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LEGISLAÇÃO EM EDUCAÇÃO ESPECIAL Me. Artur Fontes GUIA DA DISCIPLINA 1 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância INTRODUÇÃO Falar em Educação Especial é desafiar o sistema, é ter muito amor no coração e trabalhar arduamente dia após dia. Que tudo passe Passe a noite Passe a peste Passe o verão Passe o inverno Passe a guerra E passe a paz Passe o que nasce Passe o que nem Passe o que faz Passe o que faz-se Que tudo passe E passe muito bem. Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado. Rubem Alves Estamos em um curso de Educação Especial e será necessário entender um pouco sobre legislação e assim saber dos nossos direitos e deveres. Vamos ficar juntos por três semanas em um longo e atuante debate entre opiniões e experiências. Beijos e vamos aproveitar esse período! https://www.pensador.com/autor/rubem_alves/ 2 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. MARCOS LEGAIS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA A educação infantil é um direito constitucional de todas as crianças que vivem no Brasil. A emenda nº 59/2009 alterou os incisos I e VII do artigo 208 da Constituição Site externo, determinando a obrigatoriedade da educação básica dos 4 aos 17 anos de idade. Consequentemente, a matrícula tornou-se obrigatória a partir da pré-escola, sendo o acesso à creche um direito de todas as crianças de 0 a 3 anos, devendo o poder público ampliar sua oferta gradativamente. O artigo 7 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência Site externo da Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o compromisso com a adoção de medidas necessárias para assegurar às crianças com deficiência o pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais em igualdade de oportunidade com as demais. O documento internacional também resolveu a polêmica da coexistência entre um sistema segregado de educação, que se baseia na condição de deficiência, e um sistema comum, que reconhece e valoriza a diversidade humana presente na escola, ao explicitar que o direito das pessoas com deficiência à educação somente se efetiva em sistemas educacionais inclusivos, em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino. À luz desses preceitos legais, a resolução nº 5/2009 do Conselho Nacional de Educação (CNE) Site externo estabeleceu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), adotando os pressupostos da educação inclusiva. Assim, as creches e pré-escolas passaram a se constituir em estabelecimentos educacionais, públicos ou privados, destinados à educação das crianças de 0 a 5 anos de idade, por meio da implementação de proposta pedagógica elaborada e desenvolvida por professores habilitados, superando o modelo assistencialista e fragmentado, divorciado do sistema educacional. 1.1. Mudanças na prática pedagógica da educação infantil Os novos marcos legais, políticos e pedagógicos da educação infantil, a mudança da concepção de deficiência, a consolidação do direito da pessoa com deficiência à educação e a redefinição da educação especial, em consonância com os preceitos da http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc59.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc59.htm http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/convencaopessoascomdeficiencia.pdf http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/convencaopessoascomdeficiencia.pdf http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=2298-rceb005-09&category_slug=dezembro-2009-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=2298-rceb005-09&category_slug=dezembro-2009-pdf&Itemid=30192 3 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância educação inclusiva, constituíram-se nos principais fatores que impulsionaram importantes transformações nas práticas pedagógicas. Considerando que a educação infantil é a porta de entrada da educação básica, seu desenvolvimento inclusivo tornou-a o alicerce dos sistemas de ensino para todas e todos. Conforme a resolução n° 04/2009 do CNE Site externo, as creches e pré-escolas passaram a prever o atendimento das especificidades educacionais das crianças com deficiência em seus Projeto Político-Pedagógicos (PPPs), planejando e desenvolvendo as atividades próprias da educação infantil de forma a favorecer a interação entre as crianças com e sem deficiência nos diferentes ambientes (berçário, solário, parquinho, sala de recreação, refeitório, entre outros), proporcionando a plena participação de todos. De acordo com a lei n° 13.005/2014 Site externo, a articulação entre as áreas da educação infantil e da educação especial é condição indispensável para assegurar o atendimento das especificidades das crianças com deficiência na creche e na pré-escola. Nesse contexto educativo, por intermédio das brincadeiras multissensoriais, as crianças são instigadas a redescobrirem o mundo, assim como, são introduzidas estratégias de desenvolvimento da comunicação. Na perspectiva inclusiva, valoriza-se tanto a comunicação oral, quanto a sinalizada e demais formas alternativas de expressão, levando as crianças a compartilharem meios diversificados de interação. A transformação dos sistemas educacionais em sistemas educacionais inclusivos inicia-se, portanto, pela garantia de pleno acesso às crianças com deficiência à educação infantil, com a efetivação das medidas necessárias à consecução da meta de inclusão plena. Autoria: Martinha Clarete Dutra dos Santos foi diretora de Políticas de Educação Especial da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação (MEC) de 2003 a 2016. Licenciada em letras, especialista em educação especial e administração, supervisão e orientação educacional, mestre e doutoranda em educação. (http://diversa.org.br/artigos/marcos-legais-da-educacao-infantil-inclusiva/?gclid=CjwKCAiA5OrTBRBlEiwAXXhT6EhTX1t vGYcYiLlkj77WsYWgQtjh-lzxbHJFX0NtsXviK86xbiACdRoCJlsQAvD_BwE) Acesso em 16/12/2019 http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm http://diversa.org.br/artigos/marcos-legais-da-educacao-infantil-inclusiva/?gclid=CjwKCAiA5OrTBRBlEiwAXXhT6EhTX1t 4 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. HISTÓRICO DA LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL BRASILEIRA É histórico e duradouro a luta por uma educação com mais qualidade no Brasil, entretanto, algumas mudanças começaram a ocorrer, efetivamente, a partir da República, isto porque durante o Brasil Colônia e o Brasil Império a educação era privilégio de poucos. 2.1. Breve retrospectiva histórica 2.1.1. Brasil Colônia e Brasil Imperial (1500-1889) A história da educação no Brasil começou em 1549 com a chegada dos primeiros padres jesuítas, inaugurando uma fase que haveria de deixar marcas profundas na cultura e civilização do país. Movidos por intenso sentimento religioso de propagação da fé cristã, durante mais de 200 anos, os jesuítas foram praticamente os únicos educadoresdo Brasil. Embora tivessem fundado inúmeras escolas de ler, contar e escrever, a prioridade dos jesuítas foi sempre a escola secundária, grau do ensino onde eles organizaram uma rede de colégios reconhecida por sua qualidade, alguns dos quais chegaram mesmo a oferecer modalidades de estudos equivalentes ao nível superior. Em 1759, os jesuítas foram expulsos de Portugal e de suas colônias, abrindo um enorme vazio que não foi preenchido nas décadas seguintes. Com as Reformas Pombalinas, passou-se a ser instituído o ensino laico e público, e os conteúdos baseavam- se nas Cartas Régias. Entretanto, as medidas tomadas pelo Marquês de Pombal, sobretudo a instituição do Subsídio Literário, imposto criado para financiar o ensino primário, não surtiu nenhum efeito. Só no começo do século seguinte, em 1808, com a mudança da sede do Reino de Portugal e a vinda da família Real para o Brasil Colônia, a educação e a cultura tomaram um novo impulso, com o surgimento de instituições culturais e científicas, de ensino técnico e dos primeiros cursos superiores, como os de medicina nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia. Todavia, a obra educacional de D. João VI, importante em muitos aspectos, voltou- se para as necessidades imediatas da corte portuguesa no Brasil. As aulas e cursos 5 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância criados, em diversos setores, tiveram o objetivo de preencher demandas de formação profissional. Esta característica haveria de ter uma enorme influência na evolução da educação superior brasileira. Acrescenta-se, ainda, que a política educacional de D. João VI, na medida em que procurou, de modo geral, concentrar-se nas demandas da corte, deu continuidade à marginalização do ensino primário. Com a independência do país, conquistada em 1822, algumas mudanças no panorama sócio-político e econômico pareciam esboçar-se, inclusive em termos de política educacional. De fato, na Constituinte de 1823, pela primeira vez se associou apoio universal e educação popular - uma como base do outro. Também foi debatida a criação de universidades no Brasil, com várias propostas apresentadas. Como resultado desse movimento de ideias, surgiu o compromisso do Império, na Constituição de 1824, em assegurar "instrução primária e gratuita a todos os cidadãos", confirmado logo depois pela lei de 15 de outubro de 1827, que determinou a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e vilarejos, envolvendo as três instâncias do Poder Público. Teria sido a "Lei Áurea" da educação básica, caso tivesse sido implementada. Da mesma forma, a ideia de fundação de universidades não prosperou, surgindo em seu lugar os cursos jurídicos em São Paulo e Olinda, em 1827, fortalecendo o sentido profissional e utilitário da política iniciada por D. João VI. Além disso, alguns anos depois da promulgação do Ato Adicional de 1834, delegando às províncias a prerrogativa de legislar sobre a educação primária, comprometeu em definitivo o futuro da educação básica, pois possibilitou que o governo central se afastasse da responsabilidade de assegurar educação elementar para todos. Assim, a ausência de um centro de unidade e ação, indispensável, diante das características de formação cultural e política do país, acabaria por comprometer a política imperial de educação. 6 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2.2. Brasil Republicano – Primeira República (1889 / 1930) A Constituição de 1891, primeira do período republicano, pouco trata da educação por primar pela autonomia das unidades federativas. Ficava subentendido que a legislação nessa matéria deveria ser resolvida no âmbito dos estados. Cabia à Federação apenas o ensino superior da capital (art. 34º), a instrução militar (art. 87º) e a tarefa, não exclusiva, de "animar, no país, o desenvolvimento das letras, artes e ciências" (art. 35º). Não havia nessa Carta e também na anterior (Constituição de 1824) nem sequer a menção à palavra "educação". 2.3. Brasil Republicano (1930 às LDBs) Até a década de 1930, os assuntos ligados à educação eram tratados pelo Departamento Nacional do Ensino ligado ao Ministério da Justiça. Somente em 1931 foi criado o Ministério da Educação. Em 1932, um grupo de intelectuais preocupado em elaborar um programa de política educacional amplo e integrado lança o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, redigido por Fernando de Azevedo e assinado por outros conceituados educadores, como Anísio Teixeira. O Manifesto propunha que o Estado organizasse um plano geral de educação e definisse a bandeira de uma escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita. Nessa época, a igreja era concorrente do Estado na área da educação. Foi em 1934, com a nova constituição federal, que a educação passa a ser vista como um direito de todos, devendo ser ministrada pela família e pelos poderes públicos. A Constituição de 1934 dedica um capítulo inteiro ao tema, trazendo à União a responsabilidade de "traçar as diretrizes da educação nacional" (art. 5º) e "fixar o plano nacional de educação, compreensivo do ensino em todos os graus e ramos, comuns e especializados" para "coordenar e fiscalizar a sua execução em todo o território do país" (art. 150º). Através da unidade gerada por um plano nacional de educação e da escolaridade primária obrigatória pretendia-se combater a ausência de unidade política entre as unidades 7 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância federativas, sem com isso tirar a autonomia dos estados na implantação de seus sistemas de ensino. Ideia defendida pelos educadores liberais, dentre os quais se destacava Anísio Teixeira. A respeito do ensino religioso, a Carta de 1934 pode ser considerada uma vitória do grupo de educadores liberais, organizados através da Associação Brasileira de Educação, por atender suas principais proposições. Porém, apenas três anos depois a Constituição de 1937, promulgada junto com o Estado Novo, sustentava princípios opostos às ideias liberais e descentralistas da Carta anterior. Rejeitava um plano nacional de educação, atribuindo ao poder central a função de estabelecer as bases da educação nacional. Com o fim do Estado Novo, a Constituição de 1946 retomou em linhas gerais o capítulo sobre educação e cultura da Carta de 1934, iniciando-se assim o processo de discussão do que viria a ser a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação. De 1934 a 1945, o então ministro da Educação e Saúde Pública, Gustavo Capanema Filho, promove uma gestão marcada pela reforma dos ensinos secundário e universitário. Nessa época, o Brasil já implantava as bases da educação nacional. Até o ano de 1953, foi Ministério da Educação e Saúde. Com a autonomia dada à área da saúde surge o Ministério da Educação e Cultura, com a sigla MEC. O sistema educacional brasileiro até 1960 era centralizado e o modelo era seguido por todos os estados e municípios. Com a aprovação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1961, os órgãos estaduais e municipais ganharam mais autonomia, diminuindo a centralização do MEC. Foram necessários treze anos de debate (1948 a 1961) para a aprovação da primeira LDB. O ensino religioso facultativo nas escolas públicas foi um dos pontos de maior disputa para a aprovação da lei. 8 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O pano de fundo era a separação entre o Estado e a Igreja. O salário educação, criado em 1962, também é um fato marcante na história do Ministério da Educação. Até hoje, essa contribuição continua sendo fonte de recursos para a educação básica brasileira. A reforma universitária,em 1968, foi a grande LDB do ensino superior, assegurando autonomia didático-científica, disciplinar administrativa e financeira às universidades. A reforma representou um avanço na educação superior brasileira, ao instituir um modelo organizacional único para as universidades públicas e privadas. A educação no Brasil, em 1971, se vê diante de uma nova LDB. O ensino passa a ser obrigatório dos sete aos 14 anos. O texto também prevê um currículo comum para o primeiro e segundo graus e uma parte diversificada em função das diferenças regionais. Em 1985, é criado o Ministério da Cultura. Em 1992, uma lei federal transformou o MEC no Ministério da Educação e do Desporto e somente em 1995, a instituição passa a ser responsável apenas pela área da educação. Uma nova reforma na educação brasileira foi implantada em 1996. Trata-se da mais recente LDB, que trouxe diversas mudanças às leis anteriores, com a inclusão da educação infantil (creches e pré-escola). (Obs.: um material de estudo específico será destinado a LDB/96). Ainda em 1996, o Ministério da Educação criou o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) para atender o ensino fundamental. Os recursos para o Fundef vinham das receitas dos impostos e das transferências dos estados, Distrito Federal e municípios vinculados à educação. O Fundef vigorou até 2006, quando foi substituído pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que vigorará até 2019. Em 2007 foi lançado o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que prevê metas e orçamentos para investir na educação básica, na educação profissional e na educação superior. 9 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2.4. Lei de diretrizes e bases da educação nacional 2.4.1. Lei de Diretrizes e Bases – Lei 4.024/61 (1961) Enquanto a Lei ainda estava em tramitação, dois grupos disputavam qual seria a filosofia por trás da primeira LDB. De um lado estavam os estatistas, ligados principalmente aos partidos de esquerda. Partindo do princípio de que o Estado precede o indivíduo na ordem de valores e que a finalidade da educação é preparar o indivíduo para o bem da sociedade, defendiam que só o Estado deve educar. Escolas particulares podem existir, mas como uma concessão do poder público. O outro grupo, denominado de liberalista e ligado aos partidos de centro e de direita, sustentava que a pessoa possui direitos naturais e que não cabe ao Estado garanti-los ou negá-los, mas simplesmente respeitá-los. A educação é um dever da família, que deve escolher dentre uma variedade de opções de escolas particulares. Ao Estado caberia a função de traçar as diretrizes do sistema educacional e garantir, por intermédio de bolsas, o acesso às escolas particulares para as pessoas de famílias de baixa renda. Um ponto importante de disputa que refletiu diretamente na tramitação da primeira LDB foi a questão do ensino religioso. Enquanto a proclamação da República teve como pano de fundo a separação entre Estado e igreja, a segunda Carta marca essa reaproximação. No que diz respeito à educação, instaura o ensino religioso de caráter facultativo, e de acordo com os princípios de cada família, nas escolas públicas (art. 153º). Na disputa, que durou dezesseis anos, as ideias dos liberalistas se impuseram sobre as dos estatistas na maior parte do texto aprovado pelo Congresso. A primeira LDB foi publicada em 20 de dezembro de 1961 pelo presidente João Goulart, quase trinta anos após ser prevista pela Constituição de 1934. O primeiro projeto de lei foi encaminhado pelo poder executivo ao legislativo em 1948, foram necessários treze anos de debate até o texto final, que vigorou com as seguintes características: 10 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Dava mais autonomia aos órgãos estaduais, diminuindo a centralização do poder no MEC (art. 10) Regulamentava a existência dos Conselhos Estaduais de Educação e do Conselho Federal de Educação (art. 8 e 9) Garantia o empenho de 12% do orçamento da União e 20% dos municípios com a educação (art. 92) Dinheiro público não exclusivo às instituições de ensino públicas (art. 93 e 95) Obrigatoriedade de matrícula nos quatro anos do ensino primário (art. 30) Formação do professor para o ensino primário no ensino normal de grau ginasial ou colegial (art. 52 e 53) Formação do professor para o ensino médio nos cursos de nível superior (art. 59). Ano letivo de 180 dias (art. 72) Ensino religioso facultativo (art. 97) Permitia o ensino experimental (art. 104) 2.5. Lei de Diretrizes e Bases – Lei 5.692/71 (1971) Foi publicada em 11 de agosto de 1971, durante o regime militar pelo presidente Emílio Garrastazu Médici, e continha como características educacionais: Previa um núcleo comum para o currículo de 1º e 2º grau e uma parte diversificada em função das peculiaridades locais (art. 4) Inclusão da educação moral e cívica, educação física, educação artística e programas de saúde como matérias obrigatórias do currículo, além do ensino religioso facultativo (art. 7) Ano letivo de 200 dias (art. 24) Ensino de 1º grau obrigatório dos 7 aos 14 anos (art. 20) Educação a distância como possível modalidade do ensino supletivo (art. 25) Formação preferencial do professor para o ensino de 1º grau, da 1ª à 4ª séries, em habilitação específica no 2º grau (art. 30 e 77) Formação preferencial do professor para o ensino de 1º e 2º grau em curso de nível superior ao nível de graduação (art. 30 e 77) Formação preferencial dos especialistas da educação em curso superior de graduação ou pós-graduação (art. 33) Dinheiro público não exclusivo às instituições de ensino públicas (art. 43 e 79) 11 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Os municípios deveriam gastar 20% de seu orçamento com educação, não prevendo dotação orçamentária para a União ou os estados (art. 59) Progressiva substituição do ensino de 2º grau gratuito por sistema de bolsas com restituição (art. 63) Permitia o ensino experimental (art. 64) Pagamento por habilitação (art. 39) O texto aprovado em 1996 é resultado de um longo embate, que durou cerca de seis anos, entre duas propostas distintas. A primeira conhecida como Projeto Jorge Hage foi o resultado de uma série de debates abertos com a sociedade, organizados pelo Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, sendo apresentado na Câmara dos Deputados. A segunda proposta foi elaborada pelos senadores Darcy Ribeiro, Marco Maciel e Maurício Correa em articulação com o poder executivo através do MEC. A principal divergência era em relação ao papel do Estado na educação. Enquanto a proposta dos setores organizados da sociedade civil apresentava uma grande preocupação com mecanismos de controle social do sistema de ensino, a proposta dos senadores previa uma estrutura de poder mais centrada nas mãos do governo. Apesar de conter alguns elementos levantados pelo primeiro grupo, o texto final da LDB se aproxima mais das ideias levantadas pelo segundo grupo, que contou com forte apoio do governo FHC nos últimos anos da tramitação. A atual LDB (Lei 9394/96) foi sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo ministro da educação Paulo Renato em 20 de dezembro de 1996. Baseada no princípio do direito universal à educação para todos, a LDB de 1996 trouxe diversas mudanças em relação às leis anteriores, como a inclusão da educação infantil (creches e pré-escolas) como primeira etapa da educação básica. 12 Legislação Educação Especial UniversidadeSanta Cecília - Educação a Distância 2.6. Lei de Diretrizes e Bases – Lei 9394/96 (1996) (LEI 9.394/96): DESTAQUES, AVANÇOS E PROBLEMAS Esta lei procura libertar os educadores brasileiros para ousarem experimentar e inovar. (Darcy Ribeiro) A Lei 9.394/96 contém as Diretrizes e Bases que vão orientar a educação nacional nos próximos anos. Seus 92 artigos representam um novo momento do ensino brasileiro; neles vemos refletidos muitos dos desafios e esperanças que movem o trabalho de tantos educadores numa nação de realidades tão diversas. Em 1988 já corria no Congresso Nacional o processo de tramitação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Tratava-se então do projeto apresentado pelo Deputado Federal Otávio Elízio (PSDB/MG); o relator era Jorge Hage (PDT/BA). O texto seria aprovado na Câmara dos Deputados em 13 de setembro de 1993, depois de receber 1.263 emendas. O projeto original, modificado em longas negociações na correlação das forças políticas e populares, ia para a avaliação do Senado reduzido, contendo 298 artigos. O relator no Senado Federal, Cid Sabóia (PMDB/CE), dá seu parecer e a Comissão de Educação do Senado aprova o então Projeto de Lei 101/93 no dia 20 de novembro de 1994. Um dado novo atropela o processo: o senador Darcy Ribeiro apresenta um substitutivo do projeto, alegando inconstitucionalidade de vários artigos[1]. Por requerimento do senador Beni Veras (PSDB/CE), o PL 101/93 - que já estava no Plenário do Senado - é retirado. O Presidente do Senado, José Sarney, decide retomar a tramitação dos três projetos: o antigo PL 101/93 da Câmara, o parecer de Cid Sabóia aprovado pela Comissão de Educação e o substitutivo Darcy Ribeiro. Este último é designado para atuar como relator. Ao apreciar as emendas do PL 101/93, Ribeiro notoriamente toma como referência seu próprio projeto e as suas concepções de Educação. No dia 14 de fevereiro de 1996 é aprovado no plenário do Senado o Parecer nº 30/96, de Darcy Ribeiro. Esta decisão não só tira o projeto inicial da LDB de cena, como também, de certo modo, nega o processo democrático estabelecido anteriormente na Câmara e em diversos setores da população ligados à Educação[2]. 13 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A Lei 9.394/96 é promulgada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República com data de 20 de dezembro de 1996, e publicada no Diário Oficial em 23 de dezembro de 1996. 1ª parte: Diretrizes e Bases para a Educação Nacional - alguns destaques O currículo Os currículos do ensino fundamental e médio passam a compreender uma base nacional comum que deve ser complementada por uma parte diversificada, de acordo com as características regionais (art. 26). Fica sugerida uma flexibilização dos currículos, na medida em que se admite a incorporação de disciplinas que podem ser escolhidas levando em conta o contexto e a clientela. No ensino nas zonas rurais, é admitida inclusive a possibilidade de um currículo apropriado às reais necessidades e interesses [desses] alunos (art. 28, inciso I). A LDB determina que a Educação Artística seja componente curricular obrigatório no Ensino Básico (pré-escolar, 1º e 2º graus; art. 26, § 2º). O objetivo é promover o desenvolvimento cultural dos alunos. Continua a exigência de uma língua estrangeira moderna a partir da 5ª série, e pedem-se duas línguas (uma opcional, de acordo com as possibilidades da Instituição) no ensino médio. Entre os saberes que o educando deverá dominar após o ensino médio estão os conhecimentos de filosofia e de sociologia necessários ao exercício da cidadania (art.36, § 1º); contudo, a Lei não exige que tais disciplinas sejam incorporadas ao currículo. O Ensino Religioso passa a ser disciplina de oferta obrigatória nas escolas públicas, com matrícula facultativa e sem ônus para os cofres públicos (Art. 3). A avaliação Termina a exclusividade do exame vestibular para ingresso no Ensino Superior (art. 4, inciso I). A LDB fala de uma classificação mediante processo seletivo, sem especificar. Podemos entender, por exemplo, as notas do 2º grau, ou uma prova aplicada pelo MEC[3]. A LDB cria o processo de avaliação das instituições de educação superior, assim como do rendimento escolar dos alunos do ensino básico e superior. No ensino superior, o MEC pode, mediante análise dos resultados da avaliação, descredenciar cursos, intervir na 14 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância instituição, suspender temporariamente a autonomia, rebaixá-la a Centro Universitário (centros sem a exigência de trabalho de pesquisa), ou mesmo descredenciá-la. Passa a ser solicitado, além disso, o recredenciamento das universidades a cada cinco anos. Quanto à avaliação dos alunos do ensino básico por parte do governo, não há maiores especificações. A classificação dos alunos nas séries iniciais passa a poder ocorrer por promoção. Este termo (diferente de aprovação) é identificado também no texto com a "progressão continuada" ou a "progressão parcial" e com a "progressão regular por série". Consiste na aprovação automática de alunos da 1ª até a 5ª série, pressupondo um acompanhamento personalizado, com o fim de evitar a evasão escolar e a repetência nos primeiros anos de estudo. Esse sistema não é uma inovação da LDB, mas fica por ela legitimado (art.24; art.32, inciso 2º). Isso abre a possibilidade de uma nova concepção de série. O artigo 23 rege que a educação básica poderá ser organizada tanto em séries anuais como em períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. Nos termos da lei, a verificação do rendimento escolar deve ser contínua e cumulativa, e a recuperação deve dar-se, de preferência, paralelamente ao período letivo (art. 24). Continua a exigência do mínimo de 75% de frequência, exceto para os sistemas de ensino não presenciais (educação à distância). Papel e formação dos professores A nova LDB dá atenção específica à questão dos professores e procura valorizar o magistério, estabelecendo critérios de ingresso e falando da necessidade do plano de carreira nas instituições (art. 67). Na descrição das funções dos docentes, afirma que eles: "participam da elaboração da proposta pedagógica das escolas"; "elaboram e cumprem planos de trabalho"; "zelam pela aprendizagem dos alunos"; estabelecem estratégias de recuperação"; "ministram os dias letivos estabelecidos e participam integralmente do planejamento/ avaliação"; "articulam escola/família/comunidade" (art.13). O texto explicita que seja assegurado ao profissional da educação: "o aperfeiçoamento continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado"; um "piso 15 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância salarial profissional"; a "progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho"; um "período reservado a estudos, planejamento e avaliação incluído na carga [horária]"; e "condições adequadas de trabalho" (art. 67). São criados os Institutos Superiores de Educação, para preparação de docentes em nível superior (curso de licenciatura, graduação plena) como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental (art. 62). No artigo 63 lemos que tais Institutos Superiores manterão: a) Cursos formadores de profissionais para a educação básica, inclusive para o curso normal superior; b) Programas de formação pedagógica para portadores de diploma de educação superior que queiram se dedicar à educação básica[4]; c) Programas de educaçãocontinuada para os profissionais da educação. A LDB rege ainda que a formação docente, exceto para a educação superior, inclua prática de ensino de, no mínimo, 300 horas (art. 65). Ensino à Distância Os programas de educação à distância são incentivados pela nova LDB (art. 80, § 4o.) em todos os níveis e modalidades do ensino, desde que as Instituições a oferecê-los estejam devidamente credenciadas. Nesse tipo de ensino estão compreendidos desde os cursos como o que certas universidades oferecem em convênio com Centros Pedagógicos ou escolas, por exemplo, tendo como instrumentos de trabalho materiais escritos e livros, até as transmissões de informações por canais especiais de televisão e a conexão à Internet. Outros destaques A denominação dada aos níveis escolares é: Educação Básica (compreende a educação infantil, o ensino fundamental (anteriormente 1o. grau) e o ensino médio, anterior 2o. grau); e Educação Superior. O Ensino Fundamental (8 anos) aparece sempre como prioridade. Sendo dever do Estado, qualquer cidadão ou entidade de classe pode acionar o Poder Público para exigi-lo (art. 4º/5º). 16 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A carga horária mínima anual da educação básica é de 800 horas em 200 dias letivos, sem contar os exames finais. A jornada escolar no ensino fundamental inclui pelo menos quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, mas o artigo 34 prevê que o período de permanência na escola seja progressivamente ampliado. A educação profissionalizante passa a constituir um curso independente do Ensino Médio. A LDB chama a atenção para a necessidade de se alcançar relação adequada entre o número de alunos e o professor, acenando para uma redução do número de alunos em cada sala de aula, porém sem especificar (art. 25). · A rede pública de ensino deverá ampliar seu atendimento aos alunos com necessidades especiais de aprendizagem (art. 60 - parágrafo único). A LDB rege que os recursos financeiros destinados à Educação sejam, do orçamento da União, nunca menos de 18%; dos Estados e Municípios, nunca menos de 25%. Abre-se a possibilidade, sem muita clareza de critérios, de que tais recursos possam ser dirigidos também a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas (art. 69 e art.7), inclusive para bolsas de estudo para a educação básica se não houver vagas na rede pública de domicílio do educando, comprovando se a insuficiência de recursos. As universidades públicas são obrigadas a oferecer ensino noturno com a mesma qualidade e estrutura material disponível dos cursos diurnos; o poder público (União, Estados e Municípios) deve oferecer ensino supletivo gratuito. A LDB exige o mínimo de um terço de professores com titulação de Mestrado ou Doutorado para que as instituições sejam reconhecidas como Universidades. Estas terão oito anos a partir da data em que a Lei entrou em vigor para se adequarem. Classificação das instituições de ensino (art.20): poderão ser enquadradas nas categorias privada, comunitária, confessional e filantrópica. A escola confessional deve poder continuar acumulando, em casos específicos e na forma da lei, as funções e atribuições da filantrópica. Fica instituída a Década da Educação, a iniciar-se um ano depois da data de publicação da LDB. A União tem um ano para encaminhar ao Congresso Nacional o Plano Nacional de Educação. O ano de 1997 é o período para adaptação das legislações educacionais e de ensino da União, dos Estados e dos Municípios às disposições da 17 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9.394/96. As instituições escolares devem ainda receber destas instâncias os seus prazos de adaptação. Institui-se o Conselho Nacional de Educação (art. 9º, § 1º), herdeiro do antigo Conselho Federal de Educação (1962 - 1994). Terá funções de normatização e assessoramento, com uma inovação: seus membros podem ser indicados pela sociedade (Lei 9.131/95), o que pretende evitar a interferência da política partidária neste processo. 2ª Parte Avanços e Problemas A Lei 9.394/96 representa um passo à frente no âmbito da descentralização do processo educativo, dando certa autonomia às escolas e flexibilizando também a gestão dos centros de ensino superior. Embora sujeitas a avaliação e até passíveis de descredenciamento pela União, as universidades podem: deliberar sobre critérios e normas de seleção e admissão de estudantes a seus cursos (art. 51); criar, organizar e extinguir cursos e programas de educação superior; fixar os currículos de seus programas, dentro das diretrizes gerais; elaborar e reformar seus próprios estatutos e regimentos; administrar os rendimentos (art. 53); decidir sobre ampliação e diminuição de vagas (art. 53, § único); propor o seu quadro de pessoal docente e seu plano de cargos e salários (art. 54, § 1º), entre outras atribuições que lhes são conferidas. Nesses termos, a tendência para o MEC deve ser de não atuar mais como um regulador, mas sim como coordenador ou articulador do grande projeto nacional, concedendo a autonomia imprescindível a um espaço que se propõe desenvolver trabalhos de pesquisa e investigação científica. Ao mesmo tempo, o crescimento da autonomia se transforma em exigência de inovação para as universidades: não há sentido na repetição de velhas práticas se, a partir de agora, é possível começar a empreender mudanças. A LDB demonstra preocupação clara com as principais questões da educação brasileira, tais como: o funcionamento e duração da educação básica, determinando claramente períodos a serem cumpridos e estabelecendo diretrizes básicas de organização do ensino (a Lei abre ainda a possibilidade de que cada escola elabore seus calendários escolares, o que pode representar um melhor atendimento às especificidades de cada clientela); a necessidade de o aluno permanecer mais tempo de seu dia no espaço escolar, e menos tempo de sua vida na escola (principalmente pelo término da repetência nas primeiras séries). A previsão de ampliação do número de horas do aluno na escola prevista 18 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância no artigo 34 não tem prazo definido, mas é uma proposta que está em sintonia com as tendências dos mais modernos métodos pedagógicos. É possível que Darcy Ribeiro estivesse propondo, com este projeto, um modelo de escola semelhante ao dos CIEPs, centros integrados que criou no Rio de Janeiro, com provável inspiração nas teorias do ensino compensatório, já muito criticadas e inclusive descartadas enquanto possibilidade de superação das desigualdades educacionais. Mesmo assim, esta ideia tem pontos positivos, na medida em que estimula a presença e a participação na vida da comunidade escolar, além de propiciar aos alunos de classes de baixa renda a possibilidade de trabalhar no próprio estudo num ambiente muitas vezes mais adequado do que o de suas casas. ADRIÃO, Theresa & OLIVEIRA, Romualdo P. de (orgs.). Gestão, financiamento e direito à educação: análise da LDB e da Constituição Federalre. São Paulo: Xamã, 2001. FONTOURA, Amaral. Diretrizes e bases da educação nacional: introdução, crítica, comentários, interpretação. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Aurora, 1968. VILALOBOS, João Eduardo Rodrigues. Diretrizes e bases da educação: ensino e liberdade. São Paulo: EDUSP, 1969. LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL. HISTÓRIA EDUCACIONAL BRASILIERA. Disponível em: http://verdenovoestudos.com.br/cursos/wpcontent/uploads/HIST%C3%93RI CO-DA-LEGISLA%C3%87%C3%83O-EDUCACIONAL-BRASILEIRA.pdf Acesso em mai. 2011. http://verdenovoestudos.com.br/cursos/wpcontent/uploads/HIST%C3%93RICO-DA-LEGISLA%C3%87%C3%83O-EDUCACIONAL-BRASILEIRA.pdf http://verdenovoestudos.com.br/cursos/wpcontent/uploads/HIST%C3%93RICO-DA-LEGISLA%C3%87%C3%83O-EDUCACIONAL-BRASILEIRA.pdf19 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. DECLARAÇÃO DE SALAMANCA. SOBRE PRINCÍPIOS, POLÍTICAS E PRÁTICAS NA ÁREA DAS NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS Reconvocando as várias declarações das Nações Unidas que culminaram no documento das Nações Unidas "Regras Padrões sobre Equalização de Oportunidades para Pessoas com Deficiências", o qual demanda que os Estados assegurem que a educação de pessoas com deficiências seja parte integrante do sistema educacional. Notando com satisfação um incremento no envolvimento de governos, grupos de advocacia, comunidades e pais, e em particular de organizações de pessoas com deficiências, na busca pela melhoria do acesso à educação para a maioria daqueles cujas necessidades especiais ainda se encontram desprovidas; e reconhecendo como evidência para tal envolvimento a participação ativa do alto nível de representantes e de vários governos, agências especializadas, e organizações intergovernamentais naquela Conferência Mundial. Acreditamos e Proclamamos que: Toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem Toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas Sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades Aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer a tais necessidades Escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas proveem uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional. 20 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. Nós congregamos todos os governos e demandamos que eles: Atribuam a mais alta prioridade política e financeira ao aprimoramento de seus sistemas educacionais no sentido de se tornarem aptos a incluírem todas as crianças, independentemente de suas diferenças ou dificuldades individuais Adotem o princípio de educação inclusiva em forma de lei ou de política, matriculando todas as crianças em escolas regulares, a menos que existam fortes razões para agir de outra forma Desenvolvam projetos de demonstração e encorajem intercâmbios em países que possuam experiências de escolarização inclusiva Estabeleçam mecanismos participatórios e descentralizados para planejamento, revisão e avaliação de provisão educacional para crianças e adultos com necessidades educacionais especiais Encorajem e facilitem a participação de pais, comunidades e organizações de pessoas portadoras de deficiências nos processos de planejamento e tomada de decisão concernentes à provisão de serviços para necessidades educacionais especiais Invistam maiores esforços em estratégias de identificação e intervenção precoces, bem como nos aspectos vocacionais da educação inclusiva Garantam que, no contexto de uma mudança sistêmica, programas de treinamento de professores, tanto em serviço como durante a formação, incluam a provisão de educação especial dentro das escolas inclusivas. Expressamos nosso caloroso reconhecimento ao governo da Espanha e à UNESCO pela organização da Conferência e demandamos-lhes realizarem todos os esforços no sentido de trazer esta Declaração e sua relativa Estrutura de Ação da comunidade mundial, especialmente em eventos importantes tais como o Tratado Mundial de Desenvolvimento Social (em Kopenhagen, em 1995) e a Conferência Mundial sobre a Mulher (em Beijing, e, 1995). Adotada por aclamação na cidade de Salamanca, Espanha, neste décimo dia de junho de 1994. 21 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3.1. ESTRUTURA DE AÇÃO EM EDUCAÇÃO ESPECIAL (texto para consulta) Introdução 1. Esta Estrutura de Ação em Educação Especial foi adotada pela conferência Mundial em Educação Especial organizada pelo governo da Espanha em cooperação com a UNESCO, realizada em Salamanca entre 7 e 10 de junho de 1994. Seu objetivo é informar sobre políticas e guias ações governamentais, de organizações internacionais ou agências nacionais de auxílio, organizações não- governamentais e outras instituições na implementação da Declaração de Salamanca sobre princípios, Política e prática em Educação Especial. A Estrutura de Ação baseia-se fortemente na experiência dos países participantes e também nas resoluções, recomendações e publicações do sistema das Nações Unidas e outras organizações intergovernamentais, especialmente o documento "Procedimentos-Padrões na Equalização de Oportunidades para pessoas Portadoras de Deficiência. Tal Estrutura de Ação também leva em consideração as propostas, direções e recomendações originadas dos cinco seminários regionais preparatórios da Conferência Mundial. 2. O direito de cada criança a educação é proclamado na Declaração Universal de Direitos Humanos e foi fortemente reconfirmado pela Declaração Mundial sobre Educação para Todos. Qualquer pessoa portadora de deficiência tem o direito de expressar seus desejos com relação à sua educação, tanto quanto estes possam ser realizados. Pais possuem o direito inerente de serem consultados sobre a forma de educação mais apropriadas às necessidades, circunstâncias e aspirações de suas crianças. 3. O princípio que orienta esta Estrutura é o de que escolas deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Aquelas deveriam incluir crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham, crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desavantajados ou marginalizados. Tais condições geram uma variedade de diferentes desafios aos sistemas escolares. No contexto desta Estrutura, o termo "necessidades educacionais especiais" refere-se a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem. Muitas crianças experimentam 22 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância dificuldades de aprendizagem e, portanto, possuem necessidades educacionais especiais em algum ponto durante a sua escolarização. Escolas devem buscar formas de educar tais crianças bem-sucedidamente, incluindo aquelas que possuam desvantagens severas. Existe um consenso emergente de que crianças e jovens com necessidades educacionais especiais devam ser incluídas em arranjos educacionais feitos para a maioria das crianças. Isto levou ao conceito de escola inclusiva. O desafio que confronta a escola inclusiva é no que diz respeito ao desenvolvimento de uma pedagogia centrada na criança e capaz de bem-sucedidamente educar todas as crianças, incluindo aquelas que possuam desvantagens severa. O mérito de tais escolas não reside somente no fato de que elas sejam capazes de prover uma educação de alta qualidade a todas as crianças: o estabelecimento de tais escolas é um passo crucial no sentido de modificar atitudes discriminatórias, de criar comunidades acolhedoras e de desenvolver uma sociedade inclusiva. 4. Educação Especial incorpora os mais do que comprovados princípios de uma forte pedagogia da qualtodas as crianças possam se beneficiar. Ela assume que as diferenças humanas são normais e que, em consonância com a aprendizagem de ser adaptada às necessidades da criança, ao invés de se adaptar a criança às assunções pré-concebidas a respeito do ritmo e da natureza do processo de aprendizagem. Uma pedagogia centrada na criança é beneficial a todos os estudantes e, consequentemente, à sociedade como um todo. A experiência tem demonstrado que tal pedagogia pode consideravelmente reduzir a taxa de desistência e repetência escolar (que são tão características de tantos sistemas educacionais) e ao mesmo tempo garantir índices médios mais altos de rendimento escolar. Uma pedagogia centrada na criança pode impedir o desperdício de recursos e o enfraquecimento de esperanças, tão frequentemente consequências de uma instrução de baixa qualidade e de uma mentalidade educacional baseada na ideia de que "um tamanho serve a todos". 23 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Escolas centradas na criança são além do mais a base de treino para uma sociedade baseada no povo, que respeita tanto as diferenças quanto a dignidade de todos os seres humanos. Uma mudança de perspectiva social é imperativa. 5. Esta Estrutura de Ação compõe-se das seguintes seções: I. Novo pensar em educação especial II. Orientações para a ação em nível nacional: A. Política e Organização B. Fatores Relativos à Escola C. Recrutamento e Treinamento de Educadores D. Serviços Externos de Apoio E. Áreas Prioritárias F. Perspectivas Comunitárias G. Requerimentos Relativos a Recursos III. Orientações para ações em níveis regionais e internacionais. 6. A tendência em política social durante as duas últimas décadas tem sido a de promover integração e participação e de combater a exclusão. Inclusão e participação são essenciais à dignidade humana e ao desfrutamento e exercício dos direitos humanos. Dentro do campo da educação, isto se reflete no desenvolvimento de estratégias que procuram promover a genuína equalização de oportunidades. Experiências em vários países demonstram que a integração de crianças e jovens com necessidades educacionais especiais é melhor alcançada dentro de escolas inclusivas, que servem a todas as crianças dentro da comunidade. É dentro deste contexto que aqueles com necessidades educacionais especiais podem atingir o máximo progresso educacional e integração social. Ao mesmo tempo em que escolas inclusivas proveem um ambiente favorável à aquisição de igualdade de oportunidades e participação total, o sucesso delas requer um esforço claro, não somente por parte dos professores e dos profissionais na escola, mas também por parte dos colegas, pais, famílias e voluntários. 7. Princípio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma 24 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância educação de qualidade a todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recurso e parceria com as comunidades. 8. Dentro das escolas inclusivas, crianças com necessidades educacionais especiais deveriam receber qualquer suporte extra requerido para assegurar uma educação efetiva. Educação inclusiva é o modo mais eficaz para construção de solidariedade entre crianças com necessidades educacionais especiais e seus colegas. O encaminhamento de crianças a escolas especiais ou a classes especiais ou a sessões especiais dentro da escola em caráter permanente deveriam constituir exceções, a ser recomendado somente naqueles casos infrequentes onde fique claramente demonstrado que a educação na classe regular seja incapaz de atender às necessidades educacionais ou sociais da criança ou quando sejam requisitados em nome do bem-estar da criança ou de outras crianças. 9. A situação com respeito à educação especial varia enormemente de um país a outro. Existem por exemplo, países que possuem sistemas de escolas especiais fortemente estabelecidos para aqueles que possuam impedimentos específicos. Tais escolas especais podem representar um valioso recurso para o desenvolvimento de escolas inclusivas. Os profissionais destas instituições especiais possuem nível de conhecimento necessário à identificação precoce de crianças portadoras de deficiências. Escolas especiais podem servir como centro de treinamento e de recurso para os profissionais das escolas regulares. Finalmente, escolas especiais ou unidades dentro das escolas inclusivas podem continuar a prover a educação mais adequada a um número relativamente pequeno de crianças portadoras de deficiências que não possam ser adequadamente atendidas em classes ou escolas regulares. Investimentos em escolas especiais existentes deveriam ser canalizados a este novo e amplificado papel de prover apoio profissional às escolas regulares no sentido de atender às necessidades educacionais especiais. 25 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 10. Para crianças com necessidades educacionais especiais uma rede contínua de apoio deveria ser providenciada, com variação desde a ajuda mínima na classe regular até programas adicionais de apoio à aprendizagem dentro da escola e expandindo, conforme necessário, à provisão de assistência dada por professores especializados e pessoal de apoio externo. 11. Tecnologia apropriada e viável deveria ser usada quando necessário para aprimorar a taxa de sucesso no currículo da escola e para ajudar na comunicação, mobilidade e aprendizagem. Auxílios técnicos podem ser oferecidos de modo mais econômico e efetivo se eles forem providos a partir de uma associação central em cada localidade, aonde haja know-how que possibilite a conjugação de necessidades individuais e assegure a manutenção. 12. Diretores de escola têm a responsabilidade especial de promover atitudes positivas através da comunidade escolar e via arranjando uma cooperação efetiva entre professores de classe e pessoal de apoio. Arranjos apropriados para o apoio e o exato papel a ser assumido pelos vários parceiros no processo educacional deveria ser decidido através de consultoria e negociação. Pais e voluntários deveriam ser convidados assumir participação ativa no trabalho da escola. Professores, no entanto, possuem um papel fundamental enquanto administradores do processo educacional, apoiando as crianças através do uso de recursos disponíveis, tanto dentro como fora da sala de aula. Informação e Pesquisa PERSPECTIVAS COMUNITÁRIAS 13. A realização do objetivo de uma educação bem-sucedida de crianças com necessidades educacionais especiais não constitui tarefa somente dos Ministérios de Educação e das escolas. Ela requer a cooperação das famílias e a mobilização das comunidades e de organizações voluntárias, assim como o apoio do público em geral. A experiência provida por países ou áreas que têm testemunhado progresso na equalização de oportunidades educacionais para crianças portadoras de deficiência sugere uma série de lições úteis. 26 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância PARCERIA COM OS PAIS 14. A educação de crianças com necessidades educacionais especiais é uma tarefa a ser dividida entre pais e profissionais. Uma atitude positiva da parte dos pais favorece a integração escolar e social. Pais necessitam de apoio para que possam assumir seus papéis de pais de uma criança com necessidades especiais.O papel das famílias e dos pais deveria ser aprimorado através da provisão de informação necessária em linguagem clara e simples; ou enfoque na urgência de informação e de treinamento em habilidades paternas constitui uma tarefa importante em culturas aonde a tradição de escolarização seja pouca. Pais constituem parceiros privilegiados no que concerne as necessidades especiais de suas crianças, e desta maneira eles deveriam, o máximo possível, ter a chance de poder escolher o tipo de provisão educacional que eles desejam para suas crianças. Uma parceria cooperativa e de apoio entre administradores escolares, professores e pais deveria ser desenvolvida e pais deveriam ser considerados enquanto parceiros ativos nos processos de tomada de decisão. Pais deveriam ser encorajados a participar em atividades educacionais em casa e na escola (aonde eles poderiam observar técnicas efetivas e aprender como organizar atividades extracurriculares), bem como na supervisão e apoio à aprendizagem de suas crianças. 27 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. POLÍTICAS PÚBLICAS: PANORAMA GERAL Já verificamos em outras oportunidades a evolução do conceito de deficiência e seus reflexos, sobretudo na educação. Vimos também que atualmente o conceito de deficiência está em constante evolução de modo que se busca cada vez mais a interação entre as pessoas com deficiência e as barreiras devidas aos comportamentos e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de condições. Neste contexto merece destaque as diversas Políticas Públicas que envolvem o tema pois seria inócuo o entendimento generalizado da necessária inclusão na educação sem instrumentos normativos que determinam os instrumentos necessários para este mister. Podemos definir, portanto, Políticas Públicas como um conjunto de decisões, planos, metas e ações governamentais em todas as esferas de governo (federal, estadual ou municipal) voltados para a resolução de problemas de interesse público – que podem ser específicos ou genéricos. Quando se diz interesses públicos genéricos estar-se-ia se referindo às Políticos Públicas voltadas a toda população indistintamente. Já quando se trata de Políticas Públicas específicas, estamos nos referindo a planos e ações governamentais para o atendimento de uma parcela específica da população notadamente por razões de sua denominada hipossuficiência (relação de dificuldade fática que demanda uma proteção específica). Também como dissemos na primeira semana, trata-se de mecanismos políticos e legais que corroboram o direito a igualdade com o fim específico de se garantir direitos e proteger a dignidade da pessoa humana. Portanto, mais especificamente as Políticas Públicas consistem em uma série de comandos a serem implantados buscando a preservação ou observância de direitos. Fato é que no presente cenário a educação brasileira tem diante de si o desafio de possibilitar o acesso e a permanência dos alunos com necessidades educacionais especiais na escola, na perspectiva inclusiva. 28 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No entanto, compreender quais são as políticas públicas de educação inclusiva em documentos legais é fundamental para identificar os avanços e retrocessos presentes no sistema educativo. A diretriz geral, por óbvio, é traçada pela Constituição Federal em seu artigo 205 que prescreve que “A Educação, direito de todos e dever do Estado e da Família será promovida a incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação de trabalho”. Oportuno mencionar que o dispositivo constitucional estabelece linhas gerais acerca do tratamento dado ao Estado à Educação, sem especificar ainda as questões que tocam a educação inclusiva. A partir do dispositivo constitucional extraímos duas informações importantes a saber. A primeira envolve os sujeitos responsáveis estabelecendo ser dever do Estado, mas fraqueando à sociedade a colaboração ao desenvolvimento da pessoa pela educação. Inicialmente já podemos destacar que o reflexo deste mandamento constitucional está no sentido de que são vários os atores envolvidos neste mister constitucional, inclusive possibilitando a inciativa privada a atuação na educação, nos mesmos moldes e obrigações impostas ao Poder Público. O segundo ensinamento que podemos extrair do texto constitucional está relacionado às mais variadas formas de promoção do ensino, sendo que o artigo subsequente da Constituição estabelece alguns princípios a serem seguidos, dentre eles o da igualdade de condições para acesso e permanência na escola, gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais, dentre outros. Já em relação a estes princípios podemos adiantar que referente à educação inclusiva que ganha lugar de destaque no direcionamento das Políticas Públicas da Educação, podemos destacar o princípio da igualdade de condições para acesso e 29 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância permanência na escola, o que por si só justifica um olhar destacado de programas e ações dada a sua peculiaridade. Com a finalidade de estancar qualquer dúvida a respeito da importância de se destacar Políticas Públicas Inclusivas na educação, o artigo 208, inciso III da Constituição Federal estabelece que o Dever do Estado com a Educação será efetivado mediante a garantia de atendimento educacional especializado aos “portadores de deficiência”, preferencialmente na rede regular de ensino. Em outra oportunidade criticamos a redação deste dispositivo na semana 1, quando lemos a palavra “preferencialmente”, sendo que naquela oportunidade destacamos também que a Constituição foi elaborada antes de discussões mais recentes sobre o tema, notadamente a Convenção de Salamanca. Independentemente desta controvérsia, podemos verificar que o primeiro destinatário do mandamento constitucional para Educação Inclusiva é o próprio Estado quando prescreve ser dever o “atendimento educacional especializado aos ‘portadores de deficiência’, preferencialmente na rede regular de ensino”. Indaga-se neste ponto quais são as Políticas Públicas voltadas à Educação Inclusiva? Notadamente aquelas advindas do Estado. Este atendimento educacional especializado direcionado às pessoas com deficiência é atendido a contento pelo próprio Poder Público? As indagações acima se justificam eis que é cediço que mesmo com uma farta legislação assegurando o direito a educação inclusiva como vimos na primeira semana, e por mais que a definição de pessoa com definição esteja em constante evolução, a atuação estatal em promover o ensino inclusivo está muito aquém do que determina as diversas leis sobre o tema. E quanto aos atores privados? As Instituições Privadas de Ensino cumprem com as diretrizes legais da educação inclusiva? As experiências demonstram que a resposta é igualmente negativa, eis que não obstante a legislação seja imposta igualmente aos atores privados, inúmeros são os motivos que impedem que as instituições privadas cumpram os mandamentos legais, seja em razão do desconhecimento da própria lei, ausência de 30 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância fiscalização dos órgãos estatais ou seja pela própria ausência de consciência da importância da educação inclusiva e sua consequente formação acadêmica adequada. Como vimos alhures, o papel do Estado na implantação e observância das Políticas Públicas inclusivas na educação deixa a desejar. Contudo, inegavelmente com relação à fiscalização dos órgãos estatais e da sociedade sobre ocumprimento dessas regras evoluiu de forma significativa. Assim, destacamos órgão como o Ministério Público, a Ordem dos Advogados do Brasil e as Associações que ultimamente tem se valido de suas prerrogativas funcionais a fim de valer-se de meios coercitivos para o cumprimento dessas leis. Isto porque mais que a simples previsão de Políticas Públicas voltadas à Educação Inclusiva, importante é o cumprimento das mesmas pelos seus destinatários. Visto este panorama geral acerca das Políticas Públicas da Educação e da Educação Inclusiva, resta agora analisarmos a sistemática de funcionamento destas premissas. O Plano Nacional de Educação previsto no artigo 214 da Constituição Federal, reafirmado pela Lei 9.394/96 estabelece instrumento político de Prioridades sistematizado pelo Governo Federal, por intermédio do Ministério da Educação que tem como função precípua a coordenação, controle e fiscalização. Na realidade, todo o contexto educacional é monitorado e controlado. Em partes é sugerido a escola exercer sua autonomia, mas por outro há o domínio por parte dos órgãos interessados em direcionar os passos da educação. Ocorre que as políticas, particularmente as políticas educacionais, em geral são pensadas e escritas para contextos que possuem infraestrutura e condições de trabalho adequada (seja qual for o nível de ensino), sem levar em conta variações enormes de contexto, de recursos, de desigualdades regionais ou das capacidades locais. 31 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Quando nos referimos às políticas públicas educacionais, é necessário considerar o papel do Estado, mesmo que não tenhamos a pretensão de desenvolver a discussão sobre sua natureza, apenas ressaltar sua importância fundamental para o entendimento do tema. Sabemos do caráter dominante, regulador e avaliador do Estado, que apresenta um discurso democrático, porém muitas vezes incompatível e antagônico às medidas tomadas em relação às exigências e necessidades educacionais. Isto fica claro quando, por exemplo, órgãos estatais como o Ministério Público fiscalizam as instituições privadas de ensino sobre o cumprimento das políticas públicas e educação inclusiva, mas não agem como mesmo rigor ao Poder Público, destinatário primeiro da norma. Por fim, em que pese a importância dos instrumentos normativos pretéritos, até mesmo os anterior à própria Constituição Federal, entendemos que o novo divisor de águas da Educação Inclusiva e suas Políticas Públicas é a recente Lei Brasileira de Inclusão (Lei n. 13.146/15) ou também denominado Estatuto do Deficiente em que prescreve um rol de 18 incisos voltados às metas estatais acerca das Políticas de Inclusão na Educação e que será objeto de um Estudo mais detido na nossa terceira semana de aula. 32 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. MAIS LEGISLAÇÃO – A EDUCAÇÃO BRASILEIRA DE INCLUSÃO E SUA APLICAÇÃO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Para CONTINUARMOS MAIS UM POUCO o estudo da Legislação Educacional Inclusiva, analisaremos com acuidade a recente Lei Brasileira de Inclusão, que dentre outros pontos, trata das políticas Públicas de Educação Inclusiva. O artigo 28 da referida lei determina que o Poder Público deve assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar ações de diversas naturezas, cabendo tanto às escolas Públicas e privadas obedecerem aos seguintes mandamentos. A implantação de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades, bem como o aprendizado ao longo de toda a vida. O aprimoramento dos sistemas educacionais, visando a garantir condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, por meio da oferta de serviços e de recursos de acessibilidade que eliminem as barreiras e promovam a inclusão plena. A criação de projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia. A oferta de educação bilíngue, em Libras como primeira língua e na modalidade escrita da língua portuguesa como segunda língua, em escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas, não se aplicando como obrigatoriedade às Escolas privadas. A adoção de medidas individualizadas e coletivas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência, favorecendo o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem em instituições de ensino. Desenvolvimento de pesquisas voltadas para o desenvolvimento de novos métodos e técnicas pedagógicas, de materiais didáticos, de equipamentos e de recursos de tecnologia assistiva. O planejamento de estudo de caso, de elaboração de plano de 33 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância atendimento educacional especializado, de organização de recursos e serviços de acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pedagógica de recursos de tecnologia assistiva. A participação dos estudantes com deficiência e de suas famílias nas diversas instâncias de atuação da comunidade escolar. A adoção de medidas de apoio que favoreçam o desenvolvimento dos aspectos linguísticos, culturais, vocacionais e profissionais, levando-se em conta o talento, a criatividade, as habilidades e os interesses do estudante com deficiência. A adoção de práticas pedagógicas inclusivas pelos programas de formação inicial e continuada de professores e oferta de formação continuada para o atendimento educacional especializado. A formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio. A oferta de ensino da Libras, do Sistema Braille e de uso de recursos de tecnologia assistiva, de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação. O acesso à educação superior e à educação profissional e tecnológica em igualdade de oportunidades e condições com as demais pessoas. A inclusão em conteúdos curriculares, em cursos de nível superior e de educação profissional técnica e tecnológica, de temas relacionados à pessoa com deficiência nos respectivos campos de conhecimento. O acesso da pessoa com deficiência, em igualdade de condições, a jogos e a atividades recreativas, esportivas e de lazer, no sistema escolar. A acessibilidade para todos os estudantes, trabalhadores da educação e demais integrantes da comunidade escolar às edificações, aos ambientes e às atividades concernentes a todas as 34 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância modalidades, etapas e níveis de ensino. A oferta de profissionais de apoio escolar e a articulação intersetorial na implementação de políticas públicas. Ao refletir sobre a abrangência do sentido e do significado do processo de Educação inclusiva, estamos considerando a diversidade de aprendizes e seu direito à equidade. Trata-se de equiparar oportunidades, garantindo-se a todos - inclusive às pessoas em situação de deficiência e aos de altas habilidades/superdotados, o direito de aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver. (CARVALHO, 2005). 35 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. A RESOLUÇÃO MEC CNE/CEB n.4 E A DIRETRIZ OPERACIONAL PARA O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Não obstante fortemente combatida a dicotomia de atendimento educacional à pessoa com deficiência e osalunos que não possuem qualquer tipo de deficiência, um importante instrumento para preparar a sistemática hoje recomendada e adotada, forma as Diretrizes do Atendimento Educacional Especializado – AEE da Educação Básica, consoante a Resolução n. 4/2009. Referida Resolução instituiu as diretrizes operacionais para o atendimento educacional especializado na educação básica, modalidade educacional especial. Afirma ainda a Resolução que o AEE deve ser oferecido no turno inverso da escolarização, prioritariamente nas salas de recursos multifuncionais da própria escola ou em outra escola de ensino regular. O AEE é um serviço prestado pela Constituição Federal e que, com a referida resolução, passou a ser normatizado. Segundo o documento em seu artigo 2º, trata-se de um serviço que tem como função complementar ou suplementar a formação do aluno por meio da disponibilização de serviços, recursos de acessibilidade e estratégias que eliminem as barreiras para sua plena participação na sociedade e desenvolvimento de sua aprendizagem. Como vimos alhures e segundo a Política Nacional o público alvo do AEE são os estudantes com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. 58 Legislação Educação Especial De acordo com as diretrizes do AEE, este deve integrar o projeto político pedagógico da escola, envolver a participação da família e ser realizado em contra turno. Importante destacar que o AEE não possui natureza substitutiva, mas sim complementar ou suplementar à escolarização comum. Para a oferta desse atendimento, devem ser disponibilizados professores para atendimento educacional especializado, profissional para atuar em atividades de apoio, tradutor e intérprete de Libras, guia intérprete, dentre outros. 36 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância https://novaescola.org.br/conteudo/554/os-desafios-da-educacao-inclusiva-foco- nas-redes-de-apoio Acesso em 16/12/2019 Muitos professores questionam a Educação Inclusiva por não entenderem realmente o papel do Atendimento Educacional Especializado. Infelizmente, ninguém contou para eles como deveria funcionar realmente o AEE: aspectos legais, quem atua, recursos e serviços oferecidos e quando é necessário recorrer ao Ministério Público para efetivar o atendimento ao aluno que mais precisa. Todo professor da escola regular já deve ter se perguntado: – Como vou dar conta de ensinar esse aluno se não tenho especialização nessa área? – Colocar um aluno com deficiência na sala de aula sem um professor especializado é exclusão e não inclusão. – Esse aluno não tem condições de acompanhar as aulas, ele precisa de uma ajuda especializada que eu não posso oferecer. Os argumentos continuam. Todos de alguma forma falam a respeito da necessidade de uma atenção especializada para o aluno com deficiência. Esses professores que pensam assim estão certos! Os alunos com necessidades especiais precisam de atendimento especializado. O que muitos desconhecem é que não é o professor da escola comum que precisa ser especialista na deficiência do aluno. Todo aluno no Brasil, desde a educação infantil até a educação superior, tem direito ao Atendimento Educacional Especializado (BRASIL, 2011). Esse atendimento deve ocorrer no contraturno escolar e irá beneficiar tanto o aluno quanto o professor da sala de aula comum. Se você deseja saber mais sobre Educação Inclusiva, recomendo meu post anterior chamado “O que é Educação Inclusiva: um passo a passo para a inclusão escolar”. O professor da sala de aula comum também precisa do AEE. Um professor de uma sala de aula comum que possui um aluno com necessidades educacionais especiais tem o direito por lei a um Atendimento Educacional Especializado, https://novaescola.org.br/conteudo/554/os-desafios-da-educacao-inclusiva-foco-nas-redes-de-apoio https://novaescola.org.br/conteudo/554/os-desafios-da-educacao-inclusiva-foco-nas-redes-de-apoio http://institutoitard.com.br/o-que-e-educacao-inclusiva/ http://institutoitard.com.br/o-que-e-educacao-inclusiva/ 37 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância pois o AEE precisa prover condições de acesso, participação e aprendizagem desse aluno no ensino regular (BRASIL, 2011). O especialista do AEE faz a ponte entre o aluno e o professor da sala de aula comum, permitindo uma troca de experiência que contribua nesse processo educacional e em todo o contexto escolar, bem como a inserção na sociedade. A lei diz que a oferta de educação especial (AEE) deve correr preferencialmente na rede regular de ensino. Isso quer dizer que o ideal é que a escola comum tenha uma sala de recursos multifuncionais e uma equipe especialista para oferecer o atendimento educacional especializado dentro da escola. (BRASIL, 2011). Segundo Mantoan (2003, p.23) “o ‘preferencialmente’ refere-se a ‘atendimento educacional especializado’, ou seja: o que é necessariamente diferente no ensino para melhor atender às especificidades dos alunos com deficiência, abrangendo principalmente instrumentos necessários à eliminação das barreiras que as pessoas com deficiência naturalmente têm para relacionar-se com o ambiente externo, como, por exemplo: ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras), do código braile, uso de recursos de informática, e outras ferramentas e linguagens que precisam estar disponíveis nas escolas ditas regulares”. Você já ouviu falar da professora Mantoan? Separei um e-book gratuito da Mantoan sobre educação inclusiva aqui para você. Como não é possível que todas as escolas do Brasil tenham uma sala de recursos para oferta do AEE, as escolas especiais e os centros especializados podem ficar responsáveis por realizar esse atendimento especializado. De uma forma ou outra, o importante é que todo aluno que possua necessidades educacionais especiais tenham acesso ao AEE. 6.1. O que é AEE e quais seus objetivos? O Atendimento Educacional Especializado é um serviço da Educação Especial para atender aos alunos que possuem necessidades educacionais especiais durante sua vida escolar. Seu objetivo é eliminar as barreiras que possam obstruir o processo de http://institutoitard.com.br/produto/livro-inclusao-escolar-o-que-e-por-que-como-fazer/ http://institutoitard.com.br/produto/livro-inclusao-escolar-o-que-e-por-que-como-fazer/ 38 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância escolarização de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. 39 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7. O PENSAR NA PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL Salas de recursos multifuncionais são ambientes dotados de equipamentos, mobiliários e materiais didáticos e pedagógicos para a oferta do atendimento educacional especializado que tem como objetivos: Prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular aos alunos com deficiência, transtornos. Como são organizadas as salas de recursos multifuncionais e qual o objetivo do Atendimento Educacional Especializado (AEE)? As salas de recursos multifuncionais são ambientes dotados de equipamentos, mobiliários e materiais didáticos e pedagógicos para a oferta do atendimento educacional especializado que tem como objetivos: Prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, matriculados na rede pública de ensino regular. Garantir a transversalidade das ações da educação especial no ensino regular. Fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as barreiras no processo de ensino e aprendizagem.Assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis de ensino. O conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos que caracterizam o Atendimento Educacional Especializado são organizados institucionalmente e prestados de forma complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino regular. A produção e distribuição de recursos educacionais para a acessibilidade incluem livros didáticos e paradidáticos em Braille, áudio e Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, laptops com sintetizador de voz, softwares para comunicação alternativa e outras ajudas técnicas que possibilitam o acesso ao currículo escolar. Como complementação deste tema, sugerimos que consulte o Decreto nº 7.611/11. Dentro da proposta de inclusão, as pré-escolas devem oferecer um espaço que proporcione diferentes dinâmicas e estratégias de ensino para todos e complementação, adaptação e suplementação curricular quando necessárias (BRASIL, 2006). A relação entre 40 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância a educação especial e a educação infantil na escola regular deve ocorrer em três formas de atendimentos que são complementares: momento individual, reservado para contatos e interação com a família e a avaliação do desenvolvimento da criança e suas condições de vida; momento grupal, destinado à intervenção propriamente dita com a criança, que é considerada mais eficaz quando as ações ocorrem em contexto grupal, propiciando interações e aprendizado entre as próprias crianças, além das interações entre a criança e o adulto, e trabalho conjunto com a família, de forma a fornecer o suporte necessário ao atendimento às necessidades cotidianas das crianças (OLIVEIRA; PADILHA, 2011). Ações do professor da sala de recursos multifuncionais... 83 Em documento mais recente (Nota Técnica SEESP/GAB n. 11/2010), verifica-se que os alunos com necessidades educacionais especiais (NEE) têm direito à educação realizada em classes comuns e ao atendimento educacional especializado (AEE) complementar ou suplementar à escolarização, que deve ser realizado preferencialmente em Salas de Recursos Multifuncionais (SRM) na escola onde estejam matriculados, em outra escola, ou em centros de atendimento educacional especializado, ressaltando-se que o AEE não possui caráter substitutivo à classe regular de ensino (BRASIL, 2010). De fato, de acordo com a lei n. 9.394/96, o AEE às pessoas com NEE deve ser ofertado, preferencialmente, na rede regular de ensino, quando for necessário para atender às necessidades específicas, sendo que a oferta destes serviços deve iniciar-se na educação infantil, ou seja, na faixa etária de zero a seis anos (BRASIL, 1996). Considera-se que a função do AEE seja de: identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas, sendo um complemento e/ou suplementação à formação dos alunos com vista à autonomia e independência na escola e fora dela (BRASIL, 2008a). Segundo o Ministério da Educação (MEC), as SRM, espaço destinado ao AEE, devem ser espaços organizados com materiais didáticos, pedagógicos, equipamentos e profissionais com formação para o atendimento às NEE (BRASIL, 2008a). Nelas, os professores devem considerar diversas áreas do conhecimento, os aspectos relacionados ao estágio de desenvolvimento cognitivo dos alunos, quais os recursos específicos para que ocorra seu aprendizado e as atividades de complementação e suplementação curricular (BRASIL, 2006). Quanto ao alunado do AEE, o decreto nº 41 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6.571/2008 os define como alunos com deficiências de natureza física, intelectual e sensorial, com transtornos globais do desenvolvimento (sendo inclusos nesta definição alunos com autismo clássico, Síndrome de 84 Fabiana Cia; Roberta Karoline Gonçalves Rodrigues Asperger, Síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância e transtornos invasivos sem outra especificação) e com altas habilidades/ superdotação (BRASIL, 2008b). É importante que o professor da educação infantil esteja aberto e disposto a realizar a escuta e acolhida dos desejos e das intenções, interpretar as expressões, os sentimentos, as diferentes formas de ação e comunicação. Para isso, o professor necessita do apoio e cooperação contínua da família para que juntos possam estabelecer estratégias que favoreçam o processo de desenvolvimento e aprendizagem dessas crianças (BRASIL, 2006). Os participantes receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, juntamente com uma explicação dos objetivos da pesquisa e do procedimento de coleta de dados. A coleta de dados foi realizada em três pré-escolas de um município de médio porte, do interior do estado de São Paulo. Para a realização da coleta de dados utilizou-se as dependências das SRM. Como instrumento foi utilizado um questionário para os Professores. Esse questionário foi elaborado com base em instrumentos já existentes (CIA; BARHAM, 2005; SANT’ANA, 2005), e teve por objetivo verificar a atuação do professor da sala de recursos multifuncionais, sendo composto por seis questões: 1) Descreva quais ações têm sido desenvolvidas com os professores da educação comum; 2) Como é a sua participação no conselho de classe e nas reuniões pedagógicas? 3) Descreva quais ações têm sido desenvolvidas com os pais do aluno atendido na SRM; 4) Você recebe as informações necessárias a respeito dos alunos com NEE por parte do professor da sala comum e da família do aluno atendido? 5) Possui contato com outras instituições que o aluno frequente ou outros profissionais que atendem o aluno? 6) Você daria alguma sugestão para melhorar a relação professor SRM X professor da sala comum e professor SRM X família? Antes de iniciar a coleta de dados, foi realizado um contato com a secretaria de educação do município alvo para autorização da pesquisa nas pré-escolas municipais. Em seguida, realizou-se um contato com a diretora e com os professores das SRM das pré-escolas, para explicar os objetivos da pesquisa e os procedimentos da coleta de dados. Neste 42 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância encontro foram estabelecidos os dias das coletas de dados e entregues o projeto de pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após longos períodos de tempo, buscava perguntar como o aluno estava em sala de aula e apresentava o que foi realizado na SRM, além de dar sugestões de ações e atividades. Com os professores que atuavam na mesma pré-escola onde trabalhava, a professora conversava com maior frequência, inclusive há um caso de colaboração em que ficava em sala junto com a professora e este tipo de serviço apresentava mais resultados que o atendimento separado. Trecho ilustrativo: É muito precário, eu falei duas vezes no semestre com os professores de dois alunos, quase nunca converso. As ações entre longos espaços de tempo eu pergunto como está e apresento os trabalhos que eu fiz aqui na sala e dou sugestões de ações e atividades. Com os professores aqui dessa escola mesmo, eu converso direto, porque eles estão aqui e tem até um caso de colaboração e eu fico na sala junto com ela, o que em minha opinião funciona bem mais. (Professora E). Ações do professor da sala. Atuação do professor de educação especial em SRM Uma das funções do professor de educação especial, atuante em SRM, é a de estabelecer articulação com o professor da sala de aula comum (MENDES, 2006), como previsto no art. 13 do decreto 6.571/2008 que dispõe sobre o AEE, para que se disponibilizem os serviços, recursos e estratégias que promovem a participação dos alunos nas atividades escolares(BRASIL, 2010). Por fazer parte da equipe educacional da escola é necessário que exista um contato permanente entre estes profissionais (MANZINI, 2011). No entanto, verifica-se que, embora necessário, este contato entre os professores é algo bem escasso. A resistência de alguns professores das salas comuns frente aos alunos com NEE pode evidenciar a falta de preparo mínimo destes para trabalharem com estas crianças, bem como a pequena contribuição, com relação a isto, que os professores de Educação Especial têm dado no ensino regular (MENDES, 2010), seja pela ausência ou pouca diretriz que os professores da educação especial têm para atuarem em parceria com os professores das salas comuns, seja pelo pouco tempo, dificuldade de contato com este professor ou mesmo quanto à localização da SRM. A falta de aceitação por parte de alguns professores pode estar relacionada com seu desconhecimento sobre alunos com 94 Fabiana Cia; Roberta Karoline Gonçalves Rodrigues NEE. Observa-se que há um consenso na literatura sobre esta necessidade de prover formação inicial para ensiná-los a criarem classes que acomodem as reais necessidades de seus alunos bem como incluir, além da questão teórica, a parte prática na 43 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância formação, principalmente com alunos ditos da Educação Especial (MENDES, 2010; VITALIANO; MANZINI, 2010). De acordo com Tartuci e Vieira (2011), a visão dos professores das salas comuns, está mais voltada à questão do direito, do que está previsto na legislação, mas que não está sendo garantido na realidade, ou seja, torna-se uma visão de prezar apenas pela socialização, sendo necessária prover condições para que isto mude, como o auxílio de outros profissionais. Esta provável falta de conhecimento sobre como lidar com os alunos com NEE, gera desestabilidade em relação à sua atuação profissional, sendo que estes, embora sejam responsáveis pelos encaminhamentos, não saibam quais características devem ser consideradas para que o aluno deva ser elegível para um atendimento mais especializado. O contato entre o professor da SRM e o da classe comum torna-se importante, pois este professor pode atuar na formação continuada dos demais professores por possuir maior contato com a área e ter mais subsídios teóricos e práticos, entretanto, o espaço para esta formação muitas vezes acaba resumindo-se ao tempo disponibilizado nas reuniões pedagógicas realizadas pela escola. Estas reuniões, segundo pesquisas, ainda são utilizadas de forma muito burocrática, com repasse de informações ou cursos previamente designados pela secretaria de educação que podem ser, muitas vezes, descontextualizados da realidade da escola (FONTES, 2009). Na pesquisa de Barreto e Gonçalves (2011), o espaço de planejamento pedagógico, aqui sinalizado como HTPC, foi visto como um local que permite um contato permanente, embora em um curto período de tempo, em que as professoras da educação especial podem trocar informações como sugestões de adaptações para o professor Ações do professor da sala de recursos multifuncionais... 95 da classe comum, disponibilização de material didático e até mesmo planejamento de atividades em conjunto. Embora exista o espaço, e parte das professoras se mostrem interessadas em utilizá-lo para realmente passar informações a respeito da área de educação especial, surge a questão de pensar o quão relevantes estas informações estão sendo para os professores das salas comuns, pois, se o contato entre eles é restrito, e em alguns casos inexistentes, as reais necessidades podem não ser contempladas. Uma das estratégias que foi apontada por algumas professoras, seria a de estabelecer parcerias com os professores das salas comuns, participando da aula e trabalhando com estratégias pedagógicas no contexto do aluno, em sala de aula, juntamente com o professor da sala comum. A literatura internacional e nacional (COOK; FRIEND, 1993; ASSIS, MENDES; ALMEIDA, 2011) tem apontado como uma estratégia para solucionar os problemas de ensino e aprendizagem e maximizar o desenvolvimento socioemocional dos alunos com 44 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância NEE, o trabalho colaborativo entre o professor do ensino comum e os professores de educação especial. Um dos modelos de serviços de apoio nesta direção é o de ensino colaborativo ou co-ensino. Neste modelo, um professor da sala comum e um professor especializado dividem a responsabilidade de planejar, instruir e avaliar o ensino. A emergência deste modelo ocorreu como uma alternativa para as salas de recursos, classes especiais ou escolas especiais, no sentido de garantir que todos os recursos que o aluno necessita devem acompanhá-lo no contexto de sala de aula comum. Na relação família e escola, sabe-se que a colaboração entre estes dois grupos se tornam importantes já que são os dois contextos ambientais de aprendizagem mais significativas para a criança, sendo que ambos terão uma influência decisiva na orientação de seu futuro pessoal (TOLEDO; GONZÁLEZ, 2007). Neste estudo, foram vistas relações que, quando consideradas ‘ideais’, demoram um longo período para se estabelecerem, pois é necessário para as famílias criarem laços de confiança com o professor da sala de recursos multifuncionais. As 96 Fabiana Cia; Roberta Karoline Gonçalves Rodrigues relações ditas pelos professores como ‘não ideais’ tendem a se manter assim, pois grande parte deles não apresenta sugestões de melhorias. Cria-se um ciclo vicioso de culpabilização em que nenhuma das partes quebra o ciclo definitivamente. Entretanto, é desejável que exista uma colaboração entre escola e família, que sugere uma relação em nível de igualdade, sendo que esta dificilmente ocorrerá se for mantida uma posição de especialistas por parte da escola que encara a família como meros aprendizes, ignorando todo o conhecimento que possuem sobre seus filhos. As famílias, quando se sentem ouvidas e acolhidas, se predispõem a participar mais ativamente e a ouvir e aprender (MENDES, 2010), ou seja, a relação entre família-escola poderá ser estabelecida quando estes dois âmbitos estiverem se expressando na mesma linguagem, com os mesmos interesses e buscando caminhar na mesma direção. Deve existir uma credibilidade e confiança mútua e uma estrutura de relação aberta, flexível e direta que permita adequar tanto a família quanto a escola à realidade da criança com NEE (TOLEDO, GONZÁLEZ, 2007). 45 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8. FORMAÇÃO PROFESSORES PARA ATUAREM NA EDUCAÇÃO BÁSICA E NA EE Quando falamos em Educação Especial e Inclusiva, o foco de implementação de qualquer política, aplicação de legislação e condução de resultados é sempre o professor. Esse profissional que, historicamente, tem pouco reconhecimento e salário frequentemente abaixo do “ideal” de mercado, tornou-se o grande herói – ou vilão – das salas de aula contemporâneas, com suas exigências altíssimas e sua predisposição à inclusão social e à criação de uma sociedade mais justa e evoluída. Quem é esse professor polivalente, ou multifacetado? Quais assuntos ele domina? Qual a sua formação acadêmica? Quanto ele realmente entende das necessidades especiais desses alunos? Há tempo hábil para atender todos os alunos e suas necessidades num dia escolar tradicional? Quem determina que um professor está apto para assumir essa posição? Há alguma forma de apoio que deve ser oferecida pelo governo e pela comunidade escolar? A comunidade escolar é um destes grupos e a escola um desses espaços. Espaço inclusivo que precisa ser criado, o que requer uma nova escola. Escola que atenda ao princípio da acessibilidade, com estrutura física, recursos materiais, financeiros e humanosadequados para receber o aluno com necessidades especiais, possibilitando a democratização do ensino a partir do acesso, permanência e de sua participação efetiva no processo de ensino-aprendizagem. Sartoretto (2006, p. 81) salienta que o respeito a diferença é condição “sine qua non” para a inclusão e que se traduz pela “adoção de práticas pedagógicas que permitam as pessoas com deficiência aprender e ter reconhecidos e valorizados os conhecimentos que são capazes de produzir, segundo seu ritmo e na medida de suas possibilidades”. Considerando-se a educação como um direito do homem e sua garantia fundamental para que as sociedades sejam mais justas, o que se afirma no Arquivo Aberto sobre a Educação Inclusiva, publicação da UNESCO apud Ferreira (2005, p. 44), concebe-se a inclusão educacional como um direito. Direito de acesso à educação básica de qualidade, 46 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância direito a uma escola, parte constituinte 6 de um sistema educacional, que atenda às necessidades educacionais de todos os alunos, inclusive daqueles com necessidades educacionais especiais, frequentemente excluídos das oportunidades educacionais. A inclusão se caracteriza como uma ampliação do acesso à educação a grupos excluídos historicamente desse direito em função de classe social, gênero, etnia, faixa etária e deficiência, o que garantiria a democratização do ensino. Ferreira (2005, p. 43) afirma que inclusão educacional é um termo utilizado em referência a todas as pessoas que foram, de alguma forma, excluídas no e do contexto escolar, pois não encontraram oportunidades para participar de todas as atividades escolares, ou se evadiram, foram expulsos ou suspensos, ou não tiveram acesso à escolarização, permanecendo fora da escola. Como alunos com necessidades educacionais especiais entende-se não só os alunos com deficiências, mas todos os alunos que apresentam necessidades especiais sejam estas de ordem social, econômica, política, cultural, que demandam mudanças e transformações no sistema educacional e, na escola como parte deste, de modo a garantir a aprendizagem. Também é preciso considerar que numa sociedade capitalista em que o que é direito e, que deveria ser garantido pelo estado, submete-se à lógica de mercado e passa a ser oferecido como um serviço privado, a escola não é igual para todos, além de não ser para todos. Há duas escolas básicas: uma que se destina aos filhos dos trabalhadores e, que em geral é pública; e uma que se destina a uma elite que pode pagar pelo ensino de seus filhos, e que é privada. Tanto uma quanto a outra atendem aos interesses do capital e não aos sociais, sendo que a segunda o faz de maneira mais contundente, afirma Salvador (2006, p. 14). 47 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9. CURIOSIDADES Porque respeitar a diversidade? Não há nada melhor para sabermos se as nossas ideias são claras do que tentar transmiti-las e explicá-las a alguém que esteja fora do contexto em que habitualmente elas circulam. Há muito que costumo dizer aos meus estudantes de investigação que o tema que se procura investigar só está “maduro” quando o conseguirmos explicar a uma criança de dez anos. Vem isto a propósito de uma pessoa conhecida que, quando lhe explicava o meu interesse pela educação inclusiva, me disse um pouco espantado: “Mas eu pensava que o papel da escola era reduzir a diversidade em lugar de a respeitar! ”. Tentei argumentar que não: a ideia era que a escola reconhecesse as diferenças entre os alunos – diferenças de maturidade, de forma de aprender, de culturas familiares e comunitárias, etc. – não para acabar com as diferenças mas para, respeitando-as, contribuir para formar cidadãos mais competentes. Este episódio convidou-me a refletir sobre este assunto do respeito pela diversidade. E desta minha reflexão compartilho três aspetos: 1) Qualquer pessoa (isto inclui obviamente as crianças…) tem uma representação sobre o mundo. Esta representação pode ser influenciada por muitos fatores: o conhecimento, as emoções, a socialização, a experiência, etc. As representações são por natureza pessoais e extremamente diversas. A questão é: esta diversidade de representações é um erro? Há uma certa e outras erradas? Eu diria que em situações muito estritas (p. ex. a teoria heliocêntrica) há uma verdade aceite que se impõe a representações erradas. Mas isto só em situações muito restritas. A criança desenvolve representações únicas e estas representações estão sempre certas em função das variáveis que ela sente, conhece, experimenta, etc. Respeitar esta diversidade de representações é essencial para desenvolver projetos de aprendizagem bem-sucedidos. 2) Se todos são diferentes todos têm que ser ensinados diferentemente? Claro que não. Pensar que a diferença na aprendizagem implica uma inconciliável diferença no ensino conduz-nos a um impasse irresolúvel: não é possível aprender em grupo. Os grupos humanos (tais como uma classe) sendo diferentes, podem (e devem) aprender conjuntamente. Sempre conjuntamente e sempre em grande 48 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância grupo? Isso não: precisamos para respeitar a diversidade de proporcionar aos nossos alunos oportunidades de aprendizagem diversas: teóricas, práticas, verbais, não-verbais, experienciais, de observação, em pares, em pequeno grupo, em grupo de projeto em grupo de nível, etc. Ensinar alunos diversos sempre da mesma maneira é um absurdo. 3) A diversidade tem a ver com o respeito pelos outros. Pensar que quem não pensar de uma certa maneira pensa necessariamente mal é uma falta de respeito pelos outros (isto inclui obviamente as crianças). Respeitar os outros é procurar entender (entender mesmo) porque pensam de uma certa forma, entender quais os valores que estão subjacentes a atitudes, a (in)segurança, a valores... Ter respeito pela diversidade não significa tomar como certo o bom tudo o que a diversidade nos traz. A ignorância, muitas tradições, a “ordem social”, o fundamentalismo e tantos outros fatores constituem verdadeiros obstáculos à diversidade. Ao fim e ao cabo, quem precisa de respeito não é a diversidade: são os percursos de cada pessoa (isto inclui obviamente as crianças) e, para respeitarmos os outros, nada melhor que assumirmos uma atitude de humildade perante as certezas que temos. Essas certezas são certamente úteis para organizarmos a nossa vida, mas são certamente bem menos úteis para ajudar os outros a organizarem a vida deles. David Rodrigues - Coordenador da Pró- Inclusão Curiosidades - A cada ano, aumenta o número de pessoas com deficiência em salas de aula comuns: entre 2005 e 2015, o salto foi o equivalente a 6,5 vezes, de acordo com o Censo Escolar, do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). O total subiu de 114.834 para 750.983 estudantes especiais convivendo com os demais alunos. O aumento captado no estudo reflete, de acordo com especialistas, sobretudo mudanças na legislação. A mais recente delas foi endossada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em junho, confirmando a proibição de escolas cobrarem taxas extras nas mensalidades das crianças com deficiência. Em um cenário onde os colégios exclusivos para alunos especiais perdem espaço, a experiência de mães como Elaine Alves e Edna Azevedo mostra que a inclusão traz benefícios, mas ainda enfrenta obstáculos para ser plena. 49 Legislação Educação Especial Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Os dados do Inep, órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC), apontam que no ano passado, eram, ao todo, 930.683 alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altashabilidades/superdotação no ensino regular e no EJA (Educação de Jovens e Adultos). Destes, 81% estavam em escolas e salas comuns e 19% nos colégios ou salas exclusivas para pessoas com deficiência. Em 2005, o quadro era bem diferente: 492.908 pessoas com necessidades especiais estudavam no país – apenas 23% no ensino comum e 77% em escolas especiais. De acordo com Maria Teresa Mantoan, professora do curso de pós-graduação em educação na Unicamp e coordenadora do Leped (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença), o avanço da inclusão escolar pode ser explicado tanto por políticas públicas como por leis e mudança de mentalidade da população. Mãe de uma menina de 8 anos com autismo, Elaine Alves diz que a filha tem se desenvolvido mais ao conviver com amigos no Colégio Free World, escola particular em São Paulo. Para ela, Mariana avançou na capacidade de socialização, uma das maiores dificuldades dos autistas. Por meio da parceria entre escola e família, os professores adaptam o conteúdo das disciplinas de acordo com o desempenho da aluna. “A Mari tem problema na coordenação motora fina, então são utilizadas letras móveis, sílabas. Ela já está reconhecendo palavras inteiras – sabe diferenciar 'manta' de 'manga', por exemplo”, conta Elaine. Edna Azevedo, mãe de Leticia, de 10 anos, elenca os benefícios da inclusão sentidos por sua filha, que tem síndrome de Down e estuda na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Celso Leite Ribeiro Filho, em São Paulo. “Convivência, dinamismo, independência, o fazer de amizade. Ela desenvolveu melhor a fala”, conta.