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Geografia Urbana Créditos e Copyright ALVAREZ, Ricardo. Geografia Urbana. Santos: Núcleo de Educação a Distância da UNIMES, 2008. 111p. (Material didático. Curso de geografia). Modo de acesso: www.unimes.br 1. Ensino a distância. 2. Geografia. 3. Geografia urbana. I. Título CDD 910 Este curso foi concebido e produzido pela Unimes Virtual. Eventuais marcas aqui publicadas são pertencentes aos seus respectivos proprietários. A Unimes Virtual terá o direito de utilizar qualquer material publicado neste curso oriunda da participação dos alunos, colaboradores, tutores e convidados, em qualquer forma de expressão, em qualquer meio, seja ou não para fins didáticos. Copyright (c) Unimes Virtual É proibida a reprodução total ou parcial deste curso, em qualquer mídia ou formato. SUMÁRIO Aula 01_A cidade e o urbano: uma discussão necessária 5 Aula 02_Cidade: o espaço do conflito 8 Aula 03_Sobre o surgimento das cidades 10 Aula 04_As cidades na Antiguidade 14 Aula 05_Cidades e impérios 17 Aula 06_As cidades na Idade Média 20 Aula 07_A crise do urbano no feudalismo 22 Aula 08_A Revolução Industrial e a urbanização 24 Aula 09_A indústria e a cidade I 27 Aula 10_A indústria e a cidade II 30 Aula 11_A cidade e o urbano após a industrialização 33 Aula 12_Indústria e espaço urbano no Brasil I 36 Aula 13_Indústria e espaço urbano no Brasil II 38 Aula 14_Indústria, espaço urbano e os movimentos sociais no Brasil 40 Aula 15_Espaço urbano e capitalismo 42 Aula 16_A organização do espaço urbano 45 Aula 17_A produção do espaço urbano 48 Aula 18_A moradia como condição da existência 51 Aula 19_O vazio e a concentração urbana 53 Aula 20_Centro e periferia 55 Aula 21_A fase monopolista do capitalismo 57 Aula 22_A urbanização no capitalismo atual 59 Aula 23_Desenvolvimento desigual e combinado 61 Aula 24_A homogeneização das paisagens 64 Aula 25_As Metrópoles 66 Aula 26_Megalópoles: as cidades mundiais 68 Aula 27_Brasília: cidade planejada para quem? 71 Aula 28_São Paulo em questão 74 Aula 29_O Estado e o urbano: Manaus 77 Aula 30_O estudo da geografia no seu meio urbano I 80 Aula 31_O estudo da geografia no seu meio urbano II 83 Aula 32_O estudo da geografia no seu meio urbano III 86 Núcleo de Educação a Distância UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS Aula 01_A cidade e o urbano: uma discussão necessária Vivemos hoje uma organização social urbanizada, ou seja, parte significativa da população mundial vive em cidades. Elas representam o centro dinâmico da economia capitalista. O modo de vida urbano significa o moderno ante o rural e as novidades do mundo do consumo aparecem sempre antes nas cidades. Enfim, elas representam uma forma mais evoluída de organização da população no espaço e, por isso mesmo, atraem cada vez mais habitantes. O êxodo rural, fenômeno que se intensificou com a consolidação do capitalismo, com a Revolução Industrial na Europa a partir do século XVIII, é cada vez mais significativo e a China é hoje o país do mundo que mais retém trabalhadores no campo com a finalidade de evitar o movimento em direção às cidades. Não fosse esta política deliberada do governo chinês, os índices de urbanização no mundo seriam ainda maiores. O fato é que nos últimos três séculos, com maior ênfase para o século XX, observamos um intenso movimento de gente em direção às cidades atraída por um conjunto variado de motivações: emprego, asilo político, melhoria na qualidade de vida, perspectivas futuras, salários mais atrativos, possibilidades de consumo, entre outros. A concentração de grandes massas populacionais em centros urbanos levanta questões centrais para a geografia e seus estudos nesta área. O que é o urbano e o que é a cidade? Ambos são sinônimos ou definem fenômenos diferenciados? O urbano e a cidade são objetos de estudos da geografia? Comecemos pelas duas primeiras questões. O urbano e a cidade não são a mesma coisa, embora fenômenos intimamente inter-relacionados em sua existência. O que vemos concretamente na paisagem é a cidade, que possui uma materialidade, formas e organização próprias. O amontoado de prédios e construções, sistema viário imbricado, habitações de todas as formas e tamanhos, tráfego intenso de gente e veículos, fábricas em profusão, densa rede de lojas de comércio e prestação de serviços, dentre outros, são os aspectos visíveis daquele espaço que costumamos denominar como cidades. Mas esta estrutura mobiliária e imobiliária concentrada e densa representa apenas a forma física de um conjunto de processos que se desenvolvem junto a ela. É importante entender que a vida nas cidades é algo muito recente na história da humanidade. Durante longo tempo a vida no campo foi predominante em nossa organização social e somente nos últimos séculos é que a população passou a se concentrar mais nas cidades. Não podemos confundir a afirmação acima com o surgimento da cidade na história: ela é muito antiga e vamos estudar este assunto mais adiante. O que ora afirmamos é que se as cidades existem há muitos séculos, a sua condição atual foi obtida muito recentemente. Mas por que a concentração e o adensamento no espaço? É exatamente aqui que entra a questão urbana. Ela se constitui nas relações sociais que se desenvolvem e se materializam nas formas concretas da cidade. O urbano é a essência do processo; é fluido, imaterial, se processa nas relações estabelecidas no seio da sociedade. A cidade se coloca no plano da aparência. Ela é perceptível, concreta, material. Desta forma a cidade e o urbano não se definem como a mesma coisa, mas são elementos constitutivos do processo de urbanização que se desenvolve em esfera global. O que vemos no espaço geográfico como uma grande massa de concreto e cimento que acomoda milhares de pessoas, nem todos de forma salubre e digna, é o aspecto visível de uma sociedade que, num determinado momento de sua evolução histórica, necessitou aglomerar muitos trabalhadores em pontos de pequena extensão territorial que facilitassem a obtenção de mão de obra. Além disso, mão de obra assalariada concentrada também se constituiria em mercado consumidor para os produtos que agora passavam a ser produzidos em grandes quantidades, provocando uma redução significativa dos custos de produção. De maneira geral, o desenvolvimento do espaço urbano é um fenômeno que se constituiu como característica central do capitalismo em sua reprodução ampliada. O que veremos nas aulas seguintes terá como fio condutor as questões que ora levantamos e tem o propósito de levar o estudante a refletir sobre a cidade, o urbano e suas relações. Aula 02_Cidade: o espaço do conflito O processo civilizatório é o movimento que a sociedade realiza em direção a um determinado objetivo, o que não significa dizer que haja concordância de todos em relação a ele, muito ao contrário, normalmente este objetivo é determinado pelos interesses da classe dominante que tem o poder e os meios para o seu exercício. Na sociedade capitalista o fim maior de sua existência é a geração do lucro e sua apropriação pela classe dominante. Toda organização e funcionamento dos meios produtivos são balizados por esta lógica. Mas nem sempre foi assim. Em períodos históricos marcados pelo predomínio da escravidão, a utilização da força para a subjugação e a transformação das pessoas escravizadas em produtos comercializáveis, fazia parte de uma estrutura onde as elites comandavam os meios de poder (Estado, legislação e o poder divino). O espaço geográfico possuía uma divisão territorial do trabalho profundamente segregada, marcada por territórios de exclusiva mobilidade dos escravos e outros da elite dominante. Além disso, a estrutura fortemente hierarquizada e essencialmente verticalizada impedia a ascensão dos escravos para estratos de maior valor social. Osespaços do poder político eram demarcados pelos territórios de mobilidade das elites, que exerciam seu poder de modo absoluto e violento. A produção econômica, por sua vez, se apoiava no trabalho forçado. Com o passar do tempo as lutas sociais foram obtendo vitórias contra a exploração sem limites e pela conquista de direitos em todas as esferas, seja no campo da liberdade sexual, de comunicação e expressão, seja pela democracia ou pela luta por direitos humanos. O que se observa é que a cidade tem se constituído como espaço central do desenvolvimento destes embates e conflitos históricos, principalmente após a predominância do capitalismo como modo de produção hegemônico na sociedade. A complexidade com que a sociedade se organizou nas últimas décadas transformou as cidades em territórios eminentemente conflituosos. Não que as expressões das desigualdades apareçam apenas no meio urbano. No campo, talvez de forma até mais aguda do que na cidade, a desigualdade social se expressa em trabalho semiescravo, infantil, trocado por alimentação etc. Mas a cidade é formada por grupos de afinidades dos mais variados que atuam em defesa de interesses corporativos, segmentados, localizados, dentre outros. Toda esta gama de interesses produz choques permanentes e de intensidade variada. A passeata de professores de escola pública em defesa de seus direitos ou por sua ampliação, para o trânsito e faz barulho. Mas se não for desta maneira não alcança uma maior amplitude de diálogo com a sociedade com um todo. As famosas paradas gays, por exemplo, contam com o apoio incondicional daqueles que acreditam numa sociedade mais livre e desprovida de preconceito diante da preferência sexual, porém grupos religiosos conservadores elevam seu brado contra o atentado ao pudor, à família e aos bons costumes que elas provocam. A cidade é o epicentro desta movimentação toda e, com os avanços nas telecomunicações, os conflitos são on line. A diversidade de interesses tornou-se uma marca central dos novos tempos e os conflitos inerentes a ela tem na cidade o seu centro preferencial de ocorrência. Aula 03_Sobre o surgimento das cidades Durante muito tempo o homem foi nômade, ou seja, não possuía residência fixa, o que também impedia a criação das cidades. O sedentarismo foi o primeiro e importante passo para a sua criação. A domesticação de animais e a prática da agricultura, realizada a cerca de 15 mil anos atrás, deram os primeiros sinais da fixação do homem na terra. O domínio das espécies vegetais, com o plantio de sementes e a manipulação de mudas, permitiu ampliar a oferta de alimentos disponíveis bem como a variação do cardápio. Animais domesticados também contribuíram neste sentido, principalmente com a ingestão de gorduras e proteínas. O primeiro e grande passo para o surgimento das cidades já estava dado, mas ela ainda não existia. Não podemos afirmar que os primeiros aldeamentos já se constituíam como cidades, pois esta pressupõe outra condição: a geração de excedentes. Explicando melhor, as aldeias aglomeravam populações ainda bastante incipientes e sua extensão territorial era reduzida. Nela prevalecia o trabalho comunitário, uma vida em grupo que buscava a proteção coletiva, que garantisse a nutrição de todos, a fecundidade e os cuidados com a prole num ambiente de maior paz e tranqüilidade. Surge a divisão sexual do trabalho, onde a mulher se encarrega de tarefas relacionadas aos cuidados com os filhos e a agricultura e os homens com a caça, a pesca e a coleta. Inegavelmente a prática da agricultura trouxe mudanças profundas no processo civilizatório. As condições para o surgimento das cidades estavam dadas e era uma questão de tempo. Um fato essencial para que isto ocorresse foi dado com a evolução das condições de produção no campo: através do maior domínio da seleção de sementes, da utilização de equipamentos mais sofisticados no manejo da terra e da lavoura, da utilização da água em maior quantidade, na irrigação dos campos cultivados, do aproveitamento de solos mais férteis, do maior conhecimento do funcionamento das condições naturais, como as estações do ano, da época das chuvas e da estiagem etc. Tais conhecimentos acumulados criaram condições excepcionais aos lavradores do ponto de vista não apenas da produção, mas principalmente da produtividade. Mais e melhores alimentos significavam também maior capacidade para o trabalho e para a produção ampliada, possibilitando o incremento populacional em termos mais significativos e o crescimento da aldeia como um todo. O próximo e fundamental passo foi dado com a produção de excedente agrícola. A produção de alimentos em quantidades mais elevadas do que o consumo imediato necessitava, criou as condições para a liberação de pessoas para outras tarefas que não a de plantar e criar. Uma parte dos moradores da aldeia se desloca para a tarefa de proteger as lavouras e seus habitantes de ataques inimigos humanos (daqueles que não viviam em aldeias) ou animais. tal grupo era geralmente formado pelos mais fortes e hábeis dentre os aldeões: os caçadores. Este grupo vai, aos poucos, se impondo sobre aqueles que estão no trabalho agrícola e pecuário, seja pela sua força física, seja pela capacidade em manipular instrumentos de ataque ou defesa, como a maça, que era um toco de madeira mais grosso numa das pontas e muito utilizado no período. Esta condição foi aos poucos se impondo e sua capacidade de força diante dos inimigos vai também se transformando em diferencial na relação interna na aldeia, em outras palavras, de redirecionar a sua tarefa de defesa do grupo para a defesa de seus interesses próprios. Ele passa assim a se apropriar de uma parte do excedente gerado em nome dos serviços prestados, o que lhes vale uma alimentação melhor e mais saudável, dentre outros privilégios. Tal fato seria o percussor da cobrança de impostos e da formação do Estado. Este caçador se transformaria com o tempo em liderança política na aldeia. De acordo com Lewis Munford (1991), “Essa evolução natural de caçador, tornando-se chefe político, provavelmente abriu caminho para a sua ulterior subida ao poder”. Esta ascensão seria a sua transformação em Rei. Observe-se que o cetro (bastão) remodela o sentido do cajado do caçador num bastão simbólico do poder do Rei. Tal processo pode ser verificado principalmente no Egito e na planície da Mesopotâmia de acordo com os registros documentais da história. Definiu-se também neste processo a valorização social do homem em função da sua força física, deixando a mulher em posição secundária. Para completar o quadro de mudanças que deram origens às cidades ressaltamos o aprofundamento das diferenças sociais entre os moradores da aldeia, determinado pela posição econômica ocupada por cada um de seus membros. O Rei e seus colaboradores se apropriaram de parcelas cada vez maiores do excedente agrícola e reforçaram a sua força que agora passava a ser também econômica. A força de um Rei inclusive transbordava os limites de sua aldeia e chegava à dominação de outros grupos populacionais, de outras aldeias, definindo uma expansão “imperial” e se apropriando dos excedentes agrícolas destes. Finalizamos mostrando que as cidades, ou melhor, o nascedouro das cidades se concretizou diante do político e do social e não do econômico, conforme a argumentação desta aula aponta. De acordo com Singer (1973): A cidade, antes de mais nada, concentra gente num ponto do espaço. Parte desta gente é constituída por soldados, que representam ponderável potência militar face à população rural esparsamente distribuída pelo território. Além de poder reunir maior número de combatentes, a cidade aumenta sua eficiência profissionalizando-os. Deste modo, a cidade proporciona à classe dominante a possibilidade de ampliar territorialmente seu domínio, até encontrar pela frente um poder armado equivalente (...). Assim a cidade é o modo de organização espacial que permite à classe dominante maximizar a transformação do excedente alimentar, não diretamente consumidapor ela, em poder militar e este em dominação política. Aula 04_As cidades na Antiguidade O processo histórico de surgimento das cidades, que foi relatado na aula anterior, desenvolveu-se de forma desigual entre os mais variados grupos que habitavam nosso planeta, ou seja, não ocorreu de maneira combinada nem no tempo nem no espaço. Em relação ao tempo observe-se que as principais cidades foram pipocando ao longo do vale do Tigre e do Eufrates, na planície da Mesopotâmia, onde foram encontrados os registros mais antigos desta forma de organização do espaço. Suas cidades datam de 3.500 a.C. Ao considerarmos que o início da prática da agricultura tem 15 mil anos, veremos que foram necessários cerca de 10 mil anos, pelo menos, para o amadurecimento deste processo de migração das aldeias para a constituição das cidades. As cidades que se concentravam na foz do vale do Nilo, na África, registraram seu aparecimento em cerca de 3.100 anos a.C. mais novas, portanto, do que as asiáticas. Na atual Índia, no vale do rio Indo, temos cidades que datam de 2.500 anos a.C. , e no rio Amarelo, nas planícies chinesas, em 1.500 anos a.C. Estas são as cidades mais antigas de que temos conhecimento na atualidade, até que outras descobertas tragam novas luzes sobre as civilizações e sua organização. Em relação ao espaço é importante assinalar que havia uma lógica em sua localização. A maioria destes centros ocorre sob o domínio de climas áridos ou semiáridos, o que impunha a proximidade de rios caudalosos, como os citados acima. A irrigação das lavouras, o consumo humano, as inundações que fertilizavam o solo naturalmente, o abastecimento animal, dentre outros fatores contribuíram para esta aproximação geográfica. A elite do poder político e econômico ocupava o centro da cidade para manter sua dominação sobre as populações trabalhadoras e por onde transitavam as novas ideias e os novos conhecimentos gerados, além de se defender dos ataques externos com maior eficiência. Além disso, o centro da cidade era mais fortificado e protegido do que o resto de sua periferia, pois ali estavam os templos sagrados, lá habitavam os governantes e seu séquito de apoio. Muitas vezes, muros altos isolavam esta parte da cidade, cercados de fossos de água que serviam de trincheiras de proteção. Internamente estes espaços isolados e de circulação restrita subdividiam-se em possessões vinculadas a divindades e seus templos e santuários, acompanhados de lojas, armazéns e vários prestadores de serviços, como padeiros, serralheiros, tecelãs, escribas, dentre outras categorias, quase todos servidos de escravos para o melhor desempenho de suas funções. A parte externa da cidade era aberta e de livre circulação, formada basicamente por habitações construídas de argila e tijolos. Na Mesopotâmia as cidades de Ur e Babilônia se destacavam pelo tamanho e influência sobre outras cidades. Ur chegou a ter 50 mil habitantes e a Babilônia cerca de 80 mil, valores bastante expressivos para o momento histórico. Suas características organizativas e modo de vida predominante acabaram por influenciar fortemente outras grandes cidades. De acordo com Maria Sposito(2005): “A Mesopotâmia foi, então, o centro da difusão do fato urbano para o Egito Antigo (Tebas e Mênfis), vale do rio Indo (Mohenjo-Daro), Mediterrâneo Oriental e interior da China (Pequim e Hang-Chu)”. Na América ocorre também a criação de cidades de grande importância, porém sem a influência mesopotâmica e num período posterior. Em 500 a.C. já existem registros de grandes comunidades urbanas: Maias e Astecas. Tical na atual Guatelama, Dzibulchaltun na península de Iucatã e Teotihuacán no México são exemplos neste sentido. Mesmo na América andina, com os Incas, há núcleos de cidades bastante desenvolvidos e com grande divisão do trabalho, como nas aglomerações Maias e Astecas. Enfim, na medida em que as cidades cresciam e incorporavam novas terras aos seus domínios, fosse pelo crescimento próprio resultante de seu desenvolvimento econômico, fosse pela conquista em guerras e disputas, seus reis tornaram-se cada vez mais poderosos e influentes. Para manter toda esta estrutura de funcionamento das cidades, era preciso se apropriar de parcelas cada vez maiores do excedente agrícola, que se dava pela cobrança de tributos também cada vez maiores. Este ciclo crescente jogava seu peso sobre a classe dos produtores, os camponeses, que eram obrigados a ampliar sua produção para sustentar uma estrutura de poder que exigia cada vez mais riqueza produzida. A escravidão decorre disto: o trabalho forçado era a única forma de fazer com que os trabalhadores realizassem longas jornadas a baixo custo, com o objetivo de sustentar uma estrutura de poder que consumia grande parcela da riqueza gerada em benefício do Rei e das elites que ele representava. O ponto de partida da formação de impérios estava dado e é o que veremos na aula seguinte. Aula 05_Cidades e impérios Com a concentração de poderes nas mãos dos reis e a produção de excedentes em marcha acelerada, as cidades cresceram e foram ganhando, na Antiguidade, uma dimensão nunca antes vista. Elas se tornaram a sede do poder político e o centro de decisões. A expansão territorial foi se tornando uma consequência imediata deste processo, que alcançou terras bem mais distantes do que as originais da aldeia. A supremacia dos exércitos abriu as portas para a dominação de aldeias, cidades e até Estados constituídos, subordinando povos, impondo a escravidão e ampliando a obtenção dos excedentes produzidos, fortalecendo ainda mais seus reis. E quanto mais fortes, maiores as pretensões expansionistas. A formação de verdadeiros impérios trouxe consequências diretas na formação do espaço urbano e na organização das cidades. Em primeiro lugar, de acordo com Maria Sposito(2005), “porque eles tiveram um papel fundamental no aumento do número de cidades, na medida em que era com base nelas que mantinham a supremacia militar sobre as regiões conquistadas”. Na sequência: (...) porque através e sua ampliação [...] a urbanização estendeu-se pela Europa, fincando raízes no território onde, mais tarde, transformações econômicas, sociais e políticas aceleraram os processos e urbanização e estenderam o fato urbano a outros territórios continentais. E em terceiro lugar, porque a acentuação da divisão social do trabalho e da complexidade da organização política necessárias à sustentação do império promoveu [...] a ampliação dos papéis urbanos, e [...] o relacionamento entre as cidades. O exemplo mais bem acabado de expansão imperial do período foi o Império Romano. Seus tentáculos alcançaram vastas porções de terras na Itália e na Sicília, mas foram para além, com a anexação dos impérios de Cartago e o Helenístico, além de se expandir em direção à Europa ocidental ocupando terras “bárbaras”. A expansão alcançou ainda terras na Alemanha (vale do rio Reno), na Bélgica, França e na Grã-Bretanha, onde foram fundadas as primeiras cidades, que serviriam como foi apontado anteriormente, como centros secundários de poder político e administrativo do império Romano, tornando o urbano um processo não mais espontâneo, mas sim provocado pela política de conquistas e dominação. O “sucesso” Romano chegou a contar com uma população de cerca de um milhão de habitantes na sede do império (Roma), aglomerados em aproximadamente dois mil hectares, condição bastante significativa para o fenômeno urbano naquele momento histórico do desenvolvimento das forças produtivas. As construções se dividiam em Domus e Insulae. O primeiro eram as casas individuais e unifamiliares e o segundo as casas assobradadas cujo andar térreo voltava-se ao comércio e aos serviços. A infraestrutura era totalmente insuficiente para a demanda e as condições higiênicas bastante precárias, não havia coleta de lixo nem tampouco esgotamento sanitário, mesmo assim a cidade se expandia sem parar. O Estado era bastante presente na vida das pessoas, pois aproximadamente 15% da população vivia da oferta de víveres alimentaresoferecidos por ele, além das festas e diversão públicas promovidas em boa parte do ano. Toda esta estrutura, no entanto, não suportou a queda do Império Romano, a partir do século V d.C. Sua desintegração trouxe como consequência direta o desmoronamento desta intrincada teia no relacionamento entre as cidades. Muitas cidades pequenas desapareceram e os novos tempos apontavam para uma organização urbana diferenciada do que havia se construído com o Império Romano. A Europa se apoiou em novos paradigmas econômicos e políticos que não tinham a cidade como um espaço privilegiado de seu funcionamento. O período medieval será o objeto de estudos das nossas próximas duas aulas. Aula 06_As cidades na Idade Média A queda do Império Romano trouxe consigo a ascensão do período dominado por um regime político e econômico assentado em outras bases, muito diferente das que até então prevaleceram. O feudalismo, que dominou dos séculos V ao XV, não tinha nas cidades um centro privilegiado de poder e articulação da produção e absorção dos excedentes. Em aulas anteriores apontamos que a questão da segurança foi essencial para a articulação do espaço urbano e a criação das cidades. O fim do Império Romano e do seu poder central derrubou a proteção até então existente e desarticulou os espaços de produção econômica, dispersos ao longo dos territórios conquistados. Sendo assim ficaria mais difícil desovar a produção de excedentes agrícolas e dos produtos da pecuária, bem como os manufaturados e outros bens, pelas redes viárias e artérias existentes. A falta de manutenção básica de portos e estradas contribuiria para este quadro. A organização econômica feudal passou a se apoiar numa lógica de auto suficiência basicamente voltada para o consumo interno e em seu entorno. A descentralização do poder se refletiu também numa descentralização econômica. A produção agrária foi, aos poucos, dominando o cenário e se apoiou na servidão imposta aos trabalhadores. A terra passou a ter valor fundamental na hierarquia de poder, já que se tornava o centro da produção econômica e a base do poder político: quanto mais terras, maior a força do senhor Feudal. As cidades sofreram uma gradual redução em sua importância como articuladora da produção em geral. Os excedentes agrícolas agora eram produzidos e consumidos internamente nos feudos. Outro fator que contribuiu significativamente para o declínio do comércio europeu foi o domínio e a expansão do império árabe a partir do século VII. Este realizou uma proibição enfática do comércio cristão no mar Mediterrâneo, que era um espaço de intensa navegação de cabotagem para a distribuição dos produtos manufaturados e artesanais. Esta interiorização da produção, atomizada em células de produção e consumo, pulverizava os ciclos econômicos em territórios espacialmente restritos e limitados, intimidados ainda pela propagação dos ideais da pobreza e da vida simples, da terra como dádiva maior e da aceitação do trabalho como a única fonte de produção da riqueza. Por isso a Igreja Católica proibiu a usura e reprimiu com a excomunhão todos àqueles que a praticavam. De concreto, esta imposição poderia trazer maior conforto espiritual aos fiéis, mas na prática a medida limitou o acesso ao crédito, restringiu os investimentos e prejudicou a prática do comércio. A própria dificuldade na utilização do dinheiro se constituía num entrave ao desenvolvimento do comércio, uma vez que não havia um sistema monetário unificado, nem tampouco um padrão aceito por um conjunto maior de pessoas ou numa delimitada região. Apesar da retração nas atividades comerciais e produtivas urbanas, algumas cidades grandes resistiram e se tornaram referências no período, como é o caso de Veneza, Constantinopla e Alexandria em relação ao comércio marítimo. Enfim, as cidades na Idade Média sofreram um recuo acentuado em seu papel de articuladoras e estruturadoras do espaço geográfico, perdendo terreno para o espaço agrário que assumiu as funções de comando no processo produtivo. É o que aprofundaremos na aula que se segue. Aula 07_A crise do urbano no feudalismo Apesar da manutenção da figura do rei e de outras formas de titulação própria do período, como os duques (e seus ducados), barões (baronatos), príncipes (principados) etc. o poder agora se configurava por se apoiar nos senhores das terras: Os senhores feudais:Partia deles as iniciativas de promover reparos no sistema viário, edificar burgos (pequenos núcleos urbanos) quando fosse interessante, realizar o escambo (troca de produtos sem a intermediação monetária) entre feudos, intercambiar manufaturados etc. O Cristianismo ofereceu o substrato ideológico de manutenção do poder das elites, ao fazer o elogio à pobreza e a exaltação das virtudes de uma vida singela e desprovida de ambições. Neste cenário apresentado na aula anterior e nesta, configura-se um espaço urbano delimitado pela existência de dois tipos de cidades basicamente: a primeira era a denominada de episcopal e tinha na função religiosa o seu intento de funcionamento. Possuía uma limitada estrutura de comércio, basicamente local, e sobrevivia dos tributos recolhidos dos feudos. Sua função era a de dar suporte aos projetos eclesiásticos emanados do alto bispado. Os espaços denominados de burgos se estruturavam através do cercamento de terras fortificadas por muralhas e ladeadas por tanques d’água, construídos em geral a mando dos senhores feudais para proteger seus estoques de alimentos, animais e sua própria família em caso de perigo iminente. Há um questionamento muito grande por parte daqueles que estudam as questões urbanas se estes burgos eram realmente cidades. Não possuíam habitações permanentes, nem tampouco atividade econômica predominante e estavam desprovidos de poder político centralizado. Enfim, surgiam apenas como estruturas complementares às atividades econômicas e sociais do campo. O fato é que as cidades medievais se configuravam como verdadeiros acessórios das atividades rurais, não se constituíam em espaços de produção e circulação de produtos. Não acomodavam interesses distintos e, portanto, não estavam marcadas pelos conflitos próprios das grandes aglomerações urbanas; não se relacionavam com outras cidades no bojo de uma estrutura hierarquizada; não comportavam classes sociais distintas e nem tampouco se apropriavam dos excedentes da produção para alguma finalidade maior, se não a de garantir os suprimentos alimentares da produção do campo na forma de estoques de garantia em momentos e necessidade. É inegável que as cidades recuaram em importância durante a vigência do feudalismo, diante da valorização da terra no contexto deste novo modo de produção. De outra forma o urbano perdeu sua condição de espaço privilegiado na reprodução do sistema vigente e dominante. Apesar do longo tempo de duração do período medieval, suas bases de funcionamento foram sendo minadas por suas próprias contradições internas, que serviram de suporte ao surgimento e evolução de um novo modo de produção que o superaria: o capitalismo. As cidades vão assumir uma nova função desempenhando novos papéis a partir do século XVI em diante, e é isto que estudaremos na unidade seguinte. Aula 08_A Revolução Industrial e a urbanização O crescimento das cidades a partir do século XI, na Europa, esteve relacionado ao crescimento do comércio e ao fortalecimento da burguesia como classe social. As corporações de ofício presentes no interior das cidades começaram a ser insuficientes para atender a uma demanda crescente, numa sociedade em que a divisão do trabalho e as trocas se acentuavam. O capital comercial, sob comando da burguesia, começou a organizar as manufaturas no entorno das cidades, impulsionando a produção fora do domínio rígido das corporações. O crescimento da produção e do comércio intensificou ainda mais o poder econômico da burguesia comercial, que necessitava, para ampliar seu poder, acabar com as limitações impostas pela estrutura político territorial do feudalismo. Foi neste contexto que asalianças entre setores da aristocracia e da burguesia consolidaram a formação dos primeiros Estados - Nacionais na Europa. A expansão marítima colonial do século XVI e a colonização estenderam a dimensão da atividade comercial. Ao mesmo tempo, o cercamento de terras comunais, a expulsão e fuga dos servos, impulsionaram ainda mais a urbanização na Europa. No entanto, a urbanização da sociedade ganhou realmente impulso com a Revolução Industrial, que teve início no final do século XVIII na Inglaterra. Embora muitos autores acentuem o poder da técnica, (no caso a invenção da máquina a vapor), como elemento explicativo da Revolução Industrial, pode-se dizer que essa foi, antes de tudo, uma revolução sócio espacial, uma vez que o modo de produção capitalista se consolidou. A divisão espacial do trabalho entre cidade e campo se transformou e ganhou uma escala mundial. As cidades passaram a ter um papel cada vez mais importante no processo de produção do espaço. O trabalho fragmentado, hierarquizado, realizado por máquinas complexas de objetos padronizados, em grande escala, que caracteriza a produção industrial, tornou-se possível historicamente por vários motivos: a) A expropriação dos camponeses e servos levou um contingente enorme de pessoas às cidades. Desprovidas de terras, dinheiro ou instrumentos de trabalho, elas não tinham outra possibilidade de sobrevivência a não ser vender sua força de trabalho. Mesmo as necessidades mais básicas, como comer e descansar só podiam ser satisfeitas mediante a compra no mercado, o que supunha a posse de certa quantidade de dinheiro e, portanto, a venda da força de trabalho tornou-se uma imposição e não uma escolha; b) A colonização e o crescimento do comércio decorrente impulsionaram a demanda por produtos; c) Enquanto uma grande massa era expropriada nos campos, a burguesia ampliava seus negócios e rendimentos, acumulando riqueza nas mais diversas formas. Neste processo, ela percebeu que ganharia mais se comprasse o trabalho das pessoas e não os produtos que eram capazes de produzir, por isto investiram nos instrumentos de produção; o capital vivo advindo do trabalho alheio proporcionava ganhos remuneradores, o que compensava o investimento em máquinas e técnicas. Nasce a Revolução Industrial. Segundo Paul Singer, no livro Economia Política da Urbanização (1973): O resultado deste processo – a moderna unidade de produção, a fábrica - é necessariamente um fenômeno urbano. Ela exige, em sua proximidade, a presença de um grande número de trabalhadores. O seu grande volume de produção requer serviços de infra-estrutura (transportes, armazenamento, energia, etc.) que constituem o cerne da economia moderna. (1973) A partir da Revolução Industrial, a cidade deixou de ser o centro da dominação política e das trocas, para tornar-se também o centro de produção; ela ganhou superioridade produtiva em relação ao campo. Esta concentração da produção nas cidades, no entanto, não as isolou, ao contrário, produziu a necessidade cada vez maior de articulação e integração com o campo e com outras cidades. O capital, para completar seu ciclo de acumulação, necessitava que a produção fosse realizada com base no trabalho assalariado, momento em que se produziu o valor, mas para que este valor se realizasse, foi necessário garantir que a mercadoria fosse novamente transformada em dinheiro. Ou seja, o momento da produção, realizada no interior da fábrica, precisava necessariamente do momento da circulação, que envolvia a distribuição, a troca e o consumo dos bens produzidos. Por isto, a necessidade de articulação e integração entre os lugares tornou-se cada vez maior. A produção mecanizada característica do período industrial não sobreviveria com vias de transporte, comunicação e circulação rudimentares. Por outro lado, as necessidades da produção na cidade, levaram à especialização e mecanização do campo, aumentando a produtividade e estendendo a lógica da produção capitalista ao meio rural. Na Europa, os efeitos deste processo já se fizeram sentir a partir do século XIX, com a maciça migração da população para as cidades: Londres, Paris, Lion, Manchester, Birmingham, Colonia, entre outros, tornaram-se importantes centros de acumulação do capital e de comando no processo de produção espacial, mantendo relações e influenciando não apenas a produção e a sociedade do meio rural do entorno, mas a de locais distantes como a América e a África. A industrialização impulsionou a urbanização primeiramente na Europa, mas este processo se estendeu por todos os continentes. O relatório da ONU sobre a população mundial, publicado em 2007, afirma que pela primeira vez na história, a maior parte da humanidade vive agora em cidades. Aula 09_A indústria e a cidade I Como já foi dito, a Revolução Industrial representou um marco no desenvolvimento do capitalismo. Partindo do pressuposto de que o espaço geográfico seja um produto e uma condição do modo como a sociedade se organiza para produzir e distribuir os bens gerados, entende-se que o espaço guarda a dimensão territorial no modo como a sociedade se reproduz em cada momento histórico. Neste sentido, localização, distância, distribuição, formas, volumes, densidades, atributos espaciais, devem ser analisados como parte de práticas sociais que são, também, espaciais. Com base nestas premissas, para entendermos as cidades e o processo de urbanização que se desenvolveram pós Revolução Industrial, torna-se necessário compreender o modo como o capital se reproduz. A acumulação primitiva, realizada no período anterior à Revolução Industrial, gerou o entesouramento de muitas formas de riqueza nas mãos de uma parcela da sociedade. A continuidade da geração desta riqueza, bem como sua ampliação, foi o elemento chave, possibilitado pela Revolução Industrial. Com base nos escritos de Karl Marx, pode-se dizer que o capital para se reproduzir ampliadamente, o faz sobre a exploração do trabalho (única força capaz de criar valor) e que esta reprodução se dá num ciclo composto de três momentos: a) O primeiro se caracteriza pela associação entre meios de produção, matérias-primas e força de trabalho, sob o comando do capitalista que unifica estas forças, comprando-as no mercado. b) O segundo momento diz respeito ao emprego da força viva de trabalho na produção de mercadorias; é neste momento que o valor é gerado e a mais-valia é produzida, uma vez que apenas parte do trabalho realizado pelo trabalhador é pago. Este valor criado na produção está, portanto, contido, aprisionado nas mercadorias. Para que o processo se complete e possa ter continuidade, é preciso liberar o valor aprisionado na mercadoria, colocando-a no mercado, trocando-a pelo equivalente geral das mercadorias, o dinheiro. Neste terceiro momento é que o valor se realiza, tornando possível a continuidade do processo. O ciclo representa a reprodução ampliada do capital, uma vez que o capital inicial é ampliado, pelo trabalho. Os trabalhadores são remunerados, mas apenas parcialmente pelo que produzem; os salários representam parte de sua produção; a outra parte é a mais-valia, apropriada pelo capitalista. É importante lembrar que a reprodução social foi ficando cada vez mais complexa e mediada pelo mercado, uma vez que as terras, instrumentos de trabalho e dinheiro ficaram concentrados nas mãos de poucos, de forma que mesmo para satisfazer necessidades básicas como comer ou descansar a mediação da troca torna-se fundamental. Como a divisão do trabalho e a especialização se intensificaram, o dinheiro tornou-se o elemento chave desta economia. Por isto, os salários representam a parte do trabalho que os trabalhadores realizam e a possibilidade de terem acesso ao mercado para reproduzirem-se. O consumo, antes um ato vinculado diretamente à produção, tornou-se, na sociedade industrial, cada vez mais mediado pelo dinheiro e pela troca. Em que medida este processo, que reflete o modo como a sociedade moderna produz e distribui os bens que cria, corresponde a um dado espaço geográfico? Vejamos: aprodução industrial é, ao mesmo tempo, concentrada, fragmentada e especializada. Para que ela se viabilize, a complementaridade entre unidades industriais é fundamental e a proximidade entre elas facilita e barateia o processo, principalmente quando o sistema de transportes e comunicação é pouco desenvolvido. Ao mesmo tempo, como a quantidade gerada de produtos é muito grande, torna-se necessário ampliar cada vez mais o mercado consumidor, o que supõe a necessidade de levar as mercadorias produzidas a lugares distantes. Assim, a localização e concentração da atividade industrial estão relacionadas, ao mesmo tempo, à possibilidade de articulação do lugar da produção com o do consumo. As cidades, já no início da Revolução Industrial, continham um grande contingente populacional, desprovido de terras, dinheiro e instrumentos de trabalho. Além, disso, elas possuíam infraestrutura de energia e transportes para viabilizar o escoamento da produção. Por tudo isto a industrialização é um fenômeno eminentemente urbano e a cidade se caracteriza pela concentração e pela articulação com outros espaços. Nos primeiros momentos da Revolução Industrial, a proximidade de fontes de energia (à época, fundamentalmente o carvão), de acesso às matérias-primas e água, foram fatores determinantes na localização industrial, pois os custos de transporte eram elevadíssimos e a comunicação implicava no deslocamento. Por isto, muitas cidades industriais destes primeiros períodos da Revolução Industrial estão localizadas próximas às minas de carvão e de ferro, usinas produtoras de energia elétrica e fontes de água. É o caso das cidades inglesas, por exemplo: Birmingham, Liverpool, Londres, etc. Com o desenvolvimento do capitalismo, a concentração e centralização do capital, bem como o desenvolvimento dos meios de comunicação e transportes, a localização industrial ganhou maior flexibilidade, uma vez que o tempo de deslocamento foi, certamente, encurtado. Tais fatos contribuíram para a instalação de filiais de multinacionais em vários países periféricos após a Segunda Guerra Mundial, o que impulsionou a industrialização e urbanização destes países. Aula 10_A indústria e a cidade II A cidade industrial diz respeito à concentração: de meios de produção, de capital, de infra estrutura, de edificações e de população. Mas, é preciso considerar para além de dados estatísticos, apontando para análises de caráter qualitativo que ajudem, de fato, a buscar a compreensão da dinâmica urbana. No caso da população, por exemplo, embora as estatísticas revelem a velocidade e ritmos de crescimento, em geral muito acentuados em função das migrações, é preciso considerar que a grande maioria daqueles que chegam às cidades são parte da força de trabalho geral que se desloca em busca de emprego. Ocorre que na sociedade capitalista, o solo foi transformado em mercadoria, através do instrumento jurídico da propriedade privada. Partindo do princípio de que o trabalho geral da sociedade produz o espaço, pode-se também falar de um valor do espaço, que se diferencia pela quantidade de trabalho materialmente agregado em porções deste espaço, bem como pela atribuição de valores morais e simbólicos que os diferentes grupos sociais atribuem aos lugares em cada momento histórico. Desta forma a distribuição desigual de infra estrutura, de parques públicos, de shopping centers, hipermercados, de serviços médicos e universidades, no conjunto da cidade acabam por valorizar mais determinados lugares do que outros. Embora a sociedade como um todo produza o espaço, a sua apropriação é privada, uma vez que para ter acesso a uma parcela dele, é preciso pagar (através da compra e/ou do aluguel). Desta forma, os proprietários dos meios de produção (os profissionais cujos rendimentos são elevados), têm a possibilidade de morar em lugares mais valorizados, em casas ou apartamentos grandes, com jardins, áreas de lazer e em parcelas da cidade que disponham de uma paisagem considerada mais valorizada ou exclusiva. Mas, como sabemos, a maior parte da população que vive nas cidades representa a força de trabalho explorada, mal remunerada, especialmente nos países periféricos, como é o caso do Brasil. Aqui, a partir da década de 1920, as migrações da região nordeste para São Paulo impulsionaram e tornaram possível a industrialização e a acumulação de capital nesta porção do território nacional, servindo como mão de obra em diversos setores de atividade que se desenvolviam. No entanto, a possibilidade deste imenso contingente populacional de desfrutar da e na cidade foi ficando cada vez mais restrita, uma vez que a maior parte dos investimentos públicos e privados foi se concentrando no centro ou em áreas próximas a este, tornando-as mais valorizadas e, com isto, impedindo sua ocupação por classes sociais mais baixas. Além disto, o Estado praticamente se eximiu de uma política de construção de habitações realmente populares e, quando o fez, produziu conjuntos habitacionais de baixíssimo padrão, localizados em áreas muito distantes do centro, estimulando a formação de imensa periferia Assim, a desigualdade se revela como sócio espacial que, nas cidades se mostra de forma mais nítida porque o processo contraditório de acumulação/exploração se centraliza nela, produzindo a concentração. Assim a imponência dos bairros centrais, arborizados e repletos de infra estrutura se contrapõe as inúmeras áreas onde a reprodução da vida se dá pela escassez. Na cidade, esta desigualdade, muitas vezes, não está distante fisicamente. Em São Paulo, por exemplo, a favela de Paraisópolis está ao lado do bairro do Morumbi. Por outro lado, a atividade industrial não se dispersa por toda cidade, mas concentra-se em certos trechos, em geral próximos à infra estrutura de transporte, por exemplo: ferrovias, rodovias, portos. No entorno destas áreas industriais emergem transportadoras, comércio popular, de modo que vai se desenhando uma divisão espacial do trabalho interna nas cidades: locais de moradia, locais que concentram a atividade industrial, centro de comércio e serviços de diferentes tipos, revelando a complexidade de nossa organização social e a grande concentração de valor que é a cidade. No caso das grandes cidades industriais dos países periféricos, o crescimento não foi acompanhado de uma distribuição mais equitativa de infra estrutura. O processo foi marcado por uma profunda periferização e pela segregação, uma vez que a maior parte da população vive em locais sem infra estrutura, serviços públicos ou áreas de lazer e, como a distância a percorrer na busca destes serviços é muito grande e o custo alto, a maior parte da população vive em péssimas condições. Aula 11_A cidade e o urbano após a industrialização As relações entre cidade e campo se modificaram profundamente após a Revolução Industrial; a cidade cresceu e o modo de vida urbano estendeu-se para além dos limites físicos da cidade. Segundo Henri Lefebvre, no livro A Revolução Urbana (1999), é preciso discutir o significado conceitual de cidade e de urbano. Enquanto a cidade diz respeito a uma forma material, qual seja a do centro e da concentração, o urbano diz respeito às relações que se produzem na e a partir da cidade, mas extrapolam os seus limites. Por isto, segundo o autor, a sociedade urbana está em constituição e este processo se realiza fundamentalmente após a industrialização. A cidade tornou-se o principal centro produtivo, configurando-se num centro de poder econômico, político e comercial. Evidentemente este processo guarda especificidades no tempo e no espaço. Na Europa, por exemplo, a cidade que se erigiu no século XIX com a industrialização foi fortemente marcada pela existência de um centro no qual se concentravam a sede do poder político, os bancos, os escritórios, o comércio, os teatros, as praças principais. Todo crescimento em torno da cidade se deu com base na dependência deste centro, local de grande concentração populacional e de agitação política, cultural e de referenciais históricos. O entendimentodeste padrão urbano foi alcançado com a análise pautada no par “centro periferia”. A incorporação paulatina das áreas rurais imediatas à cidade, em loteamentos urbanos, constituiu-se no elemento básico desta expansão física das cidades. No entanto, para Lefebvre, a sociedade urbana se envereda através do tecido urbano, que muitas vezes não apresenta uma continuidade física nas cidades. As formas presentes nela se dispersam e carregam consigo o sentido do urbano que, na sociedade capitalista está profundamente marcado pelo valor de troca e pela constituição do espaço enquanto mercadoria. Assim, mesmo em áreas descontínuas fisicamente vê-se a cidade se reproduzir, através dos valores, das relações e, é claro, da presença de alguns elementos característicos das cidades. Um exemplo característico é o litoral norte do estado de São Paulo: embora fisicamente descontínuo da metrópole paulistana, o processo de produção espacial nesta porção evidencia toda a lógica de produção do urbano: condomínios fechados, privatização das praias, preocupação com a segurança, centros de ‘badalação’ que reproduzem os points de São Paulo, segregação espacial dos moradores do local, etc. No século XX, a dispersão das cidades se ampliou nos países centrais e, em muitos países periféricos, como o Brasil, México, Argentina, Chile, o processo de industrialização incipiente se consolidou especialmente após a Segunda Guerra Mundial, impulsionando a urbanização. A América Latina viveu uma urbanização acelerada e, concentrada, num primeiro momento, em grandes cidades, que se transformaram em metrópoles: densas áreas urbanas, conturbadas, extensas, que concentram as atividades produtivas, a tecnologia, população, infra estrutura e, sobretudo, decisões. Para Milton Santos, as metrópoles são objetos geográficos onipresentes, porque estão em vasta porção do território, ao mesmo tempo. Assim, a sociedade urbana foi se consolidando para além dos limites dos países centrais. O pós-guerra caracterizou-se pela produção industrial fordista e pela configuração da sociedade de produção e consumo de massa, tendo como carro chefe o uso do automóvel. As relações sociais e os vários segmentos da vida que antes estavam fora do domínio do mercado, aos poucos foram se tornando objeto de investimentos pelo capital, incluindo-se, portanto, na lógica da acumulação. É o caso, por exemplo, do lazer e do turismo. A popularização do uso do automóvel, primeiro nos EUA e Europa e, mais tarde, na América Latina, bem como as inúmeras obras viárias necessárias ao seu funcionamento, mudaram o padrão de urbanização, uma vez que a dispersão alcançou novos limites, com a integração das novas áreas urbanas à cidade por meio de vias expressas. Nos EUA, a formação de subúrbios caracterizou a urbanização deste período, sendo Los Angeles a cidade que mais expressa esta dispersão e a diluição do centro. A reestruturação produtiva que vem caracterizando o capitalismo a partir dos anos 1970 tem entre suas estratégias a dispersão da atividade industrial. Assim, muitas indústrias se deslocaram de áreas antigas, buscando novas localizações. Tal fato tem também produzido mudanças na estrutura urbana, acentuando o padrão de dispersão. Além disso, cada vez mais se observam novas estratégias de localização de grandes empreendimentos comerciais e residenciais, que se deslocaram do centro das cidades para atingirem áreas mais distantes. Por tudo isto, muitos autores consideram que é preciso reconsiderar o uso do par “centro periferia” para explicar o padrão urbano contemporâneo. Aula 12_Indústria e espaço urbano no Brasil I O Brasil, ao longo do século XX, experimentou um processo acelerado de intensa urbanização. Tudo se deu de maneira mais rápida do que o ocorrido nos países centrais. Nestes países a urbanização e a industrialização caminharam de mãos dadas, onde o desenvolvimento de um, estimulava o outro e assim por diante. A combinação dos efeitos gerou uma organização mais equilibrada do espaço urbano. O Brasil (e os outros países da América Latina, porém com intensidades diferentes) experimentou um processo de industrialização e urbanização diferente, em função das influências externas. A crise de 1929 derrubou nossas exportações, principalmente as de café, nosso principal produto. O mercado externo estava fechado pelo travamento das engrenagens econômicas, basicamente movidas ao ritmo da economia dos Estados Unidos. Na medida em que esta parou, o conjunto do maquinário também parou. Restava-nos voltar nossas atenções ao mercado interno, porém o país carecia de infraestrutura, fornecimento de energia e indústrias de base. Foi a partir dos anos 1930, com Getúlio Vargas, que o Estado realizou investimentos no sentido de dotar o país desta base para impulsionar seu parque industrial. Com o término da Segunda Guerra Mundial e a retomada do crescimento econômico, muitas empresas multinacionais dirigiram sua atenção ao Brasil, que já havia iniciado um processo de criação de suporte ao investimento privado industrial. Relações trabalhistas mais claras e contratos mais bem definidos possibilitaram conhecer melhor os custos da mão de obra e projetar as despesas. A classe operária foi tomando forma e se organizando. Os anos 1930 a 1950 marcaram a consolidação do eixo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais como o grande polo de desenvolvimento industrial do país, já iniciado com a transferência de recursos da atividade cafeeira em crise (cujo plantio se concentrava no Estado de São Paulo) para a atividade industrial. Este triângulo econômico se transformou também no triângulo urbano de maior importância, pois aí estão as maiores cidades e o início de sua transformação em metrópoles. Mas os anos 1950 em diante marcaram uma mudança no padrão econômico brasileiro com reflexos muito grandes no espaço urbano. Com a entrada de empresas multinacionais houve a ocorrência de um fluxo migratório muito grande de moradores das outras regiões, especialmente do Nordeste, pois a demanda de mão de obra barata era muito grande. Este processo gerou um incremento populacional gigantesco e as cidades foram recebendo estes novos moradores na periferia, muitas vezes em áreas morradas, pantanosas, distantes do centro, etc., onde o preço do m² era mais acessível. A taxa geométrica de crescimento populacional apontava índices estratosféricos. A fisionomia das paisagens explicitava uma realidade de vida bastante cruel para estes trabalhadores: autoconstrução, favelas, cortiços, moradias multi familiares, casas insalubres, falta de serviços básicos de infraestrutura, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, ruas mal iluminadas, etc. O ritmo de crescimento das cidades do Sudeste era alucinado, mas em total sintonia com as necessidades do capital, que demandava cada vez mais mão de obra. Ainda sobre os efeitos da expansão fordista na segunda Revolução Industrial, o crescimento econômico ainda se pautava pela oferta de novos postos de trabalho. A partir das colocações acima percebemos que o processo de desenvolvimento industrial e crescimento urbano do século XX tiveram forte influência de condicionantes externos. As necessidades de expansão do capitalismo do pós-guerra incorporaram parcelas significativas dos territórios dos países periféricos no processo de produção geral do sistema e isto, por tabela, provocou uma expansão urbana acelerada. O Brasil foi fortemente influenciado por esta tendência. Aula 13_Indústria e espaço urbano no Brasil II Os anos 1970 marcam uma inversão de papéis. Enquanto o mundo experimentava uma nova crise econômica, a partir das dificuldades econômicas dos EUA, o Brasil vive o período de seu milagre econômico. A crise que afetou as economias desenvolvidas nos anos 1970 estava relacionada ao excesso de dinheiro em circulação no mercado. Havia muitos mais dólares em circulação do que em reservas de valor, o que representava uma perda de valor da moeda norte-americana. Por outro lado esta massa de dinheiro significava a oferta de empréstimos a preços mais acessíveis.Foi o que os governos militares brasileiros fizeram: lançaram mão de empréstimos muito grandes para implantar no país projetos de grande visibilidade. O golpe militar em 1964 partia do princípio da exaltação da nacionalidade brasileira e da necessidade de construção de um “país do futuro”. A repressão às oposições e o controle da mídia, aliado a uma política de grandes obras, provocou um rearranjo dos fluxos populacionais no Brasil, que apontavam para uma desconcentração do sudeste. A construção de Brasília, projeto efetivado anteriormente ao período militar, mas de concordância destes, já havia provocado uma forte atração de população em direção ao Centro-Oeste. Nos governos militares podemos acrescentar, ainda, a política de ocupação da região Norte. A intenção deliberada em povoar grandes áreas no centro, norte e oeste do país, basicamente no domínio dos Cerrados e da Floresta Amazônica, denotando uma preocupação em evitar a presença estranha nestas terras. Apesar do forte crescimento econômico nos anos 1970, a distribuição destes ganhos foi muito pequena, bem como a oferta de serviços públicos à população mais carente que estava nas cidades. Neste período observamos que o padrão de ocupação das cidades brasileiras estava marcado por dois caminhos diferentes, mas associados: a) Primeiro pela manutenção da concentração de população nos grandes centros urbanos, nas regiões metropolitanas, que em grande oferta teria seu preço reduzido, beneficiando principalmente as grandes empresas multinacionais; b) Pelo estímulo à ocupação das faixas de terras mais despovoadas do país, como parte da ação geopolítica dos governos militares. Do ponto de vista territorial é possível enxergar um maior adensamento na faixa litorânea e um maior espalhamento em direção ao Cerrado e a Amazônia. Aula 14_Indústria, espaço urbano e os movimentos sociais no Brasil Os anos 1980 em diante marcam mudanças significativas no mundo do trabalho e na organização econômica do Brasil, com profundas consequências no meio urbano. O milagre econômico se esgota enquanto política de financiamento do Estado, a partir do endividamento externo. As torneiras do empréstimo se fecharam e o endividamento atinge um patamar insustentável. A crise da dívida externa bate na porta dos países latino-americanos que, insolventes, decretam moratória. A capacidade de contrair novos empréstimos nas agências e bancos internacionais se reduz drasticamente, ao mesmo tempo em que a dívida externa sugava das economias nacionais os seus saldos econômicos, resultando em maior aperto. Desemprego, queda no poder aquisitivo, precarização das condições de trabalho eram os efeitos desta conjuntura no cotidiano dos trabalhadores. Ao mesmo tempo em que a crise conjuntural apertava os cintos, nos subterrâneos começava a ganhar corpo um novo modelo de produção, denominado de reestruturação produtiva. O modelo fordista de produção em série estava em crise, e a reestruturação produtiva se colocava como a mola mestra de um novo período de acumulação de capitais. A reestruturação produtiva se baseia numa nova territorialidade da produção. Em outras palavras, as gigantescas unidades fabris passam por uma redefinição de suas plantas industriais, diminuindo seu tamanho em função das novas tecnologias que reduzem a demanda por espaço e pelo menor emprego de mão de obra. Observa-se também a ocorrência de uma dispersão territorial destas mesmas unidades. Embora diluída pelos quatro cantos do mundo, buscando as melhores condições em cada uma delas, a reestruturação produtiva provoca uma redistribuição espacial, gerando o fechamento de fábricas num ponto e nem sempre a reabertura em outro. O que muitos chamam de esvaziamento industrial na verdade é uma readequação das necessidades do capital produtivo, objetivando reduzir seus custos e um melhor posicionamento na competição global. Obviamente que esta redefinição de objetivos estratégicos tem um preço muito caro para os trabalhadores. Se nos anos 1980 a crise da dívida reduziu as expectativas de crescimento econômico e provocou efeitos nefastos para eles, nos anos 1990 em diante, com a reestruturação produtiva, o quadro geral não se alterou. Muito ao contrário, com ela aplicaram-se políticas de estado mínimo, popularmente conhecidas como neoliberais. As privatizações, a desregulamentação econômica, os cortes nos direitos trabalhistas e previdenciários, dentre outros, propiciavam uma redução do peso do Estado na economia e uma maior liberdade de circulação dos capitais. Do outro lado da linha estavam os segmentos mais pauperizados da sociedade, vítimas das mudanças no mundo do trabalho e, agora também, desassistidos das políticas públicas. A fragilidade nos serviços públicos se materializa em sucessivas crises que aparecem e reaparecem como problemas insepultos. No campo da educação, segurança pública e saúde pública, talvez estejam os exemplos mais bem acabados deste quadro de precariedades. Os movimentos sociais urbanos, de maneira genérica, explodem nas grandes cidades, principalmente, como resposta a falta de assistência. As metrópoles caracterizam-se por sucessivos conflitos nutridos pela sensação de abandono, pela carência de serviços públicos de qualidade e pela humilhação que a condição e pobreza impõem. Aula 15_Espaço urbano e capitalismo Com a decadência do feudalismo e sua superação pelo modo de produção capitalista, ocorreu concomitantemente ao renascimento das cidades e das funções urbanas. É verdade que o comércio nas cidades feudais sempre existiu e elas não desapareceram, mas como pudemos estudar na unidade anterior, em especial nas últimas aulas, o espaço urbano ficou limitado às necessidades da economia rural, predominante no período medieval. Já nos séculos X e XI ocorrera a reabertura dos portos europeus do mar Mediterrâneo, antes sob domínio árabe e interditados para o comércio. Tal fato reacendeu, mesmo que de forma tímida, a chama da atividade comercial. Ao mesmo tempo a reativação do comércio começou a privilegiar os burgos à beira dos rios e das estradas, provocando um crescimento populacional que extravasou a ocupação das antigas fortalezas. A expansão das cidades burguesas foi ganhando corpo em pleno período medieval, dentro de suas próprias entranhas. Tudo ainda muito insípido, mas de maneira promissora. Na medida em que os Estados nacionais não estavam ainda estruturados e a rede de proteção havia sido desarticulada com a falência dos impérios, em especial o Romano, a expansão da atividade comercial requisitava para o seu pleno e satisfatório funcionamento, o estabelecimento de formas de segurança que garantissem os fluxos de mercadorias em direção aos seus destinos. A questão da proteção, já estudada na unidade anterior e que servira de base para o surgimento das cidades, volta à tona. É justamente a garantia de funcionamento das trocas de mercadorias, a partir da intensificação do comércio ultramarino, que estimulou à retomada da importância do espaço urbano no novo contexto histórico que se desenhava na Europa. As cidades passaram a atrair novamente massas de populações pelas perspectivas que se abriram: comércio intenso, novidades no consumo, variedades de produtos, empregos mais diversificados, oportunidades de negócios, etc. O mercantilismo impulsionou o comércio e lançou as bases do desenvolvimento industrial e urbano que se seguiu nos séculos seguintes. E é justamente a atividade comercial, incentivadas pelas grandes navegações e a entrada de uma numerosa variedade de novos produtos no mercado europeu (especiarias, temperos, condimentos, fibras, dentre outros) que deram um início mais realçado à derrocada do sistema feudal. A produção artesanal e a acumulação de riquezas também agiram no sentido de promover a ruptura da economia feudal. No primeiro caso, diante da formação de corporações de ofício que reuniam produtores dispostos a atender a crescente demanda das emergentes cidades. No segundo caso, a concentração de riquezas se dava diante da ascensão da burguesia como classe dominantee diretamente interessada na expansão dos fluxos comerciais, fonte maior de seus lucros. O processo de decadência do feudalismo e ascensão do capitalismo se deu de maneira concomitante, onde o segundo se nutria das próprias contradições internas do primeiro. É interessante notar que a sedimentação do capitalismo como produção dominante foi, aos poucos, transformando também as relações de produção no campo: a terra transformou-se em mercadoria e surgiu a figura do arrendatário. Os Senhores Feudais que fundaram este grupo cederam suas terras a terceiros mediante o pagamento de um valor previamente estabelecido. O arrendamento foi uma forma de acesso a terra pelos produtores, garantindo a manutenção da propriedade privada e servindo também para atender a demanda crescente das cidades por matérias primas e produtos primários. Como decorrência deste processo um crescente êxodo rural foi se firmando como característica essencial da crise do sistema feudal. Ao mesmo tempo, as massas de trabalhadores assalariados que se aglomeram nas cidades transformaram-se em mercado consumidor e mão de obra barata para a indústria nascente. Verifica-se neste processo a retomada também da usura, antes repudiada veementemente pela doutrina cristã, que passou, então, a ser largamente utilizada como forma de acesso ao crédito e expansão do consumo. Este novo quadro econômico e político provocou a consolidação das cidades como espaço privilegiado da reprodução do capital. Aula 16_A organização do espaço urbano Já abordamos no início do curso que as cidades são marcadas pelo adensamento, pela concentração de casas, pelas vias de circulação, edifícios, prédios públicos, etc. Esta é uma marca inquestionável de sua fisionomia. Observemos a situação de uma grande cidade. Um exercício elementar de descrição visual da paisagem das grandes cidades propicia identificar características que representam marcas peculiares, próprias dela. A cidade de São Paulo, por exemplo, possui cerca de 12 milhões de habitantes, o que a coloca entre as maiores do mundo. Mas o que vemos e conhecemos dela hoje é o resultado de séculos de transformações ocorridas nos mais diferentes momentos históricos, conclusão que pode ser aplicada a todas as formas de organização espacial. Em cada período da formação das cidades observou-se certo grau de evolução das forças produtivas, em outras palavras, significa dizer que o espaço construído respeita o limite imposto pela evolução da técnica naquele momento. Na construção civil isto é muito fácil de ser percebido na atualidade: prédios comerciais novos devem ser projetados levando em consideração a presença de fiação para conexão na internet, coisa que há uma década atrás não se colocava como exigência. Tal constatação nos leva a outra. As formas com que a cidade foi se sedimentando no espaço (construções) são adequadas ao momento de sua produção e, com o passar do tempo, novas formas foram incorporadas, sendo adequadas especialmente ao momento seguinte, e assim sucessivamente, transformando a cidade num cemitério de esqueletos construídos que denunciam o seu passado aos transeuntes mais observadores. Ao longo do tempo, embora a sociedade crie e recrie formas diferenciadas de organização, a cidade consolida materialmente cada um destes momentos nas construções próprias do período. Por isso é necessário tombamento de prédios antigos, representativos da época em que foram erguidos. Esta é a identidade da cidade. Formas velhas dividem posições com as novas formas, evidenciando que o processo civilizatório está em marcha e a cidade o registra. Apontamos acima a conexão com a internet e a imposição de um novo padrão construtivo que dela dê conta, mas podemos ir além e citar um outro exemplo mais abrangente: a introdução do veículo particular no deslocamento humano. Pare para pensar no quanto da cidade está direcionado para atender as demandas pelo transporte particular. As casas mais antigas não possuíam garagens e, quando elas começaram a fazer parte das casas, ficavam do lado de fora. Com o passar do tempo, ampliaram-se em mais um cômodo para que pudesse abrigar um segundo ou terceiro veículo. A diferença do valor de imóveis similares e próximos, devido à presença de uma ou mais garagens, é bastante significativa. O automóvel na sociedade capitalista não apenas significa um meio de locomoção rápido e veloz, ele é muito mais do que isso. Ele representa um símbolo de consumo, status e posição social para os seus proprietários. Esta condição impõe uma formatação da cidade totalmente adaptada a ele. Mais do que isso, submissa à ele. Observamos desta forma que, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura a partir das condições locais (relevo, oferta de água, disponibilidade de terras, posição privilegiada, proximidade de rios, mares, lagos e oceanos, condição de defesa contra ataques de inimigos, dentre outros). Ela também se relaciona diretamente com as cidades do seu entorno, outras mais distantes e outras em outros países. Basta observar que a opção pelo transporte individual foi feita por outras nações (mais ricas) e as cidades brasileiras se adaptaram também. O caso de Brasília, cidade planejada, é exemplar neste sentido, assunto que abordaremos na última unidade desta disciplina. Sendo assim, é necessário concluir que o desenvolvimento dos processos históricos gerais se realiza sempre levando em consideração as características próprias do espaço geográfico, suas formas, condições, estrutura, meio ambiente, população, etc. Aula 17_A produção do espaço urbano Se a cidade se organiza, historicamente, sedimentando formas que representam momentos passados de sua existência, a produção do espaço passa pela dinâmica atual de criação do valor agregado a ele, gerado pelo trabalho social. Explicando melhor, na sociedade capitalista todos os bens gerados pelo trabalho transformam-se em mercadorias, inclusive a mão de obra. Trabalhadores são comprados e vendidos no mercado de trabalho por um determinado preço, que é o seu salário. Este varia de acordo com a lei da oferta e da procura, sofrendo queda em seu valor na medida em que mais trabalhadores estão à disposição ou a elevação caso haja falta na oferta. Assim como qualquer outra mercadoria o valor do trabalho se sujeita aos ditames do mercado. A diferença é que, neste caso, estamos tratando de gente que precisa de renda para poder satisfazer suas necessidades básicas e de sua família. Como os rendimentos em geral são insuficientes para a manutenção de forma digna de grande parte dos trabalhadores, as cidades incorporam à sua paisagem as moradias precárias, conhecidas por favelas, palafitas, cortiços, moradias multifamiliares, dentre outros. Uma questão central neste debate é que a multiplicação da forma de mercadoria no capitalismo, apontada em parágrafos anteriores, engloba a terra urbana e, para se satisfazer a necessidade de habitar, uma quantia deve ser obrigatoriamente desembolsada para se ocupar um lugar na cidade. Evidentemente a terra urbana não tem a mesma função e nem está submetida à mesma dinâmica de valorização que a terra do campo. Esta tem seu valor definido por fatores que exaltam sua produtividade e localização, principalmente, uma vez que seu papel é gerar excedentes demandados pela cidade, é produzir mercadorias que dependem diretamente de seus atributos naturais. No caso da terra urbana, sua valorização depende de outros fatores, uma vez que ela participa da criação geral de valor na sociedade de outra forma, não produzindo bens diretamente, in loco. O alto valor do metro quadrado na Avenida Paulista, em São Paulo (espaço de negócios), não se define pela fertilidade da terra, nem tampouco pela sua localização pontual, mas seu valor é o resultado de um complexo conjunto de fatores que se combinam e são determinados pelo mercado. Para ajudar nesta reflexão observe que um terreno vago, bem localizado, pode sofrer uma valorização do seu metro quadrado mesmo que seu proprietário nada invista nele durante certo tempo. Basta que seu entorno sofra alteraçõespositivas que provoquem uma valorização das terras que ele será beneficiado por extensão. Para compreender de maneira geral como ocorre a valorização de um espaço, listamos algumas condicionantes que interferem em sua definição, para tanto utilizaremos o exemplo acima, da Avenida Paulista. Em primeiro lugar é preciso dizer que a Avenida está em São Paulo, o que de pronto já impõe condições de valorização próprias. Em segundo lugar é preciso identificar espaços que concentram investimentos e se relacionam com os setores mais dinâmicos da economia capitalista (hoje a Paulista, ontem a Praça da República). Em terceiro lugar as facilidades locais para a ampliação dos contatos, expansão nas comunicações, atendimento ao cliente, disponibilidade de capitais, acesso à rede de serviços, instalação de infraestrutura e, sem dúvida, a influência da publicidade em associação aos construtores, no sentido de criar um ambiente atrativo. Além disso, existem outras condições que, superpostas a estas, contribuem diretamente na criação de um gradiente de valores diversificados e multifacetados na cidade. Os espaços destinados à moradia também possuem uma dinâmica própria de valorização, os espaços públicos, a presença de fábricas, a malha de transportes e os intermodais, todos os fatores que de uma forma ou de outra, acabam por interferir nesta complexa teia que se estende pela cidade. O que se pode concluir das afirmações acima é que, em um sentido mais amplo, a cidade incorpora grandes parcelas de trabalho que lhe dão valor, e este se distribui de forma diferenciada no espaço, gerando áreas de maior e de menor valorização, de acordo com os interesses e necessidades do capital. As carências da periferia expressam a segunda condição, as mansões nos condomínios fechados, a primeira. Assim como as mercadorias em geral possuem um valor de uso e de troca, as formas da cidade (sua parcela construída e suas terras) também o possuem. O valor de uso seria a condição de útil que um bem possui (morar, produzir, praticar o lazer, comprar produtos e serviços etc.), e o valor de troca seria a condição de permuta que ele encerra (receber dinheiro por sua cessão). É por isso mesmo que o mercado imobiliário é tão dinâmico e está presente em todos os lugares, pois a valorização do espaço decorre de investimentos privados e públicos. Aula 18_A moradia como condição da existência A terra urbana é um bem que tem valor, pois seu preço é determinado pelas condições gerais de produção da cidade, como apresentamos na aula anterior. Quando a terra possui esta condição, significa dizer que é preciso, na sociedade capitalista, desembolsar recursos para poder morar. A legislação federal que determina o valor do salário mínimo aponta que seu cálculo deve ser realizado levando-se em conta as despesas diárias dos trabalhadores adultos com vários itens, dentre eles, a moradia. Isto significa que o valor desembolsado por um trabalhador deve ser considerado na determinação do piso nacional de salário, ou o salário mínimo. Como a terra urbana participa do jogo da lei da oferta e da procura, ou seja, está submetida às regras de mercado, seu preço representa um determinado valor médio pelo qual a sociedade está disposta a pagar pelo seu uso. Terras mais bem localizadas e com maior procura possuem um valor de metro quadrado mais caro e, ao contrário, aquelas cuja procura é menos intensa possuem um valor inferior. Como morar não é uma atividade humana fracionável, ou seja, que se possa satisfazer em apenas alguns dias da semana, ela obriga o dispêndio de valores permanentes para a sua realização. Isto significa que, como boa parte da população, especialmente nos países dependentes, vive com rendimentos muito baixos, a sua condição de moradia torna-se bastante precária. De acordo com Arlete Rodrigues (2003): Para morar é necessário ter capacidade de pagar por esta mercadoria não fracionável, que compreende a terra e a edificação, cujo preço depende também da localização em relação aos equipamentos coletivos e à infraestrutura existente nas proximidades da casa/terreno. As moradias insalubres e precárias que dominam boa parte das paisagens das grandes cidades brasileiras, formando favelas e cortiços, expõem esta triste realidade. A cidade de São Paulo, por exemplo, de acordo com os dados do Censo Demográfico 2000, do IBGE, num levantamento da Prefeitura Municipal de São Paulo, apontam que “a população favelada hoje é de 1.160.590 habitantes, distribuídos em 286.954 domicílios, levando-se em conta a média de quatro pessoas por residência. Foram identificadas 2.018 favelas na cidade”. Podemos observar que os números são bastante significativos, embora não seja consensual, pois a definição de população favelada varia muito de pesquisa para pesquisa. Mas o certo é que ela é expressiva. O próprio abastecimento de água e água tratada, a coleta de esgotos e de lixo no Brasil ainda não são serviços universalizados. Estas condições tornam ainda mais precárias o modo de vida das pessoas de menor renda que habitam as cidades. Aula 19_O vazio e a concentração urbana Uma das características essenciais na definição do que é uma cidade é a concentração de pessoas e edificações num ponto restrito do espaço. A cidade de São Paulo, por exemplo, possui aproximadamente 12 milhões de habitantes disputando uma área de cerca de mil quilômetros quadrados, o que resulta numa densidade demográfica de 12 mil habitantes por km. A área total da mancha urbana da Grande São Paulo (que engloba 39 municípios) representa apenas 2,5 milésimos do território nacional, porém sua população é cerca de 10% do total. Tais dados demonstram o grau de concentração urbana existente. À primeira vista, a cidade parece ser uma massa edificada, profundamente adensada e cujos espaços internos estão totalmente preenchidos, mas não é isto que ocorre, e estes dados precisam ser relativizados em sua análise. Uma investigação mais minuciosa demonstra que existem cerca de 20% desta superfície composta por terrenos vazios, conhecidos popularmente como baldios. Os detentores deste estoque de terras, concentrado nas mãos de poucos proprietários, gozam de um privilégio fantástico pelo bem que possuem. Ao somarmos aos 20% de terras ociosas embutidas na mancha urbana, outra quantidade de edificações vazias, veremos que o nível de adensamento urbano é menor do que a paisagem sugere. Neste caso há estimativas que apontam para um percentual de 20% na Grande São Paulo de imóveis vazios, desocupados. Não fossem eles, o nível de adensamento urbano seria ainda maior. Mas esta condição tem um custo urbano muito elevado. Em primeiro lugar é preciso observar que tais terrenos se aproveitam das vantagens de estar encravados no meio da grande metrópole e, portanto, se beneficiam da valorização geral das terras que ocorre de forma genérica no espaço urbano, conforme aula anterior. Em segundo lugar este estoque de terras provoca uma forte elevação dos preços do metro quadrado em geral e localmente, pela vantagem oferecida de ocupação imediata diante da demanda. Em terceiro lugar, apesar de numerosos no total, estão espalhados ao longo da mancha urbana, transformando-se em objetos de consumo valiosos pela condição de exclusividade que possuem, pois são produtos únicos, e destituídos de duplicidade. Com a verticalização (processo que possibilitou e intensificou o adensamento) ocorreu uma maior valorização dos terrenos vazios, reduzindo o seu preço no custo total da obra. Quanto maior o edifício, menor é o custo do terreno a ser pago pelo comprador do apartamento ou da sala comercial. Outra questão que perpassa esta análise é a constatação de que os terrenos vazios nas cidades não são bens estáticos, ao contrário, eles são produzidos diante da lógica de reprodução capitalista. Há uma dinâmica muito acelerada instalada em meio ao espaço urbano de criação e recriação dos terrenos vazios, viabilizada pelas demolições que repõem o estoque. Neste sentido, o uso do solo passa por modificações significativas, transformando bairrosresidenciais em comerciais, centros em periferia, indústrias em shopping centers e assim por diante. A velocidade da mudança é, hoje, acelerada pelas características do capitalismo globalizado, pois os momentos históricos são superados com maior rapidez, tornando a edificação do espaço geográfico mais fluído. Aula 20_Centro e periferia Algumas teorias sobre o espaço urbano se apoiaram numa lógica que evidenciava um padrão de urbanização na forma de anéis. Em outras palavras, no centro da cidade se localizavam as elites e o comércio principal, e, na medida em que caminhamos para a periferia, uma sucessão de anéis circuncêntricos se formavam basicamente de habitações e de acordo com a renda de seus habitantes. Nos anéis mais próximos do centro estava a classe média e nas faixas mais externas e distantes do centro, os mais pobres. Durante muito tempo este modelo serviu de gabarito na explicação da implantação das cidades e seu crescimento. Mas o passar do tempo derrubou esta concepção de espaço urbano. As cidades já não se orientam por esta lógica na estruturação de seu espaço urbano, e a insistência na sua utilização não ajudará na compreensão dos fenômenos atuais. A cidade de São Paulo é um bom exemplo – novamente – para demonstrar a necessidade de repensar o urbano. O centro velho já não é mais ocupado pela elite, possui áreas degradadas e a proliferação de cortiços. A queda brutal no valor dos apartamentos abriu caminho para a sua ocupação por populações de menor poder aquisitivo, e em alguns casos, até por segmentos totalmente miseráveis, como moradores de rua, mendigos, etc. A elite buscou novos espaços de ocupação, deslocando-se para bairros nobres que concentram casas ao invés de edifícios, como é o caso do bairro dos Jardins. Há ainda a expansão de condomínios fechados que oferecem segurança e serviços, localizados muitas vezes em municípios vizinhos à capital. Pobres no centro, velho e ricos na periferia. Com isso houve um embaralhamento nas teorias que se apoiavam em modelos pré acabados, que perderam seu prazo de validade diante de uma nova realidade que se desnuda e exige novos pressupostos para a sua compreensão. Muitas cidades médias e pequenas ainda mantêm um padrão de ocupação apoiado na lógica tradicional de centro e periferia, mas ela não serve mais para a compreensão do espaço urbano das metrópoles e megalópoles. Muitas cidades grandes no mundo todo estão experimentando este processo de deslocamento das elites para espaços segregados, isolados e muitas vezes até distantes dos centros urbanos com o qual mantém vínculos de trabalho e consumo. Tal processo é mais acentuado nos países pobres onde as disparidades de renda se expressam de forma gritante. Aula 21_A fase monopolista do capitalismo O desenvolvimento do sistema capitalista não se deu de forma homogênea nos últimos séculos, nem no espaço geográfico, nem em suas bases de reprodução. Sua primeira fase e surgimento se deram através da expansão comercial e a obtenção de lucros com a troca de produtos. A fase industrial (tema da unidade II) colocou a produção nas mãos da burguesia, a classe dominante que antes dispunha basicamente do comércio como fonte de riqueza. Neste processo de constituição e reconstituição permanente das bases do sistema, alcançamos o momento atual demarcado pelo predomínio do capital financeiro que movimenta cifras gigantescas todos os dias, apoiado na especulação e no capital virtual. Ao longo do tempo os ganhos do capital (lucratividade) foram bastante intensos e geraram massa de recursos que precisavam ser aplicados para poder gerarem rentabilidade aos seus proprietários. Ocorre que o investimento produtivo tem limites próprios, uma vez que a capacidade de consumo das massas de trabalhadores é limitada. Não se pode produzir, por exemplo, automóveis infinitamente, sem limites, uma vez que o mercado consumidor é restrito. Parte dos capitais acumulados se direcionou para as atividades financeiras especulativas. É importante lembrar que a rentabilidade somente se manteve diante da monopolização que se instalou no seio do sistema. De outra forma podemos dizer que a competição entre os capitalistas provocou uma queda crescente nas taxas de lucro, diante da necessidade de ganhar mercados e vender mais barato e com melhor qualidade. Milhares de pequenos e médios produtores se engalfinhavam no período concorrencial do capitalismo, buscando um “lugar ao sol” e tentando sobreviver num mercado muito competitivo. Com o passar do tempo aqueles que sobreviveram e conquistaram sua fatia no mercado, passaram a adquirir parte ou o todo das companhias menores que não conseguiam enfrentar empresas de maior porte e com maior capacidade de sobreviver aos sobressaltos do mercado. As crises econômicas serviam de peneira para selecionar os mais resistentes e deixar escapar da malha os menos capazes de enfrentar a concorrência. Outros mecanismos ainda eram utilizados no sentido de dificultar a vida dos mais fracos, como reduzir preços a níveis bem baixos, realizar acordos de divisão de mercados, concorrência desleal, espionagem e cópia de produtos etc. Na medida em que as grandes empresas possuem uma capacidade mais elevada de superação das crises e enfrentamento da concorrência, vão sobrevivendo e engolindo as menores empresas. Tal processo concentra os capitais, provoca fusões, promove aquisições num sentido de fortalecer ainda mais os grandes capitalistas. A fase monopolista é um resultado natural da concentração dos capitais em poucas empresas, gerando o domínio quase absoluto de segmentos inteiros do mercado consumidor. Comunicações, entretenimento, hardware e software, automobilístico, aviação, armamentista etc., são alguns destes segmentos oligopolizados. Este quadro econômico tem seus efeitos na estruturação do espaço urbano. Um deles é a concentração de poderes e capitais em um número restrito de centros financeiros e produtivos do mundo, caso que estudaremos na aula seguinte. Aula 22_A urbanização no capitalismo atual Os efeitos da fase monopolista do capitalismo sobre o espaço urbano são muito grandes. O sociólogo Manuel Castells aponta três formas com que ele se manifesta: a) O crescimento das metrópoles e a descentralização da produção, do consumo e da gestão. Observa-se na atualidade a existência de grandes centros de produção e consumo que provocam o aumento das áreas metropolitanas; b) As disparidades salariais estabelecidas entre os mais bem remunerados e os menos. Isto decorre de uma redução do número de capitalistas em relação maior ao de assalariados, além da exigência de maior qualificação, criando uma classe de especialistas; c) Por fim a centralização do poder de decisão. Se ao mesmo tempo em que a produção, o consumo e a gestão se dispersam, a decisão sobre eles se concentra, criando uma falsa impressão de melhor divisão do poder; O crescimento das metrópoles é um processo que se concretiza de forma crescente nas últimas décadas, e aponta para um maior incremento populacional especialmente das metrópoles dos países pobres. O sudeste asiático tem apresentado os resultados mais significativos neste sentido. A descentralização da produção, consumo e gestão indicam uma necessidade de aproveitamento maior das condições mais favoráveis de produção, leia-se: menores custos. A cidade de Bangalore na Índia, por exemplo, é hoje um dos maiores centros de produção de software do mundo, em função das condições locais (investimento em educação pública superior por parte do estado Indiano e investimentos privados pelas transnacionais da área). Há décadas atrás era impensável transferir setores produtivos de alta tecnologia em direção aos países periféricos. Com relação ao segundo item, observa-se que o consumo de mão de obra na esfera produtiva, vem passando por mudanças estruturais de forte impacto nas grandes cidades. A introdução do componente tecnológico de forma ampliada na produção tem gerado uma redução alarmante no emprego de mão de obra, gerando grave crise social e agravando oquadro das moradias precárias que abordamos em aulas anteriores. Na medida em que se exige uma formação cada vez mais qualificada para os trabalhadores, o que Castells denomina de especialistas, o mercado não absorve a todos, gerando uma falsa expectativa de que a formação por si abre portas. Tal fato explica a expansão do ensino superior privado em grandes proporções nas duas últimas décadas. O que se observa na atualidade é a criação de um novo segmento no mercado de trabalho: os desempregados semi qualificados ou qualificados. Na terceira forma aparece delineada uma característica que acompanha o capitalismo desde seus primórdios, que são a centralização e a concentração do poder político. Apesar dos investimentos se dirigirem para o mundo periférico, de empresas se instalarem em localidades de grande concentração de pobreza, do alcance dos produtos mais sofisticados e modernos aos mercados dos países subdesenvolvidos, lançados muitas vezes simultaneamente em várias partes do mundo, o capital enxerga a existência de espaços vitais para a tomada de decisões. Não há uma distribuição equitativa do poder pelo mundo. Ele continua centrado principalmente nos EUA, acompanhado pela União Europeia e Japão, que não por coincidência constituem o G7,grupo dos países mais desenvolvidos do mundo e que se reúnem periodicamente para definir suas metas de ação política global. Enfim, mesmo do ponto de vista econômico e político as relações entre o mundo rico e pobre são ainda bastante desiguais. Veremos na aula seguinte com mais detalhes como se dão estas relações, e quais seus efeitos sobre o espaço urbano. Aula 23_Desenvolvimento desigual e combinado Por longo tempo associou-se a industrialização com o desenvolvimento econômico. Uma das explicações para o subdesenvolvimento era a inexistência de um parque industrial amplo e diversificado nos países mais pobres e que, com a superação desta condição ocorreria automaticamente a entrada no seleto grupo dos países ricos. O que se verificou na prática foi que tal processo não aconteceu. Muitos países subdesenvolvidos se industrializaram como é o caso do Brasil e outros (Argentina e México, para ficarmos na América), e o nível de desenvolvimento econômico não foi alterado substancialmente, em especial no que se refere às condições sociais da maioria de suas populações. A industrialização provocou, sem dúvida, mudanças nas estruturas sociais e na organização da ordem econômica. O Brasil se urbanizou, principalmente, após a segunda Guerra Mundial, quando um grande conjunto de empresas multinacionais se deslocou para cá, atraindo massas de trabalhadores migrantes, especialmente para a região Sudeste, que recebeu a maior fatia dos investimentos externos. Na realidade o crescimento industrial não se transformou em desenvolvimento social por vários motivos: a) Grande parte dos lucros obtidos era remetida às matrizes destas empresas, localizadas em geral no mundo rico, descapitalizando o país pela exportação de capitais. A riqueza aqui gerada era realizada em outros territórios; b) As decisões mais importantes destas empresas eram tomadas fora daqui, o que significava um descompasso entre os projetos nacionais de desenvolvimento e os interesses particulares delas; c) Muitas vezes estas empresas se aproveitavam das facilidades e vantagens aqui obtidas para apenas produzir, pois o consumo do produto se dava em outros mercados; d) Os níveis salariais praticados nos países pobres eram bem inferiores aos de suas sedes ou de outras unidades nos países ricos; Para completar o quadro é importante frisar que o subdesenvolvimento não é um estágio, nem tampouco um degrau para o desenvolvimento. Não representa uma etapa simplesmente, porque a história não se faz linearmente. Não vivemos numa sociedade de caminhos predefinidos e que basta cumprir as obrigações exigidas internacionalmente para nos tornarmos desenvolvidos. Esta ideia, aliás, alimentou outras tantas desprovidas de sentido teórico e prático. Uma delas é que o Brasil possuía uma população muito grande e que o controle da natalidade seria o caminho para superar nossas dificuldades. A base das diferenças se localiza na relação entre as nações, provocando o que se define como desenvolvimento desigual e combinado. Há no planeta uma hierarquia entre nações, apoiada no papel de cada um na divisão internacional do trabalho. Alguns países concentram um poder de decisão maior do que outros, colocando-os em posição subordinada. Mesmo que nosso parque industrial tenha se diversificado e ampliado nosso papel nesta divisão internacional, seu papel ainda é o de funcionar economicamente de maneira a complementar as necessidades dos países ricos. Vejamos o caso da soja e do etanol no Brasil. A soja é o nosso principal produto de exportação na atualidade, que tem como principal destino os países europeus e a produção de alimento ao gado. Basta uma mudança nos padrões de alimentação dos animais, como por exemplo, a descoberta de novos produtos mais eficientes para a engorda, que perderemos este mercado essencial para a nossa obtenção de divisas. Ressalte-se ainda que as possibilidades que o mercado de exportação de soja oferece, provocam a ampliação da área cultivada e o consequente desmatamento de novas parcelas da floresta na Amazônia. Se a defesa ambiental é uma política de governo, ela se coloca em segundo plano diante das necessidades econômicas. Aula 24_A homogeneização das paisagens Um dos efeitos mais marcantes no espaço urbano, com a consolidação da fase monopolista do capitalismo, é a uniformidade das paisagens urbanas. Como indicamos em aulas anteriores o capitalismo experimenta um período marcado pela concentração dos capitais em poucas empresas, que possuem um poder político e econômico muito significativo. Tais empresas dominam segmentos do mercado em nível mundial e seus tentáculos alcançam grandes parcelas do território do planeta. As marcas destas empresas se tornam mundiais pelo alcance dos mercados para seus produtos. Além disso, não se trata apenas da simples operação de venda, mas sim de oferecer um modo de vida, de determinação de um comportamento. Os consumidores adquirem mais do que uma mercadoria para satisfazer sua necessidades, estão comprando bens que o transformam em seres universais. A presença de determinadas marcas em várias cidades do mundo (estas serão abordadas ao final desta unidade), a homogeneização do consumo, a padronização de comportamentos, a estruturação das cidades ditada pela imposição do automóvel, dentre outros, são fatores que provocam uma homogeneização das paisagens urbanas. A publicidade exaustiva que aflora nas paredes de prédios, em outdoors, nas fachadas de casas comerciais, em painéis eletrônicos, nos ônibus, enfim, onde ela puder aparecer, denota uma padronização do visual urbano espalhada em boa parte do planeta. A sensação de estar em casa, cria uma proximidade entre os produtos globais e os consumidores. Torna-se uma forma de linguagem, de comunicação entre as pessoas. A realização da Copa do Mundo na Alemanha em 2006, como um evento global, evidenciou que são raras as marcas de produtos expostas pelas redes de televisão, que não conhecemos aqui no Brasil. Uma passeada pelas ruas e avenidas nas cidades alemãs que receberam jogos da copa, mostra que o lugar não é tão desconhecido e, apesar da distância, temos certa familiaridade com o local. A expansão do comércio em escala mundial, constituindo o que definimos de maneira genérica como globalização, acabou por complementar este processo emplacado com a constituição da fase monopolista do capitalismo. Para as empresas é profundamente desejável que as pessoas identifiquem suas marcas com seus produtos, facilitando o consumo em escala global. Existem inclusive concursos e premiações, promovidos pela mídia, anunciantes, empresas de publicidade e marketing, para identificar as marcas mais conhecidas e os produtos mais famosos. Na medida em que a tendência à concentração dos capitais em poucas (mas muito fortes)empresas se mantém, espera-se que as paisagens urbanas também mantenham seu visual padronizado. Aula 25_As Metrópoles As cidades são espaços privilegiados do desenvolvimento do capitalismo e, portanto, elas assumem uma condição fundamental de viabilizar a reprodução ampliada do capital, ou de outra forma, é nela que os capitalistas encontram as condições necessárias para seus investimentos, seus negócios e obter lucros. Os efeitos deste processo acabam por se refletir no tamanho e no porte das cidades. Suas dimensões, em geral, são proporcionais ao fluxo de capitais que por ela passa e, na medida em que a dinâmica de reprodução se desenvolve de maneira ampliada, pois a busca pelo lucro é permanente e crescente, algumas cidades ganham proporções gigantescas, denominadas de metrópoles. Um dos fenômenos que contribuem para a sua existência é a conurbação, que significa uma unificação física das manchas urbanas de cidades vizinhas, até o ponto em que se torna difícil distinguir os limites entre elas. Normalmente uma capital ou uma cidade mais importante acaba por polarizar este processo e se constituir no centro principal de atração. O caso da Grande São Paulo ilustra bem esta situação, onde a conurbação misturou as manchas urbanas de Osasco, Guarulhos, grande ABC, dentre outras cidades do entorno da capital. As metrópoles são então grandes espaços urbanos que aglutinam populações numerosas tanto nos países centrais, como Nova York (Estados Unidos), Paris (na França), Londres (Inglaterra), Tóquio (Japão) como nos países periféricos como Buenos Aires (argentina), Cidade do México (México), Pequim (China), Nova Déli (Índia), centre outras. Em geral as metrópoles polarizam parcelas do território mais amplas do que a conurbação pode sugerir, dado o fluxo de capitais em circulação que tem nela uma base de apoio. A grande São Paulo, por exemplo, exerce sua influência sobre vastas porções do território brasileiro, especialmente nas regiões sudeste, sul e centro-oeste. A oferta de crédito à produção no campo, a centralização das vias de circulação, a criação de novas tecnologias aplicadas, o direcionamento da produção a partir de suas demandas, são alguns dos fatores de influência da metrópole sobre estas áreas. A organização do espaço rural segue uma lógica determinada pelas demandas das metrópoles, que ditam as regras de sua estruturação: ocorre um processo de industrialização do campo. A redução significativa da produção de subsistência no espaço rural brasileiro é um destes efeitos sofridos a partir da expansão das relações capitalistas de produção no campo. Esta se desenvolve a partir do trabalho assalariado, da expansão do agronegócio, da monocultura de exportação, dentre outras formas mais adaptadas aos seus interesses. Por isso é importante entender que a expansão do capitalismo não provocou mudanças apenas na estrutura urbana e em seu funcionamento, mas também levou a um novo patamar no relacionamento entre cidade e campo, onde a primeira determina o ritmo e as condições em que a produção na segunda se dará. Além disso, as metrópoles também exercem sua influência sobre outras cidades abrangidas pelo território por ela polarizado, pois suas decisões derramam seus efeitos sobre ela. De acordo com Maria Sposito (2005): A cidade (...) é o lugar da gestão, das decisões que orientam o desenvolvimento do próprio modo de produção, comandando a divisão territorial do trabalho e articula ligação entre as cidades da rede urbana e entre as cidades e o campo. Determina o papel do campo neste processo, e estimula a constituição da rede urbana. Aula 26_Megalópoles: as cidades mundiais O fenômeno urbano atingiu um patamar de importância bastante elevado na atualidade para o desenvolvimento do capitalismo. As grandes cidades concentram parques industriais modernos, cujos componentes tecnológicos são cada vez maiores, serviços sofisticados são oferecidos aos consumidores, bem como uma rede de comércio que envolve hipermercados, shopping centers e magazines, cuja variedade de produtos em exposição é muito grande. Mas as megalópoles não se caracterizam apenas por estas funções, elas têm sua importância definida pela condição de articuladora das redes mundiais de negócios, são cidades que exercem um papel importante na organização dos fluxos mundiais de capitais, produtos e serviços. Como foi estudado em aulas anteriores o movimento de capitais especulativos no mundo hoje, atingiu patamares expressivos, capitais estes que circulam com grande velocidade, de mercado em mercado, na busca da remuneração rápida, fácil e elevada. Este novo papel estaria relacionado às mudanças nas atividades econômicas nos ano 1980, quando as finanças e os serviços especializados tornaram-se os principais componentes das transações internacionais, em detrimento das trocas de manufaturas. Tal rede de negócios se desloca com grande velocidade, viabilizada pelos avanços na área das comunicações e informática, formando um emaranhado muito denso de circuitos que se cruzam a todo o momento. As cidades mundiais representam os pontos de encontro dessa massa de capitais e de onde se definem as eventuais novas rotas e o novo volume dos recursos em trânsito. Seu surgimento está relacionado à crise do sistema fordista (produção em série) e a nova racionalização dos setores produtivos, que exigem maior mobilidade do capital e liberdade de circulação no mercado consumidor. O Estado sofre um rearranjo em suas funções sob a lógica do neoliberalismo, desregulamentando a economia e ampliando o raio de ação da esfera privada. Desta forma as cidades mundiais – as megalópoles – têm a responsabilidade de articular e dar vazão aos fluxos mundiais de capitais, evitando o menor atrito possível que possa provocar perda de tempo e, por consequência, redução nos ganhos. Elas materializam o ciclo do capital e permitem a realização do lucro a partir dos investimentos. Mas elas não são apenas territórios especiais neste sentido, são também os espaços privilegiados do conflito dado a sua condição de globalizada. Como espaços singulares em importância na rede mundial dos negócios, elas também expressam com maior intensidade, as contradições próprias de um modo de produção profundamente concentrador de riqueza e segregador. As favelas e cortiços, os sem-teto (homeless) presentes no cotidiano denunciam as mazelas do sistema que gera benefícios para um grupo muito restrito no total da população. Os movimentos sociais enxergam nela (corretamente) o centro de suas manifestações culturais e mobilizações de ordem trabalhista e política. Uma passeata na Avenida Paulista tem muito mais repercussão do que a realizada em outra avenida da cidade de menor tráfego, ou mesmo noutra cidade. Apesar dos argumentos de que a ambulância não pode passar ou que os trabalhadores não conseguiram chegar ao trabalho, o fato é que a manifestação atrapalha o circular do capital e reduz suas expectativas de ganho. As cidades globais, diferentemente de outras cidades, arranjam seus equipamentos e organizam sua infraestrutura de modo a facilitar os fluxos, que é o seu papel na divisão territorial do trabalho. Para Friedmann, As cidades mundiais são locais de acumulação do capital internacional, que se revela na presença de setores dinâmicos da economia e na estrutura ocupacional da população. São pontos de destino de um grande número de migrantes estrangeiros ou nacionais e o seu crescimento gera custos sociais que tendem a exceder a capacidade fiscal do Estado. O autor acrescenta a ideia dos fluxos populacionais em direção aos grandes centros urbanos de países desenvolvidos, hoje marcadamente visíveis e que tem nos países periféricos os seus centros de expulsão. Numa outra lógica mais associada à economia urbana Saskia Sassen (1998) destaca o valor territorial das cidades globais. Para ela Os mercados nacionais e globais, bem como as operações globalmente integradas, requerem lugares centrais, onde se exerça o trabalho da globalização. Além disso, as indústrias de informação necessitamde uma vasta infra-estrutura física que contenha nós estratégicos, com uma hiperconcentração de determinados meios. Até mesmo as mais avançadas indústrias de informação possuem um processo produtivo. Enfim, a megalópole hoje assume a condição de articuladora maior da produção e circulação dos capitais em nível global, estabelecendo a ponte entre os setores dinâmicos da economia interna e externa das nações. Aula 27_Brasília: cidade planejada para quem? Brasília, a capital federal do Brasil, é uma cidade nova, planejada e que por isso atrai muitos turistas. Suas formas pensadas, à priori, se sobrepuseram às regras do mercado e isto lhe dá uma condição toda especial. Em nosso país a imensa maioria das cidades se constituiu a partir de núcleos históricos de ocupação humana, muitos inclusive, datam do período colonial, e foram se estruturando a partir de então. A nossa capital tem uma história muito diferente desta. Construída a partir dos anos 1950 para abrigar a nova capital federal, sua localização é bem distante dos grandes centros urbanos, no centro geográfico do país, o que dificulta a mobilização social e a pressão sobre os aparelhos do Estado (principalmente sobre o parlamento e o poder executivo). Brasília não foi erguida a partir de núcleos urbanos existentes, ao contrário, sua construção atraiu para o Centro-Oeste, migrantes em busca de trabalho e oportunidades. Sua função seria a de abrigar o Estado e foi planejada para tal, naquilo que ficou conhecido como Plano Piloto, onde se concentram os serviços públicos, os três poderes e as sedes das empresas estatais. Com o passar dos anos desenvolveu-se toda uma ocupação no seu entorno, uma vez que a parte planejada é tombada como patrimônio histórico e isto impõe dificuldades para a mudança do padrão construtivo. A ocupação foi tão significativa que as cidades que se formaram em seu entorno abrigam numerosos contingentes populacionais, apesar de ser um processo bastante recente. A cidade nos dá uma dimensão muito interessante de um fenômeno marcante do espaço urbano brasileiro. O turismo não vê a pobreza, uma vez que ela se concentra nas cidades satélites que circundam Brasília, e nisto ela é muito parecida com outras tantas cidades no país. Outra questão que merece destaque é que, mesmo planejada, se edificou uma cidade dispersa em extenso território, o que a torna voltada para o automóvel, ainda mais com a precária oferta de transporte público. Não é por outro motivo que Brasília possui um dos mais altos índices de vítimas em acidentes de trânsito no Brasil. Além disso, o comércio e os serviços são originalmente setorizados e dispersos pela cidade. Há o setor de hotéis, de restaurantes, das moradias, dos ministérios, dos sindicatos etc. Esta condição, ao lado de sua formatação territorial, torna o automóvel particular um bem de primeira necessidade, gerando um encarecimento do custo de vida (um dos mais caros do Brasil). Brasília nos mostra que o planejamento por si só, não elimina problemas e nem tampouco é suficiente para atender as demandas sociais. O que faltou mesmo neste projeto foi a consulta popular sobre os reais interesses e necessidades que permearam a obra. Indiscutivelmente, a cidade é atraente e os números do turismo mostram isto. O problema maior é a sua funcionalidade e os custos de manutenção, que são repassados à população, na forma de tarifas de serviços e impostos, encarecendo o custo de vida. Temos aqui outra característica muito comum na gestão urbana do Brasil: a realização de grandes projetos sem a participação popular, fato este agravado pela ocorrência do golpe militar em 1964. É preciso também contextualizar a sua construção. A classe operária brasileira estava adquirindo um grau de consciência mais elevada e os movimentos reivindicatórios estavam mais incisivos. O Brasil recebia novos investimentos externos, aplicados principalmente nas regiões metropolitanas das capitais do Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) aumentando proporcionalmente a concentração de operários. Os temores da participação popular e das agitações promovidas pelo movimento sindical, deram o motivo implícito para o deslocamento da capital. Porém, ao nível do discurso, Brasília levaria progresso e desenvolvimento ao interior do Brasil. Aula 28_São Paulo em questão A cidade de São Paulo tem uma história de formação muito parecida com tantas outras no Brasil. A organização do espaço geográfico atual resulta de condicionantes que datam de um período histórico bastante distante (colonização) e numa condição geográfica peculiar (local de edificação da sede). O núcleo original se instalou no divisor de águas das bacias dos rios Tamanduateí e Anhangabaú. As várzeas serviam ao mesmo tempo como meio de transporte, abastecimento de água e proteção contra invasores. O local servia como ponto de parada para as incursões em direção ao interior e abrigava uma população nativa que aos poucos se miscigenava com os povos imigrantes. Com o passar dos anos a cidade foi se firmando como ponto de passagem numa condição que perduraria séculos até a expansão da lavoura do café, no final do século XIX e início do XX. Com a boa adaptação desta lavoura aos solos de terra roxa (latossolos) e ao clima subtropical quente, predominantes em São Paulo, o interior passou a produzir em larga escala aquele que seria o principal produto de exportações do Brasil durante longas décadas. Os efeitos da expansão desta lavoura no espaço urbano da cidade de São Paulo foram imediatos. Os fazendeiros do café transformariam a Avenida Paulista no seu principal local de moradia, e o centro nervoso da cidade vai se deslocando aos poucos para outro divisor de águas: o espigão que separa as bacias dos rios Tamanduateí e Pinheiros. Por outro lado a cidade vai acumulando serviços de apoio, mão de obra especializada, infraestrutura, sistema bancário e meio de transportes que serviam de apoio à economia do café. A riqueza do chamado “ouro verde” enriqueceu latifundiários e dinamizou a economia do Estado. Os Barões do café se sentiram estimulados a participar da vida política nacional e passaram a disputar o poder. A política do “café com leite” representava uma alternância de poder entre mineiros e paulistas, sendo os primeiros grandes produtores de leite. Com a crise de 1929 (quebra da Bolsa de Valores de Nova York) as exportações de café declinaram e a crise se instalou. Restou investir os capitais acumulados na atividade industrial voltada ao mercado interno, se aproveitando da estrutura já existente. E foi o que ocorreu. São Paulo recebeu uma injeção de capitais e as indústrias se expandiram. A fisionomia da cidade novamente mudou de feição, pois fumegam a todo vapor as chaminés e a cidade fervilhava de gente passando pelas ruas. A classe trabalhadora foi se constituindo e organizando, formando seus sindicatos e associações, levando à frente suas lutas e reivindicações e se tornando sujeito histórico. A atividade industrial criou uma nova dinâmica de reprodução do espaço. O Estado brasileiro, sob o comando de Getúlio Vargas, incentivou o desenvolvimento industrial em duas frentes: injetando recursos na criação de empresas estatais de base e organizando a classe trabalhadora e criando direitos trabalhistas que uniformizassem as regras. O período pós Segunda Guerra Mundial jogou mais potência neste parque industrial em formação na cidade. A vitória dos aliados colocou os EUA à frente do comando da Guerra Fria e na liderança hegemônica do mundo capitalista. A expansão econômica puxou o crescimento dos outros países e o Brasil acabou por receber investimentos externos, num momento em que as empresas multinacionais se espalhavam pelo mundo. São Paulo necessitava de mão de obra em quantidade e os fluxos migratórios de nordestinos garantiram este abastecimento. A cidade sofre uma expansão horizontal e vertical bastante intensa, expandindo os limites da mancha urbana em direção aos municípios vizinhos e provocando a conurbação (assunto já abordado anteriormente). Ao mesmotempo expandem-se as construções de edifícios provocando o adensamento populacional. A cidade se prepara para assumir a condição de cidade global e se inserir no espaço da grande fluidez de capitais que vai tomar conta da economia mundial a partir dos anos 1970. Todo este processo cobra um preço alto daqueles que não conseguem rendimentos suficientes para uma vida digna. Na medida em que a cidade se espraia, os mais pobres vão sendo empurrados para as bordas da mancha urbana, onde a terra é mais barata, mas onde os serviços públicos são mais escassos e de pior qualidade. Os deslocamentos em direção ao trabalho vão se tornando cada vez mais longos e a viagem mais cara. A distância da periferia ao centro pode atingir dezenas de quilômetros a depender do local de moradia (zonas leste e sul, basicamente) Os movimentos reivindicatórios por serviços de asfaltamento, água e esgoto, melhores linhas de ônibus, moradia digna, atendimento na saúde, creches, dentre outros, vão sendo cada vez mais comuns e explicitam que o progresso não é para todos. Na atualidade, São Paulo faz parte do seleto grupo no mundo das cidades globais, o que a torna exigente de novos investimentos públicos e privados para suprir esta condição. O capital cobra o seu preço e exige determinadas infraestruturas que não necessariamente são as prioridades das populações mais carentes. Assim como todas as outras cidades do mundo capitalista, São Paulo vive cotidianamente esta contradição. Assim como todas as outras, é o espaço do conflito. Aula 29_O Estado e o urbano: Manaus Nos dois casos analisados anteriormente, observamos duas experiências bastante diversas da realidade urbana brasileira: uma cidade nova, planejada e criada com uma finalidade específica e uma cidade histórica, que remonta aos tempos do Brasil colônia e que foi edificada à luz das necessidades do capital, sujeita às intempéries de cada momento histórico. Veremos a seguir um exemplo que mistura alguns ingredientes das duas situações: o caso de Manaus. Manaus aparece encravada em meio à floresta amazônica, na calha do rio Amazonas, portanto a meio caminho entre a foz e a montante do rio em terras brasileiras. Ponto de passagem quase obrigatório para se adentrar nas terras virgens do norte do país, Manaus obteve o status de principal porto fluvial do Rio Amazonas. Viveu o ápice da produção da borracha, extraída das seringueiras, e seu látex. A riqueza era tanta que se construiu um belo teatro no centro da cidade, destoando da fisionomia nativa predominante. Após o declínio do ciclo, a cidade sentiu o golpe e experimentou décadas de retração econômica. Eis que nos governos militares e, no bojo de sua visão ufanista de Brasil potência, a cidade de Manaus receberia a autorização para a criação de uma área que ofereceria isenções fiscais para atrair investimentos industriais. Em 1967 é criada a Zona Franca de Manaus nas imediações da capital, numa iniciativa do Estado brasileiro. A área foi escolhida respeitando a política de ocupação das áreas de menor concentração populacional e fronteiriça. A região Norte era emblemática neste sentido. Grandes extensões de terras desocupadas, cobertas por densa floresta e em divisa com vários países que poderiam desejar ampliar seus territórios em direção ao nosso. A política de ocupação destas áreas era uma necessidade para a implantação do projeto preservação territorial. A Zona Franca de Manaus foi criada neste contexto e com estes propósitos geopolíticos. A Zona Franca era, contudo, parte de um projeto mais amplo que previa a intensificação da entrada das forças armadas na selva em direção às fronteiras. A construção da Calha Norte, promovendo o acesso à linha de divisa com a Venezuela e as Guianas, o Projeto Jarí e o atrativo de atividades econômicas complementares a ele, a exploração mineral, a construção da Rodovia Transamazônica, a criação de colônias agrícolas com a distribuição de terras aos colonos, a prática da pecuária, enfim, o desenvolvimento de uma gama de atividades que reduzissem o isolamento da região. Não é necessário dizer que boa parte destes projetos provocou verdadeiros desastres ao meio ambiente e que, outra parte não conseguiu se sustentar, sendo abandonado após consumir grande soma de recursos. A Zona Franca persistiu e hoje abriga cerca de 500 indústrias distribuídas por vários ramos, boa parte deles de alta tecnologia. O fator de atração são os incentivos fiscais. Neste caso observamos que, se de um lado a cidade de Manaus experimentou as vantagens e dissabores de um ciclo econômico no Brasil e se estruturou a partir dele, na segunda metade do século XX recebeu incentivos à industrialização por parte do governo federal. Esta injeção de novos investimentos mudou a paisagem da cidade e da região. Não são apenas as fábricas localizadas no polo industrial que provocaram mudanças no espaço urbano, mas também as fábricas de apoio, suporte e logística que para lá se deslocaram em complemento à produção. O comércio e serviços ofertados também completam este quadro de atração de atividades de apoio, bem como pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura, etc. O exemplo ilustra bem que, independentemente das necessidades do capital de se reproduzir e buscar as melhores condições para isto, o Estado tem grande capacidade de direcionar e conduzir investimentos a partir de uma outra lógica, com grande impacto na organização do espaço urbano e na fisionomia da paisagem. Aula 30_O estudo da geografia no seu meio urbano I Passamos por toda esta unidade tratando do espaço urbano e das cidades. Vimos um pouco de sua história de formação, suas relações com a indústria, dentre outros assuntos. Vamos nesta e na próxima aula propor a você que preste atenção na cidade em que mora, ou na mais próxima de sua casa. Em outras palavras, faremos uma sugestão de trabalho sobre o tema. Nosso ponto de partida é a paisagem. Mas antes vamos fazer uma rápida discussão sobre método de pesquisa. A paisagem é o aspecto visível (sensível, está no campo dos nossos sentidos) do espaço geográfico, que pode ser reconhecido mediante a observação, mas a simples observação não nos permite apreender porque ela tem estas características. Em outras palavras não adianta ficar observando por dias uma favela que você não será capaz de explicar o porquê de sua existência. É preciso ir além da constatação. Vamos nos concentrar desta forma. Nossas preocupações nesta primeira fase. Em primeiro lugar, nossa proposta é que você faça um exercício de observação, antes de tudo. Escolha uma cidade, que pode ser a que você mora ou não. Se não mora em uma cidade, faça opção por uma. Elabore um relatório dividido em duas partes. Na primeira complete com informações básicas sobre a cidade escolhida: população, território, localização e outros dados a que tiver acesso. Uma boa fonte de informações é o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que possui um site (www.ibge.gov.br) com dados disponibilizados sobre todos os municípios do Brasil. Procure o seu. A segunda parte do relatório deve conter o resultado de suas observações.Neste caso, você vai precisar identificar os elementos da paisagem e descrevê-los. Provavelmente será necessário escolher uma paisagem dentre as várias que compõem uma cidade. Você poderá também escolher duas ou mais paisagens diferentes e estabelecer uma comparação entre elas. Um exemplo neste sentido é selecionar duas paisagens que contenham habitações de classes sociais distintas. Pode-se também optar por atividades econômicas diferentes: comércio e serviços. Ou um parque e um aterro sanitário ou lixão. A definição da paisagem será a segunda decisão a ser tomada (a primeira é a cidade escolhida). Procure aguçar seus sentidos e escolha aquelas que choquem pelas diferenças, isto vai facilitar seu trabalho. Relate as características principais do que seus sentidos captarem (cada observador recolherá impressões diferentes). Identifique estes elementos: a) Observe se há pessoas na paisagem, como elas estão vestidas e oque estão fazendo; b) Há um padrão construtivo? As edificações possuem formas e cores diferenciadas? c) Há elementos móveis na paisagem que você escolheu? Quais são e quais as suas características? d) Onde aparece a natureza nesta paisagem? Quais as suas características? e) É possível identificar elementos que apontem diferenças sociais na paisagem em questão? f) Quais outros elementos podem sugerir uma incongruência na paisagem? Por exemplo: um edifício muito alto ao lado de um terreno baldio; um ônibus lotado ao lado de um carro com somente um passageiro; uma loja de produtos de luxo com um catador de sucata à frente; um menino no semáforo limpando vidros de um carro sofisticado, um odor fétido próximo a um restaurante ou bar; uma biblioteca ou hospital na beira de uma avenida barulhenta; dentre outros. A realização deste relatório vai depender muito de sua acuidade visual, da afinação de seus sentidos, da sensibilidade de sua pessoa. O geógrafo deve desenvolver esta habilidade: a de ler e destacar os elementos, como o ponto de partida de seus estudos. Uma vez concluída esta segunda fase do relatório, tente estabelecer conexões entre as duas partes, ou seja, busque associar os dados recolhidos com as suas observações descritivas. Veja se é possível fazer um esboço, mesmo que sucinto e limitado a uma localidade (um bairro, por exemplo), da sua organização do espaço, apontando a distribuição dos imóveis, se existem áreas comerciais e industriais delimitadas, qual o fluxo de veículos e se é um local de passagem apenas, se há muitas pessoas na rua e os motivos disto etc. Pensar o porquê desta distribuição e organização dos elementos no território é um bom começo para buscar explicações sobre a produção do espaço geográfico. Vejamos, a seguir, outra forma de pesquisar uma paisagem. Aula 31_O estudo da geografia no seu meio urbano II Se na aula anterior partimos de uma paisagem aleatória para tentar entender a organização do espaço geográfico urbano, nosso ponto de partida aqui será outro. Há aqui apenas uma diferença de metodologia de pesquisa, mas chegaremos aos mesmos resultados. Agora a escolha do objeto de pesquisa não será uma paisagem qualquer, mas sim algo pré-definido a priori. Ou seja, escolheremos um fato e o analisaremos a partir do interesse geográfico. Neste caso podemos lançar mão de notícias de jornais, de matérias em revistas, de uma simples fotografia, de uma questão que lhe causa muitas dúvidas, enfim, partiremos não da escolha e descrição de uma paisagem qualquer, mas sim de um fato que chame a sua atenção e justifique o estudo, que também partirá da paisagem geográfica. A simples implantação de uma antena de telefonia celular tem uma geograficidade embutida nela, seja pela localidade de sua escolha (em geral lugares altos) seja pelo estudo do consumo do produto. O lixo que é recolhido de seu local de moradia, para onde ele é levado? Você faz ideia do quanto de lixo seu bairro, ou mesmo sua cidade produzem diariamente? Existe coleta seletiva? Se não existe quem deve implantá-la? A população pode cobrar do poder público que crie e implante este serviço na sua cidade? Veja que neste caso (e nos outros também) o seu estudo pode ter uma finalidade prática, ou seja, propor ações concretas e factíveis para a solução de problemas. Este é um dos papéis da ciência, inclusive a geografia. De onde vem a água que você consome? Há reservatórios em sua cidade? Esta água é tratada ou não? E a água utilizada por onde ela é descartada? Há esgotamento sanitário em seu local de moradia? Veja que o simples ato de abrir uma torneira pode resultar num estudo de grande profundidade e na elaboração de um conjunto de propostas sobre reduzir o consumo e o desperdício, reutilizar a água servida, aproveitar as águas das chuvas, enfim, suas reflexões podem redundar em soluções sobre a melhor forma de utilização deste bem. Uma fila num posto de saúde nos permite pensar na questão dos serviços públicos e seus usuários, procurando saber em que bairro mora, qual o perfil dos moradores deste bairro, quais as doenças que mais atacam estes moradores, identificando as doenças que acometem os ricos e os pobres. É isso mesmo, existem doenças diferentes a depender da classe social a que o munícipe pertence. Um acidente num determinado cruzamento pode nos levar à geografia do trânsito, definindo áreas de maior perigo, que tipos de acidentes são mais comuns, qual o grau de gravidade deste, se envolvem ou não pedestres, motociclistas, caminhões, ônibus, veículos, bicicletas etc. Enfim, há uma infinidade de possibilidades de estudos que podem ser desenvolvidos e tudo vai depender de duas coisas, basicamente: a) A sensibilidade do pesquisador em enxergar coisas que o cotidiano se encarrega de esconder pela frequência repetitiva com que elas acontecem; b) Ter sempre como preocupação central a geografia e, portanto, ele deve estar focado na questão do espaço geográfico e o resultado das relações estabelecidas entre a sociedade e o meio mediado pelo trabalho humano, em outras palavras, os fenômenos estudados devem ter, obrigatoriamente, uma expressão territorial. Para concluir estas duas aulas que tratam especificamente das possibilidades na pesquisa em geografia urbana, seus métodos e resultados, terminamos com mais uma sugestão que consideramos vital para o bom andamento do trabalho e a obtenção de resultados confiáveis. A sugestão diz respeito a uma ação do pesquisador em geografia muito importante: a entrevista. Não estamos aqui falando apenas daquela entrevista formal, de prancheta na mão e perguntas pré-elaboradas. Estas também são importantes, sem dúvida, mas há uma outra forma de saber a opinião das pessoas, mais eficiente, que é conversar com elas, entrar no seu mundo, conviver com seu cotidiano, experimentar seu dia a dia e ganhar a sua confiança. Esta é a maneira mais eficaz de extrair dela informações que irão subsidiar seu estudo. É preciso diminuir a distância entre pesquisador e pesquisado. Isto é possível ao nos colocarmos no mesmo patamar daquele que vivencia o objeto de estudos que você quer conhecer e aprender. Os melhores trabalhos de pesquisa são os que o pesquisador não se coloca como um estranho ao tema e nem com as pessoas que com ele convivem, ao contrário, quanto maior for a integração entre ambos, quanto mais você interagir ao objeto de pesquisa, mais ricos serão os resultados. Experimente fazer. Aula 32_O estudo da geografia no seu meio urbano III Para concluir com esta unidade e a disciplina Geografia Urbana, faremos uma breve discussão sobre o passo seguinte da pesquisa. Nas duas aulas anteriores apontamos como definir um objeto de pesquisa e dar os primeiros passos de seu trabalho. Nesta última aula pensaremos em como dar sequência a ele. De certa maneira várias das aulas anteriores serviram como subsídio teórico para as reflexões que faremos, portanto você pode recorrer a elas sempre que julgar necessário. Afirmamos anteriormente que ficar estático observando os elementos de uma paisagem não nos permitirá compreendê-la em sua totalidade. Observar é o passo inicial, mas não final. Precisamos, para concluir os estudos, realizar conexões entre as partes, buscar explicações e motivos, associar com fatos semelhantes, enfim, encaixar o objeto de estudos em seu tempo histórico. Vivemos numa sociedade capitalista cujo objetivo principal é o de gerar lucros para a classe dominante: a burguesia. Esta classe, se você se lembra de aulas passadas, foi aquela que destronou o poder dos senhores feudais e se tornou dominante com a ascensão do capitalismo comercial, nos séculos XVI e XVII. Toda a atividade econômica deve se voltar para este fim: gerar lucros. Mas existem agentes econômicos que não funcionam (ou não deveriam funcionar) sob esta lógica. Um deles é o Estado, que deve promover a arrecadação de tributos para concretizar seus fins. É preciso entender que o Estado não gera e nem vive de lucros, sua fonte de receita é outra. Tais recursosarrecadados devem promover uma melhor distribuição através de políticas públicas que beneficie os mais necessitados. Mas é fato que ele, às vezes, se volta mais em benefício dos mais ricos do que aos mais pobres. O Estado é uma instituição em disputa permanente, uma vez que os grupos organizados sempre irão pressionar para que ele funcione numa determinada linha de atuação, em benefício de determinada posição política. Os grupos desorganizados obtêm conquistas menores ou mesmo nenhuma conquista. Esta é uma concepção que deve permear seus estudos, avançando a partir da sua observação da paisagem. Uma outra concepção que deve nortear seus estudos é a de que os trabalhadores também não vivem de lucro, ao contrário, seus rendimentos representam apenas uma parte do valor que eles produziram. Explicando melhor, toda a riqueza é gerada é através do trabalho humano. A soma de todos os trabalhos, de todos os trabalhadores, gera a riqueza que o mundo contabiliza todo o dia. Como no capitalismo, a produção é privada, ou seja, as fábricas, as terras, as lojas, os supermercados, enfim, como a atividade econômica se desenvolve com base em empresas privadas, parte da riqueza gerada fica com estes empresários e parte fica para os trabalhadores, na forma de salário. Ou seja, eles também não vivem do lucro, assim como o Estado. O lucro é o rendimento obtido por meio do processo produtivo, ao se vender o produto, do qual o capitalista se apropria. Sendo assim, é importante no estudo da geografia urbana perceber que os trabalhadores querem sempre salários maiores e os capitalistas menores, pois ai seus ganhos serão mais substanciais. Esta é uma realidade geradora de conflitos permanentes. Sendo assim, perceba que, para penetrar de maneira mais sólida na realidade e obter resultados científicos mais reais em sua pesquisa, parta da paisagem, que é o mundo da aparência, conheça-a em todas as suas nuances e tonalidades, para em seguida buscar explicações mais concretas sobre os fenômenos que a paisagem evidencia. O caminho científico é: do mundo da aparência para a essência da realidade. É somente nela, a essência, que você vai encontrar as respostas para as perguntas que envolvem sua pesquisa. Por fim, esperamos que você se preocupe com o mundo em que habita. Não tenha uma relação alienada com ele, achando que as coisas não lhe dizem respeito. Busque explicações para a realidade que o rodeia, apresentando alternativas para os problemas que nos afligem. Pesquise e conheça a fundo o meio urbano em que vive explorando a realidade e se relacionando com as pessoas que fazem parte dela. Nosso interesse é que você seja uma pessoa consciente e crítica. Somente assim é possível agir sobre o mundo, tornando-o mais agradável, justo, humano e ambientalmente saudável. Mãos a obra!