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As Primeiras reações contra a metrópole Introdução A ação dos brasileiros contra o domínio estrangeiro, em especial o dos holandeses, deu início à formação de uma consciência nacional, de uma identidade própria, diferenciada em relação aos portugueses do reino, detentores de privilégios. Os colonos descobriram que Portugal fazia clara distinção entre os portugueses nascidos em Portugal e os portugueses nascidos no Brasil. Apesar de a colônia gerar as riquezas que sustentavam a metrópole, os colonos começaram a perceber que, para o reino, eles se constituíam em uma espécie de “cidadãos de segunda classe”. Aos poucos, essa percepção foi se tornando mais clara: quanto mais os colonos produziam, mais a metrópole exigia. Em época de crise, Portugal criava mecanismos cada vez mais rigorosos para controlar e fiscalizar de perto o pagamento de impostos. As primeiras ações coloniais contra a metrópole chamadas de movimentos nativistas, foram de caráter regional e de cunho econômico. Não se questionava a independência política, mas exigia-se a liberdade econômica com o fim de monopólios comerciais regionais. Foram denominadas de nativistas por terem sido realizadas pelos colonos que já se identificavam com a terra, a qual lhes garantia o sustento e a fortuna. Por nativismo entende-se amor à terra. Antes da eclosão dos movimentos nativistas propriamente ditos, houve, na colônia, duas manifestações que podemos considerar como precursoras. São elas: Aclamação de Amador Bueno – SP – 1641 A primeira manifestação contra Portugal ocorreu em São Paulo, em 1641. Um ano antes, a União Ibérica havia sido desfeita e muitos bandeirantes paulistas se recusaram a aceitar a restauração da monarquia portuguesa no país, pois a separação de Portugal em relação à Espanha significava o retorno da linha demarcatória estabelecida no Tratado de Tordesilhas. Amador Bueno, bandeirante paulista, foi aclamado rei de São Paulo, mas não aceitou e, para escapar da ira da população, acabou se refugiando em uma igreja. Com a recusa, a vila de São Paulo retomou sua normalidade após prestar juramento de fidelidade ao novo rei D. João IV. Aclamação de Amador Bueno Insurreição Pernambucana- 1645-1654 Uniu brancos, negros e índios em defesa da terra contra os invasores holandeses, enquanto a metrópole negociava com a Holanda uma indenização pela devolução do Nordeste. Em 1654, na Campina da Taborda, os holandeses sofreram sua última derrota e se dirigiram às Antilhas, onde começaram a fazer concorrência ao açúcar brasileiro. Insurreição Pernambucana As primeiras reações contra a metrópole: Beckman e Mascates A Revolta de Beckman – MA – 1684 A situação econômica de Portugal pós-domínio espanhol era extremamente precária. O açúcar perdeu mercado para a produção antilhana, as despesas com a restauração dinástica arruinaram os cofres públicos, Portugal indenizou a Holanda pela perda do Nordeste e assinou com a Inglaterra o Tratado de Methuen, em retribuição à ajuda prestada por esses países contra a Espanha. Para reequilibrar suas finanças, Portugal resolveu aumentar o controle sobre o Brasil, criando em 1649, a Companhia Geral do Comércio do Brasil, que passou a deter o monopólio do comércio na Colônia. Com isso, os colonos eram obrigados a pagar um valor alto pelas mercadorias europeias e a aceitar um preço mínimo pelos produtos coloniais. Além disso, eram obrigados a comercializar somente com essa companhia, o que gerou um clima de grande descontentamento no Brasil. A região maranhense produzia tabaco, algodão e cana, utilizando mão de obra escrava indígena devido ao alto preço do escravo africano. Havia naquela região muitas concentrações de indígenas “domesticados”, aculturados, nas missões jesuíticas. Na região amazônica, em troca da catequese, a Igreja ganhou o direito de explorar as drogas do sertão, utilizando em sua coleta a experiência e o conhecimento indígenas. Os colonos, necessitando de mão de obra, atacavam as missões, aprisionavam os índios e os utilizavam como escravos nas plantations. Essa disputa pela mão de obra e a destruição de missões provocaram, na região, grandes conflitos entre colonos e jesuítas. Para acalmar os ânimos, a Coroa criou, em 1682, a Companhia de Comércio do Maranhão e Grão-Pará. Tinha a finalidade de abastecer o mercado de mão de obra – 500 negros por ano durante 20 anos, totalizando 10 mil africanos – e de mercadorias europeias – vinho, bacalhau, azeite. Em troca, recebia o monopólio dos produtos coloniais. Os preços abusivos praticados pela Companhia de Comércio e o não cumprimento em relação ao fornecimento de escravos revoltaram os grandes proprietários de terra, liderados pelos irmãos Tomás e Manuel Beckman. Os rebeldes chegaram a tomar o poder local, prendendo oi governador, e expulsaram os jesuítas, vistos como inimigos. O povo aproveitou o momento e invadiu os armazéns da Companhia, saqueando-os. A repressão oficial foi imediata e violenta: os líderes foram presos e executados e os jesuítas retornaram à região gozando de mais poder ainda. Revolta de Beckman Guerra dos Mascates – PE – 1710-1711 Os comerciantes de Recife, em sua maioria portugueses, eram chamados de mascates pelos senhores de engenho de Olinda. Olinda era a capital de Pernambuco e sede dos senhores de engenho, enquanto Recife era um bairro de Olinda, com casas comerciais. Durante o domínio holandês, Recife tornou-se um importante centro comercial.Nassau modernizou o porto e embelezou a cidade com grandes projetos arquitetônicos (palácios, teatros e pontes que passavam por sobre os rios). Esses melhoramentos impulsionaram a vida econômica e pelo porto de Recife era realizada a maior parte das exportações e importações. À medida que o comércio se desenvolvia, os portugueses se enriqueciam e, aos poucos, o bairro começou a ser mais importante que a cidade. Com a expulsão holandesa, instalou-se a crise do açúcar e os senhores de engenho de Olinda perderam seu poder econômico. Para continuar a manter seu antigo estilo de vida, os olindenses passaram a fazer empréstimos a juros altíssimos, endividando-se com os comerciantes portugueses de Recife. Aos poucos, essa dívida dos senhores de engenho com os comerciantes portugueses, tornou-se impagável. Os portugueses, para reaverem seus empréstimos, ameaçaram tomar as propriedades e os escravos dos brasileiros. Para isso, era necessária a aprovação da Câmara Municipal, composta pelos senhores de engenho, os homens-bons, da qual os portugueses não podiam participar devido ao fato de não pertencerem a esse grupo social. Nesse impasse, a Coroa resolveu separar Recife de Olinda, em 1710, numa demonstração de apoio aos comerciantes portugueses e de consideração à importância econômica de Recife para a Capitania, em detrimento da capital Olinda. Os senhores de engenho se sentiram prejudicados, pois a arrecadação de impostos iria sofrer um decréscimo violento sem a renda do comércio de Recife, e se revoltaram contra o apoio de Portugal aos “mascates” de Recife. Utilizando como pretexto a definição dos limites entre Olinda e Recife, os senhores de engenho declararam guerra aos mascates. Os comerciantes portugueses receberam apoio da metrópole, derrotaram Olinda e Recife tornou-se a capital de Pernambuco. Mineração, Guerra dos Emboabas e Revolta de Vila Rica A descoberta de ouro e de diamantes Ao final do século XVII, as bandeiras de prospecção organizadas pelos paulistas obtiveram sucesso: encontraram ouro na região de Minas Gerais. Para lá correu gente de todas as partes do Brasil e também de Portugal, gente que sonhava ficar rica rapidamente. De acordo com a legislação vigente, toda descoberta de minérios deveria ser imediatamente comunicada à Coroa e a cada notícia de nova região aurífera mais aventureiros surgiam. Estima-se que mais de 600 mil pessoas tenham chegado à região mineira entre o final do século XVII ea primeira metade do século XVIII. Além da possibilidade de enriquecimento rápido, concorreu para isso o fato de a atividade não exigir grandes investimentos como os exigidos na atividade agrícola. A própria pessoa podia explorar os leitos de rios e as encostas dos morros. Para explorar o ouro na região, os mineradores dispunham de duas formas: A faiscação requeria poucos gastos. A exploração era realizada individualmente, por brancos pobres e escravos, peneirando-se a areia do fundo dos rios e riachos com a bateia, uma espécie de peneira. Os escravos eram obrigados a entregar uma parte ao seu dono. Se tivessem sorte, podiam até comprar sua liberdade. Faiscação As lavras eram minas maiores, que exigiam investimentos em equipamentos e onde o trabalho era realizado por escravos africanos, organizados sob a supervisão de mineradores especializados. A exploração de diamantes requeria um pouco mais de tecnologia. Para controlar a exploração aurífera, a metrópole criou, em 1702, a Intendência das Minas, que tinha as seguintes incumbências: Dividir a área mineradora em lotes denominados de datas. O descobridor tinha o direito de escolher primeiro, depois o governo e, em seguida o chefe da Intendência. O restante era leiloado. Para participar do leilão, o pretendente deveria possuir um número determinado de escravos. Essa exigência prejudicava os paulistas, que, muitas vezes não tinham recursos para a aquisição de escravos e ficavam fora do leilão. b. Enviar funcionários para a cobrança dos impostos, especialmente o quinto de todo o ouro extraído pelos mineradores, ou seja, a quinta parte (20%) era do rei. A descoberta aurífera e a rígida fiscalização exercida pela metrópole deram origem a dois movimentos: Guerra dos Emboabas e Revolta de Vila Rica. A Guerra dos Emboabas (1707-1709) Os bandeirantes paulistas, descobridores do ouro e dos diamantes, sentiam-se donos das regiões mineiras. A notícia da descoberta se espalhou e atraiu milhares de pessoas, incluindo os funcionários do governo encarregados de fiscalizar e cobrar impostos. Vieram também os reinóis e os senhores de engenho, que possuíam uma situação econômica bem melhor que a dos paulistas: dispunham de recursos para comprar escravos e calçados. Devido ao uso de botas pelos forasteiros, os paulistas, pobres e descalços, apelidavam-nos de emboabas, que, em tupi, significa “ave de perna emplumada”. Os paulistas ficavam cada vez mais em desvantagem, principalmente após a Coroa estabelecer a posse de um número mínimo de escravos para poder participar dos lances nos leilões. Os paulistas exigiam da Coroa a reserva da região mineira para eles, mas isso não interessava à metrópole, porque, quanto maior fosse o número de exploradores, maiores seriam a produção e a arrecadação de impostos. As rivalidades entre paulistas e forasteiros (emboabas) cresciam a cada disputa pela área aurífera, chegando às vias de fato em 1707. Um dos confrontos mais violentos se deu quando os emboabas, em maior número e mais bem equipados, conseguiram cercar os paulistas e prometeram deixá-los livres se eles se rendessem. Os paulistas se renderam, mas os emboabas, ao invés de cumprirem a promessa, abriram fogo, massacrando-os. O local do massacre passou a ser conhecido como “Capão da Traição”. Esse episódio aumentou a revolta dos paulistas e a ele se seguiram novos enfrentamentos entre os grupos rivais. Após sucessivas derrotas, os paulistas se retiraram da região, adentrando mais ainda o interior, onde descobriram novas jazidas de ouro e diamante em Mato Grosso e Goiás. Em 1709, a Coroa portuguesa criou A Capitania de São Paulo e das Minas do Ouro (atual Minas Gerais) para exercer um controle mais eficiente sobre a exploração mineradora. Guerra dos Emboabas O enrijecimento do controle fiscal A fiscalização sobre a produção e a cobrança de impostos realizada pela Intendência das Minas, que instituíra o pagamento do quinto para o Tesouro Real, não conseguiu evitar o contrabando. Este era intenso e os mineradores inventaram o famoso “santo do pau oco”, que era uma imagem de santo, talhada em madeira, mas vazia (oca) por dentro e preenchida com ouro em pó. Os mineradores levavam o “santo” para fora da área mineira e negociavam o conteúdo com os contrabandistas. Santo do pau oco Os escravos também ocultavam parte da produção, utilizando seu cabelo crespo para esconder o ouro e também engolindo pedras de diamantes ou pepitas, mas, quando este último artifício foi descoberto, muitos senhores passaram a colocar neles, durante o trabalho, uma mordaça de ferro, que só era retirada no momento de beber água e comer. O governo português instituiu as Casas de Fundição, com a finalidade de aumentar a arrecadação dos impostos para a Coroa. Depois disso, os mineradores eram obrigados a entregar todo o ouro extraído para as Casas de Fundição, onde era fundido (derretido), transformado em barras, carimbado com o selo real e “quintado”, isto é, retirado o quinto. Estabeleceu-se a proibição de circulação de ouro em pó ou em pepitas, pois o selo na barra de ouro era a prova de que o imposto fora pago. O infrator podia perder seus bens e ser degredado para a África. Este endurecimento da política fiscal metropolitana sobre o ouro provocou nova revolta. A Revolta de Vila Rica- 1720 A criação das Casas de Fundição, 1719, e a obrigatoriedade do selo real carimbado nas barras de ouro provocaram uma violenta reação entre os mineradores, principalmente em Vila Rica, atual Ouro Preto. Como o governo criara apenas quatro Casas de Fundição na região, os mineradores eram obrigados a vencer grandes distâncias para entregar o ouro para ser “quintado”, o que não era muito seguro. Liderados por Felipe dos Santos, os mineiros se dirigiram à casa do governador em Ribeirão do Carmo, a então capital, e exigiram a extinção das Casas de Fundição e a redução dos impostos sobre o ouro. O governador prometeu atender às exigências e os rebeldes se acalmaram e se dissolveram. Aproveitando o momento, o governador, conde de Assumar, invadiu Vila Rica, incendiou casas e prendeu os líderes da revolta, entre eles Felipe dos Santos. Felipe dos Santos teve os membros do corpo amarrados a quatro cavalos, que, ao serem chicoteados, lançaram-se a galope em direções opostas, esquartejando-lhes o corpo. Sua cabeça foi fincada no pelourinho da cidade e pedaços do corpo foram colocados em estacas espalhadas pelas principais estradas da região. Revolta de Vila Rica Após a repressão, a metrópole separou a Capitania de São Paulo da Capitania de Minas do Ouro, para exercer uma fiscalização ainda maior sobre a região que lhe fornecia os recursos para o pagamento de suas dívidas externas com a Inglaterra. A Coroa portuguesa criou um novo imposto: a capitação. Imposto sobre cada pessoa que trabalhava na extração aurífera. A obrigatoriedade da colônia em contribuir com 100 arrobas de ouro por ano como imposto mínimo. Caso esse imposto não fosse pago, havia a ameaça da “derrama”, que era a cobrança violenta dos impostos atrasados por meio de prisões e confisco de bens do devedor. Consequências do ciclo minerador Políticas O ciclo do ouro no Brasil promoveu uma grande interiorização da colonização portuguesa. Vilas e arraiais surgiam em torno da área mineradora ou dos caminhos que levavam às Minas Gerais, ligando a região mineradora ao Nordeste, ao Sul e ao litoral, deslocando o eixo econômico colonial do Nordeste para o Sudeste. Para a eficácia do controle sobre a região de Minas e Centro-Oeste, a capital foi transferida para o Rio de Janeiro, de onde partia o ouro para a Europa. Foram criadas novas capitanias, como as de São Paulo (1709), Minas Gerais (1720), Goiás e Mato Grosso (1748). A Guerra dos Emboabas e a Revolta de Felipe dos Santos lançaram a ideia de liberdade e a consciência de que somente com a independência política em relação a Portugal os brasileirosatingiriam a liberdade econômica. Econômicas Na região das Minas Gerais, o ouro e o diamante promoveram uma grande dinamização do mercado interno, interligando várias regiões brasileiras. Durante o ciclo da mineração, a grande beneficiada foi a Inglaterra, como pagamento das mercadorias importadas por Portugal: tecidos, calçados, louças, ferramentas. Na região das minas toda a capacidade produtiva era dirigida à exploração de ouro. Os engenhos decadentes do Nordeste passaram a fornecer escravos, gado e alimentos para aproveitar a febre do ouro. Para abastecer esse mercado, a pecuária dos Pampas Gaúchos recebeu grande impulso e passou a fornecer carne e animais de transporte, como burros e mulas. Os tropeiros transportavam mercadorias pelo Brasil, entre regiões mineradoras, desenvolvendo o mercado interno. Sociais A sociedade mineradora caracterizou-se pelo urbanismo, dando origem a várias cidades – Ouro Preto, Sabará, Mariana, Cuiabá, Diamantina – e fez surgir uma série de camadas intermediárias entre o senhor das minas e o escravo. Surgiram assim comerciantes, ferreiros, vendedores ambulantes, funcionários públicos, policiais, artesãos, formando uma grande classe média urbana que não vivia da mineração, mas em função dela. A grande maioria era constituída por pobres que iam para a região das minas buscando uma nova alternativa de vida. Muitos negros fugiam das minas e das beiras dos rios para as montanhas, engrossando os vários quilombos que se formaram na região. Alguns escravos se libertaram dos senhores e até mesmo se integraram à sociedade colonial, enriquecendo-se e possuindo escravos, como foi o caso de Chico Rei e Chica da Silva Mas, a vida deles continuava nas mãos dos brancos, perpetuando sua exploração e seu sofrimento.