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CURSO ANUAL DE GEOGRAFIA II Prof. Italo Trigueiro VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência A EMERGÊNCIA DE CONFLITOS REGIONAIS E A QUESTÃO DAS IDENTIDADES SOCIOCULTURAIS: ÉTNICAS, TRIBAIS E RELIGIOSAS I Nas últimas décadas do século XX, ao mesmo tempo em que se intensificava o processo de globalização ampliavam-se os conflitos étnicos-nacionalistas, muitos deles relacionados a movimentos separatistas. Um fato marcante nesses novos conflitos é que as guerras entre países não constituem mais a forma predominante de luta pelo poder. Outra característica é que todos eles atingem profundamente a população civil, sujeita a fome, abusos de todos os tipos e deslocamentos forçados, criando uma enorme massa de refugiados e asilados políticos. As guerras civis, outro aspecto desses conflitos, são cada vez mais longas e acabam por se internacionalizar, envolvendo países vizinhos ou grandes potências, como é o caso da guerra da República Democrática do Congo, no Mali, e dos conflitos no Oriente Médio, em especial na Sìria. De acordo com o relatório do desenvolvimento 2015: racismo, pobreza e violência, publicado pela ONU, o século XX foi o mais violento da história da humanidade: o número de mortos em conflitos armados e guerras durante ele foi mais do que três vezes maior do que nos quatro séculos anteriores. O século XX foi marcado pelas duas grandes guerras mundiais e pela Guerra Fria, durante a qual revoluções e movimentos de libertação nacional foram manipulados pelas superpotências, que ajudaram a disseminar a violência na África, América e Ásia. Além disso, muitos conflitos internos foram incentivados pelas potências da Europa ou pelas superpotências Estados Unidos e União Soviética. Na última década do século XX, o encerramento da Guerra Fria resultou na diminuição dos conflitos entre Estados (que caíram de 51, em 1991, para 29, em 2003). Essa tendência de declínio das guerras tradicionais, ou seja, do enfrentamento armado entre Estados soberanos, prossegue na primeira década do século XXI. Na primeira década do século XXI, mais de 90% dos mortos e feridos nos conflitos eram civis, enquanto 95% dos mortos e feridos nas duas guerras mundiais eram militares, participando dos exércitos regulares. Em geral as guerras civis surgem da fragilidade dos Estados, incapazes de resolver e conter tensões entre os grupos. Entre as razões motivadoras desses conflitos, destacam-se: • Disputa pelo poder: Estruturas políticas não democráticas, crise externas e mudanças sociais podem acirrar rivalidades políticas, a ponto de transformá-las em enfrentamentos violentos. • Reivindicações ou disputa por territórios: Diversas guerras têm ocorrido no mundo por invasão, ocupação de territórios e delimitação de fronteiras. Isso ocorreu, por exemplo, quando da desintegração da Iugoslávia. • Insegurança econômica e pobreza: As crises econômicas e a pobreza podem levar a tensões e conflitos. Em 2005, 46 Estados apresentavam um terço de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia, e seus governos não conseguem exercer controle territorial, oferecer segurança ou administrar recursos e serviços públicos. Entre esses Estados, 35 registraram conflitos civis na década de 1990. • Desigualdades sociais: Apesar de não resultarem necessariamente em guerras civis, representam um fator de acirramento de tensões. As desigualdades verticais, que se baseiam em diferenças de rendimentos entre os indivíduos de uma sociedade, geralmente ocasionam problemas sociais. As desigualdades horizontais, entre regiões ou grupos com diferenças étnicas, religiosas e culturais, são mais comumente associadas a conflitos. Marcas da Guerra Civil em Ruanda entre Hutus e Tutsis nos anos 1990. ESTADO-NAÇÃO E TERRITÓRIO CONFLITOS CIVIS NO INÍCIO DO SÉCULO XXI Fonte: L’Atlas du Monde Diplomatique: um monde à l’envers. Paris: Le Monde Diplomatique, 2009.p.116 Aula 19 – Conflitos Regionais na Ordem Global I 427 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência As fronteiras definem a extensão geográfica da soberania do Estado. No interior do espaço que delimitam, ou seja, no território nacional, o poder do Estado é soberano. É ele que estabelece as divisões internas, realiza os censos, organiza as informações sobre a população e as atividades econômicas e formula estratégias de desenvolvimento ou de proteção deste território. A noção política de fronteira foi elaborada pelo Império Romano. O Limes – uma linha demarcatória dos limites do Império – separava os romanos dos “bárbaros”. As célebres legiões romanas protegiam o império, guarnecendo o limes. Estar no interior do espaço demarcado pelo limes era fazer parte da civilização romana. A noção contemporânea de fronteira política internacional separando Estados soberanos, porém, surgiu no final da Idade Média, junto com os Estados territoriais. Durante a Idade Média, o poder político não estava unificado geograficamente, mas encontrava-se fragmentado em um mosaico de principados, condados, ducados e domínios eclesiásticos, cada um com as suas leis e regras. Os reis não podiam aplicar impostos sem antes obter a concordância das aristocracias regionais. Cada uma das grandes linhagens aristocráticas possuía seu próprio exército. Alguns desses exércitos eram maiores que o do rei. O poder político nessa época não era territorial, mas pessoal. No auge do feudalismo europeu, as leis escritas foram substituídas pelas tradições locais, interpretadas pelo senhor de terras. Casamentos entre aristocratas de linhagens diferentes unificavam domínios, reorganizando o poder político segundo as ligações familiares. O Estado territorial originou-se na Europa do Renascimento, quando o poder político foi unificado pelas monarquias e ganhou uma base geográfica definida, passível de ser delimitada por fronteiras lineares. Nessa época, foram criados exércitos regulares sob as ordens do rei e corpos estáveis de funcionários burocráticos, que, entre outras coisas, organizavam a coleta dos impostos. Algumas cidades tornaram-se capitais permanentes, residência fixa do monarca e sede do aparelho administrativo. O Estado territorial correspondeu à monarquia absolutista. Nele, o território era patrimônio do monarca, fonte de toda a soberania. Os súditos, ou seja, todos aqueles que viviam nos territórios unificados pela soberania do monarca, deviam-lhe obediência e lealdade. A Revolução Francesa de 1789 assinalou um momento-chave da transformação do Estado territorial absolutista em Estado Nacional. A revolta da burguesia contra o poder absolutista da monarquia e contra os privilégios da nobreza explodiu em 20 de junho de 1789 quando seus representantes exigiram que o rei convocasse uma Assembleia Constituinte. Depois da Queda da Bastilha, a Assembleia Constituinte revogou os privilégios da nobreza e do clero: servidão, dízimo, monopólios, isenções de impostos e tribunais especiais. No dia 26 de agosto daquele ano, era divulgada a Declaração dos Direitos dos Homens. Pouco depois, o novo Estado encontrou a sua moldura jurídica. A Constituição francesa de 1791 adotou a doutrina dos três poderes de Montesquieu, estabelecendo a separação entre os poderes básicos do Estado: Executivo, Legislativo e Judiciário. Em 1792, a Revolução derrubou a monarquia e proclamou a república. Definia- se, assim, o formato do Estado Nacional contemporâneo. Barão de Montesquieu. O ESPÍRITO DAS LEIS CAPÍTULO I Das leis em sua relação com os diversos seres As leis, em seu significado mais extenso, são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas; e, neste sentido, todos os seres têm suas leis; a Divindade possui suas leis, o mundo material possui suas leis, as inteligências superiores ao homem possuemsuas leis, os animais possuem suas leis, o homem possui suas leis. Aqueles que afirmaram que uma fatalidade cega produziu todos os efeitos que observamos no mundo proferiram um grande absurdo: pois o que poderia ser mais absurdo do que uma fatalidade cega que teria produzido seres inteligentes? Existe, portanto, uma razão primitiva; e as leis são as relações que se encontram entre ela e os diferentes seres, e as relações destes diferentes seres entre si. Deus possui uma relação com o universo, como criador e como conservador: as leis segundo as quais criou são aquelas segundo as quais conserva. Ele age segundo estas regras porque as conhece; conhece-as porque as fez, e as fez porque elas possuem uma relação com sua sabedoria e sua potência. Como observamos que o mundo, formado pelo movimento da matéria e privado de inteligência, ainda subsiste, é necessário que seus movimentos possuam leis invariáveis; e se pudéssemos imaginar um mundo diferente deste ele possuiria regras constantes ou seria destruído. Assim, a criação, que parece ser um ato arbitrário, supõe regras tão invariáveis quanto a fatalidade dos ateus. Seria absurdo dizer que o Criador poderia, sem estas regras, governar o mundo, já que o mundo não subsistiria sem elas. Estas regras consistem numa relação constantemente estabelecida. Entre um corpo movido e outro corpo movido, é segundo as relações da massa e da velocidade que todos os movimentos são recebidos, aumentados, diminuídos, perdidos; cada diversidade é uniformidade, cada mudança é constância. Os seres particulares inteligentes podem ter leis que eles próprios elaboraram; mas possuem também leis que não elaboraram. Antes de existirem seres inteligentes, eles eram possíveis; possuíam, portanto, relações possíveis e, consequentemente, leis possíveis. Antes da existência das leis elaboradas, havia relações de justiça possíveis. Dizer que não há nada de justo ou de injusto além daquilo que as leis positivas ordenam ou proíbem é dizer que antes de se traçar o círculo todos os raios não são iguais. Montesquieu. 428 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE GEOGRAFIA – (Prof. Italo Trigueiro) Os conflitos contemporâneos são bem mais complexos do que a simples busca pelo poder. Eles envolvem uma série de fatores econômicos, sociais, ideológicos, religiosos e políticos em diferentes escalas. Além disso, esses embates apresentam diferentes modalidades e diversas estratégias, como veremos a seguir em algumas regiões conflituosas. FOCOS DE CONFLITOS NA ÁSIA O continente asiático abriga cerca de 60% da população mundial e milhares de etnias. Nas duas últimas décadas do século XX, alguns conflitos étnico-nacionalistas destacaram-se pelo grande número de pessoas envolvidas e a violência empregada. Índia, Paquistão e China são as áreas de grande tensão. Entretanto, localiza-se também na Ásia a região mais conturbada do planeta, o Oriente Médio, berço das três religiões monoteístas do planeta, que são as mais praticadas, o Oriente Médio é uma região muito importante do ponto de vista econômico e geopolítico. Rota de passagem entre o Extremo Oriente (Japão e China), o Sudeste Asiático e a bacia do Mediterrâneo, o Oriente Médio está estrategicamente posicionado entre três continente, Europa, Ásia e África. A posição estratégica é atestada pelos limites do território, marcados por pontos geopolíticos e economicamente muito importantes: • Canal de Suez: construído pelos ingleses em terras do Egito, faz a ligação artificial entre o Mediterrâneo e o Vermelho. • Estreito de Ormuz: liga o Golfo Pérsico ao oceano Índico, sendo rota obrigatória dos petroleiros dos países árabes que se dirigem a todos os mercados mundiais. • Estreito de Bósforo: ponto de comunicação entre o mar Mediterrâneo e o mar Negro, é passagem da Europa a vários países asiáticos. • Estreito de Tiran: única ligação de Israel com o mar Vermelho, através do Golfo de Aqaba. • Estreito de Bab-el-Mandeb: separa o Oriente Médio da instável região conhecida como “Chifre da África” (Somália, Eritreia, Etiópia e Dijbuti) no encontro com o mar Vermelho. ORIENTE MÉDIO: PONTOS ESTRATÉGICOS Na península Arábica estão localizados os “países do petróleo” (Omã, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e Iêmen). Outro “país do petróleo” é o Bahrein, formado por trinta e cinco ilhas situadas no Golfo Pérsico. Na costa banhada pelo Mediterrâneo estão localizados os países que se destacam pela instabilidade que a criação em 1948, do Estado de Israel, em território Palestino, trouxe para a região: Jordânia, Síria, Líbano e o próprio Estado de Israel. Todos com exceção da Jordânia, localizam-se em terras da antiga Fenícia e Palestina. Na costa mediterrânea também localiza-se o Chipre, pertencente ao continente europeu. Com uma pequena porção de seu território situado na Europa, a Turquia tem uma localização geográfica privilegiada e é o país de maior estabilidade política na região. A posição geográfica aproxima a Turquia mais da União Europeia do que do Oriente Médio. É necessário ressaltar que a Turquia é um Estado com uma dimensão geográfica muito grande, quando aferida por padrões europeus. O seu território, com 769.604 km2, é superior ao conjunto dos dez novos Estados-membros que entraram para a União Europeia em 2004, os quais totalizam apenas 736.482 km2 e representa cerca de 1,5 vezes a dimensão do maior país da atual UE, que é a França. Por sua vez, a soma total das suas fronteiras terrestres ascende a 2648 km, abrangendo oito países muito diversos como a Arménia, o Azerbaijão – no enclave do Nakhichevan, sem ligação com o restante território –, a Bulgária, a Geórgia, a Grécia, o Irã, o Iraque e a Síria. Geograficamente, a Turquia pertence à Europa e à Ásia, ao Cáucaso e ao Oriente Médio, ao mar Negro e ao Mediterrâneo, ao mar Egeu e ao mar de Mármara. Esta grande diversidade geográfica, associada ao passado do multissecular Império Otomano, que perdurou até à sua dissolução no pós - 1ª Guerra Mundial, tem significativas implicações econômicas, políticas, estratégicas e culturais. Em termos étnicos e culturais determina a existência de continuidades étnico-culturais das populações, para além das atuais fronteiras políticas da República fundada em 1923, e reflete-se na estabilidade/instabilidade dessas mesmas fronteiras. SÍNTESE DOS PRINCIPAIS CONFLITOS FRONTEIRIÇOS TURCO • ARMÊNIA: A Turquia não reconhece os massacres da população armênia – cerca de um milhão de vítimas –, ocorridos na fase final do Império Otomano (1915-1917), como genocídio, em contradição com o reconhecimento da Assembleia Geral das Nações Unidas, do Parlamento Europeu, de seis Estados da UE: França, Bélgica, Grécia, Itália, Suécia e Eslováquia e de diversos outros Estados a nível mundial. Existem ambições irredentistas, não oficiais, sobre os antigos territórios históricos da Armênia, situados na atual Turquia, sendo as mais simbólicas as que recaem sobre o monte Ararat (a montanha da Arca de Noé, segundo a Bíblia) e Ani, a antiga capital do reino medieval da Grande Armênia. • BULGÁRIA: O principal ponto de discórdia, aparentemente sanado, é o da minoria islâmica da Bulgária, os pomaks, herdada do Império Otomano (12% população). Após a tensão de 1989, que levou à emigração de cerca de 300 mil pomaks para a Turquia, a queda do regime comunista trouxe uma melhoria das relações entre os dois países, permitindo o regresso da maioria dos que tinham fugido a uma política de bulgarização forçada. • CHIPRE: A Turquia ocupa militarmente a parte norte da ilha onde mantém cerca de 36 mil efetivos que garantem a existência de facto da República Turca do Norte de Chipre, a qual só é reconhecida de jure, a nível internacional, pela própria Turquia. • GEÓRGIA: Após a independência da ex-URSS não foram reiteradas (pelo menos até agora)as reivindicações territoriais Aula 19 – Conflitos Regionais na Ordem Global I 429 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência sobre as regiões vizinhas da Turquia, cedidas pelo Tratado de Kars (1921), efetuado entre a Rússia bolchevique e os nacionalistas turcos, provavelmente devido à existência dentro da própria Geórgia de significativas minorias muçulmanas (cerca de 11 por cento da população do país), localizadas essencialmente na república autónoma da Abkhazia e da região autónoma da Ossétia do Sul. • GRÉCIA: Litígio sobre as águas territoriais marítimas e os corredores aéreos no mar Egeu, sobre os direitos da minoria muçulmana turca na Grécia (Trácia Oriental) e sobre os direitos do Patriarcado da Igreja Ortodoxa grega de Constantinopla/Istambul. • IRÃ: Não existem litígios territoriais fronteiriços. Todavia, há uma importante disputa político-estratégica em curso sobre a influência no Médio Oriente e nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, que coloca normalmente turcos e iranianos em campos opostos nos conflitos da região (por exemplo, no conflito do Nagorno- Karabach a Turquia apoia o Azerbaijão, enquanto o Irão apoia a Arménia). • IRAQUE: Ambições irredentistas da Turquia sobre o Norte o Iraque (região de Mossul e Kirkuk), que foi a principal reivindicação territorial não conseguida pela República da Turquia em 1923, após a extinção do Império Otomano. O Iraque, pelos menos até à deposição de Saddam Hussein em 2003, contestava a diminuição unilateral dos caudais dos rios Tigre e Eufrates, devido à construção da barragem de Atatürk e aos planos de irrigação das províncias do território turco junto à sua fronteira, que levam a seca e águas poluídas ao seu território. • SÍRIA: A Síria reclama a província turca do Hatay (onde se encontra a cidade de Antioquia), não reconhecendo a soberania da Turquia sobre esse território, anexado em 1938, na sequência de um referendo alegadamente fraudulento. O Egito, apesar de ter a maior parte de seu território na África, tem a península do Sinai localizada no continente asiático e já esteve envolvido em vários conflitos no Oriente Médio. As importantes rotas comerciais que existem no Oriente Médio, como a rota do petróleo, o fato de a região se limitar com outras áreas ricas em petróleo, como os países da Ásia Central (Cazaquistão, Usbequistão e Quirquízia), e com países que vivem em conflitos como o Paquistão e a Índia e os países do Chifre da África, são determinantes para a sua grande importância estratégica. Além das questões étnico-culturais, podemos destacar a questão econômica, uma vez que o Oriente Médio detém cerca de 54% do total mundial de petróleo. Das sete maiores reservas mundiais do produto, cinco estão localizadas na região. A região tem importante participação na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, com seis países-membros: Irã, Iraque, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait. Como membro da organização, os países produtores do Oriente Médio conseguem controlar a produção e o preço do petróleo no mercado mundial, criando um verdadeiro cartel. MAIORES RESERVAS MUNDIAIS DE PETRÓLEO – 2014 País Bilhões de barris Venezuela 297.5 Arábia Saudita 265,4 Irã 154,5 Iraque 141,3 Kuwait 101,5 Emirados Árabes Unidos 97,8 Rússia 79,7 Anual Statistic Bulletin, OPEP QUESTÃO PALESTINA A região da Palestina foi ocupada e conquistada por muitos povos, entre eles os judeus e os árabes. No século VI a.C., o povo judeu iniciou sua diáspora, devido à repressão imposta pelo Império Romano, mas continuou a considerar a região como sua terra de origem. Os palestinos são formados por uma mistura de povos, como filisteus1 (que ocupavam a Faixa de Gaza), cananeus2 (que habitavam a Cisjordânia) e os árabes, os quais impuseram sua cultura, tradição e a religião islâmica. Os palestinos habitaram a região por um período de cerca de 2.000 anos. A partir do final do século XIX, com a criação da Organização Sionista Mundial (1897), cuja sede fica na Suíça, o movimento sionista começou a organizar a migração de judeus à Palestina, visando a formação de uma pátria judaica. Na primeira metade do século XX, o aumento da população judaica na região, estimulado pela compra de terra e pelo estabelecimento de diversas colônias, foi contínuo e relativamente pacífico. No entanto, depois da Primeira Guerra Mundial, quando os britânicos, que passaram a controlar a região, cogitaram a criação de um Estado judaico (Declaração de Balfour), essa migração tornou-se bastante conflituosa. O secretário de relações exteriores britânico, Arthur Balfour, encorajava a colonização da Palestina por judeus e apoiava o estabelecimento de um “lar nacional judaico na Palestina”, o qual teria proteção britânica. Arthur Balfour e a Declaração Balfour. 1 A origem dos filisteus (do hebraico plishtim) ainda hoje é motivo de controvérsias. Há polêmica até mesmo sobre o fato se se tratava de um único povo ou de uma confederação de povos que migraram do Mar Egeu para o leste do Mar Mediterrâneo no século XIII a.C. 2 O nome cananeu deriva de Canaã, um dos filhos de Cam, filho de Noé. Esta descendência lhes foi atribuída por sua grande dependência política em relação aos egípcios camitas. No entanto, sabe-se que a maioria dos habitantes de Canaã – Palestina e Fenícia – era formada por semitas imigrados em diversos períodos, provavelmente entre o 4º e 2º milênios anteriores ao nascimento de Cristo. 430 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE GEOGRAFIA – (Prof. Italo Trigueiro) A perseguição e o massacre imposto aos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, foram fundamentais para o apoio internacional à formação do Estado de Israel, em 1948. A divisão do território da Palestina entre judeus e palestinos fazia parte de acordos firmados entre Estados Unidos, Reino Unido e URSS. Em 1947, a ONU aprovou o plano de partilha da região da Palestina e a criação do Estado de Israel, que ocupava 57% daquele território. A formação de um Estado judaico no Oriente Médio provocou a reação contrária dos países árabes. Ainda em 1948, Egito, Jordânia, Líbano e Síria invadiram Israel, dando início a Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948-1949). Em 1949, foi estabelecido um armistício, que retirou totalmente dos palestinos as decisões sobre os seus tradicionais territórios, inclusive dos que tinham sido delimitados pela ONU, em 1947. O acordo de paz estabeleceu que o Estado Árabe da Palestina seria dividido entre Israel (que conquistara a Galileia e o deserto de Neguev); Transjordânia, que incorporaria a Cisjordânia (a oeste do rio Jordão); e Egito, que ocuparia a faixa da Gaza. Após o armistício, os conflitos não cessaram. Diversas questões opuseram árabes e israelenses. Os palestinos reagiram à ocupação de suas terras organizando atos terroristas contra os judeus. Em 1956 o Egito nacionalizou o Canal de Suez e proibiu a passagem de navios israelenses na região, dando origem a Segunda Guerra Árabe-Israelense. Israel, apoiado por França e Reino Unido, ocupou toda a região do Sinai. A pressão de EUA e URSS fez com que Israel recuasse e abandonassem o Sinai, assim como os egípcios retroagissem em sua decisão. Em 1967, a Síria tentou desviar o fluxo de água do rio Jordão mediante a construção de uma grande represa, nas colinas de Golã. Com o apoio da Jordânia e do Egito, a Síria bloqueou o golfo de Ácaba – utilizado pelos navios israelenses para chegar ao Mar Vermelho. O crescimento das tensões colocou em alerta as tropas de todos os países envolvidos. Entre 5 e 10 de junho de 1967, os israelenses iniciaram fulminante ataque ao Egito, à Jordânia e à Síria, que imobilizaram totalmente as tropas árabes numa das guerras mais curtas da história,denominada Guerra dos Seis Dias ou Terceira Guerra Árabe- Israelense. Nesse terceiro conflito, os israelenses anexaram a península do Sinai e a faixa da Gaza, pertencentes aos egípcios; as colinas de Golã, que pertenciam a Síria; e a Cisjordânia, que fazia parte da Jordânia. Em 1973, na tentativa de reaver os territórios ocupados, Egito e Síria atacaram Israel de surpresa, dando início à Quarta Guerra Árabe-Israelense, conhecida pelos judeus como Guerra de Yom Kippur e pelos palestinos como Guerra de Novembro. A princípio, conquistaram algumas posições, mas foram obrigados a recuar com a forte reação do exército israelense, que conseguiu mobilizar e organizar as suas tropas rapidamente. A guerra durou três semanas, e Israel manteve sob seu domínio as conquistas da Guerra dos Seis Dias. Em 1979, Israel concordou em devolver ao Egito a península do Sinai, mediante acordo de Camp David, intermediado pelos Estados Unidos. As guerras envolvendo árabes e israelenses expulsaram milhares de palestinos de suas terras, que se refugiaram em acampamentos no Líbano, na Síria, no Egito e na Jordânia. Desorganizados, espalhados por diversos países e enfraquecidos militarmente, os palestinos criaram várias organizações terroristas para lutar contra o Estado de Israel, entre ela a Al Fatah, em 1959, e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 1964. No final da década de 1960, a OLP foi reconhecida pela ONU como única e legítima organização representante do interesse do povo palestino. Em 1969, Yasser Arafat, palestino nascido no Egito, assumiu a presidência da organização. Até 1987, Arafat utilizava métodos extremistas – atos de terrorismo – para alcançar seus objetivos. Em 14 de dezembro de 1988, o líder da OLP apresentou um plano de paz na Assembleia Geral da ONU, no qual reconhecia o Estado de Israel. Esse acontecimento marcou uma nova faze para a OLP, que conquistou mais espaço no campo diplomático, passando a negociar com os Estados Unidos e, posteriormente, com Israel. No dia 13 de setembro de 1993, após seis meses de negociações secretas mediadas pelo governo da Noruega, Arafat e o primeiro- ministro israelense Yitzak Rabin, assinaram uma acordo de paz na Casa Branca, Estados Unidos, que ficou conhecido como Acordo de Oslo. Por esse acordo, a faixa da Gaza e a parte da Cisjordânia - incorporadas a Israel, em 1967, na Guerra dos Seis Dias – foram devolvidas aos palestinos e se tornaram regiões autônomas. Foi criada, também, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), entidade liderada por Arafat com sede em Ramallah, na Cisjordânia. A ANP passou a ser a representação legal dos palestinos e responsável pela administração dos seus territórios. Em setembro de 1995, um novo acordo estendeu a autonomia a outras 456 cidades na Cisjordânia. No final da década de 1990, as negociações entre Israel e ANP tornaram-se extremamente difíceis. Em 2000 Ariel Sharon, que no ano seguinte seria escolhido primeiro-ministro de Israel, visitou a Esplanada das Mesquitas (local mais sagrado para os muçulmanos em Jerusalém), provocando a Segunda Intifada. Ariel Sharon na Esplanada das Mesquitas. A partir desse acontecimento, instaurou-se uma espiral de violência: de um lado, atentados suicidas fomentados por grupos Aula 19 – Conflitos Regionais na Ordem Global I 431 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência radicais palestinos contra israelenses; de outro, retaliações a essas agressões, com ações militares promovidas pelo exército de Israel, que colocou o exército dentro do território da ANP e passou a retaliar todos os suspeitos de integrar grupos terroristas, promovendo ao mesmo tempo, ataques à população civil palestina. Com a morte de Arafat em 2004, a ANP passou a ser presidida por Mahmoud Abbas, eleito num processo livre e democrático, no início de 2005. As ações de Abbas foram pautadas pelas negociações com o governo de Israel e com os grupos radicais palestinos com o objetivo de retomar a avançar as questões traçadas pelo Mapa do Caminho. Essas negociações levaram, à retirada dos assentamentos judaicos da faixa de Gaza e de uma pequena parte da Cisjordânia. Apesar disso, o governo de Israel insistiu em dar continuidade à construção de um muro que separa Israel da parte da Cisjordânia, controlada pelos palestinos. Iniciada em 2002, a imensa muralha tem postos de vigilância de entrada e saída. Uma extensa região controlada pelo exército israelense, chamada de zona tampão, isola a comunidade palestina em seu próprio território. Além disso, o muro incorpora terras palestinas ao território israelense. Israel declara a cidade de Jerusalém como capital indivisível do país; já os palestinos não abrem mão de incorporá-la a um futuro Estado da Palestina. O extremismo de grupos judeus e palestinos, contrários a qualquer processo de negociação, constitui outro obstáculo à paz na região. Em 2006 o Hamas conquistou legitimamente o poder e manteve a posição de não reconhecimento do Estado de Israel e a oposição a qualquer negociação de paz. Em 2009, o governo de Binyamin Netanyahu entravou as negociações com a ANP ao permitir a ampliação dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, o que inviabilizaria a formação de um território palestino contínuo. Israel passou a admitir a existência de um Estado Palestino desmilitarizado, sem a possibilidade de controle de suas fronteiras, de seu espaço aéreo e sem capacidade de defesa. Embora os conflitos entre as populações árabes e israelenses e os desentendimentos entre seus governantes continuem a acontecer, impedindo paz efetiva na região, em 2012, os territórios ocupados pelos palestinos foram finalmente reconhecidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas na categoria de Estado não membro, mesmo status do Vaticano. PALESTINA RECONHECIDA COMO ESTADO OBSERVADOR DA ONU A Assembleia Geral das Nações Unidas aceitou a entrada da Palestina como Estado Observador, ao aprovar uma resolução por 138 votos a favor, nove contra e 41 abstenções. O status permite que os palestinos opinem, mas sem direito a voto, e, segundo especialistas, abre espaço para as discussões sobre a criação de um Estado independente. Por 138 votos a nove, a Assembleia Geral da ONU aprovou nesta quinta-feira uma ascensão do status dos palestinos nas Nações Unidas, de “entidade observadora” a “Estado observador não-membro”. O Brasil está entre os países que votaram a favor da medida, que precisava apenas de maioria simples para ser aprovada. A maior oposição veio de EUA e Israel, que estão entre os nove membros que votaram contra. Os países que se abstiveram somam 41. O pleito se segue a uma fracassada tentativa dos palestinos de integrar a ONU como membros permanentes, em 2011, quando não obtiveram apoio do Conselho de Segurança da ONU. O presidente palestino Mahmoud Abbas disse mais cedo que essa seria a “última chance” de uma solução para o conflito com Israel. Ele havia solicitado que a comunidade internacional desse uma “certidão de nascimento” para a Palestina. O novo status é principalmente simbólico, mas a liderança palestina argumenta que ele ajudará a delimitar o território que quer para seu Estado próprio – gradativamente tomado pelo avanço dos assentamentos israelenses. Também pode ajudar que essa delimitação de território ganhe reconhecimento formal. O embaixador palestino na ONU, Riyad Mansour, havia dito que a aprovação é “um passo muito importante para salvar a solução de dois Estados”. A mudança também significa que palestinos poderão participar dos debates da Assembleia Geral da ONU, aumentando suas chances de SEMANA 19 - GEOGRAFIA II - CONFLITOS REGIONAIS NA ORDEM GLOBAL I - TRIGUEIRO