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Disciplina de DIREITO CIVIL VII Direito das Sucessões Professor João Oswaldo Bento Aulas 4 a 6 SUMÁRIO I. INTRODUÇÃO - Conexão com a aula anterior. II. DESENVOLVIMENTO - UNIDADE I - Princípios do Direito da Sucessões. - Da Sucessão em geral: Espécies de Sucessão. - Pressupostos. Abertura da sucessão: aplicação do princípio de saisine. III. CONCLUSÃO - Retirada de dúvidas. I. INTRODUÇÃO GLOSSÁRIO 1. De cujus: pessoa de cuja sucessão se trata – autor da herança. 2. Herança: patrimônio, tanto o ativo quanto o passivo. 3. Herdeiro: Sucessor, que pode ser: 3.1. Legítimo: de acordo com a lei; 3.2. Testamentário: instituído por testamento, que pode ser: 3.2.1. a título universal: herdeiro (sucede no todo ou em parte dos bens, sendo titular dos ativos e responsável pelo passivo); 3.2.2. a título singular: legatário (sucede um ou mais bens determinados, destacados da herança (ex.: carro, cavalo, imóvel). 4. Herdeiros Necessários: são os descendentes, os ascendentes e o cônjuge (art. 1845/CC). Os herdeiros necessários são aqueles que têm direito a parte legítima da herança: os descendentes (filho, neto, bisneto) os ascendentes (pai, avô, bisavô) e o cônjuge. GLOSSÁRIO 5. Herança jacente: aquela em que os herdeiros ainda não são conhecidos, ou, se conhecidos, renunciaram à herança, não havendo outros. 6. Herança vacante: é aquela para a qual não se apresentam herdeiros. Não aparecendo herdeiros após um ano da primeira publicação, os bens são declarados vacantes (art. 1820/CC). 7. Deserdação: é o ato pelo qual o autor da herança retira do herdeiro necessário o exercício do direito sucessório, ou seja, deixa em testamento que não vai destinar o seu patrimônio ao parente que seria herdeiro necessário, pode ser o filho, o neto, a mãe, etc. 8. Indignidade: é uma sanção civil que acarreta na perda do direito sucessório. Para que ocorra a indignidade, é mister que o herdeiro excluído tenha praticado, em síntese, atos contra a vida , contra a honra e contra a liberdade de testar do autor da herança, como descreve o artigo 1814/CC. 9. Codicilo: é a manifestação de última vontade, de forma escrita, onde a pessoa pode estabelecer disposições para serem cumpridas após a sua morte, que sejam referentes ao seu funeral, doações de pequenas quantias em dinheiro, bens pessoais moveis, roupas ou objetos de pequeno valor. 10. Direito de representação: dá-se quando a lei chama certos parentes do falecido a suceder em todos os direitos, em que ele sucederia, se vivo fosse (“pré-morto”). O direito de representação dá-se na linha reta descendente, mas nunca na ascendente. II. DESENVOLVIMENTO SUCESSÃO HEREDITÁRIA: CONCEITO E ESPÉCIES Considerando-se que um patrimônio jamais poderá remanescer sem titular, segundo a própria perspectiva da função social, observamos que os atos de disposição inter vivos, como uma venda ou uma doação, implicam a transmissibilidade de determinado bem, operando uma consequente sucessão (substituição de pessoas) em sua titularidade. Assim, é correto dizer que, em uma primeira acepção, pode a sucessão se dar no âmbito das relações negociais inter-vivos, quando determinado bem é transferido de uma pessoa a outra, operando-se uma substituição entre elas. Ocorre que a morte também determina essa substituição de pessoas, na medida em que, como dito, patrimônio algum poderá permanecer acéfalo. Dá-se, pois, a sucessão hereditária ou “mortis causa”, quando, em virtude do falecimento de alguém (sucedido ou autor da herança), o seu patrimônio é transferido a determinadas pessoas, legitimadas a recebê-lo (sucessores), as quais, assim, substituem-no na titularidade desses bens ou direitos. Classificação da sucessão hereditária pela matriz normativa A depender da sua matriz normativa, a sucessão hereditária pode assim ser dividida: A) SUCESSÃO HEREDITÁRIA LEGÍTIMA (ARTS. 1.829 A 1.856 DO CC). B) SUCESSÃO HEREDITÁRIA TESTAMENTÁRIA (ARTS. 1.857 A 1.990 DO CC). A sucessão testamentária é aquela em que a transmissibilidade da herança é disciplinada por um ato jurídico negocial, especial e solene, denominado testamento. Observa-se, pois, aqui, um espaço de incidência do princípio da autonomia privada, na medida em que o testador, respeitados determinados parâmetros normativos de ordem pública, tem a liberdade de escolher, dentre os seus sucessores, aquele(s) a quem beneficiar e, ainda, de determinar quanto do seu patrimônio será transferido após a sua morte. Cabe inferir que o brasileiro, quando morre, em regra, o que deixa não é propriamente uma herança, mas sim, na melhor das hipóteses, um saldo remanescente de PIS ou PASEP, de FGTS, crédito salarial, enfim, meros resíduos sucessórios, que desafiam, conforme veremos ainda, um simples procedimento de alvará judicial para levantamento de tais valores, dispensando-se o inventário ou o arrolamento. Classificação da sucessão hereditária pela matriz normativa Por sucessão legal ou legítima entenda-se aquela em que a transmissibilidade da herança é regrada não pelas normas do testamento, mas, sim, pela própria lei. Vale dizer, são as regras do Código Civil que cuidam de disciplinar a ordem de chamamento dos sucessores, também denominada ordem de “vocação legal”. Assim, se o autor da herança morre sem fazer testamento (abintestato) — ou sendo este inválido (nulo ou anulável) — é a própria lei que, atuando supletivamente, cuida de dispor a respeito da sucessão hereditária. O mesmo se dá, vale observar, quando, a despeito de existir testamento válido, este não cuida de todos os bens do falecido, de maneira que, no que toca à parcela da herança não tratada, incidirão, também, as regras da sucessão legal. Em conclusão, antecipamos que as duas regras fundamentais atinentes à sucessão legal ou legítima encontram-se nos arts. 1.790 e 1.829 do Código Civil. 3.2. Classificação da sucessão hereditária pelo conjunto de bens transmitidos Passadas em revista as noções gerais da sucessão legítima e testamentária, é importante consignar que a sucessão hereditária ainda comporta uma outra classificação: A) SUCESSÃO HEREDITÁRIA UNIVERSAL (ARTS. 1.829 A 1.856 DO CC); B) SUCESSÃO HEREDITÁRIA SINGULAR (ARTS. 1.912 A 1.940 DO CC). Sucede a título universal o herdeiro, pois a ele é deferida uma fração (quota-parte) ou toda a herança; por outro lado, sucede a título singular o legatário, pois a ele é deferido bem ou direito determinado. Em outras palavras, temos dois tipos de sucessores: o herdeiro, que sucede em caráter universal (a totalidade da herança ou uma fração dela) e o legatário (que sucede em bem ou direito individualizado). PRINCÍPIOS GERAIS (aplicáveis ao Direito Sucessório) 1. Princípio da Dignidade da Pessoa Humana É uma qualidade inerente ao ser humano, que o protege contra todo tratamento degradante e discriminação odiosa, o assegurando condições materiais mínimas de sobrevivência. Trata-se, portanto, de um atributo que o indivíduo possui, inerente à sua condição humana, não importando qualquer outra condição referente à nacionalidade, opção política, orientação sexual, credo, etc. Nos diplomas internacionais e nacionais, a dignidade humana é inscrita como princípio geral ou fundamental. Assim, o Estado deve proteger a dignidade humana. O princípio da dignidade da pessoa humana, portanto, é o ideal que defende que a condição humana, de viver com dignidade e ser tratado perante a sociedade e seus pares como um ser humano pleno, precisa ser preservada e defendida sobre todas as outras situações, colocando o ser humano como principal agente de transformação do seu meio e, dessa forma, do mundo. 2. Princípio da Igualdade O princípio da igualdade prevê a igualdade de aptidões e de possibilidades virtuais dos cidadãos de gozar de tratamento isonômico pela lei. Por meio desse princípio são vedadas as diferenciações arbitrárias e absurdas, não justificáveis pelos valores da Constituição Federal, e tem por finalidade limitara atuação do legislador, do intérprete ou autoridade pública e do particular. O princípio da igualdade na Constituição Federal de 1988 encontra-se representado, exemplificativamente: - no artigo 4º, inciso VIII, que dispõe sobre a igualdade racial; - no artigo 5º, I, que trata da igualdade entre os sexos; - no artigo 5º, inciso VIII, que versa sobre a igualdade de credo religioso; - no artigo 5º, inciso XXXVIII, que trata da igualdade jurisdicional; - no artigo 7º, inciso XXXII, que versa sobre a igualdade trabalhista; - no artigo 14, que dispõe sobre a igualdade política ou ainda do artigo 150, inciso III, que disciplina a igualdade tributária. O princípio da igualdade atua em duas vertentes: perante a lei e na lei. Por igualdade perante a lei compreende-se o dever de aplicar o direito no caso concreto; por sua vez, a igualdade na lei pressupõe que as normas jurídicas não devem conhecer distinções, exceto as constitucionalmente autorizadas. 3. Princípio da Função Social da Propriedade De acordo com a Constituição Federal, a propriedade atenderá a sua função social (artigo 5º, XXIII), o que se dá com o aproveitamento racional e a utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei (artigo 186 da Constituição Federal). Por conseguinte, qualquer ação ou omissão contrária à aos interesses sociais e ambientais é considerada abuso do direito de propriedade, na medida em que viola o princípio da função social da propriedade. O princípio da função social da propriedade impõe que, para o reconhecimento e proteção constitucional do direito do proprietário, sejam observados os interesses da coletividade e a proteção do meio ambiente, não sendo possível que a propriedade privada, sob o argumento de possuir a dupla natureza de direito fundamental e de elemento da ordem econômica, prepondere, de forma prejudicial, sob os interesses socioambientais (MACHADO, Hébia Luiza. 2008). 4. Princípio da Boa-fé Com origens lá no Direito Romano, o princípio da boa-fé, a rigor, é um dos princípios fundamentais do direito privado brasileiro e sua função precípua é estabelecer um padrão ético de conduta para as partes nas mais diversas relações obrigacionais. É importante destacar que nessa esfera, o princípio da boa-fé possui duas facetas, a “boa-fé objetiva” e a “boa-fé subjetiva”. Boa-fé subjetiva É aquela relacionada com a intenção do sujeito de direito, estudada quando da análise dos institutos possessórios, por exemplo, visivelmente presente no Código Civil de 1916. Boa-fé objetiva A “boa-fé objetiva” – presente no texto do Código Civil de 2002 – reflete o sentido mais relevante do “princípio da boa-fé” para a prática da advocacia atual. Ela está consolidada no artigo 422, seção I do capítulo “Disposições Gerais”, do Título V “Dos Contratos em Geral”. Ou seja, passa a valer para todo e qualquer tipo de contrato. Em suma pessoal, no direito privado contemporâneo, o princípio da boa-fé possui extrema relevância na medida em que incide em qualquer relação contratual com a exigência de uma conduta leal entre as partes. 5. Princípio da Autonomia da Vontade Autonomia da vontade é um princípio jurídico típico do Direito Civil, e consiste na ideia de que as pessoas podem gerar normas e obrigações umas para as outras por meio de contratos, que são celebrados com base em suas vontades individuais. É dessa noção que surge uma famosa expressão em latim: pacta sunt servanda, que significa “o contrato faz lei entre as partes”. Ela vem do Direito Romano, que se baseava nesse tipo de relação contratual como a principal fonte geradora de normas. Alguns doutrinadores identificam na própria Constituição Federal a concepção da autonomia da vontade, em seu art. 5º, inciso II. Autonomia da vontade segundo a doutrina Maria Helena Diniz conceituou autonomia da vontade como “o poder de estipular livremente, como melhor lhes convier, mediante acordo de vontade, a disciplina de seus interesses, suscitando efeitos tutelados pela ordem jurídica.” Francisco Amaral destacou o aspecto mercadológico da autonomia da vontade, enxergada enquanto “um poder de disposição diretamente ligado ao direito de propriedade, dentro do sistema de mercado, da circulação dos bens por meio de troca e de que o instrumento jurídico próprio é negócio jurídico.” PRINCÍPIOS ESPECIAIS (específicos do Direito Sucessório) 1. Princípio da saisine Consiste o droit de saisine no reconhecimento, ainda que por ficção jurídica, da transmissão imediata e automática do domínio e posse da herança aos herdeiros legítimos e testamentários, no instante da abertura da sucessão. Antes de compreendermos historicamente o chamado “Princípio da Saisine”, parece-nos relevante fazer algumas breves considerações de natureza etimológica. Derivada do verbo saisir, também com conteúdo plúrimo (uma vez que significa colher, apreender, confiscar, agarrar, capturar, apoderar-se, entre outros sentidos), saisine, juridicamente, pode ser utilizada em vários contextos. O que interessa, porém, para o corte epistemológico deste livro, é a sua utilização no campo do Direito Sucessório, em que é traduzida no sentido de “posse”, para significar a “posse imediata dos bens daquele que faleceu”. 1. Princípio da saisine (Cont.) O princípio da “saisine” , portanto, à luz de todo o exposto, pode ser definido como a regra fundamental do Direito Sucessório, pela qual a morte opera a imediata transferência da herança aos seus sucessores legítimos e testamentários. Trata-se, em verdade, de uma ficção jurídica, que pretende impedir que o patrimônio deixado fique sem titular, enquanto se aguarda a transferência definitiva dos bens aos sucessores do falecido. Respalda-se no dispositivo que abre o Livro das Sucessões no vigente Código Civil brasileiro, a saber, o art. 1.784: “Art. 1.784. Aberta a sucessão, a herança transmite-se, desde logo, aos herdeiros legítimos e testamentários”. Por isso, com a abertura da sucessão (morte), os herdeiros já são imediatamente considerados condôminos e copossuidores dos bens deixados, em virtude da incidência do presente princípio, o que não significa, por óbvio, que exercem direito exclusivo sobre bem individualmente considerado. Todavia, o princípio da saisine não dá ao sucessor, herdeiro ou legatário, direito imediato a bem exclusivo da herança. 1. Princípio da saisine (Cont.) Com a abertura da sucessão, os herdeiros, como dito acima, passarão a ter um direito meramente abstrato, calculado em fração do patrimônio transferível, e, mesmo que seja herdeiro único, o exercerá em face da universalidade de bens deixados, não sendo permitido, a nenhum dos sucessores, portanto, sem a devida autorização judicial, enquanto não concluído o procedimento de arrolamento ou inventário, alienar bem exclusivo da herança. Quanto aos legatários, é bom lembrar que eles somente terão a posse dos bens deixados quando assim lhe for concedido pelo herdeiro (art. 1.923, § 1º, do CC/2002). Por tudo isso, sentido nenhum há na conduta de determinados sucessores que, antes mesmo de se findar a partilha, já se sentem “donos” de determinados bens, integrantes do monte mor (partível), agredindo, em muitos casos, iguais direitos dos outros coerdeiros. Tal arresto vai ao encontro do que dissemos, na medida em que reafirma a ideia básica segundo a qual o princípio ora estudado, a par de transmitir a imediata posse e propriedade da herança, o faz como um todo, enquanto universalidade de bens e direitos, não permitindo o exercício imediato de direito exclusivo sobre bem determinado. 4.2. Princípio (non) ultra vires hereditatis A expressão ultra vires hereditatis significa “além do conteúdo da herança”. A ideia que ela representa é a possibilidade de que o herdeiro, com a aceitação pura e simples da herança, possa ser obrigado a pagar suas dívidas e obrigações, não só com os bens do patrimôniodo de cujus, mas também com os seus próprios bens. Trata-se de situação que não deve ser ordinariamente aceita, por coroar injustiça. A regra foi positivada, de forma expressa: “Art. 1.792. O herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança; incumbe-lhe, porém, a prova do excesso, salvo se houver inventário que a escuse, demonstrando o valor dos bens herdados”. A ideia da separação de patrimônios foi a que permitiu ao herdeiro não responder por dívidas que não fossem suas próprias. Mesmo com a separação de patrimônios, a herança não perde sua unidade, apenas que o monte deve-se bastar para satisfazer às obrigações do de cujus. Há, inclusive, obrigações do falecido que são intransmissíveis, que terminam com a morte. Na definição do autor Itabaiana de Oliveira, existe o ‘benefício de inventário, que é um privilégio concedido pela lei ao herdeiro e que consiste em admiti-lo à herança do de cujus, sem obrigá-lo aos encargos além das forças da mesma herança’”. 4.2. Princípio (non) ultra vires hereditatis (Cont.) Destaque-se que foi o Código Civil de 1916 que alterou o panorama, consagrando o que aqui chamamos de “Princípio (Non) Ultra Vires Hereditatis”. Assim, por preceito legal, tornou-se desnecessária a manifestação expressa da aceitação “a benefício de inventário”, diretriz que foi mantida na atual codificação brasileira. Na contemporaneidade, portanto, deve-se considerar, por força de lei, que as dívidas do falecido, de fato, devem ser pagas somente com seu próprio patrimônio, não ultrapassando as forças da herança. Como já visto, no plano ideal, por força do princípio da saisine, a herança é transmitida automática e imediatamente com o advento da morte. Mas somente após o inventário ou arrolamento poder-se-á, efetivamente, apurar se, após o cumprimento das obrigações deixadas pelo falecido, ainda há patrimônio remanescente. Em síntese: no Direito brasileiro, o herdeiro só responde intra vires hereditatis (dentro das forças da herança), não mais se confundindo o patrimônio do falecido com o patrimônio do herdeiro (bonorum separatio). 4.2. Princípio (non) ultra vires hereditatis (Cont.) Por fim, uma observação relevante sobre a transmissibilidade da obrigação alimentar merece a nossa atenção. Dispõe o art. 1.700 do Código Civil: “Art. 1.700. A obrigação de prestar alimentos transmite-se aos herdeiros do devedor, na forma do art. 1.694”. A regra do sistema anterior propugnava pela absoluta intransmissibilidade da obrigação alimentar aos herdeiros, cedendo espaço à previsão legal de sua transmissão como encargo da herança (art. 23 da Lei n. 6.515/77), com subsequente redefinição pelo mencionado artigo da vigente codificação (art. 1.700 do CC/2002). Justamente por considerarmos que a responsabilidade patrimonial do herdeiro, pelas obrigações do falecido, ela será sempre Non Ultra Vires Hereditatis, erigindo tal regra a princípio, para preservação do patrimônio pessoal do herdeiro, não devendo a herança se constituir em uma armadilha para aquele que a recebe. 4.3. Princípio da função social da herança Posto em menor medida do que no exercício do direito de propriedade, também a herança possui uma função social, porquanto permite uma redistribuição da riqueza do de cujus, transmitida aos seus herdeiros. Observe-se que certos institutos, como o direito de representação, têm um fundamento moral, respaldado no princípio da isonomia e da função social, na medida em que visam a dar um tratamento equânime a herdeiros do autor da herança, poupando-lhes da dupla tristeza da perda de seu ascendente imediatamente direto e também de benefícios potenciais que lhe seriam garantidos, se não tivesse ocorrido o falecimento daquele. 4.4. Princípio da territorialidade Na forma do art. 1.785 do CC/2002, a “sucessão abre-se no lugar do último domicílio do falecido”. Trata-se do Princípio da Territorialidade, regra de Direito Material que gera evidentes reflexos no campo processual, notadamente para delimitação da competência territorial referente às questões sucessórias. Sobre o tema, ensina GISELDA HIRONAKA: “Entendeu o legislador processual não ser possível a multiplicidade de inventários referentes a uma mesma herança, bem imóvel indivisível por determinação legal, deslocou a competência jurisdicional para o local do óbito do de cujus (art. 96, II, do CPC). Por fim, para a hipótese de pluralidade domiciliar, permitiu a abertura do inventário em qualquer foro correspondente a um dos domicílios do finado (art. 94, § 1º)”. Vale destacar, no particular, que a vigente “Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro” (o novo — e adequado — nome dado à antiga “Lei de Introdução ao Código Civil”) expressamente estabelece: “Art. 10. A sucessão por morte ou por ausência obedece à lei do país em que domiciliado o defunto ou o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens. § 1º A sucessão de bens de estrangeiros, situados no País, será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus. § 2º A lei do domicílio do herdeiro ou legatário regula a capacidade para suceder”. 4.5. Princípio da temporariedade Outro importante princípio próprio do Direito das Sucessões é o da “Temporariedade”, previsto no art. 1.787 do CC/2002, de que regula “a sucessão e a legitimação para suceder a lei vigente ao tempo da abertura daquela”. O fundamento da regra está calcado na segurança das relações jurídicas consolidadas no momento da abertura da sucessão, até mesmo pelo já explicado princípio do Droit de Saisine. Tal temática encontra respaldo constitucional na previsão contida no art. 5º, XXXVI, da CF, de que “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”. Eventual demora no ajuizamento, com a modificação da disciplina jurídica a posteriori, não teria o condão de modificar tais situações, com aplicação retroativa. Seguindo essa linha de raciocínio, regras hoje criticáveis, mas vigentes ao tempo da morte, poderiam ser aplicadas, como, por exemplo, o tratamento diferenciado de filhos (ilegítimos, adotivos etc.) ou da(o) companheira(o) em face do cônjuge. Nesse diapasão, o próprio Código Civil de 2002 estabeleceu: “Art. 2.041. As disposições deste Código relativas à ordem da vocação hereditária (arts. 1.829 a 1.844) não se aplicam à sucessão aberta antes de sua vigência, prevalecendo o disposto na lei anterior (Lei n. 3.071, de 1º de janeiro de 1916)”. 4.6. Princípio do respeito à vontade manifestada Por fim, colacionamos, como último elemento da principiologia própria do Direito das Sucessões, o princípio do respeito à vontade manifestada do falecido, conhecido como favor testamenti. Trata-se de um dos mais importantes princípios neste campo. Com efeito, o sentido de admitir a produção de efeitos post mortem em relação a determinado patrimônio está justamente no respeito à manifestação da declaração de vontade do seu titular originário. Percebe-se que a própria lógica da disciplina do Direito Sucessório é, em sede de testamento, a regulação de efeitos para quando o titular dos direitos não estiver mais presente. Tal princípio deve prevalecer, inclusive, no caso de simples irregularidades testamentárias formais ou de modificações supervenientes de situação de fato, se for possível verificar, inequivocamente, qual era a intenção do testador. III. CONCLUSÃO RETIRADA DE DÚVIDAS III. CONCLUSÃO Referência Bibliográfica: Fundamentos do direito civil: direito das sucessões / Gustavo Tepedino, Ana Luiza Maia Nevares, Rose Melo Vencelau Meireles; [coordenação Gustavo Tepedino]. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2021. (Fundamentos do direito civil; 7) Disciplina de DIREITO CIVIL VII Direito das Sucessões Professor João Oswaldo Bento