-se comprometida (XAVIER; DORA; BARROS, 2016). 2 FISIOLOGIA RENAL Os rins são essenciais e indispensáveis para a sobrevivência do ser hu mano. Esses órgãos somam diferentes funções, que ajudam a manter a home ostasia no or- ganismo como um todo. Entre as suas principais funções se en contram: a gliconeo- gênese, produção de vitamina D, manutenção do equilíbrio acidobásico, controle da resistência vascular, produção de eritropoetina para controle na produção de eritróci- tos, regulação da osmolaridade plasmática, controle do volume do líquido extracelu- lar, manutenção do equilíbrio hídrico e eletrolítico e, de modo especial, o processo de excreção de substâncias que não são úteis para o organismo. De maneira geral, essas substâncias em concentra ções elevadas podem ser extremamente prejudiciais, levan- do à desregulação de condições fisiológicas de outros sistemas do corpo. Consequen- temente, os rins atuam em conjunto, por exemplo, com outros órgãos, como fígado e coração (EATON; POOLER, 2015). 5 2.1 FORMAÇÃO DA URINA Compreender a essência do funcionamento renal e, consequentemente, da formação da urina é simples, porque os rins recebem o líquido que chega pela corrente sanguínea, alteram a sua composição adicionando ou excluindo constituintes e formam a urina, que contém o equilíbrio de cada substância. Esse processo é realizado nos néfrons renais (Figura 2), responsáveis pela filtração do sangue, os quais precisam estar em perfeito estado de funcionamento (EATON; POOLER, 2015). FIGURA 2 – NÉFRON RENAL FONTE: Os autores Cada néfron é formado por um glomérulo e túbulos renais, que se encontram no ducto coletor. O glomérulo é formado por vasos sanguíneos e “coberto” pela cápsula de Bowman (corpúsculo renal). O sangue penetra pela cápsula de Bowman através das arteríolas aferentes para os capilares do glomérulo, e a arteríola eferente drena o sangue. Dentro da cápsula, há um espaço vazio, onde o líquido flui dos capilares glomerulares antes de penetrar na primeira porção do túbulo. Essa estrutura (Figura 3) forma uma barreira essencial para a filtração, similar a uma “peneira”, permitindo que passe grandes volumes e impedindo a passagem de grandes proteínas plasmáticas, como albumina (EATON; POOLER, 2015). 6 FIGURA 3 – GLOMÉRULO RENAL FONTE: Os autores A filtração glomerular é a etapa inicial para a formação da urina. O conteúdo filtrado é muito semelhante ao plasma sanguíneo, contendo substâncias livremente filtradas, como íons inorgânicos (sódio, potássio, cloreto, bicarbonato), solutos orgânicos sem carga elétrica (glicose e ureia), hormônios peptídicos (insulina, hormônio antidiurético) e aminoácidos de baixo peso molecular (EATON; POOLER, 2015). O conteúdo filtrado é medido pela taxa de filtração glomerular (TFG), que é igual a 180 L/dia em um homem adulto, jovem e saudável. Consequentemente, o sangue total chega a ser filtrado cerca de 60 vezes ao dia, permitindo a excreção de substâncias biotransformadas e a manutenção da homeostasia do organismo. Como exemplo, podemos imaginar que, caso todo o conteúdo filtrado fosse excretado de forma íntegra, urinaríamos várias vezes ao dia e ficaríamos desidratados em questão de poucas horas. Por isso, o conteúdo filtrado será encaminhado aos túbulos renais, onde ocorrem processos de reabsorção e secreção tubulares (Figura 4), ou seja, o líquido recebido é modificado de modo específico em cada segmento, a fim de enviar o líquido para o outro segmento. A reabsorção é caracterizada pela remoção de substâncias do túbulo renal para o sangue circulante; enquanto a secreção se caracteriza pelo acréscimo de substâncias do sangue circulante para o lúmen do túbulo renal (EATON; POOLER, 2015). Os túbulos renais são formados logo após o glomérulo e são uma extensão da cápsula de Bowman, dividindo-se basicamente em túbulo contorcido proximal, alça de Henle, túbulo contorcido distal e ducto coletor. Essas estruturas são constituídas por células epiteliais conectadas por junções firmes, responsáveis por manter as células unidas (EATON; POOLER, 2015). O túbulo proximal é o primeiro, localizado logo após a cápsula de Bowman. Dessa forma, ele drena o conteúdo filtrado por esse compartimento para a sequência de túbulos. Ele é responsável pelo primeiro processo de rea bsorção tubular, no qual são absorvidos novamente para o organismo cerca de dois terços da água filtrada, do sódio 7 e do cloreto. Além disso, todas as moléculas orgânicas úteis como glicose e aminoácidos precisam ser reabsorvidas para se rem conservadas no organismo. Compostos como potássio, fosfato, cálcio e bicar bonato são reabsorvidos parcialmente.Apesar de ser essencial para reabsorção, esse compartimento é responsável pela secreção de algumas substâncias, como produtos biotransformados (creatinina, ácido úrico) e fármacos (penicilina) (EA TON; POOLER, 2015). Logo após, encontramos a alça de Henle, que é um segmento dividido em ramo ascendente e descendente. De modo geral, é responsável por 20% da reabsorção do sódio e cloreto e 10% da água filtrada, líquido que se torna diluído em relação ao plasma normal, devido à concentração de sal absorvida ser superior à concentração de água. O túbulo distal reabsorve cerca de 10% de sal e água, já o ducto coletor mantém o processo de reabsorver sal e água, excretando, ainda, ácidos e bases, e regulando a excreção de ureia (EATON; POOLER, 2015). FIGURA 4 – FILTRAÇÃO, REABSORÇÃO E SECREÇÃO RENAL FONTE: <https://bit.ly/3DbxyDb>. Acesso em: 29 abr. 2021. Para visualizar melhor esses processos renais, assista ao seguinte vídeo sobre o processo de filtração, reabsorção, secreção e excreção renal, acessando: https://www.youtube.com/watch?v=R4cNMryGOro. INTERESSANTE 8 Portanto, percebe-se que é indispensável que determinadas substâncias sejam excretadas pelos rins e que esse processo é controlado por diferentes mecanismos, os quais, geralmente, têm funções muito similares. Assim, quando há uma falha nos controles de um mecanismo, ela pode ser compensada por outro. Caso isso não seja possível, o organismo é capaz de se adaptar a determinadas condições crônicas, modulando sua eficiência com o passar do tempo. Por fim, para cada substância do plasma, existe uma combinação particu lar de filtração, reabsorção e secreção, e a combinação desses fatores resulta no que será excretado e quanto. Os rins buscam regular as concentrações ideais de cada substância, de modo que, se algo está acima do normal, será excretado em maior quantidade ou vice-versa. 2.2 COMPOSIÇÃO DA URINA Como podemos perceber, a urina humana é constituída principalmente por água, que corresponde a cerca de 90 a 96% do volume total. A água é secretada através dos rins, coletada na bexiga e excretada na uretra. Além do componente líquido, a urina pode conter solutos, como sódio, potássio, cálcio, magnésio, cloreto, creatinina, ureia, vitaminas, hormônios, ácido úrico, dentro outros compostos orgânicos e inorgânicos (ROSE et al., 2015). Os compostos sólidos totais na urina chegam a pesar cerca de 59 g/cap/dia. A matéria orgânica corresponde a 65% a 85% dos constituintes sólidos secos da urina. A ureia é mais predominante, variando de acordo com a ingestão de proteínas, mas constituindo cerca de 50% dos sólidos orgânicos totais. Íons como Na+, K+ e Ca2+ também variam de acordo com a dieta. Outros íons menos frequentes são amônio, sulfatos de ácidos aminados e fosfatos, que podem mudar de acordo com o nível hormonal da paratireoide. Portanto, a composição de soluto é modificada conforme as condições ambientais, como uma variação na alimentação, através da ingestão de proteínas, sal, cálcio, ou ainda, por modulação na secreção hormonal (Figura 5) (ROSE et al., 2015). 9 FIGURA 5 – DIFERENÇA NA COMPOSIÇÃO DE SÓLIDOS NA URINA DE ACORDO COM A DIETA FONTE: Os autores A produção total de urina varia de acordo com a ingestão de líquidos, tamanho do corpo, prática de exercícios físicos excessivos (suor) e de acordo com a raça (ROSE et al., 2015). O Quadro 1 indica a relação entre esses fatores e a produção de urina por dia. FATOR PRODUÇÃO DE URINA Ingestão de líquidos O volume de água ingerido é, geralmente, igual ao volume de urina produzida. Tamanho do corpo Crianças produzem uma quantidade inferior de urina (50% a menos) do que adultos. Quanto maior o tamanho do corpo, maior a produção de urina. Exercícios físicos excessivos A prática excessiva leva ao suor, que, por sua vez, afeta a hidratação corpórea. Raça Mulheres negras têm volume urinário inferior (0,24 L/dia) do que mulheres brancas. QUADRO 1 – FATORES QUE LEVAM A VARIAÇÃO NA PRODUÇÃO TOTAL DE URINA FONTE: Os autores 10 3 FASE PRÉ-ANALÍTICA A fase pré-analítica compreende fatores que antecedem a análise laboratorial, voltados ao preparo do paciente, à identificação, à coleta, à manipulação, ao armazenamento e ao transporte de uma amostra biológica. Consequentemente, é uma fase repleta de possibilidades para os grandes erros em laboratórios clínicos, que, muitas vezes, não são controlados e/ou detectados. Uma vez que os erros ocorrem e não são identificados, isso pode levar a resultados incorretos, que não condizem com a realidade do paciente (XAVIER; DORA; BARROS, 2016). No entanto, o laboratório pode e deve buscar minimizar esses erros, pelo treinamento adequado dos profissionais responsáveis pelas tarefas. Quando existe uma gestão da qualidade da fase pré-analítica, os erros podem ser facilmente identificados e corrigidos, antes que prejudiquem a qualidade dos serviços prestados pelo laboratório, evitando, assim, outros problemas. Por esse motivo, uma padronização dos processos deve ser adotada, aumen tando a segurança e confiança do paciente. Considerando os parâmetros pré-analíticos para amostras de urina, eles podem fugir do controle do laboratório, uma vez que o paciente realiza a sua própria coleta. Contudo, uma orientação adequada possibilita que o paciente seja instruído da maneira correta para fazer a coleta do material, minimizando os principais erros pré- analíticos nessa área. Em relação à identificação do paciente, esta é de responsabilidade do laboratório, que deve confirmar o nome completo e dados pessoais do paciente respectivo a amostra recebida. Outro fator a ser analisado na entrega da amostra é se ela se encontra “apta” para análise, pois, em alguns casos, indica-se uma nova coleta. Esses casos incluem amostras em recipientes inadequados (vidros de conserva, potes de plásticos, entre outros); amostras com resquícios de fezes; amostras com tempo de coleta superior ao tempo de transporte permitido para a análise; amostras malconservadas. A seguir, poderemos entender mais sobre os processos de coleta e transporte da amostra de urina e sua importância da fase pré-analítica. 3.1 COLETA DE URINA TIPO 1 PARA PARCIAL DE URINA A coleta de amostra urinária para realização do parcial de urina é relativamente simples, mas precisa ser seguida à risca, caso contrário pode ocorrer contaminações importantes, que exigem a necessidade de uma nova coleta. De modo geral, ela é realizada pelo próprio paciente, por esse motivo, é necessário fazer uma correta orientação sobre as etapas, a fim de facilitar as fases analíticas (RAVEL, 1997). As recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) indicam que a primeira amostra da manhã é ideal para o exame de urina de rotina, porque ela se encontra mais concentrada, permitindo que os 11 elementos e substâncias químicas presentes sejam adequadamente analisa dos. Caso isso não seja possível, alguns laboratórios indicam um intervalo de 2 a 4 horas entre as micções para que, então, a coleta seja realizada (SBPC/ML, 2017). A urina é coletada em um frasco de material limpo, seco e à prova de vazamento. Os frascos não devem ser reutilizados, uma vez que a reutilização pode resultar em contaminação da amostra de urina. De modo geral, os laboratórios fornecem o frasco coletor ao paciente e solicitam que a amostra seja coletada em casa, a fim de que a primeira urina da manhã seja obtida (RAVEL, 1997). O paciente não precisa de nenhum preparo especial para realizar o exame, mas é importante informar que o uso de medicamentos ou os hábitos alimentares podem promover alterações significativas na amostra urinária (RAVEL, 1997). Além disso, o exame só será confiável se a amostra de urina for confiável. As regras para coleta adequada do material podem ser observadas nas Figuras 6 e 7. As regras são as mesmas para os exames parcial de urina ou cultura de urina (urocultura): • A região genitaldeve ser higienizada previamente com água e sabão neutro ou len- ço umedecido. O uso de soluções antissépticas pode interferir na análise química do exame. • O paciente deve desprezar o primeiro jato de urina, para que as impurezas contidas no canal uretral sejam eliminadas. • Após, o paciente pode coletar o jato médio urinário até preencher o frasco. • Por fim, o paciente deve desprezar o restante de urina no vaso sanitário. FIGURA 6 – ILUSTRAÇÃO PARA COLETA DE AMOSTRA DE URINA EM HOMENS FONTE: <https://bit.ly/3zdqgwc>. Acesso em: 17 mar. 2021. 12 FIGURA 7 – ILUSTRAÇÃO PARA COLETA DE AMOSTRA DE URINA EM MULHERES FONTE: <https://bit.ly/3zdqgwc>. Acesso em: 17 mar. 2021. 3.2 COLETA DE AMOSTRA EM BEBÊS A coleta em crianças pequenas é realizada com o auxílio de um saco cole tor infantil (Figura 8) estéril e é realizada no laboratório. Assim como no adulto, é importante realizar uma higiene prévia no órgão genital do bebê com o auxílio de água e sabão, ou, então, com lenço umedecido, sempre de cima para baixo. Caso o bebê não urine por um período de 30 minutos a 1 hora, o saco coletor precisa ser trocado e inserido novamente (FLEMING, 2015). Para colocar o saco coletor da maneira adequada, deve-se retirar o papel que recobre a parte adesiva do saco coletor e dobrar o adesivo ao meio, deixando a parte adesiva do saco coletor para fora, pois está será “fixada” na região do interglúteo. En- tretanto, o saco coletor deve ficar para baixo e há algumas variações para meninas e meninos (FLEMING, 2015). Para posicionar adequadamente o saco coletor: • Em meninos, é necessário colocar o órgão genital dentro da abertura do saco coletor, o qual é fixado na pele pela parte superior, a fim de evitar vazamentos. • Em meninas, é necessário abrir os grandes lábios da vagina, fixando a parte superior do adesivo. Isso é necessário para que a uretra fique dentro do círculo, a fim de evitar vazamentos. Em seguida, assim que a criança urinar, o saco coletor é retirado e o conteúdo é transferido para um pote coletor padrão. Caso o volume urinário seja muito baixo, pode ser necessário solicitar uma nova coleta de amostra. 13 FIGURA 8 – SACO COLETOR DE URINA INFANTIL FONTE: <http://lfleming.com.br/INSTRUCOES-COLETAS.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2021. 3.3 COLETA DE URINA EM TEMPO MARCADO (24 HORAS) A coleta de urina em tempo marcado é simples e muito utilizada para determinação de algumas substâncias, cuja excreção pode variar no decorrer de 24 horas. Assim, não podemos coletar uma amostra pontual, sem saber exatamente se a substância está presente naquele momento ou será excretada em maiores concentrações posteriormente. Dessa forma, precisamos quantificar a excreção urinária no período de 24 horas, para que os efeitos envolvidos na variação da excreção durante diferentes condições ou períodos do dia, não sejam prejudiciais para o exame (REIS, 2020; PINHEIRO, c2008-2021). Para realizar a coleta, o paciente deve escolher o horário mais confortável para a sua realização. De modo geral, indica-se que a primeira urina seja desprezada, devendo- se anotar o horário em que isso ocorreu. Por exemplo, se o paciente acordar às 8 horas, ele pode esvaziar a bexiga completamente no vaso sanitário. Isso é necessário porque a urina armazenada na bexiga foi produzida no período da noite, ou seja, se coletássemos essa urina, estaríamos considerando um período maior do que 24 horas. Ao coletar somente após a primeira micção e o horário marcado, teremos certeza de que a próxima urina foi produzida no período adequado (REIS, 2020; PINHEIRO, c2008-2021). Em seguida, toda nova micção durante as próximas 24 horas devem ser armazenadas no frasco coletor (Figura 9) fornecido pelo laboratório, indepen dente se for um volume grande, ou uma simples gota de urina. Caso seja ne cessário mais de um frasco, o mesmo deve ser solicitado ao laboratório, mas é importante enfatizar que todo conteúdo de 24 horas deve ser coletado. No dia seguinte, a coleta deve ser finalizada no mesmo horário em que iniciou. Uma tolerância de 10 minutos é permitida para mais e para menos (7h50min ou 8h10min, por exemplo), mas, se o paciente tiver vontade de urinar mais cedo do que o horário final, ele deve tentar ingerir líquidos para conseguir urinar novamente no horário final (REIS, 2020; PINHEIRO, c2008-2021). 14 FIGURA 9 – FRASCO COLETOR DE URINA DE 24 HORAS FONTE: <https://shutr.bz/3sJpO6y>. Acesso em: 19 mar. 2021. Alguns pontos devem ser enfatizados ao paciente, como a importância de coletar toda urina dentro desse período. Se o paciente urinar diretamente no vaso sanitário, no chuveiro, ou outro local, um novo ciclo deve ser iniciado. Além disso, o paciente só deve utilizar o frasco fornecido pelo laboratório, para evitar contaminações. Esses fatores são indispensáveis, pois, caso haja falha na coleta, o exame não será confiável e o laboratório não terá ciência disso, fazendo com o desfecho clínico para o paciente seja incerto, já que o médico pode tomar decisões incorretas de acordo com o resultado de uma amostra incompleta. 4 TRANSPORTE, ARMAZENAMENTO E IDENTIFICAÇÃO DE AMOSTRA DE URINA As amostras de urina, seja para parcial de urina, urocultura, ou urina de 24 horas, devem ser coletadas no recipiente fornecido pelo laboratório. Se o pa ciente não realizar a coleta no laboratório, a amostra deve ser encaminhada para análise em um período de 1 a 2 horas. É muito importante que a amostra seja mantida refrigerada nesse período. A amostra de urina de 24 horas pode perma necer fechada por até 48 horas em temperatura ambiente, contudo, o mais indica do é que seja refrigerada e entregue rapidamente ao laboratório (STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Ao receber amostras de urina, devemos verificar os dados do paciente, como nome completo, data da entrega e horário da coleta do material. Outro fator pré-analítico importante, é verificar se não há contaminação com fezes, menstruação ou coleta em outros recipientes, pois isso pode prejudicar as análises posteriores (STRASINGER; DI LORENZO, 2009). RESUMO DO TÓPICO 1 15 Neste tópico, você aprendeu: RESUMO DO TÓPICO 1 • O sistema urinário é formado pelos rins, ureter e bexiga. Os rins são órgãos vascularizados e que recebem inervação do sistema nervoso central. Já os ureteres, direcionam a urina até a bexiga, enquanto esta realiza o seu armazenamento, uma vez que será excretada pela uretra. • Os rins são indispensáveis para a sobrevivência do ser humano. Entre as principais funções dos rins estão a gliconeogênese, a produção de vitamina D, a manutenção do equilíbrio acidobásico, o controle da resistência vascular, a produção de eritropoetina para controle na produção de eritrócitos, a regulação da osmolalidade plasmática, o controle do volume do líquido extracelular, a manutenção do equilíbrio hídrico e eletrolítico e, de modo especial, o processo de excreção de substâncias que não são úteis para o organismo. • Os néfrons renais são formados por um glomérulo e túbulos renais, que se encontram no ducto coletor. O processo de filtração ocorre no glomérulo, por meio do qual os sólidos de baixo peso molecular e a água ultrapassam para os túbulos renais. Em seguida, uma série de processos de reabsorção e secreção é efetuada por túbulo contorcido proximal, alça de Henle, túbulo contorcido distal e ducto coletor. • A urina é composta principalmente por água (90 a 96% do volume total) e pode con- ter solutos, como sódio, potássio, cálcio, magnésio, cloreto, creatini na, ureia, vitami- nas, hormônios, ácido úrico, entre outros compostos organis mos e inorgânicos. • A coleta para parcial de urina e cultura de urina segue como critérios: higienização da região genital; descarte do primeiro jato de urina; coleta do jato médio urinário até preencher o frasco; e descarte do restante no vaso sanitário. • A urina de 24 horas segue parâmetros diferentes dos estabelecidos pelo parcial de urina. A primeira urina do dia é desprezada,sendo o horário anotado. Depois, o paciente coleta toda urina das próximas 24 horas e a armazena no frasco fornecido pelo laboratório. No dia seguinte, a coleta é finalizada no mesmo horário em que iniciou, com uma tolerância de 10 minutos, que é permitida para mais e para menos. • O transporte da amostra de urina deve ser realizado em um período de 1 a 2 horas após a coleta e o seu armazenamento, em geladeira. 16 1 Os parâmetros químicos da urina são úteis para predizer determinadas condições ou doenças que possam estar acometendo o paciente. De acordo com os parâmetros químicos da urina, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A gliconeogênese, produção de vitamina D e manutenção do equilíbrio acidobásico, correspondem a importantes funções renais. ( ) Entre as funções renais, está o processo de excreção de substâncias úteis para o organismo. ( ) Os rins auxiliam na produção de eritropoetina, na regulação da osmolalidade plasmática, no controle do volume do líquido extracelular, na manutenção do equilíbrio hídrico e eletrolítico. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 2 A coleta de amostra urinária é relativamente simples, mas precisa ser segui da à risca, caso contrário pode ocorrer contaminações/falhas importantes, que exigem a necessidade de uma nova coleta. Com base nas regras para coleta de uma boa amostra de urina, analise as sentenças a seguir: I- A coleta da primeira urina do dia é essencial para o parcial de urina, mas, caso o paciente não possa esperar e já tenha urinado, ele pode coletar após o período de 2 a 4 horas sem urinar. II- A urina de 24 horas é requerida em situações específicas de substratos ex cretados pela urina em diferentes períodos do dia, tornando-se necessário que o paciente colete toda a urina dentro de um período de 24 horas. III- A urina de 24 horas exige que o paciente colete a primeira urina da manhã e anote o horário, coletando toda a urina dentro do período de 24 horas, sem exceção. Após coletar a primeira urina da manhã do próximo dia, o paciente encerra a coleta e encaminha a amostra ao laboratório. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e III estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e II estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. AUTOATIVIDADE 17 3 Compreender a essência do funcionamento renal e, consequentemente, da formação da urina é simples, porque os rins recebem o líquido que chega pela corrente sanguínea, alteram a sua composição, adicionando ou excluindo constituintes e formam a urina, que contém o equilíbrio de cada substância. De acordo com os processos para filtração do sangue, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A filtração corre no glomérulo, que funciona como uma espécie de peneira, per- mitindo a passagem de constituintes sólidos de baixo peso molecular e água. b) ( ) A etapa de reabsorção ocorre no túbulo contorcido proximal, onde são reabsorvidas grandes quantidades de proteínas. c) ( ) A reabsorção permite que substâncias sólidas que não conseguiram atravessar pelo glomérulo, sejam excretadas nos túbulos renais. d) ( ) Os processos de excreção favorecem a retirada de substâncias dos túbulos re- nais para a corrente sanguínea, permitindo que as substâncias sejam armaze- nadas no organismo. 4 A coleta de urina em tempo marcado é muito utilizada para determinação de algumas substâncias, cuja excreção pode variar no decorrer de 24 horas. Disserte sobre a metodologia utilizada para essa coleta. 5 A fase pré-analítica compreende todos os processos que antecedem a análise laboratorial. Disserte sobre os principais erros pré-analíticos, relatando os cuidados necessários para evitá-los. 18 19 ANÁLISE FÍSICA E QUÍMICA DA URINA 1 INTRODUÇÃO A análise de urina, também denominada como urinálise, é considerada um parâmetro de baixo custo, não invasivo e relativamente simples, permitindo a obtenção de informações do sistema genito-urinário e demais sistemas do organismo. Isso é possível, devido às diversas funções dos rins em secretar substâncias e manter a homeostasia intrínseca. Dessa forma, quaisquer alterações podem ser detectadas por meio de uma análise simples da urina. Está análise se inicia após a coleta da amostra, que chega ao laboratório para a etapa analítica, ou seja, etapa em que ocorrem as avaliações da urina como um todo (ALVES, 2011; DALMOLIN, 2011; NETO, 2017). A fase analítica compreende todo o processo de avaliação física e química da amostra, assim como identificação de componentes microscópicos, que serão discutidos no tópico a seguir. Essas análises são de modo geral subjetivas, uma vez que o profissional responsável irá identificar visualmente aspectos físicos, como cor, turbidez, densidade e volume; ou ainda químicos, como bilirrubinas, urobilinogênio, hemácias, leucócitos, proteínas, glicose, e corpos cetônicos, através das tiras reagentes (ALVES, 2011; XAVIER; DORA; BARROS, 2016). É importante que a análise seja cautelosa, uma vez que se passar despercebida, pode prejudicar o diagnóstico do paciente. UNIDADE 1 TÓPICO 2 - A análise de urina é realizada somente após a cultura da urina, a fim de evitar contaminações durante a manipulação da amostra. Uma sugestão de leitura sobre o tema está disponível em: http://www. rbac.org.br/artigos/diagnostico-laboratorial-das-infeccoes-urinarias- relacao-entre-urocultura-e-o-eas/. IMPORTANTE 20 2 CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DA URINA A avaliação das características físicas da urina corresponde a aspectos básicos e, que normalmente, são avaliados de modo subjetivo, como cor, aspecto/ turbidez, densidade e volume. Assim, precisamos olhar cada amostra e identificar se há ou não alteração nesses parâmetros, não necessitando de qualquer outra análise mais aprofundada. Uma exceção tem sido a avaliação da densidade, que pode ser feita através da análise da tira reativa, em conjunto com os demais testes bioquímicos. A seguir, veremos um pouco mais sobre a importância da análise física da urina. 2.1 COR Uma amostra de urina pode chegar ao laboratório com cores distintas do ama- relo, como verde, azul, marrom, vermelha, rosa ou laranja. Cada uma dessas colorações é determinada por pigmentos endógenos ou exógenos, que modificam a coloração da urina. A alteração da cor urinária pode indicar modulações fisiológicas, que resultam na liberação de pigmentos endógenos, ou somente o resultado de pigmentos exógenos, oriundos da dieta alimentar. Apesar de ser um indicativo de que determinada condição esteja acometendo o paciente, a coloração da urina deve ser avaliada em associação aos demais dados da urinálise e ao quadro clínico do paciente, a fim de identificar possí- veis quadros fisiológicos ou patológicos (DALMOLIN, 2011; RAMIREZ, 2021). A coloração considerada normal da urina varia de transparente a amarela. Algu- mas condições podem aumentar a concentração urinária, resultando em uma coloração amarela mais escura, enquanto urinas mais diluídas apresentam colorações amareladas mais claras (NETO, 2017; RAVEL, 1997; RAMIREZ, 2021). A Figura 10 demonstra as dife- rentes colorações de uma amostra de urina. FIGURA 10 – DIFERENTES COLORAÇÕES DA URINA FONTE: Os autores 21 2.1.1 Urina amarelo escuro, amarelo claro e transparente A urina considerada normal, ou seja, aquela com a quantidade adequada de água e substâncias sólidas, deve estar entre os tons de amarelo-claro e transparente. Essa coloração se deve à excreção do urocromo, que, quanto mais diluído, menor o seu grau de coloração. Pacientes que consumem uma quantidade grande de água diariamente costumam produzir uma quantidade maior de urina. Além disso, essa urina estará com uma quantidade de água superior à quantidade de solutos, podendo chegar a ser transparente, dependo do grau de hidratação do paciente.Quando a urina está com o tom amarelo-escuro, provavelmente está mais concentrada, indicando que o paciente consume uma quantidade menor de água do que o normal, podendo ficar desidratado. No entanto, a coloração escura ainda é um parâmetro dentro da normalidade, uma vez que o consumo de água varia de uma pessoa para outra (NETO, 2017; RABINOVITCH et al., 2009; RAVEL, 1997; RAMIREZ, 2021). 2.1.2 Urina laranja, âmbar e mel A coloração alaranjada ou até mesmo âmbar/mel da urina pode indicar a excreção de pigmentos exógenos, adquiridos através da dieta. Contudo, de modo geral, é indicativa de desidratação do paciente. Quanto menor o consumo de água, mais concentrada será a urina, permitindo que pigmentos como bilirrubinas se tornem mais presentes e modifiquem a coloração da urina. Além disso, essa coloração pode indicar problemas hepáticos ou na vesícula biliar, através do aumento de bilirrubinas no sangue do paciente, que, consequentemente, serão mais excretadas na urina (NETO, 2017; RABINOVITCH et al., 2009; RAVEL, 1997; RAMIREZ, 2021). 2.1.3 Urina verde/azul A urina de coloração esverdeada ou azulada indica o consumo de pigmentos exógenos, que podem chegar ao organismo pelo uso de medicações ou pela dieta. Os medicamentos que mais causam alteração da cor da urina para o verde são a amitriptilina, propofol, nitazoxanida, Sepurin® (metenamina e metiltionínio) e indometacina, enquanto para a coloração azulada são triantereno, amitriptilina, indometacina e viagra. Quanto à dieta, o consumo de aspargos pode resultar na alteração de cor para o verde, assim como de alimentos ricos em corantes verdes/azulados (NETO, 2011; RABINOVITCH et al., 2009; RAVEL, 1997; RAMIREZ, 2021). Apesar disso, pode ser indicativo de quadros de infecção urinária, pois uma bactéria denominada como Pseudomonas aeruginosa é muito conhecida pela liberação de pigmentos esverdeados ou azulados, que podem sair na urina (RABINOVITCH et al., 2009; RAVEL, 1997). 22 2.1.4 Urina rosa, vermelha, marrom ou preta A coloração avermelhada ou rosada da urina é um forte indicativo de hemácias ou hemoglobina na amostra, condição conhecida como hematúria ou hemoglobinúria. A urina vermelha e com aspecto turvo indica a presença de hemácias (hematúria) íntegras na urina, dando o aspecto turvo devido à membrana celular, enquanto a urina vermelha límpida indica a presença de hemoglobina ou mioglobina. Isso acontece em quadros que ocorre sangramento nas vias urinárias, como em doenças renais e na próstata, ou processos infecciosos e tumores. Contudo, a coloração também pode ser influenciada pela dieta, pelo consumo de beterraba e amoras, ou pelo uso de medicamentos, como a rifampicina e vitamina B (LOPES et al., 2018; MAYO, c1998-2021; NETO, 2011; RABINOVITCH et al., 2009; RAVEL, 1997; RAMIREZ, 2021). Já a coloração mais escura ou, até mesmo, preta indica a presença de hemo- globina, mioglobina ou, ainda, de bilirrubina na amostra, conhecidas, respectivamente, como hemoglobinúria, mioglobinúria e bilirrubinúria. A hemoglobina se torna marrom em condições de baixo pH, similar ao que ocorre com o sangue no fim da menstruação. Essas condições são normalmente relacionadas a problemas hepáticos ou casos de desidratação severa. Outro caso possível é a presença de melanina na amostra, que também pode deixar a urina escura (LOPES et al., 2018; MAYO, c1998-2021; NETO, 2011; RABINOVITCH et al., 2009; RAVEL, 1997; RAMIREZ, 2021). O uso de alguns medicamentos pode resultar na coloração preta ou marrom da urina, como metildopa, metronidazol, levodopa e cloroquina. Urina roxa Apesar de ser pouco comum, pode ocorrer em pacientes com infecções do trato urinário, principalmente de pacientes que usam cateter vesical em hospitais. As bactérias que são envolvidas nesse processo são Providencia stuartii, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli ou Enterococcus, pois metabolizam o triptofano, resultando em pigmentos vermelhos e azuis, que, ao se misturarem, podem ficar roxos. Isso está associado à modificação do pH da urina e à insuficiência renal. Para saber mais sobre o assunto, sugerimos a seguinte leitura: https:// bit.ly/3mtek60. INTERESSANTE 23 2.2 VOLUME A avaliação do volume tem deixado de ser relevante na urinálise, uma vez que usamos um valor padronizado para análise de 10 mL e não conseguimos predizer, com uma única amostra, se o volume excretado resulta de um aumento do volume urinário. Contudo, a alteração no volume urinário pode ser descrita pelo paciente durante a anamnese e traz indícios essenciais para complementar a urinálise do paciente. De modo geral, o volume da urina indica a quantidade de água excretada pelos rins e determina o estado de hidratação do corpo, assim como a ingestão de fluidos, perda de fluidos por fontes não renais, variação na secreção do hormônio antidiurético ou, ainda, a necessidade de excretar grandes quantidade de solutos, como glicose e sais. Essa avaliação é mais bem observada na urina de 24 horas, em que o volume pode ser entre 800 e 1.500 mL/dia (STRASINGER; DI LORENZO, 2009; XAVIER; DORA; BARROS, 2016). O Quadro 2 indica a denominação para as variações no volume urinário, bem como as principais causas envolvidas. QUADRO 2 – VARIAÇÕES NO VOLUME URINÁRIO DENOMINAÇÃO ALTERAÇÃO DO VOLUME URINÁRIO CAUSAS Oligúria Redução do volume urinário Desidratação pela perda de água, seja por vômitos, diarreia, transpiração, queimaduras grades. Anúria Cessação do fluxo urinário Resultado da oligúria, ou lesão renal grave, assim como redução do fluxo sanguíneo para os rins. Nictúria Aumento na excreção noturna da urina Volume diurno é 2 a 3 vezes maior que o noturno. Poliúria Aumento do volume urinário diário Diabetes melito, uso de diurético, cafeína ou álcool. FONTE: Os autores 24 2.3 DENSIDADE A densidade da urina permite verificar qual a concentração da urina, ou seja, reflete se o rim é capaz de concentrar ou de diluir a urina, não sendo influenciada pelo tempo de armazenamento da amostra. Ela é definida como a relação entre a massa de um volume líquido e a massa de um mesmo volume de água destilada, sendo muito utilizada na prática clínica (STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Existem dois métodos para avaliação desse parâmetro: a refratometria e a medida em tira reagente. Como a tira reagente é amplamente utilizada em laboratórios clínicos, dificilmente utilizamos a metodologia de refratometria (também conhecida como urodensímetro), pois, embora seja de uso simples, dificultaria a rotina do labo- ratório clínico. A Figura 11 ilustra o refratômetro. Para utilizá-lo, deve-se levantar a tampa de acrílico, pingar uma gota da urina no visor, fechar a tampa de acrílico e apontar o refratômetro para uma luz. Em seguida, irá aparecer uma divisão escuro/claro, com a medida da densidade da urina. FIGURA 11 – REFRATÔMETRO FONTE: Os autores Para a avaliação através da tira reagente, basta verificar o tom de cor da almofada respectiva (Figura 13), a densidade e indicar a densidade da urina do paciente. O princípio do teste é relativo à concentração iônica e se baseia na alteração aparente do pKa, cuja coloração pode variar entre o verde azulado-escuro ao verde amarelado. É preciso ter cautela durante a avaliação, pois, caso a glicose e proteína do paciente estejam alterados, pode ocorrer uma variação na cor da densidade, conduzindo a interpretação errônea de que o paciente está com a densidade aumentada. Ela deve estar entre 1005 e 1035, ou seja, quanto menor a densidade, mais diluída será a urina e, quanto maior a densidade, mais concentrada; portanto, ela varia de acordo com a hidratação do paciente e o consumo de líquidos (BIOTÉCNICA, 2019). 25 Assim como a avaliação dos parâmetros que correspondem à urinálise, a densidade precisa ser considerada em conjunto com as demais análises e com a clínica do paciente, porque uma diminuição na densidade pode indicar tanto poliúria (aumentodo volume urinário) e polidipsia (aumento na ingestão de líquidos) quanto falência renal primária, já que uma lesão nos túbulos renais pode conduzir para uma dificuldade renal em concentrar a urina. Portanto, ao avaliar o grau de hidratação do paciente, é possível verificar se a urina concentrada é resultado de um paciente desidratado, eliminando falha renal como causa da desidratação (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009). A relação entre volume e densidade é inversa: quanto menos a quantidade água na urina, maior a densidade. DICAS 2.4 ASPECTO O aspecto da urina pode ser associado a avaliação da cor, uma vez que é um parâmetro subjetivo, avaliado a olho nu. Sua avaliação deve ser realizada rapidamente, logo após a coleta de preferência, pois o armazenamento pode facilitar a precipitação de cristais, principalmente se não for feito do modo correto ou com tempo superior a 2 horas (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Como o paciente realiza a coleta à domicílio na maioria das vezes, é possível implementar a análise do aspecto logo que a urina chegar ao laboratório, para evitar que esse parâmetro se altere devido ao prazo para análise. Com a avaliação do aspecto, deve-se verificar a turbidez da urina, que pode ser influenciada pela concentração da urina. Quanto mais concentrada uma urina, mais turva ela será e, quanto menos concentrada, mais límpida. A sua des crição segue exatamente esse princípio, sendo que a urina pode apresentar aspec to turvo, levemente turvo ou límpido (Figura 12) (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). A presença de fatores celulares, como leucócitos, hemácias, cristais, cilindros, bactérias ou, ainda, muco, leveduras, material fecal e lipídeos, pode deixar a amostra mais turva. Contudo, só é possível identificar a causa de uma variação do aspecto na avaliação do sedimento urinário (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 26 FIGURA 12 – ASPECTOS DA AMOSTRA DE URINA FONTE: <https://bit.ly/38efEBy>. Acesso em: 23 mar. 2021. A amostra de urina pode aparecer com espuma, que, normalmente, está relacionada com a quantidade de proteína na amostra. Para entender mais sobre o assunto, sugerimos como leitura o seguinte texto da Associação Nacional de Atenção ao Diabetes: https://www. anad.org.br/por-que-minha-urina-e-espumosa/. INTERESSANTE 2.5 ODOR O odor da urina não é usualmente utilizado como parâmetro avaliativo em labo- ratórios clínicos, mas é perceptível e pode indicar alguns fatores anormais da amostra. Contudo, assim como os demais parâmetros, precisa ser avaliado em conjunto com ou- tros dados (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). A urina recém-coletada possui aroma de sui generis (único do seu gênero), mas não é desagradável. No entanto, o odor pode mudar de acordo com a alimentação do paciente, como a ingestão de alho e aspargos, ou ainda pela presença de infecções ou outras doenças. O odor fétido pode indicar presença de infecções, enquanto o odor frutal pode indicar paciente diabético, com aumento de corpos cetônicos (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 27 3 AVALIAÇÃO QUÍMICA DA URINA A avaliação química, também denominada como bioquímica da urina, é re- alizada através das tiras reagentes. Esse método é qualitativo ou semiquantitativo e permite monitorar aspectos bioquímicos da urina, como a presença de hemácias, leucócitos, nitrito, urobilinogênio, bilirrubinas, proteínas, além de avaliar o pH e a den- sidade urinária (discutida na avaliação física da urina) (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). No entanto, antes de desvendar o significado de cada parâmetro, é preciso entender como obtemos esses resultados – processo que pode ser observado na Figura 13. Sua metodologia é simples e rápida. Inicialmente, homogeneizamos a amostra de urina, retiramos as tiras reativas do tubo e fechamos o tubo imediatamente. Só então, as tiras são imersas na urina por cerca de 2 segundos. É importante lembrar que todas as almofadas devem entrar em contato com a urina. O excesso de urina deve ser retirado, acomodando a tira sob um papel toalha, para evitar que ocorra mistura de reagentes químicos das áreas da reação. Posteriormente, a leitura do resultado pode ser manual ou automatizada (BIOTÉCNICA, 2019). A leitura manual é acompanhada com a escala de cores das almofadas correspondentes no rótulo da embalagem nos tempos especificados pelo fabricante, indicando a presença ou a ausência de cada um dos parâmetros avaliados e ainda a quantidade dos parâmetros. É importante enfatizar que não podemos tocar nas tiras reativas para evitar contaminações e erros de leituras (BIOTÉCNICA, 2019). FIGURA 13 – TÉCNICA MANUAL PARA LEITURA DA TIRA REAGENTE FONTE: Os autores 28 A leitura automatizada das tiras reagentes é realizada por instrumentos que identificam a coloração de cada almofada que compõe a tira. De modo similar à leitura manual, a tira é inserida pelo técnico na urina, mas, em seguida, é inserida no equipamento. Após a leitura, o equipamento emite o resultado, que pode ser observado em um painel digital ou ainda impresso. A automatização da leitura de tiras reagentes, além de diminuir o tempo da avaliação, minimiza a chance de erros ou diferenças de intepretação entre diferentes profissionais, devido à interpretação das cores, sendo muito utilizada em laboratórios de grande porte. A Figura 14 ilustra um equipamento que realiza esse tipo de leitura. Para desvendar cada uma das leituras realizadas pela tira reagente, a seguir, serão apresentadas informações muito importantes sobre cada parâmetro avaliado na análise química da urina. FIGURA 14 – LEITOR AUTOMÁTICO DE TIRA REAGENTE FONTE: <http://www.kovalent.com.br/equipamento/uriscan-pro/>. Acesso em: 26 mar. 2021. 3.1 PH URINÁRIO O pH urinário não é proporcional ao pH sanguíneo (7,35 a 7,45), sendo relativamente ácido no período da manhã, estando entre 5,0 e 6,0. No decorrer do dia, esse pH pode variar entre 4,5 e 8,5, podendo ser diretamente influenciado por equilíbrio acidobásico do sangue, função renal, dieta ou uso de medicamen tos, presença de infecção bacteriana ou, ainda, pelo tempo de coleta e armaze namento da urina (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Todavia, o ponto mais importante para o pH urinário se deve ao fato dos rins, em conjunto com os pulmões, serem responsáveis pela manutenção do equilíbrio acidobásico do sangue, pois promovem a excreção de substâncias ácidas e básicas. A excreção de hidrogênio, por exemplo, ocorre através na forma de íons amônio, fosfato de hidrogênio e ácidos orgânicos fracos; já o bicarbonato pode ser reabsorvido nos túbulos renais. Apesar de ser uma avaliação importante, para determinar a existência de 29 distúrbios eletrolíticos sistêmicos de origem metabólica ou respiratória, ou, ainda, para o tratamento de problemas urinários que exija o controle do pH urinário, não existem valores de referência ou normais para o pH urinário, pois ele deve ser avaliado com os dados clínicos do paciente. Contudo, com as mudanças no pH urinário, a urina pode ser ácida ou alcalina (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). O Quadro 3 exemplifica os principais responsáveis pelas alterações de pH para urina alcalina e ácida. QUADRO 3 – URINA ALCALINA E URINA ÁCIDA URINA ALCALINA URINA ÁCIDA Dieta pobre em proteínas Dieta rica em proteínas Dieta rica em laticínios Dieta pobre em laticínios Dieta com frutas cítricas (formação de bicarbonato de sódio) Diarreia Citrato de potássio Uso de diuréticos Infecções bacterianas por bactérias produtoras de urease (conversão de ureia em amônia) Patologia nos túbulos renais Uso de medicamentos (por exemplo, acetazolamina) Hipocalemia, pois há maior reabsorção de K+, acompanhada da excreçãode H+ Alcalose respiratória ou metabólica, devido à menor excreção de íons H+ Acidose respiratória ou metabólica, devido à maior excreção de íons H+ Decomposição da amônia em ureia, devido à retenção da urina Vômito, que induz perda de HCl e K+, promovendo reabsorção de Na+ e bicarbonato da urina Atraso no processamento Conservação inadequada de amostra Administração de substâncias básicas FONTE: Os autores Para avaliação do pH, podemos utilizar as tiras reagentes de urinálise, tiras de pH ou pHmetros. A almofada correspondente ao pH na tira reagente é composta por um sistema de medição do pH que usa indicador duplo com vermelho de metila e azul de bromotimol. O vermelho de metila é ativo na faixa de 4,4 a 6,2 de pH, mudando do vermelho para o amarelo, enquanto o azul de bromotimol é alterado do amarelo para o azul na faixa de 6,0 a 8,6. As faixas de 5,0 a 9,0 na tira reativa podem ser visualizadas 30 nas cores desde laranja (pH 5,0), passando pelo amarelo e verde, até o azul-escuro final (pH 9,0). De modo geral, as tiras são confiáveis, não interagindo com outras substâncias, mas, por serem avaliadas subjetivamente pelo profissional responsável dentro de um espectro de cores, pode haver pequenos erros na interpretação da cor apresentada. Dessa forma, o uso de pHmetros apresenta uma sensibilidade superior, uma vez que liberam de modo preciso o pH da urina. No entanto, as tiras reagentes facilitam o dia a dia do laboratório, sendo mais utilizadas (BIOTÉCNICA, 2019). Urina de recém-nascido não chega ao pH 9,0 nem mesmo em condições patológicas. Caso isso ocorra, provavelmente está ligado à conservação incorreta. INTERESSANTE FIGURA 15 – INDICADOR DE PH FONTE: <https://shutr.bz/3DfGVBB>. Acesso em: 27 abr. 2021. 3.2 GLICOSE A glicose é filtrada pelo glomérulo e, então, reabsorvida no túbulo contorcido proximal, não estando presente na composição da urina. Dessa forma, a presença de glicose na urina, também conhecida como glicosúria, não é considerada normal. Quando presente na amostra urinária, a glicose passa pelo processo de oxidação pela 31 glicose oxidase, originando ácido glucônico e peróxido de hidrogênio, o qual reage com o iodeto de potássio na presença da peroxidase. Quanto mais cromógeno oxidado, maior a variação da coloração, abrangendo de verde a marrom (Figura 16) (BIOTÉCNICA, 2019). Caso apareça, duas condições precisam ser investigadas: lesão nos tú bulos renais e hiperglicemia. A hiperglicemia é a principal condição associada a presença de glicose na urina, a qual ocorre devido ao excesso de glicose que deveria ser reabsorvida pelos túbulos proximais, que, por estarem sobrecarre gados, não conseguem exercer a sua função, ou seja, a glicose é secretada na urina. Quando a glicosúria está presente na ausência de hiperglicemia, devemos suspeitar de lesões tubulares, pois os túbulos renais não estão exercendo sua função normal de reabsorver a glicose do filtrado glomerular e podem aumentar a excreção de glicose (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Essa análise, assim como as demais, precisa ser feita com rapidez, pois, caso o paciente esteja com infecção urinária, as bactérias presentes na amostra de urina podem consumir a glicose, resultado em um resultado falso-negativo (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 16 – INDICADOR DE GLICOSE FONTE: <https://bit.ly/2WqndT6>. Acesso em: 28 abr. 2021. 3.3 CORPOS CETÔNICOS A presença de corpos cetônicos na urina, conhecida como cetonúria, não é uma condição fisiológica. Ela ocorre somente em casos de aumento de corpos cetônicos no sangue, que é resultado de um desequilíbrio no metabolismo de ácidos graxos e carboidratos. Isso pode ocorrer durante dietas rigorosas, com baixo ou nenhum consumo de carboidratos, ou em jejuns prolongados; durante quadros de cetoacidose diabética, em que os pacientes diabéticos apresentam aumento de corpos cetônicos; ou, ainda, em casos de febre, doenças agudas, hipertireoidismo, gravidez e aleitamento, pois essas 32 condições estão associadas ao aumento de corpos cetônicos no sangue, que resultam na sua excreção na urina (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Para sua detecção na tira reativa, utiliza-se o nitroprussiato de sódio e ácido acetoacético, que reagem com a acetona, variando de rosa-claro a roxo. O resultado é expresso em cruzes, indicando quantos corpos cetônicos estão presentes na amostra, podendo ser negativo ou positivos (+, ++, +++ e ++++) (BIOTÉCNICA, 2019). 3.4 PROTEÍNAS As proteínas não são secretadas na urina, uma vez que não são filtradas pelo glomérulo. Caso ela esteja presente, pode ser decorrente de problemas renais ou, ainda, de quadros independentes da função renal. Ao considerarmos mecanismos independentes dos rins, identificamos que quadros de desidratação, febre, convulsões, exercício muscular intenso, frio ou calor intenso podem resultar no aumento de proteínas no sangue e no aumento de pequenas proteínas que serão filtradas pelos rins. Esse aumento ainda pode ser um resultado de processos inflamatórios e infecciosos do trato urinário inferior, que resultam na liberação de proteínas na urina. Quando pensamos em um quadro decorrente de problemas renais, normalmente, está ligada a processos inflamatórios ou infecciosos nos glomérulos e/ou túbulos renais, resultando em falhas nos mecanismos de transporte tubular. Pequenos traços de proteínas podem ser considerados normais, mas esse resultado precisa ser associado à densidade urinaria, já que está relacionado com a concentração da urina (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). A determinação desse parâmetro urinário se dá através da avaliação da tira reagente, que detecta a albumina, liberando resultados semiquantitativos. A reação para detecção de proteínas se baseia na mudança de cor do indicador azul de tetrabromofenol que reage com as proteínas, variando do amarelo ao verde (BIOTÉCNICA, 2019). 3.5 UROBILINOGÊNIO/BILIRRUBINA O urobilinogênio é um produto da degradação da bilirrubina pelas bactérias intestinais. A bilirrubina, por sua vez, é formada graças a degradação da hemoglobina. Uma vez formado no intestino, o urobilinogênio chega ao sangue, sendo que uma pequena quantidade pode ser excretada na urina. Contudo, qualquer aumento da bilirrubina plasmática leva ao aumento de urobilinogênio urinário, podendo ser detectado antes que ocorra icterícia, por exemplo. De modo geral, a bilirrubina direta, ou não conjugada, não é excretada nos rins, já que está ligada à albumina. No entanto, 33 caso haja uma lesão glomerular, ela pode aparecer na urina. Portanto, o aumento de urobilinogênio está ligado diretamente a problemas hepáticos ou hemolíticos, assim como em quadros de obstrução das vias biliares, como nas colestases (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). O teste para detecção de bilirrubina se baseia na ligação da bilirrubina com a diacloroanilna diazotizada em meio ácido, que resulta na variação de cor, diretamente proporcional à concentração na urina. Já para detectar o urobilinogênio, utiliza-se a re- ação modificada de Erlich entre os compostos p-dietilaminobenzaldeído e ácido urobili- nogênico, que, em meio fortemente ácido, resulta na coloração rosa (BIOTÉCNICA, 2019). 3.6 HEMOGLOBINA E MIOGLOBINA A presença de sangue na urina (hematúria) indica lesão renal ou lesão do trato genitourinário, como ocorre em processos inflamatórios, infecciosos e neoplasias. Para detectar o sangue, as tiras reagentes utilizam a porção heme, presente na hemoglobina e na mioglobina, ou seja, a identificação de hemoglobina e mioglobina ocorre em conjunto nas tiras reativas, mas corresponde a quadros patológicos diferentes. Sua distinção deve ser observada com cautela e avaliada com outros dados clínicos e biológicos do paciente (GRAFF, 1983; RABINOVITCH etal., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). O aumento de hemoglobina (hemoglobinúria) está associado a presença de hemácias integras que são lisadas no meio urinário diluído, ou quando há elevado nível de hemoglobina no sangue, devido a quadros de hemólise na circu lação sanguínea. Já o aumento de mioglobina (mioglobinúria) ocorre em quadros de rabdomiólise, sendo resultado de injúria isquêmica, traumática, tóxica ou ain da necrose tecidual (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). “A rabdomiólise (RM) e uma síndrome caracterizada por uma destruição das fibras musculares esqueléticas e que resulta na liberação dos constituintes intracelulares das fibras para a circulação sanguínea”. Leia mais em: https://sbrate.com.br/esporte- com-saude/rabdomiolise/. DICAS 34 O princípio do teste tem como base a atividade da pseudoperoxidase da hemoglobina, responsável por catalisar a reação de di-hidroperóxido de iso propilbenzeno e 3-3’,5,5’-tetrametilbenzidina, resultando em um espectro de cor que vai do amarelo ao azul. Caso apareçam pontos verdes-azulados ou manchas, tem-se forte indicativo de eritrócitos íntegros (BIOTÉCNICA, 2019). 3.7 NITRITOS A identificação de nitritos é um parâmetro muito importante e permite identificar a presença de infecções bacterianas. Caso haja presença de bactérias Gram-negativas, de modo geral, há a conversão do nitrato urinário em nitrito, identificado na fita reativa com coloração rosa. É importante esclarecer que resultados negativos de nitrito não indicam ausência de infecção, pois as bactérias podem não ter tempo suficiente para realizar a conversão, podem não converter nitrato em nitrito ou, ainda, produzir quantidades insuficientes para serem identificadas no teste. Assim, a urocultura é a única capaz de confirmar a presença ou ausência de infecção bacteriana urinária, mas o teste de nitrito positivo é um forte indicador dessa condição (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). A reação para detecção do nitrito é feita pelo uso de ácido p-arsanílico em meio acidificado, que reage com o nitrito e forma um composto diazônico, o qual se liga com o 1-naftil-etilenodiamino para produzir a coloração rosa que indica um teste positivo (BIOTÉCNICA, 2019). 3.8 LEUCÓCITOS Os leucócitos, quando presentes nas amostras de urina, estão diretamente relacionados com processos inflamatórios ou infecciosos que promovem um aumento das células de defesa no corpo para tentar combater a infecção ou, ainda, a injúria estabelecida, que pode estar localizada tanto no trato urinário baixo quanto no trato urinário alto (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). A identificação de leucócitos na urina identifica a esterase dos granuló citos. A esterase reage com o éster de ácido amino pirazol, liberando hidroxipi razol. Por sua vez, o pirazol irá reagir com o sal diazônico, resultando em um espectro de cor violeta, que é proporcional à quantidade de leucócitos presentes na amostra de urina (BIO- TÉCNICA, 2019). 35 3.9 ÁCIDO ASCÓRBICO A detecção do ácido ascórbico permite a identificação de falhas no teste da tira reagente, uma vez que interfere na detecção de hemoglobina, glicose, nitritos, bilirrubina e cetonas. Esse teste não está presente em todas as tiras reagentes, mas pode ser encontrado como controle em algumas marcas (BIOTÉCNICA, 2019). 3.10 RESULTADOS NA TIRA REATIVA A leitura de uma variação de cores pode ser complexa. Como podemos perce- ber, a leitura da tira reagente leva a todos os resultados esperados pela análise química da urina. Por esse motivo, não poderíamos deixar de ilustrar, em detalhes, o espectro de cores das almofadas, indicando a cor respectiva a determinado resultado. Na Figura 17, podemos observar as alterações de cores que ocorrem para leucócitos (LEU), nitrito (NIT), urobilinogênio (URO), proteína (PRO), pH, sangue (BLO), densidade (SG), cetonas (KET), bilirrubinas (BIL) e glicose (GLU) (BIOTÉCNICA, 2019). Apesar disso, ressalta-se que cada leitura é realizada de acordo com o kit utilizado e que pequenas alterações no espectro de cores podem ser encontradas. FIGURA 17 – ESCALA DE CORES PARA LEITURA DA TIRA REAGENTE 36 FONTE: <https://bit.ly/389dHpR>. Acesso em: 28 abr. 2021. 4 URINA DE 24 HORAS O exame de urina de 24 horas possibilita quantificar substâncias específicas excretadas na urina e que podem predizer o funcionamento dos rins. Essa avaliação precisa ser realizada dentro do período de 24 horas, pois a excreção de uma substância pode variar ao longo dia, o que dificulta a padronização do teste com uma amostra coletada em um horário fixo. Ao coletar toda a urina dentro do período de 24 horas, essa variação é minimizada e a análise se torna mais confiável. No entanto, utilizamos somente uma pequena alíquota para realizar as análises, não sendo necessário utilizar todo volume coletado. Além disso, é importante lembrarmos que cada substância detém de uma ou mais metodologias específicas para sua determinação e que cada laboratório irá determinar o que melhor se adequa a sua realidade. Coletar somente uma pequena amostra em um horário aleatório pode não dizer a real excreção renal. IMPORTANTE 37 4.1 CLEARANCE DE CREATININA A creatinina não possui função biológica, sendo excretada pelos rins; é o produto da degradação da creatina muscular, utilizada como reserva enérgica dos músculos. Dessa forma, é correto afirmar que a produção de creatinina varia de acordo com a massa muscular do paciente (GALANTE; ARAÚJO, 2012). Atualmente, ela é um importante marcador da função renal, uma vez que é produzida de modo constante e sofre uma pequena influência da dieta do paciente, mantendo os níveis plasmáticos e urinários praticamente inalterados. Quando ocorre um aumento da creatinina no plasma do paciente, há um forte in dício de problemas na excreção renal. No entanto, pode decorrer também de qua dros de necrose muscular, atrofias e distrofias musculares, hipertrofia da próstata ou, ainda, obstrução dos ureteres e da uretra (GALANTE; ARAÚJO, 2012). Sua determinação pode ser feita por metodologias de cinética enzimática ou com o uso de ligantes, como no método do picrato alcalino de Jaffé. Para a realização do teste, uma pequena alíquota da urina do paciente deve ser diluída em 1:5 ou 1:25, dependendo do teste realizado. O método de Jaffé tem como base a reação da crea- tinina presente na amostra com o picrato alcalino e acidificante, sendo que a reação é monitorada a 510 nm em espectrofotômetro, podendo ser realizada uma leitura pontual (método de ponto final) ou, ainda, uma leitura seriada (método cinética), de acordo com as preferências do laboratório (GOLD ANALISA, 2018a). Já o método cinético, proposto pela bula da Labtest, promove uma série de conversões enzimáticas a partir da creati- nina até formar quinoneimina, detectada a 526 nm (LABTEST, 2012). Confira a bula da Labtest para mais informações sobre o teste enzimático para determinação de creatinina. Acesse: https://bit.ly/3sLoqjE. DICAS São valores de referência para urina de 24 horas: • Crianças: 8 a 22 mg/kg de peso corporal/24 horas. • Homens: 21 a 26 mg/kg de peso corporal/24 horas. • Mulheres: 16 a 22 mg/kg de peso corporal/24 horas. 38 Para avaliar, de modo preciso, esse parâmetro na urina, é realizado o clearance de creatinina, ou depuração da creatinina, no qual são necessárias dosagens plasmá- ticas e urinárias. Por meio dessa medida, é possível avaliar a depuração de creatinina endógena (DCE), cuja fórmula é apresentada a seguir, determinando a quantidade de sangue que os rins conseguem filtrar por minuto. É importante ressaltar que, para que o exame seja exato, deve-se levar em conta outros fatores, como o volume da urina, o tempo de coleta e a superfície corporal do paciente (DUSSE et al., 2016). Para entender um pouco mais sobre os biomarcadores da função renal. leia o artigo na integra,no link: http://www.rbac.org.br/artigos/biomarcadores- da-funcao-renal-do-que-dispomos-atualmente/. DICAS A depuração de creatinina endógena pode ser feita por meio da seguinte fórmula: Em que: U corresponde à creatinina na urina (mg/dl); V, ao volume urinário (mL/ min); P, à creatinina no plasma ou soro (mg/dl); A, à superfície corporal em m2; e 1,73, à superfície corporal padrão. Como exemplo, podemos citar um paciente do sexo masculino, de 50 anos de idade, que obteve os seguintes resultados de creatinina: • Creatinina na urina: 50 mg/dL. • Creatinina no soro: 1,2 mg/dL. • Volume da urina de 24 horas: 2.000 mL em 24 horas, ou seja 1,39 mL/min. • Superfície corporal do paciente: 1,80. Com esses dados, podemos calcular a depuração de creatinina endógena, utilizando a fórmula descrita: 39 Como resultado da DCE, temos 120,235 mL/min/1,73 m2. São valores de referência para o resultado: • Crianças: 40 a 140 mL/min/1,73 m2. • Mulheres adultas: 88 a 128 mL/min/1,73 m2. • Homens adultos: 97 a 137 mL/min/1,73 m2. 4.2 PROTEINÚRIA A avaliação da proteína urinária permite identificar com exatidão a quantidade de proteína excretada. É importante lembrar que em situações fisiológicas essa excreção não ocorre. Além disso, é possível avaliar a presença de proteínas específicas, como a albumina, por exemplo, que quando presente é denominada como albuminúria (GALANTE; ARAÚJO, 2012). Para determinação dos níveis de proteínas em uma amostra urinária, podem ser utilizadas diferentes metodologias, como os métodos colorimétricos, os métodos de ligação a correntes como Bradford, vermelho de pirogalol, Ponceau S e CBB, ou, ainda, o método de biureto, que determina a concentração de proteínas precipitadas após um tratamento da amostra de urina com ácido (ALVES et al., 2017). O valor de referência é de até 150 mg/24 horas. Acadêmico, não se esqueça de que cada laboratório escolhe o método que melhor se adapta a sua rotina ATENÇÃO 4.3 SÓDIO URINÁRIO O sódio é essencial na manutenção da osmolaridade e do volume plasmáti- co, sendo o principal íon extracelular. A sua concentração plasmática é regulada pelo sistema renina-angiotensina-aldosterona renal. A dosagem de sódio na urina é uma forma indireta de identificar a quantidade de sal ingerida pelo paciente durante a ali- mentação. Caso o paciente ingira uma quantidade muito elevada de sódio, este é normalmente excretado nos rins. Todavia, a quantidade de sódio excretada depende de quanto sódio e água foi reabsorvido nos túbulos renais. Se pouco sódio for reab- sorvido, a produção de urina é maior e, se muito sódio for reabsorvido, urina-se menos (GALANTE; ARAÚJO, 2012). 40 Contudo, a manutenção entre o equilíbrio sódio e água pode estar prejudicada na doença renal crônica, sendo o primeiro problema importante a ser reportado durante o agravamento da lesão renal. Em um quadro de doença renal crônica, o nível de sódio acaba se alterando no organismo, levando ao aumento ou à diminuição desse íon no plasma (GALANTE; ARAÚJO, 2012). Para determinar a concentração de sódio na urina, utiliza-se um eletrodo seletivo para o íon de sódio, por meio do método potenciométrico. No entanto, para obter uma informação completa a respeito da excreção urinária desse íon, utiliza-se a fórmula de FENA, na qual se considera a concentração de sódio na urina (UNa), o sódio sérico (PNa), a creatinina urinária (Ucr) e a creatinina sérica (Pcr) (HENRY, 2008). Em condições normais, o resultado fica entre 0,5 e 1%. Valores superiores a 1% indicam lesão tubular aguda, não ocorrendo a reabsorção máxima de sódio; já valores abaixo de 1% podem estar ligados ao aumento de aldosterona, provocado principalmente em casos de desidratação. Ainda é possível encontrar valores abaixo de 0,1%, que indicam que ocorre uma produção máxima de aldosterona (HENRY, 2008). O valor de referência considerado está entre 135 e 145 mEq/L. 4.4 CÁLCIO URINÁRIO O cálcio é o íon mais abundante no organismo, estando presente, principalmen- te, nos ossos, que também é o principal depósito de cálcio. Pode ser encontrado, ainda, nos tecidos moles e nos líquidos extra e intracelular. Esse cátion possui funções essen- ciais na contração muscular e na coagulação sanguínea, por exemplo. Seu metabolismo é complexo e envolve a absorção intestinal (quanto de cálcio é absorvido), a deposição nos ossos e a excreção renal. É regulado por calcitonina, vitamina D e hormônios ti- reoidianos e sexuais e, de modo mais específico, pelo paratormônio (PTH) (GALANTE; ARAÚJO, 2012). O aumento do cálcio urinário (hipercalciúria) está diretamente relacionado com a formação de cálculo renal, que pode ser originado pela deposição de nutrientes como cálcio, oxalato, sódio, potássio, proteínas, purinas, vitamina C e baixa ingestão de líquidos (GALANTE; ARAÚJO, 2012). A dosagem na urina de 24 horas ocorre com uso de uma alíquota de 20 mL de urina, a qual é adicionado 20 mL de HCl 6 mol/L. Em seguida, a amostra é homogeneizada. Para a realização do teste, deve-se esperar cerca de 60 minutos, sendo uma pequena alíquota retirada do ensaio colorimétrico de ponto final. De acordo com 41 o teste disponível, o ensaio pode ter, como princípio, a reação do cálcio com púrpura de ftaleína em meio alcalino, o qual é mensurado a 570 nm em espectrofotômetro (LABTEST, 2014a), bem como a reação do cálcio com arsenazo III, que é mensurado a 660 nm em espectrofotômetro (GOLD ANALISA, 2018b). O valor de referência do cálcio na urina está entre 150 e 300 mg/dL. 4.5 ÁCIDO ÚRICO O ácido úrico tem origem endógena e exógena. A origem endógena ocorre a partir da degradação de nucleotídeos, como a adenosina e a guanina; já a exógena pelo consumo alimentar, que corresponde a 75% do total de ácido úrico diário. A grande maioria, cerca de 3/4 do total de ácido úrico, é excretada pelos rins e o restante pelo trato gastrointestinal (GALANTE; ARAÚJO, 2012). Quando há um quadro de aumento de ácido úrico urinário, podemos suspeitar de doenças como gota, caracterizada por: • aumento da síntese e da deposição de cristais de urato nas articulações; • aumento da destruição dos nucleotídeos, como ocorre nas leucemias, na policitemia e no uso de quimioterápicos; • defeitos enzimáticos na via das purinas, podendo ser por deficiência enzimática ou pela hiperatividade da enzima; • ou, ainda, distúrbios nos túbulos renais, pois, normalmente, ocorre devido ao aumento na produção, na excreção ou de ambos. Esse aumento precisa ser identificado, a fim de evitar a formação de cálculos renais devido à deposição de cristais de urato. A hiperuricosúria pode estar associada, ainda, ao aumento do cálcio sérico, a distúrbios ósseos e à diminuição do ácido úrico plasmático (hipouremia) (GALANTE; ARAÚJO, 2012). O ácido úrico é determinado por meio da reação de Trinder, a qual tem especificidade da enzima uricase. A reação ocorre pela oxidação do ácido úrico pela uricase, formando alantoína e peróxido de hidrogênio, que, por sua vez, reagem com DHBS e 4-aminoantipirina. Para a urina, uma alíquota de 10 mL é separada, e o pH é ajustado para 7,0-9,0 com NaOH 5%. Em seguida, a urina é aquecida por 10 minutos a 56 °C, a fim de que os cristais de urato e ácido úrico sejam dissolvidos. Posteriormente, é necessário diluir a urina em 1:10 (LABTEST, 2014b). É importante mencionar que cada laboratório terá a sua metodologia, sendo que, para muitos casos, essas dosagens são totalmente automatizadas. Os valores de referência para o ácido úrico na urina são de 250 a 750 mg/dL. 42 4.6 POTÁSSIO O potássio é um íon encontrado, principalmente, no meio intracelular e tem como função o controle do metabolismo celular, participando, assim, dos mecanismos de excitação neuromuscular. Alterações nos níveis de potássio podem ser fatais, uma vez que são essenciais para a manutenção do funcionamento do coração. O potássio pode ser utilizado na investigação de doenças nos túbulos renais, uma vez que, na insuficiênciarenal, ocorre uma diminuição da excreção de potássio. Além disso, alguns fármacos podem interferir na sua excreção, como os inibidores da enzima conversora de angiotensina, os anti-inflamatórios não esteroides, a ciclosporina, o cetoconazol, entre outros (GALANTE; ARAÚJO, 2012). Sua determinação ocorre através de uma alíquota da urina e o uso de um eletrodo seletivo de íons (ESI), responsável por converter a atividade (ou concentração efetiva) do íon dissolvido na urina em um potencial elétrico, mensurado por um voltímetro (ASIRVATHAM et al., 2013). O valor de referência do potássio na urina é de 22 a 125 mmol/L. 4.7 UROPORFIRINAS A uroporfirina é uma porfirina solúvel em água e excretada na urina ou, em me- nores concentrações, no sangue e nas fezes. Para essa análise, a amostra deve ser coletada em frasco âmbar com conservante (5 g de bicarbonato por litro de urina), man- tido sob refrigeração e protegido da luz no período da coleta. Sua detecção ocorre pelo método de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), através de uma alíquota de 4,0 mL de urina em tubo âmbar. É muito útil no diagnóstico de porfirias, uma condição que decorre de “deficiências enzimáticas na biossíntese do grupo heme da cadeia da hemoglobina” (DINARDO et al., 2010, p. 106). Além disso, é útil no diagnóstico da into- xicação por metais pesados, como chumbo, leucemias, linfomas e anemia hemolítica. O valor de referência para uroporfirina é inferior a 35 µg/24 horas. Para saber mais sobre a cromatografia líquida de alta eficiência, sugerimos a leitura do seguinte texto: https://freitag.com.br/blog/o-que- e-a-cromatografia-liquida-de-alta-eficiencia/. DICAS 43 Conheça um pouco mais sobre porfirias com a leitura do artigo Porfirias: quadro clínico, diagnóstico e tratamento: https://www.revistas.usp.br/revistadc/ article/view/46282/49937. DICAS 44 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • A avaliação física da urina é subjetiva, mas essencial, pois auxilia na análise conjunta dos dados da urinálise do paciente. Modificações na coloração, aspecto e densidade são fortes indicativos de que outros parâmetros bioquímicos estão alterados. • A avaliação bioquímica ou química da urina é feita por meio de tiras reativas, que auxiliam na detecção de parâmetros importantes da urinálise, como nitritos, hemoglobina, leucócitos, urobilinogênio, bilirrubinas, proteínas, corpos cetônicos, glicose e pH. • A avaliação da urina de 24 horas é muito importante, pois permite a análise completa de componentes urinários de um paciente, como creatinina, proteínas, sódio, potás- sio, ácido úrico e cálcio urinário. Além disso, o volume urinário só pode ser avaliado, de modo concreto, com uma coleta realizada em 24 horas, pois a coleta do parcial de urina indica somente uma pequena parcela do volume urinário do paciente. • A associação entre os testes realizados na urina, assim como a avaliação dos parâmetros clínicos do paciente, é essencial, uma vez que os parâmetros obtidos pela urina são somente uma triagem, não podendo predizer diagnóstico de determinadas patologias ao paciente. • Pacientes com doenças renais podem apresentar: proteínas, leucócitos, hemoglobi- na, com diminuição ou aumento da densidade, diferença na coloração e no aspecto. • Pacientes com infecções, normalmente, apresentam teste de nitrito e leucócitos positivos. Caso o teste de nitrito seja negativo, a infecção não pode ser descartada, já que o teste diagnóstico é a urocultura e algumas bactérias não convertem nitrato em nitrito. • A presença de glicose e corpos cetônicos pode ocorrer em pacientes diabéticos, mas também estão relacionados com outros fatores. 45 RESUMO DO TÓPICO 2 1 Paciente diabético, com elevados níveis glicêmicos e em estado de cetoacidose diabética, chega ao pronto-atendimento. Considerando os parâmetros urinários desse paciente e de acordo com suas funções renais, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Um paciente com glicose e corpos cetônicos positivos na tira reagente, provavelmente, é diabético. ( ) A bilirrubina e o urobilinogênio podem indicar distúrbios biliares ou hemolíticos. ( ) A presença de proteínas na amostra de urina é considerada normal. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 2 Paciente, sexo feminino, 30 anos de idade, atleta, apresentou as seguintes alterações no exame de urina: traço de proteína, corpos cetônicos + e pH de 5,0. Com base na análise química da urina, analise as sentenças a seguir: I- A presença de corpos cetônicos na amostra pode ser indicativa de que a paciente esteja com quadro de diabetes melito. II- O pH ácido da amostra indica que a paciente possui uma dieta rica em proteínas. III- A presença de traços de proteína é comum em atletas, principalmente se a amostra for coletada logo após um intenso exercício físico. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II e III estão corretas. b) ( ) Somente a sentença I está correta. c) ( ) As sentenças I e II estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 A coloração da urina é importante para predizer determinadas condições do paciente. Sobre a cor da urina, assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE 46 a) ( ) A coloração azulada ocorre em quadros de problemas hepáticos, em que há um excesso de bilirrubina sendo excretado. b) ( ) A coloração amarela indica que a amostra de urina está com uma quantidade excessiva de proteínas. c) ( ) A coloração preta ocorre devido a processos de infecção bacteriana com Pseudomonas aeruginosa. d) ( ) A coloração transparente e amarelo-claro são indicativos de que o paciente está saudável e bem hidratado. 4 Paciente, sexo masculino, 60 anos de idade, chegou ao pronto-atendimento relatan- do fortes dores na coluna, oligúria, vômitos e queda da pressão arterial. O quadro a seguir apresenta os resultados dos exames solicitados: Exame Físico Volume 10 mL Cor Vermelho Aspecto Turvo Densidade 1.100 Exame Químico pH 4,5 Proteína ++++ Corpos cetônicos Ausência Hemoglobina ++++ Nitrito + Leucócitos +++ Glicose ++ Urobilinogênio + FONTE: Os autores Disserte sobre o provável diagnóstico do paciente. 5 Paciente, sexo feminino, 70 anos de idade, reclama de dores articulares e inchaço na região do dedo dos pés. O hemograma da paciente foi normal. Após realizar o exame de urina de 24 horas para determinação de ácido úrico urinário, os resultados do exame apresentaram 1.200 mg/dL de ácido úrico. Disserte sobre o provável diagnóstico da paciente. 47 TÓPICO 3 - ANÁLISE SEDIMENTOSCÓPICA DA URINA 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, conheceremos a análise do sedimento urinário. A obtenção do sedimento urinário é realizada somente após a leitura dos parâmetros físicos e químicos da urina. A análise é precedida de centrifugação, para que haja a separação física dos componentes da urina de acordo com a sua densidade. Os elementos pesados e sólidos irão se sedimentar. Para isso, o método clássico e manual utiliza cerca de 10 a 15 mL da amostra. A amostra é centrifugada de 1.500 a 2.500 rpm, por 10 minutos, e o sobrenadante é descartado. Em seguida, o sedimento obtido é ressuspenso e uma gota é coletada e colocada sobre uma lâmina. A análise pode proceder utilizando uma lâmina convencional ou lâminas específicas, como a câmara de Neubauer e K-cell (Figura 18), a qual deve ser analisada no microscópio óptico (ALVES, 2011). UNIDADE 1 FIGURA 18 – CÂMARA DE NEUBAUER (A) E LÂMINA K-CELL (C) OBSERVADAS EM MICROSCOPIA ÓPTICA (B E D) FONTE: Adaptada de <https://centerlabsp.com.br/blog/como-utilizar-a-lamina-k-cell>; <https://bit. ly/3gw8yNl>. Acesso em 30 mar. 2021. 48 A análise microscópica é muito importante, pois complementa os dados obtidos na análise física e química, em que os elementos sólidos, como hemácias, leucócitos, células epiteliais, bactériase cristais, podem ser avaliados e identificados com mais cautela. Cada achado possui morfologia característica e contribui para identificar doenças de todos os sistemas do corpo (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Além de ser essencial para visualização dos componentes microscópicos, é útil para identificar possíveis contaminações na amostra, assim como auxiliar no diagnóstico das infecções ou lesões renais ou, até mesmo, acompanhar e identificar um paciente diabético (GRAFF, 1983; RABINOVITCH et al., 2009; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 2 CÉLULAS A análise do sedimento urinário possibilita identificar os constituintes celulares da urina, como as células epiteliais, hemácias e leucócitos, e, ao quantificá-los, podemos indicar se ocorrem processos inflamatórios ou infecciosos no trato urinário. 2.1 CÉLULAS EPITELIAIS A classificação das células epiteliais se dá de acordo com o local de origem, po- dendo ser células epiteliais escamosas, células epiteliais de transição e células epiteliais tubulares. Apesar de ser uma nomenclatura importante, normalmente não indicamos no laudo qual tipo de célula epitelial estava presente na amostra do paciente. Assim, o resultado é expresso de acordo com a presença ou ausência de células epiteliais na urina. Para quantificação, utilizamos o padrão de campo, no qual a presença de até três células é conhecida como rara, de quatro a 10 células, como “algumas” e de 10 células, como “numerosas” (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). No entanto, identificar o tipo celular é importante para predizer se há alteração na amostra e qual sistema se encontra comprometido. As mais encontradas em amostras de urina são as escamosas (Figura 19), pois constituem o canal vaginal e uretral de mulheres e homens. De modo geral, ao serem encontradas, podem indicar contaminação da amostra urinária e, nesse caso, também podemos encontrar uma quantidade significativa de bactérias. Para identificar se realmente se trata de uma coleta inadequada, devemos avaliar os demais parâmetros da amostra, assim como a clínica do paciente (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 49 FIGURA 19 – CÉLULA EPITELIAL ESCAMOSA (EM B, INDICADA PELO CÍRCULO AMARELO) FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/2WoxCyi>. Acesso em: 9 maio 2021. As células epiteliais de transição (Figura 20) estão presentes na bexiga e, normalmente, aparecem em quadros de infecção urinária. Nesse caso, a presença dessas células estará acompanhada de uma quantidade significativa de leucócitos (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 20 – CÉLULAS EPITELIAIS DE TRANSIÇÃO (DESTACADAS NO CÍRCULO AZUL) FONTE: Adaptada de Câmara (2017, n.p.) Já as células tubulares (Figura 21) constituem os túbulos renais e aparecem na urina esporadicamente, mas, quando associadas a cilindros, são forte indício de problemas renais. Quanto mais células tubulares, maior a lesão renal e maior a chance de perda de função. Consequentemente, quando encontramos essas células, podemos identificar parâmetros bioquímicos como ureia e creatinina alterados também (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 50 FIGURA 21 – CÉLULA EPITELIAL TUBULAR FONTE: <https://bit.ly/2WoxCyi>. Acesso em: 9 maio 2021. 2.2 LEUCÓCITOS NA URINA A presença de leucócitos (Figura 22) na urina pode ser considerada normal, quando em pequenas quantidades (< cinco leucócitos por campo – 10.000 leucócitos por mL de urina). No entanto, quando ultrapassa essa quantidade, isso indica a presença de um processo infeccioso, lúpus eritematosos sistêmicos, doenças renais ou, ainda, tumores (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). O valor de referência no laudo é de até cinco leucócitos por campo. FIGURA 22 – LEUCÓCITOS FONTE: Câmara (2017, n.p.) 2.3 HEMÁCIAS NA URINA Uma pequena quantidade de hemácias (Figura 23) na urina pode ser considerada normal (< três por campo), mas o aumento dessas células está diretamente relacionado com doenças renais. Não é acompanhada de sintomatologia, mas, em 51 grande quantidade, pode ser visualizada a olho nu pela mudança de coloração da urina para rosa-claro a vermelho. Além de indicar lesão renal, sua presença também está relacionada com infecção urinária, processos inflamatórios no trato geniturinário, uso de medicamentos, como anticoagulantes, presença de cálculo renal ou ainda câncer nos rins (GREENBERG, 2014; LOPES et al., 2018; MAYO, 1998-2021). O valor de referência no laudo é de até três hemácias por campo. FIGURA 23 – HEMÁCIA FONTE: Câmara (2017, n.p.) 3 CRISTAIS Os cristais na urina estão associados à precipitação de substâncias presentes no organismo, que é resultado de alteração no pH da urina, infecções urinárias, alteração brusca na temperatura do organismo ou, ainda, uma elevada concentração desses componentes, que pode ocorrer pela dieta ou por uso de medicamentos. Os mais comuns são as substâncias orgânicas como cálcio, magnésio e fosfato, sendo que sua presença em quantidades baixas na urina não indica quadro patológico. No entanto, a grande concentração desses cristais pode indicar doenças como gota, cálculo renal ou infecções urinárias (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). É importante ressaltar que existem diferentes tipos cristais diretamente correlacionados com determinadas condições. Os mais comuns são os cristais de fosfato triplo, ácido úrico e oxalato de cálcio, mas eles não são os únicos. Por isso, deve- se ter atenção às informações apresentadas a seguir. 3.1 CRISTAL DE FOSFATO TRIPLO O fosfato triplo (Figura 24), normalmente, é encontrado em urinas alcalinas, sendo composto por fosfato, magnésio e amônia. Sua presença é considerada normal, mas o aumento desse cristal pode indicar infecção urinária ou hipertrofia prostática (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 52 FIGURA 24 – CRISTAL DE FOSFATO TRIPLO FONTE: <https://bit.ly/3zhzXtN>. Acesso em: 9 maio 2021. 3.2 CRISTAL DE ÁCIDO ÚRICO O cristal de ácido úrico (Figura 25) é encontrado em pH urinário ácido e está diretamente relacionado com uma dieta rica em proteínas, pois é importante lembrarmos que o ácido úrico é um produto da degradação de proteínas. Apesar disso, eles também estão presentes em doenças como gota e nefrites crônicas (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 25 – CRISTAL DE ÁCIDO ÚRICO FONTE: <https://bit.ly/38rKDKB>; <https://bit.ly/3myMMMC>. Acesso em: 28 jul. 2021. 3.3 CRISTAL DE OXALATO DE CÁLCIO O cristal de oxalato de cálcio (Figura 26) é encontrado em urinas neutras ou ácidas e, apesar de ser normal em baixas concentrações, seu aumento está relacionado com cálculo renal, devido à baixa ingestão de água e à rica ingestão de cálcio. Além disso, é comum encontrarmos esses cristais em condições como diabetes melito, doenças hepáticas ou renais graves (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 53 FIGURA 26 – CRISTAL DE OXALATO DE CÁLCIO FONTE: Câmara (2017, n.p.) 3.4 URATO AMORFO Os uratos (Figura 27) ocorrem em pH urinário ácido ou em amostras resfriadas, sendo encontrados com outros cristais citados anteriormente. O resfriamento induz a cristalização de algumas substâncias na urina, resultando, assim, no aparecimento de uratos. Portanto, a análise rápida da amostra é essencial, para evitar interferências no laudo. Sua presença em grande concentração pode resultar na alteração da coloração da urina para rosa, mas, de modo geral, não causam sintomas no paciente. No exame sedimentoscópico, os uratos são caracterizados por um conjunto granulado amarelo a preto (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 27 – URATO AMORFO FONTE: <https://bit.ly/38rKDKB>. Acesso em: 31 mar. 2021. 54 3.5 OUTROS CRISTAIS Além dos cristais já apresentados, cristais de bilirrubina, carbonato de cálcio,cistina, colesterol, leucina, magnésio-amônio-fosfato e tirosina também são encontrados na urina, com menor frequência, porém não podem ser descartados. É muito importante atentar a esse tipo de informação, pois esses cristais são ligados a condições clínicas, muitas vezes, graves e devem ser identificados no laudo do paciente de maneira correta. A Tabela 1 apresenta as suas indicações, ilustrando o cristal. TABELA 1 – OUTROS CRISTAIS ENCONTRADOS EM AMOSTRAS DE URINA 55 FONTE: Adaptada de Câmara (2017, n.p.); <https://bit.ly/3ykfrat>; <https://bit.ly/38rKDKB>. Acesso em: 26 abr. 2021. 4 CILINDROS A presença de uma grande quantidade de cilindros em uma amostra de urina é indicativa de que alguma lesão renal esteja ocorrendo, isso porque dificilmente encontramos cilindros em amostras normais de urina. Eles são formados pela união de várias proteínas Tamm-Horsfall, excretadas nos túbulos contorcidos distais e ducto coletor. Ao se unirem, forma-se uma estrutura sólida, com o formato de um cilindro. Esse processo costuma ser mais intenso após atividade física, estresse ou doenças renais e pode estar associado a outros componentes presentes durante a formação de um cilindro, como bactérias, células epiteliais, hemácias, leucócitos, células gordurosas, entre outras (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). Portanto, existem diferentes composições de cilindros, sendo que a sua identificação é essencial para que seja possível identificar e diferenciar um quadro normal de um quadro grave de lesão renal. Além disso, dependendo do tipo de cilindro, ao observarmos esse componente, também encontramos outras alterações no exame físico e químico da urina, como a presença de proteínas, leucócitos, hemoglobina, entre outros (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). 56 A seguir, conheceremos a morfologia e a relevância clínica dos diferentes tipos de cilindros. 4.1 CILINDRO HIALINO O cilindro hialino (Figura 28) é muito comum, sendo formado somente pela proteína Tamm-Horsfall. Por ser o mais comum, é possível encontrar até dois cilindros hialinos por campo na urina analisada, que pode ser resultado de um exercício físico intenso, estresse ou, ainda, calor excessivo. Contudo, quando ultrapassa esse valor, pode indicar quadros de lesão renal, como glomerulonefrite, pielonefrite ou doença renal crônica (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 28 – CILINDRO HIALINO FONTE: Câmara (2017, n.p.) 4.2 CILINDRO HEMÁTICO O cilindro hemático (Figura 29) é composto por um cilindro hialino recheado por hemácias, sendo um forte indicativo de sangramento no parênquima renal, como ocorre na glomerulonefrite e em lesões tubulares. Esse cilindro é muito similar ao cilindro granular, mas costuma ser encontrado em conjunto com a positividade de hemoglobina na urina, assim como hemácias na análise de sedimentoscopia (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 29 – CILINDRO HEMÁTICO FONTE: Câmara (2017, n.p.) 57 4.3 CILINDRO LEUCOCITÁRIO O cilindro leucocitário (Figura 30) é constituído por leucócitos e indica proces- sos infecciosos ou inflamatórios nos rins. No entanto, a presença desse tipo de cilindro não confirma se há ou não infecção e/ou inflamação, sendo necessária a associação a outros parâmetros da análise da urina, bem como avaliação do exame de urocultura (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 30 – CILINDRO LEUCOCITÁRIO FONTE: Câmara (2017, n.p.) 4.4 CILINDRO EPITELIAL Os cilindros epiteliais (Figura 31) estão presentes em quadros de lesão dos túbulos renais crônica, sendo associado à toxicidade medicamentosa, a infecções virais ou, ainda, à exposição a metais pesados (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 31 – CILINDRO EPITELIAL FONTE: Câmara (2017, n.p.) 4.5 OUTROS CILINDROS Além dos cilindros apresentados, existem outras conformações que merecerem atenção durante a análise microscópica de uma amostra de urina. Por isso, a Tabela 2 traz um resumo de outros cilindros menos comuns, mas que, ainda assim, são relevantes na prática clínica. 58 TABELA 2 – OUTROS CILINDROS ENCONTRADOS EM AMOSTRAS DE URINA FONTE: Adaptada de Câmara (2017, n.p.) 5 OUTROS COMPONENTES URINÁRIOS Outros componentes podem ser identificados na amostra de urina, sendo, muitas vezes, essenciais para auxiliar no diagnóstico do paciente. Entre eles, podemos citar os microrganismos, como bactérias, leveduras e parasitas; espermatozoides e muco. A seguir, descreveremos as características e a relevância clínica de cada achado com detalhes, sendo importante sempre atentar para o aspecto morfológico de cada componente, uma vez que é possível encontrá-los durante a prática clínica, sendo essencial saber diferenciá-los. 59 5.1 BACTÉRIAS, LEVEDURAS E PARASITAS A presença de microrganismos, como as bactérias (Figura 32), é muito comum, principalmente nos casos de contaminação da amostra durante a coleta. Caso o paciente não faça a higiene de modo adequado, é muito provável que a amostra de urina contenha uma série de bactérias. No entanto, a sua presença pode indicar também uma infecção urinária, sendo essencial que esse parâmetro seja avaliado com os demais exames que compõem a urinálise, além de ser confirmado pela urocultura (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 32 – BACTÉRIAS EM AMOSTRAS DE URINA FONTE: Câmara (2017, n.p.) Outros microrganismos como leveduras, como a Candida (Figura 33), e parasitas, como Trichomonas vaginalis, também podem estar presentes. Nesses casos, ao encontrá-los, de modo geral, são responsáveis por processos infecciosos (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 33 – LEVEDURA EM AMOSTRA DE URINA FONTE: <https://bit.ly/3DaLhKm>. Acesso em: 30 mar. 2021. 60 O T. vaginalis (Figura 34) é identificado pela movimentação rápida na lâmina, mas, por ser muito similar ao leucócito, quando está imóvel, a sua identificação é muito difícil. Esse achado é resultado de contaminação de secreções vaginais ou dos ureteres. Caso outros parasitas sejam observados, é muito provável que tenha havido contaminação com amostra de fezes (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 34 – T. VAGINALIS EM AMOSTRA DE URINA INDICADO POR SETA PRETA FONTE: <https://kasvi.com.br/sedimentoscopia-analise-urina/>. Acesso em: 30 mar. 2021. 5.2 MUCO Os filamentos de muco (Figura 35) são resultado de processos de descamação da bexiga e da uretra, sendo essenciais para a defesa do trato urinário. Dessa forma, esse achado não é indício de doença (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 35 – MUCO EM AMOSTRA DE URINA FONTE: <https://bit.ly/2WoxCyi>. Acesso em: 9 maio 2021. 61 5.3 ESPERMATOZOIDES Os espermatozoides (Figura 36) podem ser encontrados em amostras de urina de pacientes que tiverem relações sexuais pouco antes da coleta da amostra, sendo considerado um achado normal (GREENBERG, 2014; KASVI, 2019; STRASINGER; DI LORENZO, 2009). FIGURA 36 – ESPERMATOZOIDES EM AMOSTRA DE URINA FONTE: <http://biomedicinafacil.blogspot.com/2008/02/>. Acesso em: em 30 mar. 2021. 62 A IMPORTÂNCIA DA ANÁLISE SEDIMENTOSCÓPICA DIANTE DOS ACHADOS FÍSICO-QUÍMICOS NORMAIS NO EXAME DE URINA Bruna Pessoa Nóbrega Lorrany Junia Lopes de Lima Diogo Vilar da Fonseca Adirlene Pontes de Oliveira Tenório Pedro Pereira Tenório Matheus Rodrigues Lopes INTRODUÇÃO A urinálise é um teste laboratorial amplamente utilizado na prática clínica, constituindo um dos indicadores mais importantes de saúde e doença, e tem como objetivo detectar enfermidades pré-renais ou sistêmicas, renais e, pós-renais ou do trato urinário. Além disso, distúrbios hepáticos, diabetes melito e degradação muscular também são avaliadas por meio do exame de urina. O exame de urina é dividido em três etapas: análise física, análisequímica e a sedimentoscopia, sendo os dois primeiros de execução mais simples e o último é considerado moderadamente complexo. A análise física abrange a cor, o aspecto e a densidade específica. A análise da cor e do aspecto é percebida através da inspeção. A cor padrão normal da urina é amarela, podendo atingir variações de tonalidades de pálida a âmbar. Diversas colorações podem ser vistas de acordo com alterações na urina, como: cor rósea, vermelha ou castanha, devido à presença de eritrócitos, hemoglobina ou mioglobina; cor acastanhada pela presença de bilirrubinas, carotenos; marrom escuro com presença de porfirina, melanina e coloração de alimentos. Quanto ao aspecto, a urina pode ser classificada em límpida, ligeiramente turva ou turva, devido à precipitação de fosfatos amorfos (urina alcalina), precipitação de uratos amorfos (urina ácida) ou pela presença de bactérias, leucócitos ou eritrócitos. Podendo também ser classificada em urina leitosa (quilúria), que ocorre em situações de oclusão dos vasos linfáticos pélvicos. LEITURA COMPLEMENTAR 63 A densidade específica é quantificada mediante o uso do densímetro, refratô- metro ou fita reativa e possui o objetivo de analisar a atividade dos rins em manter, de acordo com o critério adequado, o equilíbrio hídrico do organismo. Desse modo, a den- sidade específica contempla a relação entre a quantidade de volume de água eliminado e solutos. Na análise química, geralmente obtém-se o pH, proteínas totais, glicose, bi- lirrubinas e urobilinogênio, corpos cetônicos, ação peroxidásica, esterase leucocitária e nitritos. Os estudos dessa etapa podem ser efetuados em tubos de ensaio, com a formação de reações químicas ou, por meio de tiras reagentes. A utilização de tiras reagentes objetiva um teste mais veloz, simples, com baixo custo e alta precisão. Já a sedimentoscopia possui a finalidade de identificar e, ocasionalmente, quantificar vários componentes figurados, como: leucócitos, hemácias, células epiteliais, bactérias, cilindros, cristais e fungos. Além disso, é um processo de grande demanda que necessita de atividade laboratorial manual acentuada, é pouco uniforme e acarreta um maior custo aos laboratórios porque é fundamental a presença de mão de obra qualificada para se alcançarem resultados confiáveis. A sedimentoscopia possui um alto valor preditivo negativo e a literatura ainda menciona redução significativa de custos, além de abatimento do tempo de trabalho. Dessa forma, em diversos países, a etapa sedimentoscópica é abolida quando as análises físicas e químicas não possuem anormalidades. Em diversos países, é indicado o emprego seletivo da sedimentoscopia em exames de rotina de urina com achados físicos e químicos normais. A Confederação Europeia de Medicina Laboratorial indica que o exame de urina deve ser requerido somente quando houver uma indicação clínica e a sua utilização metodológica em populações demar cadas precisa ser averiguada de acordo com o custo/benefício. No Brasil, não ocorre uma abordagem nesse modelo, pois a maioria dos laboratórios clínicos realizam as três etapas preconizadas na rotina de urina. Assim, é importante avaliar a importância da análise sedimentoscópica diante dos achados físico-químicos normais no exame de urina. Discussão O exame de rotina de urina caracteriza-se por ser um exame de baixo custo, simples e não invasivo. Entretanto, a quantidade de exames realizados anualmente pode gerar um embate relacionado à saúde e à qualidade de vida da população, pois são comuns resultados falso-positivos que requerem uma investigação maior. 64 As sociedades de urologia americanas e canadenses não indicam a realização do exame rotineiro de urina em pacientes com ausência de sinais e sintomas clínicos. Nesse contexto, o sumário de urina é recomendado apenas em grupos selecionados, como em crianças, diabéticos, grávidas e idosos. Para se estabelecer o diagnóstico de proteinúria, hematúria e infecção do trato urinário (ITU), o exame de urina é considerado relevante na pediatria, visto que os recém-nascidos possuem uma alta prevalência de ITU. Nessa idade, o quadro clínico da ITU costuma ser inespe cífico, o que representa um grande obstáculo para o diagnóstico. O tratamento empírico deve ser estabelecido por meio das alterações presentes no sumário de urina e pela sintomatologia. Apesar de apenas alguns microrganismos (bactérias Gram-negativas) serem capazes de reduzir nitrato a nitrito, a presença deste composto e da esterase leucocitária na urina pode indicar ITU. Assim, é recomendada a terapia empírica após coleta para urocultura em resultados com nitrito positivo no sumário de urina. A ITU está presente em cerca de 10% das crianças. Entre os lactentes e crianças menores, a contaminação bacteriana é a mais recorrente, e sua prevalência nessa faixa etária pode chegar a cerca de dois terços no sexo feminino. Em nossos resultados, observamos a presença de flora bacteriana aumentada em cerca de 6%, piúria em aproximadamente 17% e esterase leucocitária em torno de 15% das amostras de crianças, o que corrobora os dados encontrados na literatura. É válido evidenciar que a ITU sintomática é a primeira causa mais habitual de infecção em idosos e a segunda na população geral. Essa patologia é a causa mais frequente de mortalidade em pacientes desse grupo etário devido às infecções hospitalares. Além disso, a ITU relaciona-se à presença de sepse por Gram-negativos e bacteremia. Observamos o aumento da flora bacteriana nas amostras da faixa etária acima de 60 anos em cerca de 15%, presença de piúria e esterase leucocitária em aproximadamente 27% e 25%, respectivamente. Um dos parâmetros utilizados para indicar o ritmo da progressão da doença renal é a proteinúria, caracterizado como um marcador clássico de lesão glomerular. A proteinúria é presente em casos de glomerulopatias e a permanência desse achado é associada ao mau prognóstico dessas doenças. Entretanto a proteinúria pode não estar associada à lesão renal, como, por exemplo, na febre e exercício físico intenso. Entre as proteinúrias benignas, a mais frequente é a transitória idiopática, comum em crianças, adolescentes e adultos jovens. Em nossos resultados observamos a prevalência de proteinúria em cerca de 1% em crianças e adultos, com valores de cerca de 6% da população idosa. 65 A hematúria pode ser um achado decorrente desde esforços físicos intensos, até doenças graves, como as neoplasias do trato urinário. Em crianças e adolescentes, a hematúria pode variar em 1,5% a 2%, e as etiologias são, principalmente, glomerulopatias, ITU, distúrbios metabólicos e anormalidade congênita. Em adultos, a preva lência varia de 4% a 13% e a principal causa é de origem glomerular. Já em mulheres jovens, principalmente, ITU. Em idosos, a prevalência de hematúria chega a cerca de 10% da população e as principais causas são neoplasias, cistite, nefrolitíase, prostatite, uretrite, nefropatia por IgA, glomerulonefrites hereditárias, entre outras. Em nossos achados evidenciamos hematúria em cerca de 1% das crianças, em torno de 6% em adultos e, aproximadamente 10% em idosos, o que corrobora os dados encontrados na literatura. Com o envelhecimento, é descrito o aumento da incidência de diversas pato- logias crônicas, como a diabetes melito. Deve-se pressupor seu diagnóstico em pa- cientes que apresentem hiperglicemia e/ou glicosúria em exame de rotina. Em nossos resultados observamos a presença de glicosúria em cerca de 10% das amostras na faixa etária acima de 60 anos, enquanto que em amostras de pacientes com menos de 60 anos esse valor não atingiu a marca de 5% das amostras analisadas, o que corrobora os dados encontrados na literatura, evidenciando a relação entre a glicosúria e o aumento da idade. Além das recomendações de indicação do exame de urina somente quando houver uma indicação clínica e em populações específicas, em diversos países é sugerido o emprego seletivoda sedimentoscopia em exames de rotina de urina com achados físicos e químicos normais. No Brasil, o exame de urina é requisitado rotineiramente e os laboratórios clínicos realizam as três etapas preconizadas. Assim, a solicitação rotineira do exame de urina, mesmo sem suspeitas de patologias, é uma justificativa relevante para a elevada quantidade de normalidade dos sumários de urina. Em nosso trabalho, foi observado que cerca de dois terços das amostras analisadas não apresentaram alterações no exame físico-químico. Observamos que o resultado da análise físico-química foi um grande indicativo da presença ou não de alterações sedimentoscópicas, visto que, em praticamente todas as alterações evidenciadas (piócitos, bacteriúria, hematúria e leveduras), o resultado foi estatisticamente significativo, não tendo sido evidenciada diferença apenas para a presença de cristais. Em contrapartida, percebeu-se que em torno de 8,5% das amostras denotaram características físico-químicas normais e alguma anormalidade sedimentoscópica. A partir da análise destes sedimentos urinários, a presença de piócitos foi a anormalidade que apresentou maior índice, achado este bem relevante, visto que o valor preditivo de piúria, conforme a literatura, varia entre 40% e 80% para ITU. 66 Em nosso trabalho, o valor preditivo negativo de alterações sedimentoscópicas em urinas com análise físico-química normal foi de 86%, inferior a outros dados da literatura que o situa em até 98%, e isso se deve possivelmente a variações na etapa pré-analítica. A etapa pré-analítica, caracterizada pela coleta, manipulação, chegada e processamento da amostra, pode estar sujeita a erros, interferindo na fidedignidade de alguns resultados. Essa fase é sujeita a erros, pois depende de mecanismos manuais e ocorre com frequência em ambientes externos ao laboratório; cerca de 45% a 70% dos erros de laboratórios ocorrem nessa etapa. Um erro comum de se observar no exame de urina é a bacteriúria falso-positiva, que ocorre principalmente devido à orientação insatisfatória ao paciente acerca da coleta da urina, informando quanto à necessidade de assepsia adequada da região urogenital e a utilização do jato médio de urina. Tal entrave não se limita apenas ao estudo em questão, mas é uma realidade nacional que precisa ser considerada. Assim sendo, o esclarecimento feito pelo médico ao paciente sobre o exame é essencial. FONTE: Adaptada de NÓBREGA, B. P. et al. A importância da análise sedimentoscópica diante dos achados físico-químicos normais no exame de urina. Revista RBAC, v. 51, n. 1, p. 58-64, 2019. Disponível em: http:// www.rbac.org.br/artigos/importancia-da-analise-sedimentoscopica-diante-dos-achados-fisico-quimicos- -normais-no-exame-de-urina/. Acesso em: 27 abr. 2021. 67 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A análise microscópica é essencial para complementar os dados obtidos na análise física e química, pois os elementos sólidos, como hemácias, leucócitos, células epiteliais, bactérias e cristais, podem ser avaliados e identificados com mais cautela, a fim de diminuir os riscos de contaminações na amostra e auxiliar no diagnóstico de lesões renais e infecções. • As principais células encontradas na sedimentoscopia são as células epiteliais, hemácias e leucócitos, sendo que, em baixas quantidades, podem ser consideradas normais. No entanto, o aumento da concentração desse tipo de células está ligado a quadros de lesões renais, processos inflamatórios ou infecciosos. • A presença de cristais na urina está relacionada com o pH urinário, sendo comum encontrar alguns cristais em urina ácida ou alcalina. No entanto, eles podem estar diretamente relacionados com cálculos renais, doenças hepáticas ou ainda diabetes melito, sendo importante sempre relatar o cristal encontrado, uma vez que essa análise irá ser avaliada em conjunto com outros dados clínicos do paciente, e pode ser importante para indicar algum quadro patológico. • Os cilindros são constituídos pela proteína Tamm-Horsfall e podem estar recheados de outros componentes celulares, o que resulta na nomenclatura do cilindro. Um cilindro vazio é conhecido como cilindro hialino, sendo muito comum em amostras de urina normais, em baixas quantidades; um cilindro hemático é recheado por hemácias; um cilindro leucocitário é composto por leucócitos; e um cilindro granular, por material granular de proteínas. 68 1 Considerando a análise microscópica do sedimento urinário de um paciente que frequentemente realiza atividades físicas e possui um consumo de proteínas, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O paciente possuirá uma urina ácida, podendo apresentar cristais como uratos amorfos e oxalato de cálcio. ( ) É comum aparecerem grandes quantidades de cilindros hialinos em pacientes que realizam atividades físicas com frequência. ( ) O paciente apresentará pH urinário ácido e, provavelmente, traços de proteínas, hemoglobina e leucócitos em tira reativa. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 2 Paciente, sexo feminino, apresenta normalidade no exame físico e químico da urina. No entanto, em análise sedimentoscópica, são encontrados raros cristais de fosfato triplo, oxalato de cálcio, urato amorfo e Trichomonas vaginalis. Com base na análise sedimentoscópica da urina, analise as sentenças a seguir: I- A presença de T. vaginalis indica que os resultados químicos da urina estão incorretos, uma vez que o teste de nitrito deveria ser positivo. II- A presença de cristais de fosfato triplo, oxalato de cálcio e urato amorfo indicam quadro de infecção por bactérias, responsáveis por acidificar o pH urinário. Isso é comprovado com o achado de T. vaginalis. III- Os cristais encontrados não indicam quadro clínico significativo, uma vez que a análise física e química está normal. No entanto, a paciente está com tricomoníase, devido à presença do T. vaginalis. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II e III estão corretas. b) ( ) Somente a sentença I está correta. c) ( ) As sentenças I e II estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. AUTOATIVIDADE 69 3 Paciente, sexo masculino, 56 anos de idade, apresentou as seguintes alterações no exame de urina: coloração alaranjada, +++ bilirrubina; cristal de cistina, cristal de leucina e cristal de tirosina. De acordo com os resultados, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O paciente apresenta um clássico quadro de diabetes melito, devido aos cristais encontrados. b) ( ) As informações coletadas são condizentes com um quadro de doença hepática. c) ( ) O achados podem ser relacionados com um quadro normal, sendo relacionado com o excesso de atividade física. d) ( ) Os cristais encontrados são relacionados ao pH alcalino da urina, não indicando quadros patológicos específicos. 4 Paciente, sexo feminino, 30 anos de idade, chegou ao pronto-atendimento com qua- dro de tontura, cansaço, náusea e dor abdominal. Durante avaliação, o médico sente um forte odor cetônico, relacionando o quadro com cetoacidose diabética. Disserte sobre quais parâmetros estariam alterados no exame de urina da paciente e justifique. 5 Paciente, sexo feminino, chega ao pronto-atendimento reclamando de dores ao urinar e febre de 38 °C. Os resultados do exame de urina estão relacionados na tabela a seguir: Exame físico Volume 10 mL Cor Alaranjada Aspecto Turvo Densidade 1.100 Exame químico pH 6,0 Proteína Traços Corpos cetônicos Ausente Hemoglobina Presente (++) Nitrito Positivo Leucócitos Presente (+++) Glicose Ausente Urobilinogênio Ausente 70 Exame microscópico Células epiteliais 1.000/mL Hemácias 3.000/mL Leucócitos 50.000/mL Filamentos de muco Alguns Flora bacteriana Aumentada Cilindros Hialinos: 1.000/mL Leucocitário: 5.000/mL Cristais Fosfato triplo (+++) FONTE: Osautores Disserte sobre o provável diagnóstico da paciente, com base no resultado do seu exame. REFERÊNCIAS 71 REFERÊNCIAS ALVES, M. T. et al. Proteinúria: um instrumento importante para o diagnóstico da doença renal. 21. ed. Analisa, 2017. Disponível em: http://www.goldanalisa.com.br/print. asp?id=136. Acesso em: 6 maio 2021. ALVES, M. L. Análises laboratoriais. São Paulo: DCL; 2011. ASIRVATHAM, J. R.; MOSES, V.; BJORNSON, L. 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TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO À CITOLOGIA CLÍNICA TÓPICO 2 – COLETA E PROCESSAMENTO TÓPICO 3 – CITOLOGIA ESPECIAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 76 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 77 TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À CITOLOGIA CLÍNICA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A citologia clínica é um ramo voltado ao rastreamento e à detecção de lesões celulares importantes do tipo neoplásica ou inflamatória, bem como à identificação de agentes patogênicos nas mais diversas amostras de material celular. Pode ser encontrada com outras denominações, como citopatologia ou citologia oncótica, que fazem parte da mesma área de atuação e estão entre as habilitações da Biomedicina e da Farmácia, permitindo assumir responsabilidade técnica e liberar laudos em laboratórios de citologia clínica. Essa modalidade de diagnóstico tem ganhado cada vez mais espaço, devido a sua simplicidade técnica (coleta e processamento das amostras), à alta assertividade nos resultados e ao baixo custo. Entre as modalidades da citologia oncótica, está a colpocitologia (exame de Papanicolaou), altamente difundida no mundo e conhecida nos programas de saúde da mulher, que tem contribuído continuamente para a redução da mortalidade e morbidade, causadas pelo câncer de colo do útero. Neste tópico, conheceremos, brevemente, os aspectos históricos no Brasil e no mundo, suas aplicações e complicações. Mais adiante, veremos a definição de citologia oncótica, seus objetivos, a estrutura de um laboratório e a epidemiologia do câncer, tema de fundamental importância para o entendimento da necessidade da atuação profissional nesse campo diagnóstico.2 ASPECTOS HISTÓRICOS E OBJETIVOS DA CITOLOGIA CLÍNICA A citologia clínica (citopatologia) é a ciência aplicada aos estudos das principais alterações celulares presentes nas neoplasias. Para tanto, faz uso do microscópio óptico e avalia as modificações nucleares e citoplasmáticas das células, por meio de técnicas específicas de coleta, processamento e análise dos espécimes celulares (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012a; GAMBONI, 2013). 78 A primeira análise citológica com objetivo diagnóstico foi associada a Sir Julius Vogel, em 1843. Em seguida, Henri Lebert, em 1845, Lionel S. Beale, em 1850, e Donaldson, em 1853, fizeram descobertas utilizando raspados de tumores, nas quais observaram as alterações citológicas presentes nas neoplasias. Apesar das notáveis descobertas da época, a citologia clínica não progrediu, fato que é associado aos avanços mais expressivos em histologia (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). Graças ao trabalho do médico George Papanicolaou, apresentado à comunidade científica em 1928, a citologia angariou status de ciência, devido à grande importância de suas descobertas na área ginecológica. Concomitantemente, outro patologista, chamado Aurel Babes, também no ano de 1928 e sem conhecer o trabalho de Papanicolaou, publicou um artigo chamado Diagnóstico do câncer do colo uterino por esfregaços, na revista La Presse Medicale. Em 1943, Papanicolaou e Traut publicaram um artigo sobre a importância da citologia para a descoberta do câncer cervical e endometrial. Tais observações foram prontamente reconhecidas e confirmadas por outros autores, estabelecendo, assim, o grande valor da citologia (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012a; KOSS; GOMPEL, 2006). Desde então, vários trabalhos científicos foram desenvolvidos, refinando os critérios citomorfológicos para a descrição das lesões celulares encontradas nas amostras citológicas dos mais variados sítios anatômicos e oriundas de diversas técnicas de coleta. O material citológico pode ser obtido por meio de raspados, esfoliações induzidas por tração mecânica ou punções aspirativas por agulha fina (PAAF), guiadas ou não por ultrassom (US) e, até mesmo, por amostras obtidas espontaneamente, por exemplo, urina e secreção mamária (GAMBONI, 2013; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012b; MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). Para a avaliação da condição das células, utiliza-se microscópio óptico e tingimento celular pela técnica de Papanicolaou, hematoxilina e eosina, Romanowski, entre outros, técnicas que são escolhidas de acordo com o interesse da avaliação. Contudo, rotineiramente, usa-se a técnica de Papanicolaou como padrão de coloração (GAMBONI, 2013; KOSS; GOMPEL, 2006). Atualmente, a citologia clínica é usada em larga escala como exame de rastreamento, muito difundida na área ginecológica, embora apresente boa aderência em outras áreas diagnósticas, sendo dois exemplos mais presentes na rotina as citologias de mama e de tireoide, porém não há limitações quanto à aplicabilidade do método (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012a; MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). No Brasil, as primeiras campanhas de utilização da colpocitologia para rastreamento do câncer de colo uterino tiveram início na década de 1960, com o objetivo de levar as mulheres aos consultórios especificamente para rastreamento da doença – situação que antes só era descoberta quando uma paciente procurava atendimento por outros motivos e o médico examinava a região vulvovaginal por rotina (TEIXEIRA, 2015). 79 Em 1970, a utilização de citologia esfoliativa para detecção do câncer de colo uterino já era consenso entre os médicos, culminando com a estabilização da técnica em nível global e com a consolidação das campanhas de prevenção. A possibilidade de ampliação da cobertura e a rapidez do exame impulsionou o uso do exame pelos médicos. Mais tarde, em 1998, um programa chamado “Viva Mulher” ganhou força dentro do governo e, em 1999, sob comando do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), tornou-se a maior campanha já executada no país dentro do âmbito de rastreamento do câncer de colo do útero, atendendo cerca de 3,8 milhões de mulheres. O objetivo principal dessa campanha era examinar mulheres com idades entre 35 e 49 anos, que nunca haviam feito o exame ou estavam a mais de 3 anos sem fazê-lo (TEIXEIRA, 2015). Atualmente, as campanhas de conscientização sobre o câncer de colo uterino continuam ativas e a cada dia ganham mais força. Há programas de rastreamento consolidados e funcionais. que acolhem as mulheres desde a coleta até a o amparo, caso alguma lesão neoplásica seja identificada. FIGURA 1 – CAMPANHA DO INCA FONTE: <https://bit.ly/3mBO3Rg>. Acesso em: 20 jun. 2021. 2.1 CITOPATOLOGIA NÃO GINECOLÓGICA Campo que abrange todas as áreas diagnósticas que podem se valer da citopatologia, sendo exemplos mais comuns na rotina a citopatologia de mama e tireoide. Com menor frequência, podem-se receber materiais biológicos oriundos de peritônio, fígado, líquido cefalorraquidiano, urina, aspirados ou lavados pulmonares, entre outros. Nesses campos, para obter o material, a forma pode variar desde PAAF, esfoliação até lavados (GAMBONI, 2013; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012b). 80 O objetivo é o mesmo: detectar alterações celulares que indicam a presença de neoplasias ou situações importantes, a fim de guiar o tratamento médico. Em se tratando desses campos “especiais”, o material pode ser coletado de nódulos, derrames ou secreções espontâneas. A citopatologia não ginecológica cumpre, de forma excelente, seu papel com alta assertividade, reduzindo o número de cirurgias desnecessárias, mostrando-se uma aliada no manejo e no tratamento do paciente (GAMBONI, 2013). Para a obtenção das amostras, diversas técnicas são empregadas, sendo a PAAF a mais recorrente, utilizada na investigação de nódulos palpáveis, guiada por US ou por palpação. Tal forma de coleta é amplamente aplicada nos casos de nódulos tireoidianos e mamários (GOULART, 2018). Em sua pesquisa, Gornals (2011) concluiu que essa modalidade de coleta de espécime não causa danos maiores que os necessários nem hemorragias, além de relatar que há um aproveitamento de 80% a 90% do material para citologia. Freitas Júnior (2002) explica que se trata de um procedimento feito em ambulatório de simples execução, custos reduzidos, com riscos controlados e reações adversas mínimas, como hematomas pós-punção. É importante frisar que essa modalidade de coleta não está incluída no rol de procedimentos permitidos aos biomédicos. A técnica consiste na inserção de uma agulha fina (0,6 a 0,8 mm) em direção ao nódulo (Figura 2), com o objetivo de aspirar células para avaliação citológica. O material obtido é distendido em uma lâmina de vidro e fixado em álcool. Já nos casos de suspeitas de neoplasias pulmonares, usa-se a técnica de lavado broncoalveolar para obter as células para estudo. O lavado broncoalveolar consiste em injetar uma solução estéril (soro fisiológico) pela traqueia até os brônquios depois aspirá-la; dessa forma, obtém-se o material a ser analisado (GAMBONI, 2013; CARVALHO et al., 2004). Para uma maior clareza no entendimento, abordaremos esse tema com mais profundidade no Tópico 2. ESTUDOS FUTUROS Há grande abrangência da citopatologia e de suas aplicações no manejo e no diagnóstico das doenças. É interessante lembrar que não existem muitas limitações acerca de seu uso e praticamente todas as massas tumorais, com exceção das tumorações ósseas, podem ser avaliadas pela citopatologia, mas, para cada caso, há uma técnica específica de obtenção de material. 81 FIGURA 2 – PROCEDIMENTO DE PAAF EM NÓDULO TIREOIDIANO FONTE: Adaptada de <https://bityli.com/xk6Fs>. Acesso em: 22 jun. 2021. 2.2 CITOPATOLOGIA GINECOLÓGICA Campo de maior impacto dentro da citopatologia, desde os achados de Papanicolaou, tem sido ampliada e largamente utilizada em campanhas de prevenção do câncer do colo uterino em nível mundial. Representa também a maior parte da rotina deum citopatologista, uma vez que também faz parte dos exames de rotina da saúde da mulher (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012b; KOSS; GOMPEL, 2006). Conforme relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), a citopatologia ginecológica é um fator favorável para diminuição da mortalidade e da incidência de câncer do colo uterino, obtendo resultados expressivos de redução de casos nos países que organizaram políticas públicas de rastreamento desde as décadas de 1950 e 1960 (WHO, 2002). O câncer do colo uterino é associado ao papilomavírus humano (HPV), em especial pelos subtipos HPV-16 e HPV-18, responsáveis por mais de 70% dos casos de cânceres do colo de útero. O objetivo do rastreamento é conhecer a história natural da doença e identificar os padrões celulares condizentes com as lesões pré-cancerosas que podem estar presentes nas amostras, direcionando as pacientes para o tratamento antes da evolução para o câncer de colo uterino (MIRANDA et al., 2020). A amostra é obtida pela esfoliação induzida por um instrumento chamado de espátula de Ayre e uma escova endocervical. É um procedimento simples, que pode ser realizado em ambiente clínico, por não exigir nenhum equipamento complexo ou de alto custo. Tal simplicidade de coleta e processamento, associado à boa acurácia, são os pontos fortes que fizeram a citopatologia diagnóstica chegar ao patamar de primeira 82 escolha no rastreamento do câncer de colo uterino (GAMBONI, 2013; SCHNEIDER; SCHNEIDER, 1998). Segundo a normativas do Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) e do Conselho Federal de Farmácia (CFF), o biomédico e o farmacêutico habilitado em citologia oncótica é apto a fazer coletas de material citológico cervical. FIGURA 3 – COLETA DO EXAME PAPANICOLAOU FONTE: <https://bityli.com/EWoi8>. Acesso em: 22 jun. 2021. Para a execução da técnica de coleta do exame, é necessário que a paciente esteja em posição ginecológica. Após o preparo da paciente, é inserido o espéculo para facilitar o acesso ao colo uterino, então a espátula de Ayre é apoiada na mucosa do colo uterino, levemente pressionada, seguida de um giro completo; após, a espátula é retirada e o material estendido em uma lâmina de vidro e fixado com spray fixador ou álcool. O mesmo procedimento é feito para coleta do material endocervical, porém utilizando uma escova endocervical (DA COSTA et al., 2017). Para visualizar e complementar seu conhecimento sobre a coleta cervicovaginal, sugerimos que acesse o Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente: https://portaldeboaspraticas. iff.fiocruz.br/atencao-mulher/coleta-e-indicacoes-para-o-exame- citopatologico-do-colo-uterino/. DICAS 83 Essas coletas são feitas em consultório ou em laboratórios de análises clínicas, que apresentem local adequado, conforme legislação vigente, pois não exigem maiores esforços ou tecnologia para sua execução, porém essa simplicidade não exclui a necessidade de uma técnica bem feita. Coletas não executadas corretamente não são capazes de esfoliar as células necessárias de forma qualitativa e quantitativa, podendo reduzir a eficácia do rastreamento (GAMBONI, 2013). Conhecer a citopatologia ginecológica é muito importante, pois faz parte de programas de rastreamento de câncer do colo uterino aplicados por todo mundo, contribuindo para redução da mortalidade pela doença. A coleta dos materiais para citologia não é de responsabilidade do laboratório, como ocorre nos exames de análises clínicas. O fluxo normal para esse tipo de atendimento é que o laboratório, em alguns casos, forneça o material para a coleta e já o receba pronto para o processamento e análise, considerando que a maioria das coletas são feitas em clínicas de ginecologia. IMPORTANTE 3 ESTRUTURA LABORATORIAL O laboratório de citopatologia é, de certa forma, mais simples que os demais laboratórios, uma vez que a demanda tecnológica mínima, para o desenvolvimento das técnicas necessárias, é mais rudimentar. Apesar de haver no mercado algumas automações, para a rotina convencional, não há necessidade de aparelhos. Nesse aspecto, a citologia se torna mais barata, não é à toa que foi escolhida como padrão de rastreamento e pré-diagnóstico contra o câncer de colo uterino. Contudo, se é tão simples, surge a dúvida sobre o que compõe um laboratório que trabalha exclusivamente com citopatologia. Antes de mais nada, é preciso deixar bem claro que, para abrir qualquer estabelecimento em saúde, deve-se ter registro (CNPJ) e contrato social da empresa, alvará de localização municipal, alvará dos bombeiros e alvará da Vigilância Sanitária, além de cumprir os requisitos da NR-9 (que versa sobre a obrigatoriedade de implantação do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais – PPRA) e da NR-7 (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO); por ser um ente jurídico, é necessário estar alinhado com todas as responsabilidades ficais e trabalhistas impostas a esse ramo. O biomédico e o farmacêutico têm prerrogativas legais que os amparam no âmbito da citologia oncótica, dando suporte ao exercício da profissão. 84 Ainda seguindo o fluxo administrativo, os laboratórios, em geral, devem ter todos os procedimentos descritos e revisados em protocolos operacionais padrão (POPs), desenvolver e implantar o Plano de Gerenciamento de Resíduos do Sistema de Saúde (PGRSS). A falta dessas documentações impede a obtenção dos alvarás e, por consequência, o funcionamento do estabelecimento de saúde (ANVISA, 2005). Especificamente para a citologia oncótica, foi criada a Portaria nº 3.388, de 30 de dezembro de 2013, que dispõe sobre o monitoramento interno e externo de qualidade (MIQ e MEQ), o registro dos dados estatísticos e seus parâmetros de qualidade, bem como o tempo de arquivamento de amostras e a responsabilidade que o laboratório tem sobre elas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013). No que tange à estrutura física, ele deve seguir a norma padrão para labora- tórios (RDC nº 302 e RDC nº 50), que regulamentam o tipo de piso, a parede, a exaus- tão, a ventilação, a metragem das salas, o condicionamento de temperatura, bem como as questões mais burocráticas relacionadas com arquivamento de requisições, laudos e informações dos pacientes. Nesse rol, também há regulamentações direcionadas à identificação das amostras internamente e à organização administrativa do laboratório (ANVISA, 2005). A Resolução RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, “Dispõe do regulamento técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde” (ANVISA, 2002), delimita as necessidades básicas estruturais de um laboratório, como metragem quadrada por ambiente, sistemas de ventilação, controle de decibéis no ambiente, incidência de luminosidade, entre outras situações sobre o espaço físico. Já a Resolução RDC nº 302, de 13 de outubro de 2005: “Dispõe sobre Regulamento Técnico para funcionamento de Laboratórios Clínicos” (ANVISA, 2005). FIGURA 4 – DIAGRAMA ESTRUTURAL FONTE: Os autores Na RDC nº 302/2005, também constam os aspectos dos projetos estrutural/ arquitetônico, como devem ser apresentados os dados e as atribuições de cada setor com a execução dos serviços de saúde. Vale ressaltar que essa resolução não é específica para os laboratórios de citologia clínica, mas abrange todos os tipos de estabelecimentos que prestam serviços à saúde pública e privada (ANVISA, 2005). 85 3.1 LABORATÓRIO DE CITOLOGIA CLÍNICA Após a contextualização das normas que direcionam o desenvolvimento físico e administrativo de um laboratório, a seguir, veremos a composição do laboratório de citologia clínica, demonstrando os equipamentos e as soluções utilizadas durante a rotina desse trabalho. 3.1.1 Materiais de escritório e administrativo Os equipamentos administrativos contam com computador, impressora, material de escritório e afins; apesar de ser uma informação simples, é de suma importância utilizar equipamentos com tecnologiaatual, a fim de suprir a evolução dos sistemas de controle de qualidade e novas propostas de softwares. Um bom computador, por exemplo, permite a captura e a melhora de fotos dos casos presentes na rotina, sendo importante instalar bons softwares de gestão laboratorial, para permitir a emissão de laudos sem erros ou evitar problemas relativos ao sistema empregado. Um bom aporte de materiais de escritório é necessário para que o laboratório funcione de forma ininterrupta. Por exemplo, no caso de faltar folhas ou carimbos, o profissional ficará impedido de imprimir e liberar laudos, até mesmo a falta de uma caneta pode interferir na qualidade pós-analítica – são detalhes que podem fazer a diferença, principalmente quando ausentes no local de trabalho. Em resumo, pequenos detalhes interferem diretamente na qualidade do traba- lho exercido no laboratório. Portanto, quando falamos em bom funcionamento estrutu- ral e administrativo, é fundamental pensarmos em cada detalhe envolvido. Na questão administrativa, outro importante aspecto dos laboratórios é o con- trole de qualidade, que contempla os procedimentos feitos desde o momento de entrada da amostra no ambiente laboratorial até a emissão do laudo (Figura 5). Durante todo esse processo, existe uma logística que deve ser estudada e aplicada à realidade de cada unidade, garantindo o perfeito fluxo das amostras (MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). FIGURA 5 – FLUXO DAS AMOSTRAS FONTE: Os autores 86 Atualmente, o principal documento de referência utilizado é o Manual de Gestão da Qualidade para Laboratório de Citopatologia, que pode ser encontrado no seguinte link: http://www.portalsbc.com.br/manual- citopatologia-2016.pdf. DICAS 3.1.2 Área técnica Para a parte técnica, além das soluções corantes e demais insumos, são necessárias cubas de vidro com tampa ou plástico e “berços” (Figura 6) para o processo de coloração, pia com água corrente e bancada para confecção das lâminas. Algumas características acerca das bancadas são essenciais, como altura adequada, para evitar riscos ergonômicos; superfície impermeável e lavável; e pias, preferencialmente, de inox. Essas características permitem maior durabilidade e higiene do local. Naturalmente, corantes e soluções não podem ser descartados na rede de esgoto comum, devendo seguir o PGRSS e ser acondicionados em frascos adequados e descartados por empresas especialistas do ramo (KOSS; GOMPEL, 2006; ANVISA, 2002). É indispensável o uso de um microscópio óptico (Figura 7) de alta qualidade, uma vez que, na citopatologia, devemos utilizar os detalhes celulares para o diagnóstico, pois, além da qualidade de imagem que bons microscópios proporcionam, seu desenho ergonômico é confortável, sendo indispensável nas grandes rotinas. Bons microscópios tendem a ter um valor agregado, pesando no orçamento inicial. Alguns empreendedores costumam, de forma errônea, adquirir equipamentos mais baratos e de menor qualidade, o que, posteriormente, gera um gasto extra com a aquisição de novos microscópios (ASSIS et al., 2021). FIGURA 6 – BERÇO E CUBAS PARA COLORAÇÃO FONTE: <https://bityli.com/TOQlh>. Acesso em: 22 jun. 2021. 87 FIGURA 7 – MICROSCÓPIO ÓPTICO FONTE: <https://bityli.com/PsIsF>. Acesso em: 22 jun. 2021. Há também a possibilidade de trabalhar com microcentrífugas automatizadas ou semiautomatizadas (Figura 8), usadas especificamente para o processamento de amostras coletadas para a técnica de citologia em meio líquido (GAMBONI, 2013). Nesse caso, requerem maior investimento operacional. Além dos equipamentos principais, são utilizados soluções corantes, álcool e, em alguns casos, xilol na rotina de coloração, sendo exigido que a área técnica conte com boa ventilação e uma capela de exaustão, devido ao risco de contaminação por vapores tóxicos. Ainda nos requerimentos estruturais, o piso e as paredes devem ser laváveis e lisos, pintados com cores claras (ANVISA, 2005). FIGURA 8 – CITOCENTRÍFUGAS FONTE: <https://bit.ly/3aiOPx2>. Acesso em: 2 set. 2021. 88 Quando pensamos nas exigências, podem ocorrer pequenos acidentes envol- vendo as soluções utilizadas na rotina; caso isso aconteça, as superfícies precisam ser resistentes aos produtos e facilmente higienizáveis. Além do mais, a sala de microscopia deve ser separada da área técnica, para que o profissional citologista não fique exposto aos riscos adicionais associados às soluções químicas do ambiente técnico. Embora os requerimentos para uma estrutura de citopatologia tenham sido citados de forma superficial, o objetivo é mostrar o contraste com o laboratório voltado para análises clínicas, que requer automações para, praticamente, todos os setores. Isso não quer dizer que a estrutura possa ser disfuncional ou pouco cuidadosa; muito pelo contrário, para atuar em citopatologia, é necessário extremo cuidado com a qualidade ambiental, organização laboratorial e, principalmente, bom conhecimento estatístico, já que o controle de qualidade em citopatologia é feito com base nos números de casos satisfatórios negativos e positivos. Cada município pode legislar em alguns aspectos, por isso, ao abrir um laboratório, é importante entrar em contato com a Vigilância Sanitária e solicitar suporte quanto às necessidades estruturais. IMPORTANTE 4 ARQUIVAMENTO Em citopatologia, é exigido, por lei, o arquivamento das lâminas e de requisições por, no mínimo, cinco anos. Portanto, o laboratório deve contar com uma sala específica para arquivamento dos materiais, devendo contar com fácil acesso e organização, uma vez que, se solicitado, é preciso recuperar lâminas e requisições. Tal organização pode ser feita por armários porta-lâminas, os quais possuem gavetas com divisões específicas para o tamanho da lâmina, e armários com pastas para arquivar as requisições (MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). Para tanto, as lâminas e as requisições devem estar organizadas conforme o número interno do exame, preferencialmente em ordem crescente. As requisições devem seguir a mesma lógica quando arquivadas. Apesar de não ser uma exigência legal, esse tipo de organização é o mais prático e simples, apesar de a legislação permitir a digitalização e o arquivamento digital, de forma a reduzir a necessidade de espaço físico e a facilitar o acesso à requisição (MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). 89 Para um bom funcionamento técnico-administrativo de uma estrutura laboratorial, devemos levar em consideração desde os mínimos detalhes até os grandes investimentos. Qualquer falha nesse processo pode acarretar perda da qualidade e confiabilidade do serviço prestado. Quando da abertura de um negócio próprio, deve-se buscar uma assessoria especializada. Atualmente, há inúmeros órgãos de apoio ao empreendedor. Assim, ao entrar no mercado, o profissional estará preocupado apenas em executar um serviço de qualidade e não terá problemas burocráticos no futuro. DICAS 5 EPIDEMIOLOGIA DO CÂNCER Diversos autores definem epidemiologia e suas atribuições. Independentemente da definição conceitual, trata-se de uma ciência presente em todas as tomadas de decisões da área da saúde; assim, podemos avaliar que a epidemiologia é: Ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde (ROUQUAYROL; GOLDBAUM, 2003 apud BOING; D’ORSI; REIBNITZ, 2016, p. 11). Quando esse conceito é aplicado ao estudo do câncer, os indicadores buscam representar as causas de agravo dos prognósticos, do aumento da incidência, do trata- mento e da prevenção dos cânceres. Apesar de alguns terem mais representatividade nas campanhas de saúde, todas as doenças neoplásicas têm impacto. Essa diferença de atenção se deve a algunstipos de cânceres serem mais incidentes numa população, gerando problemas de saúde coletiva e individual, necessitando, dessa forma, de uma atenção maior para que mais pessoas sejam salvas das terríveis consequências de uma neoplasia. Para entender o impacto dessas ações, veremos um pouco de epidemiologia do câncer e analisaremos o comportamento dessa doença, a fim de esclarecer a funcionalidade dessa especialidade na saúde pública. Segundo um levantamento do Inca, a estimativa de novos casos de câncer no Brasil, para o biênio 2020-2022, é cerca de 626 mil casos, dado que engloba todos os tipos de câncer em ambos os sexos. Isso leva a uma criteriosa análise sobre a situação da saúde populacional e seu impacto nas políticas públicas de saúde (INCA, 2020a). 90 Nesse levantamento, estima-se que a maior incidência de câncer nos homens será o câncer de próstata (65.840 casos), seguido do de cólon e reto (20.540 casos) e, em terceiro lugar, do trato respiratório inferior (17.760 casos – traqueia, pulmão e brônquios). Nas mulheres, a maior incidência será o câncer de mama (66.280 casos), de cólon e reto (20.470) e do colo do útero (16.710). Para os pesquisadores, as grandes taxas previstas es- tão relacionadas com o estilo de vida do brasileiro, isto é, seus hábitos alimentares, taba- gismo, álcool, sedentarismo etc., porém a melhora na sensibilidade diagnóstica e o maior acesso ao sistema de saúde também influenciarão nos valores expostos (INCA, 2020a). Outro dado estatístico de suma importância é a mortalidade por câncer. No censo do Inca (2019), a taxa de mortalidade foi de 232.030 casos, prevalecendo os cânceres de trato respiratório inferior (16.733) nos homens e o câncer de mama (18.068) nas mulheres. Ao observar os dados, devemos entender a necessidade de atenção à doença e a sua prevenção. No Brasil, a mortalidade por câncer de colo uterino é de 6.696 casos – esse tipo de neoplasia maligna possui uma sólida política de prevenção, por isso a mortalidade relativamente baixa, porém, sem a detecção precoce das lesões, caso fossem negligenciadas, os casos evoluiriam para câncer. Desse modo, investimentos em prevenção do câncer não impactam somente na qualidade de vida das pessoas, mas impedem que elas passem por sofrimento físico e psicológico em decorrência das doenças, além de diminuírem o custo de saúde no país, já que a maioria dos casos é custeada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Portanto, a prevenção é sempre a melhor opção (INCA, 2020a). 5.1 FATORES PARA O DESENVOLVIMENTO DAS NEOPLASIAS No portal do Inca (2018), alguns fatores de risco são elencados como mais importantes para o desenvolvimento de neoplasias. Fatores de risco são quaisquer situações que colaborem para o aumento da ocorrência de uma doença ou o agravo dela, os quais podem ser divididos em fatores ambientais ou intrínsecos. A seguir, veremos alguns desses fatores e suas implicações, bem como possíveis formas de evitá-los, a fim de obter uma melhor qualidade de saúde humana. FIGURA 9 – FATORES DE RISCO FONTE: Os autores 91 5.1.1 Hereditariedade Fatores hereditários são, conceitualmente, aqueles distribuídos pelas gerações e que aumentam a presença da doença dentro da família do indivíduo. Entretanto, são raros os cânceres que têm esse tipo de fator como preponderante. Um exemplo de câncer com forte fator hereditário é o retinoblastoma, um câncer infantil que acomete o olho da criança e que tem uma incidência familiar de aproximadamente 40% dos casos. Outros tipos de câncer que têm influência genética são os de glândula mamária, cólon e estômago, porém não é possível afastar a possibilidade de os membros das famílias terem sido expostos a fatores externos comuns (KUMAR et al., 2012). Kumar et al. (2012) afirmam que menos de 10% dos pacientes com câncer herdaram genes com a predisposição para a doença. Para alguns tipos de tumores malignos, a taxa é ainda menor: apenas 0,1%. Quando se fala em neoplasias herdadas, podemos dividi-las em três categorias: • Síndromes neoplásicas hereditárias com padrão autossômico dominante: grupo de neoplasias em que apenas um gene dominante é responsável pelo desen- volvimento da doença. Geralmente, essa mutação ocorre em apenas um alelo de um gene supressor de tumor. • Síndromes do defeito no reparo do DNA: grupo de condições que predispõe o indivíduo a defeito na reparação do DNA, que resulta em instabilidade do DNA. De forma geral, essa síndrome ocorre em um padrão de herança autossômica recessiva. • Cânceres familiares: além das condições citadas anteriormente, existe um grupo de neoplasias que ocorre com maior frequência em indivíduos da mesma família. Os as- pectos que caracterizam os cânceres familiares incluem tumores múltiplos, idade pre- coce de aparecimento e repetição do tipo tumoral em mais de um indivíduo da família. Apesar de a maioria dos casos de neoplasias malignas ser de origem ambiental, a falta de história familiar não exclui a presença de um fator hereditário. Logo, é difícil descartar uma base hereditária no surgimento de um câncer, já que os fatores ambientais e genéticos têm uma estreita relação (KUMAR et al., 2012). 5.1.2 Infecções Algumas infecções, tanto virais quanto bacterianas, podem causar câncer. Assim, micro-organismos são capazes de desencadear neoplasias. O mais comum é o HPV, causador do câncer de colo do útero e de outros sítios, como reto e esôfago. Contudo, não é o único. Infecções pela bactéria Helicobacter pylori podem cronificar no nível estomacal e contribuir para o desenvolvimento do câncer de estômago. Os vírus da hepatite B e C estão associados a carcinomas hepáticos, sendo que a infecção por esses tipos virais se dá por via sexual, sangue, compartilhamento de agulhas, alicates de unhas ou qualquer instrumento que possa ter entrado em contato com material biológico contaminado (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018, KUMAR et al., 2012). 92 Os vírus são capazes de se integrar ao genoma do hospedeiro. Dessa forma, utilizam a maquinaria celular para produzir suas proteínas e se replicar. Entretanto, essa interação pode gerar um desequilíbrio nas funções bioquímicas da célula e transformá- la em uma célula cancerígena. Várias proteínas virais estão envolvidas nesse processo e, normalmente, essa situação ocorre quando há infecção persistente e não tratada (KUMAR et al., 2012). A bactéria H. pylori não age diretamente no DNA, mas causa uma infecção crô- nica na mucosa estomacal, resultando em um processo inflamatório persistente que au- menta o risco do aparecimento de um câncer: Em alguns casos, a inflamação crônica pode aumentar o grupo de células-tronco teciduais que se tornam susceptíveis ao efeito de agentes mutagênicos. Estes mediadores também causam estresse genômico e mutações; além disso, as células imunes produzem espécies reativas de oxigênio que são diretamente genotóxicas (KUMAR et al., 2012, p. 497). A curto prazo, as células do corpo se adaptam e sobrevivem aos processos inflamatórios, porém, em caso de cronificação do processo, haverá permanência dessa agressão e mutações, podendo levar ao aparecimento do câncer (KUMAR et al., 2012). 5.1.3 Exposição solar e a radiações A exposição solar é o principal fator de risco para o desenvolvimento dos cânce- res de pele. Segundo o Inca, o tumor do tipo melanoma é mais frequente em ambos os sexos. A exposição aos raios ultravioleta de forma intensa faz com que o DNA da célula seja lesionado, o que pode ser suficiente para causar a neoplasia maligna. O bronzea- mento artificial é uma importante fonte de raios ultravioleta e, consequentemente, um grande fator de risco para o desenvolvimento dos cânceres de pele (BRASIL, 2018). Por isso, há a indicação de reduzir, ao máximo, a exposição solar das 10h às 16h, quando existe uma maior incidência de raios ultravioleta sobre a atmosfera terrestre. O grau de agressão dos raios ultravioleta está ligado à quantidade de melanina produzida pela pele, ou seja, quanto maiora quantidade de melanina, maior é o fator protetivo. A lesão causada por raios ultravioleta é do tipo indução de formação de dímeros de pirimidina no DNA; em situações normais, essa modificação é reparada, porém, com a repetição, a agressão à capacidade reparativa é perdida, abrindo espaço para o desenvolvimento dos cânceres de pele (BRASIL, 2018). Ainda, a exposição às radiações ionizantes (presentes nos equipamentos de raio-X) também é capaz de causar danos ao DNA celular e favorecer o desenvolvimento dos cânceres. Nesse caso, não está restrito a um órgão específico. Apesar dos riscos, é preciso uma exposição às radiações de forma intensa e descontrolada, para que ocorram tais lesões no DNA (BRASIL, 2018; KUMAR et al., 2012). 93 5.1.4 Tabagismo O tabagismo é reconhecido como doença crônica, fazendo parte do grupo de transtornos mentais e comportamentais, causados por substâncias psicoativas (CID- 10). A OMS (WHO, 2021) aponta que o tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano, estimando que 7 milhões delas são causadas diretamente pelo consumo do tabaco e o restante, a não fumantes expostos ao fumo passivo. O tabagismo está relacionado a diversos tipos de câncer: leucemia mieloide aguda; câncer de bexiga; câncer de pâncreas; câncer de fígado; câncer do colo do útero; câncer de esôfago; câncer de rim e ureter; câncer de laringe (cordas vocais); câncer na cavidade oral (boca); câncer de faringe (pescoço); câncer de estômago; câncer de cólon e reto; câncer de traqueia, brônquios e pulmão (CDC, 2017). Uma análise estatística de dados, feita por Kfouri et al. (2018), demonstrou que o câncer de laringe foi o mais presente em todas as cidades brasileiras estudadas, com uma prevalência dos cânceres de cabeça e pescoço associados ao tabagismo de 20,9% na região Centro-Oeste, de 19,5% no Sudeste e de 18,3% no Sul. Além disso, foi destacado que o uso do tabaco tem diminuído no Brasil, mas ainda é um fator de alto impacto no desenvolvimento das neoplasias malignas, assim como a presença de alcoolismo como agravante. Grande parte desses casos poderia ter sido evitada apenas removendo o tabaco e o álcool do estilo de vida dos pacientes. As campanhas com o objetivo de reduzir o consumo do tabaco têm como base dados como esses, que claramente demonstram o impacto na perda de vidas devido ao seu uso, tanto dos fumantes quanto de pessoas que são passivamente atingidas pela inalação de substâncias nocivas resultantes da queima dos cigarros e similares. Isso se deve porque os cânceres causados por ordem genética refletem cerca de 5% a 10% dos casos, o restante (90% a 95%) tem como causa fatores ambientais (KFOURI et al., 2018), o que mostra, de forma clara, que a eliminação desse fator de risco da sociedade trará grandes benefícios à saúde coletiva. 6 FATORES PREVENTIVOS Como vimos, há diversos fatores envolvidos no risco de desenvolvimento dos cânceres, mas grande parte deles poderia ser evitada com atitudes simples e incorporadas no dia a dia. Esses fatores protetivos já são bem conhecidos entre a população, porém muitas pessoas ainda resistem em mudar seu estilo de vida, fator que provavelmente contribui para o aumento das taxas de câncer no mundo (BRASIL, 2018). 94 6.1 ALIMENTAÇÃO A ingesta de alimentos ricos em vitaminas, minerais e de origem orgânica tem capacidade protetiva, devido a menor quantidade de conservantes, colorantes, estabilizantes e realçadores de sabor – substâncias que em excesso podem desencadear, com maior frequência, doenças como alergias alimentares, mas também são consideradas fatores agravantes para o desenvolvimento do câncer. Algumas classes de pesticidas e agrotóxicos têm em sua composição agentes químicos, capazes de danificar as células de forma irreversível, firmando relação direta com o desenvolvimento de alguns tipos tumorais (SALES, 2017; BRASIL, 2018). Os alimentos orgânicos reforçam ainda mais sua posição como fatores protetivos, uma vez que, para sua produção, há a redução ou a retirada completa de agentes químicos, como pesticidas e agrotóxicos. A alimentação adequada permite que haja suprimento correto das vitaminas, essenciais para o funcionamento do sistema imunológico, o qual está diretamente ligado à supressão tumoral, por meio de células especializadas, como linfócitos NK (SALES, 2017). 6.2 EXERCÍCIOS FÍSICOS Cada vez mais, os exercícios físicos são relacionados com inúmeros benefícios para a saúde. A execução de exercícios físicos melhora o ritmo metabólico, colabora para a regulação hormonal, mantém o peso dentro do ideal e auxilia na qualidade das defesas do corpo. Não é preciso exercício de alta intensidade para obter os benefícios dessa prática e, quando associado a uma alimentação de qualidade, isso melhora ainda mais a qualidade da saúde do indivíduo (BRASIL, 2018). 6.3 PREVENÇÃO DE CÂNCERES DE ETIOLOGIA MICROBIANA Após entendermos que alguns micro-organismos têm a capacidade de causar câncer, como o HPV, que está ligado ao câncer de colo de útero, e os vírus da hepatite B e C, associados ao câncer no fígado. Para prevenir esses micro-organismos, é preciso usar preservativos nas relações sexuais, não compartilhar seringas e sempre esterilizar material cirúrgico não descartável (BRASIL, 2018). Quando falamos em HPV, a melhor forma de prevenção é a vacinação, que, desde 2014, é gratuita para meninos e meninas de 9 a 14 anos de idade. A vacina disponível confere proteção contra os subtipos virais 6, 11, 16 e 18, que são os de maior potencial oncogênico. Além da vacina, a educação sexual e o uso de preservativos devem sempre ser lembrados como ferramentas contra a disseminação do HPV (BRASIL, 2018). 95 Assim, observamos uma série de fatores de risco para o desenvolvimento das neoplasias. Entretanto, é preciso saber que nenhum deles, isoladamente, tem força suficiente para desencadear o processo de doença, sempre havendo a associação de dois ou mais fatores de risco. Por exemplo, o tabagismo tem influência no surgimento do câncer de mama, mas esse tipo de câncer tem forte ligação genética – então, se uma pessoa tem predisposição geneticamente à doença e for fumante, o risco de desenvolvimento aumenta. Por isso, o câncer é uma doença de etiologia multifatorial, condição que também explica por que pequenos cuidados com a saúde têm o poder de diminuir as chances de desenvolvimento das neoplasias, uma vez que, se é necessário mais de um fator para o aparecimento do câncer e entre esses fatores existem alguns que podem ser modificados, a mudança de hábitos pode ajudar a prevenir a doença. Toda essa base que vimos sobre a epidemiologia do câncer permite um melhor entendimento da magnitude da citologia clínica. O profissional deve sempre saber por qual motivo executa a técnica e em que ela se apoia; dessa forma, será possível produzir resultados de qualidade e confiáveis. O Inca tem uma página dedicada a explicar o câncer e seus fatores de risco, sua epidemiologia e suas formas de prevenção. Veja mais um pouco sobre esse fascinante assunto acessando: https://www.inca.gov.br/ causas-e-prevencao/como-prevenir-o-cancer. DICAS 96 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • A citologia é aplicada em diversos órgãos/locais de coleta, para a realização de exames. • É necessário ter uma estrutura laboratorial dentro dos parâmetros legais para atuar nessa área. • A citologia clínica tem implicação direta na redução das taxas de mortalidade/ morbidade das mais diversas doenças. • É um método diagnóstico relativamente simples, de fácil aplicação na rotina médica, mas que exige um amplo conhecimento técnico-científico para execução dos proce- dimentos relativos a ele. • A epidemiologia do câncer quantifica e qualifica os casos no Brasil e no mundo, permitindo que ações de prevenção sejam criadas para auxiliar na melhora da condição de saúde da população. • Apesar de termos vários fatores de risco envolvidos no surgimento de uma neoplasia maligna, tambémé possível prevenir o aparecimento apenas tomando pequenas atitudes. 97 RESUMO DO TÓPICO 1 1 A citopatologia é de ampla aplicação diagnóstica e apresenta características que a tornam um excelente instrumento diagnóstico e de rastreamento. Considerando uma competência da citopatologia, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Aplicável a todos os tipos de tumorações, sólidas ou císticas, obtidos por raspados ou punções, inclusive tumorações de origem óssea. b) ( ) Técnica de escolha para o rastreamento do câncer de fígado. c) ( ) Para lesões suspeitas no parênquima pulmonar, a coleta é feita através de um lavado broncoalveolar, no qual se aplica uma solução hipotônica pela traqueia, que, em seguida, é reaspirada. d) ( ) É uma técnica de baixo custo e com muitos benefícios, devido à redução de cirurgias desnecessárias para investigação de nódulos suspeitos em mama. 2 Para criar uma estrutura laboratorial funcional, devem-se seguir algumas normas, a fim de obter um espaço seguro para o desenvolvimento das atividades diagnósticas. Com base nas principais normas relativas à estrutura laboratorial, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Resoluções RDC nº 50/2002 e RDC nº 302/2005. b) ( ) NR 302 e Resolução RDC nº 50/2002. c) ( ) ISO 3000 e Resolução RDC nº 50/2002. d) ( ) Resolução RDC nº 302/2005 e ISO 9001. 3 Pequenos detalhes podem causar grandes problemas, uma vez que a falta de um insumo simples pode atrasar a liberação de exames, gerando desconforto e perda de confiabilidade no laboratório. Assim, o gestor deve estar sempre atento a tudo que compõe o ambiente laboratorial, a fim de suprir as necessidades diárias. Analise as sentenças a seguir: I- É fundamental ter um estoque adequado de papel, tinta de impressora, carimbos e demais materiais de escritório, materiais essenciais para o funcionamento do laboratório. II- A confiança e a qualidade não estão ligadas à capacidade administrativa do laboratório, apenas a competência técnica é capaz de definir um trabalho eficiente. III- Acidentes com soluções podem ocorrer na rotina, por isso as superfícies devem ser laváveis e não absorvíveis. Essas características permitem uma rápida resposta e uma limpeza eficiente nesses casos. IV- Cada setor funciona de forma integrada, com o objetivo de manter o fluxo correto do laboratório. Dessa forma, é impossível que pequenas falhas, como falta de papel, atrapalhem na liberação dos laudos. AUTOATIVIDADE 98 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 4 Apesar da simplicidade dos equipamentos de um laboratório de citopatologia, há muitas exigências a respeito da estrutura física e administrativa. Cite quais órgãos regulam e fiscalizam os laboratórios, a fim de verificar se as exigências estão sendo cumpridas. 5 O câncer é uma doença de importância social, que aflige milhares de pessoas no mundo, sendo uma das principais causas de morbidade/mortalidade no Brasil. Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento das neoplasias malignas, porém, com algumas atitudes diárias, é possível reduzir a chance do desenvolvimento do câncer. Descreva quais são os fatores preventivos para o câncer. 99 COLETA E PROCESSAMENTO DE AMOSTRAS CITOLÓGICAS 1 INTRODUÇÃO Anteriormente, vimos algumas explicações acerca da citopatologia e da importância dessa modalidade diagnóstica para a história da saúde pública, bem como o seu impacto na tomada de decisão médica. Neste tópico, veremos como coletar (esfoliação ou punção), processar as amostras (fixação, coloração e montagem) e os cuidados relativos a sua preservação. Também serão abordados os tipos de processamentos (convencional e meio líquido), suas vantagens, suas desvantagens e suas principais diferenças. A descrição desses procedimentos permite a compreensão das técnicas empregadas em cada um e mostra por que é tão importante a criação dos protocolos padrões. O profissional responsável técnico deve saber minuciosamente como executar o preparo das amostras, por mais que não os execute, pois será responsável pelo treinamento do pessoal e por manter o controle de qualidade ativo e aplicado. UNIDADE 2 TÓPICO 2 - Ao final desta unidade, o acadêmico será capaz de reconhecer todos esses processos e associá-los à prática laboratorial. GIO 2 CITOLOGIA ESFOLIATIVA O processo de obtenção das amostras citológicas tem papel fundamental na qualidade do laudo emitido. Coletar de forma compatível com o objetivo da análise possibilita a correta preservação do espécime, evitando possíveis artefatos e contaminantes que possam atuar como interferentes e, em casos extremos, a perda da amostra (GAMBONI, 2013; KOSS; GOMPEL, 2006). 100 Obter amostras citológicas por esfoliação significa fazer abrasão com ferramentas como espátulas ou escovas na região de interesse da pesquisa. A situação mais comum na citologia esfoliativa é o exame de Papanicolaou, no qual, por meio da abrasão da espátula de Ayre e da escova endocervical (Figura 10), são coletadas células da mucosa do colo uterino. Entretanto, a aplicação da citologia esfoliativa não se resume apenas ao Papanicolaou, pois trata-se de uma técnica que pode ser aplicada em exames de pele, mucosa oral e retal (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). O amplo uso desse meio de coleta se deve, como já citado, a sua simplicidade e eficácia. FIGURA 10 – ESPÁTULA DE AYRE E ESCOVA ENDOCERVICAL FONTE: <https://bit.ly/3loXVi2>. Acesso em: 24 jun. 2021. 3 CITOLOGIA ASPIRATIVA Outro método empregado para a obtenção de células para exame é a aspiração das amostras utilizando agulha fina, denominada de punção aspirativa por agulha fina (PAAF), cujo objetivo é obter amostras celulares oriundas de massas tumorais, sólidas ou císticas, dos mais variados sítios anatômicos. Por exemplo, em uma situação de nódulo na tireoide, o médico pode optar por realizar um exame citológico, cujo material será obtido por meio de PAAF. Para aspirar, são usadas seringas comuns acopladas a agulhas finas (GAMBONI, 2013; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). Esse é um método minimamente invasivo, que pode ser feito em ambulatório ou, até mesmo, no consultório médico, o que o torna prático e rápido para investigação de nódulos suspeitos. 3.1 PAAF GUIADA POR PALPAÇÃO Trata-se de uma modalidade de punção em que o médico utiliza os dedos para localizar o nódulo, introduz a agulha na estrutura e aspira o material. Contudo, essa técnica não é mais tão utilizada, visto que a coleta era feita praticamente no “escuro”, sem a devida compreensão da profundidade da aplicação ou se realmente estava aspirando a estrutura de interesse. É fácil perceber que, em muitos casos, havia a necessidade de recoleta (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012; GAMBONI, 2013). 101 FIGURA 11 – PAAF GUIADA POR PALPAÇÃO FONTE: <https://bityli.com/wBQVP>. Acesso em: 24 jun. 2021. 3.2 PAAF GUIADA POR ULTRASSOM Gamboni (2013) descreve que o procedimento é o mesmo que na PAAF guiada por palpação, porém, nesse caso, o médico utiliza um aparelho de ultrassom (Figura 12), o que torna possível acompanhar o trajeto da agulha até o nódulo com precisão e coletar o material com maior eficiência e representatividade. Dessa maneira, minimiza- se a necessidade de recoleta de material, devido à falta de celularidade de interesse diagnóstico. FIGURA 12 – PAAF GUIADA POR ULTRASSOM FONTE: <https://bityli.com/wBQVP>. Acesso em: 24 jun. 2021. 102 3.3 CITOLOGIA EM MEIO LÍQUIDO Alguns autores tratam essa base de citologia como a evolução do exame de Papanicolaou, pois, de fato, transformou a forma de coletar e processar as amostras citológicas. No entanto, o uso do meio líquido não se limita a exames preventivos do colo uterino, podendo ser aplicado para qualquer tipo de material citológico. A citologia em meio líquido (CML) ou base líquida surgiu a partir da necessidadede apresentar uma melhor disposição celular, conservação do material e redução de exsudatos inflamatórios, hemácias e muco, resultando, assim, em uma maior acurácia na detecção das lesões neoplásicas ou pré-neoplásicas. Essa técnica permite também a confecção de lâminas extras e, caso necessário, podem ser realizados testes moleculares, como pesquisa de HPV na amostra, devido ao método de conservação do material (SILVA et al., 2018). Assim, consiste em coletar o material com uma ferramenta especial, conhecida como citobrush (Figura 13), que, em razão de seu formato anatômico, esfolia, simultaneamente, a ectocérvice e a endocérvice. Após a coleta, a citobrush é depositada diretamente em um frasco com solução conservante e, em caso de materiais não ginecológicos, estes podem ser depositados diretamente no meio conservante. O procedimento também evita artefatos de fixação. Mais adiante, abordaremos o processamento das amostras obtidas por esse meio (GAMBONI, 2013; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). FIGURA 13 – ESCOVA PARA CML FONTE: <https://zmway.com/pt/citologia/>. Acesso em: 24 jun. 2021. 103 4 COLETA E PROCESSAMENTO Após apresentarmos uma base sólida sobre as formas e os tipos de coleta, aprofundaremos as técnicas de coleta, descrevendo detalhes desses procedimentos e a importância do cuidado em cada etapa. Em seguida, trataremos do processamento das amostras no laboratório até que a lâmina chegue ao setor de microscopia. Quando se fala em coleta de material biológico, é imprescindível destacar que se faz referência ao início de um laudo fidedigno, uma vez que se, durante a obtenção da amostra, o material não for representativo, na etapa da microscopia, não haverá o que ser relatado, gerando prejuízo à saúde do paciente. Enquanto profissionais responsáveis, é importante atentar a esse procedimento e garantir que ele seja executado de forma impecável. Para facilitar a organização, veremos as etapas relacionadas com o tipo de coleta (aspirativa, esfoliativa) e com o processamento das amostras obtidas. 4.1 COLETA DE EXAMES POR ESFOLIAÇÃO A preparação do paciente é o primeiro passo para uma coleta bem-sucedida em qualquer área diagnóstica. Na recepção, o paciente deve ser registrado no sistema, no qual deve constar todas as informações possíveis (nome, idade, endereço, comorbidades, uso de medicamentos etc.); em seguida, ele é direcionado à sala de espera (caso haja) ou diretamente para a coleta. O paciente deve estar ciente sobre como ocorrerá o procedimento e suas possíveis intercorrência, mesmo que incomuns. No caso das coletas por esfoliação, podem ocorrer discretos sangramentos e dor, devido à abrasão do instrumento de coleta. Como vimos anteriormente, para que a citologia cumpra seu papel, é necessário coletar uma amostra representativa. Um dos meios de obter o material é por esfoliação – em outras palavras, é preciso raspar o local de interesse. A abrasão da ferramenta com a pele/mucosa remove a camada superficial da derme e, dessa forma, tem-se uma coleta do epitélio a ser estudado. Com o paciente devidamente instruído e acondicionado, o profissional pode preparar a bancada de trabalho, tendo disponíveis, de forma geral, os seguintes itens: • instrumento para a raspagem (espátula de Ayre, escova endocervical, citobrush, bisturi e swabs); • lâmina de vidro com borda fosca; • algodão ou gaze; • fixador citológico; • luvas vinílicas ou de látex. 104 No caso de mucosa oral (Figura 14) ou regiões dérmicas, a coleta deve iniciar com a identificação do local a ser raspado, para depois ser realizada a raspagem. Nesses casos, não há técnica específica para fazer a abrasão, porém, deve-se garantir pressão suficiente para descolar as células. Finalizada a coleta, o material pode ser depositado diretamente na lâmina de vidro, previamente identificada na borda fosca e fixada em álcool a 95% ou spray fixador (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). FIGURA 14 – COLETA DE MUCOSA ORAL FONTE: <https://bityli.com/zBHBd>. Acesso em: 25 jun. 2021. Já a coleta de epitélio do colo uterino (exame de Papanicolaou) tem um protocolo bem estabelecido, que deve ser seguido para que haja representação dos epitélios de interesse. A técnica é descrita no livro Técnico em citopatologia: caderno de referência 2: citopatologia não ginecológica do Ministério da Saúde (2012b) e, além dos itens relacionados anteriormente, consiste em acondicionar a paciente em maca própria para esse fim e utilizar espéculo sem lubrificante. Deve-se introduzir o espéculo no canal vaginal, com o objetivo de ter melhor acesso ao colo uterino, e, com a gaze, remove-se o excesso de muco ou secreções presentes. Com a espátula de Ayre, coleta-se a amostra da ectocérvice, fazendo apenas um giro completo (360 graus), imediatamente removendo a espátula e depositando o material coletado em uma lâmina de vidro. Na sequência, é necessário inserir a escova endocervical no orifício cervical externo, realizando um giro completo (360 graus) e breves movimentos de “vai e vem”. Imediatamente após a coleta, deve-se depositar o material em lâmina de vidro, aplicar o spray fixador ou depositar a lâmina em álcool a 95%. Em caso de coletas para citologia em meio líquido, não é necessária a extensão no material em lâmina, apenas se dispõe a citobrush diretamente no meio líquido. 105 FIGURA 15 – COLETA DE MATERIAL PARA EXAME DE PAPANICOLAOU FONTE: <https://bit.ly/3BqpflG>. Acesso em: 25 jun. 2021. 4.2 LAVADOS Consiste em instilar solução salina no local lesionado e realizar a aspiração do material. Devem ser acondicionados em recipiente limpos e enviados diretamente ao laboratório com a descrição do local coletado. Essa modalidade de coleta é largamente utilizada para diagnósticos broncoalveolares, esofágicos, peritoneais e gástricos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). 4.3 MATERIAIS OBTIDOS ESPONTÂNEAMENTE Como o próprio nome sugere, trata-se de materiais que espontaneamente são expelidos do organismo e podem servir como oportunidade diagnóstica. Anteriormente, eram os espécimes mais utilizados para o diagnóstico citológico e incluíam materiais de urina, escarro e secreção mamária. Da mesma forma que os demais espécimes citológicos, devem ser distendidos em lâmina de vidro e imersos em álcool a 95% ou utilizando spray fixador (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012b). 4.4 PUNÇÃO ASPIRATIVA POR AGULHA FINA (PAAF) Método de obtenção de amostras por meio da aspiração. Foi apresentado por Martin e Ellis, em 1926, nos Estados Unidos. É aplicável na coleta de amostra de tumores e nódulos em qualquer sítio anatômico, desde a superfície (mama, tireoide e glându- las salivares) até as regiões mais profundas, como fígado, retroperitônio e pulmão. Nas regiões mais superficiais, pode ser guiado pela palpação ou ultrassom; quando em to- pografias mais internas, deve ser guiado por ultrassom (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012b). 106 As agulhas utilizadas são de pequeno calibre (0,5 a 0,7 mm), sendo as de menor calibre comumente utilizadas para nódulos palpáveis e superficiais; quando há presença de material purulento ou espesso, é indicado o uso das agulhas de maior calibre. Para a aspiração, utiliza-se seringa plástica descartável de 10 mL ou 20 mL e é recomendado o uso do citoaspirador (Figura 16). Para realizar a PAAF, deve-se acondicionar o paciente, marcar o local da punção e inserir a agulha (GAMBONI, 2013). Materiais oriundos de cistos devem ser centrifugados antes e, nesses casos, utiliza-se o sobrenadante para confecção do esfregaço. As amostras são encaminhadas em recipientes limpos e lacrados ou na própria seringa, sem agulha e vedada. Caso não seja possível encaminhar imediatamente o material coletado para a análise, é necessário mantê-lo resfriado. Nos materiais obtidos de nódulos sólidos, deve-se puxar o êmbolo para trás, a fim de entrar ar na seringa, reacoplar a agulha e depositar uma gota do material na lâmina de vidro, para preparar o esfregaço. Para espalhar o material na seringa, pode-se apoiaruma outra lâmina num ângulo de 45 graus e estender o material de forma rápida e uniforme (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). FIGURA 16 – CITOASPIRADOR FONTE: <https://bit.ly/3ahNpTo>. Acesso em: 25 jun. 2021 5 PROCESSAMENTO DO MATERIAL CITOLÓGICO Apesar de termos visto como é realizado o processo de obtenção das amostras citológicas, esse é apenas o primeiro passo. Após a recepção das amostras no laboratório, estas passarão por processos que proporcionarão condições de analisar as células contidas no espécime. A Figura 17 apresenta um fluxograma com os processos envolvidos no fluxo das amostras. 107 FIGURA 17 – FLUXO DAS AMOSTRAS FONTE: Os autores Assim, podemos observar que, na recepção, existem duas etapas importantes: a primeira é conferência dos dados e dos espécimes, isto é, verificar se as requisições têm suas respectivas amostras e vice-versa. Amostras sem requisição ou com dados divergentes não devem ser processadas. Essa situação deve ser reportada ao local de origem, para que a coleta seja refeita. Um erro de concordância entre requisição/ material pode custar um falso diagnóstico, que, muitas vezes, causa danos irreversíveis ao paciente (MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). Caso esteja tudo em conformidade, o segundo passo é gerar o cadastro e um número interno, que irá identificar a amostra durante todo o fluxo dentro do laboratório. Esse número deve ser individual e não repetitivo dentro do ano – por exemplo, a numeração pode começar com o ano seguido do respectivo número “21.0001”, mantendo uma sequência crescente. No ano seguinte, o cadastro pode voltar ao “0001”, mas com um o novo prefixo: “22.0001”. Não é obrigatório o uso dessa composição numérica, mas ela é logicamente a mais simples (MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). Após serem identificadas, as amostras seguem para a área técnica, para o processamento necessário para análise, que inicia com o preparo da amostra para coloração. Esse preparo consiste em remover o excesso de fixador quando utilizado o spray; para isso, a amostra é deixada em álcool absoluto (99,9%) ou 95% por, no mínimo, 60 minutos e, depois, segue para a bateria de coloração (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012; KOSS; GOMPEL, 2006). Koss e Gompel (2006) relatam que o protocolo de coloração pode variar entre laboratórios, devido à marca de corantes utilizada ou a pequenas alterações no procedimento. Entretanto, as soluções e os tipos de corantes são basicamente os mesmos. A maioria das amostras citológicas são coradas pelo método de Papanicolaou, técnica que consiste em banhos em álcool, água corrente, hematoxilina de Harris, orange G e EA-36. Os banhos de álcool servem para desidratar o material e a água, para remover excessos. Hematoxilina de Harris cora os núcleos em roxo, enquanto orange G e EA-36 coram o citoplasma de vermelho e verde-azulado, respectivamente (Figura 17). 108 FIGURA 17 – COLORAÇÃO PAPANICOLAOU FONTE: Os autores Depois de coradas, finalizamos a técnica com a montagem da lâmina. Nesse momento, aplica-se uma lamínula sobre o material, usando bálsamo ou Entellan® e, por fim, os espécimes seguem para a microscopia, para serem analisados (GAMBONI, 2013). É importante ressaltar que algumas etapas do procedimento do protocolo de coloração podem ser ligeiramente diferentes, como tempos em corantes, e que cabe a cada laboratório e citologista adequar conforme a sua necessidade. Para visualizar um exemplo de procedimento de coloração de Papanicolaou, assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=5ajnTu4hdds. DICAS 109 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • Existem diversas formas de obter amostras citológicas, como esfoliação, PAAF e lavados. • A correta execução da coleta influencia diretamente na qualidade da análise microscópica do material. • Previamente à análise, existem processos importantes de preparação do material para que o protocolo de coloração seja corretamente aplicado e cumpra seu objetivo. • Há diversas soluções e corantes envolvidos na coloração, porém cada um possui uma finalidade específica e fundamental. 110 1 Leia o texto a seguir: “Nas PAAFs, são utilizadas agulhas de alto calibre, uma vez que é preciso uma grande quantidade de material para que haja representação da lesão investigada”. Analise a assertiva e justifique sua resposta. 2 Na coleta do material citológico para o exame de Papanicolaou, são utilizadas ferramentas específicas, para potencializar a amostragem, seguindo passos específicos que garantem a eficácia do procedimento. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Para obtenção das amostras, utilizam-se espátula de Ayrte e escova endocervical. b) ( ) Quando a espátula estiver posicionada, é preconizado girar 180 graus para coletar a amostra. c) ( ) Após transferir o material para a lâmina, já é possível enviá-lo ao laboratório. d) ( ) O material é obtido por secreção espontânea. 3 Devido à amplitude da citologia clínica para rastreamento ou diagnóstico de doenças, clinicamente aparentes ou não, os mais diversos tipos de materiais podem ser utilizados. Isso se deve à facilidade de obtenção das amostras, que apresenta baixo risco para o paciente e baixíssima incidência de reações adversas, que, caso ocorram, são de baixo grau, representadas apenas por dor local e/ou equimoses. Considerando os métodos de coleta, analise as assertivas a seguir: I- PAAF, esfoliação, lavados em geral e secreção espontânea são exemplos de formas de obter amostras para análise. II- Não se aplica a técnica de coleta por esfoliação em casos de nódulos císticos ou sólidos. III- A maioria dos materiais obtidos para análise citológica, em um passado recente, era representada por secreções espontâneas. IV- A técnica de escolha para lesões superficiais e rastreamento do câncer de colo uterino é a esfoliação. Assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE 111 a) ( ) As assertivas I e IV estão incorretas. b) ( ) As assertivas II e III estão incorretas. c) ( ) Apenas a assertiva IV está incorreta. d) ( ) Todas as assertivas estão corretas. 4 Paciente feminina, 40 anos de idade, aproveitou a campanha nacional “Outubro Rosa” para fazer seus exames de rotina de prevenção do câncer de mama e de colo uterino. Para o rastreamento das mamas, foi solicitado o exame de mamografia e, para o de câncer de colo uterino, o exame de Papanicolaou. Descreva o procedimento que deve ser executado ao realizar a coleta do exame de Papanicolaou no método convencional e cite os materiais usados para tal finalidade. 5 A coloração padrão, utilizada para exames citológicos, também leva o nome de Papanicolaou, seguindo padrões predeterminados, que podem ser modificados ligeiramente entre os laboratórios, mas cuja base se mantém. Acerca dos corantes e soluções utilizadas, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Os núcleos são tingidos pelo corante orange G. b) ( ) A coloração avermelhada do citoplasma se deve à ação do corante EA-36. c) ( ) O corante hematoxilina de Harris é capaz de tingir os núcleos, conferindo a cor roxa. d) ( ) Orange G e EA-36, quando combinados, coram os nucléolos. 112 113 TÓPICO 3 - PRINCIPAIS APLICAÇÕES DA CITOLOGIA NÃO GINECOLÓGICA 1 INTRODUÇÃO Anteriormente, tratamos do histórico, das técnicas de coleta e processamento, da estrutura de um laboratório e da epidemiologia do câncer. Neste tópico, compre- enderemos como elas se aplicam no dia a dia, em que são utilizadas e como podemos visualizar isso em microscopia óptica, descrevendo os tipos de lesões mais frequente- mente pesquisados nos órgãos-alvo. O objetivo não é esgotar todo o conteúdo relacio- nado a esse tema, mas introduzir os princípios de cada análise. Será abordada a citologia de mama e tireoide com maior aprofundamento teórico, bem como os principais distúrbios detectáveis pela citologia clínica, além de outras topografias de forma mais geral. A citologia clínica é infinita em suas possibilidades e não é possível descrevê-la em suatotalidade nesse momento, mas, certamente, obter os conhecimentos das análises mais frequentes nos laboratórios será de grande valia para o futuro profissional da área. UNIDADE 2 2 CITOLOGIA DA MAMA A anatomia da mama humana contém um sistema de seis a dez ductos principais. Externamente, encontra-se o epitélio queratinizado da pele, que, ao interiorizar no ducto mamilar, bruscamente se modifica em epitélio cuboide, o qual reveste os ductos e está organizado em dupla camada. Sequenciais ramificações dos ductos maiores dão origem à formação da unidade ductal terminal. Nas mulheres adultas, a unidade ductal terminal divide-se em um conglomerado de pequenos ácinos, formando uma estrutura em formato de “cacho de uva” (Figura 18) (KUMAR et al., 2012; GAMBONI, 2013; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). Comumente, as patologias da mama apresentam sintomas como dor, massas palpáveis, presença de caroços ou descargas papilares. A dor relatada pelas pacientes pode ter características cíclicas, as quais não têm correlação com uma doença específica, e o tratamento normalmente tem como alvo os elevados níveis hormonais ou, ainda, ser de característica não cíclica e relatada em um local específico da mama, cuja causa pode ser rotura de cistos, traumas mecânicos ou infecções. Apesar de 95% das massas dolorosas serem benignas, esse sintoma está presente em 10% das neoplasias da mama (KUMAR et al., 2012). 114 FIGURA 18 – ANATOMIA DA MAMA FONTE: <https://shutr.bz/3uVZAP7>. Acesso em: 25 jun. 2021. Kumar et al. (2012) descrevem que as massas se tornam palpáveis quando atingem no mínimo 2 cm de diâmetro, mas devem ser distinguidas dos nódulos normais da mama. Estão presentes mais frequentemente em mulheres na pré-menopausa e o risco de a nodularidade ser maligna aumenta conforme idade da mulher. Apenas 10% dos nódulos palpáveis em mulheres com menos de 40 anos de idade são malignos, enquanto em mulheres com idade igual ou superior a 50 anos esse número aumenta para cerca de 60%. O Inca (2020) estima que 66.280 mulheres terão câncer de mama no biênio 2020-2022 e aproximadamente 18.068 delas virão a óbito. Apesar desse dado ser alarmante, esse é um câncer rastreável em suas fases mais iniciais e seu tratamento correto leva a altas taxas de sucesso. O rastreamento pode ser feito pelo autoexame de mama e por exames de imagem, e, a partir disso, a decisão de biopsiar é tomada. Vale ressaltar que o câncer de mama também está presente nos homens, embora sejam raros, representando apenas 1% de todos os casos, o que implica uma estimativa de 227 mortes pela doença no biênio supracitado. Quando identificados nódulos suspeitos pelos exames de imagem, pode ser solicitada a análise citológica e, independentemente do tipo de nódulo (cístico ou sólido), a coleta de material é realizada por PAAF. Em seguida, o laboratório torna-se responsável pela resposta ao médico e o laudo emitido guiará o seguimento da paciente – em outras palavras, se algum procedimento mais invasivo será necessário ou não (MINISTÉRIO DA SAÚDE; INCA, 2016). Segundo a classificação da OMS, há diversos tipos de cânceres de mama e muitas formas de descrevê-los, sendo a maioria do tipo carcinoma (Figura 18). Para um diagnóstico assertivo, deve-se utilizar como critérios gerais de malignidade: 115 células dispersas, desordenadas e pleomorfismo. O núcleo é hipercromático, frequentemente excêntrico, aumentado de volume, com contorno nuclear espessado e irregular e mitoses quando presentes são atípicas. O nucléolo é proeminente, irregular ou múltiplo. No citoplasma, lumens podem ser vistos contendo mucina ou lipídios positivos. No fundo do esfregaço, pode-se observar hipercelularidade, presença de muco, debris celulares e necrose. Chama a atenção à ausência de células mioepiteliais. Devemos ter o cuidado ao diagnosticar malignidade na presença de alguns padrões de benignidade tais como: aspirado pobremente celular, ausência de células isoladas, presença de células mioepiteliais, e atipia ausente ou escassa (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012b, p. 60). A Figura 18 representa apenas um tipo de carcinoma que pode se desenvolver na mama. Contudo, dentro de citopatologia, alguns critérios básicos estão presentes em praticamente todas as neoplasias, sobretudo nas alterações nucleares citadas anteriormente. Para cada variação de neoplasia, buscam-se, dentro do contexto da amostra, alterações citomorfológicas sutis, que acabam por direcionar o diagnóstico. FIGURA 18 – CARCINOMA DUCTAL DA MAMA: (A) NÚCLEOS VOLUMOSOS, HIPERCROMÁTICOS E EX- CÊNTRICOS (SETA); (B) NÚCLEOS VOLUMOSOS, HIPERCROMÁTICOS E IRREGULARES (SETA); (C) MITOSE ATÍPICA (SETA); (D) NÚCLEO ATÍPICO, VOLUMOSO, HIPERCROMÁTICO E EXCÊNTRICO FONTE: Ministério da Saúde (2012b, p. 60) O Quadro 1 compara os critérios citomorfológicos utilizados para a distinção de situações de malignidade e benignidade. Para uma avaliação consistente do mate- rial, é preciso saber exatamente quais características representam a presença de uma lesão maligna e quais não estão presentes nesse tipo de alteração. Na citopatologia, qualquer equívoco ou descuido pode levar o paciente a passar por procedimentos desnecessários. 116 QUADRO 1 – COMPARAÇÃO DE CRITÉRIOS CITOMORFOLÓGICOS Benignidade Malignidade Celularidade Pobre a moderada (fibroadenomas são celulares) Elevada Dissociação celular Folhetos ou grupos coesivos São comuns células isoladas Grupos celulares Limites lisos ou em paliçada Limite denteado Tamanho da célula Pequeno Usualmente grande Tamanho do núcleo Tamanho de um eritrócito Maiores Pleomorfismo Nenhum Comum Núcleo Contorno liso Contorno irregular Cromatina Vesicular ou finamente granular Em grumos Necrose Ausente Pode estar presente Células mioepiteliais Muitas Raras Células isoladas do estroma Comuns Raras Fragmentos do estroma Comuns Raras Vacúolos citoplasmáticos Incomuns Podem ser observados Inclusões intranucleares Incomuns Podem ser observados Mucina Rara Comum Células inflamatórias Podem estar presentes Podem estar presentes Macrófagos espumosos No geral presentes Às vezes presentes Células tumorais gigantes Ausentes Podem estar presentes Calcificação Pode estar presente Pode estar presente Células apócrinas Comuns Raras Mitoses Incomuns Comuns Padrão cribiforme Ocasional em fibroadenoma Presente no carcinoma ductal in situ cribiforme FONTE: Ministério da Saúde (2012b, p. 61) 117 Há muito o que falar sobre o diagnóstico citológico de mama. Para aprofundar seus estudos, sugerimos o acesso ao site do Inca, em que estão reunidas muitas informações acerca das neoplasias da mama: www.inca.gov.br. IMPORTANTE 3 CITOLOGIA DA TIREOIDE A glândula tireoide está situada na região do pescoço, anteriormente ao esôfago, na região popularmente conhecida como “pomo de adão” (cartilagem cricoide). É composta por dois lóbulos (esquerdo e direito) e ligada por uma pequena região chamada de istmo. Cada lóbulo é composto de folículos, que contêm células foliculares (Figura 20), que são a unidade funcional da tireoide. A função dessa glândula é produzir e armazenar os hormônios tireoidianos, responsáveis pelo metabolismo do organismo (KUMAR et al., 2012; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). O câncer de tireoide é o mais comum dos cânceres de cabeça e pescoço, afeta três vezes mais mulheres que homens. A estimativa é de 13.780 novos casos, com 869 mortes por ano. A taxa de mortalidade pode ser reduzida se a lesão for identificada precocemente, requerendo exames de laboratório, radiológicos ou clínicos, sendo que a maior parte dos nódulos é identificada como benigna (INCA, 2021a). A coleta do espécime é feita por PAAF, que apresenta sensibilidade variável entre 65% e 98% e especificidade de 72% a 100%. Resultados falso-positivos estão entre 0% e 24%, sendo relacionados a erros de interpretação. Outro ponto importante são os resultados falso-negativos, que, por sua vez, são atribuídos a múltiplas lesões, amostras inadequadas, insuficientesou erros na obtenção da amostra, o que faz com que a incidência dessa categoria diagnóstica varie entre 0,3 e 28,7 pontos percentuais (GAMBONI, 2013). Os elementos possivelmente encontrados em um esfregaço citológico são: • Células foliculares: representam a celularidade normal do folículo. • Células de Hürtle: são células foliculares repletas de mitocôndrias não funcionais, pois não sintetizam tiroxinas, comuns em nódulos benignos. • Células parafoliculares: células neuroendócrinas produtoras de calcitonina. • Células da paratireoide: indistinguíveis das células foliculares sem a utilização de coloração especial. • Células inflamatórias crônicas: linfócitos. • Células ciliadas: não fazem parte dos nódulos da tireoide; quando presentes, significa que a punção pode ter atingido regiões adjacentes. 118 • Células musculares esqueléticas: erro de punção atingindo o músculo esternocleidomastoideo. Também podem estar presentes cristais ou pigmentos como hemossiderina, melanina ou cristais de oxalato. A presença de amiloides pode ocorrer em carcinoma medular, amiloidose e outras patologias da tireoide. O coloide está presente nas punções, é uma glicoproteína e representa os hormônios da tireoide (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). FIGURA 20 – CÉLULAS FOLICULARES FONTE: Ministério da Saúde (2012b, p. 70) Após a confecção da lâmina e o processamento discutido anteriormente, o cito- logista deve analisar as células presentes e sua morfologia, além de correlacionar com as informações clínicas, a fim de reproduzir o melhor diagnóstico para o caso em estudo. Na tireoide, usa-se o Sistema Bethesda para Relatos de Laudos Citopatológicos da Tireoide. O Quadro 2 exemplifica as seis classes diagnósticas conforme o Sistema Bethesda. QUADRO 2 – SISTEMA BETHESDA PARA LAUDOS CITOPATOLÓGICOS DA TIREOIDE Classe Significado Classe I Amostra insatisfatória Classe II Nódulo benigno Classe III Atipia de significado indeterminado ou lesão folicular de significado indeterminado Classe IV Neoplasia folicular ou nódulo suspeito de neoplasia folicular Classe V Lesão suspeita de malignidade Classe VI Nódulo maligno FONTE: Ministério da Saúde (2012b, p. 69) 119 Neste tópico, estudamos os principais sítios não ginecológicos de aplicação do diagnóstico citopatológico. Como visto anteriormente, podemos utilizar a citologia para a investigação de lesões em praticamente qualquer topografia do corpo. A lógica do es- tudo é a mesma: conhecer os critérios citomorfológicos normais e alterados, correlacio- nar com a clínica e, quando possível, entregar um laudo fidedigno à situação. A atuação do citologista deve ser pautada em certezas, uma vez que os laudos irão determinar o seguimento do tratamento do paciente, não sendo permitidos erros de interpretação. Portanto, o estudo das lesões pode ser feito em pulmão, nódulos hepáticos, renais, peritônio, anus, colo uterino, cavidade oral, líquido cefalorraquidiano, lesões de pele, enfim, em qualquer que seja a possibilidade, a citologia pode auxiliar e ser altamente eficaz e assertiva desde que sejam utilizadas as técnicas corretas de coleta e processamento das amostras a serem analisadas. 120 PREVENÇÃO É A MELHOR FORMA DE EVITAR O CÂNCER Natália Mancini O Dia Mundial de Combate ao Câncer (4 de fevereiro) lembra que prevenção do câncer é a melhor forma de evitar o seu surgimento. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são estimados 625 mil novos casos de câncer para 2020. Isso significa um aumento de cerca de 40 mil casos em relação a 2019. Pensando nisso, a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) criou a ação “Vá de Lenço”. O câncer aparece pela junção da disposição genética com a exposição aos fatores de risco. A disposição genética está ligada tanto à hereditariedade, ou seja, a capacidade da mutação genética que causa o tumor ser transmitida para a próxima geração, quanto ao envelhecimento das células. Quando um indivíduo envelhece, suas células também ficam mais velhas e sofrem mudanças. Nesse processo, elas podem ficar mais suscetíveis a desenvolver um câncer. Ao unir essas questões genéticas com os fatores de risco, situações que fazem com que o risco se torne algo maior, explica-se o porquê das pessoas com mais idade serem mais atingidas pelo câncer. “O aumento do número de casos de câncer se dá basicamente por dois fatores principais. Primeiramente, o envelhecimento populacional e, em segundo, o melhor controle de outras doenças. Por isso, o câncer é uma doença preferencialmente de pessoas mais velhas, embora possa acontecer em jovens”, explica o Dr. Felipe Ades, oncologista no Hospital Oswaldo Cruz. Entretanto, a grande questão é que cada vez mais pessoas com menor idade também estão sendo diagnosticadas. De acordo com um estudo feito pelo Observatório de Oncologia, entre 1997 e 2016, houve um aumento no diagnóstico de alguns tipos de cânceres em pessoas com 20 a 49 anos. “Cânceres como de cólon e reto, próstata e glândula tireoide tiveram um aumento significativo nessa faixa etária”, conta o Dr. Luiz Antonio Santini, ex-diretor geral do Inca. LEITURA COMPLEMENTAR 121 Importância da prevenção do câncer CAMPANHA DE DIVULGAÇÃO “VÁ DE LENÇO” Atualmente, no Brasil, uma a cada seis pessoas morre devido ao câncer, de acordo com dados do Observatório de Oncologia. Desse modo, a cada seis mortes, uma é devido a essa doença. Na genética, não há muito o que possa ser feito. Entretanto, felizmente, os casos de câncer causados exclusivamente por essa questão são raros. Assim, o que pode (e deve) ser feito é a diminuição de exposição aos fatores de risco. Cerca de 80% a 90% dos casos poderiam ser evitados se alguns hábitos da rotina da população fossem mudados. Para chamar a atenção das pessoas para a necessidade de evitar esses costumes, a Abrale realizou uma grande ação na Av. Paulista no Dia Mundial de Combate ao Câncer, para a campanha “Vá de Lenço”. Quem passava pelo local era convidado a entrar em uma cabine montada em frente ao Shopping Top Center, para descobrir o seu futuro. Entretanto, ao entrar, a pessoa percebia que não era um futuro qualquer. Era o futuro da saúde dela e de todos os brasileiros. As pessoas respondiam a perguntas relacionadas com os fatores de risco e descobriam se suas ações estavam levando-as para a doença ou se tinham hábitos saudáveis. Foram mais de 400 pessoas diretamente impactadas e conscientizadas pela ação física. Além disso, a campanha “Vá de Lenço” mobilizou mais de 10 famosos nas redes sociais, como Carol Castro, Juliano Cazarré, Malvino Salvador e Adriane Galisteu, que foram convidados a postar uma foto nas suas redes sociais utilizando um lenço para lembrar a população do Dia Mundial de Combate ao Câncer, da importância da prevenção e para homenagear aqueles que já enfrentaram ou enfrentam um câncer. 122 Como prevenir o câncer Existem 12 “mandamentos” indicados pelo Inca para se ter uma vida mais saudável e evitar o câncer. O Dr. Ades considera que “por ordem, o hábito mais importante é não fumar. Depois, vem o tripé boa alimentação, prática de exercícios e manutenção de um bom peso”. 1- Não fumar Fumar aumenta em até 20 vezes a chance de a pessoa desenvolver câncer de pulmão. Além disso, esse mau hábito também está ligado ao câncer de laringe, faringe, cavidade oral e esôfago, e contribui para os cânceres de bexiga, pâncreas, útero, rim, estômago e intestino e alguns tipos de leucemia. Somente um cigarro por dia aumenta em 64% o risco de morte prematura, mas, ao parar de fumar, dentro de 10 anos, a chance de desenvolver o câncer diminui em até 50%. Isso também vale para cigarros eletrônicos. Por mais que, antigamente, se pensasse que eles eram menos nocivos, atualmente, sabe-se que eles também são compostos por substâncias cancerígenas. Então, não vale substituir um pelo outro. O mesmo acontece com o narguilé! Uma roda de 20 a 60 minutos inalando a fumaça equivale a fumar cerca de 100 cigarros. 2- Evitaro consumo de bebidas alcoólicas Duas doses por dia, ao longo de 40 anos, aumentam em 54% a chance de desenvolver câncer de faringe, laringe, esôfago, estômago, fígado e intestino, e, inclusive, o câncer de mama também está relacionado com esse hábito. 3- Evitar o consumo de carnes ultraprocessadas Os conservantes presentes nesses alimentos e o modo como eles são processados podem provocar danos nas células da mucosa intestinal. Dessa forma, afeta seu DNA, causando câncer. Consumir 50 g/dia de carne ultraprocessada aumenta 18% o risco de câncer colorretal. Isso equivale a duas fatias de bacon ou uma salsicha. Outros exemplos de carnes processadas são presunto, linguiça, salame, mortadela e peito e blanquet de peru. 4- Evitar exposição ao sol entre 10h e 16h Evitar totalmente o Sol é impossível, e também não é recomendado. Entretanto, no intervalo entre 10h e 16h, o Sol está mais forte e ele é o grande vilão de todos os tipos de câncer de pele. É importante sempre sair com protetor solar, chapéu e protetor labial. 123 5- Evite exposição a substâncias industriais Agentes químicos, físicos e biológicos, como o benzeno, presente na gasolina, e agrotóxicos, estão relacionados ao desenvolvimento do câncer, principalmente linfoma de Hodgkin, leucemias e câncer de pulmão. 6- Comer alimentos saudáveis Esse “mandamento” foca principalmente na questão de consumir vegetais, frutas, legumes, cereais etc., especialmente os livre de agrotóxicos, já que essas substâncias podem causar, além da intoxicação aguda, alteração nas células, levando ao câncer. Fora isso, também se recomenda evitar o consumo de fast-foods. 7- Manter um peso adequado Essa é uma indicação razoavelmente nova, de acordo com o Dr. Ades. “As medidas para prevenção seguem as mesmas. Temos apenas mais ênfase agora na prevenção da obesidade, um fator de risco anteriormente não muito relacionado a câncer”. 8- Praticar exercícios físicos As atividades mais indicadas são as chamadas aeróbicas, que são movimentos contínuos, prolongados e rápidos, como corrida, dança ou até subir escada. Além de ajudarem a controlar o peso, auxiliam na diminuição do colesterol e fortalece o sistema imunológico. 9- Vacinação contra o HPV O HPV é um vírus sexualmente transmissível, que pode causar mutações genéticas nas células do local onde se hospedar. Ele está extremamente ligado aos cânceres de colo do útero, canal anal, pênis e orofaringe. “A vacinação contra o HPV é fundamental na prevenção do câncer de colo uterino. Praticamente todos os casos são causados por este vírus”, diz o Dr. Ades. Dessa forma, meninas entre 9 e 14 anos e meninos entre 11 e 14 anos de idade devem ser vacinados! 10- Vacinação contra a hepatite B O câncer de fígado está relacionado à infecção causada pelo vírus da hepatite B. Assim como no caso do HPV, ao receber a vacina, a pessoa cria anticorpos contra o vírus e, caso ela entre em contato com ele ao longo de sua vida, seu corpo será capaz de combatê-lo. 124 11- Amamente As mulheres que amamentam podem reduzir de 20 a 25% as chances de desenvolvimento de um câncer de mama e também de ovário. Isso acontece porque, ao amamentar, há uma menor produção de estrógeno, hormônio ligado ao desenvolvimento do câncer de mama, além dos hábitos saudáveis que as mães costumam aderir durante a amamentação, como alimentação e não beber. 12- Realizar exame preventivo De acordo com o Dr. Ades, a mamografia deve ser realizada anualmente por mulheres acima de 45 anos e o preventivo de colo uterino a partir dos 25 anos de idade, o qual, após dois ou três resultados negativos, o intervalo entre os exames passa a ser a cada três anos. A colonoscopia deve ser feita por homens e mulheres com mais de 45 anos e em um intervalo de cinco anos. “Rastreamento para câncer de próstata ainda é controverso. Entretanto, se for feito deve iniciar a partir de 45 anos e feito a cada um ou dois anos”. Além disso, os exames dermatológicos, com periodicidade determinada pelo especialista, e tomografia helicoidal de baixa dose para fumantes de longa data a partir dos 55 anos de idade também são indicados. É possível prevenir os cânceres hematológicos? Segundo o documento lançado pelo Inca com as estimativas do câncer para os anos de 2020, 2021 e 2022, ainda não é possível estabelecer uma ligação direta entre os fatores de risco e as leucemias. Entretanto, existem algumas associações entre os fatores e alguns tipos específicos da leucemia. Por exemplo, leucemia mieloide aguda (LMA): tabagismo, benzeno, radiação ionizante, quimioterapia, síndrome de Down, síndrome mielodisplásica e outras desordens sanguíneas. • Leucemia mieloide crônica (LMC): benzeno. • Leucemia linfoide aguda (LLA): benzeno, radiação ionizante e quimioterapia. A produção de borracha, histórico familiar, exposição a agrotóxicos, solventes e infecção por vírus da hepatite B ou C estão associadas a todos os tipos de leucemia. FONTE: Adaptada de MANCINI, N. Prevenção é a melhor forma de evitar o câncer. Revista ABRALE On-line, 2020. Disponível em: https://revista.abrale.org.br/prevencao-principal-forma-de-evitar-cancer/. Acesso em: 24 maio 2021. 125 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A citologia pode ser aplicada rotineiramente a qualquer topografia do corpo, mas as amostras de mama e tireoide são as mais comuns na rotina. • Existem critérios citomorfólogicos gerais que podem indicar a condição da doença na amostra, mas, para cada caso, é necessário aplicar conhecimentos específicos, a fim de obter um resultado fiel. • Os laudos de tireoide seguem uma orientação específica, conhecida como Sistema Bethesda. 126 1 O Sistema Bethesda para laudos da citopatologia da tireoide direciona o citologista na confecção do laudo, de forma a padronizar a comunicação entre o laboratório e o médico. Acerca desse sistema, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O Sistema Bethesda é um limitador da atuação do profissional citologista. b) ( ) Descreve em seis graus diagnósticos os achados citológicos, alinhando o entendimento médico e laboratorial. c) ( ) Trata-se de diretrizes que fomentam o diagnóstico e a pesquisa das lesões, mas não incluem categorias diagnósticas. d) ( ) Raspados de nódulos da tireoide são pouco sensíveis e específicos, não sendo bons indicadores na pesquisa das doenças. 2 As glândulas mamárias desempenham um papel fundamental para a nutrição e o desenvolvimento dos bebês, por meio da produção do leite materno. Contudo, seu epitélio é susceptível a doenças graves, como o câncer. Assim, deve ser mantido, principalmente após os 40 anos de idade, um acompanhamento médico para rastrear possíveis nódulos ou alterações malignas. Descreva a anatomia da mama humana e cite meios de obter material para estudo citológico dessa topografia. 3 Diversas células podem ser observadas no exame dos espécimes citológicos da tireoide, sendo que algumas fazem parte do interesse diagnóstico e outras acabam sendo coletadas acidentalmente, devido a intercorrências no momento da punção. Analise as assertivas a seguir: I- As células foliculares normalmente estão presentes, mas não fazem parte da tireoide e acabam por aparecer devido à punção do músculo esternocleidomastoideo. II- Pigmentações e cristais, como hemossiderina e cristais de oxalato de cálcio, são encontrados em punções de nódulos tireoidianos. III- Linfócitos são observados em PAAF de lesões inflamatórias agudas da tireoide. IV- Células da paratireoide são morfologicamente idênticas às células foliculares. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a assertiva I está correta. b) ( ) As assertivas II e III estão corretas. c) ( ) As assertivas I e III estão corretas. d) ( ) Todas as assertivas estão incorretas. AUTOATIVIDADE 127 4 Alterações nas células guiam o citologista a identificar se a lesão apresentada é benigna ou maligna. Essas alterações são descritas como “critérios citomorfológicos” e seguem uma condiçãogeral, que descreve quais células indicam o processo maligno. Descreva quais são os critérios gerais de malignidade. 5 A tireoide é uma glândula endócrina, que produz os hormônios tetraiodotiroxina (T4) e triiodotiroxina (T3). Também está envolvida na regulação do metabolismo e suas doenças podem causar alterações em sono, peso corporal e comportamento. Em relação à anatomia da tireoide, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A tireoide é um órgão sólido, composto por um lóbulo, que está localizada na região esternal. b) ( ) Está relacionada com a cartilagem cricoide, possui dois lóbulos e um istmo. c) ( ) Encontra-se no pescoço, posteriormente ao esôfago, apresentando dois lóbulos. d) ( ) Possui dois lóbulos, compostos por folículos que, por sua vez, apresentam abundância de células de Hürtlhe. 128 REFERÊNCIAS ANVISA – AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002. Dispõe sobre o Regulamento Técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. Disponível em: https://bit. ly/3uSzlcq. Acesso em: 25 maio 2021. ANVISA. Resolução RDC nº 302, de 13 de outubro de 2005. Dispõe sobre Regulamento Técnico para funcionamento de Laboratórios Clínicos. 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WHO, 2021. Disponível em: https://www. who.int/news-room/fact-sheets/detail/tobacco. Acesso em: 30 maio 2021. 132 133 CITOLOGIA GINECOLÓGICA UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • reconhecer as estruturas anatômicas, histológicas e a fisiologia do trato genital feminino; • identificar os componentes normais de um exame citopatológico do colo uterino; • distinguir os diferentes micro-organismos presentes em um esfregaço citopatológico e as reações inflamatórias que acometem o epitélio escamoso; • também será capaz de identificar células que correspondem as lesões pré-neoplásicas do colo uterino; • diferenciar as lesões pré-neoplásicas e neoplásicas do colo do útero; • escrever um laudo citopatológico conforme normas internacionais. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ANATOMIA, FISIOLOGIA E COMPONENTES DO EXAME CITOLÓGICO DO COLO UTERINO TÓPICO 2 – MICRO-ORGANISMOS E CITOLOGIA INFLAMATÓRIA TÓPICO 3 – LESÕES PRÉ-NEOPLÁSICAS E MALIGNAS DO COLO DE ÚTERO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 134 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 135 TÓPICO 1 — ANATOMIA, HISTOLOGIA E FISIOLOGIA DO COLO UTERINO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Nas unidades anteriores, estudamos, de modo geral, a aplicação da citologia na rotina diagnóstica e seus métodos de coleta e processamento. Também discutimos a estrutura administrativa necessária para o funcionamento de um laboratório de citopatologia, bem como vimos superficialmente três aplicações principais desse método: mama, tireoide e colo de útero. Nesta unidade, aprofundaremos seus conhecimentos na área da citopatologia que mais apresenta demanda, a citologia de colo uterino. Como vimos anteriormente, ela está ligada a muitos programas – nacionais e internacionais – de prevenção do câncer do colo de útero, por meio do chamado rastreamento. Esses programas contemplam ações de autocuidado e diagnóstico precoce do câncer e também na detecção das lesões precursoras dessa moléstia. Assim, é possível atuar nessa área do conhecimento firmando laudos, os quais levarão a condutas importantes com viés curativo e preventivo, contribuindo diretamente para a saúde pública e observando fotos e diagramas de células normais, inflamatórias e neoplásicas, micro-organismos e demais componentes presentes em uma amostra obtida do colo de útero. Por fim, mas não menos importante, falaremos de monitoramento interno e externo de qualidade (MIQ e MEQ) e nomenclatura padrão dos laudos, a fim de proporcionar um entendimento amplo e bem embasado de mais essa possibilidade de especialização. 2 ANATOMIA DO TRATO GENITAL FEMININO O trato genital feminino se diferencia substancialmente, uma vez que tem como função a produção dos óvulos e dar suporte a uma gravidez. Os órgãos envolvidos no trato genital feminino sofrem ação hormonal e se modificam conforme o ciclo menstrual, que, geralmente, tem duração de 28 dias. Compondo esse sistema, temos os ovários, as tubas uterinas, o útero e a vagina (MARIEB et al., 2012). 136 2.1 OVÁRIOS Estão presentes em pares e, macroscopicamente, se apresentam em formatos ovalados, semelhantes a amêndoas (Figura 1), nas meninas apresentam superfície lisa, após a puberdade passam a apresentar cicatrizes e depressões devido a liberação dos óvulos. Localizam-se lateralmente ao útero e em condições normais medem cerca de 1 × 1,5 cm, mas podem sofrer alterações no tamanho do decorrer do ciclo menstrual e estão ligados ao útero pelas tubas uterinas (BRASIL, 2012; MARIEB et al., 2012). FIGURA 1 – SISTEMA GENITAL FEMININO FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3ncpXNz>. Acesso em: 29 ago. 2021. Microscopicamente (Figura 2), estão envolvidas por uma fina cápsula fibrosa: a túnica albugínea. Ela é recoberta por epitélio cuboide simples, que intercala com epitélio pavimentoso, também chamado de epitélio germinativo. O parênquima é dividido em córtex, rico em folículos ovarianos, corpo lúteo e células de Leydig, e, em medula, é formada por tecido conjuntivo frouxo, rica em vasos sanguíneos e também em células de Leydig, as quais, por sua vez, são responsáveis pela produção dos hormônios ovarianos, quando estimuladas pelas gonadotrofinas (BRASIL, 2012; MARIEB et al., 2012). 137 FIGURA 2 – FOTOMICROGRAFIA DE OVÁRIO FONTE: Marieb et al. (2012, p. 789) 2.2 TUBAS UTERINAS As tubas uterinas recebem o óvulo produzido nos ovários, onde ocorre a fertilização (Figura 1). Essas tubas iniciam no ovário e terminam medialmente na parte superior do útero. Na região próxima aos ovários, existem estruturas chamadas fímbrias, semelhantes a franjas, que se abrem sobre ele (MARIEB et al., 2012). 2.3 ÚTERO O útero (Figura 3) é um órgão oco, posicionado anteriormente ao reto e supe- rior à bexiga. Sua função principal é receber e nutrir o óvulo fecundado e dar suporte nutricional ao feto durante a gestação. É dividido em corpo e colo uterino. O corpo uterino é a porção principal do órgão, dividido em endométrio, que é a camada mais in- terna, composta por epitélio colunar simples e responde ao estímulo hormonal do ciclo; miométrio, que corresponde à camada muscular do órgão, que, nesse caso, se trata de musculatura lisa; e, por último, e mais externamente, o perimétrio, que é a camada serosa (BRASIL, 2012; MARIEB et al., 2012). O colo uterino (Figura 3) liga-se ao canal vaginal, sendo delimitado pelo óstio interno, que se liga ao útero e ao óstio externo, o qual se liga com o canal vaginal. No colo uterino, encontramos os epitélios escamoso, na ectocérvice, e glandular, na endocérvice e no metaplásico, uma região conhecida como zona de transformação (Figura 4) (BRASIL, 2012). 138 FIGURA 3 – ÚTERO FONTE: Adaptada de <https://bityli.com/ik4gp>. Acesso em: 11 ago. 2021. Essa porção do útero recebe especial atenção, pois é nela que se origina o segundo câncer mais letal nas mulheres – o câncer de colo de útero. A citologia do colo uterino tem como base a análise e a interpretação das células coletadas desse sítio (GAMBONI, 2013). FIGURA 4 – EPITÉLIOS DA CÉRVICE FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3jLQM9u>. Acesso em: 11 ago. 2021. 139 Na Figura 4, podemos observar a presença dos três epitélios estudados na citologia do colo uterino. É de suma importância conhecer essa disposição anatômica para o bom exercício da profissão. DICAS Após uma breve revisão da anatomia e da histologia do colo uterino, nosso objetivo não é esgotar os assuntos relativos a seu posicionamento e a sua função, uma vez que isso já foi tratado com profundidade em outras matérias. Assim, veremos, de forma sucinta, uma breve revisão sobre o ciclo hormonal que influencia o sistema reprodutor feminino. 3 FISIOLOGIA DO TRATO GENITAL FEMININO O sistema reprodutor feminino sofre ação de uma sequência de hormônios hierarquicamente dispostos, ou seja, para que um seja secretado, deve ser estimulado por outro. Em primeira instância, temos a liberação de hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH), pelo hipotálamo, em resposta ao GnRH; a hipófise secreta os hormônios folículo estimulante (FSH) e luteinizante (LH) e, por fim, sob a ação do FSH e LH, os ovários liberam estradiol (estrógeno) e progesterona (GUYTON; HALL, 2011). FIGURA 5 – EPITÉLIOS DO COLO UTERINO FONTE: <http://anatpat.unicamp.br/Dscn5179++.jpg>. Acesso em: 11 jul. 2021. 140 Durante o ciclo menstrual, esses hormônios são liberados em quantidades diferentes, conduzindo uma variação rítmica dos níveis hormonais (Figura 5). Esseciclo dura normalmente 28 dias, porém, podem ocorrer variações drásticas de mulher para mulher (GUYTON; HALL, 2011). Os ovários respondem diretamente ao estímulo de FSH e LH, e, na ausência des- ses hormônios, eles permanecem inativos, como acontece durante a infância. Poste- riormente, entre 12 e 14 anos de idade, a hipófise passa a secretá-los, iniciando, então, a fase reprodutiva feminina, marcada pela menarca (primeira menstruação), o aumento das glândulas mamárias e o amadurecimento dos órgãos genitais (GUYTON; HALL, 2011). FIGURA 6 – DISTRIBUIÇÃO HORMONAL DURANTE O CICLO MENSTRUAL FONTE: Guyton; Hall (2011, p. 1049) Quando os ovários são estimulados pelos hormônios FSH e LH, passam a produzir e liberar estrógeno e progesterona, que influenciam diretamente na proliferação do epitélio endometrial (Figura 7), o qual pode ser dividido em três estágios: proliferação, alterações secretoras e descamação do endométrio. Mais externamente, na ectocérvice, o epitélio escamoso sofre maturação pela influência dos mesmos hormônios (GUYTON; HALL, 2011; GAMBONI, 2013). 141 FIGURA 7 – FASES ENDOMETRIAIS FONTE: Guyton; Hall (2011, p. 1042) Assim, encerramos o tema sobre a fisiologia do trato genital feminino e sua resposta a hormônios específicos. É importante lembrarmos do ciclo para o estudo das células em um exame citopatológico do colo uterino, pois é necessário identificar o nível de maturação do epitélio para graduar, quando presentes, as lesões pré-neoplásicas. Para uma melhor compreensão do ciclo ovariano, assista ao seguinte vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ymNSJcVNkFY. Para ajudar a compreender melhor a anatomia do sistema reprodutor feminino, assista também ao vídeo sobre o ciclo ovariano: https://bit. ly/3C3XpvZ. DICAS 4 COMPONENTES NORMAIS DO EXAME CITOPATOLÓGICO DE COLO DE ÚTERO No contexto dos elementos que compõem um exame citológico do colo uterino, veremos os componentes celulares e microbiológicos presentes na rotina da citologia. 4.1 CÉLULAS EPITELIAIS Compõe principalmente um esfregaço e são alvos da avaliação de células epi- teliais descamadas por esfoliação durante a coleta. São divididas em células escamo- sas, glandulares e metaplásicas, dispostas no colo uterino (como observado na Figura 5). Respondem ao estímulo de estrógenos (estradiol) e progesterona (BRASIL, 2012). 142 O colo uterino pode ser dividido em ectocérvice, no qual está presente o epitélio escamoso estratificado não queratinizado, e em endocérvice, que conta com a presença de epitélio colunar simples mucossecretor. Em determinado momento, ocorre a transição do epitélio escamoso para o epitélio colunar, região que é chamada de junção escamocolunar (JEC) (BRASIL, 2012; KOSS; GOMPEL, 2006). 4.1.1 Células escamosas A coleta na região ectocervical permite vislumbrar células do tipo escamoso, dispostas em camadas (epitélio estratificado, Figura 8) e que podem se apresentar em diferentes níveis de maturação. São as principais células avaliadas no exame citopatológico do colo uterino, sendo a sua presença critério para satisfatoriedade da amostra (GAMBONI, 2013). FIGURA 8 – ESTRATO ESCAMOSO DO COLO UTERINO: CÉLULAS SUPERFICIAIS (S); CÉLULAS INTERMEDIÁRIAS (I); E CÉLULAS PROFUNDAS (P) FONTE: Adaptada de IARC (2004) Células escamosas podem ser encontradas em três estágios de maturação com características distintas: • Célula escamosa superficial (Figura 9): é a célula em sua máxima maturação, normalmente presente na fase proliferativa do ciclo menstrual, quando ocorre o pico estrogênico; tem como características citoplasma amplo e cromatina altamente condensada, conferindo ao núcleo um tamanho pequeno (retraído) e coloração eosinófila ou, em alguns casos, basófila. Dessa forma, apresenta baixa relação entre núcleo e citoplasma (N/C). 143 FIGURA 9 – CÉLULA ESCAMOSA SUPERFICIAL: NÚCLEO PICNÓTICO COM CROMATINA ALTAMENTE CONDENSADA (A); CITOPLASMA AMPLO (B) FONTE: Os autores FONTE: Os autores • Célula escamosa intermediária (Figura 10): como o nome sugere, está em sua fase intermediária de maturação durante a fase secretora do ciclo. Nesse caso, revela cromatina mais frouxa, núcleo discretamente maior do que as superficiais e citoplasma também amplo e basófilo. FIGURA 10 – CÉLULAS ESCAMOSAS INTERMEDIÁRIAS: NÚCLEO PEQUENO COM CROMATINA MAIS FROUXA (A); CITOPLASMA AMPLO (B) 144 • Células escamosas profundas ou parabasais (Figura 11): são as células mais imaturas, estão localizadas próximas à lâmina basal, não estão presentes em epitélio hormo- nalmente maduro. Apresentam cromatina compacta, núcleo amplo e citoplasma pe- queno, que, na coloração de Papanicolaou, comumente aparenta coloração azulada. FIGURA 11 – CÉLULAS PROFUNDAS/PARABASAIS: NÚCLEO VOLUMOSO COM CROMATINA COMPACTA (A); CITOPLASMA DENSO E ARREDONDADO (B) FONTE: Os autores; <https://bit.ly/3lXO7vH>. Acesso em: 29 ago. 2021. 4.1.2 Células glandulares endocervicais Esse tipo celular está presente na endocérvice, região mais interna do canal cervical; são mucossecretoras que auxiliam na lubrificação do canal endocervical. Seu citoplasma apresenta-se em azul-claro e o núcleo é condensado e basofílico. Estão dispostas em monocamada diretamente acima da lâmina basal, sendo assim, representam o epitélio colunar simples. Na citologia, são observadas em duas posições (Figura 12): FIGURA 12 – CÉLULAS GLANDULARES ENDOCERVICAIS: GRUPO EM FAVO DE “MEL” (A); GRUPO EM “PALIÇADA” (B) FONTE: Os autores 145 • Em paliçada: nesse caso, as células estão alinhadas lateralmente e o núcleo está localizado na base do citoplasma, aparentando uma “cerca”. • Em “favo de mel”: quando observadas da posição apresentada na Figura 12A, identificamos os núcleos mais centralizados com escasso citoplasma, organizados de forma semelhante ao “favo de mel” construído por abelhas. 4.1.3 Metaplasia escamosa Gamboni (2013) explica que a metaplasia escamosa é o processo em que uma célula madura do tipo cilíndrico mucíparo (glandulares endocervicais) se transforma em outro tipo celular, também madura (escamoso estratificado). Segundo Os autores, este processo começa com a proliferação de células de reserva (Figura 13), as quais deslocam o epitélio cilíndrico para cima. Aos poucos, elas sofrem transformações que as diferenciam em metaplasia madura, em nada distintas das células escamosas. Portanto, metaplasia é um processo de adaptação do epitélio diante de agressões ou estados fisiológicos modificados, como o aumento do pH vaginal. As características que as diferem durante seu processo de maturação e que permitem identificá-las são (Figura 14): alta relação núcleo-citoplasma, núcleo amplo e cromatina frouxa e citoplasma basofílico denso com projeções – que alguns autores descrevem como “células aranha” (BRASIL, 2012). FIGURA 13 – LOCALIZAÇÃO DAS CÉLULAS DE RESERVA FONTE: <https://bit.ly/3g0sHuH>. Acesso em: 13 ago. 2021. FIGURA 14 – CÉLULAS METAPLÁSICAS FONTE: Os autores; adaptada de <https://bit.ly/3jqRYzU>. Acesso em: 29 ago. 2021. 146 4.1.4 Células endometriais As células endometriais (que revestem o endométrio) podem estar presentes nos esfregaços citológicos até o décimo dia do ciclo menstrual e, nesse caso, são consideradas componentes normais (Figura 15). O sistema de nomenclatura Bethesda, de 2014, preconiza que sejam relatadas apenas se presentes em mulheres acima de 45 anos de idade. O revestimento epitelial do endométrio, como já visto anteriormente, é composto por células colunares, portanto, seguem um padrão citomorfológico semelhante, apresentando núcleo denso e hipercromático, citoplasma escasso e, em condições normais, ausência de nucléolos (BRASIL, 2012; KOSS; GOMPEL, 2006). FIGURA 15 – CÉLULAS ENDOMETRIAIS FONTE: <https://bit.ly/3xg23o7>. Acesso em: 1 ago. 2021. 4.2 COMPONENTES NÃO EPITELIAIS Apesar do objeto de estudo da citopatologia ser as células e suas alterações, em um esfregaço, podemos encontrar outros componentes, de forma frequente, que não constituemnecessariamente uma situação de risco – a eles, damos o nome de componentes não epiteliais. A seguir, conheceremos os mais frequentes. 4.2.1 Hemácias Hemácias (Figura 16) podem estar presentes no esfregaço citológico do colo de útero, apresentam-se em tom laranja. Seu significado clínico é pouco importante, uma vez que sua presença pode decorrer de um trauma durante a coleta. Atenção maior se dá quando as hemácias se apresentam lisadas e, nesse caso, podem indicar necrose tumoral. Contudo, é importante frisar que esse quadro não é fator para diagnóstico (BRASIL, 2012; KOSS; GOMPEL, 2006). 147 4.2.2 Leucócitos Os leucócitos são as células de defesa do corpo que eliminam patógenos diretamente pela fagocitose ou produzindo anticorpos (por exemplo, IgM, IgG etc.). São células abundantes no sangue e presentes também nos tecidos, em maior ou menor quantidade, variando conforme a necessidade de uma resposta imunológica (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2015). Como é possível notar, são agentes importantes da fisiologia, estando, portanto, presentes também nos materiais de citologia do colo uterino. 4.2.3 Neutrófilos polimorfonucleares (PMN) Os neutrófilos são o tipo leucocitário circulante de maior abundância. Podem estar presentes na sua forma madura, com o núcleo polissegmentado, daí o nome poli- morfonuclear (Figura 16), ou, em situações agudas, estão presentes em sua forma mais imatura, na qual o núcleo é em formato de bastão, e, nesse caso, são chamados roti- neiramente de bastonetes ou simplesmente bastões (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2015). Comumente, estão presentes em pouca quantidade no esfregaço e não indicam inflamação. Em mulheres pós-histerectomizadas, estão praticamente ausentes, uma vez que sua maior concentração se dá na endocérvice. Em situações de inflamações agudas e na presença de alguns micro-organismos, apresentam-se em grande quanti- dade, podendo, em alguns casos, tornar a amostra inviável para análise (BRASIL, 2012). FIGURA 16 – PMN E HEMÁCIAS: NEUTRÓFILOS POLIMORFONUCLEARES (SETAS PRETAS); HEMÁCIAS (SETAS VERDES) FONTE: Os autores 148 4.2.4 Linfócitos e histiócitos Apresentam-se em condições de cervicites crônicas e a presença de vários estágios de maturação confirma o diagnóstico de cervicite crônica folicular. Já os histiócitos podem representar menopausa, inflamação crônica, radioterapia ou nenhuma condição específica. Podem ter formato ovalado, fusiforme ou redondo, geralmente com o citoplasma espumoso e o núcleo excêntrico em forma de “feijão”. Em alguns casos, eles se fundem, formando o histiócito gigante multinucleado (Figura 17) (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). FIGURA 17 – HISTIÓCITO GIGANTE MULTINUCLEADO: HISTIÓCITO NORMAL (SETA PRETA); HISTIÓCITO GIGANTE MULTINUCLEADO (SETA VERDE) FONTE: Os autores 149 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • Anatomicamente, o sistema reprodutor feminino é dividido em ovários, tubas uterinas e útero. • O ciclo menstrual dura, em média, 28 dias e é regulado por uma série de hormônios que preparam o endométrio para a recepção de um óvulo fecundado. • Em um exame citopatológico de colo de útero, temos componentes epiteliais e não epiteliais. • Leucócitos estão presentes no exame, mas nem sempre estão relacionados com alguma doença ou processo inflamatório. 150 1 O sistema reprodutor feminino passa a ser maturado a partir da primeira menstrua- ção, momento em que o ciclo hormonal ovariano passa a estar presente, permitindo que a mulher esteja preparada para uma gestação. Sobre os hormônios envolvidos nesse ciclo, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) GnRH em nível hipotalâmico, FSH e LH em nível hipofisário e estrógeno e progesterona em nível ovariano. b) ( ) GnRH (hipotálamo), estrógeno e progesterona (hipófise) e FSH (ovários). c) ( ) O ciclo é regido somente por hormônios secretados pelos ovários, sendo eles estrógeno e progesterona. d) ( ) O hormônio GnRH é responsável pela maturação do epitélio endometrial, sendo o alvo da maioria dos contraceptivos orais. 2 O útero é composto anatomicamente pelo corpo uterino, que se subdivide em perimétrio, miométrio, endométrio e colo uterino, este subdividido em endocérvice e ectocérvice, uma ligada, respectivamente, com o endométrio e outra, com o canal vaginal. Analise as sentenças a seguir I- Na endocérvice, encontra-se o epitélio escamoso estratificado queratinizado. II- O endométrio não sofre ação hormonal, permanecendo constante durante toda a vida da mulher. III- Na ectocérvice, está presente o epitélio escamoso estratificado não queratinizado, que sofre ação hormonal, podendo se apresentar em diferentes níveis de maturação no esfregaço citológico. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Ao avaliar um material oriundo do colo de útero, é possível deparar-se com inúmeros componentes, alguns chamados epiteliais e outros não epiteliais. Assinale V para as verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE 151 ( ) Hemácias fazem parte dos componentes não epiteliais. Sua presença, quando íntegras, não indicam nenhuma situação especial. ( ) Neutrófilos polimorfonucleares, quando presentes, são indicativos de inflamação aguda. ( ) São componentes epiteliais células escamosas, metaplásicas, glandulares endo- cervicais e endometriais. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O ciclo menstrual é finamente regulado por uma sequência hormonal que, ao final, resulta em descamação do endométrio, caso não haja implantação de um óvulo fecundado. Esses hormônios são produzidos e secretados por glândulas e órgãos específicos em uma sequência hierarquicamente disposta. Descreva o ciclo e os hormônios envolvidos. 5 A ectocérvice é composta por epitélio estratificado não queratinizado, que sofre ação hormonal, induzindo sua maturação. Descreva os níveis de maturação celular e suas características. 152 153 CITOLOGIA INFLAMATÓRIA E MICRO- ORGANISMOS 1 INTRODUÇÃO Além dos componentes descritos anteriormente, na rotina da citopatologia de colo de útero, pode-se deparar com outras situações de importância clínica, como a presença de micro-organismos patogênicos, oriundo de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ou de desequilíbrios de microbiota. A habilidade de identificar esses agentes patológicos é de extrema importância, uma vez que eles também fazem parte do laudo e sua presença pode gerar um processo inflamatório. Portanto, demonstraremos os aspectos inflamatórios na citologia, que envolvem critérios celulares específicos para guiam o citopatologista na sua decisão. A microbiota vaginal é rica em micro-organismos e sua maioria é incapaz de gerar danos à saúde da mulher, muito pelo contrário, mantém o equilíbrio do pH, impede a disseminação de micro-organismos potencialmente lesivos e permite as condições ideais para o deslocamento do espermatozoide. Entretanto, em situações de mudança de pH, por exemplo, esse equilíbrio é rompido, ocasionando o que chamamos de desvio de microbiota. Quando falamos em desvio de microbiota, não necessariamente falamos em inflamação. Para chamar um quadro de inflamatório, são necessárias características celulares específicas que demonstram uma reação epitelial a situação. É possível, nesse contexto, a presença de inflamação sem a presença de um agente específico. Vistas essas situações, conheceremos melhor como ocorrem esses processos inflamatórios. UNIDADE 3 TÓPICO 2 - 2 CITOLOGIA INFLAMATÓRIA Kumar et al. (2010) descrevem o processo inflamatório como: Essencial para a sobrevivência dos organismos é sua habilidade para ficar livre dos tecidos danificados ou necróticos e invasores estranhos, tais como micro-organismos. A resposta do hospedeiro que executa essesobjetivos é chamada de inflamação. Esta é uma resposta fundamentalmente protetora, destinada a livrar os organismos da causa inicial da injúria celular (p. ex., micro-organismos, toxinas) quanto das consequências de tal injúria (p. ex., células e tecidos necróticos). 154 Essa resposta pode gerar um processo conhecido como retroplasia, ou seja, a redução dos processos metabólicos das células. Tais lesões também comprometem a troca de água entre as células e o meio em que vivem, ocasionando acúmulo de água intracelular. Esse acúmulo gera vacuolização no citoplasma. A diluição das proteínas pelo excesso de água gera palidez no citoplasma quando corado, perdendo a afinidade tintorial e, muitas vezes, assumindo tons acinzentados ou avermelhados (pseudoeosinofilia). Além disso, em alguns casos, ao redor dos núcleos, podem-se notar pequenos halos bem delimitados (BRASIL, 2012). No núcleo, podemos observar a diminuição do seu volume e pregueamento da membrana. Sua afinidade pelo corante também é alterada, devido à degeneração de proteínas ligadas ao DNA, resultando em hipercromasia ou hipocromasia. Também ocorre alteração na solubilidade das proteínas, levando a um aspecto borrado, pela perda de definição entre cromatina e para-cromatina (BRASIL, 2012). 2.1 VACUOLIZAÇÃO DO CITOPLASMA Vacúolos indicam degeneração, que pode resultar de um processo inflamatório ou por apoptose. Para saber do que se trata, é necessário entender o contexto da lâmina. A Figura 18 demonstra vacuolização degenerativa inflamatória (KUMAR et al., 2010). 2.2 HALO PERINUCLEAR Processos inflamatórios podem ocasionar retração do núcleo, devido ao desequilíbrio hidroeletrolítico, gerando pequenos halos (Figura 18). Devemos ficar atentos a essa formação para que não se faça confusão com os halos causados pelo papilomavírus humano (HPV) (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). FIGURA 18 – VACÚOLOS CITOPLASMÁTICOS E HALO PERINUCLEAR INFLAMATÓRIO: VACÚOLOS CITOPLASMÁTICOS (A); HALOS PERINUCLEARES (B) FONTE: Os autores 155 2.3 PSEUDOEOSINOFILIA A pseudoeosinofilia é uma característica em que o citoplasma das células se cora de laranja, devido a alterações bioquímicas. Na Figura 19, é possível observar nitidamente células escamosas superficiais que naturalmente se coram em azul, tingidas de laranja. O caso reforça nitidamente o contexto de inflamação, uma vez que reúne todos os critérios citados até o momento (BRASIL, 2012). 2.4 CERVICITE FOLICULAR E VAGINITE ATRÓFICA O termo cervicite induz o entendimento de “inflamação da cérvice”, sendo uma das formas de inflamação a cervicite folicular ou linfocítica, que consiste na presença de numerosos linfócitos, em diferentes níveis de maturação e macrófagos no exame citológico (GAMBONI, 2013). Anteriormente, vimos a influência hormonal no epitélio da ectocérvice, maturando as células escamosas. Quando o ciclo hormonal é modificado ou interrompido, como ocorre na pós-menopausa, temos um quadro conhecido como atrofia (Figura 19). O epitélio atrofiado é mais fino, menos resistente e, ainda, contribui para a modificação da microbiota vaginal. Esse conjunto de situações permite uma maior susceptibilidade a processos inflamatórios. Quando ocorre inflamação em um quadro atrófico, temos a presença de vaginite atrófica (GAMBONI, 2013). Por ser um fenômeno natural do envelhecimento, é comum encontrar atrofia na prática da citologia. Nesses casos, é comum encontrar alterações regenerativas/ degenerativas, eosinofilia, alterações cromatínicas e, em alguns casos, nucléolos (GAMBONI, 2013). FIGURA 19 – VAGINITE ATRÓFICA: PRESENÇA DE CÉLULAS IMATURAS COM ALTA RELAÇÃO N/C, EVIDENCIANDO ATROFIA FONTE: Os autores 156 2.5 HIPERQUERATOSE E PARAQUERATOSE São alterações celulares ligadas a irritações crônicas, prolapso uterino, tratamentos com alça diatérmica ou laser e até reação secundária a hipoestrogenismo. Hiperqueratose caracteriza-se pela presença de camada granular e pela formação de queratina – o epitélio escamoso da ectocérvice/vagina é não queratinizado –, sendo que as células, nesse caso, apresentam-se como células maduras anucleadas ou com núcleos fantasma, e citoplasma de tonalidade alaranjada (Figura 20). Quando essas células apresentam núcleo, é denominado paraquetose. FIGURA 20 – HIPERQUERATOSE: NOTA-SE A AUSÊNCIA DO NÚCLEO E A TONALIDADE EOSINOFÍLICA FONTE: Os autores 3 REPARO TECIDUAL Uma vez que o processo é essencialmente protetor (KUMAR et al., 2010), pre- cisamos entender que essa proteção não é apenas voltada à eliminação de agentes patogênicos, mas que, findando o estímulo nocivo, há necessidade de reparar o tecido lesado, seja qual for o motivo da lesão. Nesse ponto, normalmente ao fim da cascata inflamatória. 157 Quando há perda de tecido, neutrófilos são recrutados ao local da injúria, em conjunto com macrófagos, com o objetivo de eliminar células mortas e demais detritos. A regeneração inicia quando ocorre no epitélio escamoso, com a proliferação de células basais, e, quando em endocérvice, ocorre a proliferação de células de reserva. Esse movimento tem a finalidade de cobrir o local da lesão, e essas células imaturas seguem se desenvolvendo até que alcancem a maturação (BRASIL, 2012). Ao mesmo passo, fibroblastos são recrutados e se proliferam, inicialmente, ao lado de células inflamatórias e próximo a novas formações vasculares. Conforme os fibroblastos se proliferam, o tecido novamente é reestruturado até que, ao final do processo, o estroma está regenerado e funcional (BRASIL, 2012; KUMAR et al., 2010). É possível observar, na Figura 21, as células envolvidas na regeneração, que têm como característica uma boa coesão (estão “juntas”), formando uma monocamada; os núcleos são de tamanho médio, podendo ou não conter nucléolos e todos eles parecem estar apontando para a mesma direção. A cromatina é granulosa e bem distribuída e o contorno nuclear (borda) é livre de endentamentos e discretamente espessado. O citoplasma é delicado e pálido (BRASIL, 2012). FIGURA 21 – CÉLULAS DE REPARO FONTE: <https://bityli.com/1QBHI>. Acesso em: 29 ago. 2021. Podemos observar que, apesar das semelhanças entre si, é possível diferenciar e precisar o sítio de cada tipo de epitélio. Cada um deles tem sua função e especificidade dentro do contexto fisiológico ao qual respondem; portanto, saber as características de cada tipo celular é fundamental para um bom desempenho na rotina laboratorial. 158 4 MICRO-ORGANISMOS O contato com o exterior torna o canal cervicovaginal propício a infecções e agressões. Contudo, observa-se que há um complexo ecossistema, que atua de forma dinâmica – em outras palavras, ocorre um equilíbrio entre germes saprófitos e os mecanismos de defesa locais. A simples presença desses micro-organismos não constitui inflamação; para que ocorra um processo inflamatório, é necessária a presença de agentes patogênicos, como vírus, fungos, bactérias, protozoários e, raramente, parasitas oriundos de contaminação (GAMBONI, 2013; KOSS; GOMPEL, 2006). A anatomia da zona vulvar faz com que os pequenos lábios vaginais atuem como uma barreira física, impedindo a ascensão dos germes, auxiliando na manutenção da temperatura e do pH. A produção constante de muco forma uma barreira entre o canal cervical e o corpo uterino, ele também atua como fator umidificador, uma vez que na sua composição estão presentes água, mucopolissacarídeos, glicorinidases e eletrólitos. Tais elementos contribuem para o desenvolvimento da microbiota saprófita do local, principalmente os bacilos de Döderlein (lactobacilos acidófilos), que também atuam na manutenção do pH através da produção de ácido láctico (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). Em um microssistema dinâmico, devemos entender que há presença de diversos micro-organismos convivendo em harmonia, portanto, é correto dizer que estamos diante de um poli microbiota, na qual, segundo Gamboni (2013), estão presentes: • Aeróbios Gram-positivos: lactobacilos, Corynebacterium,estreptococos não hemolíticos, enterococos, Staphylococcus epidermidis e Staphylococcus aureus. • Aeróbios Gram-negativos: Escherichia coli, Gardnerella vaginalis. • Anaeróbios: Clostridium, Peptostreptococcus, Bacteroides e Fusobacterium. A citologia não é o padrão-ouro para detecção dos micro-organismos patogê- nicos, porém, em determinados casos, é possível determinar qual é o micro-organismo presente e que possa ser causador da doença, devido a seu aspecto morfológico. 4.1 BACTÉRIAS Entre os micro-organismos patogênicos, a seguir, destacamos os principais tipos de bactérias. 4.1.1 Bacilos de Döderlein (lactobacilos) São os mais abundantes e não configuram infecção, ou seja, fazem parte da microbiota normal da vagina. São produtores de enzimas que causam a lise das células intermediárias, um processo chamado de citólise, o qual resulta na liberação 159 de glicogênio, metabolizado em ácido láctico. Esse processo é o mantenedor do pH vaginal, que gira em torno de 3 a 4,2. A citólise é reconhecida na lâmina pela presença de núcleos soltos (núcleos desnudos), que podem, clinicamente, estar relacionados com corrimento translúcido (BRASIL, 2012). Morfologicamente, são identificados pelo formado em bastão alongado de coloração azulada, devido ao tingimento pelo corante hematoxilina (Figura 22). FIGURA 22 – LACTOBACILOS. OBSERVA-SE O FORMATO ALONGADO EM FORMA DE “BASTÃO” FONTE: Os autores 4.1.2 Gardnerella vaginalis São coco bacilos Gram variáveis, que se proliferam em condições de desequilíbrio da microbiota, por exemplo, com a alcalinização do meio. Cerca de 40% das mulheres que apresentam esse quadro microbiológico são assintomáticas, ou seja, não apresentam nenhuma alteração clinicamente visível. Contudo, quando há presença de sinais e sintomas, podemos listar: corrimento acinzentado, fluido, homogêneo e com odor de peixe estragado, por vezes, se apresenta com aspecto bolhoso. O odor desagradável se deve à ação das enzimas cadaverina e putricina, que metabolizam aminas voláteis (BRASIL, 2012). Esses micro-organismos se aderem ao citoplasma celular, cobrindo-o total ou parcialmente, formando um aspecto de “areia” sobre a célula (Figura 23). Esse achado denomina-se de célula-guia ou clue cell (BRASIL, 2012; GAMBONI 2013). 160 FIGURA 23 – “CÉLULA-GUIA” NA PONTA DA SETA; OBSERVA-SE O ASPECTO DE GRÃOS DE AREIA SOBRE A CÉLULA, EVIDENCIANDO A PRESENÇA DE GARDNERELLA VAGINALIS FONTE: Os autores 4.1.3 Cocos e bacilos Além dos micro-organismos vistos anteriormente, com frequência, também podemos encontrar na rotina uma microbiota composta, sobretudo, por cocos e bacilos (Figura 24). Nesse caso, chamamos de microbiota mista. A presença dessas bactérias pode ou não configurar um quadro patológico – caso ocorra esse padrão de microbiota em mulheres jovens, pode ser uma alteração patológica da microbiota, uma vez que, até os 45 anos de idade, esperamos a presença de lactobacilos (BRASIL, 2012). Contudo, se a presença desse padrão ocorre em mulheres com idade superior a 45 anos, pode-se entender como normal, devido à virada hormonal na pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa, ao modificar o padrão celular, permite também a modificação da microbiota (GAMBONI, 2013). É importante atentar para uma diferença crucial entre a microbiota mista de cocos/bacilos, em que as bactérias permanecem ao “fundo da lâmina”, e a Gardnerella vaginalis, na qual as bactérias recobrem as células. 4.1.4 Actinomyces Trata-se de uma bactéria filamentosa, Gram-negativa. Comum em esfregaços citológicos de mulheres usuárias de dispositivos intrauterinos (DIU), normalmente identificadas como estruturas condensadas no centro com as boras em aspecto filamentoso, vulgarmente conhecidos como cotton balls, ou bolas de algodão. Após 161 coradas, assumem tons que azulados. Sua presença causa processo inflamatório intenso, com leucócitos polimorfonucleares e vacúolos citoplasmáticos característicos (KOSS; GOMPEL, 2006) (Figura 24). FIGURA 24 – ACTINOMYCES FONTE: <https://bit.ly/2Z95mlj>. Acesso em: 29 ago. 2021. 4.2 MICOSES (FUNGOS) Entre os micro-organismos patogênicos, a seguir, veremos alguns exemplos de fungos. 4.2.1 Candida sp O ambiente rico em glicogênio, umidade e temperatura constantes é ideal para o desenvolvimento de fungos. No caso da região urogenital feminina, a maior propensão é o desenvolvimento de Candida sp, fungo que é parte da microbiota, porém, em situações de equilíbrio, não é capaz de se desenvolver a ponto de causar sintomas, ou seja, de se tornar patogênica. Entretanto, em momentos ideais, com desequilíbrio do pH, aumento da disponibilidade de glicogênio, temperatura e umidade mais elevadas, queda na imunidade ou alterações hormonais que possam alterar o microambiente, a Candida sp multiplica-se de forma mais eficiente e ocasiona sinais clínicos relevantes (GAMBONI, 2013). Pode se apresentar em duas formas: esporos ou pseudo-hifas (Figura 25), ambas são relatados no laudo. Quanto aos sinais, durante a análise da região genital, o profissional ou paciente pode verificar a presença de inchaço da vulva e/ou lábios vaginais, corrimento branco com grumos ocasionais, colo hiperemiado. Já os sintomas podem ser sensibilidade ao toque, ardência ao urinar e coceira regional. Esse quadro é conhecido como vaginite micótica ou, mais popularmente, candidíase (BRASIL, 2012). 162 FIGURA 25 – CANDIDA SP: PRESENÇA DA FORMA FILAMENTOSA (PSEUDO-HIFAS) (A); FORMA LEVEDURIFORME (B) FONTE: Os autores 4.3 PROTOZOÁRIOS Entre os micro-organismos patogênicos, mais especificamente os protozoários, destacamos o Trichomonas vaginalis, conforme descrito a seguir. 4.3.1 Trichomonas vaginalis O Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado, encontrado com frequên- cia no trato genital feminino. Trata-se de uma infecção sexualmente transmissível (IST) emergente e que não faz parte da microbiota natural feminina. Apesar de a trans- missão ser frequentemente por via sexual, o compartilhamento de toalhas ou roupas ín- timas com uma pessoa infectada também pode gerar infecção (KOSS; GOMPEL, 2006). Quanto aos sinais e sintomas, algumas pacientes podem ser assintomáticas ou apresentar sintomas intermitentes, mas, quando ocorrem, demonstra corrimento verde-acinzentado, fétido e bolhoso. O colo de útero apresenta petéquias (pontilhados hemorrágicos), situação conhecida como colpite macularis, que alguns autores também denominam como colo em aspecto de morango. Quando presente, a infecção este microrganimo é facilmente identificado nos exames a fresco de urina e secreção, nos quais ele se movimenta livremente (GABONI, 2013; KOSS; GOMPEL, 2006). Nos esfregaços citológicos ele se apresenta, geralmente, de forma ovalada, corado palidademente em azul com núcleo excêntrico (Figura 26). Quando o material é bem fixado, é possível identificar o flagelo (KOSS; GOMPEL, 2006). 163 FIGURA 26 – TRICHOMONAS VAGINALIS FONTE: Os autores 4.4 INFECÇÕES VIRAIS Entre os micro-organismos patogênicos, também estão as infecções virais. 4.4.1 Herpes vírus O herpes vírus é um vírus de DNA, representado por uma molécula de dupla fita de DNA, envolta por um capsídeo icosaédrico apresentando envelope (STEINER, 2018). Tipicamente dividido em herpes vírus simples 1 e 2 (HSV-1 e HSV-2), a diferenciação é realizada de forma sorológica, embora sejam geneticamente semelhantes. O curso infeccioso se dá por uma infecção aguda, a qual é representada clinicamente pelo aparecimento de vesículas (bolhas) repletas de líquido hialino ou amarelado. Na remissão da doença, entra em estado de latência por prazo indeterminado, até ser reativado e novamente agudizar. A região pode ficar dolorida, edemaciada e avermelhada, em decorrência da resposta inflamatória (KUMAR et al., 2010). Essas lesões iniciais se dão na epiderme, que é o local de entrada do vírus, após se disseminam para os neurônios sensoriais presentes nesse primeiro local da infecção. Pelos axônios nucleocapsídeos virais,são transportados até os corpos neuronais, onde entra em estado de latência. O HSV-1 e HSV-2 são transmitidos, principalmente, pelo contato com outra pessoa infectada e com lesões ativas, tendo sua maior incidência nas mucosas orais e genitais, sendo, então, classificadas como infecções sexualmente transmissíveis (IST) (KUMAR et al., 2010). 164 Apesar de o HSV, na maioria dos casos, não causar maiores complicações no hospedeiro imunocompetente, acaba sendo alvo de diagnósticos frequentes nos laboratórios de análises clínicas e citologia. É importante conhecermos o seu curso infeccioso e como ele se apresenta nas células, para que não haja confusão com lesões pré-neoplásicas e neoplásicas de colo de útero. Na citopatologia do colo uterino, encontramos alterações na morfologia celular características pela infecção do HSV. Os principais critérios são (BRASIL, 2012): • citomegalia (células gigantes); • cariomegalia (núcleos grandes); • cromatina rarefeita, gerando um aspecto de “vidro fosco”; • borda nuclear espessada; • multinucleação e amoldamento. Podemos observar todos os critérios expostos na Figura 27. FIGURA 27 – HERPES VÍRUS SIMPLES FONTE: <https://bit.ly/3iUWbe3>. Acesso em: 22 jul. 2021. 4.4.2 Papilomavírus humano (HPV) É o mais importante patogênico relacionado com o colo uterino, pois, em especial, tem alto poder, não só de infectar, mas de causar câncer do colo do útero. Por isso, será amplamente estudado, para entendermos e relacionarmos as lesões precursoras do câncer de colo do útero e a morfologia celular apresentada, que sofre alterações diretamente relacionadas com a presença do HPV. 165 Os HPVs apresentam material genético composto por DNA e são subtipificados conforme sua sequência de DNA. Também são segregados em dois grupos: de baixo risco oncogênico e alto risco oncogênico. É interessante ressaltar que existem mais de 100 tipos de HPVs, porém poucos estão diretamente relacionados ao câncer de colo de útero (BRASIL, 2012; GAMBONI 2013). Entre os subtipos de alto risco, o HPV-16 e HPV-18 são os mais incidentes, estando presentes em mais de 60% dos casos de câncer invasivos e 50% dos adenocarcinomas, ambos do colo uterino. Já os HPVs de baixo risco estão presentes em 90% dos condilomas (verrugas) (GAMBONI, 2013). Genomicamente, apresentam estrutura semelhantes. Ressalta-se que os subtipos de baixo risco oncogênico estão presentes na forma epissomal, ou seja, não se integram ao DNA do hospedeiro, enquanto os HPVs de alto risco oncogênico integram seu DNA ao do hospedeiro, causando, assim, uma desestruturação proteica no material genético. O DNA dos HPVs é dividido em três regiões: as duas primeiras denominadas regiões de leitura aberta precoce “E” (early) e como “L”, de “late” (tardio), já a terceira parte é um código regulatório que não expressa proteínas. Durante seu ciclo vital, as proteínas E1 a E7 ficam responsáveis pela replicação viral, enquanto as L1 e L2 codificam proteínas estruturais (GAMBONI, 2013). A ação desses genes pode ser resumida em: hiperexpressão de E6 e E7, somada à inativação da E2, leva à ativação da telomerase, à instabilidade genômica, à imortalização das células e à proliferação desregrada, constituindo todos os elementos necessários para o desenvolvimento de um fenótipo maligno da célula (GAMBONI, 2013). Em sua maioria, o HPV é transmitido pelo contato íntimo desprotegido, sendo, então, uma IST de extrema importância e relevância na saúde pública. Alguns fatores de risco para a contração do HPV são múltiplos parceiros sexuais e promíscuos, e início precoce das relações sexuais (BRASIL, 2012). Além do uso de preservativos nas relações sexuais, manter um comportamento mais cuidadoso auxilia na diminuição da exposição ao risco de infecção, diminuindo o risco de desenvolver câncer de colo de útero. A grande maioria das mulheres infectadas pelos HPVs de baixo risco oncogênico não tem uma lesão progressiva, ou seja, não correm o risco de desenvolver câncer de colo uterino. Por outro lado, as mulheres acometidas pelos HPVs de alto risco oncogênico têm cerca de 75% de chances de não desenvolver lesões, porém, entre as que apresentarão lesões no colo uterino, 33% regridem, 41% serão persistentes e 25% progridem. Entre os casos progressivos, 10% evoluem para carcinoma in situ e 1% para câncer invasivo (BRASIL, 2012). Clinicamente, o HPV apresenta tropismo por células epiteliais cutâneas e mucosas, resultando em condilomas (verrugas) visíveis a olho nu, geralmente observadas na região ano-genital. Também é capaz de ficar em estado de latência e, nesse caso, 166 as técnicas convencionais de detecção (citologia e/ou biópsia) não são capazes de identificar a presença sendo necessário utilizar técnicas moleculares como reação em cadeia da polimerase (PCR), capturando, assim, o DNA do vírus no material. Em 70% dos casos, temos a condição de infecção subclínica conhecida como condiloma plano, na qual a área acometida só é visualizada com a aplicação de ácido acético durante a colposcopia e no exame citológico de rotina e nas biópsias (BRASIL, 2012). Devido à importância da detecção da infecção pelo HPV, é primordial que o citopatologista saiba identificar os sinais (Figura 28) que demonstram a ação desse agente patogênico no epitélio. São características citológicas da infecção pelo HPV: • Coilocitose: efeito específico da infecção pelo HPV, porém presente apenas em cerca de 30% dos casos. Trata-se de uma alteração em células escamosas superficiais e intermediárias. A célula apresenta aspecto descorado, lembrando uma cavitação com bordas bem delimitadas na região perinuclear, bem como aumento do núcleo e hipercromasia. Em alguns casos, ocorre também a granulação da cromatina. Essas características são resultado da expressão da proteína viral E4, que age desestabilizando o citoesqueleto (ZIMMER; TONET; MEZZOMO, 2019). • Disqueratose: está relacionada com a alteração no padrão de queratinização da célula, ficando evidente a coloração alaranjada e densa. • Macrocitose: em alguns casos, as células podem sofrer alteração no tamanho e se tornar “gigantes”, com alteração do padrão de coloração do citoplasma. FIGURA 28 – EFEITOS CITOPÁTICOS DO HPV: COILÓCITOS (A), NOTA-SE O HALO PERINUCLEAR COM BORDAS ESPESSAS E NÚCLEOS AUMENTADOS DE TAMANHO; DISQUERATOSE (B), CITOPLASMA DENSO DE COLORAÇÃO ALARANJADA, FICANDO EVIDENCIADAS ALTERAÇÕES NUCLEARES (HIPERCROMASIA E CONDENSAÇÃO DA CROMATINA) FONTE: Os autores 167 Ao conhecer esses sinais e saber encontrá-los em uma amostra, o citologista contribui amplamente com a saúde da mulher, uma vez que, detectada uma lesão, a paciente será acompanhada pelo sistema de saúde em todos os processos, impedindo a progressão da lesão até que se torne um câncer, não sendo preciso falar no sofrimento e no desgaste físico e emocional poupados. Do lado administrativo, temos a economia de recursos aplicados, gerando, assim, melhores investimentos nas campanhas. Sabendo a importante correlação entre os HPVs e o câncer de colo uterino, surgiram pesquisas para o desenvolvimento de vacinas, a fim de prevenir o aumento de casos dessa doença. No Brasil, existem dois tipos de vacinas contra o HPV, ambas registradas e aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em 2014, o Sistema Único de Saúde (SUS) incluiu, com atualização em 2017, a vacinação de meninas com idade entre 9 e 14 anos e meninos entre 11 e 14 anos – faixas etárias escolhidas com base em ensaios clínicos, com resultados apontando que, nelas, a produção de anticorpos é mais eficiente e pela exposição ao vírus ser menor nessa fase de vida (INCA, 2021). As vacinas disponíveis no SUS são da Merck Sharp & Dohme (Gardasil), que é tetravalente, conferindo proteção contra os subtipos virais HPV-6, HPV-11, HPV-16 e HPV-18, e a bivalente da empresa GlaxoSmithKline (Cervavix), a qual confere proteção contra os subtipos HPV-16 e HPV-18 (alto risco oncogênico) (INCA, 2021).Desse modo, conclui-se as características inerentes à inflamação, quando vista sob a ótica da citologia oncótica, seus efeitos celulares e compostos do esfregaço. Conhecemos também os principais micro-organismos encontrados na rotina e de relevância clínica, como o HPV, responsável pela quase totalidade dos casos de câncer do colo de útero. A Organização Mundial da Saúde, com o objetivo de disseminar informações sobre o câncer de colo de útero e o exame preventivo, desenvolveu um atlas digital, disponível em: https://screening.iarc.fr/ atlascyto.php?lang=4. DICAS 168 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • Os processos inflamatórios evidenciam características específicas nas células do colo uterino. • Além do estudo celular, a citopatologia do colo uterino diagnostica infecções por fungos, protozoários, vírus e bactérias. • O papilomavírus humano (HPV) é o principal causador isolado das lesões de colo uterino. • Existem vacinas profiláticas contra o HPV disponíveis no SUS. 169 1 Sabendo que o processo inflamatório faz parte do nosso sistema de defesa e que age de forma essencialmente protetora e reparativa, não há necessidade de alarde quando identificado em lâmina. Contudo, essa segurança só é possível quando estamos respaldados em critérios sólidos e bem definidos. Considerando os critérios inflamatórios que ditam a presença de inflamação no material examinado, marque a alternativa CORRETA. a) ( ) As células epiteliais, ao reagirem a um processo inflamatório, podem apresentar aumento do núcleo e citoplasma bizarro, configurando um quadro de inflamação exacerbada. b) ( ) Os critérios inflamatórios celulares são descritos como núcleo discretamente aumentado, podendo ou não apresentar pequenos halos na região perinuclear. c) ( ) As células epiteliais não reagem a processos inflamatórios, cabendo às células do sistema imunológico fazê-lo. d) ( ) Citologia inflamatória não é o foco do diagnóstico, sendo dispensável descrever inflamação nos laudos. 2 O papilomavírus humano (HPV) é o principal agente isolado causador de câncer de colo do útero e de lesões benignas da região anogenital. Constitui um risco presente na vida de homens e mulheres com vida sexual ativa, requerendo cuidados extensivos para reduzir sua disseminação e, consequentemente, evitar o aumento de cânceres de colo de útero. Sobre os fatores de risco e as medidas profiláticas contra o HPV, analise as sentenças a seguir: I- Uso de álcool e drogas psicotrópicas favorecem a infecção pelo HPV, devido ao tropismo desse vírus pelo neuroepitélio periférico. O uso dessas substâncias reduz a atividade metabólica dos neurônios, permitindo a entrada do vírus por pinocitose. II- Comportamento de risco como múltiplos parceiros sexuais e início precoce da vida sexual são os principais fatores de risco de infecção pelo HPV. Contudo, o uso de preservativos e a vacinação auxiliam na proteção contra esse agente patológico. III- A maioria das mulheres infectadas pelos subtipos HPV-6 e HPV-11, obrigatoriamen- te, sofrerá a progressão da lesão para câncer, pois se trata de subtipos de alto risco oncogênico. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. AUTOATIVIDADE 170 3 Diversos micro-organismos causam doenças importantes na região genital, sendo muitos deles infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e causando sintomas como corrimentos e dispareunia, que podem até evoluir para situações mais graves. Classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Trichomonas vaginalis é um protozoário presente nas amostras citológicas com baixa frequência. Clinicamente, apresenta corrimento branco e grumoso, edema da vulva e coceira. ( ) Alguns micro-organismos vivem em equilíbrio constituindo a microbiota vaginal. No entanto, alterações no pH ou baixa imunidade podem permitir que alguns deles se desenvolvam descontroladamente, gerando alguns sintomas. Um exemplo de desvio de microbiota ocasionada por desequilíbrio é a presença de Gardnerella vaginalis. ( ) Candida sp é um fungo comumente encontrado nas amostras e sempre deve ser considerado normal, uma vez que é parte da microbiota transitória da vagina. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Descreva as características citológicas e clínicas apresentadas em um quadro de infecção pelo herpes vírus humano (HSV). 5 Existem mais de 100 tipos de HPVs, embora poucos subtipos estejam fortemente ligados ao desenvolvimento das lesões e cânceres. Descreva brevemente os principais subtipos envolvidos e seu risco para o desenvolvimento de lesões. 171 TÓPICO 3 - LESÕES PRÉ-NEOPLÁSICAS E MALIGNAS DE COLO DE ÚTERO 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, abordaremos o principal alvo da citologia oncótica para o colo de útero: o rastreamento das lesões pré-neoplásicas e malignas, descrevendo os aspectos citomorfológicos e correlacionando, sempre que possível, com a histologia, a fim de demonstrar em todos os níveis o acometimento do epitélio. Serão apresentados a lesão de baixo grau (LSIL), a lesão de alto grau (HSIL), os carcinomas do colo uterino e os adenocarcinomas do colo de útero, importantes quadros que fazem parte do dia a dia do analista, sempre acompanhados de comentários clínicos a respeito das situações e as condutas preconizadas pelo Ministério da Saúde. Por fim, trataremos da produção e padronização dos laudos, uma vez que, sabendo identificar cada situação, faz-se necessária clareza na comunicação com o médico, para que não haja ambiguidade nas informações prestadas. UNIDADE 3 2 ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS O câncer de colo de útero é o mais incidente em escala global, sendo um importante fator de mortalidade e morbidade feminino, atrás apenas do câncer de mama. Nos países em desenvolvimento que não existem programas de rastreamento ou em que há baixo investimento, a incidência é sensivelmente mais alta, levando muitas mulheres à morte, que seria evitável se houvesse diagnóstico precoce e educação da população (BRASIL, 2012). No Brasil, em 2020, foram estimados cerca de 16.710 casos com mortalidade na faixa de 5,33 a cada 100 mil mulheres. Esses números colocam o país em um patamar melhor do que os países em desenvolvimento, porém ainda abaixo de países com programas de rastreamento bem estabelecidos (INCA, 2021). Quando estratificamos os dados por região, a maior taxa de mortalidade é vista na região Norte (26,24/100 mil), seguida das regiões Nordeste (16,10/100 mil) e Centro- Oeste (12,35/100 mil). A quarta e quinta taxas de mortalidade são encontradas no Sul (12,60/100 mil) e no Sudeste (8,61/100 mil), evidenciando uma melhor capacidade de detecção e tratamento (INCA, 2019). 172 FIGURA 29 – TAXA DE MORTALIDADE POR REGIÕES FONTE: <https://bit.ly/3A0fsSn>. Acesso em: 16 jul. 2021. 3 LESÕES INTRAEPITELIAIS ESCAMOSAS DO COLO UTERINO As lesões intraepiteliais escamosas do colo uterino correspondem a lesões proliferativas com perda de diferenciação em maior ou menor grau, as quais podem ou não substituir toda a extensão do epitélio escamoso presente na cérvice. Como já vimos anteriormente, o HPV é o principal agente na progressão das lesões, podendo evoluir para câncer (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). Historicamente, a nomenclatura para as lesões pré-neoplásicas e malignas do colo uterino sofreu diversas alterações. Em 1943, George N. Papanicolaou descreveu um sistema de classes, que contava com uma graduação de I a V. Posteriormente e devido a confusões, a OMS lançou uma nova nomenclatura, proposta por Reagan, contemplando, de forma mais agrupada, as condições citológicas. Nessa nomenclatura, eram utilizados os termos displasia leve, displasia moderada e displasia acentuada/carcinoma in situ. Em 1967,Richart, estudando a história do câncer do colo uterino, desenvolveu um novo conceito: neoplasia intraepitelial cervical (NIC). Tal classificação se dá histologicamente em NIC I, II e III, que correspondem, na citologia, à displasia leve, moderada e acentuada, respectivamente (BRASIL, 2012). Já em 1988, vendo a disseminação do método de Papanicolaou para o rastreamento do câncer de colo uterino, houve a criação de um sistema de nomenclaturas, para servir de padrão internacional, nasceu o Sistema Bethesda de 173 terminologia e classificação diagnóstica para amostras citológicas cervicovaginais, tendo sido atualizado em 2014. Esse sistema determina que as displasias leves são agrupadas como lesões intraepiteliais de baixo grau (LSIL); as displasias moderadas em lesões intraepiteliais de alto grau (HSIL); e as displasias acentuadas como carcinomas in situ (BRASIL, 2012). QUADRO 1 – SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO DAS LESÕES PRÉ-NEOPLÁSICAS DO COLO UTERINO OMS (1974) Richart (histologia) Bethesda (citologia) Displasia leve NIC I Baixo grau Displasia moderada NIC 2 Alto grau Displasia acentuada/carcinoma in situ NIC 3 Alto grau FONTE: Adaptado de Brasil (2012) As graduações das lesões são baseadas em uma progressão histológica das lesões e sua perda de diferenciação, por exemplo, quando o estrato mais superior está acometido, temos uma lesão intraepitelial de baixo grau, uma vez que apenas células maduras estão acometidas pela lesão. Conforme essa lesão avança para os estratos mais próximos à lâmina basal e acomete células menos maduras, temos uma lesão intraepitelial de alto grau (BRASIL, 2012). Na Figura 30, podemos visualizar essa situação, que deve ser cuidadosamente analisada para esclarecer o processo de evolução de uma lesão pré-neoplásica até malignidade. FIGURA 30 – ILUSTRAÇÃO ESQUEMÁTICA DA EVOLUÇÃO DAS LESÕES PRÉ-NEOPLÁSICAS DE COLO UTERINO FONTE: Adaptada de Brasil (2012) 174 Segundo Kumar et al. (2010, n.p.), o conceito de diferenciação celular é “O termo diferenciação refere-se à extensão com que as células do parênquima neoplásico lembram as células parenquimatosas normais correspondentes, tanto morfologicamente quanto funcionalmente, a falta de diferenciação é denominada anaplasia”. Portanto, em uma lesão intraepitelial de baixo grau (LSIL, sigla do inglês low squamous intraepitelial lesion), temos células bem diferenciadas semelhantes ao epitélio escamoso original, ao passo que, em lesões de alto grau (HSIL, sigla do inglês high squamous intraepitelial lesion), essas características se perdem, devido às grandes alterações a nível molecular. Observando-se a Figura 30, é importante reparar que a diferenciação ou maturação celular parte da lâmina basal e, conforme a célula sofre ação hormonal, adquire características diferentes – como representado, podemos citar um citoplasma maior e um núcleo reduzido. Assim, notamos que as alterações na LSIL (NIC I) ocorrem no terço superior apenas, já nas HSIL (NIC II, III) essas alterações acometem o terço médio e inferior. 3.1 CRITÉRIOS CITOMORFOLÓGICOS DAS LESÕES INTRAEPITELIAIS DE BAIXO GRAU (LSIL) Como exposto, as LSILs estão relacionadas com o epitélio maduro que compõe o terço superior do tecido. As células presentes nesses locais apresentam citoplasma amplo, núcleo picnótico ou vesiculoso (GAMBONI, 2013). Contudo, quando há presença de alguma alteração sugestiva de neoplasia, assumem outras características (Figura 31): • o núcleo aumenta de tamanho, podendo facilmente superar três vezes a área de uma célula intermediária normal; • a cromatina passa a ser granulosa e mal distribuída; • ocorre a hiperqueratinização citoplasmática; • binucleação em alguns casos; • presença de coilócitos. A correlação cito/histopatológica nem sempre é possível na rotina do citologista, uma vez que é possível que o laboratório que diagnosticou a citologia pode não fazer o exame da biópsia. NOTA 175 FIGURA 31 – LSIL: PRESENÇA DE “CAVITAÇÃO” PERINUCLEAR (A E B), NÚCLEO AUMENTADO DE TAMANHO E CROMATINA GRANULOSA; PRESENÇA DE BINUCLEAÇÃO E HIPERQUERATINIZAÇÃO DO CITOPLASMA (C); HISTOLOGIA EVIDENCIANDO ALTERAÇÕES APENAS NO TERÇO SUPERIOR O EPITÉLIO (D) FONTE: Os autores Essas características citomorfológicas conferem a presença da ação do HPV nas células. A remissão espontânea ocorre em 80% dos casos e não progride para lesões mais graves. Tais alterações estão ligas aos HPVs de baixo risco oncogênico (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). 3.1.1 Conduta médica recomendada após resultado Para cada categoria diagnóstica, há uma conduta médica sugerida pelo Ministério da Saúde. No caso de LSIL, as pacientes devem repetir o exame citológico após seis meses, porque a taxa de remissão da doença nessa idade é alta (INCA, 2016). Se a citologia de repetição for negativa por duas vezes consecutivas, a paciente volta ao rastreamento anual. Caso seja novamente positiva, ela é encaminhada para a unidade de referência para exame colposcópico e, se mostrar alterações no colo uterino de maiores graus, para biópsia (INCA, 2016). 176 3.2 CARACTERÍSTICAS CITOMORFOLÓGICAS DAS LESÕES INTRAEPITELIAIS DE ALTO GRAU (HSIL) Se, por um lado, falamos em baixo grau, quando o epitélio acometido está res- trito a células maduras no terço superior do epitélio cervical, por outro, vemos a progres- são da lesão para as camadas mais inferiores, acometendo células imaturas, quadro que chamamos de HSIL. No caso das HSIL, o núcleo é o maior aliado ao diagnóstico, pois tem uma relação de proporcionalidade com o grau da lesão, ou seja, quanto mais dis- plásico, mais grave será a lesão (BRASIL, 2012). Podemos, então, descrever os critérios da seguinte forma: • células do tipo metaplásicas, profundas (redondas ou ovais) com citoplasma escasso, referindo-se à imaturidade; • citoplasma pode ser denso, delicado ou queratinizado; • cariomegalia; • alta relação núcleo-citoplasma; • irregularidade nas bordas nucleares (endentamentos); • cromatina grosseiramente granulosa e mal distribuída; • células isoladas ou em grupamentos. A Figura 32 permite identificar os critérios descritos. FIGURA 32 – HSIL: NÚCLEOS DISMÓRFICOS COM CROMATINA GROSSEIRAMENTE GRANULOSA E MAL DISTRIBUÍDA, CITOPLASMA ESCASSO E DELICADO EVIDENCIANDO IMATURIDADE CELULAR (A E B) FONTE: Os autores O quadro citológico de uma lesão intraepitelial de alto grau, em quase totalidade dos casos, apresenta ação do HPV de alto risco oncogênico. O HPV tem tropismo por células imaturas, uma vez, dentro da célula, passa a se replicar. Os subtipos de alto risco oncogênico têm a capacidade de se integrar com o DNA do hospedeiro, causando importantes alterações nucleares, como a inibição da p53. A célula lesada perde sua capacidade de diferenciação e funcionalidade, tornando-se maligna (GAMBONI, 2013). 177 No caso de citologia positiva para HSIL, a paciente deve ser imediatamente encaminhada para a unidade de referência para colposcopia. É importante ressaltar que a repetição citológica é inaceitável como conduta primária. O exame colposcópico compatível com NIC II/II deve ser encaminhado para a biópsia; caso não seja compatível, repete-se o exame citológico (INCA, 2016). 3.3 ATIPIAS EM CÉLULAS ESCAMOSAS (ASC) 3.3.1 Atipias em células escamosas de significado indeterminado: ASC-US Há uma terceira classe diagnóstica que envolve o epitélio escamoso: as ati- pias em células escamosas (ASC, sigla do inglês: atypical squamous cells), divididas em atipias em células escamosas de significado indeterminado (ASC-US, sigla do inglês atypical squamous cells of undermined significance) e atipias em células escamosas não podendo afastar lesão de alto grau (ASC-H, sigla do inglês atypical squamous cells, cannot exclude a high-grade lesion) (GAMBONI, 2013). Principal diagnóstico diferencial com LSIL, o quadro de ASC-US é parte de uma classe diagnóstica de um processo incerto. Em outras palavras, temos alterações que variam entre inflamação e LSIL, porém sem característicasconfirmatórias, mas suspeitas. É uma classe diagnóstica que deve ser evitada, uma vez que exprime incerteza quanto ao quadro. Elevadas taxas de diagnósticos de ASC podem expor fragilidade no conhecimento do citologista (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). Com relação à conduta médica recomendada após resultado de ASC-US, se a paciente tiver idade abaixo de 24 anos de idade, pode-se repetir a citologia em três anos, entrando para condutas especiais apenas se o resultado se repetir positivo. Em pacientes maiores de 25 anos, a citologia deve ser repetida em um ano (BRASIL, 2016). 3.3.2 Atipias em células escamosas não podendo afastar lesão de alto grau: ASC-H Também é usado em situações incertas, mas, dessa vez, oscilando acima da inflamação e próximo a HSIL; são alterações importantes em células metaplásicas ou escamosas imaturas, que conferem características comuns a lesões (Quadro 2), porém, são qualitativa e quantitativamente insuficientes. Esse quadro diagnóstico é delicado e deve ser relatado com cautela, mas jamais deve ser ignorado (BRASIL, 2012). 3.2.1 Conduta médica recomendada após resultado 178 QUADRO 2 – DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ENTRE REATIVIDADE, ASC E LESÕES INTRAEPITELIAIS FONTE: Adaptado de Gamboni (2013) Como podemos reparar no Quadro 2, as diferenças entre ASC-US e LSIL são sutis, assim como entre ASC-H e HSIL. Basicamente, devemos observar a qualidade da cromatina, a borda nuclear e a organização celular, cujas diferenças podem ser vistas na Figura 33. FIGURA 33 – DIFERENÇAS ENTRE ASC E LESÕES INTRAEPITELIAIS FONTE: Adaptada de IARC (2004) A conduta médica recomendada após o resultado de ASC-H é encaminhar a paciente para a unidade de referência para colposcopia, a fim de procurar indícios de lesões importantes do colo uterino. Se houver a presença de lesões sugestivas de HSIL ou outra lesão de alto grau, deve-se encaminhar a paciente para biópsia (INCA, 2016). 179 3.4 CARCINOMA ESCAMOSO O carcinoma escamoso representa cerca de 75% dos cânceres do colo de útero. Como amplamente citado, a presença do HPV é o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença, pois progride de lesões precursoras (LSIL/HSIL) não tratadas até carcinoma, podendo romper a lâmina basal (invasivo). Trata-se de um tumor de desenvolvimento lento e que, se diagnosticado em fases iniciais, tem altas taxas de sucesso no tratamento (BRASIL, 2012; KOSS; GOMPEL, 2006). A paciente pode apresentar sintomas como sangramento vaginal anormal, dor irradiada, perda de peso, edema, dor retal e hematúria. Visualmente, podem ocorrer lesões exofíticas, polipoides ou lesões ulceradas, bem como regiões granulosas dis- cretamente elevadas, friável e sangrante ao toque (BRASIL, 2012; KUMAR et al., 2010). 3.4.1 Características citológicas e subclassificação Por ser uma progressão das HSIL, o carcinoma de colo uterino preserva a maioria das características, embora se apresentem de forma mais acentuada. As HSIL se limitam à porção epitelial, não ultrapassando a lâmina basal, e, para que isso ocorra, demanda-se muito tempo (GAMBONI, 2013). Em um esfregaço citológico (Figura 34), encontraremos células isoladas ou conglomerados frouxos, acentuada anisocitose acompanhada de alto grau de variabilidade na qualidade da cromatina e da morfologia nuclear, bem como hipercromasia acentuada e irregularidade na membrana nuclear, que podem estar presentes nucléolos proeminentes de tamanhos irregulares, múltiplos ou únicos, alterações queratóticas, como hiper ou paraqueratose, e, por fim, uma condição conhecida como diátese tumoral (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). A diátese tumoral representa a resposta do hospedeiro. Trata-se de detritos celulares oriundos da inflamação causada pelo tumor e é uma das chaves para o diagnóstico de carcinoma, uma vez que dificilmente os materiais citológicos, nesses casos, será de fundo limpo (GAMBONI, 2013). Quanto à classificação dos carcinomas de colo uterino podem ser: não queratinizantes, queratinizantes, verrucosos, adenoescamoso e carcinoma pouco diferenciado de pequenas células. No Sistema Bethesda, não há a necessidade de diferenciar os tipos de carcinomas no laudo (BRASIL, 2012). 180 FIGURA 34 – CARCINOMA ESCAMOSO DO COLO UTERINO FONTE: Adaptada de IARC (2004) O esquema da Figura 35 demonstra o fluxo das condutas preconizadas após resultados positivos para lesões pré-neoplásicas e neoplásicas escamosas. FIGURA 35 – CONDUTAS APÓS RESULTADOS ALTERADOS FONTE: Adaptada de Brasil (2016) 181 3.5 TUMORES MENOS FREQUENTES Com menor frequência, pode ser encontrado outros tipos tumorais no colo uterino que não oriundos do epitélio escamoso ou tumores escamosos raros. Segundo Gamboni (2013), podem estar presentes: • Sarcomas: menos de 1% dos tumores malignos do colo uterino. Podem ter origem tanto no corpo uterino quanto em ovários, tubas uterinas e ovários e se apresentam como sarcoma do estroma endometrial, leiomiossarcoma, rabdossarcoma e tumor mülleriano misto maligno. • Melanomas: entre 5 e 10% dos melanomas malignos do trato genital feminino tem origem na vulva e vagina. • Linfoma: pode comprometer o colo uterino, como metástase ou sítio primário. É possível perceber que a diferenciação dos tipos de lesões que acometem o colo do útero requer conhecimento de critérios e muita atenção. Além disso, a importância do correto diagnóstico é essencial, como se pode observar, para o bom prognóstico da paciente. No que diz respeito às alterações escamosas, sarcomas, melanomas e linfomas são os mais frequentes. 4 LESÕES GLANDULARES DO COLO UTERINO Até o momento, falamos exclusivamente de lesões que acometem o epitélio escamoso do colo uterino e, relembrando a anatomia, temos também, no canal endocervical, células glandulares mucossecretoras, que também são acometidas pelo HPV e evoluem para lesões cancerosas. 4.1 ASPECTOS GERAIS Neoplasias malignas que acometem o epitélio glandular são chamadas de adenocarcinomas, que compõem o segundo tipo mais frequente de neoplasia maligna que acomete o colo do útero, apenas atrás do carcinoma escamoso. Sua etiologia está relacionada com a infecção pelos HPV-16 e HPV-18, e alguns estudos demonstram maior presença do subtipo HPV-18. O diagnóstico citológico ainda é o método mais eficiente, porém, devido à limitação de coleta, muitas lesões glandulares podem ser subdiagnosticadas. Isso se deve à localização desse epitélio, mais adentro do canal e, por vezes, recoberto por metaplasia, não podendo descamar essas células e não havendo possibilidade de rastreamento (BRASIL, 2012). Assim como nas lesões escamosas, as glandulares apresentam diferentes quadros diagnósticos, que devem ser cuidadosamente avaliados pelo citopatologista. Os principais quadros diagnósticos são: atipias glandulares de significado indeterminado 182 (AGC), que, por sua vez, é subagrupado em atipia sem outras especificações (SOE/ NOS), atipia favorecendo neoplasia (AGC-NEO), além de adenocarcinoma in situ e adenocarcinoma invasor (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013; MIRANDA et al., 2020). 4.1.1 Atipia em células glandulares: AGC Dentro da classificação AGC, temos um quadro citológico insuficiente para adenocarcinomas, podendo ser apenas reativas (AGC-SOE) ou, devido a características mais marcantes, sugerir a presença de malignidade (AGC-NEO) – decisão que deve ser baseada em critérios citomorfológicos bem estabelecidos (GAMBONI, 2013). Os critérios para diagnóstico de AGC-SOE são presença de grupos celulares sobrepostos minimamente e discreta hipercromasia, presença de grupos 2D ou 3D com discreta perda da polarização dos núcleos. Esses grupamentos podem apresentar discreta variação nos tamanhos nucleares, pouco aumento da relação núcleo citoplasma e nucléolos evidentes. Nesses casos, a cromatina é finamente granulosa e bem distribuída (Figura 36). FIGURA 36 – CÉLULAS GLANDULARES ATÍPICAS SEM OUTRAS ESPECIFICAÇÕES. OBSERVAM-SE AS ALTERAÇÕES DISCRETAS EM CROMATINA, TAMANHO DO NÚCLEO, PRESENÇA DENUCLÉOLOS E DISCRETA PERDA DA RELAÇÃO N/C FONTE: <https://bit.ly/2Ziq4z5>. Acesso em: 29 ago. 2021. Contudo, em quadros de atipias em células glandulares favorecendo neoplasia (AGC-NEO) temos a presença de grupos bi ou tridimensionais, hipercromático, “rosetas”, tiras pseudoestratificadas e projeção dos núcleos para a periferia (inversão da polaridade). A cromatina é mais grosseira e o núcleo perde transparência. Também é notado o espessamento da borda nuclear com discretas irregularidades e aumento da relação N/C (GAMBONI, 2013) (Figura 37). 183 FIGURA 37 – AGC FAVORECENDO NEOPLASIA FONTE: <https://bit.ly/2Ziq4z5>. Acesso em: 29 ago. 2021. As pacientes com citologia positiva para AGC devem ser encaminhadas para colposcopia e, durante o exame, deve ser coletado novo material para reavaliação citológica e, caso sejam encontradas quaisquer alterações, a paciente deve ser biopsiada (BRASIL, 2016). 4.2 ADENOCARCINOMA IN SITU (AIS) O adenocarcinoma de colo uterino é dificilmente diagnosticado na citologia oncótica, em um primeiro momento, pela sua raridade, representando apenas 1% das neoplasias malignas do colo uterino e pelo difícil diagnóstico citológico. Contudo, suas características estruturais e citológicas já são bem estabelecidas (GAMBONI, 2013). No AIS, ocorre descamação em grandes grupos celulares, tiras pseudoestratifi- cadas, plumagem, rosetas, núcleos alongados “em charuto”, cromatina bem distribuída, citoplasma delicado e ausência de diátese tumoral (Figura 38). A chave para o diagnós- tico das lesões glandulares é saber identificar esses critérios (GAMBONI, 2013). 184 FIGURA 38 – AIS: NA LINHA PONTILHADA, O CRITÉRIO “PLUMAGEM” (A-D); “ROSETA” (B); PERDA DA POLARIDADE E ORGANIZAÇÃO ARQUITETÔNICA DO GRUPAMENTO (C). NOTA-SE QUE, EM TODOS OS CASOS, OCORREM NÚCLEOS ALONGADOS COM CROMATINA BEM DISTRIBUÍDA FONTE: <https://bit.ly/3pqyRJT>. Acesso em: 29 ago. 2021. 4.3 ADENOCARCINOMA INVASIVO O adenocarcinoma invasivo apresenta todas as características do AIS, sendo o diagnóstico diferencial pouco provável pela citologia. Um aspecto importante é que invasão está relacionada com o rompimento da membrana basal e consequente invasão do estroma pelo epitélio neoplásico. Entretanto, mesmo que compartilhem das mesmas características, temos nos adenocarcinomas invasores a intensificação dos critérios. Os núcleos são muito mais alterados, maiores, com cromatina grosseira, marginalizada e macronucléolos associados à diátese tumoral franca ou inflamatória (BRASIL, 2012; GAMBONI, 2013). A Figura 39 ilustra o adenocarcinoma invasivo. FIGURA 39 – ADENOCARCINOMA INVASIVO DO COLO UTERINO: OBSERVAR A INTENSIFICAÇÃO DOS CRITÉRIOS (A-C); AO FUNDO DO GRUPAMENTO, É POSSÍVEL OBSERVAR A DIÁTESE TUMORAL NA PRESENÇA DE HEMÁCIAS, LEUCÓCITOS E DETRITOS CELULARES (D) 185 FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3aZIHKj>. Acesso em: 29 ago. 2021. Toda paciente com diagnóstico citológico positivo para AIS ou adenocarcinoma invasivo deve ser encaminhada para colposcopia e biópsia. Como é possível notar, o estudo do diagnóstico citopatológico das lesões pré- neoplásicas e malignas do colo de útero se baseia em observação e aplicação de critérios citomorfológicos. Entretanto, é interessante saber correlacionar esses achados com as informações clínicas da paciente, a fim de direcionar o clínico da melhor forma possível. É importante lembrar que se deve atuar em prol da saúde humana e as atitudes do citologista devem ser criticamente pensadas nesse sentido. A seguir, falaremos sobre a estrutura do laudo citopatológico e a padronização da comunicação. 4.4 LAUDO CITOPATOLÓGICO DO COLO DE ÚTERO Para aprofundar seus conhecimentos sobre os seguimentos clínicos para pacientes com laudos positivos, acesse: https://bit.ly/3b6d0io. DICAS Após a finalização da leitura da lâmina, o citologista deve emitir um laudo con- tendo todas as informações daquela amostra. Para que não haja confusão ou falha na comunicação, foi criado um sistema para relatos, conhecido como Bethesda, que leva esse nome por ter sido desenvolvido em uma convenção na cidade de Bethesda, nos Estados Unidos (KOSS; GOMPEL, 2006). Trata-se de uma padronização internacional de termos, que são padrões de uso obrigatório, embora seja um guia para montagem da estrutura do laudo, e não uma obrigatoriedade. No SUS, a estrutura do laudo (Figura 40) é baseada na versão Bethesda de 2011, apesar de, em 2015, ter sido publicada uma revi- 186 são do sistema, algumas entidades brasileiras já se posicionaram sugerindo a alteração aos laboratórios particulares. Quanto à atualização dos laudos no SUS, em 2020, o Ins- tituto Nacional de Câncer (Inca) fez uma consulta pública acerca da mudança proposta, seguindo, então, para a implementação do novo layout. FIGURA 40 – LAUDO CITOPATOLÓGICO DE COLO DE ÚTERO FONTE: <https://bit.ly/3C5BfZX>. Acesso em: 29 ago. 2021. 187 Utilizaremos o laudo SUS (Figura 40) como base para a explicação das seções necessárias na avaliação, uma vez que cada laboratório pode personalizar seus laudos particulares, porém o laudo proposto pelo SUS é de uso obrigatório e padrão de todos os prestadores de serviço. 4.4.1 Avaliação pré-analítica Nessa parte do laudo, marcamos os motivos pelos quais a amostra foi rejeitada pelo laboratório. Por exemplo, uma lâmina pode não conter uma requisição, o que é um bom motivo para que o laboratório não dê seguimento ao processamento da amostra. Portanto, nesse campo, deve ser informada a rejeição da amostra por parte do laboratório. Entre as possibilidades de rejeição, temos: • ausência ou erro na identificação da lâmina, frasco ou formulário; • lâmina danificada ou ausente; • causa alheias ao laboratório (por exemplo, perda do material no transporte); • outras causas. No entanto, se não houver nenhuma intercorrência pré-analítica, essa seção não deve ser preenchida. 4.4.2 Adequabilidade do material Deve-se informar se o material coletado estava apto para a produção de um laudo fidedigno; caso tenha havido algum impedimento para a leitura do material citológico, devemos preencher após análise microscópica: • Satisfatório: deve sempre ser marcada se foi possível realizar a análise. • Alguns motivos de insatisfatoriedade são: ◦ Material acelular ou hipocelular em menos de 75% do esfregaço: marca-se essa opção caso a quantidade de células presentes na lâmina não era representativa. ◦ Sangue, piócitos, artefatos de dessecamento, contaminantes ou sobreposição celular em mais de 75% da lâmina. ◦ Outros: qualquer outro motivo que tenha impedido a avaliação do material. 4.4.3 Epitélios representados na amostra Nesse campo, deve-se marcar quais epitélios estavam presentes na amostra: • escamoso; • glandular; • metaplásico. 188 É considerada satisfatória a amostra que contenha apenas epitélio escamoso, mas insatisfatória uma amostra composta apenas por epitélio glandular. 4.4.4 Dentro dos limites da normalidade As opções dessa seção são apenas “sim” e “não”. Marcando “sim”, confirma- se que não havia alterações dignas de nota, restringindo-se ao que é normal do sítio anatômico. Ao marcar “não”, deve-se informar o que estava fora da normalidade no material examinado. Ao marcar a opção “não” na normalidade do material, é preciso informar as situações averiguadas, sendo elas: • inflamação; • metaplasia escamosa imatura; • reparação; • atrofia com inflamação; • radiação; • outros. 4.4.5 Microbiologia Como vimos anteriormente, a citologia do colo uterino auxilia na descrição da microbiota vaginal, relatando qual ou quais micro-organismos estavam presentes na amostra. É necessário um cuidado especial no tocante às bactérias e, sabendo que a microbiota vaginal é polimicrobiana, deve-se informar no laudo aquela que está em maior quantidade. Por exemplo, é possível observar a presença de lactobacilos junto a cocos, descrevendo-se a predominante. As opções são: • Lactobacillus sp. • Cocos. • Sugestivo de Chlamydia sp. • Actinomycessp. • Candida sp. • Trichomonas vaginalis. • Efeito citopático compatível com vírus do grupo herpes. • Bacilos supracitoplasmáticos (Gardnerella vaginalis, Mobiluncus sp). • Outros bacilos. • Outros: especificar e descrever parasitas. 189 4.4.6 Alterações celulares O próximo passo do laudo é descrever se havia alguma lesão escamosa ou glandular, informando ao médico a presença de: • ASC-US. • ASC-H. • LSIL. • HSIL. • Carcinoma. • Adenocarcinoma. • AGCs. Há também um campo para informar a presença de atipias em células de origem indefinida e se são ou não neoplásicas. 4.4.7 Observações O laudo conta com um campo aberto para comunicação do citologista com o clínico. Podem ser descritas informações importantes, notas educativas ou solicitações, embora seja um capo que deve ser utilizado com moderação e critério, para que ele não seja banalizado. A Sociedade Brasileira de Citopatologia publicou o seguinte material que contém a atualização da nomenclatura brasileira para laudos de citopatológicos do colo uterino: https://bit.ly/3B74dYn. DICAS 190 SEGUIMENTO DAS ATIPIAS ESCAMOSAS E AVALIAÇÃO DAS CONDUTAS SEGUNDO AS RECOMENDAÇÕES DO MINISTÉRIO DA SAÚDE Mateus F. Delabeneta Dayane B. Costa Jacqueline Plewka Maiara Aline Santos Maurício Turkiewicz INTRODUÇÃO O câncer de colo do útero (ou câncer cervical) é considerado um problema de saúde pública, pois é o quarto tipo de câncer mais frequente nas mulheres em todo o mundo; 570 mil novos casos foram diagnosticados em 2018, representando 3,2% de todos os cânceres – 85% desses casos ocorrem em países em desenvolvimento. No Brasil, é o terceiro tipo de câncer mais incidente na população, sendo o segundo entre as mulheres, com estimativa de 16.590 casos para o triênio 2020-2022, com risco estimado 15,43 casos para cada 100 mil mulheres. No Estado do Paraná, para o ano de 2020, a estimativa era de 990 casos. As Diretrizes para a Detecção Precoce do Câncer do Colo do Útero (2016) recomendam as condutas diante das alterações citológicas, colposcópicas e histopatológicas detectadas no processo de rastreamento dessa neoplasia, aumentando assim a eficiência do processo de prevenção do câncer do colo do útero no SUS. Segundo a Nomenclatura Brasileira para Laudos Citopatológicos (NBLC, 2012), as alterações no epitélio escamoso podem ser classificadas como células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASC-US); células escamosas atípicas não podendo afastar lesão de alto grau (ASC-H); lesão intraepitelial de baixo grau (LSIL); lesão intraepitelial de alto grau (HSIL); lesão intraepitelial de alto grau não podendo excluir microinvasão (HSIL-micro); e carcinoma epidermoide invasor (carcinoma). ASC-US e ASC-H são as alterações mais comuns no exame citopatológico do colo do útero. No Brasil, em 2019, elas representaram 45,9% e 11,7% das incidências, e no Paraná, 46,7% e 12,8%, respectivamente. Essas categorias abrangem critérios citológicos com alterações citomorfológicas mais significativas do que as observadas em processos inflamatórios, porém insuficientes para o diagnóstico de lesão intraepitelial, por isso a concordância entre citologistas nessas alterações fica em torno de 35% a 45%. LEITURA COMPLEMENTAR 191 O seguimento das mulheres com resultado de ASC-US é realizado devido ao risco aumentado para lesões, em comparação com pacientes que apresentam o exame citopatológico normal, bem como das mulheres com resultado de ASC-H, nas quais existe a possível presença de lesões de alto grau. O Manual de Gestão da Qualidade para Laboratório de Citopatologia (MGQ, 2016) engloba os processos de monitoramento externo e interno da qualidade – (MEQ) e (MIQ), respectivamente. O MIQ é realizado por meio da avaliação de índices gerados pelos resultados dos laudos citopatológicos feitos pelo próprio laboratório; a implantação e a manutenção da qualidade dos exames são umas de suas responsabilidades. Esse processo ajuda a identificar as falhas ou os desvios de qualidade no processo interno e permite estabelecer medidas corretivas para garantir a qualidade e a confiabilidade dos exames citopatológicos. O objetivo deste trabalho foi levantar as informações do seguimento e a adesão às condutas preconizadas pelo MS nas mulheres atendidas no SUS com resultado ASC- US e ASC-H no exame citopatológico do colo do útero, em um município do oeste do Paraná, além de avaliar a qualidade desses exames citopatológicos por meio da análise dos indicadores da qualidade da fase pós-analítica do MIQ. MÉTODOS Estudo retrospectivo com base em resultados de exames citopatológicos cervicais e histopatológicos realizados em um laboratório de citopatologia que atende os municípios do oeste do Paraná. O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob protocolo número 892.452. Foram selecionadas as mulheres que apresentaram resultados citopatológicos cervicais alterados de ASC-US e ASC-H, entre 2016 e 2017, nas requisições do MS e no Sistema de Informação do Câncer (SISCAN); informações como data da coleta do exame e data de nascimento foram solicitadas. Considerando os fluxogramas preconizados pelo MS/Instituto Nacional de Câncer (Inca) nas diretrizes, as pacientes com resultado de ASC-US foram estratificadas por faixa etária e tempo de repetição do exame citopatológico: 25 anos, com repetição do exame citopatológico em três anos; entre 25 e 29 anos, com repetição em 12 meses; e ≥ 30 anos, com repetição em seis meses. Verificamos se houve relação entre tempo de repetição citológica de ASC-US e proporção de exames alterados. Nas mulheres com resultado de ASC-H, as diretrizes do MS não recomendam fluxograma com situações especiais, portanto, não houve estratificação em grupos. 192 Analisamos também o desempenho do laboratório que realiza os exames citopatológicos para o SUS seguindo os cinco indicadores do MIQ, cujas fórmulas para o cálculo dos indicadores são descritas a seguir: • Índice de positividade (IP): razão do número de exames alterados pelo total de exames satisfatórios × 100. Percentual de positividade esperada entre 3% e 10%; percentual baixo entre 2% e 2,9%; e percentual muito baixo abaixo de 2%. • Percentual de células escamosas atípicas (ASC) entre os exames alterados: razão do número de exames com ASC-US e ASC-H pelo total de exames alterados × 100. O percentual de referência esperado é menor que 60%. • Percentual de exames compatíveis com ASC entre os exames satisfatórios: razão do número de exames ASC-US e ASC-H pelo total de exames satisfatórios × 100. Espera- se, no máximo, que 4% a 5% de todos os exames sejam classificados como ASC. • Razão ASC/lesão intraepitelial escamosa (SIL): razão do número de exames ASC-US e ASC-H pelo número de exames LSIL e HSIL. Recomenda-se que a relação ASC/SIL não seja superior a três. • Percentual de exames compatíveis com lesão intraepitelial de alto grau (HSIL) entre os exames satisfatórios: razão do número de exames HSIL pelo número de exames satisfatórios × 100. Recomenda-se que o valor seja superior a 0,4%. Os dados foram tabulados e analisados no Microsoft Excel®; o cálculo estatístico foi realizado no programa R estatística (https://www.rproject.org/). RESULTADOS Neste estudo, 42.478 exames citopatológicos do colo do útero foram analisados entre 2016 e 2017. Em relação à adequabilidade do material citopatológico, 98,95% (42.028) amostras foram avaliadas como satisfatórias e 1,05% (405), como insatisfatórias, para análise oncótica. Considerando a relação entre ASC-US e testes satisfatórios, foram encontrados 893 (2,12%) testes com resultados citopatológicos de ASC-US; o percentual de resultados alterados foi de 33,65%. Ainda, 199 testes apresentaram resultados de ASC-H, dos quais um teste foi satisfatório (0,47%); o percentual de resultado da citopatologia alterada foi de 7,47%. Segundo as orientações das diretrizes, na estratificação por faixas etárias, 16,3% (174) das mulheres com resultado de ASC-US tinham menosde 25 anos; 14,1% (98), entre 25 e 29 anos e 69,6% (621), ≥ 30 anos. Em nosso trabalho, das pacientes com resultado de ASC-US, 73,2% (654) repetiram o exame citopatológico; destas, 18,7% (122) permaneceram com exame citopatológico alterado e 81,3% (532) dos resultados foram negativos para malignidade na segunda análise citomorfológica. 193 Além disso, 536 mulheres repetiram o exame fora do período recomendado pelo MS: para as mulheres com menos de 25 anos – 97,1% (100) antes do tempo; 1% (uma) no tempo e 1,9% (duas) depois do tempo recomendado; 71,6% (48), 7,5% (cinco) e 20,9% (14), respectivamente, para pacientes entre 25 e 29 anos; e 34,1% (165), 23,1% (112) e 42,8% (207), respectivamente, para mulheres ≥ de 30 anos. Não houve relação entre tempo de repetição e proporção de exames citopato- lógicos alterados: 1,44% das mulheres que repetiram o exame dentro do tempo preco- nizado tinha os exames alterados; aquelas que o repetiram fora do prazo preconizado e tinham os exames alterados totalizaram 0,93% (p < 0,009). Atendendo às diretrizes do MS para atipias escamosas, 122 pacientes cujo primeiro resultado foi de ASC-US também apresentaram o segundo exame citopatológico alterado [ASC-US (28), LSIL (oito), HSIL (nove), ASC-H (duas) e carcinoma (uma)]; 53,3% (65) delas fizeram exame histopatológico, conforme a Tabela 1. Considerando as mulheres com ASC-H, 34,7% (69) repetiram o exame citopatológico e 13,5% (27) não realizaram ou não repetiram os exames; 51,8% (103) realizaram o exame histopatológico, conforme recomendação do MS. Das 103 mulheres que realizaram o exame histopatológico, 58,3% (60) apresentaram resultados alterados: NIC I – 16,7% (28); NIC II – 31,7% (19); NIC III – 20% (12); e carcinoma epidermoide invasor – 1,7% (uma). O tempo médio entre o resultado do exame citológico de rastreamento e a realização do exame histológico das mulheres com resultado de ASC-H foi de aproximadamente 142 dias. A Tabela 2 apresenta os indicadores de qualidade (MIQ) do laboratório credenciado ao SUS recomendados pelo MS/Inca. 194 DISCUSSÃO Em relação à adequabilidade do material citopatológico, 98,95% das amostras foram satisfatórias para análise tumoral. Esses resultados corroboram os dados encontrados na literatura, que variam de 92,2% a 99,6%. No Brasil, em 2014, o percentual de satisfatoriedade por região foi: Norte – 97,7%; Nordeste – 98,92%; Sudeste – 99,3%; Sul – 99,59%; e Centro-Oeste: 99,07%. Encontramos 1,05% de amostras insatisfatórias; na literatura, os dados relatados variam de 0,4% a 7,8%16-20. Ao analisarmos a prevalência de ASC-US entre os exames satisfatórios, obtivemos o percentual de 2,12%, e 33,65% em relação aos resultados alterados. Um estudo realizado na região Nordeste encontrou 1,96% de prevalência de ASC-US entre os exames satisfatórios, e 36,94% entre os alterados. Já em um trabalho realizado pelo Núcleo de Anatomia Patológica do Instituto Adolfo Lutz, as prevalências foram de 4,71% de resultados satisfatórios e 3,26% de alterados. Considerando os exames satisfatórios, encontramos o percentual de 0,47% nas mulheres com resultado de ASC-H, e 7,47% entre os exames alterados. Em um estudo semelhante, a prevalência foi 1,27% entre satisfatórios e 23,89% entre alterados. Contudo, outros trabalhos apresentam diferentes prevalências quando os exames satisfatórios são considerados: 4,4%; 0,66%; 0,27%. Encontramos 81,3% de resultados negativos para malignidade no total de exames repetidos nas pacientes que apresentaram ASC-US anteriormente. Dados semelhantes (83,3%; 77,7%; 77,5%) foram observados na literatura. Nas mulheres abaixo de 25 anos, 97,1% repetiram o exame antes do período preconizado (três anos). Essa conduta aumenta o número de diagnósticos de LSIL – que apresenta grande probabilidade de regressão –, bem como o número de colposcopias e a possibilidade de sobre tratamento. Além disso, compromete o programa de prevenção dessa neoplasia devido à realização de exames complementares fora das 195 recomendações do MS para essa faixa etária. Para mulheres acima dos 30 anos, 42,8% realizaram o exame após seis meses do resultado inicial de ASC-US; nessas pacientes as chances de HSIL é maior, e, se a lesão não for identificada a tempo, pode evoluir para quadros mais graves. Em nossa casuística, verificamos que 53,3% das mulheres com resultado de ASC-US realizaram o exame histopatológico, resultado superior ao observado por Rosendo et al. (2018), de 28,8%. A maioria das pacientes (75,8%) com resultado citológico de ASC-US apresentou exame histopatológico NIC I, conforme dados da literatura. Esse tipo de alteração representa a expressão citomorfológica de infecção transitória produzida pelo papilomavírus humano (HPV) e possui alta probabilidade de regressão; não é considerada uma lesão precursora do câncer cervical. Destacamos também o achado de 9% de ASC-US com posterior exame histopatológico de NIC II/III. Na literatura, as prevalências variam de 0,8% a 49,9%. Essas lesões precursoras (NIC II/III) normalmente são assintomáticas e curáveis na maioria dos casos quando tratadas adequadamente. Verificamos a presença de carcinoma em 0,1% dos exames citológicos alterados. As diretrizes alertam para a presença de câncer em 0,1% a 0,2% das mulheres com resultado citológico de ASC-US. Alguns autores esperam encontrar maior probabilidade de lesão precursora do câncer cervical nas pacientes com resultado de ASC-H. Em no nosso estudo, 51,8% das mulheres com ASC-H realizaram o exame histopatológico, enquanto 37,7% repetiram o exame citopatológico. A repetição do exame citopatológico acarreta atraso na confirmação do diagnóstico e, conse quentemente, no tratamento, além de gerar gastos desnecessários com a realização da citopatologia de seguimento, já que o recomendado pelo MS é a colposcopia. Das mulheres com ASC-H que realizaram o histopatológico, 51,8% delas tiveram resultado NIC II/III, fato também observado em outros estudos, em que as prevalências variaram de 12,2% a 68%. Detectamos a presença de um carcinoma entre os exames histopatológicos (1,7%), resultado consistente com estudos que demonstram câncer entre 1,3% e 3% nas mulheres com citologia de ASC-H. Os exames citopatológicos devem ser realizados por profissionais habilitados, qualificados e capacitados. Os resultados falso negativos variam de 6% a 56% e ocorrem na fase pré-analítica e analítica. Com o objetivo de reduzir os vieses da metodologia, programas de controle de qualidade devem ser implementados, como o MIQ e MEQ, visando à diminuição e à correção de erros no processo analítico. Verificamos que todos os indicadores de qualidade avaliados do laboratório prestador de serviço para o SUS estavam dentro dos valores referenciais propostos pelo MS/MGQ. Damos destaque 196 principalmente ao IP (6,3%), que expressa a prevalência de alterações celulares nos exames e a sensibilidade do processo do rastreamento em detectar lesões na população examinada. A HSIL (0,94%), lesão verdadeiramente precursora do câncer cervical, é o principal objetivo da prevenção secundária desse câncer. Os valores dos parâmetros estabelecidos pelo MGQ, bem como os observados por outros autores são: IP 7%; 7,2% e 3,6%; HSIL 0,6%; 1% e 0,47%; todos os valores foram registrados no Paraná, em 2019. Os demais indicadores ASC/alterados, ASC/satisfatórios, ASC/SIL que se apresentaram dentro dos parâmetros recomendados pelo MS demonstram a capacidade que o laboratório tem ao definir os critérios citomorfológicos, garantindo assim a qualidade e a confiabilidade dos resultados quanto às normas estabelecidas pela literatura nacional e internacional. CONCLUSÃO Das mulheres que tiveram ASC-US como resultado do primeiro exame citopatológico, 73,2% repetiram o teste, porém, 81,9% o fizeram fora do período recomendado pelo MS. No caso das pacientes com resultado de ASC-H, 42,8% não seguiram as condutas recomendadas pelo MS no programa de prevenção do câncer do colodo útero. Todos os índices do MIQ do laboratório avaliado estavam de acordo com as recomendações do MGQ/MS. Levando em consideração a história natural dessa neoplasia, as diretrizes do MS e a realização de exames citopatológicos com qualidade comprovada pelo MIQ dos laboratórios de citopatologia, de acordo com o MGQ, são importantes ferramentas que auxiliam as ações de gestores dos programas de prevenção desse câncer por meio da integração entre as fases analítica e pós-analítica. FONTE: Adaptada de DELABENETA, M. F. et al. Seguimento das atipias escamosas e avaliação das condutas segundo as recomendações do Ministério da Saúde. J. Bras. Patol. Med. Lab., v. 57, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpml/a/NYZqH7SMKdq7tgfn3gmzsHF/?lang=pt#>. Acesso em: 13 ago. 2021. 197 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • Historicamente, houve alterações na nomenclatura das lesões pré-neoplásicas e neoplásicas do colo uterino. • Existem situações que precedem o câncer de colo uterino, que podem ser identifica- das no exame de Papanicolaou. Para cada uma delas, existe uma conduta de segui- mento preestabelecida pelo Ministério da Saúde. • As lesões presentes podem ser a nível de epitélio escamoso ou glandular e quase a totalidade delas é induzida pelo HPV. • O profissional deve seguir um padrão de laudo, para que não haja falhas na comunicação entre o laboratório e o clínico. 198 1 Em um laboratório especializado citopatologia, um profissional se deparou com células de citoplasma amplo e poligonal, núcleo aumentado de tamanho em três vezes, discretamente hipercromático e com uma área bem delimitada e transparente ao redor do núcleo, se assemelhando a uma cavitação. Diante dessas características, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O profissional estava diante de células imaturas displásicas, portanto sua conclusão foi favorável para HSIL. b) ( ) Trata-se apenas uma condição inflamatória, sem alterações dignas de nota. c) ( ) As características encontradas eram fortemente sugestivas de displasia em células maduras com presença do HPV, portanto, o profissional concluiu que se tratava de uma LSIL. d) ( ) Havia presença uma possível lesão em células do tipo glandular, sugerindo um adenocarcinoma in situ. 2 Segundo estudos epidemiológicos e testes laboratoriais baseados em hibridização, ficou constatado que o HPV é o principal causador das neoplasias malignas do colo uterino. Também é demonstrado que, apesar de existirem vários subtipos virais, apenas alguns têm risco para o desenvolvimento das lesões. Analise as sentenças a seguir: I- Os HPV-6 e HPV-11 não estão envolvidos com a progressão para câncer. A maioria dos casos envolve apenas a presença de condilomas e alterações celulares reversíveis. II- Nos adenocarcinomas, há intensa presença do subtipo HPV-18. III- Apenas a presença do HPV não é fator predisponente ao desenvolvimento de câncer, portanto, é possível que uma mulher adquira o vírus e jamais ocorra qualquer tipo de complicação. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Todas as sentenças estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Existe, na nomenclatura padrão para laudos citopatológicos do colo uterino, uma classe diagnóstica para alterações suspeitas. Com base em quando essa classe deve ser usada, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE 199 ( ) As alterações não são conclusivas para lesões pré-neoplásicas, mas estão acima do grau de inflamação. ( ) Há presença de um ou mais critérios citomorfológicos para lesões pré-neoplásicas, mas são quantitativamente insuficientes para conclusão do laudo. ( ) O citologista não souber como tomar uma decisão, deve utilizar essa classe como saída. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O exame citopatológico do colo uterino se baseia em descamação das células, por meio da abrasão feita por espátula e escova especiais. Após a coleta, o material é disposto em uma lâmina de vidro, fixado e enviado ao laboratório. Sabendo da anatomia do colo uterino e a disposição do epitélio, explique porque o exame de Papanicolaou tem baixa eficácia do rastreamento das lesões do epitélio endocervical. 5 Cada classe diagnóstica gera uma conduta médica, por isso o citologista deve ter certeza do que está liberando em cada resultado. Sabendo disso, descreva brevemente quais são as condutas tomadas após laudos positivos para ASC-US, LSIL, HSIL e carcinoma. 200 REFERÊNCIAS ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; PILLAI, S. Imunologia: Celular e Molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Técnico em citopatologia: caderno de referência 1: citopatologia ginecológica. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Brasília: Cespesc, 2012. 194 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/ tecnico_citopatologia_caderno_referencia_1.pdf. Acesso em: 30 set. 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação Geral de Prevenção e Vigilância. Divisão de detecção precoce e apoio à organização de rede. Manual de gestão da qualidade para laboratório de citopatologia. Rio de Janeiro: Inca, 2016. 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