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Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; homem e mulher os criou. E ambos estavam nus, o homem e sua mulher; e não se envergonhavam. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre todos os animais. Disse-lhes mais: eis que vos tenho dado todas as ervas que produzem se- mente, bem como todas as árvores em que há fruto que dê semente; ser-vos-ão para mantimento. E assim foi. ... Mas chamou o Senhor Deus ao homem, e perguntou-lhe: Onde estás? Respondeu-lhe o homem: Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu; e escondi-me. Deus perguntou-lhe mais: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não co- messes? Ao que respondeu o homem: A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi. E ao homem disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei dizendo: Não comerás dela; maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos; e comerás das ervas do campo. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado. Livro do Gênesis. A feição deles é serem pardos, maneira de averme- lhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Os homens trazem os beiços de baixo furados e metidos neles ossos brancos e verdadeiros. Os cabelos seus são corredios. Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo pa- rece, não têm nem entendem nenhuma crença. ... Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha. Não comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes e carne comemos. ... Esta terra, Senhor, é de mui- tos bons ares. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo. Carta de Pero Vaz de Caminha. 0-0)A descrição que os portugueses fazem do Novo Mundo aproxima-se da descrição do Paraíso na Bíblia, quando Adão e Eva, como os índios na flo resta tropical, viviam em inocência, paz e harmonia no jardim do Éden. 1-1) O trecho bíblico revela por que a ideia do domínio antropocêntrico da natureza, profundamente liga- da à cultura judaico-cristã, parece tão familiar ao imaginário ocidental. 2-2)A Carta de Caminha mostra a sua preocupação em informar ao rei as condições de cultivo e cria- ção na terra descoberta, bem como a natureza dos nativos aqui encontrados, que ele considerava tão passíveis de serem doutrinados quanto a floresta circundante de ser explorada. 3-3) De acordo com o relato bíblico, a expulsão do ca- sal do Paraíso assinala o início de uma nova etapa de bem-aventurança para os seres humanos, que assumiriam o controle de suas próprias vidas e poriam a seu serviço, com grande facilidade, os recursos selvagens da natureza. 4-4) A escassez de recursos naturais como minérios e especiarias em alguns países da Europa renascen- tista, como Portugal, contribuiu para incentivar as Grandes Navegações, que incluíram a descoberta do continente americano. 2 UFBA I Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, outras brancas; e a terra por cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender d’olhos não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. [...] As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem. Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me pa- rece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. CASTRO, Silvio. A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM, 1996. pp. 97-8. II — Em toda a parte – não acha, meu padrinho? – há terras férteis. Mas como no Brasil, apressou-se ele em dizer, há poucos países que as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata inglesa... Tu irás ver as minhas culturas, a minha horta, o meu pomar – então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras! A ideia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa semente. [...] As primeiras semanas que passou no “Sossego”, Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nela terra bastante, velhas árvores frutíferas, um capoeirão grosso com camarás, bacurubus, tinguacibas, tibibuias, monjolos, e outros espécimes. Anastácio que o acompanhara, apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos indivíduos da mata a Qua- resma muito lido e sabido em coisas brasileiras. BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ática, 1996. pp. 74-6. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Literatura Colonial: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo316 Considerando o processo de idealização presente no discurso crítico-ufanista do Major Quaresma (II) e nes- se trecho da Carta de Caminha (I), estabeleça uma comparação entre aquilo que vai acontecer no Sítio Sossego e a descrição de Caminha sobre a paradisíaca terra descoberta. 3 UFJF 2012 Leia o poema abaixo para responder à questão. Erro de português Quando o português chegou Debaixo de uma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de Sol O índio tinha despido O português. ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. p. 28. Uma das principais estratégias de Oswald de Andra- de é construir suas críticas com recurso do humor. Comente o humor neste poema e explique como ele estrutura a crítica oswaldiana ao processo de coloni- zação do Brasil pela Europa. 4 Enem ECKHOUT, A. “Índio Tapuia” (1610-1666). Disponível em: <http://www.diaadia.pr.gov.br>. Acesso em: 9 jul. 2009. A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelha- dos, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. CAMINHA, P. V. A carta. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br>. Acesso em: 12 ago. 2009. Ao se estabelecer uma relação entre a obra de Eckhout e o trecho do texto de Caminha, conclui-se que A ambos se identificam pelas características esté- ticas marcantes, como tristeza e melancolia, do movimento romântico das artes plásticas. B o artista, na pintura, foi fiel ao seu objeto, represen- tando-o de maneira realista, ao passo que o texto é apenas fantasioso. C a pintura e o texto têm uma característica em co- mum, que é representar o habitante das terras que sofreriam processo colonizador. o texto e a pintura são baseados no contraste entre a cultura europeia e a cultura indígena. E há forte direcionamento religioso no texto e na pin- tura, uma vez que o índio representado é objeto da catequização jesuítica. 5 Enem Murilo Mendes, em um de seus poemas, dialoga com a carta de Pero Vaz de Caminha: A terra é mui graciosa, Tão fértil eu nunca vi. A gente vai passear, No chão espeta um caniço, No dia seguinte nasce Bengala de castão de oiro. Tem goiabas, melancias, Banana que nem chuchu. Quanto aos bichos, tem-nos muito, De plumagens mui vistosas. Tem macaco atédemais Diamantes tem à vontade Esmeralda é para os trouxas. Reforçai, Senhor, a arca, Cruzados não faltarão, Vossa perna encanareis, Salvo o devido respeito. Ficarei muito saudoso Se for embora daqui. Murilo Mendes. Murilo Mendes – poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Arcaísmos e termos coloquiais misturam-se nesse poema, criando um efeito de contraste, como ocor- re em: A A terra é mui graciosa/Tem macaco até demais B Salvo o devido respeito/Reforçai, Senhor, a arca C A gente vai passear/Ficarei muito saudoso De plumagens mui vistosas/Bengala de castão de oiro E No chão espeta um caniço/Diamantes tem à vontade F R E N T E 2 317 6 IFSP 2017 Leia o poema a seguir do padre jesuíta, José de Anchieta, e, em seguida, analise as assertivas. A Santa Inês José de Anchieta I Cordeirinha linda, Como folga o povo Porque vossa vinda lhe dá lume novo! Cordeirinha santa, de Iesu querida, vossa santa vinda o diabo espanta. Por isso vos canta, com prazer, o povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo. Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão pura. Vossa formosura honra é do povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo. Virginal cabeça pela fé cortada, com vossa chegada, já ninguém pereça. Vinde mui depressa ajudar o povo, pois com vossa vinda lhe dais lume novo. Vós sois, cordeirinha, de Iesu formoso, mas o vosso esposo já vos fez rainha. Também padeirinha sois de nosso povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo. ANCHIETA, José de. In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1991. I. Na sexta estrofe, pode-se depreender que padre José de Anchieta faz uma referência a Santa Inês e pode-se comparar o sacrifício dela com o de Je- sus, ou seja, ela foi sacrificada para salvar o povo. II. Nos versos “Cordeirinha linda” e “Cordeirinha san- ta”, pode-se depreender que o diminutivo é usado para expressar afetividade em relação à santa. III. Pode-se depreender que o poema tem o objetivo de evangelizar por meio da exaltação das virtu- des do sacrifício e da santidade de Santa Inês. É correto o que se arma em a I e II, apenas. b II e III, apenas. c I, II e III. d III, apenas. e II, apenas. 7 UPE 2017 As manifestações da literatura do Brasil Colônia estão ligadas ao Quinhentismo português e ao Seiscen- tismo peninsular. Assim, entre os anos de 1500 e 1600, encontram-se importantes produções, como as de José de Anchieta e a de Bento Teixeira, as quais marcam pre- sença nas origens da literatura brasileira. Txto 11 Primeiro ato Cena do martírio de São Lourenço. Cantam: Por Jesus, meu salvador, Que morre por meus pecados, Nestas brasas morro assado Com fogo do meu amor. Bom Jesus, quando te vejo Na cruz, por mim flagelado, Eu por ti vivo e queimado Mil vezes morrer desejo. Pois teu sangue redentor Lavou minha culpa humana, Arda eu pois nesta chama Com fogo do teu amor. O fogo do forte amor, Ah, meu Deus!, com que me amas Mais me consome que as chamas E brasas, com seu calor. Pois teu amor, pelo meu Tais prodígios consumou, Que eu, nas brasas onde estou, Morro de amor pelo teu. Auto de São Lourenço, de José de Anchieta. Txto 12 Prosopopeia I Cantem Poetas o Poder Romano, Sobmetendo Nações ao jugo duro; O Mantuano pinte o Rei Troiano, Descendo à confusão do Reino escuro; Que eu canto um Albuquerque soberano, Da Fé, da cara Pátria firme muro, Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira, Pode estancar a Lácia e Grega lira. LÍNGUa PORTUGUeSa Capítulo 3 Literatura Colonial: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo318