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Educação Alimentar e Nutricional 1. COMPORTAMENTO E MUDANÇAS ALIMENTARES 2 Conceitos e definições: · Os biológicos, como a presença de doenças, a genética e a exposição a alguma substância ainda na placenta da mãe; · Os psicológicos, que envolvem o humor, a personalidade e, até mesmo, doenças como depressão, ansiedade e transtornos alimentares; · Os fatores ambientais, que vão desde a escolha e a seleção dos alimentos, os hábitos familiares, a rotina de vida, o local de moradia e a influência da mídia. · Nos últimos anos, observou-se um interesse maior sobre os fatores ambientais e psicológicos, o que demonstra seu papel fundamental na gênese do comportamento alimentar. Considerando a complexidade e a multifatoriedade da alimentação humana, Poulain e Proença (2003) discutiram e sistematizaram formas de diagnosticar as práticas e o comportamento alimentar, expondo três tipos de problemas metodológicos que merecem atenção: natureza dos dados, métodos de coleta de dados e vias de entrada no espaço social alimentar. Natureza dos dados: Considera o tipo de dados que se pretende coletar, o que o indivíduo faz, o que ele demonstra fazer, suas opiniões, valores e atitudes em relação ao alimento e à alimentação. Esses dados permitem descrever e compreender o fenômeno alimentar e podem ser distribuídos de modo contínuo desde os mais objetivos até os mais subjetivos, exemplo: Práticas observadas Comportamento individual ou coletivo, externalizado com a ajuda de técnicas audiovisuais de registro Composição da bandeja ou do prato. Itens que compõem um carrinho de compras num supermercado Práticas objetivadas Práticas analisadas pelos traços que elas deixam: fluxo econômico, fluxo de dejetos etc. Quantidade de produtos vendidos em uma da zona geográfica Valores Os valores são representações positivas ou negativas, mais ou menos racionais, associadas a uma prática ou a um produto Comer muito pão aumenta a barriga, comer arroz com feijão engorda, comer pão torrado não engorda etc. MÉTODOS DE COLETA DE DADOS: A construção ou, até mesmo, a utilização de técnicas já consagradas são essenciais na coleta de dados e tornam-se importantes pontos de atenção. Para Poulain e Proença (2003), a coleta dos dados sociológicos pode ser feita a partir de seis grandes técnicas. O questionário pode ser aplicado em: · Por entrevista pessoal: é um método considerado mais confiável quando conduzido por profissionais treinados, porém deve-se controlar o impacto do papel do entrevistador na condução das entrevistas. · Por entrevista telefônica: é um método conveniente, elimina custos de transporte e permite um alcance maior da população, embora não permita a apresentação de listas ou imagens, além da necessidade de se atentar às questões culturais locais, principalmente no que diz respeito aos alimentos regionais. · Por autoadministração: o indivíduo preenche as informações, em lugares e em contextos diversos. O questionário pode ser entregue pessoalmente, por e-mail ou, até mesmo, ser enviado por meio de instrumentos de pesquisa on-line, como o Google forms® ou o Survey Monkey® – esta solução tem a vantagem de evitar as interferências entre os status social do entrevistador e do entrevistado. No entanto, a aplicação em grande escala e com uma população pouco motivada pode gerar erro de dados e/ou redução na devolução de questionários. Outras técnicas de coleta autoadministradas: Além das formas de administração apresentadas, podem ser utilizadas técnicas variadas de relato e construção de práticas com o objetivo de resgatar no paciente seus hábitos alimentares, os alimentos mais consumidos, os horários de refeições, os sentimentos e as sensações envolvidos no ato de se alimentar como. Recordatório 24h: Método retrospectivo, utilizado para definir e quantificar alimentos e bebidas ingeridos no período anterior à entrevista, que normalmente 24 horas precedentes ou, comumente no dia anterior. Embora sua aplicação seja fácil e rápida ela depende da memória e idade dos entrevistados, não reflete as diferenças entre dias atípicos e caracteriza apenas o consumo alimentar. REGISTRO OU DIÁRIO ALIMENTAR: Esse método é baseado nas anotações de um indivíduo em formulários específicos, nos quais eles devem descrever alimentos e bebidas ingeridos durante um determinado período e ainda acrescentar informações como sentimentos, sensação de fome saciedade e satisfação. Como desvantagem ele pode interferir no padrão alimentar exige alto nível de motivação, colaboração e treinamento e ainda que o indivíduo saiba ler e escrever (FAGIOLI; NASSER, 2008). História alimentar: Consiste na associação nos métodos de recordatório 24 horas, registro alimentar e um checklist dos alimentos consumidos no último mês, entretanto como desvantagens depende da memória exige tempo, é de difícil padronização e não deve ser aplicado em populações (FAGIOLI; NASSER, 2008). Semanário alimentar: É um instrumento no formato de um bloco, e cada tomada alimentar, seja uma refeição ou um lanche, deve ser registrado em uma folha única. Todos os detalhes com relação à atividade física, sensações de sede, fome, calma/ansiedade, depressão/alegria, bem como informações com relação ao próprio alimento – se parece estar apetitoso ou não – deveriam ser percebidos pelo voluntário e registrados na folha correspondente. Não se trata apenas do registro do consumo alimentar; representa, a descrição do ambiente como um todo, por meio do registro do local, horário, dia da semana, tipo de evento alimentar e número de pessoas presentes. Cada folha contém 21 campos a serem preenchidos. O voluntário utiliza, em média, 6 folhas por dia, totalizando 126 informações registradas em apenas um dia da semana. Sete dias exigem, portanto, a atenção no preenchimento de, em média, 882 dados referentes apenas ao comportamento alimentar. Há também dez campos que devem ser preenchidos com informações referentes à qualidade do sono diário. Esses números refletem a riqueza das informações que devem ser preenchidas pelos voluntários. Embora ele seja extremamente completo, também é complexo, exige a participação de indivíduos motivados e instruídos que devem ser previamente treinados e acompanhados. MODELO TRANSTEÓRICO: Utiliza estágios de mudança para integrar processos e princípios de mudança provenientes das principais teorias de intervenção. Para tanto ele considera os seguintes estágios. · Pré-contemplação (comportamento de risco) – reconhece práticas inadequadas, mas não tem intenção de modificar; · Contemplação (intenção de mudar a longo prazo) – visualiza muitas barreiras, mas está decidido a mudar de comportamento; · Decisão ou preparação (intenção de mudar a curto prazo ± 30 dias) – muitas vezes, o indivíduo já prevê um plano de ação. · Ação (mudança está ocorrendo) – há um envolvimento ativo na mudança de comportamento há menos de 6 meses. · Manutenção (incorporação de novos hábitos há mais de 6 meses) – há uma consolidação dos ganhos obtidos até o momento. A identificação dos estágios de mudança dos indivíduos é feita com base em algoritmos, proposta nos Cadernos de Cuidados para a Obesidade, do Ministério da Saúde (BRASIL, 2014a). A classificação dos indivíduos nos estágios de mudança permite direcionar melhor as ações e as metas das intervenções nutricionais para cada indivíduo, considerando que apresentam diferentes percepções e motivações para realizar mudanças em sua dieta ou em seu estilo de vida. ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO PROPOSTAS PARA CADA ESTÁGIO DE MUDANÇA, VISANDO À MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO ALIMENTAR Estágio Foco de intervenção O que fazer O que não fazer Pré-contemplação Aumentar o conhecimento sobre o saudável e a consciência do indivíduo sobre a sua prática alimentar Oferecer informações sobre recomendações nutricionais e os benefícios de uma dieta adequada, e prover o indivíduo de ferramentas adequadas para avaliar a sua alimentação Não assumir que a mudança de comportamentoserá rápida, diante da grande resistência e da pouca motivação do indivíduo Contemplação Aumentar a confiança na própria habilidade do indivíduo para adotar as recomendações nutricionais em sua alimentação Identificar quais são as barreiras que impedem a mudança, segundo o indivíduo, e traçar meios de superá-las Não criticar a ambivalência do indivíduo: diversas barreiras podem ser apresentadas em diferentes momentos Preparação Definir o plano de ação que será implementado nos próximos 30 dias Estimular o alcance de objetivos específicos, sem sobrecarregar o indivíduo com várias metas Não menosprezar pequenas mudanças realizadas pelo indivíduo em sua alimentação Ação Treinar as habilidades do indivíduo para alterar o comportamento por mais tempo Fornecer materiais individualizados e estratégias práticas, envolvendo suporte social (relacionamentos de auxílio à mudança) e recompensas Não oferecer apenas informações gerais, considerando que o indivíduo já está colocando em prática uma alimentação saudável Manutenção Desenvolver a habilidade do indivíduo para enfrentar novas dificuldades Estimular a manutenção dos objetivos alcançados Não assumir que a ação inicial será permanente, nem criticar recaídas determinar o foco da intervenção e planejar estratégias que visem à modificação do comportamento alimentar. TÉCNICAS DE COLETA E DADOS SOCIOLÓGICOS Considerando os elementos abordados na tabela, é importante destacar que, dependendo do tipo de dado a ser coletado, pode ser necessário utilizar mais de uma técnica, a fim de garantir a qualidade das informações. Vias de entrada no espaço social alimentar: Podemos considerar quatro níveis de entrada dos alimentos na vida dos indivíduos: as disponibilidades de alimento na escala dos países; as aquisições de alimentos analisadas por categorias sociais; as práticas domésticas de compra, de preparação e de consumo de alimentos; e, por fim, as diferentes modalidades de consumo individual. Esses níveis correspondem a focos, isto é, a escalas de leituras complementares do fenômeno alimentar. As vias de acesso e os níveis de observação do fenômeno permitem compreender como esses alimentos chegam até os indivíduos e suas possíveis limitações, 2. DIMENSÕES DO COMPORTAMENTO E DAS PRÁTICAS ALIMENTARES Descritores do comportamento alimentar: Os descritores do comportamento alimentar permitem, quer seja pela observação, pela objetivação indireta ou pela reconstrução, a percepção das diferentes dimensões das práticas alimentares. Nesse momento, precisamos resgatar dois conceitos importantes: considera-se refeição (café da manhã, almoço e jantar) as tomadas alimentares fortemente constituídas e sobre as quais o indivíduo apresenta mais clareza e consciência do seu consumo; já as tomadas alimentares fora das refeições são representadas por lanches e aperitivos, que, muitas vezes, se reagrupam sob o termo “lambiscar” ou “beliscar”, não são fortemente constituídas, mas também representam o consumo alimentar. DIMENSÕES Temporal Momento do dia • Período: manhã • Período: meio-dia • Período: noite Duração Número de minutos Estrutural Fora das refeições • Número de tomadas • Tipos de alimentos Nas refeições • Número de tomadas • Estruturas: prato principal, salada, arroz, feijão etc. Espacial Em local público • Restaurante coletivo • Restaurante comercial • Local de trabalho • Local de estudo Em uma casa • Pessoal • De um parente • De um amigo Lógica de escolha Pessoal • Oferta fechada • Oferta aberta Delegada • A alguém próximo · A um profissional de cozinha Meio ambiente social Ausente Sozinho Natureza • Amigos • Colegas de trabalho • Parentes Número • Dupla • Grupo • Grande grupo Posição corporal Em pé • Móvel • Imóvel Sentado • Agachado • Em uma cadeira • No chão, de pernas cruzadas Deitado • Com mobilidade • Sem mobilidade Maneiras à mesa Modo de pegar o alimento • Dedos • Talheres • Outro alimento (pão, folha de alface etc.) Forma de divisão • Alimento inteiro • Em pequenos pedaços moídos Papel de gênero e de idade • Homem, mulher • Criança, adolescente, adulto, idoso A atitude alimentar é a melhor expressão para entendermos a relação do indivíduo com os alimentos e sua dieta. De forma geral, essa ideia passa por três: · Afetivo: refere-se a sentimentos, humor e emoções (favoráveis ou desfavoráveis) causados por um objeto específico. · Cognitivo: refere-se a crenças e conhecimentos sobre o objeto (influenciado por fatores diversos). · Volitivo: diz respeito à vontade, referindo-se à intenção comportamental em relação ao objeto, ou seja, a predisposição para agir (comportamento de forma coerente). Resgatando o conceito proposto por Alvarenga, Scagliusi e Philippi (2012), que considera que atitude alimentar são crenças, pensamentos, sentimentos, comportamentos e relacionamentos com os alimentos, fica claro que o comportamento alimentar está inserido nas atitudes, as quais são influenciadas por fatores internos e ambientais, como a mídia, a família e a sociedade. ATITUDES ALIMENTARES E SEUS COMPONENTES COGNITIVO, AFETIVO E COMPORTAMENTAL Fatores ambientais: Os fatores ambientais têm clara influência na formação dos hábitos alimentares, são formados na infância quando há condições favoráveis, promovem mudanças escolhas saudáveis na vida adulta. Quando a criança nasce, existe todo um contexto familiar que reflete diretamente nas preferências e nos hábitos alimentares futuros. Assim, os hábitos alimentares da família e os primeiros aprendizados alimentares influirão, a longo prazo, no comportamento. Para Diez-Garcia e Cervato-Mancuso (2012), os principais fatores envolvidos são a família, a escola, a mídia e a imagem corporal. A seguir, exploraremos cada um desses fatores ambientais. Família: Para as crianças, o ato de comer é um evento social, uma vez que elas dependem da ajuda de pais, irmãos ou parentes para preparar os alimentos. A atitude alimentar dos membros da família é um importante preditor de preferências e aversões alimentares das crianças. Para Lucas (2002), as companhias que frequentemente fazem parte de refeições e lanches tendem a servir como modelo, bem como seu comportamento e suas reações aos alimentos. Por isso, sempre deve-se levar em conta o papel da família nesse processo, já que ela é responsável pelo desenvolvimento, pela educação, pela afetividade, pelo bem-estar, pela proteção e segurança da criança. A família tem um papel vital na formação de cada sujeito, e é um elo fundamental entre a criança e a sociedade. Um estudo realizado por Souza e Cadete (2017) mostra como é importante que os pais ou responsáveis realizem pelo menos uma refeição com a criança e que deem bons exemplos, consumindo e oferecendo frutas, verduras e legumes conforme a cultura e os hábitos do local em que vivem. Escola: Atualmente, devido à mudança no estilo de vida, a maioria das crianças passa seus dias em creches e escolas, e, dependendo do tempo que elas permanecem no estabelecimento de ensino, chegam a fazer cerca de quatro refeições diárias no local. O Brasil mantém políticas, como o Programa de Nacional de Alimentação Escolar (PNAE; BRASIL, 2013a), que abrangem a escola pública, garantindo a alimentação escolar de acordo com determinados critérios nutricionais, no que diz respeito à variedade e à qualidade da alimentação. Nesse contexto, a escola também participa da formação do comportamento alimentar infantil, na medida em que a criança também molda seu comportamentoespelhando-se em amigos e professores. Outro aspecto importante a ser considerado é que, na escola, o alimento deve ser visto na sua função pedagógica e ser utilizado para promover estratégias e ações que se transformem as práticas alimentares saudáveis, conforme previsto pelo PNAE (BRASIL, 2013a). O objetivo é que o ambiente escolar propicie às crianças boas escolhas alimentares, que se transformem em hábitos saudáveis e perdurem por toda a vida. Mídia: Sabe-se que um dos principais fatores que tem induzido famílias e, em especial, as crianças e os adolescentes a realizarem mudanças no comportamento alimentar são a mídia, as propagandas e o número de horas que as famílias passam em frente à televisão. Ao longo do tempo, toda a exposição da criança aos meios de comunicação acaba influenciando no consumo de alimentos, que nem sempre são saudáveis – além disso, o tempo excessivo de exposição contribui para o sedentarismo e para a alteração do estado nutricional. Para Diez-Garcia e Cervato-Mancuso (2012), outro aspecto importante que envolve os meios de comunicação e o comportamento alimentar é a propagação de um padrão de beleza irreal, muitas vezes inatingível. Por meio da mídia, são estabelecidos ideais de forma física que passam a ser almejados e cultuados, por isso a não correspondência a esses padrões pode influenciar na percepção da imagem corporal. Imagem corporal: A imagem corporal é formada a partir da infância e, aos 2 anos, a maioria das crianças já possui uma autopercepção e pode reconhecer a imagem do seu corpo refletida no espelho. O padrão de beleza ideal é transmitido aos indivíduos de várias formas, mas, principalmente, por família, amigos e mídia. É importante lembrar que, ao longo da vida, a imagem corporal está em permanente (des)construção, mas é durante a infância que preocupações com o peso, crenças relacionadas ao corpo e comportamentos direcionados à melhora da aparência física podem ter início, por isso a preocupação de uma imagem corporal negativa durante a infância pode ser fator de risco para o desenvolvimento de psicopatologias em idades tardias. Atitudes alimentares: outra questão a ser considerada e identificada no modelo de competências alimentares e do ato de comer é o fato de as atitudes alimentares referirem-se a significados positivos e negativos. EXEMPLOS DE ATITUDES POSITIVAS E NEGATIVAS RELACIONADAS À ALIMENTAÇÃO Atitudes alimentares negativas Atitudes alimentares positivas Comer não é importante Comer é uma prioridade, algo essencial sem o qual não é possível se manter vivo Dedicar tempo apenas para comer é uma perda de tempo O momento de refeição é um tempo precioso para quebrar a rotina diária e satisfazer necessidades básicas, como fome e desejo por prazer Comer fazendo outra coisa é aproveitar o tempo Quando se come fazendo outra coisa, não se aproveita nenhuma das duas atividades. A hora de comer é a hora de comer, e apenas isso Pular refeições é bom Quando se pulam refeições, há efeitos e sensações negativas no corpo: sentir muita fome, fazer refeições não planejadas, sentir fraqueza e dores de cabeça. Fazer todas as refeições é prioridade Não comer algo é um sinal de superioridade Não comer algo não traz um significado em si. Quando se decide não comer, deve ser em respeito aos sinais internos de fome e apetite. Em outras palavras, é possível não estar com fome ou não gostar da comida em questão. Isso é normal Ser indiferente com relação à comida A comida é muito importante, não apenas para saciar a fome e o apetite, mas também o ato de comer é um jeito de compartilhar com amigos momentos especiais, como um aniversario, por exemplo, ou também de se lembrar de momentos únicos da vida e de pessoas importantes, entre outros Ser extremamente “chato” (seletivo para comer) Gostar de algumas comidas mais que de outras é normal. Em algumas situações, é necessário flexibilizar – por falta de opção, comer algo que talvez não goste tanto e presentear-se com a oportunidade de experimentar esse alimento de novo e, eventualmente, descobrir que ele tem um sabor melhor do que recordava A identificação dessas atitudes nem sempre é tão explícita e pode ser o início de um longo processo, pois mudanças relacionadas à comida não são fáceis, atitudes foram formadas e praticadas durante toda a vida da pessoa. Segundo Alvarenga et al. (2019), o primeiro passo para compreender as atitudes é “prestar atenção” nos motivos de se agir ou se sentir de determinada forma em relação à comida. Dificilmente isso acontecerá sem nenhuma facilitação, pois são atitudes cotidianas, cabendo ao nutricionista auxiliar e fornecer ferramentas de ação, como a escuta ativa e de qualidade e o uso do diário alimentar. Determinantes das escolhas alimentares: A palavra escolha é definida como um processo mental de pensamento que envolve julgamentos de méritos de várias opções e a seleção de uma delas para ação. Para Alvarenga et al. (2019), as escolhas alimentares são um tipo de comportamento e significam a opção por determinado alimento em detrimento de outro. Os autores afirmam ainda que, ao longo da história da humanidade, o objetivo primário da busca por comida estava relacionado com a sobrevivência, a manutenção da homeostase energética e a luta contra a inanição. Como é possível perceber com a evolução do homem, atualmente, o consumo alimentar é direcionado, em sua maioria, pelo prazer, a chamada fome hedônica, e não mais pela sobrevivência. Por isso, um alimento não será comprado e consumido se não tiver odor, aparência e textura agradável, independentemente da situação financeira do indivíduo. Observa-se que, nos tempos atuais, as escolhas, as quantidades e a frequência com que se come são dependentes de numerosas variáveis, que vão muito além das necessidades fisiológicas e sugerem a influência direta das dimensões socioculturais e ambientais, das dimensões psicológicas e de toda a carga simbólica associado. DETERMINANTES DA ESCOLHA ALIMENTAR RELACIONADOS AO ALIMENTO, AO INDIVÍDUO E AO AMBIENTE Categoria Fatores Relacionados ao alimento Sabor, aparência, valor nutricional, qualidade e higiene, cheiro, textura, variedade, preço, origem, familiaridade Relacionados ao ambiente Fatores físicos Odor, iluminação, conforto, limpeza, localização, opções disponíveis, presença de pessoas conhecidas e distrações do ambiente Fatores socioculturais Família, pares, mídia e cultura local Relacionados ao comedor Biológicos Fisiológicos, patológicos, genéticos, preferências alimentares, idade, sexo e estado nutricional Socioeconômicos Renda familiar, escolaridade e preço Antropológicos e psicológicos Crenças, emoções, expectativas e experiências positivas ou negativas A maioria das pessoas chega a fazer cerca de duzentas escolhas alimentares por dia; por isso, entender como esse processo se dá é fundamental para que o nutricionista atue no aconselhamento dietético (ALVARENGA et al., 2019). Para tanto, vários são os modelos propostos. Modelos de determinantes alimentares: O modelo elaborado por Gains (1999) afirma entender que as preferências alimentares dos indivíduos vão muito além do que eles gostam ou não, buscando a compreensão do motivo de suas preferências. MODELO DE PREFERÊNCIAS ALIMENTARES PROPOSTO POR GAINS (1999) Já o modelo proposto Por Furst et al. (1996) é mais completo e considera outros elementos importantes no processo da escolha alimentar, visualizados em um esquema com três grandes componentes: o curso de vida, as influências e o sistema pessoal. MODELO DE ESCOLHA ALIMENTAR PROPOSTO POR FURST (1996) Os modelos destacados mostram o quão abrangente são as escolhas alimentares e a importância dos aspectos sociológicos para que elas aconteçam. O entendimento e a contemplação de todo esse processo, em conjunto com uma visão mais empática do indivíduo, facilitam tanto o planejamento de ações educativas como a prática clínica, contribuindopara o processo de mudança. 3. MUDANÇAS ALIMENTARES Evolução no padrão alimentar do brasileiro: a formação dos hábitos alimentares dos brasileiros se deve à mistura de várias culturas, influenciada pela culinária indígena, portuguesa e africana, e que, com o decorrer do tempo, adquiriu características e peculiaridades. Por ser um país continente, cada região desenvolveu uma cultura própria e diversificada, influenciada principalmente pelas correntes migratórias e pelas adaptações ao clima e à disponibilidade de alimentos (FRANÇA et al., 2011; PINHEIRO; FREITAS; CORSO, 2004; BLEIL, 1998; ABREU et al., 2001). Nas últimas décadas, a globalização e o ritmo de vida impôs um novo padrão alimentar ao brasileiro, sendo possível observar mudanças nos hábitos que refletiram diretamente nos modelos de consumo e nos fatores que os determinam. Tais mudanças afetam a qualidade dos alimentos produzidos e industrializados, e, na tentativa de adequar a alimentação à vida moderna, as escolhas e os hábitos de consumo passaram a apontar para alimentos mais condizentes com o novo estilo de vida, fazendo com que fossem incorporados hábitos rápidos e práticos (FRANÇA, 2011). Esse padrão de alimentação é denominado dieta do afluente e caracteriza-se pelo excesso de alimentos de alta densidade calórica, ricos em gordura, sal, açúcar refinado e pobre em fibras (OMS, 1990). A diminuição de alimentos industrializados e o aumento do consumo de alimentos in natura, sobretudo hortaliças e frutas, são o objetivo do restabelecimento de uma alimentação mais saudável. Atento a isso, o Ministério da Saúde atualizou, em 2014, o Guia Alimentar Para a População Brasileira (BRASIL, 2014b), parte de uma das estratégias para a implementação da diretriz de promoção da alimentação adequada e saudável, que integra a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN). · O PNAN, publicado em 2013, tem como propósito a melhoria das condições de alimentação, nutrição e saúde da população brasileira, mediante a promoção de práticas alimentares adequadas e saudáveis, a vigilância alimentar e nutricional, a prevenção e o cuidado integral dos agravos relacionados à alimentação e nutrição (BRASIL, 2013b). Contexto social: A condição socioeconômica e o nível de escolaridade da população têm relação direta com o seu consumo e explica as atuais mudanças alimentares da população brasileira. Em 2005 Ferreira Magalhães em seu estudo sobre consumo alimentar na Rocinha-RJ, retratou o convívio com a fome. Os alimentos saudáveis não faziam parte da rotina alimentar, também não eram acessíveis em questão de renda e prioridade. Nas décadas de 2000 e 2010, houve uma inserção das classes populares nos planos mercadológicos, as quais se tornaram potenciais consumidores. Essa situação é reflexo das mudanças econômicas do período, quando ocorreu uma diminuição na desigualdade de distribuição de renda e um aumento real do salário-mínimo em relação à inflação, resultando na expansão do poder de compra desses grupos sociais. Como resultado de tal mudança, esses indivíduos tornaram-se consumidores e expandiram seu consumo não só para satisfação de necessidades, mas também como forma de status social, frente aos seus pares e à comunidade que os cerca. A pesquisa mostra a distinção entre classes sociais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2020, s.p.), na análise por classes de rendimento, os únicos grupos de produtos que apresentaram médias maiores que a média nacional nas duas faixas de rendimentos totais mais baixas foram cereais e leguminosas (30,505 kg e 30,086 kg), farinhas, féculas e massas (12,897 kg e 12,245 kg) e pescados (3,359 kg e 3,091 kg). Já a aquisição média per capita da classe de maior rendimento total supera em mais de 70% a média nacional nos grupos de laticínios (75%), hortaliças (87%), bebidas e infusões (115%), frutas (125%) e alimentos preparados e misturas industriais (187%) (IBGE, 2020, s.p.) O papel da publicidade no consumo alimenta: A publicidade de produtos e alimentos visa a divulgar uma marca, usando recursos visuais e auditivos, e, geralmente, exagera nos elogios com o objetivo de promover, criar demanda pelo produto e gerar lucro para o anunciante, sem, na maioria das vezes, observar suas consequências. Maia et al. (2017) argumentam que estudos realizados nos últimos anos mostram que os alimentos anunciados na mídia apresentam baixa qualidade nutricional, geralmente de alto valor calórico e contendo elevada quantidade de gorduras, açúcares e sódio, bem como a utilização de estratégias publicitárias destinadas a explorar populações mais vulneráveis, como o uso de personagens de desenhos animados e anúncios destinados ao público infantil. A necessidade de regulamentação, principalmente para proteger a população infantil, é fundamental. No mundo, vários países já tomaram essa iniciativa; em 2014, na 53ª reunião do Conselho Diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em Washington, Estados Unidos, foi aprovado o Plano de Ação para Prevenção da Obesidade em Crianças e Adolescentes (OPAS, 2014). Para a OPAS, o consumo excessivo de alimentos com alto teor calórico e baixo teor de nutrientes, alimentos processados, junto ao consumo de bebidas adoçadas com açúcar, além de baixos níveis de atividade física, são os principais fatores responsáveis pelo aumento da obesidade nas Américas e no mundo. · Publicação da Recomendação n°67 do Conselho Nacional do Ministério Público (ações com foco na prevenção e combate á obesidade infantil, promoção da alimentação saudável, especialmente em ambientes escolares) Assim, uma das propostas do plano de ação para a prevenção da obesidade foi o aumento de impostos sobre junk food e restrições à comercialização e à publicidade de alimentos não saudáveis para crianças. Destacam-se projetos de lei que buscam proibir a “venda casada” de comida e brindes, com enfoque no público infantil (OPAS, 2014). · Resolução n°163 Conselho Nacional dos direitos da criança e adolescente (considera abusiva a prática de direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica á criança). MEDIDAS REGULATÓRIAS ADOTADAS NO MUNDO EM RELAÇÃO À PUBLICIDADE DE ALIMENTOS Os reflexos da vida urbana no consumo alimentar: As mudanças no consumo alimentar são resultado dos fatores citados anteriormente, como o contexto social e a mídia, mas o ritmo de vida acelerado, imposto pela vida urbana, levou a intensas transformações no sistema alimentar e foi responsável pelo aumento da produção e do consumo de alimentos industrializados em detrimento de alimentos in natura. Essa transição de consumo torna-se mais preocupante quando mais da metade das pessoas do mundo vive em áreas urbanas – no Brasil, esse número chega a 80% (UNITED NATIONS, 2014). Como o país possui dimensões continentais, com variações regionais significativas e um patrimônio culinário e rico em hábitos e receitas tradicionais, os processos de urbanização e industrialização interferem nos aspectos culturais, aumentando as diferenças entre o consumo alimentar das áreas urbanas e rurais (BRASIL, 2015). Destaca-se que esse fenômeno ocorre porque a urbanização acarreta uma série de mudanças no consumo alimentar, advindas da falta de tempo para preparo e compra dos alimentos, o que pode repercutir na escolha por uma alimentação mais prática e com maior participação de alimentos ultraprocessados. DISTRIBUIÇÃO DE CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO URBANA E RURAL É evidente o aumento acentuado da população urbana em relação à rural e a sua evolução em um curto período, além de ser possível observar que esse aumento continua nos próximos 30 anos e que, provavelmente, trará ainda mais transformações para o consumo alimentar da população brasileira. O Brasil possui grande extensão territorial e diferenças de clima, cultura e atividades econômicas em suas macrorregiões, produzindo marcas (identidades) nacionais e regionais, as quais, provavelmente, são refletidas na diversidade de hábitos alimentares da população brasileira.Como exemplo de marca nacional identificada pelo país, podemos citar o consumo de feijão e, como marca regional, o consumo de peixes. DISTRIBUIÇÃO DA AQUISIÇÃO DE ALIMENTOS PER CAPITA ANUAL (KG) ENTRE A POPULAÇÃO RURAL E URBANA NO BRASIL É importante destacar que modalidades de consumo alimentar emergiram da vida urbana, tanto no espaço público como no privado, e se apresentaram como uma solução para o consumidor que modifica suas práticas alimentares e sua relação com a comida; além disso, os avanços tecnológicos propiciaram que o alimento ultraprocessado fosse produzido em grande escala e com custos baixos, facilitando o seu consumo. Em 2019, a OPAS publicou um relatório apontando crescimento do volume de consumidores de alimentos ultraprocessados. As vendas per capta desses alimentos nos países analisados aumentaram, em média, 8,3% – de 408 kcal/dia, em 2009, para 441 kcal/dia, em 2014 –, alcançando 9,2%, com 482 kcal/dia, em 2019. No ranking mundial, o Brasil está na 34ª posição com relação à venda per capita de alimentos e bebidas ultraprocessados, sendo que, entre 2009 e 2014, houve um aumento nas vendas desses produtos de 10,5% (OPAS, 2019). Manifestações no estado nutricional: Nas últimas décadas, a população brasileira passou por grandes transformações sociais, que resultaram em mudanças no seu padrão de saúde e consumo alimentar. Essas transformações acarretaram diminuição da pobreza e exclusão social e, consequentemente, da fome e da escassez de alimentos, com melhoria no acesso e na variedade de produtos alimentícios, além da garantia da disponibilidade média de calorias para consumo, embora ainda existam cerca de 16 milhões de brasileiros vivendo em extrema pobreza. Entretanto, a diminuição da fome e da desnutrição veio acompanhada do aumento vertiginoso da obesidade em todas as camadas da população, apontando para um novo cenário de problemas relacionados à alimentação e à nutrição. O levantamento da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) (BRASIL, 2019) revela o perfil da população brasileira em relação às doenças crônicas mais comuns, apontando para o fato de que mais de 100 milhões de brasileiros apresentam excesso de peso. O Ministério da Saúde relatou que, desde o início do levantamento realizado pela Vigitel, em 2006, os percentuais de obesidade passaram de 11,8% para 20,3%, em 2019, e os percentuais atuais de excesso de peso alcançaram 55,4% na população brasileira (BRASIL, 2019). A Figura apresenta o crescimento da obesidade por faixa etária e escolaridade, evidenciando que adultos jovens que cursaram até o ensino fundamental são os maiores afetados pelo ganho de peso no país. DISTRIBUIÇÃO DOS PERCENTUAIS DE OBESIDADE POR FAIXA ETÁRIA E ESCOLARIDADE, DE ACORDO COM OS DADOS LEVANTAMENTO DA VIGITEL A reação aos resultados encontrados nos últimos anos é a ocorrência, atualmente, de um deslocamento do foco para a mudança do estilo de vida da população, uma mobilização que ocorre devido à identificação da má qualidade da alimentação e ao aumento do sedentarismo e das principais doenças crônicas não transmissíveis, que contribuem, substancialmente, para o aumento da morbidade, mortalidade e incapacidade. Ações voltadas ao indivíduo e à comunidade de caráter nacional e global envolvem diferentes segmentos da sociedade civil, dos setores público e privado, a fim de promover uma alimentação saudável e a prática de atividade física. Cuidados com a obesidade: Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica : obesidade (saude.gov.br) Reflexões metodológicas para o estudo das práticas alimentares: \\P02\scielo\Ativo\rn\v16n4\sou PNAN: Política Nacional de Alimentação e Nutrição (saude.gov.br) IBGE: IBGE | Portal do IBGE | IBGE Observatório de Publicidade de Alimentos (OPA): Página principal - OPA (publicidadedealimentos.org.br) Livro Alimentos regionais brasileiros: bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/alimentos_regionais_brasileiros_2ed.pdf