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DESCRIÇÃO
Apresentação das contribuições, das teorias e dos principais conceitos do
sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1971), considerado pelos
estudiosos das Ciências Sociais um dos principais fundadores da teoria
sociológica.
PROPÓSITO
Conhecer as inúmeras tentativas realizadas por Émile Durkheim para a
superação daquilo já produzido sobre o estudo da sociedade até a sua
época, bem como os principais conceitos por ele desenvolvidos, além do
seu pioneirismo na abordagem metodológica por meio do funcionalismo.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer as considerações gerais e históricas de desenvolvimento da
obra de Émile Durkheim
MÓDULO 2
Descrever os fatos sociais, o método funcionalista e a sua inovação para as
Ciências Sociais
MÓDULO 3
Identificar os conceitos básicos desenvolvidos pelo autor
INTRODUÇÃO
Se você está aqui, é provável que já tenha ouvido alguém falar (ou até
mesmo lido) sobre Durkheim e sua Sociologia. Ainda assim, a fim de
conhecermos melhor o pensamento do sociólogo francês Émile Durkheim,
precisamos abordar neste tema seus principais conceitos e suas análises
sobre a realidade social por ele investigada.
Segundo Durkheim, existiam entraves na sociedade moderna – e eles
estavam conectados a problemas de ordem social. Nesse sentido, o
sociólogo buscou compreender como o comportamento dos indivíduos era
construído por meio do que ele chamou de fatos sociais.
Além disso, ele se interessou pelo que acreditava ser uma consciência
coletiva e os tipos de solidariedade social. Neste material, estudaremos as
principais ideias abarcadas nesses conceitos cunhados por Durkheim. Por
fim, ainda analisaremos de que forma sua obra continua sendo uma
referência para os estudos e as pesquisas no campo das Ciências Sociais
hoje.
Nossa intenção é descobrir as relações feitas pela Sociologia
contemporânea com os conceitos e com a teoria durkheimiana. A ideia é
entendermos a relevância desse pensador para a Sociologia, indicando a
atemporalidade de sua obra e a enorme contribuição dele para o pensar
nossa sociedade.
MÓDULO 1
 Reconhecer as considerações gerais e históricas de
desenvolvimento da obra de Émile Durkheim
A SOCIOLOGIA DE DURKHEIM
Vamos iniciar a nossa conversa falando sobre a história e o nascimento da
Sociologia como ciência. É público e notório que ela está associada ao
contexto político, social, econômico e cultural da França a partir do século
XVII.
Para alguns estudiosos de hoje, foi nesse país que se fizeram presentes
alguns dos pensadores considerados os pré-sociólogos ou fundadores da
Sociologia, como Charles de Montesquieu, Aléxis de Tocqueville, Saint-
Simon e Auguste Comte.
Em outras palavras, as condições apresentadas na realidade francesa do
período foram determinantes para o desenvolvimento da Sociologia e de
seus primeiros teóricos.
Em um contexto de transformações sociais e de avanço das Ciências
Sociais, também teve origem na França uma das mais significativas
vertentes da Sociologia contemporânea: o funcionalismo apresentado por
Émile Durkheim.
Considerado um dos fundadores da Sociologia, ele presenciou algumas das
mais importantes criações da sociedade moderna e vivenciou as
expressivas mudanças trazidas com os avanços dessa nova sociedade em
construção, o que influenciou diretamente sua obra como sociólogo.
 
Fonte: Shutterstock.com
Dessa forma, abordaremos, neste material, o pensamento de Émile
Durkheim a partir dos principais elementos históricos que propiciaram o
desenvolvimento da Sociologia na França. Em um primeiro momento,
vamos enfatizar sua tentativa de fazer dela uma ciência.
Mas como faremos isso? Vamos destacar como parte principal de seu
trabalho a busca por conferir à Sociologia uma reputação científica, base
para seu reconhecimento.
Para tanto, também exploraremos sua contribuição precursora no que diz
respeito ao desenvolvimento de métodos próprios para a Sociologia: o
método funcionalista. Com métodos próprios e o trabalho de Durkheim,
veremos como a ela avançou seu “status” enquanto ciência.
SOCIOLOGIA FRANCESA: A BUSCA
PELO CONHECIMENTO EM MEIO ÀS
TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS
Nosso trajeto a ser percorrido neste material tem início na França do século
XX. Como já estudamos, este foi um cenário de intensas transformações
sociais, econômicas, políticas e culturais.
Essas mudanças seguiam o curso das marcas deixadas por eventos
determinantes vivenciados pelo país nos séculos anteriores, como a Guerra
Franco-Prussiana, o Iluminismo e a Comuna de Paris. Todos esses fatos
históricos culminaram na necessidade de uma reformulação integral das
estruturas tecnológica e de produção, bem como educacional e cultural,
francesa.
 
Foto: Bruno Braquehais/Wikimedia Commons/licença (CC0)
 Barricada na esquina do Boulevard Voltaire e do Boulevard Richard-
Lenoir durante a Comuna de Paris de 1871.
 RESUMINDO
Destacava-se nessa conjuntura de consolidação do sistema capitalista uma
realidade social e econômica que evidenciava as contradições do novo
sistema que surgia. Em outras palavras, um período no qual a miséria e o
desemprego estavam lado a lado com uma grande expansão industrial. Isso
significou o aguçamento das lutas sociais e um campo muito propício ao
desenvolvimento de novas teorias sociais.
Mas essa também foi uma época de grande euforia, pois havia um
progresso significativo na esfera da produção, principalmente em relação às
inovações tecnológicas. Essas inúmeras invenções que alteraram
profundamente o modo de produção – não apenas naquele país, mas em
toda a Europa – produziram transformações nas estruturas social e cultural
francesas.
Ou seja: as inovações caminharam conjuntamente com os novos problemas
sociais e as novas demandas impostas pela sociedade capitalista. Um
quadro propulsor para o desenvolvimento de uma ciência a fim de pensar
essa sociedade moderna que se apresentava.
É importante entender então que o cenário de turbulências sociais e de
mudanças em tantos campos exigia explicações. Devemos dizer que
algumas matrizes de pensamento e teorias de diversas áreas de
conhecimento — como o evolucionismo e o positivismo — já se faziam
presentes e foram fundamentais para o desenvolvimento da Sociologia.
 
Fonte: Shutterstock.com
E, além disso, para o trabalho de um de seus principais teóricos até os dias
de hoje: Émile Durkheim.
ÉMILE DURKHEIM: CRIADOR DA
ESCOLA SOCIOLÓGICA FRANCESA
David Émile Durkheim nasceu em Épinal (França) em 15 de abril de 1858.
Era filho de um rabino e de uma família tradicional judia, o que lhe
possibilitou o acesso a uma educação de qualidade e com grandes
referências intelectuais francesas, como o historiador Foustel de Coulange,
que foi seu professor por muitos anos.
Com 24 anos, graduou-se em Filosofia e seguiu seus estudos na Alemanha
com a intenção de ampliar sua formação, suas bases teóricas e suas
referências. Foi quando conheceu obras que o influenciariam bastante,
como as de Ferdinand Tonnies e de George Simmel.
Em 1887, já de volta à França, deu início à sua vida profissional, tornando-
se professor na Faculdade de Letras de Bordeaux, na qual lecionou
Pedagogia e Ciência social. Ali também nasceu sua trajetória acadêmica e
intelectual, pois foi nesse período, mais precisamente entre 1893 a 1899,
que ele publicou três de seus principais livros:
DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL.
AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO.
O SUICÍDIO.
Fonte: Collective work/Wikimedia Commons
Esses anos foram fundamentais para o desenvolvimento de seu
pensamento e de suas teorias. Foi nesse contexto que ele fundou a revista
Année Sociologique, em 1896, reunindo jovens colaboradores que
mantiveram o periódico em circulação até o final da década de 1940.
Após deixar a Faculdade de Letras de Bordeaux, Émile Durkheim assumiu a
cadeira de Ciência da Educação da Universidade de Sorbonne. Poucos
anos depois, ele realizou um grande feito ao transformá-la em uma cátedra
de Sociologia.
A Sociologia foi encaradapor Durkheim como uma espécie de missão
política. Ou seja, ele buscou, ao longo de toda sua trajetória, o
reconhecimento dela como ciência.
Ele almejava uma ciência que permitisse a compreensão da crise social e
moral da sociedade – a qual, segundo ele, atingia a França – e que, ao
mesmo tempo, fornecesse elementos capazes de indicar a saída para
essas crises, ajudando a restabelecer a solidariedade entre os membros da
sociedade francesa.
Vimos, portanto, que Durkheim desenvolveu a maior parte de sua obra em
um período de grandes crises e modificações na estrutura social francesa. E
isso direcionou suas análises em uma busca para explicar e abarcar o
conjunto diverso de novas situações experimentadas pela França.
Em outras palavras, a Europa do século XIX — cena com muitos conflitos
sociais e revoluções — foi o palco da origem da Escola de Sociologia na
França, bem como da preocupação de Durkheim em compreender o
funcionamento da sociedade francesa. Além disso, isso representava a sua
busca por garantir a estabilidade da ordem social e, assim, do nascimento
do pensamento sociológico durkheimiano.
Em resumo, podemos dizer que, além de sua atenção para que a Sociologia
tivesse um status científico, Durkheim também formulou parâmetros lógicos
importantes que deram origem a um método inovador de investigação nas
Ciências Sociais: o funcionalismo.
Além disso, ele definiu que o principal objeto de estudo da Sociologia
deveriam ser os fatos sociais. Ao procurar insistentemente definir o caráter
científico dela e criar uma corrente hegemônica de pensamento no campo
das Ciências Sociais, Émile Durkheim se tornou uma das grandes
expressões da Sociologia até os dias de hoje.
A NATUREZA HUMANA VEM DA
SOCIEDADE
É inegável que foram inúmeras as contribuições de Durkheim à Sociologia
tanto na elaboração de conceitos quanto na sua concepção sobre o papel
dessa ciência e na ênfase dada por ele à função do método.
Antes de iniciarmos nosso percurso para conhecermos um pouco mais
sobre seu pensamento, consideramos ser importante demarcar que sua
obra teve uma forte influência na teoria positivista de August Comte.
 
Fonte: nadi555/Shutterstock.com
 Selo postal romeno do filósofo francês Auguste Comte por volta de 1957.
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TEORIA POSITIVISTA
Segundo Lacerda (2009), Augusto Comte foi um filosofo francês
identificado tradicionalmente com a corrente positivista. Autor de obras
como Système de philosophie positive (1830-1842) e Cathéchisme
positiviste (1852), ele conceituava o positivismo a partir da
consideração de que o progresso é uma constatação histórica que
deveria nortear a ação humana e ser constantemente reforçado. Nesse
sentido, trata-se de uma corrente teórica baseada na noção de
progresso contínuo da humanidade, existindo uma marcha contínua e
progressiva que a humanidade teria como fio condutor.
Mas, a despeito de toda a relação com a teoria de Comte, Durkheim
também teceu críticas significativas ao positivismo, dando origem a uma
parte importante de sua concepção sociológica. Em síntese, sua crítica
residia no fato de que a corrente positivista não compreenderia a
especificidade metodológica das Ciências Sociais em relação às demais
ciências naturais.
O caráter histórico e transitório dos fenômenos sociais — sempre sujeitos
de transformação pela ação dos homens — e o fato de que os problemas
sociais suscitariam concepções antagônicas das diferentes classes sociais
foram alguns dos pontos destacados por Durkheim para explicar essas
especificidades metodológicas da Sociologia.
Desse modo, já podemos verificar a relevância que o sociólogo francês
dava à metodologia dos estudos. Uma de suas principais ideias tinha como
base a metodologia da indução, o que quer dizer que a visão sociológica
precisa vir do indivíduo ao coletivo.
Nesse sentido, seria necessário observar todas as atitudes de uma pessoa
para entender a sociedade. Essa perspectiva ia contra o que inúmeros
filósofos pregavam até o momento.
Durkheim não acreditava que a natureza humana vinha do interior do ser
humano, e sim do exterior. Em outras palavras, a sociedade influenciaria o
comportamento humano.
Ele acreditava que a sociedade seria um agrupamento de individualidades
que funcionam juntas e causam fenômenos diferentes daqueles que
ocorrem na consciência de cada indivíduo, dedicando-se, por conta disso, a
pensar sobre a relação coletivo versus indivíduo.
A partir dessa breve apresentação, convidamos você a conhecer agora um
pouco mais o trabalho, assim como algumas das principais obras e
conceitos, desse sociólogo francês.
Neste vídeo, faremos uma abordagem sobre a Sociologia francesa e
Durkheim.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1) (UEM, 2011) SOBRE A RELAÇÃO ENTRE A REVOLUÇÃO
INDUSTRIAL E O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA,
ASSINALE A OPÇÃO CORRETA.
A) A consolidação do modelo econômico baseado na indústria conduziu a
uma grande concentração da população no ambiente urbano, o que acabou
constituindo um laboratório para o trabalho de intelectuais interessados no
estudo dos problemas que essa nova realidade social gerava.
B) A migração de grandes contingentes populacionais do campo para as
cidades gerou uma série de problemas modernos que passaram a
demandar investigações visando à sua resolução ou à sua minimização.
C) Os primeiros intelectuais interessados no estudo dos fenômenos
provocados pela Revolução Industrial compartilhavam uma perspectiva
positiva sobre os efeitos do desenvolvimento econômico baseado no
modelo capitalista.
D) Os conflitos entre capital e trabalho, potencializados pela concentração
dos operários nas fábricas, foram tema de pesquisa dos precursores da
Sociologia e continuam inspirando debates científicos relevantes na
atualidade.
E) A massa de trabalhadores rurais que migrou para os centros urbanos
que surgiam não possui relação com o surgimento da Sociologia como
ciência.
2) SEGUNDO DURKHEIM, O PAPEL DA SOCIOLOGIA DEVERIA SER:
A) Aprender sobre o ser humano enquanto indivíduo, priorizando as
análises sobre interação.
B) Compreender os processos que formam a realidade social,
principalmente os aspectos gerais relacionados à formação moral e aos
laços de solidariedade.
C) Descobrir os males humanos que afligem a sociedade e apontar os
remédios para cada indivíduo.
D) Uma ciência cujo objetivo seria construir a perfeição humana.
E) Identificar os problemas que atingem a realidade social, com foco no
indivíduo – e não em aspectos gerais.
GABARITO
1) (UEM, 2011) Sobre a relação entre a Revolução Industrial e o
surgimento da Sociologia como ciência, assinale a opção correta.
A alternativa "A " está correta.
A industrialização caminhou em conjunto com novos problemas sociais e
novas demandas impostas pela sociedade capitalista, sendo um quadro
propulsor para o desenvolvimento de uma ciência que pudesse pensar essa
nova realidade.
2) Segundo Durkheim, o papel da Sociologia deveria ser:
A alternativa "B " está correta.
A preocupação de Durkheim era o desenvolvimento de uma ciência capaz
de compreender o funcionamento da sociedade e que garantisse a
estabilidade da ordem social.
MÓDULO 2
 Descrever os fatos sociais, o método funcionalista e a sua inovação
para as Ciências Sociais
FORMAS DE AGIR, PENSAR E
SENTIR
Conforme vimos no primeiro módulo, uma das principais preocupações do
pensamento de Durkheim foi a ordem social. O sociólogo acreditava que a
raiz dos problemas sociais de seu tempo estava conectada a uma espécie
de fragilidade da moral, o que envolveria questões relacionadas a normas e
valores.
Durkheim defendia, dessa forma, que os problemas sociais vividos pela
sociedade europeia eram de natureza moral – e não de fundo econômico.
A partir dessa concepção, ele desenvolveu seu pensamento a fim de
construir uma ciência que, além de compreender tais males sociais,
contribuísse com a formulação de novas ideias morais capazes de guiar a
conduta dos indivíduosno coletivo.
Em outras palavras, Durkheim argumentava que a Sociologia, por meio de
suas investigações, poderia indicar soluções para os males sociais que
emanavam do capitalismo. Para ele, os valores morais constituiriam um dos
elementos mais eficazes para neutralizar as crises econômicas e políticas.
Segundo Durkheim, era preciso fortalecer o status de ciência da Sociologia.
Para isso, uma de suas primeiras contribuições foi propor regras de
observação e de procedimentos de investigação. A ideia era que ela fosse
capaz de estudar os acontecimentos sociais de maneira semelhante a
outras ciências, como a Biologia, por exemplo, quando analisa uma célula.
Para desenvolver esse novo método de investigação nas Ciências Sociais,
Émile Durkheim compreendeu a necessidade de se responder a duas
questões:
 
Fonte: Shutterstock.com
Como ele concebia a relação entre indivíduo e sociedade?
 
Fonte: Luciano Marques/Shutterstock.com
Como ele entendia o papel do método científico na explicação dos
fenômenos sociais?
Ao explorarmos como o sociólogo francês conseguiu responder a tais
perguntas, poderemos compreender como seu pensamento se estruturou.
Além disso, conheceremos o fio condutor de toda sua obra. Por isso,
iniciaremos este módulo mergulhando em suas ideias sobre a relação entre
indivíduo e sociedade.
Durkheim entendia que a sociedade predominaria sobre o indivíduo, uma
vez que seria ela que imporia a ele o conjunto das normas de conduta
social. Ou seja, para o sociólogo francês, a sociedade (objeto) é superior ao
indivíduo (sujeito), de tal forma que as estruturas sociais funcionariam de
modo independente dos indivíduos, condicionando suas ações. Esse
processo foi explicado por ele da seguinte forma: o “todo” condiciona
as “partes”.
Nesse sentido, o autor defendia a ideia de que o objeto de estudo da
Sociologia deveriam ser os fatos sociais. Mas o que significa isso?
Em suas palavras...
“É um fato social toda maneira de agir, fixa ou não, capaz de exercer sobre
o indivíduo uma coerção exterior ou ainda que é geral no conjunto de uma
dada sociedade, tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria
independentemente de suas manifestações individuais.”
DURKHEIM, 2002, p. 34.
 
Fonte: Shutterstock.com
Isso significa dizer que os fatos sociais seriam as maneiras de agir, pensar e
sentir que apresentam as características marcantes de existir fora da
consciência individual.
Ainda segundo Durkheim, essas formas de agir e de pensar seriam
definidas a partir da presença de três características: a generalidade, a
coerção social e a exterioridade. Parece complexo, não é mesmo? Mas,
quando paramos para analisar cada uma dessas características,
compreendemos de forma mais simples o que o autor propôs.
Ao afirmar que, para ser um fato social, é preciso que essa forma de agir
seja geral, ele se referia a um comportamento que se repete em todos os
indivíduos – ou, pelo menos, na maioria deles.
Isto é, para ele, os fatos sociais manifestam sua natureza coletiva ou um
estado comum ao grupo. Como exemplo, podemos pensar nas formas de
comunicação em nossa sociedade ou até mesmo na arquitetura das casas,
já que retratam padrões coletivos de comportamento.
Ainda sobre a generalidade de um fato social, isto é, sua unanimidade,
Durkheim destacou que ela seria a representação do consenso social, da
vontade coletiva, e que assim seria garantida a normalidade de tal
comportamento.
 
Adaptado de: WILLTIRANDO, 2012./Foto: Shutterstock.com
 
Adaptado de: WILLTIRANDO, 2012./Foto: Shutterstock.com
 
Adaptado de: WILLTIRANDO, 2012./Foto: Shutterstock.com
A segunda característica inerente a um fato social seria a exterioridade.
Isso quer dizer que os fatos existiriam antes e fora das pessoas, atuando de
modo autônomo em relação a seus desejos ou apoio consciente.
Neste caso, os sistemas de moedas ou as práticas profissionais são
exemplos interessantes para pensarmos essa característica de um fato
social (o ser exterior), já que eles funcionariam independentemente do uso
feito pelos indivíduos.
A última característica – mas não menos importante – apontada por
Durkheim para um fato social era a coerção, ou seja, a força que os fatos
exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformarem-se às regras da
sociedade em que vivem independentemente de suas vontades/escolhas.
A subordinação de todos a estatutos, leis e sanções (legais ou
espontâneas) são bons exemplos para entendermos o caráter coercitivo de
um fato social.
O FATOR SOCIAL É:
1) GERAL
2) EXTERIOR
3) COERCITIVO
Vamos explorar um exemplo para pensarmos conjuntamente como essas
três características se aplicam a um fato social analisado por Durkheim.
Escolheremos para nosso exercício a análise do casamento.
Começamos identificando se, em nossa sociedade e nas demais que
conhecemos, a grande parte das pessoas é ou foi casada em algum
momento.
E então? Concluíram que o casamento existe pela vontade da maioria de
um grupo ou de uma sociedade? Isso quer dizer que podemos apontá-lo
como um fato social geral.
No entanto, você pode argumentar que existem aqueles que não se casam
ou que não desejam fazê-lo. E, se você fizer isso, estará certo.
Ainda assim, de toda forma, a grande maioria das pessoas vai continuar
querendo se casar – e isso qualifica o casamento como um fato social
exterior ao indivíduo.
 
Fonte: Shutterstock.com
Isso quer dizer que ele se define não apenas como resultado do desejo dos
indivíduos, mas também como uma resposta às necessidades ou às
influências da sociedade. Com certeza, você já ouviu alguém dizendo: “Não
vá ficar pra titia, hein!”.
Frases como essa apontam a última característica do casamento como um
fato social (a coercitividade), já que somos direcionados a seguir o que
fazem os demais membros da sociedade à qual pertencemos.
 ATENÇÃO
Desse modo, Durkheim criou uma forma de analisar a sociedade e seus
fenômenos, entendendo que os acontecimentos sociais e as instituições —
como os crimes, os suicídios, a família, a escola e as leis — poderiam ser
observados como objetos.
A partir dessa percepção, o sociólogo defendeu que haveria fatos sociais
normais e os patológicos. Ou seja, para ele, a sociedade, como todo
organismo, apresenta estados saudáveis e doentios.
Mas o que é normal? Quais são os parâmetros estabelecidos para
diferenciar o “normal” do “anormal”?
NORMAL OU PATOLÓGICO?
Vimos que, no livro As regras do método sociológico, Émile Durkheim
definiu que os fatos sociais seriam seu objeto de estudo na Sociologia. O
sociólogo respondeu nessa obra à primeira questão que apresentamos
sobre a relação entre indivíduo e sociedade.
Nessa obra, o autor ainda inaugurou uma nova forma de explicar os
fenômenos sociais, desenvolvendo uma perspectiva sociológica para o
fenômeno da socialização, além de criar uma metodologia para isso.
Identificamos também o que seriam fatos sociais segundo Durkheim,
apontando que eles possuem três características inerentes à sua existência.
Nesse sentido, o sociólogo argumentou que, quando um fato social se
encontra generalizado, atendendo a uma dessas características, ele pode
ser considerado pela sociedade um fato normal.
Isso indica que, quando um fato social desempenha alguma função
importante para a adaptação ou evolução da sociedade, ele é classificado
como normal.
Com isso, Durkheim apontava que a normalidade de um fato social, ou seja,
de dado comportamento, modo de pensar e sentir, estaria relacionada a
uma convivência harmônica da sociedade consigo mesma e com outras
sociedades por meio do exercício do consenso social.
Em contrapartida, para Durkheim, um fato social seria patológico quando
colocasse em risco a harmonia que mencionamos.
Em seu pensamento, isso ocorreria quando, de alguma forma, o fato social
ameaçasse os acordos de convivência e os consensos sociais. Ou seja, a
patologia estaria relacionada, segundo o sociólogo, aos fatos sociais que se
encontrassem forados limites permitidos pela ordem social e pela moral
vigente.
Ao colocarem em risco a harmonia e o consenso social, os fatos sociais
patológicos representariam, para o autor, um estado mórbido da sociedade.
 EM OUTRAS PALAVRAS
Objeto de muita polêmica, o crime foi um fato social analisado por Émile
Durkheim. Em geral, a primeira análise que a maioria de nós faz tende a
apontá-lo como um fato social patológico. Contudo, na concepção do
sociólogo francês, ele é considerado um fato social normal, pois Durkheim
acreditava que a existência do crime era necessária e útil a uma sociedade.
Você deve estar se perguntando como ele fez essa relação e de que forma
o crime pode ser algo útil para qualquer sociedade, não é mesmo?
O que Durkheim via como normal era simplesmente a existência da
criminalidade como um fator ligado ao questionamento da moral coletiva. O
crime representaria, assim, um fator da saúde pública, sendo parte
integrante de toda sociedade sã.
Nessa perspectiva, o criminoso seria um agente regular da vida social
normal. Contudo, é fundamental dizermos que essa normalidade do crime
estava vinculada a determinado nível e parâmetros que não poderiam ser
ultrapassados. Ele, portanto, poderia apresentar formas anormais quando
atingisse taxas exageradas e colocasse em risco a coesão social.
Fatos sociais
Normal Patológico
Fatos que não extrapolam
os limites dos
acontecimentos mais gerais
da sociedade.
Fatos que refletem os
valores e as condutas
aceitas pela maior parte da
população.
Fatos que extrapolam os
limites aceitos pela
consciência coletiva vigente
em uma sociedade: é o
comportamento tido com
desviante.
Fatos que são transitórios e
excepcionais, como as
doenças.
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem
horizontal
Neste vídeo, vamos obsevar um exemplo bem próximo a nós sobre como
funciona o conceito do "Fato Social".
FUNCIONALISMO: COMO A
SOCIOLOGIA DEVE PROCEDER
PARA EXPLICAR SEU OBJETO DE
ESTUDO?
Exploramos até aqui a primeira pergunta sobre a qual Durkheim se
debruçou: a relação entre indivíduo e sociedade. E será por meio dela que
apresentaremos o que ele considerava o objeto principal de estudo da
Sociologia: os fatos sociais.
A partir de agora, vamos adentrar a segunda questão, que diz respeito a
como a Sociologia deveria, segundo ele, analisar e proceder em tal estudo.
Ou seja, qual seria a metodologia ou o método necessário para explicar os
fatos sociais?
Segundo Durkheim, os fatos sociais, isto é, as maneiras padronizadas como
agimos na sociedade, não existiriam por acaso, e sim por cumprirem uma
função.
Para compreendermos essa ideia de função, devemos destacar que o autor
comparava a sociedade a um corpo vivo. Como todo corpo – composto por
vários órgãos que, trabalhando em conjunto, garantem a sociedade dele –,
a sociedade seria formada por partes, e cada uma delas teria uma função
para mantê-la saudável.
Já deu para perceber a origem do nome metodologia funcionalista? Sim!
Isso mesmo! Ele vem da ideia defendida por Durkheim de que, assim como
cada órgão cumpre uma função no corpo humano, as partes cumprem uma
função em relação ao todo, isto é, quanto à sociedade. O que ele chama de
partes são os fatos sociais, que existiriam em função do todo, o qual, por
sua vez, corresponderia à sociedade.
Dessa forma, ele acreditava que cada instituição cumpre uma função a fim
de assegurar o bom funcionamento da sociedade. E caberia ao método
funcionalista explicar a função social que tais instituições exercem na
construção de uma sociedade considerada saudável, bem como as formas
de agir dos indivíduos diante do todo, tendo sempre como norte a ideia de
que este predomina sobre aqueles.
Por fim, Durkheim defendia uma sociologia que realizasse uma análise
objetiva dos fatos sociais. Nela, o investigador deveria manter uma relação
de objetividade com o objeto, desfazendo-se sempre de qualquer pré-noção
em relação a eles.
Antes de seguir para o próximo módulo, faça o seguinte exercício: localize
os fatos sociais a partir das características que Durkheim percebeu neles.
Você pode buscar exemplos em notícias de jornais e revistas. Verifique se
os fatos encontrados são sociais e se podem ser estudados pela Sociologia.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1) A IMAGEM ILUSTRA, SEGUNDO DURKHEIM, A CONCEPÇÃO DE
FATO SOCIAL. INDIQUE A OPÇÃO QUE, PARA O AUTOR,
REPRESENTA UMA CARACTERÍSTICA DO FATO SOCIAL.
 ESTUDANTES NO MOMENTO DE INTERAÇÃO.
A) Ser geral e igual em todas as sociedades.
B) Dar liberdade ao indivíduo em uma dada sociedade de praticar ações e
atitudes ligadas ao seu senso crítico.
C) Ser particular de cada indivíduo, sem interferência do grupo social no
qual está inserido.
D) Exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior.
E) Ser interior a cada indivíduo.
2) DURKHEIM, NO LIVRO AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO,
APRESENTOU UM MÉTODO PROPOSTO PARA A SOCIOLOGIA. PARA
ELE, SÃO CARACTERÍSTICAS DESSE MÉTODO, EXCETO:
A) Que o princípio da causalidade se aplique aos fenômenos sociais.
B) Que a Sociologia deva se desinteressar das questões práticas da vida
social.
C) Que esse método seja objetivo, levando o sociólogo a se afastar das
noções antecipadas que possuía desses mesmos fatos.
D) Que é indispensável uma postura que se recuse a reduzir os fatos
sociais na sua imaterialidade.
E) Que o pesquisador deva manter distância do objeto investigado.
GABARITO
1) A imagem ilustra, segundo Durkheim, a concepção de fato social.
Indique a opção que, para o autor, representa uma característica do
fato social.
 Estudantes no momento de interação.
A alternativa "D " está correta.
Para Durkheim, os fatos sociais seriam definidos a partir da presença de
três características: a generalidade, a coerção social e a exterioridade.
2) Durkheim, no livro As regras do método sociológico, apresentou um
método proposto para a Sociologia. Para ele, são características desse
método, exceto:
A alternativa "B " está correta.
Durkheim defendia uma Sociologia que realizasse uma análise objetiva dos
fatos sociais, mantendo o investigador uma relação de objetividade e de
distância com o objeto.
MÓDULO 3
 Identificar os conceitos básicos desenvolvidos pelo autor
COESÃO, SOLIDARIEDADE E
CONSCIÊNCIA COLETIVA
Acompanhamos até aqui que o interesse científico durkheimiano estava
inteiramente voltado para a compreensão do funcionamento das chamadas
formas padronizadas de conduta e pensamento.
Esse é o ponto de partida de sua obra, porém, a partir dessa noção, Émile
Durkheim desenvolveu estudos e pesquisas. A partir disso, ele criou e
enunciou conceitos básicos para o estudo da sociedade, como, por
exemplo, a consciência individual e a coletiva, assim como a solidariedade
mecânica e a orgânica.
Neste módulo, analisaremos esses princípios elaborados por Durkheim, já
que, até hoje, eles são fundamentais para a Sociologia.
Começaremos com sua ideia sobre a consciência coletiva. Para o
sociólogo (1999, p. 72), que a desenvolveu em seu livro Da divisão do
trabalho social, “deve-se entender a soma de crenças e sentimento comuns
à média dos membros da comunidade como uma forma de consciência
coletiva ou comum”.
Ela funcionaria como um sistema autônomo, uma realidade que persiste no
tempo e que une as gerações. Para Durkheim, a consciência coletiva
envolveria a mentalidade e a moralidade.
Ainda segundo o autor, ela seria, por definição, difusa, ocupando toda a
extensão da sociedade. Contudo, tal caráter difuso não implicaria a perda
de características específicas, o que conferiria a essa forma de consciência
uma realidade distinta.
De acordo com Durkheim, essa consciência coletiva poderia ser verificada
em fenômenos coletivos típicos, sendo expressos por intermédio de uma
forma de consciência que contrapõe indivíduo e sociedade. Como exemplo,
podemos pensar nas torcidas organizadas, nos grandes festivais de música
ou ainda em coletivos de estudantes.
O ponto centraldessa noção desenvolvida pelo sociólogo era a ideia de
que, quanto maior a consciência coletiva presente em uma sociedade,
maior seria a coesão entre os integrantes dela. Ou seja, trata-se de uma
referência de Durkheim (1970, p. 16) ao pensamento de que a
“conformidade de todas as consciências particulares de tipo comum” faria
com que todos se assemelhassem.
 
Foto: EnsineMe.
Notamos, portanto, que Durkheim buscava em sua obra identificar os
elementos responsáveis pela coesão entre os homens. Ele realizou isso
pelo conceito de consciência coletiva, como acabamos de ver, mas também
por meio da noção de solidariedade social.
Mas não se enganem! O uso da palavra “solidariedade” por Émile Durkheim
não tem relação direta com o emprego mais usual que fazemos dela. Ou
seja, ele não está conectado à noção de caridade, apoio ou ajuda.
A solidariedade social que ele utilizava se refere a uma presença mais forte
ou mais fraca da divisão do trabalho e de uma consciência mais ou menos
similar entre os membros dessa sociedade. Em outras palavras, o sociólogo
empregou a solidariedade para pensar sobre formas de organização social.
FORMAS DE ORGANIZAÇÃO
SOCIAL: MECÂNICA OU
ORGÂNICA
Para compreendermos as noções de solidariedade exploradas por
Durkheim, precisaremos começar do ponto de partida dele para essa
análise: a questão da divisão social do trabalho. Você sabe o que isso
significa?
Em poucas palavras, trata-se da maneira pela qual as tarefas de produção
são organizadas e divididas em uma sociedade. Isso pode se dar de forma
mais intensa com a intenção de delimitar as funções realizadas, dinamizar o
processo de produção e garantir que o sistema de produção funcione de
forma rápida.
Mas ela também pode transcorrer de forma branda, mínima, com seus
membros exercendo quase todas as atividades. E por que é importante
sabermos isso?
Porque Durkheim trabalhou e desenvolveu seus conceitos de solidariedade
a partir da análise de duas formas de organização social: sociedades
primitivas (ou mais simples) e as mais complexas.
Nas sociedades mais simples, ele identificou que predominava a divisão
social do trabalho baseada principalmente em critérios biológicos de sexo e
idade. Nesse tipo de sociedade, segundo ele, haveria uma presença maior
de leis e costumes que acentuariam os valores da igualdade, liberdade,
fraternidade e justiça.
Seus estudos sobre a organização dessas sociedades mais simples
indicaram que a ligação entre indivíduo e sociedade ocorria nelas de forma
direta, sem nenhum intermediário. Eles também apontaram que a
consciência individual, neste caso, é uma simples dependência do tipo
coletivo.
Isso quer dizer que há um total predomínio do grupo sobre os indivíduos e
que eles se assemelham, havendo pouco espaço para a individualidade.
Portanto, nessas sociedades mais simples, os indivíduos viveriam em
sociedade pelo fato de partilhar uma “cultura comum” que os obriga a viver
em coletividade.
Esse modelo de organização social era chamado por Durkheim de
solidariedade mecânica. Ou seja, os laços responsáveis pela unidade e
pela ordem das ações sociais são de ordem cultural e moral.
 
Fonte: Shutterstock.com
Em contrapartida, quando teve início o desenvolvimento da agricultura, da
sedentarização e do sistema de propriedade privada, surgiu também uma
divisão social mais complexa, com novas funções sociais. A indústria foi um
dos grandes impulsionadores da divisão social do trabalho ao criar e definir
uma diversidade de funções e atribuições distintas.
Para Émile Durkheim, nas sociedades complexas, predominam a divisão
social do trabalho e as diferenças entre os indivíduos, ou seja,
diferentemente das mais simples, nas quais há uma enorme semelhança
entre os indivíduos.
Os membros das sociedades complexas diferem entre si – e cada um tem
uma esfera própria de ação e, por conseguinte, uma personalidade.
Nessas sociedades, o indivíduo depende delas, porque precisa das partes
que a compõem, pois, quanto mais o trabalho é dividido, maior se torna a
dependência entre seus indivíduos.
Tendo isso em vista, o sociólogo definiu que as sociedades nas quais
existem sistemas de funções diferentes e especializadas, com laços de
dependência entre seus membros, seriam chamadas de solidariedades
orgânicas.
Nas sociedades em que prevalece esse tipo de solidariedade, pautadas
pela dependência de funções, a tendência seria uma crescente
independência das consciências individuais e coletivas. Com isso, Durkheim
apontava a ideia de que, onde houvesse maior individuação das partes,
também haveria maior unidade do organismo denominado sociedade.
Ele defendia, portanto, que os laços de solidariedade orgânica
representariam um modelo de sociedade avançada.
 
Fonte: Shutterstock.com
INDICADORES DOS TIPOS DE
SOLIDARIEDADE
Passaremos agora a tratar de outro ponto importante desenvolvido pelo
autor que se refere às solidariedades mecânica ou orgânica: os elementos
identificados por ele como possíveis indicadores do tipo de solidariedade
vigente em uma dada sociedade.
O principal elemento — apontado e desenvolvido por Durkheim — deve ser
visto no plural:
Tratava-se de certas normas do direito. Segundo ele, a predominância
dessas normas configuraria um indicador significativo da presença de um ou
de outro tipo de solidariedade. Mas por que o direito?
Para o sociólogo, por se tratar de um fenômeno moral que não pode ser
diretamente observado, há uma grande dificuldade em identificar qual tipo
de solidariedade social se faz presente em uma sociedade. Por outro lado, o
direito representaria uma forma estável e precisa, servindo como um fator
externo e objetivo para o reconhecimento desse tipo de solidariedade.
Em sociedades complexas, por exemplo, Durkheim comparava o papel do
direito ao do sistema nervoso. Ou seja, suas normas atuariam de forma a
regular as funções da sociedade, assim como o sistema nervoso faz em
nosso corpo.
Essas normas também expressariam o grau de concentração da sociedade
devido à divisão do trabalho social, isto é, toda a complexidade e o
desenvolvimento presentes nessa organização social. Trata-se exatamente
do que faz o sistema nervoso ao exprimir o estado de concentração do
organismo gerado pela divisão do trabalho fisiológico.
Outro item fundamental abordado por Durkheim acerca das normas do
direito como indicadores dos tipos de solidariedade presentes em uma
sociedade diz respeito às sanções aplicadas aos indivíduos.
O autor apontou que a maior ou menor presença de regras repressivas
pode ser atestada graças à fração ocupada pelo direito penal ou repressivo
no sistema jurídico da sociedade. Mas qual é a relevância disso para o tipo
de solidariedade vigente?
É que, nas sociedades em que as similitudes entre seus indivíduos são o
principal traço, um comportamento desviante é punido por intermédio de
ações que têm profundas raízes nos costumes.
Os indivíduos participariam conjuntamente de alguma forma de punição
contra quem violou alguma regra ou um sentimento que exerça uma função
central de assegurar a unidade dessa sociedade.
Isso ocorreria porque, nesse tipo de organização social, a consciência
coletiva é muito significativa e disseminada, o que faz com que sua violação
signifique uma violência para todos seus integrantes. Seriam as chamadas
sanções repressivas, que teriam o objetivo de infligir dor ou privação ao
culpado.
As características que acabamos de descrever revelam que se trata de uma
sociedade na qual predomina a solidariedade mecânica. Portanto, o que
Émile Durkheim concluiu foi que existe um indício da presença de laços de
solidariedade mecânica em sociedades na qual o tipo de punição está
baseado na questão cultural e nos costumes.
Em contrapartida, nas sociedades complexas, haveria a classe de sanções
impostas aos que violam as normas. Seriam as restitutivas, visando a
restabelecer as relações perturbadas e retornar ao estado anterior. Isso
ocorreria pormeio de ações do culpado para promover a reparação do dano
causado.
De acordo com Durkheim, sanções com o propósito de fazer o indivíduo
retornar à sociedade eram restitutivas, tendo relação direta com os laços de
dependência entre as funções características da solidariedade orgânica.
Nesse contexto, vamos refletir sobre as cenas descritas a seguir:
SOLIDARIEDADE MECÂNICA
 
Fonte: Shutterstock.com
"Sou igual ao meu próximo; por isso, sou solidário a ele."
SOLIDARIEDADE ORGÂNICA
 
Fonte: Shutterstock.com
"Sou diferente do meu próximo. Ele faz coisas que eu não faço; por isso, eu
sou solidário a ele."
Neste vídeo, analisaremos os aspectos da solidariedade apontados por
Durkheim.
ANOMIA E SUICÍDIO
No último ponto deste módulo, abordaremos o pensamento de Émile
Durkheim acerca de dois fenômenos sociais extremamente relevantes no
que tange ao bom funcionamento de uma sociedade: a anomia e o suicídio.
Vale lembrar que o sociólogo entendia a sociedade como um corpo
humano, com partes que devem se integrar e cumprir suas funções a fim de
manter essa “máquina” em pleno funcionamento, ficando saudável.
Mas o que acontece quando falham as instituições com funções específicas
e determinantes para o funcionamento da sociedade, como a família, a
igreja, o Estado ou a escola?
Ocorre na sociedade aquilo que Durkheim chamou de anomia, ou seja, uma
patologia atinge esse “corpo”. Isso quer dizer que ela estaria adoecida.
Dessa forma, o autor definia anomia como a ausência, desintegração ou
inversão das normas vigentes em uma sociedade.
Para ele, esse estado de anomia ocorreria em momentos extremos, como,
por exemplo, guerras e desastres ecológicos e econômicos – ou em uma
pandemia. Quando isso acontecesse, a consciência coletiva “perderia” os
parâmetros de julgamento da realidade.
Portanto, a anomia seria para o sociólogo sempre um momento passageiro,
relacionado à perda de contato ou à revisão de valores e normas.
Ao pensar sobre tal estado de anomia, Durkheim percebeu que, nesses
momentos, também ocorre um número maior de suicídios. Isso chamou a
sua atenção para o estudo e a reflexão sobre tal fenômeno, cuja forma de
analisar era inovadora até mesmo para nossos parâmetros atuais.
O suicídio opera, para Durkheim, como um fato social, e não somente
como um ato resultante da consciência individual.
Dessa maneira, isso passou a integrar um de seus principais objetos de
interesse e investigação, sempre partindo da ideia de que o comportamento
de se suicidar também possuiria causas sociais (e não apenas individuais) e
de que toda sociedade teria, em momentos da sua história, uma aptidão
definida para o suicídio.
Isso quer dizer que, para ele, não é apenas o indivíduo que faz parte da
sociedade: ela também faz parte dele, o que transforma qualquer ato
individual em um fenômeno social. Foi com esse olhar que Durkheim se
dedicou a pensar o suicídio, utilizando, para isso, métodos rigorosos.
Ele comparava as taxas de suicídios em países europeus ao longo de três
décadas (de 1841 a 1872). Em seu estudo, o sociólogo levou em conta
tanto a idade e o sexo dos indivíduos quanto o pertencimento religioso,
familiar e profissional deles, relacionando questões como a situação dos
países pesquisados ao longo do tempo tanto do ponto de vista econômico
quanto do político e social.
 SAIBA MAIS
O resultado desse estudo de décadas foi uma de suas principais obras: o
livro O suicídio — estudo sociológico (1897). Ao longo de sua pesquisa,
assim como das análises e dos resultados compartilhados na publicação,
Durkheim classificou o suicídio em três categorias.
Segundo ele, o suicídio altruísta ocorreria quando um indivíduo valoriza a
sociedade mais do que a ele mesmo, ou seja, quando os laços que o unem
a ela são muito fortes.
 
Fonte: Shutterstock.com
Nesses casos, ele se mata devido a imperativos sociais, sem sequer pensar
em fazer valer seu direito à vida. Trata-se daqueles indivíduos que se
identificam tanto com a coletividade que são capazes de tirar suas vidas por
ela. Você se lembra de algum episódio ou de um fato histórico em que isso
tenha acontecido?
E o 11 de Setembro de 2001, quando homens pilotaram aviões que se
chocaram contra o World Trade Center, em Nova York? Integrantes do
grupo Al-Qaeda, eles se dispuseram a morrer por sua organização.
Para Émile Durkheim, eles poderiam ser classificados como suicidas
altruístas. Podemos mencionar ainda mártires de guerras, pilotos kamikazes
ou os “homens-bomba”.
Mas o inverso também pode acontecer. São os indivíduos que não estão
integrados às instituições ou às redes sociais, as quais, por sua vez,
regulam suas ações, e acabam em constante estado de insatisfação. Essas
pessoas, segundo o sociólogo, passariam a pensar essencialmente em si
mesmos, sofrendo com depressão, melancolia e outros sentimentos.
Os indivíduos que não estão integrados a um grupo social estariam mais
propensos ao suicídio, fenômeno que Durkheim chamou de suicídio
egoísta. Para ele, a falta de redes de convívio ou de limites para a ação
levariam a pessoa a desejar ilimitadas coisas, que, ao não serem
realizadas, gerariam a frustração e um possível suicídio. Neste caso, ele se
refere aos suicídios que aconteceriam devido ao aumento do individualismo.
A última classificação que ele propôs foi a do suicídio anômico, que estaria
ligado a um estado de desregramento social no qual as normas estariam
ausentes ou seriam sem sentido. Sobre esse tipo, Durkheim destacava que
ele é mais propenso a isso em momentos nos quais os laços que prendem
os indivíduos aos grupos se afrouxam, ou seja, quando ocorre alguma crise
social.
 EXEMPLO
O abandono de um filho, de um idoso ou de alguém doente pela família
pode levar tal indivíduo a recorrer ao suicídio. Para o autor, o suicídio
anômico tem relação direta com situações de anomia social, como
momentos de crises econômicas, guerras ou até mesmo pandemias.
Além da classificação proposta por Durkheim, seu estudo sobre o suicídio
trouxe interessantes constatações, como, por exemplo, uma grande
regularidade no número de suicídios em cada país e o fato de o número
variar muito menos que as mortes por outras causas.
Ele também verificou que essa regularidade se manteria na análise de cada
grupo social, indicando que o suicídio, mais do que uma ação individual,
seria um ato social conforme a tese defendida pelo autor.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1) NA CONCEPÇÃO DURKHEIMIANA, O CONCEITO DE CONSCIÊNCIA
COLETIVA É CENTRAL. DURKHEIM COMPREENDEU A CONSCIÊNCIA
COLETIVA COMO:
A) Traços mentais e emocionais que identificam e distinguem um indivíduo
de todos os outros.
B) O conjunto de conhecimentos racionalmente organizados.
C) Princípio metodológico que o sociólogo deve utilizar para analisar a
sociedade.
D) Sistema de crenças, valores, ideias e percepções comuns aos membros
de uma determinada sociedade.
E) As ideias que cada indivíduo possui.
2) A OBRA DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL (1893), DE ÉMILE
DURKHEIM, APRESENTA COMO TESE AS RELAÇÕES ENTRE OS
INDIVÍDUOS E A COLETIVIDADE. NESSA OBRA, O AUTOR
APRESENTA DUAS FORMAS DE SOLIDARIEDADE: A DITA MECÂNICA
E A ORGÂNICA. NESSE SENTIDO, A DEFINIÇÃO DE AMBAS É:
A) A solidariedade mecânica é marcada pelas diferenças entre os
indivíduos; a orgânica, pela semelhança e proximidade, interagindo partes
em prol do todo.
B) A solidariedade mecânica tem como característica principal os laços por
semelhança. Em geral, quando essa forma domina uma sociedade, não há
divisão social do trabalho. Já a orgânica é aquela em que o consenso
resulta de uma diferenciação. Existe nela uma forte divisão social do
trabalho.
C) A solidariedade mecânica é uma solidariedade por simpatia. Já a
orgânica estabelece que cada indivíduo é livre para fazer suas escolhas,
uma vez que a vontade individual é superior à coletiva.
D) A solidariedade mecânica é aquela que estabelece a noção de hierarquia
social. Já a orgânica é marcada pelasemelhança entre os indivíduos.
E) A solidariedade mecânica é aquela que relaciona as sociedades mais
complexas. Já a orgânica caracteriza as sociedades mais simples ou
primitivas.
GABARITO
1) Na concepção durkheimiana, o conceito de consciência coletiva é
central. Durkheim compreendeu a consciência coletiva como:
A alternativa "D " está correta.
Para o autor, consciência coletiva é a soma de crenças e sentimento
comuns à média dos membros de uma comunidade.
2) A obra Da divisão do trabalho social (1893), de Émile Durkheim,
apresenta como tese as relações entre os indivíduos e a coletividade.
Nessa obra, o autor apresenta duas formas de solidariedade: a dita
mecânica e a orgânica. Nesse sentido, a definição de ambas é:
A alternativa "B " está correta.
Segundo Durkheim, a solidariedade mecânica predomina em sociedades
simples e naquelas em que os indivíduos se assemelham. Nas sociedades
com sistemas de funções diferentes e especializadas, havendo laços de
dependência entre seus membros, prevaleceria a solidariedade orgânica.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste tema, organizado em três módulos, compreendemos que
Émile Durkheim é considerado, com Karl Marx e Max Weber, um dos
sociólogos que compõe os clássicos das Ciências Sociais. Vimos o quanto
sua obra foi precursora e inovadora, sendo até hoje utilizada como
referência nos estudos sobre a relação entre indivíduo e sociedade,
especialmente nos que buscam entender como operam as forças sociais
que atuam sobre os indivíduos e grupos.
Exploramos seus principais conceitos e, por meio deles, a ênfase de sua
produção intelectual relacionada aos fatores produtores da ordem e da
estabilidade nas sociedades humanas, bem como à preocupação com os
elementos que poderiam eventualmente gerar formas de desagregação
social.
Durkheim é um autor fundamental para se pensar o quanto a sociedade
atua sobre nós, moldando nossa vida comum, mesmo em dimensões em
que não percebemos essa determinação nem o quanto ela é efetiva. Sua
obra é um marco para a Sociologia, enquanto seu olhar sobre fenômenos
sociais tão relevantes para nossa vida em coletividade é uma espinha
dorsal dessa ciência.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
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DURKHEIM, E. Educação e sociologia. Rio de Janeiro: Melhoramentos,
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DURKHEIM, E. O que é fato social?. In: RODRIGUES, J. A. (Org.).
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FERREIRA, D. Manual de sociologia — dos clássicos à sociedade da
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GIANNOTTI, J. A. A sociedade como técnica da razão. Um ensaio sobre
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GUISARD, L. A. de M.; BARRETO JUNIOR, I. F. Augusto Comte e Émile
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LACERDA, G. B. Augusto Comte e o "positivismo" redescobertos. In:
Revista de Sociologia e política. v. 17. n. 34. Curitiba. 2009. p. 319-343.
ORTIZ, R. Durkheim: arquiteto e herói fundador. In: Revista Brasileira de
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EXPLORE+
Para conhecer mais sobre o surgimento e desenvolvimento da sociologia
acadêmica na França, leia este artigo:
MUCCHIELLI, L. O nascimento da Sociologia na universidade francesa
(1880-1914). In: Revista brasileira de História. v. 21. n. 41. 2001. p. 35-54.
Para explorar mais a obra de Durkheim e ter outras visões sobre ela, assista
no YouTube aos seguintes vídeos:
LEITURA OBRIGAHISTÓRIA. O tripé da Sociologia: Durkheim, Weber e
Marx (ft. Tese Onze). Publicado em: 8 nov. 2018.
SOCIOLOGIA ANIMADA. Fatos sociais. Publicado em: 1. ago. 2018.
SOCIOLOGIA ANIMADA. Surgimento da Sociologia. Publicado em: 21
mar. 2019.
CONTEUDISTA
Amanda André de Mendonça
 CURRÍCULO LATTES
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