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GESTÃO ORÇAMENTÁRIA AULA 5 Prof. Luiz Eduardo Lanzini 2 CONVERSA INICIAL A escolha da melhor alternativa para financiar as atividades das empresas é uma função essencial para a gestão financeira. A escolha se dará pela sua natureza, que pode ser composta através dos recursos próprios dos sócios da empresa e recursos de terceiros. A definição da estrutura mais adequada depende dos cenários econômicos e também do mercado, ambos em constantes modificações e que podem estabelecer momentos favoráveis pela escolha de uma ou outra natureza. Porém, além da natureza, há também condições e modalidades de financiamento que fazem parte dessas decisões e que influenciam o desempenho das empresas. As condições para financiar atividades costumam ser tratadas como um obstáculo ao crescimento dos negócios. Fontes escassas ou condições de prazo e principalmente custos, entenda-se taxas de juros, são “punitivas” e a falta de planejamento adequado pode levar a empresa a ter sérios problemas financeiros. CONTEXTUALIZANDO A primeira função do administrador financeiro é entender a diferença entre liquidez e rentabilidade de um negócio. Na maioria das vezes, essas situações não são coincidentes, e é necessário respeitar o “momento” de cada uma. Para iniciar um negócio e também para mantê-lo com equilíbrio financeiro, o gestor, de forma abrangente, fará frente às seguintes decisões: 1. decisões de investimento; 2. decisões de financiamento; 3. decisões relativas à destinação do eventual lucro do negócio. Quando elaboramos um orçamento, estamos gerando informações para a tomada de decisão. Qual o capital necessário? Qual a expectativa de venda e quais os custos da atividade? Entre outros questionamentos, são informações essenciais para a elaboração do orçamento e respectivos planos operacionais. Além disso, como a atividade empresarial é uma dinâmica entre as diversas contas, cabe ao gestor financeiro equilibrar a rentabilidade do negócio com as condições de liquidez. Condições nem sempre coincidentes. 3 Pesquise Em nosso sistema financeiro, há um importante agente responsável por fomentar recursos para as empresas. Pesquise no site do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e verifique as linhas de crédito para o incentivo ao investimento empresarial. Compare finalidades de crédito e condições que o banco oferece no link <http://www.bndes.gov.br/#>. TEMA 1 – PROPOSTA DE FINANCIAMENTO A fonte de financiamento das empresas envolve o suprimento dos recursos necessários a suas operações normais e a captação de valores para investimentos em projetos com longos períodos de maturação. Braga (1995) menciona que as fontes de recursos à disposição de uma empresa podem ser classificadas de várias formas. Para o autor é possível diferenciá-las pelas seguintes características, “i) recursos próprios e recursos de terceiros; ii) recursos permanentes e recursos temporários; e iii) recursos onerosos e recursos não onerosos” (Braga, 1995, p. 26). Os recursos próprios são identificados no balanço patrimonial pelo patrimônio líquido. Além do capital integralizado, podem compor o saldo dessa rubrica as reservas contingenciais e os lucros reinvestidos. Recursos de terceiros são todas as dívidas contraídas e também os compromissos assumidos pela empresa, sejam financeiros ou obrigações contratuais como salários, fornecedores e impostos. A diferenciação entre recursos permanentes e temporários é o aspecto relacionado ao grau de exigência do recurso em relação ao prazo. Dívidas contraídas com a característica de longo prazo são classificadas como recursos permanentes da empresa. Normalmente, podem ser uma opção de financiamento porque, no sistema financeiro, as linhas de financiamento relacionadas ao longo prazo possuem condições do chamado crédito direcionado, em geral com condições de financiamento atrativas, como juros baixos e prazos estendidos para pagamentos. Financiamentos para as áreas habitacional, agrícola e de aquisição de bens e equipamentos são alguns exemplos dessas modalidades de crédito. Tecnicamente, os recursos próprios também são classificados como recursos permanentes. 4 Por analogia à explicação anterior, entendemos que os recursos temporários são aqueles cuja fonte de financiamento são dívida e compromissos de curto prazo. Empréstimos financeiros e passivos relacionados à atividade da empresa, como impostos, são exemplos de recursos temporários. Ainda pela definição das origens de recursos proposta por Braga (1995), verificamos que a fonte de recursos pode ser onerosa ou não onerosa. O ônus destacado se refere ao custo financeiro pela concessão do financiamento, ou seja, pelos juros pagos pela operação de financiamento ao agente financeiro ou, ainda, junto a uma negociação com fornecedor em que há acréscimo do valor mediante a extensão do prazo de pagamento. Um detalhe importante nesta interpretação é que um recurso não oneroso, como o pagamento de um imposto, pode se tornar oneroso se não o prazo de pagamento não for cumprido. Atrasos no pagamento podem incorrer em multa e juros diários, conforme prevê a lei. Logo, deve-se ter muito cuidado com essa classificação e com alternativas de financiamento para a empresa. As características descritas acima, bem como a sua aplicação no investimento, de certa forma, direcionam as modalidades de financiamento a ser escolhidas pelos gestores financeiros. Talvez o exemplo que mais chama a atenção é a escolha adequada para os investimentos classificados como permanentes da empresa, como imóveis e equipamentos. A possibilidade de retorno de investimento se dará de acordo com a vida útil do bem escolhido, em geral de longo prazo, portanto, pode-se relacionar a esse investimento permanente uma fonte de recurso permanente. Como destacado, para essa linha, pode-se encontrar operações financeiras mais favoráveis à composição de custos e fluxo de caixa da empresa para pagamento do bem e também do ônus financeiro. Um detalhe importante é que o resultado alcançado pela empresa nas suas operações pode ser reinvestido nela própria, aumentando a participação dos acionistas em seu financiamento. A destinação do lucro é a escolha para aumentar a participação dos recursos permanentes no financiamento da atividade empresarial. Ainda pode ser destacado que é possível existir restrições quanto à capacidade da organização em financiar as atividades da empresa, fato que pode estar relacionado à estratégia de crescimento das vendas, item considerado no orçamento de comercial. 5 O efeito de tomar recursos de terceiros a determinado custo, aplicando nos ativos com outra taxa de retorno, é definido como alavancagem financeira (Assaf Neto, 2012). O grau de alavancagem financeira (GAF) é definido pela razão entre os investimentos totais (ativo total) e os recursos próprios (patrimônio líquido). Assim, percebe-se que o ambiente financeiro em nosso país para as empresas de pequeno e médio porte indica que há uma dificuldade em obter recursos de longo prazo para investimentos e, normalmente, as empresas brasileiras financiam as suas atividades com recursos próprios ou recursos de curto prazo, estes com taxas de juros mais elevadas que os financiamentos de longo prazo. Saiba mais Conceito físico da alavanca: A aplicação de uma força menor no braço mais longo resulta em força contrária maior no braço mais curto. A semelhança com as finanças empresariais é que, com o mesmo investimento dos sócios, pode-se ampliar os ganhos com a “alavanca” dos recursos financeiros de terceiros (Figura 1). Figura 1 – Alavanca TEMA 2 – PASSIVOS DE FUNCIONAMENTO Entender o comportamento de algumas contas demonstradas nos balanços contribui para gerenciar determinadas situações nas empresase, por consequência, na construção do orçamento. Rosseti et al (2008) definem os passivos de funcionamento como as fontes de financiamentos espontâneos e não onerosos, ou seja, são passivos gerados pela atividade operacional da empresa, tais como: Fornecedores: obrigações com os fornecedores de matérias-primas e produtos. 6 Impostos a pagar: obrigações fiscais que têm como fato gerador a operação (finalidade) da empresa, como montante de vendas. Salários e outras obrigações: salários, comissões, encargos sociais, entre outras obrigações. Esses passivos são consequências da própria atividade da empresa. O aumento dos valores desse grupo significa que a atividade operacional também deve ter aumentado. Por exemplo, se as obrigações com os colaboradores via salário aumentaram, significa que a empresa precisou contratar mais pessoas para trabalhar. O mesmo para os valores de impostos, se eles aumentam, significa que as vendas também aumentaram. É importante considerar os passivos de funcionamento como uma importante fonte de financiamento da empresa, incluindo os impostos (Braga, 1995). Nessas condições, o gestor financeiro tem conhecimento dos prazos de grande parte das suas fontes de financiamento. Por exemplo: os salários e suas obrigações são mensais, os impostos têm o seu fluxo de pagamentos, que deve ser de conhecimento de profissionais contadores responsáveis pela apuração, entre outras informações. Uma boa referência para melhorar as condições de financiamento por meio dos passivos circulantes da empresa são as negociações com fornecedores. Neste entendimento, cabe ao gestor melhorar as condições de seu interesse, como aumentar os prazos de pagamentos, conseguir descontos para pagamentos antecipados e outros benefícios. Pode-se perceber que os passivos de funcionamento ou, ainda, passivos operacionais de uma empresa se relacionam diretamente com os respectivos ativos operacionais, como ilustra a figura abaixo, e já demonstrado no entendimento a respeito do ciclo operacional da empresa. 7 Figura 2 – Ciclo operacional Se há salários e encargos para pagar, significa que a empresa tem uma atividade que demanda desse fator. De maneira análoga, podemos considerar que, se há compromissos tributários para pagar, estes, em sua grande maioria, são consequências das vendas da empresa, e assim para outras contas que observamos no ciclo. Diante dessa dinâmica, percebe-se que o orçamento de cada área operacional da empresa pode orientar uma contrapartida e, assim, estruturar de maneira ampla o planejamento. Há situações muito evidentes de causa e efeito. Ao definir o volume e os valores a serem praticados na área comercial, estabelece-se uma estimativa de impostos a ser recolhidos. Neste exemplo, ainda se pode estimar os valores compromissados com eventuais fornecedores. Ainda para as estimativas de vendas, ao se definir o local de venda e o canal, consegue-se estimar a necessidade de recursos (pessoas) bem como a necessidade logística de transporte e armazenamento, e assim sucessivamente. O documento que parecia ser complexo inicialmente, a partir do conhecimento dos conceitos que envolvem a sua elaboração, ao se iniciar o preenchimento de maneira estruturada e sequencial, começa a ser definido. 8 Trata-se das projeções para planejamento e controle abrangendo o maior número possível de informações. Saiba mais A classificação dos passivos de funcionamento é considerada nas avaliações de empresas, nas quais o valor apurado desta forma de financiamento é descontado no passivo total da empresa. Ver mais em: <http://www.contabilidade-financeira.com/2012/03/valor-do-empreendimento- enterprise.html> TEMA 3 – ESTRUTURA DE CAPITAIS E SOLVÊNCIA A relação entre empresa, fornecedores e agentes financeiros remete à estrutura de capital, tanto nos investimentos quanto nas fontes de financiamento. As escolhas de alocação desses recursos geram consequências no desempenho financeiro da empresa. Assaf Neto (2012) menciona o conceito proposto por Modigliani e Miller, estudiosos pioneiros na referência ao tema estrutura de capital, que sugerem que a origem dos investimentos que determinam a estrutura de capital da empresa é irrelevante diante de um retorno satisfatório. Assim, a melhor condição de escolha do financiamento estaria na gestão adequada do ativo (investimento) e seu retorno. Em condições ideais, a empresa receberia de seus clientes à vista, mas negociaria com fornecedores e financiadores da empresa prazos maiores para os pagamentos. Porém, quando concede prazo para os clientes, ela assume o risco de fluxo de caixa. Nessa dinâmica, quanto maiores o juros das operações bancárias, menor o retorno para a empresa. Sabendo das condições acima, é importante conhecermos algumas operações do sistema financeiro para ajudar a entender a forma como estruturar financeiramente uma empresa. Como já demonstrado nas aulas anteriores, há no Brasil basicamente duas modalidades para o mercado de créditos: os chamados créditos direcionados, com condições vinculadas a subsídios que servem para financiar em linhas gerais os investimentos permanentes, e os créditos livres. Os créditos livres são operações financeiras mais comuns e sua finalidade ou classificação depende da “criatividade” dos ofertantes dentro de 9 determinadas padronizações do Banco Central do Brasil, conforme destaca Fortuna (2010). Ainda de acordo com este autor, as principais modalidades de crédito livre por segmentação, para a segmentação de empresas, são: i) Capital de Giro: São operações tradicionais de empréstimos vinculadas a um contrato específico estipulando prazos, taxas, valores e garantias necessárias para compor os valores de capital para as empresas. ii) Conta garantida: Nesta modalidade de crédito abre-se uma conta com um limite de crédito com livre movimentação pelo cliente com compensações diárias suportadas pelo limite. Os juros sobre esta modalidade são calculados diariamente sobre o saldo devedor e com pagamentos geralmente no primeiro dia útil do mês seguinte ao da movimentação. iii) Hot Money: empréstimo de curtíssimo prazo, normalmente de um dia e no máximo dez dias. iv) Descontos de Títulos: é o adiantamento de recursos ao cliente feito pelo banco ou outros agentes financeiros sobre valores referenciados em títulos. (Notas promissórias). O objetivo desta modalidade é a antecipar o fluxo de caixa do cliente v) Aquisição de Bens: Crédito para compra de automóveis e outros bens de duráveis como equipamentos de informática e demais equipamentos. Geralmente com prazos maiores e com taxas de juros inferiores às modalidades recomposição de giro de recursos financeiros da empresa já mencionadas anteriormente. vi) Vendor Finance: é uma modalidade de financiamento de vendas para empresas na qual quem contrata o crédito é o vendedor do bem, mas quem paga é o comprador. Nessa modalidade a empresa vendedora deixa de financiar os seus clientes e assim não precisar recorrer ela mesmo a empréstimos com finalidade de capital de giro. É uma modalidade que relaciona empresas e instituição financeira através de contrato. Geralmente pela estruturação da operação e pela formalização, são operações com custos financeiros mais atrativos para as empresas. (Fortuna, 2010) Decisões de quanto emprestar, como avaliar os candidatos a empréstimos e qual taxa de juros será cobrada dependem da finalidade da operação. Prazos e condições contratuais também contribuem para definir o risco. Os créditos livres têm, geralmente, prazos menores e normalmente financiam a atividade operacional das empresas ou, no caso das pessoas físicas, o consumo não permanente. Nessas condições, a situação do agente bancário em relação à exposição do risco pode ser condicional. Para os maiores riscos, maioresas taxas de juros. Este é o ponto, a demonstração de que os financiamentos das atividades operacionais (que, por sua vez, são geralmente mais caros) expõem as empresas às condições de solvência. Como ficou demonstrado, a estrutura de capital e a capacidade de solvência são decisões de longo e também de curto prazo. Nas duas situações há possibilidade de se afetar o desempenho da empresa. 10 Saiba mais O Banco Central do Brasil classifica as modalidades de empréstimo de acordo com a característica do contrato. As instituições financeiras também usam diversas nomenclaturas para as suas operações de crédito. Consulte algumas modalidades de financiamento em: <www.bcb.gov.br>. TEMA 4 – ANÁLISE DA LIQUIDEZ E CAPACIDADE DE PAGAMENTO A liquidez de uma empresa é medida pela sua capacidade de honrar suas obrigações de curto prazo e longo prazos (Assaf Neto, 2012). A sua análise é utilizada para avaliar a capacidade de pagamento da empresa, ou seja, constitui uma apreciação sobre a capacidade dela de saldar seus compromissos com terceiros. A liquidez é medida em índices, que são avaliados pelo critério de “quanto maior, melhor”. A forma de acompanhar a liquidez pode ser por indicadores. Eles estabelecem a relação entre as contas ou grupo de contas das demonstrações contábeis, visando evidenciar determinado aspecto da situação econômico- financeira de uma empresa, e servem como um termômetro para indicar suas condições financeiras. Os indicadores apontam a capacidade de pagamento da empresa. Braga (1995), destaca os principais indicadores e seu objetivo, conforme quadro a seguir: Quadro 1 – Indicadores de liquidez Liquidez imediata (LI): Disponível / Passivo Circulante Este indicador mede a capacidade financeira da empresa em honrar imediatamente seus compromissos de curto prazo, contando apenas com suas disponibilidades, ou seja, os recursos disponíveis em caixa ou bancos. Liquidez corrente (LC): Ativo Circulante / Passivo Circulante A liquidez corrente é um dos indicadores mais utilizados em análise econômico- financeira, mostrando quanto a empresa poderá dispor em recursos no curto prazo (caixa, bancos, clientes, estoques, etc.) para pagar suas dívidas circulantes (fornecedores, empréstimos e financiamentos de curto prazo, contas a pagar, etc.). Liquidez Seca (LS): (Ativo Circulante – Estoques) / Passivo Circulante Esse indicador é uma medida mais rigorosa da liquidez da empresa. Mostra quanto a empresa poderá dispor de recursos circulantes, sem levar em consideração seus estoques, para fazer face às suas obrigações de curto prazo. Liquidez geral (LG): Ativo Circulante + Ativo Realizável a Longo Prazo / Passivo Circulante + Passivo Exigível a Longo Prazo A liquidez geral, ou índice de solvência geral, é uma medida de capacidade da empresa em honrar todas as suas exigibilidades, contando, para isso, com os seus recursos realizáveis a curto e longo prazo. Fonte: Elaborado com base em Braga, 1995. 11 Os índices de liquidez são uma forma de medir o grau de solvência de uma empresa, e não necessariamente indicam sua capacidade de saldar seus compromissos nos prazos estabelecidos. A adequação dos prazos de pagamentos e recebimentos é que vai estabelecer as condições financeiras do empreendimento. Alguns autores chamam essa prática de tesouraria. Além disso, existe uma condição não descrita nos índices que, justamente, é descrita nas atividades operacionais da empresa e, portanto, deve estar prevista no orçamento empresarial. Já foi verificado que a concessão de crédito aos clientes pode ser um importante propulsor de vendas, mas as condições para transformar isso em caixa no prazo preestabelecido depende muito da qualidade da operação. Outra situação é a capacidade de converter os estoques em recursos financeiros. A depreciação do valor ou até mesmo a deterioração podem comprometer a conversão esperada. Os índices não devem ser considerados isoladamente, e sim num contexto mais amplo, em que cabe interpretar também outros indicadores e variáveis. Muitas vezes, um alto grau de endividamento não significa que a empresa esteja à beira da insolvência, já que existem outros fatores capazes de atenuar essa condição. Como utilizar esses índices na elaboração do orçamento empresarial? A composição dos índices de liquidez é baseada nas informações de demonstrativos contábeis, neste caso, principalmente, o balanço patrimonial. Ele tem, como uma de suas características, apresentação dos resultados das contas após o registro e encerramento das atividades da empresa durante o exercício social, ou seja, o registro dos fatos contábeis após efetivamente terem ocorrido, portanto, apresenta uma situação estática das informações da organização após seu acontecimento e dessa composição são extraídas as análises pertinentes. Como orçamento visa justamente o planejamento com base em cálculos antecipados, utiliza-se a combinação de projeções combinadas para se prever um balanço patrimonial e assim extrair os índices. Além da verificação do comportamento das estruturas das contas do balanço, também é possível extrair e projetar as condições de pagamento ou folga nos seus passivos para eventuais empréstimos para novos investimentos. Portanto, acompanhar as condições de liquidez da empresa e simular diversas 12 situações pertinentes às orientações operacionais, ou até mesmo de recursos, são premissas que também podem estar contempladas no orçamento empresarial. Saiba mais A liquidez de uma empresa pode ser apresentada em tradicionais indicadores. Consulte: <http://www.portaldecontabilidade.com.br/tematicas/indi ces-de-liquidez.htm>. TEMA 5 – ANÁLISE DE TENDÊNCIA A principal limitação do orçamento empresarial talvez seja a necessidade de se prever condições futuras para os negócios. A dinâmica do mercado, cada vez mais competitivo e especializado, a tecnologia e a escassez de recursos podem dificultar ainda mais a capacidade dos gestores de enxergarem condições futuras. Se acrescentarmos a essas variáveis a instabilidade econômica de um ambiente ou país, ou, até mesmo, a efervescência política, temos que qualquer previsão para o orçamento é questionável. Nas orientações estratégicas, esse fenômeno também é percebido. Kassai et al destacam algumas frases famosas da história que se tornaram um grande fiasco no ambiente empresarial. Seguem alguns exemplos: “O fonógrafo não tem valor comercial.” Thomas Alvin Edison, Inventor do fonógrafo – 1880. “É impossível ter máquinas voadoras mais pesadas que o ar!” Lord Kelvin, Matemático e Físico britânico presidente da British Royal Society – 1895. “Eu penso que existe um mercado mundial para cerca de cinco computadores.” Thomas J. Watson, Presidente da IBM – 1943. “Com pouco mais de 50 carros já à venda aqui, a indústria automobilística japonesa não tem possibilidade de capturar uma grande fatia de mercado norte-americano.” Business Week, 2 de agosto de 1968. (Kassai et al, 2000, p. 24) Naturalmente, analisar essas frases sem entender o contexto não é válido. Hoje parecem absurdos os erros de previsão, algumas delas vindas de pessoas que lideravam as suas empresas ou estavam diretamente ligadas aos seus negócios, porém tais situações demonstram a dificuldade de se prever as condições empresariais. 13 São muitos itens ou variáveis que compõem as condições do orçamento, e as técnicas de previsão vem sendo aprimoradas. Normalmente, trabalha-se com técnicas qualitativas e quantitativas para se mitigar erros de projeção. A premissa é a aceitação da incidência de riscos para qualquer variável. Risco corresponde a um evento ou condição incerta que, se efetivamente ocorrer, pode impactar um negócio positiva ou negativamente. Para analisar um risco, considera-se uma probabilidade e um impacto. As técnicas qualitativas podem explorardados passados e presentes para se antecipar a tendência futura ou mesmo, a partir de uma meta ou objetivo futuro, verificar se há condições ou restrições para os dados presentes observados. As principais técnicas qualitativas dependem de tempo para a realização do levantamento, custos para buscar informações e, naturalmente, a disponibilidade de dados. Elas podem ser: Entrevistas: entrevistas estruturadas ou abertas com as pessoas responsáveis por áreas específicas, como vendedores, gerente de produção, entre outros, além, é claro, de diretores e gestores da cúpula estratégica. Painel de consenso: técnica que converge à exposição do ponto de vista de várias pessoas em reuniões ou documentos. Método Delphi: semelhante ao painel de consenso, que envolve a participação de um grupo de pessoas, porém os participantes não se comunicam. Dessa forma evita-se a influência ou conflito entre os participantes. A dificuldade é estabelecer critérios para fazer a convergência de opinião necessária. Brainstorming: técnica para gerar ideias através de processo controlado de pensamento lateral que ajuda a levantar possíveis riscos. Pesquisa de mercado: técnica reconhecida como um importante instrumento do marketing, consistindo em sondagens com potenciais consumidores ou clientes. Exige habilidades para se avaliar amostragens e projetar questionários. Analogia ou Benchmarking: consiste em utilizar dados conhecidos e consagrados de certa variável ou modelo para ser replicado. Exige a definição de padrões e a capacidade de avaliar condições especiais para se garantir o sucesso, além de ser custosa em alguns casos. 14 Por outro lado, há técnicas quantitativas que envolvem procedimentos estatísticos e matemáticos. Essas técnicas consistem em explorar dados para se fazer inferências estatísticas por meio de modelos específicos. Os métodos mais conhecidos são: Média aritmética simples e móvel: os valores futuros são determinados pelas médias periódicas. Para algumas variáveis, pode-se adotar um número razoável da população ou até mesmo a população inteira, como o faturamento anual distribuído mês a mês, entre outros. Correlação: esta técnica mede o grau de relacionamento entre duas variáveis ou um conjunto delas. Indica a maneira como elas se comportam. Por exemplo: o consumo de sorvetes aumenta de acordo com o aumento da temperatura. Nesse caso, há uma correlação positiva entre consumo de sorvete e aumento de temperatura. A quantificação dessa relação é obtida estatisticamente pelo coeficiente de correlação. Regressão linear: consiste em uma tentativa de se estabelecer uma equação matemática (linear) que descreva o relacionamento que possa haver entre variáveis. Quando uma empresa quer entender quanto um investimento em propaganda impacta o faturamento, por exemplo, pode estimar através desta técnica estatística. Programações matemáticas: são cálculos que envolvem a comparação de alternativas a partir de restrições ou objetivos entre variáveis. Hoje, as planilhas eletrônicas oferecem as funções de “atingir meta” ou “solver”, que são um exemplo de uma programação matemática ou programação linear. Todos os modelos qualitativos ou quantitativos apresentados são aplicáveis. Elas permitem reconhecer relações históricas de causa e efeito, a influência e o comportamento de variáveis dependentes e independentes. Uma dificuldade é que nem sempre são reconhecidos os fatores efetivamente relacionados, principalmente para horizontes de longo prazo, mas eles podem produzir ótimas previsões de curto e médio prazos, sendo úteis para a elaboração do orçamento empresarial. 15 TROCANDO IDEIAS Como a empresa pode montar um painel de especialistas para ser utilizado na sua previsão orçamentária? Faça um levantamento de informações disponíveis e importantes que podem ser usadas pela empresa e organize um painel de “especialistas”. A empresa não precisa de especialistas contratados, mas pode organizar informações e previsões fornecidas por diversas publicações. NA PRÁTICA Pesquise referências dos indicadores apresentados nessa rota e compare com as informações divulgadas para qualquer setor. Sua tarefa é descrever como a definição de metas desses indicadores pode ser planejada no orçamento empresarial para uma empresa específica. FINALIZANDO Esta aula foi importante para entendermos as fontes de financiamento da empresa. É interessante a classificação entre passivo de funcionamento e financiamento, e o seu entendimento permite ao gestor financeiro melhorar as suas negociações. Tais situações complementam ainda mais a necessidade e as consequências da dinâmica das contas operacionais, popularmente conhecidas como capital de giro e, como efeito, permitem gerenciar melhor os passivos circulantes. Ainda foi possível compreender formas de avaliar o desempenho das empresas. Os indicadores ou índices facilitam bastante o trabalho de análise, uma vez que a apreciação de certas relações ou percentuais é mais significativa que a observação de montantes. De fato, os índices servem como um termômetro da saúde financeira da empresa. Porém, para fornecer um parecer conclusivo, é necessário analisar outros aspectos da estrutura financeira e econômica da empresa. 16 Finalmente, foram levantadas formas de aprimorar as condições de previsibilidade necessárias para compor o orçamento empresarial. Considerados uma limitação da ferramenta, os erros de previsão podem ser mitigados se forem adotados procedimentos quantitativos relacionados a modelos estatísticos e, também, abordagens qualitativas. Todas essas técnicas contribuem para as projeções da área comercial, principalmente, mas também dos demais planos operacionais. 17 REFERÊNCIAS ASSAF NETO, A. Estrutura e análise de balanços: um enfoque econômico- financeiro. São Paulo: Atlas, 2012. BRAGA, R. Fundamentos e técnicas de administração financeira. São Paulo: Atlas, 1995. CARNEIRO, M.; MATIAS, A. B. Orçamento empresarial: teoria, práticas e novas técnicas. São Paulo: Atlas, 2011. FORTUNA, E. Mercado financeiro: produtos e serviços. Rio de Janeiro: QualityMark, 2010. 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