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FACULDADE UNINASSAU TERESINA DIREITO MATEUS LEÃO DE MORAES TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE EDIÇÃO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. Teresina 2021 Mateus Leão de Moraes IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE EDIÇÃO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para conclusão do curso de DIREITO da FACULDADE UNINASSAU TERESINA Teresina 2021 Ficha catalográfica gerada pelo Sistema de Bibliotecas do REPOSITORIVM do Grupo SER EDUCACIONAL M827i Moraes, Mateus Leão de. Implicações Éticas e Legais da Aplicabilidade da Tecnologia de Edição de Genes Dirigidos Por Crispr/cas9 Sob a Luz do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. / Mateus Leão de Moraes. - UNINASSAU: Teresina - 2021 21 f. TCC (Curso de Direito) - Faculdade Uninassau Teresina - Orientador(es): M.sc. Marcelo Leandro Pereira Lopes 1. Biossegurança. 2. Crispr/Cas9. 3. Dignidade. 4. Ética. 5. Genes Dirigidos. 6. Crispr/Cas9. 7. Biosafety. 8. Dignity. 9. Ethics. 10. Gene Drive. I.Título II.M.sc. Marcelo Leandro Pereira Lopes UNINASSAU - TER CDU - 34 1 IMPLICAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS DA APLICABILIDADE DA TECNOLOGIA DE EDIÇÃO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9 SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. LEGAL ETHICAL IMPLICATIONS OF THE APPLICABILITY OF CRISPR/CAS9 DRIVE GENE EDITING TECHNOLOGY IN LIGHT OF THE PRINCIPLE OF HUMAN PERSON DIGNITY. Mateus Leão De Moraes 1 Marcelo Leandro Pereira Lopes 2 RESUMO Este projeto tem o objetivo de apresentar importância da discussão ética acerca das implicações da técnica de edição genética correlacionando à Lei de Biossegurança Brasileira e à Constituição de 1998. A premissa é que os evidentes e futuros avanços da técnica de edição genética ―Gene dirigido por CRISPR/ CAS9‖ devem ser discutidos apropriadamente com a comunidade científica e a comunidade legislativa, para que estes métodos sejam recepcionados adequadamente pela legislação brasileira, de forma a balizar e conter possíveis desvios inapropriados dos resultados práticos de sua aplicação social. O objetivo geral é analisar como o princípio da dignidade da pessoa humana se aplica á regulação do tratamento de Organismos Geneticamente Modificados por Genes Dirigidos CRISPR/CAS9, além de lançar uma contribuição teórica acerca da relevância científica e social da técnica, dentro do contexto do Biodireito. Os objetivos específicos são definir historicamente a Tecnologia Gene Drive (GENES DIRIGIDOS) POR CRISPR/CAS9, descrever seus potenciais alcances tecnológicos, analisar as correlações éticas e legais com o princípio da dignidade da pessoa humana quanto à Edição Genética, para uma melhor e mais embasada aplicação prática. No que se refere aos efeitos legais, evidenciar como é necessária uma maior cobertura legal da Lei de Biossegurança relativa à regulação da tecnologia. Trata-se, de pesquisa descritiva, bibliográfica com embasamento teórico de Diniz (2017), Isaacson (2021), Zatz (2012), além de outros. Palavras Chave: CRISPR/CAS9, Genes Dirigidos, Ética, Dignidade, Biossegurança 1 Aluno da Instituição de Ensino Superior Centro Universitário Maurício de Nassau 2 Professor da Instituição de Ensino Superior Centro Universitário Maurício de Nassau e Orientador 2 ABSTRACT This project aims to present the importance of the ethical discussion about genetic editing techniques correlating to the Brazilian Biosafety Law and the 1998 Constitution. The premise is that the evidence and future advances in the genetic editing technique ―Gene driven by CRISPR / CAS9 ‖must be properly discussed with the scientific community and the legislative community, so that these methods are accepted by Brazilian legislation, in order to delimit and contain possible inappropriate deviations from the practical results of their social application. The general objective is to analyze how the principle of human dignity applies to the regulation of the treatment of Genetically Modified Organisms by CRISPR / CAS9 Directed Genes, in addition to launching a theoretical contribution from the scientific and social specialty of the technique, within the context of Biolaw. The specific objectives are to historically define the Gene Drive Technology (GENES DIRECTED) BY CRISPR / CAS9, characterizing its potential technological reach, analyzing the ethical and legal correlations with the principle of human dignity regarding Genetic Editing, for a better and more grounded practical application. With regard to legal effects, show how greater legal coverage of the Biosafety Law is needed regarding the updating of technology. It is a descriptive, bibliographical research with theoretical basis by Diniz (2017), Isaacson (2021), Zatz (2012), among others. Keywords: Crispr/Cas9, Gene Drive, Ethics, Dignity, Biosafety 3 INTRODUÇÃO Levando em conta o surgimento de uma tecnologia que permite a edição genética de seres vivos denominada como CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats - Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas) e seu potencial uso para fins diversos, este projeto tem a finalidade de expor a importante discussão ética acerca das implicações da utilização desta técnica em embriões humanos correlacionando à Lei de Biossegurança Brasileira e à Constituição Federal de 1998. Desta forma, o tema deste Projeto, a saber; ―Implicações Éticas E Legais Da Aplicabilidade Da Tecnologia De Edição De Genes Dirigidos Por CRISPR/CAS9 Sob A Luz Do Princípio Da Dignidade Da Pessoa Humana.‖ foi visado a finalidade de lançar uma luz de fundamentação teórica sobre o tema em questão para uma discussão normativa mais profunda acerca das implicações da existência desta nova tecnologia. Por isso, ficou delimitada a avaliação das implicações éticas da aplicabilidade da tecnologia CRISPR na edição genética, tomando por base no Art. 1º, III, Art. 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e os cuidados na Lei de Biossegurança em seu Art. 14, XVI, no tocante ao princípio da dignidade da pessoa humana. Diante disso, a pesquisa partiu da elaboração do seguinte problema: Levando em conta as consequências imprevisíveis do avanço da Tecnologia de Edição Genética, como o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve se relacionar com a regulamentação legislativa sobre a aplicação prática da técnica de genes dirigidos por CRISPR/CAS9 e no Brasil? O projeto possui como objetivo geral analisar como o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana se aplica à regulação do tratamento de Organismos Geneticamente Modificados e às possíveis implicações da Tecnologia de Edição Genética denominada como CRISPR, além de lançar uma contribuição teórica acerca da relevância científica e social da técnica, dentro do contexto do Biodireito. Para o alcance do objetivo geral, se tornou necessária a realização dos seguintes objetivos específicos: definir a tecnologia CRISPR trançando seu contexto histórico dissecando seus potenciais alcances tecnológicos; analisar de maneira principiológica como o Biodireito e a Bioética que se aplicam no tratamento da 4 tecnologia e definir o princípio da Dignidade da Pessoa Humana ao relacioná-lo com a Lei de Biossegurança no intuito de prevenir atos administrativos imprudentes no tratamento da tecnologia Genes Dirigidos (Gene Drive) por CRISPR/CAS9 evidenciando como é necessária uma maior cobertura legal da Lei de Biossegurança quanto á regulação da tecnologia CRISPR. Nessa perspectiva, o estudo se justificou pelo fato de que a recente descoberta desta Técnica de Edição gênica abriu amplos leques de possibilidadespara aplicações práticas no campo da biomedicina, agricultura, biofarmacêutico tanto ao tratamento e prevenção quanto à cura de doenças, assuntos esses que devem ser diametralmente fundamentados. Porém esse método também possui chances de uso para fins tais que afetam a própria ordem natural do ambiente em que os humanos convivem, o que se correlaciona diretamente ao princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana e carece de um aprofundamento teórico para o enriquecimento da discussão sobre seu potencial científico e sobre suas possíveis implicações diante da realidade em que atos normativos podem ser editados de forma inconsequente, contrariando os avanços inegáveis da Lei de Biossegurança. No que concerne aos aspectos de metodologia, este estudo inclui uma análise exploratória e explicativa. Inclui uma abordagem qualitativa de natureza de pesquisa básica, por ser um assunto que primeiro precisa ser desenvolvido acerca da compreensão biológica da técnica científica, para logo após, ser relacionado com princípios que tratam sobre o tema. O procedimento visa à pesquisa bibliográfica e documental, pois tem em vista o levantamento de referências teóricas publicadas, como livros, legislações vigentes, artigos acadêmicos, páginas de website, além de documentos oficiais do governo concernentes ao tema. Acerca da principal base teórica deste projeto, o texto foi fundamentado nas obras de Diniz (2017) que aponta conceitos teóricos acerca da bioética e biodireito ao tratar acerca de inovações tecnológicas; de Isaacson (2021) que traça o liame histórico acerca do desenvolvimento da tecnologia abordada neste estudo; e Zatz (2012) que propõe uma análise mais ética acerca da manipulação genética e suas implicações na humanidade, além de outras obras e legislações que serão devidamente abordadas. A estrutura dos seguintes tópicos foi organizada em primeiro lugar da definição técnica, do contexto histórico e do potencial tecnológico do método de 5 genes dirigidos por CRISPR/CAS9. Após isso foi feita a análise legal e princípiológica do Biodireito, da Bioética e acerca das implicações da tecnologia e por último uma visão da Dignidade Da Pessoa Humana e a necessidade de Lei De Biossegurança coibir atos administrativos imprudentes para com a tecnologia genes dirigidos por CRISPR/CAS9. 1 DA DEFINIÇÃO TÉCNICA, CONTEXTO HISTÓRICO E POTENCIAL TECNOLÓGICO DO MÉTODO DE GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9. A Edição Genética ou Edição de Genoma consiste em uma tecnologia que usa uma técnica bioquímica que é capaz de manipular, isolar e modificar as características diretas do DNA de seres vivos, sem que o processo natural reprodutivo destes precise ser obedecido. Para fins didáticos, o DNA (ácido desoxirribonucleico), trata-se da mínima composição química que cada organismo carrega em suas moléculas (genomas) todas as características e comandos genéticos que compõem a complexa estrutura do ser vivo em si. O CRISPR é o processo natural de defesa de certas bactérias contra os vírus. É uma sequência do DNA bacteriano repetida de forma intercalada e dividida por sequências únicas entre as repetições, e que permite cortar o DNA viral em lugares específicos. Já a CAS (acrônimo para ―associada ao CRISPR‖) é a enzima responsável por esse corte. Então, por meio de uma cadeia-guia de RNA, retira-se o pedaço do DNA cortado e o direciona ao local correto, substituindo-o por outro. (AREND; PEREIRA; MARKOSKI, 2017). Em termos simples, CRISPR-CAS9 é o fragmento de DNA modificado geneticamente, programado para usar a enzima CAS9 como uma ―tesoura‖ que pode cortar precisamente qualquer tipo de DNA considerado defeituoso, substituindo então o fragmento retirado pelo DNA modificado ou melhorado. Vale ressaltar que o acrônimo ―CRISPR‖ abrevia o nome da tecnologia que ao longo dos últimos anos, ficou muito famosa devido a sua grande repercussão, e que passou a ser utilizada comumente para fazer referência à edição genética em geral. Porém não é correto fazer essa relação, pois como se constatará a seguir, a técnica CRISPR trata-se apenas de uma das formas de manipulação genética, por sinal a mais barata, acessível e eficaz em termos de precisão e rapidez. A tecnologia é tão acessível que algumas escolas americanas, crianças cursando o ensino 6 fundamental, médio e já receberam kits que as permitem manipular cada uma das letras do DNA, sendo ainda ―encorajados a projetar e construir sistemas de engenharia genética.‖ (DANTAS, 2016) Para a compreensão do mecanismo CRISPR, é preciso saber que desde os primórdios das observações e estudos biológicos a níveis microscópicos, pesquisadores têm se deparado com uma permanente constatação: algumas classes de Vírus sempre estão em relação combativa contra Bactérias Procariontes (organismos unicelulares sem núcleo). A esta classificação de vírus, que são capazes de infectá-las, deu-se o nome de Bacteriófagos (fagos). Por meio de proteínas presentes em sua concepção viral, estes perfuram as bactérias e injetam seu material genético nestas, que por sua vez, comumente não são capazes de defender-se e se multiplicam, espalhando assim o DNA do vírus. Entretanto, em certos casos, estes tipos de bactérias conseguem se defender. Fazem isso por armazenarem um fragmento do DNA do vírus que a infectou no próprio código genético, usando um mecanismo de transcrição de proteínas cujo mecanismo de enzimas deu-se o nome de Sistema CAS, sendo a CAS9 a mais rápida no processo de corte do material genético. Este sistema ―captura‖ um pedaço do DNA viral, e o quebra. O fragmento gênico é transportado e acoplado ao DNA da bactéria, como uma memória armazenada em seu sistema imunológico. Então, com esse processo formado, a bactéria usa dois mecanismos para inutilizar o vírus. Como bem lembra Brouns et al. (2008), o primeiro é o RNA CRISPR, que é responsável por revestir e codificar o fragmento genético viral, e o segundo é RNA Direcionador que é utilizado para identificar precisamente a parte da estrutura do DNA do vírus e direcioná-lo ao espaço no material genômico bacteriano que deverá substituir. De acordo com o contexto histórico traçado por Isaacson (2021), as etapas primordiais de descobrimento, manipulação e aprimoramento da técnica por humanos, iniciaram-se no ano de 1986 na Universidade Japonesa de Osaka, quando o estudante Yoshizumi Ishino e outros colegas seus, em sua tese de pesquisa para doutorado, isolaram o DNA da bactéria E. coli, e foram capazes de sequenciar de maneira organizada 1.038 pares de genes que compunham a corrente do DNA bacteriano. 7 Mas ao longo desse trabalhoso processo, Ishino percebeu repetições intercaladas no DNA da bactéria e os pesquisadores não conheciam a função das repetições agrupadas interrompidas por espaços. Como nos explica Isaacson: Em outras palavras, Ishino havia encontrado cinco segmentos de DNA idênticos entre si. Essas sequências repetidas, com 29 pares de extensão, espalhavam-se entre sequências de DNA de aparência normal, chamadas de ―regiões espaçadoras‖. Ishino não tinha ideia do que eram essas sequências espaçadoras. Na última linha do artigo, escreveu: ―Não se sabe qual é a importância biológica delas.‖ Ishino não se estendeu na investigação. (ISAACSON, 2021, p. 99). Dessa forma, somente a pesquisa do cientista espanhol Francisco Mojica em 1989, foi descoberto que estes espaços sequenciados eram defesas bacterianas precisamente avançadas contra vírus, por isso, atribuiu-se ao pesquisador a criação da sigla ―CRISPR‖. Essas estruturas eram completamente iguais às dos DNAs virais que as atacavam, mostrando que era uma espécie de armazenamento de memória que as bactérias criavam para ―se lembrarem‖ por quais vírus foram atacadas ao longo da vida, facilitando defesa contra futuros ataques. O pesquisador norte- americano Eugene Koonindemostrou que a função do sistema CAS era de ―recortar‖ pedações do DNA do vírus e ―inseri-los no DNA da própria bactéria, mais ou menos como se recortassem e colassem fotos dos vírus perigosos e procurados.‖ (ISAACSON, 2021, p. 105). Por fim, com o desenvolvimento do método de edição genética das renomadas bioquímicas Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier, que a aplicação da tecnologia passou a ser vista como sendo funcional em DNAs humanos. Segundo a obra de Isaacson (2021), as cientistas desenvolveram um método na qual o sistema CRISPR-Cas9 poderia ser reprogramado para editar não mais apenas DNAs de vírus, mas inclusive de seres humanos, um trabalho que vinha sendo realizado desde a descoberta que lhes rendeu o Prêmio Nobel de Química de 2020. Interessante observar, a título de exemplo, que a respeito das as possíveis projeções derivadas das possibilidades de extensão CRISPR/CAS9, as próprias pesquisadoras se preocuparam com o impacto de sua descoberta. As proposições científicas visavam juntar a técnica CRISPR/CAS9 a outra técnica chamada de Gene Drive. Esse processo seria capaz de editar as mais profundas camadas dos cromossomos e, portanto editar características hereditárias de uma forma tão 8 simples nunca vista antes na história. Literalmente por editar qualquer traço considerado defeituoso e o substituindo pelo desejado. O Gene Drive, ou Gene Dirigido em tradução livre, consiste em ―ensinar‖ as próprias células a técnica de corte de DNA antes reproduzida apenas em laboratório por meio de intervenção humana, visto que o seres vivos detentores desta habilidade ao se reproduzirem seriam capazes de replicar o processo em sua descendência se tornando, assim, a espécie dominante em qualquer cenário ambiental. Percebeu-se, aqui, a necessidade de uma discussão mais aprofundada sobre as questões éticas e como o Direito deveria tratar dessas questões com responsabilidade. Por juntar as duas técnicas, a facilidade e a velocidade de editar a identidade genômica de qualquer ser vivo ficaram extremamente fáceis. Isso provocou preocupação de toda a comunidade científica, mas principalmente em Doudna e Emmanuelle. Ao notar esses movimentos científicos ousados, as vencedoras do Prêmio Nobel resolveram adentrar nas discussões no plano ético da aplicabilidade da edição genômica. Pela primeira vez na história, o ser humano poderia editar não apenas qualquer tipo de material genético de outros seres vivos, mas também o próprio. Segundo Isaacson (2021) quando o cientista chinês He Jiankui anunciou o nascimento de gêmeas com DNA modificado para resistir ao vírus da AIDS, presente no pai das crianças, a comunidade científica realmente percebeu a seriedade de tratar o tema com a devida necessidade ética. As discussões acerca do tema se tornaram acaloradas. Começaram a serem discutidos os impactos ambientais da implantação do Gene Drive por CRISPR/CAS9 não apenas em humanos, mas em animais, no controle de pragas, como por exemplo, a erradicação dos mosquitos transmissores de malária na África, e os enormes riscos de mutação genética imprevisível. Mukherjee explica que as cientistas pediram uma moratória internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) no intuito de: [...] limitar o uso da tecnologia até que seja possível determinar suas implicações éticas, políticas, sociais e legais. Pede ao público uma avaliação da ciência e seu futuro. É também um franco reconhecimento do quanto estamos aflitivamente perto de criar embriões com genomas humanos alterados em caráter permanente. (MUKHERJEE, 2016, p. 622) 9 Nota-se que a tecnologia em questão, não apenas gerou preocupação, mas considerou-se ainda, sobre como as grandes empresas do setor agropecuário e farmacêutico iriam encarar a técnica. Como iriam aproveitar-se do CRISPR/CAS9. Os potenciais perigos se encontram na área de manipulação de DNAs de espécies que poderiam produzir mutações imprevisíveis podendo desequilibrar o ecossistema em que fossem aplicadas. O potencial alcance tecnológico desta técnica consistiu na resolução de incontáveis problemas biológicos em um futuro próximo. Dentre eles, por exemplo: a cura de condições hereditárias, câncer e doenças neurodegenerativas, e mais recentemente, o procedimento foi usado na aplicação de genes editados em camundongos. O gene inserido foi editado no intuito de retardar o envelhecimento precoce herdado de seus ascendentes. O camundongo que recebeu a edição genética teve o envelhecimento retardado em 45%, mostrando a eficácia da tecnologia em doenças raras. (DANTAS, 2017; MURPHY, 2021; MELO, 2021) Ainda sobre os riscos da implementação da tecnologia, como bem comenta Furtado (2019): ao intervir sobre o DNA de seres vivos, a edição genética tem igualmente a capacidade de produzir efeitos em escala macroambiental. Exemplo de suas aplicações sistêmicas consiste na otimização do mecanismo de gene drive (indução genética) 6. Por meio dele, organismos geneticamente modificados são lançados na natureza a fim de disseminar determinada variante genética, prevalecendo sobre os espécimes anteriormente presentes no meio. (FURTADO, 2019, p. 225). Observa-se, então, que as implicações e riscos são inúmeros pelo fato de a tecnologia ainda estar em fase de estudos, significando que o seu uso de maneira inconsequente pode acarretar verdadeiros desequilíbrios ecológicos na fauna e principalmente na flora brasileira. A preocupação em torno deste método de edição genética continua até os tempos atuais de pandemia. Por as considerações dos autores sobre a tecnologia de manipulação genética descrita neste tópico, percebe-se que nunca houve tanto a necessidade de uma discussão ética acerca de como essa inovadora técnica e seus 10 inevitáveis avanços deve ser tratada, segundo as normas e a realidade do Direito Brasileiro. 2 ANÁLISE LEGAL E PRINCIPIOLÓGICA DO BIODIREITO DA BIOÉTICA ACERCA DAS IMPLICAÇÕES DA TECNOLOGIA. Antes de tudo, é importante definir os conceitos de Bioética e Biodireito. Para a compreensão do primeiro objeto de análise deste tópico, mostra-se necessária uma breve definição de Ética. De acordo com Aurélio Ferreira (2005, p. 383), a definição apropriada para Ética é o ―Conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano‖. Pode-se afirmar que hoje a ética geral é entendida como a disciplina filosófica que estabelece critérios para o bom e o mau comportamento e para a avaliação de seus motivos e consequências. Em termos de sua finalidade, é uma ciência prática. Entende-se que não se trata de conhecimento em si, mas de uma prática responsável que deve fornecer às pessoas ajuda na tomada de decisões morais. No entanto, a ética só pode justificar princípios e normas gerais de bom comportamento ou julgamento ético. Mas para julgamentos preferenciais de certos tipos de situações problemáticas a matéria da Ética sofre ramificações. Uma dessas ramificações é a Bioética que segundo Maria Helena Diniz trata- se de: […] uma resposta da ética às novas situações oriundas da ciência no âmbito da saúde, ocupando-se não só dos problemas éticos provocados pelas tecnociências biomédicas e alusivos ao inicio e fim da vida humana, às pesquisas em seres humanos, às formas de eutanásia, à distanásia, às técnicas de engenharia genética, às terapias genicas, aos métodos de reprodução humana assistida, à eugenia, à eleição do sexo do futuro descendente a ser concebido, a clonagem de seres humanos, a maternidade substitutiva, a escolha do tempo para nascer ou morrer […] (DINIZ, 2017, p. 35). Verifica-se que a bioética é um ramo da ética e, portanto, faz parte da do Direito. Conclui-se que a matéria refere-se à reflexão ética de todas as formas como as pessoas lidam com o ambiente em que vivem; em particular a forma como as pessoas lidam com a vida (outras pessoas),os animais, a natureza e com as aplicações médicas e também biotécnicas. Um dos objetivos da bioética é chegar a um consenso legislativo sobre essas questões e discussões, a fim de criar uma base 11 moral para o estabelecimento de regras normativas (leis, convenções, bases de decisão para comitês de ética, atos administrativos) para uma abordagem responsável da vida. Além da bioética o biodireito também se firma cada vez mais. É um novo tipo de semântica jurídica e uma área do Direito considerada nova, que se diferencia no contexto de novos desafios sociais. O ponto chave são os avanços tecnológicos propositados não só no que diz respeito à vida e à saúde, mas também na própria pessoa humana. Visa cobrir inúmeros tópicos e áreas de conflito. Segundo Diniz (2017), o simples fato dos rápidos avanços tecnológicos, cria uma infinidade de novas questões que precisam ser resolvidas com base legal. O Biodireito trata-se da área jurídica interligada à matéria da Bioética que dispõe sobre essas questões. Nada mais é do que a positivação legislativa da Bioética. Tal ramo do Direito Público surge como uma retaguarda jurídica que abrange a evolução tecnológica relacionada à área da saúde, e de como esses avanços impactam o meio ambiente e o complexo contexto biológico na qual a humanidade encontra-se inserida. Além disso, segundo Adeodato (1996, p. 132) é necessário ao analisar Justiça e Direito ―observar em que sentido a justiça é um valor moral, do indivíduo, e em que sentido se apresenta com o valor social, especificamente jurídico‖. Pode-se notar que o Direito Contemporâneo nunca careceu tanto de princípios decorrentes da ética, pois, a partir de agora, estão em jogo inúmeros assuntos das mais variadas vertentes científicas e tecnológicas, muitos destes sendo temas que influenciam nossa própria essência e conservação como sociedade. Um exemplo cabível também neste sentido é o Princípio da Precaução, um dos mais importantes do Direito Ambiental, disposto inclusive no Artigo 1° da Lei de Biossegurança de 2005. Acerca deste princípio bioético e sua relação direta com a Dignidade da Pessoa Humana afirma Fiorillo: Conforme já tivemos oportunidade de dizer, nossa Constituição Federal de 1988 expressamente adotou o princípio da prevenção, ao preceituar, no caput do art. 225, o dever do Poder Público e da coletividade de proteger e preservar os bens ambientais, de natureza difusa, para as presentes e futuras gerações. Destarte, o comando constitucional determina claramente a necessidade de preservar os bens ambientais evidentemente em harmonia com os fundamentos (art. 1º da CF) bem como objetivos (art. 3º da CF) explicitados como princípios constitucionais destinados a interpretar o direito ambiental constitucional brasileiro. (FIORILLO 2011, p. 121-122) 12 Conforme estão atestado nas palavras do autor, o primeiro artigo da Constituição Brasileira de 1988 relaciona-se diretamente com o cuidado ao meio ambiente. Dentre os princípios dispostos neste artigo está o da Dignidade Da Pessoa Humana, que será abordado ainda neste artigo. Interessante ainda citar o artigo ―CRISPR Ethics: Moral Considerations for Applications of a Powerful Tool‖ de BROKOWSKI e ADLI (2019), onde as autoras do artigo chegaram à conclusão de que a discussão ética acerca do tema deveria evoluir à medida que a tecnologia fosse também evoluindo e que seria prudente para as legislaturas nacionais e supranacionais considerarem a regulamentação baseada em evidências de certas aplicações CRISPR/CAS9. Nota-se que as implicações éticas a respeito da aplicabilidade da técnica são de fundamental importância em uma discussão da ampliação da proteção de leis ambientais, mais especificamente a Lei de Biossegurança de 2005, de que se tratará no último tópico deste artigo. A própria ética em seu plano material é o diapasão que deve guiar as mais variadas condutas estando embasadas por valores morais que não devem separar-se da Justiça, pois os bens da qual esta visa proteger, dependem de tais valores como se verifica a seguir: Uma ética material de valores precisa cuidar não apenas do bom (valores morais) mas também dos bens, sejam estes corpóreos, coisas, sejam eles imateriais, espirituais. Os antigos, diz Hartmann, estavam certos ao fazer a doutrina sobre os bens constar da ética: ―O ethos do homem está ligado a um conjunto de valores que não são valores morais. A conduta moral é, sem dúvida, sempre uma conduta diante de pessoas, mas é, ao mesmo tempo, sempre uma conduta ligada a objetos valiosos e desvalidos de toda espécie‖. Os valores morais, por seu turno, dizem respeito exclusivamente a pessoas e seus atos. Inobstante, o conteúdo que os determina é o mesmo e os objetos do mundo ganham nova dimensão, a ética, ao serem vistos como bens. Valores morais como a honestidade e a solidariedade dependem da existência de bens sobre que incidam. Da mesma maneira, a justiça é um valor moral que só tem sentido através da interação entre as pessoas diante de um bem considerado justo: é a dependência dos valores morais em relação aos bens ou valores objetivados. (ADEODATO, 1996, p. 137) Mostra-se evidente que o próprio manejo e funcionamento adequado da justiça, e isso inclui as leis que dispõem acerca do Biodireito, deve ser sempre guiado sob a luz destes princípios bioéticos, para que assim haja uma maior segurança jurídica a respeito do tratamento dos Organismos Geneticamente Modificados. Outra obra que aborda as implicações de princípios relacionados ao 13 assunto é a de Mayana Zatz em seu livro Genética: Escolhas que nossos avós não faziam (2012): O biodireito tem como pressuposto um conjunto de princípios, inspirados na bioética, que orientam a aplicação das normas jurídicas relativas às inovações científico-tecnológicas associadas ao código genético, substâncias e outras partes do corpo humano, visando à proteção da dignidade humana. Grande parte da doutrina jurídica especializada no tema tem entendido que os referenciais da bioética que contribuem, num primeiro plano, para a construção desse arcabouço jurídico são os princípios da autonomia do consentimento informado, da beneficência ou não maleficência, da justiça, da sacralidade da vida humana e da dignidade do ser humano, questões que de forma prática e sincera são abordadas neste livro. Ocorre que, na prática, grande parte desses temas ainda precisa e deve ser enfrentada com profundidade pelo Poder Legislativo, uma vez que não foi objeto de tratamento jurídico adequado, ou, quando isso ocorreu, esbarrou em problemas conceituais que dificultam a efetiva aplicação das normas. É o clássico caso em que a dinâmica da ciência relativiza os conceitos já construídos em face dos novos resultados alcançados, e fica difícil estabelecer novos conceitos legais para temas que ainda estão em construção no campo ético e científico. Somado a esses fatores, o Poder Judiciário também precisa se aprofundar nessas questões, pois a falta de jurisprudências que reflitam esses novos referenciais bioéticos tem dificultado a melhor orientação na condução desses temas no campo prático. (ZATZ, 2012, p.13) Conforme se verifica em Zatz (2012, p.13), a atualidade fornece uma variada celeuma de questões relacionadas a vários assuntos importantes, e muitos destes tem caráter científico muito relevante para ser tratado de forma inconsequente. Por esta razão é que os princípios guiam o Direito Contemporâneo como nunca antes. 3 DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A NECESSIDADE DE LEI DE BIOSSEGURANÇA COIBIR ATOS ADMINISTRATIVOS IMPRUDENTES PARA COM A TECNOLOGIA GENES DIRIGIDOS POR CRISPR/CAS9. O princípio em comento é um dos primórdios fundamentais da República Federativa Do Brasil reconhecida no artigo 1º da Constituição Federal de 1988 sendo digno de nota relacionar este princípio ao fator de origem de todos os direitos fundamentais.Nos dizeres do Ministro Alexandre de Moraes em sua obra de Direito Constitucional, em sua profunda conceituação, define este princípio da seguinte maneira: 14 A dignidade da pessoa humana concede unidade aos direitos e garantias fundamentais, sendo inerente às personalidades humanas. Esse fundamento afasta a idéia de predomínio das concepções transpessoalistas de Estado e Nação, em detrimento da liberdade individual. A dignidade é um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da própria e que traz consigo a pretensão ao respeito por parte das demais pessoas, constituindo-se um mínimo invulnerável que todo estatuto jurídico deve assegurar, de modo que, somente excepcionalmente, possam ser feitas limitações ao exercício dos direitos fundamentais, mas sempre sem menosprezar a necessária estima que merecem todas as pessoas enquanto seres humanos. (MORAES, 2005, p 53) Conforme tal elucidação nota-se que o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve ser respeitado em todas as esferas do direito brasileiro, além de ser intrínseco ao ser humano, trata-se de um Direito Fundamental basilar de todos os outros de acordo com a própria Constituição: A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [...] III - a dignidade da pessoa humana; (BRASIL, 1988, art. 1, III) A importância de uma lei de biossegurança para coibir atos administrativos surge da necessidade de tratarmos os Organismos Geneticamente Modificados com a devida cautela, respeitando o princípio em questão. Por essa razão, ainda quanto à análise da Dignidade da Pessoa Humana, esta guia uma série de normas constitucionais que se apresentam como verdadeiros norteadores de um legítimo Estado Constitucional, que garante a seus súditos, direitos tão indefectíveis, que chegam como princípios de ordem suprema. Princípios estes que de modo algum se anulam, mas se complementam, ganhando, assim, mais reforço. Legitimando inequivocamente um princípio indisponível e basilar do nosso ordenamento jurídico pátrio, o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, somando-se a isto todo o arcabouço princípiológico que decorre dele percebe-se sua importância no cenário legislativo brasileiro. Nos dizeres de José Afonso da Silva, em sua profunda conceituação, define- se este princípio como aquele que possui ―[...] um valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida‖ (SILVA, 2007, p. 105). 15 Esta concepção demonstra que a autonomia e a liberdade integram a Dignidade da Pessoa Humana. Assim, cada direito fundamental contém uma expressão da dignidade. Como já bem citada, a Constituição Federal de 1988, quando logo em seu artigo 1° garante que a República Federativa do Brasil, tem como um de seus fundamentos principais a Dignidade da Pessoa Humana. E o meio ambiente preservado não escapa a tal princípio. É um objetivo de interesse público, bem definido na Constituição Federal de 1988 quando em seu artigo Art. 225 dispõe que: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. (Brasil, 1988) Observa-se, conforme visto acima, que a Lei pressupõe que o equilíbrio ambiental fornece condições favoráveis ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. Isso é reafirmado no Artigo 225. II da Constituição Federal (1988), quando firma que o Poder Público é responsável por ―preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético‖ ainda dispondo em seu artigo V, que deve ―controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente‖. E tal legislação, ainda fornece a possibilidade de qualquer cidadão defender- se de atos que ponham esse direito em risco. Para isso, prevê em seu rol imutável do Artigo 5°, LXXIII que: Qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má- fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência (Brasil, 1988). Ainda sobre o princípio da Dignidade da Pessoa Humana deve-se observação pertinente quanto a sua relação direta com o Meio Ambiente preservado. Conforme nos explana o artigo 3º, I, da Lei Nº 6.938/81 que Dispõe sobre a Política Brasileira Ambiental: 16 Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por: I — meio ambiente, o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.‖ (Brasil, 1981). Nota-se, portanto, a importância acerca deste princípio para o tratamento de tecnologias que afetem diretamente o equilíbrio ecológico. E, por fim, chega-se à própria Lei de Biossegurança, um marco legal profundo no tratamento responsável de Organismos Geneticamente Modificados (OGM), que na época de sua apresentação levantou-se um debate muito marcante em torno da legalização do uso de células tronco embrionárias para o tratamento de doenças. A referida Lei Nº 11.105, de 24 de Março de 2005, regulamentou o Artigo 225 em seus incisos II, IV e V do §1, todos da Constituição de 1988. A Lei de Biossegurança firmou a criação da Comissão Técnica de Biossegurança - CTNBio, que seria um órgão de apoio técnico para consultas e assessoria do Ministério de Ciência e Tecnologia, vinculado ao Governo Federal. Em seu artigo 14, XVI, esta estabeleceu que compete à CTNBio ―emitir resoluções, de natureza normativa, sobre as matérias de sua competência;‖ (BRASIL, 2005). Entretanto como se verá a seguir, este dispositivo normativo carece de uma cobertura mais direta quanto à edição de tais atos normativos administrativos. Um exemplo central do motivo desta preocupação é o que ocorreu em 2018, quando a Resolução Normativa 16/2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, desclassificou como OGM, os alelos com potencial de recombinação genética, alelos estes com ―possibilidade de alterar toda uma população de seres vivos ou direcionamento gênico, do inglês: Gene Drives.” (BRASIL, 2018). Isso significa que a técnica CRISPR/CAS9 passa a ser passível de implementação com o objetivo de recombinar cromossomos germinativos no intuito de produzir mutações desejadas por organizações e empresas com objetivos variados, que são guiados não pela prudência científica, mas pelo lucro. Embora não se esteja referindo à manipulação de genes humanos, o que é proibido pela Lei de Biossegurança, esta brecha deixa margem para experimentos em vegetais, visto que a partir de agora, como não são mais considerados OGM, podem ser livremente testados em mercado, implicando assim uma imprevisibilidade absurda relacionada aos efeitos e riscos de mutações, que podem acarretar danos completamente imprevisíveis ao equilíbrio ambiental brasileiro. Como bem salienta o argumento da Dra. Naiara Bittencourt: 17 [...] com os transgênicos, as alterações do DNA são herdadas apenas por uma parte dos descendentes, já o gene drives conseguem driblar as leis naturais da hereditariedade e transformar uma espécie inteira. Essa técnica força o gene a ser dominante nas próximas gerações, substituindo o antigo gene, quase que completamente (AUDIOVISUAL, 2019). Verifica-se,portanto que embora haja uma preocupação literária em discutir o assunto da Tecnologia da Edição Genética Gene Drive por CRISPR/CAS9 e em disciplinar de forma legislativa os impactos desta tecnologia, a Lei de Biossegurança em seu artigo precisa tratar da referida técnica de maneira mais direta, no intuito de evitar que medidas administrativas irresponsáveis como a Resolução Normativa 16/2018 existam novamente. Conforme assevera o artigo de Oliveira (2020, p. 25), compreender a tecnologia se torna uma necessidade fundamental, pois significa uma ―série de responsabilidades com as gerações presentes e futuras, sendo forçoso não escapar de suas interferências na natureza e consequências.‖. Torna-se, então, necessária uma maior disciplina e conhecimento no tocante á transparência destes atos e divulgação para a reflexão dos setores da comunidade científica e da sociedade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pelo fato desta tecnologia estar em constante desenvolvimento, promovendo uma rápida transformação na forma como é tratada, torna-se necessária a análise, pesquisa e estudo por parte de outras matérias como a Filosofia Jurídica, Direito Civil no tocante a responsabilidade cível, o Direito Penal, Diretos Humanos e Direito Internacional. Segundo a própria Lei de Biossegurança, o seu objetivo central é regularizar quaisquer que sejam os tratamentos com Organismos Geneticamente Modificados (OGM) por prover medidas que assegurem as precauções necessárias para seu uso. (BRASIL, 2005). De acordo com os dados bibliográficos analisados, é possível concluir que embora a Constituição, as leis ambientais e a Lei de Biossegurança tentem proteger ao máximo a manipulação de Organismos Geneticamente Modificados, a adoção de atos normativos como a Resolução Normativa 16/2018, abrem caminhos e 18 possibilidades muito perigosas que podem causar verdadeiros desastres e desequilíbrios ecológicos se não observados e tratados com responsabilidade. De acordo com a análise histórica traçada por ISAACSON (2021), conclui-se que a tecnologia de gene dirigido é relativamente nova, e, portanto, carece de mais pesquisa e estudos de forma prudente e transparente, com o objetivo de coibir não apenas atos normativos com respeito ao uso da técnica no território brasileiro (no caso em tela), mas decisões administrativas em geral que dispõem sobre o tema. Segundo Diniz (2017, p. 35) é preciso que as discussões éticas nunca se mostrem ausentes quanto à análise dos avanços tecnológicos. Para isso, os aspectos princípiológicos do Biodireito e da Bioética precisam ser considerados com mais cuidado pelas entidades responsáveis por editar regulamentos acerca do tratamento de Organismos Geneticamente Modificados, especificamente os que usam Gene Dirigidos (Gene Drive) por CRISPR/CAS9, para que haja uma maior e mais cautelosa tutela jurídica destas ferramentas avançadas de edição genética, que embora possam futuramente conceber incontáveis benefícios à humanidade, podem desde já, se não usadas com cautela ética, respeitando o princípio da Dignidade da Pessoa Humana, podem provocar incalculáveis prejuízos socioambientais à sociedade brasileira. Conforme bem assevera Zats (2012, p.13), os avanços tecnocientíficos são de natureza muito séria e complexa para serem tutelados pela legislação de forma imponderada. Conclui-se então que a Lei de Biossegurança em seu Artigo 14. XVI precisa estar atenta aos impactos dos genes dirigidos (gene drive) entrando no Brasil e deve ser atualizada com respeito à um maior controle de edição de atos normativos que possibilitem a manipulação de genes dirigidos por CRISPR/CAS9 em solo brasileiro, e em produtos transgênicos que usem esta técnica que entrem nos mercados nacionais, pois, isso poderia gerar um grande prejuízo ecológico. Edições como Resolução Normativa 16/2018 deveriam ser tratadas com muito cuidado pelas autoridades competentes e pela legislação concernente a biossegurança do país. A insegurança jurídica por meio da edição de Resoluções Normativas que diminuem o cuidado no tratamento de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) pode desequilibrar o meio ambiente e o ecossistema brasileiro de maneira que não encontra precedente. É prudente adicionar uma provisão legislativa no Artigo 14. XVI para salvaguardar a exigência de que toda vez que a CTNBio emitir 19 resoluções, de natureza normativa, sobre as matérias de sua competência, que as ideias sejam apresentadas a setores da comunidade científica, com os potenciais riscos da decisão sendo expostos, para que tudo se dê na mais clara transparência, respeitando os princípios bioéticos do Biodireito, juntamente com o princípio da Dignidade da Pessoa Humana. A natureza da Bioética correlacionada com tal princípio Constitucional basilar do direito brasileiro abrange este tratamento com relação à tutela jurisdicional de Organismos Geneticamente Modificados que usam Gene Dirigidos (Gene Drive) por CRISPR/CAS9, pois, ocorre o risco em potencial de mutações genéticas em decorrência da própria natureza ainda em estágios iniciais da técnica, alterarem o meio ambiente em que vivemos, não apenas isso, expor seres humanos aos riscos diretos da inconsequência legislativa. REFERÊNCIAS ADEODATO, João Maurício. 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