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AN02FREV001/REV 4.0 
 26 
PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA 
Portal Educação 
 
 
 
 
 
 
CURSO DE 
PSICOSSOMÁTICA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aluno: 
 
EaD - Educação a Distância Portal Educação 
 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 27 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CURSO DE 
PSICOSSOMÁTICA 
 
 
 
 
 
 
MÓDULO II 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este 
Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição 
do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido 
são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. 
 
 
 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 28 
 
 
MÓDULO II 
 
 
3 O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE PSICOSSOMÁTICA II 
(CONTINUAÇÃO) 
 
 
Em virtude do desenvolvimento da psicanálise, até o final da década de 
1940, grande parte dos pesquisadores de psicossomática baseou seus estudos 
nesta abordagem. Um dos exemplos de grande destaque foi a formação da Escola 
de Chicago, por Franz Alexander e Thomas French. 
Alexander foi influenciado pela abordagem psicanalítica e da psicologia da 
Gestalt, além dos estudos da neurologia e da endocrinologia. O diretor da Escola de 
Chicago desenvolveu a ideia de especificidade da doença, o que significa que uma 
resposta fisiológica a um estímulo emocional varia conforme a natureza do estado 
emocional que a desencadeou. Nesse sentido, haveria uma especificidade orgânica 
influenciada por uma força psicológica propulsora, o que levaria cada doença a 
corresponder a um quadro emocional ou a um tipo de personalidade. Alexander 
delineou sete doenças, que ficaram conhecidas mais tarde como psicossomáticas, 
mas na sua concepção toda doença é psicossomática, visto que fatores emocionais 
influenciam todos os processos do organismo, por meio das vias nervosas e 
humorais (ALEXANDER, 1923/1989). 
Considerado por muitos estudiosos como seguidor de um modelo linear, 
causal e redutivista, Alexander realizou descrições e análises clínicas bastante 
significativas, que contribuíram de modo expressivo para a área da psicossomática. 
A partir dos trabalhos realizados por Spitz, em 1950, contatou-se a influência 
que a ausência da figura materna exercia no plano da psicopatologia, e verificou-se 
que essa ou outras ausências são sentidas no psiquismo, aumentando a disposição 
do indivíduo à doença. 
Outra importante instituição dentro dos preceitos psicanalíticos que merece 
destaque é a Escola Psicossomática de Paris, criada em 1962. Representada por 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 29 
Pierre Marty, Michel M´Uzam e Christian David, com a finalidade de formar 
psicossomaticistas, promover a pesquisa e fornecer atendimento clínico. Estes 
estudiosos partiam do pressuposto de que os pacientes psicossomáticos 
apresentavam as seguintes características: 
 
I) Escassa dificuldade de simbolizar; 
II) Sonham pouco ou seus sonhos são demasiadamente concretos; 
III) Pouca elaboração psíquica; 
IV) Pensamento tipo operatório aprisionado no concreto; 
V) Atitudes pragmáticas (baseadas na prática). 
 
Desse modo, considera-se que este paciente tinha pouca ligação com seu 
inconsciente, despontando em uma incapacidade de simbolizar, tornando-se 
vulnerável a qualquer estresse e, como consequência, seu organismo poderia reagir 
com uma doença somática. Conforme Ramos (2006), para esses estudiosos, as 
doenças orgânicas necessitam de sentido e quando não há significado simbólico, há 
uma incompatibilidade entre doenças psíquicas e orgânicas. 
O objetivo inicial desses teóricos era compreender as patologias somáticas 
cuja dinâmica não correspondiam ao modelo da conversão histérica, utilizando o 
conceito psicanalítico de neurose atual. Entretanto, gradualmente foi se 
desenvolvendo um corpo clínico e teórico que considera a sintomatologia a partir da 
ideia de que um menor grau de atividade mental corresponde a uma maior 
vulnerabilidade somática. Diante de um traumatismo, por exemplo, um indivíduo que 
apresenta uma atividade mental pouco desenvolvida não teria recursos mentais 
suficientes para lidar com o excesso de estimulação, então haveria uma 
desorganização psíquica que passaria a atingir as funções somáticas, menos 
evoluídas. 
Em 1970, surge a Escola de Boston sob os cuidados de dois psicanalistas 
americanos: Sífneos e Nehemiah, que desenvolvem uma opinião semelhante a dos 
pesquisadores da escola francesa. Para Sífneos e Nehemiah (1970), os pacientes 
psicossomáticos eram alexitímicos, ou seja, incapazes de nomear ou expressar 
sentimentos em razão da incapacidade de reconhecê-los. Dessa maneira, por meio 
de observações, estes autores consideraram que os pacientes com doenças 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 30 
psicossomáticas, apresentavam uma desordem específica nas suas funções afetivas 
e simbólicas, acarretando uma forma de se comunicar confusa e improdutiva. 
Apesar do importante estudo realizado pelos autores, sua aceitação tem sido 
restrita, já que contraria a maioria das observações clínicas feitas por diversos 
profissionais. Santos e Otelo (1992), por exemplo, citam que na prática veem-se 
manifestações psicossomáticas em histéricos, obsessivos e psicóticos, sendo que os 
sintomas psicossomáticos possuem cadeias associativas significativas tanto nos 
neuróticos quanto nos delírios psicóticos. 
Ramos (2006) acredita que a questão da conceituação psicanalítica no 
estudo da psicossomática implica em trabalhar com o símbolo apenas no plano 
verbal, isto é, abstrato. Na visão da autora, a Escola Psicossomática de Paris, ao 
considerar que as somatizações não possuem significação simbólica, sinalizando 
apenas uma disfunção, perde contato com o trabalho com o inconsciente e cria uma 
dificuldade técnica. Neste contexto, Marty (1990) apresenta aos psicanalistas um 
trabalho terapêutico com técnicas de relaxamento para pacientes com tendência a 
somatizar. 
Segundo McDougall (1986,1989), os pacientes alexitímicos são normopatas, 
o que quer dizer que para se adaptar usam uma normalidade falsa, não 
verdadeiramente afetiva. Para esta psicanalista, grande parte dos pacientes 
orgânicos não se enquadra nesta categoria. 
Nota-se que muitos conceitos e concepções sobre a psicossomática foram 
desenvolvidos sem que se criasse um corpo coerente que reunisse ou possibilitasse 
um nexo entre a teoria e a prática terapêutica. 
Mello Filho et al. (1992) aponta que três fases foram de suma importância 
para a evolução da psicossomática: 
 
I) Fase inicial ou psicanalista → refere-se à origem inconsciente das 
enfermidades, além das teorias da regressão e sobre os benefícios secundários do 
adoecer, entre outros. 
II) Fase intermediária ou behaviorista → que se distingue das demais 
pelo estímulo à pesquisa em homens e animais com o intuito de enquadrar os 
achados à cientificidade exata e dando estímulo aos estudos sobre estresse. 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 31 
III) Fase atual ou multidisciplinar → que pretende dar foco ao social e à 
visão da psicossomática como uma atividade fundamentalmente de interação e de 
interconexão entre vários profissionais de saúde. 
 
Atualmente, não encontramos uma teoria abrangente ou unificadora. Os 
modelos vigentes ainda seguem predominantemente o paradigma biomédico. Sendo 
assim, o conceito de psicossomatização, todavia, se encontra atrelado a este 
paradigma, o qual pode ser resumido da seguinte maneira: o organismo funciona 
como uma máquina que deve ser analisada e reduzida em pequenas partes. Psique 
e corpo mantêm uma relação causalista e determinista, sendo possível separá-las 
de forma objetiva. Saúde é considerada como ausência de doença, a qual é 
explicada como um mau funcionamento de mecanismos biológicos e ou 
psicológicos. 
 
 
4 A PSICOSSOMÁTICA NOS DIAS ATUAIS 
 
 
Em contrapartida,com o progresso da Medicina Molecular, da 
Neurobiologia, da Genética e da aplicação da teoria quântica na Biologia o modo de 
ver a relação corpo-mente está sendo continuamente ampliado, promovendo uma 
nova reflexão sobre saúde e doença. 
Impulsionado pelo desenvolvimento de várias áreas científicas, como a 
Física, Química, Biologia e Psicologia, a visão de mundo está se aproximando 
paulatinamente de um princípio mais holístico, termo que designa como descrito por 
Weil (1990), a totalidade em que o universo seria um conjunto em constante 
formação abrigando diferentes níveis como: ideológico, biológico e psicológico que 
se influenciam mutuamente. 
Atualmente, no campo da psicossomática encontramos algumas publicações 
que buscam integrá-la em uma nova definição. Para Lipowiski (1984, p. 167): 
 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 32 
 
Psicossomática é um termo que se refere à inseparabilidade e 
interdependência dos aspectos psicológicos e biológicos da humanidade. 
Essa conotação pode ser chamada de holística, na medida em que ela 
implica uma visão de ser humano como uma totalidade, um complexo 
mente-corpo imerso num ambiente social. 
 
Na ótica de Capra (1982), uma abordagem de embasamento holístico na 
saúde, no tratamento e na cura está de acordo com pensamentos e paradigmas 
mais tradicionais, bem como é coerente com as teorias científicas modernas. 
Se na Medicina e na Psicologia, até pouco tempo o conceito de 
psicossomática era empregado para se referir a uma doença sem um diagnóstico 
claramente orgânico, seu uso atual foi modificado. Hoje, o termo diz respeito a uma 
interdependência fundamental entre mente e corpo em todos os estágios que 
contemplem a doença e a saúde. Considera-se um reducionismo e mesmo uma 
ingenuidade tratar uma doença como de origem apenas psicológica ou puramente 
orgânica. Há, portanto, uma tendência a considerar qualquer enfermidade como 
psicossomática, visto que elas envolvem e inter-relação entre corpo e mente na 
origem, desenvolvimento, tratamento e cura. 
LeShan (1992), um importante pesquisador da área, principalmente da 
relação da psicossomática com o câncer, descreveu três princípios que apoiam a 
Medicina psicossomática atual: 
 
I) O indivíduo existe em muitos níveis ou domínios, todos de similar 
importância. Dividir o ser humano em corpo, mente e espírito é mais 
comum no Ocidente. 
II) Cada pessoa é um ser único e deve ser tratado como tal. 
III) Aquele que está doente deve ser encorajado a ter autonomia no processo 
de cura. 
 
Com base nestes três princípios, os profissionais da área da saúde podem 
favorecer a criação de um ambiente em que despontem as capacidades do indivíduo 
de se autocurar. Por outro lado, esses princípios podem produzir uma 
supervalorização dos processos que ocorrem no sistema imunológico, criando 
novamente um recorte quando fora de uma concepção biopsicossocial. 
 
 
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 33 
Em vista de todos os pontos aqui levantados, nota-se que uma nova síntese 
faz-se necessária. Ao reaver antigos conceitos, práticas, técnicas e métodos, o 
modelo holístico procura integrá-los no mundo contemporâneo. 
 
 
5 PSICOSSOMÁTICA: UMA DEFINIÇÃO 
 
 
Para Riechelmann (1998), a psicossomática está inserida em dois campos, o 
filosófico, pois envolve uma visão de ser humano, com um modo de defini-lo, e o 
científico, visto que considera como objeto os mecanismos de interação entre as 
dimensões mentais, corporais e sociais da pessoa. A integração biopsicossocial, 
como afirma o autor, é objeto da Ciência Psicossomática. 
Há ainda, a Psicossomática enquanto atuação profissional, que busca o 
trabalho com os aspectos subjetivos e objetivos do paciente. Ressalta-se neste 
sentido que ela se difere da postura clássica da Psicologia, a qual foca seu trabalho 
nas questões subjetivas e diferencia-se igualmente da Medicina, que comumente 
considera os fatos objetivos, palpáveis e mensuráveis. 
O profissional que trabalha com a Psicossomática, portanto, deve estar 
atento às vertentes objetivas e subjetivas do paciente ao mesmo tempo, sem 
priorizar nenhuma delas em detrimento da outra. Enquanto prática clínica, 
encontramos na Psicossomática um conjunto teórico que se aproxima dos 
conteúdos das disciplinas como: Psicologia Médica e Psicologia Hospitalar. 
Riechelmann (1998) afirma que a Psicossomática não é, e nem pretende 
ser, uma medicina alternativa, afinal a prática médica alternativa possui 
pressupostos teóricos diferentes dos princípios teóricos da ciência convencional. O 
autor enfatiza que a Psicossomática se baseia em princípios teóricos que estão 
inseridos na dita ciência convencional. Ao compreender que a Medicina nasceu da 
Psicossomática, e não o contrário. Assim, a Psicossomática nada mais é que a 
Medicina convencional resgatando a sua origem. 
Como já mencionado, Hipócrates, o “pai da Medicina”, apesar de não dar 
muito valor à fala dos pacientes, considerava, ao descrever uma doença como a 
úlcera, por exemplo, esta ser frequente em pessoas que possuíam uma herança 
 
 
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familiar semelhante, as quais faziam uso do álcool, manifestando-se principalmente 
nos períodos em que as mesmas estavam sofrendo com “turbulência da alma” e, 
além disto, estavam influenciadas por ventos úmidos do noroeste. Tais concepções 
a respeito de uma enfermidade mostram que Hipócrates buscava integrar os mais 
diferentes aspectos como: psicológicos, químicos, biológicos e até meteorológicos. 
Assim, no princípio, a medicina era psicossomática, mas em virtude das já citadas 
influências que sofrera sucessivamente distanciaram-se de sua origem. 
Atualmente, a Psicossomática dentro da sociedade científica, representa um 
foco de visão holística, que leva em conta tanto o avanço tecnológico da Medicina 
moderna e suas especializações quanto àquilo que há de mais humano nas 
profissões de saúde. Mais adiante explicaremos melhor o termo holismo. 
 
 
6 A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA DIMENSÃO SOCIAL NA PSICOSSOMÁTICA 
 
 
Como mencionado por França e Rodrigues (2007), o ser humano pode ser 
considerado um animal social que está atrelado a um meio cultural humano. Nota-se 
que desde o princípio de seu desenvolvimento há uma busca pela adaptação, para 
conseguir se sobressair ao seu meio sociocultural (aqui entendido como um meio 
dirigido por normas, regras, conceitos econômicos, políticos, legais, religiosos, 
científicos, artísticos, morais, costumes e atitudes, entre outros fatores que 
constituem uma comunidade, nação ou civilização). 
O primeiro grupo em que o indivíduo começa a interagir é, geralmente, o 
familiar, onde ele progressivamente passa a significar as coisas que lhe rodeiam, 
além de encontrar entendimento e ser entendido por aqueles com os quais convive 
em uma constante interação. De maneira gradual, essas interações vão se 
ampliando, estendendo para relações sociais, como por exemplo: para vizinhos, 
primos, amigos da escola, professores, grupos que frequenta, entre outros. 
Primeiramente, a família é a responsável por situar o seu novo membro em 
uma determinada posição social por meio dos grupos sociais nos quais insere a 
criança e, estes, provavelmente, influenciarão suas demais escolhas sociais em 
 
 
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curto, médio e longo prazo, como escolas, clubes, grupos de jovens e demais 
organizações culturais futuramente. 
É importante deixar clara a importância das características de personalidade, 
que em parte são herdadas e em parte são constituídas pela assimilação das 
experiências com o seu meio, bem como o conjunto de regras e costumes 
assimilados influenciam de maneira direta o comportamento da pessoa no seu 
grupo. Assim, em qualquer grupo no qual ela se insira, haverá um condicionamento, 
um ensinamento e uma educação que procura uma adaptação às normas e aos 
valores predominantes dos pais, avós, irmãos, amigos, professorese mais adiante: 
chefes, líderes, costumes culturais, entre outros. 
Para França e Rodrigues (2007), esta forma de aprendizado ocorre até o fim 
da vida, em experiências ininterruptas que reforçam certas atitudes e padrões 
comportamentais por meio de gratificações ou pela inibição ou supressão destas 
mesmas atitudes e padrões comportamentais por punições e frustrações. Os autores 
enfatizam que há figuras-chave como pais, professores, líderes formais e informais 
que cumprem um importante papel, ao ensinar aquele indivíduo a agir como elas, 
não só naquele momento, mas também no futuro. 
Nesse sentido, as experiências serão incorporadas pela pessoa e passarão 
a fazer parte dela, da sua personalidade. Todavia, grande parte desse processo é 
inconsciente, então: 
 
► potencial genético + personalidade das figuras-chave = 
comportamento do ser humano. 
 
 
Dessa forma, o ser humano é considerado um ser social e histórico e suas 
ações não podem ser consideradas isoladamente. Como cada acontecimento social 
ocorre em função de padrões de comportamento que são determinados pela 
personalidade das pessoas que estão envolvidas pelas regras culturais e hábitos 
previamente assimilados e que determinam o que deve ou não ser feito ou realizado. 
Dessa maneira, como a Psicossomática parte do pressuposto que a saúde e 
a doença são estados que resultam de um equilíbrio harmônico ou uma desarmonia 
(desregulação) dos campos biológico, psicológico e social. Esta última dimensão 
 
 
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adquiri fundamental importância ao influenciar as demais, já que favorecerá ou não 
as atitudes do indivíduo, a percepção de suas possibilidades, modo de se relacionar, 
forma de ver o mundo, processos mentais, atividades psíquicas, processos afetivos, 
maneira de lidar com o corpo, entre outras. 
Um conceito importante a ser trabalhado na área da Psicossomática é o do 
holismo, do qual holístico provém. O termo origina-se da palavra grega “holos”, que 
significa todo. Introduzida por Smuts, no ano de 1926, a expressão designa a 
natureza biopsicossocial do homem, incluindo aspectos da saúde e doença, sendo 
que o estudo, a pesquisa e o tratamento devem, sempre, levar em consideração a 
pessoa em sua totalidade e não as partes isoladas. Como já vimos, essa noção é 
tão antiga quanto a Medicina. Em uma passagem do diálogo de Platão chamado 
Charmides, ele argumenta que: 
 
A cura de muitas doenças é desconhecida para os médicos de Hellas 
(nome que se dava ao atual país da Grécia), porque eles desprezam o todo, 
que deve também ser estudado, porque a parte nunca pode estar bem, a 
menos que o todo esteja bem. 
 
Esta afirmação mostra que a Medicina, desde o princípio, luta com o 
problema mente-corpo e que alguns estudiosos, como o filósofo Platão, propunham-
se a olhar o indivíduo de forma integral. Entretanto, esta tarefa não tem sido fácil em 
razão da visão biomédica ainda em voga no mundo ocidental. 
Por meio da Psicossomática pode-se averiguar e encontrar caminhos para a 
prática na promoção de saúde mais voltada para o paciente. Afinal, como apontam 
França e Rodrigues (2007), não chegam para a consulta um fígado, um estômago 
ou um coração, mas sim uma pessoa, que está em sofrimento, que pode estar 
sendo expresso por seus órgãos. Neste sentido, constantemente, seu adoecimento 
está relacionado com a sua condição e modo de vida (dimensão social). Nas 
palavras dos autores: “no corpo humano estão as marcas de sua história, de seu 
esforço, de suas perdas e de suas vitórias. Assim o ser humano é seu corpo e não 
apenas tem um corpo” (FRANÇA E RODRIGUES, p.87). 
Qualquer pessoa no transcorrer de seu desenvolvimento, constrói e 
estrutura modos de ser e reagir às mais diferentes solicitações as quais é impelido a 
agir (tanto no nível mental como corpóreo) com o sentido de manter seu organismo 
equilibrado. 
 
 
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 37 
A pessoa é o resultado das inúmeras experiências a que foi submetida no 
decorrer de sua história. Ao reagir às diversas situações da vida, estas provocam 
marcas e modificam o corpo. O intuito da abordagem Psicossomática é compreender 
os processos de adoecimento como uma resposta do ser humano que vive em 
sociedade e é parte ativa de uma microestrutura familiar, que está dentro de uma 
macroestrutura social e cultural, situada em um determinado ambiente físico e que 
procura dar um significado (variando a maneira conforme a pessoa) a sua existência 
no mundo. Observe o diagrama abaixo: 
 
FIGURA 10 - REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DO SER HUMANO 
IMERSO NA MICROESTRUTURA FAMILIAR E NA MACROESTRUTURA 
SOCIOECONÔMICA-CULTURAL 
 
FONTE: Sampaio, Galasso, Ribeiro. Reproduzido do livro Stress e Trabalho, uma abordagem 
Psicossomática. 
 
 
 
 
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 38 
 
7 REFERENCIAIS TEÓRICOS EM PSICOSSOMÁTICA 
 
 
Primeiramente, é importante ressaltar que o conceito mais amplo de 
Psicossomática implica na existência de um referencial teórico que estude o 
psiquismo. Sendo assim, pode ser psicodinâmico, comportamental, existencial, 
analítico, entre outros. Além de uma abordagem psicológica, há a necessidade de 
um referencial teórico que estude a dinâmica grupal e social do indivíduo, que pode 
ser sociológico, antropológico, cultural, entre outros. 
Ao juntar uma teoria que estude o corpo, outra que estude a mente, mais 
uma que leve em consideração o estudo do grupo, há uma visão psicossomática. A 
partir disto, começa-se a ter particularizações, ou seja, várias composições de 
referenciais possíveis. Com uma teoria para o fato biológico, outra para o psicológico 
e outra para o social, tem-se uma concepção de Psicossomática montada. 
Independente do referencial teórico é de fundamental importância para 
aquele que quer atuar em Psicossomática que este obtenha conhecimento sobre a 
anamnese biográfica (a história de vida) do sujeito que está tratando. Nela devem 
estar inclusos alguns itens como: 
 
 Antecedentes pessoais: aquilo que sabe a respeito do histórico familiar e 
sobre a sua gestação. 
 Condições de nascimento. 
 Alimentação: o que, como e onde se alimenta e se houve ou não mudanças. 
 Sono: qual é o padrão de horas e a qualidade do sono. 
 Desenvolvimento Neuropsicomotor. 
 Escolaridade. 
 Religiosidade: como lida com questões que transcendem a ele. 
 Doenças: investigar desde a infância, se são agudas ou crônicas e o quanto 
afetam a qualidade de vida do indivíduo. 
 Sexualidade. 
 Sociabilidade. 
 Cuidados pessoais, entre outros. 
 
 
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 39 
A proposta da Psicossomática é um exercício de integração dos mais 
variados referenciais teóricos com a meta de atingir um objetivo maior que é a 
compreensão do ser humano. Entretanto, esta compreensão não está simplesmente 
em somar pedaços, mas sim em entender o organismo como um sistema que 
funciona de forma integrada e dinâmica, com movimentos que se transformam 
ininterruptamente. Todos os dados citados devem ser compreendidos junto com os 
motivos que levaram o paciente a buscar uma consulta. De acordo com a 
Psicossomática, o ser humano deve ser compreendido como o resultado da 
intersecção entre corpo (dimensão biológica), mente (dimensão psicológica) e meio 
externo com seus aspectos socioculturais e físicos. Observe o diagrama abaixo: 
 
FIGURA 11 - ALTERAÇÃO DO CORPO, DOS PROCESSOS MENTAIS E 
DO MEIO EXTERNO 
 
FONTE: Sampaio, Galasso, Ribeiro. Reproduzido do livro Stress e Trabalho, uma abordagem 
Psicossomática. 
 
 
8 ATUAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOSSOMÁTICA 
 
 
Ao se aprofundar nos estudos sobre Psicossomática, com suas concepções 
biopsicossociais e modo holístico de se abordar as dimensões de saúde e doença é 
muito comum achar que o profissional que trabalha nesta abordagem é capaz de 
 
 
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 40 
resolver todos os tipos de problemas. Entretanto, como destaca Riechelmann 
(1998), a Psicossomáticanão pressupõe que o profissional tenha um conhecimento 
de todas as especialidades. Segundo o autor, é importante entender que há dois 
procedimentos básicos em qualquer profissão ligada à saúde: o de compreender/ 
diagnosticar e o de intervir/proceder. Neste sentido, a Psicossomática é, antes de 
tudo, algo que amplia a habilidade do procedimento que envolve a compreensão e o 
diagnóstico. Consequentemente irá ocorrer uma ampliação na capacidade da 
intervenção enquanto profissional, porém não no nível que concerne à tecnologia 
especializada. Ou seja, o profissional que compreende seu paciente de modo mais 
holístico, no momento de intervir, continua apenas habilitado na especialidade em 
que foi treinado. 
É importante ressaltar que na hora de compreender um paciente, o 
profissional precisa estar atento ao que ele precisa, qual é a sua real demanda, 
buscando enxergá-lo como um todo, pois a pessoa adoecida está imersa em um 
contexto. Somente assim e tecnicamente preparado na especialidade, pode-se 
intervir com maior clareza. 
O profissional que atua em Psicossomática necessita saber seus limites 
técnicos e éticos no momento de atuar, providenciando encaminhamento para 
outros profissionais que darão conta daquilo em que ele não é especialista. 
Riechelmann (1998, p. 26) acredita que há uma “vocação multiprofissional e 
interdisciplinar do trabalho psicossomático”, visto que o diálogo e a interação com as 
demais especialidades são importantíssimas quando foca-se em uma compreensão 
mais holística. 
Quanto ao mercado de trabalho, pode-se dizer que lentamente tem surgido 
um espaço maior para a Psicossomática, já que na prática os profissionais da área 
de saúde e administradores hospitalares (por meio da diminuição de custos) 
observaram que, quando é oferecido um tratamento para esta abordagem, aumenta-
se o grau de resolução das enfermidades. 
Riechelmann (1998) expõe que ao se calcular o número de consultas que 
são necessárias entre um determinado diagnóstico e o término de um tratamento, 
observa-se que o profissional que trabalha psicossomaticamente chega a um 
diagnóstico e estabelece um tratamento terapêutico que possibilita alcançar 
 
 
 AN02FREV001/REV 4.0 
 41 
resultados práticos com um número menor de consultas. Além disto, o autor 
comenta: 
 
Por ser mais demorada, a consulta na linha da Psicossomática deve ser 
melhor remunerada pelas empresas de convênio médico do que a consulta 
tradicional; mesmo assim, a despesa para quem paga a conta acaba sendo 
menor, em função do reduzido número de consultas, exames de laboratório 
e exames de imagem (RIECHELMANN, 1998, p.32). 
 
Ou seja, o atendimento que trata do paciente psicossomaticamente colabora 
tanto para uma maior eficiência no diagnóstico da pessoa enferma quanto para 
aliviar seu quadro de somatização. O resultado é uma maior satisfação do paciente 
desde os primeiros atendimentos, já que as suas demandas implícitas e subjetivas 
são detectadas e passam a receber um cuidado profissional. 
Na década de 1990, uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da 
Saúde, abrangendo os cinco continentes, avaliou o grau de comprometimento 
emocional envolvido na patologia de pacientes que procuravam hospitais gerais e 
prontos-socorros. Na América do Sul, o local escolhido para a realização da 
pesquisa foi o Rio de Janeiro. Os pacientes buscavam apenas uma consulta médica 
convencional, não possuindo a priori qualquer ideia a respeito de questões 
emocionais que pudessem estar envolvidas na sua patologia. O resultado da 
pesquisa mostrou que 30% na média mundial e 40% dos entrevistados no Rio de 
Janeiro eram pacientes somatizados. São, portanto, pacientes que passaram por 
diversos departamentos hospitalares, realizaram vários exames a acabavam 
apresentando resultado normal em suas avaliações laboratoriais, radiológicas, 
ultrassonográficas e clínicas. 
Dentro deste panorama, observa-se que um terço dos pacientes que 
buscam tratamento em hospitais gerais e prontos-socorros, somatizam e, este 
mesmo número realiza um alto número de consultas e exames, além de, 
provavelmente serem operados de forma abusiva. Com isso, há uma despesa com 
procedimentos médicos que pode vir a superar o total de despesas dos outros dois 
terços, já que cada paciente somatizado repete os mesmos procedimentos médicos 
várias vezes. 
Paralelamente, é importante ressaltar que a formação dos profissionais da 
área da saúde, muitas vezes, tem que priorizar em atender de acordo com as 
 
 
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necessidades do mercado, ou seja, realizar consultas rápidas e exames laboratoriais 
para garantir seu sustento. 
Os profissionais que trabalham com psicossomática são, então, vistos pelo 
mercado como uma alternativa de aumento de resolução com barateamento de 
custos para a prática médica. Entretanto, a psicossomática ao ser vista como uma 
prática “fast-food”, principalmente, pelas empresas médicas, pode vir a prejudicar o 
profissional da área, que acaba recebendo propostas de trabalho que incluem fazer 
um diagnóstico rápido e sendo mal remunerado por isso. Além de afetar os 
pacientes em grande escala em função de um atendimento deficitário pelo 
profissional insatisfeito. 
Riechelmann (1998) cita que um profissional de psicossomática, com o 
decorrer dos anos, desenvolve uma fácil compreensão dos conteúdos emocionais 
que ocultam por trás das queixas físicas. O problema não é o tempo externo de 
quanto dura a consulta, mas sim o tempo interno do profissional ► o espaço dentro 
dele que está aberto e disponível para receber a pessoa do paciente, que envolve 
sua percepção e sensibilidade durante a consulta para captar do paciente conteúdos 
emocionais que estão escondidos pelas queixas físicas. Tal tempo interno resulta de 
um treinamento e de uma habilitação em Psicossomática e é importantíssima na 
atuação de profissionais da área da Psicologia e Psiquiatria. 
 
 
9 A FORMAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA 
PSICOSSOMÁTICA E REFLEXÕES SOBRE A ÁREA DE ATUAÇÃO EM 
PSICOSSOMÁTICA 
 
 
Foi fundada em 11 de setembro de 1965, pela iniciativa de uma comissão 
organizadora formada por profissionais de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande 
do Sul, entre eles: Abram J. Eksterman (RJ), Danilo Perestrello (RJ), Helláido 
Franscisco Capisano (SP), José Fernandes Pontes (SP), Milton Pecis Abramovich 
(RS), Oswaldo Arantes Pereira (RS), Precila Pinheiro (RS) e Wilhelm Kenzler (SP). 
Em seus dez primeiros anos, a presidência desta associação foi ocupada 
por Danilo Perestrello, autor de um dos livros mais usados como referência na área 
 
 
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da Psicossomática no Brasil, chamado “A Medicina da Pessoa”, o qual é altamente 
recomendado para todos aqueles que estão interessados em tomar contato com o 
tema e se aprofundar em seu estudo. 
Segundo Riechelman (1998), o desenvolvimento da ABMP se deu em 
virtude dos seguintes objetivos: 
 
 Difundir a visão psicossomática de ser humano. 
 Divulgar o processo de saúde e doença como forma de humanizar o 
atendimento médico no Brasil. 
 Apoiar, desenvolver, facilitar e divulgar pesquisas na área da medicina 
psicossomática. 
 
A associação hoje se caracteriza por uma atuação multiprofissional, 
contando com: médicos de quase todas as especialidades, psicólogos com 
diferentes abordagens, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, 
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, entre outros. 
Segundo Mello Filho (2003), a história da ABMP pode ser considerada 
vitoriosa, entretanto como grande parte das organizações institucionais enfrentou 
crises, dificuldades e passou por fases de pouca produção. Tais fatos repercutiram 
em críticas e reflexões sobre o seu desenvolvimento, bem como seus acertos e 
erros. 
Como já mencionado, a ABMP foi fundada por renomadas figuras da área 
médica advindas de Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, quese juntaram a 
importantes figuras de outros Estados, como Minas Gerais e Pernambuco, entre 
outros. Para Mello Filho (2003), Perestrello e Eksterman e Capisano e Miller foram 
as grandes personalidades que incentivaram o movimento da Psicossomática no 
Brasil, permitindo criar a Associação. Refere que a capacidade organizacional de 
Eksterman permitiu à Psicossomática tornar-se uma entidade física. Pouco depois 
da sua fundação, o próprio autor entrou para a ABMP. Dessa forma, considera-se 
que Psicossomática nasceu sob a base de uma amizade. 
Vale ressaltar que, em São Paulo, surgiu outro grupo muito ativo com os 
mesmos objetivos, liderado por Fernandes Pontes, que atua em clínica geral e é 
 
 
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Professor de Medicina. É interessante assinalar que todos os profissionais que 
compunham ambos os grupos eram professores de Medicina e/ou psicanalistas. 
Conforme Mello Filho (2003), o primeiro problema que se apresentou foi a 
dificuldade na relação entre os dois grupos de São Paulo, situação esta que 
começou a melhorar após o Congresso no Rio de Janeiro, em 1982. Após este 
evento, o movimento se estruturou nas duas grandes capitais e, em seguida, em 
Porto Alegre com mais intensidade. 
A ABMP, em virtude da formação dos profissionais que a compunham, 
iniciou-se sob a influência da Psicanálise, inspirada pelas concepções 
(anteriormente mencionadas) de Freud sobre a histeria de conversão. 
Enfatiza-se que o movimento de divulgação dos estudos da Psicossomática 
foi iniciado na Psicanálise, pois na época somente esta possuía e propunha uma 
compreensão mais global da doença, além de fornecer instrumentos como a 
psicoterapia para a prática clínica. 
Ainda hoje, as teorias psicanalíticas continuam em voga na psicossomática 
institucional, como é o caso da Escola de Psicossomática de Paris (IPSO). 
Mello Filho (2003) aponta que com a finalidade de combater uma visão 
fortemente psicanalista que “rotulava” pacientes que apresentavam determinadas 
doenças, como por exemplo, pessoas com doenças musculoesqueléticas eram 
arrogantes, o autor e o Dr. Abram e J. Eksterman, para evitar o efeito negativo que 
estas ideias poderiam ter nos psicólogos, opuseram-se à divulgação de palestras, 
congressos e outros eventos provindos do Dr. Chiozza, de Buenos Aires, que era o 
principal promotor destas concepções. 
Outras abordagens também merecem destaque pela sua difusão, entre elas 
a Psicossomática Junguiana, a qual tem como precursora a Dra. Denise Gimenez 
Ramos, no Brasil. Segundo Ferreira (2004), a Dra. Denise desenvolveu e introduziu 
no país um estudo de modelo psicológico em que os fenômenos devem ser 
observados como totalidades dinâmicas, evolucionárias e criativas dentro de uma 
concepção entre a problemática psique-corpo, situando-a no modelo científico-
holístico da Psicossomática Junguiana. 
O próprio Mello Filho (2003) cita que o objetivo maior do movimento da 
Psicossomática é conquistar cada vez mais médicos em todo o mundo. Acredita-se 
que os estudos das teorias psicossomáticas funcionavam como uma espécie de 
 
 
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complemento do curso médico, possibilitando uma formação integral do médico, 
visto que os cursos de medicina dominados ainda permeados por uma visão 
fortemente biomédica não ofereciam. Dentro das próprias universidades surgiram as 
disciplinas de Psicologia Médica para auxiliar a questão. 
Observa-se que, antes da década de 1980, os médicos eram seguidos 
tradicionalmente pelos psicólogos e enfermeiras. Os demais profissionais de saúde, 
não existiam como uma classe atuante no movimento; os dentistas e assistentes 
sociais, apesar de serem categorias organizadas funcionavam tradicionalmente 
apenas como apêndices médicos. 
Apesar da abertura para estudos que tentavam reintegrar a ideia de mente-
corpo, todavia na medida em que a classe médica foi sendo sucateada pela 
previdência, Ministério da Saúde ou rede conveniada, não houve mais interesse em 
se melhorar a relação médico-paciente (uma das propostas da Psicossomática), 
passando o profissional a atender em consultas com duração de apenas dez 
minutos. Desse modo, poucos profissionais trabalhavam dentro de uma perspectiva 
psicossomática. 
Mello Filho (2003) relata que já teve grupos com 40 pessoas na UFRJ, na 
década de 60, possui dificuldades para formar turmas que possuam interesse em se 
aperfeiçoar na área da Psicossomática. Destaca que os enfermeiros estão 
procurando cada vez mais estudar o tema. Para ele, os enfermeiros estão se 
afirmando como classe, libertando-se do domínio que os acorrentava aos médicos, 
estão a cada dia mais tratando seus pacientes como pessoas globais e interessados 
pelos aspectos psicológicos de suas práticas. Atualmente, percebemos este 
movimento pelo alto número de pesquisas realizadas pela classe que envolvam 
temas relacionados com a Psicologia. 
Quanto aos psicólogos, Mello Filho (2003) coloca que a maioria ingressou na 
Sociedade de Psicologia Hospitalar, criada ao perceberem que tinham diante de si 
uma imensa casuística de pacientes psicossomáticos ou somatopsíquicos para 
tratar. A área da Psicologia Hospitalar tem crescido rapidamente, promovendo 
diversos cursos e congressos pelo Brasil, além de programas científicos de 
qualidade. 
Há um imenso campo em comum entre a Medicina e a Psicologia, sendo 
necessária uma abertura de diálogo entre ambas como entidades com muitos 
 
 
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pontos de intersecção. Além dos outros campos profissionais que ainda não se 
organizaram como entidades psicossomáticas, mas que podem colaborar 
imensamente com o movimento, como os enfermeiros, assistentes sociais, 
odontólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Somente desta forma, irá se 
concretizar o ideal de transformar o movimento em verdadeira prática interdisciplinar. 
Mello Filho (2003) salienta que para o fato de que, de modo geral, 
profissionais como ele, que são altamente atuantes na área da Psicossomática, 
considerados por muitos como líderes, possuem personalidades narcísicas atuando 
dentro de um movimento no qual o narcisismo só atrapalha. No seu ponto de vista, 
todos que atuam nesta área precisam desenvolver muito senso de fraternidade e 
humildade para realizarem suas intenções com sucesso. Neste sentido, todos os 
psicossomaticistas devem procurar sempre refletir sobre os erros e acertos de suas 
condutas, reconhecendo e modificando os erros e aprendendo com os acertos, para 
que estes surjam também em outras circunstâncias. Acima de tudo, reconhecer o 
quanto se aprende com os pacientes e com os alunos, que têm muito a contribuir 
com uma visão abrangente sobre os assuntos. 
Mello Filho (2003) discorre também sobre a estrutura da ABMP. Explica que 
para facilitar a gestão, há um deslocamento da sede nacional para a cidade do 
presidente eleito, que funciona em consonância com o esqueleto que a sustenta, as 
regionais. De um modo geral, o presidente é aquele que mais se destaca, eleito por 
aclamação. Esse compõe uma diretoria com representantes dos vários Estados e 
com uma parte administrativa formada por nomes locais. A eleição é realizada 
bianualmente, na vigência de um congresso nacional que representa o ponto 
técnico-científico mais alto do movimento. A maioria dos presidentes foram médicos, 
pois as demais categorias estão ainda pouco representadas na ABMP, com exceção 
dos psicólogos. 
A princípio, o movimento organizava-se somente por meio da Diretoria 
Nacional, mas com sua expansão, houve necessidade da fundação de seções 
regionais que possibilitassem a construção de sedes extras nos diversos Estados e 
cidades do Brasil. Além do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, as primeiras 
regionais fundadas foram em Salvador e Presidente Prudente, por Abram 
Eksterman. 
 
 
 
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Na presidência de Mello Filho, as regionais de Belém do Pará, São Luiz,Recife, Vitória, Londrina e Goiânia foram extintas. Frente à presidência da Regional 
do Recife, Samuel Hulak, organizou uma rede de regionais por todo o nordeste, 
abrangendo Fortaleza, João Pessoa, Maceió, Aracaju e Natal esta última por um 
trabalho realizado por José Roberto Siqueira de Castro. Hulak também organizou o 
primeiro grande Congresso Nacional da ABMP em 1998, no Recife. 
Outra poderosa seção regional está localizada em Minas Gerais, em Belo 
Horizonte, gerada à custa da liderança de Geraldo Caldeira. Lá, ocorre um 
importante curso de formação em psicossomática e Caldeira tem um importante livro 
publicado sobre nossa matéria. Minas Gerais tem ainda duas outras regionais, a Sul 
Mineira, dirigida por Cacilda Maciel, com sede em Itajubá e a de Barbacena, sob a 
liderança de Sebastião Vidigal. 
A fundação de regionais depende imensamente da capacidade de liderança 
de um profissional de saúde em determinada cidade, de sua possibilidade de 
aglutinar pessoas e de organizar um ideário científico que mantenha estas pessoas 
unidas e em contínua participação. De modo frequente, há um núcleo dirigente em 
torno de cinco pessoas que organiza e sustenta o movimento. Este flutua muito em 
torno da vida pessoal do presidente e do núcleo dirigente, sendo vulnerável às crises 
e mudanças desse contexto. Possivelmente, estas são as maiores dificuldades que 
o movimento vem enfrentando, as flutuações das regionais. Em contrapartida, a 
direção nacional flutua com menos intensidade, pois seus membros, segundo Mello 
Filho (2003) são mais preparados para lidar com as contingências pessoais, grupais 
e ideológicas do movimento. 
Um dos principais problemas apontados pelo autor é a dificuldade de 
comunicação entre a sede nacional e as regionais. Menciona que no que se refere 
ao convívio institucional, há três entidades coirmãs: a Psicologia, a Psiquiatria e a 
Psicanálise. Com a Psicologia hospitalar, acredita que as carreiras são atualmente 
paralelas e precisa apenas haver mais interpretação. Já a Psiquiatria criou 
recentemente a chamada Interconsulta Psiquiátrica, fazendo com que alguns nomes 
da ABMP migrassem para exclusivamente esta área. Quanto à Psicanálise, parece 
que ainda há uma maior distância, visto que, na maioria das vezes, não reconhece a 
amplitude do movimento psicossomático. É preciso haver um real debate sobre esta 
situação de “irmãos” distantes num mesmo espaço contíguo. A fim de diminuir esta 
 
 
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distância, foi criado o Conselho de ex-presidentes, órgão consultivo da Diretoria 
Nacional que opina em todas as decisões importantes, desde a escolha de nomes 
até nos impasses institucionais, e durante as eleições. Antes da criação do Conselho 
de ex-presidentes, assim que um presidente terminava sua gestão, esta permanecia 
em uma espécie de limbo, ou seja, ficava meio dentro, meio fora do movimento. 
Hoje, não há mais nomes “aposentados” no movimento, pois há a ideia de 
aproveitar a experiência, a sapiência e a criatividade destes. A cada dois anos são 
realizados congressos intercalados com encontros de regionais em diferentes 
localidades do Brasil com o intuito de promover disseminação do movimento. 
Não há como negar como o movimento de psicossomática pulverizou-se 
entre os psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, enfermeiros, homeopatas, 
acupunturistas, terapeutas corporais, entre outros. 
Contudo, a divulgação e a disseminação do movimento, continua na maior 
parte por meio dos livros publicados por médicos como: “A Medicina da Pessoa”, de 
Danilo Perestrello; “Concepção Psicossomática e Psicossomática Hoje”, de Júlio 
Mello Filho e “Psicossomática: Teoria e Prática”, de Geraldo Caldeira. 
Os congressos realizados pela ABMP têm como foco apresentar temas a 
serem esmiuçados e temas secundários, que abrangem os principais tópicos da 
psicossomática na atualidade. Uma parte importante de cada congresso é dedicada 
à apresentação de temas livres. 
Mello Filho (2003) situa que em virtude da preocupação com a questão da 
divulgação do movimento e com a ideologia predominante na Associação já há 
muitos anos os dirigentes têm se reunido para discutir este problema. Para 
sancionar a dificuldade, foi então constituída uma comissão presidida por Eugênio 
Campos, que elaborou uma proposta de criação de um Curso Básico Nuclear (CBN). 
O curso é oferecido às regionais, privilegiando o modelo interdisciplinar como 
ideologia e prática. O ensino de psicossomática é feito basicamente por meio do 
estudo de casos clínicos, privilegiando as dimensões biológica, psicológica e social, 
por meio da atuação de um médico, um psicólogo e um assistente social. 
Outro tema que tem sido muito debatido nos últimos anos é o nome do 
movimento, as designações propostas no debate são: Associação Brasileira de 
Psicossomática e Associação Brasileira de Medicina Psicossomática e Psicologia 
Médica. No primeiro objetivava-se excluir o nome Medicina para facilitar as relações 
 
 
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com outras áreas. E, no segundo, adicionar Psicologia Médica, considerada um 
importantíssimo campo de atividades. Contudo, foi decidido que a mesma 
nomenclatura seria mantida. A justificativa foi continuar mantendo a já conhecida 
identidade. Assim, apesar de ainda ser uma entidade pequena, o movimento 
difundido pela ABMP vem caminhando com diretorias comprometidas, dinâmicas e 
empreendedoras na área da Psicossomática. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FIM DO MÓDULO II

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