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LEITURA E SEMIÓTICA: DIÁLOGOS POSSÍVEIS PARA A SALA DE AULA W BA 06 27 _v 1. 1 © 2018 POR EDITORA E DISTRIBUIDORA EDUCACIONAL S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Danielle Leite de Lemos Oliveira Juliana Caramigo Gennarini Mariana Ricken Barbosa Priscila Pereira Silva Coordenador Danielle Leite de Lemos Oliveira Revisor Claudia Dourado de Salces Editorial Alessandra Cristina Fahl Daniella Fernandes Haruze Manta Flávia Mello Magrini Hâmila Samai Franco dos Santos Leonardo Ramos de Oliveira Campanini Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Barros, Aniúska Mansuêta Carvalho B277I Leitura e semiótica: diálogos possíveis para a sala aula/ Aniúska Mansuêta Carvalho Barros. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2018. 110 p. ISBN 978-85-522-1029-0 1. Semiótica. 2. Ensino da língua portuguesa. I. Barros, Aniúska Mansuêta Carvalho. II. Título. CDD 370 Responsável pela ficha catalográfica: Thamiris Mantovani CRB-8/9491 2018 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 3 SUMÁRIO Apresentação da disciplina 04 Tema 01 – Linguagem: sensorialidade e transformação 05 Tema 02 – Semiótica Discursiva no ensino do Português 21 Tema 03 – Estudos da expressão verbal e não-verbal em sala 42 Tema 04 – Linguagem, epistemologia e didática 62 Tema 05 – Geração de sentidos nas aulas de leitura 78 Tema 06 – Interação Social, Leitura e Semiótica 96 Tema 07 – Semiótica e a construção do Leitor Crítico 112 Tema 08 – Intervenções pragmáticas 129 LEITURA E SEMIÓTICA: DIÁLOGOS POSSÍVEIS PARA A SALA DE AULA 4 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Apresentação da disciplina O Curso de pós-graduação em Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica tem como disciplina de sua grade Estudos da linguagem: Semiótica discursiva e o ensino de Língua Portuguesa na Educação Básica. O Objetivo da disciplina é analisar o pa- pel do estudo dos signos, da interação social e da construção do sentido em processos de ensino-aprendizagem, assim como refletir sobre a for- mação do leitor crítico por meio de práticas docentes. Serão abordados como conteúdos programáticos, em 8 aulas, nesta disciplina, os seguintes temas: Estudos da Linguagem, Semiótica discursiva e o ensino de Língua Portuguesa na Educação Básica; Estudos da expressão verbal e não-ver- bal na sala de aula; Linguagem, epistemologia e didática; Percurso gera- tivo de sentidos nas aulas de leitura; Interação Social, leitura e Semiótica; Semiótica e a construção do leitor crítico e as Intervenções pragmáticas. Utilize todo o material para ampliar e consolidar seu conhecimento. Em todas as aulas haverá textos interativos, exemplos, outras formas de as- similar o conteúdo, que têm como intuito ampliar seus conhecimentos sobre determinados temas, conceitos, autores citados no texto. Pesquise, leia, busque novas formas de entender os temas propostos. Depende de você usar este material da melhor e mais ampla forma possível para o seu desenvolvimento profissional. Aproveite! Estude e amplie seus conhecimentos. 5 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 01 LINGUAGEM: SENSORIALIDADE E TRANSFORMAÇÃO Objetivos • Estudar como a apropriação da Norma Culta da Língua e a transformação do indivíduo se dão a partir do pro- cesso de Alfabetização. • Apresentar as formas de abordagem do estudo da Linguagem sob a perspectiva da Semiótica. • Avaliar o aprendizado na Língua materna, consideran- do suas múltiplas facetas, a partir de uma abordagem Semiótica. • Estimular o estudo da abordagem da Linguagem ver- bal e não-verbal. • Contribuir para a construção de um Leitor Crítico por intermédio da apropriação da Língua (Norma Culta) e sua abordagem Semiótica. 6 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e, mais especificamente, para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes, tais como: Pensamento, Linguagem, Gírias, Semiótica, Semiosfera, Sentido e Alteridade, para que você entenda melhor os Estudos da Linguagem e pense como o ensino da Língua Portuguesa e da Literatura na Educação Básica podem ser primordiais para a formação de um Leitor Crítico ainda no processo de Alfabetização, para que o aluno, a partir de então, seja capaz de refletir de forma sistêmica e abrangente os conteúdos a ele apresentados. 1. Estudos da linguagem Fonte: mrPliskin/Istock.com De acordo com o Dicionário Aurélio de Português Online, a Linguagem é qualquer meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos por meio Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 7 de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais, etc. Qualquer siste- ma de símbolos ou sinais ou objetos instituídos como signos; código. A Linguagem é a “expressão do pensamento pela palavra, pela escrita ou por meio de sinais. O que as coisas significam.” Verbete publicado em abril de 2018 e visualizado em em: 30 maio 2018. Essa é uma das várias formas de se denominar a Linguagem. O Sistema Linguístico, por sua vez, pode variar de local para local, de cultura local ou global, ser redefinido em apropriações linguísticas ou mesmo passar por alterações significativas, dependendo da época e contexto nos quais está inserido. Existem, ainda, os Sistemas Linguísticos específicos por se- tores (moda, fotografia, culinária, política), Sistemas Linguísticos por ida- de. Jovens, por exemplo, costumam criar variações linguísticas que repre- sentam o seu tempo, o seu modo de ver o mundo. E essa forma de se expressar altera de geração para geração. Uma expressão comum usada atualmente pode não significar absolutamente nada para a geração ante- rior e vice-versa. As gerações passadas falavam que um homem bonito era um “pão” ou um “pedaço de mau caminho”. Atualmente, usa-se outros termos e as próximas gerações, provavelmente, não irão sequer entender gírias atu- ais, muito menos às das gerações passadas. Você usa gírias? Quais são suas gírias preferidas? Já pensou que a gíria é uma forma de Linguagem, uma forma de se comunicar de um determinado tempo e local? Quais se- rão as gírias usadas pelos jovens japoneses e pelos jovens russos? Quem gosta de viajar precisa se atualizar para não parecer que “está na Disney”. Você sabe o que essa gíria quer dizer? A Linguagem pode ser definida, de acordo com a Teoria da Semiótica Pierciana, como um conjunto de signos ou código socializado. Qual Sistema Linguístico faz você vibrar? Qual é a sua forma de se expressar preferida? Já pensou a respeito? 8 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula PARA SABER MAIS Atualmente, há uma verdadeira miscelânea de gírias. As gí- rias, como você viu, podem ser de grupos, de lugar, de tem- po. As gírias são expressões que enriquecem ou “traduzem” aspectos da norma culta da Língua. Algumas gírias, com o passar do tempo, caem em desuso.Outras, no entanto, tor- nam-se parte do vernáculo e são inseridas no padrão formal da Língua. Exemplos de gírias que os jovens usam hoje em dia: Tá na Disney – está viajando. “Minha mãe tá na Disney que eu vou voltar às 22h”. Véy – vocativo. Vem da palavra “Velho”, que evoluiu para “Véio”, e agora véy, com acento mesmo. “Véy, fulana tá pis- tola com você”. Parça – parceiro, amigo. “Ninguém mexe com meu parça”. “Parça em primeiro lugar”. Mitou – expressão usada para qualquer acerto ou frase con- siderada positiva pelo coletivo. “Tio, você mitou naquela res- posta”. “Como foi na prova?” “Mitei. Pai é pai, tio”. Fonte: Material retirado do site UOL. Crush é uma gíria usada para se referir a alguém por quem somos apaixonados ou sentimos algum tipo de atração. Esta é uma palavra da língua inglesa e pode ser literalmente traduzida como «esmagar» ou «colidir». Assim, o crush re- presentaria a força “esmagadora” do sentimento que temos por determinada pessoa. Fonte: Definição do Dicionário Popular. Também existem as escolas Semióticas que definem a Linguagem de acordo com suas teorias e seu modo de observar o mundo e as interações Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 9 sociais. Na Teoria de Charles Sanders PEIRCE (ou peircianaPierciana), a Linguagem é um conjunto de formas de representação estabelecida, basi- camente, por signos. Os signos são algo ou alguma forma de representa- ção de alguma coisa para alguém. Para Umberto ECO, o signo é algo que está no lugar de outra coisa. Charles Sanders PEIRCE (1839 – 1914), pedagogo, cientista, linguista e matemático americano. Fonte: Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/ Charles-Sanders-Peirce>. Acesso em: 04 out. 2018. Para a Semiótica da Cultura, criada pela Escola Semiótica de Tártu-Moscou, a Cultura é formada por Textos, que são as unidades mínimas do teci- do social, que formam processos linguísticos e literários. Um Texto da Cultura pode ser uma cor, uma poesia, uma peça de teatro ou um roteiro cinematográfico. A Semiótica da Cultura vai muito além da esfera cientí- fica. É uma tentativa de questionar e admitir outras leituras da realidade. O criador e impulsionador da Escola de Tártu-Moscou, Iuri Lotman, define a cultura como um sistema perceptível de textos, enquanto linguagem. Os textos são organizados por associações e representados por signos 10 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula linguísticos: índices, símbolos e ícones, que constituem a nossa Linguagem ou o tecido social no qual estamos inseridos. O homem, como ser cultural, comunica-se por meio desses signos, que funcionam como controladores sociais ou códigos da cultura. Segundo Lotman, todo código é um sistema modelizante, uma forma de organização da informação e seu desenvol- vimento. O conceito de semiosfera, criado por Lotman, tem como base a realidade sígnica humana. É uma possibilidade da criação simbólica, que supera a realidade biológica. Neste sentido, a Cultura é formada por uma realidade simbólica própria, na qual o próprio texto é um signo representativo da Linguagem e fonte da simbolização e formação social da Cultura. Assim, a semiosfera é um universo próprio de uma determinada cultura, e, por possuir um tipo de código próprio, cria uma Linguagem específica. Desta forma, o teatro, o ci- nema, a ortografia, a dança, a música têm seus próprios códigos culturais, a sua forma própria de Linguagem que gera um sentido na sua semiosfe- ra, seu universo linguístico particular. Você poderá entender, desta forma, que o conceito de semiosfera se relaciona à ideia de fronteira. É uma deli- mitação entre o que está dentro e o que está fora do espaço semiótico. A semiosfera, por este ponto de vista, é um espaço entre as linguagens, que permite reagrupar e ressignificar os sistemas de signos. No Brasil, Paulo Freire, que é um dos maiores e mais reconhecidos edu- cadores e grande balizador dos processos de percepção e apreensão da Linguagem, em suas diversas pesquisas a respeito do tema poderá lhes apresentar uma perspectiva de recursos Linguísticos, que vão muito além da Língua propriamente dita. A Linguagem, segundo o educador, pode ser tratada como estruturação discursiva do pensamento. A Linguagem tam- bém pode ser tratada, segundo Freire, como fenômeno ou categoria de pensamento (funcionamento próprio a partir do qual outros fenômenos sociais e pedagógicos podem ser explicados ou pelos quais transitam). De acordo com o pensamento de Freire em suas diversas obras, não é possível pensar a Linguagem sem compreender o mundo social no qual estamos inseridos, sem pensar o poder e a ideologia. O que Freire nos Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 11 alerta é que, para ensinar a “norma culta” da Língua Portuguesa, é preciso mostrar à criança que ao dominar a “Língua padrão da norma Culta” ela terá instrumentos necessários para a transformação do mundo. O estu- dioso afirma, ainda, que é a partir do indivíduo e de sua história e visão do mundo que se dá a transformação. Neste sentido, Freire demonstra a importância de se ensinar que a Língua é transformadora e pode ser instrumento de ação e reação, é um artifício contra a hierarquia social. Embora não seja instrumento para desfazer a história e a cultura subjacente ao próprio indivíduo. A Linguagem, neste sentido, é agregadora. Por este viés, o pensamento de Freire fica muito similar à proposta da Escola de Tártu-Moscou. Deste modo, pode-se perceber a importância de mostrar à criança na fase de Alfabetização que a Linguagem irá, certamente, transformar seu modo de ver, viver e sentir o mundo. A Linguagem nos abre para todos os sen- tidos. É tal qual a imagem: gustativa, olfativa, proprioceptiva, auditiva. A Linguagem é sensorial. E, portanto, transformadora. EXEMPLIFICANDO A leitura deve fazer parte do cotidiano, do contrário ela será sempre percebida como um momento especial, es- porádico. Por exemplo, a contação de história é uma das formas de aproximar a criança do livro. Segundo Pennac (2008), a relação de amor com o livro acontece aos pou- cos e tem a participação de todos os fatores externos, como a família e a escola. O homem é um ser cultural, ele aprende com os outros homens. PENNAC, D. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. Porto Alegre, RS: L&PM; Rio de Janeiro: Rocco, 2008. 12 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula PARA SABER MAIS No artigo intitulado O ENCONTRO DAS ÁGUAS: DIÁLOGOS ENTRE PAULO FREIRE E DARCY RIBEIRO, escrito pela pedago- ga da UERJ, Rosemaria J. Vieira Silva, é possível entender um pouco mais sobre o encontro histórico ocorrido, em 1991, entre os estudiosos da Educação Paulo Freire e Darcy Ribeiro. Neste artigo, a autora busca recuperar um momento histó- rico na educação brasileira: O Encontro das Águas. Evento que ocorreu logo após a volta do exílio dos dois pesquisa- dores e no qual ambos puderam refletir sobre seus traba- lhos e a forma de perceber a educação, por uma perspectiva político-educacional. 1.1. Linguagem e Alteridade O final do século XIX e todo o século XX foram cruciais para as mudanças do modo de se relacionar, de se usar a Linguagem, entre os seres huma- nos. Da comunicação face a face, na qual destacávamos um interlocutor, um emissor, uma mensagem e um canal, passamos à comunicação por “instrumentos” ou artefatos extracorpóreos (celulares, por exemplo) que alteraram sobremaneira tanto a comunicação (e as formas de se comuni- car ou fazer entender) quanto a Linguagem em si. Assim, você é capaz de se observar enquanto fala e expressa e perceber no outro a Linguagem como Alteridade. Cabe ressaltar que Alteridade é a condição ou natureza do que é outro, do que faz parte de outra pessoa. É a qualidade ou estado de outro ser humano. É um termo bastante utili- zado também em Filosofia e Antropologia. Assim, a sua Linguagem cria o seu universo, a sua forma de pensar e interagir,os seus gostos pessoais ou em grupo. A Linguagem é, desta maneira, o seu tecido social. Como você aprendeu no contexto da Semiótica da Cultura. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 13 Por outro lado, ao observar outras pessoas utilizarem a Língua (culta ou informal) ou Sistema Linguístico, você consegue distinguir os vários pontos de interesse e articulação do seu interlocutor. Essa observação não se fixa apenas no que a pessoa fala ou no idioma que utiliza. A Linguagem, como você já leu, é gestual, olfativa, sinestésica. As formas de comunicação não são apenas a fala ou a escrita. Por isso, ao preparar seu material para o processo de alfabetização, você deve levar em conta estes parâmetros. Com tais instrumentos, será mais fácil e apropriado você capturar o interesse do seu aluno e fazer com que ele veja a Língua não somente como um instrumento transformador, bem como uma forma de expressão social e cultural. A popularização da imprensa, a implementação e difusão do rádio e da televisão e, mais tarde, a construção e venda a preços acessíveis de computadores domésticos e a criação da rede mundial de comuni- cação (a Internet) fizeram com que houvesse uma mudança radical na forma de se comunicar, bem como na forma de se expressar, fazer-se entender. A Língua Portuguesa usada no Brasil passou por várias transformações no último século. Atualmente, há uma Linguagem totalmente diferente daquela do início do século passado. Não apenas na forma que esta Linguagem adquiriu (a Língua Portuguesa, por exemplo, adotou nova grafia, novas palavras, inseriu letras até então consideradas ‘estrangei- ras’ – Y, W e K – com a última Reforma Ortográfica, ocorrida em 2009). Houve alterações em fonemas, novos parâmetros de designação pes- soal/social, como também se apropriou de termos usados de forma diminuta ou coloquial. Além disso, houve a criação de novas palavras advindas do universo da Internet, bem como adequação de termos estrangeiros ao nosso idioma). Junte-se a tudo isso novas formas de se expressar por meio de imagens, figuras, símbolos de reconhecimento mundiais, tais como: 14 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula emojis (a Linguagem japonesa com figuras animadas, carinhas, gestos capazes de expressar as mais diversas emoções e sentimentos huma- nos), as abreviações em inglês para beijo – XX – e beijos e abraços – XOXO. Fonte: (calvindexter)/istock.com A Língua Inglesa é considerada universal, apesar de não ser a que pos- sui o maior número de falantes em todo o globo. Há um maior número de falantes de Mandarim, que ocupa o primeiro lugar das línguas com maior número de falantes em todo o mundo, em seguida os falantes de espanhol ocupam o segundo lugar e aqueles que falam Inglês ocupam a terceira posição deste ranking. A Língua Portuguesa estaria na sexta posição, segundo dados da BBC News. Esse ranking tem outra configuração, segundo o site Quora (visitado em 29/05/2018). Ainda segundo o Quora, a Língua Inglesa estaria em quarto lugar, uma vez que o Híndi/Urdu ocuparia o segundo lugar mundial de acordo com números de falantes. Veja os dados no gráfico. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 15 Fonte: Disponível em: https://verbalisti.com/2014/08/22/strani-jezici/. Acesso em: 29 maio 2018. PARA SABER MAIS O Hindi ou Híndi é uma Língua indo-ariana, derivada do sânscrito e falada por 70% dos indianos, principalmente no norte, centro e oeste da Índia. Já o Urdu é uma Língua indo- -europeia, da família indo-ariana, que se formou sob influ- ência persa, turca e árabe, no sul da Ásia durante a época do sultanato de Deli e do Império Mongol (1200-1800). Isoladamente, o Urdu é o 5º idioma mais falado do mundo como idioma nativo, sendo o idioma nacional do Paquistão, e um dos 24 idiomas nacionais da Índia. Por sua similarida- de com o Hindi, muitas vezes o Urdu é considerado - junta- mente ao indi - como sendo parte do continuum linguístico denominado hindustâni, nesse caso sendo o segundo idio- ma mais falado do mundo. O Urdu é escrito em um alfabeto árabe modificado. 16 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula ASSIMILE O Quora é um website de perguntas e respostas, no qual as perguntas são feitas, respondidas, editadas e organizadas por uma comunidade de usuários cadastrados. A sede loca- liza-se na Califórnia. A empresa foi fundada por dois ex-fun- cionários do Facebook, Adam D’Angelo e Charlie Cheever em junho de 2009, e o site foi disponibilizado ao público em 21 de junho de 2010. O Quora se autodenomina como uma rede social do conhecimento. A Linguagem da Internet, no entanto, tem sua principal articulação escrita na Língua Inglesa. Considerado idioma universal, o inglês é a principal for- ma de comunicação da rede mundial e, mais especificamente, das redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram). É preciso que você pense o estudo da linguagem não apenas como uma for- ma teórica, mas também como um processo comunicativo e crítico do mun- do a partir do indivíduo. Por intermédio do estudo da Linguagem, a criança poderá desenvolver vários de seus talentos, descobrir as diferenças entre as várias Línguas faladas no mundo, observar o quão rico e passível de explora- ção é o mundo ao seu redor. A Linguagem é o principal instrumento de apreensão social e desenvolvi- mento com o qual você poderá instrumentalizar uma criança no processo de Alfabetização. Adquirida a consciência transformadora e capacitadora da Linguagem, a criança desenvolve outros talentos, reformula seu vocabulário, compreende e assimila melhor conteúdos de outras disciplinas. Desta forma, é tão importante que no processo de Alfabetização o docen- te tenha a percepção da Linguagem e da apropriação da Língua Culta pela criança como esse processo de transformação, tanto pessoal quanto social. QUESTÃO PARA REFLEXÃO Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 17 2. Considerações Finais • Existem vários estudos sobre a Linguagem, suas principais funções, especificações e potencialidades. • O Estudo da Linguagem dará a você ferramentas para construir Leitores Críticos. • Entender que existem vários pensadores que refletiram a Linguagem e sua importância sob vários aspectos é fundamental para criar um ambiente transformador no processo de alfabetização. A Linguagem é um instrumento de capacitação e melhoria cognitiva do indivíduo, especialmente no processo de alfabetização. • A Linguagem não se refere apenas à oralidade. Com os tópicos aqui apresentados, você pode compreender que o Estudo da Linguagem ultrapassa a barreira da língua. É um instrumento social, formador de linguagens próprias de grupos, categorias profissionais, esferas sociais. Glossário • Linguagem – Pode se referir tanto à capacidade humana para a aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação, quanto para um sistema de comunicação complexo. Também pode ser descrita como a capacidade humana de se comunicar por meio de palavras ou gestos. • Língua – Instrumento de comunicação, composto por regras gramaticais que possibilitam que determinado grupo consiga re- produzir enunciados que lhes permitam comunicar-se e se fazer compreender. Possui caráter social e regras gerais, que a tornam 18 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula compreensível. • Alteridade - Substantivo feminino que expressa a qualidade ou es- tado do que é do outro ou do que é diferente. Um dos seus prin- cípios básicos é que o homem, em sua interação social, tem uma relação de interação com o outro. Assim, o “eu” em sua forma indi- vidual só pode existir em sua interação com o outro. • Sistema Linguístico – Delimita a língua e atribui a ela a caracterís- tica de ser um produto social. • Alfabetização - Substantivo feminino. Iniciação no uso do sistema ortográfico. Ato de propagar o ensino ou difusão das primeiras letras. VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA01 1. Qual a Língua mais utilizada/falada em todo o mundo? a) Inglês. b) Português. c) Espanhol. d) Mandarim. e) Híndi/Urdu. 2. Na Escola de Tártu-Moscou foi criada a Teoria Semiótica conhecida como: a) Semiótica da Cultura. b) Semiótica Pierciana. c) Semiótica Freiriana. d) Semiótica Russa. e) Semiótica do Texto Cultural. 3. Paulo Freire mostra que o Estudo da Linguagem no pro- cesso de alfabetização é: Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 19 a) Uma forma complexa e inapropriada de alfabetizar. b) Uma forma mais rápida de alfabetizar as crianças. c) Um instrumento único para a alfabetização. d) A única forma de ser compreender a Língua Portuguesa. e) Um instrumento transformador e empoderador do in- divíduo, capaz de transformar e dar sentido a uma nova abordagem da alfabetização. Referências Bibliográficas BAITELLO, Norval. O pensamento sentado sobre glúteos, cadeiras e imagens. São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2012. FERREIRA, A. B. H. Dicionário Aurélio de Português Online. Disponível em: <https:// dicionariodoaurelio.com/linguagem>. Acesso em: 30 maio 2018. FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade. 6 ed. São Paulo: Cortes, 2005. LOTMAN, Iuri. Estética e Semiótica do Cinema, Imprensa, Imprensa Universitária. Lisboa: Editorial Estampa, 1978. MACHADO, Irene. Concepção Sistêmica do mundo: vieses do círculo intelectu- al Bakhtiniano e da Escola Semiótica da Cultura, 2013. Dsponível em: <http://www. scielo.br/pdf/bak/v8n2/09.pdf>. Acesso em: 30 maio 2018. PENNAC, D. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. Porto Alegre, RS: L&PM; Rio de Janeiro: Rocco, 2008. SCOCUGLIA, Afonso Celso. A teoria só tem uma utilidade se melhorar a prática educativa: as propostas de Paulo Freire, 2013. Disponível em: <http://www.acervo. paulofreire.org:8080/jspui/bitstream/7891/4209/1/FPF_PTPF_12_100.pdf>. Acesso em: 30 maio 2018. WATZALAWICK, Paul, BEAVIN, Janet, Helmick, JACKSON, Don D. Pragmática da Comunicação Humana – um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da intera- ção. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Editora Cultrix, 2011. Gabarito – Tema 01 Questão 1 – Resposta: D O Mandarim é a língua que possui o maior número de falantes em 20 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula todo o mundo. Questão 2 – Resposta: A A Escola Russa de Tártu-Moscou revolucionou, na década de 1960, a forma de se pensar a Semiótica e dar novos significados a tudo o que os seres humanos denominam ou criaram, é uma nova forma de se observar as inter-relações humanas, nova forma de ver a cultura e a sociedade. Questão 3 – Resposta: E Na leitura sobre as pesquisas de Paulo Freire você pode observar que a alfabetização e o conhecimento da Linguagem podem ser tanto ins- trumento de mudança social quanto de empoderamento do indivíduo. 21 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 02 SEMIÓTICA DISCURSIVA NO ENSINO DO PORTUGUÊS Objetivos • Mostrar como a interação humana com o mundo se constrói o tempo todo, de acordo com a Semiótica, por intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. • Apresentar as variadas formas de discurso e como os homens as utilizam para sua interação social. • Mostrar as formas/processos de Comunicação Humana e como elas se aproximam da Linguagem. • Avaliar as diferenças entre Linguística e a semióti- ca, que não se reduz ao campo meramente verbal. A Semiótica se expande para qualquer sistema de signos e dá sentido às várias formas de diálogos ou linguagens. • Entender que a língua pode ser definida por um código formado por palavras e leis combinatórias, por meio do qual as pessoas se comunicam e interagem. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 22 • Compreender a dimensão Semiótica, que se insere no processo de ensino-aprendizagem do ler e do escre- ver da norma culta da Língua Portuguesa, que propõe um número maior possível de interações (sinais que sejam signos e que possam ser traduzidos e interpre- tados), enriquecendo assim a interação social. • Salientar que tais abordagens (pelas vias da Semiótica, da Estilística e da Análise do Discurso) compõem uma moldura metodológica – proposta pelo documento Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) – que pode intervir na produção de conhecimento em geral e no ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Vale ressaltar, entretanto, que o parâmetro atual para o Ensino na Educação Básica é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC 2018). Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 23 Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes para que você entenda melhor os Estudos da Linguagem e pense como o ensino da Língua Portuguesa e da Literatura na Educação Básica podem ser primordiais para a formação de um Leitor Crítico, que assimile de forma mais sistêmica e abrangente os conteúdos a ele apresentados, tais como: Linguagem – Discurso e a Interação Humana (Formas de Discurso; as funções da Linguagem; Língua como Código) e a Língua Portuguesa na Educação Básica. 1. Linguagem - discurso e a interação humana Em qualquer situação vivida por um ser humano, pode-se observar que há uma intermediação entre este e o mundo, bem como uma visão co- mum que todos os seres humanos possuem acerca do mundo em que habitamos. A interação humana com o mundo constrói-se, o tempo todo, de acordo com a Semiótica, por intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. Esse processo acontece por meio da combinação de elementos denominados pela Semiótica de signos. A Semiótica provém da raiz grega ‘semeion’ ou signo. Também vem do gre- go ‘semeiotiké’, que é ‘a arte dos sinais’. A origem da Semiótica remonta à Grécia Antiga, é contemporânea da Filosofia. As duas ciências sempre es- tiveram próximas sob perspectivas de observação da interação humana. A Semiótica estuda as formas como o indivíduo dá significado a tudo que o cerca. Semiótica, neste sentido, é a ciência que estuda os signos e todas as linguagens e acontecimentos culturais como fenômenos produtores de significado para os seres humanos. Sob este aspecto, a Semiótica dá sentido ao tecido social e às interações humanas. 24 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula As linguagens são formas de expressão dos seres humanos. A Linguagem representa os valores de grupos de uma sociedade e podem variar no tempo e no espaço. As línguas (português, inglês, francês) são linguagens. As Línguas, entretanto, apresentam-se de forma exclusivamente verbal. As linguagens são lugares de interação dos seres humanos. Há uma ex- pectativa semelhante entre quem produz, quem lê e os interlocutores deste processo. Há, neste processo, uma forma de linguagem específica: da moda, do cinema, da arte, etc. Grosso modo, pode-se dizer que diferentemente da Linguística, a semió- tica não se reduz ao campo meramente verbal. A Semiótica se expande para qualquer sistema de signos e dá sentido às várias formas de diálogos ou linguagens: Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Moda, Gestos, Religião, entre outros. A Semiótica analisa o tecido social e o denomina, complementa, expande ou ergue fronteiras. É uma ciência em constante movimento e aprimoramento. Os signos são denominados pelos semioticistas de várias escolas e po- dem ser diferentes ou ter atribuições diferentes, de acordo com as linhas de raciocínio ou entendimento de cada uma dessas escolas. Considerada um saber abstrato e formal, generalizado, a Semiótica de Charles Sanders Pierce não é considerada um ramo do conhecimento aplicado. De acordo com o autor, os seres humanos exprimem o con- texto à sua volta por meio de uma tríade: Primeiridade, Segundidade e Terceiridade. Estessão os alicerces de sua teoria. Voltaremos a eles ao longo deste capítulo para melhor compreensão. Para Pierce, um signo é algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Coloca-se no lugar desse objeto, não sob todos os aspectos, mas com referência a um tipo de ideia. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 25 PARA SABER MAIS O Centro de Estudos Peirceanos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), formado pela professora Lúcia Santaella, no início da década de 1970, é um local de referência sobre a obra do norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), cientista, lógico, filósofo e criador da mo- derna ciência semiótica. Livros: BRENT, J. Charles Sanders Peirce: A Life. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 1993. SANTAELLA, L.. O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983. SANTAELLA, L.. A assinatura das coisas. Rio de Janeiro: Imago, 1992. SEBEOK, T. A. Encyclopedic Dictionary of Semiotics. Berlin&New York: Mouton de Gruyter, 1994. A Semiótica Discursiva, ou Semiótica Francesa, baseada na obra de Algirdas Julien GREIMAS (linguista lituano, de origem russa, que contribuiu para a teoria da Semiótica e da Narratologia – 1917-1992) e seus seguidores, afir- ma que o discurso é um dos patamares da constituição do significado, em que um enunciador reveste formas mais abstratas com conteúdos mais concretos. Cabe ressaltar que a Narratologia é o estudo das narrativas de ficção e não-ficção, por meio de estruturas e elementos. Campo de estudo muito importante principalmente para a dramaturgia e a área audiovisual (cinema, jogos digitais, etc.). 1.1. Formas de Discurso Discurso é um dos patamares da constituição do significado, em que um 26 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula enunciador reveste formas mais abstratas com conteúdos mais concre- tos. Todas as vezes que alguém, a partir de uma situação dada, concretiza a Comunicação, houve a produção de um Discurso. Isso acontece todos os dias, com todas as pessoas. Assim, pode-se afirmar que todas as vezes que nos comunicamos estamos produzindo discursos. Você precisa ter em mente que, ao ensinar a Língua Portuguesa na Educação Básica, esta- rá colocando em prática a formação de Discursos. Toda enunciação que suponha um locutor e um ouvinte (na qual o pri- meiro, tem a intenção de influenciar, de algum modo, o segundo) é um pressuposto discursivo. A diversidade dos discursos orais de qualquer natureza e de qualquer nível, da conversa trivial à oração mais orna- mentada, é um Discurso. O Discurso também é a massa dos escritos que reproduzem discursos orais ou que lhes tomam emprestados a construção e os fins: corres- pondências, memórias, teatro, obras didáticas. Enfim, todos os gêne- ros nos quais alguém se dirige a alguém, enuncia-se como locutor e organiza aquilo que diz na categoria da pessoa forma um Discurso. Deste modo, todo discurso é orientado. É produzido para um dado fim. Em situações de interação oral, por exemplo, ocorre um constante pro- cesso de retomadas, antecipações, sendo sempre necessário que os interlocutores estejam orientados e reorientados em seus discursos. Pode-se afirmar também que todo discurso é interativo. Mesmo que não haja um interlocutor à nossa frente, sempre estamos interagindo com o outro ao produzir nossos discursos, de forma mais ou menos explícita. Por outro lado, todo discurso é contextualizado. Não é possível imagi- nar um discurso fora de uma dada situação comunicativa. Sempre que um discurso se produz, esse processo se dá em um dado contexto e é impossível separar uma coisa da outra. 1.2. As funções da Linguagem “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser al- cançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e contexto.” (FREIRE, 2003, p. 58) Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 27 Quando falo, escrevo ou leio, estou mobilizando uma série de estratégias. Tais estratégias aparecerão em uma situação de comunicação: ao produ- zir ou ler um texto, uma fala. Nestes momentos, você está em interação com um outro, o seu interlocutor/ leitor. É importante, portanto, articular a comunicação. Para que, assim, tanto quem está produzindo como os que estão tentando compreender uma dada mensagem, sejam contemplados pelo processo de comunicação/ interação. Ao compor ou ler um texto, ao ler uma notícia ou travar um diálogo, por exemplo, você estabelece hipóteses. Este tipo de informação deve ser passada ao aluno quando se está mos- trando a Língua como instrumento de acesso social e como processo de alfabetização. Fazendo desta forma, você estará mostrando ao aluno a importância de se pensar, de observar o processo de aprendizagem e lhe dar sentido, contextualização. Com tais pontuações, o professor consegue despertar no aluno a criti- cidade. O aluno deverá ser sempre instigado a fim de torná-lo um leitor com senso crítico e aguçar sua vontade de aprender cada vez mais. Da mesma forma, o produtor, o interlocutor/leitor também mobilizam es- tratégias de compreensão das mensagens. Ao estabelecer algum contato com um texto, oral ou escrito, o interlocutor/leitor também tem: • um objetivo para sua audição ou leitura da mensagem; • a necessidade de compreender uma certa quantidade de informa- ções passadas pelo texto; • suas próprias crenças, valores e atitudes. 28 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Ao ler um texto ou ouvir a fala de alguém, é preciso ter clareza de que a po- sição de leitor e ouvinte pode não ser a mesma do produtor da mensagem. ASSIMILE Elementos da Comunicação Neste sentido, cada função da Linguagem está ligada a um dos elementos do processo da Teoria da Comunicação, confor- me estipulado pelos estudos de Roman Osipovich Jakobson, 1896 – 1982, pensador russo que se tornou um dos mais im- portantes linguistas do século XX e pioneiro da análise estru- tural da linguagem, poesia e arte. O processo comunicativo, segundo Jakobson, é composto por seis componentes estru- turais que realizam seis respectivas funções, quais sejam: • Emissor Função Emotiva ou Expressiva; • Receptor Função Conativa ou Apelativa; • Código Função Metalinguística; • Mensagem Função Poética; • Canal Função Fática; • Referente Função Referencial ou Denotativa. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 29 Assim: • o CONTEXTO seria a função referencial; • o REMETENTE seria a função emotiva/ expressiva; • a MENSAGEM é função poética; • o DESTINATÁRIO é a função conativa; • o CANAL tem uma função fática; e • o CÓDIGO possui uma função metalinguística. A Língua é, por este ângulo, um meio de interação entre sujeitos. Uma in- teração que se dá, nessa e em muitas outras situações, pela intermediação de signos verbais, combinados de acordo com as regras do idioma. Muitas pessoas acreditam que apenas dominar o código da Língua, conhecendo as regras de seus usos padrão, é suficiente para se comunicar bem. Mas o conhecimento das funções da Linguagem e do processo de comu- nicação entre os seres humanos é primordial para que esta promoção da interação humana aconteça de forma assertiva. Para tanto, para ensinar uma Língua, é preciso conhecer o processo ou forma de comunicação hu- mana estabelecido pela semiótica ao longo dos anos. Ao sintetizar as funções da Linguagem, você terá: 1. Função Emotiva ou Expressiva: todos os signos que, numa dada si- tuação comunicativa, centram-se no emissor. Foco no transmissor da mensagem. Expressa opiniões e sentimentos. Exemplos: biografias, memórias, poesias líricas e cartas de amor. 2. Função Conotativa ou Apelativa: todos os signos que, numa dada situação comunicativa,centram-se no receptor/destinatário. Foco no receptor da mensagem. 30 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Utiliza-se da persuasão e do imperativo. Exemplos: anúncios publicitários e propagandas. 3. Função Poética: não deve ser associada apenas à poesia. Todo uso de signos que procura ir além apenas do sentido imediato da mensa- gem. É quando o signo é empregado de forma sugestiva, despertando o imaginário do receptor. Foco na estética da mensagem. Utiliza-se do ritmo e da sonoridade, do jogo de imagens e de ideias. Exemplos: poemas e poesias. 4. Função Referencial ou Denotativa: ligada ao contexto da situação de comunicação. Não diz respeito ao “eu” emissor nem ao “você” re- ceptor; associa-se ao “ele” ou “isso”, qualquer outra pessoa, assunto, acontecimento. Foco no conteúdo. Expressa uma informação objetiva. Exemplos: textos científicos, jornalísticos e didáticos. 5. Função Fática: Centrada no contato. Composta por signos usados para iniciar, manter ou encerrar uma dada comunicação. A função fá- tica manifesta essencialmente a necessidade ou desejo de comunicar. Foco na comunicação. Fatos cotidianos (bom dia, boa noite, tudo bem, como vai você...). Exemplos: diálogos. 6. Função Metalinguística: Centrada no código. Tudo o que, numa men- sagem, serve para dar explicações ou precisar o código utilizado pelo destinador (ou emissor) diz respeito a esta função. Foco no código linguístico. Explicar a linguagem utilizando a linguagem. Exemplo: dicionário. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 31 1.3. Língua como Código Uma língua pode ser definida por um código formado por palavras e leis combinatórias por meio do qual as pessoas se comunicam e interagem. Na concepção de língua como código (entendida como ‘instrumento” de Comunicação), o texto é visto como um simples produto da codificação de um emissor a ser decodificado pelo leitor/ouvinte. Para que o processo aconteça, bastaria que o leitor/ouvinte tivesse o co- nhecimento do código (uma vez que o texto, uma vez codificado, é total- mente explícito). Também nessa concepção, o papel do “decodificador” é essencialmente passivo. Dominar o código é importante, mas não se pode esquecer que o sentido do que se diz ou escreve será realmente definido pelo outro, o interlo- cutor/leitor. O interlocutor/leitor não é uma figura passiva, que está ali apenas esperando o que se tem a dizer. Interlocutores/leitores têm seus próprios valores, interesses, etc. Desta forma, compreenderá o que lhe é dito de acordo com seus próprios critérios. 2. A Língua Portuguesa na Educação Básica De acordo com Edgar Morin (2000), deve-se reconhecer o duplo enraiza- mento no cosmos físico e na esfera viva e, ao mesmo tempo, o desenrai- zamento propriamente humano. Você está, simultaneamente, dentro e fora da natureza. Tal pensamento leva a questões mais singulares no que diz respeito ao ensino da forma culta da Língua Portuguesa e ao uso dos signos,propos- tos pela Semiótica. Morin defende, com a Teoria da Complexidade, a inte- ração entre as várias disciplinas. No lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, 32 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Morin propõe o conceito de complexidade. Essa é a ideia-chave de O Método, a obra principal do sociólogo, que se compõe de seis volumes pu- blicados a partir de 1977. A palavra é tomada em seu sentido etimológico latino, “aquilo que é tecido em conjunto”. O pensamento complexo, se- gundo Morin, tem como fundamento formulações surgidas no campo das ciências exatas e naturais, como as teorias da informação e dos sistemas e a cibernética, que evidenciaram a necessidade de superar as fronteiras entre as disciplinas. Para recuperar a complexidade da vida nas ciências e nas atividades hu- manas, Morin recomenda um pensamento crítico sobre o próprio pensar e seus métodos, o que implica sempre voltar ao começo. Não se trata de círculo vicioso, mas de um procedimento em espiral, que amplia o conhe- cimento a cada retorno e, assim, se coaduna com o fato de o homem ser sempre incompleto - o aprendizado é para toda a vida. Neste sentido, a Semiótica é capaz de proporcionar ao aluno uma visão mais abrangente de códigos, signos e significados. Isso faz com que o en- sino seja formulado de uma forma que leve ao raciocínio, com base em expressão e comunicação mais eficazes. A Semiótica, neste contexto e de acordo com o postulado de Peirce, dá subsídios para que o homem se veja como um signo no/do mundo e dis- ponha-se a interagir com os demais signos. Haveria, desta forma, um compartilhamento num espaço solidário (entendendo-se que nem só o homem é signo). Por meio de uma atitude Semiótica, desta forma postu- lada, torna-se possível o resgate da sensibilidade humana. É a Semiótica, como ciência, que ensina aos seres humanos a “ver” (assi- milar, compreender) o mundo e tudo o que o compõe, dando um maior sentido à própria esfera humana. O ato de “dar sentido” alicerça a consi- deração do valor comunicativo da Língua Portuguesa como língua mater- na e nacional. Por outro lado, o domínio da língua culta se fortalece como instrumento Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 33 fundamental da aquisição de conhecimentos das demais disciplinas. Por este pressuposto, o ensino da Língua deixa de ser meramente gramatical (que não instrumentaliza o aluno/usuário para a comunicação eficiente), mas capacita o aluno para uma visão ao mesmo tempo mais holística e transformadora social. Verifica-se, desta forma, que é preciso inserir a língua em um contexto maior e mais abrangente de códigos e signos, caminho pelo qual transi- tam as demais disciplinas e suas respectivas linguagens (independente- mente de área ou subárea). Por essa nova perspectiva, percebe-se a disseminação do conhecimento enciclopédico associado ao conhecimento sígnico - associado ao Linguístico -, como sendo a base da capacitação do aluno para a leitura do mundo com olhos próprios. É por esse pressuposto que o aluno alcançaria a autonomia de interpretação dos signos do mundo e, assim, alcançaria uma formação cidadã independente. E mais sistêmica, mais visionária até do mundo. Por este viés e com o intuito de revitalizar o processo de ensino-apren- dizagem e de tornar mais eficaz a comunicação linguística como base do crescimento cultural do estudante, o Governo Federal, por intermédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC) representado por comissões de especialistas, gerou o documento BNCC (2018). Ao agrupar as disciplinas por áreas de afinidade, a BNCC instituiu como base a Comunicação e Expressão e contemplou a área denomina- da Linguagens, Códigos e suas Tecnologias com um suporte teórico de Semiótica. Esta junção de conhecimento tem como alicerce a Análise do Discurso e a Análise Estilística. Com tal enfoque, foi possível promover a interdisciplinaridade por meio da exploração e da conscientização das relações entre significado, signi- ficação, sentido e posição discursiva. O que elevou o ensino da Língua Portuguesa na educação básica a um nível visionário mais amplo e eficaz. 34 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula PARA SABER MAIS Para conhecer os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), acesse o Portal MEC, Sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC 2018), aces- se o site Base Nacional Comum do Ministério da Educação. A dimensão Semiótica, que se insere no processo de ensino-aprendiza- gem do ler e do escrever da norma culta da Língua Portuguesa, propõe um número maior possível de interações (sinais que sejam signos e que possam ser traduzidos e interpretados), enriquecendo assim a interação social. O uso da Análise do Discurso e de suas teorias é importante por- que explicitam os mecanismos de produção de textos, levando em conta as condições de produção. Por meio da Análise do Discurso, tornam-se visíveis as relações de poder noato de se comunicar. É possível, no ensino da Língua Portuguesa, identificar o sujeito que fala (atribuindo a ele a autoridade que lhe é conferida pelo lugar social que re- presenta em consonância com o tema sobre o qual fala), bem como ava- liar sua intenção e sua posição ideológica em relação ao seu interlocutor. Mais uma vez, vê-se o ensino da norma culta da Língua Portuguesa como processo de instrumentalização do indivíduo. Por este parâmetro, torna- -se possível observar marcas textuais, infratextuais e supratextuais que configuram as forças enunciativas, proposicionais, ilocucionais e perlo- cucionais inscritas no ato de fala. Estas referências não se realizam nas ou por palavras, mas pelos próprios indivíduos/alunos falantes que as ele- gem e as pronunciam. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 35 É importante salientar que tais abordagens (pelas vias da Semiótica, da Estilística e da Análise do Discurso) compõem uma moldura metodológi- ca – proposta pelo PCN – que pode intervir na produção de conhecimen- to em geral e no ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. É também observada aqui a interdisciplinaridade proposta por Edgar Morin, mais uma vez em ação no ensino da forma culta da Língua. Desta forma, com a escolarização, torna-se possível a preparação do aluno para o trabalho de construir efeitos de referência direta no próprio mundo, bem como de fazer inferências no mundo à sua volta. Todo esse processo enfatiza a importância da leitura e da produção de textos como determinantes da atuação sociopolítica do indivíduo e de sua capacidade de compreensão das mensagens verbais e não-verbais (interdisciplinaridade do currículo escolar). Por viver-se numa época de multimeios de comunicação (veloz, multicultural e por vários dispositi- vos), exige-se dos indivíduos uma visão sistêmica e uma competência e desempenho sígnicos maior. Tais competências são capazes de afastar os alunos/indivíduos de quaisquer mecanismos de marginalização so- cioeconômica e cultural. Discutir a capacitação para a leitura do mundo aliada a um potencial de fluência discursiva e enunciativa (oral e escrita) pelo aluno, neste momen- to, é crucial para a melhoria da sua própria qualidade de vida e para a sua colaboração para o aperfeiçoamento da sociedade. Todo esse processo de ensino-aprendizagem da Língua se alicerça em um processo instru- mental teórico, consistente e indispensável ao novo ‘modelo de professor de Linguagens’. 36 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula PARA SABER MAIS Segundo Merith-Claras (2012, p. 58) “Uma das responsabili- dades atribuídas aos professores de língua portuguesa é a formação de alunos capazes de ler, criticamente, diferentes gêneros discursivos (...) Considerando esse quadro, é possí- vel inferir que a escola ainda carece de novos instrumentos teórico-metodológicos (...)”. Trecho extraído do artigo: O ensino da língua materna e a se- miótica: possibilidades de leitura e análise linguística de uma fábula, Sonia Merith-Claras. 3. Considerações Finais • Você pôde observar nesta aula as variadas formas de Discurso e como os homens as utilizam para sua interação social. • Você adquiriu com este módulo a possibilidade de avaliar as diferen- ças linguísticas e semióticas. E entendeu que a Semiótica se expande para qualquer sistema de signos e dá sentido às várias formas de A Semiótica é capaz de alterar nossa percepção do mundo. Tal como você viu na primeira aula desta disciplina, a Semiótica, além de nomi- nar tudo o que nos cerca, pode fazer repensar o tecido cultural no qual se está inserido. Para o aprendizado de uma língua, a Semiótica é fun- damental. Com os parâmetros de Análise de Discurso, por exemplo, o aluno se capacita e instrumentaliza para aprender a forma culta da Língua Portuguesa e, também, para observar o mundo e suas perspec- tivas por um novo viés e de forma mais abrangente e sistêmica. QUESTÃO PARA REFLEXÃO Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 37 Diálogos ou Linguagens. • Com este programa de estudos é possível entender que a Língua pode ser definida por um código formado por palavras e leis com- binatórias, por meio do qual as pessoas se comunicam e interagem. • Este módulo também o levou a compreender a dimensão semióti- ca, que se insere no processo de ensino-aprendizagem do ler e do escrever da norma culta da Língua Portuguesa. • Neste capítulo foi possível observar abordagens (pelas vias da Semiótica, da Estilística e da Análise do Discurso) que compõem uma moldura metodológica – proposta pelo documento Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) – que intervieram na produção de conhe- cimento em geral e no ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Glossário • Linguagem – Pode se referir tanto à capacidade humana para a aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação quanto para um sistema de comunicação complexo. Também pode ser descrita como a capacidade humana de se comunicar por meio de palavras ou gestos. • Língua – Instrumento de comunicação, composto por regras gramaticais que possibilitam que determinado grupo consiga re- produzir enunciados que lhes permitam comunicar-se e se fazer compreender. Possui caráter social e regras gerais que a tornam compreensível. • Discurso – Substantivo masculino. Este termo pode conter vários significados. Discurso é toda situação que envolve a comunicação dentro de um determinado contexto e diz respeito a quem fala, para quem se fala e sobre o que se fala. Outra definição bastante conhecida é de que o discurso seja uma exposição metódica so- bre certo assunto. Um conjunto de ideias organizadas por meio da linguagem de forma a influir no raciocínio, ou quando menos, nos 38 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula sentimentos do ouvinte ou leitor. Também pode ser conjunto de pensamentos e visões de mundo derivados da posição social desse grupo ou instituição que permitem que esse grupo ou instituição se sustente como tal em relação à sociedade, defendendo e legiti- mando sua ideologia, que é sempre coerente com seus interesses. • Comunicação - Substantivo feminino. É a ação de transmitir uma mensagem e, eventualmente, receber outra mensagem como res- posta. Por Comunicação, entende-se o processo que envolve a tro- ca de informações entre dois ou mais interlocutores por meio de signos e regras Semióticas mutuamente entendíveis. Trata-se de um processo social primário, que permite criar e interpretar men- sagens que provocam uma resposta. • Semiótica - substantivo feminino. Basicamente é a teoria geral das representações, que leva em conta os signos sob todas as formas e manifestações que assumem (linguísticas ou não), enfatizando, especialmente, a propriedade de convertibilidade recíproca entre os sistemas significantes que integram. Existe, no entanto, várias vertentes da Semiótica. VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 02 1. Em qualquer situação vivida por um ser humano, pode-se observar que há uma intermediação entre este e o mun- do. A interação humana com o mundo se constrói, o tem- po todo, de acordo com a Semiótica, por intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. Esse processo acontece por meio da combinação de elementos denominados pela Semiótica de: a) Signos. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 39 b) Significados. c) Verbos. d) Letras. e) Formas. 2. É importante salientar que as abordagens pelas vias da Semiótica, da Estilística e da Análise do Discurso com- põem uma moldura metodológica – proposta pelo PCN – que pode intervir na produção de conhecimento em geral e no ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. É tam- bém observada aqui a interdisciplinaridade proposta por Edgar MORIN, mais uma vez em ação no ensino da forma culta da Língua. O que significa PCN? a) Pacto pela Comunicação Nacional. b) Processo Cognitivo Normal. c) ParâmetrosCurriculares Nacionais. d) Parâmetros Curriculares Normativos. e) Parâmetros Cognitivos Nacionais. 3. A dimensão Semiótica, que se insere no processo de en- sino-aprendizagem do ler e do escrever da norma culta da Língua Portuguesa, propõe um número maior possível de interações (sinais que sejam signos e que possam ser traduzidos e interpretados), enriquecendo assim a inte- ração social. O uso da Análise do Discurso e suas teorias é importante porque: a) explicitam as condições de produção do texto sem os signos. b) explicitam os mecanismos de produção de textos, 40 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula levando em conta as condições de produção. c) explicitam os mecanismos de produção de textos, me- ramente sob o ponto de vista gramatical. d) explicitam os mecanismos de produção de textos, le- vando em conta o discurso propositivo linguístico e não a lógica do discurso apenas. e) explicitam os mecanismos de produção de textos, ape- nas de forma padrão linguística e gramatical. Referências Bibliográficas CHARAUDEAU, P., MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004. ECO, Umberto. Tratado geral de semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2000. EPSTEIN, Isaac. O signo. São Paulo: Ática, 1997. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 2003. FIORI N, José L. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 2000. 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São os signos as denominações primárias de todas as coisas. Questão 2 – Resposta: C O Governo Federal, por intermédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), representado por comissões de especialistas, gerou o documento Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) com o intui- to de agrupar as disciplinas por áreas de afinidade, o PCN instituiu como base a Comunicação e Expressão e contemplou a área deno- minada Linguagens, Códigos e suas Tecnologias com um suporte te- órico de Semiótica. Esta junção de conhecimento tem como alicerce a Análise do Discurso e a Análise Estilística. Questão 3 – Resposta: B É a Semiótica, como ciência, que ensina aos seres humanos a “ver” (assimilar, compreender) o mundo e tudo o que o compõe, dando um maior sentido à própria esfera humana. O ato de “dar sentido” alicerça a consideração do valor comunicativo da Língua Portuguesa como língua materna e nacional. 42 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 03 ESTUDOS DA EXPRESSÃO VERBAL E NÃO-VERBAL EM SALA Objetivos • Comunicar melhor. • Fazer apresentações melhores. • Fazer-se entender principalmente no campo profis- sional. • Escrever de forma mais clara e objetiva. • Mobilizar e influenciar pessoas por meio da escrita. • Utilizar a linguagem escrita de forma eficaz como um importante canal de comunicação. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 43 Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes para que você entenda melhor os Estudos da Linguagem e pense como o ensino da Língua Portuguesa e da Literatura na Educação Básica podem ser primordiais para a formação de um leitor crítico, que assimile de forma mais sistêmica e abrangente os conteúdos a ele apresentados. A interação humana acontece, o tempo todo com formas de representa- ção. Este processo de interação ocorre pela combinação de elementos ou signos. O signo deve ser entendido como qualquer coisa que esteja no lu- gar de outra, representando-a. Nesta aula, você poderá entender melhor como este processo ocorre. Você irá estudar nesta aula: O Homem e sua interação com o Mundo (Diferentes Faces do Signo), Linguagem (Funções da Linguagem, Língua) e Produzindo Textos Coerentes (Fatores de Intertextualidade e Leitura e Interpretação de Texto). 1. O homem e sua interação com o mundo Pode-se utilizar vários recursos para se comunicar ou se fazer entender. Gestos, imagens, músicas são alguns destes artifícios de Comunicação que os seres humanos adaptaram para se expressar. O Discurso, no entanto, é umas das formas mais abrangentes e efetivas para se estabelecer um pro- cesso de comunicação com outro ser humano. Pode-se dizer, desta forma, que a Linguagem assume várias funções e características discursivas. Diferentes formas de se transmitir uma mensagem, utilizando-se de inú- meras associações, foram pensadas, construídas e executadas pelos ho- mens. Para estabelecer um processo comunicativo, você já viu que há 44 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula alguns elementos imprescindíveis para que realmente aconteça a comu- nicação: emissor, receptor, mensagem, canal, contexto e código. Em qualquer situação vivida por um ser humano, no entanto, você pode observar que ocorre uma intermediação entre o mundo e a visão que se tem dele. Uma foto, por exemplo, não mostra a pessoa. A foto mostra a sua representação. Nos dois exemplos de fotos abaixo, o fotografado é um presidente dos Estados Unidos. O primeiro, Barack Obama e, o segundo, Donald Trump. Independentemente da posição política ou trajetória de cada um deles, a própria foto esboça uma representação destes dois homens. Imagem do Obama. Disponível em: <https://pixabay.com/pt/barack- obama-2012-retrato-oficial-1129156/>. Acesso em: 06 out. 2018. Imagem do Donald Trump. Disponível em: <https://www.cnbc.com/ donald-trump/>. Acesso em: 04 out. 2018. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 45 O que você vê nas fotos é uma representação deles e não, exatamente, quem eles são. Ao mesmo tempo que você se apropria destes dois “per- sonagens”, uma vez que eles são representantes da maior potência mun- dial e são o tempo todo retratados pela mídia. Com a foto, vê-se um signo e tudo o que ele representa. O homem mais poderoso do mundo, retratado por esses dois indivíduos, cada qual em seu tempo à frente do governo dos EUA, é um signo (cheio de significados, simbolismos, fortes apropriações por parte de quem os vê e acompanha suas trajetórias). Grosso modo, pode-se auferir ao processo de fotografar uma dimensão de representação visual de ideias, contextos, rótulos, de dimensões so- ciais e culturais. A foto ou imagem é um signo máximo de nossa cultura. De acordo com o professor Norval Baitello Junior, a imagem nos devora. Baitello cunhou o termo Iconofagia para designar o processo de os seres humanos serem devorados pelas imagens. Mesmo antes de as vermos, as imagens já nos devoraram, afirma o estudioso em seu livro A Era da Iconofagia. Disseminador e um dos maiores representantes da Semiótica da Cultura no Brasil, Baitello é enfático ao falar sobre a imagem e a sua for- ça. A Era da Iconofagia – Reflexões sobre Imagem, Comunicação, Mídia e Cultura é um livro do professor de Semiótica da Culturada PUC/SP, Norval Baitello Junior. De acordo com Baitello, o termo Iconofagia possui uma po- livalência intencional, uma vez que ora as imagens são devoradas, ora são elas quem devoram. A ideia de devoração nasceu do pensamento antro- pofágico, do Modernismo Brasileiro, em 1920, que propunha uma devora- ção de ícones, ídolos e símbolos da cultura europeia, em vez de imitá-la, portanto, um ato iconofágico, mas com um sentido construtivo e criativo. Como você viu nas aulas anteriores, de acordo com Charles Sanders Peirce (1839 – 1914), filósofo, pedagogo, cientista, linguista e matemático ame- ricano, “um signo é algo que representa alguma coisa para alguém”. Mas isso, segundo o estudioso, dá-se por representação ou referência. 46 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Já para Louis Hjelmslev (1899 – 1965), linguista dinamarquês cujas ideias formaram a base do Círculo Linguístico de Copenhague, o signo é a parti- cularidade que nos interessa de alguma coisa. O signo, neste caso, funcio- na, designa, significa. PARA SABER MAIS Nas palavras de Beividas (2015, p. 01) “Hjelmslev nos legou elementos sólidos para estabelecer uma teoria com meto- dologia descritiva da Língua natural, de cunho integralmen- te imanente, teoria e metodologia aprumadas para serem constantemente produzidas e conduzidas a partir do interior da própria Língua – tal como pleiteava ele, ao modo de uma linguística – que não deixasse invadir suas descrições com argumentos, critérios, conceitos e pontos de vista oriundos de regiões transcendentes à Língua, seja no seu plano da ex- pressão, por critérios físico-acústicos, fisiológicos e congêne- res, seja no seu plano do conteúdo, por conceitos psicológi- cos, sociológicos ou filosóficos, dentre outros.” Artigo completo: BEIVIDAS, Waldir. A teoria da linguagem de HJELMSLEV: uma epistemologia imanente do conhecimento. Revista de Estudos Semióticos, v. 11, n. 1 (2015). Umberto Eco (1932 – 2016), escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibli- ófilo italiano (titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de ciências humanas na Universidade de Bolonha), encerra a questão ao afirmar que “Signo é algo que está no lugar de outra coisa”. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 47 PARA SABER MAIS No site ebiografia podemos encontrar um pouco sobre avia de Umberto Eco, que nas palavras de Diva Frasão “Umberto ECO (1932-2016) foi um escritor, professor e filósofo italia- no, autor do romance ‘O Nome da Rosa’, um dos maiores sucessos literários do século XX. Eco (1932-2016) nasceu em Alexandria, Piemonte, Itália, no dia 5 de janeiro de 1932. Filho de Giulio Eco e Giovanna Eco, estudou Filosofia e Literatura na Universidade de Turim, onde mais tarde tornou-se profes- sor. Foi considerado um dos expoentes da nova narrativa ita- liana, iniciada por Ítalo Calvino (1923-1985). Exerceu grande influência sobre os meios intelectuais ao estudar os fenôme- nos de comunicação ligados à cultura de massas, como his- tórias em quadrinhos, telenovelas e cartazes publicitários”. 1.1. Diferentes Faces do Signo O mundo, tal qual você o vê e vivencia, é constituído por plantas, animais, aparelhos de televisão, celulares, computadores, carros, casas, plantas, vulcões, oceanos. Enfim, uma infinidade de coisas. Muitas delas de ordem natural do planeta e outras criadas pelos homens. Com o intuito de facilitar o entendimento de tudo o que há no mundo, linguistas, em especial, os estudiosos ligados à Semiótica, denominaram de signos tudo o que se conhece. Existem diferentes áreas/linhas de estudos da Semiótica, como você já pode ver nas aulas anteriores. Na Semiótica mais comumente ligada aos estudos do americano Charles Peirce, tudo o que observamos ou nos cer- ca são signos, distintos entre verbais e não-verbais. Signos Verbais são formados por sinais visuais e sonoros: a letra e o 48 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula fonema. O Signo Verbal divide-se em dois: • Signo verbal Significado – conceito/sentido ou valor diferenciado. • Signo verbal Significante – que se manifesta foneticamente. Por exemplo, o termo CASA, em relação ao objeto, tem dupla representação: • Significado ou imagem mental – casa. • Significado que também é “Plano de Conteúdo”, o que casa significa. • Significante – que é o conjunto de fonemas KAZA. • Significante, como conjunto sonoro, também é chamado de “Plano de Expressão”. Os Signos podem ser Não-verbais. Sinais sonoros ou visuais compõem a chamada Linguagem Não-verbal. Exemplos de signos sonoros Não- verbais: música instrumental, sirene, apito ou uma buzina. Exemplos de signos visuais Não-verbais: cores (semáforo), formas (placas), movi- mentos (vídeos, imagens). Uma concha, por exemplo, pode ser um Signo Não-verbal de concepção e fecundidade (quando usada na pintura “O nascimento de Vênus”, obra do pintor italiano Sandro Botticelli, feita entre os anos de 1482 a 1485, para decorar a residência “Villa Medicea di Castello”) ou como um logotipo (identidade visual da Shell, empresa multinacional petrolífera anglo-ho- landesa, que tem como principais atividades a refinação de petróleo e a extração de gás natural). As duas formas, no entanto, não representam a concha objeto, que é um invólucro marinho. Fonte: jskiba/Istock.com Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 49 “O nascimento de Vênus”, pintura de Botticelli. Disponível em: <https://pixabay.com/pt/pintura-la-nascita-di-venere-63186/>. Acesso em: 14 set. 2018. PARA SABER MAIS Feita entre os anos de 1482 a 1485, o “Nascimento de Vênus” é uma pintura de Sandro Botticelli, encomendada por Lorenzo di Pierfrancesco de Médici para a Villa Medicea di Castello. A obra está exposta na Galleria Degli Uffizi, em Florença, na Itália. Este famoso quadro de Botticelli foi revolucionário em sua época, por ser a primeira pintura renascentista com tema exclusivamente leigo e mitológico. 50 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula São categorias dos Signos Não-verbais: • Ícone – Relação de semelhança, em algum aspecto, com o que repre- senta - modelos, esquemas, etc. • Índice – Apresenta relação direta, causal com o que representa – indicação de um caminho, um sintoma, etc. • Símbolo – Apresenta relação convencional com o seu objeto – a cor vermelha da Coca-cola, símbolos de marcas conhecidas, etc. 2. Linguagem Nas diversas áreas da atividade humana, é possível perceber que há al- gumas regras ou padrões que são obedecidos por todos os membros de determinada sociedade. São estas regras que definem o padrão de signos socializados. A Linguagem é qualquer sistema de signos socializado. Como você já viu na primeira aula, existe a linguagem da moda, do jornalismo, da televisão, do cinema, da culinária, da fotografia, etc. De acordo com essas definições, é possível perceber que: • as Linguagens são formas de expressão humana, representando valores de grupos de uma dada sociedade, que podem variar no tempo, no espaço, etc. • as Línguas (o português, o inglês, o francês, etc.) são Linguagens, mas, diferentemente de outras, apresentam-se de forma exclusiva- mente verbal. • as Linguagens são lugares de interação humana, pois tanto produ- tores como interlocutores/leitores têm expectativas semelhantes das manifestações de Linguagem nas quais interagem. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 51 2.1. Funções da Linguagem A Linguagem como um dos facilitadores de transmissão de ideias de for- ma coerente, levando do emissor ao receptor um determinado assunto, de forma coerente e que possa ser entendido, despertou interesse entre estudiosos de várias áreas do conhecimento humano. O linguista Roman Jakobson (1896-1982) formulou uma das teorias mais conhecidas em todo o mundo sobre a Comunicação. O pesquisador, es- pecialista na teoria e método de crítica literária para narrativas e poesiaconhecido como formalismo, transferiu tal conhecimento teórico para o estudo da Linguagem. Desta forma, Jakobson propôs a análise estrutural da Linguagem. O intuito desta teoria era compreender quais elementos estruturam a co- municação e quais seriam as funções da Linguagem. Para tanto, Jakobson postulou que todo ato de Comunicação verbal é composto por seis fatores (uma combinação de signos utilizada o tempo todo em nossas interações): 52 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula ASSIMILE Além de todos esses fatores, existe o ruído. O ruído no pro- cesso de comunicação é qualquer coisa que interfira na transmissão da informação de forma clara do emissor para o receptor. Os ruídos podem ser: físicos, fisiológicos, psicológi- cos ou semânticos. Em cada situação de Comunicação, a combinação sígnica organiza-se de acordo com certos objetivos. E, a partir desta combinação, é colocado em funcionamento uma ou mais funções da Linguagem. E, cada função da Linguagem está ligada a um dos elementos de comunicação: Remetente, Receptor, Mensagem etc. JAKOBSON em sua obra, em especial em seu li- vro Linguistics and Poetics (1960), elabora o processo de Comunicação sob os seguintes aspectos: Veja: • Remetente ou Emissor – Função emotiva/expressiva. Composta por todos os signos, que em dado momento, centram-se no emissor (orador, narrador, autor). • Destinatário ou Receptor – Função conativa. Composta por todos os signos, que em dado momento, centram-se no receptor/desti- natário. Aquele a quem o emissor dirige sua mensagem (ouvinte, leitor, telespectador, usuário, destinatário). • Mensagem – Função poética. Quando o signo é empregado de for- ma sugestiva, despertando o imaginário do receptor. É o conjunto das informações transmitidas (texto, discurso, o conteúdo, o que está sendo dito). • Canal – Função fática. É centrada no contato. Composta por signos usados para iniciar, manter ou encerrar uma dada comunicação. É o meio pelo qual as mensagens circulam – voz, ondas sonoras Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 53 (contato ou conexão psicológica ou física). • Contexto – Função referencial. Também chamada de Denotativa, está ligada ao contexto da situação de comunicação. É constituído pela situação e pelos objetos reais aos quais a mensagem remete (o referente, a situação). • Código – Função metalinguística. É centrada no código. Tudo o que, numa mensagem, serve para dar explicações ou precisar o código utilizado pelo destinador (ou emissor). É constituído pelo conjunto de signos e regras de organização (o sistema linguístico ou comuni- cativo, um conjunto de signos e regras linguísticos). 2.2. Língua A Língua é, antes de mais nada, um lugar de interação entre sujeitos (pesso- as). Uma interação que se dá pela intermediação dos Signos Verbais, com- binados de acordo com as regras do idioma. É preciso dominar o Código da Língua (regras e usos padrão), mas também o sentido do que se diz ou escreve. Senão, não seremos compreendidos pelos interlocutores. Todos nós temos nossos próprios valores, interesses, etc., e avaliamos o que le- mos, principalmente, com base nestas perspectivas pessoais. Uma Língua pode, ainda, ser definida como um código formado por palavras e leis combinatórias por meio dos quais as pessoas se comunicam e interagem. 3. Produzindo textos coerentes O que é um texto? Um tipo de combinação coerente de signos, com base Semiótica, na qual se amplia o conceito, desassociando-o exclusivamente da palavra para formar um todo. Assim, qualquer conjunto articulado de signos que faça sentido para um dado leitor, conjunto esse marcado por duas interrupções (um começo e um fim) pode ser considerado texto. 54 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula A partir desse conceito, pode-se classificar os textos como predominante- mente: Verbais: formados pela Língua escrita ou Língua falada (ex: textos em geral, conversas, páginas de livros, etc.). Visuais: feitos com combinações de Signos Não-verbais (ex: planta baixa, fotografia, tela de pintura, etc.). Sincréticos: feitos com Signos Verbais e Não-verbais (ex: cena de teleno- vela, reportagens de jornais e revistas, filmes, etc.). Os textos literários são os que, independentemente de serem ficcionais, ou exclusivamente verbais, apresentam forte teor conotativo, o que signi- fica dizer que pedem uma interpretação por parte do interlocutor/leitor. No caso dos textos não-literários, são aqueles em que o caráter denota- tivo prevalece. Assim, suas afirmativas se baseiam em signos usados em seu significado mais comum para os membros da comunidade sociolin- guística; dentre eles, claro, o interlocutor/leitor. Em relação à coerência textual, pode-se dizer que ela depende da re- lação harmônica entre as partes do texto e, também, da relação que o texto consegue manter com o interlocutor/leitor em uma dada situação comunicativa. 3.1. Fatores de Textualidade Como você viu, a coerência de um texto depende de mais de um fator. Agora, você verá mais alguns deles: • Intencionalidade: dentro do texto, o produtor usa uma série de recursos para atingir sua intenção comunicativa. A isso se denomi- na “intencionalidade” de um texto. • Informatividade: é o caráter previsível ou imprevisível das infor- mações que o texto apresenta. Um texto com alto grau informativo Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 55 trará mais informações imprevistas, isto é, novas, ainda não anun- ciadas na sequência textual. Já um texto com baixa informatividade apresenta poucas informações, já anunciadas ou não na sequência do texto. • Aceitabilidade: para que um dado texto funcione, é preciso que o leitor/interlocutor esteja disposto a participar da situação comuni- cativa, entendendo os propósitos de seu produtor. • Situcionalidade: é o que torna o texto relevante para uma dada situação de comunicação. Assim, um texto pode estar bem escrito, bem articulado internamente, mas não estar adequado ao contex- to. Por outro lado, pode estar aparentemente desarticulado, mas dentro do contexto em que aparece, fazer sentido. A coerência de um texto dependerá, entre outros aspectos: da harmonia entre suas partes; do ponto de vista do leitor/interlocutor, em uma dada situação comunicativa; de sua inserção dentro de um contexto; da inten- cionalidade do autor; de seu teor informativo e da participação colabora- tiva do interlocutor/leitor. 3.2. Leitura e Interpretação de Texto Para ler e entender um texto, é preciso atingir dois níveis de leitura: Informativa e de reconhecimento, e Interpretativa. A primeira leitura de um texto deve ser feita sempre cuidadosamente por ser o primeiro contato, extraindo-se informações e se preparando para a leitura interpretativa. Durante a interpretação grife palavras-chave, passagens importantes; tente ligar uma palavra à ideia-central de cada parágrafo. A última fase de interpretação concentra-se nas perguntas e opções de respostas. Marque palavras como NÃO, EXCETO, RESPECTIVAMENTE, pois fazem diferença na denominação e interpretação do texto. Estas palavras, 56 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula geralmente, mudam o texto ou o direcionam. Retorne ao texto, mesmo que pareça ser perda de tempo. Leia novamente para ter ideia do sentido global proposto pelo autor. Desta forma, uma boa leitura deve seguir os seguintes passos: • Ler todo o texto, procurando ter uma visão geral do assunto. • Se encontrar palavras desconhecidas, não interrompa a leitura, vá até o fim. • Ler, ler bem, ler profundamente. Ler o texto pelo menos umas três vezes. • Ler com perspicácia, sutileza, malícia nas entrelinhas. • Voltar ao texto tantas quantas vezes precisar. • Não permitir que prevaleçam suas ideias sobre as do autor. • Partir o texto em pedaços (parágrafos, partes) para melhor compreensão. • Centralizar cada questão ao pedaço (parágrafo, parte) do textocorrespondente. • Verificar, com atenção e cuidado, o enunciado de cada questão. • Quando duas alternativas lhe parecem corretas, procurar a mais exata ou a mais completa. • Quando o autor apenas sugerir uma ideia, procurar um fundamen- to ou lógica. • Às vezes, a etimologia ou a semelhança das palavras denuncia a resposta. • Procure estabelecer quais foram as opiniões expostas pelo autor, definindo o tema e a Mensagem. • O autor defende ideias e você deve percebê-las. Existem vários recursos para nos comunicar ou fazer entender. O corpo, como um todo, fala: gestos, roupas, expressões são alguns dos artifícios que usamos para nos fazer entender. Imagens, músicas também são alguns destes artifícios de comunicação. Mas o Discurso ainda é considerado mais abrangente e efetivo para se estabelecer um processo de Comunicação. Existem, também, alguns elementos imprescindíveis neste processo: Emissor, Receptor, Mensagem, Canal, Contexto e Código. E a Semiótica trabalha com conceitos de Signos Verbais e Não-verbais, a fim de estabelecer o processo comunicativo. QUESTÃO PARA REFLEXÃO Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 57 4. Considerações Finais • Pode-se utilizar vários recursos para se comunicar ou fazer enten- der. Gestos, imagens, músicas são alguns destes artifícios de comunicação. • O discurso é considerado umas das formas mais abrangentes e efe- tivas para se estabelecer um processo de comunicação com outro ser humano. • Para estabelecer um processo comunicativo, há alguns elementos imprescindíveis: Emissor, Receptor, Mensagem, Canal, Contexto e Código. • Na Semiótica, mais comumente ligada aos estudos PEIRCE , tudo o que observamos ou nos cerca são signos, distintos entre Verbais e Não-verbais. • A Linguagem, como você já estudou anteriormente, é qualquer sis- tema de signos socializado. • A Língua, por sua vez, é um lugar de interação entre sujeitos (pesso- as). Uma interação que se dá pela intermediação dos Signos Verbais, combinados de acordo com as regras do idioma. • É preciso dominar o Código da Língua (regras e usos padrão), mas também o sentido do que se diz ou escreve, a fim de seremos com- preendidos por nossos interlocutores. Glossário • Linguagem – Pode se referir tanto à capacidade humana para a aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação quanto para um sistema de comunicação complexo. Também pode ser descrita como a capacidade humana de se comunicar por meio de palavras ou gestos. 58 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula • Língua – Instrumento de comunicação, composto por regras gramaticais que possibilitam que determinado grupo consiga re- produzir enunciados que lhes permitam comunicar-se e se fazer compreender. Possui caráter social e regras gerais, que a tornam compreensível. • Signo - Signo é tudo o que em certa medida, representa algo para alguém. Signo é um elemento representativo que apresenta dois aspectos: o significado e o significante. Ao escutar a palavra ca- chorro, reconhecemos a sequência de sons que formam essa pala- vra. São signos: os símbolos, os ícones, os índices. • Signo Verbal - é a fala ou escrita, a língua. O signo verbal é com- posto por palavras (com uso da língua, alfabeto) Ex.: português, inglês. • Signo Não-verbal - são os que empregam outros códigos que não o linguístico para emitir uma mensagem com significado. Qualquer outra manifestação que não seja a língua. Ex.: a dança, a pintura, a escultura, a arquitetura, o cinema, o teatro, o desenho, a foto- grafia, a cor, a expressão facial, os sinais sonoros, os movimentos corporais, etc. • Comunicação - Ação de transmitir uma mensagem e, eventualmen- te, receber outra mensagem como resposta. A palavra Comunicação tem origem latina e significa “ação de participar”. Comunicar é um processo que envolve a troca de informações entre dois ou mais interlocutores. Trata-se de um processo social, que permite criar e interpretar mensagens que provocam uma resposta. VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 03 1. Para transmitir uma mensagem, os seres humanos utilizam inúmeras associações de signos. Tais associações foram pensadas, construídas e executadas para estabelecer um processo comunicativo como você Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 59 conhece. Você já viu que há alguns elementos imprescindíveis para que realmente aconteça a comunicação. Quais são eles? a) Emissor, receptor, mensagem, forma, contexto e código. b) Emissor, receptor, texto, canal, contexto e código. c) Emissor, receptor, mensagem, canal, contexto e código. d) Mensagem, canal, contexto, código, emissor e falante. e) Mensagem, canal, contexto, código, remetente e receptor. 2. Para facilitar o nosso entendimento de tudo o que nos cerca, linguistas e, em especial, os estudiosos ligados à Semiótica denominaram de signos tudo o que conhece- mos. Existem, basicamente, dois tipos de signos. a) Verbais e Averbais. b) Verbais e Fonéticos. c) Verbais e Auditivos. d) Verbais e Não-verbais. e) Verbais e sinestésicos. 3. Um tipo de combinação coerente de signos, com base Semiótica, que lhes amplie o conceito, desassociando-os exclusivamente da palavra, pode ser considerado um tex- to. Qualquer conjunto articulado de signos que faça sentido para um dado leitor, portanto, pode ser considerado texto. A partir desse conceito, pode-se classificar os textos como predominantemente: a) Verbais, Visuais e Sincréticos. b) Sincréticos, Verbais e Sonoros. c) Verbais, Auditivos e Sincréticos. d) Visuais, Interpretativos e Narrativos. e) Verbais, Visuais e Sinestésicos. 60 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Referências Bibliográficas FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 2003. FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade. 6 ed. São Paulo: Cortes, 2005. JAKOBSON, Roman. Linguistics and Poetics, in: SEBEOK T. Style in Language. Cambridge, MA: MIT Press, 1960. , Roman. The Metaphoric and Metonymic Poles, in: LODGE David. Modern Criticism and Theory. Nova Iorque: Longman, 1988. , Roman. Critical Theory Since Plato. Hazard Adams e Leroy Searle. Boston: Thomson Wadsworth, 2005. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez/ UNESCO, 2000. , Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Trad. do francês Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006. PEIRCE, Charles. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1999. Gabarito – Tema 03 Questão 1 – Resposta: C Todo o processo comunicativo, tal qual o conhecemos, perpassa por todos estes cinco elementos/passos: emissor, receptor, mensagem, canal, contexto e código. Estes elementos/passos foram definidos pela Semiótica Peirciana e são a base dos estudos desta área em vá- rios lugares do mundo, embora haja outras visões semióticas e até semioticistas que julgam este processo ultrapassado. Questão 2 – Resposta: D Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 61 A Semiótica e a Linguística reconhecem como signos os Verbais e os Não-verbais. Os signos Verbais são todos aqueles que compõem uma Língua. E os signos Não-verbais são aqueles visuais ou sonoros: cores, sons de apitos, ambulâncias, sinais universais de áreas como medicina, filosofia, etc. Questão 3 – Resposta: A A partir do conceito de texto, que tem a Semiótica como seu alicerce, pode ser classificado como predominantemente: • Verbais: feitos exclusivamente com palavras (ex: páginas de muitos livros). • Visuais: feitos com combinações de signos não-verbais (ex: planta baixa, fotografia, tela de pintura, etc.). • Sincréticos: feitos com signos verbais e não-verbais (ex: cena de telenovela, reportagens de jornais e revistas, etc.). 62 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 04 LINGUAGEM, EPISTEMOLOGIA E DIDÁTICA Objetivos • Desvendar os mistérios da Leitura, tendo a Linguagem, a Epistemologia e a Didática como alicerce. • Mostrar comoa interação humana com o mundo se constrói, o tempo todo, de acordo com a Semiótica por intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. • Apresentar as variadas formas de se entender o pro- cesso de alfabetização e a sua importância para as transformações sociais. • Salientar a importância de se apresentar às crianças como o processo de Leitura e de interpretação podem dar mais significado e ampliar suas próprias vidas. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 63 Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes para que você entenda melhor os Estudos referentes à Linguagem, Epistemologia e Didática e pense como o ensino da Língua Portuguesa e da Literatura na Educação Básica podem ser pri- mordiais para a formação de um leitor crítico, que assimile de forma mais sistêmica e abrangente os conteúdos a ele apresentados. Nesta aula, os temas abordados serão: Desvendando os mistérios da Leitura (Leitura: o explícito e o implícito; Intertextualidade e leitura: o im- plícito e o explícito – Intertextualidade explícita e Intertextualidade implíci- ta –; Processos intertextuais – Paráfrase, Estilização, Paródia –; Na hora de escrever; Organização do Texto; Esboço; Formato de Texto em Pirâmide Invertida – Estrutura da Pirâmide Invertida. 1. Desvendando os mistérios da leitura Se você sabe que a Didática é a arte de transmitir conhecimentos ou a técnica de ensinar. Que é a Didática uma parte da pedagogia que trata dos preceitos científicos que orientam a atividade educativa de modo a torná-la mais eficiente. E sabe também que a Epistemologia é a reflexão geral em torno da natu- reza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente. Nas re- lações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo. Também conhecida como a teoria do conhecimento, estudo dos postulados, conclusões e mé- todos dos diferentes ramos do saber científico ou das teorias e práticas 64 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula em geral, avaliadas em sua validade cognitiva ou descritas em suas tra- jetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história. Você sabe, então, que a Epistemologia é a teoria da ciência. Pode-se afirmar que a Didática, como artifício de ensinar, como método pelo qual a experiência e a cultura são comunicadas pelo educador ao edu- cando, utiliza a Epistemologia, como um dos principais campos da filosofia, que envolve a possibilidade de conhecimento, partindo de suas origens. Você é capaz de concluir, a partir destes pressupostos, que a inteligência é caracterizada como um espectro de competências e o conhecimento é uma rede de significações como recurso pedagógico. Importante para a concepção do conhecimento como rede, de acordo com os estudos do pesquisador e professor Nilson José Machado. Como você já viu nas aulas anteriores, as Linguagens são formas de ex- pressão dos seres humanos. A Linguagem representa os valores de gru- pos de uma sociedade e podem variar no tempo, no espaço. As línguas (português, inglês, francês) são linguagens. As Línguas, entretanto, apre- sentam-se de forma exclusivamente verbal. As Linguagens são lugares de interação dos seres humanos. Há uma ex- pectativa semelhante entre quem produz, quem lê e os interlocutores deste processo. Há, neste processo, uma forma de linguagem específica: da moda, do cinema, da arte, etc. Para o processo de aprendizagem e Alfabetização, a função entre Didática, Epistemologia e Linguagem é fundamental, uma vez que são estas três áre- as do conhecimento que dão embasamento para o processo de Leitura. A Leitura é um complexo processo presente na vida de todo ser huma- no, em diversos contextos. É fundamental para o amplo desenvolvimento de nossas habilidades de comunicação e interação com o mundo, para se desenvolver ao máximo possível nossas habilidades leitoras. Para que você entenda um pouco mais este processo, vamos saber mais a respeito dos processos de leitura e Letramento. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 65 Por Letramento, entende-se como sendo o desenvolvimento e uso com- petente da leitura e da escrita nas práticas sociais. Processo extremamen- te importante, tal qual a Alfabetização, que diz respeito ao processo de aprendizagem e desenvolvimento da habilidade de ler e escrever. A dife- rença entre um e outro diz respeito à qualidade e domínio da leitura e da escrita. No processo de Alfabetização, aprende-se a codificar e decodificar o sistema de escrita. No Letramento, há a capacitação para o domínio da Língua no cotidiano. 1.1. Leitura: o explícito e o implícito Em qualquer texto, há uma série de informações, das mais diversas naturezas (opiniões, histórias contadas, apelos, desabafos, etc.). A essas informações efetivamente registradas no texto, dá-se o nome de “explícito” ou “posto”. Mas um texto não é composto só de explícitos. A maior parte dos enunciados tem, além de seu conteúdo explícito, um ou vários conteúdos implícitos. Há duas formas básicas de implícito: • os pressupostos (são ideias não expressas de maneira explícita num discurso, mas que podem ser percebidas a partir de certas palavras ou expressões que foram utilizadas); e • os subentendidos (adjetivo que significa algo que é tácito, que se entende, apesar de não estar expresso ou enunciado). 1.2. Intertextualidade e leitura: o implícito e o explícito A intertextualidade é um fenômeno da linguagem em qualquer uma de suas manifestações textuais. Conhecer um pouco sobre seus processos pode auxiliar na composição e leitura de Textos, os mais variados, em qualquer setor profissional. A leitura profunda de um texto, não só de suas informações objetivas, bem como de suas entrelinhas, é fundamental para a formação crítica do cidadão e pode auxiliá-lo na execução de qualquer atividade. 66 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula O que produzimos é único e original? Sem dúvida, cada pessoa tem seu estilo e deixa marcas em todas as suas produções. Mesmo que não se perceba, tudo o que cada ser humano manifesta é, de alguma forma, a “recombinação” de algo que já foi visto, lido, ouvido, sentido em algum outro lugar: na conversa com a família, no jornal, no rádio, na televisão, no contato com os amigos, entre muitos outros. Pode-se afirmar que é característico da Linguagem humana esse diálogo permanente com o que já existe. Se, neste momento, for solicitado a você que escreva ou diga qualquer coisa, é provável que você reflita um pouco e busque, em sua mente, uma série de informações sobre o tema pedi- do. Busque suas referências visuais, auditivas, sinestésicas e, até mesmo, tudo o que você leu a respeito do tema proposto. Nesse processo tão rápido, muitas fontes de onde você retirou tal infor- mação não serão lembradas, pois esse não é seu objetivo; no entanto, seria ingênuo afirmar que elas são completamente novas ou que “vieram do nada”. Quando, nesse processo, é possível reconhecer de forma clara ou levan- tar hipóteses sobre quais fontes estão sendo retomadas, ocorre o que denominamos intertextualidade. Dizendo de outro modo, é quando um texto, de qualquer natureza (visual, auditivo, sinestésico), retoma outro (ou mais de um), de alguma forma. PARA SABER MAIS No filme O substituto (2011), Henry Barthes (Adrien Brody) é um professor de ensino médio, que apesar de ter o dom nato para se comunicar com os jovens, só dá aulas como substitu- to para não criar vínculos com ninguém. Em uma das cenas, Henry mostra aos jovens estudantes a importância da leitura para que não vejam o mundo por um únicoprisma. A leitura, segundo o professor, amplia os horizontes. Vale à pena assis- tir ao filme por esta cena especificamente. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 67 1.2.1. Intertextualidade explícita A intertextualidade será explícita quando, no próprio texto, é feita men- ção à fonte do intertexto, isto é, quando um outro texto ou um fragmento é citado, atribuído a outro enunciador; ou seja, quando é reportado como sendo dito por outro ou por outros generalizados. Intertextualidade explícita, portanto, é um tipo de diálogo entre textos no qual é possível reconhecer o texto fonte dentro do texto derivado. Isso ocorre, pois há marcas textuais claras de seu autor, da obra, entre outras possibilidades. É o que fazemos em dissertações ou teses ao citarmos ou- tros autores, por exemplo, por meio de citações diretas e indiretas. 1.2.2. Intertextualidade implícita A intertextualidade implícita ocorre sem citação expressa da fonte, caben- do ao interlocutor recuperá-la na memória para construir o sentido do texto. Nesse caso, exige-se do interlocutor uma busca na memória para a identificação do intertexto e dos objetivos do produtor do texto ao in- seri-lo no seu discurso. Quando isso não ocorre, grande parte ou mesmo toda a construção do sentido fica prejudicada. Como você pode notar, no caso da intertextualidade implícita, a fonte não está expressamente indicada no texto derivado. Assim, para que o diálo- go possa ser percebido, é preciso que o leitor, a partir de seu repertório, consiga identificar o texto fonte. 1.3. Processos intertextuais Os intertextos, explícitos ou implícitos, podem ser construídos de várias formas. Vamos estudar três delas: • a paráfrase; • a estilização; • a paródia. 68 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 1.3.1. Paráfrase Há diversas formas de paráfrase, que é um tipo de relação intertextual entre dois ou mais textos. Ela ocorre quando o texto fonte é retomado pelo texto derivado, de tal maneira que muito do original é mantido. São exemplos de paráfrases as citações indiretas, os resumos, algumas tradu- ções, transcrições, etc. 1.3.2. Estilização A estilização é um tipo de relação intertextual em que há uma mistura entre o que é preservado do original e elementos que são acrescentados (opiniões, comentários, outras informações, etc.). O detalhe fundamental: o que for acrescentado não pode, no caso da estilização, inverter ou per- verter o sentido do texto original. 1.3.3. Paródia Na paródia, a linguagem torna-se dupla. É uma escrita transgressora que engole e transforma o texto primitivo: articula-se sobre ele, reestrutura-o, mas, ao mesmo tempo, nega-o. Exemplo: Oração do internauta Satélite nosso que estais no céu, Acelerado seja o vosso link, Venha a nós o nosso host, Seja feita vossa conexão, Assim em casa como no trabalho. O download nosso de cada dia nos daí hoje, Perdoai nosso tempo perdido no Chat, Assim como nós perdoamos os banners de nossos provedores. Não nos deixeis cair a conexão e livrai-nos do Spam, Amém! Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 69 1.4. Na hora de escrever É preciso que o professor ajude os alunos a desenvolverem seus próprios métodos de escrita. O professor deve se lembrar de que o processo de redação passa pela reflexão sobre a organização do texto, a pesquisa, o esboço e a releitura. Quem escreve bem organiza o pensamento. Escrever é representar ideias por meio de sinais. Redigir significa escrever com or- dem e método. O texto tem coerência quando suas partes estão bem articuladas. Com um bom esboço, você não perde o rumo. É preciso que o professor orien- te seus alunos quanto a esta questão importante. Texto coerente é o re- sultado do conhecimento partilhado entre quem escreve e quem o lê. A principal virtude de um texto é sua unidade, coerência. Antes de come- çar a escrever, o aluno deve definir o assunto e saber como trabalhá-lo de maneira coerente. As partes devem se juntar para formar o todo. Desta forma, é preciso ensinar, por exemplo, que o segundo parágrafo será o desdobramento do primeiro e o prenúncio do terceiro. É fundamental que a história tenha começo, meio e fim. Dar nome ao assunto sobre o qual se vai escrever é fundamental. O professor deve in- centivar os alunos a coletar e organizar dados, informações pertinentes a respeito do tema que irá escrever. A Internet é um poderoso instrumento de pesquisa, mas outros meios de pesquisa devem ser incentivados: his- tórias contadas pelos avós (histórias orais); livros (enciclopédias, se algum aluno ainda tiver acesso, ou se houver alguma na biblioteca da escola), entre outras formas que o professor julgar importantes. Feita a pesquisa, o professor deverá incentivar os alunos a organizarem as informações em pastas, no computador ou até em fichários. 1.5. Organização do texto Para que o texto tenha unidade, o professor deverá instruir os alunos a incluir em seus textos: Introdução – Apresentação do assunto, recupera o conhecimento parti- lhado e esclarece o objetivo. 70 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Desenvolvimento – Expõe as novas informações, discute, comprova, compara, contradiz ou justifica a procedência do que está ali escrito. A extensão dessa parte é determinada pela quantidade de informações necessárias para atingir o leitor. Conclusão – Sintetiza os pontos relevantes, reafirma as novas informa- ções e externa o juízo de valor do autor sobre aquilo que foi dito. 1.6. Esboço Para se fazer um bom esboço, o professor pode pedir aos alunos que listem todas as ideias e informações pertinentes à execução do trabalho. Deve mostrar aos alunos que no esboço não há que se preocupar com a ordem. O professor deverá incentivar os alunos a escreverem tudo o que lhes vier à cabeça. Em seguida, o professor, pode solicitar aos alunos que façam uma leitura crí- tica e comecem a eliminar ideias irrelevantes, detalhes dispensáveis e ques- tões que poderão ser eventualmente levantadas em novos textos, desdobra- mentos do que eles pretendem dizer neste texto que estão escrevendo. Depois de tudo isso, o professor pode sugerir aos alunos que joguem fora o que seja inútil, reúnam as ideias e informações que ficaram, dispondo- -as segundo uma gradação de importância: o que é fundamental, seguido do que é importante e complementando pelo que é acessório. O professor pode perguntar aos alunos: • Vocês têm pleno conhecimento do assunto a ser desenvolvido? • Armazenaram todas as informações pertinentes? • Preocuparam-se em registrar a origem das informações arma- zenadas? • Pensaram na organização do texto? • Escolheram a estrutura mais eficiente para a veiculação de sua mensagem? Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 71 Para a revisão, o professor pode solicitar que os alunos: • Leiam o texto em voz alta. • Façam as primeiras correções. • Peçam a alguém (outro aluno) que leia seu texto. • Façam as alterações que julgarem pertinentes. • Orientar que deixem o texto “descansar”. • E, por fim, façam uma última leitura de revisão. 1.7. Formato de texto em pirâmide invertida O formato “pirâmide invertida” é uma estratégia de produção de textos segundo a qual as ideias são ordenadas por um critério hierárquico, das informações mais importantes para as menos importantes. O formato “pirâmide invertida” é ideal para elaborar resumos executivos, e-mails, relatórios, memorandos, resultados de negociações, convites para participação em eventos, reclamações, documentos que apresen- tam versão condensada de um relatório, projeto ou parecer, etc. O texto jornalístico também segue este padrão. O essencial ao texto deve vir primeiro, dados de apoio depois e o acessó- rio no final. Não canse o leitor com pormenores irrelevantes. A informa- ção deve ser passada com competência, profissionalismo e cortesia. Este tipo de formato de texto é excelente para que o professorensine a seus alunos a terem noção do que irão escrever. Fica mais claro expor as ideias no primeiro parágrafo e ir desdobrando o que se sabe sobre o as- sunto nos parágrafos seguintes. Veja como fazer. 1.7.1. Estrutura da pirâmide invertida Este diagrama mostra de forma esquemática as três partes que compõem o formato de texto “pirâmide invertida”. 72 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Estrutura de escrita na Técnica de Pirâmide Invertida O processo de alfabetização na primeira infância é crucial para ins- trumentalizar as crianças não apenas para o conhecimento da leitura em si, mas, também, para fazer com que elas ampliem seu conheci- mento sobre o mundo. Dessa forma, entender que o processo de lei- tura e interpretação caminham juntos é imprescindível para se fazer um bom trabalho. Além disso, a instrumentalização de crianças para a interpretação do que a cerca é uma grande responsabilidade, haja vista de que pode ser a escola um dos principais locais de socialização e conhecimento amplo do mundo no qual a criança está inserida. Este trabalho vai muito além do Letramento, da cópia, do reconheci- mento das palavras e nominação das coisas. É um processo comple- xo que envolve epistemologia e didática. É um processo científico de descobertas. QUESTÃO PARA REFLEXÃO Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 73 2. Considerações Finais • Usar a didática na construção da alfabetização e leitura é funda- mental para consolidar o conhecimento. • O processo de alfabetização não se fecha em si, ele precisa ser construído com o auxílio de várias outras áreas do conhecimento humano. • Ensinar aos alunos a ler, conhecer as letras, interpretar é um exercí- cio de amor, de envolvimento emocional. A emoção ajuda o aluno a entender melhor o processo de alfabetização. • O professor pode utilizar vários instrumentos Lúdicos e pedagógicos no processo de alfabetização do ensino básico. Todos estes recur- sos são provenientes de processos epistemológicos e didáticos. Glossário • Epistemologia – substantivo feminino. Reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmen- te nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cogni- tivo; teoria do conhecimento. Estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descri- tas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência. • Didática – substantivo feminino. Arte de transmitir conhecimen- tos; técnica de ensinar. Parte da pedagogia que trata dos preceitos científicos que orientam a atividade educativa de modo a torná-la mais eficiente. • Alfabetização - substantivo feminino. Iniciação no uso do siste- ma ortográfico. Ato de propagar o ensino ou difusão das primei- ras letras. 74 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula • Leitura – substantivo feminino. Ação ou efeito de ler. Ato de apreen- der o conteúdo de um texto escrito. Ato de ler em voz alta. Hábito de ler. Maneira de compreender, de interpretar um texto, uma mensagem, um acontecimento. • Lúdico – adjetivo masculino. Relativo a jogo, a brinquedo. Origem no latim ludos, que remete para jogos e divertimento. Uma atividade lúdica é uma atividade de entretenimento, que dá prazer e diverte as pessoas envolvidas. Os conteúdos lúdicos são muito importan- tes na aprendizagem. Isto porque é muito importante incutir nas crianças a noção que aprender pode ser divertido. As iniciativas lúdicas nas escolas potenciam a criatividade e contribuem para o desenvolvimento intelectual dos alunos. • Letramento - substantivo masculino. Representação da linguagem falada por meio de sinais; escrita. Incorporação funcional das ca- pacidades a que conduz o aprender a ler e escrever. VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 04 1. O que é Epistemologia? a) Reflexão geral em torno da natureza. b) Etapas e limites do conhecimento humano. c) Teoria do conhecimento, estudo dos postulados, con- clusões e métodos. d) Teoria da ciência. e) Todas as respostas estão corretas. 2. Para o processo de aprendizagem e alfabetização, a função entre Didática, Epistemologia e Linguagem é fundamental, por que: Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 75 a) Essas três áreas do conhecimento explicam o processo de aprendizagem. b) O letramento só acontece com um tipo específico de didática. c) O processo de alfabetização é complexo demais e não consegue se resolver de forma isolada, precisa de parâ- metros específicos. d) A Leitura é um complexo processo presente na vida de todo ser humano, em diversos contextos. É fundamen- tal, para o amplo desenvolvimento de habilidades de comunicação e interação com o mundo, para se desen- volver ao máximo possível nossas habilidades leitoras. e) Nenhuma das respostas está correta. 3. Os intertextos, explícitos ou implícitos, podem ser construí- dos de várias formas. Quais são as três estudadas nesta aula? a) A paráfrase, a estilização e a paródia. b) A paráfrase, a estilística e a paródia. c) A paráfrase, a estilização e a proximidade. d) A paráfrase, a estilização e as parlendas. e) O pretexto, a estilização e a paródia. Referências Bibliográficas FERRAZ JÚNIOR, Expedito. A leitura do texto literário: uma abordagem semiótica. Signo. Santa Cruz do Sul, v. 37, n. 62, pp. 65-81, jan.-jun. 2012. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Autores Associados, Cortez, 1989. . Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.31. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005. FIORIN, José Luiz. Elementos de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto/Edusp, 1989 (Série Repensando a Linguagem). 76 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula GREIMAS, Algirdas Julien e COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Cultrix, 1989. Impresso na Editora Pensamento. MACHADO, Nilson José. Epistemologia e didática: as concepções de conhecimento e inteligência e a pratica docente. São Paulo, Cortez Editora, 2011. Gabarito – Tema 04 Questão 1 – Resposta: E A Epistemologia é a reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente. Nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo. Também conhecida como a teoria do conhecimento, estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história. A Epistemologia é, portanto, a teoria da ciência. Questão 2 – Resposta: D A Leitura é um complexo processo presente na vida de todo ser hu- mano, em diversos contextos. É fundamental, para o amplo desen- volvimento de nossas habilidades de comunicação e interação com o mundo, para se desenvolver ao máximo possível nossas habilidades leitoras. Tanto a didática, quanto a epistemologia são fundamentais para embasar o processo de alfabetização. O processo de alfabeti- zação na primeira infância é crucial para instrumentalizar as crian- ças não apenas para o conhecimento da leitura em si, mas, também, para fazer com que elas ampliem seu conhecimento sobre o mundo. Desta forma, entender que o processo de leitura e interpretação ca- minham juntos é imprescindível para se fazer um bom trabalho. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 77 Questão 3 – Resposta: A Resolução: Os intertextos, explícitos ou implícitos, podem ser cons- truídos de várias formas. As formas estudadas nesta unidade foram: a paráfrase, a estilização e a paródia. 78 Leitura e Semiótica:Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 05 GERAÇÃO DE SENTIDOS NAS AULAS DE LEITURA Objetivos • Apresentar os conceitos pelos quais a cognição é identificada e pode transformar o processo de alfabe- tização e, por conseguinte, de Leitura. • Instrumentalizar o docente acerca dos processos de alfabetização e leitura. • Implementar conceitos de transformação e prota- gonismo juvenil ao processo de alfabetização, tendo como alicerce os estudos de Paulo Freire e Jean PIAGET (construtivismo). • Reconhecer no processo de alfabetização os conceitos de construtivismo. • Alicerçar a importância da leitura e de sua geração de sentido para a criança no processo de alfabetização. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 79 Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes, tais como: teoria da complexidade, proces- so social e interacionista, assimilação e acomodação, processo epistemo- lógico, para que você entenda melhor os Estudos referentes à Linguagem e ao processo de geração de sentido nas aulas de Leitura. Embasados por estudos de Paulo Freire e Jean Piaget, dentre outros, pode-se transformar o processo de leitura em um ato de protagonismo juvenil e transforma- ção pessoal e social. 1. Psicologia do Desenvolvimento e Cognição As relações entre psicologia do desenvolvimento cognitivo e educação perpassam, basicamente, pela intencionalidade do processo de educa- ção, as mudanças psicológicas que tal processo provoca e o espaço no qual tais transformações acontecem (espaço aqui visto como temporali- dade e não como lugar). O termo Cognição, de acordo com o Dicionário Online de Português, é um substantivo feminino que define a aquisição de conhecimento; capacida- de de discernir, de assimilar esse conhecimento; percepção. Ação de co- nhecer, de perceber, de ter ou de passar a ter conhecimento sobre algo. A Cognição pode ser definida como o conjunto de habilidades mentais necessárias para a construção de conhecimento sobre o mundo. A pa- lavra de origem latina também faz parte da linguagem da psicologia e diz respeito ao grupamento de processos mentais a partir dos quais é possível perceber, pauta-se nos sentidos, pensamentos, memórias, etc., 80 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula a Cognição é uma função que, juntamente com o afeto compõe as três funções mentais básicas. Os processos cognitivos envolvem: habilidades relacionadas ao desenvolvimento do pensamento, raciocínio, linguagem, memória, abstração, entre outras coisas. Este processo inicia-se na infân- cia e está diretamente relacionado à aprendizagem. De acordo com Jean Piaget (1896 – 1980), o objetivo principal da educação nas escolas deveria ser a formação de homens e mulheres que são ca- pazes de fazer coisas novas, e não simplesmente de repetir o que outras gerações fizeram; homens e mulheres que são criativos, inventivos e des- cobridores, que podem ser críticos, verificar, e não aceitar, tudo que lhes é oferecido (RIPPLE and ROCKCASTLE, 1964). A Teoria Cognitiva foi criada entre as décadas de 1950 e 1960, nos Estados Unidos, como uma crítica ao Comportamentalismo, que afirmava que a aprendizagem era o resultado do condicionamento de indivíduos expos- tos a uma situação de estímulo e resposta. Os principais teóricos cogniti- vistas são Piaget, Wallon e Vigotsky. PARA SABER MAIS Grandes estudiosos, como PIAGET e VYGOTSKY já atribuíam importância à afetividade no processo evolutivo, mas foi o educador francês Henri WALLON (1879-1962) que se apro- fundou na questão. Veja no texto “O conceito de afetividade de Henri Wallon”, de Fernanda Salla. Piaget acreditava que o desenvolvimento cognitivo ocorre em fases de de- senvolvimento da criança. O desenvolvimento cognitivo, segundo o autor, ocorre em estágios sequenciais e qualitativamente diferentes, por meio dos quais é construída a estrutura cognitiva seguinte. Tal como uma esca- da, cada patamar é mais complexo e abrangente do que o anterior. A Teoria de Piaget considera a inteligência como resultado de uma Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 81 adaptação biológica, na qual o organismo procura o equilíbrio entre as- similação e acomodação para organizar o pensamento. Assim, o que de- termina o que o indivíduo é capaz de fazer, em cada fase do seu desen- volvimento, é resultado do equilíbrio correspondente a cada nível mental atingido por ele (RIPPLE and ROCKCASTLE, 1964). PARA SABER MAIS Grande parte dos conhecimentos que temos sobre o desen- volvimento infantil está relacionada à Teoria Cognitiva, ela- borada pelo psicólogo e filósofo suíço, Jean PIAGET. PIAGET escreveu mais de cinquenta livros e centenas de artigos so- bre Epistemologia, Psicologia e Educação. Foi professor de Psicologia na Universidade de Genebra, onde elaborou seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo. Henri WALLON (1879-1962), por sua vez, compreende o desenvolvimen- to cognitivo como um processo social e interacionista. Neste processo, a linguagem e o entorno social assumem um papel fundamental. WALLON também acreditava no desenvolvimento em etapas. Sua Teoria, no entan- to, procura o entendimento do indivíduo em sua integralidade: biológica, afetiva, social e intelectual. A existência do indivíduo se dá entre as exi- gências do organismo (biológica) e da sociedade (interação social, desen- volvimento intelectual). Desta forma, seu desenvolvimento se dá por meio de uma construção progressiva em que predominam aspectos afetivos e cognitivos. Sendo tal construção baseada nas relações entre um ser e um meio que se modificam reciprocamente. Lev VYGOTSKY (1896-1934), por sua vez, acreditava no desenvolvimento do indivíduo e na aquisição de conhecimentos como resultado da inte- ração do sujeito com o meio. Foi um pensador importante em sua área e época, pioneiro no conceito de que o desenvolvimento intelectual das 82 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. Tal interação, segundo o pesquisador, acontece por meio de um processo sócio-histórico construído coletivamente e mediado pela cultura. A apren- dizagem, neste contexto, promove o despertar de processos internos de desenvolvimento, fundamentalmente pelas interações com o meio exter- no ao longo da vida. Tais trocas e interações fariam com que o cérebro criasse novos conhecimentos, uma vez que o contato com outras experi- ências ativa potencialidades do indivíduo em elaborar seus conhecimen- tos sobre os objetos, em um processo mediado pelo outro. 2. Processo de alfabetização Para efetuar o processo de Alfabetização na educação básica, é preciso levar em conta alguns pontos, tais como: • as manifestações infantis ao longo do desenvolvimento “natural” (habilidades e competências intelectuais dos alunos); • Também é preciso avaliar os contextos didáticos, no que tange ao desenvolvimento “artificial” (objetivos propostos pelo processo de alfabetização); • Pesquisas que lancem seus esforços de análise sobre os contextos ou processos de aquisição de saberes disciplinares (como você viu na proposta de Edgar MORIN, na sua Teoria da Complexidade); • A não-linearidade entre ensino e aprendizagem; • Avaliações ou análises mais pertinentes sobre uma melhor forma ou pedagogia do ensino. Todos estes pontos tocam em um só ponto, que diz respeito ao “Saber ensinar” atrelado aos “conhecimentos prévios de quem ensina”, como geradores de um aprendizado mais eficaz, mais amplo. Processo este que não fique preso apenas ao processo de alfabetização, mas se amplie para o conceito de letramento, que é o processo que desenvolve o uso competente da Leitura e daescrita nas práticas sociais. Neste contexto, o Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 83 PARA SABER MAIS Edgar Morin, antropólogo, sociólogo e filósofo francês, pro- põe sete saberes necessários à educação do futuro. Este con- junto de reflexões cujo objetivo é servir como ponto de par- tida para se repensar a educação do século XXI, originou-se do texto sobre “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, uma iniciativa da UNESCO, em 1999. Os sete saberes indispensáveis enunciados por Morin são: As cegueiras do co- nhecimento: o erro e a ilusão; Os princípios do conhecimento pertinente; Ensinar a condição humana; Ensinar a identidade terrena; Enfrentar as incertezas; Ensinar a compreensão e A ética do gênero humano. professor e todo o seu conhecimento são fundamentais, uma vez que é o professor um instrumentalizador, como dito por FREIRE, para as mu- danças sociais a partir do protagonismo de quem aprende. Na Alfabetização, o indivíduo adquire o aprendizado da leitura e da es- crita; codifica e decodifica a escrita e os números; fica apto a desenvolver os mais diversos métodos de aprendizagem da Língua. No Letramento, o indivíduo desenvolve de forma competente a leitura e a escrita nas prá- ticas sociais; organiza discursos, interpretação e compreensão de textos; reflete. O Letramento habilita o indivíduo a utilizar a Leitura e a escrita nos mais diversos contextos. 84 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Uma das frases mais famosas atribuídas a FREIRE diz que “a educação não transforma o mundo, mas sim as pessoas e estas transformam o mun- do”. E com esta premissa, Paulo Reglus Neves FREIRE (1921-1997), edu- cador, pedagogo e filósofo brasileiro, é reconhecido e considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial. FREIRE influenciou o movimento da Pedagogia Crítica. Em seu livro Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, o estudioso FREIRE afirma que “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende, ensina ao aprender” (FREIRE, 1996, pág. 25). Neste mesmo livro, FREIRE reafirma que ser professor é estar o tempo todo aberto a novos saberes. “É assim que venho tentando ser professor, assu- mindo minhas convicções, disponível ao saber, sensível à boniteza da prá- tica educativa, instigado por seus desafios que não lhe permitem burocra- tizar-se, assumindo minhas limitações, acompanhadas sempre do esforço por superá-las, limitações que não procuro esconder em nome mesmo do respeito que me tenho e aos educandos” (FREIRE, 1996, pág. 71-72). 2.1. Aprendizagem como Protagonismo Para que todo este processo de geração de sentidos nas aulas de Alfabetização e Letramento efetivamente aconteça é preciso levar em conta “o sujeito da aprendizagem” (biológica e neurofisiologicamente fa- lando), o “meio” (onde se dá o processo de aprendizagem, aqui visto como tempo e espaço) e “o objeto de conhecimento”. O que se deseja enfatizar nesta geração de sentido diz respeito a um alu- no mais perspicaz. Mais atento ao universo ao seu redor. Um cidadão crítico. Um leitor que consiga interpretar os textos que se propõe a ler. Diz respeito ao que FREIRE sempre enfatiza, ao Protagonismo, à instru- mentalização do indivíduo por meio da Alfabetização e do Letramento da Norma Culta da Língua. Como você já estudou nas aulas anteriores e nesta também, os seres hu- manos passam por etapas de desenvolvimento. Isso ocorre em função Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 85 das mudanças psicológicas que acontecem ao longo da vida dos indiví- duos. São consideradas mudanças que constituem o desenvolvimento: as transformações físicas e psicológicas do indivíduo, bem como as varia- ções que levaram a tais transformações. Muitos pesquisadores e estudiosos trataram do processo de desenvolvi- mento Cognitivos. Entre os mais famosos, pode-se citar JEAN PIAGET, que por meio de seu processo epistemológico propôs quatro períodos gerais de desenvolvimento cognitivo: sensório-motor, pré-operacional, opera- cional-concreto e operacional-formal. O desenvolvimento Cognitivo faz parte dos estudos de duas grandes ci- ências: a neurociência e a psicologia. As duas áreas, neste contexto es- pecial, focadas no desenvolvimento da criança. Em especial por ocasião do processamento de informações que as crianças conseguem absorver e nos recursos conceituais, habilidades perceptivas e no aprendizado de línguas, por exemplo. Desta forma, pode-se dizer que o desenvolvimento Cognitivo é o processo de transformação do indivíduo sob a ótica de sua capacidade de pensar e compreender, tendo como pressuposto o ponto de vista da criança e do meio na qual ela se desenvolve. PIAGET identificou e descreveu muitas mudanças cognitivas. Muitas delas necessitam de explicações, como a permanência do objeto na infância e para a compreensão das relações lógicas, além do raciocínio de causa e efeito nas crianças em idade escolar. Há, portanto, várias teorias alternativas em franco desenvolvimento neste campo de estudos. A Teoria de Processamento da Informação, por exemplo. Ou Teorias “Neo-piagetianas” de Desenvolvimento Cognitivo, que têm como premissa integrar várias ideias de PIAGET aos novos con- ceitos da ciência e do desenvolvimento Cognitivo levantados pela neuro- ciência e por abordagens construtivistas, que levam em conta o desen- volvimento social. 86 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Neste campo, também se observam controvérsias. Existe no pensamento de desenvolvimento cognitivo uma estreita relação que considera a “natu- reza” e a “criação”. Nos estudos mais tradicionais a respeito do desenvol- vimento cognitivo, acredita-se que exista a determinação de qualidades inerentes ao indivíduo (sua “natureza”) e, por outro lado, as experiências sociais (“criação”) do indivíduo como alicerces e ‘divisores de água’. Tal dualidade soa falsa para alguns especialistas, uma vez que não exis- tem provas irrefutáveis de que a biologia e o comportamento sejam, nos primeiros anos de vida dos seres humanos, determinados geneticamente e pela interação social (ambiente e acontecimentos externos aos indivídu- os que o capacitariam, a partir de uma predisposição genética). Em seu livro ‘Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática edu- cativa’, FREIRE já afirmava: “gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que pos- so ir além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado” (FREIRE, 1997, pág. 52-53). 3. Psicogênese da linguagem escrita A Teoria da Psicogênese da Língua Escrita alicerça-se na suposição de que é necessária uma série de processos de reflexão acerca da Linguagem, a fim de se passar à forma escrita. A escrita, por sua vez, ao ser constituída permite novos processos de reflexão que dificilmente teriam podido exis- tir sem ela. A criança acredita, inicialmente, que escrever é o mesmo que rabiscar. A criança, por este pressuposto, constrói diferentes hipóteses sobre o sis- tema de escrita, antes mesmo de chegar a compreender o sistema alfa- bético. Este processo é a representação do que a criança acredita ser o universo “letrado”. Na infância, o contato visual e cultural com letras antes mesmo do processo Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 87 de alfabetização é comum. Mas, somente com a assimilação das funções das letras e do código linguístico que a criança descobre que desenhar é diferente de escrever. Criada em um ambiente estimulador, no qual tenha fácil acesso a lápis e papel, a criança pode registrar tentativas claras de escrever. Esta é uma tendência natural de imitar os adultos e observar o comportamento lei- tor. Convivendo com estes exemplos, a criança passa a imitá-los e o faz sem perceber. Com o tempo, irá assimilar que a letra imita um som. Aos poucos a criança estimulada vai começara descobrir que desenhar e es- crever são coisas distintas e começa a imitar letras e passa a fazer gara- tujas (desenho rudimentar, malfeito, normalmente sem forma e ilegível). PARA SABER MAIS “Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melho- rarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas resi- de a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condo- mínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal, mas esforçada para se transcender no alcance da feli- cidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.” Texto “Os professores”, de Valter Hugo Mãe. 88 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 3.1. O Processo da Assimilação da Escrita O desenvolvimento da escrita, e todo o seu percurso, ocorre em cinco ní- veis, de acordo com o livro “Psicogênese da Língua Escrita, de FERREIRO e TEBEROSKY (1985), baseado na Teoria de Piaget, estudado por Cláudia Martins Moreira, em seu artigo “Os estágios da aprendizagem da escritu- ra pela criança: uma nova leitura para um antigo tema”. MOREIRA cita os cinco níveis e faz algumas inferências em seu artigo a respeito deles. Veja quais são: 1. Pré-silábico – Neste início, a criança acredita que desenhar é o mes- mo que escrever. As crianças, neste momento, não fazem distinção entre o objeto e escrita, uma vez que para elas coisas maiores são escritas com palavras maiores e coisa menores são escritas com pa- lavras menores. Assim, ao pedir para a criança escrever as palavras URSO e FORMIGA, a tendência será escrever urso com letras maiores e extensas, enquanto a palavra formiga provavelmente será escrita de forma menor e menos extensa. Há, desta forma, uma interpretação individual e própria da idade a respeito da escrita. Neste primeiro ní- vel, a escrita é interpretação subjetiva. 2. Silábica sem valor sonoro - Neste nível, a criança já supõe que a escri- ta representa a fala. Assim, tenta fonetizar a escrita e dar valor sonoro às letras. Já supõe que a menor unidade da Língua seja a sílaba. Em frases, pode escrever uma letra para cada palavra. Há, por parte das crianças, um reconhecimento das letras, mas não existe ainda uma associação com o som que estas letras representam. Neste momento, a criança irá usar as mesmas letras para tentar escrever as palavras com sonoridade similar. 3. Silábica com valor sonoro - Este nível é caracterizado pela tentativa de dar um valor sonoro a cada uma das letras que compõem a escrita. As crianças já usam uma letra para cada sílaba oral, mais ainda não percebem os sons que formam a sílaba (fonemas). Para escrever, usa uma letra que tenha correspondência com cada sílaba da palavra, ge- ralmente a vogal. Para exemplificar, você pode utilizar a palavra CASA. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 89 Geralmente, a criança que se encontra neste estágio do desenvolvi- mento da alfabetização irá escrever AA, uma vez que existe a associa- ção com a quantidade de som dos fonemas. 4. Alfabética - É o momento real da evolução da linguagem escrita da criança. Nesta etapa, a criança abandona a hipótese silábica (garantir só letras) e começa a exigir uma quantidade mínima de letras para es- crever uma palavra. Aproxima-se mais da realidade silábica da escrita. Há, nesta fase, um abandono da ideia do nível anterior e a criança passa a observar que a palavra CASA não é composta apenas por AA. Neste momento, ocorrem alternâncias grafônicas (conhece todas as letras, mas não as coloca juntas, ex.: sopa – SPA). Pode ocorrer, tam- bém, de a criança colocar as letras de forma justapostas. Todas as letras estão ali, mas em desordem, ex.: sopa – OASP. Nesta etapa, há um maior conhecimento das letras e mais consciência fonológica. Mas ainda existem momentos de dificuldades. A criança pode escrever sí- labas completas num determinado momento e, em outro, usa apenas uma letra para representá-la. 5. Alfabética - Neste nível, a criança já ultrapassou a “barreira do código”. Tem a compreensão dos valores sonoros e que cada caracter da escrita corresponde a uma sílaba. É a descoberta de que cada letra tem um som da fala e que é preciso juntá-las de um jeito que formem sílabas de palavras da Língua. Inicialmente, a criança escreve com fortes marcas da oralidade, como, por exemplo, “KAZA” e “PETEKA”, - casa – KAZA – pe- teca – PETEKA. O que irá evoluir com o tempo a maior assimilação da norma culta da Língua. Neste momento, a criança realiza sistematica- mente uma análise sonora dos fonemas das palavras que irá escrever. 3.2. Intervenções para a Evolução da Escrita Para ampliar o processo de aprendizagem da Língua e reforçar a Alfabetização e a instrumentalização da criança, o professor poderá orga- nizar duplas ou pequenos grupos. Desta forma, as próprias crianças pro- porcionam, por meio de ideias e questões, aprendizagens umas às outras. 90 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Neste processo, o educador precisa ter noção do que seus alunos já sa- bem. Agrupá-los por níveis proximais, neste momento, ajuda muito na evolução do grupo como um todo. Os grupos podem ser compostos por: educandos pré-silábicos com educandos silábicos, silábicos com silábico- -alfabéticos e silábico-alfabéticos com alfabéticos. A parceria torna-se produtiva, quando se reúnem educandos com hipó- teses diferentes, porém próximas. Desta forma, o professor consegue ga- rantir que haverá troca de conhecimento entre eles. Organizar duplas ou pequenos grupos, em que umas crianças possibilitem aprendizagens às outras é excelente para o desenvolvimento individual e, também, para o coletivo. O grupo cresce, demonstra mais interesse em aprender e assimi- la o conteúdo com mais desenvoltura. “Como se escreve macaco? Já sei! Começa com ‘ma’, de Maria”. “Descobri onde está escrito gato, porque começa com Gabriel”. São algumas das frases que o professor deverá ouvir dos grupos. É uma ótima fonte de comparação e questionamento; fichas com nomes embaralhados: cada criança deve sortear uma ficha e entregá-la ao respectivo dono. Agrupar os crachás pela letra inicial. Pedir, a cada dia, a um educando para fazer a distribuição do crachá. Fazer um calendário com os nomes de todos os meses do ano na sala. Pedir para a turma fixar o seu crachá no mês de seu aniversário. Agrupar os nomes que terminam com as mesmas letras. Todas estas atividades ajudam na assimilação e na fixação do conteúdo de forma lúdica e tranquila. Não há, nestes exemplos de atividades uma imposição à escrita, ao aprendizado. Ele acontece de forma quase que natural e espontânea. A Leitura deve ser entendida como um processo, no qual o leitor realiza um trabalho de construção de significado do texto. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 91 4. Considerações Finais • Você pode aprofundar nas inter-relações entre psicologia, neurociên- cia e educação para avaliar questões pertinentes ao desenvolvimento Cognitivo e à Alfabetização. • Você também estudou e aprendeu que os processos Cognitivos envolvem: habilidades relacionadas ao desenvolvimento do pen- samento, raciocínio, linguagem, memória, abstração, entre outras coisas. Este processo inicia-se na infância e está diretamente rela- cionado à aprendizagem. • Para efetuar o processo de Alfabetização na Educação Básica, é preciso levar em conta alguns pontos: as manifestações infantis ao longo do desenvolvimento, contextos didáticos (objetivos propostos pelo processo • de alfabetização), saberes disciplinares, a não-linearidade entre ensino e aprendizagem e avaliações/análises mais pertinentes sobre uma melhor forma ou pedagogia do ensino. O processo de transformação Cognitiva pode ajudar no processo de leitura que o indivíduo faz do ambiente no qual está inserido? Pode ajudar noprotagonismo a partir da instrumentalização que o pro- cesso de alfabetização realiza? Estas questões podem fazer com que você veja o processo de alfabetização por novo ângulo. Não é só um processo de reconhecimento de códigos de uma língua. É muito mais! Alfabetizar, conhecer a norma culta de uma língua, transforma o indiví- duo e o potencializa para fazer uma leitura do mundo muito mais ampla e transformadora. Por isso, este momento de alfabetização é tão impor- tante na primeira infância. O indivíduo alfabetizado contribui de forma mais assertiva para com a economia, a sociedade, a vida em grupo e, assim, promove o desenvolvimento em seu entorno. Pense nisso! QUESTÃO PARA REFLEXÃO 92 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Glossário • Leitura - substantivo feminino. Ação ou efeito de ler. Ato de apreen- der o conteúdo de um texto escrito. • Cognição - substantivo feminino. Processo ou faculdade de adquirir um conhecimento. Percepção, conhecimento. O termo Cognição pode ser definido como o conjunto de habilidades mentais neces- sárias para a construção de conhecimento sobre o mundo. • Alfabetização - substantivo feminino. Iniciação no uso do sistema or- tográfico. Ato de propagar o ensino ou difusão das primeiras letras. • Letramento - substantivo masculino. Representação da linguagem falada por meio de sinais; escrita. Incorporação funcional das ca- pacidades a que conduz o aprender a ler e escrever. • Protagonismo - substantivo masculino. É o processo de protagoni- zar, de ser o protagonista, o figurante principal de uma apresen- tação. Qualidade da pessoa que se destaca em qualquer situação. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 93 VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 05 1. As relações entre psicologia do desenvolvimento cogniti- vo e educação perpassam, basicamente, pela intencionali- dade do processo de educação, as mudanças psicológicas que tal processo provoca e o espaço no qual tais transfor- mações acontecem (espaço aqui visto como temporalida- de e não como lugar). Quem são os principais estudiosos deste processo? a) Piaget, Wallon, Vygotsky. b) Piaget, Walter, Vygotsky. c) Piaget, Wallon, Vyctogotsky. d) Piaget, Wellington, Vygotsky. e) Vygotsky, Freire, Wallon. 2. Para ampliar o processo de aprendizagem da Língua e re- forçar a Alfabetização e a Instrumentalização da criança, o professor poderá organizar os alunos de determinada forma que facilite o aprendizado. Escolha a alternativa correta. a) Por faixa etária. b) Em fileiras dentro da sala de aula. c) Em duplas ou pequenos grupos. d) Em dois grupos que disputam quem aprende melhor. e) Em processos de ditados e cópias. 3. Para realizar o processo de Alfabetização na Educação Básica, é preciso levar em conta alguns pontos. Avalie as alternativas abaixo e marque aquela que fundamenta cor- retamente esse processo. 94 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Referências Bibliográficas CARMO, Enedina Silva e BOER, Noemi. Aprendizagem e Desenvolvimento na perspectiva interacionista de Piaget, Vygotsky e Wallon. XVI Jornada Nacional de Educação. Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Santa Maria, RS: 2012. Disponível em: <http://jne.unifra.br/artigos/4742.pdf>. Acesso em: 09 jul. 2018. FERREIRO, Emília e TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: ArtMed, 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. LAKOMY, Ana Maria. Teorias Cognitivas da Aprendizagem. Editora IBPEX. Curitiba, 2008. MELLO, COM. Emília Ferreiro (1935-) e a psicogênese da língua escrita. In: MORTATTI, MRL, et al., orgs. Sujeitos da história do ensino de leitura e escrita no Brasil [onli- ne]. São Paulo: Editora UNESP, 2015, pp. 245-275. ISBN 978-85-68334-36-2. Available from SciELO Books. a) As manifestações infantis ao longo do desenvolvimen- to “natural” (habilidades e competências intelectuais dos alunos). b) Também é preciso avaliar os contextos didáticos, no que tange o desenvolvimento “artificial” (objetivos pro- postos pelo processo de alfabetização). c) Pesquisas que lancem seus esforços de análise sobre os contextos ou processos dede aquisição de sabe- res disciplinares (como você viu na proposta de Edgar Morin, na sua Teoria da Complexidade). d) A não-linearidade entre ensino e aprendizagem e ava- liações/análises mais pertinentes sobre uma melhor forma ou pedagogia do ensino. e) Todas as afirmativas estão corretas Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 95 MOREIRA, Cláudia Martins.Os estágios da aprendizagem da escritura pela criança: uma nova leitura para um antigo tema. dDsponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ld/ v9n2/07.pdf>. Acesso em: 09 jul. 2018. LOPES, Janine Ramos, ABREU, Maria Celeste Matos de; MATTOS, Maria Célia Elias. Caderno do educador: alfabetização e letramento 1/. Brasília: Minis- tério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabeti- zação e Diversidade, 2010. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/ index.php?option=com_docman&view=download&alia=5707-escola-ativa- alfabetizacao1-educador&Itemid=30192>. Acesso em: 21 jun. 2018. RIPPLE, Richard E; ROCKCASTLE, Verne N. Piaget Rediscovered: A Report of the Jean Piaget Conferences on Cognitive Studies and Curriculum Development, March 1964, at Cornell University and the University of California. Gabarito – Tema 05 Questão 1 – Resposta: A Resolução: Os principais teóricos cognitivistas são Piaget, Wallon e Vigotsky. Questão 2 – Resposta: C Resolução: Em duplas ou pequenos grupos, as crianças ou educan- dos podem trocar experiências e aprender uns com os outros. Questão 3 – Resposta: E Resolução: Todas as alternativas estão corretas, uma vez que são elas que embasam o processo de alfabetização. 96 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 06 INTERAÇÃO SOCIAL, LEITURA E SEMIÓTICA Objetivos • Mostrar como a interação humana com o mundo se constrói, o tempo todo, de acordo com a Semiótica, por intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. • Apresentar as variadas formas de se entender o pro- cesso de alfabetização e a sua importância para as transformações sociais. • Salientar a importância de se apresentar às crianças como o processo de leitura e de interpretação podem dar mais significado e ampliar suas próprias vidas. • Mostrar as formas/processos de Comunicação Humana e como elas se aproximam da Linguagem. • Compreender a dimensão Semiótica que se insere no processo de ensino-aprendizagem do ler e do escrever. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 97 Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica; e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes para que você entenda melhor os estudos referentes ao Letramento e à Semiótica e pense como o processo de alfa- betização, com ênfase em processos lúdicos de aprendizagem, pode ser primordial para a formação de um leitor crítico, que assimile de forma mais sistêmica e abrangente os conteúdos a ele apresentados. Você verá nesta aula: Letramento e Semiótica, Paradigmas da Alfabetização e do Letramento, Leitura e Semiótica: a importância da interação social, A importância das Situações de Comunicação e Cercados por narrativas e des- crições (Entendendo as narrativas, Foco Narrativo, Personagem, Enredo, Espaço, Tempo, Tipologia descritiva e tipologia narrativa, Características descritivas e quando narração e descrição aparecem associadas). 1. Letramento e semiótica A inter-relação entre Semiótica e Letramento é indiscutível. A aplicação da Semiótica para o processo de Letramento e aquisição da leitura e da es- crita já nos primeiros anos do ensino infantil é fundamental paraque tal processo aconteça de forma mais harmoniosa e, também, lúdica. A contribuição da Semiótica para o desenvolvimento das estruturas Cognitivas da criança é outro fator básico para a inserção desta impor- tante ciência no trabalho de alfabetização infantil. Com a mediação do professor e a interação social, que ocorre no ambiente escolar, é possível perceber o desenvolvimento afetivo e Cognitivo necessários para a apre- ensão de conceitos sobre o conhecimento de mundo. 98 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula A formação do leitor crítico, que desenvolve o gosto pela Leitura, é precei- to básico dos ensinamentos das linhas de pesquisa Semióticas de Algirdas Julius GREIMAS e Charles Sanders PEIRCE, como você já viu em aulas anterio- res. Lev Semyonovich VYGOTSKY também foi fundamental para a constru- ção de um ensino que leva em consideração a interação para a constru- ção das estruturas do pensamento. Psicólogo Russo, VYGOTSKY, é o funda- dor da Psicologia Cultural-histórica. Foi um pensador importante em sua área e época, pioneiro no conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. GREIMAS também é fundamental, uma vez que seus estudos contribuíram sobremaneira para a Semiótica e a Narratologia. 1.1. paradigmas da alfabetização e do letramento A necessidade de mudança de paradigma na Educação, com o intuito de garantir o letramento, faz-se urgente. Para que os alunos exerçam sua função social, tal qual Paulo FREIRE (2003) enfatiza ao tratar o processo de Alfabetização como um processo de instrumentalização para uma nova leitura do mundo, e se tornem cidadãos críticos, o Letramento (como apreensão da norma culta da língua de forma global e com compreensão do que se lê) é base fundante. Como você já viu em aulas anteriores, a Semiótica estabelece ligações entre um código e outro e assim possibilita aos seres humanos fazer uma leitura do mundo de forma verbal e não- verbal. De acordo com os estudos de Maria Lúcia SANTAELLA a respeito do princí- pio Semiótico, no qual tudo é signo, não há conhecimento sem Semiose. A Semiose é a forma adequada de se propor interpretações a respeito do mais diversos tipos de signo. Assim, pode-se afirmar que o processo de Semiose é de extrema importância para o processo ensino- aprendizagem. Na Semiose há uma construção do sentido entre o signo e o receptor da mensagem. E, como você já viu em aulas anteriores, Semiótica dá sentido Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 99 a tudo que nos cerca, ao codificar e ao decodificar o mundo. A Semiótica e seus pressupostos são, portanto, basilares para o desenvolvimento Cognitivo da criança no processo de alfabetização. Alguns teóricos da Semiótica estudaram o processo de Cognição e apren- dizado para embasarem seus estudos. Segundo VYGOTSKY, por exemplo, a noção de conhecimento envolve a convivência com o conflito, o respeito à multiplicidade e à divergência de posicionamento. Assim, caracterizar os processos humanos do comportamento e elaborar hipóteses sobre como essas características se formaram e como se desenvolvem durante a vida do indivíduo é imprescindível para o aprimoramento cognitivo. O princípio da contradição é como um dinamizador do pensamento. Tal princípio dá ênfase tanto à superação das contradições, quanto às con- siderações e apreensões destas contradições em um sistema integrado (consciência). VYGOTSKY entendia tal processo como o fluxo contínuo em que transformações e mudanças são elementos principais. A teoria de VYGOTSKY e suas implicações são importantes para entender a cognição como um processo educativo, que envolve convivência e con- flito. Dando ênfase à multiplicidade e à divergência de posicionamentos. Por tal pressuposto, caberia à educação o processo de inovação e trans- formação alicerçados na afetividade. Para GREIMAS, no entanto, a Semiótica é um percurso gerativo do sentido processo sêmio-narrativo, geral e abstrato, que se especifica e se concre- tiza na instância da enunciação, no nível discursivo. Sob outro ponto de vista, PEIRCE vislumbrou a Semiótica como uma tría- de. Para o estudioso, a compreensão dos signos acontece em três etapas: o contemplar (observar), o distinguir (ação e reação) e o generalizar (ope- racionalização mental pensamento-signo). A tríade de PEIRCE divide-se, como você já viu em aulas anteriores, desta forma: 100 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula • Primeiridade (qualidade de sentimento): formada pela consciência imediata (sentimento) e pelo presente imediato (experiência). • Secundidade (conflito): sensação do eu para com o estímulo, numa relação dialética entre dois termos envolvidos, em que a consciência é alterada em forma de síntese (produto). • Terceiridade (síntese intelectual): razão entre a primeiridade e a secundidade. O signo ou representação produzido pela consciência para conhecer e compreender algo ou algum fenômeno. Desta tríade, surgem: • o Ícone (qualidade); • o Índice (significado); e • o Símbolo (o comum). 2. Leitura e semiótica: a importância da interação social Todos estes conceitos Semióticos postulados pelos estudiosos da área po- dem ser utilizados no processo de letramento. A apreensão cultural, por exemplo, pressupõe a mediação. O tecido social, proposto pela Semiótica da Cultura, como você estudou em aulas anteriores, é um conjunto de “Textos” que formam uma adição de estímulos auxiliares para a resolução de problemas. Tais estímulos podem ser concretos ou não-concretos. E são fundamentais para o processo de letramento, para que a criança se interesse pelo processo de alfabetização a partir de onde se encontra, da sua interação social, do seu processo cultural. A interação social, tão importante para o desenvolvimento cultural e da lin- guagem escrita, vislumbrado por WALLON, é muito pertinente ao letramen- to. A afetividade é o elo que interliga professor e aluno durante o processo de alfabetização. Não se aprende sem emoção, como você já viu. Para pro- duzir conhecimento, a rede estabelecida pelos estudos semióticos ajuda os indivíduos em sua interação. De forma lúdica e afetuosa, é mais fácil apren- der e apreender. Em especial quando se trata da forma culta da Língua. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 101 Intercalar a Leitura feita pelo professor com momentos nos quais todos os alunos possam ler sozinhos é muito importante para o desenvolvimen- to coletivo, bem como para o desenvolvimento individual. Exercícios como “roda de leitura”, na qual o professor lê para a turma, são muito importan- tes para a fixação do aprendizado e estão baseados na afetividade propos- ta por WALLON. O professor deve, além de escolher bons e interessantes textos, contextualizar o aprendizado com as vivências da turma e, também, proporcionar a interação entre os alunos. Assim, por meio de conversas, diálogos, diferentes olhares, os alunos reforçam o que aprenderam. Conforme você viu nos estudos de GREIMAS, ao propor jogos verbais e mediação da leitura de pequenos textos, há a inserção de competências e performance, que geram um esquema narrativo. De tal forma que este esquema narrativo gere sentido para o educando/aluno. Assim, as crianças conseguem identificar níveis narrativos e percebem as oposições, o desen- volvimento e o tema. Percurso que proporciona o letramento com sentido. Ao pedir aos alunos que contem histórias, a partir de figuras apresentadas, aplicando a tríade da Teoria de PEIRCE, valoriza-se e estimula-se as estru- turas cognitivas e a linguagem. Tais exercícios proporcionam apreensão de conceitos e promovem o Letramento. Livros, figuras, músicas, conta- ção de histórias e ilustrações realizadas pelas próprias crianças ajudam a contextualizar tais experiências para os alunos. Estas atividades lúdicas são fundamentais para internalização dos conceitos de alfabetização.De acordo com estudos de Magda SOARES a respeito do processo de le- tramento ou alfabetização, ter-se apropriado da escrita é diferente de ter aprendido a ler e escrever. Tal fato ocorre porque a iconicidade simbólica leva à iconicidade gráfica pelo princípio da assimilação. Por outra perspec- tiva, ROJO enfatiza que o processo de letramento encontra-se em estreita relação com a construção do discurso oral. É preciso, no entanto, uma nova postura por parte do educador para a pro- moção do letramento de forma mais ampla, como proposto por FREIRE: a alfabetização como uma forma de transformação pessoal e social, como protagonismo frente ao mundo que cerca o aluno. 102 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula ASSIMILE Antônio Carlos Gomes da Costa define Protagonismo Juvenil como sendo “a participação do adolescente em atividade que extrapolam os âmbitos de seus interesses individuais e fa- miliares e que podem ter como espaço a escola, os diversos âmbitos da vida comunitária, igrejas, clubes, associações e até mesmo a sociedade em sentido mais amplo, por meio de campanhas, movimentos e outras formas de mobilização que transcendem os limites de seu entorno sócio- comunitário”. 3. A importância das situações de comunicação Para que o processo de alfabetização e o Letramento aconteçam, tanto educador quanto educandos devem ter em mente que há situações de comunicação que alicerçam a Linguagem. Deste modo, você, educador, deve refletir sobre alguns pontos que nos levam a comunicar de uma for- ma mais assertiva e mais eficaz. Portanto, é importante pensar. Existe um único modo certo de falar a Língua portuguesa? É importante destacar que a variação na fala e na es- crita, às vezes, se dá de acordo com as situações. De acordo com os mo- dernos estilos linguísticos, não há “certo” ou “errado” para nenhum uso da língua, mas sim adequado ou inadequado ao contexto. Na fala coloquial há uma regra diferente de uso da fala padrão. Mas há regras nas duas maneiras (formal e informal). Cada falante, em qualquer situação de comunicação, não expressa de um modo inventado naquele momento, mas de uma forma consagrada por ele e por muitos outros in- divíduos de sua comunidade. Estratégias de situações de Comunicação existem em qualquer interação com o outro e servem para articular a Comunicação. As estratégias de Comunicação são importantes para quem escreve ou fala e para quem lê ou ouve, pois elas articulam textos e falas. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 103 As estratégias dividem-se em: • Cognitivas: é o modo como organizamos informações que temos para transmitir uma mensagem. • Sociointernacionais: a interação entre pessoas implica também no conhecimento e obediência a certas normas socialmente esta- belecidas. Educação/Polidez, Formais (Memorandos) Tratamentos especiais (cerimoniais). • Textuais: as estratégias textuais estão ligadas ao modo de organiza- ção linguística do texto (Formulação/Referenciação). 4. Cercados por narrativas e descrições Descrever e narrar são modos de organizar textos utilizados em várias situações, tais como: • compor um cardápio; • ler os itens de uma receita; • contar nossa vida pessoal ou profissional para alguém; • ler um romance. Compreender melhor essas formas de organização textual pode auxiliar na capacidade de leitura e produção de diversos textos, em diferentes aspectos do cotidiano. 4.1. Entendendo as narrativas Muitas pessoas associam o termo “narrar” a “contar uma história”. De for- ma bastante simplificada, é possível afirmar que toda narrativa é uma história (ou “estória”; segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, as duas formas são aceitas). Alguns teóricos entendem por narrativa apenas as histórias ficcionais. Outros compreendem que todo texto, sejam ele de ficção ou não, é uma narrativa. Você vai entender como narrativas todas as histórias que apre- sentarem personagens vivendo um enredo, em um dado espaço e tempo (ou mais de um), por meio do olhar de um narrador. 104 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 4.2. Foco Narrativo É importante não confundir o “narrador” com o “autor” do texto. O narra- dor é uma voz criada por um autor, para contar uma determinada história. Por ser uma “voz construída”, pode ter uma liberdade muito maior do que a da pessoa real que escreveu o texto, permitindo-lhe deixar implícitos, fa- zer sugestões, enfim, despertar, de forma intensa, o imaginário do leitor. 4.3. Personagem Outro elemento básico de qualquer narrativa é a personagem, ser fictício que vive a história que está sendo narrada. A personagem vem a ser algo assim como personalidade e aplica-se às pessoas com um caráter defi- nido que aparecem na narração. Um dos pontos destacados pelas dife- rentes definições é seu caráter ficcional. Desse modo, mesmo quando al- guém está contando sua vida, pode-se dizer que esse “eu” é uma invenção linguística, pois contar um fato acontecido, usando palavras ou imagens para representá-lo, é, de certa forma, inventá-lo. 4.4. Enredo Há vários nomes para definir enredo; ele pode ser chamado também de ação, intriga, trama. Pode ser externo ou interno: uma viagem, o desloca- mento de uma sala para outra, o apanhar um objeto para defesa contra um agressor, classificam-se como ação externa. A ação interna passa-se na consciência ou/ e na subconsciência da personagem. Pode-se entender como enredo uma sequência de acontecimentos vivi- dos por uma ou mais personagens. Essa sequência pode ser externa ou interna, ou seja, mostra a personagem vivenciando suas experiências em espaços físicos ou mentais. Há um elemento importante no enredo, o chamado “conflito”. É o mo- mento da história em que alguma tensão é apresentada ao leitor, de tal forma que cria nele a vontade de continuar lendo o livro ou vendo o filme. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 105 4.5. Espaço Também denominado ambiente, cenário ou localização, o espaço é o con- junto de elementos da paisagem exterior (espaço físico) ou interior (espa- ço psicológico), onde se situam as ações das personagens. É ele impres- cindível, pois não funciona apenas como pano de fundo, mas influencia diretamente no desenvolvimento do enredo, unindo-se ao tempo. Pode-se entender que “espaço” situa as personagens e suas ações. Quando uma personagem age, ela o faz, obrigatoriamente, em uma ambientação, mesmo que seja apenas dentro de sua mente. Outro ponto importante é o papel interativo entre o espaço e o que está sendo narrado. Ambientar uma ação não é apenas dar-lhe um pano de fundo; o espaço pode in- fluenciar as personagens ou sofrer influência delas. 4.6. Tempo Toda narrativa, por ser uma sequência de acontecimentos, implica em passagem de tempo. Existem dois tipos de tempo, o cronológico ou histó- rico, e o psicológico ou metafísico. O primeiro corresponde à marcação de horas, minutos e segundos, no re- lógio, de acordo com o tempo físico ou natural, disposto em dias, meses, anos, estações, ciclos lunares, etc. Por sua vez, o tempo psicológico caracteriza-se por desobedecer ao calen- dário e fluir dentro das personagens, como um eterno presente, (...) sem começo, nem meio, nem fim. 4.7. Tipologia descritiva e tipologia narrativa Devido à tradição escolar, entre outros fatores, é muito comum você asso- ciar os termos “descrição” e “narração” com “textos que eram produzidos na escola”. Em geral, também, esses termos são vistos em conjunto, como se fossem partes de um mesmo todo. Inicialmente, você vai entender o que significa dizer que um texto é “narrativo” ou “descritivo”. 106 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Usa-se a expressão tipo textual para designar uma espécie de sequên- cia teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição. Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de catego- rias conhecidas, como: narração, argumentação,exposição, descrição, injunção. 4.8 Características descritivas A descrição é a apresentação verbal de um objeto, ser, coisa, paisagem, sentimento, por meio da indicação dos seus aspectos mais característicos, dos seus traços predominantes, dispostos de tal forma e em tal ordem, que do conjunto deles resulte uma impressão singularizante da coisa des- crita. Isto é, do quadro, que é a matéria da descrição. 4.9. Quando narração e descrição aparecem associadas Apesar de serem organizações textuais distintas, muitas vezes, em um mesmo texto, é possível observar momentos descritivos associados a narrativos. Com base no estudo dessa relação, Antonio DIMAS afirma que a descri- ção pode atuar como: • Desvio: depois de uma passagem muito ativa e agitada, a descrição de um ambiente oferece a promessa de um repouso. • Suspense: a inserção de uma passagem descritiva num momento crítico com o objetivo de aguçar nossa curiosidade factual. • Abertura: ao antecipar o andamento de um romance. • Alargamento: ao verticalizar a informação, complementando dados anteriores, num esforço de microscopia. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 107 Para além do processo de alfabetização ou letramento, é urgente fa- zer com que os alunos aprendam a colocar em prática suas ideias, seus conhecimentos. É preciso fazer com que tenham interesse pelo universo que os cerca e, assim, fazer com que percebam que podem ser protagonistas de suas próprias histórias e de seu processo de aprendizagem. Isso muda o olhar e a perspectiva acerca do aprender. Aprender deixa de ser um processo de copiar e entender as letras em sua conotação meramente fonológica e passa a ser um interagir, um processo de construção de sentido. Não se pode mais preparar apenas alunos que guardam informações, capazes de memorização. É preciso aguçar o gosto pela pesquisa, cria uma certa inquietação para o que está estabelecido. É preciso disse- minar o desejo de conhecer, aprimorar, refazer, criar um mundo novo. QUESTÃO PARA REFLEXÃO 5. Considerações Finais • Usar a Semiótica na construção da alfabetização e no letramento é fundamental para consolidar o conhecimento. • O processo de alfabetização não se fecha em si, ele precisa ser construído com o auxílio de várias outras áreas do conhecimento humano. • Ensinar aos alunos a ler, conhecer as letras, interpretar é um exercí- cio de amor, de envolvimento emocional. A emoção ajuda o aluno a entender melhor o processo de alfabetização. • O professor pode utilizar vários instrumentos lúdicos e pedagógicos no processo de alfabetização do ensino básico. Todos estes recur- sos são provenientes de processos epistemológicos e didáticos. 108 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Glossário • Comunicação - Substantivo feminino. É a ação de transmitir uma mensagem e, eventualmente, receber outra mensagem como res- posta. Por Comunicação, entende-se o processo que envolve a tro- ca de informações entre dois ou mais interlocutores por meio de signos e regras Semióticas mutuamente entendíveis. Trata-se de um processo social primário, que permite criar e interpretar men- sagens que provocam uma resposta. • Semiótica - Substantivo feminino. Basicamente é a teoria geral das representações, que leva em conta os signos sob todas as formas e manifestações que assumem (linguísticas ou não), enfatizando, especialmente, a propriedade de convertibilidade recíproca entre os sistemas significantes que integram. Existe, no entanto, várias vertentes da Semiótica. • Literatura - Substantivo feminino. Denomina o uso estético da lin- guagem escrita; arte literária. É o conjunto de obras literárias de re- conhecido valor estético, pertencentes a um país, época, gênero, etc. • Educação - Substantivo feminino. Ato ou processo de educar(-se). Aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o de- senvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano; peda- gogia, didática, ensino. Conhecimento e observação dos costumes da vida social; civilidade, delicadeza, polidez, cortesia. • Letramento - substantivo masculino. Incorporação funcional das ca- pacidades a que conduz o aprender a ler e escrever. Representação da linguagem falada por meio de sinais; escrita. • Cognição - Substantivo feminino. Função psicológica atuante na aquisição do conhecimento e se dá através de alguns processos, como a percepção, a atenção, a associação. Processo ou faculdade de adquirir um conhecimento. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 109 VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 06 1. A respeito da Semiose, assinale a alternativa INCORRETA: a) A Semiose é a forma adequada de se propor interpre- tações a respeito dos mais diversos tipos de signo. b) Não é importante para o processo ensino- aprendizagem. c) Na Semiose há uma construção do sentido entre o sig- no e o receptor da mensagem. d) A Semiótica e seus pressupostos são, portanto, basi- lares para o desenvolvimento cognitivo da criança no processo de alfabetização. e) Todas as alternativas estão corretas. 2. O que é protagonismo? a) Estar em primeiro lugar. b) Estudar de forma diferenciada, ser um bom aluno. c) Mudar-se por intermédio do processo de educação e mudar o meio em que se vive. d) Ter acesso a uma educação transformadora. e) Ser um aluno perspicaz, inteligente. 3. Há diversas normas ou variedades linguísticas, como: a) Norma de espaço físico e de Faixa Etária. b) Norma de Grupos Profissionais. c) Norma situacional e coloquial. d) Norma padrão. e) Todas as respostas estão corretas. 110 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Referências Bibliográficas CADERMATORI, Lígia. O que é literatura infantil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 2003. FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade, 6 ed. São Paulo: Cortes, 2005. GREIMAS, Algirdas Julien e COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Cultrix, 1989. Impresso na Editora Pensamento. JAKOBSON, Roman. “Linguistics and Poetics”, em T. Sebeok, ed., Style in: Language. Cambridge, MA: MIT Press, 1960. , Roman. “The Metaphoric and Metonymic Poles”, in: LODGE David. Criticism and Theory. Nova Iorque: Longman, 1988. , Roman. Critical Theory Since Plato. Hazard Adams e Leroy Searle, eds. Boston: Thomson Wadsworth, 2005. MEIRELLES, Elisa. Literatura, muito prazer. São Paulo: Nova Escola, 2010. ROJO, R (Org). Alfabetização e letramento: Perspectivas Linguísticas. Campinas: Mercado das Letras, 1998. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez/ UNESCO, 2000. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Trad. do francês Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006. PEIRCE, Charles. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1999. SANTAELLA, LÚCIA. A assinatura das coisas. Rio de Janeiro: Imago, 1992. SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 2005. SOARES, Magda Becker. Letramento, um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. VANOYE, Francis. Usos da linguagem - problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Martins Fontes, 1998. VYGOTSKY, L.S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes. 1998. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 111 Gabarito – Tema 06 Questão 1 – Resposta: B A Semiose é a forma adequada de se propor interpretações a res- peito dos mais diversos tipos de signos. A Semiose é um processo semiótico. E a Semiótica dá sentido a tudo que nos cerca ao codificar e ao decodificar o mundo. Sendo, portanto, imprescindível para o processo de alfabetização. Questão 2 – Resposta: C Protagonismo é a força própria dos jovens que move o mundo, ten- do a educação como alicerce. É mudar-se por intermédio do proces- so de educação e mudar o meio em que se vive e mudar a forma de as pessoas que estão ao redor (principalmente os familiares) verem este meio. Questão 3 – Resposta:E Todas as alternativas estão corretas e dizem respeito às diversas nor- mas ou variedades linguísticas. 112 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 07 SEMIÓTICA E A CONSTRUÇÃO DO LEITOR CRÍTICO Objetivos • Desvendar os mistérios da Leitura, onde a constru- ção da capacidade de leitura é o alicerce para o leitor crítico. • Mostrar como a leitura é um hábito que tem que ser construído diariamente. É lendo que se aprende a gos- tar de ler. • Apresentar as variadas formas de se entender o pro- cesso de sistematização da leitura e ampliação do conhecimento por meio do hábito de ler. • Mostrar como a Leitura pode ser ampliada com os conceitos da Semiótica por intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. • Compreender a dimensão Semiótica, que se insere no processo de ensino-aprendizagem do ler e do escre- ver. E como a Semiótica pode ser fundamental para a criação de um leitor crítico. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 113 Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas relevantes, tais como hábito de leitura, importância da leitura, elaboração do conhecimento, literatura, para que você enten- da melhor os estudos referentes à Semiótica e à construção do Leitor Crítico. Salienta, ainda, a importância de se apresentar às crianças como o processo de leitura e de interpretação podem dar mais significado e am- pliar suas próprias vidas; apresenta, também, as formas de se entender o processo de sistematização da leitura e ampliação do conhecimento por meio do hábito de ler e mostra como a Leitura pode ser ampliada com base nos conceitos da Semiótica. 1. Gostar de ler é um hábito De acordo com o poeta Mário Quintana, “um autor inglês do saudoso sé- culo XIX havia dito que o verdadeiro gentleman compra sempre três exem- plares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente”. Esse quase poema do mestre brasileiro nos mostra que o hábito de leitura é quem faz o verdadeiro leitor. Desta forma, é plausível afirmar que, para aprender a gostar de ler e ser um leitor crítico, o primeiro passo é começar a ler. Assim, desde a primei- ra infância é importante deixar que as crianças brinquem, manuseiem, vejam, observem livros. O encantamento pela leitura acontece com a prá- tica de se ter em mãos um livro e todas as possibilidades nele contidas. É preciso ter em mente que cada livro é um universo em potencial. O ensino da Literatura nas escolas brasileiras, em especial no ensino bási- co e durante o processo de Alfabetização, passou por diversas e significa- tivas mudanças nos últimos anos. A falta de assimilação e compreensão 114 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula de textos, desde que notada, em especial em pesquisas de vendas de livros e, também, por amostragem em exames nacionais de educação, tem sido motivo de vários estudos e a formação de cursos, seminários e debates sobre o tema tem sido constantes. Aprender a falar, escrever e se expressar de forma coerente e crítica na Norma Culta Língua Portuguesa tem sido um desafio tanto para profes- sores quanto para alunos. As expressões e as variantes semânticas da Língua dificultam tal processo. Além de haver várias expressões ou no- menclaturas para uma mesma coisa/palavra, o Brasil tem uma singulari- dade que é sua “continentalidade” (um país gigantesco, com uma popula- ção culturalmente muito rica e heterogênea) e suas diferenças no padrão da fala que sofre interferência dos regionalismos. Outro entrave para a leitura e escrita é o uso da internet e sua linguagem própria, recheada de diminutivos/formas informais de escrita ou mesmo Emojis (como você já estudou em aulas anteriores). O uso da informalida- de linguística e as informações em blocos (que apenas pontuam os leito- res dos acontecimentos, sem fazer nenhuma abordagem mais profunda), também são entraves para que os leitores se tornem críticos. Existe, de certa forma, uma avalanche de informações que não exigem do leitor nenhuma crítica ou juízo de valor. Ele torna-se apenas expec- tador dos acontecimentos. Sem interagir com eles ou aprofundar-se. Tudo é muito rápido, fluido, distante, fulgaz. Não há tempo hábil para se consumir tantas informações e ser crítico. A informação devora, de certa forma, o leitor, ao vir quase que totalmente digerida até ele pelos algoritmos que identificam quais notícias são mais acessadas por deter- minado indivíduo em rede. Por outro lado, para o ensino a respeito da assimilação e compreensão de um texto, é preciso levar em consideração no processo de ensino/ aprendizagem alguns fatores, dentre eles os mais importantes no contex- to escolar são: a formação do professor e a qualidade do livro didático. É imprescindível que o professor sane todas as suas próprias dificuldades em relação à norma padrão da Língua Portuguesa, e não se apoie unica- mente no livro didático para transmitir seus conhecimentos. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 115 Por este caminho, o professor deve buscar alternativas e metodologias inovadoras, a fim de garantir a elaboração do conhecimento. E, por con- seguinte, transformar os indivíduos (alunos) em leitores críticos prepara- dos para ler um texto e avaliar, de pronto, suas questões específicas, seus contextos implícitos, suas abordagens explícitas ou não. Por isso, você foi conduzido até aqui, nas aulas desta disciplina, por um material com abordagem sobre a formação e contextualização das mais variadas formas de textos e suas especificidades. Tal conhecimento é fundamental para uma leitura em profundidade e que traga benefícios para o leitor. Saber ler um texto e suas nuances é fundamental na vida de qualquer indivíduo. A interpretação textual está presente em qualquer disciplina da grade curricular e não faz parte apenas do contexto do aprendizado do Português. Para se fazer corretamente um problema matemático, é necessário, antes de mais nada, que se faça uma leitura crítica da questão apresentada, com o intuito de averiguar as melhores alternativas para sua adequada resposta. As contribuições da Semiótica para a formação do leitor e o ensino da lite- ratura e da linguagem visual, sinestésica, auditiva, gustativa são basilares. Os conceitos Semióticos a respeito do texto e suas significações, os em- basamentos teórico-metodológicos de sua concepção são fundamentais na geração de conhecimentos para a formação de um leitor crítico, bem como na concepção do material que abordará o tema. O texto deve ser entendido, neste processo, como um projeto comuni- cativo. E, portanto, não pode ser visto meramente como um instrumen- to de decodificação da língua. Mas, também, e mais importante, como uma contextualização histórica e uma formação de um tecido social, que pode ser desdobrado e lido/compreendido por diferentes ângulos que o compõem. 116 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 1.1. Semiótica e Literatura A Semiótica, contudo, é a ciência de toda e qualquer Linguagem. A Semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as Linguagens possíveis. É a Semiótica a ciência que tem por objetivo o exame dos modos de constitui- ção de todo e qualquer fenômeno de produção de significação e de sentido. Existem várias abordagens semióticas. Algumas mais conhecidas, como a Semiótica Peirceana, baseada nos estudos de Charles Sanders PEIRCE. Peirce fundou a Semiótica baseada em signos, estudo de extrema impor- tância para o estudo das linguagens e de sua importância para a evolução humana. Há, também, a Semiótica estruturalista/Semiologia de SAUSSURE, LÉVI-STRAUSS, BARTHES e GREIMAS, com foco apenas nos signosverbais. A Semiótica Greimasiana tem como foco o texto. Essa é uma teoria da significação, que mostra a construção de sentido nos diversos textos, no mundo como um texto. PARA SABER MAIS Que tal você aprender um pouco mais? Leia o resumo do Cap. 6, “Matisse: uma semiótica da alegria”, do livro “Semiótica Aplicada”, de Lucia Santaella, e Análise de duas campanhas publicitárias da Mattel e da lego, na perspectiva da semiótica. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 117 A Semiótica russa ou Semiótica da Cultura, de JAKOBSON, HJELMSLEV e LOTMAN, com foco na linguagem, literatura e em outros fenômenos cultu- rais, como a comunicação não-verbal e visual, mito e religião. No Brasil, o grande precursor da Semiótica da Cultura é o professor da PUC/SP, Norval BAITELLO. 1.2. A importância da leitura Leitura é um complexo processo presente na vida de todo ser humano, em diversos contextos. É fundamental para o amplo desenvolvimento de nossas habilidades de comunicação e interação com o mundo desenvol- ver o máximo possível as habilidades leitoras. O contato com a Leitura proporciona a ampliação da percepção do mun- do. Paulo FREIRE cita em praticamente toda sua obra que a Leitura da Palavra é precedida da Leitura do Mundo. De acordo com os preceitos dos estudos de FREIRE, ler é atribuir sentido ao texto, é relacioná-lo com o contexto e com as experiências vivenciadas pelo leitor. Segundo FREIRE, ao incentivar e proporcionar momentos de leitura a um indivíduo, suas chances de integração com o meio em que vive serão ainda maiores. A prática da Leitura ajuda a ampliar a visão de mundo ao inserir um lei- tor mais preparado na sociedade, o que também possibilita a vivência de emoções, uma vez que o indivíduo interage com o mundo da fantasia e o da imaginação. A Leitura, neste sentido, pode ser realizada de diferentes formas. A mais utilizada ocorre, ainda, por meio da palavra escrita, sendo encontrada em livros, revistas, jornais, etc. Mas, o processo de Leitura também adquiriu novos meios: como os audiolivros, por exemplo. 118 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula ASSIMILE “Ao refletir sobre leitura e seu estímulo na educação infantil, muitos pensam que o principal responsável para formação do leitor é o professor, mas a prática da leitura estimulada pela família é de suma importância e reflete excelentes re- sultados, na parceria entre família e professor, sendo uma dupla de sucesso. Quanto mais cedo iniciado esse processo, mais rápido será criado o hábito e gosto pelo ler. O estimulo da Leitura na educação infantil constitui uma base forte, ten- do intuito de tornar a leitura como algo natural, que traz ape- nas benefícios.” Convido você, aluno, a ler o texto “A impor- tância da leitura na Educação Infantil”, de Paloma Rodrigues Moreira. O professor e a família são o alicerce do processo de tornar a Leitura um hábito na primeira infância. Juntamente aos familiares, o professor tem um papel fundamental de mediador, que realiza uma parceria consciente e propicia o reconhecimento e a necessidade da Leitura desde cedo. A escola, nesse sentido, torna-se uma parceira fundamental na inserção da criança neste universo simbólico, no qual a Leitura se insere. Nos pri- meiros anos da educação básica, a Leitura em voz alta pelo professor é fundamental para que o aluno perceba que as marcas gráficas no papel também comunicam algo. Com o passar dos anos e o processo de alfabe- tização, os alunos vão adquirindo o hábito de ler e interpretar textos. A Leitura torna-se peça fundamental no processo de educação formal da criança. Por intermédio da Leitura e mais especificamente da Leitura Crítica, o aluno poderá tornar seu universo muito mais amplo e, também, poderá transformar o ambiente no qual vive, como já ensinou FREIRE. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 119 1.2.1. Ler o Mundo De acordo com os estudos de FREIRE, em A importância do ato de ler: em três artigos que se completam (1989), o indivíduo começa o processo de Leitura pelo mundo que o cerca. Não e começa o processo de Leitura pela palavra. A palavra vem depois. A experiência de vida é a primeira Leitura. O ato de ler, como o convencionamos, é comumente relacionado com a escrita e com o leitor decodificando letras. A Leitura, no entanto, não é apenas uma decodificação. A Leitura também está no olhar, no ouvir, no sentir. Como você já viu em aulas anteriores, a Comunicação é ampla, ela ocorre de forma auditiva, sinestésica, gustati- va. A Leitura também percorre tais caminhos. O ato de ler, neste sentido, consiste em um processo de aquisição de informações de um texto escri- to com a finalidade de interpretá-lo. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), Brasil (1997), volume 2), a Leitura faz parte de um processo em que o leitor busca iden- tificar o significado do texto por meio de seus objetivos, de seu conheci- mento prévio, sobre o autor citado e as demais informações que possam vir a fazer parte de seu entendimento sobre a Língua. Não se trata apenas do fato de decodificar letra por letra, palavra por palavra. Mas, sim de um exercício para a compreensão dos sentidos, que começam a ser constituídos antes da alfabetização ou letramento. 1.2.2. Literatura e a escolha dos textos Para se ter um Leitor Crítico, pode-se basear no esquema abaixo para aju- dá-lo na preparação das aulas de Literatura. Essa nova abordagem, com um viés Semiótico, permite um amplo e significativo trabalho com o texto. É possível conjugar a análise tradicional com a análise semiótica. Exemplo 1 - Leitura estruturalista/tradicional • Leitura superficial. 120 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula • Leitura das linhas ou leitura horizontal. • Decodificações linguísticas: informações explícitas do texto. • Procedimento mecânico. Exemplo 2 - Leitura Semiótica • Leitura dos sentidos do texto. • Leitura profunda. • Leitura das entrelinhas ou verticalizada. • Análise do texto. Temas parciais a partir das personagens do texto. • Informações explícitas e implícitas. • Intenção da obra. • Reflexão, desenvolvimento do raciocínio analítico (Leitor Crítico). • Oposições semânticas. 2. A produção de dissertações Dissertação é uma tipologia presente em diversos gêneros. Deve ser com- preendida tanto do ponto de vista da construção do texto como da Leitura. Boa parte dos textos que você produz ou lê, sejam eles estruturados nas tipologias narrativas ou dissertativas, apresentam-se organizados em três grandes momentos: o começo, o meio e o fim. A clareza do raciocínio dissertativo deve-se, em grande parte, à forma como as ideias são organizadas em parágrafos. Em termos de compo- sição textual, é um caminho em etapas. Os parágrafos representam, de certa forma, cada um desses estágios a serem cumpridos. Com o intuito de definir parágrafo, pode-se dizer que são como ‘prate- leiras’ que dividem uma sequência de informações ou pensamentos. Servem para facilitar a compreensão e a leitura do texto, dar folga ao leitor, que acompanha, passo a passo, a linha de raciocínio desenvolvida Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 121 pelo escritor. Para que essa linha fique clara, especialmente se o escritor avaliar o esfor- ço de compreensão que será feito pelo leitor, a organização dos parágra- fos torna-se fundamental. Um elemento que pode orientar a construção de cada parágrafo é o cha- mado “tópico frasal”. Pode ser compreendido como a ideia central de um dado parágrafo, em torno da qual os outros termos e frases se organizam. É a frase, dentro do parágrafo, que sintetiza o que vai ser desenvolvido ali. Em nossa tradição escolar, é muito comum a associação dos termos “dis- sertação” e “argumentação” como se fossem sinônimos. No entanto, é importante destacar que temos aí dois fenômenos linguísticos distintos. Dissertação é uma tipologia, uma forma de organizaçãointerna de alguns textos. Já argumentação, ou persuasão, pode ser definida como a soma dos procedimentos linguísticos utilizados em um dado texto que têm por objetivo convencer o receptor/ leitor de alguma coisa. 2.1. Algumas características dos textos dissertativos • São textos temáticos: apresentam-se como uma análise de um dado tema. Nos textos dissertativos, o objetivo principal não é con- tar uma história ou descrever algo, mas desenvolver um raciocínio sobre um assunto. • Sua ordenação obedece às relações lógicas: por desenvolver um raciocínio, o texto dissertativo organiza-se por uma relação de lógica entre suas partes. Assim, seu autor parte de um tema e apresenta ideias sobre o assunto, de tal forma que cada nova ideia acrescen- tada seja solidária com as anteriormente expostas. • Seu tempo é o presente, de valor atemporal: por procurar falar de um tema de forma ampla e generalizada, não pensando apenas em um caso isolado, o tempo verbal mais comum no texto dissertativo é o presente. 122 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula No caso dos textos dissertativos, essa estrutura básica é constituída pelo que se convencionou chamar “introdução”, “desenvolvimento” e “conclu- são”. Por introdução, entende-se o momento inicial do texto em que será apresentado o tema e o ponto de vista do autor sobre o assunto. O desen- volvimento é composto pelas ideias, informações ou dados que o autor apresentará para desenvolver seu ponto de vista. E a conclusão apresen- ta o fechamento do raciocínio. 2.2. Três aspectos do Texto Dissertativo Deste modo, para se produzir um texto dissertativo, deve-se levar em conta esses três aspectos, quais sejam: • Introdução: é o momento em que autor apresenta ao leitor o tema e seu ponto de vista. Especialmente quando você pensa no universo escrito, é fundamental explicar ao leitor do que se trata e qual será nossa posição frente ao assunto. • Desenvolvimento: é a parte principal do raciocínio. Quando você defende um ponto de vista, de forma mais ou menos explícita, você precisa expor os motivos que o levam a pensar daquela for- ma sobre o tema. • Conclusão: como você está construindo um ponto de vista, você precisa “fechar” seu raciocínio. 2.3. Esquema do texto dissertativo De forma esquemática, pode-se visualizar o texto dissertativo assim: • Meu tema é X. • O que penso sobre o tema X? • Por que penso isso? • Existe algum autor que pense como eu? • Baseado em tudo isso, qual minha conclusão? Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 123 3. Considerações Finais • Os mistérios da Leitura e a Construção do Leitor Crítico foram os principais elementos desta aula. • Você pôde ver nesta aula como a leitura é um hábito que tem que ser construído diariamente. É importante frisar sempre que é lendo que se aprender a gostar de ler. É preciso incutir, desde a primeira infância, nas crianças o hábito da leitura. • Nesta aula forma apresentadas as variadas formas de se entender o processo de sistematização da leitura e ampliação do conhecimento por meio do hábito de ler, tendo a Semiótica como viés. • A importância de se apresentar às crianças como o processo de lei- tura e de interpretação podem dar mais significado e ampliar suas próprias vidas. Vimos novamente a questão do protagonismo no processo de alfabetização. • A Leitura pode ser ampliada com os conceitos da Semiótica por O processo de Leitura começa muito antes do processo de alfabetiza- ção ou letramento. Ele começa com a leitura do meio ou universo no qual o indivíduo está inserido. Desta forma, a Leitura crítica depende muito do “olhar” aguçado, dos “ouvidos apurados”, de todo o corpo para se fazer a Leitura de onde o indivíduo se encontra. O professor deve ser um meio que possibilita esta instrumentaliza- ção do aluno. É por meio dos ensinamentos dos professores e de sua leitura do mundo que os alunos se tornam leitores críticos. Quanto mais amplo e diverso for o ambiente de leitura apresentado ao indivíduo, maior será sua percepção a respeito do mundo. QUESTÃO PARA REFLEXÃO 124 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula intermédio de formas de representação de tudo o que nos cerca. • Foram frisados nesta aula, a dimensão Semiótica, que se insere no processo de ensino-aprendizagem do ler e do escrever, e como a Semiótica pode ser fundamental para a criação de um leitor crítico. Glossário • Literatura – substantivo feminino, uso estético da linguagem es- crita; arte literária. Também pode ser o conjunto de obras literárias de reconhecido valor estético, pertencentes a um país, época, gê- nero, etc. • Semiótica – substantivo feminino, para Charles S. PEIRCE (1839- 1914), Semiótica é a teoria geral das representações, que leva em conta os signos sob todas as formas e manifestações que assu- mem (linguísticas ou não), enfatizando especialmente a proprie- dade de convertibilidade recíproca entre os sistemas significantes que integram. • Leitura Crítica – o conceito de leitura crítica faz referência à técni- ca ou ao processo que permite descobrir as ideias e a informação subjacente dentro de um texto escrito, falado ou ouvido. Isto re- quer uma leitura analítica, refletida e ativa. A leitura crítica é, por este pressuposto, o passo prévio ao desenvolvimento de um pen- samento crítico. • Professor – professor ou docente é uma pessoa que ensina ciên- cia, arte, técnica ou outros conhecimentos. • Alfabetização – processo de aprendizagem no qual se desenvolve a habilidade de ler e escrever de maneira adequada e a utilizar esta habilidade como um código de comunicação com o seu meio. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 125 VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 07 1. Outro entrave para a Leitura e escrita é o uso da internet e sua linguagem própria, recheada de diminutivos/formas informais de escrita ou mesmo Emojis (como você já estu- dou em aula passada). O uso da informalidade linguística e as informações em blocos (que apenas pontuam os leito- res dos acontecimentos, sem fazer nenhuma abordagem mais profunda) também são entraves para que os leitores se tornem críticos. De acordo com esta afirmação, a Internet é uma ferramen- ta fundamental para a comunicação. Mas, ao mesmo tem- po é prejudicial para o processo de Leitura e interpretação. Tais afirmações são? a) Totalmente infundadas. b) Essenciais para o aprimoramento e a contextualização do processo de alfabetização atual. c) Irrelevantes para o estudo em questão. d) Totalmente desconexa com o que foi estudado. e) Isenta de informações relevantes para o conteúdo estudado. 2. De acordo com o que você estudou neste tema, “os estu- dos de FREIRE, ao incentivar e proporcionar momentos de leitura a um indivíduo, suas chances de integração com o meio em que vive serão ainda maiores.” Do que este fragmento do texto fala especificamente, 126 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula tendo como pressuposto o que você estudou nesta aula? a) Instrumentalização e Protagonismo. b) Instrumentalização e Letramento. c) Instrumentalização e Aprendizado. d) Protagonismo e Letramento. e) Protagonismo e Leitura. 3. Saber ler um texto e suas nuances é fundamental na vida de qualquer indivíduo. A interpretação textual está pre- sente em qualquer disciplina da grade curricular e não faz parte apenas do contexto do aprendizado do Português. Para se fazer corretamente um problema matemático, é necessário, antes de mais nada, que se faça uma Leitura Crítica da questão apresentada, com o intuito de averiguar as melhores alternativas para sua adequada resposta. As contribuições da Semiótica para a formação do leitor e o ensino da literatura e da linguagem visual, sinestésica, auditiva, gustativa são basilares. Os conceitos Semióticos, a respeito do texto e suas significações, os embasamentos teórico-metodológicos de sua concepção são fundamen- tais na geração de conhecimentospara a formação de um Leitor Crítico, bem como na concepção do material que abordará o tema. Tais afirmações estão: a) aIncompletas e sem sentido com o que foi abordado. b) Incoerentes e não fazem sentido com os temas aborda- dos no decorrer do curso. c) Conflitantes e sem relevância para este estudo. d) Coerentes e em acordo com o que foi estudado nesta Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 127 disciplina. e) Incorretas e sem sentido para o que foi visto na disciplina. Referências Bibliográficas BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo, Ática, 1991. DEELY, J. Semiótica básica. São Paulo, Ática, 1990. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo, Cortez, 1989. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), (1997) .Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf>. Acesso em: 05 jul. 2018. TREVISAN, Zizi. Contribuições da Semiótica para a Alfabetização do olhar, in: GEBRAN, Raimunda Abou (Organ.), Contexto escolar e processo ensino-aprendizagem: ações e interações. São Paulo: Arte e Ciência Editora, 2004. Gabarito – Tema 07 Questão 1 – Resposta: B A Internet,e todas as suas possibilidades é, na verdade, prejudicial para o processo de Leitura Crítica. Como o indivíduo é bombardeado o tempo todo de informações massivas e não se aprofunda em nada, em sua grande maioria não se torna um Leitor Crítico. Questão 2 – Resposta: A Paulo FREIRE frisa em sua obra que a instrumentalização do indivíduo para o processo de alfabetização o instrumentaliza para “reconhecer” e dar novo significado ao mundo no qual está inserido. Levando tal preceito ao encontro do preceito de protagonismo, criado pela teoria 128 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula de Responsabilidade social, teremos um indivíduo capaz de transfor- mar o seu mundo e de todos aqueles que estejam a sua volta. Questão 3 – Resposta: D A Leitura Crítica que um indivíduo desenvolve depende tanto do am- biente no qual ele está inserido quanto da sua noção Semiótica do mesmo. As contribuições da Semiótica para a formação do leitor e o ensino da literatura e da linguagem visual, sinestésica, auditiva, gus- tativa são basilares. 129 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula TEMA 08 INTERVENÇÕES PRAGMÁTICAS Objetivos • Desvendar os mistérios da Leitura, tendo a realidade e a praticidade do Pragmatismo como diretriz. • Mostrar os conceitos do Pragmatismo. • Apresentar as variadas formas de se utilizar os concei- tos pragmáticos no processo de alfabetização. • Salientar a importância de se apresentar às crianças tanto objetos, jogos, interações lúdicas, quanto prag- máticas para o aprimoramento da alfabetização. • Os conceitos pragmáticos e a educação no Brasil. • Escola Nova e o Método Paulo Freire no processo de alfabetização. 130 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Introdução Os estudos desta unidade apresentam conceitos importantes para vários outros estudados no Curso Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica, e mais especificamente para a disciplina Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula. Traz, ainda, temas importantes para que você entenda melhor os estudos referentes ao conceito de Pragmatismo e sua utilização na Educação. No Brasil, as ideias pragmáticas encontraram solo fértil para se propagarem a partir de 1930 e, ainda, fazem parte do fazer cotidiano de várias esco- las. Os conceitos de realidade e prática dessa doutrina filosófica forma trazidos para a sala de aula principalmente pelos postulados de Anísio Teixeira e Paulo Freire. 1. Pragmatismo: doutrina filosófica O substantivo masculino Pragmatismo, termo advindo da Filosofia, signifi- ca corrente de ideias que prega que a validade de uma doutrina é determi- nada pelo seu bom êxito prático. Pragmático é uma palavra com origem no grego “pragmatikus” e no latim “pragmaticu”, que significa ser prático. Pode-se dizer que Pragmatismo é uma doutrina filosófica. Por pragmatis- mo entende-se o que é prático, o que é real. Ser pragmático é ser prático, ser realista. Pragmatismo é um pensamento filosófico, criado no final do século XIX, e baseado nas ideias do filósofo americano Charles Sanders Peirce (1839- 1914), do psicólogo William James (1844-1910) e do jurista Oliver Wendell Holmes Jr (1841-1935). Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 131 PARA SABER MAIS Nas palavras de Ibri (2006, p. 247) “O estudioso atento da Fenomenologia de Peirce muito provavelmente perceberá, nesta primeira ciência da Filosofia que lida apenas com as aparências e com uma taxonomia da experiência fundadora da estrutura categorial do autor, um prenúncio de uma onto- logia que lá não tem espaço teórico, mas que irá consumar- -se, posteriormente, em seu âmbito próprio na Metafísica. No interior da Fenomenologia, também as categorias da ex- periência irão indicializar uma simetria entre sujeito e objeto, sugerindo, de gênese, que o plano da epistemologia interaja fortemente com a ontologia, impondo à Semiótica um com- promisso de harmonia teórica com o realismo dos continua adotado por Peirce. É desse modo que o plano da significação ou o universo dos interpretantes não poderá ficar confinado à linguagem tão-somente, tampouco tomá-la como instân- cia fundante do objeto à medida que este se colocar como realidade. Tais condições teóricas de contorno irão inserir o Pragmatismo como doutrina essencial que possibilitará uma amplificação do conceito de significado, necessário a uma harmonia entre a Semiótica e o realismo peirceano”. Ser pragmático, portanto, é ter seus objetivos bem definidos. Diz-se de quem foge do improviso, baseia-se no conceito de que as ideias e atos só são verdadeiros se servirem para a solução imediata de problemas. 132 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula O indivíduo que se intitula pragmático é aquele que dá ênfase ao usual, ao prático, ao costumeiro. É o indivíduo que habitualmente gosta do que é prá- tico. É um adjetivo que se refere àquilo que se realiza conforme a pragmática, que é o conjunto de regras, formalidades ou etiquetas da boa sociedade. De acordo com Peirce, a ideia universal a respeito de uma coisa qualquer é a de seus efeitos práticos concebíveis ou todo efeito que esta ideia possa ter sobre nossa conduta futura. Segundo a ideia de pragmatismo descrito por Peirce, o significado atribuído a um conceito é toda a experiência que tal conceito possibilita. Assim, alguma coisa que não tenha efeito sobre o curso da vida humana não tem nenhum significado. EXEMPLIFICANDO Conforme Bouyer (2010, s/p) “A abordagem do pragmatismo pode ser vista como uma espécie de pluralismo antes que um monismo ou um dualismo (como cognitivismo) porque há muitos caminhos emergentes no qual as coisas são defini- das ou constituídas como úteis em diferentes situações. Um tema comum ligando diferentes abordagens pragmáticas à cognição é a mudança no modo como a relação pessoa/am- biente é concebida. PARA SABER MAIS Na PUC/SP existe um Centro de Estudos do Pragmatismo. O Centro de Estudos de Pragmatismo foi constituído em 1998 e atua de fato como Grupo de Pesquisa desde aquele ano, man- tendo intenso intercâmbio internacional com especialistas Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 133 na área do pragmatismo com ramificações para a teoria do conhecimento, lógica e estética, num diálogo profundo com a tradição da história das ideias. Linhas de Pesquisa: Pragmatismo e Lógica, Pragmatismo e Ética, Pragmatismo e Estética. 2. O pragmatismo na educação brasileira O pragmatismo influenciou educadores em todo o mundo. No Brasil não foi diferente. O pragmatismo de John Dewey teve entrada no Brasil a par- tir de 1930 e alcançou grande repercussão em território brasileiro graças à propagaçãofeita por intelectuais, como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, entre outros. As ideias de Dewey e sua teoria pedagógica exerceram grande influência sobre a educação no Brasil e, ainda hoje, é possível encontrarmos alguns traços de seu pensamento nas práticas educacionais de muitas escolas brasileiras. Entre os movimentos pragmáticos mais conhecidos no Brasil, evidencia-se o da Escola Nova, articulado por Anísio Teixeira (1900-1971). O pensamen- to filosófico de Dewey é um dos responsáveis pelo desencadeamento em educação do movimento de renovação das ideias e das práticas pedagó- gicas, conhecido como Escola Nova. Acreditava-se, neste movimento, que a integração entre atividade pratica e democracia eram basilares para a educação. Neste sentido, o que importava para o processo de educação era o cresci- mento: físico, emocional e intelectual. A filosofia de Dewey pode ser con- siderada como uma filosofia da ação, com finalidade de empregar sobre o mundo e a realidade uma ação útil e com a intenção primeira de ser revertida em benefício ao próprio indivíduo que a realiza. Assim, tinha-se como ideia central de que os alunos aprendem melhor 134 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula com a prática de tarefas relacionadas aos conteúdos estudados em sala de aula. Por estes preceitos, as crianças são levadas a fazer exercícios/ atividades manuais e criativos e a serem estimuladas a experimentar e pensar por si mesmas. Paulo Freire também foi bastante influenciado pelas ideias pragmáticas. Assim, ele postulou que a aprendizagem deve ser vinculada aos proble- mas práticos e se aproximar ao máximo possível da realidade ou cotidia- no dos indivíduos/alunos. Para Freire, cabia à escola preparar os alunos para a vida, para o protagonismo. “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”, frisou Freire diversas vezes. Os alunos eram, por seus pressupostos, levados a praticar a democra- cia dentro da sala de aula. A participação social, a interação e a visão do mundo eram fundamentais para Freire. Seus conceitos têm como base o aprendizado calcado na descoberta. Por tais ideias, a escola era vista como uma realidade a ser experimenta- da. O conhecimento, segundo estes estudiosos, baseia-se na experiência, no que funciona e leva o indivíduo a agir. O aluno é visto pela ideia do pragmatismo como o centro do processo de educação. Para que o apren- dizado aconteça, o professor precisa instrumentalizar o aluno com aquilo que é relevante para ele. Com o conceito de Método Ativo, Freire defendia que o aluno aprende de forma mais rápida e duradoura quando aprende fazendo. Essa proposta metodológica vem em defesa da postura epistemológica de que a teoria expressa ações práticas e de que a formação permanente se funda na prática de analisar a própria prática. Com os pressupostos do Método Ativo, o professor do século XXI é desa- fiado a acompanhar as mudanças. O professor deve ocupar-se mais com o aprendizado do que com o ato de dar aula. O ensino, por tais pressu- postos, realiza-se quando o estudante aprendeu. A mera informação de Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 135 conteúdos em sala de aula, por melhores que eles sejam, não é conside- rado aprendizado. Atualmente, a pedagogia e didática apontam para a chamada Metodologia Ativa da Aprendizagem. Nesta abordagem, os papéis tradicionais da sala de aula (professor ensina e aluno aprende) são, de certa forma, inverti- dos. No Método Ativo de Aprendizagem, o professor estimula o estudante a “aprender a aprender”. Assim, são produzidos saberes. Existem, hoje em dia, vários métodos ativos em didático-pedagogia. Dentre eles, o mais conhecido e disseminado é o aprendizado dinâmico baseado na apresentação de problemas (PBL, que vem do inglês – Problem Based Learning). Nesta abordagem, o professor utiliza a própria criatividade na aplicação desses métodos ativos. Tal ferramenta tem se mostrado indis- pensável nessa prática didática. Com tais preceitos, a escola se mostra como real para a criança. 2.1. Atividades Em sua formulação original, feita por Peirce em 1877-78 e reformulada em 1905, o pragmatismo é um método filosófico que sustenta o signifi- cado de um conceito (uma palavra, uma frase, um texto ou um discurso) consiste nas consequências práticas de sua aplicação. Por tais pressupostos, pode-se afirmar que as crianças são, de certo modo, pragmatistas. Elas só aprendem observando, avaliando, repetindo o que os adultos fazem no dia a dia ao seu redor. Por isso, o professor do ensino básico, com foco na alfabetização, precisa utilizar diversos recursos para conseguir o engajamento do aluno e ter consciência de que seus atos são exemplo para o indivíduo que está à sua frente. Quase sempre, há uma tendência à utilização de material lúdico, que leve a criança a envolver-se com o aprendizado de forma emocional, afetiva. Não se levando em consideração todo o ambiente e os próprios hábitos dos adultos que estão ao redor da criança no processo de aprendizagem. 136 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula A concepção de Paulo Freire sobre o processo de alfabetização procura explicitar que não há conhecimento pronto e acabado. O conhecimento/ aprendizado está sempre em construção. O ser humano aprende ao longo da vida e a partir das experiências an- teriores, o que faz cair por terra a tese de que alguém está totalmente pronto para ensinar e alguém está “totalmente” pronto para receber esse conhecimento, como uma transferência de saberes. O método Paulo Freire foi desenvolvido no início dos anos 1960 no Nordeste Brasileiro. Naquela época, havia um grande número de traba- lhadores rurais analfabetos e sem acesso à escola naquela região, o que não é muito diferente hoje. O Brasil ainda tem há 11,5 milhões de anal- fabetos. Formando um grande contingente de excluídos da participação social, tanto na década de 1960 quanto hoje. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2017, divulgados em maio de 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A concentração é maior nas regiões Norte e Nordeste, no grupo de indivíduos com 60 anos ou mais e entre as pesso- as que se declaram pretas ou pardas. O Brasil ainda não atingiu meta de redução de analfabetismo fixada para 2015. Paulo Freire defendia em sua metodologia de ensino um conceito de alfa- betização para além da decodificação dos códigos linguísticos. Não basta apenas saber ler e escrever, mas fazer uso social e político desse conheci- mento na vida cotidiana. Desde seus primeiros escritos, Freire considerou a escola muito mais do que as quatro paredes da sala de aula. Apesar de aplicado entre jovens e adultos, o método também pode ajudar na alfabe- tização e letramento de crianças. O método Paulo Freire é dividido em três etapas: Investigação, Tematização e Problematização. Na etapa de Investigação, aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e da sociedade onde vive, as palavras e temas centrais de sua biografia. Na segunda etapa, a de tematização, eles Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 137 codificam e decodificam esses temas, buscando o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido. E no final, a etapa de pro- blematização, aluno e professor buscam superar uma primeira visão má- gica por uma visão crítica do mundo, partindo para a transformação do contexto vivido. Por outro viés, a praticidade do uso de tal material e a concepção de instrumentalização do aluno na alfabetização, conforme proposta de Paulo Freire, nos leva a pensar em praticidade. Assim, ao utilizarmos métodos ou instrumentos práticos, que também levem o indivíduo a pensar de forma realista os conceitos da alfabetização, o professor estará contribuindo para o desenvolvimento do protagonismo deste aluno. Ao proportópicos, pedir para que os alunos se juntem em grupos e escolham temas para discutir textos, fonemas, construção de palavras são exercícios de cunho pragmáticos, por seus vieses realistas, práticos. “Ouvir história é recuperar a herança empírica do homem, seus medos, descobertas e desejos. As crianças sabem muito bem o que é essa he- rança empírica no turbilhão de sentimentos que vivenciam. É onde en- tra a figura do professor/ contador de histórias, como mediador desse processo de aprendizagem de lidar com as emoções. Para a criança, muitos de seus sentimentos são tão confusos, perturba- dores e dolorosos, que é difícil administrá-los, trazendo, assim, infelici- dade. Essa energia emocional fica represada e acaba vazando na forma de sintomas físicos, neuróticos ou comportamentais, como crueldade, comportamento agressivo, dificuldade de aprendizado, enurese notur- na, falta de concentração, hiperatividade, obsessões, ansiedade etc. SITUAÇÃO-PROBLEMA 138 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Apesar das crianças precisarem de ajuda para lidar com seus senti- mentos, estas não conseguem falar com naturalidade e facilidade so- bre seus problemas, isso porque não estão habituadas à linguagem co- tidiana. Para elas, essa não é a linguagem do sentimento, se expressam melhor através da metáfora, da imagem como em histórias e sonhos. A comunicação por meio da narração de histórias, fala às crianças mais profundamente do que a linguagem literal, a linguagem do pensamen- to; dramatizar com bonecos ou fantoches, representando aquilo que se quer dizer através do desenho ou pintura é fazer uso da linguagem imaginativa, essa é naturalmente a linguagem infantil. Nas histórias, o mal está tão presente quanto o bem, existem inúme- ros obstáculos a serem vencidos, aparecendo escolhas de solução que permitem que a vitória aconteça. Todos esses aspectos fazem parte da vida psíquica da criança, formalizando o processo de identificação. Aquele herói que luta e vence, mostra a possibilidade de não desistir diante dos problemas da vida real e ter forças para superar todos os desafios. Os seres que figuram o mal significam o aspecto instintivo do homem e, ao serem subjugados, criam a possibilidade de equilíbrio entre a natureza animal/ instintiva e a humana”. Fonte: SOUSA, Linete O. de. A Contação de Histórias no Psiquismo Infantil. Disponível em: <https://monografias.brasilescola.uol.com.br/ educacao/a-contacao-historias-como-estrategia-pedagogica.htm>. Acesso em: 06 mar. 2019. A contação de histórias pode ser considerada uma ação pedagógica complementar ao processo de alfabetização, inclusive no que se refe- re ao desenvolvimento do pragmatismo no cotidiano do aluno. Nesse sentido, reflita sobre as possibilidades em torno dessa atividade lúdica e responda: Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 139 Quando falamos em Pragmatismo em relação à educação, temos que ter em mente questões referentes ao cotidiano do aluno e como tais questões são pertinentes ao processo de educação. Durante o processo de alfabetização ou letramento, o Pragmatismo é, de cer- ta forma, essencial. Com situações-problema que façam com que o aluno entenda o processo e o apreenda, tudo fica mais fluido, mais acessível para a compreensão. O Pragmatismo auxilia o professor no entendimento de onde o aluno está cognitivamente e como pode amadurecer, tendo em vista o seu próprio contexto, suas experiên- cias e vivências. QUESTÃO PARA REFLEXÃO 3. Considerações Finais • Desvendar os mistérios da Leitura, tendo a realidade e a praticidade do Pragmatismo como diretriz foi a proposta desta aula. • Mostrar os conceitos do Pragmatismo, suas alterações ao longo dos • Que história fictícia você poderia utilizar para efetivar uma ou mais aulas voltadas à alfabetização? • Quais conceitos, valores e emoções poderiam ser trabalhados em tor- no da história apresentada, seu enredo e seus personagens? • Quais atividades interdisciplinares e complementares poderiam ser realizadas a partir da história inicial, inclusive no aspecto artístico cultural? 140 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula anos e sua atuação no sistema educacional brasileiro fez parte do roteiro desta aula. • Os conceitos pragmáticos e a educação no Brasil. • Escola Nova e o Método Paulo Freire no processo de alfabetização. Glossário • Método Ativo: as ditas metodologias ativas na aprendizagem são aquelas centradas no aluno, que estimula e motiva o estudante a ser sujeito ativo na construção do conhecimento. O professor dei- xa de ser o “transmissor” do conhecimento e o aluno mero recep- tor. O educando exerce nesta metodologia o papel de protagonista e o professor de mediador. VERIFICAÇÃO DE LEITURA TEMA 08 1. Quando e onde surgiu o Pragmatismo enquanto doutrina filosófica? a) Nos EUA, no século XX. b) Nos EUA, no século XXI. c) Nos EUA, no final do século XIX. d) Na França, no final do século XIX. e) Na França, no século XX 2. No que o Pragmatismo se apoia?. Direito de greve e reten- ção de valores a título de depósito prévio até que o serviço seja finalizado. a) Na realidade e na praticidade. Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula 141 Referências Bibliográficas BOUYER, Gilbert Cardoso. Pragmatismo e cognição: self, mente, mundo e verdade na teoria pragmática do conhecimento. Ciênc. cogn. [online]. 2010, vol.15, n.3, pp. 164- 179. ISSN 1806-5821 Cunha, M. V. John Dewey e o pensamento educacional brasileiro: a centralidade da noção de movimento. Revista Brasileira de Educação, 2001,nº 17, p. 86-99. Cunha, M. V. John Dewey: Uma filosofia para Educadores em Sala de Aula. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1998. IBRI, Ivo Assad. Pragmatismo e Realismo: A Semiótica como Transgressão da Lingua- gem. Cognitio: Revista de Filosofia, fev. 2013, [S.l.], v. 7, n. 2, p. 247-259. ISSN 2316- 5278. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/cognitiofilosofia/article/ view/13550>. Acesso em: 18 set. 2018. Mendonça, A. W. P. C; et all. Pragmatismo e desenvolvimento no pensamento edu- cacional brasileiro dos anos de 1950/1960. Revista Brasileira de Educação, 2006, v. 11 n. 31. b) Na realidade e na futurologia. c) Na realidade e na neutralidade. d) Na praticidade e na objetividade. e) Na praticidade e no individuo. 3. Quando e quem trouxe o Pragmatismo para o Brasil? a) Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e John Dewey. b) Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Paulo Freire. c) Paulo Freire, Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo. d) Anísio Teixeira, Lucia Santaella, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho. e) Anísio Teixeira, Paulo Freire e Norval Baitello Junior. 142 Leitura e Semiótica: Diálogos Possíveis para a Sala de Aula Pereira da Silva. W. C. M. Elementos para uma epistemologia pragmática para a psicologia. III Seminário Interno do Curso de Psicologia da UCB, 2000, Brasília – DF. Textos para discussão – série Psicologia. Brasília: Editora Universa, 2000. Pereira, M. E. M; Marinotti, M; Luna, S. V. O compromisso do professor com a apren- dizagem do aluno: contribuições da Análise do Comportamento. Em Hübner, M. M. C., Marinotti, M. (Orgs). Análise do Comportamento para a Educação: contribuições recentes. Ed. Esetec. Santo André – SP, 2004. Gabarito – Tema 08 Questão 1 – Resposta: C O Pragmatismo surgiu no final do século XIX, nos EUA. Foi concebido por Peirce e logo se transformou numa doutrina filosófica que tem a pratica e o real como alicerces. Questão 2 – Resposta: A O Pragmatismo tem como alicerce a realidade e a praticidade. Questão 3 – Resposta: B O conceito de Pragmatismo elaborado por Peirce, e readequado ao processo de educação por John Dewey, chegou ao Brasil na década de 1930, por intermédio dos intelectuais Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e, mais tarde, teve grande adesão de Paulo Freire.