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Culturas, Memórias e Identidades Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Dra. Yvone Dias Avelino Revisão Textual: Profa. Ms. Luciene Oliveira da Costa Santos Culturas, Memórias e Identidades 5 • Culturas, Memórias e Identidades · Apresentar os conceitos de Cultura, Memória e Identidade, utilizados na contemporaneidade; · Apresentar conceitos e exemplos de teorias da História; · Apresentar ideias significativas de Cultura, Memória e Identidade, postos na História por meio de interpretações de pesquisas de alguns de seus mais famosos interlocutores; · Desenvolver ideias em cima de outras colocadas pela Historiografia. Caro(a) aluno(a), Nesta Unidade, vamos aprender alguns dos conceitos de Cultura, Memória e Identidade. Procure fazer as leituras e desenvolver todas as atividades propostas. Procure ler com atenção o conteúdo disponibilizado e o material complementar. Realize as leituras e desenvolva todas as atividades propostas. Assim, certamente, você vai ter um excelente aproveitamento. É importante lembrar que as atividades de sistematização e aprofundamento, assim como fórum de discussão e a aula em vídeo, contribuem para o processo de aprendizagem. Após apreender todos esses recursos, registre as dúvidas e apresente-as ao professor-tutor. Nota: • Para iniciar seu estudo e desenvolver o trabalho desta Unidade, primeiro, acesse o item Material Didático, no qual você vai encontrar o Texto Teórico, ou seja, o texto que vai servir de base para as atividades. Leia-o com atenção! • Em seguida, verifique se houve uma suficiente compreensão do conteúdo, respondendo as perguntas das Atividades de Sistematização e, posteriormente, a Avaliação. Ambas tratam das questões fundamentais sobre o assunto abordado. • Foram disponibilizados, ainda, Materiais Complementares, Apresentação Narrada e Videoaula, para aprofundar a análise do tema. • Finalmente, realize a Atividade de Aprofundamento, onde você vai encontrar dicas para saber mais sobre os assuntos apresentados. Bons estudos! Culturas, Memórias e Identidades 6 Unidade: Culturas, Memórias e Identidades Contextualização Nesta Unidade, trabalharemos os conceitos de Cultura, de Memória e de Identidade. Assim, é necessário observarmos aspectos mais amplos desses conceitos. Para esclarecer essas questões e outras tantas, elegemos artigos extraídos dos links apontados abaixo. Leia-os e entenda um pouco mais sobre como os conceitos nesta unidade apresentados são utilizados para o trabalho de investigação do historiador. A Pesquisa em Memória Social – Ecléa Bosi O artigo propõe uma reflexão sobre a pesquisa em psicologia social da memória, tanto do ponto de vista da orientação geral quanto das táticas particulares de investigação. As bases teóricas são a teoria da Gestalt a filosofia bergsoniana do tempo. Os processos memorativos são relacionados a campos de significação na vida do sujeito que recorda. O artigo aborda a influência dos grupos sociais na formação das lembranças. Explore: Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psicousp/v4n1-2/a12v4n12.pdf Urupês – Monteiro Lobato Mariana Sanchez, especial para a Gazeta do Povo Coletânea de contos e crônicas em que o pré-modernista Monteiro Lobato inaugura um tipo de regionalismo crítico e mais realista do que o pitoresco e fantasioso praticado anteriormente, no Romantismo. A crônica que dá título ao livro, Urupês, traz uma visão depreciativa do caboclo brasileiro, o “fazedor de desertos”, estereótipo contrário à visão romântica dos autores modernistas. Apesar de Monteiro Lobato representar a transição entre o Realismo/Naturalismo e as correntes do Modernismo, o autor se indispôs profundamente com os escritores modernistas da primeira geração, que responderam a Urupês com a obra Juca Mulato, de Menotti del Picchia. Entre os traços típicos de Monteiro Lobato, estão o tom moralizante e didático que também aparece nas obras infantis do autor, além de sua obsessão pela linguagem e gramática. Explore: Artigo completo em http://goo.gl/HGgW4z Cultura Nacional – Identidade Cultural Brasileira Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oNJTk5YNWJM 7 Culturas, Memórias e Identidades Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.1 (LE GOFF, 1992) Nesta unidade, vamos dialogar com alguns pensadores que se preocuparam com determinados conceitos que são importantes para encaminharmos as nossas reflexões a respeito da temática que nos propomos a discutir – Cultura, Memória e Identidade – e que apresentaremos no decurso do texto. A Cultura, de um modo geral, é uma palavra polifônica, pois se trata de um conceito que possui uma série de significados. Glossário A palavra Polifonia vem do grego e significa “várias vozes”. Entre os gregos antigos, polifonia era uma reunião de vozes, ou de instrumentos. É a simultaneidade de várias melodias que se desenvolvem independentes, dentro da mesma tonalidade polifônica, onde há polifonia. Diz-se isso do eco, que repete o som várias vezes. O sinal taquigráfico que representa vários fonemas. Há sistemas que empregam sinais polifônicos, por exemplo, a missa. Na realidade, o conceito de Cultura é um dos principais nas ciências humanas, a ponto de a Antropologia se constituir como ciência quase somente em torno desse conceito. Ou seja, os conceitos de Cultura são múltiplos e, às vezes, contraditórios. O significado mais simples do termo “cultura” abrange todas as realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo. Em outras palavras, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano concreto ou imaterial. Desde artefatos e objetos até ideias e crenças. Cultura é todo complexo de conhecimento e toda habilidade humana empregada socialmente. No seu livro “Cultura”2, Raymond Williams, aparentemente, parece apenas se interessar pela Sociologia. Mas, na realidade, a obra é voltada para a História, a Literatura, as Artes, a Antropologia, pois a “Sociologia da Cultura em suas formas mais recentes e mais atuantes deve ser vista como uma convergência de interesses e métodos muito diversos.”3. Esse autor desenvolve uma grande investigação histórica, “[...] com vistas a uma sociologia da cultura”4. Para desenvolver sua análise, historiciza desde a noção de Cultura como cultivo, passando por um estado mental, artes, para indicar a sua própria conceituação. Ou seja, para ele, é um modo de vida global de um determinado povo. Williams analisa criticamente as formas, as organizações, as reproduções, as representações e os processos sociais da produção cultural, tais como: ideologia, artes, tradição, comunicação e intelectuais. Não é novidade nos estudos culturais de matriz antropológica que a cultura seja interpretada como um sistema de significações. Percebe-se fortemente essa conceituação nos trabalhos de Clifford Geertz, em 1 LE GOFF, Jacques. História e Memória. 2. ed. Campinas: UNICAMP, 1992. 2 WILLIAMS, Raymond. Culturas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 3 Idem, p. 9. 4 Idem, Ibdem. 8 Unidade: Culturas, Memórias e Identidades sua obra “A Interpretação das Culturas”5, onde se nota uma ausência de relação ao sistema social mais geral e abrangente. Michel de Certeau, em sua obra “A Cultura no Plural”6, de certa forma, também está preso às significações, quando afirma que “[...] para haver cultura, não basta ser autor de práticas sociais. É preciso que essas práticas sociais tenham um significado para àqueles que as realizam”7. Certeau preocupou-se com as pluralidades de culturas (referências e significados), ao fazer despertar e enxergar, nos pesquisadores, o potencial criativo dos sujeitos, suas práticas e suas táticas cotidianas. Voltando um pouco ao autor Raymond Williams, este nos chama a atenção para que as explicações não se encerrem apenas nas significações, ou em uma relação do tipo cultura e natureza: “[...] Porém, em sociedades altamente desenvolvidas e complexas,são tantos os níveis de transformação social e material que a relação polarizada cultura-natureza se torna insuficiente”8. O autor nos esclarece, na verdade, que é na área dessas transformações complexas que o sistema de significações, por si só, se desenvolve e deve ser estudado. O historiador Stuart Hall, em sua obra “Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais”9, afirma que, para Williams, todo modo de vida está integrado, e sua teoria da cultura consiste no “[...] estudo das relações entre elementos em um modo de vida global”10. Atenção São muitos os autores que conceituam Cultura, e que apresentam várias posições diferenciadas, sobretudo, historiadores. Não apresentaremos aqui a relação completa de autores e obras, pois não haveria sentido trazermos todos os conceitos, basta sabermos que é no processo de luta que se forjam as identidades culturais, e que os grupos possuem identidades e valores próprios. Para cada construção de pesquisas que nós historiadores desenvolveremos, haverá uma teoria sobre cultura que se encaixará em nossos projetos. Nem toda definição de cultura vem da Antropologia ou da História. O linguista brasileiro Alfredo Bosi, em sua obra “Dialética da Colonização”11, define Cultura a partir da Linguística, e da etimologia da palavra cultura/culto/colônia – verbo latino colo, que significa “eu ocupo a terra”, daí colonização. O futuro de tal verbo = o que vai trabalhar, o que se quer cultivar, não só de agricultura, mas de transmissão de valores para as próximas gerações, símbolos e valores às novas gerações, para garantir a convivência social/consciência coletiva = comunidade. Ou seja, após todas estas definições de cultura de autores diversos, podemos afirmar que os temas foram se voltando cada vez mais para as relações entre áreas, onde o cotidiano e as mentalidades foram fornecendo elementos e sentido para a História Cultural, onde autores buscam base para seus estudos. Assim, podemos falar de cultura erudita, popular, de massa, tão bem expressas na obra do etnólogo Denys Cuche, intitulada “A Noção de Cultura nas Ciências Sociais”12. 5 GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. 6 CERTEAU, Michel de. A Cultura no Plural. Campinas: Papirus, 1995. 7 Idem, p. 141. 8 WILLIAMS, Raymond. Op. Cit., p. 209. 9 HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003. 10 Idem, p. 128. 11 BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. 12 CUCHE, Denys. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 1999. 9 Todas essas expressões designam conceitos específicos para produção intelectual de determinados grupos sociais. Na Educação, trabalhar com a rica gama de significados do conceito de Cultura, é uma importante ferramenta contra o preconceito. Ao mostrarmos essa diversidade cultural, podemos apontar diferentes culturas da nossa, como a indígena, a africana etc., expondo que cada uma delas tem um significado para seus membros. Nos EUA, coloca-se como prioridade a ideia do individualismo, estimulando o consumo. Na política do mundo pós-guerra, era uma saída para as questões sociais, por meio dos sistemas econômicos colocados. A ideia do “eu” exacerbado passou a chamar-se de Cultura do Narcisismo. O narcisista é um indivíduo pobre interiormente, que não possui ideologias e nem perspectivas futuras e, para valorização material, não é necessário buscar valores no passado. Um dos desafios que se coloca também para o historiador na contemporaneidade é construir uma reflexão acerca da memória e da história. O que têm as mesmas em comum? Em que se diferenciam? Qual a relação entre a Memória e a História? É mais correto falarmos em memória individual? Ou em memória coletiva? Ou ainda em memória compartilhada? Ou em lembranças? Ou em reminiscências? Sem esgotar a discussão, vamos refletir inicialmente sobre estas questões. Nas últimas décadas, ocorreu um processo de valorização dos estudos sobre a Memória. Há uma preocupação em resgatar a memória de grupos, ou de sujeitos individuais. As relações da Memória fazem parte de um universo social de recuperação de identidades, inseridas em um contexto cultural. Diversos autores têm contribuído com a teorização sobre a Memória e a História: Maurice Halbwachs, Pierre Nora, Jaques Le Goff etc. O debate sobre a questão da Memória nos parece cada vez mais atual. Novas reflexões têm sido realizadas e nos permitem observar novas possibilidades historiográficas quando tratamos da relação entre a Memória e a História. O sociólogo Maurice Halbwachs, em sua obra “A Memória Coletiva”13, contribui com a reflexão sobre a Memória, especificamente a respeito da memória coletiva. Para esse autor, a Memória está ligada à vivência de experiências grupais. É o grupo que possibilita a permanência das lembranças do passado, e estas nos remetem a outro tempo. E esse outro tempo também revela outro espaço. Tempo e espaço se confundem na recuperação da Memória. Graças à Memória, o tempo não está perdido, e, se não está perdido, também o espaço não está. Ao lado do tempo reencontrado, está o espaço reencontrado. Ou para ser mais preciso, está um espaço enfim encontrado, um espaço que se encontra e se descobre em razão do movimento desencadeado.14 Nesta mesma direção, Antonio Torres Montenegro e Antonio Jorge Siqueira em sua obra “Caminhos Itinerantes”15 nos afirmam que “[...] ouvimos homens que guardam em suas lembranças as marcas de outro tempo”.16 A preocupação com a Memória, com as tradições, são mais acentuadas quando ocorrem, segundo Halbwachs, “[...] momentos de ruptura da continuidade histórica”17. Já para Pierre Nora, 13 HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. 14 POULET, Georges. O Espaço Proustiano. Rio de Janeiro, Imago, 1992, pp.54-55. 15 MONTENEGRO, Antonio Torres; SIQUEIRA, Antonio Jorge. Caminhos Itinerantes. Recife: FTD, 1995. 16 Idem, p. 55. 17 HALBWACHS, Maurice. Op. Cit, p. 81. 10 Unidade: Culturas, Memórias e Identidades em sua obra “Os Lugares da Memória”18, a questão é mais profunda, e o desejo de memória está ligado ao processo de mundialização das sociedades, onde os meios de comunicação cumprem um papel prioritário. Caminha na direção de uma percepção de uma temporalidade que é dinâmica, rápida, que o autor chama de “aceleração da História”, onde se valorizam “os fatos rápidos”, dados ou construídos pela notícia. A História se transforma em “eternamente contemporânea”. Esta aceleração da História é que ameaça “a perda da identidade” de pessoas e grupos sociais que produzem o interesse pela preservação de vestígios do passado. Eric Hobsbawn, em sua obra “A Era dos Extremos – O Breve Século XX (1914-1991)”19, caminha na mesma direção, e nos diz que: [...] a destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas- é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do Século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer vinculação orgânica com o passado público da época em que vivem.20 A diferença entre Memória e História pode ser percebida nos estudos citados de Halbwachs e Nora. Para Halbwachs, Memória e História não se confundem, mas se diferenciam: “A História começa onde a memória social acaba, e a memória social acaba quando não tem mais como suporte um grupo”21. É o grupo que possibilita a lembrança, e a memória coletiva é sempre vivida física e afetivamente. O pertencimento ao grupo se configura pela relação afetiva e, a partir daí, garante-se “a vida e/ou o vivido da memória”22. A longa convivência pode transformar um grupo físico em grupo afetivo, pois para o autor, o grupo possibilita a coesão social. Outra diferença entre Memória e História está em Halbwachs, na relação com o tempo. A existência da Memória está condicionada ao sentimento de pertencimento daquele que está lembrando. Isso significaque a Memória não rompe com o passado, pelo contrário, busca o passado, “[...] aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém”23. A memória coletiva reforça positivamente a coesão social através da adesão afetiva do indivíduo ao seu grupo social. Para Halbwachs, a nação seria a forma mais completa de grupo social, e a memória nacional seria a memória coletiva por excelência. Os pontos de referência, como os monumentos, indicariam essa memória. E essa memória está marcada pelo tempo longo, pela longa duração, pela continuidade e pela estabilidade. Já a História se diferencia da Memória na medida em que há “descontinuidade” “[...] entre quem lê e os grupos, testemunhas ou atores dos fatos ali narrados”24. Para a historiadora Marcia D´Aléssio, a contribuição do sociólogo Halbwachs é muito importante para a historiografia, sobretudo no que se refere à Memória, que está relacionada 18 NORA, Pierre. Lês Lieux de Mémorie. La Republique. Paris: Gallimard, 1984. 19 HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Cia. das Letras, 1995. 20 Idem, p. 13. 21 HALBWACHS, Maurice. Op. Cit., p. 81. 22 HALBWACHS, Maurice Apud D´ALÉSSIO, Marcia Mansur. Memória: Leituras de Maurice Halbwachs e Pierre Nora, In: Memória, História e Historiografia. Revista Brasileira de História 25/26. São Paulo: ANPUH/Marco Zero/SCT-CNPq-FINEP. Set.-92, Ago-93, p. 99. 23 Idem, p. 99. 24 Idem, Ibdem. 11 ao tempo, ou seja, pensar a Memória em um “tempo longo”25, que é o tempo da Memória. Esse tempo da Memória não é individual, mas sim, de grupo, pois é por meio do grupo que a lembrança sobrevive. Há tantas Memórias quanto os grupos existirem. Pierre Nora demonstra também que há diferença ou oposição entre Memória e História. Memória, História, longe de serem sinônimos, temos consciência que tudo opõem uma à outra. A Memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações. A História é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A Memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a História, uma representação do passado.26 O autor vai além, e diz que a Memória: [...] se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A História só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A Memória é um absoluto, e a História só conhece o relativo.27 Montenegro afirma que, apesar de Memória e História serem realidades distintas, concordando com Halbwachs, são por outro lado, inseparáveis, com “significativas intersecções”.28 Noutra direção, Le Goff, em seus estudos, não deixa claro, de forma taxativa, a diferença entre Memória e História. Na construção do seu texto passa a impressão que as características apresentadas de uma e de outra são muitas vezes semelhantes. Outra questão preocupante, e que chama a atenção diz respeito também à relação entre Memória e poder. Se considerarmos que os sujeitos sociais nos seus espaços de vida, no seu cotidiano, vivenciam relações de poder, como pensar sobre a Memória, sobre os usos do passado? Le Goff introduz a perspectiva do poder presente na relação entre Memória e História, segundo o pensamento de Montenegro: Do mesmo modo, a memoria coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornar-se senhores da Memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da História são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva.29 25 Idem, p. 100. 26 NORA, Pierre. Op. Cit., p. 194. 27 Idem, Ibdem. 28 MONTENEGRO, Antonio Torres. Memória e História: Desafios da contemporaneidade, In: Anais do Encontro de História e Documentação Oral. Brasília: Universidade de Brasília, 1993, p. 14. 29 Idem, p. 13. 12 Unidade: Culturas, Memórias e Identidades Nesta mesma direção, a historiadora Maria do Pilar de Araújo Vieira e suas companheiras de pesquisa na obra “A Pesquisa em História”, nos dizem que: [...] a trama da luta de classes envolve não apenas práticas, atitudes, como também a memorização do acontecer social, que também faz parte do exercício do poder.30 Essas historiadoras vão mais além, e mostram que faz parte do exercício do poder esconder as diferenças, as contradições, decidindo o que deve ou não ser lembrado. Determinados regimes políticos têm preservado traços, registros, buscando impor uma única versão do passado. É dentro desse contexto que compreendemos os Movimentos Sociais estarem disputando o passado e defendendo o direito à Memória. A Memória, nesse sentido, é um campo de luta. Michel Pollak, o estudioso da memória, do silêncio, do esquecimento, de sujeito que vivenciaram as experiências do stalinismo, dos soldados recrutados à força pelos nazistas e dos sobreviventes dos campos de concentração, questiona em sua obra “Memória, Esquecimento, Silêncio”31 a perspectiva construída por Halbwachs. Embora concorde que a memória emerge de momentos de crise, para ele, a memória coletiva associada à memória nacional é um instrumento de dominação. Contrapondo-se à perspectiva de Halbwachs de considerar os fatos sociais como coisas, afirma que se deve: [...] analisar como os fatos sociais se tornam coisas, como e por quem eles são solidificados e dotados de duração e estabilidade. Aplicada à memória coletiva, essa abordagem irá se interessar, portanto, pelos processos e atores que intervém no trabalho de constituição e de formalização das memórias.32 Contrapondo-se, portanto, à perspectiva de Halbwachs, Pollak vai introduzir a noção de memórias subterrâneas, antagônicas à memória nacional. Esta abordagem “[...] acentua o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva nacional”33. O autor percebe a memória coletiva como uma imposição, “uma forma específica de dominação ou violência simbólica”34. Por meio da História Oral, é possível trazer à tona memórias subterrâneas de grupos silenciados, marginalizados, da sociedade, ou de grupos minoritários e dominados. Nesse sentido, essas “memórias subterrâneas”, no momento de crise social, entram em disputa com a memória oficial, com as “continuidades e estabilidades”. No contraditório processo social, há tensões, conflitos, onde o passado é disputado por diferentes sujeitos e grupos sociais. Pollak traz ao espaço público a memória “proibida” pelos nazistas e a memória dos presos nos campos de concentração. 30 VIEIRA, Maria do Pilar de Araújo et. Alli. A Pesquisa em História. 2ª Ed. São Paulo: Ática, 1991, p. 27. 31 POLLAK, Michel. Memória, Esquecimento, Silêncio, In: Estudos Históricos. nº 3, Vol. II. Rio de Janeiro: Vértice, 1989. 32 Idem, p. 4. 33 Idem, Ibdem. 34 Idem, p. 3. 13 A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória subterrânea da sociedade civil dominada, ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada, que resume a imagem que uma sociedade majoritária e o Estado desejam passar e impor.35 Se, para Nora, a Memória é o vivido, para Pollak “há uma interação entre o vivido e o aprendido, o vivido e o transmitido”36. Isto não só para a memória coletiva, mas também para a memória individual, familiar, nacional etc. Saiba Mais Para saber mais sobre o uso da técnica da História Oral, tão importante para o historiador contemporâneo na busca de vestígios, recomendamos a leitura de nossa resenha acerca do livro da Professora Doutora Luciara Silveira de Aragão e Frota (UnB), intitulado “Documentação Oral e a Temática da Seca: Estudos, dentro do site da Revista Projeto História, da PUC-SP. Disponívelem: http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/12346/8947 Buscando caminhar por outra perspectiva historiográfica, o historiador italiano Alessandro Portelli, em sua obra “A Morte de Luigi Trastulli e Outras Histórias – Forma e Significado na História Oral”37, revela-se instigante, à medida que nos faz refletir sobre as diferenças. Diferenças estas ligadas às experiências sociais vividas pelos sujeitos e os diferentes significados atribuídos a estas experiências. Nesta direção, o autor nos leva à reflexão sobre a questão da Identidade, pois a utilização de noções como Memória Coletiva e Identidade pode revelar-se problemática, na medida em que estas noções conduzem a uma visão de uniformidade, de homogeneização, ocultando as diferentes experiências e significados construídos por sujeitos concretos. Assim sendo, podemos conceituar identidade como uma qualidade do idêntico, como sendo um conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa, como nome, idade, estado civil, sexo, profissão, defeitos físicos, impressões digitais etc. Uma cédula de identidade dá o conhecimento do portador da mesma. Estamos até agora falando do pessoal, do privado. Mas a identidade se amplia para o Macro, quando falamos de nacionalidade. Essas expressões de identidade, no Brasil, especificamente, aparecem nos campeonatos mundiais de futebol, onde as pessoas portam uma camiseta amarela e cantam hinos específicos referentes ao “país do futebol”. Como exemplo de representação de uma identidade rural, podemos destacar o papel que o literato Monteiro Lobato exerceu na cultura nacional, entre os contistas regionalistas. Foi um intelectual que empunhou a bandeira do progresso social do povo brasileiro, sendo caracterizado como regionalista por algumas razões, como ao tipo literário utilizado por ele, e a criação de uma das personagens mais bem representadas da literatura rural, o caboclo Jeca Tatu, em sua obra Urupês38, uma coletânea de contos e crônicas, considerada sua obra-prima e publicada originalmente em 1918. O tipo de linguagem empregada por Lobato sempre esteve próxima da oralidade do povo do Vale do Paraíba, considerada à época uma região cafeeira, rural, diferente do que é hoje em dia. 35 Idem, p. 9. 36 Idem, p. 8. 37 PORTELLI, Alessandro. A Morte de Luigi Trastulli e Outras Histórias – Forma e significado na História Oral. Tradução: Maria Therezinha Janine Ribeiro. São Paulo: Mimeografado, 1995. 38 LOBATO, Monteiro. Urupês. Rio de Janeiro: Globo, 2015. 14 Unidade: Culturas, Memórias e Identidades Saiba Mais O Vale do Paraíba é uma região socioeconômica que abrange a Mesorregião do Vale do Paraíba Paulista no estado de São Paulo e Mesorregião Sul Fluminense no estado do Rio de Janeiro, e que se destaca por concentrar uma parcela considerável do PIB do Brasil. O nome deve-se ao fato de que a região é a parte inicial da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Deve-se ressaltar que o nome, em sentido estrito, é comumente utilizado apenas para se referir a uma região com certas características socioeconômicas, não se tratando, portanto, de uma Região, Mesorregião ou microrregião oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística, IBGE. Localiza- se nas margens da rodovia Presidente Dutra (BR-116), exatamente entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, dentro do complexo metropolitano formado pelas duas capitais e com seu principal eixo urbano seguindo o traçado da Via Dutra. Apesar de altamente urbanizada e industrializada, a região também tem reservas naturais importantes, como a Serra da Mantiqueira, na divisa com Minas Gerais, um dos pontos mais altos do Brasil, e a da Bocaina, reduto de Mata Atlântica que também inclui pequenas cidades e fazendas de interesse histórico e arquitetônico. Para saber mais sobre a região que servia de inspiração para Monteiro Lobato, acesse: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_do_Para%C3%ADba. O conto/crônica que dá título ao livro apresenta um olhar depreciativo do caboclo brasileiro. Segundo a médica Renata Calheiros Viana: Participando ativamente dos debates em torno da campanha pelo saneamento nas áreas rurais, Lobato se depara com os problemas causados pelas péssimas condições de higiene e fraqueza do homem do campo. Assim, o escritor, percebendo que sua criaturinha possuía mais problemas que a preguiça, curvou-se a realidade, e para desculpar-se do erro cometido, verificou que “os caipiras eram barrigudos e preguiçosos por motivo de doenças”. O homem do campo era vítima da falta de higiene e saneamento básico, tendo as suas entranhas corroídas por um parasito adquirido. Consciente das angústias e fatos que acometem os “Jecas da vida”, Monteiro resolve dar uma nova direção para a história. [...] A nova história a ser contada faz parte de uma campanha objetivando esclarecer a população brasileira sobre a ancilostomíase. O parasito, Ancylostoma duodenale, é agora o causador do “caboclo amarelo e franzinho”, e deve ser combatido para livrar o sertanejo do “mal” de seu corpo. Assim, Monteiro Lobato libera o personagem Jeca Tatu para participar da campanha nacional contra o amarelão. Também para alívio de sua consciência, Monteiro Lobato deixa a imagem de seu personagem caipira assumir o papel de garoto propaganda do laboratório paulista fundado por Cândido Fontoura. Supostamente, o antianêmico (ferro para o sangue e fósforo para os nervos e músculos) veio mudar a situação do Jeca, que se tornou robusto após a vermifugação. Assim, surgiu o Almanaque do Jeca Tatu, idealizado por Monteiro e editado e distribuído pelo Laboratório Fontoura. O almanaque explicava com simples palavras ao povo brasileiro, por meio de Jeca, como o parasita se apropriava de seus corpos através da pele, qual era o ciclo e como os ovos eliminados pelas fezes permaneciam no solo e que para seu 15 bem o caboclo não deveria mais utilizar as bananeiras para as suas necessidades fisiológicas. Deveria, sim, andar calçado com suas botinas, na época, feitas de couro cru e fabricadas de forma artesanal, para evitar a contaminação. Neste período, mais de noventa por cento da população andava descalça e não tinham noções básicas de higiene pessoal. Com o almanaque, a população ficou ciente de que os ovos do parasito no solo produziriam as lavas que retornariam através da sola dos pés, e, para completar o ciclo, as lavas cairiam na circulação, desenvolveriam-se, fixavam-se nas paredes intestinais, aptos a sugarem sangue de suas vítimas e botarem novos ovos para ser expelidos pelas fezes.39 Voltando nosso olhar à literatura de Monteiro Lobato e aprofundando-o na história do progresso rural, notamos a sólida contribuição que nos traz o Jeca Tatu para a evolução da medicina nacional. Carrega consigo uma identidade rural em épocas onde as relações da população com a saúde eram quase que esquecidas e pouco praticadas, e nos relata uma visão destorcida de uma identidade nacional, que o próprio personagem posteriormente ajuda a reconstruir, por meio do lançamento do almanaque, conforme as imagens abaixo, veiculadas durante o período de circulação do mesmo: Este exemplo parece-nos deveras importante para ampliarmos para outros espaços e outros sujeitos utilizados como representações marcantes dos conceitos aqui apresentados, de Culturas, de Memórias e Identidades. 39 VIANA, Renata Calheiros. Jeca Tatu na Medicina Brasileira, In: Arte Médica. Temas médicos nas artes: pintura, literatura e música. Disponível em: http://medicineisart.blogspot.com.br/2012/05/jeca-tatu-na-medicina-brasileira.html Fonte: J. U. Campos/Almanaque do Biotonico, 1935 16 Unidade: Culturas, Memórias e Identidades Material Complementar Vídeos: Para uma melhor fixação dos conceitos de Cultura, Memória e Identidade, assista ao Trailer do filme “Jeca Tatu”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vyIjtHHNAN8, leia a sinopse do filme descrita abaixo, e analise, na figura do Jeca e em seu contexto histórico, osconceitos trabalhados. Sites: Sinopse disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jeca_Tatu_(filme) 17 Referências BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. CERTEAU, Michel de. A Cultura no Plural. Campinas: Papirus, 1995. CUCHE, Denys. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 1999. GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. HALBWACHS, Maurice Apud D´ALÉSSIO, Marcia Mansur. Memória: Leituras de Maurice Halbwachs e Pierre Nora, In: Memória, História e Historiografia. Revista Brasileira de História 25/26. 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