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LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 6 Romantismo: prosa148 Os diferentes alencares e o retrato do país José de Alencar (1829-1877) é um dos principais nomes do Romantismo brasileiro. Formado em Direito, passou a se dedicar à carreira de advo gado; a partir de 1854, trabalhou como cronista no Correio Mercantil e como redator no Diário do Rio de Janeiro, atuando, também, na política como deputado, na década de 1860. Em seu trabalho como escritor, empenhou-se em cons- truir a nossa própria identidade nacional. Suas obras são lidas e analisadas até hoje por importantes críticos literários, pois não houve autor mais notável que ele para a dissemi- nação do romance no Brasil no século XIX. Sua produção literária abrange muitas etapas do país e está voltada para um projeto de construção da cultura brasi- leira. Como ele mesmo explica no prefácio “Benção paterna”, do livro Sonhos d’Ouro – um de seus últimos trabalhos –, sua ficção pode ser dividida em três fases, como descrito a seguir. Primitiva Essa fase está relacionada às tradições, às lendas e aos mitos indígenas. Fazem parte dessa fase as obras Iracema e Ubirajara. A primitiva, que se pode chamar aborígene, são as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; são as tradições que em- balaram a infância do povo, e ele escutava como o filho a quem a mãe acalenta no berço com as canções da pátria, que abandonou. Iracema pertence a essa literatura primitiva, cheia de san- tidade e enlevo, para aqueles que veneram na terra da pátria a mãe fecunda — alma mater, e não enxergam nela apenas o chão onde pisam. ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. In: Obras completas de José de Alencar. São Paulo: Montecristo, 2012. Fig. 1 José Maria de Medeiros, Iracema, 1884, óleo sobre tela, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil. É preciso ter cuidado com o uso do termo “primitivo”. Nesse caso, estamos reproduzindo a expressão utilizada pelo autor; porém, de- ve-se entendê-la com o significado de primário ou primeiro, e não de algo inferior ou menos evoluído. Atenção Histórica Tal fase representa a valorização do solo nativo e o período de invasão da terra americana pelo europeu. Ao conchego desta pujante criação, a têmpera se apura, toma alas a fantasia, a linguagem se impregna de módulos mais suaves; formam-se outros costumes, e uma existência nova, pautada por diverso clima, vai surgindo. É a gestação lenta do povo americano, que devia sair da estirpe lusa, para continuar no novo mundo as gloriosas tra- dições de seu progenitor. Esse período colonial terminou com a independência. A ele pertencem O guarani e As minas de prata. Há aí muita e boa messe a colher para o nosso romance histórico; mas não exótico e raquítico como se propôs a ensiná-lo, a nós beócios [...]. ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. In: Obras completas de José de Alencar. São Paulo: Montecristo, 2012. Fig. 2 Carlo Ferrario, Campo degli Aimoré, 1870, aquarela sobre papel, Museu Imperial, Rio de Janeiro, Brasil. Cenário da ópera O guarani, no Teatro Scala de Milão: 3 o ato, cena 3. Pós-independência política Considerada a “infância de nossa literatura”, esta fase procura os traços nacionais próprios. Onde não se propaga com rapidez a luz da civilização, que de repente cambia a cor local, encontra-se ainda em sua pureza original, sem mescla, esse viver singelo de nossos pais, tradições, costumes e linguagem, com um sainete todo brasileiro. Há, não somente no país, como nas grandes cidades, até mesmo na corte, desses recantos, que guardam intacto, ou quase, o passado. O tronco do ipê, o Til e O gaúcho vieram dali; embora, no primeiro sobretudo, se note já, devido à proximidade da corte e à data mais recente, a influência da nova cidade, que de dia em dia se modifica e se repassa do espírito forasteiro. [...] Notam-se aí, através do gênio brasileiro, umas vezes embebendo-se dele, outras invadindo-o, traços de várias na- cionalidades adventícias; é a inglesa, a italiana, a espanhola, a americana, porém especialmente a portuguesa e francesa, que todas flutuam, e a pouco e pouco vão diluindo-se para infundir-se n’alma da pátria adotiva, e formar a nova e grande nacionalidade brasileira. Beócio: ignorante, ingênuo; Sainete: graça, gosto. J o s é M a ri a d e M e d e ir o s /W ik im e d ia C o m m o n s ( D o m ín io p ú b lic o ) C a rl o F e rr a ri o /M u s e u I m p e ri a l (D o m ín io p ú b lic o ) F R E N T E 2 149 Desta luta entre o espírito conterrâneo e a invasão estran- geira, são reflexos Lucíola, Diva, A pata da gazela, e tu, livrinho, que aí vais correr mundo com o rótulo de Sonhos d’Ouro. ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872. p. 14-5. Fig. 3 Jerônimo José Telles Júnior, Paisagem, s.d., Museu do Estado de Pernam- buco, Recife, Brasil. José de Alencar foi, de fato, um escritor programático. A divisão da sua obra percorre diversos aspectos da vida brasileira, tanto espaciais quanto temporais, o que demons- tra o compromisso do autor em produzir um retrato o mais completo possível do nosso país. Com o plano de fundar a Literatura brasileira, ele acreditava que era o responsável por iniciar uma tradição literária no Brasil. Por isso, cada um de seus romances foi intencionalmente criado para representar uma face do nosso país. Após tantos anos, é possível dizer que José de Alen- car realmente cumpriu o papel de fundador da Literatura brasileira. Foi o escritor que publicou mais romances em sua época, os quais tiveram significativa repercussão e o tornaram a figura central do Romantismo brasileiro. Além disso, as imagens e os símbolos que ele criou são relevantes até hoje e continuam reverberando como elementos essenciais de nossa identidade nacional. Heróis: o indianismo O primeiro ponto a ser destacado do trabalho literário de José de Alencar é o advento do herói, consolidado na figura do indígena – uma solução exata para uma sociedade em transformação, cujos valores se concentravam cada vez mais no dinheiro e no individualismo. Anteriormente, já havia um desejo de encontrar essa figura, e as primeiras tentativas vieram dos poetas ár- cades e neoclássicos. Outros poetas do Romantismo, sobretudo Gonçalves Dias, também se empenharam em formar o símbolo nacional heroico; porém, nenhum es- critor soube emoldurar essa imagem melhor que José de Alencar. As personagens Peri e Ubirajara, criadas por ele, são perfeitos indígenas: puros, leais e corajosos, apresentam-se como seres completamente ideais, distantes tanto no tempo quanto no espaço. Nas obras, o auge do heroísmo do indígena está na sua integração com o homem branco. Quando os dois são postos juntos, o indígena consegue mostrar seu melhor. Além disso, este tem seu valor reconhecido ao ser bati- zado na fé cristã introduzida pelos portugueses no Brasil. Entretanto, a vida diária, a realidade da escravidão e os desgostos políticos a que a sociedade estava sub- metida na época não condiziam com tais seres míticos das matas exuberantes do passado histórico resgatados na literatura; assim, é claro que as habilidades de Peri e Ubirajara são impossíveis para um homem comum, e o senso de verossimilhança, necessário para que qualquer leitor construa sua lógica, muitas vezes acaba por apontar para um descontentamento com a leitura. É possível, realmente, que tais criações pareçam fantasiosas demais, maquiadas para parecerem muito bonitas, de uma perfeição muito artificial. De fato, no ro- mance heroico, as personagens são capazes de tudo; porém, se é somente ali, no campo fictício do romance, que elas podem tudo, então vale questionar: por que não satisfazer ao sonho de ver o ideal se realizar, especial- mente em um momento que propicia o surgimento de um orgulho nacional? Assim, é preciso dar crédito especial à capacidade ro- mântica de suscitar o sonho de criar um passado lendário. Quando o herói não é o indígena (Peri/Ubirajara), é o homem de regiões afastadas, como Estácio Correia (em As minas de prata), ManuelCanho (em O gaúcho) e Arnaldo Louredo (em O sertanejo). Obviamente, essas personagens são frutos da fértil imaginação do autor, o qual estava totalmente absorto na leitura de romances, em especial os franceses, e também inspirado pela vontade de criar algo propriamente brasileiro, ainda que sob o reflexo dos europeus. Atenção Iracema Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá reali- zadas nele minhas ideias a respeito da literatura nacional; e achará aí poesia inteiramente brasileira, haurida na língua dos selvagens. A etimologia dos nomes das diversas localidades e certos modos de dizer tirados da composição das palavras são de cunho original. ALENCAR, José de. “Carta ao Dr. Jaguaribe”. In: Iracema. Cotia: Ateliê Editorial, 2012. p. 19. O próprio José de Alencar definiu bem: Iracema não é um mero romance, mas um ensaio, uma narrativa len- dária com os objetivos de criar uma identidade brasileira e construir um passado mítico. Iracema, a virgem dos lábios de mel, é uma indígena da tribo dos Tabajara responsável por guardar o segredo da jurema, uma espécie de alucinógeno que permitia o sonho de acordo com o que desejava cada guerreiro. Haurido: extraído, colhido. J e rô n im o J o s é T e lle s J ú n io r/ W ik im e d ia C o m m o n s ( D o m ín io p ú b lic o ) LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 6 Romantismo: prosa150 Fig. 4 Zenon Barreto, Iracema guardiã. Estátua feita de fibra de vidro, localizada na Praia de Iracema, em Fortaleza, Ceará. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a bau- nilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem cor- ria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçan- do, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. ALENCAR, José de. Iracema. Cotia: Ateliê Editorial, 2012. p. 99. A indígena Iracema encontra Martim Soares Moreno, o qual se perdera dos Pitiguara (tribo rival), e o leva para a sua tribo. O jovem português se interessa por Iracema, mas eles não podem se relacionar, já que ela é compro- metida em guardar o segredo da jurema, devendo, para isso, manter-se virgem por toda a vida. Depois de conflitos e desventuras, os jovens acabam ficando juntos, e Iracema se vê impossibilitada de voltar para a sua tribo, pois, se o fizesse, morreria. Ela pôs os olhos cheios no cristão: — Iracema não pode mais separar-se do estrangeiro. — Assim é preciso, filha de Araquém. Torna à cabana de teu velho pai, que te espera. — Araquém já não tem filha. Martim tornou com um gesto rudo e severo: — Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hóspede viúva de sua alegria. Araquém abraçará sua filha, para não amaldiçoar o estrangeiro ingrato. A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tran- ças negras que se espargiam pelo colo, cruzando ao grêmio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o róseo cacto, que já desabrochou em formosa flor, cerra em botão o seio perfumado. — Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco; porque teu sangue dorme em seu seio. Martim estremeceu. — Os maus espíritos da noite turbaram o espírito de Ira- cema. — O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem, porque ela traiu o segredo da jurema. O cristão escondeu as faces à luz. ALENCAR, José de. Iracema. Cotia: Ateliê Editorial, 2012. p. 171. Então, os jovens fogem para a tribo dos Pitiguara, mas depois resolvem ir morar perto do mar, pois Iracema se sentia mal por estar entre os inimigos do seu povo. Martim parte para a guerra com Poti, deixando sua paixão grávida. Iracema tem o bebê sozinha, ao qual dá o nome de Moacir, e fica bastante debilitada. Quando o amado retorna, ela lhe entrega o filho – Moacir, filho da dor – e morre. A jovem mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com ele arrojou-se às águas límpidas do rio. Depois suspendeu-o à teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e amor. — Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento. A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacir; e desde então a ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho. O inocente dormia; Iracema suspirava: — A jati fabrica o mel no tronco cheiroso do sassafrás; toda a lua das flores voa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas ela não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a colmeia. Tua mãe também, filho de minha angústia, não beberá em teus lábios o mel do sorriso. ALENCAR, José de. Iracema. Cotia: Ateliê Editorial, 2012. p. 235. Fig. 5 A jandaia (ou ará) é a ave-símbolo do Ceará. É citada no livro Iracema, de José de Alencar: “Verdes mares bravios da minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”. No local onde Iracema foi enterrada, cresceu um coquei- ro, no qual a jandaia vinha cantar; por isso, a terra passou a se chamar Ceará, que significa “o canto da jandaia”. Tudo é simbólico em Iracema, a começar pela lingua- gem. Ainda que seja um romance narrado em terceira pessoa, pode ser considerado uma prosa de caráter poé- tico pela alta carga de lirismo, pelas inúmeras figuras de linguagem e pela escolha e organização lexical. Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros. Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuo- sa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cea- rense, aberta ao fresco terral a grande vela? Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano? ALENCAR, José de. Iracema. Cotia: Ateliê Editorial, 2012. p. 95. Alcíone: ave fabulosa, de canto lamentoso, considerada pelos gregos de bom augúrio, porque passava para fazer seu ninho no mar, quando calmo. Z e n o n B a rr e to /© P ix a tt tu d e D re a m s ti m e .c o m © L u k a s B la z e k D re a m s ti m e .c o m