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Revista Appoa 45-46 - Desamparo e vulnerabilidades

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ISSN 1516-9162
REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
n. 45-46, jul.2013/jun.2014
DESAMPARO E VULNERABILIDADES
ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE / INSTITUTO APPOA
Porto Alegre
REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
EXPEDIENTE
Publicação Interna
n. 45-46, jul. 2013/jun. 2014
Título deste número:
DESAMPARO E VULNERABILIDADES 
Editores: 
Deborah Nagel Pinho e Maria Ângela Bulhões 
Comissão Editorial:
Clarice Sampaio Roberto, Cristian Giles, Deborah Nagel Pinho, Gláucia Escalier Braga, 
Joana Horst, Maria Ângela Bulhões, Mariana Hollweg Dias, Marisa Terezinha Garcia 
de Oliveira, Otávio Augusto Winck Nunes, Renata Maria Conte de Almeida.
Colaboradores deste número:
Àlvaro Olmedo, André Oliveira Costa, Lucy Linhares da Fontoura, Luiza Olmedo.
Editoração:
Jaqueline M. Nascente 
Consultoria linguística:
Dino del Pino
Capa: 
Clóvis Borba
Linha Editorial:
A Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre é uma publicação semestral da APPOA que 
tem por objetivo a inserção, circulação e debate de produções na área da psicanálise. Contém es-
tudos teóricos, contribuições clínicas, revisões críticas, crônicas e entrevistas reunidas em edições 
temáticas e agrupadas em quatro seções distintas: textos, história, entrevista e variações. Além da 
venda avulsa, a Revista é distribuída a assinantes e membros da APPOA e em permuta e/ou doação 
a instituições científicas de áreas afins, assim como bibliotecas universitárias do País.
Associação Psicanalítica de Porto Alegre
Rua Faria Santos, 258 Bairro: Petrópolis 90670-150 – Porto Alegre / RS 
Fone: (51) 3333.2140 – Fax: (51) 3333.7922
E-mail: appoa@appoa.com.br - Home-page: www.appoa.com.br
ISSN 1516-9162
R454
Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre / Associação
Psicanalítica de Porto Alegre. - Vol. 1, n. 1 (1990). - Porto Alegre: APPOA, 1990, -
Absorveu: Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
Semestral
ISSN 1516-9162
1. Psicanálise - Periódicos. I. Associação Psicanalítica de Porto Alegre
CDU 159.964.2(05)
CDD 616.891.7
Bibliotecária Responsável Luciane Alves Santini CRB 10/1837
Indexada na base de dados Index PSI – Indexador dos Periódicos Brasileiros na área de Psicologia (http://
www.bvs-psi.org.br/)
Versão eletrônica disponível no site www.appoa.com.br
Impressa em março 2015. Tiragem 500 exemplares.
DESAMPARO E VULNERABILIDADES
SUMÁRIO
EDITORIAL .................................. 07
TEXTOS
Desamparo e Vulnerabilidades no 
Laço Social – a função do psicanalista
Helplesness and Vulnerabilities in the 
Social Tie – the function of the psychoanalys
Jaime Betts ....................................... 09
O desejo do psicanalista face ao 
desamparo contemporâneo
The desire of the psychoanalyst in the 
face of contemporary distress 
Caterina Koltai ................................... 20
 
Um luto impossível: 
efeitos de trauma em imigrações 
An impossible mourning: 
effects of trauma in immigration
Ana Costa ......................................... 32
Do Exílio ao Asilo: Escutas Clínicas
From exile to asylum: clinic listenings 
Alexei Conte Indursky, 
Barbara de Souza Conte, 
Daniela Feijó e Liege Didonet ........... 37
Imagens, apesar da catástrofe
Images despite the catastrophe 
Robson De Freitas Pereira ................ 49
É possível falar sobre essa tragédia? 
Is it possible to talk about this tragedy?
Luciana Portella Kohlrausch .............. 58
A colaboração da Psicanálise 
na construção do Serviço de 
Acolhimento às vítimas do 
incêndio na boate Kiss
The contribution of Psychoanalysis in the cons-
truction of the Embracement Service to the victi-
ms of the fire in the Kiss nightclub
Volnei Antonio Dassoler .................... 67
Apoio matricial, uma clínica 
em extensão
Matrix support, a clinic in extension 
Elaine Rosner Silveira ...................... 78
A clínica e as práticas de cuidado 
na rede de atenção à infância 
e adolescência
The clinic and the care practices in the 
attention to childhood and adolescence service
Ieda Prates da Silva e 
Tatiane Reis Vianna .......................... 89
“Secretários do Alienado”? 
A psicose e a instituição Psicanalítica 
“Secretaries of the Alienated”? The 
psychosis and the psychoanalytic Institution
Siloé Rey 
Liz Nunes Ramos ........................... 100
Corpo e violência estrutural das 
psicoses: o suicídio do outro 
em Louis Althusser
Body and psychosis’s structural violence: 
the other’s suicide in Louis Althusser
Manoel Madeira ............................. 108
A Casa dos Cata-Ventos: uma aposta 
na dimensão política do brincar
The Casa dos Cata-Ventos: 
a bet on the political dimension of play 
Anderson Beltrame Pedroso e 
Edson Luiz André de Sousa ............ 122
A autoridade do professor e a questão 
do saber-fazer com o sinthoma
The authority of the teacher and the question 
of know-how with the sympthom 
Marcelo Ricardo Pereira ................. 135
A dimensão traumática da educação
The the traumatic dimension of education
Roséli M. Olabarriaga Cabistani ......146
Educação e vida pulsional
Education and drive life 
Gerson Smiech Pinho ...................... 153
Educação (im)possível?
(Im)possible education? 
Larissa Costa Beber Scherer ........... 161
A prática dos educadores 
na contemporaneidade: 
algumas reflexões
Teaching practice in the contemporary 
society: a few reflections 
Cristina Py de Pinto Gomes Mairesse .... 172
ENTREVISTA
Transferências de um psicanalista
Interview: Transfers of a psychoanalyst
Alfredo Jerusalinsky ........................ 181
RECORDAR, REPETIR, ELABORAR
Uma aula sobre a dialética hegeliana 
do senhor e do escravo
A lesson on the Hegelian dialectic 
of master and slave 
Marilena Chauí ............................... 192
VARIAÇÕES
Os números irracionais de Lacan 
(parte 2): as transmutações do fi
The irrational numbers of Lacan (part 2): 
the transmutations of fi 
Ligia Gomes Víctora ....................... 218
Dez proposições para 
ler Jacques Lacan
Ten propositions to read Jacques Lacan 
Norton Cezar Dal Follo da Rosa Junior ... 226
Poética do letramento
The poetics of literacy 
Elaine Milmann ............................... 243
EDITORIAL
7
O desamparo é uma experiência fundamental da condição humana e é em torno dela que se constitui a posição do sujeito no laço social. Freud 
faz do estado de desamparo (hilflosigkeit) um conceito de referência em sua 
obra. Ele o enfatiza como o protótipo das situações traumáticas, geradoras 
de angústia no adulto, pois o confronta, no tempo presente, com a impotên-
cia de seu estado de desamparo infantil originário. Segundo Freud, o mal-
estar, a infelicidade e as situações traumáticas chegam de três direções: do 
sofrimento do próprio corpo, do mundo externo e das insatisfações ou da 
violência desencadeadas pelas relações com os outros. O sofrimento pro-
veniente desta última talvez seja o mais penoso de todos eles.
Com a cultura, se responde a este inevitável mal-estar da condição hu-
mana que desencadeia inúmeras situações de vulnerabilidade, evidencian-
do o eterno conflito entre civilização e barbárie. O catastrófico se articula 
com o desamparo estrutural e o sujeito se confronta com o trauma do real 
irrepresentável. Toda vez que ficam esquecidas a fragilidade e a finitude da 
condição humana e ideais são impostos em nome do progresso, da razão, 
ou da fé, o resultado pode ser da ordem da barbárie.
O desamparo e as diferentes vulnerabilidades colocam um desafio para 
a clínica da psicanálise em extensão. Diante da irrupção do real e dos restos 
dela decorrentes o trabalho se impõe, buscando fazer contornos possíveis. 
Nesta revista, os textos trazem recortes do que é encontrado na clínica e do 
que se testemunha, como sujeitos de uma época. É de fundamental impor-
tância para o trabalho que norteia o Instituto APPOA propor debates sobre 
as intervenções fundadas no desejo do analista e na ética da psicanálise 
junto ao social e seu inevitável mal-estar. Nesse sentido, contemplam-se 
ensino,formação e transmissão da psicanálise. 
8
O convite a pensar o sujeito, sua inserção na cultura e o sofrimento 
disso decorrente já estava presente em Freud, Lacan e outros que os suce-
deram. Reiteramos o convite já enunciado e desejamos a todos uma ótima 
leitura! 
EDITORIAL
TEXTOS
9
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.09-19, jul. 2013/jun. 2014
Resumo: O presente artigo aborda o conceito de desamparo no âmbito das vul-
nerabilidades com que o mal-estar na cultura contemporâneo confronta o sujei-
to, questionando a função do psicanalista e sua inserção no contexto institucio-
nal e as intervenções possíveis no laço social dirigidas pela ética da psicanálise. 
Palavras-chave: desamparo, vulnerabilidades, ética da psicanálise, laço social, 
psicanálise em extensão.
HELPLESNESS AND VULNERABILITIES IN THE 
SOCIAL TIE – THE FUNCTION OF THE PSYCHOANALYS
Abstract: The present paper discusses the concept of helplessness in face of 
vulnerabilities with which culture and its discontents confront the subject, ques-
tioning the function of the psychoanalyst in institutions and possible interventions 
in social ties guided by psychoanalytic ethics.
Keywords: helplessness, vulnerabilities, psychoanalytic ethics, social ties, psy-
choanalysis on extension.
DESAMPARO E 
VULNERABILIDADES NO 
LAÇO SOCIAL – A FUNÇÃO 
DO PSICANALISTA1
Jaime Betts2
1 Versão ampliada do texto de abertura da III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Inter-
venções Sociais – Desamparo e Vulnerabilidades, agosto de 2013, em Porto Alegre.
2 Jaime Betts; Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e 
Diretor Executivo do Instituto APPOA. Co-autor dos livros Sob o véu transparente – recortes do 
processo criativo com Claudia Stern. Porto Alegre: Território das Artes, 2005; e (Re)Velações 
do Olhar – recortes do processo criativo com Liana Timm. Porto Alegre: Território das Artes, 
2005. E-mail: jaimebetts@gmail.com
10
Jaime Betts
Desamparo e Vulnerabilidades. Desamparo está no singular, pois se trata de um conceito metapsicológico e de uma condição estrutural primordial 
do ser humano. Já as vulnerabilidades são plurais, inúmeras, oriundas de 
ameaças que vêm de diferentes direções.
Freud, em Mal-estar na civilização ([1929]1996), afirma que a infelici-
dade e o mal-estar (e as situações de vulnerabilidade, potencialmente trau-
máticas) chegam aos seres humanos de três direções: da fragilidade e do 
sofrimento do próprio corpo; do mundo externo e das forças da natureza; 
e das insatisfações ou da violência desencadeadas pelas relações com os 
outros. 
O mal-estar proveniente da relação com os outros, pondera Freud, tal-
vez seja o mais penoso de todos eles. Quando somos atingidos por alguma 
dessas direções, a violência, a perda, a doença ou o catastrófico se articula 
com o desamparo primordial e somos confrontados de modo mais ou menos 
direto, com mais ou menos anteparos, com o trauma do real irrepresentável. 
Através da cultura/civilização/laço social3, procuramos fazer frente a 
esta condição de desamparo. Entretanto, o mal-estar da vida em sociedade 
é inevitável e nos defronta com inúmeras situações de vulnerabilidade em 
seu movimento permanente de conflito entre civilização e barbárie. Em to-
das estas situações, o sujeito e o outro estão diretamente implicados, muito 
embora estejam frequentemente alienados dessa implicação, bem como de 
sua responsabilidade por suas escolhas e seus atos.
Freud faz do estado de desamparo ̶ hilflosigkeit ̶ do bebê humano um 
conceito fundamental ao longo de sua obra, enfatizando-o como o protótipo 
das situações traumáticas. As situações tornam-se traumáticas e geradoras 
de angústia intensa no adulto, na medida em que o confrontam, no tempo 
presente, com a impotência de seu estado de desamparo infantil originá-
rio. Nesse estado, sua vulnerabilidade é absoluta em sua dependência das 
atenções vindas de um outro cuidador, constituindo o que Freud denominou 
complexo do próximo (Freud, [1895]1976). O laço social com o outro cuida-
dor está colocado desde os primórdios da constituição do sujeito.
Entretanto, se o laço social com o outro cuidador está colocado desde 
o início, este laço só é possível por meio da linguagem, o que quer dizer que 
entre o sujeito e o outro está o Outro da linguagem, que Lacan ([1953]1998) 
denomina em certo momento de seu ensino como o muro da linguagem. 
3 Faço aqui como Freud ([1927]1976) e não diferencio os termos, acrescentando o de laço 
social, forjado por Lacan.
11
Desamparo e vulnerabilidades no laço social...
Soma-se à condição de imaturidade do infante humano o fato de que 
a linguagem também nos deixa desamparados, pois, ao não nos fornecer a 
palavra final, a palavra que finalmente recobriria perfeita e definitivamente 
o furo do real, somos confrontados com o impossível, o que nos remete ao 
desamparo primordial. O impossível em psicanálise é o real, que é impossí-
vel de ser simbolizado. 
Como o desamparo infantil é uma condição estrutural, ele implica des-
de o início uma abertura ao outro, ao outro cuidador, que interpreta os gritos 
e manifestações de desconforto e sofrimento do bebê como um apelo. Apelo 
que tem como resposta a significação sancionada pela interpretação dada 
aos mesmos pelo adulto. As significações atribuídas pelo adulto fornecem 
uma imagem do objeto de satisfação e seus traços são inscritos no corpo 
do bebê pelo dom materno da alternância de sua presença e de sua ausên-
cia. Esta alternância simbólica de presença/ausência condiciona o funciona-
mento das funções corporais intrincadas ao processo libidinal da montagem 
das pulsões que erogenizam o corpo, ao mesmo tempo em que constituem 
o lugar do sujeito nas relações de parentesco e no laço social.
Esses encontros primordiais entre o bebê e o adulto se inscrevem 
como processo de desejo, fundando o laço social em torno do desampa-
ro estrutural como desejo de desejo do outro. Sentir-se amado pelo outro, 
visto como um ser superior, representa inconscientemente uma proteção 
contra todas as ameaças. E a ameaça maior torna-se a da perda do amor 
ou a separação do ser protetor. A ameaça de ser abandonado ou de ser 
confrontado com a perda do ser amado remete o sujeito à sua condição de 
desamparo e impotência primordiais. E tudo isso se dá banhado num caldo 
de cultura que determina as diferentes configurações simbólicas e imaginá-
rias do laço social em que os cuidados são ministrados.
Nesse sentido, a cultura/civilização/laço social é substituta da função 
materna (Rassial, 2006) diante do desamparo, pois fornece, por um lado, 
meios simbólicos e imaginários de reconhecimento do que representa ao 
sujeito e reafirma sua identidade. Por outro lado, a cultura é herdeira do su-
pereu parental, estabelecendo deveres morais e ideais do eu, bem como é 
herdeira da função paterna, pois permite que possamos ser criativos a partir 
do amparo materno diante do impossível, inventando novas formas de viver 
em sociedade. Ou seja, é em torno da experiência do desamparo que se 
constitui tanto o sujeito e sua posição no laço social, quanto o próprio laço 
social, pois cada qual se estrutura em torno do impossível. 
Cada língua viva constrói uma cultura específica para aqueles que a 
compartilham, construção que implica um laço social em que a violência 
simbólica que determina o que fica excluído da mesma se constitui como 
12
Jaime Betts
tabu. Imigrantes, exilados e refugiados – os estrangeiros, os diferentes, os 
de outra tribo – são alvos preferenciais da hostilidade e até mesmo do ódio 
de parte dos que são da cultura local. Por quê? 
Quando uma cultura entra em contato com outra, o que é tabu para 
uma não necessariamente é tabu para a outra. Quando o que é proibido de 
um lado é exposto pelo outro, o mal-estar se intensifica e a hostilidade se 
deflagra no laço social. Quanto mais se recusa a violência simbólica funda-
dora de uma cultura e se atribui a mesma ao estrangeiro, mais a intolerânciase instala e a violência real eclode nos corações e mentes, na convivência 
dos estrangeiros para nós mesmos4.
O capitalismo globalizado, marcado pela tendência à dissolução de 
vínculos e promoção de desigualdades nos espaços ocupados pelos grupos 
que se deslocam e cruzam fronteiras, vem realizar em escala planetária o 
mito da torre de Babel. Mito no qual a construção da torre (para além das 
interpretações de cunho religioso, trata-se de uma metáfora da construção 
da vida em sociedade) é interrompida pela confusão de línguas e da violên-
cia desencadeada pela mesma, tornando o entendimento e o convívio, no 
conjunto de seus construtores, impossível. 
E ‘assim caminha a humanidade’5, criando por um lado novas formas 
de viver e de desfrutar a vida, assim como novas formas de destruição e 
barbárie. Frequentemente, diante da falta no Outro, referido anteriormente, 
de um significante definitivo, surge a figura de plantão de um mestre ou 
amo, que se acha dono da verdade e a quem se recorre em busca dessa 
ansiada e ilusória palavra final que poupe o confronto com o desamparo. As 
diversas formas de messianismo, tirania, colonialismo ou totalitarismo que 
são forjadas no laço social respondem de forma alienada e alienante a esse 
desamparo estrutural. 
Frente ao sofrimento subjetivo compartilhado no laço social cabe per-
guntar: quais as intervenções possíveis e compatíveis com a ética da psica-
nálise, quando se cruza a fronteira de uma língua? 
Diante das questões com que a diferença cultural confronta o laço so-
cial contemporâneo – confronto intensificado com o incremento das migra-
ções regionais e imigrações –, a regra que vigora de modo predominante 
nas comunidades culturais ao redor do mundo é etnocêntrica. Ou seja, é 
4 Referência ao título do livro de Julia Kristeva, O estrangeiro de nós mesmos, lançado, no 
Brasil, em 1994, Ed. Rocco.
5 Alusão ao título do clássico do cinema de 1956, dirigido por George Stevens e estrelado por 
James Dean, Elizabeth Taylor e Rock Hudson. 
13
Desamparo e vulnerabilidades no laço social...
imposta ao estrangeiro uma escolha forçada de ser assimilado às regras e 
costumes locais, ou ser estigmatizado e excluído (o que é comum acontecer 
mesmo quando a assimilação se deu – o estrangeiro nunca será visto como 
um nativo, por mais que se esforce e renegue suas origens). O problema, 
tanto para o sujeito, quanto para o laço social, são as consequências psico-
patológicas que a exclusão e a perda da língua e da memória trazem consi-
go na alienação requerida pelas políticas de assimilação. Diferentemente de 
uma perspectiva de adaptação do sujeito ao contexto social, o discurso do 
analista implica permitir ao sujeito, através do recorte simbólico dos signifi-
cantes que o representam para outros significantes – incluindo significantes 
da cultura de chegada –, construir socialmente sua inserção na comunidade 
local. E vice-versa, ou seja, o processo desencadeado pelo efeito sujeito 
de desejo implica que o sujeito da cultura local também possa se reconhe-
cer em significantes que o representam para outros significantes, inclusive 
alguns da cultura estrangeira. O efeito sujeito de desejo, como veremos 
adiante, implica um reordenamento micro, por vezes macro, dos elementos 
do laço social – individuais, políticos e culturais. 
Nesse sentido, a clínica, intervenção e pesquisa em psicanálise no 
âmbito da diferença cultural no laço social é: 
[...] um percurso que estuda o modo segundo o qual nossas cul-
turas fazem trabalhar as figuras da origem e da alteridade, do es-
tranho e do familiar, seus efeitos sobre as realidades das trocas 
das determinações identitárias, mas também a ressonância des-
tes tratamentos da ‘identidade-alteridade’ sobre o real dos corpos 
(Douville, 2004, p.190).
Segundo Lacan ([1970-1971]1992), o que faz laço social é o discurso 
(não desenvolveremos extensamente a sua ‘teoria dos quatro discursos’). 
Lembramos apenas que o discurso é uma estrutura linguageira que organi-
za a comunicação e especifica as relações do sujeito com os significantes e 
com o objeto, sendo determinante para o sujeito e regulador das formas do 
laço social (Chemama, 1995). 
Ocorre, nesse sentido, que cada vez mais a violência no laço social 
contemporâneo é organizada pelo discurso capitalista e pelo discurso da 
ciência. No discurso do capitalista, o sujeito do inconsciente, sujeito de de-
sejo, é visto exclusivamente segundo sua potência fálica de consumidor 
manipulável pelo marketing, alienável no gozo de consumo dos objetos ofer-
tados. O discurso da ciência, por sua vez, se funda sobre a foraclusão do 
sujeito de desejo. O sujeito do enunciado é reconhecido, mas o sujeito da 
14
Jaime Betts
enunciação é foracluído. É o discurso do analista que vem recolher pela 
escuta o sujeito de desejo foracluído pela universalização que o discurso da 
ciência introduz, ou que o discurso do capitalista cala pela mercantilização 
do desejo com a oferta de consumo de toda sorte de objetos que fazem 
semblante ao obscuro objeto do desejo. 
O sujeito do enunciado pode ser universalizado através de um discurso 
que se torne suficientemente hegemônico para uniformizá-lo numa massa 
desumanizada que se identifica pela marca dos objetos que consome, e 
que facilmente entra numa luta de puro prestígio de vida ou morte com os 
portadores de uma marca diferente da sua, fenômeno de identificação ima-
ginária descrito por Freud em Psicologia de grupo e a análise do eu (Freud, 
[1921]1976).
Os campos de concentração e outras tantas formas contemporâneas 
de banalização do mal em nossas comunidades decorrem da desumaniza-
ção, fruto da universalização introduzida pelo discurso da ciência, que exclui 
a singularidade do sujeito do desejo, assim como o aliena de sua implicação 
e responsabilidade por seus atos (Lacan, [1967]2003). Segundo Hannah 
Arendt (1963), os discursos totalitários alienam o sujeito, privando-o da ca-
pacidade de pensar.
O sujeito da enunciação, por sua vez, é sempre singular, contado um 
por um. A função do psicanalista é apontar o impossível, o que abre cami-
nho para a simbolização da falta, dando lugar para o sujeito de desejo e 
minimizando as ilusões com que o laço social procura recobri-las. Em outras 
palavras, ser operador da psicanálise, seja em intensão, seja em extensão, 
é apontar na transferência quando surgem na fala os significantes que re-
presentam o sujeito, um por um, para outros significantes, perfazendo o 
litoral com o impossível, permitindo que a capacidade desejante de pensar 
e criar advenha.
A função da psicanálise em extensão é presentificar a psicanálise no 
mundo. A psicanálise em intensão presentifica a psicanálise através da clí-
nica do sujeito individual, ou seja, preparando operadores da psicanálise, 
lembrando aqui a afirmação de Lacan, de que toda análise que chega a seu 
fim forma um analista, seja ele praticante ou não (Lacan, [1968]2003). 
O operador da psicanálise em extensão pode presentificar a psicaná-
lise no mundo de diferentes maneiras, nos mais diferentes campos profis-
sionais, mas será sempre um operador da psicanálise implicado no que faz, 
e nunca um aplicador da psicanálise que opera de modo selvagem fora de 
um laço transferencial. 
Cabe lembrar que o caminho que cada sujeito percorre no campo da 
psicanálise é sempre singular, e árduo, pois, no percurso analítico se trata 
15
Desamparo e vulnerabilidades no laço social...
de recortar nas múltiplas repetições sintomáticas os significantes que deli-
mitam as bordas do impossível. 
O ato analítico do recorte significante do impossível conjuga também 
a desconstrução das identificações imaginárias que sustentam as certezas 
de um sujeito, bem como os significados estabelecidos na cultura aos fatos 
e às coisas, e a definição dos usos e costumes que regulam as relações so-
ciais com que se procura recobrir o impossível. Nesse sentido, nas palavras 
de Douville: “laço social designa [...] o modo como uma coletividade mas-
cara umafalta estrutural na relação do sujeito com o Outro” (2004, p.181).
Qualquer que seja o campo de implicação do operador da psicanálise, 
o que deve predispor o psicanalista na clínica em extensão é o desejo do 
analista de escutar a prevalência do saber textual onde quer que se mani-
feste. O inconsciente é um saber textual insabido pelo sujeito, pois precisa 
ser decifrado a partir de suas associações livres, para que os significantes 
(que representam o sujeito para outros significantes) possam ser identifica-
dos. E o desejo do analista é o desejo de que surja a diferença, de que a 
falta estrutural (o impossível) em que advém, o sujeito de desejo seja reco-
nhecido através dos seus significantes no laço social. 
A diferença é produzida pelo real que não cessa de não se inscre-
ver (Lacan, [1972-1973]1982), fazendo hiato entre S1 e S2. Presentificar 
a psicanálise no mundo é presentificar a ética do desejo no laço social. A 
inclusão do sujeito de desejo no laço social resulta no estabelecimento da 
inscrição de uma falta no Outro, e marca um processo singular, diferencia-
do, para cada sujeito, mesmo estando entre outros, por fazer parte de uma 
equipe ou de um coletivo.
Cabe ao operador da psicanálise apontar o impossível ali onde é reco-
berto pelas identificações imaginárias que sustentam as diferentes formas 
de alienação, exclusão e dominação no laço social, nas quais o sujeito do 
desejo é rejeitado, forcluído, submetido ou alienado.
A clínica em extensão quase sempre se caracteriza por ser uma clínica 
entre vários e, portanto, como clínica inserida num contexto institucional 
multiprofissional. Quando um operador da psicanálise – alguém atraves-
sado pela ética da psicanálise – se encontra inserido num contexto institu-
cional, como se posicionar? A questão que se coloca nessa circunstância é 
como o discurso do analista (e seu operador) se insere na instituição sem 
se dissolver nos discursos que fundam e/ou circulam na instituição? Fre-
quentemente, como último recurso, o analista fica isolado em seu canto, 
atendendo seus pacientes. 
Outra situação relativamente comum nas instituições é de o psicana-
lista ocupar algum cargo administrativo ou de direção ou coordenação. E 
16
Jaime Betts
aí a questão é como exercer o cargo e suas responsabilidades e também 
operar a função de psicanalista? 
Com relação a isso, cabe lembrar que, sempre que o reconhecimento 
dos significantes da emergência do sujeito no contexto institucional ocorre, 
há certo efeito – salutar, diga-se de passagem – de desorganização das 
regras institucionais estabelecidas. Os enunciados institucionais dão lugar 
à enunciação singular de vozes plurais. Abre-se uma fresta de reorgani-
zação das regras postas pelo poder instituinte da emergência do efeito 
sujeito de desejo. Por vezes, o efeito se limita ao sujeito em questão e seu 
laço social com os colegas. Mas há momentos fecundos, em que o recorte 
de significantes, chave do saber textual, que subjaz às regras, permite que 
as mudanças institucionais aconteçam. Nesse sentido, em Instância da 
letra, Lacan ([1957]1998) coloca: “É que ao tocar, por pouco que seja, na 
relação do homem com o significante [...] altera-se o curso de sua história, 
modificando as amarras de seu ser” (p.531). 
Um exemplo comum nas instituições é o das equipes multiprofissio-
nais, nas quais o operador da psicanálise se encontra inserido. Nas equi-
pes multidisciplinares, cada profissional aborda a questão trazida pelo su-
jeito desde o ângulo específico de sua disciplina, geralmente não levando 
em consideração as intervenções dos demais profissionais. E a posição 
do sujeito, objeto das intervenções, tampouco é levada em consideração, 
pois caberá a ele juntar os pedaços de cada recorte disciplinar a que é 
submetido. É o próprio sujeito que se vê desamparado diante do fato de 
ser dissecado por cada especialista. Geralmente não é abordado como 
uma pessoa, que pode precisar de intervenções de diferentes especialida-
des, mas que seja levado em conta como sujeito de desejo. 
A lógica que vigora no contexto predominante da multidisciplinarida-
de é de que o sujeito é que deve se adaptar ao modo de funcionamento de 
sobreposição das especialidades (seja na educação, na saúde mental, ou 
outro campo) e não a abordagem da equipe levar em consideração a sin-
gularidade de seu caso, o que deveria ser o ordenador das intervenções 
das diferentes especialidades.
Para que a prática clínica psicanalítica em contextos institucionais 
– por exemplo, da atenção educativa numa escola, da atenção à saú-
de mental de um CAPS, ou do atendimento hospitalar – possa poupar o 
sujeito que os procura de ser esquartejado pela multidisciplinaridade dos 
profissionais das diferentes disciplinas agindo em paralelo em relação aos 
demais, o operador da psicanálise pode intervir no sentido de buscar que 
o funcionamento da equipe seja regido numa perspectiva interdisciplinar, e, 
num segundo tempo, como equipe transdisciplinar (Pais, 1996).
17
Desamparo e vulnerabilidades no laço social...
Segundo Pais (1996), uma equipe interdisciplinar se caracteriza por 
uma concepção de sujeito compartilhada por todas as disciplinas implica-
das na mesma, viabilizando uma comunicação entre as disciplinas. Essa 
concepção é construída a partir do cotejo das diferenças no marco da pro-
dução teórico-clínica de cada especialidade, permitindo que adquiram sen-
tido umas em relação às outras. Trata-se de uma conquista importante no 
funcionamento de uma equipe, pois é condição necessária para que sua 
prática clínica possa chegar a ser transdisciplinar.
 Uma prática clínica transdisciplinar se alcança, conforme o autor, quan-
do a equipe, além da comunicação interdisciplinar, opera a partir de uma 
concepção ética comum. Ou seja, quando uma equipe tem como referência 
ética o conceito de sujeito de desejo (Pais, 1996). E, por isso, toma sempre 
o caso a caso em sua singularidade no laço transferencial. Tomar caso a 
caso em sua singularidade no laço transferencial deve ser o ordenador das 
intervenções das diferentes especialidades, para além das rivalidades ou 
disputas de prestígio de cada disciplina dentro do contexto institucional. 
 A construção de um funcionamento transdisciplinar não é pouca coi-
sa, e nem é fácil, pois ao incluir o sujeito de desejo, o instituído é posto 
em questão, dando lugar à palavra humanizante, o que implica, como foi 
dito acima, certa desorganização das regras da instituição e das formas de 
interação dentro da equipe multiprofissional.
Voltando ao tema do operador da psicanálise que trabalha em insti-
tuições, situar sua função implica verificar como o discurso do analista se 
insere na instituição em relação aos demais discursos vigentes na mesma, 
bem como questionar sempre o posicionamento do operador da psicanáli-
se diante das regras institucionais. 
O reconhecimento dos significantes que representam o sujeito opera-
do pelo discurso do analista implica certo questionamento que surpreen-
de e provoca uma salutar desorganização das regras instituídas, ou seja, 
desencadeia um efeito de “oxigenação” do laço social dentro do contexto 
instituído, por provocar certa descontinuidade, tanto com o que é esperado 
implicitamente no modo de funcionamento da instituição, quanto explicita-
mente em seu planejamento. 
O paradoxo da posição do operador da psicanálise cuja prática está 
inserida no contexto das instituições implica, de um lado, o reconhecimen-
to do que legitima a ordem instituída na qual se encontra, e, por outro, 
sustentar o efeito sujeito de desejo que o ato analítico implica, e a ruptura 
decorrente com a ordem instituída. 
A ética da psicanálise implica permitir uma abertura no laço social insti-
tuído para o advento do sujeito. Se a ética da psicanálise se define por uma 
18
Jaime Betts
ética do bem dizer do desejo, a mesma está disjunta da moral do serviço 
dos bens, assim como da moral universalizante da saúde e do bem-estar 
decorrentes da medicalizaçãodo cotidiano.
Levando em consideração o que foi dito acima, o operador da psica-
nálise, ou seja, agente do discurso do analista, seja na clínica em intensão, 
seja na clínica em extensão, deve levar em consideração três operadores 
da leitura do saber textual em sua escuta e intervenções (Brousse, 2003):
Primeiro: o Outro é barrado, ou seja, não existe palavra final sobre o 
que quer que seja. O que quer dizer que as suposições de saber instituídas 
(e seus mestres de plantão) podem ser interrogadas;
Segundo: sustentar esta abertura à fala do sujeito implica que o opera-
dor da psicanálise suporte o sujeito-suposto-saber na relação transferencial 
em que o sujeito endereça seu sintoma, ao mesmo tempo em que questiona 
o sintoma institucional no qual se encontra inserido e no qual seu gozo está 
de algum modo implicado;
Terceiro: O sujeito barrado ($), o sujeito do inconsciente enquanto sa-
ber textual e não referencial, que emerge na fala do sujeito na relação trans-
ferencial, marcado pelos significantes de sua história e cultura, questiona 
o saber referencial instituído no laço institucional pelos “especialistas” de 
plantão.
O desamparo e as múltiplas vulnerabilidades no laço social colocam 
um desafio para a clínica da psicanálise em extensão. Lacan tinha a ex-
pectativa de que o discurso analítico pudesse fundar um novo laço social, 
em que o sujeito de desejo pudesse ser escutado e reconhecido em seus 
significantes. Estaremos à altura do desafio?
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19
Desamparo e vulnerabilidades no laço social...
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Recebido em 16/05/2014
Aceito em 03/07/2014
Revisado por Otávio Augusto Winck Nunes
TEXTOS
20
Resumo: Este artigo pretende abordar o desejo do analista face ao desamparo 
contemporâneo, através de uma breve pontuação das principais transformações 
sociais e políticas do último século, assim como das que ocorreram na própria 
psicanálise, enquanto teoria e terapêutica. Salienta a importância da criatividade 
do analista no acolhimento dessa experiência fundamental da condição humana 
que é o desamparo.
Palavras-chave: desejo, psicanálise, desamparo, psicanalista, contemporaneidade.
THE DESIRE OF THE PSYCHOANALYST 
IN THE FACE OF CONTEMPORARY DISTRESS
Abstract: This article address the desire of the psychoanalyst in face of contem-
porary distress. It provides a brief overview of the major social and political trans-
formations throughout the century, as well as those occurred within psychoanaly-
sis as theory and therapy. It highlights the importance of the analyst´s creativity 
in welcoming the fundamental experience of the human condition that is distress.
Keywords: desire, psychoanalysis, distress, psychoanalyst, contemporaneity.
O DESEJO DO PSICANALISTA 
FACE AO DESAMPARO 
CONTEMPORÂNEO
Caterina Koltai1
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.20-31, jul. 2013/jun. 2014
1 Socióloga; Psicanalista; Professora aposentada da graduação e pós-graduação da PUCSP. 
Autora de Política e Psicanálise: O Estrangeiro (Ed. Escuta 2000) e Totem e tabu: um mito 
freudiano (Ed. Civilização Brasileira, 2010). E-mail: catykoltai@yahoo.com.br
21
O desejo do psicanalista...
O desejo do psicanalista face ao desamparo contemporâneo
 
É sempre difícil transformar uma conferência num texto publicável, razão pela qual opto aqui pelo caminho mais fácil, tentando fazer rimar os três 
termos presentes em meu título: desejo do analista, desamparo e contem-
poraneidade.
Comecemos pelo desejo, desejo do analista que remete a Freud e 
ao seu desejo singular, que Lacan acabou teorizando, transformando-o no 
verdadeiro fundamento do tratamento psicanalítico. Renovou, desse modo, 
a abordagem da prática analítica então vigente, subordinando a questão 
técnica à questão ética decorrente da descoberta do inconsciente. Entendo 
o desejo do analista tal qual formulado por ele no seminário 7, o da ética 
(Lacan, [1959-1960]1988), como uma consequência lógica de seu questio-
namento da ética do soberano bem, tal qual vinha sendo formulada de Aris-
tóteles a Kant, face à modificação aí introduzida pela descoberta freudiana.
O desejo do analista remete tanto ao particular de uma análise, na qual 
o analista tem que sustentar a demanda que lhe é endereçada, quanto ao 
mundo em que vivemos. É o que me permite afirmar que não podemos nos 
furtar a relacionar o inconsciente freudiano com as transformações sociais e 
históricas do mundo contemporâneo, uma vez que não podemos esquecer 
que, além de uma terapêutica do sujeito, a psicanálise é também uma teori-
zação da relação desse sujeito com o mundo em que vive.
Qual seria o desejo do analista em nossa contemporaneidade, num 
mundo em constante transformação, que levou o prêmio Nobel Illya Prigo-
gine (2000) a afirmar estarmos perante uma grande bifurcação, fruto das 
três revoluções contemporâneas: a econômica, a numérica e a genética, da 
mesma grandeza daquela que, há doze mil anos atrás, nos fez passar do 
paleolítico ao neolítico, substituindo o nomadismo pela cidade, a oralidade 
pela escrita, a horda pelo Estado. As mudanças são sem dúvida grandes e 
constantes, mas nem por isso precisamos dar crédito aos que anunciam o 
fim do mundo, basta que aceitemos os atuais desafios. 
Para responder a essa pergunta, permitam à judia errante que sou 
uma pequena viagem no tempo, com duas paradas: a primeira na Viena de 
Freud, onde, como lembra Roudinesco (1999), prevaleciam a família patriar-
cal, a soberania monárquica e o culto da tradição. A segunda, na França do 
pós guerra, na qual, sempre segundo a autora, dominava o estado de direito 
marcado pelo culto de uma república universalista e igualitária, e onde La-
can lançou seu retorno a Freud.
Em Viena, o fundador da psicanálise, médico de formação, elaborou 
uma teoria que foi a primeira a postular a natureza sexual do indivíduo. Ao 
22
Caterina Koltai
mesmo tempo, criou um método, o da cura pela palavra, curando lá onde a 
medicina fracassara, através de um processo em que o analisando é convi-dado a associar livremente e o analista a deixar flutuar sua atenção, suspen-
dendo todo julgamento moral para que o infantil, o sexual e o cruel, amorais 
por definição, possam comparecer. Com o passar do tempo, acabou esta-
belecendo uma distinção entre o cobre da sugestão direta e o ouro puro da 
psicanálise, afirmação que alguns entenderam como uma recomendação 
para deixar de lado o terapêutico da psicanálise. Quero dizer desde já que 
não me reconheço nesses que assim pensam, visto que, a meu ver, a psica-
nálise longe de ser uma busca filosófica ou mística, ou uma viagem interior, 
é e continuará sendo uma psicoterapia, não necessariamente praticada por 
médicos. Ao mesmo tempo, ela não se restringe a isso, deve ser entendida, 
também, como uma tentativa de encontrar outra via para o espírito, alargan-
do os limites do pensável autorizado para um indivíduo numa determinada 
sociedade. Não fosse assim, por que alguém procuraria uma análise num 
mundo que oferece tantas outras formas de psicoterapia? 
Respondo a minha própria pergunta, afirmando que é quando o sujeito 
se depara com uma irrupção do real, com um sofrimento do qual nem os 
medicamentos, nem a vida familiar, nem a companhia dos amigos pode dar 
conta que costuma recorrer a uma análise, para tentar entender a comple-
xidade de sua relação consigo próprio e com o mundo, visto que, concomi-
tantemente à natureza sexual, Freud postulou também a natureza relacional 
do indivíduo, obrigado a manter uma relação vital com os demais humanos 
desde o início de sua vida. Tal fato o torna um ser histórico, depositário da 
própria história, o que explica que o tratamento da alma proposto por Freud 
tenha aberto um novo campo para a apropriação subjetiva. A tarefa nem 
sempre é fácil, e não por acaso Freud nos alertou para o fato de que, assim 
como educar e governar, psicanalisar também é uma profissão impossível, 
o que não o impediu de passar a vida analisando, só parando em 39, pou-
cas semanas antes de sua morte. Como chamar a isso, se não desejo de 
analista?
Ao recorrer a um analista, o sujeito faz a aposta de que, ao dizer, falar 
e interrogar um sofrimento que lhe pertence e o constitui, este poderá ser 
acolhido. E, ainda que ele seja o único juiz de seu percurso subjetivo, cabe 
ao analista tomar parte ativa nesse processo e tomar para si a responsabili-
dade de uma abertura. A escuta flutuante e a neutralidade benevolente não 
me parecem suficientes, o analista precisa se deixar afetar por aquilo que 
ouve, até porque só falamos quando nos sabemos realmente escutados. 
Como diz Levallois (2007), para que um analisando possa se apropriar de 
sua história e assumir a responsabilidade pela sua vida, deixando aflorar 
23
O desejo do psicanalista...
seus pensamentos recalcados, é preciso que o analista aceite se deixar 
surpreender.
Minha segunda parada é a França da segunda metade do século XX, 
na qual Lacan ofertou, não mais a cura e, sim, um novo saber scilicet – você 
pode saber – sustentado por novos conceitos. Num momento em que a 
psicologia do ego reinava soberana e pretendia transformar a clínica psi-
canalítica numa particularidade da clínica médica, visando a uma melhor 
adaptação do indivíduo à sociedade, sua proposta de retorno a Freud reno-
vou teoria e clínica, antes de vir a ser corroída pelo vírus da ideologização, 
que ele foi o primeiro a denunciar. No que diz respeito a sua obra, duas 
pontuações me são necessárias:
A primeira é o seu aforismo, de que o inconsciente é o social, com o 
qual postula uma transindividualidade primordial, através da qual o sujeito 
é, por definição, marcado pela história. Podemos constatá-lo em Função e 
campo da palavra (Lacan, [1953]1966), onde define o inconsciente como 
“essa parte do discurso concreto enquanto transindividual que não está 
à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso 
consciente” (p. 258) ou, logo a seguir, quando afirma que “o inconsciente é 
esse capítulo de minha história que está marcado por um branco ou ocupa-
do por uma mentira: é o capítulo censurado, mas que a verdade pode ser 
reencontrada na maioria das vezes, estando inscrita alhures” (p.259).
Minha segunda pontuação diz respeito à distinção que ele estabeleceu 
entre necessidade, demanda e desejo, com a qual chamou nossa atenção 
para o desejo enquanto motor da atividade humana, definindo-o como de-
sejo do Outro. Afirmar que o desejo é desejo do Outro significa que o objeto 
do desejo não responde a nenhuma necessidade, não é da ordem da na-
tureza e, sim, da cultura. O desejo faz a ponte entre o coletivo e o singu-
lar, tanto que creio poder afirmar que a revolução, acontecimento coletivo 
por excelência, assim como o sonho, acontecimento psíquico singular, são 
provocados pelo desejo. Ambos não respondem a nenhuma necessidade, 
ainda que a reivindicação da maioria das revoluções seja a satisfação das 
necessidades. 
Com seus novos conceitos, Lacan abriu um novo campo de pensa-
mento, o que não o impediu de nos alertar, como Freud fizera antes dele, 
para as dificuldades do exercício da psicanálise, insistindo no fato de que 
ela precisava ser reinventada com todo novo analisando, e a cada nova 
sessão. E nem poderia ser diferente, visto que a clínica psicanalítica requer 
algo diferente da mera teoria, um algo que se adquire de modo sempre 
diferente, enraizado no inconsciente do analista. Desemboca, ou pelo me-
nos deveria desembocar, num estilo próprio, fruto de um percurso sempre 
24
Caterina Koltai
único e singular. Assim como Freud, Lacan também atendeu até o final da 
vida, e isso apesar de uma longa doença cujos sinais já vinham se fazendo 
sentir há bastante tempo. Mais uma vez, como chamar isso senão desejo 
de analista? 
Mas esses foram os tempos áureos da psicanálise. Hoje em dia a psi-
canálise vem sendo contestada pelas neurociências e demais terapias cog-
nitivas, e parece ter perdido um pouco de seu antigo charme, fazendo com 
que os psicanalistas se sintam, a meu ver, desnecessariamente acuados. 
Não vejo razões para lamúrias, como tampouco me parece uma boa ideia 
fazer coro à ladainha de que não existem mais verdadeiras demandas de 
análise, de que cada vez mais nos deparamos com pacientes inanalisáveis, 
com sujeitos sem gravidade e outros acusações do gênero, em que o réu é 
sempre o analisando. Gostaria de poder aproveitar essa crise de modo mais 
produtivo, questionando o que nós analistas temos a ver com o que está 
acontecendo e qual a parte que nos cabe nessa “suposta” crise da psicaná-
lise. Como bem lembra Zygouris (2007), a luta pela sobrevivência costuma 
ser fonte de criatividade, o que me faz esperar que talvez possamos apro-
veitar essa conjuntura, até certo ponto desfavorável para a psicanálise, e 
seguir o exemplo de nossos ilustres antepassados: ousar inovar, visto que 
o desejo do analista, entendido como um desejo de saber sobre a relação 
de desconhecido e um poder curar de outra maneira, me parece continuar 
presente. Confesso que faço parte dos que ainda veem a psicanálise, esse 
discurso antitotalitário por excelência, como uma das grandes aventuras 
possíveis em nosso mundo, à condição que ela resista a se deixar globalizar 
falando uma única e só língua. 
Dito isso, qual é meu desejo de psicanalista? Qual é a psicanálise que 
desejo e posso praticar hoje em dia com os pacientes que me procuram, le-
vando em conta as mutações históricas do laço social e seus efeitos sobre a 
economia psíquica do sujeito, e tendo em mente que, a meu ver, hoje como 
ontem, a tarefa do analista continua sendo a de lidar com o desamparo? 
Tema deste encontro, o desamparo remete a essa experiência inevitá-
vel e inerente à condição humana, a de se ver lançado no estrangeiro, numa 
dependência absoluta ao outro e confrontado ao enigma de seu desejo. 
Para designar o que é um verdadeiro ato de nascimento do sujeito, Freud 
recorreu ao termo do alemão corrente Hilflosigkeit, sem transformá-lo em 
conceito. Como salienta Lebovici (2012),Hilflosigkeit é, como na maioria 
das vezes na língua de Freud, uma palavra do alemão cotidiano, compre-
ensível por todos, até mesmo por uma criança. Ela nos remete à questão 
crucial da dor original, dor sem a qual o infans não seria levado a estabe-
lecer uma relação com o outro humano. Não é um conceito e, sim, uma 
25
O desejo do psicanalista...
noção sobre a qual o criador da psicanálise fez repousar nada menos que 
a causa do laço com o Outro, noção entendida aqui como aquilo que se 
situa no registro do elementar e do fundamental. Em alemão, o sufixo keit, 
cujo equivalente não existe, segundo a autora, em francês, e que eu saiba 
nem em português, exprime um estado, o de ser desprovido (los) de ajuda 
(hilflos). E é exatamente esse o estado do infans quando vem ao mundo em 
sua total dependência para com seu primeiro Outro, tendo que fazer face à 
opacidade de seu desejo.
A língua alemã entra em cheio no universo da infância, visto que a pala-
vra hilflos convoca imediatamente o universo dos contos em que as crianças 
se perdem ou são abandonadas na floresta profunda. A definição freudiana 
do desamparo prossegue em direção ao mal-estar que decorre daquilo que 
o sujeito vive como sofrimento ou impossibilidade de relacionamento com o 
outro e com o mundo, obrigando-o a defrontar-se com inúmeras situações 
de vulnerabilidade que evidenciam o eterno conflito entre civilização e bar-
bárie, que atravessa tanto o processo individual quanto o civilizatório.
Esse conflito, estrutural e não meramente conjuntural, se torna mais 
claro se pensarmos, como faz Zygouris (2010), com quem concordo, que 
existem sintomas, sofrimentos, infelicidades que remetem diretamente às 
competências daquilo que ela chama de espécie humana, entre as quais 
ressalta a crueldade e a competência ao assassinato sem nenhuma ne-
cessidade vital para tanto. Essa competência não é apenas a transgressão 
individual de um tabu, é um impulso assassino que, ao se propagar em cer-
tas circunstâncias por demais recorrentes, desemboca nos massacres em 
massa. Por outro lado, temos a pulsão generosa da espécie, que pode ser 
atribuída a Eros, do qual talvez o melhor exemplo seja o dom.
Barbárie e genocídio são, portanto, características humanas para as 
quais Freud nunca deixou de nos alertar, tanto que, no prefácio de seu úl-
timo livro, Moisés e o monoteísmo ([1939] 2006), chama novamente nossa 
atenção para o pacto firmado entre progresso e barbárie. Felizmente não 
viveu o suficiente para conhecer o ápice dessa barbárie, os campos de ex-
termínio para os quais foram mandadas e morreram duas de suas irmãs. 
Lacan (1967) será o primeiro a fazer uma análise freudiana da herança de 
Auschwitz, esse acontecimento maior, individual e coletivo, posterior à me-
tapsicologia freudiana, que, segundo Zaltzmann (1999), marcou o desmoro-
namento da civilização em sua função de defesa do indivíduo contra o reino 
da morte. A partir de então, esse desmoronamento passou a fazer parte da 
herança da realidade humana.
Ao tirar importantes conclusões da subversão operada pelos campos 
de extermínio, Lacan (1967) pode afirmar que, longe de serem um acidente 
26
Caterina Koltai
monstruoso, os campos deveriam ser vistos como precursores de um pro-
cesso desencadeado pelo remanejamento dos grupos pela ciência. Esta-
va coberto de razão, e sua percepção vem sendo corroborada tanto pela 
realidade quanto pelos interessantes estudos de Agamben (1997 e 1999), 
para o qual o campo de extermínio deixou de ser um fato histórico, uma 
anomalia do passado, para se tornar a matriz escondida do espaço político 
em que vivemos. Ao introduzir um traço específico, o da impossibilidade de 
recurso a uma lei, que ocuparia o lugar de terceiro, ele se tornou o fenôme-
no emblemático de nossa modernidade. Nos campos, a vida foi reduzida a 
algo puramente degradável, e o humano definido como alguém passível de 
ser assassinado e morto sem que sua morte seja vista como transgressão 
e seu assassinato punido. Um dos objetivos dos nazistas foi o de tornar a 
humanidade irreconhecível, de modo que os restos dos corpos deixassem 
de ter qualquer semelhança humana e viessem a ser usados como material 
de construção. No projeto nazista, o que estava em jogo não era o mero 
assassinato, da ordem do humano e, sim, fazer desaparecer o que era hu-
mano, o que explica a importância de privar o outro de sepultura, daquilo 
que entre os humanos permite a sobrevivência de um humano em outro 
humano. 
Tanto Lacan (1967) quanto Agamben (1997 e 1999) nos ajudam a en-
tender que, apesar do horror da Shoah, e da recorrente afirmação do Isso 
nunca mais, a violência extrema não só persiste, como vai se declinando 
sempre de novas maneiras, atingindo sempre os mais vulneráveis, e isso 
sessenta anos após a elaboração em grande pompa da Declaração dos 
Direitos Humanos, como se ela tivesse que caminhar pari passu com sua 
sistemática violação; como se nada viesse fazer barreira a essa vertigem do 
mal, termo que retomo de Michela Marzano e Jacques Saint Victor (2008), 
na apresentação que escreveram para um numero especial da revista Cité. 
Neste texto, lembram que toda vez que esquecemos a fragilidade e a fini-
tude da condição humana e passamos a impor ideais, em nome da fé, do 
progresso ou da razão, o resultado é sempre da ordem da barbárie, como 
pudemos comprovar ao longo da história. 
Só posso concordar com eles, quando lembro que foi em nome de 
Deus e do bem que a Santa Mãe Igreja, durante a Inquisição, se julgou au-
torizada a queimar os heréticos e a expulsar Satã do corpo das possuídas. 
Foi em nome dos ideais de certo darwinismo social que as primeiras leis 
eugenistas autorizaram a eliminação dos atingidos por uma deficiência, e 
em nome dos ideais veiculados pelas teorias biológicas e raciais sobre a 
pureza do sangue que o Estado moderno se autorizou a massacrar judeus, 
ciganos, armênios e tútsis. Foi, ainda, em nome do bem soberano do Estado 
27
O desejo do psicanalista...
que os totalitarismos eliminaram os dissidentes, mandando-os para campos 
de trabalho, para serem “reeducados”. 
Como entender essa vertigem do mal sem pô-la em relação com a 
banalidade do mal num momento em que temos Hanna Arendt2 nas telas? 
Ela demonstrou que, para se tornar um assassino profissional, não é preciso 
nem sadismo nem fanatismo, basta aptidão profissional para tanto. Ao des-
crever Eichmann como um homem banal e até certo ponto cômico, em nada 
demoníaco ou monstruoso, um perito ou especialista como era chamado, 
totalmente desprovido de pensamento, um funcionário do nada, que se via 
como mero cumpridor de ordens, ela apontou para o infinito das possibili-
dades do humano. Ele agia em conformidade com a lei e era obediente, 
de uma obediência que ele próprio definiu como obediência de cadáver. 
Pensar a banalidade do mal, a terrível, indizível banalidade do mal, nos 
diz Zimra (2005), significa pensar a desintegração de uma sociedade que 
perdeu sua capacidade de pensar, deixando-se reduzir a uma engrenagem 
da mecânica da morte. Aqui a banalidade do mal assume os traços do coti-
diano, de uma normalidade aterrorizante, de um homem que se contenta em 
obedecer às ordens, mandando para a morte homens, mulheres e crianças. 
Foi esse homem que constitui para Arendt ([1963]1991) o protótipo de hu-
manidade produzida pelo nazismo, um alguém que perdeu toda faculdade 
crítica, toda capacidade de pensamento e julgamento, incapaz de distinguir 
em seus atos o bem do mal, o humano do desumano. 
No que acabo de pontuar, dois significantes são importantes para dar 
sequência a minha exposição, a saber: obediência e perícia. Entendo aqui 
obediência no sentido da servidão voluntária, tal qual definida por La Boétie 
(1999), servidão essa que me parece ser uma das formas do mal-estar con-
temporâneo. Paturet (2013) me parece ir nessa mesma direção, ao ressaltar 
que, apesar de a cultura ocidental moderna veicular a imagem de um ho-
mem livre, o humano raramente é esse ser desejosode liberdade que não 
suporta viver numa gaiola, ainda que dourada. O que ele constata é que, 
ao longo da história, o homem se submeteu aos mais diferentes poderes, 
justamente pelo fato de a servidão ser voluntária. O poder de dominação se 
funda sempre sobre uma crença, e cada sociedade inventou as suas. Nossa 
2 Hannah Arendt. Direção: Margarethe Von Trotta. Produção: Heimatfilm, Amour Fou Luxem-
bourg, MACT Productions. Germany, Israel, Luxembourg, France. 2012. 113min. Dolby digital, 
color black and White, Formato: DCP.
28
Caterina Koltai
época procura sua legitimidade na competência e na perícia, que vêm se 
transformando nos significantes mestres do discurso político, médico e eco-
nômico contemporâneo, principalmente por se pretenderem neutras, visto 
que são veiculadas numa linguagem técnica, numérica e informatizada, as-
pirando eliminar a polissemia e a polifonia da língua, que expõe o humano 
ao equívoco e à incerteza. O homem contemporâneo acredita poder se li-
vrar do inconsciente, esse estraga prazeres, que trai o ideal de controle e 
prevenção. Mas, como se livrar daquilo que nos escapa, os sonhos que so-
nhamos, os lapsos e atos falhos que cometemos e os sintomas e repetições 
que nos interrogam? 
Esse mundo da perícia é uma manifestação da sociedade de contro-
le, em que a biopolítica, conceito foucaultiano, aprofundado por Agamben 
(no conjunto da sua obra), suplantou a política, e na qual a vida vai sen-
do progressivamente reduzida ao bios e posta a serviço da rentabilidade, 
performance, economia e gestão. Como salienta Zimra (2005), no mundo 
globalizado e uniformizado que vivemos, a guerra, a economia, a política e 
a cultura formam um biopoder no qual capital e soberania se confundem. A 
globalização inaugurou uma nova era, quando as fronteiras foram aparen-
temente abolidas e as relações de dominação reformuladas no sentido de 
uma maior abertura ao mercado. Quanto ao homem da globalização, pas-
sou a vivenciar uma nova servidão, na qual só consegue pensar o futuro em 
termos de cálculo, controle, medição, reduzindo-se, como diria Musil, a um 
homem sem qualidades. 
Falando em globalização, gostaria, antes de terminar, de enfocar o fe-
nômeno migratório planetário que ela vem pondo em marcha, assim como 
a segregação que o acompanha. O enfoque ocorre não só porque é um 
tema que me é especialmente caro, mas também por considerar o refugia-
do como um dos símbolos do desamparo contemporâneo. Se recorro aqui 
ao refugiado como metáfora do desamparo é porque, assim como acon-
teceu no entreguerras, os refugiados me parecem representar novamente 
um fenômeno de massa que, tanto os organismos internacionais quanto 
os diferentes países, não sabem como enfrentar, transferindo o problema, 
como bem lembrou Agamben (1994), para as organizações humanitárias, e 
principalmente para a polícia. E isso se dá, segundo ele, porque o refugiado 
representa na estrutura do Estado-nação um elemento inquietante, na me-
dida em que rompe a suposta identidade entre o homem e o cidadão, entre 
naturalidade e nacionalidade, pondo em xeque a ficção originária da sobe-
rania. É justamente por romper a antiga trindade Estado-nação-território, 
que o refugiado vem se tornando a figura central da nossa história política 
contemporânea. Traído por seu país de origem, onde sua sobrevivência se 
29
O desejo do psicanalista...
tornou inviável, o refugiado se vê obrigado a pedir asilo ou entrar clandesti-
namente num outro país cuja língua, na maioria das vezes, não fala e cujos 
hábitos desconhece.
O sofrimento do refugiado, que tomo aqui como símbolo de todo aque-
le que foi exposto a alguma forma de violência do estado, tem, a meu ver, 
uma característica própria: a sensação de ter deixado de pertencer à “espé-
cie humana”, visto que sua vida deixou de ter valor para os demais. Acom-
panhamos planetariamente barcos de refugiados superlotados que tentam 
aportar nas costas da Itália ou da Espanha e que, no pior dos casos, são 
deixados à própria sorte, sem que uma mão os impeça de se afogarem, e, 
no melhor dos casos, são salvos do naufrágio para serem internados em 
campos. Os que se dispõem a escutá-los sabem que existe uma especifici-
dade nessa clínica, tanto na escuta quanto na direção do tratamento. Face 
a alguém que perdeu a confiança no outro e na palavra, que vive no terror 
de ser mandado de volta para o lugar de onde fugiu e corria risco de vida, 
o analista precisa demonstrar uma curiosidade e um investimento explícito. 
Precisa manifestar claramente seu desejo de analista, para que esse sujei-
to possa voltar a sentir que ele pode interessar a alguém e elaborar a dor 
da perda da pátria, da língua materna e do lugar onde seus antepassados 
estão enterrados. Essa clínica engaja o analista, como bem salientaram Da-
voine e Gaudillière (2006), a estar em permanente contato com sua própria 
história, inclusive no que diz respeito aos exílios e guerras que possam ter 
marcado sua história pessoal. 
Face ao desamparo, somos obrigados, como lembrou Fedida (2002), 
a imaginar aquilo que o outro diz ou pensa ser inimaginável, porque ser in-
capaz de imaginar é negligenciar que isso possa ter acontecido. O analista, 
a quem o sujeito frequentemente se dirige quando a pulsão de destruição, 
ou de autodestruição, se sobrepõe ao desejo, precisa poder imaginar o que 
é da ordem da destruição e do horror vivido pelo paciente, e que este não 
tem como questionar. O analista precisa poder imaginar o que o outro viveu, 
precisa poder construir, o que não significa reconstruir. Certos pacientes 
vivem e expressam tamanho sofrimento que nos levam de fato ao limiar do 
inimaginável. Em tais casos não se trata de nos lançarmos na empatia do 
horror, mas de termos a possibilidade de saber no que aquilo que é horrível 
desfaz nossas próprias representações. A capacidade de imaginar é ne-
cessária ao analista, pois é quando se dispõe a isso que pode vir a abrir a 
porta do sentido numa fraternidade discreta, na medida que analista e ana-
lisando ocupam lugares assimétricos, assimetria necessária para que haja 
hospitalidade. Cabe ao analista abrir sua psique para que o outro a habite 
temporariamente, pois um espaço psíquico povoado de medo, apreensão 
30
Caterina Koltai
e solidão só pode vir a se tornar um lugar habitável pelo intermediário do 
espaço psíquico do analista. 
Retorno ao início e à minha questão do desejo do analista face ao de-
samparo na nossa contemporaneidade, para fazer minhas as palavras de 
Zaltzman (1997), quando ela afirma que a tarefa da psicanálise é a de tratar 
do sujeito enquanto sujeito da condição humana, como emissário de uma 
realidade psíquica que é a dele e do conjunto de humanos que faz dele aqui-
lo que ele é. Uma análise nesse sentido tem a ver com o rochedo daquilo 
que constitui a realidade do humano.
Para que isso aconteça, precisamos, a partir do que nos ensinaram 
nossos mestres, reinventar nossas práticas e aceitar, apesar de mal visto, 
sermos analistas terapeutas, sem que isso signifique transformar a análise 
numa mera terapêutica da compaixão. Devemos nos implicar nas análises 
tanto quanto nossos analisandos, e não deixá-los sozinhos face a seus dis-
cursos, para que possam se servir desse espaço singular reinvestindo nas 
pulsões de vida. 
Para tanto, e para concluir, diria com Zygouris (2013) que, para ser 
analista é preciso saber dar boas risadas, ter humor e não temer a solidão. 
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31
O desejo do psicanalista...
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Recebido em 16/05/2014
Aceito em 30/05/2014
Revisado por Marisa Terezinha Garcia de Oliveira
TEXTOS
32
Resumo: Este artigo trata dos efeitos que incidem sobre diferentes imigrações, 
utilizando as proposições lacanianas que implicam a castração, a frustração e 
a privação. Desdobra a relação entre trauma e injúria, como impossibilidade de 
acolhida do imigrante. Situa a problematização da relação do sujeito com o lugar 
de endereçamento da fala, como um dos elementos do luto impossível nessas 
situações.
Palavras-chave: trauma, privação, luto, injúria.
AN IMPOSSIBLE MOURNING: effects of trauma in imigration
Abstract: This paper discusses the effects that influence different imigrations, 
using the Lacanian propositions involving castration, frustration and privation. It 
unfolds the relationship between trauma and injury as an impossibility of welcom-
ing the immigrant, and situates the questioning regarding the subject’s relation 
with the speech’s place of addressment as one of the elements of the impossible 
mourning in these situations.
Keywords: trauma, privation, mourning, injury.
UM LUTO IMPOSSÍVEL: 
efeitos de trauma em imigrações1
Ana Costa2
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do Instituto APPOA; Pro-
fessora do PPG em Psicanálise da UERJ. Autora de diversos livros: A ficção de si mesmo 
(Cia. de Freud, 1998); Corpo e Escrita (Relume-Dumará, 2001); Tatuagens e Marcas corporais 
(Casa do Psicólogo, 2003); Sonhos (Jorge Zahar, 2003); Clinicando (APPOA, 2008). E-mail: 
medeirosdacostaanamaria@gmail.com
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.32-36, jul. 2013/jun. 2014
33
Um luto impossível...
Abordarei o tema de algumas imigrações forçadas, nas quais as condi-ções de produção de uma experiência não estão dadas. Experiência, 
aqui, pode ser tomada tanto no sentido da possibilidade de sua transmis-
são, numa inclusão no laço social, quanto amparada nos fundamentos da 
psicanálise, na produção das condições possíveis para que o sujeito se si-
tue na relação à fala. É a relação do sujeito com a fala que se problematiza 
nas situações que vou tratar. Em princípio, pode parecer muito evidente, e 
até mesmo natural, que a condição adquirida por alguém na apropriação 
de sua fala fique preservada em seus deslocamentos. Desde sua funda-
ção, a psicanálise trata de inúmeras problematizações justamente nessa 
função. 
São múltiplos os motivos que levam alguém a deixar seu lugar de ori-
gem. Vou citar somente alguns, sem me deter em suas especificidades. 
Para tanto, retomarei as propostas lacanianas situadas como castração, 
frustração e privação. Estas proposições podem contribuir na apresentação 
de diferenças no que diz respeito às imigrações. 
A primeira busca de imigração, aparentemente mais simples, diz res-
peito à relação entre o ideal e o desejo. O ideal é aquilo que o sujeito coloca 
no horizonte, na distância a ser alcançada, e que requer um movimento para 
sua realização. Apesar de produzir deslocamento, o ideal sempre se coloca 
a partir de uma referência construída na história familiar. É o lugar de um 
filho que quer realizar algo dos valores dos pais, com o clássico trabalho a 
partir da castração.
Na segunda busca de imigração, vamos encontrar uma referência ao 
imaginário, quando a falta se registra do lado da frustração. Ou seja, quando 
o brilho fálico buscado tem a ver com um gozo mais imediato, do que com 
a relação ao desejo. O exemplo que me ocorreu do lado do imaginário diz 
respeito a algumas crises narcísicas de modelos de moda. Esta colocação é 
aproximativa, não se situa como explicação para tais casos, mas como um 
elemento importante na apresentação clínica de alguns. Chama atenção 
como o registro da oralidade entra em causa, muitas vezes com o consumo 
excessivo de drogas. Nessas situações podemos depreender que alguma 
coisa fica problematizada do lado das referências identificatórias, que inter-
pelam sem mediação. Digamos que situam um modelo sem contexto. 
O terceiro motivo implica mais diretamente a privação: quando o des-
locamento é situado a partir de uma violência. A este tipo de deslocamento 
atribuímos corriqueiramente a condição de ser traumático. Nele situam-se 
os imigrantes forçados, ou aqueles que – ao imigrarem – não se integram ao 
laço social, ficando à margem, não encontrando uma via de circular no laço 
social para onde se deslocam.
34
Ana Costa
É possível reconhecer que em qualquer condição de deslocamen-
to, um sujeito pode padecer de uma crise semelhante à privação, e, ao 
mesmo tempo, nem todos imigrantes posicionam-se como tendo sido 
privados. Situo aqui uma diferença entre o registro social e a elaboração 
possível do sujeito. É sempre preciso considerar as singularidades com 
a experiência do tempo e não antecipar uma resposta simplesmente pro-
tocolar. Muitas vezes, as boas intenções de uma assistência social, situa-
da nas políticas públicas, não considera a singularidade de cada caso. O 
tema do assistencialismo entra aí numa condição de antecipação de res-
postas genéricas, não encontrando o sujeito num tempo de apropriação 
de sua questão. A contribuição que a psicanálise pode dar às políticas 
públicas diz respeito especificamente a isso: considerar e apostar no 
tempo do sujeito. 
Dito isso, tratemos da especificidade do que traumatiza instaurando 
uma dinâmica de privação. Aqui, é preciso especificar algumas relações, 
que não são simples. A primeira delas, de grande importância, diz da rela-
ção com a linguagem. O âmbito da língua diferencia linguagem instrumental 
e endereçamento da fala. Pode-se aprender qualquer língua para ter condi-
ções de comunicação – este é seu sentido instrumental –, no entanto, pode 
não haver endereçamento da fala, ou seja, pode-se não singularizar o lugar 
desde onde se fala. São coisas absolutamente distintas, e a experiência de 
viver num país estrangeiro coloca isso em causa. No endereçamento da 
fala está colocado o se deixar “ser falado”, sem somente tentar dominar a 
forma do que é falado. A linguagem instrumental – o que implica saber falar 
a língua para se comunicar – não registra o espírito da língua, que é o lugar 
do terceiro. Terceiro, aqui, pode ser entendido como o que está colocado em 
qualquer diálogo, no qual se situa aquele que fala, seu interlocutor e o cam-
po da linguagem, como um campoprenhe de mal-entendidos, semidizeres, 
bem como de significações antecipadas, implícitas em cada laço social. Em 
tais condições, muitas formas de atribuição funcionam do lado da injúria, ou 
seja, como se aquilo que está semidito, ou mesmo enigmático, fosse encar-
nado como o estranho, numa relação dual, sem referência ao terceiro que 
media o laço discursivo. 
Freud ([1893]1972) foi otimista com a injúria, na medida em que si-
tuou nela a substituição da ação pela palavra. Ou seja, que o primeiro que 
injuriou, ao invés de passar ao ato – matar – teria podido substituir a ação 
pela palavra. No entanto, diferentemente do otimismo freudiano, isso para 
nada deixou de produzir guerras. A injúria evoca um princípio de exclusão: 
a dimensão que todos temos de um excluído do próprio corpo. Por essa 
razão, também, que a injúria recoloca o corpo em causa: seja pela cor da 
35
Um luto impossível...
pele, pelos traços estrangeiros, etc. O interlocutor encarna – faz corpo – da 
ofensa. O circuito da injúria é violento em si mesmo. 
Para entendermos a injúria, vale fazermos uma diferença entre o chiste 
e o cômico. Este último diz respeito a rir do outro: fazer da imagem do outro 
objeto de comicidade. Já no chiste, entra em causa o terceiro ausente, como 
inscrição do jogo da língua, isto é, suas criações e potencialidades metafó-
ricas. O endereçamento da fala diz respeito à possibilidade de inscrição do 
terceiro. É deste lugar da língua, enquanto jogo simbólico, que herdamos as 
condições da referência ao desejo e à castração – tema que mencionamos 
anteriormente.
Assim, situamos primeiramente a língua, como a condição que se pro-
blematiza numa privação. O segundo elemento diz respeito à relação com 
os objetos, que constituem suportes culturais necessários para construção 
de identificações. Pode-se depreender que são esses objetos e vestes que 
– mais que somente enfeitar – criam um lugar, eles são significantes. O ritu-
al, por exemplo, constrói enlaces importantes entre imaginário e real, situan-
do o objeto como presença nas condições de uma herança. Nesse sentido, 
não se pode dizer que uma herança seja somente simbólica, ela traz junto 
uma presença/ausência transmitida num objeto. Pode-se perceber que a 
globalização, com o descarte consumista do objeto no capitalismo, proble-
matiza justamente esta face das transmissões das heranças.
Encontramos diferentes eventos produtores de trauma, eles colocam 
em cena aquilo que Lacan ([1964]1985) designou como duas muralhas do 
impossível: por um lado, a relação com a morte; por outro, a relação com o 
sexo. É curioso pensar como isso se confirma nos eventos mais violentos: 
nas guerras e violências urbanas reconhecemos que sexo e morte estão 
juntos. Não há somente os assassinatos, há também grande incidência de 
estupros.
Pode-se situar que um evento traumatiza quando o sujeito perde sua 
condição de responder ao laço social, ou seja, de situar-se numa referência 
significante, bem como na possibilidade de velar o real por meio da fantasia. 
Assim, o trauma situa um acontecimento em que o sujeito perde sua con-
dição de endereçar sua questão desde o campo discursivo, e se confunde 
com o que é excluído – o gozo excluído da circulação – no limite: com o 
injuriado. A privação, aqui, apresenta o furo repleto da porcaria, que se ex-
pressa como um resto corporal. É aqui que se apresenta um luto impossível.
Pensando nessas situações, podemos reconhecer que o luto tem duas 
faces e não acontece imediatamente, de uma única vez. Numa das faces 
ele é carregado por uma função social, efetivada por aqueles que acom-
panham. Como fica essa função social para o imigrante, se ele ainda não 
36
Ana Costa
está inscrito no laço social, se ele não tem o suporte do semelhante para 
testemunho? A função social é vivida no ritual, que permite uma primeira 
separação. Assim, a separação é um trabalho doloroso, que não reconhece 
imposições de fora, nem de uma atribuição de realidade à situação, precisa 
de muitas elaborações. A outra face do luto se refere a viver a perda, reco-
nhecendo-a enquanto um registro da experiência. É a experiência solitária, 
que diz respeito a cada um, mais além do compartilhado.
Assim, a reconstituição do endereçamento na fala é todo o trabalho 
dessa clínica. Tem-se falado em testemunho. No entanto, pensar no teste-
munho significa pensar em como lidar com a antecipação na relação com 
o pequeno outro. Testemunho significa reconhecer a perda, o que dimen-
siona a possibilidade de um luto. No entanto, penso que, para o imigrante 
submetido a uma vivência de privação, coloca-se antes uma suspensão da 
perda, tanto quanto uma suspensão do tempo. É como se o deslocamento 
não houvesse acontecido e o sujeito ficasse no limbo. É nessa medida que 
é necessário um trabalho preliminar ao luto, situando as condições de ende-
reçamento na entrada ao novo lugar, para que o sujeito, a posteriori, possa 
testemunhar sobre seu desterro. Ou seja, para sair é preciso primeiro entrar.
 
REFERÊNCIAS 
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Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1972.
LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise 
[1964]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
Recebido em 20/05/2014
Aceito em 10/06/2014 
Revisado por Cristian Giles
TEXTOS
37
Resumo: O presente artigo trabalha alguns aspectos da clínica do exílio reali-
zada junto a recém-chegados admitidos pelo ACNUR/ASAV (Alto Comissariado 
das Nações Unidas para Refugiados/Associação Antonio Vieira), inserida no 
Projeto SIG Intervenções Psicanalíticas. No contexto específico de uma política 
de reassentamento, interessa-nos explorar como a não ritualização da partida 
forçada engendra episódios desorganizadores sobre uma economia pulsional 
cindida, quando da não passagem de uma cultura a outra. A interrogação sobre 
o que faz trauma no exílio, assim como sobre os episódios injuntivos de reatua-
lização traumática, servirão como fio condutor à nossa investigação.
Palavras-chave: exílio, trauma, reassentamento.
FROM EXILE TO ASYLUM: CLINIC LISTENINGS
Abstract: The present article aims to work some aspects of the exile clinic con-
ceived with the new-arrived admitted by the HCR/ASAV and the Project SIG 
Psychoanalytic Interventions. In the specific context of a resettlement policy, it 
concerns us to develop how the non-ritualisation of the forced departure leads 
to some overwhelming episodes onto a divided libido economy, regarding the 
non-passage between one culture to another. Theses questions about what do 
traumatize in exile, and the episodes of traumatic re-actualization will be the 
conductors lines in our investigation of metapsychological keys to read the exile
Keywords: exile, trauma, resettlement.
Alexei Conte Indursky2
Barbara de Souza Conte3
Daniela Feijó4
Liege Didonet5
DO EXÍLIO AO ASILO: 
escutas clínicas1
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.37-48, jul. 2013/jun. 2014
1Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais – 
Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicólogo; Doutorando da Universidade Paris VII; Integrante do SIG/Intervenções Psicanalíti-
cas. E-mail: leco.indursky@globo.com
3 Psicanalista; Doutora em Psicologia pela Universidade Autônoma de Madrid; Coordenadora 
do Projeto SIG/Intervenções Psicanalíticas. E-mail: barbara.conte@globo.com
4 Psicanalista; Integrante do Projeto SIG/Intervenções Psicanalíticas. E-mail: danitrois@gmail.com
5 Psicanalista; Integrante do Projeto SIG/Intervenções Psicanalíticas. E-mail: liegedidonet@
yahoo.co.uk
38
Alexei Conte Indursky, Barbara de Souza Conte, Daniela Feijó e Liege Didonet
Era de madrugada quando K. chegou. O vilarejo estava coberto de neve. A colina do 
Castelo permanecia invisível, a bruma e a obscuridade o contornavam, não existia mesmo um 
vulto que indicasse a presença do grande Castelo. K repousou longamente sobre aponte que 
leva da estrada ao vilarejo, fixando a mirada em direção àquilo que parecia ser o vazio.
Franz Kafka
1. Introdução 
Este trabalho apresenta a experiência de atendimento com refugiados, que faz parte do Projeto SIG Intervenções Psicanalíticas. Esse projeto 
iniciou em 2010, na Sigmund Freud Associação Psicanalítica, quando co-
locamos a escuta psicanalítica para além do trabalho clínico no consultório 
e a estendemos para grupos e sujeitos em situações de exclusão social e 
vulnerabilidades. 
Assim, trabalhamos com professores e pais de escola da rede munici-
pal de Porto Alegre, de crianças e adolescentes com deficiências físicas e 
transtornos psíquicos, e com o programa de reassentamento solidário reali-
zado pela Associação Padre Antonio Vieira (ASAV), em parceria com o Alto 
Comissariado das Nações Unidas para Refúgio (ACNUR), com refugiados 
– latino-americanos e palestinos reassentados em nosso estado, que serão 
o objeto deste trabalho. 
Desde 2013, trabalhamos, também, em parceria com a Comissão de 
Anistia do Ministério da Justiça, fazemos parte do SIG/Clínicas do Testemu-
nho, projeto incluído na terceira etapa da justiça de reparação aos afetados 
pela violência de estado, no período da ditadura civil-militar em nosso país: 
anistiados, anistiandos e familiares, e de capacitação aos profissionais e 
agentes de saúde. 
Em todos estes projetos temos como objetivo oportunizar que, através 
da palavra e da escuta, se promovam novas vias de facilitação, caminhos 
que propiciem a recomposição psíquica frente a situações traumáticas ocor-
ridas em virtude da exclusão e da violência. Lidamos com o sofrimento psí-
quico, como o exílio e a violência de estado, quando a temporalidade está 
estancada e o processo de reorganização das intensidades e das perdas 
assume a dimensão de excesso, do que chamamos de traumático, de mor-
tífero. 
Estas realidades cada vez mais fazem parte de nossa clínica cotidiana 
e interrogam-nos a partir da prática que exercemos enquanto psicanalistas. 
A escuta analítica torna possível uma temporalidade que, segundo Laplan-
che (2001), implica a retroatividade: algo que foi perdido ou implantado com 
violência torna-se um enigma a ser decifrado por um outro. Marcas que pro-
39
Do exílio ao asilo: escutas clínicas
movem profundas cisões no psiquismo e fazem sua aparição sob a forma 
de repetições.
É tempo de discutir, debater, trocar experiências que alarguem os limi-
tes do conhecimento e do exercício da psicanálise, na riqueza que nosso 
ofício permite. O caso de Condolência é apresentado nesta perspectiva – 
dar lugar à fala, quando esta está interrompida, e criar vias de escuta que 
ressignifiquem e retraduzam experiências dolorosas.
2. Sujeito entre mundos
Disse o fulano presunçoso,
hoje no consulado
obtive o usual certificado de existência
consta aqui que estou vivo
de maneira que basta de calúnias
este papel soberbo/ irrefutável
atesta que existo.
Se me coloco frente ao espelho
e meu rosto não está
aguentarei sereno
desimpedido
não levo por acaso na carteira
meu recém adquirido
meu flamejante
certificado de existência?
Viver/depois de tudo
não é fundamental
o importante é que alguém
devidamente autorizado
certifique que um
comprovadamente existe.
Quando abro o jornal e leio
meu próprio obituário
me apena que não saibam
que estou em condições
de mostrar onde quer que seja
a seja lá quem for
um vigente prolixo e minucioso
certificado de existência
Mario Benedetti
40
Alexei Conte Indursky, Barbara de Souza Conte, Daniela Feijó e Liege Didonet
O trecho escolhido faz parte de uma coletânea de poemas de Mario 
Benedetti, Solidões de Babel (2000), cujo título, não por acaso, faz eco aos 
tempos cindidos de seu próprio exílio em terras estrangeiras. A segurança 
com a qual Benedetti descreve a possibilidade de reconhecer-se através de 
um “certificado” que autorizaria, assim, a sua própria existência, contrasta 
com a desrealização daquele que, ao olhar-se no espelho, incorre no pe-
rigo de não reconhecer a própria imagem. A partir dessa tensão presente 
no poema do autor uruguaio, nos propomos a pensar o que está em jogo 
na condição psíquica do exílio e suas vicissitudes clínicas, para além da 
contingência do deslocamento geopolítico forçado e sua impossibilidade de 
retorno. Condição psíquica que nos remete ao cerne do debate proposto 
nesta Jornada.
Ao procurar no dicionário o verbete “exílio”, conforme consulta ao 
Grand Diccionaire Larousse – online, nos deparamos com seguinte defi-
nição: situação de alguém que se encontra obrigado a viver alhures donde 
habitualmente vive ou ama viver; este lugar onde ele se sente estrangeiro, 
colocado à parte6.
Se, na primeira frase, não encontramos nenhum impasse à nossa 
compreensão, não podemos dizer o mesmo da segunda. Segundo o ver-
bete, o exílio se definiria como o sítio onde o sujeito é colocado à parte. 
Mas seria ele estrangeiro por ser colocado à parte, ou colocado à parte por 
ser estrangeiro? Nós vemos nessa simples definição do exílio algo que faz 
signo a uma ultrapassagem da referência geográfica, nos remetendo a uma 
constatação que, porque indefinida, colocado à parte, se apresenta de for-
ma conjuntural à condição do exilado. Ou seja, o exilado é aquele destinado 
a habitar o sítio do estrangeiro.
Vamos, no entanto, dar um passo adiante. Pois, se o exilado encarna, 
antes de tudo, a figura de estrangeiro que desconhece os códigos, as ma-
neiras e a cultura do anfitrião, é porque, ultrapassando tais fronteiras visí-
veis e invisíveis entre mundos, ele é impelido, por lei, a demandar refúgio ao 
Outro. Ou seja, o refugiado deve colocar-se na posição de quem demanda 
ao Outro estatal um status, um lugar na vida pública de uma comunidade. 
Em suma, ele deve demandar um certificado de existência, para que sua 
própria história, sua imagem e sua verdade não lhe escapem por completo. 
No entanto, em nossa prática clínica, e aí também repousa toda ironia do 
6 Traduzido pelo autor.
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Do exílio ao asilo: escutas clínicas
autor uruguaio, o recebimento de tal certificado não apresenta nenhuma ga-
rantia ao sujeito de que ele encontrará a almejada posição na cultura do an-
fitrião. Seja por questões sociopolíticas, seja por questões próprias ao real 
do traumático que invade o sujeito exilado. Gostaríamos de propor aqui uma 
reflexão sobre esse segundo aspecto, que, consideradas as peculiaridades 
da clínica do exílio, interroga a própria psicanálise em sua ética e teoria.
Propomos algumas questões de base que servirão de fio condutor à 
nossa reflexão. Aquém de pensar a obtenção do status de refugiado como 
um fim em si mesmo, quais são os efeitos, na organização psíquica de um 
sujeito, dessa passagem de um código a outro, de uma cultura a outra, 
de uma lei a outra? Se tal certificado pode ser investido enquanto função 
narcísica de invólucro, ou ainda, de anteparo à imagem, ao gesto, à fala do 
sujeito, qual o trabalho de elaboração pelo qual este deve passar para que 
tal transição não se configure como um momento injuntivo, em que o real 
do exílio invada o sujeito, expondo a céu aberto, uma intimidade abalada, 
desterrada e exilada de si mesma? 
Se Kafka nos alerta sobre os efeitos psíquicos da impessoalidade e 
da burocratização administrativa na vida dos sujeitos, traduzidos em nosso 
caso pela espera infinita por um status, pela dessubjetivação dos formulá-
rios de requerimento, pela lei anônima que julgará seus destinos, não so-
mos nós também obrigados a pensar nos efeitos de uma obtenção demasia-
damente abrupta de um certificado de existência? De uma situação errática 
e clandestina à legalidade de uma cultura, cujo olhar do Outro não enquadra 
o sujeito em seu terreiro cultural, mas o remete à desterritorialização expe-
rimentada no período do exílio.
Em termos mais cotidianos, como deslocar-se da posição daquele que 
tudo demanda aos outros e ao Outro (certificado, segurança, moradia, edu-
cação), para passar a operar as tão bem desejadas autonomia e integraçãosocial?
Para pensar tais questões, segue a apresentação de fragmentos de 
um caso clínico atendido por nosso projeto entre setembro e meados de 
novembro de 2012. 
Condolência e sua família, composta por dois filhos e uma irmã tris-
sômica chegam a Porto Alegre no final de agosto de 2012, acolhidas pelo 
programa de reassentamento da Asav/Acnur. Em Sapucaia do Sul será sua 
nova morada. Originários da região do Vale do Cauca (que fica na América 
do Sul), eles se refugiaram no Equador e moraram provisoriamente em al-
gumas cidades equatorianas até conseguir, em Quito, ingressar no progra-
ma de reassentamento para vir ao Brasil, local onde finalmente julgavam ter 
conseguido proteção.
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Alexei Conte Indursky, Barbara de Souza Conte, Daniela Feijó e Liege Didonet
Uma semana e meia após a sua chegada, Condolência solicita um 
atendimento comigo, após um episódio em que ela desfalecera em plena 
via pública. A situação7 me foi narrada da seguinte forma pela assistente 
de integração social do programa: estavam se dirigindo ambas ao instituto 
de identificação da cidade, onde Condolência faria o seu registro nacional 
de estrangeira. Acometida por um mal súbito, ela desmaiara em frente ao 
prédio, fato que a impedira de obter naquele dia seu documento.
Em sua primeira entrevista, ela me diz que as coisas não estavam 
bem. Preocupava-se muito com seus filhos, do que seria deles aqui no Bra-
sil. Fala da violência, do medo, da instabilidade aos quais os dois estavam 
expostos. Quando perguntada se era por isso que desmaiara, ela confessa 
que não exatamente. Ela relata que pensava constantemente em quitar-se 
a vida, que uma culpa muito grande a abatia, seguida de enxaquecas colos-
sais, que a impediam que pensasse em mais nada. “Não sei de onde vêm 
essas ideias, mas sei que não é certo pensá-las, e então eu desmaio”. Rela-
ta histórias fragmentadas, de tempos incendiários, de pessoas cujos nomes 
eu ignoro completamente. Informo que não tenho acesso a nenhuma histó-
ria prévia à vinda dela ao Brasil e convido-a a narrá-la. O que segue, então, 
é uma narrativa impactante, que fala de histórias de que eu não suspeitava 
(outrora) que pudessem ter sido vivenciadas por tal mulher.
Enquanto enfermeira e líder comunitária de sua cidade, Condolência 
havia denunciado o desaparecimento de um caminhão de suprimentos des-
tinados à ONG em que trabalhava. Para seu infortúnio, o desvio havia sido 
executado por líderes de uma facção de guerrilheiros locais. Em represália 
a sua denúncia, ela fora sequestrada e mantida em cativeiro. O dia, ela re-
fere, nunca lhe sairá da cabeça, 24 de novembro. Em cativeiro, foi torturada 
e violada repetidas vezes pelos guerrilheiros, que não a mataram somente 
por desleixo ou piedade, comenta. Aparentemente, o carisma da líder co-
munitária os sensibilizara. Ela foi atirada nua em plena praça pública numa 
noite em que vários protestos se organizavam, reivindicando o corpo desa-
parecido de Condolência. Humilhada, esfolada, violada, ela decidira denun-
ciar as pessoas que reconhecera em cativeiro. “Todos caíram em cascata, 
diz ela, um entregou o outro e logo decidiram ir atrás de mim novamente”. 
Daí o refúgio, realizado na penumbra da noite num caminhão, tal qual uma 
7 A narrativa segue, a partir daqui, na primeira pessoa, afim de salientar a situação clínica de 
atendimento.
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Do exílio ao asilo: escutas clínicas
mercadoria clandestinamente desviada. Ela chora copiosamente. Observo 
os dentes que lhe faltam na boca, a dor enorme estampada no seu rosto.
Ela finaliza, dizendo que os dentes que perdeu, ela pode recuperar. 
Que as feridas que teve, podem cicatrizar, mas sua humanidade que lhe foi 
violada, nunca poderá curar, e daí o porquê de ela se culpar pela decisão 
de processá-los. O refúgio foi a consequência do maior erro de sua vida. Ela 
chora copiosamente. “Mas me parece, digo eu, que esse é um ato de quem 
quer viver, de alguém que denuncia, mas não se suicida”. Isso a apazigua. 
Ela me pergunta como fazer para que esses pensamentos não a invadam. 
Proponho que passemos a nos encontrar semanalmente, para que ela fale 
mais sobre o que acontecera com ela, sobre suas outras histórias, sobre a 
luta que carrega consigo.
Uma mulher está a minha frente. É Condolência. Ela fala de seus pesa-
delos, da insônia, da hora do lobo que a atormenta. Mas o que meu olhar cir-
cunscreve são suas sobrancelhas, ou melhor, a falta delas, preenchida por 
um lápis de cor totalmente diferente da de seus cabelos. Tal inadequação 
me remete a todo o momento a um hiato entre palavra e afeto. Desde onde 
falava ela? Eu lhe pergunto se ela já havia se sentido em outra época tão 
desamparada quanto ficara no cativeiro. Ela me afirma que quando criança, 
após sua mãe casar-se novamente, ela ficava com seus seis irmãos em 
casa, sob a guarda do padrasto que era extremamente violento, enquanto 
sua mãe saía para trabalhar. Relata que todas as irmãs foram abusadas por 
ele, inclusive ela. Após alguns anos de abusos sistemáticos, o irmão mais 
velho, já maior, expulsou o padrasto de casa, ameaçando-o de morte. A mãe 
não notara nada até então. Num fim de tarde, alguns meses após a expul-
são, o padrasto encontra-se com a ex-mulher e o filho libertador na rua. O 
padrasto tenta matá-lo com uma matagranado, mas a ex-mulher, em ato 
desesperado, se interpõe entre ambos. Acaba esfaqueada, mas não morre. 
Frente a tal disparate, em pleno desespero, o padrasto, que era mineiro de 
profissão, acende uma dinamite junto ao peito e tira a própria vida, em um 
beco não muito longe de sua casa. Na delegacia, a ex-mulher é intimada a 
reconhecer o corpo, ou melhor, o pouco que dele sobrara. Condolência tinha 
11 anos e insistira em ir junto com a mãe. Eu digo que é uma coisa terrível, 
que estou extremamente espantado com o que me relata. Ela chora, enfim, 
um choro de poucas e contidas lágrimas.
Diz que a partir de então decidiu ser médica. Não qualquer médica, 
mas médica legista. No entanto, nunca conseguiu entrar na faculdade e 
acabou sendo técnica de enfermagem: “Mas sei muito sobre medicina”, 
acrescenta ela. Eu pergunto por que ela queria ser médica legista, mas ela 
não sabe responder o porquê. Mas diz que ultimamente pensa muito em 
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Alexei Conte Indursky, Barbara de Souza Conte, Daniela Feijó e Liege Didonet
seu trabalho, em sua função social junto à comunidade, no reconhecimento 
de todos, que isso lhe faltava profundamente. Quando tais pensamentos 
lhe vinham, ela relata que só sentia vontade de sair de casa, e caminhar, 
caminhar, caminhar... “Em direção à Colômbia, lhe pergunto. Não, em dire-
ção à rua, ao encontro de um caminhão”. Eis a forma de parar de pensar 
que ela engendra, desligamento total. Ela solicita outras formas para evitar 
essa dor, esse impulso de tudo acabar. Proponho-lhe que, para as dores 
de cabeça, possa consultar um traumato. Quanto às insônias, digo-lhe que 
nosso trabalho não é outro senão poder recuperar suas histórias, as infantis 
igualmente, que, a meu ver, haviam permanecido silenciadas durante muito 
tempo. Pergunto-lhe se já havia tentado conversar disso com alguém, ao 
que ela menciona o seu ex-marido, que no fim das contas acaba por se 
revelar um grande babaca e insensível. Pergunto-lhe se ela realmente gos-
taria de empreender esse trabalho de recuperação dessas memórias, pois 
sentia que esta posição do “grande babaca insensível” poderia destinar-se 
a qualquer um que tocasse nos conteúdos extremamente dramáticos de sua 
infância. Sua resposta foi de uma fatalidade exemplar: “se não existe outro 
modo...” Frente a essa reticência, eu lhe faço notar que me parecia que ela 
não parecia ter podido chorar sobre essas histórias, como se estivessem 
interditas de si mesma. Eu lhe proponho, subitamente, de escrever suas his-
tórias quando dos episódios de insônia. “Como um diário? Por que não?...”
3. “A doença do armário” ou a tentativa de evitar novas formas de ex-
citações
Passado um mês de consultas irregulares, Condolência começaa ses-
são sempre da mesma forma. Não sabe o que fazer com seus filhos, que 
não a respeitam mais. Sua agressividade é dirigida constantemente contra 
eles, à medida que sua palavra não surte os mesmos efeitos de outrora. O 
suposto desamparo que eles sofreriam por estarem expostos à violência 
das ruas de Sapucaia retorna sobre ela de forma desorganizadora. Ela pen-
sa, mesmo assim, em trazer um neto que estava no Equador para cuidar 
dele, pois sua filha mais velha enfrenta problemas financeiros. Eu digo que 
seria mais fácil cuidar do bebê que está a alguns milhares de quilômetros de 
distância do que dos adolescentes que estão logo ali na esquina. Ela diz que 
mesmo em casa eles não se comportam mais, que ontem teve que bater no 
filho mais velho, pois ele sujou toda a mesa de centro da sala deles. Como 
ele se recusou a limpá-la, ela decidiu guardá-la no armário e fim de papo, 
sem mais mesa de centro. Eu me lembro imediatamente de uma peça de 
teatro de uma refugiada turca chamada: Sobre a soleira (Ecer, 2009). Nela, 
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Do exílio ao asilo: escutas clínicas
uma personagem, ao fim de uma situação errática, compelida a constantes 
deslocamentos, tenta guardar a mala dentro de um velho armário e acaba 
engolida por ele. Ela acabara de contrair a doença do armário, nos diz a 
personagem.
“O que faço para não perder meus filhos?”, me pergunta ela. Eu lhe 
digo que não irá adiantar trancá-los todos dentro do armário. Ela ri. Mas me 
parece que tu já estás tomando uma direção quando se preocupa em agre-
gar toda família. Ela diz que sim, mas que isso não é possível agora, pois 
eles não podem voltar, que a vida é aqui e agora.
Eu a convido então a falar sobre aqui e agora. Ela se lembra de um 
encontro que tivera com o dono do mercado próximo a sua casa, um tipo 
que já lhe havia chamado atenção positivamente. Correto e bonito. Certo 
dia ele a convidara para jantar. Ela não recusara nem aceitara, mas fora 
conversar com os filhos. O mais velho incentivou-a abertamente, ao passo 
que o mais novo a repreendeu, dizendo que ela mal o conhecia e estaria 
colocando a família em risco. Ela de pronto fecha-se, recusando-se mesmo 
a ir ao mercado novamente. Episódios como esse, em que a cena da sedu-
ção passa rapidamente ao registro do traumático, do abjeto, já haviam sido 
esboçadas em outras sessões, mas sem maiores associações. No entanto, 
intervenho nesse momento para chamar sua atenção ao ato de fechar-se, 
de trancafiar as coisas dentro do armário. Ao que ela me diz que já tentara 
ter outras relações, desde que se separara, mas, para ela, depois do ocorri-
do em cativeiro, ela nunca será a mesma. Ela se desculpa, pois eu sou um 
homem também, mas diz que “todo homem é um potencial violador”. Eu me 
pergunto silenciosamente, até mesmo os seus filhos? Um longo silêncio, 
nunca antes ocorrido, se instala. 
Eu digo que aquilo que ela trazia era muito importante de ser retomado 
na continuidade de nossos encontros. E que poderíamos disponibilizar, con-
forme demandado por ela, um encontro entre seus filhos e outro psicólogo, 
para que eles pudessem conversar sobre como estavam vivenciando esses 
primeiros meses no Brasil. Este iria entrar em contato com ela, para marca-
rem um primeiro encontro. Dito isso, eu antecipo a sessão da semana se-
guinte, pois seria feriado na sexta-feira, explicando que era importante que 
continuássemos tratando desse assunto. Pergunto-lhe por que ela deixava 
uma decisão sobre ter ou não relações, de ter ou não uma sexualidade, ao 
arbítrio de seus filhos? Ela admite sua dificuldade de ter confiança nova-
mente nos homens. Noto que não responde a minha questão, colocando-se 
no lugar de vítima de um prejuízo. Eu lhe lembro que nossos encontros po-
deriam ajudar a reconstruir sua segurança, desde que ela se engajasse em 
vir, fato sobre o qual eu observava sua hesitação. 
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Alexei Conte Indursky, Barbara de Souza Conte, Daniela Feijó e Liege Didonet
A tentativa de evitar todas as novas formas de excitações ou de 
novos compromissos em sua nova e recente situação me parece muito 
importante aqui, pois eu me encontrava investido de uma tal posição de 
agressor introjetado na vida psíquica de Condolência, apesar de minha 
própria dificuldade de observar isso, após pedir desculpas pelo fato de eu 
ser um homem. 
“A doença do armário”, descrita figurativamente por Sedef Ecer (2009), 
demonstra esse gesto do sujeito que, face ao sentimento de culpa de ter 
sobrevivido ao horror, se trai no momento de recomeçar do zero. O gesto de 
guardar a mesa de centro desloca-se aqui em direção ao ato de confinar a 
vida dentro de seu armário. Abolir a mesa de centro, o móvel da conviviali-
dade e socialização da casa, indica a impossibilidade de colocar-se frente a 
novos compromissos, uma fuga em ré, em que o armário pode servir como 
paraexcitação, assim como pode um envelope às quatro vidas que ali se 
enclausuram. 
4. O des-aniversário de morte: o encontro perdido com o real
Na próxima sessão, ela retorna pontualmente, mas traz consigo os 
filhos. Surpreendo-me e pergunto o porquê de eles estarem ali. Ela me diz 
que havia entendido que iríamos começar o grupo hoje. Leio esse lapsus 
como um suporte para não precisar falar sobre seu sofrimento. Ela queixa-
se por longos minutos dos filhos, até chegar ao ponto fatídico. Estávamos 
a uma semana do dia 24 de novembro, o dia de seu sequestro. Eu reajo na 
hora, como numa exclamação de surpresa, eis aí a causa da raiva contra os 
filhos. Peço que ela me conte o que anda passando em sua cabeça. “Pois é, 
diz ela, é o dia do meu aniversário, mas não de nascimento”. Ela passa a me 
narrar exatamente como foi o dia 24. Desde a preparação para um pique-
nique na parte da manhã até o final do dia com a casa cheia. A narrativa é 
marcada pelo registro do sensorial e dos afetos. É uma descrição totalmente 
diferente daquela que ela havia me feito na primeira entrevista. No lugar 
da tortura e da humilhação, reafloravam todos os elementos que constitu-
íam sua posição e laço social, e que lhe seriam arrancados, tal qual seus 
dentes, deflagram a extensão da ruptura do exílio. O cair do sol demarcava 
igualmente essa queda, a perda desses incontáveis objetos, as galletas, as 
piñas, as montanhas. Digo que todas essas lembranças demonstravam sua 
vontade de viver, que seu trabalho aqui era poder justamente reconstruí-las. 
Ela me olha rindo e fala, “mas que sagrado trabalho”!
Essa foi a última sessão de Condolência. Na véspera do 24 de novem-
bro ela não compareceu à sessão, tampouco retornou as minhas ligações. 
47
Do exílio ao asilo: escutas clínicas
O 24 de novembro permaneceu assim como o dia em que a possibilidade 
de rememorar cedeu o passo à repetição. A falência da ação do fantasma 
indica o efeito de colonização subjetiva do trauma da tortura, cuja falta de 
espaço psíquico para pensar e sentir os afetos suscitados outrora não per-
mite uma rememoração segura, mas se impõe como uma espécie de come-
moração mortífera do acontecimento. 
Entendemos aqui que a função do fantasma poderia ter-se constituído 
como uma ação através da qual o sujeito poderia investir seus objetos en-
quanto perdidos (terra deixada, por exemplo), sem, entretanto, sofrer uma 
forte atração pelas cenas de horror então vividas. Quando a possibilidade 
de rememorar encontra-se sitiada pela força magnética de Thánatos, de re-
torno ao estado anterior, o que emerge é uma espécie de repetição fatalista, 
como uma tentativa de se emprestarem alguns contornos à emergência de 
conteúdos psíquicos terrificantes. A bem dizer, aqui não existe rememora-
ção, pois os conteúdos psíquicos não encontram uma espacialidade segura 
para sua transcrição. A consagração do dia 24 de novembro demonstra, ao 
mesmo tempo, a impossibilidade de separar-se das cenas de tortura vivi-
das, e, sobretudo, de elaborar a transformação de sua antiga identidade. 
Comemorar seu aniversário é, assim, a forma de não se esquecer de quem 
foi, sob o preço de ausentar-se de si mesma. Oumelhor, de entregar-se à 
loucura de ser uma morta-viva. Clivagem de si cujas “lágrimas de Eros” se 
fazem escorrer pela força que Thánatos lhe impõe.
5. A parte profana de si: um luto irrealizável?
O caso de Condolência nos parece marcante, pois ele reúne diversos 
aspectos fundamentais do sofrimento no exílio. O que inaugura sua solici-
tação de tratamento psicanalítico emerge no momento preciso no qual, se-
gundo as palavras de Benedetti (2000), o sujeito olha-se no espelho sem ver 
sua face. O certificado de existência, não enquadrando o sujeito em seus 
apoios narcísicos, tampouco numa posição do sujeito na cultura do Outro, 
nos abre a questão sobre a prática asilar e as dinâmicas psíquicas e coleti-
vas subjacentes à chegada do refugiado em uma nova comunidade. É seu 
próprio narcisismo que parece demandar uma integração, visto que ele se 
encontra cindido pela clivagem de sua vida entre mundos. De seu colapso 
frente à possibilidade de adquirir nova identidade, emerge uma solicitação. 
Solicitação esta feita pelo corpo, que toma lugar de porta-voz de um sofri-
mento arcaico que coloca em jogo seu próprio narcisismo.
A “doença do armário”, figura que foi oferecida à paciente durante o tra-
balho clínico, responde à ação de Thánatos em sua função desobjetalizan-
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Alexei Conte Indursky, Barbara de Souza Conte, Daniela Feijó e Liege Didonet
te. Em lugar da renúncia ao objeto perdido (sua pátria, sua identidade social, 
sua família) não estaríamos frente a um desinvestimento de todo objeto 
possível? Nessa perspectiva, é notável constatar aquilo que Andre Green 
(1993) nos adverte sobre a ação desobjetalizante de Thánatos “[...] longe 
de se confundir com o luto, é o procedimento mais radical para se opor 
ao trabalho de luto, central nesse processo de transformação característico 
da função objetalizante” (Green, 1993, p.125). Em uma das últimas frases 
endereçadas em sessão, Mas que sagrado trabalho!, Condolência parece 
revelar essa impossibilidade de realizar o trabalho do luto (trauerarbeit), ao 
falar de uma parte sagrada/profana enquistada dentro de si. Frente ao tra-
balho de falar de seu passado infantil, cuja cena primária se apresentaria 
já sobrecarragada pelo real, Condolência prefere ir ao encontro desta parte 
sagrada/profana de si mesma da qual não pode separar-se .
A contribuição mais distintiva da psicanálise à clínica do exílio apa-
rece aqui nessa dimensão do “encontro perdido” da repetição traumática: 
o trauma não reside exatamente no episódio de violência em si, mas na 
atualização de uma relação perdida com o outro, que todavia está sempre 
ativa. Quando Condolência se entrega à repetição mortífera, ela revela um 
material clínico importante para pensarmos, para além do aceite jurídico do 
refugiado, o que está em jogo na prática do asilo, para que o sujeito possa 
recomeçar novamente. A clínica do exílio nos demonstra que um trabalho 
de elaboração psíquica é condição sine qua non para que o sujeito possa 
realizar tal travessia.
REFERÊNCIAS
BENEDETTI, Mario. Las soledades de Babel. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 
2000.
ECER, Sedef. Sur le seuil. Paris: Éditions de lʼAmandier. 2009.
GREEN, André. El trabajo del negativo. Buenos Aires: Amorortu, 1993.
KAFKA, Franz. Le château. Paris: Flammarion, 1984.
www.larousse.fr/dictionnaires/francais, consultado em julho de 2013.
LAPLANCHE, Jean. Entre seduccion e inspiracion: el hombre. Buenos Aires: Amor-
rortu, 2001.
Recebido em 03/05/2014
Aceito em 10/06/2014
Revisado por Otávio Augusto Winck Nunes
TEXTOS
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Resumo: O presente ensaio reafirma a validade da heterogeneidade de supor-
tes nas intervenções sociais, principalmente nos casos considerados graves. 
Defende o conceito de que a dimensão do imaginário, na psicanálise, não se 
resume ao virtual; é uma das dimensões da linguagem, equivalente ao simbólico 
e ao real, articula a eles diversamente, porém não de qualquer maneira. Toma 
o exemplo dos campos de extermínio nazista, de onde foram extraídas quatro 
fotografias, tiradas pelos próprios prisioneiros, integrantes dos sonderkomman-
do. Uma forma de argumentar o quanto uma imagem pode contribuir para uma 
função simbólica. 
Palavras-chave: imagem, extermínio simbólico, Shoah, psicanálise.
IMAGE DESPITE THE CATASTROPHE
Abstract: This essay try to reaffirm the importance of using differents ways in a 
clinical and social work, mainly when the difficults circunstances are extremely. 
This position is based in the psychoanalytical concept that the imaginary di-
mension is not completly defined by a virtual dimension. To the psychoanalysis, 
imaginary is one of the dimensions of the language and it’s articulated with the 
simbolic and the real. This articulation has diferents manners to occurs but not 
in every way. An example is taken from the nazi champs of extermination. Four 
photographs, the only that has taken by the prisionners themselves, formers 
members of the “sonderkommando” from auschwitz/birkenau. It’s a importante 
way to show how one image can have a simbolic function.
Keywords: image, extermination, simbolic, Shoah, psychoanalysis. 
Robson de Freitas Pereira2
IMAGENS, APESAR 
DA CATÁSTROFE1
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA e do Instituto 
APPOA; autor, entre outros, de Cinema – o divã e a tela (Ed. Artes e Ofícios/2011); Sargento 
Pimenta forever (Ed. Libretos/2004) e La clinique du especulaire dans l’ouvre de Machado de 
Assis, (ed bilíngue, Ed. ALI/2002). E-mail: rpereira755@gmail.com
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.49-57, jul. 2013/jun. 2014
50
Robson de Freitas Pereira
A ideia inicial, neste trabalho, é de reafirmar o lugar fundamental da cul-tura, no qual uma das suas premissas é romper com a dicotomia entre 
individual e coletivo. Além disto, mostrar como se articulam as dimensões do 
imaginário e do simbólico, principalmente nas situações, em que propomos 
uma escuta sustentada na ética psicanalítica. Escuta que pressupõe que 
sujeito não é sinônimo de indivíduo, pois leva em conta a concepção de 
sujeito dividido, e que é a posição discursiva que reconhece o não todo na 
articulação dos diferentes saberes, o que possibilita o trabalho interdiscipli-
nar e a constituição efetiva de redes. Trabalho que nos parece fundamental 
quando se trata de intervenções no social.
Neste ensaio, vamos tentar recortar algo particular; ou seja, o traba-
lho que se faz com as diversas formas de representação e abordagem do 
sujeito que não se enquadram na concepção “clássica” de trabalho clínico 
psicanalítico. As práticas em que a escrita, a imagem, as fotografias, os 
filmes, a costura de bonecos, o trabalho com música, a dança, o corpo e os 
esportes, ou o lúdico formam um mosaico de invenções possíveis para sus-
tentar o atendimento. Principalmente nos casos considerados mais difíceis 
e nas condições de atendimento ambulatorial e/ou público. Sustentamos 
que, com estas formas, com estes fragmentos, é possível acessar os traços 
de uma representação e, através destes traços, cogitar uma possibilidade 
de constituir uma relação diferente com o outro (e Outro), que não seja de 
exclusão ou injúria, que muitas vezes estão associadas a quadros psicopa-
tológicos graves.
Para muitos, isto pode parecer óbvio, entretanto, em certos momentos 
– e este me parece ser um deles, torna-se necessário repetir o óbvio. Reto-
mar alguns fundamentos e fragmentos. E, como dizia Lacan, ao retomar um 
fragmento, estaremos em cheio na experiência. Basta saber ler os recortes 
que nos são oferecidos à escuta.
Ao reafirmar a importância da formação cultural, e das diversas inven-
ções feitas a partir dela (como citamos acima), não vamos nos ater às diver-
sas concepções de cultura. Apenas lembrar que Freud ([1926] 2010) mais 
de uma vez colocava uma definição ampla de kultur3, abrangendotodas as 
3 “Basta-nos, portanto, nos contentarmos em dizer que a palavra cultura descreve a soma inte-
gral das realizações e disposições que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados 
animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e a 
regulamentação dos seus relacionamentos mútuos”. Freud, S. O Mal estar na cultura ([1929] 
2010), p.87).
51
Imagens, apesar da catástrofe
formas de produção e invenção humana, na qual o processo civilizatório se-
ria aquele de luta e tentativa de domínio das forças pulsionais. Lacan ([1971] 
2003) retoma este conceito, dizendo que as pulsões e a cultura na qual elas 
circulam se organizam a partir da linguagem, em que os fatos são fatos de 
discurso. Chega a afirmar aforismaticamente que a “civilização [...] é o es-
goto” (p.15), quando o índice de uma cultura é mostrado desde o tratamento 
da água e do que se faz com o lixo, com os resíduos, até o que se faz com o 
próprio corpo e o de nossos mortos. Em outras palavras, um arco complexo 
que abrange desde o objeto privilegiado até o resto, lixo. Da causa de de-
sejo até o objeto descartável; seja das articulações com o mundo, seja das 
relações com o semelhante, seja com o corpo. 
Uma citação a este respeito: 
A cultura, portanto, não é a cereja do bolo da história; desde sem-
pre é um lugar de conflitos em que a própria história ganha forma e 
visibilidade no cerne mesmo das decisões e atos, por mais ‘bárba-
ros’ ou ‘primitivos’ que estes sejam (Didi-Huberman, 2013, p.99). 
 
Em outras palavras, nossa atualidade histórica não se define sem con-
flitos, Freud escreveu sobre o mal-estar impossível e constitutivo de nossa 
humanidade. Lacan, por sua vez, faz um retorno, reafirmando as teses freu-
dianas sobre essa impossibilidade e demonstra o quanto nossas possibili-
dades civilizatórias dependem de algum reconhecimento deste real impos-
sível. 
Vamos buscar um exemplo extremo de como um fragmento pode estar 
a serviço de um processo de simbolização (civilizatório), mesmo sob as pio-
res condições, mesmo quando a realidade é (quase) inimaginável. Fazendo 
isto, não estamos distantes do método freudiano, que procurava os limites 
da condição humana, a fim de poder lançar algum esclarecimento sobre a 
situação cotidiana. Neste caso que vamos abordar, o limite da racionalidade 
se transforma em barbárie: os campos de extermínio da II guerra mundial. 
Auschwitz/Birkenau – A imagem/fragmento testemunho
Quatro fotos contrabandeadas do inferno. Podemos lembrar Hanna 
Arendt, citada no filme de Margarethe von Trotta (Hanna Arendt, 2012): “o 
mal não é radical, ele é extremo”.
O extremo da racionalidade teve nos campos de extermínio nazistas 
um de seus abrigos mais mórbidos. Milhões morreram nos fornos crema-
tórios e nas execuções sumárias. Os prisioneiros levados ao extremo da 
52
Robson de Freitas Pereira
miséria e da humilhação: seriam os próprios judeus os responsáveis por 
conduzir seus próximos à câmara de gás (não sem antes fazê-los se despir 
e entregar dinheiro e bens aos carrascos), depois recolher os corpos, retirar 
os amálgamas de ouro dos maxilares e levar os cadáveres aos fornos de 
incineração. No auge do processo de extermínio – “solução final” no eufe-
mismo nazista, quando os fornos já não davam mais conta da demanda, 
eles eram depositados em valas de incineração a céu aberto. Os grupos 
obrigados a fazer esta tarefa tétrica chamavam-se sonderkommandos (es-
quadrões especiais), foram forçados a trabalhar até a morte, impossibilita-
dos de conviver com o restante do campo e tendo como rito iniciático levar 
para o forno os corpos da equipe que os precedia. 
Em meio a este cenário impossível de ser totalizado, em junho de 
1944, um dos membros deste sonderkommando escondeu-se dentro da an-
tecâmara de um dos fornos para tirar as quatro únicas fotografias que se 
conhecem desse momento (vide fotos). E depois, enviar o testemunho para 
fora do campo, para fora da Polônia, afim de que estes fragmentos, estas 
fotos sem tratamento, feitas com o risco de morte iminente, pudessem tes-
temunhar algo do horror. 
Georges Didi-Huberman (2012) em seu livro, Imagens, apesar de tudo, 
conta com detalhes a saga destes heróis para fotografar e retirar do campo 
o rolo de negativos dos quais só se conhecem estas quatro cópias reve-
ladas. Além disto, defende que elas sejam exibidas sem retoques, o mais 
perto da sua condição original. “Aprimorar” a nitidez, ou recortar para “me-
lhor”, enquadrar, seria negar as condições de produção delas. Estaríamos 
sucumbindo à avidez de nosso olhar atual e ao império do espetáculo, em 
detrimento da tentativa de nos aproximarmos da veracidade das bárbaras 
condições dos campos de extermínio. Temos que reconhecer seu valor jus-
tamente porque a precariedade era a condição de existência naquele mo-
mento e, apesar de tudo, foi feito um esforço sem precedentes para que elas 
existissem. 
Filip Müller (citado no livro de Didi-Huberman, 2012), um dos poucos 
sobreviventes destes sonderkommandos, assim descreve a “tarefa” que as 
imagens fotográficas mostram:
[...] com as primeiras luzes do alvorecer, acendíamos o fogos das 
duas fossas nas quais havíamos amontoado quase dois mil e qui-
nhentos corpos; duas horas depois estes eram irreconhecíveis. As 
chamas incandescentes envolviam os inumeráveis troncos carbo-
nizados e consumidos. [...] Contrariamente ao que acontecia nos 
crematórios, onde o calor podia se manter com ajuda de ventilado-
53
Imagens, apesar da catástrofe
res, nas fossas, quando o material humano começava a queimar, 
a combustão só podia subsistir se o ar circulasse entre os corpos. 
Como, no processo o amontoado de corpos tinham tendência a 
ficarem retorcidos, por não chegar o ar procedente do exterior, a 
equipe de queimadores da qual eu fazia parte devia incessante-
mente derramar sobre aquela massa azeite, metanol ou gordura 
humana em ebulição recolhida das cisternas do fundo das fossas 
[...] Com ajuda de longas espátulas de ferro de ponta curvada, 
depositávamos em cubas a gordura fervente, procurando proteger 
as mãos com uns trapos. Depois de haver depositado a gordura 
nas fossas, se elevavam por todos os lados jatos de chamas que 
silvavam e crepitavam. Espessas colunas de fumaça obscureciam 
o céu espalhando um odor de óleo, de gordura, de benzol e carne 
queimada [...]. Alguns mortos pareciam voltar à vida. Sob efeito 
do intenso calor se retorciam dando a sensação de estar sofren-
do dores insuportáveis. Seus braços e pernas se movimentavam 
como num filme em câmera lenta, seus troncos se erguiam de 
novo [...]. A intensidade do fogo era tal que os cadáveres eram 
devorados de todos os lados pelas chamas. Formavam-se bolhas 
na sua pele, explodindo uma após a outra. Quase todos os corpos 
untados com gorduras estavam marcados por cicatrizes negras de 
queimaduras. Sob o efeito do intenso calor, na maioria dos mor-
tos o abdômen arrebentava. Sua carne se consumia produzindo 
intensos silvos e crepitações [...]. A incineração durava de cinco 
a seis horas. O resíduo da combustão enchia quase um terço da 
fossa. A superfície, de uma cor branco-acinzentada fosforescente, 
ficava repleta de crânios humanos. Quando a superfície da massa 
de cinzas esfriava suficientemente, jogavam-se nas fossas umas 
tábuas forradas com metal. Alguns prisioneiros baixavam no fundo 
das fossas, munidos de pá, a fim de tirar a cinza ainda quente para 
o exterior. Iam equipados com luvas e chapéu com aba de prote-
ção; entretanto frequentemente eram alcançados pelas partículas 
de cinza ardente levantadas pelo vento que não cessavam de cair. 
Isto lhes provocava graves lesões no rosto e nos olhos. Por esta 
razão, também se os equipava com óculos protetores. Depois de 
haver esvaziado os resíduos das fossas, se transportavam a toda 
velocidade os restos nuns carrinhos, até o depósito de cinzas onde 
eram amassados em montes que chegavam a altura de umho-
mem (apud Didi-Huberman, 2012, p.22-24). 
54
Robson de Freitas Pereira
Apesar de todo este horror, um grupo encontrou forças e desejo de 
arriscar umas fotos para testemunhar, o impossível/o inominável que eles 
viveram. Para não abdicar de sua condição humana, desejante, apesar das 
torturas cotidianas e da morte certa e iminente.
Além de ter escrito o relato, Filip Müller também deu depoimento para 
o filme4. Esse testemunho tão pungente e chocante pode parecer mórbido 
para alguns, porém, diante de tamanha crueldade e racionalização da morte 
de seres humanos, somente se aproximando dos limites desta realidade 
inimaginável podemos relançar alguma possibilidade civilizatória. Esta foi 
também a posição de Claude Lanzmann, ao escolher como testemunhos 
principais estes poucos heróis/vítimas dos sonderkommandos. Afinal, eram 
os únicos que podiam narrar os momentos finais do processo, aquele depoi-
mento que mais se aproximaria do que seria narrar a morte; pois as vítimas 
foram reduzidas a cinzas. Müller, por exemplo, escapou três vezes, milagro-
samente do fuzilamento. Queria viver. Aqui não cabem juízos do tipo: Por 
que não se suicidaram? Por que não se revoltaram? Muitos se suicidaram, 
muitos se revoltaram, e a grande maioria morreu, fosse qual fosse sua ati-
tude. Muitos intelectuais, judeus ou não, escreveram sobre isso, a lista e as 
discussões são longas, mas importantes. Em situações extremas, como a 
dos campos de extermínio, não se pode julgar com os mesmos parâmetros 
de nossa realidade. Afinal, naquele lugar, morrer era o natural.
Retomando a discussão, podemos enfatizar a importância e a função 
das imagens nestas e noutras situações, em que o simbólico foi esgarçado, 
foi reduzido a fragmentos pelo real. No exemplo aqui exposto, as fotos com-
provam que o imaginário não é redutível ao especular, coisa que podemos 
ler em diversos momentos na obra de Jacques Lacan. Vai além disto. Em 
determinados momentos nos serve para tentar fazer borda no real impossível. 
Este, que, ao irromper no imaginário, provoca angústia, mas da qual precisa 
sair uma nomeação do Outro para rearticular o simbólico. Por isto, porque isto 
foi possível até nos momentos impensáveis, é que as invenções do cotidia-
no, por mais pueris que possam parecer, adquirem peso e valor constitutivo 
do sujeito (para lembrar nossa afirmação no início deste texto). Atos que se 
contrapõem a que nosso laço social, nossa racionalidade seja resumida a um 
pensamento único, esférico e de viés totalitário. Tarefa difícil, mas necessária.
4 Shoah. Direção: Claude Lanzmann, 1985.
55
Imagens, apesar da catástrofe
Fotos
1. Primeira foto e sua ampliação: cena de corpos sendo incinerados ao 
ar livre, perto das árvores e cerca do campo. Soldados observam.
2. Foto das árvores (as Bierken) que circundavam o campo. Fotógrafo 
devia estar em movimento.
56
Robson de Freitas Pereira
3.Mesma foto acima e sua sucedânea.
4. Imagem de mulheres nuas pouco antes do fuzilamento. Ao lado de-
talhe ampliado.
57
Imagens, apesar da catástrofe
REFERÊNCIAS
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens, apesar de tudo. Lisboa: KKYM, 2012.
_____. Cascas. In: Revista Serrote, n.13. Fundação Moreira Salles: Rio de Janeiro, 
2013, p.98-133.
FREUD, S. Mal-estar na civilização [1929]. Porto Alegre: LP&M, 2010. 
LACAN, Jacques. Lituraterra [1971]. In. _____. Outros escritos. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editor, 2003, p.15-25.
Recebido 28/02/2014
Aceito 03/04/2014
Revisado por Otávio Augusto Winck Nunes
TEXTOS
58
Resumo: O presente texto consiste em um testemunho feito pela autora sobre 
a tragédia ocorrida em Santa Maria, na boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013. 
Para acompanhar o relato fez-se importante um aparato teórico referente ao 
desamparo e ao trauma. 
Palavras-chave: tragédia, Kiss, desamparo, trauma.
IS IT POSSIBLE TO TALK ABOUT THIS TRAGEDY? 
Abstract: This text consists of a testimony made by the author about the trag-
edy that occurred in Santa Maria, Kiss nightclub, on January 27, 2013. To follow 
the story became important theoretical apparatus related to helplessness and 
trauma
Keywords: tragedy, Kiss, helplessness, trauma.
É POSSÍVEL FALAR 
SOBRE ESSA TRAGÉDIA?1
Luciana Portella Kohlrausch2
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). 
E-mail: lucianapk@yahoo.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.58-66, jul. 2013/jun. 2014
59
É possível falar sobre essa tragédia? 
O título proposto para este momento representa o mal-estar e a dificulda-de que o tema provoca. É nesse sentido que a pergunta do título servirá 
como guia, levando em conta a possibilidade e de que maneira seja possível 
falar sobre esse assunto, de que lugar e a que preço.
A tragédia referida no título não precisaria ser apresentada, mas é pre-
ciso nomeá-la. Foi o incêndio que ocorreu em Santa Maria, na boate Kiss no 
mês de janeiro de 2013.
À primeira vista, parece um tema de que se teria muito que falar ou 
sobre que escrever. Isso, porque os fatos são muitos, assim como os des-
dobramentos em relação ao tema. No entanto, tudo que se fala soa sem 
sentido, pois parece não conseguir conter todo o horror do ocorrido - conter 
no sentido de abranger e também no sentido de dar limite ao acontecimento.
De início, destaco que uma fala como essa, e a esse tempo, ainda 
tão perto do ocorrido, passa pela dificuldade de suportar metáforas, não há 
associações possíveis. Nessa tragédia estamos lidando com uma impossi-
bilidade do metafórico: fogo é fogo, morte é morte e corpo é corpo.
O tempo se coloca nessa situação como algo a ser sublinhado, pois, 
apesar de estarmos perto do ocorrido, como referi, um relato como este se 
apresenta como possibilidade de elaboração. Prefiro, ao invés de chamar 
de relato, chamar de testemunho!
A palavra testemunho remete à escrita de Primo Levi e, o acompa-
nhando, temos a possibilidade de mergulhar em uma literatura do testemu-
nho decorrente da segunda guerra e da shoá. Lembrando ainda de mais 
dois testemunhos que particularmente me tocaram na pesquisa feita para 
este texto: os quadrinhos de Art Spiegelman e a poesia de Paul Celan. 
Nestes tempos de hoje, diante dos acontecimentos que presenciei e 
presencio, em tempos que se sobrepõem, em sentimentos que se inter-
calam, surgiu-me a questão do dever de testemunhar. Posso ou preciso? 
Quero ou devo? 
Essa questão surge mais fortemente quando se toma por referencial 
Levi, que escreveu apesar do desamparo que vivenciou nos campos de 
concentração. Ele representa a necessidade de escrever, necessidade esta 
que deve ultrapassar a própria dificuldade de tratar do inominável que aque-
la situação carrega. 
Difícil seria fazer um testemunho sem referenciar o livro de Agamben 
(2008) O que restou de Auschwitz, em que ele compartilha três origens do 
termo “testemunho” no latim. Primeiramente, registra existir o termo testis, 
o qual seria o testemunho no sentido de se colocar como o terceiro diante 
de uma situação. Trata-se da origem do nosso termo “testemunha” hoje. A 
segunda origem da palavra “testemunho” é supertes, exemplo clássico do 
60
Luciana Portella Kohlrausch
relato de Primo Levi, uma pessoa que viveu uma situação desde o início 
até o final, fazendo parte da situação, fazendo parte da cena. Por terceiro, 
Agamben fala do auctor, cujo testemunho sempre apresenta uma vontade 
de influir, um testemunho que pressupõe sempre algo. 
Tempo e testemunho formam um par importante neste escrito e com 
eles trabalho a minha fala a partir do que chamei de três tempos3 desse tes-
temunho – e chamei dessa forma, pois, em diferentes tempos, pude teste-
munhar a ocorrência e os desdobramentos desse incidente trágico. Quando 
me refiro a tempo, não quero dizer de um espaço de tempo delimitado, com 
hora ou dia; quero dizer, principalmente, os tempos da enunciação.Até o momento, compartilhei nessa fala o que chamei de tempo de 
agora, tempo esse de construção do texto e de fala, tempo que se renova a 
cada instante, a cada nova notícia, a cada novo texto, a cada nova escuta. 
Tempo esse que se renova, por fim, enquanto falo para vocês. E, partindo 
da noção de Agamben, essa parece ser uma experiência de testemunho, 
não um supertes, pois, embora fazendo parte da tragédia – quem de nós 
não fez? – não estive como sobrevivente, nem como familiar.
No consultório, desde a semana subsequente ao incêndio, relatos de 
pacientes fizeram de mim uma testemunha do desamparo causado por essa 
situação, mesmo para aqueles que não estiveram diretamente envolvidos. 
Partindo daí, construo um segundo tempo de testemunho, o qual denominei 
de o tempo de escuta.
Escutei diversas pessoas que falavam, cada uma de sua maneira, so-
bre o ocorrido, cada qual com seu testemunho, cada qual com seu envolvi-
mento, sendo que, nessa escuta, há uma frase que percorreu algumas falas 
e me chamou atenção:“Poderia ter sido eu”. 
A tragédia esteve muito perto de todos. Foram 242 vítimas, que eram 
jovens, que estavam em sua maioria na faculdade. Assim, em maior ou me-
nor grau, as pessoas conheciam as vítimas, ou porque eram familiares, ou 
conhecidos de familiares, ou tão somente por trazerem à tona essa pergun-
ta compartilhada por tantos: “poderia ter sido eu”. 
Essa morte antes era reservada aos mais velhos, contudo, a morte 
dos semelhantes fez com que uma grande parcela da população jovem se 
deparasse com sua própria morte. Freud ([1915]1996), no texto Reflexões 
para os tempos de guerra e morte, destaca a irrepresentabilidade da morte 
no inconsciente:
3 A divisão do texto em tempos de testemunho foi uma forma de estilo na escrita. Não faz refe-
rência a nenhum conceito.
61
É possível falar sobre essa tragédia? 
[...] a morte era o resultado necessário de toda vida, [...] a morte 
era natural, inegável e inevitável. Na realidade, contudo, estávamos 
habituados a nos comportar como se fosse diferente. Revelávamos 
uma tendência inegável para pôr a morte de lado, para eliminá-la 
da vida. Tentávamos silenciá-la; [...] é impossível imaginar nossa 
própria morte, e, sempre que tentemos fazê-lo, podemos perceber 
que ainda estamos presentes como espectadores. [...] no incons-
ciente cada um de nós está convencido de sua imortalidade (p.299). 
[...] Nosso inconsciente não crê na própria morte, comporta-se 
como se fosse imortal (p. 306). [...] O medo da morte, que nos 
domina com mais frequência do que pensamos, é, por outro 
lado, algo secundário, e via de regra, o resultado do sentimento 
de culpa (p. 307).
Continua referindo que a morte não deixa de acontecer em função dos 
nossos sentimentos, e cada vez que ocorre somos atingidos profundamen-
te. Ainda um grande número de mortes, nos diz Freud ([1915]1996), nos 
parece terrível ao extremo.
Freud faz aqui referência às mortes ocorridas durante a primeira guer-
ra mundial. Nesse texto de 1915, a palavra “desilusão” aparece diversas 
vezes, mostrando todo o abalo trazido pela guerra. “[...] é evidente que a 
guerra está fadada a varrer esse tratamento convencional da morte. Esta 
não mais será negada; somos forçados a acreditar nela” (p. 301).
No contexto da tragédia, estou tendo a possibilidade de escutar o de-
samparo que essa situação colocou nos jovens, apresentando-se ora como 
dificuldade de dormir, ora como medo. Medo de que o teto caísse sobre 
suas cabeças, medo de que o chão desabasse. A morte aparece de forma 
aterrorizadora, traumática.
Uma morte que até então não tinha destaque e que passou a ser pre-
sente. Surgiram frases como: “Eu não me sinto seguro em lugar nenhum”. 
Dessa forma, a ilusão da imortalidade é rompida através de uma tra-
gédia desse âmbito, tal qual Freud nos fala no texto citado. Assim como a 
guerra acaba com a ilusão, aqui, nessa catástrofe, também a ilusão foi per-
dida, o que fica de resto é o desamparo.
No livro Pânico e desamparo, escrito por Mario Eduardo da Costa Pe-
reira (2008), temos acesso a um longo estudo acerca do desamparo, do 
qual eu destaco a visão do:
[...] hilflosigkeit como constituída pela impossibilidade para o apa-
relho psíquico de apreender pela simbolização o conjunto dos pos-
62
Luciana Portella Kohlrausch
síveis e de delimitar de uma vez por todas, o sujeito, seu corpo e 
seus desejos em um mundo simbolicamente organizado (p. 200). 
Destaco de maneira mais enfática a dimensão do desamparo ligada ao 
trauma, pois a noção de trauma nos é cara num momento como este. Foi 
um episódio que fez muitas vítimas fatais, em que uma cidade inteira acor-
dou no domingo com sirenes soando e ouvindo o choro de tantas e tantas 
pessoas que haviam perdido seus entes queridos. Nesse episódio não se 
pode deixar de falar em trauma. 
Também se faz importante comentar que esse incidente não afetou 
somente os jovens. Nos consultórios apareceram relatos do traumático não 
apenas de pessoas que já faziam análise, mas também de pessoas que, a 
partir desse momento, precisaram de escuta, pessoas de todas as idades e 
com vários tipos de envolvimentos com o ocorrido. 
Mesmo que o desamparo tenha uma dimensão que é própria ao psi-
quismo, ele está, de alguma forma, ligado ao trauma. Ele é reatualizado no 
trauma. 
As palavras de Seligmann-Silva (2000) para o trauma parecem pro-
pícias aqui: “ferida na memória” (p.84). Podemos pensar no trauma como 
essa ferida, esse rasgo onde está o real. Real este que repete sem elabora-
ção, que não permite o enlaçamento e não encontra simbolização. Um trau-
ma decorrente de uma tragédia repete e precisa ser contornado de alguma 
forma pelo simbólico.
Seligmann-Silva (2000) remete a Freud – no texto Além do princípio do 
prazer [1920] – para caracterizar o trauma como uma “incapacidade de recep-
ção de um evento transbordante” e torna-se algo “sem forma” (p.84). O trau-
ma vem acompanhado do choque, susto (shreck), e com isso não dá tempo 
de ser instalada a angústia, a percepção fica fora, enquanto algo transborda.
Citando Freud em Inibição, sintoma e angústia ([1926]1996): “a angús-
tia é a reação original ao desamparo no trauma, sendo reproduzida depois 
da situação de perigo como um sinal em busca de ajuda” (p.162). A angústia 
aparece como um sinal do eu para um perigo, está do lado da restauração 
do eu frente a um perigo. Em situação traumática, de horror, de perigo e 
ímpeto, a angústia perde o espaço. 
O tempo de testemunho, este que me serve de aparato ao meu próprio 
desamparo frente à situação da morte, da morte trágica e da morte em gran-
de número, chamei de o tempo aquele. 
O tempo aquele, do dia 27 de janeiro de 2013, domingo, quando rece-
bo uma ligação de amigos para saber se estávamos bem, pois havia ocorri-
do um grande incêndio em Santa Maria, em uma boate. 
63
É possível falar sobre essa tragédia? 
Número de mortos naquele momento: 80.
Ao acessar a internet em busca de notícias, descubro que os mortos já 
estão em número acima de cem e que a boate era a Kiss.
Notícias aparecem com pedidos de ajuda de profissionais da saúde, 
psicólogos incluídos, para amparar os familiares que estavam se dirigindo 
ao CDM, centro esportivo da cidade, para onde estavam sendo levados os 
corpos dos não sobreviventes. 
Fui ao local verificar de que maneira poderia dar algum amparo. No 
momento em que cheguei não havia tantos profissionais, os quais foram 
chegando em grande número no decorrer do dia. 
Gente para todos os lados. Nesse momento mais de 200 corpos esta-
vam no ginásio ao lado, enquanto se organizava uma fila para os familiares 
fazerem o reconhecimento dos corpos e então poder encaminhar o velório. 
Os profissionais iriam acompanhar os familiares nesse reconhecimen-
to que todos queriam evitar, pois a esperança era a de não achar entre os 
mortos o seu próprio filho, primo, colega, irmão. Ainda havia muitos jovens 
em hospitais, sobreviventes, mas não identificados. Então, não encontrar 
o corpo do seu parenteali era uma forma de esperança renovada, de uma 
última chance de vida. Nesse momento, organizaram-se os psicólogos para 
que acompanhassem os familiares no reconhecimento dos corpos. 
Pergunto-me hoje qual era o sentido de acompanhar, naquele momen-
to? Afinal, naquela circunstância, o que faríamos se um parente desabasse? 
O que diríamos? 
Eu não conseguiria segurar se aquele pai que acompanhei tivesse 
caído ao reconhecer sua filha. Não havia o que dizer. O que pudemos 
fazer foi acolher os familiares com um gesto, como segurar o braço, o que 
se traduz, por fim, em uma tentativa de amparo, pois as palavras tinham 
pouco lugar.
Quando entrei naquele ginásio cheio de corpos enfileirados, deitados 
no chão, um ao lado do outro, eu “segurava” um homem que nunca mais 
vi. Enquanto segurava o familiar, olhei ao redor, prestei atenção em como 
tinham sido organizados os corpos. Nessa hora, percebi que as meninas 
estavam de um lado e os meninos de outro. Enquanto isso, perguntaram 
o nome da filha do familiar que eu acompanhava, sendo que a pessoa que 
estava à nossa frente disse-nos então que ela estava daquele lado, o das 
meninas – “É mais ou menos por aqui”, nos mostrou essa pessoa. Nesse 
momento, escuto o homem dizer: “Esta é a minha filha”. Eu olhei para a 
moça e para as outras que estavam ao seu lado, e das outras fileiras. Es-
tavam todas com o corpo tapado até o pescoço. Pensei: deve ser porque 
estariam com alguma parte do corpo à mostra, já que não estão queimadas.
64
Luciana Portella Kohlrausch
Depois do reconhecimento, havia os papéis a serem encaminhados, 
ainda dentro desse mesmo ginásio, bem no meio. Ali me deparei com os 
meninos, com as roupas também tiradas, mas não estavam tapados com 
lona. 
As cenas do ginásio foram essas. Um tempo depois, relembrando, me 
dou conta de que fiquei o tempo inteiro interpretando, colocando vida nos 
corpos e interpretando o horror. Se as meninas estavam todas de um lado, 
tapadas ou queimadas, isso não era uma questão para aquele pai, mas eu 
pensava nessas coisas, fazia hipóteses, interpretava para que eu pudesse 
lidar com o desamparo da situação. Afinal, era eu quem deveria segurá-lo. 
Como um aparato ao desamparo, eu tomei uma posição de profissional que 
tinha ali o que pensar, esse foi um dos recursos para poder atravessar a 
situação, para não precisar pensar nas mais de 200 mortes que estavam na 
minha frente. 
De noite pensei nas famílias, pensei no que poderiam os profissionais 
fazer a partir de agora, como a cidade ficará? Todas maneiras de lidar com 
o que eu vi. O simbólico tentando transpor o real. Coisa que faço até agora, 
mesmo sabendo que, de fato, o simbólico nunca vai conseguir cobrir o real. 
Lidamos com essa impossibilidade. 
Como lidar com essa situação? Não apenas para quem estava lá, mas 
todos que viram de alguma maneira, principalmente pela televisão, todo hor-
ror das imagens. A irrupção da morte não encontra lugar na linguagem, nos 
afirma Pereira (2008), acompanhando Freud no texto acima citado – Re-
flexões para tempos de guerra e morte – e desta forma ela emerge como 
paralisia e terror.
O autor nos destaca, acompanhando outro texto freudiano citado an-
teriormente – Inibição, sintoma e angústia, de 1926 – em que Freud afirma 
que o afeto da situação traumática é o terror. Uma avalanche de desprazer 
invade o eu, que a experimenta passivamente. “Na experiência de terror, 
o desamparo deixa de ser um horizonte das possibilidades psíquicas para 
manifestar-se como uma vivência concreta e insuportável” (Pereira, 2008, 
p.190).
Na importante teorização acerca do trauma feita por Paulo Endo (2005), 
no seu livro A violência no coração da cidade: um estudo psicanalítico, este 
afirma que a neurose traumática ocorre antes no corpo e não encontra ne-
nhuma “tradução psíquica no nível do ego” (p.113). 
O sofrimento imposto de fora não desencadeia conflito algum, uma 
vez que nem mesmo é reconhecido pelo ego. Tratar-se-ia de uma 
perturbação que colocou o ego numa posição coincidente ao cor-
65
É possível falar sobre essa tragédia? 
po, não como uma projeção ou representação psíquica do corpo, 
mas o ego, nesses casos, seria o corpo funcionando. Portanto, da 
mesma forma, sem qualquer recurso às próprias defesas egoicas, 
o psiquismo só poderia pleitear algum cuidado a um nível literal-
mente corpóreo (Endo, 2005, p.113).
Desta forma o psicanalista citado nos ajuda a pensar no choque, no 
traumático, mas também numa possibilidade de ajuda em momentos de 
terror como o que vivenciamos. Um amparo corporal precisava ser feito, 
mesmo que fosse impossível uma ajuda real ao corpo. Éramos muitas pes-
soas naquele domingo, emprestando o corpo como forma de ajuda, éramos 
uma sustentação, uma presença, um “não ir embora”, o que se revela uma 
posição. Posição essa sustentada pelo laço social, pela linguagem.
Em um momento de catástrofe, quando o desamparo aparece com 
todos os seus lados, quando o horror vem à tona, frente à presença da 
morte, as palavras se tornam difíceis. Em substituição, um amparo físico, 
uma sustentação, uma presença, mesmo que silenciosa, se faz importante. 
A linguagem por vezes precisa ser traduzida por um gesto. Também a fala 
se mostra como possibilidade, a fala mais como voz do que como sentido. 
Sentido parece a última coisa presente naquele lugar. 
Pereira (2008) aponta que, num momento de desamparo, quando a 
imagem construída no espelho corre o risco de desmoronar, é o imaginário, 
ou seja, o eu (moi), como instância imaginária, que faz uma “muralha” contra 
esse desamparo. O autor trabalha com o texto do estágio do espelho, de La-
can, em que a noção de imagem própria só é completada com o simbólico, 
com as palavras da mãe. Como as palavras da mãe serão sempre incertas, 
quero dizer, como a linguagem falha, essa completude também irá falhar. 
E se a linguagem falha, falha também um fechamento para essa fala. E 
isso porque considero que tenha aberto mais perguntas, e essas perguntas 
não estão em tempo de respostas. Se tento fechar com o “tempo de escuta”, 
me parece insuficiente, pois ainda é necessário um tempo de compreender. 
Os desdobramentos que ocorrerão na clínica, individualmente, ainda 
estão por ocorrer. Se eu cito frases soltas, que foram escutadas, também é 
porque não foi dito muito mais, ainda não. Se faço referência a uma dificul-
dade da metáfora, acredito ser com ela uma das direções a serem dadas na 
escuta, possibilitando a polissemia significante, a substituição significante. 
No entanto, ainda é muito difícil falar desse trauma, ainda é difícil associar. 
Haverá outro tempo por devir em que poderemos falar mais, mas em outro 
tempo.
66
Luciana Portella Kohlrausch
REFERÊNCIAS
AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha (homo 
Sacer III). São Paulo: Boitempo, 2008.
ENDO, Paulo. A violência no coração da cidade: um estudo psicanalítico. São Paulo: 
Escuta/Fapesp, 2005.
FREUD, Sigmund. Reflexões para tempos de guerra e morte. [1915] In: ______. 
Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
______. Inibição, sintoma e ansiedade. [1926] In: ______. Obras completas. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996.
PEREIRA, Mario Eduardo da Costa. Pânico e desamparo. São Paulo: Escuta, 2008.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A história como trauma. In: NESTROVSKI, Arthur; SE-
LIGMANN-SILVA, Márcio (orgs.). Catástrofe e representação. São Paulo: Escuta, 
2000.
Recebido em 25/10/13
Aceito em 18/04/14
Revisado por Renata Almeida
TEXTOS
67
Resumo: O caráter extraordinário do incêndio ocorrido na madrugada de 27 de 
janeiro de 2013, na boate Kiss, em Santa Maria, alcançou tanto o sujeito na sua 
singularidade quanto a rotina viva da cidade. Tendo isto em consideração, foi 
criado o Acolhe Saúde, serviço de atenção psicossocial destinado ao cuidado 
das pessoas afetadas direta ou indiretamente como resposta às diferentes de-
mandas originadas pelo desastre. Neste artigo, apresentamos como esse Servi-
ço se estruturou e de que maneira o campo psicanalíticofez a sua colaboração.
Palavras-chave: psicanálise, urgência subjetiva, saúde mental.
THE CONTRIBUTION OF PSYCHOANALYSIS RELATED TO 
STRUCTURING A USE EMBRACEMENT SERVICE TO THE 
VICTIMS OF THE FIRE IN THE KISS NIGHTCLUB
Abstract: A city is not prepared for an out of the ordinary fact, such as the fire 
that occurred on the January 27, 2013, in the Kiss nightclub, in Santa Maria. 
Actually, any project of psychosocial intervention must consider that such fact 
reaches both the singular lives of the subjects and the living daily life of the city. 
Considering such context, Health User Embracement Service was created, a 
psychosocial care service aiming to care for the people directly or indirectly af-
fected by the fire, responding to different demands which rose from the disaster. 
In this sense, we present the process of creating such Service and the contribu-
tions of the psychoanalytic field on structuring it. 
Keywords: psychoanalysis, subjective urgency, mental health.
A COLABORAÇÃO 
DA PSICANÁLISE NA 
CONSTRUÇÃO DO SERVIÇO 
DE ACOLHIMENTO ÀS VITIMAS 
DO INCÊNDIO NA BOATE KISS1
Volnei Antonio Dassoler2
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e do comitê ges-
tor do Acolhe Saúde, Serviço de Atenção Psicossocial da Secretaria Municipal de Saúde de 
Santa Maria. RS. E-mail: dassoler@terra.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.67-77, jul. 2013/jun. 2014
68
Volnei Antonio Dassoler
27 de janeiro de 2013: O dia que, ainda, não terminou
Embora incêndios de grande magnitude não configurem raridade no con-texto contemporâneo da humanidade, o que ocorreu na boate Kiss ga-
nhou contornos particulares por envolver circunstâncias que, quando asso-
ciadas, incrementam o caráter traumático que um desastre desse tipo pode 
adquirir. De acordo com Castro (1998), os desastres podem ser incluídos 
em duas categorias: o primeiro tipo é designado como natural, por ser oca-
sionado por eventos ligados a fenômenos da natureza, como enchentes e 
terremotos. O segundo tipo é classificado como desastre humano, por ser 
resultado de algum tipo de intervenção cuja responsabilidade é atribuída 
a uma ação do homem. Dentro dessa perspectiva, é proposta a seguinte 
definição para “desastre”: 
Resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo ho-
mem, sobre um ecossistema (vulnerável), causando danos huma-
nos, materiais e/ou ambientais e consequentes prejuízos econô-
micos e sociais. Os desastres são quantificados, em função dos 
danos e prejuízos, em termos de intensidade, enquanto que os 
eventos adversos são quantificados em termos de magnitude. A 
intensidade de um desastre depende da interação entre a mag-
nitude do evento adverso e o grau de vulnerabilidade do sistema 
receptor afetado. Normalmente o fator preponderante para a inten-
sificação de um desastre é o grau de vulnerabilidade do sistema 
receptor (p. 52).
De acordo com essa lógica, o incêndio na boate Kiss configura-se 
como um desastre decorrente de ações humanas de alto impacto psicosso-
cial por envolver uma população jovem, por ter ocorrido de forma violenta e 
por ter alcançado um grande número de mortos e de feridos.
Com efeito, as primeiras ações pós-incêndio tinham como objetivo sal-
var o maior número de vidas e oferecer atendimento de emergência para os 
mais de 600 feridos. Para tanto, simultaneamente à prestação de socorro 
direto, foi criada uma estrutura de gerenciamento dos recursos médicos e 
hospitalares responsável pela localização de leitos de UTI, pelo chamamen-
to de especialistas, pela disponibilização de remédios especiais, pela busca 
de recursos de alta tecnologia visando atender os casos mais graves, além 
da oferta de transporte aéreo para a transferência de feridos a unidades 
hospitalares em outras cidades. Assim, os primeiros cuidados ficaram con-
centrados na urgência e emergência médicas, tendo como base de apoio as 
69
A colaboração da psicanálise...
estruturas hospitalares e de pronto atendimento que operavam em perma-
nente diálogo com as forças civis e militares participantes dessa operação, 
a fim de dar conta das exigências que a situação exigia.
É importante recordar que a maioria dessas ações iniciais contou com 
a participação decisiva de profissionais voluntários, sob a coordenação de 
um comitê gestor, formado pelas Secretarias de Saúde do Estado do RS e 
do Município de Santa Maria, pelo Ministério da Saúde, pela Força Nacional 
do SUS, pelos Médicos Sem Fronteiras, pela Cruz Vermelha e por outras or-
ganizações e instituições de reconhecimento público. Em decorrência disso, 
voluntários participaram de diferentes frentes de trabalho, como os procedi-
mentos cirúrgicos, o cuidado humanitário, a recepção dos familiares, a iden-
tificação das vítimas, etc. Paralelamente, o cuidado psicossocial começa a 
sobressair como uma demanda que vai requerer assistência.
Diante da inexistência de uma estrutura dessa natureza na rede públi-
ca de saúde mental para o tamanho da tragédia, já na madrugada do dia 28 
de janeiro é aberto o Acolhimento 24 horas, serviço de atenção psicossocial 
destinado exclusivamente ao atendimento dessa população. Esta unidade 
se propõe a atuar tanto no cuidado direto dos envolvidos (sobreviventes, 
familiares, trabalhadores, população em geral) quanto no planejamento de 
ações junto à rede de saúde do município, a partir de diferentes abordagens 
clínicas para lidar com as repercussões desse acontecimento traumático.
Assim, as ações propostas pelo Acolhimento 24 horas, designado, 
atualmente como Acolhe Saúde, foram distribuídas em sete grupos de tra-
balho coordenados por um comitê gestor responsável pela avaliação dos 
processos de trabalho: acompanhamento em ritos e funerais, apoio psicos-
social nos hospitais, apoio psicossocial na UPA-SAMU, apoio psicossocial 
à atenção básica para o fortalecimento da rede de cuidado no território, 
atendimento clínico 24 horas, supervisão clínica e um grupo de cuidado ao 
cuidador.
Com o passar do tempo, confirma-se que muitos dos problemas iden-
tificados não seriam solucionados a curto prazo e que parte deles exigiria 
um projeto de assistência continuado. Nesse sentido, o Ministério da Saú-
de, o Governo do Estado e o Município de Santa Maria assinam um termo 
comprometendo-se com a manutenção desse cuidado por, no mínimo, cinco 
anos. Na esfera federal, o Hospital Universitário de Santa Maria está encar-
regado do tratamento das pessoas com problemas respiratórios, neurológi-
cos e fisioterápicos decorrentes da intoxicação pelo cianeto e pelo monóxido 
de carbono, além do monitoramento dos processos cirúrgicos ocasionados 
por queimaduras. O governo estadual tem como atribuição garantir a assis-
tência farmacêutica das medicações especiais e a efetividade das ações. 
70
Volnei Antonio Dassoler
Ao poder público municipal coube a assistência psicossocial, razão pela 
qual foi contratada uma equipe multiprofissional com a incumbência de dar 
seguimento ao projeto instaurado. 
Nos primeiros seis meses o serviço funcionou durante 24 horas, e o 
acolhimento inicial era realizado por dois profissionais de áreas distintas que 
compunham a equipe, como médicos clínicos, médicos psiquiatras, enfer-
meiros, assistentes sociais, psicólogos, psicanalistas. 
Para encontrar uma direção clínica coerente e capaz de agregar a di-
versidade de profissionais que compunham esse quadro e considerando 
o Acolhe Saúde como um serviço concebido por diretrizes da Política Na-
cional de Saúde Mental, estabelece-se o acolhimento como o recurso de 
entrada para o recebimento das pessoas em qualquer nível de atenção ou 
em qualquer situação de sofrimento psíquico que, por sua definição, poderia 
ser conduzido por diferentes núcleos de profissionais e de linhas teóricas 
distintas, conforme propõe o Ministério da Saúde (2013) no caderno34, 
destinado à saúde mental na atenção básica: 
...um dispositivo para a formação de vínculo e a prática de cuidado 
entre o profissional e o usuário. Em uma primeira conversa, por 
meio do acolhimento, a equipe da unidade de Saúde já pode ofe-
recer um espaço de escuta a usuários e a famílias, de modo que 
eles se sintam seguros e tranquilos para expressar suas aflições, 
dúvidas e angústias. Com este conhecimento, a equipe de Saúde 
tem como criar recursos coletivos e individuais de cuidado avalia-
dos como os mais necessários ao acompanhamento e ao suporte 
de seus usuários e de sua comunidade (p. 25).
Destacamos que a produção de vínculo e a noção de cuidado com-
partilhado, princípios da clínica psicossocial, são balizadores da noção de 
acolhimento e são alcançados por intermédio de uma posição particular e 
específica de escuta dos profissionais das unidades de saúde. A elaboração 
de um Projeto Terapêutico Singular considerava as particularidades do caso 
para definir a especificidade do tratamento, que poderia ter sequência na 
própria unidade ou através de contato telefônico ou, ainda, por intermédio 
de visitas domiciliares com o apoio da equipe de atenção básica. Nesse pe-
ríodo inicial, foram feitos oito encaminhamentos para internação hospitalar 
de curta duração. Destacamos que parte das pessoas que buscaram ajuda 
psicológica referiram nunca terem cogitado a ideia de procurar tratamento 
em saúde mental e que, muito provavelmente, não o fariam antes desse 
acontecimento. Tal constatação reforça a amplitude traumática do desastre 
71
A colaboração da psicanálise...
ocorrido na boate Kiss e as dificuldades que se colocaram à elaboração 
psíquica desse episódio para as pessoas envolvidas.
Um dos primeiros impasses percebidos no âmbito clínico, demonstra-
do pelos profissionais, dizia respeito à dificuldade ou mesmo impossibili-
dade de avaliar e de lidar com situações emocionais críticas. A pergunta 
sobre o que um profissional de saúde mental poderia fazer diante de ame-
aças suicidas e de heteroviolência, da manifestação de confusão mental, 
da permanência de vozes e de cheiros, da ausência de interesse na vida, 
eram classificados, frequentemente, como quadros para a emergência es-
pecializada, nesse caso, da psiquiatria. Diante de tal contexto, o recurso à 
medicalização acabou sendo, muitas vezes, uma resposta à angústia dos 
profissionais, identificados ao desamparo dos usuários.
Em parte, essa circunstância pode ser compreendida porque a escu-
ta psicológica e psicanalítica nas configurações tradicionais, se instituem a 
partir do destaque do significante como material para uma operação de ela-
boração que requer relação com o tempo, que não pode ser previsível e que 
não estava disponível nessa situação. A evidência do real imposta à transfe-
rência nos quadros descritos acima indica que, na direção do tratamento e 
com relação aos destinos da pulsão, trabalhamos com a perspectiva de que 
um quantum desse componente não se sujeita ao trabalho psíquico nem 
aos domínios da representação, permanecendo à deriva.
Com efeito, nessa circunstância, o estatuto da escuta como recurso 
clínico é questionado pelos profissionais, na medida em que, nas chamadas 
situações de urgência haveria pouco ou quase nada a escutar no discur-
so, já que a narrativa não comportaria o endereçamento transferencial de 
caráter decifrativo. Desde esse ponto de vista, a dificuldade recaía sobre a 
definição de quais condutas terapêuticas respondiam melhor à situação de 
urgência e como qualificar e dar retaguarda aos profissionais que se dispu-
nham a acolher as pessoas afetadas psiquicamente pelo desastre, garantin-
do a legitimidade da contribuição do campo psicanalítico.
A colaboração da psicanálise na urgência subjetiva
 
Desde os primeiros textos formulados por Freud, identificamos a psi-
canálise como um novo campo de conhecimento e de prática na aborda-
gem do sofrimento psíquico. Esse esforço de elaboração teórica encontrou 
na clínica um campo de experimentação e comprovação dos postulados, 
articulando a transmissão dos seus achados junto à cultura. Tal trajetória 
revela a postura freudiana de constituir sua prática operando nos campos e 
nas formas em que o mal-estar da civilização faz sintoma ao sujeito e é por 
72
Volnei Antonio Dassoler
essa via que o analista deve se colocar com relação àquilo que se produz 
no cotidiano humano. 
Nessa direção, Koltai (2013) afirma que há uma responsabilidade da 
psicanálise quando interpelada pelos fenômenos do seu entorno, não lhe 
sendo permitido se abster de testemunhar e interpretar o que lhe parecer 
acessível. Tal responsabilização se situaria tanto no nível da clínica, quanto 
no nível do social, visto que nenhum sintoma se forma sem essa implicação, 
à condição, ressalta ela, que diga respeito ao real, justamente, na conside-
ração dos eventos aos quais fomos convocados a partir do incêndio. Orien-
tados pela dimensão ética, nos é possível reconhecer a vigência do impos-
sível nos processos de trauma, dando alcance aos fundamentos freudianos 
de subjetivação, tanto na intervenção direta junto ao sujeito em sofrimento 
agudo, quanto no apoio aos profissionais que se ocuparam destas situa-
ções. Como exemplo, podemos citar as supervisões clínicas e as rodas de 
conversas com os paramédicos, precisamente por operar a partir do sujeito 
e do que ele pode saber fazer desse real que o toma e como se reporta a 
esse Outro em suas diferentes representações.
Nesse sentido, no trabalho inicial com a transferência, os profissionais 
eram orientados para que a mesma fosse instituída tendo o serviço como 
referência, direção clínica fundada no pressuposto de que um serviço de 
urgência pode ser demandado pelos usuários a qualquer momento do dia, 
sem agendamentos e disponibilidade prévia. Posteriormente, constatando-
se a necessidade da continuidade de atendimento, a transferência era sin-
gularizada em um técnico de referência. Assim, mantínhamos duas verten-
tes de endereçamento e transferência: uma inicial, dirigida ao serviço e, 
mais tarde, ao profissional. 
Nas demandas de urgência, o sofrimento evidenciado pelos familia-
res e amigos apresentava-se de forma aguda, questionava-se a realidade 
do acontecimento e a dor era descrita como insuportável, ameaçando a 
própria sensação de existência. Na narrativa dos familiares percebia-se o 
esvaziamento das referências responsáveis pela significação sobre a vida, 
numa posição de desistência e de perda de ideais. Aliado a isso, julgavam-
se fracassados como pais, por não terem conseguido proteger seus filhos 
dos perigos da vida. 
A obra freudiana contempla a noção de trauma em vários momentos, 
tendo como elemento permanente a interpretação do mesmo como amea-
ça à estabilidade e à integridade do eu, estado esse que decorre de uma 
situação imprevisível e intensa, que impossibilita o sujeito de recorrer, pre-
viamente, a mecanismos de proteção. Essa concepção está presente no 
texto Além do princípio do prazer, em que Freud ([1920]1995) vai acentuar 
73
A colaboração da psicanálise...
o aspecto econômico da libido como um dos componentes fundamentais na 
descrição da neurose traumática, justamente, por um quantum de energia 
romper e ultrapassar as barreiras protetoras dos mecanismos psíquicos do 
sujeito (p.43). Freud nos faz saber que:
Descrevemos como “traumáticas” quaisquer excitações provindas 
de fora que sejam suficientemente poderosas para atravessar o 
escudo protetor. Parece-me que o conceito de trauma implica ne-
cessariamente numa conexão desse tipo com uma ruptura numa 
barreira sob outros aspectos eficaz contra os estímulos. Um acon-
tecimento como um trauma externo está destinado a provocar um 
distúrbio em grande escala no funcionamento da energia do or-
ganismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas 
possíveis (p.45).
Podemos pensar que o incêndio na boate Kiss constitui-se como uma 
experiência de transbordamento pulsional ou, nas palavras de Freud,como 
um acontecimento capaz de provocar um distúrbio em grande escala da 
energia do organismo, que, experimentado pelo eu, advém como traumático 
por testar a capacidade de representabilidade psíquica. Essa particularida-
de configura-se como medida defensiva do aparelho psíquico, que opera 
no trabalho com a pulsão. Por ocorrer à revelia da vontade do sujeito, tal 
experiência se apresenta como uma crise aguda de natureza psíquica, ad-
quirindo caráter de urgência ao romper de maneira radical, inesperada e in-
tensa a trama significante que encadeia a rotina que cada um constrói para 
si, quandopassado, presente e futuro se ligam num tipo particular de ficção 
que designamos como a “história de vida de cada um”. 
Tendo como parâmetro a reforma psiquiátrica, Maron (2012) pondera 
que os dispositivos de urgência em saúde mental no Brasil foram os me-
nos permeáveis a transformações no seu modo de funcionamento, estan-
do, ainda, associados ao serviço especializado e a modelos operacionais 
padronizados, como a contenção e a medicação, de tal maneira que sua 
abordagem permanece restrita ao campo psiquiátrico. 
Segundo a autora, numa situação traumática, o sujeito não conta com o 
suporte da representação simbólica e imaginária nas quais se apoia, ficando 
exposto e desprovido da linguagem como recurso que sustenta a criação das 
ficções que dão enquadre ao corpo e à existência. Dentro dessa lógica, o 
desafio dos profissionais do Acolhe Saúde, no atendimento às pessoas em si-
tuação de crise, foi promover através da narrativa singular uma possibilidade 
de borda frente à experiência de desamparo reeditada a partir do incêndio. 
74
Volnei Antonio Dassoler
A obra freudiana, desde o Projeto para uma psicologia científica ([1895] 
1995) postula que, na origem da existência humana, há um estado de de-
samparo, resultado da precariedade constitucional do ser humano, que o 
torna dependente de outro já instituído. Essa experiência de desamparo 
é tratada e atenuada pela linguagem e pela presença constante do seme-
lhante, ou seja, pela instauração da dependência ao Outro, mas nunca é 
superada. Assim, diante um evento particular de alta gravidade, podemos 
considerar como consequência a reatualização do desamparo que sinaliza 
a desarticulação do engate entre pulsão e linguagem, condição intrínseca 
da própria subjetivação. 
Nessa sequência, Pipkin (2009), analista argentina, no livro La muerte 
como cifra del deseo: una lectura psicoanalitica del suicídio, introduz um 
capítulo sobre os obstáculos do luto a partir do incêndio na boate Croma-
non, indicando que nos é possível pensar o desamparo articulando-o com 
a função do eu, na medida em que este, ao operar pela sua vertente imagi-
nária, instala uma barreira que promove alguma forma de proteção através 
da revitalização fantasmática. Assim, o sintoma advém como uma resposta 
elaborada pelo sujeito a partir de suas coordenadas simbólicas como forma 
de resolver a problemática da falta pela articulação metafórica propiciada 
pela fantasia. 
Nessa mesma direção, Pereira (1997) postula que o eu (moi), enquan-
to instância imaginária constitui uma referência – que ao mesmo tempo é 
uma barreira – contra o inefável desejo do Outro, do qual a angústia é o 
sinal. Segundo ele, pela intervenção da dimensão imaginária da relação 
do eu ao Outro, esta angústia impensável encontra a possibilidade de ser 
constituída de forma fantasmática. Para o autor, seria de um lugar de alteri-
dade que a referência simbólica para a constituição de um eu, sede da an-
gústia, tomaria sua consistência e, diante disso, qualquer abalo na garantia 
do reconhecimento simbólico primordial questionaria radicalmente a própria 
estabilidade da imagem do eu. 
Como consequência clínica, teremos uma resposta menos afeita ao 
discurso e mais próxima do agir, ordenação que se afasta da configuração 
convencional do sintoma cifrado, portador de uma mensagem e articulador 
com a realidade. Esse quadro explicita a dificuldade enfrentada pelos profis-
sionais de saúde mental durante os atendimentos, e que eram verbalizados 
nas supervisões dos atendimentos. 
De acordo com Barros (2012), numa situação de crise aguda, a con-
dução clínica requer uma torção na noção de sintoma enquanto solução 
ou formação de compromisso, visto que essa dimensão estaria provisoria-
mente suspensa, na medida em que estaríamos lidando com um problema 
75
A colaboração da psicanálise...
aparente em estado puro, desvelando o sujeito na condição de desamparo. 
Partindo desse entendimento, os atendimentos realizados davam conta dos 
efeitos agudos e intensos dos usuários como resultado da imposição do real 
no traumático, que impediu ou, no melhor dos casos, dificultou as ligações 
significantes e as identificações imaginárias como recurso estabilizador. 
A operação clínica nesse cenário não visa ao desvelamento de um 
sentido oculto ou à decifração de algo que estaria articulado com alguma 
representação recalcada. O que se busca é promover um mínimo de ligação 
significante que retire o sujeito da experiência insuportável do irrepresen-
tável em que o enigma do desejo do Outro o lançou. Em resumo, a cola-
boração analítica nas situações de urgência em saúde mental visa retirar 
o sujeito da condição de objeto e inscrevê-lo, minimamente, no desejo do 
Outro, operação que se faz mediada pela alteridade e através do acesso à 
fantasia que o manejo clínico oportuniza e que pode ser orientado e propos-
to no trabalho multiprofissional.
Esse escutar mais amplo proposto como dispositivo clínico nas urgên-
cias pelas políticas de saúde mental aposta que qualquer profissional pode 
ocupar o lugar de mediador dessa operação que objetiva a produção de um 
mínimo de reconhecimento do sujeito no sofrimento que ele experimenta 
como advindo de uma exterioridade e que o situa numa posição de exceção, 
ou seja, de gozo. 
Partindo desse entendimento, a psicanálise assinala que, nesses ca-
sos, a presença de um semelhante, instituído como alteridade durante um 
atendimento de urgência, se faz de suporte mínimo no tratamento do ex-
cedente pulsional, permitindo abordar a fixidez das imagens, dos cheiros 
e das vozes, condução clínica que oportuniza a ligação da energia livre e 
desligada, e minimizando a tendência ao agir como substituto do simboli-
zar. A condição para que isso ocorra é a de que essa posição seja media-
da pelo recurso simbólico, intento obtido pela diferença que a alteridade 
promove. Essa direção de tratamento, inspirada na concepção de sujeito 
da psicanálise, orientou as supervisões clínicas nos casos de urgência 
recebidas a partir do incêndio com os trabalhadores de diferentes núcleos 
profissionais.
Com isso, as intervenções realizadas em situações de urgência adqui-
rem caráter de pertencimento e de significação mínima do desejo do Outro, 
mesmo que a pergunta do “por que isso aconteceu?” se mantenha insis-
tente e sem uma resposta definitiva. Como consequência, o semelhante 
encarnado nos diferentes profissionais da equipe multiprofissional do Aco-
lhe Saúde fez-se de função subjetivante, ao restituir ao sujeito afetado um 
mínimo de humanidade, devolvendo-lhe a condição de escapar da posição 
76
Volnei Antonio Dassoler
de objeto, efeito que se instaura pelo suporte material do corpo, pela palavra 
ou por outras formas de abordar o real. 
Entendemos que essa abordagem constituiu-se numa importante cola-
boração teórica da psicanálise viável no âmbito da clínica ampliada para as 
situações de crise e de urgência no campo da saúde mental e, como tal, foi 
proposta aos profissionais da equipe a partir das supervisões clínicas. 
O incêndio na boate Kiss desvelou de forma abrupta que a singularida-
de de cada sujeito é uma construção que traz impressa a marca da solidão 
e da finitude, quando a impotência humana se escancara num ato a partir 
do qual o enigma do desejo do Outro lança ao desespero aqueles que, sem 
saber as razões, se veem escolhidos para uma experiência de vida e paraa qual não encontram nenhuma resposta tranquilizadora. Para os sobrevi-
ventes, a precariedade da existência humana foi apresentada junto à luta 
pela própria sobrevivência. Para os profissionais que tiveram participação 
no resgate imediato, a exposição maciça ao horror e a experiência de morte 
em tão curto período de tempo foram componentes que abalaram a própria 
convicção da técnica como recurso frente ao real. Numa roda de conversa 
com a equipe do SAMU, um dos paramédicos envolvidos no resgate da-
quela madrugada afirmou que, embora se considerasse preparado para a 
tragédia e para a morte, para “isso” ele não estava preparado. Na mesma 
linha, muitos profissionais da imprensa que acompanharam durante dias 
e semanas os desdobramentos afirmaram terem solicitado às respectivas 
chefias o afastamento antecipado da cobertura, por não estarem em condi-
ções psicológicas de manter a continuidade do trabalho. Quanto aos pais, 
a situação mostrou-se mais complexa e difícil, justamente, por colocar em 
evidência a perda de um familiar, circunstância que acentua as dificuldades 
quanto à elaboração desta perda. 
Hoje, passado um ano daquela data, nos perguntam sobre a condição 
psicológica das pessoas afetadas. De maneira geral, ao ouvirmos pais, so-
breviventes e trabalhadores, iremos perceber que a maioria deles está de 
volta a sua rotina cotidiana (se quisermos considerar esse dado como cri-
tério diagnóstico para qualificar um processo de luto): trabalham, estudam, 
viajam, namoram, buscam alternativas de lazer, como qualquer pessoa. En-
tretanto, se, por um lado, a vida segue e as exigências do cotidiano estão 
sendo respeitadas, por outro lado, o enfrentamento dessa nova realidade 
não se apresenta linear nem imune a sobressaltos. O choro, a tristeza, os 
pesadelos e os questionamentos sobre o sentido da vida ainda são presen-
tes, e os tratamentos são marcados com inúmeros recomeços e desistên-
cias. Nesse sentido, o trabalho clínico não se apressa em forjar uma direção 
de tratamento que ambicione a superação da experiência vivida, situando-a 
77
A colaboração da psicanálise...
como parte do passado. Do ponto de vista da psicanálise, essa experiência 
se inscreve como parte da história pessoal e que, por intermédio do recurso 
ao simbólico, articulando presença e ausência, cria-se a chance de uma 
memória que recoloque o sujeito novamente nas tramas da sua ficção.
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Recebido em 01/10/2013
Aceito em 10/06/2014
Revisado por Renata Almeida
TEXTOS
78
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.78-88, jul. 2013/jun. 2014
Resumo: Este texto aborda a prática do apoio matricial em saúde mental como 
uma clínica em extensão, que busca alterar a frequente exclusão do sujeito e 
suas contingências de vida, que ocorrem em algumas intervenções na saúde 
pública. Na saúde pública predomina o discurso do mestre, biomédico, que é 
prescritivo e separa o sujeito doente do objeto doença. Já a perspectiva da 
humanização, da saúde coletiva e o discurso do analista incentivam a produção 
do saber dos sujeitos sobre si e dos profissionais sobre suas práticas e sobre 
os usuários.
Palavras-chave: apoio matricial, clínica em extensão, discursos.
MATRIX SUPPORT, AN EXTENSION CLINIC
Abstract: This paper addresses the practice of mental health support matrix as 
an extension clinic that seeks to alter the frequent exclusion of the subject and 
its contingencies of life from the interventions in public health. In public health 
dominates the discourse of the master, biomedical, which is prescriptive and 
separates the subject from the object ill illness. Already the prospect of human-
ization, the collective health and the discourse of the analyst encourages the 
production of knowledge about the subjects themselves and professionals on 
their practices and about users.
Keywords: matrix support, clinic in extension, discourses.
APOIO MATRICIAL, 
UMA CLÍNICA EM EXTENSÃO1
Elaine Rosner Silveira2
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013. 
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e do Instituto 
APPOA; Doutora em Educação/UFRGS; Psicóloga da Secretaria Municipal de Saúde; Pre-
ceptora do PET Saúde. E-mail: rosilelaine@gmail.com
79
Apoio matricial, uma clínica em extensão
O apoio matricial é uma prática proposta pelo Ministério da Saúde desde 2004 como um novo arranjo organizacional, uma nova forma de organi-
zar as relações entre profissionais, entre profissionais e usuários e também 
entre serviços da saúde (Brasil, 2004).
Gastão Campos (2007) é o autor da área de saúde coletiva que primei-
ramente conceituou essa prática. Para ele, o apoio matricial é um suporte 
assistencial e técnico-pedagógico dos profissionais de serviços especializa-
dos para equipes de referência, como por exemplo as equipes dos Postos 
de Saúde da Atenção Primária à Saúde, tema que vou abordar neste traba-
lho. Esse suporte pretende aumentar a eficácia e a eficiência do trabalho em 
saúde. A palavra matricial refere-se a matriz, que em latim significa “o lugar 
de onde se geram e se criam as coisas” (Campos, 2007, p.402), e também 
indica um conjunto de números que guardam relação entre si vertical, ho-
rizontal e transversalmente (Campos, 2007). O apoio matricial inclui várias 
ações, como a discussão de caso ou o atendimento conjunto do profissional 
do serviço especializado com o profissional do posto de saúde e a formula-
ção de projetos terapêuticos singulares, bem como a intervenção nos pro-
cessos de trabalho, entre outras (Brasil, 2004, 2009).
Os serviços de saúde se organizam em três níveis: o nível primário 
(postos de saúde), o secundário (serviços especializados de saúde mental, 
AIDS, especialidades médicas, etc.) e o terciário (hospitais). Esses servi-
ços costumam se relacionar muitas vezes de forma vertical e burocratizada 
através de papéis e documentos, de infindáveis encaminhamentos que só 
transferem responsabilidades. O apoio matricial tem essa função de propi-
ciar relações horizontais e transversais entre profissionais e serviços, dimi-
nuindo a fragmentação no processo de trabalho, ampliando também a visão 
sobre o processo saúde/doença/intervenção, fomentando dessa forma a 
interdisciplinaridade e a ampliação da clínica. 
A ideia de clínica ampliada e compartilhada também é formulada pelo 
Ministério da Saúde (Brasil, 2009) e por Gastão Campos (2007), e pretende 
contribuir para que os profissionais percebam o doente como singular, para 
além da universalidade do diagnóstico e da doença; que os profissionais as-
sumam responsabilidade sobre os usuários; busquem, quando necessário, 
a ajuda em outros setores ou instituições que não só da saúde (intersetoria-
lidade); reconheçam os limites do conhecimento de cada área profissionale 
a importância de trabalhar-se interdisciplinarmente; tenham o compromisso 
ético com quem é atendido; e trabalhem na perspectiva da “produção de 
vida” (Brasil, 2004, p.10). Esse documento do Ministério da Saúde aponta a 
80
Elaine Rosner Silveira
incompletude constituinte dos saberes profissionais para dar conta do real 
e a importância de se trabalhar em equipe, bem como a incompletude da 
instituição da saúde e a importância do trabalho conjunto com instituições 
de outras áreas, como a assistência social, a educação, a justiça, entre 
outros. 
A clínica ampliada e o apoio matricial são ferramentas da Política Na-
cional de Humanização do Ministério da Saúde – o HUMANIZASUS –, que 
pretende humanizar a assistência e a gestão na saúde. Ambos acontecem 
para além das quatro paredes do consultório. Lacan (2003) chama o setting 
tradicional da clínica de psicanálise em intensão e chama de psicanálise 
em extensão aquela que presentifica “a psicanálise no mundo” (p.251). Ele 
considera que a clínica psicanalítica em intensão prepara operadores para a 
psicanálise em extensão, e parece-me que vice-versa, já que diz que essas 
clínicas não são opostas e devem ser tomadas de forma moebiana. Pode-
se utilizar essa noção de psicanálise em extensão para o trabalho realizado 
nas instituições, nos serviços públicos e no apoio matricial. A clínica am-
pliada, que trabalha além do setting tradicional da clínica, ao se utilizar do 
referencial psicanalítico como um dos norteadores da intervenção, pode ser 
tomada como uma psicanálise em extensão, ou, como estou chamando, de 
uma clínica em extensão. 
Trabalho na Secretaria Municipal de Saúde, realizando clínica em in-
tensão e também apoio matricial a postos de saúde do tipo Unidade de 
Saúde da Família (USF) e Unidades Básicas de Saúde (UBS). As USF’s 
possuem uma equipe mínima de profissionais generalistas, como médico 
clínico comunitário, enfermeiro, técnicos de enfermagem, agente comunitá-
rio de saúde, e algumas possuem também dentista e auxiliar de odontolo-
gia. As UBS’s possuem uma equipe um pouco maior, com algumas especia-
lidades, como ginecologistas, nutricionistas e pediatras, mas sem o agente 
comunitário de saúde.
Nos postos de saúde os profissionais atendem a um leque diversifi-
cado de situações: pessoas com diabetes, hipertensão, gestantes, bebês, 
idosos, crianças, problemas psíquicos, etc. E embora a saúde mental faça 
parte da saúde mais ampla, comumente os profissionais da rede básica 
referem não ter tempo e/ou disponibilidade de escutar a subjetividade dos 
pacientes, encaminhando o atendimento em saúde mental para os serviços 
especializados. 
Tomemos a articulação entre discurso, sujeito e subjetividade em Fou-
cault, para pensar os discursos que subjetivam os profissionais da saúde. 
81
Apoio matricial, uma clínica em extensão
Para Foucault (2004), o sujeito não tem uma essência nem é intemporal, 
ele se constitui nos discursos propostos pela sua cultura, seu grupo social e 
sociedade. O processo de subjetivação, para Foucault, consiste em assumir 
os discursos de uma época, que são ofertados como verdade e que passam 
a constituir o sujeito, sejam discursos de modelos científicos ou encontrados 
nas instituições ou nas práticas. Baseado neste argumento, Larrosa (2002) 
refere que os sujeitos das práticas terapêuticas e pedagógicas não pode 
ser analisado separado dessas práticas, as teorias e práticas aprendidas 
produzem o objeto sobre o qual trabalham e também os sujeitos que delas 
se utilizam. Dessa forma, pode-se pensar que a formação dos cursos da 
saúde constituem os sujeitos profissionais da saúde, além de constituir o 
seu objeto de trabalho. Os profissionais da saúde foram subjetivados em 
sua formação predominantemente dentro do discurso biomédico, que, se-
gundo assinalam os autores da saúde coletiva Ceccim e Capazolo (2004), 
atenta para os aspectos biológicos do adoecimento e para a objetividade, 
em detrimento dos aspectos subjetivos e sociais, bem como ensina a tra-
balhar na especialização e de forma isolada. Reproduzem, nestas condi-
ções, as dicotomias cartesianas mente/corpo e sujeito/objeto, constitutivas 
das disciplinas da ciência moderna, conforme Luz (1988). Separam o que 
é considerado o objeto da saúde – os sintomas, a doença e o corpo –, do 
sujeito que sofre e suas significações. Os profissionais também não são 
sensibilizados em sua formação para a questão do enlace da linguagem que 
articula o biológico, o psíquico e o social – já que o ser humano é constituído 
no simbólico da cultura e da linguagem, e a escuta do sujeito propicia essa 
amarração entre corpo, contexto de vida e subjetividade. 
Muitas vezes há o entendimento de que o objeto de trabalho dos profis-
sionais da atenção primária à saúde é apenas a doença; os procedimentos 
rotinizados de injeção, curativo, vacina; o pedido de exames; a prescrição 
de medicação, etc. E o que foge ao padrão é considerado não fazer parte da 
assistência, ou seja, tudo que aponta para a singularidade e para o sujeito. 
E em vez de a clínica e de a escuta do sujeito dirigirem as ações em saúde, 
não sempre, mas muitas vezes, as rotinas padronizadas é que as dirigem. 
Assim, algumas vezes os profissionais encaminham de forma defensiva, 
para se proteger do contato, bem como da angústia diante do real da clínica 
e da sensação de impotência. Essa angústia fica amplificada porque os pro-
fissionais não receberam em sua formação ferramentas teóricas e clínicas 
para trabalhar os aspectos subjetivos do adoecimento e são demandados 
82
Elaine Rosner Silveira
pela instituição a prestar uma assistência integral em saúde. Há que se dizer 
que as formas de agir descritas estão presentes também nos atendimentos 
privados de saúde, e não só na esfera pública, e têm a ver com a subjeti-
vação inscrita nos discursos aprendidos na formação dos profissionais e 
também com o desamparo diante das manifestações do psíquico e do de-
samparo dos usuários. 
Observa-se essa exclusão da subjetividade em diferentes situações: 
uma enfermeira de um posto de saúde foi incentivada pelo matriciamento 
a realizar atendimento mais detalhado em uma situação de saúde men-
tal, e, após fazê-lo, pergunta se deve anotar as informações coletadas no 
prontuário do paciente; às vezes os profissionais anotam numa ficha em 
separado. Percebe-se que a escuta realizada e as informações obtidas não 
são entendidas como fazendo parte da história dos atendimentos em saúde 
a essa pessoa e nem das atribuições do profissional de saúde, tanto que 
há dúvidas quanto à anotação no prontuário; este é considerado o lugar 
onde se anotam as doenças biológicas do corpo, estas, sim, consideradas 
o objeto de trabalho desses profissionais. O matriciamento incentiva a en-
fermeira a anotar no prontuário as valiosas informações coletadas para que 
outros profissionais que venham a atender o mesmo paciente também pos-
sam conhecê-las. Outra situação que aponta para a exclusão do sujeito 
dos atendimentos refere-se aos médicos clínico-gerais, que podem renovar 
durante meses ou anos a receita de medicações psiquiátricas de pacientes 
que já se trataram em serviços de saúde mental ou que aguardam vaga. 
Porém, às vezes não indagam como a pessoa está, como está tomando a 
medicação ou por que não está tomando, apenas repetem a prescrição da 
receita, entendendo que não é sua função de médico clínico-geral averiguar 
como o paciente está subjetivamente, mas, sim, investigar o funcionamento 
do rim, do pulmão e da pressão arterial. Como efeito desta prática, o psí-
quico fica reduzido a uma alteração do metabolismo cerebral, que deve ser 
sanada com o fármaco, não se levando em conta as vivências subjetivas 
daquele que toma a medicação ou daquele que sofre, eliminando o sujeito 
e suas contingências de vida do processo de seu tratamento ou de seu 
adoecimento. 
Também verifica-se essa exclusão do sujeito na clínica prescritiva, mui-
to comum entre os profissionais da saúde. Nesta, impõe-se um idealde saú-
de padronizado ao qual o sujeito deve se submeter. Informa-se ao paciente 
que ele “tem que” seguir tal dieta, “tem que” fazer exercícios físicos, “tem 
que” tomar tal medicação, e se isso não é executado, em geral pouco se 
investiga do porquê, ou, às vezes, produz resistência no próprio profissional 
para continuar a atender esse paciente. Muitas vezes, o fato de não seguir 
83
Apoio matricial, uma clínica em extensão
uma prescrição tem a ver com valores próprios, culturais ou singularidades 
no entendimento do que possa ser melhor para si. 
No seminário O avesso da psicanálise, Lacan formula os quatro dis-
cursos (discurso do mestre, discurso da histérica, discurso do universitário, 
discurso do analista), propondo que esses discursos se fundam na lingua-
gem, estruturam o laço social, existem para além do sujeito e o constituem 
(Rabinovich, 1979). Tomando essa noção de discurso como ferramenta de 
análise, podemos dizer que as situações abordadas e a lógica do “tem que” 
relacionam-se ao discurso do mestre, por serem uma prática normativa e 
superegoica, que anula o sujeito em sua divisão, tomando-o apenas como 
objeto dos cuidados em saúde – o mestre quer apenas que as coisas fun-
cionem tal como prescreveu. O discurso do mestre é marcado pela vontade 
de domínio (Rabinovich, 1979) e, ao eliminar a falta, elimina a subjetividade, 
tanto quanto o discurso cartesiano da ciência.
Embora muito comumente os profissionais nos postos de saúde ten-
tem “passar”, e se desvencilhar do caso de saúde mental, para o profissio-
nal do serviço especializado, é responsabilidade da rede básica conhecer 
e acompanhar de forma longitudinal os moradores do território adstrito ao 
posto, sua subjetividade e seu contexto, pois essa é a atenção integral à 
saúde proposta pelo SUS. Por isso, boa parte do trabalho de apoio matricial 
em saúde mental norteado pela psicanálise consiste em auxiliar profissio-
nais a se implicarem naquilo que é de sua responsabilidade e naquilo que 
produzem, a se responsabilizarem pelo atendimento dos casos, escutando 
o que cada um apresenta como singular e os aspectos de seu contexto 
social específico, a não terem pressa em atender e encaminhar, nem busca-
rem o imediatismo de resultados, bem como a repensarem a medicalização 
excessiva e desnecessária do sofrimento psíquico e da vida. Auxilia-se para 
que os profissionais não tomem os sintomas como remetendo apenas a um 
signo-doença, como seria típico do modelo biomédico e do discurso do uni-
versitário, que, segundo Rabinovich (1979), acredita em um saber científico 
todo no lugar do saber constituído pelo sujeito, que objetaliza o outro a partir 
desse saber. Propõe-se que os sintomas sejam tomados como significan-
tes, que representam o sujeito para outro significante (na cadeia associativa 
discursiva), permitindo que o sujeito situe os sintomas na sua vida. 
Na prática do apoio matricial é importante levar em conta o pedido da 
equipe ou do profissional do posto de saúde, aquilo que mobilizou a busca 
por matriciamento. Da mesma forma que é importante auxiliar a equipe a 
também reconhecer o pedido do paciente, o que mobilizou sua busca por 
ajuda no posto de saúde, pois essa é a brecha por onde a intervenção do 
profissional é solicitada, e por isso não será sentida como intrusiva. É quan-
84
Elaine Rosner Silveira
do os profissionais realizam um pedido e se queixam que um sujeito começa 
a emergir, assim como acontece com o analisante e os usuários do SUS. 
Contribui-se para que os profissionais não busquem sucumbir rapidamen-
te ao pedido imediato dos pacientes, mas escutem a demanda, ou seja, o 
que está além do pedido circunscrito, realizando a escuta do contexto, bem 
como das questões específicas de sua faixa etária. Esse espaço de tempo 
entre o pedido e a resposta é a condição para que aí possa emergir o su-
jeito, uma reflexão, um deslocamento, um aspecto ainda não observado ou 
uma questão. Dessa forma, assinala-se a importância da escuta do subjeti-
vo nas manifestações sintomáticas e do poder de elaboração da palavra e 
da reflexão para a simbolização do real do mal-estar psíquico e/ou social. 
Incentiva-se, assim, a oferta de outros recursos para atenção aos fenôme-
nos psíquicos na rede básica, que não só os recursos já utilizados, como a 
indicação de remédio, diagnóstico, encaminhamentos. 
Ao escutar caso a caso, conseguem-se construir direções de tratamen-
to e projetos terapêuticos singulares e contingentes. Dessa forma, constrói-
se que o objeto do trabalho na saúde é um sujeito, e não apenas um objeto 
de cuidados, pois esse sujeito fala, e falar de si e de sua situação é o que 
o singulariza e o que humaniza o atendimento! Aqui, no meu entender, é 
quando se opera a humanização do apoio matricial. Amplia-se o que se 
considera o objeto de trabalho na saúde, que não é somente o diagnóstico, 
o procedimento per se, a padronização rotinizada, a forma fragmentada de 
trabalhar... O apoiador matricial, valendo-se do referencial da psicanálise e 
da humanização, busca propiciar o deslocamento de uma prática às vezes 
objetalizadora para uma prática que leve em conta o sujeito, ao se posicio-
nar na perspectiva do discurso do analista, que, no seminário O avesso da 
psicanálise, Lacan ([1969-1970]1992) diz que é o avesso do discurso do 
mestre3. Ou seja, o discurso do analista, segundo Rabinovich (1979), toca 
o real, opera pela transferência e não pretende o domínio, portanto, reco-
nhece a falta à qual estão submetidos tanto o profissional como o usuário, e 
incentiva a produção de saber onde está a verdade. É importante salientar 
3 Já no seminário seguinte De um discurso que não fosse de um semblante, Lacan ([1971] 
2009) diz que o discurso do mestre não é o avesso do discurso do analista, mas, sim, o lugar 
onde se demonstra a torção própria do discurso da psicanálise, sua inscrição dupla no direito e 
no avesso sem que precise transpor uma borda.
85
Apoio matricial, uma clínica em extensão
que o conceito de humanização, bem como as discussões trazidas pelos 
autores da área de saúde coletiva, no meu entender, convergem com a psi-
canálise no sentido de escutar o saber singular dos sujeitos e de humanizar 
os atendimentos. 
A noção de clínica ampliada indica a importância de não se dissociar 
a clínica das formas de organização do trabalho e de sua gestão, conforme 
assinala Rosana Onocko Campos (2012). Algumas vezes, os profissionais 
das equipes da rede básica trabalham de forma isolada, não havendo tro-
ca entre eles sobre casos que são atendidos por mais de um profissional. 
Uma situação de uma pessoa ou uma família pode ser muito conhecida pelo 
agente comunitário, ao mesmo tempo, o médico ou o enfermeiro atende 
essa pessoa levando em conta as informações obtidas na sua consulta es-
pecífica, e às vezes se desconhece todo o conjunto de informações obtidas 
pelo agente comunitário ou o técnico de enfermagem. Ou vice-versa, os 
agentes comunitários desconhecem as informações trazidas nas consultas. 
Por isso, o apoio matricial tem uma função importante também de intervir 
nos processos de trabalho. Considero condição sine qua non fazer o ma-
triciamento reunindo os profissionais que conhecem o caso e podem falar 
sobre ele: além do profissional com quem ele consultou (o médico, o enfer-
meiro), o agente comunitário traz contribuições importantes na discussão 
do caso, pois ele conhece a história das pessoas, ele reside na comunidade 
e circula em frequentes visitas domiciliares. Ao incentivar a circulação da 
palavra entre esses membros da equipe, ativa-se a transferência de traba-
lho e o desejo dos profissionais sobre aqueles casos que algumas vezes 
são considerados “casos perdidos” ou sem saída. Dessa forma, propicia-se 
um trabalho coletivo de elaboração sobre as situações clínicas difíceis e 
amplia-se o olhar sobre a complexidade e as possibilidades de intervenção, 
compartilhando-se as avaliações e as terapêuticas.
Ana Cristina Figueiredo (2004) e Viganó (1999)propõem, como meto-
dologia para a discussão de casos em equipe, a construção do caso a partir 
do que causa impasse a cada profissional, e não a interpretação, que seria 
a decifração dos significantes recalcados. Assim, a contribuição da psicaná-
lise se situa na transmissão de uma forma de trabalhar que toma cada caso 
sem antepor-lhe um saber constituído, conforme assinala Viganó (1999). E 
em transmitir que a humanidade está na particularidade, ou seja, transmi-
tir a utilidade de trabalhar-se levando em conta a particularidade, segundo 
Laurent (1999), impedindo que qualquer saber universal constituído apague 
o particular. O trabalho de construção refere-se a registrar os significantes 
do discurso (de profissionais e usuários), as movimentações, as pequenas 
mudanças, as respostas às intervenções, a relação com o Outro na transfe-
86
Elaine Rosner Silveira
rência. Essa é uma posição ética que a psicanálise pode auxiliar a sustentar 
na saúde pública: a clínica do caso a caso, e que não se pauta tanto por 
transmitir um saber, mas, sim, por um modo de proceder e de conhecer que 
preserva sempre o “não saber” sobre os casos, que leva em conta o pedido 
e a trajetória do sujeito nos serviços, bem como a forma como se dá seu 
encontro com os profissionais, utilizando essas informações para articular 
seu projeto terapêutico singular. 
O apoio matricial também possibilita espaço para a escuta dos pro-
fissionais e das equipes, que às vezes querem falar sobre as dificuldades 
nos processos de trabalho. Essa escuta pode gerar ações do matriciador 
junto ao gestor, por exemplo, apontando a importância de esclarecer aos 
profissionais informações que até então não estavam explicitadas, o que es-
tava amplificando as angústias. Pois, como bem destacou Onocko Campos 
(2012), é importante que a gestão leve em conta as questões trazidas pelas 
equipes para nortear suas ações, assim como na clínica se considera o que 
interroga aquele que vem falar para dar direção ao trabalho. Também o fato 
de conviver com injustiças, desigualdade, violência e miséria tem efeitos 
sobre os profissionais que estão em permanente exposição ao sofrimento 
e à dificuldade de simbolização que a pobreza extrema provoca (Campos, 
2012). Em vez da exclusão do que há de singular em cada um – tanto do 
lado do profissional como do usuário – que o discurso do mestre propicia, o 
apoio matricial com viés psicanalítico incentiva a entrada dos profissionais 
e dos usuários no discurso histérico (Rabinovich, 1979), incentivando-os a 
falar para que produzam seus próprios significantes e saber a respeito de 
sua experiência. Isso propicia um norteamento do trabalho a partir do reco-
nhecimento da falta, auxiliando para que esta não paralise os profissionais, 
mas, sim, os impulsione. 
Observa-se que os profissionais da rede básica, quando percebem os 
efeitos produtivos de trabalhar escutando as subjetividades e serem eles 
próprios escutados, costumam ser muito receptivos e pedirem novamente 
este suporte do apoio matricial. Se, na implantação do apoio matricial, os 
profissionais traziam informações mínimas sobre cada caso, com o passar 
do tempo trazem informações mais detalhadas, perdem o receio das mani-
festações psíquicas, que passam a ser melhor acolhidas e não percebidas 
como uma coleção de sintomas sem sentido, mas, sim, como indicadores 
da condição existencial daquele sujeito, bem como amplia-se a interlocução 
dentro das equipes sobre os casos. Produzem-se, assim, novas possibili-
dades de intervenções entre os profissionais da atenção primária quanto a 
suas práticas, que passam a ampliar a escuta e o olhar sobre outros aspec-
tos do adoecimento, que não só o que motivou a consulta. 
87
Apoio matricial, uma clínica em extensão
Podemos dizer que diferentes discursos e ideais organizam os sujeitos 
e estão sempre presentes nas instituições, e as próprias posições discursi-
vas podem se alternar em um mesmo sujeito. O importante é propiciar os 
giros discursivos para que não haja cristalização em uma única posição e 
o apagamento dos sujeitos desejantes. A circulação entre os diferentes dis-
cursos auxilia os profissionais na reflexão sobre os efeitos das suas ações 
e sobre o que está se produzindo em saúde (Campos, 2012), engendrando 
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Recebido em 15/02/2014
Aceito em 02/05/2014
Revisado por Clarice Sampaio Roberto
TEXTOS
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Resumo: Este artigo se propõe a uma discussão sobre as práticas de cuidado no 
campo da saúde mental infanto-juvenil, quando alicerçadas na escuta clínica e na 
articulação de um trabalho interdisciplinar e intersetorial. Traz, para sustentar tal 
discussão, o acompanhamento de uma jovem em situação de emergência em saú-
de mental, que necessitou ser acolhida em diferentes espaços da rede e que con-
seguiu, ao longo desse processo, produzir uma passagem subjetiva importante. O 
texto aposta nos efeitos subjetivantes da escuta clínica nas instituições, e no quanto 
a discussão e articulação em rede se faz indispensável a este trabalho de saúde 
mental, principalmente nos casos graves ou emergenciais.
Palavras-chave: saúde mental infanto-juvenil, intersetorialidade, interdisciplinarida-
de, práticas de cuidado.
THE CLINIC AND THE CARE PRACTICES IN THE ATTENTION 
TO CHILDHOOD AND ADOLESCENCE SERVICE
Abstract: This paper proposes itself to discuss the care practices in the infant-you-
th mental health field, when grounded in the clinical listening and in the articulation 
of an interdisciplinaryand intersectoral work .To support such discussion, the paper 
brings the accompaniment of a young woman in an emergency state of mental heal-
th, who needed to be welcomed in different spaces of the system and who managed, 
to throughout this process, produce an important subjective passage. The text defen-
ds the subjectivizing effects of the clinical listening in the institutions, and how much 
the discussion and articulation in the system makes itself indispensable to this form 
of work with mental health, especially in serious or emergency cases.
Keywords: Infant-Youth Mental Health, Intersectoral, Interdisciplinary, care practi-
ces.
A CLÍNICA E AS PRÁTICAS 
DE CUIDADO NA REDE DE
 ATENÇÃO À INFÂNCIA 
E ADOLESCÊNCIA1
Ieda Prates da Silva2
Tatiane Reis Vianna3
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.89-99, jul. 2013/jun. 2014
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista, Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre(APPOA) e Membro do 
Instituto APPOA; Supervisora clínico-institucional de equipes de saúde mental da infância e 
adolescência. E-mail: iedaps@uol.com.br 
3 Psicóloga;Psicanalista;Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre(APPOA)e Mem-
bro do Instituto APPOA; Integrante da equipe do CIAPS; Mestre em Psicologia Social e Institu-
cional (UFRGS).E-mail: tativianna@cpovo.net
90
Ieda Prates da Silva e Tatiane Reis Vianna
Quando se trata das práticas de cuidado no campo da saúde mental, incluem-se intervenções que começam muito antes da chegada do usu-
ário ao serviço: iniciam, muitas vezes, nas reuniões de rede, em entrevistas 
nas escolas e outras instituições, na discussão do caso com os encaminha-
dores. Igualmente, se sustentam nas atividades de estudo e de formação 
permanente: seminários, fóruns de debate, grupos de estudos, supervisões 
de equipe. E, ainda, na interdisciplinaridade e intersetorialidade, exercidas 
no cotidiano dos CAPS e dos demais serviços nos territórios.
Isto posto, iniciaremos falando de um dispositivo clínico que opera na 
lógica do cuidado, e que é uma forma de intervenção que consideramos de 
extrema importância para a sequência do caso e seus desdobramentos: o 
acolhimento, que indica a forma como o paciente é recebido. Sabemos que 
nem todos os pacientes acolhidos são indicados para tratamento nos servi-
ços de saúde mental, mas, qualquer que seja a situação daquele que chega 
pedindo ajuda precisa encontrar um olhar e uma escuta que o singularizem. 
Enfim, que lhe deem um lugar e um espaço para sua palavra. Se não for 
para atendimento no serviço, este poderá se encarregar de estabelecer par-
cerias, discutir o caso com outrem, de forma a se produzir e a se reconhecer 
um endereçamento.
Esta questão de endereçamento é muito importante no trabalho em 
saúde mental. Por endereço nos referimos a um lugar discursivo suposto, 
mas que deverá estar sustentado por alguém: uma “presença viva”, no dizer 
de Cristina Ventura (Couto; Delgado, 2010, p.276). Essa presença configura 
um lugar de endereço para as palavras. Encontrar alguém em posição de 
escuta desejante é condição para que surja a palavra, a palavra que faz 
sujeito.
Quando se trata da infância e adolescência, é importante destacar que, 
para além da demanda social que nos é endereçada, por trás das queixas 
familiares ou institucionais desta criança ou adolescente, precisamos possi-
bilitar que ele venha a formular sua própria demanda. Frequentemente nos 
deparamos com situações diversas: o adolescente pode chegar sozinho, ou 
acompanhado de alguém que nada sabe sobre ele (um vizinho, um amigo 
da mãe, ou o funcionário de uma instituição, por exemplo), assim como 
pode chegar cercado por uma pequena multidão aturdida: pais, tios, irmãos, 
avós. Esta cena de chegada ao serviço aponta para uma mesma situação 
do lado da criança/adolescente: em ambos os casos, este sujeito que nos 
é trazido encontra-se ao desamparo. Ter gente a sua volta não quer dizer 
estar acompanhado. 
Este pedido de ajuda surge quando há alguém suposto em condições 
de dispensar uma escuta singular ao sujeito: é o que Lacan nomeia de su-
91
A clínica e as práticas de cuidado...
jeito suposto saber, função que permite o estabelecimento da transferência. 
Isto é, da relação de confiança necessária para que haja tratamento em saú-
de mental, para que se instale o processo terapêutico e o sujeito se ponha 
a falar de si, se ponha a brincar ou desenhar (tratando-se da infância). Esta 
relação de confiança pode se dar inicialmente com a instituição. Depois, 
estas transferências vão sendo singularizadas, mas permanecem no bojo 
de um endereçamento inicial à instituição. Ou seja, o terapeuta que intervém 
ali, o faz a partir de um desejo terapêutico sustentado em sua prática espe-
cífica, mas também em nome de seu pertencimento à instituição e de sua 
inserção na rede de atenção à infância e adolescência. 
A questão do acolhimento e seus desdobramentos na clínica e no 
trabalho em rede nos faz lembrar o caso de uma adolescente, que cha-
maremos de Patrícia, em situação de grande fragilidade psíquica e ruptura 
familiar, que chega inicialmente ao serviço de saúde mental infanto-juvenil 
da cidade em que morava na época. A estratégia de atenção e cuidado só 
foi possível pela articulação intersetorial que se fez entre diferentes serviços 
de saúde mental, assistência social e educação, num diálogo institucional 
que envolveu três municípios. Este caso produziu uma grande mobilização 
naquele serviço, bem como no hospital que o acolheu em momentos de 
crise, além de instituições de abrigamento, a fim de constituir uma possibi-
lidade de passagem subjetiva e retorno ao convívio familiar, na medida do 
possível.
Esta menina chegou ao CAPSi com 15 anos, em um profundo desam-
paro subjetivo, com constantes passagens ao ato (tentativas de suicídio, 
automutilações), à beira do enlouquecimento e do risco de vida.
Tomamos desamparo, aqui, como o conceito freudiano (Hilflosigkeit) 
que faz referência à prematuridade psíquica e biológica do ser humano em 
relação aos outros animais providos de instintos, o que faz com que ele 
venha ao mundo num estado de inacabamento e despreparo, tornando-se 
extremamente dependente da ação e do desejo do Outro para a sua sobre-
vivência (Freud, [1920]1974). Relação essa sustentada numa cadeia discur-
siva imaginária e simbólica, sem a qual o filhote humano não se humaniza. 
A correspondência entre desamparo psíquico e angústia é direta na obra 
freudiana: 
Essa angústia tem toda a aparência de ser uma expressão do sen-
timento da criança em sua desorientação, como se em seu estado 
ainda muito pouco desenvolvido ela não soubesse como melhor 
lidar com sua carga pulsional (Freud, [1926]1974, p.160).
92
Ieda Prates da Silva e Tatiane Reis Vianna
 E logo adiante, nesse mesmo texto: “[...] verifica-se que a angústia é 
um produto do desamparo psíquico da criança, paralelo a seu desamparo 
biológico” (Freud, [1926]1974, p.162). Tal desamparo não é presente ape-
nas nos primórdios da vida, mas se reedita em muitos outros momentos da 
estruturação psíquica, especialmente nos momentos de passagem, entre 
eles, o da adolescência. 
Sabemos o quanto essa passagem da condição infantil para a condi-
ção adulta, que implica a transição do laço familiar ao laço social, provoca 
desarranjos ou rompimentos nas representações imaginárias e na trama 
significante que constituía o sujeito até então, incrementando sentimentos 
de desamparo. Muitas crises psíquicas que se dão nestas passagens po-
dem vir a ter efeitos determinantes na estrutura subjetiva que se define a 
partir daí. 
O caso de Patrícia nos remete a pensar sobre estes processos de 
passagem, e a função que a articulação entre os profissionais e serviços 
veio a operar. 
Anos depois Patrícia retorna ao serviço de saúde mental, morando já 
em outra cidade. Visita a equipe para revê-los e dar notícias.Conta que 
estava morando sozinha, trabalhando, estudando e que estava namorando. 
Esta visita inesperada (pois já fazia alguns anos que não tínhamos nenhum 
contato com ela) nos fez repensar toda a trajetória de atendimento desta 
menina. 
Vamos falar um pouco desta trajetória, e do que pudemos ir pensando 
juntas, ao relembrá-la. Patrícia era filha única, tendo vivido só com a mãe 
até por volta dos treze anos de idade, com uma historia de recorrentes rom-
pimentos familiares. 
Quando ela entrou na adolescência, o luto em decorrência da perda 
da condição infantil, que necessita se efetivar durante esta passagem, tanto 
para os pais como para os filhos, viu-se truncado em função do rompimento 
da relação entre Patrícia e sua mãe (Patrícia estava abrigada naquele mo-
mento). Logo após, houve um afastamento ainda maior, com a menina indo 
morar em outra cidade. 
As descobertas de Patrícia em relação à sexualidade vieram acompa-
nhadas do desvelamento da história de prostituição na vida da mãe, acen-
tuando ainda mais o desabamento materno do lugar idealizado pela filha na 
infância. Este desabamento imaginário encontra seu corolário na extrema 
fragilidade da mãe para arcar com as funções parentais.
Patrícia foi abrigada e, pouco depois, entregue a uma tia que morava 
em outra cidade. Vale lembrar que a tia, na fantasia de Patrícia, imediata-
mente passou a ocupar o lugar dos pais fantasiados, no que Freud descre-
93
A clínica e as práticas de cuidado...
ve como romance familiar do neurótico (Freud, [1909]1974): alguém ideali-
zado, de um nível social diferente, capaz de lhe fornecer imaginariamente 
outro reconhecimento, mas que, no entanto, por se tratar de uma figura 
substitutiva das figuras parentais, fazia a função de auxiliar na separação 
das mesmas; ao mesmo tempo que conservava características muito seme-
lhantes a estas figuras. Outra questão importante é que esta tia se ocupava 
de cuidar de bebês e crianças pequenas, o que veio a acentuar sintomas 
de ciúme e agressividade por parte de Patrícia, que reivindicava um lugar 
infantil de exclusividade.
Pela gravidade de suas passagens ao ato (tentativas de suicídio, he-
tero e autoagressão), a tia tenta devolvê-la, mas o juiz nega o pedido e 
encaminha a menina para atendimento psiquiátrico. É assim que ela chega 
ao CAPSi e é inicialmente medicada, sendo que o caso não vem para dis-
cussão de equipe. Há algo que falha aqui, no acolhimento, e só vamos nos 
dar conta disto mais tarde, com as sucessivas internações psiquiátricas de 
Patrícia. Constatamos que não é algo raro nos serviços de saúde mental: 
os casos considerados graves, ou urgentes, produzem na equipe uma an-
gústia e uma ânsia de intervenção que, via de regra ,prima pela tentativa de 
contenção dos sintomas, geralmente por via farmacológica. E muitas vezes 
se reduz a isto a intervenção, como se a medicação pudesse magicamente 
– ao extinguir ou diminuir os sintomas – operar a elaboração do sofrimento 
que está em causa no sintoma ou no ato desesperado do paciente. Nes-
ses casos graves e/ou urgentes, é comum se precipitarem intervenções de 
contenção, falhando o acolhimento cuidadoso e a escuta clínica necessária, 
dispensados a inúmeros outros pacientes atendidos no serviço. 
Em muitas ocasiões, a intensificação da crise se manifesta como uma 
urgência, quando a palavra perde sua eficácia de representar o sujeito. São 
os momentos nos quais o sujeito desaparece e é jogado em uma passa-
gem ao ato, como em algumas tentativas de suicídio e agressão nos surtos 
psicóticos, ou quando o sujeito fala através dos atos, num endereçamento 
inconsciente, que pode ser lido como apelo de que algo ou alguém possa 
auxiliá-lo neste processo de restituição da palavra e apropriação de si (ac-
tings). Como menciona Borsoi: 
[...] nessa situação de urgência, onde tudo se desenvolve sem limi-
tes, onde a precariedade em que o sujeito se encontra faz com que 
as barreiras e contornos desapareçam, é preciso a construção de 
um espaço e de um tempo para que os fenômenos sejam incluídos 
no dizer. Trata-se de trabalhar com a angústia, com o que escapa 
ao sentido sem querer explicar, ensinar (2012, p.33).
94
Ieda Prates da Silva e Tatiane Reis Vianna
Esta possibilidade de escuta e de abertura, no caso aqui relatado, se 
dá inicialmente via internação. Em sua primeira hospitalização, Patrícia che-
ga ao hospital bastante deprimida, com diversos episódios de tentativas de 
suicídio e com ideação suicida persistente. Nos atendimentos, falava desta 
relação fracassada com a tia, do peso da culpa colocada por sua opção em 
juízo, de não ficar com a mãe, do sentimento de abandono, bem como de 
seu desejo de morte frente à solidão em que se encontrava, e da falta de 
sentido de sua vida. Nas sessões no hospital também referia alucinações 
visuais e auditivas. Nestas enxergava homens com caras rudes que a vi-
giavam e a convidavam a vir para seu mundo: um mundo em que não tinha 
que se preocupar com escolhas e obrigações, mundo onde não teria limites, 
nem perdas, só podendo ser acessado pela morte. Estes homens, em al-
guns momentos, a proibiam de ir para os atendimentos e falar de si, sob o 
risco de a matarem. 
A proposta de uma relação de entrega total e incondicional, presente 
nestas alucinações, era a demanda que Patrícia fazia às pessoas da família 
que vinham a ocupar as funções parentais substitutivas, o que se tornava 
para essas pessoas insuportável. Muitas das situações de autoagressão e 
tentativas de suicídio que ela realizava, junto aos familiares, parecem estar 
relacionadas a esta demanda.
Assim também, na sua relação com a equipe da internação, buscava 
olhares e cuidados constantes, assemelhando-se à posição de um bebê. 
Muitas vezes partia para situações de autoagressão, quando não era o cen-
tro das atenções, tendo dificuldades de lidar com a chegada de novos pa-
cientes mais desorganizados que ela. O seu relacionamento com os demais 
adolescentes era bastante secundário, sendo que tinha uma forte demanda 
de que alguns técnicos de enfermagem assumissem efetivamente o lugar 
parental, apelidando dois deles de “pai” e “mãe”.
É interessante o que as alucinações, que aos poucos vão parecendo 
mais se situar no terreno da fantasia, revelam deste encontro siderante de 
Patrícia com o Outro sexo e das impossibilidades de poder representá-lo, de 
poder reposicionar-se frente a este encontro. Nas situações de aproximação 
com os meninos, na internação, Patrícia facilmente se desorganizava. 
Após a internação, ela é abrigada e logo depois há uma nova tentativa 
de acolhimento por um familiar, que novamente fracassa e precipita uma 
nova crise, sendo internada mais uma vez. Nesta época seguia atendimento 
psiquiátrico e havia iniciado tratamento psicanalítico no serviço de saúde 
mental de sua cidade. 
A partir dessa internação, sua mãe buscou fazer contato com a equipe, 
que a chamou para entrevista, momento em que Patrícia, que inicialmente 
95
A clínica e as práticas de cuidado...
não queria vê-la, inicia uma reaproximação. A mãe, apesar de desejar esta 
aproximação, mostrava dificuldades subjetivas de sustentá-la, oscilando 
entre sentir-se culpada ou culpabilizar a filha e as outras pessoas e pro-
fissionais que procuravam exercer alguma função de cuidado em relação 
à mesma. Teve idas e vindas em relação à filha e às equipes, tanto da in-
ternação como do CAPSi, o qual, a partir daí, intensificou os atendimentos 
psicanalíticos. Patrícia pôde ir trabalhando sua história de vida e sua con-
turbada relação com a mãe. Em alguns momentos, inclusive, com sessões 
conjuntas com a mãe (que passa a vir mais frequentemente do interior do 
estado). 
Pois bem, esta reaproximação familiar, sustentada por um trabalho clí-
nico e em rede, teve um efeito interessante em Patrícia, que, ao lado da ima-
gem de mãe poderosa e aniquiladora presente nas suas fantasias e aluci-
nações, começou a deparar-se com uma mãe com dificuldades emocionais, 
frágil e sofrida como ela. Arelação entre elas pôde ir sendo ressignificada, 
graças ao tratamento e à função de mediação exercida pelos profissionais 
dos serviços de saúde, podendo ressituar a fala materna para Patrícia e 
vice-versa.
Queremos ressaltar a importância de se trabalhar com a família, aliada 
à escuta do adolescente. Trata-se de tentar produzir aberturas no discurso 
familiar, introduzindo o lugar terceiro como possibilitador de deslocamentos 
e desvelamentos neste discurso. Assim, se haverá entrevistas com a mãe 
ou o pai, sessões conjuntas ou não; se será o mesmo terapeuta que atende-
rá o adolescente e escutarà a família; se haverá grupo de pais ou sessões 
familiares, estas diferentes intervenções serão pensadas caso a caso, de 
acordo com o contexto, a história familiar e o quadro clínico do paciente. 
São decisões clínicas, que não respondem a um protocolo, e, sim, ao man-
dato clínico.
Porém, em algumas situações não há, por mais que se tente , pos-
sibilidade de se engatar algo com familiar nenhum. E é o que acontece, 
principalmente, com crianças e adolescentes em situação de acolhimento 
institucional. Reconhecer outras possibilidades de estruturação do sujeito, 
que estão para além dos vínculos familiares, é extremamente necessário. 
Para isto, precisamos superar a idealização da família, como se fosse a 
única possibilidade para a estruturação de uma criança ou adolescente. Não 
que seja indiferente esta ausência. Mas é preciso que se diga: tal ausência 
não configura um destino predeterminado, prefixado. O indispensável, e a 
psicanálise nos ensina isto, é que esta criança se encontre com figuras que 
se encarreguem das funções primordiais: função materna e paterna. E, em 
alguns casos, a criança ou o adolescente só vai se encontrar com agentes 
96
Ieda Prates da Silva e Tatiane Reis Vianna
que sustentem tais funções em um ambiente institucional. Então, é impor-
tante que a instituição de acolhimento também não se coloque como órfã, à 
procura de um pai, de uma mãe, ou de uma família idealizada. Terá que ser 
ela própria, isto é, os profissionais que ali trabalham, que deverão operar 
tais funções: função de continuidade, de suporte, com os cuidados corporais 
e afetivos necessários; e função de corte, de construção de bordas, que o 
impulsionem ao mundo lá fora. 
Assim, quando falamos do trabalho com as famílias nos serviços de 
saúde mental, se trata de operar as condições para sustentação ou resgate 
destas funções, que são indispensáveis na estruturação de um pequeno 
sujeito e também na travessia da adolescência. 
No caso de Patrícia, foi fundamental a relação entre as equipes, no 
sentido de abrir possibilidade para que a mãe não reeditasse na relação 
com os serviços as mesmas alianças e rupturas que vinha estabelecendo 
na vida. Foi também fundamental a entrada em cena, naquela época, de 
alguns familiares distantes, que se reaproximaram e se dispuseram, com o 
auxílio do serviço de saúde de referência, a colaborar na passagem entre 
este fora de casa e a volta para a casa da mãe, que veio a se dar quase um 
ano depois da última baixa hospitalar. 
No último ano de atendimento no CAPSi, Patrícia começou a usar a 
escrita poética como via para expressar suas angústias e sofrimentos, e 
também de construir uma forma de se representar no mundo. Inclusive, foi 
este o caso que primeiramente fez a equipe deste serviço pensar na cria-
ção de uma oficina de escrita para adolescentes. Ela continuou a fazer uso 
desta via de expressão e constituição subjetiva na sua última internação 
hospitalar, a partir da qual conseguiu transitar melhor também no grupo com 
outros adolescentes. Não tendo que permanentemente ocupar o lugar de 
ser cuidada, conquistou outras formas de reconhecimento, seja através da 
expressão plástica e da escrita, como também ao se dispor a auxiliar no 
cuidado em relação a pacientes mais regressivos. Novas possibilidades 
identificatórias foram sendo tramadas, tanto em relação ao grupo de adoles-
centes como em relação à equipe. Passou a imaginar-se num futuro sendo 
enfermeira, assistente social ou psicóloga, bem como vislumbrar possibili-
dades de encontro com o outro, seja nas relações de amizade ou namoro. 
Esta mudança de posição, podemos testemunhar no poema abaixo, 
de sua autoria. Neste escrito parece “tematizar”, de certa forma, o encontro 
com o Outro sexo, mas também pode falar do reatamento destes víncu-
los rompidos. Ainda dirige-se a lugar nenhum, fala de esboços de canções 
soltos no tempo, mas este aparente caminho sem destino tem como fim o 
encontro como o outro, o nascer do amor...
97
A clínica e as práticas de cuidado...
A Lugar Nenhum
O vento sopra, balança meus cabelos;
Levando-me em direção a você...
sem saber onde chegar caminho, crianças brigam no conto
uníssono da vida.
Flores encantam a chegada da primavera.
Pessoas abrem portas construções;
Pés caminham pássaros voam;
Cantores entoam melodias,
Esboços de Canções feitas no tempo.
Domingo de Vento Norte,
Nuvens no Espaço;
Castelo de Ar desfazem-se,
O universo Grita!
E eu vou ...
Caminhando sem destino a
tua procura
No magnetismo dos corpos No calor do Sol
Você lá
Eu aqui
Um amor a Nascer
Um vento a soprar...
Entendemos que esta passagem entre ter que marcar seu próprio cor-
po com cortes e poder produzir, se inscrever, através da pintura, da fala e do 
texto escrito, evidencia mudanças de posições subjetivas importantes em 
Patrícia. Inicialmente, após uma situação de fragilização extrema dos seus 
laços simbólicos, que o adolescer e a ruptura familiar provocaram, via-se 
um sujeito completamente entregue ao Outro e que, sem poder dispor dos 
significantes, das marcas relativas à sua filiação para delimitar seu lugar no 
mundo, era levado a marcar no real do seu próprio corpo esta diferença. Aos 
poucos, vai conseguindo retomar alguns fios perdidos e o seu processo de 
adolescer vai podendo ser metaforizado. 
Em relação ao texto escrito por ela, chamava atenção o fato de que 
Patrícia, neste período, utilizava-se de palavras e frases vindas de outros 
poemas, fazendo, então, uma espécie de bricolagem para construir seu pró-
prio texto, o que nos mostra o quanto as palavras vindas do Outro (“tesouro 
do significante”, como Lacan o define), são constituintes desta travessia. A 
riqueza do seu texto revela, justamente, novas possibilidades simbólicas. 
98
Ieda Prates da Silva e Tatiane Reis Vianna
Retomando as palavras de Ana Costa: “É aqui que se decide a questão do 
endereço, porque só se escreve quando se muda de lugar: escrever é reco-
nhecer uma distância” (Costa, 2000, p.17-18).
É o reconhecimento desta distância e a possibilidade de endereça-
mento que se pode vislumbrar nos seus textos, como ilustra o poema “Sau-
dade”, transcrito a seguir. Neste poema, que foi presenteado à equipe do 
hospital, como despedida de sua internação, Patrícia tematiza a separação, 
que já não significa aniquilamento, mas assunção de uma perda (“paraíso 
perdido”). E, neste endereçamento, somos testemunhas de que essa perda 
pode ser simbolizada.
Saudade
Encostada neste velho tronco. Lembro de você...
uma saudade vazia de alguém; saudade espírito que anda,
perfume que afaga, que penetra, sem deixar ver seu rosto;
Saudade brisa que canta..
Ave em revoada em busca de um coração, às vezes arrependido;
saudade árvore de casca fina e enganadora, traduzindo em sua 
seiva um coração longínquo;
saudade flor suave que insinua sem convergir duas linhas transversais,
saudade rios glaciais que se derretem, pedras que rolam sem se 
encontrarem;
saudade poema que encanta,auréola de uma beleza recontida;
Saudade, ausência de alguém;
Princípio de solidão fazendo estourar a dor;
Saudade paraíso perdido;
Aurora em Agonia;
Semente que cresce num coração obcecado;
saudade canção precedida de um Adeus;
cascata que murmura”volta amor”...
saudade, consolo que não é perda
fantasia de retorno de alguém que se foi..
fantasia pedra que brilha opaca.
Nuvem que vai para não voltar
Saudade, flor amarelada que cai voandoem ventos de outono e, 
com o passar do tempo seca, deixando o poeta a esperar..
Saudade alma a procura de um refúgio...
Fim. Esperança,
Partida indesejada,
99
A clínica e as práticas de cuidado...
Corações entrelaçados,
Triste ausência Partilhada...
REFERÊNCIAS
BORSOI, P. Colóquio. In: MARON, G.; BORSÓI, P. (org.) Urgência sem emergência. 
Rio de Janeiro: Subversos, 2012. p. 31-35.
COSTA, A.M. Ficcção e ato nos momentos de passagem. Revista Pulsional, ano XIII, 
nº139, p.13-22, 2000.
COUTO, M.C.V.; DELGADO, P.G.G. Intersetorialidade: uma exigência da clínica 
com crianças na atenção psicossocial. In: LAURIDSEN-RIBEIRO, E.L. & TANAKA, 
O.U. Atenção em saúde mental para crianças e adolescentes no SUS. São Paulo: 
Ed.Hucitec, 2010. p. 271-279.
FREUD, S. Romances familiares [1909]. In: ______. Ed. standard brasileira das 
obras completas de Sigmund Freud. 2. ed., Vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
FREUD, S. Além do princípio do prazer [1920]. In: ______. Ed. standard brasileira 
das obras completas de Sigmund Freud. 2. ed. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 
1974.
FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. In: ______. Ed. standard brasi-
leira das obras completas de Sigmund Freud. 2. ed. Vol. XX. Rio de Janeiro: Imago, 
1974.
 Recebido em 11/11/2013
 Aceito em 20/02/2014
 Revisado por Maria Ângela Bulhões
TEXTOS
100
Resumo: O texto resgata o conceito freudiano de descrença (unglaben) para 
problematizar a questão do tratamento da psicose na instituição psicanalítica. 
Busca articular a contribuição da instituição na direção do tratamento do pacien-
te, levando em consideração o fenômeno do unglaben, mobilizado pela psicose.
Palavras chave: psicose, descrença, instituição psicanalítica.
“SECRETARY OF THE INSANE”? 
Psychosis and the Psychoanalytic Institution
Abstract: This text recovers the Freudian concept of unbelief (Unglaben) to pro-
blematize the treatment of psychosis in the psychoanalytic institution. It seeks 
to articulate the contribution of the institution on patient’s treatment direction, 
considering the phenomenon of the Unglaben, mobilized by psychosis. 
Keywords: psychosis, unbelief, psychoanalytic institution.
“SECRETÁRIOS DO ALIENADO”?1 
A Psicose e a Instituição Psicanalítica2
Siloé Rey3
Liz Nunes Ramos4
1 Lacan, J. O seminário, livro 3, as psicoses. 2. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p. 235.
2 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
3 Psicanalista; Membro da APPOA e do Instituto APPOA; Especialista em Psicologia Clínica 
CFP; Mestre em Psicologia Social e da Personalidade PUC-RS. E-mail: siloe.rey@gmail.com
4 Psicanalista; Membro da APPOA e do Instituto APPOA. E-mail: liz-ramos@uol.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.100-107, jul. 2013/jun. 2014
101
“Secretários do Alienado”?...
o critério
“atitudes estranhas”
não dá
para condenar pessoas
criaturas 
com entranhas
(Paulo Leminski5)
a vida do psicanalista não é cor de rosa
(Lacan6) 
Secretários do alienado” é a expressão que Lacan (1992) extrai da psi-quiatria de seu tempo e que aponta a impotência dos alienistas. “Não 
só passaremos por seus secretários, mas tomaremos ao pé da letra o que 
ele nos conta” (p.235) – responde Lacan, propondo suas torções, e, com 
sua ironia de sempre: “o que até aqui foi considerado coisa a ser evitada” 
(p.235). Entretanto, isso não nos diminui a dificuldade, como bem sabemos. 
O apego do psicótico ao seu delírio é questão de sobrevivência, o delírio é 
o que pode dizer quem ele é. A forma particular de articular a linguagem, 
a relação bizarra com o código, a condição estrangeira no laço social e a 
angústia siderante situam as condições da escuta. Ao desejo do analista, 
acrescenta-se a experiência do desamparo, no mais das vezes. 
Então, é no deslizamento por esses dois fios, o do desamparo produ-
zido pela condição psicótica no analisante e o do desamparo que incide na 
subjetividade do analista, na condição de sustentação do desejo do analista, 
que vai se produzindo a condição transferencial. É aí que a prática clínica 
na instituição faz a diferença, como condição de sustentação desta escu-
ta, a partir da inscrição institucional do caso em diferentes âmbitos onde o 
analista testemunha e elabora sua posição. A presença do paciente psicó-
tico mobiliza e interroga a instituição, confrontada com a expressão de um 
inconsciente não recalcado. Os diversos agentes que compõem o cotidiano 
institucional, como as secretárias ou os seguranças da instituição, fazem 
questão ao paciente, estendendo à instituição seus sentimentos paranoicos 
e suas confusões delirantes. Esses agentes serão alvo da erotomania que 
marca o laço do psicótico com seus objetos, tendo que suportar a injúria de-
“
5 Leminsky, P. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
6 Lacan, J. O seminário, livro 3: as psicoses. 2. ed, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p.39.
102
Siloé Rey e Liz Nunes Ramos
lirante e as manifestações próprias de sua singular amarração subjetiva. As 
consequências dessa particular relação ao Outro atravessará as relações 
do psicótico com as instituições, marcando, portanto, as dificuldades na 
condução do tratamento, que se estendem às suas relações com a institui-
ção que o acolhe. Como marcar uma diferença, na experiência do psicótico 
com a instituição analítica, de modo a incluir a posição ética da psicanálise 
à posição de “secretários do alienado”?
Para abordar a vulnerabilidade e o desamparo implicados na condição 
psicótica, situemos o conceito de descrença, expressão que dá conta do 
mecanismo próprio que o fenômeno psicótico coloca em causa, a Verwer-
fung.
Freud (1986), no Manuscrito K da correspondência, situa uma con-
dição particular da paranoia, o conceito de descrença – Unglaben. Freud 
utiliza a expressão Versagen des Glabens, na qual podemos identificar seu 
esforço de linguagem, nesse “dizer não à crença”. Isso não passa desper-
cebido para Lacan, do que ele enunciou como o que causa a psicose, que 
é a forclusão do significante do Nome-do-Pai. Afinal, do ponto de vista da 
economia do sujeito, o que impede as condições de inscrição desse signi-
ficante, que é a expressão de sua relação com o Outro e lhe possibilitará a 
configuração do simbólico e o acesso à ordem fálica?
Lacan identifica o fenômeno da descrença, que se opera nos proces-
sos identificatórios primários, e o relaciona tanto à forclusão da coisa no 
discurso da ciência, quanto na própria estruturação da psicose. 
No fundo da própria paranoia, que nos parece no entanto toda 
animada de crença, reina esse fenômeno de Unglaben. Não é 
o não crer nisso, mas a ausência de um dos termos da crença, 
do termo em que se designa a divisão do sujeito (Lacan, 1979, 
p.225).
Voltemos ao Manuscrito K, titulado As neuroses de defesa, para ver 
como Freud ([1896]1977) deduziu o que acontece na paranoia a partir da 
descrição da estrutura defensiva da neurose obsessiva, nas quais, em am-
bas, a experiência primária foi acompanhada de prazer. No entanto, na 
neurose obsessiva, quando essa experiência é recordada, libera desprazer, 
possibilitando que uma recriminação consciente se instale. O recalcamento 
de todo o complexo psíquico, lembrança e autorrecriminação, será substi-
103
“Secretários do Alienado”?...
tuído por um sintoma antitético, uma nuança de conscenciosidade (ou de 
escrupulosidade), diz Freud, “No estágio do retorno do recalcado, vê-se que 
a autorrecriminação retorna..[...] inalterada, ela emerge como um sentimen-
to puro de culpa, sem nenhum conteúdo” (p.166), ligando-se a um conteúdo 
distorcido por substituição, por analogia. A crença na recriminação primária 
permite o recalcamento desta e sua operacionalidade no simbólico, daí a 
possibilidade de metaforização na formação do sintoma. O afeto da autorre-
criminação pode ser transformado, através de vários processos psíquicos, 
em outros afetos, que então penetramna consciência. O ego consciente 
encara a obsessão como algo que lhe é estranho: retira dela a crença, com 
o auxílio da ideia antitética, produzindo uma série de novos sintomas, os 
da defesa secundária. Apoiado pela escrupulosidade, o sujeito rejeita, re-
calcando, a crença na ideia obsessiva, indicando sua divisão entre a es-
crupulosidade e a ideia tornada estranha devido à descrença. Neste caso, 
a descrença não é um fato de estrutura e, sim, o que Lacan indicou como 
divisão do sujeito, fenda que revela sua condição neurótica.
Quanto à paranoia, Freud já começa advertindo que ainda lhe são des-
conhecidos os determinantes clínicos e as relações cronológicas entre o 
prazer e o desprazer naquilo que chamava de experiência primária.
A experiência primária parece ser semelhante à da neurose ob-
sessiva; o recalcamento ocorre depois que a lembrança dela 
libera desprazer – como, não se sabe. No entanto, não há for-
mação e recalcamento posterior de uma autorrecriminação; em 
vez disso, o desprazer gerado é dirigido para os semelhantes 
do paciente, segundo a fórmula psíquica da projeção. O sintoma 
primário formado é a desconfiança (sensibilidade às outras pes-
soas). Isso permite que seja evitada a autorrecriminação (Freud, 
[1896]1977, p.168).
E é isso que Freud nomeou como um dizer não à crença, a descrença 
na autorrecriminação, que fica substituída pela projeção da desconfiança e 
retorna nos delírios de perseguição. No sintoma primário, que é a descon-
fiança, o afeto que retorna é um gozo marcado de desprazer, “não ligado 
a uma autorrecriminação, mas atribuído ao Outro” (Quinet, 2011, p.77). Ao 
invés de “emergir como um sentimento puro de culpa”, como diz Freud, re-
torna no real, o que observamos na clínica:
104
Siloé Rey e Liz Nunes Ramos
trata-se do gozo puro que retorna sob a forma de fenômenos de 
despedaçamento do corpo ou sob a forma de uma volúpia desvin-
culada do falo; ou então o gozo retorna acompanhado do signifi-
cante nas vozes alucinadas (Quinet, 2011, p.77).
O sujeito acredita nas vozes, não as trata como estranhas e, ainda, é 
constrangido a explicá-las através do delírio. 
Essa recriminação primária, que tem potência de barrar o gozo e ope-
rar como interdito, como castração simbólica, é o que vem no lugar da Coi-
sa, do que está fora do significante. É essa recriminação que opera como 
o significante que marcaria a Coisa como objeto perdido, inscrevendo sua 
dimensão de impossível, e não apenas de proibido, como gozo total. O psi-
cótico, ao dela descrer, fica desprovido do que mediaria sua relação com a 
Coisa gozosa. A falta dessa inscrição não permite a representação do des-
prazer, aprisionando o sujeito a um gozo sem lei. Mesmo quando as vozes 
alucinadas retornam no real, o significante, longe de barrar o gozo, é antes 
seu portador, pela ausência da crença na recriminação primária, que não 
alcançou o status de representação. Talvez o melhor exemplo da injunção 
à qual o sujeito psicótico está submetido seja a injúria alucinatória, como a 
recriminação forcluída que retorna no real.
Sabemos que o trabalho de construção do delírio é o que ocupa o para-
noico para remontar seu mundo interior. “Reconstrução, pós-catástrofe”, diz 
Freud. A catástrofe da qual se trata resulta “do processo psíquico de retira-
da da libido das pessoas e das coisas antes amadas”, nos lembra Oliveira 
(2002). Na paranoia, como Schreber ensinou a Freud e como Lacan nos de-
monstrou no seminário que dedicou à psicose, há um deslocamento desses 
investimentos abandonados para as representações de palavra, sendo que o 
que especifica a alucinação psicótica é o fato de ela ser verbal. Quinet (2011) 
vai ao ponto ao caracterizar que o Outro do neurótico é mudo, fazendo-se 
ouvir só através das formações do inconsciente, enquanto na psicose “o Ou-
tro fala, aparece às claras, provocando no sujeito todo tipo de reação: terror, 
pânico, exaltação. Isso faz com que o psicótico, diferente do neurótico, que 
habita a linguagem, seja habitado, possuído pela linguagem” (p.18).
Oliveira (2002), destacando o privilégio concedido às palavras na for-
mação delirante, refere que esse mesmo investimento é o que transforma a 
vida psíquica do psicótico numa presa da língua. “A injunção à representa-
ção, a qual o sujeito paranoico é confrontado, é de dar a esse fluxo contínuo 
de palavras certa ordem” (p.216). É aí que, segundo o autor, que considera 
a injúria como própria das formações psíquicas que constituem o delírio, a 
palavra de injúria pode revestir-se de especial importância. Pode cumprir 
105
“Secretários do Alienado”?...
uma dupla função: como retorno, desde o real, do forcluído, quando a pa-
lavra irrompe a partir do investimento de traços de pessoas ou de objetos; 
ou como meio de retomar o curso de sua ação como representação, como 
meio de dar um curso a sua vida psíquica, dispensando o trabalho de sim-
bolizar a pulsão.
A partir de nossa experiência no Instituto da APPOA, o que tem se 
mostrado importante do ponto de vista da direção do tratamento do paranoi-
co em uma instituição psicanalítica é a função de inscrição institucional. O 
paciente, em sua manifestação de interpelação ao Outro, quando se identi-
fica o caráter imperativo do delírio, se precipita na relação aos outros institu-
cionais através da injúria, em que os xingamentos dão vazão a verdadeiras 
descargas pulsionais. Em nossa instituição, os agentes da secretaria, os 
guardas e os que cuidam da casa estão incluídos no tratamento, já que são 
eles que recebem o primeiro impacto da violência da loucura. A circulação 
na casa, marcada pelos vários estados alterados nos quais os pacientes 
chegam ao atendimento, amiúde apresenta uma agitação impregnada de 
psicotrópicos. O manejo das ligações telefônicas, seu ritmo, sua violência 
ou seu extremo desamparo, são todas situações que precisam de inscrição, 
trabalho ao qual o analista terá que se dedicar, ao fazer-se responsável 
pelo endereçamento de todas as situações que envolvem o paciente na 
instituição. 
O analista, na especificidade de sua prática na instituição, deverá ocu-
par-se da escuta do que a psicose afeta nos outros institucionais, ao mesmo 
tempo em que lhes traduz a conduta do psicótico. Assim pode-se suportar 
a repetição que lhe é necessária como tentativa de representação do que 
o expulsa do laço com o Outro, e de suas tentativas de inscrever presença 
e ausência na relação ao lugar que o acolhe. Ou seja, os elementos não 
simbolizados da demanda do Outro irrompem também na instituição. Nes-
te sentido é a interpretação dessa forma de relação transferencial com a 
instituição que o paranoico apresenta, que pode possibilitar que esses ele-
mentos sejam incluídos no tratamento. Uma vez que não lhe seja possível 
endereçar estas injúrias ao analista, há neste endereçamento aos outros 
institucionais uma função importante da mediação que a instituição pode 
representar, intrínseca ao tratamento, importante suporte para a construção 
de lugares de endereçamento ao Outro, para o exercício da função sig-
nificante, que será retomada e interpretada na transferência analítica pro-
priamente dita. O desejo do analista, neste caso, está comprometido com 
o resgate, para dentro do laço discursivo em sessão, dos elementos que 
tendem a ser assim forcluídos, incluindo-se o analista como lugar de ende-
reçamento desta injúria, da qual o analisante pretende poupá-lo. 
106
Siloé Rey e Liz Nunes Ramos
Ainda uma palavra sobre o que Lacan propõe no seminário da éti-
ca, quanto ao desdobramento do conceito de descrença relativamente ao 
discurso da ciência. Neste caso, é a Coisa que é rejeitada no sentido da 
Verwerfung. Entre os vários sistemas de apreensão do real, justamente 
esse real inapreensível em sua totalidade, a psicanálise identifica que na 
arte há um recalcamento da Coisa, na religião há o que pode-se traduzir 
como um adiamento (Verschiebung) da Coisa, mas a ciência tem dificuldade 
em reconhecer a parcialização do acesso ao real.
no discursoda ciência há a rejeição da presença da Coisa, uma 
vez que, em sua perspectiva, se delineia o ideal do saber absoluto, 
isto é, de algo que estabelece, no entanto, a Coisa, não a levando 
ao mesmo tempo em conta. Todos sabem que essa perspectiva 
se revela na história, no final das contas, como que representando 
um fracasso (Lacan, 1995, p.164).
 Nos casos em que o paranoico encontra a instituição psicanalítica a 
errância na busca de escuta que o paciente empreende, se suspende devi-
do a ele encontrar uma instituição na qual não se prescreve a forclusão da 
Coisa louca. É necessário uma instituição que suporte a lógica do não todo 
e sustente uma circulação discursiva que permita conter a angústia de todos 
os que recebem o impacto do delírio do paranoico, para que ali o sujeito 
consiga ancorar seu desamparo.
Se, com relação à condução do tratamento da psicose, estamos sem-
pre caminhando no fio da navalha, é não respondendo em espelho ao psi-
cótico, descrendo de seu delírio e loucura, que se criam condições para ele 
se relacionar de outras formas com o Outro, sem ter que oferecer-se como 
objeto de seu gozo, construindo outra extensão à posição de secretariá-lo. 
REFERÊNCIAS
FREUD, S. (1896). Rascunho K. In: ______. Obras completas de Sigmund Freud, 
v.1. Rio de Janeiro: Imago, 1977, p.299-307. 
LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses [1955-1956]. 2. ed., Rio de Ja-
neiro: Jorge Zahar, 1992.
______. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise [1959-1960]. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 1995.
______. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise 
[1964]. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
LEMINSKY, P. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
MASSON, Jeffrey M. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm 
Fliess -1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986.
107
“Secretários do Alienado”?...
OLIVEIRA, Luís Fernando L. Injúria: a pulsão na ponta da língua. Ijuí: Unijuí, 2002.
QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Univer-
sitária, 2011.
Recebido em 24/05/2014
Aceito em 15/10/2014
Revisado por Cristian Giles
TEXTOS
108
Resumo: Este artigo se baseia na obra de Louis Althusser, L’avenir dure long-
temps, e em alguns comentários sobre ela, para ilustrar como a violência logo 
do desencadeamento psicótico pode ser pensada de forma estrutural, nota-
damente, como suicídio do outro. Para tanto, trabalhamos sobre a noção de 
espaço-corpo nas psicoses. O texto se finda por um breve comentário sobre as 
internações psiquiátricas. 
Palavras-chave: psicose, Louis Althusser, corpo, estrutura, violência. 
BODY AND PSYCHOSIS’S STRUCTURAL VIOLENCE: 
the other’s suicide in Louis Althusser
Abstract: This paper is based on Louis Althusser’s title L’avenir dure longtemps, 
and some comments on it, to illustrate how the violence that occurs with a psy-
chotic crisis can be considered in a structural form, notably, as the other´s sui-
cide. To do so, we work on the notion of space-body in psychosis. The text ends 
with a brief comment about psychiatric hospitalizations.
Keywords: psychosis, Louis Althusser, body, structure, violence.
CORPO E VIOLÊNCIA 
ESTRUTURAL DAS PSICOSES: 
o suicídio do outro 
em Louis Althusser1
Manoel Madeira2
1 Este texto nasce de um pequeno artigo outrora publicado em revista de grande público sobre 
o preestabelecido tema a violência no surto psicótico. Pretendo retomar aqui propostas do 
primeiro escrito, mantendo seu estilo e algumas generalidades. Trata-se, porém, de reescrita 
quase integral do artigo, em que se desenvolvem algumas questões, adaptando-o à Revista 
da APPOA.
2 Professor-adjunto de ensino e pesquisa na Université Paris-Diderot, Paris VII; Psicólogo-clíni-adjunto de ensino e pesquisa na Université Paris-Diderot, Paris VII; Psicólogo-clíni-na Université Paris-Diderot, Paris VII; Psicólogo-clíni-
co no Centro Médico-Psicopedagógico de Montgeron, França; Psicólogo, Mestre em Antropo-
logia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais – (EHESS-Paris); Mestre e doutorando 
em Psicanálise e Psicopatologia pela Université Paris-Diderot Paris VII. 
E-mail: mlucemadeira@gmail.com 
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.108-121, jul. 2013/jun. 2014
109
Corpo e violência estrutural das psicoses...
Louis Althusser e o suicídio do outro
Domingo, 16 de novembro de 1980, nove horas da manhã. O renomado filósofo francês Louis Althusser acaba de acordar e, como de costume, 
massageia sua mulher Hélène. Seus rins, suas costas, sua nuca. Althusser 
põe-se, enfim, a massagear o pescoço de Hélène. Os dedos agarram sua 
mandíbula, os polegares pressionam sua laringe até Althusser ter a impres-
são de que eles se tocam. Os antebraços do filósofo fraquejam. Ele mira 
Hélène: os olhos perdidos no teto, a língua adormecida entre os dentes. 
A morte de Hélène implica a internação imediata de Althusser no hos-
pital psiquiátrico de Saint-Anne, em Paris, onde sua “confusão mental” e 
seus “delírios oníricos” (Althusser, 1992, p.36) se deflagram3. Sucede-se 
aos fatos a estupefação geral, o enorme fenômeno midiático. “Jamais um 
tal ato havia sido perpetrado por um pensador de tal envergadura, um revo-
lucionário tão engajado”, escreve Gérard Pommier (1998, p.9). Como Louis 
Althusser, filósofo de cabal erudição e índole irrepreensível, pôde cometer 
tal atrocidade? O longo histórico de internações psiquiátricas de Althusser 
torna-se conhecimento geral. Aflora na França a discussão sobre a impre-
visibilidade da loucura. Althusser é considerado inimputável e não é julgado 
ordinariamente pelo seu crime.
Em 1992, dois anos após sua morte, é publicada a autobiografia do 
filósofo, intitulada L’avenir dure longtemps (O futuro dura muito tempo). Al-
thusser relata na intensa narrativa como o lugar do morto lhe fora simbolica-
mente estabelecido. A história começa na Argélia, onde as famílias Berger 
e Althusser decidem casar os filhos. Juliette Berger torna-se noiva de Louis 
Althusser; Lucienne Berger, de Charles Althusser. Porém, o aviador Louis 
Althusser morre em 1917, combatendo na Primeira Guerra. Charles, que 
também estava no front de batalha, recebe permissão para visitar os seus, 
transmitir a notícia à família e pedir a mão de Juliette em casamento em re-
paração à morte do irmão. Juliette aceita. Charles casa-se com sua (antiga) 
cunhada e Lucienne fica solteira. Charles e Juliette decidiram mais tarde 
nomear o primeiro filho pela alcunha do falecido Louis Althusser – assim, 
nasce o filósofo. A história denota a dupla negação da morte: pela substitui-
ção proposta pelo pai e pela nomeação do filho. 
Nota: o supracitado Gérard Pommier, autor do livro La mélancolie, vie et 
œuvre d’Althusser (A melancolia, vida e obra de Althusser) ressalta que, desta 
3 Todas as traduções do texto foram realizadas livremente pelo autor. 
110
Manoel Madeira
forma, a família cumpriu, sem saber, a lei do levirato, citada no Deuteronômio 
– quinto livro do antigo testamento. Consultemos a Bíblia Sagrada (2005):
Moisés disse ao povo: “Se dois irmãos morarem juntos, e um deles 
morrer e deixar a esposa sem filhos, a viúva só deverá casar de novo com 
alguém que seja da família do morto. O irmão do falecido deve casar com a 
viúva, cumprindo assim o dever de cunhado. O primeiro filho que ela lhe der 
será considerado filho do falecido, para que seu nome não desapareça de 
Israel” (p.195, grifos nossos).
 Althusser retraça no livro suas hospitalizações psiquiátricas. A primeira 
advém após “embaralhar as carnes” com Hélène: foi sua primeira relação 
sexual. Ele contava vinte e seis anos. Hélène será sua companheira até 
a trágica manhã do homicídio. É verdade que não faltam no livro histórias 
voluptuosas, inclusive nos primeiros tempos com Hélène. Porém, essa fiel 
companheira torna-se mulher sexualmente desinteressante, cúmplice de 
suas traições, parecendo ocupar posição fundamental na estabilização de 
Althusser. Ele declara que suas “depressões” deviam-se, justamente, aoseu pavor de ser abandonado: “por Hélène, por meus amigos, por meu ana-
lista” (Althusser, 1992, p.167) – René Diatkine, que o recebeu diariamente 
durante anos a fio. 
Althusser vara os anos trancafiado com Hélène em seu apartamento 
da École Normale Supérieure (ENS). Suas memórias fazem referência a um 
quadro maníaco-depressivo em que o trabalho insaciável era apenas inter-
rompido pelas crises de “depressão”. Porém, tais acessos não eram raros: 
“pelo menos uma vez por ano, seguidamente entre fevereiro e março, até 
o mês de maio”, Althusser quedava “paralisado pela melancolia”, escreve 
Pommier (1998, p.15). Nesses momentos, Hélène provava sua inquebrantá-
vel fidelidade, visitando Althusser diariamente em hospitais psiquiátricos – o 
que às vezes implicava exaustivos trajetos de trem pela região parisiense. 
Althusser parecia não existir sem Hélène – nem Hélène sem Althusser. A 
relação entre os dois evoca as formas de laços pelas quais Lacan afirmava 
que era possível distinguir neurose e psicose: “para o psicótico uma relação 
amorosa é possível abolindo-o como sujeito, enquanto ela admite uma he-
terogeneidade radical do Outro. Mas esse amor é também um amor morto” 
(1955-1956, p.287, grifos nossos). Amor morto faz aqui menção à ideia de 
que a incessante falta-a-ser, que constitui o desejo na neurose, almeja a-
miúde ser aplacada na união psicótica. Tomemos o exemplo de Schreber: 
não há palavras de amor, por assim dizer, que sejam endereçadas a Deus, 
que o idealizem ou signifiquem sua falta. O que parece estar em jogo é pu-
ramente a repartição do gozo e o estabelecimento de um lugar fixo – o da 
mulher de Deus – em que Schreber situa sua forma de gozar. 
111
Corpo e violência estrutural das psicoses...
Enfim, se o amor na psicose expõe proeminentemente a dimensão de 
amálgama, ele guarda também em seu seio o abismo do rasgo. E, como um 
não vivia sem o outro, quando Hélène não suporta mais Althusser, ela se 
separa – e segue em casa.
 
Eu estava rasgado de angústia. [...] Ela me declara com uma reso-
lução que me terrificou que ela não podia mais viver comigo, que eu 
era para ela um “monstro” e que ela queria me deixar para sempre. 
[...] Ela me abandonava em minha presença (Althusser, 1992, p.286).
 
Como veremos, o surto melancólico consiste – em níveis extremos – 
na negação da existência, a ponto que se possa declarar “eu não existo” ou 
“eu estou morto”. Althusser afirma:
 
Eu imaginava toda sorte de saídas mortais: eu queria não somente 
me destruir fisicamente, mas destruir também todo traço de minha 
passagem pela terra. Queria destruir particularmente meus livros 
e todas as minhas notas, e também incendiar a École, e também, 
se possível, suprimir a própria Hélène (1992, p.285).
 
Para o psicanalista German Ross, Althusser seria um homicida altruís-
ta (2003). Propomos, entretanto, a hipótese de um suicídio do outro – forma 
de passagem ao ato que desvelaria o desencadeamento. Se “o amor é uma 
forma de suicídio” ([1953-1954]1998), como afirma Lacan, resta a interroga-
ção de como na psicose tal morte amorosa se inscreve. 
O assassinato de Hélène, em todo o caso, acarreta a morte pública do 
filósofo: “Todo tempo em que está internado, o doente mental, salvo se ele 
se mata, continua evidentemente a viver, mas no isolamento e no silêncio do 
asilo. [...] Ele se torna lentamente uma espécie de morto-vivo” (1992, p.41), 
escreve Althusser. “Mesmo liberto há dois anos da internação psiquiátrica, 
eu sou [...] um desaparecido. Nem morto, nem vivo, não ainda enterrado, 
mas “sem obra”4 – a magnífica palavra de Foucault para designar a loucura 
– desaparecido” (op. cit.)5 6. 
4 Referência ao texto de Michel Foucault, La folie, l’absence d’œuvre, que tem como pano de 
fundo a obra de Antonin Artaud. Embora seja condizente com a depreciação da obra de Althus-
ser depois do assassinato, ressaltamos nosso desacordo em relação a esse texto que aponta 
“a loucura como linguagem excluída” (1964, p.445). 
5 Referência à Histoire de la folie à l’âge classique, de Michel Foucault. 
6 Nota-se que em francês, disparu (desaparecido), também é sinônimo de morto, falecido.
112
Manoel Madeira
Como pensar o corpo no desencadeamento psicótico? Qual é a rela-
ção entre o desencadeamento e a violência? Pretende-se trabalhar sobre 
essas questões tendo o caso Althusser como horizonte. Eis a discussão.
 
Corpo-espaço no desencadeamento psicótico 
Nos primórdios da psiquiatria, na época de Philippe Pinel e seu discí-
pulo Étienne Esquirol, o desencadeamento era a causa da loucura. Pinel 
afirma, na abertura do Traité médico philosophique sur l’aliénation mentale, 
que a alienação se origina a partir de “um evento ou concurso de even-
tos análogos que se deve considerar como sua causa determinante” (1809, 
p.86-87). Não havia distinção entre desencadeamento e causa da loucura. 
Deste modo, Pinel, incansável observador, declara que a alienação pode 
estar associada tanto a “irregularidades extremas da maneira de viver [...] 
desde a mais tenra infância” (1809, p.99), quanto “por um sentimento de pa-
vor [...] face um violento relâmpago”(1809, p.150) – sem diferenciar as duas 
causalidades. Toda a forma de desencadeamento era catalogada como 
uma causa possível da loucura.
Em seguida Esquirol, em Des maladies mentales considérées sous les 
rapports médical, hygiénique et médico-légal, propõe a distinção entre “cau- propõe a distinção entre “cau-
sas predisposantes” e “causas excitantes” (1838, p.24), diferenciação fun-
damental na história da psiquiatria. Ela será retomada por Jean-Pierre Fal-
ret, discípulo de Esquirol, que afirmará que a predisposição à doença mental 
– denominação que veio substituir a antiga alienação – é sempre orgânica, 
e que sua eclosão é de origem prioritariamente psíquica (Falret, 1864). A 
díade, causa orgânica e desencadeamento psíquico, tornou-se paradigma 
da psiquiatria, e é claramente mantida por Kraepelin e Bleuler, contemporâ-
neos de Freud, e cujas nosografias, no que concerne às psicoses, balizaram 
a obra do psicanalista. Ao abandonar, não sem relutância, o projeto de fazer 
corresponder os mecanismos psíquicos à neurologia, Freud deu um passo 
fundamental para estabelecer relação íntima entre causa, desencadeamen-
to e cura nas psicoses – o que nos parece fato inaudito até então. 
Poupando-nos do percurso freudiano em torno do conceito de Verwer-
fung – seu desenvolvimento e a hesitação de Freud em nomear o mecanis-
mo causal da psicose –, podemos nos ater à conhecida metáfora da estru-
tura psíquica como um cristal. Nas suas Novas conferências de introdução 
à psicanálise, Freud compara a estrutura psíquica dos “doentes mentais, [...] 
os loucos”, a um cristal trincado. Se tombasse, seria exatamente por aquela 
ranhura que ele se despedaçaria: o cristal não se quebra aleatoriamente, 
seu despedaçamento é determinado por sua “estrutura” ([1933] 2009, p.82). 
113
Corpo e violência estrutural das psicoses...
O cristal trincado é a estrutura psicótica. A ranhura é a causa. A queda, o 
desencadeamento. 
Queda do cristal, queda do corpo – que o desencadeamento psicótico 
coloca invariavelmente em xeque. Historicamente, a psicose – ou a loucura 
– foi caracterizada justamente pelos transtornos da imagem do corpo. Isso, 
porque o psicótico, após o desencadeamento, se afirmará frequentemente 
atingido: seus olhos estão virados, seus membros bloqueados, sua cabeça 
está desconectada do pescoço. Ou seja, ele exporá a fragilidade de seu 
corpo. Ressalta-se que os primeiros tratamentos da loucura tinham como 
base a moral – o que implicava estar em instituição saudável e sensata – e 
as ações sobre o corpo orgânico: banhos frios e estimulação da circulação 
sanguínea aos prostrados, banhos quentes e sangrias aos agitados. 
Se retomarmos as primeiras proposições diagnósticas de Pinel, en-
contraremos mania e melancolia como nosografias preferenciais – distinção 
paradigmática para a história da psiquiatria (Lanteri-Laura, 1998). O manía-
co seriaagitado, febril. O melancólico, prostrado, sombrio. No que tange o 
corpo-espaço no desencadeamento, poderíamos propor a seguinte simplifi-
cação: o melancólico diria “eu não existo”, “eu estou morto”, o maníaco, “eu 
sou Deus”. Ou seja, se observarão nos surtos psicóticos, diversas formas de 
se (con)fundir com o mundo. Para Freud ([1911] 2009), o desencadeamento 
psicótico implicava a regressão da libido ao eu – o psicótico se afastaria 
da realidade justamente porque algum elemento desta provocou sua crise. 
Assim, ele pode anunciar o apocalipse – o fim do mundo, de toda realidade 
externa. Pode igualmente anunciar seu fim: “eu estou morto”, pois não se 
reconhece mais no mundo, no olhar do Outro. Pode, outrossim, crer-se em 
toda parte: “eu sou Deus”. 
Obviamente, proponho aqui caricaturas, formas extremas. Creio que 
o leitor já imagina variações possíveis destes temas no desencadeamento. 
Curioso é que Pinel, que começou suas observações no século XVIII, já 
afirmava que há diversas flutuações entre mania e melancolia (ver 1809, 
p.189). Ou seja, os discursos sobre o corpo – e o ser no mundo – variam 
muito durante a hospitalização. Assim, entre absurdos e delicadezas, é 
uma lástima que a psiquiatria tenha em muito perdido suas referências 
históricas. 
Em suma, o que está em questão são as bordas do corpo que se es-
maecem. É por esse caráter de (con)fusão entre o indivíduo e a realidade, 
entre o que Freud esquematizava como interno e externo, que no desenca-
deamento psicótico, conforme sua radicalidade, o sujeito está desprotegido 
e face à angústia da constante ameaça de invasão do Outro – dos outros 
– que podem entrar sem pedir licença, sem bater na porta. 
114
Manoel Madeira
Constituição do corpo, do Outro e dos espaços interno e externo 
Psiquicamente, ninguém nasce provido de um corpo com bordas, que 
nos separam e ao mesmo tempo nos inserem no mundo. O que era o cor-
po da mãe, antes do nascimento, torna-se o “mundo externo”7, depois. E 
nada nos significa, de pronto, que somos algo diferente do corpo materno. 
É pouco a pouco que o bebê vai se alienar nos significantes, no olhar do 
Outro – estádio no qual o bebê autista encontraria dificuldades em entrar –, 
para em seguida tomar corpo, responder por um nome, se identificar a uma 
imagem, se singularizar. 
Se no desencadeamento psicótico o corpo pode se despedaçar é por-
que a rachadura da estrutura se encontra nas funções tecidas no há muito 
conhecido estádio do espelho, proposto por Lacan (1949). A necessidade de 
operar a Gestalt, que confere ao corpo sua unidade, advém do fato de que 
nunca percebemos o nosso corpo inteiro. Quando olhamos nossa imagem, 
há sempre uma parte velada: se estamos de frente, não vemos as costas, a 
nuca, as nádegas, a planta dos pés. A noção – que pode parecer dada – de 
que o corpo forma um todo, é uma operação psíquica que pode se dar ou 
não. No início, vivemos o corpo por partes que vão se tecendo: não apenas 
por nossas percepções imagéticas do corpo, mas também pelo que pode-
mos experienciar dele, autoeroticamente ou com o Outro – pelas mordidas, 
palavras, o leite na boca, os olhos nos olhos. 
Não se trata, assim, de simples percepção: é o simbólico que estofa a 
imagem (Lacan, [1954-1955] 2001). Sem o Outro que tecerá ao sujeito sua 
imagem à linguagem, esta percepção se manteria vazia – não operaria a 
identificação, o traço unário. Assim, assumir uma imagem implica passagem 
essencial de reconhecimento da palavra do Outro. É a partir de um “este é 
você” que podemos dizer “este sou eu”. Assim, não só os psicóticos, mas 
todo ser humano tem de lidar com a arcaica angústia de ser retalhado em 
postas e de se confundir com o Outro, se perder em seu olhar. A diferença 
é que, nas psicoses, as operações que dão corpo ao sujeito e constituem o 
Outro são frágeis, expondo o psicótico à radicalidade de decomposições e 
angústias das quais o neurótico é privado. O desencadeamento psicótico é 
prova inconteste dessa fragilidade. 
7 Freud sustenta a expressão “mundo externo”, desde a Interpretação dos sonhos, em 1900, 
até às Novas conferências, em 1933. Indico Interprétation des rêves, 1900, p.655, et Nouvelle 
leçons d’introduction à la psychanalyse, p.140. 
115
Corpo e violência estrutural das psicoses...
Há, todavia, um passo anterior ao “este sou eu”, do fim do estádio do 
espelho: o “isto não sou eu” da Bejahung. Proponho que essa operação 
primária – “condição para que qualquer coisa exista para o sujeito” (Lacan, 
[1953-1954]1998, p.96) – consista exatamente nesta afirmação: “isto não 
sou eu”. Ou seja, o sujeito se atribui um corpo pela negação primordial do 
que lhe é externo. Didaticamente falando, para que o sujeito se restrinja 
ao seu corpo, é preciso que todas as outras coisas sejam não-eu. É a par-É a par-
tir dessa imensa perda que o neurótico pode habitar o mundo, e articular 
os espaços interno e externo. Lacan sustenta que a operação inversa da 
Bejahung freudiana é justamente a Verwerfung, situada como mecanismo 
causal da psicose. É por essas e outras que frequentemente se afirma que, 
nas psicoses, a ranhura não está nas perdas, mas nas perdas das perdas. 
Façamos aqui uma nota fundamental: a distinção entre mundo interno 
e externo é apenas ilustrativa. A separação concreta entre dentro e fora não dá 
conta da realidade psíquica. Acreditamos que o primeiro autor em psicanálise 
a tratar claramente dessa passagem do corpo da mãe como primeiro “mundo 
externo” à constituição da distinção entre eu e “não-eu” foi Sandor Ferenczi, 
em texto de 1913. Já nesse texto, Ferenczi ressalta como a criança “investe o 
mundo exterior de qualidades que ela descobriu nela mesma, quer dizer, as 
qualidades do eu” (1913, p.59). Essa tessitura dos espaços é uma das primei-
ras ressalvas de Lacan no texto do Estádio do espelho. Dizer que um “este é 
você” precede um “este sou eu” da identificação, significa que o sujeito existe 
primeiro no olhar do Outro que em si mesmo. Por isso Lacan afirma que o su-
jeito ex-iste, ou seja, existe fora. Assim, poderemos conjeturar, mais à frente, 
como Althusser ex-istia no olhar de sua mãe e na relação com Hélène. 
Estrutura: o que se recalca é a fragilidade da infância
Resumindo, a afirmação “eu não sou isso”, engaja, em um segundo 
momento, a possibilidade de tecer uma identificação – “eu sou isso”. E aqui 
queremos ressaltar uma articulação estrutural. Pois, nessa travessia de 
constituição do corpo – embora o bebê possa ser subjetivado pelo Outro 
por toda palavra de júbilo e contentamento –, a criança significa que ser isso 
implica também ser alguns quilos de carne, completamente indefeso e de-
pendente do Outro. Ou seja, ser alguém completamente entregue ao gozo 
do Outro. Albert Camus dizia que “o homem é a única criatura que recusa 
ser o que é” (1951, p.24). E é exatamente essa recusa primordial que o re-
calcamento opera edificando a estrutura. 
Por isso tanto se falou que a estrutura é “de defesa”: defesa “contra o 
que seria imaginariamente seu destino se não se defendesse se estruturan-
116
Manoel Madeira
do” (Calligaris, 1989, p.14). A estrutura é de defesa justamente “para que o 
sujeito seja algo distinto do Real de seu corpo, algo Outro e mais do que 
alguns quilos de carne” (op. cit.). Assim, o neurótico se subjetiva. A estrutura 
psicótica é evidentemente de defesa também. Porém, sempre simplificando, 
supõe-se que esses significantes evocados – da constituição do corpo, de 
ser objeto do gozo do Outro – foram inscritos em outro tempo. Deste modo, 
se pensarmos a estrutura como construção, podemos imaginar uma edifi-
cação onde tais elementos estão presentes, mas não exercem a mesma 
função. É por isso que Lacan empregou o termo forclusão: não se trata de 
exclusão dos significantes, mas de inclusão fora do tempo. Entende-se aqui 
o tempo da estrutura, diferente de sucessão cronológica linear. Deste modo, 
o fora do tempo refere-se à neurose: fora do tempo no qual tais significantes 
são inscritos na estruturaneurótica. 
A estrutura se tece a partir de inscrições que se articulam com o tempo 
e também com o registro. Tomemos dois casos clássicos: Hans e Schre-
ber. No pequeno Hans, a questão da fragilidade, da insuficiência do corpo, 
emerge como um dos objetos centrais da eclosão da fobia. As angústias 
face às fragilidades do corpo nas discussões entre Hans e seu pai são to-
madas, prioritariamente, a partir do simbólico. Seu pai parece obstinado em 
comprovar o complexo de Édipo – e que o cavalo é seu representante. A 
despeito dessa limitação interpretativa, o menino vai colocando em pala-
vras a articulação do objeto fóbico com complexo de castração, ou seja, 
com significantes que remetem às perdas corporais: a relação com a mãe, 
os excrementos, o nascimento dos bebês, a ameaça de perda do pênis. É 
atravessando, simbolicamente, todos os perigos aos quais seu corpo está 
exposto que Hans calca a travessia da fobia (Freud, [1909] 2006). 
Tal transmissão da fragilidade do corpo parece impossível para o pai 
do Presidente Schreber. O relato publicado na revista Scilicet, em 1973, nos 
revela um pai aficionado pela forma e potência do seu corpo. O mote do 
livro Ginástica de quarto é certo apocalipse do alquebrado corpo dos ger-
mânicos à época. Assim, um conjunto de atividades físicas, hábitos, regime 
alimentar, métodos educativos deve ser aplicado às crianças o mais cedo 
possível. Isso implica a proposição dos famosos coletes e correias para 
lhes assegurar e manter a postura ereta: “A postura, sobretudo, preocupa 
Schreber (o pai), que associa estreitamente o porte físico à firmeza moral” 
(Scilicet, 1973, p.312). O impensável da fragilidade do corpo acomete o pai 
de Schreber quando ele contava quarenta primaveras: convalescente após 
acidente em sua sala de ginástica, seu humor é obscurecido por uma dura-
doura e “grave crise de nervos” (Scilicet, 1973, p.299). Tempos mais tarde, 
aos cinquenta e um anos – talvez como prova de sua recuperação – ele 
117
Corpo e violência estrutural das psicoses...
vence um sprint contra um corredor profissional. Curiosamente, falece al-
guns meses depois. 
Logo do desencadeamento, a questão da fragilidade do corpo exposta 
no discurso do Presidente Schreber salta aos olhos: ele se diz sem estôma-
go, intestino, pulmões, seu esôfago está rasgado. Ou seja, o que não pôde 
ser transmitido, o que não pôde ser simbolizado na infância aparece no real. 
Schreber sustenta que “do combate aparentemente tão desigual entre um 
ser humano fraco e isolado contra Deus, eu saio vitorioso” (Freud, [1911] 
2009, p.241). Esse percurso evocado por Schreber entre desencadeamento 
e a estabilização da travessia edípica do neurótico: um ser humano fraco e 
isolado contra o Outro decreta sua sobrevivência. 
Enfim, analisando dois textos, podemos dizer que a fragilidade do cor-
po em Hans é sustentada por tessituras prioritariamente simbólicas; já no 
caso Schreber, ela é preponderantemente remetida ao real. No seu esforço 
para tecer uma suplência, Schreber almeja reinscrever tal travessia pela 
narração de suas memórias. Os significantes da fragilidade do corpo pare-
cem haver se deslocado da sua precedente condição estrutural e reivindi-
caram novos arranjamentos. Isso nos indica que tais significantes não se 
encontravam na base da estrutura psicótica – o que implica tempo e regis-
tro distintos à estrutura neurótica. Os caminhos calcados e recalcados pelo 
neurótico são visceralmente expostos pelo psicótico em crise. 
 
Althusser: o corpo, a violência 
A experiência de fragilidade extrema do corpo é elemento recorrente 
na autobiografia de Althusser, em que suas crises de melancolia, nas quais 
tinha o sentimento de não existir, eram acompanhadas de uma “hipocondria 
generalizada” (1992, p.314). O próprio Althusser associa tais sintomas ao 
olhar da mãe, que ele assim havia descrito: “Era como se eu fosse atraves-
sado pelo seu olhar, eu desaparecia de mim dentro do seu olhar. Ele pairava 
sobre mim para encontrar no longínquo da morte o rosto de um Louis que 
não era eu, que eu não seria jamais” (1992, p.48). Como sustenta Lacan, é 
nessa tessitura do olhar da mãe e do bebê sobre seu corpo que “ele parece 
demandar àquele que o porta, e que representa o grande Outro, de endos-
sar o valor da imagem” ([1962-1963] 2004, p.42). 
Althusser nos apresenta uma mãe ao mesmo tempo “pura” e “obsce-
na”. Pura em toda narrativa em que é confrontada à brutalidade do pai. E 
obscena em todo contato físico com ele, Althusser. “Sua mãe lhe provocava 
horror, e ele nunca sentiu a menor atração sexual por ela”, escreve Pommier 
(1998, p.63). Althusser ignorou o ato sexual até os vinte e seis anos. A mas-
118
Manoel Madeira
turbação, até os vinte e sete. “O que me incomoda é que haja corpos, e pior 
ainda, sexos”, afirma ele (1992, p.55). 
Althusser testemunha seu pânico em brigar fisicamente, e em toda si-
tuação que a integridade do seu corpo era posta à prova. Afirmava que 
uma de suas grandes angústias era pensar seu corpo “entamé” – palavra 
curiosa pois, em francês, quer dizer cortado, porém, com maior frequência, 
iniciado, começado. Ele, assim, se experiencia como alguém que nunca 
poderia endereçar violência física qualquer, justamente por temer que o em-
bate viesse entamer seu corpo. Pommier (1998) propõe a hipótese de que 
Althusser criou o fantasma de um pai monstruosamente violento, e se situou 
invariavelmente no lugar da vítima dele. “Ele se encontra, desde sempre, 
na incapacidade de bater um outro corpo, o seu existindo apenas para ser 
castigado” (1998, p.45). Ou seja, no lugar da vítima e no lugar do morto, 
podemos supor o “embaralhar” entre Althusser e Hélène, quando esta se 
torna o objeto de seu crime. 
Até o fim da obra, Althusser sustenta a ideia de que sua tendência à 
“autodestruição” provocara seu crime, reiterando Hélène como parte de sua 
existência:
 
Eu sempre estive em luto de mim mesmo. [...] E por prova palpável 
de não existir, eu desejava desesperadamente destruir todas as 
provas da minha existência, não somente Hélène, a maior delas, 
mas também as provas secundárias, minha obra, meu analista e a 
mim mesmo (1992, p.315, grifos nossos).
Curiosa passagem, de fato, muito parecida com a já citada, exceto por um 
detalhe que soa como ato falho: Hélène seria prova primária da sua existência, 
e, ele mesmo, Althusser, seria uma prova secundária! É por isso que propomos 
a ideia de suicídio do outro em relação ao ato de Althusser contra Hélène: pois, 
talvez, em momento dado, lhe fosse impossível diferenciar-se dela. 
Aventamos tal hipótese menos por tese, mais por ilustração. Ilustra-
ção da vulnerabilidade exposta no desencadeamento, em que os pequenos 
outros se tornam potenciais invasores. É na experiência clínica que pode-
mos pensar em alter-suicídios, ou em atos em que a existência do agressor 
depende do aniquilamento do outro-invasor – ou ele ou eu –, ou, em toda 
forma, por princípio, sempre singular de violência no desencadeamento. Se 
esta violência é frequentemente endereçada a pessoas próximas é porque 
o sujeito escolherá aqueles que lhe evocam a ameaça de despedaçamento, 
por já haver com eles confundido as carnes, quando pequeno (seus pais) ou 
quando adulto (a pessoa amada). 
119
Corpo e violência estrutural das psicoses...
Se esses trágicos crimes chocam a todos, é talvez por expor a para-
doxal ambivalência das relações afetivas e do laço social: amamos e quere-
mos matar nossos próximos. O alvoroço, o escândalo que causam é porque 
tais assassinatos dizem verdades sobre nós mesmos – o psicótico põe em 
ato o que, no neurótico, é inconsciente. 
 
Fechamento: as psicoses e as instituições
Por algum tempo, trabalhei em hospital psiquiátrico forense – instituição 
destinada a pessoas que cometeram crimes e que, como Althusser, foram 
consideradas inimputáveis por não serem capazes de responder por seus 
atos logo do delito. Pude, por ventura, inteirar-me nessa instituição da crueza 
com a qual os crimes eram cometidos:corpos despedaçados, mães violadas, 
pacientes que bebiam o sangue dos corpos das vítimas. Tais crimes, insis-
timos, só nos parecem aberrantes, pois escondem verdades que são muito 
mais bonitas veladas que expostas. Propomos, no entanto, que esses crimes, 
embora reais, são muito mais espetaculares que reincidentes e dizem pouco 
da realidade se pensarmos nas políticas públicas de saúde mental. 
Há de se ressaltar que a violência acima descrita é pouco comum 
nos surtos psicóticos. Os desencadeamentos que acarretam agressões 
graves são franca minoria. Na maioria dos casos, é o risco de violência 
grave, a dissociação discursiva, as manifestas alucinações que provocam 
a internação – e não as brutalidades. Se, por ventura, os atos de violência 
cometidos parecem frequentes é justamente pela grande visibilidade que 
adquirem. 
É difícil contestar, entretanto, que surto psicótico seja sempre extre-
mamente violento – ao próprio sujeito. Assim, tanto a violenta angústia que 
o desencadeamento aflora, quanto o risco de agressividade, podem justifi-
car a hospitalização psiquiátrica de curta duração. Nos melhores casos, a 
hospitalização compreende medicação, escuta especializada, ateliês tera-
pêuticos, assistência social, enfermagem. O que nenhuma das violências 
supracitadas justifica é a atrocidade do asilo. Michel Foucault (1961) mostra, 
em L’histoire de la folie, que a loucura é herdeira da lepra no que concerne 
às práticas de confinamento, e que o enclausuramento era baseado nas 
políticas de purificação urbana e careciam de critérios médicos. Ora, se du-
rante os séculos XIX e XX a clínica psicanalítica das psicoses avançou, que 
seja, entre outros, para construir argumentos que resistam e lutem contra a 
tragédia social do asilo. 
A possibilidade de uma sociedade sem asilos é séria e consequente 
– embora às vezes se pense que se trate de bravatas de diletantes sem 
120
Manoel Madeira
conhecimento de causa e que denotam visão romântica da loucura. Na dé-
cada de setenta, a França aboliu as hospitalizações vitalícias e disseminou 
serviços psiquiátricos ambulatoriais pela malha urbana. As medidas não 
acarretaram o aumento da criminalidade ou em um sentimento de insegu-
rança da parte da população. Em Paris, as pessoas estão acostumadas a 
conviver com a loucura no metrô, nas ruas, no mercado. Lacan sustentava 
o uso da palavra asilo, pois em sua etimologia encontramos a noção de 
refúgio, que ele julgava cara ao psicótico em crise. Porém, refúgio é para 
cuidar, não para excluir. Conforme insistimos, o inconsciente a céu aberto 
da crise psicótica expõe justamente conteúdos recalcados na neurose, o 
que Freud ([1894] 2005) chamou desde cedo em sua obra de unerträglich 
Darstellung, representação insuportável ao sujeito. Deste modo, a exclusão 
dos psicóticos em hospitais, a possibilidade de produzirmos holocaustos 
da loucura, talvez evoque essa condição estrutural da neurose, de afastar 
peremptoriamente o que lhe é intratável. Se o paradigma social ainda é 
o da neurose, e se a psicose sempre desvela à neurose alguma verda-
de que se quer esconder, o confinamento da loucura pode ser pensado 
como ataque ao mal-estar inerente à tessitura do laço social. Resta a im-
pressão de que, fazendo desaparecer o outro – este que encarna a alte-
ridade do inconsciente – o neurótico está se suicidando simbolicamente. 
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121
Corpo e violência estrutural das psicoses...
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Seuil, 1973, p.287-321. 
Recebido em 08/04/2014
Aceito em 05/06/2014
Revisado por Gláucia Escalier Braga
TEXTOS
122
Resumo: Este artigo visa apresentar a experiência da Casa dos Cata-Ventos, 
uma estratégia clínica e política de intervenção com a infância, situada na cida-
de de Porto Alegre (RS). A experiência inspira-se na estrutura de trabalho criada 
por Françoise Dolto, a Maison Verte, e também na Casa da Árvore, do Rio de 
Janeiro (RJ). Através da narrativa de algumas cenas vividas na Casa dos Cata-
Ventos, pretendemos apresentar os fundamentos da nossa aposta na dimensão 
política do brincar.
Palavras-chave: infância, direito ao brincar, Casa dos Cata-Ventos.
 
THE CASA DOS CATA-VENTOS: 
a bet on the political dimension of play
Abstract: This article presents the experience of Casa dos Cata-Ventos, a clini-
cal and political strategy of intervention with childhood, located in Porto Alegre/
RS. The experience is inspired by the work structure created by Françoise Dolto, 
the Maison Verte, and also by Casa da Árvore, from Rio de Janeiro/RJ. Through 
the narrative of some scenes lived in Casa dos Cata-Ventos, we present the 
fundamentals of our bet on the political dimension of play.
Keywords: childhood, right to play, Casa dos Cata-Ventos.
A CASA DOS CATA-VENTOS: 
uma aposta na dimensão 
política do brincar
Anderson Beltrame Pedroso1
Edson Luiz André de Sousa2
1 Psicólogo; Especialista em Direitos da Criança e do Adolescente (FMP/RS); Mestre em Psico-
logia Social e Institucional (UFRGS); Membro da Casa dos Cata-Ventos. 
E-mail: andersonbeltrame@gmail.com
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do Instituto APPOA; Pro-
fessor do Instituto de Psicologia da UFRGS; Professor do PPG Psicologia Social e do PPG 
Artes Visuais da UFRGS; Pós-doutor pela Universidade de Paris VII e pela École des Hautes 
Études en Sciences Sociales; Professor visitante na Deakin University (Melbourne), De Paul 
University (Chicago) e Instituto de Estudos Críticos (México); Coordena, com Maria Cristina 
Poli, o LAPPAP (Laboratório de Estudos em Psicanálise, Arte e Política).E-mail: edsonlasousa@uol.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.122-134, jul. 2013/jun. 2014
123
A Casa dos Cata-Ventos...
“Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo”.
(Gaston Bachelard)
A Casa dos Cata-Ventos não é uma escola e também não é uma creche, embora a preocupação com a educação e a formação das crianças es-
teja presente na mente daqueles que lá trabalham. Não é um espaço de 
recreação, ainda que o brincar seja parte essencial do nosso fazer. Não é 
um serviço de contraturno escolar, tão comum na rede socioassistencial, 
conquanto tenhamos um olhar sobre as necessidades socioeconômicas da 
população que atendemos e nos preocupemos com a garantia dos seus di-
reitos. Não é um consultório psicanalítico, por mais que nossos atos estejam 
fundamentados em sua ética. Na Casa dos Cata-Ventos não há cadastro de 
usuários nem de famílias, e todos que vierem serão acolhidos. A Casa não 
abre todos os dias e não há horário de entrada nem de saída.
Mas, afinal, o que é a Casa dos Cata-Ventos? Poderíamos respon-
der apressadamente: é um lugar de acolhimento da vida em comum. É um 
ambiente onde os adultos se ocupam com as crianças. É um tempo para 
experienciar a relação com o Outro com leveza; embora saibamos – de for-
ma visceral – que a angústia por vezes se faz presente e que a surdez da 
violência nos assombra sempre como uma possibilidade3.
Para algumas pessoas, a nossa proposta de trabalho pode beirar a 
leviandade e a inconsequência. Esta acusação não é nova, assim como não 
o é nossa proposta. Inspiramo-nos nos trabalhos da Maison Verte, funda-
da por Françoise Dolto em 1979, e da Casa da Árvore, ONG que atua em 
favelas cariocas desde 2001. A proposta inicial de Dolto era de um espaço 
de acolhimento para crianças de zero a três anos, sempre acompanhadas 
por um cuidador, onde pudessem – na presença de um grupo de psicana-
listas que se responsabilizariam pela sustentação do espaço – trabalhar as 
vicissitudes da angústia neste momento primordial de separação do corpo 
materno. A acusação de inutilidade deste dispositivo é retratada por Dolto 
em uma cena emblemática: “Quando abrimos a Maison Verte, as pessoas 
disseram: ‘Vocês, enfim, não fazem nada. Vocês deixam viver’”. Ao que a 
psicanalista francesa responde: “Sim, nós deixamos viver, falando da vida 
3 Cabe dizer que a Casa dos Cata-Ventos se insere na rede de garantia dos direitos de crianças 
e adolescentes como um serviço de apoio à rede. A coordenação do projeto é feita pela Univer-
sidade Federal do Rio Grande do Sul, através do Instituto de Psicologia/Departamento de Psi-
canálise e Psicopatologia, e o Instituto APPOA: clínica, intervenção e pesquisa em psicanálise.
124
Anderson Beltrame Pedroso e Edson Luiz André de Sousa
que se elabora a cada minuto, nomeando todas as palavras do vocabulá-
rio que se refere às atividades dessas crianças, ficando presentes e dis-
poníveis” (Dolto, 2005, p.356; grifo nosso). Nas “estruturas Dolto” – como 
ficaram conhecidos estes espaços de trabalho – o brincar nunca é dirigido, 
não se objetivam atividades pedagógicas ou que visem exclusivamente ao 
desenvolvimento cognitivo, sensorial, psicomotor, socioafetivo ou de qual-
quer eixo ao qual a subjetividade possa ser reduzida. Trata-se, ao invés 
disso, de um trabalho calcado na ética do parler vrai4, sustentado através da 
enunciação que se endereça diretamente à criança, independente de sua 
idade. A aposta feita neste trabalho é de que a nomeação daquilo que se 
passa com a criança suavize a brutalidade do encontro com o semelhante, 
configurando assim uma estratégia de intervenção precoce e de prevenção 
da violência (ideias que reconhecemos serem polêmicas no campo psicana-
lítico e às quais retornaremos ao longo deste trabalho).
De forma ainda mais radical, a equipe da Casa da Árvore sustenta o 
caráter preventivo deste trabalho. A desigualdade social e o cotidiano de 
violência a que estão submetidas muitas comunidades cariocas impuseram 
a eles adaptações do modelo francês, relativizando questões importantes, 
como a idade dos frequentadores e a necessária presença de um cuidador. 
Também se fez imperativo ampliar o arsenal de operadores conceituais que 
os auxiliassem a intervir num contexto tão diverso. A proposta de levar as 
estruturas Dolto às favelas gerou desconfiança por parte dos psicanalistas 
franceses que foram consultados no início desta empreitada. Disseram eles 
que seria impossível trabalhar “onde a violência torceu o pescoço das pala-
vras” (Milman, 2008, p.41). Mesmo frente a estas dificuldades a equipe da 
4 Embora a tradução mais precisa deste termo seja “fala verdadeira”, a opção dos tradutores 
de Dolto no Brasil foi por “palavra verdadeira”. A psicanalista Fernanda Baines escreve sobre a 
importância desta noção no que tange à ética do trabalho nas estruturas Dolto: “Dolto reafirmou 
o papel fundamental da palavra como instrumento terapêutico ao introduzir a noção do ‘parler 
vrai’, e desenvolveu a partir dele toda a sua prática clínica. Essa noção é o que baliza o modelo 
de trabalho criado por ela, a Maison Verte, que serviu de inspiração para a Casa da Árvore. Ao 
utilizar a expressão parler vrai, Dolto indica a importância, nas relações interpessoais, do res-
peito a si mesmo e ao outro enquanto sujeito. Falar verdadeiramente significava para ela poder 
expressar de modo franco, claro e desarmado o que sentimos na presença do outro, aquilo que 
do outro nos toca e afeta, o que no outro percebemos estar acontecendo, seja este um adulto 
(um sujeito plenamente constituído), ou uma criança (um sujeito em processo de constituição)” 
(Baines, 2008, p.145; grifos da autora).
125
A Casa dos Cata-Ventos...
Casa da Árvore não esmoreceu. A opção de instaurá-la nas comunidades 
mais vulneráveis situou o trabalho radicalmente sob o signo de uma “psi-
canálise na cidade” (Dolto apud Milman, 2008), com todos os paradoxos 
que o cenário urbano do Rio de Janeiro coloca. O depoimento do psica-
nalista Benilton Bezerra Jr. evidencia os impasses que se apresentaram 
a eles:
Ninguém, ao começar a trabalhar na Casa da Árvore, estava pre-
parado para lidar com crianças pequenas brincando de “desovar 
X9”, ou de “organizar uma festa na boca”. Ninguém foi treinado 
de antemão sobre como agir diante de perguntas agressivas em 
relação às diferenças de classe entre os pequenos frequentadores 
e os profissionais da Casa, ou como se comportar quando o tiro-
teio entre gangues ou entre policiais e traficantes eclode a poucos 
metros de onde crianças e adultos se encontram. Mas o principal 
desafio a ser enfrentado talvez seja outro, e diga respeito mais a 
nós do que a eles. Como, no dia a dia, estar atentos a componen-
tes universais da experiência subjetiva (inconsciente, recalque, 
fantasia), à dimensão singular da vida psíquica (a história única 
de cada sujeito), e articulá-los às peculiaridades inerentes ao con-
texto sócio-histórico – e portanto também subjetivo – em que es-
sas mães e crianças vivem suas vidas? Em outras palavras, como 
operar as ferramentas conceituais de que dispomos sem oscilar 
imperceptivelmente entre uma apreensão teórica das proprieda-
des universais do sujeito e uma abordagem prática das idiossin-
crasias absolutamente singulares de cada sujeito, sem deixarmos 
de dar conta, ou de ao menos enfrentar, os desafios e questões 
apresentados pelas particularidades subjetivas do universo sub-
jetivo compartilhado pelas mães e crianças que nos procuram? 
(Bezerra Jr., 2008, p.16; grifos do autor).
Certamente o choque entre os imaginários do morro e do asfalto, entre 
eles e nós, foi o que gerou maiores discussões na equipe. Esta intercessão 
entre sujeitos que se encontram em pontos tão distantes do tecido social 
– em que pese o fato de compartilharem um campo simbólico que homoge-
neíza os ideais na forma de signos midiáticos hegemônicos – impõe um es-
forço de escuta e reconhecimento. O risco de cair em uma postura higienista 
e de controle exige, porparte dos profissionais que lá atuam, uma vigilância 
sobre seus próprios atos e a reflexão constante sobre sua implicação e seu 
desejo.
126
Anderson Beltrame Pedroso e Edson Luiz André de Sousa
A Casa dos Cata-Ventos bebe destas fontes; e reconhece que, para 
dar conta do território em que está, tem de desenvolver suas próprias ferra-
mentas de trabalho. Desde julho de 2011 é a isso que nos dedicamos, es-
tando situados na Vila São Pedro, antiga Vila Cachorro Sentado, em Porto 
Alegre. O trabalho que ora apresentamos soma esforços a este imperativo 
de refletir sobre a clínica que viemos desenvolvendo. Cientes, contudo, do 
caráter processual e incipiente desta experiência, propomos apresentar al-
gumas cenas que nos ajudarão a indicar elementos do que nomeamos uma 
aposta na dimensão política do brincar.
Um dos eixos principais desta proposta é o que Dolto chamava o ano-
nimato dos frequentadores, e que nós preferimos definir como um trabalho 
em direção à apropriação do nome. Na Maison Verte, cada criança que 
chegava tinha seu nome registrado em um quadro-negro, junto ao nome da-
quele que a acompanhava. Era registrado só o primeiro nome, como forma 
de demarcar os contornos fonéticos de sua singularidade. Na Casa da Ár-
vore esta prática se repete. Nós também seguíamos o costume de registrar 
somente o primeiro nome dos frequentadores, até nos darmos conta de que 
alguns deles se repetiam e que muitas crianças não sabiam seus nomes 
completos, nem as suas idades. A partir daí, passamos a pedir estes dados 
na entrada e a registrá-los também em um caderno. Rapidamente todos 
aprenderam seus nomes completos e idades, mesmo os mais jovens. Mas 
antes de reformularmos nosso hábito, um acontecimento nos fez abrir os 
olhos para este efeito de singularização.
Na Casa dos Cata-Ventos nós não oferecemos alimentação ou qual-
quer tipo de recompensa material pela participação. À disposição dos usu-
ários temos apenas água. Contudo, este elemento mínimo se mostrou su-
ficiente para engendrar efeitos surpreendentes. Inauguramos o serviço em 
julho de 2011 e quando finalmente começávamos a obter uma resposta da 
divulgação dele na comunidade ainda sofríamos com os resquícios do rigo-
roso inverno gaúcho e a paranoia generalizada em torno da Gripe H1N1. 
O fato de as crianças trocarem entre si os copos d’água gerava verdadeiro 
pânico na equipe. Certo dia, tivemos a ideia de escrever o nome de cada 
uma em seu copo. Esse ato simplório, e talvez até higienista em sua ori-
gem, gerou, porém, um resultado absolutamente inesperado: as crianças 
ficaram fascinadas ao verem seus nomes escritos nos copos d’água. Nos 
plantões seguintes passamos todos a escrever os nomes. Logo começamos 
a organizar a cada dia um espaço onde os copos ficavam dispostos, estan-
do acessíveis a seus donos. Com frequência as crianças nem tomavam a 
água, satisfaziam-se em ter o copo com seu nome junto aos outros. Mesmo 
aqueles que ainda não sabiam ler pediam que se indicasse o seu copo – às 
127
A Casa dos Cata-Ventos...
vezes usávamos desenhos junto ao nome para fazê-lo. Seguidamente a 
demanda por água aumentava sempre que era anunciado o final dos plan-
tões5, sendo aquele ritual uma forma de protelar o seu término.
Esse efeito de fascínio convoca a reflexão sobre o estatuto das trocas 
simbólicas neste contexto, sobre a circulação dos afetos e, mais fundamen-
talmente, sobre a dialética que se instaura entre a demanda e o desejo. 
Este exemplo nos parece potente para pensar os efeitos da ética do parler 
vrai, proposta como um exercício de reconhecimento da criança como sujei-
to de linguagem e de desejo. O acontecimento da escritura do nome próprio 
num copo d’água pode parecer, à primeira vista, pueril. Todavia, a leitura 
que fazemos desta cena, a partir do que chamamos de uma transferência 
com o espaço – ou seja, uma transferência que se dá com o coletivo de 
trabalhadores que atua na Casa dos Cata-Ventos; um coletivo que aposta 
no poder estruturante da palavra e da ação – aponta para a emergência de 
um sujeito que se reconhece na demanda que faz por água. Quando inscre-
vemos o nome próprio de cada um deles no copo, em resposta à demanda 
por água, anunciamos a existência de um sujeito do desejo que já estava 
lá, mesmo sem o saber, quando demandou. É o reflexo de Narciso que se 
vê na superfície da água: uma imagem especular à qual o Outro acrescenta 
o significante que marca a existência de um sujeito. Ter o co(r)po com seu 
nome junto aos outros ressoa como a afirmação de sua presença no mundo.
Se, para Dolto, o caráter preventivo do trabalho estava ligado ao quê 
de traumático que pode haver para a criança no encontro com o outro, o 
semelhante, nas experiências brasileiras a prevenção se calca na possibi-
lidade de nomeação do absurdo do encontro de uma criança com o real da 
violência e da privação de direitos. A diferença entre as regras que organi-
zam a convivência nestes espaços é ilustrativa das dificuldades inerentes a 
cada contexto de trabalho. Na Maison Verte, as leis que regulam as relações 
sociais se reduzem a duas, bem simples, que facilitam seu entendimento 
pelos pequenos: a primeira é de que se deve utilizar um avental imperme-
5 A expressão se refere ao turno de trabalho na Casa dos Cata-Ventos. Muito já nos questio-
namos sobre o uso deste termo. Os termos “plantão” e “plantonistas” podem ser tomados na 
acepção médica e higienista, que pressupõe um aparato institucional a serviço da segregação 
das pessoas do seu meio. De forma totalmente contrária utilizamos essas expressões. Na 
ausência de termos melhores, mantivemos o uso deles apostando também que ressoem como 
um dispositivo pronto para acolher os fatos da vida como eles nos chegam e também deslo-
cando sua significação no sentido daquele que planta, ou seja, que semeia algo no presente.
128
Anderson Beltrame Pedroso e Edson Luiz André de Sousa
ável para brincar com água; e a segunda, que não se poderia brincar com 
os triciclos além de uma faixa vermelha pintada no chão. Para as crianças, 
é muito mais fácil internalizar a lei quando elas podem observar seu sentido 
material e as consequências de sua aplicação: no caso da proibição de uso 
dos triciclos em uma parte da Maison, as crianças eram de pronto confron-
tadas com o fato de que ela se refere ao espaço onde ficam os pais com as 
crianças menores, e que o uso do triciclo pode ocasionar algum acidente. 
Com relação aos aventais impermeáveis para brincar com água, em geral, 
os próprios pais não veem muito sentido, argumentando que em casa seus 
filhos brincam com água sem o avental. Contudo, para Dolto, esta é uma 
forma de introduzir uma diferença entre o espaço do lar, com suas regras 
próprias, sua privacidade e sua familiaridade, e um espaço coletivo onde as 
regras devem estar a serviço do bem-comum e da proteção individual. Des-
ta forma, se lida com o fato de que as regras valem para todos e, ao mesmo 
tempo, não são feitas contra ninguém; servem, portanto, para delimitar o 
espaço da nossa liberdade.
Diferentemente da prática no consultório, onde nos acostumamos a 
driblar a resistência e escutar a verdade mais íntima ser falada a muito custo 
num ambiente onde impera a privacidade, como psicanalistas trabalhadores 
da Casa dos Cata-Ventos nos surpreendemos com a facilidade de narrar 
as histórias mais duras, tristes, por vezes humilhantes, na frente de todos, 
como se toda a comunidade participasse de alguma forma do enredo con-
tado. Por vezes, nos sentimos em um terreno de uma transparência exces-
siva, em que a vida corre a olhos vistos, sem a possibilidade do repouso no 
espaço privado do lar. Talvez um sentido burguês da intimidade nunca tenha 
verdadeiramente se instalado em paredes tão finas, feitas com tapumes de 
madeira que, por vezes, não impedem a passagem nem do vento, nem da 
chuva, quanto menos o som das vozes ou os olhares curiosos.
É preciso reconhecer, portanto, neste contexto em que as bordas entre 
público e privado são tão fugazes,as dificuldades que enfrentamos e o esfor-
ço de leitura necessário para que possamos compreender o sentido de cada 
ato e de cada enunciação. Nossas palavras e “boas intenções” de cuidado, 
tentando mostrar o quanto nossas ações visam preservar a integridade físi-
ca dos usuários, se mostraram por vezes pífias e absolutamente ineficazes. 
O cuidado, este significante que para nós carrega as ressonâncias de afeto, 
proteção e acolhimento, para algumas das crianças remete à obrigação de 
cuidarem dos irmãos menores; peso de uma responsabilidade muito além 
do que eles estão aptos a carregar. É preciso dizer que, por várias vezes, 
tentáramos instituir regras de convivência no espaço, fundamentadas na 
nossa compreensão de “bem” e de “cuidado”. Dentre essas normas, deter-
129
A Casa dos Cata-Ventos...
minamos a proibição de que as crianças subissem no telhado, nas árvores, 
ou que pulassem o portão de entrada (somos obrigados a admitir que estas 
situações ocorreram; e não por uma ou duas vezes...). Todavia, uma cena 
emblemática da incoerência de nossos apelos à realidade daquela comu-
nidade foi quando, durante uma tarde de plantão em que nuvens cinzas 
anunciavam a chegada de um temporal, fomos surpreendidos pela vinda 
do familiar de uma criança à Casa dos Cata-Ventos. Quando chegou, esse 
familiar pediu que a criança fosse até sua casa, subisse no telhado e esti-
casse as lonas plásticas que protegeriam a família da invasão da água da 
chuva. Demo-nos conta naquele instante de que na Vila São Pedro são as 
crianças que têm de subir no telhado para desempenhar esta tarefa, já que, 
por serem menores e mais leves, correm menos risco de quebrar as telhas 
e sofrer um acidente. Outra cena aponta a delicada costura da significação 
de palavras e ações neste diálogo entre nós e eles: alguns meninos sempre 
que chegavam à Casa dos Cata-Ventos insistiam em colocar os vestidos 
mais rodados e cheios de enfeites. Foi necessário muito tempo e discussão 
entre os profissionais da equipe para que chegássemos ao entendimento 
de que naquela brincadeira não estava em primeiro plano o brincar com 
a identidade de gênero; ao invés disso, atualizavam-se no universo lúdico 
infantil costumes, ritos, cantos e danças da cultura negra, do candomblé 
e da umbanda. Estas cenas demonstram um trabalho sensível de escuta, 
despido de preconceitos e aberto para os sentidos novos que possam advir 
deste outro campo simbólico: posição possível porque fundamentada na 
ética psicanalítica.
Alertados das conotações acerca da palavra “cuidado”, nós, da Casa 
dos Cata-Ventos, tendemos a delimitar apenas uma regra fundamental: que 
a Casa dos Cata-Ventos é um espaço para brincar, contar histórias e con-
versar e que – portanto – em uma brincadeira ninguém pode se machucar. 
Se é de “faz de conta”, ninguém pode se machucar “de verdade”. Esta regra 
nos permite situar um limite imprescindível que orienta nossas intervenções: 
a diferença entre agressividade e violência. Retomando esta distinção win-
nicottiana, pudemos transitar de forma mais confortável por algumas brinca-
deiras, traduzindo-as, como propõem os colegas do Rio de Janeiro, como 
“brincadeiras de violência” ou “ação violenta” (Teles, 2008, p.120).
Assim, chegamos finalmente aos significantes que deram título a 
esta Jornada: desamparo e vulnerabilidade. A estes dois termos, propo-
mos acrescentar um terceiro: a privação de direitos. A discussão sobre a 
violência não pode ser dissociada da constatação de que muitos territórios 
brasileiros convivem dia a dia com o tráfico de drogas, as disputas entre 
facções criminosas e a presença ostensiva – e nem sempre pacífica – da 
130
Anderson Beltrame Pedroso e Edson Luiz André de Sousa
polícia. Nestas comunidades, os cidadãos veem cotidianamente agres-
sões gratuitas, tiroteios, pessoas feridas ou mortas. Além disso, em geral, 
os territórios subjugados pelo tráfico vivem sob uma lei do silêncio que 
em nada contribui para a elaboração destas experiências potencialmente 
traumáticas, ainda mais quando vivenciadas por crianças. A despeito dis-
so, sabe-se que o acesso ao mercado de trabalho e às políticas de saúde, 
educação, cultura, esporte e lazer são fatores que não só contribuem e 
previnem patologias físicas e psíquicas, mas que também promovem a 
qualidade de vida e o bem-estar de uma população. Assim sendo, embora 
o Estado brasileiro não possa ser responsabilizado pelos atos de violência 
individuais praticados por seus cidadãos, há de se responsabilizar pela 
violência estrutural que impõe à camada mais pobre de nossa sociedade, 
negando-lhe estes direitos.
Nossa tentativa de leitura dos movimentos agressivos e violentos à luz 
de uma discussão sobre a privação de direitos nos conduz à elaboração de 
uma hipótese6 acerca dos processos de subjetivação neste contexto. Esta 
reflexão se apoia na investigação feita por Kehl (2004) acerca de uma polí-
tica do ressentimento. 
[O ressentimento] é o afeto característico dos impasses gerados 
nas democracias liberais modernas, que acenam para os indivídu-
os com a promessa de uma igualdade social que não se cumpre, 
pelo menos nos termos em que foi simbolicamente antecipada. Os 
membros de uma classe ou de um fragmento social inferiorizado 
só se ressentem de sua condição se a proposta de igualdade lhes 
foi antecipada simbolicamente, de modo a que a falta dela seja 
percebida não como condenação divina ou como predestinação – 
como nas sociedades pré-modernas – mas como privação. São os 
casos em que a igualdade é “oficialmente reconhecida, mas não 
obtida na prática” (apud Scheler, 1958[1912], p.21) que produzem 
o ressentimento na política. É preciso que exista um pressupos-
to simbólico de igualdade entre opressor e oprimido, entre rico e 
pobre, poderoso e despossuído, para que os que se sentem infe-
riorizados se ressintam. Mas uma outra condição deve estar aqui 
6 A apresentação de uma hipótese como essa ultrapassa em muito a nossa modéstia inicial de 
simplesmente apresentar a experiência da Casa dos Cata-Ventos. Portanto, nos limitaremos a 
desenhar os contornos de uma pesquisa por vir.
131
A Casa dos Cata-Ventos...
presente: é preciso também que a igualdade da lei democrática 
seja interpretada como dádiva paterna dos poderosos e não como 
conquista popular. O ressentimento na política produz-se na inter-
face entre lei democrática – antecipação simbólica de igualdade 
de direitos – e as práticas de dominação paternalistas, que pre-
dispõem a sociedade a esperar passivamente que essa igualdade 
lhes seja legada como prova do amor e da bondade dos agentes 
do poder (Kehl, 2004, p.18; grifo da autora).
Ao tratar da especificidade da cultura brasileira, Kehl não desconecta 
a política do ressentimento de uma história colonial, patrimonialista e pa-
ternalista. Ao resgatar essa história, aponta um enlace particular de nos-
sa cultura com algumas das conquistas mais sublimes da humanidade, 
como a democracia e os direitos humanos: em contextos de privação dos 
direitos humanos fundamentais, a vivência do desamparo estrutural do 
ser humano acaba sobredeterminada por uma experiência de subtração 
das promessas de liberdade, igualdade e fraternidade que a cultura oci-
dental fez a todas as gerações que vieram após a Revolução Francesa. 
Somado a isso, o ideal narcisista do self-made-man – que conduz a um 
elogio da meritocracia – acaba por desembocar novamente em estratégias 
de exclusão das populações historicamente discriminadas; na medida em 
que denega o fato de que nem todos partem das mesmas condições para 
alcançar os mesmos objetivos. O apontamento de Kehl da relação entre 
a política do ressentimento, a vivência da injustiça e o individualismo é, 
neste sentido, muito pertinente:
A igualdade política que garante a todos os mesmos direitos e 
oportunidades situa os indivíduos, simbolicamente, em um mes-
mo patamar a partir do qual cada um se vê como competidor em 
relação a seus iguais. O pressuposto de uma igualdade simbólica 
que não sefaz acompanhar de igualdade de direitos garantidos de 
fato, aliado à identificação dos mais pobres com os valores dos pri-
vilegiados, corrói os laços de solidariedade – única forma de am-
paro coletivo do indivíduo isolado nas grandes massas urbanas. 
Apartados de seus semelhantes, que se apresentam como rivais, 
assim como de sua herança simbólica recalcada que possibilitaria 
o acesso a um saber inconsciente, os membros das sociedades 
modernas não compreendem a origem de seu desamparo e ten-
dem a filiar-se sob a proteção de grandes formações identitárias 
(Kehl, 2004, p.220). 
132
Anderson Beltrame Pedroso e Edson Luiz André de Sousa
O perfil que se revela em meio às sombras dessa hipótese retoma a 
imagem de uma força que nunca seca, para utilizarmos o título da canção 
de Chico César e Vanessa da Mata. Ao contrário da imagem do deserto (dé-
sêtre/des-ser), proposta por Lacan, a imagem do ser-tão nos leva a pensar 
num processo de subjetivação que se dá sob as condições mais áridas de 
vida: o désêtre remete a um movimento de esvaziamento das certezas nar-
císicas. Trata-se, portanto, de um deserto cheio de vida, liberto das amarras 
do eu ideal. Procuramos indicar um movimento diametralmente oposto. O 
ser-tão como a imagem de um eu que se defende da aridez da vida, armado 
com todas as certezas de um ideal excêntrico7 à realidade. É uma solução 
de compromisso que, embora não forclua ou denegue completamente a 
realidade, se defende da posição objetal frente ao Outro, encobrindo uma 
falta que é, na verdade, uma promessa não cumprida. Um direito promulga-
do no campo simbólico e não efetivado na vida destas pessoas dá margem 
para posturas reivindicatórias, delinquentes ou ressentidas. A aridez das 
condições de vida convoca para um esforço a mais na afirmação da subjeti-
vidade. Ser-tão é, portanto, a afirmação de uma subjetividade que solapa o 
abismo de uma privação, construindo seu castelo no ar, sobre a esperança 
dessa promessa não cumprida. Assim também o ser-tão abre espaço para 
a dimensão do insertão (Sousa, 2006): o incerto, o imprevisível, um tempo 
que sabe esperar. Só assim o futuro se abre para o lance de dados de uma 
aposta. A lucidez de Riobaldo, personagem que narra suas aventuras em 
Grande sertão: veredas, nos ilumina na travessia desta noite seca: “Sertão. 
Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do 
que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...” (Rosa, 2006, p.21). 
Enfim – para concluir esta breve apresentação da experiência da Casa 
dos Cata-Ventos – não nos furtaremos à polêmica, respondendo às acusa-
ções de leviandade e inconsequência lançadas a Dolto com o relato de mais 
uma cena: logo após as manifestações que tomaram as ruas do país, em 
junho de 2013, um movimento semelhante alcançou o pátio da Casa dos 
Cata-Ventos. Duas crianças fizeram cartazes e lideraram uma passeata rei-
7 A excentricidade deste ideal pode ser abordada em, pelo menos, três vieses: por um lado há o 
exotismo de um ideal alçado pela cultura ao patamar de objeto fetiche; por outro lado, podemos 
considerá-lo como estrangeiro, já que se distingue do tecido simbólico que caracteriza o modo 
de vida de uma comunidade que vive em privação; e, por último, descentrado, já que retira da 
instância do Eu os investimentos pulsionais, realocando-os em objetos externos.
133
A Casa dos Cata-Ventos...
vindicando mais plantões por semana e que eles fossem mais longos. Uma 
das crianças pedia, inclusive, que fossem das 13h às 6h do dia seguinte! 
Fantasiados, gritavam pelo pátio: “queremos mais horários, queremos mais 
brincadeiras”. Neste mesmo dia pediram que escrevêssemos os nomes 
de todos os presentes em folhas de ofício, com letras grandes e cursivas. 
Ninguém poderia ser esquecido. Durante essa brincadeira, gozavam num 
exercício de reconhecimento, demonstrando que todos sabiam os nomes 
completos uns dos outros. Diferentemente de tantas políticas, programas e 
serviços de atenção à infância que, de forma explícita ou dissimulada, visam 
à reprodução da mão de obra que deverá retornar destes investimentos e 
se tornar útil no futuro – uma lógica que se deixa seduzir pelos encantos da 
biopolítica (ou, em sua tradução mais atual: o discurso da neuroeconomia), 
reduzindo a polivocidade da infância às conexões cerebrais e às janelas 
de oportunidade que servirão à manutenção do modo hegemônico de pro-
dução de subjetividades – a Casa dos Cata-Ventos se posiciona de forma 
contrária a esta lógica de reificação do ser humano, afirmando que o tema 
da aposta, presente do título deste trabalho, encontra seu sentido quando 
compreendemos o brincar como o gesto inaugural de encontro com o Outro. 
É através do brincar que nasce a possibilidade de criação de um mundo em 
comum. Acima da utilidade e da redução da sua capacidade criativa aos 
interesses de reprodução do capital, a relação entre as pessoas tem de en-
contrar justificação em si mesma, desaguando na mais absoluta inutilidade 
da política. A nossa aposta se resume, por fim, à defesa do direito ao brincar 
como a afirmação de uma política da inutilidade.
 
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Recebido em 03/02/2014
Aceito em 06/06/2014
Revisado por Deborah Nagel Pinho
TEXTOS
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Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.135-145, jul. 2013/jun. 2014
Resumo: Pretendo examinar a questão-título com base em três pontos. O pri-
meiro: recuperar algo do que levou parte considerável de meus esforços de in-
vestigação nos últimos anos, ao analisar se na contemporaneidade a autoridade 
docente acabou ou não. O segundo: inserir algum fragmento de pesquisa para 
mostrar o vínculo entre a autoridade e o sinthoma. E, terceiro: avançar o debate 
perguntando se o professor está em condições de autorizar-se de si mesmo, a 
espelho do que ideativamente deve fazê-lo o psicanalista.
Palavras-chave: autoridade, professor, sinthoma, psicanálise.
THE AUTHORITY OF THE TEACHER AND 
THE QUESTION OF KNOW-HOW WITH THE SYMPTHOM
Abstract: I intend to examine the question-title based on three points. The first: 
to recover something from my research in recent years, when I analyze the con-
temporary authority of the teacher has ended or not. The second: to insert a 
fragment of research to show the link between the authority and sympthom. And 
third: to advance and ask if the teacher is able to authorize yourself to yourself, 
how ideally should do the psychoanalyst.
Keywords: authority, teacher, sympthom, psychoanalysis.
A AUTORIDADE DO PROFESSOR 
E A QUESTÃO DO SABER 
FAZER COM O SINTHOMA
Marcelo Ricardo Pereira1
1 Psicanalista; Pós-Doutor em Psicologia, Psicanálise e Psicopatologia Clínica pela USP e Uni-
versité de Provence; Professor da Universidade Federalde Minas Gerais e da Linha de Pes-
quisa Psicologia, Psicanálise e Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação da 
UFMG; Coordena o Lepsi-Seção MG; Pesquisador do CNPq e Fapemig; Autor de A impostura 
do mestre (Argvmentvm, 2008) e O avesso do modelo (Vozes, 2003). E-mail: mrp@fae.ufmg.br 
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Marcelo Ricardo Pereira
Pretendo examinar a questão-título com base em três pontos. O primei-ro: recuperar algo do que levou parte considerável de meus esforços 
de investigação nos últimos anos, ao analisar se na contemporaneidade a 
autoridade docente acabou ou não2. O segundo: inserir algum fragmento 
de pesquisa para mostrar o vínculo entre a autoridade e o sinthoma. E, 
terceiro: avançar o debate perguntando se o professor está em condições 
de autorizar-se de si mesmo, a espelho do que ideativamente deve fazê-lo 
o psicanalista. 
1
Se nos deslocarmos no tempo, perceberemos que desde os gregos 
– para ficar apenas na história do Ocidente – mestres e professores sem-
pre se queixaram de não poderem exercer plenamente a autoridade que a 
sua função lhes confere. A essa queixa soma-se invariavelmente uma boa 
cota de nostalgia, que os faz acreditar que em gerações anteriores pôde-se 
gozar de melhores chances do exercício dessa tal e imaginária autoridade. 
Exemplo disso, temos as Báquides, de Menandro (343-291 a.c.), que des-
creve o diálogo entre os mestres pedagogos Lydo e Filoxeno acerca de um 
episódio de violência educativa de um jovem discípulo grego: 
– “Tu recebeste, por acaso, a mesma educação quando era ado-
lescente?”, indigna-se �ydo, e emenda: “Tenho certeza de que aos 
20 anos, Filoxeno, ainda não podias sair de casa e levar teu pé um 
dedo sequer longe do pedagogo; e se acontecia, ficavas de mal 
a pior...”. 
A que Filoxeno retruca: 
– “Mas, �ydo, os costumes mudaram!”. 
O indignado se exaspera: 
– “Eu sei muito bem disso: outrora, de fato, só graças ao voto po-
pular teria alcançado um cargo antes de deixar o mestre e suas pa-
lavras. Mas, agora, não tem ainda 7 anos e se lhe encostas a mão 
logo o menino quebra a cabeça do pedagogo, com a tabuinha. Se 
2 Pereira, M.R. et al. Acabou a autoridade? – professor, subjetividade e sintoma, 2011.
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A autoridade do professor...
reclamas ao pai, o pai assim diz ao menino: ‘tu és digno de mim, já 
que és capaz de te defenderes das ofensas’; e ao pedagogo diz: 
‘não toques no menino: ele se comportou como um valente’. Vai-se 
então o mestre para casa, coberto com uma veste ensebada como 
uma candeia. E como pode nessas condições exercer um mestre 
a sua autoridade?” – constata �ydo melancolicamente (Menandro, 
2004, p. 60-1). 
Hoje, na verdade, temos apenas a última versão da crise de um víncu-
lo que suspeitamos não ter nunca conhecido alguma calmaria ou paraíso. 
Ao contrário, a história da formação e da profissão docente revela-nos o 
quanto seu exercício foi sempre atravessado pelo osso da resistência, pelas 
deserções, embates, boicotes e violência, entre tantos modos de mostrar o 
quão inglória, e não heroica, é essa função. A crise de hoje é somente mais 
um capítulo de uma jornada pedagógica, própria do homem, que o faz, via 
transmissão da palavra, inscrever-se num projeto comum de humanidade e, 
ao mesmo tempo, num projeto de si, fundamentalmente singular de exercí-
cio de seu desejo (e poder). 
Muitos professores, como Lydo, emprestam à sua arte um caráter de 
nostalgia de uma profissão que imaginam ter logrado a bem-aventurança 
dos céus. Talvez isso esteja intimamente ligado ao sentido da vocação para 
o magistério que, à maneira essencialista, parece restituir algo herdado da 
tradição religiosa, missionária e mesmo grega. Ela está na genealogia da 
profissão e ainda a influencia a ponto de lhe reforçar a ideia de um paraíso 
perdido. Porém, a nostalgia guarda igualmente outro sentido, qual seja, o da 
impossibilidade de fazermos o luto de não termos o nome, a palavra justa, a 
transmissão exata que dê significação plena ao real. A isso o texto freudiano 
chamará “a nostalgia do pai” – Vatersehnsucht (Freud, [1913]1980, p. 176).
E por que associar essa noção de Vatersehnsucht com a nostalgia que 
muitos professores experimentam em seu cotidiano? Em rápidas palavras: 
porque ela está intrinsecamente ligada à desconstrução crítica da moder-
nidade, que Freud promovera com sua suposta epopeia sobre a origem da 
cultura e da sociedade humana sob o título de Totem e tabu ([1913]1980). 
Com essa obra fértil, o autor teoriza a invenção de Deus, das instituições 
sociais, da moralidade e de seus possíveis embaixadores ou veiculadores, 
entre eles, o professor. 
Como isso se faz? Em Totem e tabu, a morte passa a ocupar um foro 
privilegiado no discurso de Freud, quando a eleva à condição de constituinte 
do homem. A sociedade fraterna nasce de um crime perpetrado em con-
junto, crime do qual a humanidade não pode jamais se libertar: a morte do 
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Marcelo Ricardo Pereira
pai. Mas “o pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo” ([1913]1980, 
p.171). Em seu lugar, estabeleceu-se um totem original, como substituto 
do pai morto e pranteado, ao qual toda e qualquer violação ou desrespeito 
seria tomado como ofensa social. “O parricídio é o crime principal e primevo 
da humanidade” (Freud, [1928]1980, p.211). Essa frase é capaz de predizer 
de modo notável e sem embaraços que a morte do pai é indispensável à 
criação da cultura. A civilização não somente se inicia com o crime, mas se 
mantém através dele. Mesmo quando um crime real é suspenso, ele perma-
nece admissível, senão desejável. 
Com o retorno simbólico do pai, sob a forma de totem, Freud passa 
a interrogar o conceito de Deus e de religião como pressuposto lógico de 
uma sociedade fraterna. Parece plausível supor que, embora o totem possa 
ser a primeira forma de representante paterno, dado sentimento religioso, o 
Deus-conceito, abstrato e transcendente, será uma forma posterior, na qual 
o pai terá reconquistado sua aparência humana. Daí o axioma de que toda 
religião é uma “nostalgia” não apaziguada do pai – a Vatersehnsucht.
A nosso ver, mestres, professores, educadores, pastores e governan-
tes não passam de embaixadores encarnados dessa posição. A psicanálise, 
com isso, deu crédito aos fiéis da tradição judaico-cristã, ao chamar Deus de 
Pai. Não é sem razão que eles o chamam dessa maneira: “Gott im grunde 
nichts anderes ist als ein erhöhter Vater” (Deus, no fundo, nada mais é do 
que um pai glorificado) – Freud ([1913] 1980, p. 176).
Teorias sobre a falência de instituições sociais, o aumento da violência 
urbana e da criminalidade, a perplexidade de projetos educacionais ante a 
diversidade cultural, entre outras, em regra, vêm associadas a uma crise de 
autoridade, ao fim das tradições, a um declínio de um deus-pai ou à deposi-
ção da sociedade eminentemente patriarcal. Com efeito, vivemos hoje sob 
os indícios reais de uma Vatersehnsucht.
Essa nostalgia tornou-se um dos fatores que me levou a considerar 
todo mestre como um impostor, na medida em que, em nossos tempos, isto 
é, tempos republicanos, ele parece se deter entre, no mínimo, duas forças 
fundamentais: de um lado, tem de ser aquele que recupera através de sua 
pessoa a imagem do pai, as tradições e os valores estabelecidos metafi-
sicamente ao longo do tempo – e que sempre devem ser evocados aos 
pequenos –; do outro, ele também tem de ser aquele que vai se despir dos 
ideais da tradição, desses ideais metafísicos, e se nivelar às massas, a fim 
de educá-las para uma sociedade que supostamente nos nivela, a todos, 
como iguais, livres e fraternos (Pereira, 2008). Porém, como emprestar-lhes 
o sentido nostálgico de serem mestres da tradição e do saber, quase trans-
cendentes, e, ao mesmo tempo, dar-lhes um sentido essencialmente ter-
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A autoridade do professor...
reno e proletarizado de um profissional que deve se encarregar de levar a 
boa nova do processo civilizador às massas? Em outras palavras, como ser 
deus e mortal ao mesmo tempo? 
É nessa corda bamba ou fiode navalha que se encontra sua autorida-
de. E quando perguntamos algo acerca da autoridade docente, ouso dizer 
que ela está aí, que não acabou e que mesmo mimetizada ela continua a 
guiar nossos passos. Cabe a nós, clínicos e pesquisadores, saber discerni-
la. Isso não nos impede de reconhecer que ela foi solapada, alterada, me-
tamorfoseada e deslocada ao longo dos tempos republicanos, sobretudo, 
em seus últimos momentos, desde meados do séc. XX, quando o poder das 
imagens ganhou seus maiores efeitos. A palavra cedeu-se à imagem: e isso 
tem acelerado a erosão de qualquer autoridade que se assente na palavra 
como último recurso para afirmar-se. As imagens se excedem e nos convo-
cam também ao excesso.
Nossa sociedade que, para bem ou para mal, parece ter admitido certo 
“darwinismo social” (Dufour, 2009), que parece ter posto em xeque as tra-
dições, e com isso um enfraquecimento da palavra, do simbólico, ao lado 
de uma instrumentalização dos laços sociais, leva-me a pensar que muitos 
professores encontram-se deixados à sua própria sorte. De um lado, a so-
ciedade hiperimagética dos supostamente “iguais” lembra-os de que os ex-
cessos, ou seja, a satisfação pulsional, o gozo sem interdito, estão sempre 
na iminência de acontecer. Do outro, a sociedade, que poderia oferecer-lhes 
dispositivos para regularem esses excessos, tem incitado, a todos nós, à 
desregulação pulsional, à satisfação sem limite. O problema é que essa 
mesma sociedade determina ao professor que não compactue com isso, 
que interdite os excessos que ela mesma incita. Transmitir marcas simbó-
licas – ou seja, educar – requer sempre uma cota expressiva de interditos 
e renúncias. Mas uma sociedade mais hedonista, com sujeitos menos re-
calcados, efeitos imediatos de uma imagem do pai declinada, tem gerado 
para o professor constrangimentos difíceis de superar. Como eles mesmos 
dizem, há uma “catatonia pedagógica”, pois, mediante esse empuxo a gozar 
de nossos tempos, o fundamento de seu trabalho junto aos infantes e jovens 
parece se esvair. Para recuperá-lo, o professor pode recorrer aos valores 
da tradição, da autoridade ou dos ideais patrilineares, mas esses valores já 
não estão mais lá, pois foram decididamente deslocados ou enfraquecidos. 
É bem possível pensar que, impotentes, muitos professores não terão outro 
destino senão produzirem o nefasto ou o pior para si mesmos: o padeci-
mento.
Nesse sentido, não é improvável imaginar que o professor pague com 
o seu corpo uma espécie de Spaltung social, de uma cisão fundamental de 
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Marcelo Ricardo Pereira
nossos tempos. Isso não é tomá-lo como vítima, mas como uma figura que 
se situa no epicentro de um movimento que coloca em questão a capaci-
dade de essa mesma sociedade exercer sua função de transmissão. Não 
obstante, ainda que sejamos pessimistas em constatações dessa natu-
reza, podemos não sê-lo ao aqui vislumbrarmos alguma possibilidade de 
saída. 
2
Com base no que chamamos “orientação clínica”, que tem o caráter de 
pesquisa-intervenção, pautado no princípio freudiano recordar, repetir, per-
laborar (Freud, [1914] 1980), realizamos um amplo trabalho de investigação 
que contou com a participação de um número expressivo de professores 
de crianças e adolescentes, tanto da rede regular de ensino quanto da rede 
não regular, que inicialmente se sentiram motivados a narrar algo acerca da 
pergunta que atravessou nosso trabalho à época: por que os professores de 
hoje se dizem tão desautorizados? (Pereira et al., 2011).
Entre os resultados revelados, mais ou menos óbvios, previstos pela 
moral pedagógica, e repetidos desmesuradamente pelos depoentes, en-
contramos algo muito específico, que se refere à subjetividade mesma 
do professor. Em uma perspectiva contrária às regularidades discursivas, 
como modo único de examinar as falas e significantes dos participantes en-
volvidos, focalizamos também o mais singular, o mais clínico ou os modos 
próprios de ser: as peculiaridades, as particularidades que compõem outro 
feixe de reflexões. Entre tais singularidades, ressaltamos o que alguns 
professores inventam, dia após dia, mediante o impasse de sua própria 
corda bamba, de ser deus e mortal ao mesmo tempo. Assim ocorre, por 
exemplo, com uma professora de adolescentes que ensina matemática e 
que, para recuperar algo de sua autoridade erodida e reter a atenção dos 
alunos, estabelece com eles uma estratégia que a faz dividir o tempo de 
sua aula em duas metades: uma, para o conteúdo de matemática; outra, 
para uma roda de conversa sobre sexualidade e questões fundamentais 
da adolescência. 
A mesma estratégia parece adotar outro professor, mas com algo mais 
genuíno. Apresentando-se bastante vital em sua função e igualmente vital 
para falar sobre si em nossas intervenções, admitiu que a mulher, a “patroa”, 
diz ele, sempre mandou em sua vida, e que sempre se deixou controlar. Foi 
levado ao magistério de maneira forçada pela ex-esposa e por uma diretora 
da escola em que primeiro trabalhou como professor. Ele acredita que a 
educação é coisa de mãe, e a escola também. Em suas palavras: “Eu acho 
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A autoridade do professor...
que o ensino, em si, é muito da ordem de ser mãe, de aconchegar o outro; 
eu só aprendo aquilo que me faz bem, o que não me faz bem eu não apren-
do, por isso eu acho que a educação ainda tem muito a ver com a mãe, tem 
de ser mãezona, o professor”. E revela também: “Sempre tive um receio 
da escola, sempre; eu sou um aluno ainda, muito ainda [...]. Eu sempre me 
escondo, é uma dificuldade que eu tenho de lidar com ela...”. Ela? Escola, 
mulher e mãe parecem se embaraçar na fala desse professor, a ponto de 
refletir na história que ele próprio conta aos alunos, estrategicamente, sob 
a forma de novela, em capítulos, para que os mesmos sintam-se motivados 
em suas aulas.
“A história é muito sedutora”, diz ele, e envolve personagens como a 
mulher, o homem e o demônio. A cada dia, e improvisadamente, ele a conta 
um pouco mais:
É na hora, na hora, cada dia eu conto de uma forma, dou sempre 
uma sequência. Nem sei como. Aí eu jogo: quem é mais inteli-
gente o homem ou a mulher? Aí, vira um auê, vira uma votação. 
Vamos ver quem descobre, quem tem propostas, entre o demônio, 
a mulher e o homem; e eles têm de fazer a proposta, e o demônio 
acha uma maneira... de sempre querer ser a mulher; a mulher tem 
o poder, a força, e ela consegue manipular o demônio o tempo 
todo, e eles não acham... saída [“saída?” – pontuamos]. É, na mi-
nha história, na minha história. 
Perguntado sobre a que atribui fazer sempre a mulher vencer, ele res-
ponde: “a mulher tem o poder da casa e o homem acredita que tem o poder 
de fora. Ele manda em tudo, mas ele é sempre submisso à mulher, ele 
sempre tem de se ajoelhar ali, porque o mundo é cruel” (e ri de maneira 
debochada).
Não é improvável admitir que temos aqui um elemento essencialmente 
clínico, por demais singular, e que revela um modo muito peculiar de docên-
cia. O professor parece dizer que, ao construir uma história, que parece ser 
a sua (“na minha história, na minha história”), ele atualiza o poder manipu-
lador da mulher, que faz do homem um submisso, como ele mesmo julgou 
a si. Talvez ele requeira à sua história uma mulher (fálica) para manipular 
o demônio, que pode ser ele mesmo; ou talvez seja ela o próprio demônio, 
já que este “acha uma maneira de sempre querer ser a mulher...”. O fato 
é que parece não haver “saída” para a sua história, fazendo-o se deparar 
com o mais real de si mesmo, com o mais singular, com algo a que se sinta 
concernido. Seu modo de docência teria nesse ponto – porque é sempre 
142
Marcelo Ricardo Pereira
pontual – algo em si de mais real e que, como tal, poderia fazer o sujeito 
surgir, o sujeito vir a ser. E o que é o mais real do sujeito senão o seu próprio 
sinthoma – esse dado formidável da experiência analítica? Esse professor 
estaria entre aqueles poucos que fazem de sua mestria um sinthoma? 
Ora, com a psicanálise o sintoma deixoude ser algo da ordem médica 
para ser uma “pantomima do desejo” (Freud, [1926] 1980) ou “aquilo que 
as pessoas têm de mais real” (�acan, [1975-76] 2008). Ele perde a matriz 
organicista de sinal de uma doença para ganhar a de estrutura real na cons-
tituição do sujeito. Em um de seus últimos seminários, �acan ([1975-76] 
2008) altera o conceito tradicional de sintoma, em psicanálise, o escreve 
com h, rememorando parte do francês arcaico, e amplia a noção freudiana 
eminentemente simbólica de um sintoma como apenas formação do incons-
ciente. Nesse seminário, o autor elucida, entre outras coisas, que o sintho-
ma não é uma verdade que dependa de significação e interpretação, como 
quis Freud, mas que possui uma função estrutural de prótese. O sinthoma 
forneceria ao sujeito um eu substituto, uma prótese, que é justamente o que 
o sujeito teria de mais real. Ele não serve necessariamente para codificar 
verdades desse sujeito, mas, antes, lhe serve como prótese, para inscrevê-
lo no campo da palavra e da linguagem. O sinthoma seria, assim, o quarto 
termo (ou quarto elo), que enlaçaria os outros três termos da topologia que 
o próprio Lacan criou: real, simbólico, imaginário. Com base na escrita de 
Joyce, �acan ([1975] 2003; [1975-76] 2008) vai propor essa noção inédita 
de sinthoma, escrito com h, ou seja, como função de prótese, que, no caso, 
seria justamente a própria atividade de Joyce como escritor. Sua escrita-
sinthoma, por assim dizer, não é para ser decodificada, mas para inscrever 
o próprio Joyce de maneira decididamente singular no campo da palavra e 
da linguagem, enlaçando os três elos.
Se for assim, aceitando a hipótese do sinthoma como quarto termo, 
arriscamo-nos a considerar que, como em Joyce, certos professores – muito 
poucos de fato – poderiam elevar seu ofício à condição de prótese ou a um 
modo de ser do seu próprio sinthoma. Acolhendo tanto a grafia quanto a 
noção de Lacan, teríamos aqui a mestria como sinthoma ou um saber-fazer 
com ele que inscreveria certos professores no campo da palavra e da lin-
guagem como... professores, como professores-sinthoma
Se admitirmos isso, estaremos em melhores chances de emparelhar 
algo do exercício da docência ao exercício do psicanalista, sem necessa-
riamente igualá-los, mas tensionando ao máximo a corda que os faz ser 
tomados como profissionais de ofícios impossíveis. Evoquemos para tal o 
princípio lacaniano, lembrado como questão que abre este texto: autorizar-
se de si mesmo. 
143
A autoridade do professor...
3
Quando �acan ([1967] 2003, p. 248), em sua “Proposição de 9 de ou-
tubro de 1967...”, diz que “o psicanalista só se autoriza de si mesmo”, ele 
dá mostras claras de sua preocupação com a transmissão da psicanálise, 
para além do que ele vivia à época de sua “excomunhão” dos quadros da 
IPA3. Ainda que mais tarde o autor altere a sua máxima, dizendo “autoriza-
se de si mesmo... e por alguns outros” (�acan, 1973-74), sem nomeá-los 
diretamente, seu princípio não perde vigor. “O desejo do psicanalista – diz 
ele – é a sua enunciação” ([1967] 2003, p. 257). Com isso, �acan reage 
contra a acefalia das interpretações de almanaque, muitas das quais as-
seguradas em princípios escolásticos, imóveis e repetitivos. Ele promoveu 
rupturas, chacoalhou a clínica e reacendeu o debate sobre a formação de 
psicanalistas, ao usar em seu favor justamente o argumento que fazia es-
clerosar as associações formadoras da época: o da verdadeira psicanálise. 
Mas conheceu também os efeitos grupais, imaginários e pregnantes no in-
terior de sua própria associação. Sua escola não conseguiu vencer o risco 
do fechamento doutrinal e do hermetismo alucinatório, que fizeram muitos 
de seus seguidores repetirem, como jargões, suas fórmulas, por vezes tão 
geniais quanto obscuras. A obscuridade, inclusive, não deixou de proteger 
esses seguidores menos brilhantes, exatamente por evitar neles os efeitos 
superegoicos do receio de serem contestados ou excluídos. 
Autorizar-se de si mesmo deveria ir à contramão dessa busca de reco-
nhecimento imaginário entre os pares. Ainda que uma escola garanta que 
um analista depende de sua formação, sabemos que “nenhum ensino fala 
do que é a psicanálise” (�acan, [1967] 2003, p. 250). Tornar-se um psicana-
lista é tornar-se um psicanalista da sua própria experiência. Para isso, terá 
ele de haver analisado os seus sonhos a ponto de poder testemunhá-los 
(o que não é o mesmo que se obrigar a fazê-lo). O discurso que institui um 
psicanalista não é outro senão aquele que, como objeto, sustentado por 
seu saber inconsciente, interroga o sujeito a ponto de fazê-lo advir em sua 
própria experiência – discurso do psicanalista. O analista passou por isso e 
deverá saber levar o mesmo aos que o procuram. É isso que o faz autorizar-
se.
3 International Psychoanalytical Association (IPA): principal instituição de formação e difusão 
do freudismo, gestada no seio da Sociedade das Quartas-feiras que, desde 1902, reuniu o 
primeiro grupo seleto de psicanalistas, vindo a tornar-se a maior associação de psicanálise do 
mundo.
144
Marcelo Ricardo Pereira
Do ponto de vista do professor, porém, sabemos que o discurso stricto 
sensu que o institui não é o mesmo que institui o psicanalista. Em tese, ele 
jamais poderia autorizar-se de si mesmo para sê-lo como tal, já que sempre 
dependerá de uma autoridade primeira – ou um significante-mestre – que 
o sustente e o legitime em sua função: as obras dos autores em que se 
baseia, os fundamentos de sua formação, os conteúdos, os planos, os or-
ganismos de governo como ministérios, secretarias e superintendências de 
ensino – discurso da universidade. Assim instituído, o professor se vê em 
pleno fio de navalha, pois, uma vez sendo esses modos tradicionais de au-
toridade primeira, de significantes-mestres, severamente interrogados nos 
nossos dias, não há como recorrer a eles para garantir o que Lydo, o mestre 
grego, a espelho de muitos, demanda com sua queixa melancólica. 
Mas quem sabe entre aqueles que elevam sua mestria à condição de 
sinthoma possa haver algum destino diferente! Se o sinthoma é o que o su-
jeito tem de mais real, talvez tenhamos aqui um lugar em que já não importa 
se se é desautorizado ou não, se se realiza uma docência metricamente 
correta ou não, se se pratica a didática devidamente ou não, ou se se de-
pende de significantes-mestres ou não. Nesses casos, o reconhecimento 
imaginário perde a sua função e a sua impostura cede à sua própria autori-
zação. Se alguns professores, como o da história do demônio, ao contrário 
do que aparentemente demonstra Lydo, elevam seu exercício de mestria à 
condição de um sinthoma, algo em si de mais real, então, sou inclinado a 
admitir que esses mesmos professores têm a chance de autorizarem-se de 
si mesmos através de seu sinthoma. O que lhes falta, quem sabe, é uma 
instância que lhes permita transmitir sua enunciação ou sua própria experi-
ência para poderem instituir-se como tal. E que enunciação é essa? A de um 
professor que se autoriza de si mesmo por dar testemunho de sua mestria 
como sinthoma. Aos formadores de professores psicanaliticamente orien-
tados, talvez caiba efetivar fóruns em que tal testemunho possa se revelar. 
Por enquanto, em se tratando de pesquisa, a orientação clínica parece-nos 
representar justamente algum modo concreto de fazer esse testemunho 
operar.
REFERÊNCIAS 
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Janeiro: Imago, 1980. 
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Janeiro: Imago, 1980.
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de Janeiro: Imago, 1980.
145
A autoridade do professor...
_____. Dostoievski e o parricídio [1928]. In: ______. Obras completas. v. 11. Rio de 
Janeiro: Imago, 1980. 
�ACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Esco-
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2003. 
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MENANDRO. As Báquides. In: MANACORDA, Mário. História da educação. 11 ed. 
São Paulo: Cortez, 2004.
PEREIRA, Marcelo Ricardo. A impostura do mestre. Belo Horizonte: Argvmentvm, 
2008.
_____. et al. Acabou a autoridade? – professor, subjetividade e sintoma. Belo Hori-
zonte: FinoTraço/Fapemig, 2011.
Recebido em 31/03/2014
Aceito em 09/05/2014
Revisado por Deborah Nagel Pinho
TEXTOS
146
Resumo: O trabalho se propõe a interrogar o discurso sobre o mal-estar e a 
violência na educação. Apoia-se na hipótese de que a veiculação de informa-
ções catastróficas incrementam o mal-estar e impedem o trabalho elaborativo 
de simbolização do mal. A promoção do horror é então, em si mesma, produtora 
do traumático. 
Palavras-chave: educação, violência, catástrofe, traumatismo educacional, 
mal-estar.
THE TRAUMATIC DIMENSION OF EDUCATION
Abstract: The study aims to examine the discourse about discomfort and violen-
ce in education. It is based on the assumption that the placement of catastrophic 
information adds to the discomfort and prevents the working through of evil sym-
bolization. So, the promotion of horror produces the traumatic in itself.
Keywords: education, violence, disaster, educational trauma, discontents.
Roséli M. Olabarriaga Cabistani2
A DIMENSÃO TRAUMÁTICA 
DA EDUCAÇÃO1
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e do Instituto 
APPOA; Professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRGS; Coordenadora da linha de 
trabalho Psicanálise e Educação do Instituto APPOA. E-mail: rocabistani@gmail.com
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.146-152, jul. 2013/jun. 2014
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A dimensão traumática da educação
Constituir um espaço de investigação, reflexão, compartilhamento e cria-ção no campo da psicanálise e educação vem sendo um desafio e um 
projeto importante ao qual demos início, este ano, no Instituto APPOA. Ini-
cialmente o trabalho foi desencadeado por realização de rodas de conversa 
em parceria com o SINPRO-RS e a linha de trabalho Psicanálise e Educa-
ção, que vem sendo construída por colegas e interessados na temática, que 
desejam elaborar e compartilhar suas experiências de trabalho e estudos. 
Novas questões vêm se apresentando a cada dia e precisamos elabo-
rar as respostas, para que não fiquemos fazendo coro aos discursos corren-
tes e inoperantes sobre a crise do vínculo educativo, sobre a violência na 
escola, o desrespeito aos professores, a falta de desejo de estudar, etc. etc. 
A psicanálise tem o mérito e a função de permitir olhar as evidências com 
desconfiança. Duvidar e escutar o que está mais além do dado empírico. 
Trabalhamos com a interpretação e trata-se de um momento em que é fun-
damental não esquecer disso, diante da ofensiva cientificista que privilegia 
a pesquisa positivista nas ciências humanas, frente ao avanço crescente do 
excesso de informações “catastróficas”, que nos convocam a opinar sobre 
fatos que se apresentam como evidências irrefutáveis. 
Conto brevemente um acontecimento exemplar dessa situação, para 
melhor refletir sobre isso:
“Um programa de rádio, de muita audiência, chamou pessoas envol-
vidas com a educação, para um debate em torno do fato do momento: Na 
cidade de São Paulo, professora (50 anos) morre ao tentar controlar aluno 
de 8 anos. 
Até quando alunos vão continuar a agredir professores? Perguntava o 
jornalista do programa repetidas vezes. 
Fui uma das pessoas presentes no debate e não tinha lido diretamente 
tal notícia, o que me permitiu fazer a pergunta óbvia, que ainda não tinha 
sido feita e que levaria a um esclarecimento mínimo da situação: Qual a 
causa da morte da professora? 
Parece que foi enfarto, foi a resposta”.
Notícias e debates como esse não são novidades, tampouco o modo 
como são veiculados na mídia. Encontramos nesse fragmento alguns ele-
mentos que podem ser interessantes para interpretar o que vem constituin-
do mal-estar na educação. 
A condição de mal-estar é inerente ao encontro entre natureza e cultu-
ra, isto é, à civilização, como bem nos ensinou Freud e como dizíamos há 
mais de 20 anos, no congresso da APPOA que se denominou “Educa-se 
uma criança?”. Civilizar equivale a castrar. E não há quem não resista a en-
tregar a parcela de gozo que fazer parte de uma cultura exige. Então, qual o 
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Roséli M. Olabarriaga Cabistani
espanto em constatar que há mal-estar na educação, uma vez que educar e 
civilizar são atos da mesma ordem? 
Quando é que o vínculo entre professor e aluno foi tranquilo e harmôni-
co, pergunta Pereira (2011) em seu livro Acabou a autoridade? 
Desde que somos lançados na condição humana vivemos o desampa-
ro de que falou Freud, e tentamos fazer frente a ele, a partir de nossa con-
dição de seres de linguagem, seja falando, seja escrevendo, seja buscando 
simbolizar parte do real. Ocorre que o desamparo que nos habita, encontra 
diferentes condições de resposta. 
“Quando somos atingidos, o catastrófico se articula com o desamparo 
estrutural e somos confrontados com o trauma real irrepresentável.” (Argu-
mento da III Jornada do Instituto APPOA, 2013)
Essa dimensão do catastrófico é que precisa então ser interrogada, 
analisada. Por que algo que faz parte da nossa condição de humanidade 
torna-se irrepresentável? Ou por que adquire a dimensão de trauma, tal 
como descreveu Freud? Trauma que, com �acan, podemos chamar de real, 
o que não cessa de não se inscrever. 
Kehl (2000), no ensaio escrito para a publicação Catástrofe e repre-
sentação, traz elementos que podem lançar algumas luzes a esta reflexão. 
Escreve ela:
Assim, gostaria de propor que a dimensão traumática da experi-
ência humana, esta que escapa à representação, não tem suas 
fronteiras delimitadas de antemão. Nossa tarefa vital, como seres 
de linguagem, consiste em ampliar continuamente os limites do 
simbólico, mesmo sabendo que ele nunca recobrirá o real todo. De 
cada experiência, de cada objeto, de cada percepção, fica sempre 
um resto que não conseguimos simbolizar; o núcleo “duro” das 
coisas, que lhes confere independência em relação à linguagem e 
nos garante, de alguma forma, que o mundo não é uma invenção 
de nosso pensamento (p. 138).
Seguindo Pereira (2011), que realizou uma interessante pesquisa/in-
tervenção com professores em Belo Horizonte, encontramos no discurso 
dos professores um caráter de nostalgia, “... como se tivesse havido um 
tempo no qual sua profissão pudera lograr a bem-aventurança dos céus” (p. 
18). O autor pensa que isso possa estar ligado ao sentido de vocação para 
o magistério, que pareceria evocar algo herdado da tradição missionária ou 
religiosa. Mas essa nostalgia, além de estar na origem da profissão e trazer 
a ideia de um ”paraíso perdido” guarda outro sentido, o que se refere à “... 
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A dimensão traumática da educação
impossibilidade de fazermos o luto de não termos o nome, a palavra justa 
que dê significação plena ao real” (p.19). Trata-se do que Freud chamou da 
nostalgia do pai. Segundo Pereira “[...] a arte de transmitir a palavra insufi-
ciente que nomeia o real – é, por isso, “o avesso de uma paixão”, a paixão 
humana da ignorância, como diz �acan (1969-70)” (Pereira, 2011, p.19). 
Isso equivale a dizer que deixar a ignorância não se dá sem confrontos, 
sem fracassos ou sujeições. Estão os professores então fadados a trabalhar 
nesse “fio de navalha” que é ensinar, valendo-se de uma função de ma-
estria cada vez mais desprestigiada e desautorizada. Conhecemos muitas 
estratégias subjetivas que os professores inventam para poder exercer sua 
profissão,mas não podemos desconhecer sua condição de desamparo em 
nossos dias, principalmente quando não encontram sustentação no compar-
tilhamento de suas angústias e dúvidas. Então, há confrontos, agressões, 
boicotes. O campo da educação não é o melhor dos mundos, mas também 
não podemos jogar nele todo o mal. Quando escuto chamadas como a que 
citei acima, penso que é isso que está ocorrendo. 
Ora, o mundo da escola encena a própria cultura, torna-se um espaço 
no qual os sintomas subjetivos denunciam o sofrimento que está imbricado 
ao social. O que nele ocorre não é alheio ao laço social contemporâneo. 
Esse laço, o seu modo de enlace, é tributário da história da humanidade e 
do que vem se constituindo como subjetividade socialmente determinada. 
�endo Hobsbawm (1995), na sua obra, a Era dos extremos, encontramos 
uma divisão do Século XX em uma era que ele chamou de Era da catás-
trofe (1914-1948), na qual mataram-se mais seres humanos do quem em 
qualquer outra época, e que compreende as duas guerras mundiais, e 
a Era de Ouro (1949-1973). Esta última, de um crescimento econômico 
e transformações sociais nunca vistos, embora com abissais diferenças 
entre os países. 
Extremos e excessos são termos aparentados, que surgem nos atos 
e nos discursos, no caso aqui, nos discursos que denunciam a violência, o 
bullying e os embates no campo educativo, em nossos dias. Ocorre que es-
ses discursos não apenas narram acontecimentos, como também incidem 
sobre eles, produzindo chaves interpretativas fixas e calcadas em “evidên-
cias”, como formas de produzir verdades a recobrir o que é hiância e des-
conhecimento. As frequentes notícias das “guerras” travadas nos espaços 
escolares encarregam-se de deitar um vel de alienação sobre o que precisa 
ser analisado. 
Ora, se a professora que tentou conter um menino de 8 anos enfartou 
é porque havia uma condição de saúde prévia, que a predispôs à falência 
cardíaca. Mais ainda, precisamos pensar o que estaria ocorrendo com o 
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Roséli M. Olabarriaga Cabistani
menino de 8 anos, que teve de ser contido e ainda quais as condições da 
escola, a função da instituição, enfim. Aqui, mais uma vez, temos que o re-
conhecimento da violência acontece sob a condição de apontá-la no outro. 
Há, nesse ato discursivo, uma negação da responsabilidade que nos con-
cerne como adultos. No âmbito da clínica privada, é mais claro o caminho da 
interpretação que visa situar o sujeito face a seu próprio desejo. Mas o que 
fazer, como intervir no campo da clínica ampliada, que é o caso do trabalho 
do psicanalista no campo da educação?
Preocupa-me, em especial, pensar a intervenção do psicanalista nas 
situações ditas de crise, como é considerada essa da educação, e penso 
que podemos fazê-lo se pudermos analisar (desconstruir, desmembrar) o 
discurso midiático que tenta produzir efeito catastrófico em torno dos confli-
tos próprios ao campo educacional e social mais amplo. Uso o termo catas-
trófico no sentido de que um acontecimento é narrado de forma extremada. 
Quase consigo ouvir a chamada para o programa sobre a morte da profes-
sora que tentava conter o aluno, com a mesma ênfase e pelo menos nos 
dois dias que se seguiram, com uma repetição comparável àquela do horror 
produzido pela notícia das mortes na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, 
no Rio Grande do Sul. O horror nos coloca na condição de silêncio, de au-
sência de representações, que só vão se apresentando às custas de muito 
trabalho psíquico de elaboração. Pergunto, então: será que essas mesmas 
condições podem ser criadas a partir da forma como as notícias do trágico 
cotidiano são apresentadas? 
Na abordagem de Pereira (2011), sobre Pânico e desamparo, a partir 
do texto freudiano, ele afirma que o desamparo é uma 
[...] verdadeira categoria metapsicológica que diz respeito ao hori-
zonte fundamental de falta de garantias para o funcionamento do 
aparelho psíquico, à medida que este é incapaz de proporcionar 
uma apreensão simbólica definitiva para questões decisivas tais 
como as da própria morte, do destino, do investimento sexual do 
corpo e, mais radicalmente, do próprio sujeito como ser desejante 
(p.245). 
Como citei anteriormente, na afirmação de Kehl (2000), há sempre um 
resto não assimilado, e isso torna-se fonte de todos os possíveis, uma vez 
que é uma abertura sem garantias. O pânico então pode ser uma das for-
mas de responder ao desamparo. Pensado por Freud ([1921]1976) em Psi-
cologia das massas e análise do eu, o medo pânico, como ele chamou, se 
instaura quando ocorre o desabamento repentino dos laços libidinais, esses 
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A dimensão traumática da educação
que mantinham a unidade de uma estrutura. 
Tal ruptura se dá em função da perda da referência a uma instância 
ideal que garantia por si mesma a integração do conjunto. A derrocada des-
sa instância ideal força o reconhecimento do fundo essencial de falta de 
garantias sobre o qual se assentava toda a organização – individual ou gru-
pal – mas que permanecia velada pela imagem fascinante do “líder-fiador”. 
A queda súbita dessa garantia revela de modo brutal a condição subjacente 
de desamparo, que permanecera dissimulada até aquele momento, arrui-
nando subitamente as ilusões de segurança e provocando pânico (Pereira, 
1999, p.246).
Essa descrição me parece preciosa para ser pensada também no que 
acontece não tão subitamente, mas que, pela busca do efeito de excesso 
que o noticiário produz, acaba lançando as pessoas num mesmo clima de 
pânico, que as impossibilita de pensar, de simbolizar o real, mesmo que 
parcialmente. O pânico, diz-nos ainda Mário Eduardo, é um esforço extremo 
de pré-simbolização, à medida que instaura uma espécie de experiência 
antecipada de morrer, uma espécie de representação fantasmática do de-
samparo. 
Retomo a questão do excesso, que poderíamos dizer que é da ordem 
de um gozo, ao produzir, no detalhe, as imagens do horror, o que dificulta 
uma elaboração mais fecunda com relação ao que faz sintoma na educação. 
Tomo de empréstimo uma passagem do escrito anteriormente referido 
de Kehl (2000), como exemplar da economia do excesso:
O escritor Isaac Babel, um intelectual judeu-russo que foi forçado a 
integrar o Exército Vermelho entre 1918 e 1922, durante a invasão 
da Polônia, escreveu um pequeno livro de crônica sobre sua ex-
periência na guerra chamado A cavalaria vermelha, que a meu ver 
é uma obra-prima. O narrador dessas crônicas, que se confunde 
com o próprio autor, atravessa a guerra cheio de horror e piedade, 
sem desferir um único tiro. No conto “Meu primeiro ganso”, ele 
é apresentado a uma divisão de cossacos embrutecidos à qual 
deve se integrar, e para tentar conter as violentas humilhações 
que os companheiros impõem ao jovem franzino, tímido e (o que 
lhes parece odioso) letrado, agarra pelo pescoço um pobre ganso, 
que passa por ali, e o degola com sua espada, ordenando a uma 
velha que o prepare para sua refeição. Os cossacos, diante do 
gesto violento, parecem se apaziguar e o jovem Babel se recolhe 
para dormir. “Sonhei: no sonho via mulheres, mas meu coração 
manchado com o sangue derramado do ganso estava cheio de 
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Roséli M. Olabarriaga Cabistani
compaixão (p.141).
O autor nomeia o objeto de sua narrativa, mas de forma econômica, 
sem explorar os detalhes que nos fariam gozar com o horror, o ódio, o san-
gue e a morte. 
Nossa hipótese, de que o discurso atual sobre a violência na educação 
potencializa essa mesma violência, e a nossa paralisia diante dela funda-se 
na ideia de que não pensamos a violência, só seguimos o coro midiático que 
a denuncia, sem preocupar-se com formas de elaboração simbólica do que 
é visto como mal. Sabemos com Freud que o traumático só o é a posteriori. 
O excesso impede o intervalo da pergunta, da reflexão. Assim, só fica-se a 
repetir o trauma, sem palavras libertadoras da repetição. 
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e análise do ego [1921]. In: ______. Edição 
standart brasileira das obras completas deSigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 
1976, v.18, p.89-179.
HOBSBAWM, Erich. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: 
Companhia das �etras, 1995. 
KEH�, Maria Rita. O sexo, a morte, a mãe e o mal. In: NESTROVSKY, Arthur; SE-
LIGMANN-SILVA, Márcio (orgs.). Catástrofe e representação: ensaios. São Paulo: 
Escuta, 2000, p.137-148.
PEREIRA, Marcelo Ricardo; PAULINO, B.; FRANCO, R. Acabou a autoridade? Pro-
fessor, subjetividade e sintoma. Belo Horizonte, MG: Fino Traço/Fapemig, 2011. 
PEREIRA, Mário Eduardo Costa. Pânico e desamparo: um estudo psicanalítico. São 
Paulo: Escuta, 1999. 
Recebido em 04/03/2014
Aceito em 12/06/2014
Revisado por Clarice Sampaio Roberto
TEXTOS
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Resumo: O texto toma as propostas iniciais de Freud a respeito da educação e 
da vida pulsional, para pensar nas mudanças operadas na relação entre esses 
dois termos, da modernidade à pós-modernidade.
Palavras-chave: educação, pulsão, modernidade, pós-modernidade.
EDUCATION AND DRIVE LIFE
Abstract: The text takes Freud’s initial proposals about education and drive life, 
to consider the changes in the relation between these two terms from modernity 
to postmodernity.
Keywords: education, drive, modernity, postmodernity.
EDUCAÇÃO E VIDA PULSIONAL1 
Gerson Smiech Pinho2
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do Instituto APPOA: 
Membro da equipe do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre: Mestre em Psicologia Social e Ins-
titucional pela UFRGS. E-mail: gersonsmiech@gmail.com
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.153-160, jul. 2013/jun. 2014
154
Gerson Smiech Pinho
Em sentido amplo, a educação abrange as diversas formas de transmis-são e circulação do saber e do conhecimento entre as gerações, que 
permite ao sujeito ingressar na cultura e no laço social que a constitui. Tal 
transmissão não opera por protocolos curriculares, mas se dá na relação 
entre o sujeito e aqueles que encarnam e sustentam para ele o lugar do 
Outro.
Apesar de praticamente não ter dedicado nenhum de seus escritos 
exclusivamente ao campo da educação, Freud abordou-o em diversas oca-
siões. Em seus textos, o tema costuma encontrar-se, na maioria das vezes, 
diluído em meio a outras questões. Mesmo tendo trabalhado o assunto des-
se modo esparso, voltou a ele em diversos momentos de sua produção, do 
início ao fim de sua obra.
Uma questão central nas incursões feitas por Freud neste domínio diz 
respeito à relação entre educação e vida pulsional. A educação, enquanto 
processo que possibilita a inserção do sujeito na cultura, implica a renúncia 
à satisfação direta das pulsões e sua substituição por outras formas de rea-
lização mais viáveis socialmente. 
Para Freud ([1933]1980), a tarefa primeira da educação é permitir à 
criança controlar as pulsões, já que é impossível permitir-lhe a liberdade 
de colocá-las em prática sem restrição. Sexualidade e agressividade ne-
cessitam encontrar canais de expressão regulados pelas leis e regras que 
organizam o laço social. Ao longo dos tempos, o trabalho da educação tem 
sido o de dominar as pulsões, imprimindo a elas tanto um limite quanto a 
abertura a novas possibilidades de realização. Em sentido amplo, o proces-
so educativo leva a uma permuta: o sujeito abre mão de um tanto de prazer 
e satisfação em troca de sua inscrição na cultura. No horizonte, encontra-
mos a neurose e a sublimação como formas de expressão possíveis dessa 
inscrição. 
Nos primórdios da psicanálise, houve certo interesse na possibilidade 
de propor uma forma de educação que evitasse a neurose e a angústia. Ao 
postular que a origem da neurose estava ligada ao excesso de repressão 
sexual, Freud ([1908]1980) almejava uma educação baseada em uma práti-
ca sexual não repressiva e no esclarecimento sexual das crianças.
Ao retomar esta questão posteriormente, trata a mesma com cautela 
e sem otimismo.
Segundo ele,
[...] a educação tem de escolher seu caminho entre o Cila da não 
interferência e o Caríbdis da frustração. A menos que o problema 
seja inteiramente insolúvel, deve-se descobrir um ponto ótimo que 
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Educação e vida pulsional
possibilite à educação atingir o máximo com o mínimo de dano. 
Será, portanto, uma questão de decidir quanto proibir, em que hora 
e por que meios (Freud, [1933]1980, p.182).
Apesar de evocar um ponto ótimo ou ideal entre dois termos – proi-
bição e não interferência –, Freud traz a associação com Cila e Caríbdis, 
monstros marinhos da mitologia grega, dois grandes perigos aos navega-
dores. Estar entre eles significa estar em uma espécie de beco sem saída: 
escapa-se de um caindo nas garras do outro. Além disso, ao supor que 
talvez o problema seja inteiramente insolúvel, parecia já antever a impossi-
bilidade de tal empreitada.
Qual seria a medida ideal entre repressão e permissão para que o 
sujeito seja viável, sem o padecimento neurótico? Esta pergunta parece ser 
tão interessante quanto irrespondível. No campo do sujeito, sabemos que 
qualquer tentativa de profilaxia é sempre restrita, pois os efeitos da experi-
ência são recolhidos sempre a posteriori. Além disso, por mais bem equili-
brada que seja a infância, a angústia e o conflito sempre se farão presentes, 
já que são intrínsecos à própria constituição do sujeito. 
As práticas educativas menos repressivas não garantem a profilaxia da 
neurose, desfazendo o ideal de uma educação psicanaliticamente orienta-
da. Quando o assunto é educar, o registro da falta está sempre presente. Ao 
final da vida, Freud ([1937]1980) chega a considerar o educar, ao lado de 
governar e psicanalisar, como uma profissão impossível. 
Apesar disso, ou por isso mesmo, psicanálise e educação seguiram e 
seguem dialogando. Que possibilidades se abrem no interior desse diálogo? 
Que questões o mesmo pode propor hoje? Quais deslocamentos se opera-
ram desde a época de Freud até nossos dias?
O mal-estar na cultura talvez seja a obra que contenha a maior reflexão 
que Freud ([1930]1980) produziu a respeito da sociedade de seu tempo. 
Ao retomar este escrito freudiano, Bauman (1998) enfatiza seu recorte his-
tórico, considerando o mesmo como um tratado a respeito da modernida-
de. Segundo ele, somente a sociedade moderna pensou a si mesma como 
uma cultura ou como uma civilização. Desde essa perspectiva, podemos 
encontrar, tanto no título quanto nas teses propostas por Freud neste texto, 
a referência ao mal-estar específico de uma época, isto é, da modernidade.
Neste trabalho, Freud ([1930]1980) retoma a tese de que o antagonis-
mo entre as exigências da pulsão e as da civilização é central no fato de 
a cultura produzir mal-estar. Insiste na ideia de que, para que a sociedade 
possa existir, o homem paga o preço da renúncia à satisfação pulsional, 
tanto na esfera da sexualidade quanto na da agressividade. 
156
Gerson Smiech Pinho
Ao trabalhar estas proposições de Freud, Bauman (1998) as situa 
como características da modernidade. Segundo ele, naquele período histó-
rico, homens e mulheres têm um ganho em relação à ordem social e à se-
gurança, ao mesmo tempo em que têm um custo, pois necessitam abrir mão 
de um tanto de satisfação e prazer para sua obtenção. Se o estabelecimen-
to da ordem é o grande orgulho da modernidade, esta se mantém através de 
sacrifícios impostos à sexualidade e à agressividade. O mal-estar da cultura 
moderna é derivado da primazia da ordem, a qual gera o anseio por mais 
liberdade na busca de prazer e satisfação. Até aqui, seguimos um caminho 
consoante ao pensamento freudiano.
Porém, na pós-modernidade, essa questão é virada ao avesso. Os 
ideais modernos ligados à ordem e à segurança deixam de ter prioridade 
e abrem espaço à procura pela espontaneidade do desejo e ao esforço 
individual para obtenção de prazer. O que está em primeiro plano não é 
mais o estabelecimento da ordem e da segurança, masa busca imediata de 
satisfação. Na medida em que a liberdade individual para essa busca torna-
se o valor maior, a repressão e a renúncia forçada ao prazer passam a ser 
consideradas injustificadas. 
A lógica de que é necessário perder algo para ganhar outra coisa em 
troca ainda se mantém. Porém, os ganhos e as perdas mudam de lugar. 
Segundo Bauman (1998), os homens e as mulheres pós-modernos trocam 
uma porção de suas possibilidades de segurança por um tanto de satisfação 
e de felicidade. Enquanto o mal-estar da modernidade provinha do estabele-
cimento da ordem e da segurança, que tolerava pouco a liberdade na busca 
da satisfação, o mal-estar da pós-modernidade provém do fato de abrir-se 
mão da segurança em troca da liberdade, na busca do prazer. Em ambos os 
contextos, o mal-estar se faz presente.
Como foi referido anteriormente, o antagonismo entre as exigências 
pulsionais e as da civilização é um elemento central nas reflexões de Freud 
acerca da educação. Assim sendo, o deslocamento de lugares da moder-
nidade à pós-modernidade indicado por Bauman (1998) tem efeitos diretos 
neste campo.
Se a proposta educativa formulada nos primórdios da psicanálise pas-
sava pela tentativa de regulação do excesso de repressão, hoje a questão 
se inverte. A violência, a indisciplina, a falta de limites, o desrespeito e o 
vandalismo são questões cotidianas, levantadas por pais, alunos, professo-
res e outros profissionais da educação. Não são raras as notícias a respei-
to de alunos armados nas escolas, além de agressões a professores. São 
frequentes também os relatos de pais e filhos que exigem que a escola não 
contrarie os alunos ou que não lhes exija o devido desempenho escolar. O 
157
Educação e vida pulsional
uso de drogas e os excessos ligados à sexualidade também costumam ser 
pautas permanentes nas escolas. Se, há um século, a pergunta que per-
meava o diálogo entre psicanálise e educação incidia sobre o excesso de 
repressão, hoje, interrogamos o excesso em sua outra vertente – do gozo 
que escapa aos limites e não encontra sua borda.
Podemos pensar que a tarefa atribuída por Freud à educação continua 
tão vigente quanto em sua época. O domínio das pulsões é, e continuará 
sendo sempre, um trabalho necessário para a inserção do sujeito na cultu-
ra. Porém, atualmente, o antagonismo entre as exigências pulsionais e as 
da civilização ganha um novo contorno, já que, sobre a força da pulsão, se 
acrescenta um imperativo que provém da própria cultura e impõe a necessi-
dade de sua realização imediata. A tarefa da educação anda na contramão 
deste imperativo. O deslocamento operado no contexto social organiza um 
novo vetor cuja força resultante se opõe ao labor educativo. 
Tomando as teses de Bauman (1998), podemos afirmar que o contex-
to social pós-moderno é propício ao surgimento da experiência do desam-
paro. Segundo Pereira (2008), o ponto de partida da psicanálise na abor-
dagem da noção de desamparo é o estado de impotência e insuficiência 
originária do bebê. Diante da excitação que vem do interior do organismo, 
o bebê não conta com mecanismos de controle ou de fuga possível. Frente 
ao crescimento da excitação, sua condição é de total desamparo e impo-
tência. Torna-se necessário que outro humano intervenha para apaziguar 
seu mal-estar. 
O recalcamento originário torna possível limitar o crescimento da pul-
são, evitando a eclosão da situação de desamparo diante da excitação 
pulsional excessiva. Trata-se da busca em conter a invasão transbordante 
da pulsão. O que é recalcado é uma posição de gozo sem limites. 
Ao longo da vida, novas situações em que o sujeito antevê a proximida-
de com um gozo ilimitado lançam-no novamente à posição de desamparo. 
O aparecimento da angústia é o sinal que prenuncia ao eu a proximidade de 
tal circunstância, na qual o psiquismo é incapaz de dar conta do crescimento 
da excitação invasora.
O contexto social pós-moderno é favorável ao surgimento do desam-
paro, já que o imperativo de busca de prazer implica a tentativa de suspen-
são daquilo que pode fazer limite ao gozo. 
Nesse contexto, aqueles que se ocupam da educação muitas vezes 
são lançados na condição de impotência, a qual leva muito facilmente à 
culpabilização. A culpa pelas situações de mal-estar passa a ser atribuída 
às escolas, pela pouca qualidade de ensino, aos pais por não darem limites 
e não educarem seus filhos ou, ainda, em última instância, a nossa época 
158
Gerson Smiech Pinho
pós-moderna e à crise de valores que traz consigo. O pano de fundo des-
se discurso é uma imagem idealizada de escola, de pais, de infância e de 
contexto social. Idealização e culpabilização somente capturam o sujeito na 
condição de impotência.
Vou trazer agora o breve recorte de um caso, me detendo especifi-
camente no modo como se desdobrou a relação de uma criança com sua 
professora.
Roberto é um menino de 9 anos. Começa seu tratamento após ter sido 
reprovado na terceira série do ensino fundamental. Em uma sessão, comen-
ta sobre a nova professora do ano que iniciava: – Eu odeio ela. É uma chata. 
É um diabo vestindo saia.
Logo sou chamado a ir à escola e tenho um encontro com a orientado-
ra educacional e a professora, que também fala de suas impressões sobre 
Roberto: – Ele é um menino muito difícil. Não para quieto, não fica sentado. 
Levanta toda hora, caminha pela sala e cutuca os outros. Só quer atrapa-
lhar. Conta piadas e arrota só para os outros rirem e para chamar a atenção. 
Não escuta nada do que eu falo. Aliás, parece que quanto mais falo, pior 
fica. Não sei mais o que fazer com ele. Não presta atenção em nada. Não 
faz nada em sala de aula. Parece que só quer incomodar. Sinto-me total-
mente impotente diante dele.
Dentre as muitas coisas ditas pela professora nesse encontro, vou su-
blinhar o seguinte: – Sobre as coisas que ele conhece ou já aprendeu nos 
anos anteriores é muito difícil ter uma ideia. Como ele não produz nada 
em sala de aula, não mostra o que sabe. Não dá para avaliar. Parece uma 
caixa preta, a gente não sabe o que tem dentro. Nesse ponto da conversa, 
interrogo a professora sobre por que não busca saber mais a respeito de 
seu aluno, já que ela diz que, sobre ele, ela não sabe. Ao longo da conversa, 
insisto na importância desse ponto. Ao final, combinamos um novo encontro 
dali a um mês e meio.
Após esse intervalo, retorno à escola e encontro uma nova situação. 
A professora conta: – Ele tinha que sair quase sempre das aulas especiali-
zadas de música, inglês e computação, porque atrapalhava muito. Comecei 
a aproveitar estes horários em que o resto da turma estava fora da sala e 
eu ficava sozinha com ele para saber mais a seu respeito. Agora entendo 
melhor porque é tão desatento. Tem muitas lacunas em sua aprendizagem e 
não consegue acompanhar o que estamos trabalhando. Passei a usar estes 
horários em que estamos somente nós dois para lhe ensinar.
Do primeiro ao segundo encontro com a professora, operou-se um mo-
vimento. Da situação inicial de impotência diante do aluno difícil, passou não 
só a conhecê-lo melhor, como também a desejar ensiná-lo. Além disso, e 
159
Educação e vida pulsional
talvez o mais importante, é que entre Roberto e sua professora começou a 
se construir um laço. O menino já não era um estranho na turma. Sentiam-
se próximos, e sua professora passou a estar mais atenta a ele durante as 
aulas, intervindo sempre que achava necessário auxiliá-lo. Ele, por sua vez, 
passou a escutá-la.
Segui acompanhando esta situação ao longo do ano. Obviamente as 
dificuldades de Roberto seguiam fazendo barulho. Porém, mudaram de po-
sição desde o olhar da professora. Seu lugar na turma também se modifi-
cou. Na medida em que estava mais conectado com o que era trabalhado 
em aula, sua participação junto aos colegas tomou outra direção. Ao final do 
ano, a professora considerava-o um menino muito querido por todos.
Neste relato, não falei das sessões com Roberto ou do trabalho com 
seus pais. Tomo o mesmo para pensaras possibilidades que se abrem a 
partir do diálogo entre psicanálise e educação.
A psicanálise, enquanto experiência da fala e da linguagem, permite 
interrogar as brechas do discurso no ponto em que o sujeito diz não saber. 
No caso relatado, é possível acompanhar a mudança de posição que vai da 
impotência à criação de algo novo. O giro discursivo que acontece desloca 
o lugar de todos os personagens da cena em questão. 
A articulação interdisciplinar entre educação e psicanálise possibilita 
que o discurso faça seus movimentos e não fique petrificado na posição 
de impotência, muitas vezes escutada nos espaços destinados às práticas 
educativas. Permite sair da imobilidade, encontrar o limite de uma situação, 
juntamente com a abertura a novas possibilidades. E, nessa via, permite 
surpreender pelo que possa se produzir. Pelo caminho, talvez possamos 
encontrar interessantes surpresas.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
FREUD, Sigmund. Moral sexual “civilizada” e doença nervosa moderna (1908). In: 
______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund 
Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, volume IX.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: ______. Edição standard 
brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ima-
go, 1980, volume XXI.
FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933). In: 
______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund 
Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, volume XXII.
FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável (1937). In: ______. Edição stan-
dard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: 
Imago, 1980, volume XXIII.
160
Gerson Smiech Pinho
PEREIRA, Mario Eduardo Costa. Pânico e desamparo: um estudo psicanalítico. São 
Paulo: Escuta, 2008.
Recebido em 18/03/2014
Aceito em 16/04/2014
Revisado por Gláucia Escalier Braga
TEXTOS
161
Resumo: Este artigo aborda os deslocamentos de posições assumidas pelos 
professores no trabalho com os alunos. Diante de alunos que destoam do espe-
rado, foca-se no movimento realizado da idealização à aceitação da incomple-
tude, tomando como referência uma experiência com um grupo de professores. 
São considerados alguns enunciados de docentes no contexto escolar, contem-
plando o diálogo entre psicanálise e educação. Diante das reações dos alunos, 
desviando-se daquilo que é esperado, aposta-se no deslocamento do professor 
da posição identificada com o eu ideal em direção ao ideal do eu como poten-
cializadora do trabalho educativo.
Palavras-chaves: psicanálise, educação, deslocamentos de posições, eu ideal, 
ideal do eu.
(IM)POSSIBLE EDUCATION?
Abstract: This article discusses the shifts in the positions taken by teachers 
working with students. Before students who diverge from the expected, this stu-
dy focuses on the movement performed by teachers from idealization to the 
acceptance of incompleteness, it takes as reference an experiment with a group 
of teachers. Some teacher’s statements are considered in the school context, 
taking the dialogue between psychoanalysis and education. Given the students’ 
reactions deviating from what is expected, this study enforces a change in the 
teacher’s position identified with the ideal ego toward the ego ideal as potentiator 
of educational work. 
Keywords: psychoanalysis, education, positions shifts, ego ideal, ideal ego.
EDUCAÇÃO (IM)POSSÍVE�?1
Larissa Costa Beber Scherer2
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.161-171, jul. 2013/jun. 2014
1 Este artigo é baseado no trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise 
e intervenções sociais: desamparo e vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013, e compõe 
parte de minha dissertação de Mestrado.
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e Instituto APPOA; Mestre 
em Educação – UFRGS. E-mail: larissascherer70@gmail.com
162
Larissa Costa Beber Scherer
Este artigo é baseado na experiência de trabalho com professores, reali-zada numa escola de educação infantil e ensino fundamental na região 
metropolitana do Rio Grande do Sul. Durante alguns anos, atuei como psi-
cóloga escolar, acompanhando os docentes em diferentes momentos na 
escola, os quais endereçavam questões suscitadas pelo trabalho com os 
alunos, suas dificuldades e possibilidades. 
Durante a experiência, pude desenvolver um trabalho em grupo com 
alguns professores, ocorrendo através de encontros quinzenais que dura-
vam em torno de uma hora e meia. Participavam em média dez professores, 
sendo que a cada ano letivo o grupo se modificava. Dispositivos diversos 
eram utilizados para desencadear as narrativas e discussões sobre o tra-
balho com os alunos: breves vídeos, textos, relatos de experiências, depoi-
mentos, crônicas, etc. A proposta era falar sobre o trabalho com os alunos, 
considerando os desafios, dificuldades, surpresas e possibilidades vislum-
bradas. A atividade aconteceu por aproximadamente seis anos.
Para refletirmos acerca da posição do professor, seus deslocamentos 
e repercussões no trabalho com os alunos, trarei inicialmente alguns re-
cortes de falas dos educadores docentes no espaço do grupo e em outros 
momentos do cotidiano escolar. São comentários colhidos ao longo do tra-
balho, que permitem interrogarmos acerca do mal-estar produzido diante do 
trabalho com os alunos e seus desdobramentos na prática educativa.
O João não realiza as tarefas, não participa, brinca durante as 
aulas e faz provocações. Chamo a atenção dele e não adianta. Já 
enviei comunicado aos pais, mas a atitude do aluno permanece a 
mesma (comentário da profa. do quinto ano do ensino fundamen-
tal).
A Luiza não está conseguindo evoluir em sua aprendizagem. Faço 
intervenções individuais auxiliando-a a refletir sobre os sons das 
letras, peço que visualize-as na sala de aula para poder identificá-
las; tenho tentado de tudo, mas parece que nada adianta, segue 
sem fazer evoluções (comentário da profa. do primeiro ano).
Tu precisa conversar com dois alunos que brigaram e se agrediram 
na sala de aula; fiquei sem ação, tentei interceder no momento, 
mas eles não me escutavam (comentário da profa. do sexto ano).
Não sei mais o que fazer com o Carlos! Ele fica caminhando pela 
sala o tempo todo, falando palavras que eu não entendo, não acei-
ta que eu me aproxime, não realiza nenhuma tarefa. O que vou 
fazer com esse aluno na sala de aula? (comentário da profa. do 
terceiro ano, referente a um de seus alunos).
163
Educação (im)possível?
Tu precisa fazer um trabalho com o segundo ano: eles não se 
concentram, conversam o tempo todo, não terminam as tarefas 
propostas. Nem consigo falar direito com eles, não param para 
me escutar. O trabalho está muito atrasado com essa turma, pois 
é sempre difícil concluir uma atividade (comentário da profa. do 
segundo ano).
A turma do quinto ano está sem limites. Estamos fazendo várias 
tentativas, mas eles não se acalmam. O Fabio dispersa todos com 
os comentários inadequados, brincadeiras e gozações. A turma 
exalta-se com frequência, revoltando-se com ele, às vezes dá briga. 
(comentário realizado em reunião de professores do quinto ano).
A partir das referidas narrativas, percebemos que, diante do inespera-
do e do desarmônico evidenciado no trabalho junto aos alunos, os professo-
res reagem, muitas vezes demonstrando angústia e impotência, dificultando 
a ação docente. A sensação de fracasso frequentemente costuma tomar a 
cena. Expressões como “não conseguem”, “não se concentram”, “não rea-
liza”, “não evolui”, “não ouve” tomam conta do trabalho, impedindo muitas 
vezes sua continuidade, ou mesmo apontando fracassos. 
Iniciando esta reflexão, situaremos brevemente como concebemos a 
função docente. A partir da psicanálise, considera-se professor aquele que 
exerce o ato educativo, assumindo o papel de transmissão de saberes, por-
ta-voz da cultura.Ser professor relaciona-se com o discurso, com a trans-
missão de tradições e com o patrimônio da humanidade, representando a 
prática responsável pela imersão da criança na linguagem (Kupfer, 2000). 
Refere-se à inserção de um sujeito em um discurso que o antecede, de-
terminante das leis sociais. A educação não se resume ao ato de ensinar 
matemática, português e, tampouco, ao estímulo das funções sensoriais, 
cognitivas, etc. Na articulação com a psicanálise, educar diz da transmissão 
de um patrimônio, das possibilidades de inserção, inscrição de um sujeito 
na cultura. 
No contexto escolar, ao iniciar o ano, o professor realiza uma aposta 
de trabalho a ser desenvolvida com seus alunos. Entretanto, no decorrer do 
trabalho depara-se com situações que frequentemente causam estranha-
mentos e desestabilizam sua posição docente. Diante disso, o professor 
corre o risco de paralisar-se, não se sentindo capaz de seguir apostando. 
Acreditamos existir outra posição a ser exercida. Trata-se de deixar-se afe-
tar pelas bordas e vazios que a experiência educativa supõe, posição essa 
que nem sempre se dá por si só, necessitando de um trabalho para que 
possa surgir como efeito.
164
Larissa Costa Beber Scherer
A partir da escuta realizada no grupo com professores e demais mo-
mentos na escola, percebemos que o eixo causador do mal-estar frequente-
mente estava relacionado a alguma forma de fracasso de um ideal lançado. 
Os contornos que tomavam tais fracassos eram alunos que não correspon-
diam ao esperado por razões diversas – dificuldades de aprendizagem, 
indisciplina, alunos distintos dos demais. Situações que desestabilizavam 
o lugar de saber tradicionalmente ocupado pelo professor, interpondo-se 
entre a aposta lançada e os resultados alcançados. Diante desse contexto, 
como pensar possibilidades de intervenção a partir da psicanálise?
Freud, nos textos Prefácio a juventude desorientada, de Aichhorn, de 
1925 (1987) e Análise terminável e interminável, de 1937 (1987), menciona 
a impossibilidade inerente ao ato de educar. Tal impossibilidade se refere 
ao fracasso inevitável diante da aposta educativa, sendo que não se tem o 
total domínio sobre a ação pretendida. A educação, assim como o governar 
e o psicanalisar, são ofícios impossíveis. Impossível como “inalcançável”, e 
não “inexequível” (Voltolini, 2011). Rinaldo Voltolini (2011) trabalha o tema 
educação e psicanálise, fazendo os seguintes questionamentos:
O analisando curado de seu inconsciente, uma sociedade com 
suas mazelas dissipadas e seus cidadãos em perfeito acordo, ou 
a concretização da criança sonhada a partir de um ideal educati-
vo qualquer não seriam injunções cuja lógica instalada remeteria 
às tentativas de execução ao infinitamente inalcançável? (p.26-
27).
 
O impossível apontado nessas profissões não se trata de uma afirma-
ção que as impeça de existirem ou que indique a sua desvalorização, mas, 
sim, aponta para uma falta inerente ao seu fazer e a sua aposta. Ao serem 
enunciados seus objetivos, é necessário contar com certa parcialidade na 
tentativa de alcançá-los. Isso acontecerá porque os ideais lançados apenas 
serão atingidos em parte, sempre restará algo em aberto. É justamente esse 
impossível que a teoria psicanalítica sustenta quando defende a existência 
de um saber inconsciente que nos constitui como sujeitos inseridos na lin-
guagem. Há algo que não se totaliza, escapa. Nesse sentido, a psicanáli-
se pode representar uma ética sustentando a desmistificação do ideal, que 
muitas vezes pode aprisionar o professor.
Maud Mannoni (1977), no livro Educação impossível, ao refletir sobre 
as propostas educativas em diálogo com sua experiência psicanalítica, faz 
uma crítica à idealização na educação, que se organiza sempre em torno 
de uma carência, bem como engendra de forma inevitável a dimensão do 
165
Educação (im)possível?
impossível. Nesse contexto, a autora aponta a idealização como aspecto a 
ser contestado.
A educação baseia-se em um ideal a ser alcançado, ao pressupor uma 
aposta; implica objetivos a serem atingidos, sejam conscientes ou incons-
cientes. O processo de idealização é constituído durante a formação do 
eu, como decorrência das relações primordiais, permanecendo no adulto 
com acréscimos e transformações. Inicialmente, a idealização é efeito do 
discurso dos pais, o qual produz uma imagem desprovida de qualquer cons-
ciência crítica. Na relação com o filho (estendida também ao aluno), renasce 
a forma idealizada (narcísica) de vínculo com o objeto, que foi abandonado 
por exigência da realidade no processo de estruturação do sujeito (Garcia-
Roza, 1995). Tanto pais como professores esperam dos filhos e alunos a 
realização daquilo que não conseguiram atingir, atualizando uma posição já 
abandonada.
Para refletir acerca do ideal presente na cena entre professores e alu-
nos, tomaremos o texto de Freud, Sobre o narcisismo: uma introdução, de 
1914 (1987a). Nesse trabalho, aborda o tema como constituído a partir do 
ideal, herdeiro do desejo parental, parte da história de cada sujeito. O narci-
sismo consiste na posição ocupada pelo indivíduo por ocasião de sua cons-
tituição psíquica, a partir das expectativas lançadas pelos pais, como aposta 
diante de sua prole. Freud comenta que os pais revivem e reproduzem o 
seu próprio narcisismo há muito abandonado na relação com os filhos. Uti-
liza a expressão ”Sua Majestade o Bebê”, para referir a posição da criança 
como sendo aquela capaz de satisfazer os sonhos não realizados dos pais, 
posição de perfeição aos olhos destes. Tal ideal fica possuído de toda a 
perfeição de valor para o sujeito. O indivíduo demonstra incapacidade de 
abrir mão da satisfação que desfrutou em outro tempo, por ocasião de sua 
constituição psíquica, a partir do desejo de seus pais. Esse ideal projetado 
serve de referência para o sujeito, a ser atingida. Nas palavras de Freud 
([1914]1987), o sujeito
[...] não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua 
infância; e, quando ao crescer, se vê perturbado pelas admoes-
tações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento 
crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura 
recuperá-la sob a nova forma de um ego ideal. O que ele projeta 
diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo 
perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal (p. 
111).
166
Larissa Costa Beber Scherer
A idealização é um processo em que o objeto é engrandecido e exalta-
do na mente do sujeito. Nesse mesmo texto, Freud refere o eu ideal e ideal 
do eu. 
Na leitura encontrada no seminário Os escritos técnicos de Freud 
([1953-54]1986), Lacan demonstra suas formulações desses conceitos. Re-
fere o eu ideal e o ideal do eu, relacionando-os ao imaginário e ao simbóli-
co, distinção esta não claramente demarcada em Freud. Esses dois termos 
poderiam ser compreendidos apressadamente como sinônimos, produzindo 
um entendimento equivocado. 
O ideal do eu consiste no distanciamento do narcisismo e no esforço 
para reconquistá-lo, ocorrendo o deslocamento para um ideal vindo do exte-
rior. Esse movimento é referido por Lacan como sendo próprio da estrutura-
ção psíquica, processo pelo qual o sujeito referencia-se à alteridade. Ainda 
segundo o autor, há um deslocamento da energia psíquica para além do eu, 
atingindo essa forma distinta denominada ideal do eu.
[...] É a relação simbólica que define a posição do sujeito como 
aquele que vê. É a palavra, a função simbólica que define o maior 
ou menor grau de perfeição, de completude, de aproximação, do 
imaginário. A distinção é feita nessa representação entre o eu-ide-
al e o ideal do eu. O ideal do eu comanda o jogo de relações de 
que depende toda a relação a outrem. E dessa relação a outrem 
depende toda a relação de caráter mais ou menos satisfatório da 
estruturação imaginária (�acan, ([1953-54]1986, p.165).
Em outras palavras, para que o sujeito tenha acesso ao imaginário, de-
pende da referência ao simbólico, jáestabelecida, a qual situa os seres hu-
manos uns em relação aos outros. A palavra intervém como estruturadora e 
organizadora. Produz um discurso valorativo, relacionando traços do sujeito 
a leis e normas exteriores. Assim, é possível reconhecer a importância dessa 
dimensão que permite a relação entre os humanos, o simbólico. Essa função 
da linguagem – marcar a inserção do sujeito na cultura mediando as relações 
– define o lugar de cada um em relação ao semelhante. �acan concebe o 
ideal do eu como um guia, que organiza as trocas verbais entre os humanos, 
comandando o sujeito na forma de uma lei organizadora das relações e da 
vida em sociedade; constitui-se essencialmente a partir de exigências exter-
nas transmitidas pela linguagem, mediando a relação com o outro. 
Segundo Garcia-Roza (1995), o ideal do eu traz a marca de uma re-
lação sublimada, enquanto o eu ideal é marcado pela idealização. Tanto 
o eu ideal quanto o ideal do eu são figurações complexas, um conjunto 
167
Educação (im)possível?
de imagens e efeitos dos discursos, diferenciados pelas referências que os 
produzem. De um lado a idealização, isenta de crítica; de outro, o discurso 
judicativo, comparando traços do sujeito com normas e leis exteriores.
Chemama (1995), no Dicionário de psicanálise, referindo-se ao con-
ceito de eu ideal, diz que este é elaborado a partir da imagem do próprio 
corpo no espelho. Tal imagem representa o suporte da identificação primária 
da criança, ponto inaugural da alienação do sujeito na captura imaginária. 
Quanto ao ideal do eu, comenta que surge para Freud primeiramente como 
substituto ao eu ideal. Posteriormente, o ideal do eu confunde-se com o 
supereu, tentando conciliar as exigências libidinais e culturais. Para Lacan 
([1953-54]1986), o ideal do eu designa a instância que regula a estrutura 
imaginária do eu, as identificações e os conflitos nas relações com os seme-
lhantes, no plano simbólico.
Lacan também aborda o tema do amor, o apaixonamento, como aque-
le capaz de provocar uma espécie de anulação do simbólico, tendo como 
efeito a perturbação da função do ideal do eu, relançando o sujeito nova-
mente em direção à perfeição do eu ideal. A busca desta no outro toma a 
cena nas relações amorosas, sendo o seu próprio eu que se ama. Explica 
o que ocorre com o sujeito apaixonado, pois nessas situações o ideal do eu 
e o eu ideal se confundem. Quando se está apaixonado, uma espécie de 
“loucura” se produz, um eclipsamento, que perturba a função do ideal do eu, 
suspendendo-o, relançando o sujeito em direção à idealização. 
Adentramos no tema do amor com a proposta de aproximá-lo da re-
lação entre professor e aluno. De certa forma, podem-se estender as con-
siderações sobre o amor à cena escolar, tendo em vista as proposições 
freudianas (Freud, [1914]1987b). A influência dos mestres sobre os alunos 
depende do campo amoroso estabelecido entre ambos, tornando-os perso-
nagens de um romance de gêneros diversos. No enredo, fruto desse (des)
encontro, a incontrolável dramática instalada torna-se decisiva, superando 
os esforços conscientes condutores do trabalho.
Considerando os conceitos de eu ideal e ideal do eu, podemos relacio-
nar à posição do professor em sua função educativa. Na relação com seus 
alunos também poderá tanto desenvolver uma relação de apaixonamento, 
considerando a relação amorosa em todas as suas variações, estando do 
lado do eu ideal, quanto estabelecer uma relação simbólica, conforme pro-
põe Lacan, mais do lado do ideal do eu. Propomos que o trabalho do pro-
fessor poderá tornar-se possível desde que esteja direcionado à posição do 
ideal do eu. Essa posição representaria uma possibilidade de substituição 
do ideal educativo, ou seja, do “melhor” modo de educar pela possibilidade 
de exercer “qualquer” educação, como propõe Voltolini (2011):
168
Larissa Costa Beber Scherer
Todo esforço de Freud nesse campo pode ser compreendido como 
sendo o de substituir a pretensão pedagógica de um ideal educa-
tivo (qual o melhor modo de educar?) por uma discussão sobre as 
condições de possibilidade de qualquer educação (o que é neces-
sário acontecer para que haja uma educação?) (p.11).
Atravessar a idealização, transpondo-a em direção à parcialidade. 
Deslocar-se da posição identificada com o eu ideal, transitando desde o 
lugar idealizado para a aceitação da incompletude (ideal do eu). Nos en-
contros com os professores, percebemos o quanto tal deslocamento nem 
sempre é habitual, pois sabemos da permanência da posição idealizada nas 
relações estabelecidas pelo sujeito. Ao considerarmos o discurso educativo 
como calcado em um ideal, assinalamos a importância de nos desprender-
mos dele, a fim de tornar possível o trabalho educativo. Deslocar-se de um 
lugar a outro, sem cristalizar-se em uma única posição. Apontamos com isso 
a importância da posição ocupada por aquele que ensina, conservando es-
paço para a ignorância, para o não saber, permitindo vazios de sentido que 
impulsionem a investigação. Uma posição de saber com furos e lacunas, 
que possibilitem a realização de propostas diversas. Nos encontros com os 
professores, percebemos o quanto tal deslocamento não é natural, necessi-
tando de um trabalho a ser realizado.
Após a breve retomada do tema do narcisismo e os ideais do sujeito, 
interrogar sobre as posições assumidas pelo educador parece uma impor-
tante contribuição da psicanálise em relação à educação, considerando o 
eu ideal e ideal do eu e seus efeitos nas relações escolares. Ensinar só é 
possível devido à relação imaginária (e simbólica) existente entre professor 
e aluno. Caso o educador permaneça identificado à posição narcísica, re-
ferida ao eu ideal, o fazer docente poderá ficar impossibilitado. Isso ocorre 
porque o trabalho com a diversidade de alunos e suas singularidades que-
bra com o ideal de perfeição, podendo lançar o sujeito professor na direção 
oposta, conduzindo-o à impotência.
No contexto escolar, as posições discursivas demonstradas pelos do-
centes – “não realiza as tarefas, não participa, brinca durante as aulas... 
Chamo a atenção dele e não adianta”; “tenho tentado de tudo, mas..., segue 
sem fazer evoluções”; “Não sei mais o que fazer com o Carlos! Ele fica 
caminhando pela sala o tempo todo, falando palavras que eu não entendo, 
não aceita que eu me aproxime...”; “Nem consigo falar direito com eles, não 
param para me escutar. O trabalho está muito atrasado...” – sinalizam im-
possibilidades de realização do trabalho escolar. Essas posições enunciati-
vas necessitam ser transpostas, contornadas, a fim de permitir a continuida-
169
Educação (im)possível?
de do trabalho pedagógico. Nessas situações, o professor poderá assumir 
uma posição de desistência em relação ao seu trabalho, não investindo nem 
buscando alternativas que possibilitem a construção de um fazer possível. 
Os efeitos de insucessos produzidos nos alunos e o abandono da prática 
docente por parte de alguns professores são exemplos de situações que 
podem decorrer desses impasses. A cristalização do docente na posição re-
lativa ao eu ideal poderá conduzi-lo à impotência. Assim, a possibilidade de 
transitar desde o lugar idealizado (eu ideal) para a aceitação da incompletu-
de (ideal do eu) coloca-se como um movimento importante a ser realizado.
Como pensar intervenções que permitam deslocamentos de posição 
por parte do educador? Como a ética da psicanálise pode contribuir nos pro-
cessos escolares? Nesse percurso junto aos professores, o caminho implica 
considerar a singularidade do sujeito e as relações estabelecidas. Faz-se 
necessário um olhar sobre o ser professor e os impasses decorrentes de 
posições assumidas, uma escuta considerando o mal-estar do educador 
diante da tarefa de educar. Olhar que problematize a posição, contemplando 
os dilemas, os enigmas, o contraditório. O educador tomado como persona-
gem principal. 
No grupo de professores, deslocamentos são construídos através do 
jogo entre saber e não saber, experiênciavivenciada por cada participan-
te de forma singular. Na escola, o grupo oferecia espaço e tempo para a 
formulação de algumas respostas, mesmo que provisórias, possibilitando 
a ressignificação do que era dito e percebido. Para tanto, a permanência 
do tensionamento, da ausência de certezas implicadas nesse trabalho, 
manteve-se presente durante os encontros, convocando os professores a 
construir novas respostas. Esse processo era reafirmado frequentemente, 
potencializando o desejo de investigação e a busca por novas descobertas 
sobre os alunos e o trabalho realizado. 
Para finalizar, recorto algumas falas produzidas no espaço do grupo 
num outro tempo de trabalho:
Hoje eu dei um duro nele e disse que não vinha na aula para dor-
mir, que antes de descer para o recreio tinha que fazer a tarefa. 
Me surpreendi, ele levantou e foi fazer. Acho que temos que tentar 
mais vezes dessa forma. Será que eu posso, não estou sendo 
muito dura com ele? (profa. do primeiro ano).
“Quando realizo jogos matemáticos com a turma ele quer sempre 
participar, encontra uma maneira própria de se inserir, mesmo não 
dominando o valor das quantidades trabalhadas. Nas atividades 
170
Larissa Costa Beber Scherer
orais ele sempre levanta o braço para responder. Quando chega 
a sua vez diz que esqueceu. Estou tentando ajudá-lo a participar 
nesses momentos” (profa. do quarto ano).
Encontrei uma estratégia para quando está muito agitado, gritan-
do. Digo para ir até o banheiro lavar o rosto, respirar fundo e re-
tornar quando estiver mais calmo. No início ficava com medo e 
ia atrás dele para ver, ficava olhando de longe. Notei que ele ia 
e voltava. Agora tem retornado um pouco mais calmo (profa. do 
terceiro ano).
L. está me ajudando a entregar materiais aos colegas, parece gos-
tar muito disso! Tem mostrado interesse em participar de jogos em 
sala de aula com os colegas, quando eles estão em pequenos gru-
pos. Eu vinha convidando-o várias vezes para isso. Combinei com 
os colegas que o ajudassem a participar. Esses têm sido momen-
tos que mais se envolve, mesmo não sendo todo o tempo (profa. 
do segundo ano).
A percepção do fazer educativo por parte do professor desde outra 
perspectiva vai se delineando, contornando os “nãos” que faziam parte da 
cena em outro tempo. O convite realizado no contexto do grupo era pela 
aceitação da desarmonia e a busca por construir caminhos de trabalho 
considerando a parcialidade e brechas mantidas na cena escolar. O gru-
po constituiu-se como um espaço que permitiu os desencontros, acolhen-
do o desafio, sustentando o não-saber. Nos momentos com professores, 
percebemos o quanto o deslocamento de posição implica a realização de 
um trabalho de escuta. Apostamos com isso a importância de a posição 
ocupada por aquele que ensina conservar espaço para a ignorância, para 
o não-saber, e permitir vazios de sentido que impulsionem a investigação. 
Suportar as desarmonias e desencontros, colocando o professor numa po-
sição de negociação com os impasses da alteridade e reconhecimento de 
não saber tudo, dos limites da representação. O reconhecimento da parcia-
lidade, a aceitação da incompletude, identificada ao ideal do eu, permitindo 
a construção de práticas singulares.
REFERÊNCIAS
CHEMAMA, R. Dicionário de psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995.
FREUD, S. Prefácio a juventude desorientada, de Aichhorn [1925]. In: ______. Edi-
ção standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. XIX. 
Rio de Janeiro: Imago, 1987.
171
Educação (im)possível?
______. Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar [1914]. In: ______. Edição 
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Recebido em 27/01/2014
Aceito em 20/02/2014
Revisado por Joana Horst
TEXTOS
172
Resumo: O presente trabalho busca refletir sobre a crise do vínculo educativo 
na atualidade, analisando a implicação das demandas sociais contemporâneas 
na função docente, bem como na saúde dos profissionais. A partir da análise de 
três exemplos da relação entre educadores e alunos, sustenta-se a necessidade 
de um (re)pensar da prática docente. Este repensar pode ser facilitado através 
da reflexão coletiva entre os profissionais, contribuindo-se assim para a promo-
ção de um bem-estar, que repercutirá nas relações que estes estabelecem com 
seus alunos cotidianamente.
Palavras-chave: processo de ensino e aprendizagem, bem-estar docente, vín-
culo professor e aluno, mal-estar docente.
TEACHING PRACTICE IN THE CONTEMPORARY 
SOCIETY: SOME REFLECTIONS
Abstract: This work is a reflection about the crisis affecting educative bonds in 
contemporary society. It analysis the implications of increasing social demands 
on teachers and on their health condition. Based on three examples of teacher/
student relationship, it was possible to perceive the need for a rethink of teaching 
practices, only achieved through reflective moments among teachers which, in 
turn, will have a positive impact on the bonds they build with their students in the 
everyday classroom.
Keywords: teaching-learning process, teacher welfare, teacher-student bond, 
teacher discomfort.
Cristina Py de Pinto Gomes Mairesse2
A PRÁTICA DOS EDUCADORES 
NA CONTEMPORANEIDADE: 
algumas reflexões1
1 Trabalho apresentado na III Jornada do Instituto APPOA: Psicanálise e Intervenções Sociais 
– Desamparo e Vulnerabilidades, Porto Alegre, agosto de 2013.
2 Psicóloga (PUCRS); Especialista em Educação Inclusiva (PUCRS); Mestre em Psicologia Clí-
nica (PUCRS); Doutora em Educação (UFRGS). Atualmente é integrante da Linha de Pesquisa 
Psicanálise e Educação (APPOA); Membro da Enlace – Clínica e Projetos Interdisciplinares; 
Professora no curso de Psicologia da UNIFIN (Faculdade São Francisco de Assis) e está con-
cluindo a Especialização em Psicopedagogia e TIC’s (UFRGS). E-mail: crispy@cpovo.net
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, n. 45-46, p.172-180, jul. 2013/jun. 2014
173
A prática dos educadores na contemporaneidade...
Introdução 
Inicio o presente artigo a partir do relato de três exemplos vivenciados por mim, que ilustram o tema que pretendo desenvolver: a crise do vínculo 
educativo3 na atualidade e suas implicações no cotidiano escolar, bem como 
na saúde dos profissionais envolvidos no processo de ensino e aprendiza-
gem. 
O primeiro exemplo, ocorrido em momento informal com uma colega, 
professora de crianças e jovens, é o mais recente. Os outros dois foram vi-
venciados no transcurso de minha pesquisa de doutorado, que tinha o intui-
to de conhecer a prática docente em turmas de progressão, de uma escola 
estruturada por ciclos de formação do município de Porto Alegre (Mairesse, 
2003). 
O primeiro deles parece traduzir o anseio de muitos profissionais que 
trabalham diretamente em sala de aula, como educadores, de abandonar 
a carreira por acreditarem não conseguir suportar a pressão que os aco-
mete rotineiramente: em uma conversa informal, o assunto da realização 
profissional foi discutido e a educadora relata o quanto estava desgostosa 
com sua profissão, que desejaria

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