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Aula nº 06 — Derivações da Épica: Epopeia, Romance e Conto Expedição Literária: Viagem pelas Letras Raphael Valim da Mota Silva e Gabriela Porne Março/2020 Subdivisões da Épica: os gêneros narrativos Toda vez que falamos de Épica, falamos de narrativa, que é uma exposição escrita ou oral por parte de um narrador, que conta uma série de eventos vividos por personagens em um tempo e um espaço específicos. Longe de ser um conceito irredutível, a Épica pode subdividir-se em diferentes gêneros narrativos, unidos por uma característica comum: o ato de contar uma história. É fundamental, então, saber quais são esses gêneros para melhor identificá-los e interpretá-los. O marco inicial da narrativa foi a epopeia, gênero que teve sua origem na Antiguidade. Uma epopeia é um longo poema narrativo que se vale de recursos como a rima, a métrica e as figuras de linguagem para celebrar, em tom solene, os feitos de um herói e os valores de uma comunidade. Ela é dividida em cantos e apresenta uma estrutura fechada, com muitas regras de composição. Essa estrutura costuma apresentar cinco partes: proposição, invocação, dedicação, narração e epílogo. Destas, a invocação destaca-se como um dos traços mais característicos do gênero. Por meio dela, o poeta invoca as Musas, divindades gregas ligadas à memória, para que elas o auxiliem a compor e declamar sua obra. Estima-se que a primeira epopeia que existiu foi a de Gilgámesh, feita na Mesopotâmia entre os anos 2000 e 1800 a. C. Sua composição e preservação dependeu das tradições orais do povo sumério e da escrita cuneiforme, feita em tábuas de argila. Logo em seguida, vieram as epopeias homéricas Ilíada e Odisseia, baseadas na mitologia grega e nos eventos da Guerra de Troia. A epopeia também marcou presença em contextos históricos posteriores à Antiguidade, sobretudo naqueles que valorizaram as artes clássicas, como o Renascimento, período no qual Luís Vaz de Camões publicou Os Lusíadas, a maior epopeia em língua portuguesa. Em contrapartida, o gênero está praticamente extinto nos dias de hoje, exceto por algumas manifestações poéticas que o revisitam. Você sabia que: a palavra “museu” vem do termo grego mouseion, que significa templo ou morada das Musas? Museu seria, então, o lugar onde se preserva e se exalta a memória. Diferentemente da epopeia, o romance é um gênero menos regrado e mais flexível. Trata-se de uma narrativa longa, normalmente em prosa, que acompanha as ações de um ou mais indivíduos ao longo do tempo. Para pensadores como Hegel e Georg Lukács, o romance é uma “epopeia burguesa”, já que surgiu em meio à ascensão da burguesia e apega-se às noções de individualidade e mérito, valorizadas por essa nova classe. O personagem do romance é então aquele que age em busca de um sentido para sua vida, sentido este que não é mais coletivo e nem dado de antemão como no mundo da epopeia. A fidelidade à experiência individual, que é sempre única e nova, justifica a “pobreza” das convenções formais do romance, como explica o crítico Ian Watt.1 Em outras palavras, a sua forma varia bastante e pode, inclusive, parodiar ou inserir diferentes tipos de texto em sua composição. O romance 10:04 de Ben Lerner, por exemplo, inclui fotos em alguns de seus capítulos e o resultado só não fica mal feito porque o gênero, em sua flexibilidade, permite essa inserção. Ainda segundo Ian Watt, o procedimento literário típico do romance é o realismo formal, que aprofunda as relações entre ficção e realidade. Esse estreitamento se dá não pela preferência por narrativas realistas, visto que muitos romances se apoiam na fantasia, mas sim pela riqueza de detalhes e pelo uso reiterado da linguagem referencial e descritiva. A verossimilhança é, então, fundamental para esse gênero, que se propõe a narrar a experiência de qualquer ser humano e não só dos grandes heróis. Enquanto a extensão do romance permite que ele tenha muitas subtramas e personagens secundários, a do gênero conto, por ser mais curta, dá preferência a uma única ação, um mesmo ambiente e uma breve passagem de tempo. Para explicar melhor essa diferença, o escritor Julio Cortázar compara os dois gêneros a uma luta de boxe: enquanto o romance vence por rounds, o conto deve vencer por nocaute. Não há muito tempo — e nem muitas páginas — para desenvolver a trama de um conto; logo, toda palavra importa para que sua experiência de leitura seja intensa, ainda que breve. 1WATT, Ian. “O realismo e a forma do romance”. In: A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. O conto é um gênero bastante antigo, que remonta à tradição oral de povos ancestrais. No entanto, a sua forma clássica veio com os escritores da modernidade, que o desenvolveram como uma história focada na ação em progressão, visando alcançar um ponto de tensão máxima (clímax) e, por fim, um desfecho impactante. Edgar Allan Poe é um grande mestre desse tipo de história. Por outro lado, já no final do século XIX, o conto ganhou também uma versão mais introspectiva, sem grandes reviravoltas. Os contos modernos, como os de Anton Tchekhov e Ernest Hemingway, são, em essência, mais subjetivos e sutis, privilegiando o subentendido e a análise psicológica em detrimento da ação. Imagem 1: Capa da Epopeia de Gilgámesh, do romance 10:04 e do livro de contos A dama do cachorrinho. Além desses três gêneros que mencionamos, a Épica também apresenta outras subdivisões, como a fábula (história com personagens animais e uma moral a ser ensinada), a novela (gênero intermediário entre conto e romance, mais curto que este e mais longo que aquele), e a crônica (texto breve de caráter ensaístico, ligado ao cotidiano e às experiências reais de um escritor). Não deixe de pesquisar e ler mais sobre cada um desses gêneros para dominar os métodos de escrita narrativa. Veja abaixo aonde encontrar mais informações sobre o tema desta aula. ⁺ A ascensão do romance — Ian Watt VÍDEOS Veja abaixo onde encontrar mais informações sobre o tema desta aula. Neste livro, o crítico Ian Watt faz um panorama e uma análise da ascensão do gênero romance na Inglaterra do século XVIII, dando ênfase às obras de Daniel Defoe, Samuel Richardson e Henry Fielding. LIVROS Em Valise de cronópio, Cortázar reúne dezoito ensaios sobre diversos temas, incluindo uma discussão fundamental sobre a diferença entre os gêneros romance e conto. ⁺ Valise de cronópio — Julio Cortázar Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0S6jvcf9mx8 Gêneros narrativos (conto, crônica, novela, fábula e romance) — Definições e Diferenças — Planos e Fugas (YouTube) Este breve vídeo do canal Planos e Fugas apresenta os gêneros narrativos que estudamos. Pode ser útil para aqueles que desejam saber mais sobre fábula e crônica. Conto, novela, romance: como são definidos? — Aione Simões / Minha Vida Literária (YouTube) Aione Simões, nossa querida apresentadora e coordenadora do curso, postou este vídeo em seu canal Minha Vida Literária para discutir melhor as características dos gêneros narrativos conto, novela e romance. É um bom aprofundamento e uma boa revisão para o tema desta aula.Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hZfcxKLcymM https://www.youtube.com/watch?v=0S6jvcf9mx8 https://www.youtube.com/watch?v=hZfcxKLcymM