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TCC - MATEUS LEÃO DE MORAES - IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE EDIÇÃO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPRCAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

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FACULDADE UNINASSAU TERESINA
DIREITO
MATEUS LEÃO DE MORAES
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE EDIÇÃO DE GENES
DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.
Teresina
2021
Mateus Leão de Moraes
IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE EDIÇÃO DE GENES
DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como
requisito parcial para conclusão do curso de DIREITO da
FACULDADE UNINASSAU TERESINA
Teresina
2021
Ficha catalográfica gerada pelo Sistema de Bibliotecas do REPOSITORIVM do Grupo SER EDUCACIONAL
M827i
Moraes, Mateus Leão de. 
 Implicações Éticas e Legais da Aplicabilidade da
Tecnologia de Edição de Genes Dirigidos Por Crispr/cas9
Sob a Luz do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. /
Mateus Leão de Moraes. - UNINASSAU: Teresina - 2021
 21 f.
 TCC (Curso de Direito) - Faculdade Uninassau Teresina -
Orientador(es): M.sc. Marcelo Leandro Pereira Lopes
 1. Biossegurança. 2. Crispr/Cas9. 3. Dignidade. 4. Ética.
5. Genes Dirigidos. 6. Crispr/Cas9. 7. Biosafety. 8. Dignity.
9. Ethics. 10. Gene Drive. 
I.Título 
II.M.sc. Marcelo Leandro Pereira Lopes
UNINASSAU - TER CDU - 34
1 
 
IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE 
EDIÇÃO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO 
DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. 
 
LEGAL ETHICAL IMPLICATIONS OF THE APPLICABILITY OF CRISPR/CAS9 
DRIVE GENE EDITING TECHNOLOGY IN LIGHT OF THE PRINCIPLE OF HUMAN 
PERSON DIGNITY. 
 
 
Mateus Leão De Moraes 
1
 
Marcelo Leandro Pereira Lopes 2 
 
RESUMO 
 
Este projeto tem o objetivo de apresentar importância da discussão ética acerca das 
implicações da técnica de edição genética correlacionando à Lei de Biossegurança 
Brasileira e à Constituição de 1998. A premissa é que os evidentes e futuros 
avanços da técnica de edição genética ―Gene dirigido por CRISPR/ CAS9‖ devem 
ser discutidos apropriadamente com a comunidade científica e a comunidade 
legislativa, para que estes métodos sejam recepcionados adequadamente pela 
legislação brasileira, de forma a balizar e conter possíveis desvios inapropriados dos 
resultados práticos de sua aplicação social. O objetivo geral é analisar como o 
princípio da dignidade da pessoa humana se aplica á regulação do tratamento de 
Organismos Geneticamente Modificados por Genes Dirigidos CRISPR/CAS9, além 
de lançar uma contribuição teórica acerca da relevância científica e social da 
técnica, dentro do contexto do Biodireito. Os objetivos específicos são definir 
historicamente a Tecnologia Gene Drive (GENES DIRIGIDOS) POR CRISPR/CAS9, 
descrever seus potenciais alcances tecnológicos, analisar as correlações éticas e 
legais com o princípio da dignidade da pessoa humana quanto à Edição Genética, 
para uma melhor e mais embasada aplicação prática. No que se refere aos efeitos 
legais, evidenciar como é necessária uma maior cobertura legal da Lei de 
Biossegurança relativa à regulação da tecnologia. Trata-se, de pesquisa descritiva, 
bibliográfica com embasamento teórico de Diniz (2017), Isaacson (2021), Zatz 
(2012), além de outros. 
 
 
Palavras Chave: CRISPR/CAS9, Genes Dirigidos, Ética, Dignidade, Biossegurança 
 
 
 
1
 Aluno da Instituição de Ensino Superior Centro Universitário Maurício de Nassau 
2
 Professor da Instituição de Ensino Superior Centro Universitário Maurício de Nassau e Orientador 
2 
 
 
ABSTRACT 
 
This project aims to present the importance of the ethical discussion about genetic 
editing techniques correlating to the Brazilian Biosafety Law and the 1998 
Constitution. The premise is that the evidence and future advances in the genetic 
editing technique ―Gene driven by CRISPR / CAS9 ‖must be properly discussed with 
the scientific community and the legislative community, so that these methods are 
accepted by Brazilian legislation, in order to delimit and contain possible 
inappropriate deviations from the practical results of their social application. The 
general objective is to analyze how the principle of human dignity applies to the 
regulation of the treatment of Genetically Modified Organisms by CRISPR / CAS9 
Directed Genes, in addition to launching a theoretical contribution from the scientific 
and social specialty of the technique, within the context of Biolaw. The specific 
objectives are to historically define the Gene Drive Technology (GENES DIRECTED) 
BY CRISPR / CAS9, characterizing its potential technological reach, analyzing the 
ethical and legal correlations with the principle of human dignity regarding Genetic 
Editing, for a better and more grounded practical application. With regard to legal 
effects, show how greater legal coverage of the Biosafety Law is needed regarding 
the updating of technology. It is a descriptive, bibliographical research with 
theoretical basis by Diniz (2017), Isaacson (2021), Zatz (2012), among others. 
 
Keywords: Crispr/Cas9, Gene Drive, Ethics, Dignity, Biosafety 
 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 
Levando em conta o surgimento de uma tecnologia que permite a edição 
genética de seres vivos denominada como CRISPR (Clustered Regularly 
Interspaced Short Palindromic Repeats - Repetições Palindrômicas Curtas 
Agrupadas e Regularmente Interespaçadas) e seu potencial uso para fins diversos, 
este projeto tem a finalidade de expor a importante discussão ética acerca das 
implicações da utilização desta técnica em embriões humanos correlacionando à Lei 
de Biossegurança Brasileira e à Constituição Federal de 1998. 
Desta forma, o tema deste Projeto, a saber; ―Implicações Éticas E Legais Da 
Aplicabilidade Da Tecnologia De Edição De Genes Dirigidos Por CRISPR/CAS9 Sob 
A Luz Do Princípio Da Dignidade Da Pessoa Humana.‖ foi visado a finalidade de 
lançar uma luz de fundamentação teórica sobre o tema em questão para uma 
discussão normativa mais profunda acerca das implicações da existência desta nova 
tecnologia. Por isso, ficou delimitada a avaliação das implicações éticas da 
aplicabilidade da tecnologia CRISPR na edição genética, tomando por base no Art. 
1º, III, Art. 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e os 
cuidados na Lei de Biossegurança em seu Art. 14, XVI, no tocante ao princípio da 
dignidade da pessoa humana. 
Diante disso, a pesquisa partiu da elaboração do seguinte problema: Levando 
em conta as consequências imprevisíveis do avanço da Tecnologia de Edição 
Genética, como o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve se relacionar 
com a regulamentação legislativa sobre a aplicação prática da técnica de genes 
dirigidos por CRISPR/CAS9 e no Brasil? 
O projeto possui como objetivo geral analisar como o Princípio da Dignidade 
da Pessoa Humana se aplica à regulação do tratamento de Organismos 
Geneticamente Modificados e às possíveis implicações da Tecnologia de Edição 
Genética denominada como CRISPR, além de lançar uma contribuição teórica 
acerca da relevância científica e social da técnica, dentro do contexto do Biodireito. 
Para o alcance do objetivo geral, se tornou necessária a realização dos seguintes 
objetivos específicos: definir a tecnologia CRISPR trançando seu contexto histórico 
dissecando seus potenciais alcances tecnológicos; analisar de maneira 
principiológica como o Biodireito e a Bioética que se aplicam no tratamento da 
4 
 
tecnologia e definir o princípio da Dignidade da Pessoa Humana ao relacioná-lo com 
a Lei de Biossegurança no intuito de prevenir atos administrativos imprudentes no 
tratamento da tecnologia Genes Dirigidos (Gene Drive) por CRISPR/CAS9 
evidenciando como é necessária uma maior cobertura legal da Lei de Biossegurança 
quanto á regulação da tecnologia CRISPR. 
Nessa perspectiva, o estudo se justificou pelo fato de que a recente 
descoberta desta Técnica de Edição gênica abriu amplos leques de possibilidadespara aplicações práticas no campo da biomedicina, agricultura, biofarmacêutico 
tanto ao tratamento e prevenção quanto à cura de doenças, assuntos esses que 
devem ser diametralmente fundamentados. Porém esse método também possui 
chances de uso para fins tais que afetam a própria ordem natural do ambiente em 
que os humanos convivem, o que se correlaciona diretamente ao princípio 
Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana e carece de um aprofundamento 
teórico para o enriquecimento da discussão sobre seu potencial científico e sobre 
suas possíveis implicações diante da realidade em que atos normativos podem ser 
editados de forma inconsequente, contrariando os avanços inegáveis da Lei de 
Biossegurança. 
No que concerne aos aspectos de metodologia, este estudo inclui uma 
análise exploratória e explicativa. Inclui uma abordagem qualitativa de natureza de 
pesquisa básica, por ser um assunto que primeiro precisa ser desenvolvido acerca 
da compreensão biológica da técnica científica, para logo após, ser relacionado com 
princípios que tratam sobre o tema. O procedimento visa à pesquisa bibliográfica e 
documental, pois tem em vista o levantamento de referências teóricas publicadas, 
como livros, legislações vigentes, artigos acadêmicos, páginas de website, além de 
documentos oficiais do governo concernentes ao tema. 
Acerca da principal base teórica deste projeto, o texto foi fundamentado nas 
obras de Diniz (2017) que aponta conceitos teóricos acerca da bioética e biodireito 
ao tratar acerca de inovações tecnológicas; de Isaacson (2021) que traça o liame 
histórico acerca do desenvolvimento da tecnologia abordada neste estudo; e Zatz 
(2012) que propõe uma análise mais ética acerca da manipulação genética e suas 
implicações na humanidade, além de outras obras e legislações que serão 
devidamente abordadas. 
A estrutura dos seguintes tópicos foi organizada em primeiro lugar da 
definição técnica, do contexto histórico e do potencial tecnológico do método de 
5 
 
genes dirigidos por CRISPR/CAS9. Após isso foi feita a análise legal e 
princípiológica do Biodireito, da Bioética e acerca das implicações da tecnologia e 
por último uma visão da Dignidade Da Pessoa Humana e a necessidade de Lei De 
Biossegurança coibir atos administrativos imprudentes para com a tecnologia genes 
dirigidos por CRISPR/CAS9. 
 
1 DA DEFINIÇÃO TÉCNICA, CONTEXTO HISTÓRICO E POTENCIAL 
TECNOLÓGICO DO MÉTODO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9. 
 
A Edição Genética ou Edição de Genoma consiste em uma tecnologia que 
usa uma técnica bioquímica que é capaz de manipular, isolar e modificar as 
características diretas do DNA de seres vivos, sem que o processo natural 
reprodutivo destes precise ser obedecido. Para fins didáticos, o DNA (ácido 
desoxirribonucleico), trata-se da mínima composição química que cada organismo 
carrega em suas moléculas (genomas) todas as características e comandos 
genéticos que compõem a complexa estrutura do ser vivo em si. 
O CRISPR é o processo natural de defesa de certas bactérias contra os vírus. 
É uma sequência do DNA bacteriano repetida de forma intercalada e dividida por 
sequências únicas entre as repetições, e que permite cortar o DNA viral em lugares 
específicos. Já a CAS (acrônimo para ―associada ao CRISPR‖) é a enzima 
responsável por esse corte. Então, por meio de uma cadeia-guia de RNA, retira-se o 
pedaço do DNA cortado e o direciona ao local correto, substituindo-o por outro. 
(AREND; PEREIRA; MARKOSKI, 2017). 
Em termos simples, CRISPR-CAS9 é o fragmento de DNA modificado 
geneticamente, programado para usar a enzima CAS9 como uma ―tesoura‖ que 
pode cortar precisamente qualquer tipo de DNA considerado defeituoso, substituindo 
então o fragmento retirado pelo DNA modificado ou melhorado. 
Vale ressaltar que o acrônimo ―CRISPR‖ abrevia o nome da tecnologia que ao 
longo dos últimos anos, ficou muito famosa devido a sua grande repercussão, e que 
passou a ser utilizada comumente para fazer referência à edição genética em geral. 
Porém não é correto fazer essa relação, pois como se constatará a seguir, a técnica 
CRISPR trata-se apenas de uma das formas de manipulação genética, por sinal a 
mais barata, acessível e eficaz em termos de precisão e rapidez. A tecnologia é tão 
acessível que algumas escolas americanas, crianças cursando o ensino 
6 
 
fundamental, médio e já receberam kits que as permitem manipular cada uma das 
letras do DNA, sendo ainda ―encorajados a projetar e construir sistemas de 
engenharia genética.‖ (DANTAS, 2016) 
Para a compreensão do mecanismo CRISPR, é preciso saber que desde os 
primórdios das observações e estudos biológicos a níveis microscópicos, 
pesquisadores têm se deparado com uma permanente constatação: algumas 
classes de Vírus sempre estão em relação combativa contra Bactérias Procariontes 
(organismos unicelulares sem núcleo). A esta classificação de vírus, que são 
capazes de infectá-las, deu-se o nome de Bacteriófagos (fagos). Por meio de 
proteínas presentes em sua concepção viral, estes perfuram as bactérias e injetam 
seu material genético nestas, que por sua vez, comumente não são capazes de 
defender-se e se multiplicam, espalhando assim o DNA do vírus. 
Entretanto, em certos casos, estes tipos de bactérias conseguem se defender. 
Fazem isso por armazenarem um fragmento do DNA do vírus que a infectou no 
próprio código genético, usando um mecanismo de transcrição de proteínas cujo 
mecanismo de enzimas deu-se o nome de Sistema CAS, sendo a CAS9 a mais 
rápida no processo de corte do material genético. Este sistema ―captura‖ um pedaço 
do DNA viral, e o quebra. O fragmento gênico é transportado e acoplado ao DNA da 
bactéria, como uma memória armazenada em seu sistema imunológico. Então, com 
esse processo formado, a bactéria usa dois mecanismos para inutilizar o vírus. 
Como bem lembra Brouns et al. (2008), o primeiro é o RNA CRISPR, que é 
responsável por revestir e codificar o fragmento genético viral, e o segundo é RNA 
Direcionador que é utilizado para identificar precisamente a parte da estrutura do 
DNA do vírus e direcioná-lo ao espaço no material genômico bacteriano que deverá 
substituir. 
De acordo com o contexto histórico traçado por Isaacson (2021), as etapas 
primordiais de descobrimento, manipulação e aprimoramento da técnica por 
humanos, iniciaram-se no ano de 1986 na Universidade Japonesa de Osaka, 
quando o estudante Yoshizumi Ishino e outros colegas seus, em sua tese de 
pesquisa para doutorado, isolaram o DNA da bactéria E. coli, e foram capazes de 
sequenciar de maneira organizada 1.038 pares de genes que compunham a 
corrente do DNA bacteriano. 
7 
 
Mas ao longo desse trabalhoso processo, Ishino percebeu repetições 
intercaladas no DNA da bactéria e os pesquisadores não conheciam a função das 
repetições agrupadas interrompidas por espaços. Como nos explica Isaacson: 
Em outras palavras, Ishino havia encontrado cinco segmentos de 
DNA idênticos entre si. Essas sequências repetidas, com 29 pares de 
extensão, espalhavam-se entre sequências de DNA de aparência 
normal, chamadas de ―regiões espaçadoras‖. Ishino não tinha ideia 
do que eram essas sequências espaçadoras. Na última linha do 
artigo, escreveu: ―Não se sabe qual é a importância biológica delas.‖ 
Ishino não se estendeu na investigação. (ISAACSON, 2021, p. 99). 
 
Dessa forma, somente a pesquisa do cientista espanhol Francisco Mojica em 
1989, foi descoberto que estes espaços sequenciados eram defesas bacterianas 
precisamente avançadas contra vírus, por isso, atribuiu-se ao pesquisador a criação 
da sigla ―CRISPR‖. Essas estruturas eram completamente iguais às dos DNAs virais 
que as atacavam, mostrando que era uma espécie de armazenamento de memória 
que as bactérias criavam para ―se lembrarem‖ por quais vírus foram atacadas ao 
longo da vida, facilitando defesa contra futuros ataques. O pesquisador norte-
americano Eugene Koonindemostrou que a função do sistema CAS era de 
―recortar‖ pedações do DNA do vírus e ―inseri-los no DNA da própria bactéria, mais 
ou menos como se recortassem e colassem fotos dos vírus perigosos e procurados.‖ 
(ISAACSON, 2021, p. 105). 
Por fim, com o desenvolvimento do método de edição genética das 
renomadas bioquímicas Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier, que a 
aplicação da tecnologia passou a ser vista como sendo funcional em DNAs 
humanos. Segundo a obra de Isaacson (2021), as cientistas desenvolveram um 
método na qual o sistema CRISPR-Cas9 poderia ser reprogramado para editar não 
mais apenas DNAs de vírus, mas inclusive de seres humanos, um trabalho que 
vinha sendo realizado desde a descoberta que lhes rendeu o Prêmio Nobel de 
Química de 2020. 
Interessante observar, a título de exemplo, que a respeito das as possíveis 
projeções derivadas das possibilidades de extensão CRISPR/CAS9, as próprias 
pesquisadoras se preocuparam com o impacto de sua descoberta. As proposições 
científicas visavam juntar a técnica CRISPR/CAS9 a outra técnica chamada de Gene 
Drive. Esse processo seria capaz de editar as mais profundas camadas dos 
cromossomos e, portanto editar características hereditárias de uma forma tão 
8 
 
simples nunca vista antes na história. Literalmente por editar qualquer traço 
considerado defeituoso e o substituindo pelo desejado. 
O Gene Drive, ou Gene Dirigido em tradução livre, consiste em ―ensinar‖ as 
próprias células a técnica de corte de DNA antes reproduzida apenas em laboratório 
por meio de intervenção humana, visto que o seres vivos detentores desta 
habilidade ao se reproduzirem seriam capazes de replicar o processo em sua 
descendência se tornando, assim, a espécie dominante em qualquer cenário 
ambiental. Percebeu-se, aqui, a necessidade de uma discussão mais aprofundada 
sobre as questões éticas e como o Direito deveria tratar dessas questões com 
responsabilidade. 
Por juntar as duas técnicas, a facilidade e a velocidade de editar a identidade 
genômica de qualquer ser vivo ficaram extremamente fáceis. Isso provocou 
preocupação de toda a comunidade científica, mas principalmente em Doudna e 
Emmanuelle. 
Ao notar esses movimentos científicos ousados, as vencedoras do Prêmio 
Nobel resolveram adentrar nas discussões no plano ético da aplicabilidade da 
edição genômica. Pela primeira vez na história, o ser humano poderia editar não 
apenas qualquer tipo de material genético de outros seres vivos, mas também o 
próprio. 
Segundo Isaacson (2021) quando o cientista chinês He Jiankui anunciou o 
nascimento de gêmeas com DNA modificado para resistir ao vírus da AIDS, presente 
no pai das crianças, a comunidade científica realmente percebeu a seriedade de 
tratar o tema com a devida necessidade ética. As discussões acerca do tema se 
tornaram acaloradas. Começaram a serem discutidos os impactos ambientais da 
implantação do Gene Drive por CRISPR/CAS9 não apenas em humanos, mas em 
animais, no controle de pragas, como por exemplo, a erradicação dos mosquitos 
transmissores de malária na África, e os enormes riscos de mutação genética 
imprevisível. 
Mukherjee explica que as cientistas pediram uma moratória internacional da 
Organização das Nações Unidas (ONU) no intuito de: 
[...] limitar o uso da tecnologia até que seja possível determinar suas 
implicações éticas, políticas, sociais e legais. Pede ao público uma 
avaliação da ciência e seu futuro. É também um franco 
reconhecimento do quanto estamos aflitivamente perto de criar 
embriões com genomas humanos alterados em caráter permanente. 
(MUKHERJEE, 2016, p. 622) 
9 
 
 
Nota-se que a tecnologia em questão, não apenas gerou preocupação, mas 
considerou-se ainda, sobre como as grandes empresas do setor agropecuário e 
farmacêutico iriam encarar a técnica. Como iriam aproveitar-se do CRISPR/CAS9. 
Os potenciais perigos se encontram na área de manipulação de DNAs de espécies 
que poderiam produzir mutações imprevisíveis podendo desequilibrar o ecossistema 
em que fossem aplicadas. 
O potencial alcance tecnológico desta técnica consistiu na resolução de 
incontáveis problemas biológicos em um futuro próximo. Dentre eles, por exemplo: a 
cura de condições hereditárias, câncer e doenças neurodegenerativas, e mais 
recentemente, o procedimento foi usado na aplicação de genes editados em 
camundongos. O gene inserido foi editado no intuito de retardar o envelhecimento 
precoce herdado de seus ascendentes. O camundongo que recebeu a edição 
genética teve o envelhecimento retardado em 45%, mostrando a eficácia da 
tecnologia em doenças raras. (DANTAS, 2017; MURPHY, 2021; MELO, 2021) 
Ainda sobre os riscos da implementação da tecnologia, como bem comenta 
Furtado (2019): 
ao intervir sobre o DNA de seres vivos, a edição genética tem 
igualmente a capacidade de produzir efeitos em escala 
macroambiental. Exemplo de suas aplicações sistêmicas 
consiste na otimização do mecanismo de gene drive (indução 
genética) 6. Por meio dele, organismos geneticamente 
modificados são lançados na natureza a fim de disseminar 
determinada variante genética, prevalecendo sobre os 
espécimes anteriormente presentes no meio. (FURTADO, 
2019, p. 225). 
 
Observa-se, então, que as implicações e riscos são inúmeros pelo fato de a 
tecnologia ainda estar em fase de estudos, significando que o seu uso de maneira 
inconsequente pode acarretar verdadeiros desequilíbrios ecológicos na fauna e 
principalmente na flora brasileira. 
A preocupação em torno deste método de edição genética continua até os 
tempos atuais de pandemia. Por as considerações dos autores sobre a tecnologia 
de manipulação genética descrita neste tópico, percebe-se que nunca houve tanto a 
necessidade de uma discussão ética acerca de como essa inovadora técnica e seus 
10 
 
inevitáveis avanços deve ser tratada, segundo as normas e a realidade do Direito 
Brasileiro. 
 
2 ANÁLISE LEGAL E PRINCIPIOLÓGICA DO BIODIREITO DA BIOÉTICA 
ACERCA DAS IMPLICAÇÕES DA TECNOLOGIA. 
 
Antes de tudo, é importante definir os conceitos de Bioética e Biodireito. Para 
a compreensão do primeiro objeto de análise deste tópico, mostra-se necessária 
uma breve definição de Ética. 
De acordo com Aurélio Ferreira (2005, p. 383), a definição apropriada para 
Ética é o ―Conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser 
humano‖. Pode-se afirmar que hoje a ética geral é entendida como a disciplina 
filosófica que estabelece critérios para o bom e o mau comportamento e para a 
avaliação de seus motivos e consequências. Em termos de sua finalidade, é uma 
ciência prática. 
Entende-se que não se trata de conhecimento em si, mas de uma prática 
responsável que deve fornecer às pessoas ajuda na tomada de decisões morais. No 
entanto, a ética só pode justificar princípios e normas gerais de bom comportamento 
ou julgamento ético. Mas para julgamentos preferenciais de certos tipos de situações 
problemáticas a matéria da Ética sofre ramificações. 
Uma dessas ramificações é a Bioética que segundo Maria Helena Diniz trata-
se de: 
[…] uma resposta da ética às novas situações oriundas da ciência no 
âmbito da saúde, ocupando-se não só dos problemas éticos 
provocados pelas tecnociências biomédicas e alusivos ao inicio e fim 
da vida humana, às pesquisas em seres humanos, às formas de 
eutanásia, à distanásia, às técnicas de engenharia genética, às 
terapias genicas, aos métodos de reprodução humana assistida, à 
eugenia, à eleição do sexo do futuro descendente a ser concebido, a 
clonagem de seres humanos, a maternidade substitutiva, a escolha 
do tempo para nascer ou morrer […] (DINIZ, 2017, p. 35). 
 
Verifica-se que a bioética é um ramo da ética e, portanto, faz parte da do 
Direito. Conclui-se que a matéria refere-se à reflexão ética de todas as formas como 
as pessoas lidam com o ambiente em que vivem; em particular a forma como as 
pessoas lidam com a vida (outras pessoas),os animais, a natureza e com as 
aplicações médicas e também biotécnicas. Um dos objetivos da bioética é chegar a 
um consenso legislativo sobre essas questões e discussões, a fim de criar uma base 
11 
 
moral para o estabelecimento de regras normativas (leis, convenções, bases de 
decisão para comitês de ética, atos administrativos) para uma abordagem 
responsável da vida. 
Além da bioética o biodireito também se firma cada vez mais. É um novo tipo 
de semântica jurídica e uma área do Direito considerada nova, que se diferencia no 
contexto de novos desafios sociais. O ponto chave são os avanços tecnológicos 
propositados não só no que diz respeito à vida e à saúde, mas também na própria 
pessoa humana. Visa cobrir inúmeros tópicos e áreas de conflito. Segundo Diniz 
(2017), o simples fato dos rápidos avanços tecnológicos, cria uma infinidade de 
novas questões que precisam ser resolvidas com base legal. 
O Biodireito trata-se da área jurídica interligada à matéria da Bioética que 
dispõe sobre essas questões. Nada mais é do que a positivação legislativa da 
Bioética. Tal ramo do Direito Público surge como uma retaguarda jurídica que 
abrange a evolução tecnológica relacionada à área da saúde, e de como esses 
avanços impactam o meio ambiente e o complexo contexto biológico na qual a 
humanidade encontra-se inserida. Além disso, segundo Adeodato (1996, p. 132) é 
necessário ao analisar Justiça e Direito ―observar em que sentido a justiça é um 
valor moral, do indivíduo, e em que sentido se apresenta com o valor social, 
especificamente jurídico‖. 
Pode-se notar que o Direito Contemporâneo nunca careceu tanto de 
princípios decorrentes da ética, pois, a partir de agora, estão em jogo inúmeros 
assuntos das mais variadas vertentes científicas e tecnológicas, muitos destes 
sendo temas que influenciam nossa própria essência e conservação como 
sociedade. Um exemplo cabível também neste sentido é o Princípio da Precaução, 
um dos mais importantes do Direito Ambiental, disposto inclusive no Artigo 1° da Lei 
de Biossegurança de 2005. Acerca deste princípio bioético e sua relação direta com 
a Dignidade da Pessoa Humana afirma Fiorillo: 
Conforme já tivemos oportunidade de dizer, nossa Constituição 
Federal de 1988 expressamente adotou o princípio da prevenção, ao 
preceituar, no caput do art. 225, o dever do Poder Público e da 
coletividade de proteger e preservar os bens ambientais, de natureza 
difusa, para as presentes e futuras gerações. Destarte, o comando 
constitucional determina claramente a necessidade de preservar os 
bens ambientais evidentemente em harmonia com os fundamentos 
(art. 1º da CF) bem como objetivos (art. 3º da CF) explicitados como 
princípios constitucionais destinados a interpretar o direito ambiental 
constitucional brasileiro. (FIORILLO 2011, p. 121-122) 
 
12 
 
Conforme estão atestado nas palavras do autor, o primeiro artigo da 
Constituição Brasileira de 1988 relaciona-se diretamente com o cuidado ao meio 
ambiente. Dentre os princípios dispostos neste artigo está o da Dignidade Da 
Pessoa Humana, que será abordado ainda neste artigo. 
Interessante ainda citar o artigo ―CRISPR Ethics: Moral Considerations for 
Applications of a Powerful Tool‖ de BROKOWSKI e ADLI (2019), onde as autoras do 
artigo chegaram à conclusão de que a discussão ética acerca do tema deveria 
evoluir à medida que a tecnologia fosse também evoluindo e que seria prudente 
para as legislaturas nacionais e supranacionais considerarem a regulamentação 
baseada em evidências de certas aplicações CRISPR/CAS9. 
Nota-se que as implicações éticas a respeito da aplicabilidade da técnica são 
de fundamental importância em uma discussão da ampliação da proteção de leis 
ambientais, mais especificamente a Lei de Biossegurança de 2005, de que se tratará 
no último tópico deste artigo. A própria ética em seu plano material é o diapasão que 
deve guiar as mais variadas condutas estando embasadas por valores morais que 
não devem separar-se da Justiça, pois os bens da qual esta visa proteger, 
dependem de tais valores como se verifica a seguir: 
Uma ética material de valores precisa cuidar não apenas do bom 
(valores morais) mas também dos bens, sejam estes corpóreos, 
coisas, sejam eles imateriais, espirituais. Os antigos, diz Hartmann, 
estavam certos ao fazer a doutrina sobre os bens constar da ética: 
―O ethos do homem está ligado a um conjunto de valores que não 
são valores morais. A conduta moral é, sem dúvida, sempre uma 
conduta diante de pessoas, mas é, ao mesmo tempo, sempre uma 
conduta ligada a objetos valiosos e desvalidos de toda espécie‖. Os 
valores morais, por seu turno, dizem respeito exclusivamente a 
pessoas e seus atos. Inobstante, o conteúdo que os determina é o 
mesmo e os objetos do mundo ganham nova dimensão, a ética, ao 
serem vistos como bens. Valores morais como a honestidade e a 
solidariedade dependem da existência de bens sobre que incidam. 
Da mesma maneira, a justiça é um valor moral que só tem sentido 
através da interação entre as pessoas diante de um bem 
considerado justo: é a dependência dos valores morais em relação 
aos bens ou valores objetivados. (ADEODATO, 1996, p. 137) 
 
Mostra-se evidente que o próprio manejo e funcionamento adequado da 
justiça, e isso inclui as leis que dispõem acerca do Biodireito, deve ser sempre 
guiado sob a luz destes princípios bioéticos, para que assim haja uma maior 
segurança jurídica a respeito do tratamento dos Organismos Geneticamente 
Modificados. Outra obra que aborda as implicações de princípios relacionados ao 
13 
 
assunto é a de Mayana Zatz em seu livro Genética: Escolhas que nossos avós não 
faziam (2012): 
O biodireito tem como pressuposto um conjunto de princípios, 
inspirados na bioética, que orientam a aplicação das normas jurídicas 
relativas às inovações científico-tecnológicas associadas ao código 
genético, substâncias e outras partes do corpo humano, visando à 
proteção da dignidade humana. Grande parte da doutrina jurídica 
especializada no tema tem entendido que os referenciais da bioética 
que contribuem, num primeiro plano, para a construção desse 
arcabouço jurídico são os princípios da autonomia do consentimento 
informado, da beneficência ou não maleficência, da justiça, da 
sacralidade da vida humana e da dignidade do ser humano, questões 
que de forma prática e sincera são abordadas neste livro. Ocorre 
que, na prática, grande parte desses temas ainda precisa e deve ser 
enfrentada com profundidade pelo Poder Legislativo, uma vez que 
não foi objeto de tratamento jurídico adequado, ou, quando isso 
ocorreu, esbarrou em problemas conceituais que dificultam a efetiva 
aplicação das normas. É o clássico caso em que a dinâmica da 
ciência relativiza os conceitos já construídos em face dos novos 
resultados alcançados, e fica difícil estabelecer novos conceitos 
legais para temas que ainda estão em construção no campo ético e 
científico. Somado a esses fatores, o Poder Judiciário também 
precisa se aprofundar nessas questões, pois a falta de 
jurisprudências que reflitam esses novos referenciais bioéticos tem 
dificultado a melhor orientação na condução desses temas no campo 
prático. (ZATZ, 2012, p.13) 
 
Conforme se verifica em Zatz (2012, p.13), a atualidade fornece uma variada 
celeuma de questões relacionadas a vários assuntos importantes, e muitos destes 
tem caráter científico muito relevante para ser tratado de forma inconsequente. Por 
esta razão é que os princípios guiam o Direito Contemporâneo como nunca antes. 
 
3 DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A NECESSIDADE DE LEI DE 
BIOSSEGURANÇA COIBIR ATOS ADMINISTRATIVOS IMPRUDENTES PARA 
COM A TECNOLOGIA GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9. 
 
O princípio em comento é um dos primórdios fundamentais da República 
Federativa Do Brasil reconhecida no artigo 1º da Constituição Federal de 1988 
sendo digno de nota relacionar este princípio ao fator de origem de todos os direitos 
fundamentais.Nos dizeres do Ministro Alexandre de Moraes em sua obra de Direito 
Constitucional, em sua profunda conceituação, define este princípio da seguinte 
maneira: 
14 
 
A dignidade da pessoa humana concede unidade aos direitos e 
garantias fundamentais, sendo inerente às personalidades humanas. 
Esse fundamento afasta a idéia de predomínio das concepções 
transpessoalistas de Estado e Nação, em detrimento da liberdade 
individual. A dignidade é um valor espiritual e moral inerente à 
pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação 
consciente e responsável da própria e que traz consigo a pretensão 
ao respeito por parte das demais pessoas, constituindo-se um 
mínimo invulnerável que todo estatuto jurídico deve assegurar, de 
modo que, somente excepcionalmente, possam ser feitas limitações 
ao exercício dos direitos fundamentais, mas sempre sem 
menosprezar a necessária estima que merecem todas as pessoas 
enquanto seres humanos. (MORAES, 2005, p 53) 
 
Conforme tal elucidação nota-se que o Princípio da Dignidade da Pessoa 
Humana deve ser respeitado em todas as esferas do direito brasileiro, além de ser 
intrínseco ao ser humano, trata-se de um Direito Fundamental basilar de todos os 
outros de acordo com a própria Constituição: 
A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel 
dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em 
Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: 
[...] 
III - a dignidade da pessoa humana; (BRASIL, 1988, art. 1, III) 
 
A importância de uma lei de biossegurança para coibir atos administrativos 
surge da necessidade de tratarmos os Organismos Geneticamente Modificados com 
a devida cautela, respeitando o princípio em questão. Por essa razão, ainda quanto 
à análise da Dignidade da Pessoa Humana, esta guia uma série de normas 
constitucionais que se apresentam como verdadeiros norteadores de um legítimo 
Estado Constitucional, que garante a seus súditos, direitos tão indefectíveis, que 
chegam como princípios de ordem suprema. Princípios estes que de modo algum se 
anulam, mas se complementam, ganhando, assim, mais reforço. 
Legitimando inequivocamente um princípio indisponível e basilar do nosso 
ordenamento jurídico pátrio, o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, 
somando-se a isto todo o arcabouço princípiológico que decorre dele percebe-se 
sua importância no cenário legislativo brasileiro. 
Nos dizeres de José Afonso da Silva, em sua profunda conceituação, define-
se este princípio como aquele que possui ―[...] um valor supremo que atrai o 
conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida‖ 
(SILVA, 2007, p. 105). 
15 
 
Esta concepção demonstra que a autonomia e a liberdade integram a 
Dignidade da Pessoa Humana. Assim, cada direito fundamental contém uma 
expressão da dignidade. Como já bem citada, a Constituição Federal de 1988, 
quando logo em seu artigo 1° garante que a República Federativa do Brasil, tem 
como um de seus fundamentos principais a Dignidade da Pessoa Humana. 
E o meio ambiente preservado não escapa a tal princípio. É um objetivo de 
interesse público, bem definido na Constituição Federal de 1988 quando em seu 
artigo Art. 225 dispõe que: 
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem 
de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, 
impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo 
e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. (Brasil, 1988) 
 
Observa-se, conforme visto acima, que a Lei pressupõe que o equilíbrio 
ambiental fornece condições favoráveis ao desenvolvimento socioeconômico, aos 
interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. Isso é 
reafirmado no Artigo 225. II da Constituição Federal (1988), quando firma que o 
Poder Público é responsável por ―preservar a diversidade e a integridade do 
patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e 
manipulação de material genético‖ ainda dispondo em seu artigo V, que deve 
―controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e 
substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio 
ambiente‖. 
E tal legislação, ainda fornece a possibilidade de qualquer cidadão defender-
se de atos que ponham esse direito em risco. Para isso, prevê em seu rol imutável 
do Artigo 5°, LXXIII que: 
Qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise 
a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o 
Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao 
patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-
fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência (Brasil, 
1988). 
 
Ainda sobre o princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve-se observação 
pertinente quanto a sua relação direta com o Meio Ambiente preservado. Conforme 
nos explana o artigo 3º, I, da Lei Nº 6.938/81 que Dispõe sobre a Política Brasileira 
Ambiental: 
 
 
16 
 
Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por: 
I — meio ambiente, o conjunto de condições, leis, influências e 
interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e 
rege a vida em todas as suas formas.‖ (Brasil, 1981). 
 
Nota-se, portanto, a importância acerca deste princípio para o tratamento de 
tecnologias que afetem diretamente o equilíbrio ecológico. E, por fim, chega-se à 
própria Lei de Biossegurança, um marco legal profundo no tratamento responsável 
de Organismos Geneticamente Modificados (OGM), que na época de sua 
apresentação levantou-se um debate muito marcante em torno da legalização do 
uso de células tronco embrionárias para o tratamento de doenças. A referida Lei Nº 
11.105, de 24 de Março de 2005, regulamentou o Artigo 225 em seus incisos II, IV e 
V do §1, todos da Constituição de 1988. 
A Lei de Biossegurança firmou a criação da Comissão Técnica de 
Biossegurança - CTNBio, que seria um órgão de apoio técnico para consultas e 
assessoria do Ministério de Ciência e Tecnologia, vinculado ao Governo Federal. Em 
seu artigo 14, XVI, esta estabeleceu que compete à CTNBio ―emitir resoluções, de 
natureza normativa, sobre as matérias de sua competência;‖ (BRASIL, 2005). 
Entretanto como se verá a seguir, este dispositivo normativo carece de uma 
cobertura mais direta quanto à edição de tais atos normativos administrativos. Um 
exemplo central do motivo desta preocupação é o que ocorreu em 2018, quando a 
Resolução Normativa 16/2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, 
desclassificou como OGM, os alelos com potencial de recombinação genética, alelos 
estes com ―possibilidade de alterar toda uma população de seres vivos ou 
direcionamento gênico, do inglês: Gene Drives.” (BRASIL, 2018). 
Isso significa que a técnica CRISPR/CAS9 passa a ser passível de 
implementação com o objetivo de recombinar cromossomos germinativos no intuito 
de produzir mutações desejadas por organizações e empresas com objetivos 
variados, que são guiados não pela prudência científica, mas pelo lucro. Embora não 
se esteja referindo à manipulação de genes humanos, o que é proibido pela Lei de 
Biossegurança, esta brecha deixa margem para experimentos em vegetais, visto 
que a partir de agora, como não são mais considerados OGM, podem ser livremente 
testados em mercado, implicando assim uma imprevisibilidade absurda relacionada 
aos efeitos e riscos de mutações, que podem acarretar danos completamente 
imprevisíveis ao equilíbrio ambiental brasileiro. 
Como bem salienta o argumento da Dra. Naiara Bittencourt: 
17 
 
[...] com os transgênicos, as alterações do DNA são herdadas 
apenas por uma parte dos descendentes, já o gene drives 
conseguem driblar as leis naturais da hereditariedade e transformar 
uma espécie inteira. Essa técnica força o gene a ser dominante nas 
próximas gerações, substituindo o antigo gene, quase que 
completamente (AUDIOVISUAL, 2019). 
 
Verifica-se,portanto que embora haja uma preocupação literária em discutir o 
assunto da Tecnologia da Edição Genética Gene Drive por CRISPR/CAS9 e em 
disciplinar de forma legislativa os impactos desta tecnologia, a Lei de Biossegurança 
em seu artigo precisa tratar da referida técnica de maneira mais direta, no intuito de 
evitar que medidas administrativas irresponsáveis como a Resolução Normativa 
16/2018 existam novamente. 
Conforme assevera o artigo de Oliveira (2020, p. 25), compreender a 
tecnologia se torna uma necessidade fundamental, pois significa uma ―série de 
responsabilidades com as gerações presentes e futuras, sendo forçoso não escapar 
de suas interferências na natureza e consequências.‖. 
Torna-se, então, necessária uma maior disciplina e conhecimento no tocante 
á transparência destes atos e divulgação para a reflexão dos setores da comunidade 
científica e da sociedade. 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Pelo fato desta tecnologia estar em constante desenvolvimento, promovendo 
uma rápida transformação na forma como é tratada, torna-se necessária a análise, 
pesquisa e estudo por parte de outras matérias como a Filosofia Jurídica, Direito 
Civil no tocante a responsabilidade cível, o Direito Penal, Diretos Humanos e Direito 
Internacional. 
Segundo a própria Lei de Biossegurança, o seu objetivo central é regularizar 
quaisquer que sejam os tratamentos com Organismos Geneticamente Modificados 
(OGM) por prover medidas que assegurem as precauções necessárias para seu 
uso. (BRASIL, 2005). 
De acordo com os dados bibliográficos analisados, é possível concluir que 
embora a Constituição, as leis ambientais e a Lei de Biossegurança tentem proteger 
ao máximo a manipulação de Organismos Geneticamente Modificados, a adoção de 
atos normativos como a Resolução Normativa 16/2018, abrem caminhos e 
18 
 
possibilidades muito perigosas que podem causar verdadeiros desastres e 
desequilíbrios ecológicos se não observados e tratados com responsabilidade. De 
acordo com a análise histórica traçada por ISAACSON (2021), conclui-se que a 
tecnologia de gene dirigido é relativamente nova, e, portanto, carece de mais 
pesquisa e estudos de forma prudente e transparente, com o objetivo de coibir não 
apenas atos normativos com respeito ao uso da técnica no território brasileiro (no 
caso em tela), mas decisões administrativas em geral que dispõem sobre o tema. 
Segundo Diniz (2017, p. 35) é preciso que as discussões éticas nunca se 
mostrem ausentes quanto à análise dos avanços tecnológicos. Para isso, os 
aspectos princípiológicos do Biodireito e da Bioética precisam ser considerados com 
mais cuidado pelas entidades responsáveis por editar regulamentos acerca do 
tratamento de Organismos Geneticamente Modificados, especificamente os que 
usam Gene Dirigidos (Gene Drive) por CRISPR/CAS9, para que haja uma maior e 
mais cautelosa tutela jurídica destas ferramentas avançadas de edição genética, que 
embora possam futuramente conceber incontáveis benefícios à humanidade, podem 
desde já, se não usadas com cautela ética, respeitando o princípio da Dignidade da 
Pessoa Humana, podem provocar incalculáveis prejuízos socioambientais à 
sociedade brasileira. 
Conforme bem assevera Zats (2012, p.13), os avanços tecnocientíficos são 
de natureza muito séria e complexa para serem tutelados pela legislação de forma 
imponderada. Conclui-se então que a Lei de Biossegurança em seu Artigo 14. 
XVI precisa estar atenta aos impactos dos genes dirigidos (gene drive) entrando no 
Brasil e deve ser atualizada com respeito à um maior controle de edição de atos 
normativos que possibilitem a manipulação de genes dirigidos por CRISPR/CAS9 
em solo brasileiro, e em produtos transgênicos que usem esta técnica que entrem 
nos mercados nacionais, pois, isso poderia gerar um grande prejuízo ecológico. 
Edições como Resolução Normativa 16/2018 deveriam ser tratadas com muito 
cuidado pelas autoridades competentes e pela legislação concernente a 
biossegurança do país. 
A insegurança jurídica por meio da edição de Resoluções Normativas que 
diminuem o cuidado no tratamento de Organismos Geneticamente Modificados 
(OGM) pode desequilibrar o meio ambiente e o ecossistema brasileiro de maneira 
que não encontra precedente. É prudente adicionar uma provisão legislativa no 
Artigo 14. XVI para salvaguardar a exigência de que toda vez que a CTNBio emitir 
19 
 
resoluções, de natureza normativa, sobre as matérias de sua competência, que as 
ideias sejam apresentadas a setores da comunidade científica, com os potenciais 
riscos da decisão sendo expostos, para que tudo se dê na mais clara transparência, 
respeitando os princípios bioéticos do Biodireito, juntamente com o princípio da 
Dignidade da Pessoa Humana. A natureza da Bioética correlacionada com tal 
princípio Constitucional basilar do direito brasileiro abrange este tratamento com 
relação à tutela jurisdicional de Organismos Geneticamente Modificados que usam 
Gene Dirigidos (Gene Drive) por CRISPR/CAS9, pois, ocorre o risco em potencial de 
mutações genéticas em decorrência da própria natureza ainda em estágios iniciais 
da técnica, alterarem o meio ambiente em que vivemos, não apenas isso, expor 
seres humanos aos riscos diretos da inconsequência legislativa. 
 
REFERÊNCIAS 
 
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na ciência. 6ª. Ed. São Paulo: Saraivajur, 1996 
 
 
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<https://www.scielo.br/j/abc/a/S7rhCRLnYjVmCDfTrdSYTDs/?lang=pt#> Acesso em: 
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AUDIOVISUAL, Canteiro, 2019. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal Articulação 
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constituiçao.htm. Acesso em. 
Acesso em: 1 jan. 2021. 
 
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do § 1º do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas de segurança e 
mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente 
modificados – OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança – 
CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, 
dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança – PNB, revoga a Lei nº 8.974, de 
20 
 
5 de janeiro de 1995, e a Medida Provisória nº 2.191-9, de 23 de agosto de 2001, e 
os arts. 5º , 6º , 7º , 8º , 9º , 10 e 16 da Lei nº 10.814, de 15 de dezembro de 2003, e 
dá outras providências, [2005] Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11105.htm. Acesso em: 
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