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Código Logístico I000025 ISBN 978-65-5821-055-9 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 5 5 9 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Angela Mari Chanoski-Gusso IESDE BRASIL 2021 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Valenty/Shutterstock CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C43a Chanoski-Gusso, Angela Mari Alfabetização : práticas sociais de leitura e escrita / Angela Mari Cha- noski-Gusso. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 152 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-055-9 1. Alfabetização. 2. Letramento. 3. Prática de ensino. I. Título. 21-72004 CDD: 372.416 CDU: 37.091.33:028.1 Angela Mari Chanoski-Gusso Doutora em Estudos Linguísticos e mestra em Letras, área de concentração em Linguística, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Linguística pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Licenciada em Letras-Português pela UFPR. Professora universitária de graduação e pós-graduação em diversas disciplinas, entre as quais, Metodologia do Ensino de Língua Materna, Literatura Infantil na Educação Infantil e Educação Básica, Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Atua como consultora de ensino de Língua Portuguesa e em cursos de formação continuada para professores. É coautora de uma coleção didática de língua portuguesa para o ensino fundamental. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 9 1.1 Alfabetização e letramento 10 1.2 O letramento no Brasil 13 1.3 Como promover os letramentos sem deixar de lado a alfabetização? 21 2 O processo de aquisição da escrita pela criança 29 2.1 A variação linguística no português brasileiro 30 2.2 As hipóteses dos aprendizes em relação à língua escrita 35 2.3 E quando ensinar ortografia? 40 2.4 Outros fatores que interferem 43 3 Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 47 3.1 O trabalho sistematizado com a oralidade 48 3.2 A formação do leitor crítico 52 3.3 A escrita como prática social 57 3.4 A inter-relação entre as práticas linguísticas 64 4 O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 73 4.1 Funções da literatura na sociedade e na escola 74 4.2 O professor como agente da leitura literária 79 4.3 Gêneros literários em prosa e poesia 91 4.4 A contação de histórias 100 5 Avaliação de oralidade, leitura e escrita 108 5.1 Avaliação de práticas orais 109 5.2 Avaliação de práticas leitoras 113 5.3 Avaliação de produção escrita 119 5.4 O Saeb em foco 125 5.5 Desafios em relação à alfabetização e letramentos no Brasil 128 Resolução das atividades 134 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! Esta obra trata da abordagem da oralidade, leitura e escrita nas salas de aula dos anos iniciais do ensino fundamental. O desenvolvimento dos tópicos abordados está apoiado em autores e obras indicadas nos finais de cada capítulo e nas pesquisas que desenvolvo sobre aquisição e ensino de escrita há cerca de 20 anos, além da vivência em sala de aula como professora de Língua Portuguesa na rede pública de ensino e, ainda, como docente em cursos de formação de professores. Com o objetivo de partilhar conhecimentos que fornecem subsídios para a prática pedagógica, elaboramos esta obra selecionando aspectos que consideramos fundamentais para o professor superar o modelo tradicional do ensino de língua arraigado na escola brasileira e promover uma educação capaz de proporcionar domínio seguro das práticas sociais de linguagem e acesso à cultura letrada. O Capítulo 1 trata das questões relacionadas aos aspectos linguísticos do processo de aquisição de escrita, enfatizando a importância de, nos anos iniciais, alfabetizar letrando para o êxito na formação de leitores e produtores de textos. Destacamos que, embora o trabalho pedagógico seja centrado em textos de diferentes gêneros, o foco nas unidades menores da escrita – letra, sílaba e palavra – não deve ser dispensado pelo professor, pois a aprendizagem do sistema gráfico e as técnicas para seu uso dependem da mediação do adulto letrado. No segundo capítulo, abordamos o fenômeno da variação linguística para trazer ao professor alguns conhecimentos básicos da sociolinguística educacional responsáveis por desmistificar a crença infundada sobre “erro de português” e, no lugar dela, passarem a observar que a mudança e a variação nas línguas é um fenômeno natural. Com base nesses saberes, o professor pode refletir sobre as características e funções da variedade padrão da língua portuguesa e contribuir para a superação do preconceito linguístico em relação aos falantes de variedades linguísticas estigmatizadas. APRESENTAÇÃOVídeo 8 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Ainda nesse capítulo, refletimos sobre a natureza dos desvios ortográficos no processo de aquisição do sistema de escrita, contribuindo para que o professor perceba haver explicação para as ocorrências. Portanto, esses desvios podem ser previstos e trabalhados de modo sistematizado. Uma visão geral sobre o processo de ensino e aprendizagem de língua portuguesa nos anos iniciais do ensino fundamental foi o tema do Capítulo 3. Abordamos o trabalho com língua oral (fala e escuta) e com língua escrita (leitura e produção textual) em situações de uso e de reflexão sobre a organização estrutural da língua portuguesa. Buscamos apresentar algumas situações mais frequentes de uso de escrita na sociedade que podem ser trazidas para as salas de aula dos anos iniciais de modo a promover o letramento dos estudantes. Despertar o interesse da criança pela leitura é caminho seguro para formação de leitores autônomos e críticos. E a interação com textos ficcionais, por estimular a imaginação, impactar e emocionar, consegue fisgar leitores. Desse modo, o Capítulo 4 foi dedicado à abordagem do texto literário; nele, discutimos as funções da literatura, os gêneros literários, o papel do professor como agente da leitura literária e, para finalizar, trouxemos considerações e algumas dicas sobre contação de histórias. No último capítulo, refletimos sobre o processo de avaliação escolar, destacando que a avaliação formativa, ao contrário da tradicional, é comprometida com a aprendizagem e, por estabelecer integração entre ensino e aprendizagem, desempenha papel essencial no processo pedagógico. No caso do ensino e aprendizagem de língua portuguesa cujo eixo central são os gêneros textuais, abordamos a avaliação das práticas de oralidade, leitura e escrita. Também foram objetos de breves considerações os testes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). A ideia norteadora desta obra foi a de que uma prática docente alicerçada em conhecimentos teóricos sólidos é fator primordial para a obtenção de êxito noprocesso de ensino e aprendizagem da língua e, consequentemente, para a promoção de letramentos dos estudantes, condição indispensável para o exercício da cidadania. Êxito nos estudos! A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 9 1 A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • avaliar a importância de alfabetizar letrando; • refletir sobre as especificidades da apropriação do sistema alfabético; • refletir sobre as especificidades do desenvolvimento dos letramentos. Objetivos de aprendizagem Frequentemente, a imprensa traz à tona a questão do sofrível de- sempenho de grande parte dos estudantes brasileiros em relação à leitura e escrita. Você, talvez, esteja se perguntando por qual motivo os estudantes não alcançam resultados desejáveis. A resposta não é simples, pois são vários os fatores que precisam ser levados em conta – socioeconômicos, culturais, políticos, psicológicos, linguísticos – devi- do à complexidade dessa questão. Este capítulo foca nas questões relacionadas aos aspectos linguísti- cos do processo de aquisição de escrita. Vamos refletir sobre o sistema de escrita bem como sobre seu funcionamento, com vistas a evidenciar que para ter proficiência em leitura e escrita não basta ter acesso ao código da nossa escrita, ou seja, conhecer o alfabeto e saber codificar e decodificar as letras. Essa é uma condição necessária, mas não a única, pois, além do conhecimento do sistema de escrita, é preciso aprender os usos sociais desse sistema, isto é, ler, interpretar e produzir textos que circulam, comumente, nas práticas sociais. Para tanto, não basta ser alfabetizado, é preciso ser letrado. Vamos refletir sobre a inter-relação entre os conceitos de alfabeti- zação e letramentos? 10 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 1.1 Alfabetização e letramento Vídeo Você está desafiado a identificar os conhecimentos que colocará em prática para ler o texto apresentado a seguir. Trata-se de um cartaz de campanha de doação de sangue promovida pelo Ministério da Saúde, em 2013. Faça a leitura observando o modo como você vai interagindo com o texto: o que nota primeiro, qual direção segue para ler, quais informações vão sendo conectadas, que conhecimentos de mundo traz para essa leitura, qual função atribui a esse cartaz etc. Figura 1 Cartaz para a campanha de doação de sangue Fonte: Brasil, 2013. Para a leitura do cartaz, certamente você considerou tanto as pala- vras como a imagem, pois é preciso associar ambas para que o texto faça sentido. A expressão facial, os dados sobre o personagem e as duas frases, à direita, “Para doar sangue você precisa conhecer a pes- soa?” e “Pronto. Agora você conhece o Olívio.” precisam ser conectadas com o apelo registrado no interior da imagem, que representa uma A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 11 gota de sangue: “Seja para quem for, seja doador.” Logo abaixo, consta a indicação do local em que o doador pode realizar o ato. Repare que, na escuridão causada pelo fundo preto, a imagem do personagem ficou bem definida e a incidência de luz na face do ho- mem colocou em destaque sua expressão necessitada de ajuda. Como muitas vidas dependem desse gesto, somos levados a inferir que esse personagem representa todas as pessoas que dependem das doações de sangue para sobreviver. Vale notar, ainda, que o ângulo em que o personagem foi fotogra- fado favorece para que o leitor do texto, imaginariamente, estabeleça uma troca de olhares com ele e sinta-se tocado emocionalmente, a fim de que o apelo veiculado pelas palavras surta o efeito desejado: con- quistar um doador de sangue. Por meio dessa experiência na qual o ato de ler foi objeto de sua atenção, você teve oportunidade de atentar para a complexidade da leitura. Concorda que não se trata de mera decifração das palavras, mas de atribuição de sentido tanto a elas quanto aos elementos da imagem e ao propósito do texto? Observe que para essa leitura foram necessários diversos conheci- mentos prévios: de mundo (por exemplo, saber que existe transfusão de sangue), do gênero textual e função dele na sociedade (saber que cartazes têm função apelativa e que são destinados a um público po- tencial), dos sentidos das palavras, da gramática da língua, do alfabeto. A intenção dessa análise foi chamar a sua atenção para o fato de que não basta a escola favorecer condições para o estudante desenvol- ver apenas a capacidade de decifrar palavras e de fazer a leitura literal da superfície do texto, pois isso é insuficiente. Apesar de as pesquisas e teorias sobre leitura virem sendo produzidas no Brasil há cerca de 50 anos, as práticas de leitura no contexto escolar continuam, não raro, restringindo-se a respostas de questionários, com perguntas cujas respostas são mera localização ou cópia de informações explícitas no texto, isto é, atividades centradas na decifração. Vale ressaltar que tal prática acontece nas diferentes disciplinas do currículo escolar, não só nas atividades de leitura propostas nos materiais de Língua Portuguesa. Em grande parte, por esse motivo, muitos estudantes revelam insu- cesso nas avaliações que exigem capacidades de leitura mais comple- xas, tais como perceber implícitos, estabelecer relação entre subpartes 12 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita de um texto e relações intertextuais, considerar que as imagens contri- buem para o sentido do texto, entre outras. Em virtude desse quadro, no início deste século, um conjunto de estudiosos dedicados às pesquisas sobre as questões relacionadas à aprendizagem de leitura e escrita introduziram um novo conceito, para destacar o fato de que saber ler envolve diferentes capacidades que precisam ser trabalhadas pela escola para permitir que a população alcance o nível de leitura imposto por uma sociedade altamente letrada como a atual. Esse conceito é denominado letramento. No Brasil, essa concepção passou a fazer parte das discussões edu- cacionais dialogando com o conceito de alfabetização, a partir da déca- da de 1980, conforme explica Magda Soares (2004, p. 6): A discussão do letramento surge sempre enraizada no concei- to de alfabetização, o que tem levado, apesar da diferenciação sempre proposta na produção acadêmica, a uma inadequada e inconveniente fusão dos dois processos, com prevalência do conceito de letramento, [...] o que tem conduzido a um certo apa- gamento da alfabetização. Soares esclarece que trata-se de dois conceitos com significados distintos, mas que, geralmente, são confundidos. O fato de os estu- diosos apontarem que a vida cidadã exige pessoas letradas, isto é, que conseguem lidar com leitura e escrita variadas usando diferentes capacidades, demandadas por cada contexto particular, não significa negarem a necessidade de a escola trabalhar com as especificidades do período de alfabetização, ou seja, assegurar o acesso da criança ao nosso sistema de escrita (alfabético e ortográfico 1 ) e às convenções desse sistema. Portanto, no período inicial da escolarização, a escola precisa promover, simultaneamente, os processos de alfabetização e de letramento. Com vistas a evidenciar essa necessidade, Soares (2020) criou um neologismo: Alfaletrar, palavra indicativa de que o professor irá se valer de ambos os procedimentos até que as crianças tenham alcançado o domínio básico do sistema gráfico. Vamos tratar, inicialmente, do papel da escola no desenvolvimento das competências envolvidas nos usos da língua escrita (letramento) e, na sequência, abordaremos o funcionamento do sistema de escrita alfabética (alfabetização), conhecimento necessário para o professor poder planejar atividades relevantes para a sistematização do objeto do processo de alfabetização. O livro Alfaletrar contém a exposição de um projeto de alfabetização e letramento desenvolvi- do ao longo de 12 anos em escolas públicasde comunidade localizada no interior de Minas Gerais. A autora, com um texto leve, relaciona teoria e prática de modo bastante didático, por meio de lin- guagem clara e objetiva. A obra apresenta atividades realizadas e observadas por ela em sala, descre- vendo com detalhes todo o processo pelo qual as crianças passam, desde os rabiscos e garatujas até se tornarem alfabeti- zadas, apresentando nível de letramento compatível com a experiência de leitores iniciantes. SOARES, M. São Paulo: Contexto, 2020. Livro Sistema alfabético por- que nossa escrita é uma representação que se vale do conjunto de 26 letras do alfabeto, às quais são atribuídos valores fonéticos. Ortográfico: para as pessoas poderem se entender por meio de textos escritos, foi preciso neutralizar a variação linguística, estabelecendo a ortografia, ou seja, uma única forma de escrever as palavras. Assim, embora pronun- ciemos de um jeito na hora de falar ou de ler, na escrita precisamos saber qual foi a forma escolhida para a grafia palavra. 1 A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 13 1.2 O letramento no Brasil Vídeo Um dos grandes desafios que a escola brasileira vem en- frentando há décadas é modificar a realidade dos estudantes e, consequentemente, da população em geral, com relação ao domínio da língua escrita nas inúmeras práticas sociais permea- das por essa modalidade de linguagem, como ler e escrever diferentes gêneros textuais 2 em diferentes suportes, direcio- nados a interlocutores variados, com propósitos distintos. Os eventos e práticas de letramento da sociedade contem- porânea, devido ao acelerado avanço das tecnologias digitais, demandam saberes e competências de leitura e escrita bastan- te diversificados para realizarmos, de modo bem-sucedido, as interações sociais. Sendo assim, além de a escola ensinar a lidar com a lingua- gem escrita, há de possibilitar, também, o aprendizado básico de outras linguagens, pois, graças à expansão das mídias digi- tais, o crescimento de textos que combinam linguagem verbal com imagens, cores, trilhas sonoras, entre outras, tem sido ex- ponencial. Basta acessar uma página da internet para conferir. Um exemplo de como a expansão da mídia digital impactou os modos de apresentação dos gêneros textuais é a charge. Tra- dicionalmente, esse gênero textual circulava em jornal, por isso era uma ilustração feita por cartunistas usando apenas traços pretos, mas hoje, em páginas da internet, na charge aparecem combinados imagem colorida, som e movimentos. E por qual motivo o conceito de letramento passou a ser plural? Por que os estudiosos passaram a falar em multiletra- mento ou letramentos múltiplos? O conceito de letramento foi atualizado com base na obser- vação dos estudiosos da área de que existe grande complexi- dade e multiplicidade de práticas sociais de letramento. Rojo (2019) esclarece que, devido à heterogeneidade das práticas de leitura, escrita e usos da linguagem em geral nas sociedades le- tradas, há de se reconhecer que os letramentos são múltiplos. Além dos letramentos institucionais – práticas de escrita valori- zadas por estarem associadas a organizações formais (escola, Gêneros textuais são “famílias de textos” com configurações de conteúdo e composição que apresentam carac- terísticas recorrentes, porém são dinâmicos e maleáveis. Todo texto cumpre uma função e pertence a algum gênero, por exemplo, carta, cartaz, artigo, decreto, oração, te- lefonema, notícia, verbete, epígrafe, aviso e centenas de outros. 2 Além das charges tradi- cionais, que costumamos ver em jornais há anos, há também, agora, char- ges animadas. Confira a primeira charge publica- da na versão digital, no Jornal do Comércio. Disponível em: https://jc.ne10.uol. com.br/canal/cultura/imagem- e-som/noticia/2015/05/25/ jornal-do-commercio-estreia- publicacao-de-charges- animadas-182654.php. Acesso: 5 maio 2021. Saiba mais https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/imagem-e-som/noticia/2015/05/25/jornal-do-commercio-estreia-publicacao-de-charges-animadas-182654.php https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/imagem-e-som/noticia/2015/05/25/jornal-do-commercio-estreia-publicacao-de-charges-animadas-182654.php https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/imagem-e-som/noticia/2015/05/25/jornal-do-commercio-estreia-publicacao-de-charges-animadas-182654.php https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/imagem-e-som/noticia/2015/05/25/jornal-do-commercio-estreia-publicacao-de-charges-animadas-182654.php https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/imagem-e-som/noticia/2015/05/25/jornal-do-commercio-estreia-publicacao-de-charges-animadas-182654.php https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/imagem-e-som/noticia/2015/05/25/jornal-do-commercio-estreia-publicacao-de-charges-animadas-182654.php 14 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita comércio, igrejas entre outros), há os letramentos que têm origem na vida cotidiana e, apesar de desvalorizados pela cultura oficial, são fre- quentes; é o caso, por exemplo, do internetês, presente nas conversas on-line, nas redes sociais. Outro fator que contribuiu para ampliar a noção inicial de le- tramento foi o fato de o avanço tecnológico ter favorecido signifi- cativamente para que os gêneros textuais diversos que circulam impressos ou em telas de computador associassem diversas outras linguagens (design, fotografia, som, cor etc.) ao texto escrito (lingua- gem verbal). Isso impõe ao leitor contemporâneo a necessidade de conhecimentos e competências relativas a essas outras linguagens, o que constitui uma tarefa interdisciplinar, já que não temos forma- ção para darmos conta dessa incumbência em uma única disciplina. Sendo assim, cabe à escola, de modo interdisciplinar, promover um ensino que possibilite aos estudantes participar de práticas di- versas que usam leitura e escrita na vida cidadã, ou seja, promover letramentos. De acordo com Rojo (2019, p. 108), essas múltiplas exigências que o mundo contemporâneo apre- senta à escola vão multiplicar enormemente as práticas e tex- tos que nela devem circular e ser abordados. O letramento escolar, tal como o conhecemos, voltado principalmente para as práticas de leitura e escrita de textos em gêneros escolares (anotações, resumos,[...] exercícios, instruções , questionários, dentre outros) e para alguns poucos gêneros escolarizados advindos de outros contextos (literário, jornalístico, publicitá- rio) não será suficiente [...]. Será necessário ampliar e demo- cratizar tanto as práticas e eventos de letramentos 3 que têm lugar na escola como o universo e a natureza dos textos que nela circulam. Embora tratar de letramentos envolva levar em consideração múltiplas semioses (linguagens), este livro abordará especificamen- te a linguagem verbal, na suas modalidades oral e escrita. Então, vamos à reflexão sobre esta última, inicialmente! Quando escrevemos, fazemos para alguém ler; consequente- mente, quando lemos, buscamos os sentidos do texto que alguém escreveu. Desse modo, leitura e escrita são práticas inter-relaciona- das. Para iniciar, vejamos alguns propósitos de leitura e/ou de escri- ta associados aos respectivos gêneros textuais: Segundo Rojo (2019), o conceito evento de letra- mento foi proposto por Heath (1982) e, para com- plementar esse conceito, Street (2003) propôs o conceito de práticas de letramento. O primeiro conceito diz respeito às atividades que envolvem leitura ou escrita de textos, tais como fazer uma lista de compras, comparar preços, ler bulas, usar agenda, enviar e-mail etc. Com práticas de letramento, o autor buscou evidenciar que são diferentes os modos culturais de utilização da escrita, ou seja, os signifi- cados atribuídos à tarefa de ler e escrever não são idênticos para todos os grupos sociais. 3 A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 15 • Busca/divulgação de informação: notícia, infográfico, reporta- gem, aviso, cardápio, bilhetede passagem etc. • Para apoio à memória: lista de compras, agendamento de compromissos etc. • Para divertir-se: piadas, charadas. • Para induzir ou seduzir: anúncio publicitários, panfletos, outdoors, cartazes etc. • Para orientação: croqui, mapas, manuais de instrução, receitas etc. • Para imersão no imaginário e apreciação estética: contos, ro- mances, lendas etc. Antes de continuarmos, sugerimos que faça a Atividade 1, encontrada no final deste capítulo. a. Ao imaginar os textos que você mencionou na atividade 1, certamente você se atentou para o fato de que eles apresentam diferenças entre si e, sendo assim, é possível inferir que não existe um saber escrever, assim como também não há um único modo de ler – não lemos do mesmo modo uma receita culinária e um artigo de opinião, por exemplo. Cada contexto vai impor um modo de ler ou de escrever específico; cabe à escola desenvolver esses saberes e competências, por meio de um trabalho bem planejado, sistemático, orientado por fundamentos teóricos das áreas da psicologia, da pedagogia e da linguística. E por que essas três áreas do conhecimento precisam ser con- sideradas? Observe que esse processo está ancorado em um tripé: um sujeito que aprende (o estudante), um sujeito que ensina (o pro- fessor) e um objeto de ensino e de aprendizagem (a língua escrita). Cada uma das áreas mencionadas produziu conhecimentos rele- vantes que dizem respeito, respectivamente, aos três componentes do processo. Esta obra trata, especificamente, dos conhecimentos sobre o funcionamento da linguagem verbal, objetivando fornecer subsídios para contribuir com o desenvolvimento profissional de to- dos os envolvidos no processo de aquisição de escrita pela criança. Antes de dar continuidade à leitura, faça uma pausa para refletir. Use sua intuição e formule uma resposta para estas perguntas: O No Capítulo 6 do livro Le- tramentos múltiplos, escola e inclusão social, a autora apresenta o conceito inicial de letramento bem como as críticas a esse conceito. Ela aborda a passagem do conceito de letramento ini- cial ao plural devido à com- plexidade e multiplicidade de práticas de letramento nos diversos contextos sociais que fazem uso da linguagem verbal e das não verbais. Defende que, por meio da educação linguística, a escola deve possibilitar aos alunos participarem das várias práticas sociais exigidas nas sociedades letradas contemporâneas. A leitura dessa obra é indicada a todos os educadores que compar- tilham com a autora o po- sicionamento de que “um dos objetivos principais da escola é possibilitar que os alunos participem das várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita (letramentos) na vida da cidade, de maneira ética, crítica e democrática” (p. 11). ROJO, R. São Paulo: Parábola, 2009. Livro 16 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita que se entende por aprender a escrever? Escrever é pôr a fala no papel? A linguagem escrita está sujeita à variação ou ela é fixa? Agora, vamos às considerações sobre a modalidade escrita da lin- guagem, com base nos estudos linguísticos mais recentes, para você poder confirmar ou modificar suas respostas. Quando se trata de linguagem oral, a diversidade linguística fica transparente, pois ela é facilmente observada nos sotaques e voca- bulário dos falantes. Porém, os estudos da área da linguística têm evidenciado que também a escrita é múltipla, variável, heterogênea. Isso significa que precisamos adequar o nosso dizer – seja oral ou escrito – a cada contexto situacional: selecionar o gênero textual apropriado para o objetivo pretendido, respeitar suas característi- cas estruturais e empregar o grau de formalidade da linguagem re- querido pela situação. Para você avaliar essas considerações, compare os dois textos apresentados a seguir. Texto A – Nota CORPO DE BOMBEIROS MILITAR COMISSÃO COORDENADORA DO CURSO CURSO DE FORMAÇÃO DE OFICIAIS BM-2020 Nota Nº 006-CCCCFO- BM-2020 O Presidente da Comissão Coordenadora Geral do Concurso para o CURSO DE FORMAÇÃO DE OFICIAIS DO CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DA PARAÍBA/2020, no uso das atribuições que lhes são conferidas pela Portaria n.º 072/GCG/2019-CG, publicada no Diário Oficial do Estado nº 16.878 datado de 28 de maio de 2019, e escudada no que pontifica o Edital nº 001/2019 CFOBM-2020, RESOLVE: TORNAR PÚBLICO que o Ato Nº 006 do CFO BM 2020, cujo expediente trata acerca do Resultado do Exame Psicológico do Concurso e convocação para o Exame de Saúde, encontra-se disponível no link: http://www.bombeiros.pb.gov.br/. João Pessoa - PB, 18 de novembro de 2020. LUCAS SEVERIANO DE LIMA MEDEIROS– CEL QOBM Presidente da Comissão Fonte: CBMPB, 2021. A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 17 TEXTO B – Horóscopo Horóscopo do dia para Áries Confira a previsão para 25 de janeiro Sol, Vênus e Saturno, unidos em Aquário, indicam um período de intensa ati- vidade na sua vida profissional. É bastante provável que você esteja enlou- quecido com a elaboração ou a participação em um novo projeto. Procure respirar profundamente antes de tomar decisões importantes. Fonte: Elaborado pela autora. Os propósitos dos textos A e B diferem, assim como as respectivas estruturas. Enquanto o gênero textual nota tem formato mais estabili- zado, o texto de horóscopo é mais maleável, não segue sempre o mes- mo formato. Reparou que o grau de formalidade de A é bem diferente de B? Na nota há o uso de vocábulos mais cerimoniosos, como cujo, lhe, acerca, pontifica; já no horóscopo, aparece o termo enlouquecido, dando um tom descontraído ao texto. Vieira e Faraco (2019) destacam que todo gênero textual costuma ter um grau de formalidade apropriado (também chamado registro ou estilo) que varia do mais formal ao mais informal. Os autores esclarecem esse fenômeno apresentando uma escala em quatro níveis. São eles: • Gêneros textuais informais (post de blog, bilhete). • Gêneros textuais semiformais (fábula, regra de jogo). • Gêneros textuais formais (carta comercial, relatório). • Gêneros textuais ultraformais (leis, requerimento). Há outra questão, contudo, a ser pensada também. Não se pode deixar de considerar que, dependendo do contexto, um mesmo gêne- ro textual será escrito em linguagem informal ou formal. Experimente, por exemplo, redigir um e-mail a um amigo perguntando sobre período de rematrícula para seu curso e outro, com o mesmo propósito, en- dereçado à secretaria da instituição em que você está matriculado(a). Concorda que sua escrita seria diferente em cada caso? Tendo em vista os tópicos discutidos anteriormente, vamos re- fletir sobre como esses conhecimentos acerca do funcionamento da linguagem impactam na prática de sala de aula. Ao contrário do ensino tradicional, centrado na memorização de regras gramaticais com base em uma língua portuguesa idealizada – caracterizada por 18 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita formas em desuso nos nossos dias –, é importante que a escola pro- mova situações de aprendizagem que possibilitem aos estudantes ampliar seu grau de letramento, para mudar o quadro atual que o Brasil apresenta. De acordo com dados de 2018, do Indicador Na- cional de Alfabetismo (Inaf), 70% dos brasileiros que possuem os anos iniciais do ensino fundamental permanecem na condição de analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem êxito nas práticas de leitura e escrita em situações triviais da vida cotidiana, tais como identificar informações contidas em cartazes, por exemplo. Nessa mesma condição, encontram-se 34% dos que concluíram todo o en- sino fundamental (BRASIL, 2014). Dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), de 2014 e de 2016, indicaram que mais de 50% das crianças do terceiro ano do ensino fundamental foram avaliadas com “nível insuficiente”, em re- lação à leitura e interpretação de pequenos textos. Esses dados são preocupantes e levam-nos a buscar caminhos parareverter o quadro (BRASIL, 2014; BRASIL, 2017). A essa altura, você pode estar se perguntando que estratégias usar para promover os letramentos das crianças nos anos iniciais de escola- rização, certo? Vamos, então, passar às considerações sobre como inter- -relacionar alfabetização e letramentos. Um ponto essencial é a substituição de textos artificiais para o perío- do de alfabetização (aqueles com palavras nas quais uma letra é tomada como objeto de ensino e constroem-se frases soltas) por textos reais, que circulam na sociedade. Desse modo, a criança já vai percebendo que os textos variam porque têm funções distintas e circulam em diferentes suportes. Vamos a um exemplo? Cartaz e sinopse de filme. Texto 3 – Cartaz de filme Moana – Um mar de aventuras (2016) Moana é a filha do líder da ilha e descobre que tem poderes especiais relacionados com a água. Há muitos anos a ilha foi amaldiçoada por um erro do semideus Maui. Para Moana salvar a sua ilha de um grande mal, ela vai precisar da ajuda do mesmo semideus que causou a maldição. O difícil é convencê-lo. Fonte: OS 25 MELHORES..., 2021. A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 19 Considerando que crianças de uma turma de primeiro ano ainda não estão alfabetizadas, como seriam apresentados esses textos a elas, com vistas a promover seus níveis de letramentos? Se letramento diz respeito aos usos da escrita em práticas sociais, o passo inicial será apresentar o material (impresso ou em slide) para ser visualizado, enquanto o professor faz a leitura (talvez, seja necessário repeti-la) e as crianças levantam hipóteses sobre seu conteúdo. O pro- fessor vai direcionando com perguntas, tais como: • Do que vocês acham que tratam esses textos? • Quais são as personagens do cartaz que foram mencionadas na sinopse? • Qual vai ser o problema que Moana precisará resolver na ilha onde mora? Sabem o que é uma ilha? • No texto está escrito que Moana tem poderes especiais. O que poderiam ser esses poderes? Isso está escrito no texto ou vocês imaginam? Como poderemos saber quais poderes ela tem? • Vocês ficaram com vontade de assistir ao filme? Por quê? • É possível saber como termina o filme só lendo a sinopse? Por que uma sinopse não conta o final da história? • Onde podemos encontrar sinopses de cinema quando queremos saber sobre filmes? Observe que com essas questões exploramos os textos na dimen- são do seu uso na sociedade: a função deles, o tipo de informação que contêm, onde circulam, a estrutura básica associada ao nome que re- cebem etc. Esses saberes são alicerces importantes para a produção textual quando já estiverem alfabetizados e produzindo textos escritos de diferentes gêneros. Vamos a outro exemplo, um fragmento do texto 9 guloseimas com origens surpreendentes. Trata-se de um texto de base expositiva abor- dando um conteúdo de interesse infantil. Observe que, apesar de ser apenas uma parte do todo, ele tem sentido completo; não seria ade- quado apresentar um fragmento no qual a parte descartada fosse es- sencial para a compreensão. 20 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Texto 4 – Texto expositivo Biscoitos Uma das guloseimas mais populares do mundo, eles podem hoje ser encontrados em quase qualquer loja de alimentos, e também podem ser preparados em casa. São descen- dentes diretos do pão de gengibre, que era feito na Europa durante o século X. O primeiro alimento chamado biscoito era um pão muito assado e achatado que a tripulação de navios e integrantes de exércitos comia no século XIV. Eram duráveis, saborosos e fáceis de guardar. Desde então, os biscoitos evoluíram e mudaram de acordo com cada parte do mundo, até darem origem à gama de versões doces e salgadas que conhecemos hoje. Fonte: 9 GULOSEIMAS..., 2021. st ud io f2 2 ric ar do ro ch a/ Sh ut te rs to ck Para a abordagem, tal como no exemplo anterior, o texto será apre- sentado às crianças para levantarem hipóteses sobre seu conteúdo; repare na serventia da imagem para fornecer uma pista! Caso se tire o texto do seu suporte original e digite-o usando apenas o word, ele será descaracterizado, e pistas essenciais para sua interpretação serão excluídas. Sendo assim, é importante que a criança tenha acesso ao formato original. Provavelmente, as crianças dirão que o assunto do texto são biscoi- tos (ou bolachas, dependendo da região do país onde morem). Oralmen- te, professor e estudantes analisam o texto com questões, tais como: • Esse texto trata de um assunto real ou de imaginação? Será que pode ser uma historinha? • Ouçam a leitura que farei e, depois, confirmem ou não a resposta dada. • De acordo com o texto, a ideia de fazer biscoitos é muito antiga. Como eles eram? Foram produzidos para alimentar quem? • O texto informa que eram “duráveis, saborosos e fáceis de guar- dar”. Hoje ainda são assim? • Você já comeu biscoitos/bolachas caseiros? De que são feitos? • Que tipos de biscoitos/bolachas encontramos hoje nos mercados? Concorda que essa seria uma oportunidade para se trabalhar tam- bém com as embalagens desse produto? Você pode pedir que as Nos vídeos Alfabetização e letramento: conceitos e relações (parte 1 e parte 2), publicados pelo canal ceelufpe, alguns professores participantes de um curso para forma- ção de docentes na área de língua portuguesa dão depoimentos sobre modos de encaminhar o trabalho pedagógico com base em diferentes gêneros textuais. Esses vídeos foram produzidos pelo Centro de Estudos em Educação e Linguagem (Ceel), um núcleo de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) que tem desen- volvido pesquisas e formação docente rele- vantes para a melhoria da qualidade de educação no país. Disponíveis em: https://www. youtube.com/watch?v=Gb_ HDtzgmGo (Parte 1). https://www.youtube.com/ watch?v=M-VMUXdzbR8 (Parte 2). Acessos em: 5 maio 2021. Vídeo http://institutodelagalleta.com/historia.php?cl=2 http://institutodelagalleta.com/historia.php?cl=2 http://institutodelagalleta.com/historia.php?cl=2 https://www.shutterstock.com/pt/g/studio+f22+ricardo+rocha https://www.youtube.com/watch?v=Gb_HDtzgmGo https://www.youtube.com/watch?v=Gb_HDtzgmGo https://www.youtube.com/watch?v=Gb_HDtzgmGo https://www.youtube.com/watch?v=M-VMUXdzbR8 https://www.youtube.com/watch?v=M-VMUXdzbR8 A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 21 crianças tragam tais embalagens e tomá-las para examinar o tipo de informações nelas contidas, destacando os dados comuns: nome do produto e da fábrica, data de validade, relação da imagem com o pro- duto (imagem e cor). Também, é possível trabalhar com propagandas de biscoito e chamar a atenção das crianças para a diferença de pro- pósitos entre o texto expositivo e o publicitário e, então, pedir a elas que identifiquem recursos empregados neste último para despertar, no público-alvo, o desejo de adquirir o produto. A exploração dos textos nessa perspectiva promove os letramentos, visto que favorece condições para os aprendizes de escrita perceberem como ela funciona nas práticas da vida social. Oportuniza a constatação de que um mesmo tema pode ser apresentado em diversos gêneros textuais com propósitos diferentes, por isso, também com estruturas diferenciadas e associando, em maior ou menor proporção, a lingua- gem verbal (palavra falada ou escrita) a outras linguagens. 1.3 Como promover os letramentos sem deixar de lado a alfabetização? Vídeo Embora o texto seja o eixo central do processo de alfabetização e letramento, não podemos deixar de lado o trabalho com o sistema de escrita que, no nosso caso, é um sistema alfabético e ortográfico e sua apropriação depende de um trabalho explícito e sistemático nos anos iniciais de escolarização, pois é falsa a hipótese de que o mero convívio intenso com textos variados possibilita que a criança se alfabetize de modo incidental. Esse pressuposto equivocado é uma das causas do resultadoda Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2016, quando 54,7% das crianças no terceiro ano do ensino fundamental apresentaram desem- penho classificado como “nível insuficiente” quanto às capacidades de leitura e interpretação de pequenos textos. O professor que atua nos anos iniciais precisa ter clareza sobre o que é e como funciona seu ob- jeto de ensino: a escrita (BRASIL, 2009). É importante ter clareza de que a escrita é a representação gráfi- ca da linguagem (CAGLIARI, 1998), ou seja, os grafemas 4 representam – não codificam – os fonemas 5 . Nosso alfabeto possui 26 letras, que são usadas para representar uma variedade muito maior de sons que compõem a nossa língua. Por exemplo, a letra R representa uma diver- Um grafema é formado por uma ou mais letras. Ex.: d, ch. 4 Fonemas são os sons da língua; servem para distin- guir os significados entre as palavras, como ocorre com os fonemas /f/ e /v/, em “faca e vaca”. 5 22 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita sidade de sons, entre eles o erre carioca e o erre caipira; as cinco letras vogais representam sete sons orais: observe que a letra e pode repre- sentar dois fonemas, como ocorre nas palavras selo e sela. O mesmo acontece com a letra o, em morro e morte. Além desses fonemas, as vogais também representam sons nasalizados, como ocorre em ano, empada, limpo, lombo e fundo. Isso constitui uma séria dificuldade para a criança, no começo; todavia, com um trabalho bem planejado, os es- tudantes vão se conscientizando de que os sons da fala são represen- tados de maneira arbitrária e convencional. Nós utilizamos o alfabeto latino, mas há outros, como o cirílico e o grego. Porém, há povos cujo sistema de escrita é ideográfico, caracterizado pela escrita de desenhos, chamados ideogramas, como é o caso da escrita chinesa. Em nossa cultura, mesclamos ideogramas com escrita alfabética em alguns casos, como portas de banheiros e placas de trânsito. Como pode- mos observar no exemplo ao lado. Outra questão importante a ser considerada é que não se escre- ve como se fala. Na oralidade, fazemos acréscimos, redução, inversão e até troca de fonemas em diversas palavras, no entanto, o modo de escrever é padronizado em todo o território nacional – obedecemos a uma convenção ortográfica. No português do Brasil, é comum apa- garmos a consoante da sílaba final de verbos no infinitivo ou de marca de plural em substantivos. Um exemplo: “vamo comprá mais dois bolo pra festa?“. Na escrita, entretanto, precisamos atender à convenção; os sons não emitidos nessas palavras precisam ser grafados. Nesse sen- tido, a criança precisará aprender a forma ortográfica das palavras, e não a forma fonética, que é sua hipótese inicial. Por exemplo: • Forma fonética: kza • Forma ortográfica: casa. A partir da década de 1990, alguns linguistas brasileiros se dedica- ram à publicação de materiais abordando o sistema de escrita, a fim de contribuir com o trabalho pedagógico dos professores alfabetiza- dores. Esses estudiosos têm trazido informações relevantes sobre as Existem diversos alfabetos e também os siste- mas ideográficos, com quantidades de símbolos muito diversificados; a direção da leitura também é variada. Conhecer, por curiosidade, outros sistemas de escrita é algo muito interessante, inclu- sive para as crianças! Saiba mais A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 23 diferenças entre o processamento da leitura e o da escrita, norteando caminhos para a sistematização do ensino dessas duas modalidades de linguagem. Com base nesses estudos, vamos a alguns pontos que todo profissional atuante nos anos iniciais precisa considerar na sua prática pedagógica. Confira! • As letras, em sua grande maioria, têm no seu nome o som básico que representam – trata-se do princípio acrofônico; por exemplo, a letra U tem o nome de u e o som de “u”. Há casos em que a le- tra pode representar sons diferentes, dependendo do contexto, fato verificado, por exemplo, com a letra C, que tem som de “cê” apenas diante de E e de I, e em outras situações tem som de “kê”. As letras H, K, Y e W não seguem esse princípio, mas, com exceção do H, são pouco usadas. Sem dúvida, o princípio acrofônico é fator facilitador para o aprendizado do alfabeto e serve de ferramenta básica para a de- cifração e leitura. Com o propósito de favorecer o uso desse prin- cípio, em algumas regiões do país um bocado de letras muda de nome: fê, lê, mê, nê, rê. • As relações entre sons letras podem ser biunívocas – cada som só corresponde a uma letra e vice-versa – ou cruzadas – letras e sons que mudam conforme a posição que ocupam na palavra. • Os pares em que cada som só corresponde a uma letra e vice- -versa são pouco numerosos; são verificados nas consoantes p, b, t, d, f, v. Iniciar o processo de alfabetização explorando essas consoantes tem a vantagem de facilitar para o aprendiz perceber que cada som corresponde a uma letra (mais tarde descobrirão que nem sempre funciona assim), porém tem a desvantagem de p, b e d terem semelhança gráfica, diferenciando-se entre si ape- nas pela rotação, o que gera dúvidas para quem está iniciando o convívio com a escrita. • As chamadas relações cruzadas regradas (R ou RR, G ou GU, C ou QU, entre outras), isto é, a existência de um som com duas possibilida- des de representação gráfica, porém previsíveis. Mostrar esse fato permite que a criança apreenda as regras e não precise memorizar a forma gráfica de palavra por palavra que se enquadram nesses ca- sos. Dito de outro modo: aprendendo que [ki] e [ke] se grafa sempre com que/qui, abrevia-se a tarefa de ensinar e aprender grafar. 24 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita • As denominadas relações cruzadas arbitrárias ocorrem nas múl- tiplas formas de grafar palavras nas quais o som [ s ] é seguido de vogal, como cera, máximo, sino, força, assado, cresça, nascer e exceto. Também é o caso de palavras em que as letras g e j (gelo e pajé) representam um mesmo som, ou ainda de palavras em que o som [ z ] ora é grafado com “z”, ora com “x”, ou ainda com “s”, entre outros. Nesses casos, não há regras e, para saber a grafia de tais palavras, é preciso memorizá-las ou consultar o dicionário. Diante disso, podemos prever que no início do aprendizado as crianças cometerão muitos desvios da forma ortográfica; essas transgressões não devem ser entendidas como demonstração de incapacidade do aprendiz, mas sim como fato que revela a indi- vidualidade da criança nos modos de lidar com a linguagem. Por outro lado indica que esse conhecimento, pela complexidade do sistema gráfico, depende de um trabalho progressivo e sistemático para que o domínio ortográfico vá se consolidando. • Não só as letras precisam ser conhecidas. Há marcas que reque- rem ser explicitadas, para que a criança não se confunda pensando serem letras ainda desconhecidas dela. Entre as marcas estão os diversos sinais de pontuação (? ! _ ... , : . “ ”), os acentos ( ^ ´ `), o til (~ ), o hífen (-). • A constatação de que a maioria das palavras da nossa língua são formadas por sílabas CV (consoante + vogal), mas que existem outras estruturas silábicas, tais como CVC, CCV, VC, V. • A exploração de rimas e a comparação entre palavras que iniciam com a mesma letra ou mesma sílaba são estratégias produtivas para o entendimento da relação grafema/fonema. Por meio des- sas atividades, o aluno vai percebendo que palavras que termi- nam ou iniciam com o(s) mesmo(s) som(ns) tendem a ser escritas com as mesmas letras. • A exploração de pares mínimos (cola, mola, rola, sola ou faca, foca, fica) permite à criança descobrir que a troca de apenas um som/ letra resulta em outra palavra. O tempo que leva para a criança aprender o sistema gráfico é variá- vel, pois depende, em parte, do encaminhamento dado pelo professor ao ensino dos diferentes aspectos do sistema gráfico. Por outro lado, depende do próprio estudante,visto que as crianças revelam singulari- Nos vídeos Alfabetização - apropriação do sistema alfabético Parte 1 e parte 2, publicados no canal ceelufpe, pesquisadores do CEEL/UFPE esclarecem as razões que justificam a necessidade de a escola trabalhar de modo explí- cito e sistemático com o sistema de escrita, a fim de assegurar as condi- ções necessárias para que a criança se aproprie desse conhecimento. São apresentadas considera- ções e alternativas sobre como explorar palavras, sílabas e grafemas por meio de atividades de uso e reflexão. Disponíveil em https:// www.youtube.com/ watch?v=Ne0ImYjWuf8 (parte 1). Acesso em: 5 maio 2021. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=Cwd9QcxedKE (parte 2). Acesso em: 5 maio 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=Ne0ImYjWuf8 https://www.youtube.com/watch?v=Ne0ImYjWuf8 https://www.youtube.com/watch?v=Ne0ImYjWuf8 https://www.youtube.com/watch?v=Cwd9QcxedKE https://www.youtube.com/watch?v=Cwd9QcxedKE https://www.youtube.com/watch?v=Cwd9QcxedKE A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 25 dades nos seus modos de lidar com a escrita. Importante não esquecer de que o domínio do sistema gráfico é apenas parte dos conhecimen- tos e capacidades necessários para fazer uso da linguagem escrita nas várias situações sociocomunicativas permeadas por ela. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, pudemos averiguar a importância do trabalho simul- tâneo com alfabetização e letramento nos anos iniciais, para que a for- mação de consumidores e produtores de textos seja exitosa. Embora o trabalho pedagógico seja centrado no texto, o foco nas unidades menores da escrita – letra, sílaba e palavra – não deve ser dispensado pelo profes- sor, pois a aprendizagem do sistema de escrita e as técnicas para seu uso dependem da mediação do adulto letrado, embora nem o ponto de parti- da nem a ordenação sejam fixos, como acontecia com os antigos métodos de alfabetização. O docente, levando em conta a situação concreta dos estudantes e valendo-se de seus saberes sobre o sistema gráfico e o funcionamento da escrita na sociedade, deve planejar a ordenação do trabalho com o sistema gráfico com base na leitura e na escrita de textos autênticos, de modo que a criança mergulhe nas práticas letradas. ATIVIDADE 1. Pense em gêneros textuais (nomes dos textos) que poderiam ser usados para alcançar os objetivos pretendidos nas situações apresentadas a seguir. No momento de registrar as respostas, procure lembrar das características de cada um e relacioná-los com os respectivos objetivos de cada gênero mencionado. a) Você tem uma pequena papelaria de bairro e quer atrair clientes. Qual seria a estratégia para a divulgação da sua loja? b) Você comprou um eletrodoméstico que apresenta defeito. Embora tenha feito contato por telefone, pretende deixar registrada sua devolução da mercadoria. De qual gênero se valeria? c) Você conseguiu realizar a viagem dos seus sonhos e, além de filmar e fotografar, quer registrar as informações mais relevantes. Para isso, poderia escrever um... Vídeo 26 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 2. Agora é sua vez de direcionar a análise de um texto possível de ser trabalhado com crianças ainda em processo de alfabetização. Utilize como base o cartaz a seguir para responder aos itens a, b e c. Fonte: Brasil, 2012. a) Formule questões para explorar os sentidos do texto do cartaz. b) Agora proponha atividades focando o sistema de escrita. Elabore alguns exercícios explorando a palavra vacina. c) Escreva um parágrafo justificando a importância de a criança, mediada pelas leituras do professor, ter contato com diferentes gêneros textuais, mesmo antes de estar alfabetizada. 3. Valendo-se apenas da audição e desconsiderando a forma padrão, leia em voz alta as palavras do quadro e escreva-as usando outras possibilidades de grafia. O objetivo dessa atividade é que você encontre uma justificativa e compreenda as hipóteses das crianças quando elas cometem desvios ortográficos. a) PEQUENO b) ONDAS c) COLCHA d) MAÇà A inter-relação entre alfabetização e letramentos múltiplos 27 4. Planeje uma atividade de jogo/brincadeira em que a rima ou as palavras que iniciam com o(s) mesmo(s) som(ns) seja o foco da atenção. Pode ser oral ou escrita. Segue a cartela abaixo como exemplo de uma atividade possível. Porém, há muitas outras, use sua criatividade. Na última coluna, desenhe um objeto, animal ou alimento que rime com as que estão em cada sequência. Th iti sa n/ Sh ut tte rs to ck Ap oG ap o/ Sh ut te rs to ck Re m ar kE liz a/ Sh ut te rs to ck Ni co le sa /S hu tte rs to ck an dr ey nc /S hu tte rs to ck TM P - A n In st an t o f T im e/ Sh ut te rs to ck Ol ga G uc he k/ Sh ut te rs to ck Th e Ar t o f P ic s/ Sh ut te rs to ck gr es ei /S hu tte rs to ck REFERÊNCIAS 9 GULOSEIMAS com origens surpreendentes. Incrível. 2021. Disponível em: https://incrivel. club/admiracao-curiosidades/9-guloseimas-com-origens-surpreendentes-535260/. Acesso: 5 maio 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Campanha: vacinação contra a paralisia infantil. 2012. Disponível em: https://www.itaqui.rs.gov.br/noticias/2012/06/secretaria-de-saude-realiza- no-sabado-vacinacao-contra-a-paralisia-infantil.html. Acesso em: 5 maio 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Campanha: doação de sangue. 2013. Disponível em: https:// antigo.saude.gov.br/images/jpg/2014/novembro/24/Anuncio-Jornal-DoacaoSangue- https://incrivel.club/admiracao-curiosidades/9-guloseimas-com-origens-surpreendentes-535260/ https://incrivel.club/admiracao-curiosidades/9-guloseimas-com-origens-surpreendentes-535260/ https://www.itaqui.rs.gov.br/noticias/2012/06/secretaria-de-saude-realiza-no-sabado-vacinacao-contra-a-paralisia-infantil.html https://www.itaqui.rs.gov.br/noticias/2012/06/secretaria-de-saude-realiza-no-sabado-vacinacao-contra-a-paralisia-infantil.html https://antigo.saude.gov.br/images/jpg/2014/novembro/24/Anuncio-Jornal-DoacaoSangue-icones-Olivio-125x190.jpg https://antigo.saude.gov.br/images/jpg/2014/novembro/24/Anuncio-Jornal-DoacaoSangue-icones-Olivio-125x190.jpg 28 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita icones-Olivio-125x190.jpg. Acesso em: 5 maio 2021. BRASIL. Relatório Resultados Preliminares. Brasília, DF: INEP/MEC, 2014. 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A reflexão sobre esse fenômeno é indispensável para o professor poder lidar com essa questão sem precon- ceitos, ou seja, sem taxar como erro um uso diferente daquele determina- do pela norma-padrão. Os estudos da sociolinguística têm enfatizado que uma língua é um feixe de falares, porém, para o senso comum, apenas a variedade com prestígio social tem sido considerada correta, enquanto as demais variedades são classificadas como erradas. Com vistas a esclarecer esse equívoco, apresentamos aqui fundamen- tos teóricos para a compreensão do que significa saber uma língua, dos tipos de variação e de que modo esses conhecimentos auxiliam o docente a entender que existem fatores internos e externos à língua responsáveis pelas diferenças encontradas nos falares e pelos desvios em relação ao padrão da língua escrita. Como o foco desta obra é o período inicial de aquisição da escrita, centraremos a discussão nas questões relacionadas à ortografia, contudo, sem esquecer que a variação linguística influencia outros aspectos, por exemplo, a conjugação verbal, as regras de concordâncias no interior das frases, entre outros. No início do processo de aquisição da escrita, a criança leva muito em conta a pauta sonora da fala, sendo assim, diversas grafias fora do padrão se devem à variedade linguística que ela domina, outra parte se deve à relação entre sons e letras. Nosso sistema comporta regularidades, mas também diversas irregularidades, e estas últimas tornam complexo o processo para a criança ultrapassar a escrita alfabética e chegar à escrita ortográfica. Quando compreendemos as razões dos “erros”, como educadores, temos maior clareza na escolha de estratégias que possibilitem ao estu- dante se apropriar das convenções da língua-padrão para empregá-la de modo exitoso, condição necessária para uma participação ativa na socie- dade e exercício efetivo da cidadania. 30 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • compreender a diversidade linguística como fenômeno na- tural das línguas e o impacto da variação na apropriação da modalidade escrita; • refletir sobre semelhanças e diferenças entre língua oral e escrita; • analisar a natureza dos diversos “erros” no processo de aquisiçãodo sistema gráfico da escrita. Objetivos de aprendizagem 2.1 A variação linguística no português brasileiro Vídeo Vamos iniciar a reflexão sobre a diversidade da língua com base na leitura dos textos a seguir. Neles, marcaremos as palavras ou as frases que nos causarem estranhamento. Texto 1 – Poema Eu e o Sertão Patativa do Assaré Sertão, argúem te cantô, Eu sempre tenho cantado E ainda cantando tô, Pruquê, meu torrão amado, Munto te prezo, te quero E vejo qui os teus mistéro Ninguém sabe decifrá. A tua beleza é tanta, Qui o poeta canta, canta, E inda fica o qui cantá. Fonte: Assaré, 2017. O processo de aquisição da escrita pela criança 31 Texto 2 – Conversa de dois skatistas em um site, em 2014 Túlio: — OK, cara, valeu aew. Espero algum dia podermos dar um rolé em freestyle juntos, tá ligado? Aleanna: — bora fazer um jam então, tulio. • Gírias de skatistas: Jam: reunir a galera para andar de skate Dar um rolé: sair para andar de skate Freestyle: andar em uma pista sem obstáculos Fonte: GÍRIAS..., 2014. Texto 3 – Fragmento da bula de Cefalexina Interações medicamento - exame laboratorial Testes de COOMBS direto positivos foram relatados durante o tratamento com antibióticos cefalosporínicos. Em estudos hematológicos, nas provas de compatibilidade sanguínea para transfusão, quando são realizados testes “MINOR” de antiglobulina, ou nos testes de COOMBS nos recém-nascidos, cujas mães receberam antibióticos cefalosporínicos antes do parto, deve-se lembrar que um resultado positivo poderá ser atribuído à droga. Poderá ocorrer uma reação falso-positiva para glicose na urina com as so- luções de Benedict ou Fehling ou com os comprimidos de sulfato de cobre para teste. Fonte: BULA..., 2020. Nos textos lidos, fica evidenciado o fenômeno da variação: uma relativa diferença entre linguagem urbana e rural, linguagem mescla- da com gírias, linguagem técnica, português mais antigo e português contemporâneo. Toda e qualquer língua – tanto falada quanto escrita – varia no tempo, no espaço geográfico, nos grupos sociais e, ainda, no próprio indivíduo 1 , pois como namorado(a) ou como vendedor(a) temos comportamentos linguísticos diferenciados. Na oralidade, a heterogeneidade é mais perceptível e, sem dúvidas, você já observou que pessoas de diferentes regiões têm “sotaques” dis- tintos devido ao modo de pronunciarem os sons e percebeu também que a forma de construção de algumas frases apresenta diferenças. Por exemplo: Tecnicamente são deno- minadas variação histórica, geográfica, social e estilísti- ca, respectivamente. 1 https://consultaremedios.com.br/glicose/bula 32 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita • Essa aqui é moça em cuja casa eu me hospedei quando fui a São Paulo. • Essa aqui é a moça que eu fiquei na casa quando fui pra São Paulo. • Essa aqui é a moça que eu fiquei na casa dela quando fui pra São Paulo. Além dos sons e das construções sintáticas, também há palavras e expressões próprias das diversas regiões. Você as conhece? Figura 1 Vocábulos e expressões regionais Su rfs Up /s hu tte rs to ck Curitiba Fortaleza Porto Alegre Florianópolis Salvador Goiânia • piá (guri, menino); • vina (salsicha). • ande, tonha (apresse-se); • rebolar no mato (jogar fora). • cacetinho (pão francês); • deitar o cabelo (ir embora, sair). • fortidão (cheiro); • fungar na nunca (perseguir). • bulir (mexer); • comer água (beber bebida alcoólica). • bão demais da conta (ótimo); • dou conta não (não consigo). Fonte: elaborada pela autora. Ao irmos nos deparando com os dados, emitimos juízo de valor sobre as palavras, qualificando alguma(s) como feia(s), ruim(ns)? Se esse julgamento foi feito, precisamos saber que as diferenças entre os falares não tornam mais bonito ou mais feio um modo de falar, elas simplesmente caracterizam os falantes, dão pistas da região onde nasceram ou viveram e evidenciam a pluralidade cultural. Vale lembrar, porém, que não existem fronteiras linguísticas demarcadas rigidamen- te, pois onde convivem migrantes vindos de várias regiões – como é o caso de Brasília, por exemplo – vários dialetos se mesclam. O processo de aquisição da escrita pela criança 33 Ocorre que, no senso comum – ao contrário do que evidenciam os estudos linguísticos –, as falas de pessoas de regiões periféricas, de bai- xa renda e pouca escolaridade são de difícil aceitação, consideradas inferiores, alvos de preconceitos. Contudo, do ponto de vista científico, essa rejeição é sem fundamentos, motivada apenas por questões so- ciais, ou seja, um modo de falar é ou não valorizado dependendo do status que tem seu grupo de falantes. Aos grupos que detêm maior poder econômico e político é conferido maior prestígio social, e esse prestígio, automaticamente, é transferido à sua variedade linguística. Note bem: reconhecermos que todas as variedades linguísticas de- vem ser respeitadas não equivale a dizermos que o ensino e a apren- dizagem da norma-padrão 2 tornam-se desnecessários. É papel da escola dar condições para que, na vida social, as pessoas consigam adequar o seu dizer (oral e escrito) à situação sociocomunicativa, ao assunto em questão e aos participantes da interação.Mais adiante trataremos dessa questão. Agora vamos a uma pausa para analisarmos dados de variações no portu- guês contemporâneo. No final da seção, há três atividades voltadas para esse fim, então, mão na massa! A essa altura você deve estar se perguntando: “então, não existe erro linguístico?” Vamos a essa questão! Avalie se as frases a seguir permitem ou não comunicação entre dois falantes de português. ( ) Esses dia a gente fomos pra cidade. ( ) Esses dias nós fomos pra cidade. ( ) Esses dias pra nós cidade fomos. É muito provável você ter concluído que tanto a primeira quanto a segunda frase permitem que um falante nativo de língua portuguesa compreenda perfeitamente a informação nelas contida. Ocorre que, na primeira, há uma infração à regra padrão de concordância verbal que, embora não comprometa seu sentido, do ponto de vista social não é bem avaliada. Temos, portanto, um caso de diferença linguística: varie- dade desprestigiada X variedade de prestígio. O termo norma-padrão equivale à: língua padrão ou dialeto padrão. 2 34 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Já a terceira frase – embora contenha exatamente as mesmas pa- lavras da segunda – não é inteligível. Nenhum falante nativo de língua portuguesa, mesmo que analfabeto, fará uma construção nesses mol- des, porque todos temos um saber implícito sobre a língua que, por um lado, nos orienta em relação às estruturas possíveis e, por outro, veta o erro. Sim, nesse caso, trata-se de erro, visto que essa construção foge à lógica da língua e compromete a interação entre os falantes, porém os casos de uso da língua que apenas fogem ao padrão não resultam em erros, conforme pudemos observar nas frases em análise. Sendo assim, é possível concluirmos que todo falante sabe sua lín- gua, pelo menos em parte, e isso se aprende até os cinco primeiros anos de vida. O que a escola precisa fazer é dar acesso aos estudantes à variedade de prestígio para que eles a acrescentem aos seus conheci- mentos e disponham dela nas situações que exigirem comportamento linguístico mais formal. Esse é o caso da maioria dos textos escritos, mas há também práticas sociais orais que exigem maior rigor formal, tal como realizar uma entrevista de emprego, prestar um depoimento, solicitar uma informação em uma empresa, entre outros inúmeros. Além disso, dependendo do tema tratado em dada situação, o grau de informalidade sofre mudança. Por exemplo, em uma reunião de professores em Conselho de Classe haverá tendência de se fazer uso de um registro (ou estilo) mais formal, porém, caso se mude de assunto e se comece a falar sobre as férias que se aproximam, os participantes do diálogo tenderão a usar um estilo mais informal. Persiste, por vezes, o equívoco de se associar língua escrita com re- gistro formal e língua oral com informal, mas tenha em conta que em ambas as modalidades existe variação de registro. Tanto a fala quan- to a escrita manifestam-se formal ou informalmente. Nesse sentido, é importante trazer para a sala de aula, desde os momentos iniciais da escolarização, a diversidade de textos que circulam nas mídias impres- sas, digitais e analógicas, para que as crianças vão percebendo que os modos de dizer variam a fim de atenderem às exigências de cada situa- ção comunicativa particular. Na próxima seção, passaremos à discussão sobre a forma como a variação dialetal e também a relação entre oralidade escrita impactam o processo de aquisição da modalidade escrita de linguagem, dando ênfase à apropriação do sistema de escrita. O vídeo Variação linguís- tica e ensino registra um encontro no qual varia- ção linguística e ensino de Língua Portuguesa foram o tema do debate. O professor e pesquisa- dor Marcos Bagno, da UnB, autor de diversas obras que abordam essa temática, foi o debatedor convidado. No encon- tro, ele comenta sobre o papel da escola com relação à promoção do letramento, esclarece terminologias (o que se entende por língua, varia- ção linguística e a que se refere a palavra varieda- de) e coloca em destaque as falsas crenças sobre a variação linguística. Todos esses aspectos são subsí- dios para o professor poder atuar de modo mais eficaz no ensino, independentemente do ano de escolaridade em que atua. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=S3wFZgfHSVU. Acesso em: 30 abr. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=S3wFZgfHSVU https://www.youtube.com/watch?v=S3wFZgfHSVU https://www.youtube.com/watch?v=S3wFZgfHSVU O processo de aquisição da escrita pela criança 35 2.2 As hipóteses dos aprendizes em relação à língua escrita Vídeo Estudos que contemplam o componente linguístico da alfabetiza- ção, datados do final da década de 1980 e ao longo da década de 1990, esclareceram que o processo de aquisição da língua escrita é marcado pela relação que o aprendiz estabelece entre as formas de organização das modalidades oral e escrita da língua. Em outras palavras, no pro- cesso de alfabetização, as crianças levam em conta os conhecimentos que têm sobre sua língua falada e também aquilo que conhecem/fo- rem conhecendo sobre escrita. 2.2.1 Os impactos da relação oral e escrita nos critérios de segmentação da escrita Não existe identidade total entre língua falada e escrita, por outro lado, também não há oposição absoluta. Entre elas existem seme- lhanças porque são práticas e usos de uma mesma língua, contudo, apresentam um conjunto de princípios particulares, o que torna a apropriação da escrita um processo laborioso, dependente da media- ção do professor. Vejamos as principais diferenças entre ambas as modalidades: Quadro 1 Relações entre fala e escrita FALA ESCRITA Interação face a face Interação à distância (espaço-temporal) Planejamento simultâneo ou quase simultâneo à produção Planejamento anterior à produção Criação coletiva: administrada passo a passo Criação individual Impossibilidade de apagamento Possibilidade de revisão Sem condições de consulta a outros textos Livre consulta A reformulação pode ser feita tanto pelo falante como pelo interlocutor A reformulação é promovida apenas pelo escritor Acesso imediato às reações do interlocutor Sem possibilidade de acesso imediato O falante pode processar o texto, redirecionando-o a partir das reações do interlocutor O escritor pode processar o texto a partir das possíveis reações do leitor O texto mostra todo o seu processo de criação O texto tende a esconder o seu processo de criação, mostrando apenas o resultado. Fonte: Fávero; Andrade; Aquino, 2000, p. 74. 36 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Esse quadro esclarece que escrever não é simplesmente pôr a fala no papel ou no computador. Quando falamos, temos a cooperação do ouvinte que nos ajuda a construir o texto fazendo perguntas, de- monstrando ou não a compreensão por meio de expressões faciais ou complementando informações. Já na escrita, temos de assumir duplo papel, o de autor e o de leitor, pois precisamos nos colocar no lugar deste para avaliar se está ficando claro e coerente o nosso dizer. Para você constatar as particularidades de ambas as modalidades da língua, comparemos os dois textos apresentados a seguir (Quadro 2). Trata-se de um fragmento de diálogo entre dois adultos escolariza- dos em duas versões. Quadro 2 Comparativo entre texto falado e texto escrito TEXTO FALADO TEXTO ESCRITO — O português então não é uma língua difícil? — Olha... se você parte do princípio... que a língua portuguesa não é só regras gra- maticais...não...se você se apaixona pela língua que você...já domina que você já fala ao chegar na escola se o teu profes- sor cativa você a ler obras de literatura... obras da/dos meios de comunicação...se você tem acesso a revistas...éh...a livros didáticos... a livros de literatura mais for- mal...o e/o difícil é porque a escola trans- forma como eu já disse as aulas de língua portuguesa em análises gramaticais O português não é uma língua difícil?Não, partindo do princípio de que a lín- gua portuguesa não se restringe a regras gramaticais. Se o aluno se interessa pela língua que ele domina e fala ao chegar à escola, cabe ao professor incentivá-lo a ler obras literárias, dando-lhe acesso a revistas, livros didáticos, textos mais formais, tornando-a fácil e prazerosa. O problema é que a escola transforma as aulas de Língua Portuguesa em análises gramaticais. Fonte: Marcuschi, 2001, p. 105. Repare que, na transformação, o escrito apresentou acentuada re- dução de palavras, eliminação das repetições e hesitações, uso de ter- mos mais precisos, emprego de sinais de pontuação e desapareceram os traços emotivos. Houve o que se chama de retextualização, ou seja, foram efetuadas algumas operações para a transformação de uma mo- dalidade em outra. Essas operações de retextualização vão sendo aprendidas grada- tivamente pela criança, no convívio com a leitura e a escrita, media- das pelo professor. Se, como vimos, existem especificidades, temos de admitir que no início do processo de aprendizagem da escrita, a criança O processo de aquisição da escrita pela criança 37 cometerá muitos “erros” porque ela formula um conjunto de hipóteses com base em sua experiência de oralidade. Observe algumas ocorrências de interferência do oral no texto a se- guir (Figura 2), produzido por um estudante de início de segundo ano, já alfabetizado: Figura 2 Interferências no texto oral Fonte: Gusso, 1996. Notamos que, na segmentação, há ocorrências de junção de pala- vras (euvou; coos; bolodexocolate; queeu; gostotanto; ubego), mas tam- bém uso adequado dos espaços em branco entre as palavras. Isso se deve ao fato de a criança formular suas hipóteses tomando como refe- rência tanto a fala quanto a escrita que vem manipulando. No início, as crianças tendem a fazer mais junções (hipossegmenta- ções), porque se orientam basicamente pela pauta sonora e transferem para a escrita a mesma cadeia contínua que ouvem. À medida que vão interagindo com a escrita na qual as palavras são delimitadas pelos es- paços em branco, as junções diminuem significativamente e começam a surgir cisões indevidas (hiperssegmentações), como em: a chou; ou vir; dor mir; mau dita. É provável que o critério utilizado em casos como esses seja a identificação das sílabas a, ou, dor e mau, que funcionam também como palavras no interior de textos. A percepção e a utilização dos espaços em branco na escrita não é uma tarefa simples para o iniciante, por isso, levará algum tempo para chegar ao domínio dos critérios e dos recursos convencionais. Observe que, na fala, as pausas necessariamente não significam uma fronteira entre vocábulos, elas podem indicar um grupo maior, por exemplo: “eraumavez”, “porisso”, “umdia” “meuamigo”. Isso sem contar 38 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita que temos casos em que uma mesma sequência sonora pode ou não ser segmentada, dependendo do sentido, por exemplo: a Deus /adeus; a gente /agente; por que/porque; Omar/o mar. Embora, aos menos avisados, possa parecer que a criança seg- menta a escrita sem nenhum critério, estudos sobre esse fenômeno revelaram existir procedimentos mais regulares, influenciados pelo próprio sistema linguístico. Inicialmente os erros de junção são mais recorrentes do que os de cisão, pois a criança leva em conta a pauta sonora, mas, à medida que vai se familiarizando com textos escritos, essas ocorrências vão reduzindo. Sendo assim, fica evidente que quan- to antes a criança aprender a ler, mais será beneficiada no aprendizado das convenções da escrita que precisará dominar para produzir textos. 2.2.2 Influências do sistema fonológico no aprendizado do sistema ortográfico Todas as línguas humanas têm como base para formação de pala- vras um conjunto de fonemas (sons) que, na nossa escrita, são repre- sentados pelo alfabeto. Porém, já vimos antes que não existe uma letra para cada som e vice-versa. Assim, quando a criança já conhece todo o alfabeto, ela registrará palavras com base em suas hipóteses sobre as relações entre sons e letras, portanto, cometendo “erros” que reve- lam seu processo de formulação e reformulação de hipóteses sobre o modo de grafar. Mas vale observarmos que os “erros” não são produ- zidos de maneira irrefletida como se poderia supor; geralmente eles revelam usos inadequados de recursos possíveis do próprio sistema gráfico. Leia em voz alta as grafias não oficiais a seguir para conferir: Quadro 3 Exemplos de grafias não oficiais Ortografia oficial Outra grafia 1 Outra grafia 2 Outra grafia 3 maçã massã maçan masçam exato ezato esato - capricho kapricho caprixo kaprixo Fonte: elaborado pela autora. Alguns pesquisadores já comprovaram que a categoria de “erros” ortográficos a qual apresenta a maior quantidade de ocorrências é aquela que engloba os casos nos quais a criança faz transcrição fonéti- O processo de aquisição da escrita pela criança 39 ca da própria fala, por exemplo: verdi (verde), arroiz (arroz), falo (falou), faze (fazer), pranta (planta), ainsima (aí em cima), pegano (pegando). À medida que a criança vai se apropriando das formas ortográfi- cas de determinadas palavras e sabe que a pronúncia delas é dife- rente, ocorre o que chamamos de hipercorreção, ou seja, ela passa a transferir a regra para uma situação indevida, como em: vio (viu) ou galfo (garfo). Na fase em que comete esse tipo de desvio ortográ- fico, a criança já está percebendo que não se escreve exatamente como se fala, ou seja, está demonstrando que reflete sobre a relação grafema-fonema. Vamos à análise de um texto para entender melhor a formulação de hipóteses dos iniciantes sobre o funcionamento da escrita? Figura 3 Texto de estudante em processo de alfabetização Fonte: Gusso, 1996. Esse exemplar foi escrito por um estudante de segundo ano do ensino fundamental, após ter ouvido a leitura de um pequeno texto informativo sobre beija-flores. Foi a primeira tentativa de escrever algo diferente de narração de história, por isso a estrutura textual não está bem definida: inicia tratando o tema de modo genérico, mas logo recorre ao recurso de criação de personagem – próprio da narrativa. Com relação à convenção ortográfica, há cinco ocorrências de desvios da norma: Na palavra bejaflor (beija-flor), a supressão do i deve-se ao fenô- meno existente na fala de redução do ditongo [ey]; o não emprego do hífen justifica-se por este recurso ser usado em casos raros na nossa escrita e, sendo assim, provavelmente a criança em questão ainda não observou o funcionamento desse recurso gráfico. A forma ne um (em um/num) deve-se à representação da forma utilizada na sua variedade dialetal. (Continua) in ce pt io n- D/ s hu tte rs to ck 40 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita A grafia insima (em cima) deve-se ao desconhecimento da con- venção. Essa expressão é segmentada por pura arbitrariedade do sistema de escrita, uma vez que não existem justificativas para a diferença de segmentação entre os pares opostos: em cima e embaixo. Portanto, nesse caso, só resta a memorização das for- mas, tal como precisará acontecer com diversas outras palavras. Ao escrever enatra (é na terra), o estudante representou o grupo de força da fala. Em relação à tra, a omissão da letra e, na primeira sílaba, pode ser devido ao fato de no nome da letra t já soar o e, assim, a criança julga não haver a necessidade de colocá-lo, como também pode ter sido por mero esquecimento já que a estrutura CV não representa problema para essa criança, conforme observamos na grafia do restante do texto. O emprego de um r apenas deve-se ao fato de que essa letra, quando em início de palavra, representa som forte; então, falta ao estudante aprender a regra dos casos em que a ortografia exige dois erres. Observa-se a grafia de outro dentro da convenção, muito embora o ditongo [ow], na nossa fala, se reduza a [o], tanto no interior das palavras quantono final delas. Esse é um indício de que essa criança está percebendo que a escrita não é idêntica à fala. Muitas vezes, esses desvios ortográficos são avaliados como sin- tomas de incapacidade do estudante, porém os “erros” desse texto evidenciam que a criança tem participação ativa no processo, pois, nesse percurso de apropriação da escrita convencional, ela (re) ela- bora hipóteses que dão indícios sobre as relações que cada aprendiz estabelece com a língua escrita. 2.3 E quando ensinar ortografia? Vídeo Antes de mais nada, como bem assinala Cagliari (1998), o professor precisa ter clareza do porquê existe norma ortográfica, do modo como ela se organiza, bem como da forma que é aprendida. Para po- dermos mediar o conhecimento a respeito da convenção que unifica a escrita das palavras, é essencial compreendermos as hipóteses que a criança formula sobre a grafia delas para prevermos as dificuldades que, certamente, ela enfrenta no sentido de chegar às convenções em uso na sociedade. O processo de aquisição da escrita pela criança 41 As crianças gostarão de saber que, em documentos e livros do passado, encontraremos muitas palavras grafadas como elas as es- crevem, visto que antes de haver uma regulamentação para a grafia, as pessoas registravam livremente 3 . Como exemplo, podemos citar: homes (homens), dici (disse), onrra (honra), ydade (idade), oje (hoje) etc. Essa liberdade facilita escrever, porém compromete a comunica- ção pois, no momento da leitura, o leitor sofrerá para entender. Contudo, o professor precisa compreender a necessidade de primeiro as crianças poderem escrever do jeito que elas acham que deve ser, pois elas carecem perceber como funciona a relação entre sons e letras. Depois, quando familiarizadas com o sistema de escrita alfabética, serão levadas a reconsiderar suas hipóte- ses, tendo em conta as normas ortográficas, inicialmente com os casos em que existe regra de contexto. Já os casos irregulares de- pendem de consulta ao dicionário ou memorização, portanto, nos acompanharão ao longo de toda a vida. Nas regularidades contextuais, conhecendo a regra, podemos gerar grafias sem depender da memorização de cada palavra es- pecífica, então, é importante que o aluno seja auxiliado pelo pro- fessor na compreensão de tais regras. Autores como Faraco (1992) e Morais (2001), em estudos dedicados aos aspectos ortográficos da língua portuguesa, evidenciam os principais casos que seguem princípios para a definirção da letra a ser usada: • O uso de R ou RR em palavras como roda, carro, careca, perto, fraco e genro. • O uso de C ou QU com som de [k] em palavras como copo e quilo. • O uso de G ou GU em palavras como gato e foguete. • O uso de J quando seguido de A, O, U em palavras como jaca, jovem e jumento. Porém, diante de E e de I, temos duas possi- bilidades: J ou G. A letra mais frequente é G. • O uso de Z em palavras que iniciam com som [z], tais como zebra e zangado. A letra Z nunca aparece em final de sílaba no interior das palavras (nesse caso, é sempre a letra S), por exemplo: mesmo, casca, lista e mosca. O trabalho com jogos é um excelente aliado para sistematizar essas distinções. A obra Jogos de alfabetização, traz subsídios para professo- res que atuam em classes cujos estudantes estão em processo de alfabeti- zação. Nela, o professor encontra exemplos de atividades que buscam favorecer a aprendizagem do sistema alfabético de escrita e, com base nes- ses exemplos, o educador poderá se inspirar para produzir outros jogos. BRANDÃO, A. C. P. A. et al. CEEL, UFPE, 2009. Disponível em: platafor- madoletramento.org.br/ arquivo_upload/2014-02/ 20140210152238-mec_ ufpe_manual_de_jogos_di- daticos. Acesso em: 6 abr. 2021. Livro A ortografia da língua por- tuguesa foi estabelecida em um acordo entre Bra- sil e Portugal apenas em 1931 e entrou em vigor em nosso país em 1943. O acordo ortográfico atual foi firmado em 1990 e entrou em vigor, no Brasil, em 2016. 3 http://plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2014-02/20140210152238-mec_ufpe_manual_de_jogos_didaticos http://plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2014-02/20140210152238-mec_ufpe_manual_de_jogos_didaticos http://plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2014-02/20140210152238-mec_ufpe_manual_de_jogos_didaticos http://plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2014-02/20140210152238-mec_ufpe_manual_de_jogos_didaticos http://plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2014-02/20140210152238-mec_ufpe_manual_de_jogos_didaticos http://plataformadoletramento.org.br/arquivo_upload/2014-02/20140210152238-mec_ufpe_manual_de_jogos_didaticos 42 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita • O uso de S em início de palavras formando sílabas com A, O e U (sapo, sopa, suco) e no final de palavras quando indicar plural (balas, corpos). Também será a letra S em final de sílaba interna com todas as vogais, exceto com E: mascote, mosca, bispo, custar. Diante de E poderá ser S ou, mais raramente, X (mestre e texto). • O uso de M, N, NH ou ~ (til) são diferentes formas de marcar a nasalização em português, mas há regras para seus usos: • Palavras terminadas em [ã] se escrevem com til; as demais vogais com M e, menos frequente, com N: anã, irmã, irmãzinha, bem, bom, atum, hífen. • Palavras com vogais nasais em finais de sílaba escrevem-se com M diante de P e de B, e com N nos demais contextos: tombo, campo, dente, lindo, manco. A letra N é rara em finais de palavras. • Uso de E ou I no final de palavras que terminam com som de [i] e uso de O ou U em palavras que terminam com som de [u]: es- ses não são problemas difíceis de solucionar porque basta o pro- fessor mostrar que pronunciamos i em [to. ma. ti.] e u em [o. vu], mas grafamos e e o. As letras I e U são raras na sílaba fraca em final de palavras. No caso de palavras oxítonas, daí sim, usam-se as letras I e U: perdi, saci, urubu, sagu. Ao lado das regularidades apresentadas, estão as irregularida- des da nossa convenção ortográfica, entre as quais destacam-se as seguintes: • o som do S que é representado por 9 possibilidades: s, c, ss, sc, sç, x, ç, z, xc – (sapo, cebola, massa, cresce, cresça, máximo, maçã, vez, exceção); • o som do G que pode ser grafado com j ou g (jerimum, gente); • o som do X que pode ser grafado com x ou ch (xícara, chinelo); • o som do Z que se pode grafar com s, z ou x (casa, vezes, exame); • o emprego do H inicial (hoje, hora); • a disputa entre L e LH diante de alguns ditongos (família e filha). Para os casos em que a definição da letra é puramente arbitrária, ou seja, quando não há uma regra que ajude o aprendiz, um caminho O caderno Programa de Formação de Professo- res Alfabetizadores faz parte de um conjunto de materiais elaborado por educadores para promo- ver a profissionalização do magistério. Além de textos literários de reno- mados escritores brasi- leiros, encontramos dois textos de Artur Gomes de Morais: O que aprender de ortografia? e Uma reflexão sobre normas ortográficas, ambos de grande valia para os professores em geral. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Coletânea de Textos, Módulo 3, 2001. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/ arquivos/pdf/Profa/col_3.pdf. Acesso em: 30 abr. 2021. Leitura http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Profa/col_3.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Profa/col_3.pdf O processo de aquisição da escrita pela criança 43 é expor a criança à escrita (livros, revistas, internet) para ela ir interna- lizando a imagem visual dessas palavras. Dar atenção especial àque- las que são mais usuais na escrita da criança, por exemplo, homem, humano, gente, entre outras. Para as menos usuais, é importante dar a conhecer aos estudantes os materiais disponíveis para consulta, como é o caso de dicionários impressos e digitais. 2.4 Outros fatores que interferem Vídeo A própria forma das letras gera dúvidas por suas semelhanças gráficas.Incluem-se, nesse caso, m e n, p, b, d, e q. Apenas depois de um contato mais sistemático é que a criança consegue interna- lizar as diferenças entre elas. A semelhança sonora entre os pares [p/b; t/d; k/g; e f/v] tam- bém é um fator que tem forte interferência no processo de aquisi- ção de escrita. Observe que em cada par, o ponto de articulação é o mesmo: • Sons bilabiais [b] e [p] - produzidos com os lábios superior e inferior. • Sons dentais ou alveolares [d] e [t] – produzidos com a pon- ta da língua tocando nos dentes superiores ou na região alveolar. • Sons velares [g] e [k] – produzidos com a parte posterior da língua tocando no palato mole. • Sons labiodentais [v] e [f] – produzidos com o lábio inferior e os dentes superiores. O que distingue esses pares é o vozeamento: em [p, t, k, f] as pregas vocais não vibram (sons desvozeados ou surdos); enquan- to em [b, d, g, v] há vibração das pregas vocais (sons vozeados ou sonoros). A semelhança entre esses pares é um dos fatores que merece bastante atenção da equipe pedagógica para que não se tome gato por lebre, rotulando indevidamente como disléxicas crianças que, no início da alfabetização, fazem a troca de letras na representa- ção desses sons. Um motivo que induz a criança a essas trocas é o fato de que, quando vão escrevê-las, pronunciam apenas sons sussurrados, e como a distinção entre esses pares é o traço de so- Que tal vermos um vídeo contendo imagens das pregas vocais em funcio- namento? Vamos entender na práti- ca o funcionamentos dos pares de sons vozeados e desvozeados. Assista ao vídeo Falsete feminino laringoscopia cordas vocais 2504 e, de- pois, experimente sentir a diferença de vozeamento entre os pares de sons apresentados. Para perceber isso, devemos colocar os dedos sobre o chamado pomo de adão ou gogó e pronunciar continuamente o som [b] e, depois, o som [p]. Repare que na produção de [b] você sentirá a vi- bração das pregas vocais nos dedos, ao contrário de [p] que é produzido sem essa vibração. Esse teste pode ser feito tam- bém com os outros pares fonéticos. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=RcUT2erWqko. Acesso em: 30 abr. 2021. Na prática https://www.youtube.com/watch?v=RcUT2erWqko https://www.youtube.com/watch?v=RcUT2erWqko https://www.youtube.com/watch?v=RcUT2erWqko 44 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita noridade, na hora de definir qual letra usar, acabam tendo dificul- dade e escrevem, por exemplo, PALA (bala), FACA (vaca), CALO (galo), TOIS (dois). CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo abordou o fenômeno da variação linguística eviden- ciando tratar-se de um fenômeno perfeitamente natural, pois nenhuma língua é homogênea. A norma-padrão foi instituída para permitir que fa- lantes de tempos e de lugares diferentes tenham a possibilidade de ser bem-sucedidos em suas interações linguísticas. Com base nessa com- preensão, o papel da escola é possibilitar aos estudantes o acesso à va- riedade de prestígio a fim de que possam ter acesso às informações do mundo contemporâneo, porém respeitando as demais e combatendo o preconceito linguístico por ser ele um comportamento infundado, uma forma de discriminação social que demanda ser desconstruída. Na segunda seção, foram tecidas considerações sobre língua oral e escrita, destacando que, embora não sejam realidades opostas, apresentam algumas especificidades que impactarão o processo de aquisição da modalidade escrita. Com relação à apropriação desta, destacamos que a ocorrência de desvios ortográficos devem ser en- carados como inerentes ao processo e, por outro lado, considerar que eles indicam a necessidade de a criança ser mediada pelo adulto letrado para se apropriar das convenções. As arbitrariedades existentes no sistema impõem ao aprendiz a ne- cessidade de conhecer algumas regras para saber qual letra ou dígra- fo se usa em tal contexto, bem como de aprender outras estratégias para descobrir a forma ortográfica de palavras em que a representação gráfica de uma unidade sonora é totalmente arbitrária. Nesse sentido, não devemos perder de vista que a internalização de um saber, segun- do Vygotsky (1987), demanda interação do aprendiz com seus pares (no caso, professor e colegas) e com o objeto de aprendizagem (nesse caso, a escrita). Assim, é fato que não haverá rendimentos idênticos en- tre os estudantes para a internalização do sistema gráfico: cada crian- ça, por sua história particular de relação com a linguagem e com seus interlocutores, manifestará ritmos e rotas particulares, demandando estratégias de ensino variadas para atender a todos. O processo de aquisição da escrita pela criança 45 Os estudiosos do assunto advertem que para o ensino da or- tografia, a escola precisa definir metas, graduando os patamares a serem alcançados. Convém iniciar a sistematização da grafia pelas regularidades no sistema e depois passar para as irregularidades que se apresentam com maior frequência, deixando os casos raros para anos mais avançados da escolaridade. ATIVIDADES 1. Escreva outras palavras e/ou expressões que exemplificam a variação geográfica. 2. A dimensão social também contribui para a variação linguística. Fatores como classe ou grupo social a que a pessoa pertence, faixa etária, sexo, grau de escolaridade e função que exerce impactam os modos de falar. Pensando nisso, resolva as seguintes questões: a) Escreva exemplos de variação linguística em função de contraste de classe social e escolaridade e função exercida pelos falantes. Os jargões profissionais e gírias se enquadram nesse caso. b) Apresente exemplos de palavras usadas por jovens e palavras utilizadas por faixas etárias mais avançadas. 3. Para avaliar os níveis de formalidade, experimente dizer de vários modos estas informações: “já estou indo embora” e “cheguei”. Imagine dizê-las numa situação de entrevista de trabalho, para seu chefe no local trabalho, numa pizzaria e para um grupo de amigos. 4. Compare as três formas de expressão e reflita sobre a relação de prestígio dos falantes e o preconceito linguístico. Variedade desprestigiada Variedade presti- giada Norma-padrão Amanhã vou ir pra escola de ônibus Amanhã vou pra escola de ônibus Amanhã irei para a escola de ônibus Cê quer este sapato? Você quer este sapato? Tu queres este sapato? Ontem a gente fomos no dentista Ontem a gente foi ao dentista Ontem nós fomos ao dentista 5. Você, sem dúvida, observou que a palavra erro, quando se trata de comentário sobre a escrita da criança, foi usada neste capítulo entre aspas. Justifique esse emprego em um breve texto. Vídeo 46 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita REFERÊNCIAS ASSARÉ, P. Eu e o Sertão. In: AIDAR, L. Patativa do Assaré: 8 poemas analisados. Cultura Genial, 2021. Disponível em: https://www.culturagenial.com/patativa-do-assare- poemas/ Acesso em: 30 abr. 2021. BAGNO, M. Língua materna: letramento, variação e ensino. São Paulo: Parábola, 2020. BULA do cefalexina. Consulta remédios, 23 mar. 2020. Disponível em: https:// consultaremedios.com.br/cefalexina/bula. Acesso em: 30 abr. 2021. CAGLIARI, L. C. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu. São Paulo: Scipione, 1998. FARACO, C. A. Escrita e alfabetização. São Paulo: Contexto, 1992. FÁVERO, L; ANDRADE, L; AQUINO, Z. Oralidade e escrita. São Paulo: Cortez, 2000. GÍRIAS do skatista. Skate Profissional, 11 fev. 2014. Disponível em: http://proskatepro. blogspot.com/2014/02/girias-do-skatista.html. Acesso em: 30 abr. 2021. GUSSO, A. M. Análise linguística: um acompanhamento longitudinal de três casos de aquisição de escrita. 1996. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Paraná,Curitiba. Disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/24540. Acesso em: 6 ago, 2021. MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001. MORAIS, A. G. de. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 2001. VYGOTSKY, L. S. Pensamentoe linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987. https://www.culturagenial.com/patativa-do-assare-poemas/ https://www.culturagenial.com/patativa-do-assare-poemas/ https://consultaremedios.com.br/cefalexina/bula https://consultaremedios.com.br/cefalexina/bula http://proskatepro.blogspot.com/2014/02/girias-do-skatista.html http://proskatepro.blogspot.com/2014/02/girias-do-skatista.html Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 47 _3 Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita Este capítulo aborda uma questão desafiadora para os educadores: o trabalho com a oralidade, leitura e produção escrita no período inicial de escolarização. Quando se parte do princípio de que é essencial desenvol- ver, simultaneamente, o processo de alfabetização e de letramento, fica evidente a necessidade de, desde cedo, introduzir no cotidiano escolar uma diversidade de gêneros textuais, buscando abarcar as diferentes es- feras da sociedade (esfera literária, do cotidiano, jornalística etc.). Desse modo, o docente precisa de um planejamento pedagógico que asse- gure o equilíbrio entre o tempo destinado para auxiliar os alunos a se apropria- rem do sistema alfabético de escrita e o tempo reservado para envolvê-los em práticas de compreensão e de produção de textos orais e escritos. Não é tarefa tão simples planejar práticas de uso da linguagem envol- vendo gêneros textuais autênticos, ou seja, textos que circulam na vida social, quando os estudantes ainda não têm autonomia com relação à es- crita básica. Diante disso, o objetivo deste capítulo é suscitar uma reflexão sobre as situações mais frequentes de uso de escrita na sociedade que podem ser trazidas para as práticas de leitura, de escrita e/ou de análise textual nas salas de aula dos anos iniciais de escolarização e, por meio dessas atividades, contribuir efetivamente para a promoção do letramen- to dos estudantes. Com o estudo este capítulo você será capaz de: • empregar fundamentos teórico-metodológicos para o en- caminhamento do processo de ensino e aprendizagem da língua materna; • planejar atividades de oralidade para desenvolver compe- tência de falas mais formais em público; • propor encaminhamentos para leitura que contribuam para formação do leitor crítico; • elaborar propostas de produção escrita e estabelecer crité- rios de avaliação apropriados ao gênero textual solicitado. Objetivos de aprendizagem 48 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 3.1 O trabalho sistematizado com a oralidade Vídeo À primeira vista, alguém pode se perguntar por que trabalhar com a oralidade, se toda criança, por volta dos 5 anos de idade, já sabe sua língua materna. No entanto, é muito diferente produzir textos orais em situações informais do cotidiano do que em cenários que exijam maior formalidade, quer seja no contexto da sociedade ou no escolar. Para entrarmos nessa discussão, nada melhor do que trazer à tona situa- ções de vivências de eventos orais corriqueiros no meio social. Para isso, leia e reflita a respeito das situações sociocomunicativas apresen- tadas a seguir. a. Suponha estar com nome e endereço de um médico com o qual fará uma consulta, porém você não tem ideia da localização do consultório. Como você pediria a um familiar para te ajudar a se situar em relação àquele endereço? b. Agora, imagine que você tem o endereço anotado, mas, por telefone, vai pedir para a atendente do consultório te fornecer alguma referência sobre a localização. Como iria proceder nesse pedido? c. Imagine estar necessitado de um favor qualquer. Como faria esse pedido de ajuda a um amigo? E a seu/sua chefe? Certamente, você observou que a oralidade não se restringe à fala informal cotidiana, uma vez que essa modalidade de linguagem envolve diversas situações sociocomunicativas mais formais do que os bate-papos. Os gêneros orais mais formais têm aplicação direta em vários campos da vida em sociedade, especialmente nas relações interpessoais e no trabalho. Para ilustrar, vejamos alguns deles: en- trevista, debate, exposição, seminário, telefonema, sermão religioso, pedido de informações, entre outros. Assim como usamos uma faca como instrumento para cortar, uti- lizamos os gêneros textuais para realizar uma ação de linguagem em uma situação particular. Dependendo da situação de escrita – nossa intenção, nosso interlocutor, o tema a ser abordado e o local ou veí- culo de comunicação –, vamos escolher um ou outro gênero textual, ajustando-o ao contexto particular, a fim de materializar nosso dizer. Desse modo, necessitamos nos apropriar dos gêneros mais formais, ou seja, precisamos ter noção dos contextos sociais de uso dos gêneros, Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 49 bem como conhecer suas características textuais – bagagem que pode e deve ser favorecida, por meio de intervenções didáticas, ao longo dos anos de escolaridade. Você concorda ser estranho o fato de, tradicionalmente, a escola ter abordado a língua oral apenas trivialmente, visto ela ser mais central que a escrita, por ser mais frequente? Você consegue se recordar de três atividades orais das quais participou nos anos iniciais da vida escolar? Em geral, o trabalho com oralidade na escola se restringia à leitu- ra em voz alta, à declamação de poemas e às representações teatrais que, na verdade, são atividades de escrita oralizadas, porque estão restringidas por um texto escrito que é lido ou recitado por outrem. Sem dúvidas, elas têm um papel importante para o desenvolvimento da oralidade, uma vez que se encontram no cruzamento entre oral e escrita; sendo assim, podem ser a porta de entrada para as práticas de fala pública, mas não são suficientes para os estudantes atingirem o grau de desenvoltura desejável nas diversas práticas orais próprias da dinâmica escolar (seminários, exposição oral, debate, entrevista esco- lar, assembleia de classe etc.) ou da vida cidadã. Esses gêneros textuais não são aprendidos espontaneamente, por- tanto dependem de mediação do professor, tanto para o desenvolvi- mento da capacidade de locutor como para a de ouvinte. Da mesma forma que a escrita envolve dois interlocutores (autor e leitor), a orali- dade também demanda um par: locutor e ouvinte. O foco nesta seção será o ensino do oral, explorando a perspectiva do locutor. Porém, não menos relevante é a escola orientar os estudantes na postura de ou- vintes, conduzindo-os a comportamentos desejáveis para a escuta nas diferentes situações comunicativas, como: anotar informações de uma aula ou palestra; saber esperar sua vez de falar em debates; fazer si- lêncio e respeitar o colega que está com a palavra; ser polido ao fazer intervenções na fala de outro; monitorar sua atenção; entre outros. Com base em Marcuschi (2003), propomos que o ensino da oralidade esteja ancorado em uma concepção de língua falada e língua escrita que não dicotomize essas duas modalidades de linguagem, visto que elas se relacionam entre si de modo gradual: em alguns gêneros orais (palestra e telejornal, por exemplo), observa-se maior semelhança com a escrita, em 50 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita outros, menor (causo, piada e bate-papo). Isso significa que, em determi- nados contextos, vamos usar uma fala com maior monitoramento do vo- cabulário e observação de regras da língua-padrão, da postura e do tom de voz; já outras não exigirão tanto rigor, mesmo sendo uma situação pública. Nos anos iniciais, parece-nos importante que já se desperte os estu- dantes para a diversidade de gêneros presentes no contexto escolar e fora dele, refletindo sobre a finalidade de cada um deles e suas respectivas ca- racterísticas, que estão atreladas às exigências das instituições nas quais os textos circulam: escola, rádio, televisão, igreja etc. Cada uma apresenta as suas convenções para os gêneros que nela estão presentes – conteú- dos possíveis, estrutura do texto, recursos linguísticos recorrentes, ento-nação e pausas, postura corporal, gestualidade, expressão facial e olhar – e, para podermos apreendê-las, precisamos da mediação da escola. Por exemplo, no caso de uma exposição oral, com conteúdo de ciência, história, geografia ou qualquer outro, temos um locutor apresentando uma informação a ouvintes que, supostamente, as des- conhecem. Para alcançar o objetivo pretendido, o expositor não irá rea- lizar uma fala de improviso, mas observará um conjunto de parâmetros próprios para essa situação, como descrito a seguir. PLANEJAMENTO APRESENTAÇÃO ASPECTOS LINGUÍSTICOS OUTRAS LINGUAGENS (RECURSOS SEMIÓTICOS) Envolve a busca e a seleção de informações a serem apresentadas; depois, há a organização dos dados selecionados. Leva ao público o conteúdo preparado – uso de leitura, de memorização e de fala espontânea. Trata, por exemplo, do grau de formalidade, do monitora- mento dos marcadores conversacionais (né?, tá? aí, então daí, certo, uhn, claro, quer dizer etc.), das hesitações, das repetições, dentre outros. Refere-se à expressão corporal (gestos, olhar e expressão fa- cial), à entonação e às pausas (volume e velocidade da fala) e aos recursos visuais, usados como auxílio à exposição. O livro A exposição oral: nos anos iniciais do ensino fundamental aborda o trabalho didático com o gênero exposição oral, nos anos iniciais. O autor explicita como integrar oralidade, leitura e escrita no ensino de língua e foca um gênero textual bas- tante frequente na prática escolar, porém no qual raramente se investe em ensino e aprendizagem nos anos iniciais. O livro está organizado em duas partes – planejando a exposição e realizando a exposição – que se subdividem em capítulos e, ao final deles, o autor propõe sugestões de atividades. A leitura dessa obra é indicada tanto a professores de língua por- tuguesa como de outras áreas, visto que a exposi- ção oral é recorrente em diversas disciplinas. GOMES-SANTOS, S. N. São Paulo: Cortez, 2012. Livro An dr ew K ra so vit ck ii/ Sh ut te rs to ck Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 51 Você, leitor, consegue perceber como há diversos aspectos que pre- cisam ser trabalhados com a língua oral na escola, visto que cada gêne- ro tem suas características particulares? Evidentemente, o professor não vai explorar todos os aspectos de uma só vez, mas irá privilegiar um ou outro em diferentes momentos. Por isso, um mesmo gênero será trabalhado em mais de uma ocasião, no mesmo ano escolar e/ou em outro, para que os estudantes possam se familiarizar com ele. Dolz e Schneuwly (2004) defendem que a aprendizagem de textos orais mais formais, indiretamente, contribui para a melhoria das produ- ções orais do cotidiano; portanto, esse também é um motivo relevante para a escola exercer esse ensino. Além disso, por meio da reflexão sobre o uso do oral em diferentes contextos sociais, o docente tem a oportunidade de combater o preconceito linguístico, desvelando o fato de não existir um único saber falar, para que os estudantes compreen- dam que precisamos ajustar nosso dizer às exigências impostas pelas diferentes situações de interação social. Pensando na prática Como sugestão, apresentamos algumas atividades de uso (fala e escuta) ou de reflexão (atividades de análise linguística) sobre oralidade, para serem trabalhadas no contexto escolar. a. Escutar áudios e vídeos com falas de pessoas de regiões, idades e classes sociais diferentes, para percepção de diferenças de vocabulário, sotaque e estratégias comunicativas. Assim, com base neles, realizar discussão a respeito do plurilinguismo e do preconceito linguístico, para a compreensão de que a fala está intimamente relacionada à pluriculturalidade. b. Ouvir histórias contadas pelo professor ou por convidados da comunidade, para observação do registro linguístico, da postura corporal, dos gestos, da entonação e das pausas na fala, bem como do uso de marcadores conversa- cionais (né, tá, daí). c. Realizar a comparação de transmissões de jogo de futebol pelo rádio e pela TV, em função das distintas condições de produção de um e outro. d. Comparar o uso de diferentes registros linguísticos em noticiários de rádios AM e FM, por exemplo, relacionando com o perfil dos dois públicos ouvintes. e. Verificar anúncios publicitários de produtos destinados a diferentes faixas etá- rias, veiculados na internet e/ou TV, realizando uma comparação para observar a articulação entre o vocabulário, as imagens e as cores predominantes. Marcadores conversa- cionais são recursos próprios do diálogo. Eles desempenham diversas funções para a con- dução e manutenção das interações verbais: articulam segmentos do texto; preenchem pausas; operam no planejamento textual; entre outras. Além dos marcado- res linguísticos, há os prosódicos (tom de voz, ritmo, velocidade, pausas, alongamento das vogais etc.) e os paralinguísticos (riso, gestos, expressão facial e olhar). Saiba mais (Continua) 52 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita f. Trabalhar com jogos dramáticos (dispensam plateia): charadas (um grupo representa algo para os colegas adivinharem); escultura (pose poética); con- to interrompido; poses plásticas; uma cena em 1’ (encenação de aspectos de uma cidade com mímica, por exemplo, compra de pão); jornal falado; e teatro de sombras, de fantoches, de vara etc. g. Declamar poemas (em grupos e individual). h. Promover uma roda de conversa: definir um dia da semana para as crianças narrarem fatos vividos ou histórias lidas e discutirem questões estudadas ou problemas da comunidade. i. Realizar uma entrevista coletiva: trazer um convidado na sala de aula (enfer- meira, policial, cantineira etc.) para ser entrevistado pelos alunos que deve- rão, coletivamente, pensar e elaborar perguntas pertinentes. j. Preparar, com as crianças, um prato simples para alimentação (vitamina, san- duíche, docinho etc.) e, depois, solicitar que algumas gravem a receita em vídeo, mostrando a iguaria para outra turma repetir a receita, orientada pelo vídeo. Essas e outras práticas de oralidade que o professor julgar apropriadas para serem sistematizadas serão de grande contribuição para os estudantes inte- ragirem, com desenvoltura, tanto com os textos escolares como com aqueles da vida fora da escola. Dessa maneira, o trabalho com a oralidade na escola, além de favo- recer condições para que os alunos realizem com êxito a tarefa escolar de apresentar trabalhos de temas relacionados às diferentes áreas do conhecimento, faz com que eles aprendam desde cedo a falar em pú- blico, preparando-se para lidar com essa situação vida afora. 3.2 A formação do leitor crítico Vídeo Diversos estudiosos, a partir de 1980, vêm enfatizando que o ato de ler não pode mais ser entendido pela escola como vinha sendo tradicio- nalmente – ou seja, como uma mera decodificação, um passar de olhos pelas linhas. Sem dúvida, a leitura pressupõe a decifração do código escrito, mas vai muito além disso. Conforme Irandé Antunes (2003, p. 67): o leitor como um dos sujeitos da interação, atua participativa- mente, buscando recuperar, buscando interpretar e compreen- der o conteúdo e as intenções pretendidas pelo autor. Nessa busca interpretativa, os elementos gráficos (as palavras, os si- nais, as notações) funcionam como verdadeiras instruções do autor que não podem ser desprezadas, para que o leitor descu- bra significações, elabore suas hipóteses, tire suas conclusões. Além daquilo que está posto no texto, o leitor faz uso de seus co- nhecimentos prévios para realizar inferências, pois o autor não coloca Com base no conteúdo abordado nesta seção, elabore uma atividade de uso ou reflexão sobre a língua oral, que possa ser realizada com crianças em processo de alfabetização. Desafio Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 53 aquilo que é presumível, isto é, as informações pressupostamente já sabidas. Trata-se,então, de um jogo de linguagem, em que se articula o que está no texto com os conhecimentos prévios do leitor. Vejamos como funciona essa articulação de informações. O exemplo a seguir traz um texto fazendo propaganda do carnaval de Pernambuco: Carnaval de Pernambuco: o melhor do Brasil. Do Galo ao Bacalhau. Fonte: Antunes, 2003, p. 68. Para atribuir sentido a esse texto, é preciso ter conhecimento da exis- tência de dois blocos carnavalescos, chamados de Galo da Madrugada e Bacalhau do Batata, além de saber que o primeiro abre o carnaval e que o segundo fecha os festejos. Para o leitor que desconhece essas in- formações, a compreensão ficará comprometida, pois o conhecimento linguístico, por si só, não basta. Outro exemplo é o título da obra de Cagliari (2009): Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu. Só sabendo que, antigamente, as escolas alfabetiza- vam com métodos de silabação e que existem outras formas de alfabe- tizar é que se pode sustentar uma interpretação coerente desse título. Considerando os exemplos apresentados, é possível concluir que ler, assim como produzir textos, é um processo complexo que exige conhecimentos prévios e que precisa ser desenvolvido desde o início da escolarização. Quando consideramos que o conhecimento prévio está envolvido no ato de ler, uma implicação pedagógica é o professor ter cuidado para que o aluno, antes de iniciar a leitura de determina- do texto, tenha a oportunidade de trazer à memória intermediária os conhecimentos que já tem sobre o tema abordado, bem como sobre o suporte onde o texto foi veiculado (revista, site, enciclopédia, outros), seu gênero e sua função. Nem toda leitura será realizada do mesmo modo. Usamos estraté- gias distintas, dependendo do gênero textual, da familiaridade com o tema e, também, dos objetivos da leitura. O ato de ler para apreciação estética de um poema, para estudar ou para buscar uma informação específica dentro de um texto exige estratégias diferenciadas. Vale lem- brar, ainda, que nem toda leitura é linear – por exemplo, a consulta de dicionários ou de tabelas com horários de ônibus. Levando-se em conta todos esses aspectos, pode-se concluir que a formação do leitor AN UR AK P ON GP AT IM ET /S hu tte rs to ck proficiente é um processo. A competência leitora vai se desenvolvendo gradativamente, à medida que vamos tendo acesso à diversidade de textos e praticando a leitura com finalidades diversificadas. Que tal parar um pouco aqui e realizar uma prática? Leia e desenvolva a Atividade 1, no final deste capítulo. Diante do exposto, podemos concluir que, para formar leitores, é essencial oportunizar a leitura como uma prática frequente em si- tuações significativas para as crianças. As situações reais ou de faz de conta (imaginárias), da leitura de ficção e de não ficção, envolvendo di- ferentes gêneros textuais, contribuem para o exercício da atenção, da memória e do pensamento, requisitos imprescindíveis para a aprendi- zagem em geral. Assim, o leitor competente tem bases para continuar a aprender ao longo de sua vida, bem como para a conquista do efetivo exercício da cidadania. A leitura, além de ser uma maneira de obter o conhecimento pro- duzido pela humanidade e de propiciar ampliação da bagagem de in- formações que armazenamos na memória, proporciona o acesso às particularidades da língua escrita em contextos mais formais. Por meio da leitura, internalizamos as formas de organização dos textos, o voca- bulário próprio das diferentes áreas de conhecimento e as inúmeras re- gras da língua-padrão. Essas são razões suficientes para defender a ideia de que, no início da escolarização, o objetivo maior é favorecer condições para os alunos aprenderem a ler o mais rápido possível. Em geral, anti- gamente, a escola centrava mais tempo no ensino da escrita, preterindo essas questões e desconsiderando a realidade de que o aprendizado da leitura é mais fácil que o da escrita; porém, hoje, muitos materiais didá- ticos assumem esses pressupostos e apresentam textos autênticos, com graus de complexidade compatíveis com leitores iniciantes. Você pode estar se perguntan- do: mas como um aluno não al- fabetizado terá acesso à leitura? No início da alfabetização, para que as crianças interajam 5454 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escritaAlfabetização: práticas sociais de leitura e escrita com textos variados, o professor será o leitor. A diferença, por se tratar apenas de um contato auditivo, reside somente no fato de o aluno não ter acesso à forma gráfica dos textos, mas, quanto aos demais aspectos, haverá semelhança. O contato auditivo com gêneros textuais distintos possibilita à criança perceber os múltiplos usos da escrita no meio so- cial, ou seja, de que esta pode ser utilizada para o trabalho estético com a palavra (textos literários em prosa e poesia), para divertir (causos, cru- zadas, tiras, anedotas etc.), para informar (notícias e reportagens) para documentar (leis, regulamentos e registros), para publicidade (anúncios, folhetos, faixas, posts e cartazes), para correspondências (WhatsApp, bi- lhete, carta e folder) e assim por diante. Com esse contato, também, as estruturas da língua escrita vão se fixando na memória e, mais tarde, podem lançar mão delas para uso nas suas produções. Por exemplo, ouvindo a leitura de instruções para realizar um jogo e instruções para fazer uma dobradura, será possível perceber que existem semelhanças entre ambas; mas, se comparadas a um poema, apresentarão várias diferenças. À medida que interagimos com os diversos gêneros textuais, vamos apreendendo as respectivas estruturas e funções; porém, na escola, o estudante, por estar em pro- cesso de sua formação como leitor, precisa, necessariamente, da me- diação de um leitor experiente – no caso, o professor. Nas atividades de leitura, cabe ao professor levantar perguntas para ativar o conhecimento prévio dos estudantes sobre o tema para que consigam: “adivinhar”, prever parte daquilo que está posto no material a ser lido; fazer perguntas sobre o que está explícito e, também, sobre os implícitos; chamar a atenção para as imagens presentes, a fim de que os estudantes percebam que elas complementam ou reforçam o conteúdo abordado; e esclarecer algumas palavras ou expressões que são chave para o entendimento. Esses procedimentos vão contribuin- do para que o leitor iniciante, gradativamente, desenvolva e aprimore estratégias para ler, compreender e interpretar. É importante não se esquecer das particularidades dos textos dispo- níveis nas mídias digitais; neles, o tempo, o ritmo e a velocidade da leitura se diferem daqueles do texto impresso. A combinação de diferentes lin- guagens (som, cor e movimento) impõe ao leitor novos modos de leitura, como é o caso dos e-books, videoclipes, poemas digitais, entre outros. 56 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita O professor tem como seu grande aliado o fato de que as crianças, em geral, apresentam anseio pelo aprendizado da leitura, a ponto de fingirem que estão lendo quando estão diante de um material pelo qual se interessam. Então, um bom caminho é aproveitar essa ânsia e enco- rajar o aluno a se aventurar nas leituras, sentindo-se leitor, realizando pseudoleituras de rótulos, quadrinhos, cantigas, adivinhas e trava-lín- guas que já sabe de cor. Nesse exercício, a criança aprende a direção da escrita (a verticalidade do texto e o uso das linhas da esquerda para a direita), a existência dos espaços entre as palavras e que, além das letras, são usadas outras marcas (acentos e sinais de pontuação); com isso, ainda, ela se sente motivada a ler. Antes de as crianças experimentarem a leitura individual de textos verbais, é importante incentivá-las a realizarem tentativas de leitura de exemplares de gêneros não verbais (placas, símbolos de empresas, tiras só com personagens etc.) e, depois, apresentar-lhes textos multi- modais, ou seja, aqueles que combinam imagens compalavras (propa- gandas, tiras, histórias em quadrinhos, panfletos de supermercados, rótulos de produtos etc.), para, só então, participarem de leituras de textos curtos (poemas, adivinhas, cartões de felicitações, curiosidades, contos, fábulas, anedotas, entre outros), pois a decifração, letra por le- tra, exige muito esforço da criança. Figura 1 Modalidades de textos Fonte: Elaborado pela autora. M s Ve ct or Pl us /P av lo P la kh ot ia /in fin et so ft /S hu tte rs to ck Texto não verbal ou imagético Texto verbal Texto multimodal (imagem +palavras) PROIBIDO BICICLETA O estudante que ainda está lendo sem fluência depende totalmente de mediação do professor para chegar à compreensão, porque esgota sua capacidade de memória de curto tempo só na tarefa de decifrar, não dando condições para o cérebro processar a informação captada O livro Multiletramentos na escola é uma coletânea de trabalhos produzidos por professores participantes de cursos ofertados, em 2010, pela professora Rojane Rojo. A coletânea apresenta propostas de atividades de leitura e produção de textos multimodais, envolvendo, principalmente, o uso de novas tecnologias digitais de comunicação e informação. Fica o desafio para que você leia a obra e se sinta instigado a empreender uma prática pedagógica, valendo-se das novas tecnologias de comunicação e informa- ção, para a renovação do conceito do que é ensinar e aprender na escola. ROJO, R.; MOURA, E. (org.). São Paulo: Parábola, 2012. Livro Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 57 pelos olhos. Já os leitores experientes não decodificam; eles percebem as palavras globalmente, e algumas delas são adivinhadas, com base em seus conhecimentos prévios e nas previsões que formulam no decorrer do texto. Para formar leitores críticos, é essencial trazer, para dentro da esco- la, os textos presentes no mundo fora do ambiente escolar, publicados em diversos suportes, e promover a discussão das informações, das ideias e dos propósitos de cada um desses textos. Para isso, é preci- so selecionar aqueles cujos temas sejam significativos para o grupo de crianças, tanto tratando de fatos quanto de histórias faz de conta. Pensando na prática Alguns gêneros textuais para leitura nos anos iniciais: fotografias e suas legendas, telas, placas, panfletos, rótulos, adivinhas, parlendas, provérbios, receitas, textos didáticos, histórias infantis, verbetes de dicionários e de enciclopédias digitais, calendários, sinais de trânsito, listas, placas indicativas, gráficos, infográficos, cardápios, capas de livros infantis, tiras, histórias em quadrinhos, cartazes, faixas, instruções ilustradas para confecção de brinquedos com sucatas, situações-pro- blemas envolvendo matemática, textos produzidos pelo próprios alunos, entre outros. Se, no início do aprendizado da leitura, o trabalho docente ficar re- duzido ao ensino da decifração, com textos “fabricados” para explora- ção das famílias silábicas, a criança será privada da oportunidade de entender a função e os usos da escrita na vida social. O contato, desde cedo, com textos que circulam na vida fora do espaço escolar é essen- cial para a formação de um leitor com as habilidades que a sociedade contemporânea exige. Escreva um ou dois parágrafos expondo os requisitos necessários para um docente ser um bom professor de leitura. Desafio 3.3 A escrita como prática social Vídeo Uma situação muito comum nas aulas de Língua Portuguesa eram as práticas de redação seguindo encaminhamento similar a este: Hoje é dia de redação. Tirem uma folha de caderno e escrevam. O tema é livre! Vocês deverão entregar o texto no final da aula. Vale X pontos na nota do bimestre. Caprichem na letra e cuidado para não cometerem erros! 58 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Você se lembra de ter passado por uma situação parecida nas aulas de Língua Portuguesa? E como se sentia diante dessa tarefa? Acredito que para você era um momento angustiante, pois essa tarefa, praticamente, consistia em um ajuste de contas das regras transmitidas nas aulas de gramática. Isso porque a única razão para escrever era entregar o texto ao professor, a quem cabia atribuir uma nota ou um “visto”. Mas, agora, os tempos são outros e as concepções de linguagem e de escrita mudaram. Documentos governamentais, das esferas fede- ral, estadual e municipal, que orientam o ensino já há algumas déca- das, substituíram a palavra redação por produção textual – não se trata de mera troca de uma terminologia por outra, pois os termos encerram em si um conjunto de pressupostos. E qual seria, então, a diferença entre ambos? Com base nos princípios que Antunes (2003) apresenta, visando respaldar uma prática pedagógica coerente para o desenvolvimento da capacidade de uso da escrita de modo eficiente, elaboramos o qua- dro ilustrativo a seguir, que apresenta diferenças básicas entre as duas práticas escolares. Você pode conferir os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), volume 2, publicados em 1997, por meio do link a seguir. Disponível em: http://portal.mec. gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf. Acesso em: 17 jun. 2021. Saiba mais Quadro 1 Diferenças entre redação e produção textual REDAÇÃO PRODUÇÃO TEXTUAL Escreve-se sobre um tema, sem clare- za do propósito da escrita. Escreve-se tendo em vista um propósito definido: infor- mar, opinar, pedir, vender, convidar, instruir etc. O professor é o único leitor. Leitores diversos, que variam em função dos temas, dos gêneros textuais e dos suportes de textos. Escreve-se descrição, narração e dissertação, geralmente com um número de linhas estipulado. Escreve-se com função comunicativa específica e rele- vante socialmente, por isso varia sua forma, dependen- do do gênero textual em que se realiza. É uniforme, sem variação de organiza- ção e de sequência de suas partes; é artificial, mecânica. Os gêneros textuais são maleáveis e multiformes para atender à variação dos contextos de uso da escrita. Tarefa realizada apenas como ato de escrever e codificar graficamente ideias ou informações. Envolve três etapas integradas: planejamento; escrita propriamente dita; e revisão e reescrita. Preocupação com aspectos prescri- tivos da gramática, ortografia e caligrafia. Preocupação com a coerência global do texto, com os aspectos gramaticais e ortográficos e com a apresenta- ção do texto. Fonte: Elaborado pela autora com base em Antunes, 2003. http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 59 Essa mudança decorre de questões maiores, como esclarece Antunes (2003, p. 39): nada do que se realiza na sala de aula deixa de estar dependente de um conjunto de princípios teóricos, a partir dos quais os fenô- menos linguísticos são percebidos e tudo, consequentemente, se decide. Desde a definição dos objetivos, passando pela seleção dos objetos de estudo, até a escolha dos procedimentos mais corriqueiros e específicos, em tudo está presente uma concep- ção de língua, de suas funções, de seus processos de aquisição, de uso e de aprendizagem. Historicamente, no contexto educacional brasileiro, as aulas de língua passaram a ter a redação escolar apenas a partir das décadas de 1960 e 1970. Até então, o ensino era centrado em regras gramaticais e leitu- ra de textos literários. Bunzen (2006) considera que o principal aspecto responsável pelo fato de a escola passar a dar mais ênfase à escrita foi o Decreto Federal n. 79.298, de 24 de fevereiro de 1977, que instituiu a prova de redação como obrigatória nos concursos vestibulares (BRASIL, 1977). Porém, o modo como o trabalho com redações veio acontecendo, ao longo dos anos que se seguiram, foi definido por Geraldi (1984, p. 24) como circular: “aprende-se a escrever na escola para a própria escola”. A prática de ensino voltada para a produçãode textos vem se con- solidando devido a uma nova concepção de linguagem: ela deixou de ser vista como um sistema fixo e passou a ser entendida como uma atividade sociointerativa, o que implica considerar que a sala de aula também é um lugar de interação verbal. Sendo assim, no final da década de 1980 e início dos anos 1990, as diretrizes de ensino de língua portuguesa passaram a orientar para que, no trabalho escolar com escrita de textos, fossem criadas situa- ções realísticas ou hipotéticas de usos reais da escrita, proporcionando uma diversificação de textos. Uma obra com uma coletânea de textos versando sobre o ensino de Língua Portuguesa concorreu significativa- mente para que essa mudança acontecesse; trata-se de um livro que pode ser considerado um divisor de águas no ensino de língua nas escolas brasileiras: O texto na sala de aula, organizado por João W. Ge- raldi (1984). Nessa obra, no artigo que escreveu, Geraldi indica uma prática pedagógica alternativa para os moldes tradicionais. Nela, o caráter transmissivo é minimizado para dar lugar a um ensino centrado no uso 60 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita e na reflexão da língua oral e escrita. O autor, então, propõe o texto como cerne do ensino de línguas (e não mais a gramática normativa) e que, por meio dele, realizem-se as práticas: a) de leitura; b) de produ- ção oral e escrita; e c) de análise linguística. A partir de então, o trabalho com produções textuais foi ganhan- do professores adeptos. Assim, em 1997, foi oficializado em termos nacionais nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e se mante- ve na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento em vigor atualmente. 3.3.1 A pedagogia de trabalho com produção textual Quando se trata de produção textual, alguns aspectos importantes precisam ser considerados pela escola. Vamos conhecê-los melhor. O primeiro ponto a ser observado é assegurar que o estudante te- nha o que dizer. Definir um tema ou apresentar um título e solicitar a escrita sobre ele é uma conduta totalmente inadequada; o aluno ne- cessita ter informações suficientes para colocar no papel, e isso é pos- sível quando ele se vale de experiências vividas (por exemplo, registro de entrevista) ou de subsídios encontrados em textos lidos. A segunda condição é que o estudante tenha clareza sobre o propó- sito do texto que será escrito. Para explicitá-lo, o professor precisa de- finir o gênero textual quando solicita escrita: lista, convite, legenda para foto, cartão de felicitação, receita, diário, comentário em blog, e-mail, história em quadrinhos, biografia, reconto de lenda ou fábula etc. Outro aspecto importante é definir o perfil do público a que se destina o texto e o suporte onde será veiculado. Os leitores potenciais são outras crianças, familiares, comunidade em geral ou alguma au- toridade? O texto será exposto no mural da escola, enviado ao leitor pretendido ou reunido em uma coletânea da turma para ficar na biblio- teca de classe? Essas informações são importantes, na medida em que orientam o aluno-autor quanto ao grau de formalidade da linguagem a ser usada, bem como à extensão e ao layout do texto. Não menos importante é que o estudante saiba como dizer, ou seja, conheça as características formais do gênero textual que está sen- do requerido. Sendo assim, sempre que for solicitar um gênero textual ainda desconhecido pelos alunos, apresente alguns exemplares para leitura e análise, a fim de familiarizá-los com as características mais re- Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 61 correntes desse gênero. Essa análise realizada coletivamente apresen- ta eficácia maior do que entregar uma lista pronta de recomendações sobre como redigir o texto. Além disso, será uma estratégia frutífera construir, em conjunto com as crianças, um quadro com as caracterís- ticas do texto, por meio da análise realizada. Vamos a um exemplo sobre uma das possibilidades de se fazer esse encaminhamento com crianças que estão começando a produzir textos. Vamos exemplificar com o convite, mas o procedimento seria semelhante com qualquer outro gênero escolhido. Nesse sentido, veja- mos, a seguir, o passo a passo para esse trabalho. 1. Apresentar alguns convites para leitura e análise. Figura 2 Exemplos de convites CONTO COM VOCÊ NA MINHA FESTA DE 8 ANOS. VAI TER MUITA DIVERSÃO! Gabriela Helena Rua XV de Novembro, 1450 FESTA DA das 16:00h às 20:00h ta na ha irs tu di o/ Sh ut te rs to ck Você é meu convidado especial para comemorar meus 5 anos! Te espero lá! Valentina Dia: 14 de outubro de 2020, às 15:00h Local: Casa da vovó Júlia Rua das Flores, 68 da nc ey ou rli fe /S hu tte rs to ck Cecília Venha participar da minha festa! Espero você! Quando: 21/01/21 Hora: 16:00h Onde: Mundo Mágico - Avenida Brasília, 760 lit tle W ha le /S hu tte rs to ck Papai e mamãe convidam para o meu batizado Dia 10 de outubro de 2021, às 10:00h Igreja de Santo Antônio Av. dos Estados, 540 – Alto da Glória Esperamos você lá! Enzo W hi te Dr ag on /S hu tte rs to ck A B C D Fonte: Elaborada pela autora. 62 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 2. Solicitar às crianças a leitura dos aspectos visuais, para verificarem formato, combinação de imagem e palavras, tipo de imagens, cores, tamanhos e fontes de letras. 3. Ler o texto verbal de cada convite e pontuar com os alunos as informações que constam em cada um. 4. Discutir com as crianças quais informações são comuns a todos os convites. 5. Conversar sobre os modos como convites chegam aos destinatários. 6. Discutir sobre a relação coerente entre as imagens e a idade do aniversariante ou o tipo de evento. 7. Fazer um quadro com anotações das características descobertas na análise realizada, para futura(s) consulta(s), quando for produzir textos pertencentes a esse gênero. Porém, é essencial ter clareza de que os textos são maleáveis e flexíveis, precisando de ajustes a cada situação interlocutiva para serem eficientes. 8. Apresentar a proposta de escrita explicitando as condições de produção. 3.3.2 Texto escrito não significa texto acabado Algo importante que as crianças precisam ser induzidas a perce- ber, desde o início, é a ideia de que uma produção escrita (indepen- dentemente do gênero textual) implica um trabalho que envolve três momentos recursivos: • planejamento; • escrita propriamente dita; • revisão e reescrita (ou refacção). No contexto extraescolar, esses três papéis são exercidos pelo autor do texto; já no pedagógico, parte do planejamento fica sob a responsa- bilidade do professor, quando ele elabora a proposta de produção, pois, nela, ele já delineia o contexto em que a produção está inserida. Obser- ve o exemplo extraído do livro Rumo ao letramento (CHANOSKI-GUSSO; FINAU, 2009, p. 105). A atividade se apresenta dentro de uma unidade cujo tema dos textos para leitura é “árvores”; assim, o aluno teve acesso a informações que fornecem subsídios para preencher o requi- sito de ter o que dizer: Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 63 PRODUÇÃO ESCRITA Que tal fazer uma campanha de proteção das árvores? Em grupos, elaborem um cartaz com belas imagens (desenhadas ou co- ladas) e frases em defesa das árvores, parecido com o cartaz que vocês viram anteriormente. Depois de prontos, os cartazes serão distribuídos por seu professor em locais de circulação de pessoas em geral. Observe que, no enunciado, fica claro que o gênero solicitado foi lido e analisado anteriormente, então o estudante já tem noções básicas sobre o gênero cartaz. Ainda, a atividade será realizada em grupos, viabilizando a interação entre os pares e facilitando para o professor fazer a mediação junto às equipes, orientando-as nas possíveis dúvidas. Além disso, existem leitores potenciais, pois os cartazes serão expostos fora da sala de aula. Vejamos mais um exemplo, retirado da mesma fonte (CHANOSKI-GUSSO;FINAU, 2009, p. 40), em uma unidade cujo tema é música. A produção escrita segue a leitura e análise de um texto de instru- ção que ensina a fazer chocalho com potes de iogurte e grãos de feijão. PRODUÇÃO ESCRITA Juntos pensem em um jeito de construir chocalhos usando latinhas de refrigerante. Planejem um texto que ensine a fazer isso; seu professor vai registrá-lo no quadro. Depois de revisado, copiem-no no caderno e mostrem para os amigos da vizinhança. Com eles, construam alguns chocalhos e saiam batucando. Assim como na proposta anterior, os estudantes leram e anali- saram um texto de instrução previamente, portanto têm noção de suas características. Diferentemente, nesse caso, as crianças indi- cam oralmente os materiais necessários e o modo de confeccionar, e o professor será o escriba. Certamente, o docente precisará fazer ajustes na transformação do oral em escrito. O registro da receita no caderno, pelos estudantes, servirá para orientar a construção de chocalhos com amigos. Essa estratégia de o professor ser o escriba permite que os alu- nos, mesmo quando ainda não alfabetizados, vivenciem situações de 64 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita usar a escrita com uma função social: escrever algo para alguém, com alguma finalidade. Pelos exemplos, foi possível evidenciar que quando se elabora uma proposta de escrita levando em conta as condições de produção (o que, por que, para quem e onde?) aumentam as chances de o estudante atender às expectativas do professor. Porém, será utópico esperar que o texto não apresente falhas, afinal as aulas de língua são para ensino de escrita, além de leitura, fala e escuta. E como auxiliar o aluno a chegar a um bom texto? Um caminho que os estudiosos do assunto têm apontado como eficaz é o trabalho en- volvendo revisão e reescrita(s). Assim, o docente, na avaliação dos tex- tos entregues pelos estudantes, em uma versão inicial, vai identificar as irregularidades e propor alterações de acréscimo, substituição, supressão ou deslocamento. Em um mesmo texto podem acontecer todos os tipos de modificações ou apenas algum deles. Essas quatro operações, nos textos infantis, podem dizer respeito a aspectos bem pontuais, tais como um sinal de pontuação, um acento gráfico, um título ou, bem mais extensos, como a modificação, inclusão ou exclusão de todo um parágrafo. Nos anos iniciais, a revisão e reescrita coletivas são um recurso bastante apropriado, visto que, nessa fase escolar, a criança tem dificul- dade para entender as orientações relativas às alterações necessárias. Logo, na próxima seção, você aprofundará seus conhecimentos sobre como avaliar os textos dos estudantes para orientar a reescrita. 3.4 A inter-relação entre as práticas linguísticas Vídeo No ensino e aprendizagem de línguas, centrados no trabalho com gêneros textuais, as práticas de uso da língua – ou seja, de leitura, es- crita, fala e escuta – se entrelaçam. Porém, é essencial que as quatro práticas sejam permeadas por uma reflexão quanto ao funcionamento da língua e de outras linguagens, considerando-se que o trabalho con- templará textos verbais e multimodais. Geraldi (1984) cunhou o termo atividades de análise linguística para denominar uma nova perspectiva de reflexão sobre o funcionamen- O vídeo Produção de textos na escola – parte 3, do canal ceelupfe, apresenta parte de uma aula em que a professora da turma realiza a revisão e reescrita de texto que irá compor uma coletânea de fábulas. Alguns aspectos tematizados no vídeo são: importância de, na solicitação de escrita, ficarem claras as condi- ções de produção (o que, para que e para quem escrever); necessidade de diversificar os agrupa- mentos de alunos para as produções; e relevância de realizar uma reflexão sobre as características dos gêneros solicitados. As cenas e os comentários nos inspiram para práticas exitosas no processo de ensino e aprendizagem de língua escrita. Disponível em: https:// www.youtube.com/wat- ch?v=-d6qr5fLQuA&ab_ channel=ceelufpe. Acesso em: 17 jun. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=-d6qr5fLQuA&ab_channel=ceelufpe https://www.youtube.com/watch?v=-d6qr5fLQuA&ab_channel=ceelufpe https://www.youtube.com/watch?v=-d6qr5fLQuA&ab_channel=ceelufpe https://www.youtube.com/watch?v=-d6qr5fLQuA&ab_channel=ceelufpe Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 65 to do sistema linguístico e os usos da língua, para que, na escola, o ensino de gramática normativa, restrito à identificação e classificação de palavras, dê lugar ao estudo dos fenômenos gramaticais, textuais e discursivos em situações concretas, isto é, por meio da prática de aná- lise de textos orais e escritos trabalhados nas aulas. Mendonça (2006, p. 208) define, assim, a prática de análise linguística: é parte das práticas de letramento escolar, consistindo numa reflexão explícita e sistemática sobre a constituição e o funcio- namento da linguagem nas dimensões sistêmica (ou gramatical), textual, discursiva e também normativa, com o objetivo de con- tribuir para o desenvolvimento de habilidades de leitura/escuta, de produção de textos orais e escritos e de análise e sistematiza- ção dos fenômenos linguísticos. A autora deixa claro que a sistematização de conhecimentos sobre os fenômenos da língua não tem um fim em si mesma, como ocorria nos moldes tradicionais do ensino gramatical, mas visa ampliar o grau de letramento dos estudantes, por meio da apropriação da língua-pa- drão oral e escrita. Diante do exposto, certamente, você deduziu que os textos apre- sentados para leitura serão analisados tanto em relação ao conteúdo quanto à sua forma, focando os recursos verbais e não verbais empre- gados. Desse modo, a análise do conteúdo possibilitará aos estudan- tes aprofundar a compreensão do texto lido; já as análises linguística e semiótica colocarão em destaque o modo de dizer e a estrutura do texto. Evidentemente, o professor deverá levar em consideração o nível de domínio das crianças sobre a linguagem escrita, para selecionar os aspectos linguísticos e semióticos com os quais irá trabalhar. Esse conhecimentos sobre a forma de organizar o conteúdo, de es- truturar o texto e de selecionar os recursos linguísticos apropriados a cada caso, apreendidos por meio da análise dos textos lidos, vão sendo, aos poucos, transferidos para os textos produzidos pelos estu- dantes. Assim, gradativamente, o aprendizado da escrita vai se cons- truindo pelo uso dela, associado à observação do modo como ela é utilizada pelo outro em cada situação sociocomunicativa. A análise linguística, além de ser realizada em textos publicados, ocorre naqueles produzidos pelos estudantes em todos os níveis de escolaridade. Conforme exposto na seção anterior, o texto produzido passa por revisão e reescrita, oportunizando reformular aspectos lin- 66 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita guísticos dos quais a criança ainda não se apropriou inteiramente, ou, sim, mas de modo parcial. Exemplificando a relação entre produção escrita e análise linguísti- ca: suponhamos que, na escola, houve uma apresentação cultural de algumas turmas (representação teatral, declamação de poemas, ex- posição de esculturas feitas com argila, apresentação de danças etc.). Nesse evento, foram tiradas diversas fotografias que serão expostas no mural e, portanto, necessitam de legendas. Essa será uma oportunida- de para os estudantes aprenderem o gênero legenda em situação real de uso da escrita. Para tanto, o primeiro passo será apresentar fotos com legendas (buscar em reportagens e notícias impressas ou on-line) e analisá-las, identificando suas características recorrentes. Na sequência, os estu- dantes produzem as legendas para as fotos; elas serão avaliadas pelo professor, que indicará as possíveis alterações necessárias (acréscimo, supressão, substituição ou deslocamento). Caso essa produção se rea- lize com crianças de primeiro, segundoou terceiro anos, muitos pro- blemas, provavelmente, ainda serão de ordem ortográfica, além de inadequação vocabular, falta de clareza na informação, pontuação in- devida etc. Se for realizada com estudantes de quarto ou quinto anos, serão menores as ocorrências de ordem ortográfica, porém outros desvios de norma de escrita, certamente, serão identificados. Portanto, sempre a intervenção do professor será uma forma de con- tribuir para o progresso do aprendiz de escrita. Para realizar essas inter- venções, o docente precisa ter clareza a respeito dos requisitos do gênero textual em questão, uma vez que cada gênero tem suas especificidades. Para ilustrar, apresentamos, a seguir, critérios básicos para avaliar a produção de dois gêneros textuais escritos e um oral. Confira. 1. Produção escrita: texto de informação sobre animais. Para essa produção, é interessante elaborar, coletivamente, um roteiro, para que os alunos percebam a importância do momento de planejamento de um texto. Na elaboração do roteiro, é importante considerar aspectos referentes: • às informações sobre o animal (nome, habitat, descrição física, alimentação, reprodução ou outras); • ao perfil do leitor a que se destina; Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 67 • ao suporte em que o texto será veiculado (ficha, álbum ou blog da turma). • Critérios para avaliação: • O texto não foge ao tema? • A quantidade de informações é suficiente? • As informações estão ordenadas em uma sequência lógica e clara? • Não há informações que entram em contradição com o real? • O vocabulário empregado é adequado ao público previsto? • Não há desvios da língua-padrão? • O título corresponde ao texto? • O texto tem boa apresentação: legibilidade e respeito às margens? 2. Produção escrita: anúncio classificado. Os estudantes serão convidados a produzir anúncios de troca ou doação de objetos (figurinhas, gibis, livros, chaveiros etc.), para serem expostos no mural fora da sala de aula. • Critérios para avaliação: • O texto está claro e contém as informações necessárias? • É breve? • Abrevia palavras com precisão? • Respeita as normas da língua-padrão? • Usa tipos e cores de letras para destacar informações? • Há boa apresentação do texto: legibilidade, limpeza e disposição gráfica no papel? Da mesma forma como acontece com leitura e escrita, a fala e a escuta também estão inter-relacionadas. O desenvolvimento da habilida- de para falar em público está relacionado às oportunidades de praticar a oralidade mais formalmente e, ainda, de ser ouvinte nessas situações, pois analisar a performance do outro fornece pistas para nosso compor- tamento linguístico nas situações que exigem maior formalidade. Para uma melhor compreensão a respeito da avaliação de oralida- de, segue, como exemplo, um conjunto de critérios básicos para avaliar a produção do gênero exposição oral. Para você aprofundar sua compreensão sobre o modo de trabalhar com análise de textos para revisão e reescrita, com o propósito de aprimorá-lo, assista ao vídeo Revisar para aprender a produzir, do canal Multicultura. Nele, a professora realiza revisão e reescrita coletiva de um texto cujo objetivo é o registro de um relato pessoal de experiência vivida. Para viabilizar a prática de análise, os textos foram apresenta- dos em papel bobina, com letras grandes, para que pudessem ser lidos por todos da classe. A profes- sora foi fazendo a leitura crítica e indagando, tanto a autora quanto os cole- gas, sobre como resolver as lacunas que o texto apresentava. O aspecto priorizado na revisão foi a falta de informações para assegurar a clareza dos fatos relatados. Para saber como foi o final dessa aula, confira o vídeo no link a seguir. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=gGTu8bx3pCo&ab_ channel=Multicultura. Acesso em: 17 jun. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=gGTu8bx3pCo&ab_channel=Multicultura https://www.youtube.com/watch?v=gGTu8bx3pCo&ab_channel=Multicultura https://www.youtube.com/watch?v=gGTu8bx3pCo&ab_channel=Multicultura https://www.youtube.com/watch?v=gGTu8bx3pCo&ab_channel=Multicultura 68 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 3. Produção oral: exposição de informações pesquisadas (sobre animais, cidades, plantas ou outras temáticas). Para essa prática, os alunos deverão buscar, nas fontes indicadas pelo professor, os dados solicitados em um roteiro fornecido, bem como outras questões que julgarem relevantes. Assim, as informações selecionadas deverão ser anotadas e, depois, sua ordenação deve ser planejada, de modo que a exposição fique bem estruturada. Os alunos deverão se preparar – ensaiar a apresentação –, valendo- -se das anotações e reformulando os pontos que não estão adequados (hierarquia das informações, palavras difíceis etc.), além de planejarem uma abertura e um encerramento. Os critérios usados pelo professor serão apresentados previamente aos estudantes, funcionando como bússola para o preparo da exposição. • Critérios para avaliação dos estudantes apresentadores: • Atende ao tema? • Expõe o objetivo com precisão? • É claro e objetivo (vale-se de notas de apoio)? • A voz, os movimentos, os gestos e o olhar são apropriados? • A linguagem está adequada ao público e à situação? • Há boa transição entre as partes da apresentação? • O tempo previsto para a exposição é respeitado? • A abertura e o encerramento são adequados? Que tal experimentar definir critérios para avaliar um texto de instrução? Para isso, vá ao final do capítulo e resolva a Atividade 3. Essas práticas de uso e de reflexão integradas no processo de ensi- no e aprendizagem cumprem dois papéis interligados: criar condições para que a escrita na escola seja menos artificial e, justamente por cumprir esse requisito, possibilitar que os estudantes se apropriem da língua-padrão, visto ser um requisito para participar de maneira demo- crática e crítica das práticas sociais que se utilizam da língua escrita. Uma observação final, a título de esclarecimento: o fato de trabalhar com questões normativas, no momento da revisão e reescrita textual, não dispensa o trabalho paralelo focando os aspectos gramaticais, para internalização de normas da escrita padrão, como concordância verbal e nominal, emprego de pontuação, acentuação, entre outras que estão indicadas, por ano escolar, na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 69 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, leitura e escrita, fala e escuta (práticas de uso da língua) e análise linguística (reflexão sobre fenômenos linguísticos) foram os tópi- cos abordados. Destacamos que o trabalho sistematizado com oralidade, tradicionalmente, tem sido relegado a um segundo plano, por se conside- rar que as crianças já sabem falar quando ingressam na escola. Porém, as situações de oralidade mais formal não são aprendidas espontaneamen- te; na verdade, elas necessitam ser orientadas quanto aos aspectos que as diferenciam da fala informal. A primeira parte do capítulo teceu considerações sobre gêneros orais mais formais e apresentou atividades de uso ou de reflexão de práticas orais para serem trabalhadas no contexto escolar. Na sequência, o tema foi leitura. Apresentamos uma concepção de leitura como produção de sentidos, segundo a qual aprender a ler é um processo complexo, que exige conhecimentos prévios e precisa ser de- senvolvido pela escola, desde o início da escolarização, contemplando textos literários (palavra-arte: poema, contos, lendas, romances e cordel) e não literários (palavra-informação: notícia, reportagem, posts, resenhas, artigos científicos e de opinião, receitas etc). Na terceira parte evidenciamos que famigeradas redações – textos ar- tificiais produzidos na escola e unicamente para ela – devem dar lugar a produções textuais, para que os estudantes se tornem autônomos em situações de escritamais recorrentes na vida em sociedade. Não se trata de uma mera troca de terminologia, mas sim de modos distintos de consi- derar o que é saber escrever. Quando se emprega a expressão produção textual está se fazendo menção a um uso de escrita real ou suposto: as- segura-se que o estudante tenha o que dizer, para quem dizer, uma razão para dizer e saiba onde o texto será veiculado. Além disso, entende-se que a produção não se restringe ao ato de escrever, envolvendo, também, etapas que se inter-relacionam: planejamento, escrita e revisão que gera reescrita. Finalizamos o capítulo destacando que, embora as práticas linguísti- cas tenham sido tratadas separadamente, para fins didáticos, na sala de aula, elas se integram porque, para produzir textos – orais e escritos –, a condição inicial é ter o que dizer, um conteúdo que se obtém por meio de escuta ou leitura. Por outro lado, o autor lê o próprio texto para revisá-lo e aprimorá-lo, levando em conta o leitor potencial e se valendo de conhe- cimentos apreendidos por meio de análises linguísticas e semióticas. 70 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita ATIVIDADES 1. Ler para estudar ou para buscar uma informação específica dentro de um texto exige estratégias diferenciadas. Vamos testar as diversas estratégias. a) No fragmento a seguir, identifique os dois conceitos que estão sendo abordados pelo autor. Depois, confira a estratégia que empregou: passou os olhos ou fez uma leitura analítica? Na linguagem comum e mesmo culta, ética e moral são sinônimos. Assim dizemos: Aqui há um problema ético ou um problema moral. Com isso emitimos um juízo de valor sobre alguma prática pessoal ou social, se boa, se má ou duvidosa. Mas, aprofundando a questão, percebemos que ética e moral não são sinônimos. A ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções. Dizemos, então, que tem caráter e boa índole. A moral é parte da vida concreta. Trata da prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores acei- tos. Uma pessoa é moral quando age em conformidade com os costumes e valores estabelecidos que podem ser, eventualmente, questionados pela ética. Uma pessoa pode ser moral (segue costumes) mas não necessaria- mente ética (obedece a princípios). Embora úteis, estas definições são abstratas porque não mostram o pro- cesso como a ética e a moral, efetivamente, surgem. [...] Fonte: Boff, 2021. b) Explique a diferença entre moral e ética. c) Qual é a estratégia que você usou para poder estabelecer a distinção entre os dois conceitos? d) Releia o último parágrafo e levante hipótese sobre o conteúdo que o autor apresenta na sequência do texto. e) Qual é a pista do texto que você usou para chegar a essa conclusão? Vídeo Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 71 2. Proponha questões para explorar o cartaz a seguir, em discussão oral coletiva com crianças ainda não alfabetizadas. Castelo das Artes apresenta... Dia 26/7 – 20h (quarta-feira) Teatro Municipal de São Sebastião Ingresso: R$ 5,00 Mais informações: (12) 982326922 www.ocastelodasartes.com M ac ro ve ct or /S hu tte rs to ck 3. Suponha que, depois de uma aula em que foi realizada a leitura de uma receita de paçoca de amendoim, publicada em uma revista infantil, você solicitará a alunos do terceiro ano a produção do texto de instrução, apresentada a seguir. Em duplas, pensem em um suco, uma vitamina ou um sanduíche de que vocês gostem e escrevam a receita em formato semelhante à da paçoca. Revisem atentamente e, depois, reúnam todas as receitas da turma em um livreto para a biblioteca da classe. Faça uma lista de critérios que usaria para revisar e orientar a reescrita das receitas produzidas pelos estudantes. 4. O texto a seguir foi escrito por um estudante de terceiro ano, atendendo à proposta de brincar de jornalismo: inventar uma notícia, imaginando publicá-la em jornal. Uma observação: a professora da turma havia trabalhado com notícias jornalísticas. 72 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Analise o texto, depois marque X nas afirmações que apresentam aspectos que precisam ser modificados na reescrita. MACACO FOGE DO ZOO E ENTRA NUM SUPERMERCADO Barrigudo, o orangotango comilão do zoológico de Aricanduva, aproveitou um momento de descuido de seu tratador e não teve dúvida: saiu de fi- ninho e saiu pulando, primeiro numa casa e então foi indo até chegar no mercado Festval entrou e começou a pular e pegar comidas e claro comeu todas as bananas. As pessoas ficaram muito assustadas e algumas até desmaiaram e hoje está fechado o mercado, e conseguiram pegar o maca- co agora claro tem grades maiores para ele. Fonte: Acervo da autora. ( ) Passar para o passado os verbos do título. ( ) Eliminar a palavra claro, porque em notícias ela não se enquadra. ( ) Explicar a razão de o mercado estar fechado no dia seguinte ao fato. ( ) Corrigir a grafia de diversas palavras. ( ) Alterar a pontuação. ( ) Esclarecer quem pegou o orangotango. REFERÊNCIAS ANTUNES, I. Aula de português: encontro e interação: São Paulo: Parábola, 2003. BRASIL. Decreto-Lei n. 79.298, de 24 de fevereiro de 1977. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 fev. 1977. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/ decret/1970-1979/decreto-79298-24-fevereiro-1977-428202-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 13 jul. 2021. BOFF, L. Ética e moral. Viver Consciente, 26 dez. 2021. Disponível em: http://www. viverconsciente.com.br/exibe_artigo.asp?codigo=205#.YPcLzsSSmUl. Acesso em: 17 jun. 2021. BUNZEN, C. Da era da composição à era dos gêneros: o ensino de produção de texto no ensino médio. In: BUNZEN, C.; MENDONÇA, M. (org). Português no ensino médio e formação do professor. São Paulo: Parábola, 2006. CHANOSKI-GUSSO, A. M.; FINAU, R. A. Rumo ao letramento: desvendando os mistérios da escrita, 2. ano. 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São Paulo: Parábola, 2006. https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto-79298-24-fevereiro-1977-428202-publicacaooriginal-1-pe.html https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto-79298-24-fevereiro-1977-428202-publicacaooriginal-1-pe.html O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 73 4 O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental Neste capítulo, o foco do nosso trabalho será o texto literário. Por serem eles um dos caminhos mais eficazes para estimular o gosto da criança pela leitura, dedicamos um capítulo especialmente aos textos fic- cionais. Despertar o interesse pela leitura é condição essencial para se tornar leitor autônomo e crítico, pois o caminho para alcançar esse pa- tamar depende de experiências leitoras. Por ser um processo complexo, que exige procedimentos e estratégias diversificadas, a leitura requer ser desenvolvida pela escola, ao longo de todos os anos da escolarização. Nesse sentido, a educação infantil e os anos iniciais são momentos propí- cios para contribuir de maneira significativa na formação de leitores, visto que imaginação, repetição, imitação e brincadeira são atributos da infân- cia que a literatura atende plenamente. A literatura não só alimenta a fantasia, mas também desperta o senso crí- tico, emociona, impacta, estimula criatividade, desenvolve repertório,amplia vocabulário e permite apreensão das especificidades da escrita; portanto, esses são motivos suficientes para justificar um trabalho sistematizado com textos que pertencem à esfera literária. Para o professor poder ser um agente de leitura, além de gostar de ler, precisa alicerçar sua prática em fundamentos teóricos para estar convicto da relevância do trabalho com essa arte na escola, a fim de ampliar conhe- cimentos a respeito dos objetivos do ensino de literatura e dos princípios norteadores para o trabalho docente. Para trazer essas questões, o capítulo está organizado em quatro se- ções: funções da literatura, o professor com agente da leitura literária, gêneros literários e contação de histórias. 74 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 4.1 Funções da literatura na sociedade e na escola Vídeo Você considera que o fato de as crianças gostarem do momento em que, na escola, ouvem histórias contadas ou lidas pelo professor é um bom argumento para garantir essas atividades no currículo escolar? Se a sua resposta foi afirmativa, você acertou; mas saiba que há, ain- da, outras razões para que a literatura ocupe um lugar privilegiado entre as leituras ofertadas para as crianças. Um primeiro ponto a ser esclare- cido é a diferenciação entre textos que pertencem e que não pertencem à esfera literária. Para estabelecer essa diferença, recorremos a Antonio Candido (2006); segundo ele, pertencem ao campo da literatura tanto os textos do folclore (lendas, chistes, trava-línguas, quadrinhas e cantigas) como os da cultura erudita (romances, contos, crônicas e poemas). Por- tanto, devemos levar em conta que existe a literatura de tradição oral (hoje muitos desses textos estão registrados e publicados) e a literatura de autoria identificada. Para o público infantil e infanto-juvenil, há diver- sos autores brasileiros reconhecidos pela qualidade de suas produções, quer sejam estas em prosa ou verso. Candido (2006) apresenta um argumento consistente que justifica a literatura ser contemplada no currículo ao longo de todos os anos da educação básica. Ele destaca o fato de a literatura ser a manifes- tação universal dos homens de todos os tempos e lugares; portanto, é uma necessidade, um dos direitos humanos indispensáveis, assim como moradia, alimentação e saúde, bens que não podem ser negados Antonio Candido (1918-2017) foi um eminente crítico literário, sociólogo e professor universitário. É considerado um dos grandes expoentes da crítica literária brasileira e suas obras se tornaram base para a formação literária nacional. TD KR C hi ca go 1 01 /W ik im ed ia Co m m on s Biografia Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • aplicar conhecimentos teórico-metodológicos de literatura visando à formação de leitores literários. • criar espaço de destaque para os textos literários na escola; • perceber que a literatura constitui um gênero textual carac- terizado pela beleza da linguagem e que o professor tem o importante papel de mediador; • praticar contação de histórias instigando os pequenos ou- vintes a aumentar seu repertório de livros lidos. Objetivos de aprendizagem O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 75 a ninguém. Enquanto esses últimos possibilitam sobrevivência física, a literatura, a opinião, a crença e o lazer têm papel importante para a integridade espiritual – ela humaniza! Nas palavras de Candido (2006, p. 182): humanização é o processo que confirma no homem aqueles tra- ços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com próximo, o afina- mento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Diante da consistente argumentação do autor, podemos inferir que o trabalho com a literatura na escola vai muito além de apenas propi- ciar momentos prazerosos para os estudantes. Fruir arte e literatura, em todas as modalidades e níveis, é direito inalienável de todos; po- rém, de modo geral, no Brasil, a população de baixa renda tem acesso apenas à literatura de massa e ao folclore. A desigualdade social e eco- nômica impede a intercomunicação dos níveis culturais e, nesse senti- do, a escola pode ser o espaço onde o estudante terá a oportunidade de acessar os diferentes níveis de cultura. Podemos acrescentar, ainda, que o convívio intenso com obras literá- rias, além de causar emoção e impactar, desperta o senso crítico porque gera questionamentos, estimula a criatividade, por encorajar a invenção de alternativas para solucionar problemas, desenvolve o repertório, am- plia o vocabulário e permite a apreensão das especificidades da escrita, servindo de parâmetro para escrita de textos próprios. Importante frisar que obras da literatura infantil não têm fins pe- dagógicos. Quando um livro for escrito com finalidades utilitaristas, como pretexto para ensinar os conteúdos escolares, tais como hábitos de higiene ou de boa alimentação, apresentar animais ameaçados de extinção ou ensinar boas maneiras, então, não é literatura. No entanto, isso não quer dizer que esses livros não devam ser trabalhados. Se o professor julgar que uma obra dessa será uma estratégia eficaz para determinado objetivo, irá utilizá-la, porém ciente de que não está traba- lhando literatura. Atualmente, o mercado editorial tem disponibilizado esse tipo de livro – chamado de paradidáticos – para trabalhar inúme- ros temas de estudo das diferentes disciplinas do currículo escolar. Você sabe as diferenças entre literatura ficcional e literatura científica? Enquanto o cientista se apoia na observação sobre os fenômenos da natureza e os explica com linguagem denotati- va, o artista recorre à imaginação e à fantasia para compreender o mundo, valendo-se da linguagem conotativa. A arte literária é uma for- ma de conhecimento da realidade que se serve da ficção (fictício não é falso, mas sim aquilo que não existe historicamen- te) e tem como meio de expressão a linguagem artisticamente elaborada. Ela contribui com a ciên- cia, pois, para criar algo inexistente, o cientista precisa imaginar. Saiba mais 76 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita O texto literário, pelo tema abordado e, principalmente, pelo modo de abordagem, com o uso de recursos linguísticos inovadores, sensibi- liza o leitor, levando-o a perceber diferentes maneiras de entender a realidade. Segundo Costa (2007, p. 10), ”o bom texto literário faz com que a língua de todos os dias apareça em roupagem mais bonita, e tra- tando de assuntos, personagens e situações narrativas que nem sem- pre fazem parte de nossa vivência”. Vamos a uma amostra desse criativo trabalho verbal, característico dos textos de literatura? Aprecie um trecho do poema escrito em 1936 pelo poeta modernis- ta Manuel Bandeira: TREM DE FERRO Café com pão Café com pão Café com pão Virge Maria que foi isto maquinista? Agora sim Café com pão Agora sim Voa, fumaça Corre, cerca Ai seu foguista Bota fogo Na fornalha Que eu preciso Muita força Muita força Muita força [...] Fonte: Bandeira, 1976. Para conhecer o poema na íntegra, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www. culturagenial.com/poema-trem- de-ferro-manuel-bandeira/. Acesso em: 21. jun. 2021. Leitura Agora, vamos apreciar o desfecho do conto “A caixinha de segredos”, publicado por Mirna Pinsky, no livro Assombramentos. É a história de uma menina que guardava três histórias dentro de uma caixinha de segredos. Um dia a caixinha caiu e elas se misturaram; quando Sílvia tentou guardá-las arrumadas, não cabiam mais, então ficaram abandonadas. Passado muito tempo, em um belo dia, ela re- tomou a caixinha e saiupara a rua, na cena descrita assim: Levou a caixinha, com segredos novos, que dormira na gaveta um sono de vários anos. Da caixinha retirou um arco-íris que https://www.culturagenial.com/poema-trem-de-ferro-manuel-bandeira https://www.culturagenial.com/poema-trem-de-ferro-manuel-bandeira https://www.culturagenial.com/poema-trem-de-ferro-manuel-bandeira O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 77 estendeu pelo espaço. Descalça, seguiu para o alto, pela curva imensa que o arco-íris descrevia. Os pés ágeis saltaram de uma lista a outra, trançando o amarelo, o vermelho e o azul numa trança gigantesca. Na outra extremidade do arco-íris, um tesou- ro a aguardava. E ela seguiria tranquila, pelas cores que fosse escolhendo, até dar com ele. (PINSKY, 1986, p. 48) Nos textos em foco, ambas as autoras selecionam as palavras e as utilizam de maneira inovadora, conseguindo criar espaços a serem preenchidos pela reflexão do leitor, diferentemente do modo como os vocábulos são empregados em textos não ficcionais. Quando os livros com histórias para crianças são escritos com fins utilitaristas, a lingua- gem é denotativa, ou seja, as palavras são usadas no seu sentido co- mum, habitual, por isso não despertam emoção no leitor. Reconhecendo a alta relevância da literatura para o desenvolvimen- to humano, é inquestionável o fato de essa arte se fazer presente de modo intenso nos currículos escolares. Brandão e Rosa (2005) afirmam que a leitura de textos literários para as crianças em processo de alfa- betização se tornou mais frequente, no final dos anos 1980, quando as cartilhas passam a ser fortemente criticadas por seus pseudotextos – esperava-se aproximar a criança de usos e práticas sociais de leitu- ra, oferecendo a ela textos mais significativos e reais. Foi nessa época, também, que o governo iniciou o envio de livros para estruturação de bibliotecas escolares. Ainda nessa direção, as autoras apontam que os livros de histórias passaram a ser associados a outros benefícios para a alfabetização, tais como: o principal elemento estimulador para despertar o interesse da criança em aprender a ler; um fator colaborador para a formação de leitores que buscam construir sentido naquilo que leem; e, ainda, um aspecto que contribui para percepção de que a linguagem que se usa para escrever é diferente daquela utilizada para falar. Gusso (2011) investigou crianças em fase inicial de escolarização, ainda não alfabetizadas, para verificar suas possíveis representações sobre alguns gêneros textuais escritos (contos, anúncios comerciais e textos de instrução), mediante sua familiaridade ou não com eles. Os resultados encontrados evidenciaram que as crianças que tiveram con- tato com esses gêneros textuais – por meio de leitura e discussão ou produção coletiva mediada pelo professor – internalizaram um conjun- to de conhecimentos, tanto relativos às condições de produção quanto 78 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita aos recursos linguísticos recorrentes nesses gêneros. Esses conheci- mentos vão ajudar o leitor iniciante a fazer antecipações sobre o que está escrito, facilitando a compreensão. De fato, as crianças seduzidas pelos livros de histórias se sentem impelidas a aprender a ler para que possam retomar histórias ouvidas e/ou conhecer outras. Tanto a leitura frequente de narrativas e poemas quanto o diálogo que se estabelece entre o professor que encaminha a leitura e o grupo de crianças são elementos fundamentais para o desen- volvimento de estratégias de compreensão que precisam ser aplicadas quando elas já estiverem lendo, para que se tornem leitores autônomos. Os estudos da psicologia, por sua vez, salientam que os contos de fadas têm influência no desenvolvimento cognitivo e afetivo da crian- ça, visto que, indiretamente, fazem alusão aos problemas interiores dos seres humanos e dão pistas para encontrar soluções para esses con- tratempos – portanto, carregam consigo uma mensagem positiva. Ouvir essas histórias, em que o protagonista passa por uma situação difícil, mas tem final feliz, assegura à criança a sensação de que ela, também, será capaz de superar as possíveis dificuldades, gerando confiança em si mesma e no seu futuro. Os contos de fadas permanecem entre os povos, no decorrer dos séculos, justamente pelo seu poder de nos fazer conhecer e compreen- der melhor a nós mesmos. Vamos a uma atividade escrita para sistematizar o conhecimento apresen- tado nesta seção! Resolva a Atividade 1, no final do capítulo. No Brasil, a partir de 1970, as editoras começam a investir em livros destinados a crianças leitoras iniciantes. Neles, a ilustração comple- menta o verbal, as sentenças são curtas, as sequências bem organi- zadas e, ainda, há o uso de diálogos – características que facilitam a compreensão daqueles que ainda não leem com fluência. Assim, dis- ponibilizar aos iniciantes esses materiais, com textos de estrutura me- nos complexa, é uma forma de incentivo à leitura independente e, ao mesmo tempo, uma maneira de evitar que seja um desafio árduo, por vezes insuperável. Ao selecionar textos apropriados para o nível de lei- tura em que a criança se encontra, ela, gradativamente, vai desenvol- vendo as estratégias leitoras necessárias para a sua formação de leitor autônomo e crítico. Contos maravilhosos são narrativas que se originaram no Oriente e apresentam tramas com seres e objetos mágicos, dentre os quais estão caixas e botas – fadas não se fazem presentes. A coletânea mais famosa é As mil e uma noites. Contos de fadas são um tipo de narrativa maravilhosa; recebem essa denominação porque são histórias que têm sua origem na cultura céltico-bretã, na qual a fada é um ser notável. Porém, necessariamente, não precisam ter fadas, mas se caracterizam pela presença de outros seres (dragões ou bruxas), obje- tos (varinha de condão) e lugares sobrenaturais. Há contos de fadas clássicos (“A Bela e a Fera”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Cinderela”, entre outros) e os contos de fadas modernos, que mantêm a estrutura dos contos, mas atualizam as temáticas. Também, há muitas relei- turas de contos clássicos que foram levados ao cinema, como A garota da capa vermelha (2011), Espelho, espelho meu (2012) e A Branca de Neve e o caçador (2012). Saiba mais O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 79 4.2 O professor como agente da leitura literária Vídeo Um agente de leitura é um motivador, uma mola propulsora, um im- pulsionador. Logo, ele é a pessoa que abre as portas do universo dos livros para alguém. Pais, irmãos, vizinhos e amigos têm potencialidade para des- pertar o gosto de uma criança pela leitura, mas, pela natureza da sua pro- fissão, as probabilidades de o professor ter esse privilégio são imensas. Lembra-se de como o livro chegou até você? Na sua infância, al- guém lhe contava histórias? Como isso impactou a sua trajetória de leitor? Que tal se autoavaliar em relação às suas práticas leitoras? Figura 1 Autoavaliação de práticas leitoras 1. Para você, a leitura é: ) ( uma janela para o mundo. ) ( uma atividade prazerosa. ) ( uma atividade entediante. ) ( uma necessidade profissional. ) ( um caminho para desenvolvimento pessoal. 2. Numere em ordem crescente suas preferências nas horas livres. ) ( Sair com familiares ou amigos. ) ( Acessar redes sociais (Facebook, Twitter, entre outros). ) ( Assistir à televisão. ) ( Ler textos de informação na internet. ) ( Ler um livro. ) ( Dormir. 3. Identifique os gêneros de sua preferência: ) ( romance ) ( conto ) ( biografia ) ( autoajuda ) ( poema ) ( religioso ) ( cordel ) ( crônica 4. Qual livro que você leu mais te marcou, e por quê? 5. Quantos livros (sem levar em conta o livro didático) você leu no último ano? ) ( Nenhum. ) ( 1 a 3. ) ( 4 a 6. ) ( Mais de 7. As perguntas apresentadas na Figura 1 são umaforma de levar você a refletir sobre o seu papel como agente de leitura, enquanto professor. Porém, se você não gosta de ler, não há como passar esse gosto para seus alunos. A criança percebe se a atividade é me- diada ou não com paixão e, por isso, certos professores marcam tanto os estudantes quanto a esse aspecto, tanto positiva quan- to negativamente. Por outro lado, o docente leitor tem repertório vasto e, por conhecer vários autores e editoras, consegue selecio- nar e oferecer às crianças obras de qualidade, bem escritas e capa- zes de propiciar algum tipo de reflexão. Na educação infantil, o manuseio de livros com bebês permite a relação sensorial (cheiro, imagens, cor e textura do papel) com o objeto livro, e, na sua memória afetiva, fica associada a leitura com as sensações prazerosas que esse momento oportuniza. Além disso, essa prática desenvolve a escuta, o imaginário, o pensar e a relação com outros, fortalecendo o vínculo com o mediador. Estudos revelaram que aprendizagem da língua escrita se inicia muito antes de a criança ter o contato com o lápis e aprender as primeiras letras. Ouvir leituras desde os primeiros meses de vida familiariza a criança com a língua escrita, amplia o vocabulário e desperta a apreciação estética – enfim, amplia suas experiências. A literatura oral (parlendas, cantigas, trava-línguas, mitos e lendas e histórias cumulativas), por sua vez, fornece bases para o enten- dimento de obras escritas; nesses textos está presente o brincar com a linguagem – ritmo, rima, repetição e imaginação – e, então, eles têm tudo a ver com o universo infantil. Os tex- tos da cultura popular são marcados pelo ritmo e pela repetição, favorecendo a memorização deles, assim viram brincadeiras, como verificamos empiricamente nas rodas de brinquedos infantis, com canti- gas populares como “De abóbo- ra faz melão”. Yu ga no v K on st an tin /S hu tte rs to ck O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 81 De abóbora faz melão De abóbora faz melão De melão faz melancia Faz doce, Sinhá, faz doce, Sinhá Faz doce, Sinhá Maria Quem quiser aprender a dançar Vai na casa do Juquinha Ele dança, ele pula Ele dá uma requebradinha. No nosso folclore são inúmeras as cantigas que podem ser resgata- das para brincadeiras e jogos dentro e fora da sala de aula. 4.2.1. A formação do acervo e a seleção de estratégias e atividades Para a seleção de livros de literatura, seja para a biblioteca de sala ou da escola, Rildo Cosson (2011, p. 33) defende a ideia de que “a pluralidade e a diversidade de autores, obras e gêneros” é a di- reção mais apropriada para a seleção de textos. O acervo precisa incluir obras contemporâneas e atuais, entendendo-se esses dois adjetivos com significado distintos. Cosson (2011, p. 34) coloca que “obras contemporâneas são aquelas escritas e publicadas em meu tempo e obras atuais são aquelas que têm significado para mim em meu tempo, independentemente da época de sua escrita ou publica- ção. [...] O letramento literário trabalhará sempre com o atual, seja ele contemporâneo ou não.” Torna-se importante lembrar que apenas o fato de ter aprendido a ler não é condição suficiente para alguém se tornar leitor maduro. Nesse sentido, precisa ser levada em conta a necessidade de o acer- vo ser bem diversificado, ofertando obras simples e mais complexas, de modo que as crianças sejam desafiadas a crescer como leitores. A maturidade de leitor, nos anos iniciais, é alcançada gradativamen- Letramento literário é a expressão usada para fazer referência a um processo que se faz via textos literários, visando assegurar o domínio efetivo da linguagem literária, para que todos possam exercer o direito de consumir essa arte. Saiba mais 82 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita te, pois é um percurso que compreende alguns estágios. O leitor iniciante, mesmo antes de ser alfabetizado, consegue entender e reproduzir narrativas simples que associam o texto verbal às ima- gens – a contação de histórias pelo professor é uma atividade que encanta nessa fase – e, com relação a poemas, é capaz de perceber e distinguir os sons e o ritmo, por isso tem preferência por poemas construídos com jogos sonoros e rimas. Em uma segunda fase, esse leitor, embora ainda dependa da mediação do adulto para a compreensão do explícito e o comparti- lhamento de sentidos, sente grande motivação para ler e tem inte- resse especial por contos de fada, lendas, mitos e fábulas. Apresenta certa independência na leitura de narrativas curtas e médias, desde que, nelas, o escrito esteja apoiado em ilustrações. Na fase seguinte (quarto e quinto anos), as histórias com elementos mágicos desper- tam menos o seu interesse, sentindo-se atraído por narrativas de aventuras, terror, ficção científica e enigmas sociais, bem como sen- timentais e psicológicas, que apresentam o mundo real. Além disso, compreende e discute temas éticos, sociais e situações fora de seu contexto cotidiano. A fim de que os alunos avancem no conhecimento dos textos, é essencial a mediação do professor para estimulá-los a pensar e buscar respostas para as questões que o texto apresenta para refle- xão. O texto literário, quando trazido para aula como mero pretexto para o ensino de ortografia ou questões gramaticais, perde sua fun- ção; logo, o trabalho com ele precisa ser desenvolvido com vistas a possibilitar que o estudante entenda e aprecie a obra e vivencie uma experiência estética que lhe proporcione prazer. Como exemplo, va- mos analisar uma atividade de exploração de poema, apresentada por Magda Soares (2019, p. 79-81), no livro didático Português: uma proposta para o letramento (2º ano do EF): O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 83 Figura 2 Atividade de exploração de poema LEITURA ORAL O professor vai ler um poema para vocês de uma autora que, entre as várias casas de bichos, prefere a do João-de-Barro. JOÃO DE BARRO Roseana Murray Alguns bichos têm casas muito interessantes. Formigas, abelhas podem dar ao homem lições de arquitetura. E com que finura . Tema aranha tece sua teia, o marimbondo constrói sua casa, o bicho da seda o seu casulo. Mas sou apaixonada mesmo é pela casa redonda do João-de-barro. Talvez porque sempre quisesse morar em árvore, morar assim pendurada. Lá dentro da casa, o João-de-barro e sua namorada fazem planos para o futuro. Daqui de fora eu escuto: Ti ti ti ti ti ti ti ti CASAS. Belo Horizonte: Formato, 1994, p. 22. INTERPRETAÇÃO ORAL Discuta com o professor e seus colegas: 1. Se vocês conhecem casas de formigas e de abelhas, com certeza sabem por que elas podem dar ao homem lições de arquitetura. Por quê? 2. Releiam os versos: “E com que finura A aranha tece sua teia.” (Continua) 84 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Observem: Finura: qualidade daquilo que é fino. Um lápis fino: que não é grosso. Um tecido fino: delicado, leve. Por que a autora diz que a aranha tece com finura? · Porque os fios da teia não são grossos · Porque a teia é delicada · Por que a autora quis dizer, com uma palavra só, as duas coisas sobre a teia 3. Releiam a estrofe em que a autora explica por que é apaixonada pela casa do João-de- Barro – a quarta estrofe. · Por que ela é apaixonada pela casa do João-de-Barro? · Ela tem certeza de que é por esse motivo mesmo? Vocês concordam que a casa do João-de-Barro fica “pendurada”? fonte: Soares, 2019, p. 79-81, Repare que mesmo com as crianças “lendo” o poema pela voz do professor, elas são instigadas a pensar nos sentidos dos versos e a dialogar com o texto, concordando ou não com ele. As perguntas formuladas não permitem respostas de trechos copiados do texto, também não são questões nas quais vale tudo, por admitirem qual- quer resposta; ao contrário, exigem análise das palavras para chegar às respostas e aprofundar o grau de compreensão do poema.Para formar leitores plenos, as atividades de leitura superficial precisam, então, dar lugar àquelas que gerem reflexão e discussão. Sobre a relevância da mediação, Costa (2007, p. 44-45 , grifos nos- sos) esclarece: professor e aluno devem integrar-se com igual determinação e vontade na aprendizagem do intercâmbio produtivo com os textos literários. O processo envolve diferentes e atuan- tes sujeitos: o autor, que constrói intenções e beleza na sua literatura, o leitor aluno, que parte em busca, com seu reper- tório e experiência, de outras leituras, dos sentidos dessa literatura, e o professor mediador, que, com conhecimento, maturidade e metodologia, está apto a possibilitar a seus alu- nos um ambiente proveitoso e enriquecedor de leitura. Esses sujeitos aliam-se numa associação eficaz de ações de leitura compartilhada. O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 85 Nesse sentido, Michele Petit (2013, p. 154), antropóloga francesa que se dedica a estudos investigando a função da leitura na (re)cons- trução da identidade e a importância dos espaços de leitura, adverte: o gosto pela leitura não pode surgir da simples proximidade ma- terial com os livros. Um conhecimento, um patrimônio cultural, uma biblioteca podem se tornar letra morta se ninguém lhes der vida. Se a pessoa se sente pouco à vontade em aventurar-se na cultura letrada devido à sua origem social, ao seu distanciamen- to dos lugares do saber, a dimensão do encontro com um media- dor, das trocas, das palavras “verdadeiras”, é essencial. Sendo assim, fica explícito que o professor é um dos principais, se- não o principal agente para formação de leitores que sintam os livros como janelas para o mundo. 4.2.2 Estratégias para promoção do letramento literário Com base em diversos autores – Costa (2007), Cosson (2011) e Colomer (LITERATURA..., 2012) –, vamos a algumas sugestões de práti- cas para estimular a leitura literária. Antes de apresentá-las, nos parece importante destacar dois pré-requisitos para desenvolvê-las, descritos a seguir. Ter clareza para seleção das obras a serem disponibilizadas aos estudantes – obras pedagógicas devem dar lugar às emancipatórias, isto é, textos que permitam ao leitor interagir com o potencial da literatura (emocionar, promover reflexão, divertir, humanizar, provocar debates, dialogar com diferentes culturas, desfrutar do trabalho estético com a palavra etc.) Criar tempo e espaço na escola – as atividades não terão o efeito pretendido se não for organizado um plano leitor. Quando o trabalho com literatura fica relegado a segundo plano, ou seja, é realizado nos minutos finais, no caso de sobrar um tempo após uma atividade das disciplinas, a promoção do letramento literário não se consolida. Tim Evseev/Shutterstock Quanto ao acervo Disponibilizar livros referentes a diferentes culturas (indígena, afri- cana, popular brasileira) e diferentes linguagens. 86 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita A literatura indígena – termo utilizado para designar os textos edi- tados e reconhecidos pelo chamado sistema literário (autores, público, críticos, mercado editorial, escolas, programas governamentais e legisla- ção) como sendo de autoria indígena. É importante que se trabalhe com essa produção literária porque oportuniza a valorização da pluralidade e a expressão do diferente, reconhecendo sua contribuição para a cultura e sociedade e, consequentemente, orientando para o respeito ao outro. Algumas obras de autores indígenas: Coisas de índio: versão infantil é uma obra que, com linguagem acessível, discute a importância de se valorizar a heterogeneidade dos povos indígenas do território brasileiro. MUNDURUKU, D. São Paulo: Callis, 2003. Awyató-pót: histórias indígenas para crianças é uma obra de narrativas, cujo protagonista é Awyató-pót, guerreiro valente do povo Mawé, do Amazonas. HAKIY, T. São Paulo: Paulinas, 2011. (Coleção O universo indígena). Kurumi Guaré no coração da Amazônia é um livro de autor amazonense. A obra narra aventuras infantis e descreve o povo Maraguá. YAMÃ, Y. São Paulo: FTD, 2007. As serpentes que roubaram a noite e outros mitos é uma obra que retrata aspectos culturais e linguísticos da vida na aldeia dos Munduruku. Traz, ainda, ilustrações das crianças Munduruku da aldeia Katõ. MUNDURUKU, D. São Paulo: Peirópolis, 2001. O Karaíba: uma história do pré- Brasil é um romance que narra, em linguagem poética, a história de povos que viviam aqui antes da chegada dos portugueses. Apresenta costumes, crenças e leituras do mundo pela visão cultural indígena. MUNDURUKU, D. Barueri: Manole, 2010. O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 87 A literatura africana – tem suas raízes no movimento conhecido como negritude (1956), quando um grupo de escritores divulgou textos e poesias inspirados nas revoltas de caráter anticolonialista. Os temas mais recorrentes são a terra, os conflitos vividos, a beleza dos lugares da região e os contrastes vividos diariamente pelos povos nativos. Essa literatura é produzida em diferentes línguas: português, francês, inglês, entre outras. No YouTube estão disponíveis vários vídeos com contos africanos narra- dos oralmente. Confira algumas obras com contos cujo tema é a africani- dade, para trabalhar nos anos iniciais da escolaridade: Na obra Memórias de um baobá, a autora apresenta algumas brincadeiras de origem africana para o leitor brincar e aprender um pouco sobre o continente africano. CHAVES, E. Chiado, 2020. [e-book] Outros contos africanos para crianças brasileiras é uma coletânea de divertidas fábulas africanas; recebeu o prêmio Acervo básico FNLIJ, categoria Reconto (2006). BARBOSA, R. São Paulo: Paulinas, 2006. Omo-oba: histórias de princesas é uma obra que reconta seis mitos africanos. OLIVEIRA, K. de. Belo Horizonte: Mazza, 2009. A literatura popular – termo que engloba o conjunto da literatura po- pular brasileira de tradição oral, por isso também denominada literatura oral. Pertencem a esse universo de textos os contos, populares, lendas e mitos. Algumas obras: SERRANO, S.; MIGUEL, C. São Paulo: Folia de Letras, 2015. BANDEIRA, P. Malasaventuras. São Paulo: Moderna, 2011. BOLDRIM, R. Contando causos. São Paulo: Nova Alexandria, 2011. 88 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Originária da Península Ibérica, a literatura de cordel, que veio para o Brasil entre os séculos XVII e XIX. O cordel fixou raízes no Nordeste e teve várias denominações: livrinho de feira, folheto etc. Recebeu esse nome devido à forma como eram comercializados antigamente – pen- durados em cordas ou barbantes, nas feiras. Na década de 1970, pas- sou a ser chamado pelos estudiosos da cultura como Literatura de cordel nordestino. Sua característica básica é a rima em sextilha: seis versos de sete sílabas, em que os versos pares devem rimar entre si (o segundo, quarto e sexto). São inúmeras as obras, entre elas: ASSARÉ, P. Cordel. São Paulo: Hedra, 2011. TAVARES, B. O flautista misterioso e os ratos de hamelin. São Paulo: 34, 2009. CAVALCANTE, R. C. A chegada de Lampião no céu. São Paulo: Luzeiro, 2011. BESSA, B. Poesia com rapadura. Fortaleza: Cene, 2021. Quanto aos livros de poemas, apesar de haver alguns com fins pedagó- gicos ou que se prestam a transmitir valores e normas do mundo adulto às crianças, eles não alcançam, por sua finalidade pragmática, a mesma quali- dade estética daqueles que exploram a brincadeira, o jogo com as palavras. O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 89 O mercado oferece uma grande variedade de obras de qualidade, desde o clássico de Cecília Meireles, Ou isso ou aquilo, passando por Poemas para brincar e Ri melhor quem ri por último, ambos de José Paulo Paes, Dia brinquedo, de Fernando Paixão, Poeminhas da terra, de Márcia Leite e TatianaMoés, até Um pouco de tudo, de Elias José, entre muitos outros. Além dos livros, os CDs com poemas recitados e cantados são materiais imprescindíveis no acervo. No que diz respeito aos livros imagéticos, são obras de grande im- portância para a criança, pois a torna coautora da obra e criadora de um texto verbal e, até mesmo, de outros textos visuais. As demandas sociais de leitura e escrita têm exigido dos sujeitos capacidades de le- tramento cada vez mais avançadas, e por isso há a necessidade de se atentar para a linguagem imagética presente em textos impressos ou digitais. O livro Ida e volta, de Juarez Machado, publicado em 1975, foi o pri- meiro constituído unicamente por uma narrativa com imagens. Na dé- cada seguinte, Eva Furnari (autora que coleciona mais de 40 prêmios) publica Filó e Marieta e Zuza e Arquimedes, seguidos de várias outras obras. A coleção dos Ratinhos, de Monique Felix, encanta mesmo crian- ças muito pequenas. Com relação aos filmes, há diversos de animação de contos clássi- cos infantis, além de obras contemporâneas adaptadas à linguagem do cinema, entre eles Meu pé de laranja lima, Menino Maluquinho e Corda bamba, a história de uma menina equilibrista. Quanto às estratégias metodológicas 1. Narração ou leitura de contos: usar material de apoio, sendo acompanhada de atividades anteriores ou posteriores, como práticas frequentes. 2. Leitura de narrativas longas pelo professor: ouvir porções da história, com intervalos de tempo; isso desenvolve aspectos cognitivos (memória, antecipação e checagem de hipóteses), além de permitir que a criança descubra que textos longos podem ser interessantes. 3. Leitura coletiva: ler textos para interpretação da obra, com um trabalho mais sistematizado (individual ou duplas). Essa atividade é o momento ideal para fornecer alguma metalinguagem para falar sobre os livros, não com a finalidade de cobrar a terminologia, O termo poema se refere à obra, ao texto. Já poesia é a arte, a habilidade de tornar uma pintura, um fil- me ou uma foto um texto poético. Na cultura popu- lar, há uma diversidade de formas poéticas: músicas, quadrinhas, cordel, repen- tes, parlendas, cantigas de roda, trava-línguas etc. Além desse conjunto folclórico, há os poemas autorais, cujos autores são identificados. Saiba mais O livro Ida e volta, de Juarez Machado, pode ser acessado na íntegra no link a seguir. Disponível em: https:// pt.slideshare.net/Cami- laRibeiro35/ida-e-volta. Acesso em: 21 jun. 2021. Leitura https://pt.slideshare.net/CamilaRibeiro35/ida-e-volta https://pt.slideshare.net/CamilaRibeiro35/ida-e-volta https://pt.slideshare.net/CamilaRibeiro35/ida-e-volta 90 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita mas sim de subsidiar na argumentação quando se analisa um texto. Por exemplo, saber identificar alguns gêneros literários (conto, lenda, fábula, poema e cordel) e conhecer o sentido de termos – como narrador, personagem principal e secundários, rima, aliteração, verso e estrofe – irá facilitar no momento da análise textual. 4. Leitura em voz alta: promover a educação contribuirá para a criança ganhar desenvoltura em situações de oralidade em público, além de oportunizar a percepção do trabalho estético com a palavra em textos que exploram o ritmo e a musicalidade das palavras. Para essa prática leitora, o professor deve ter o cuidado de garantir que o estudante tenha feito o preparo prévio do texto. 5. Tempo reservado para recomendação de leituras: realizar momentos para compartilhar livros, pois oportuniza o exercício efetivo da apreciação estética e desenvolve a capacidade de argumentação para defesa de sua apreciação da obra. 6. Programa de leitura em casa: organizar uma sacola de livros, a fim de que as crianças levem obras para serem lidas com seus familiares – essa é uma forma de democratizar o acesso da literatura à comunidade. Maria Emília Lopez (Argentina) é uma especialista em educação na primeira infância e literatura infantil, responsável por vários projetos artísticos dedicados a crianças pequenas, e trabalha com formação das famílias como parceiras da escola na formação de leitores, evidenciando resultados bastante significativos. 7. Passaporte do leitor: usar esse recurso funcional para registro das obras lidas e/ou ouvidas por cada estudante. Nele vão constar: data da leitura ou escuta, título, autor, ilustrador e editora. Para cada obra, a criança faz uma pequena avaliação (pode ser escrita ou usando símbolos convencionados pelo professor). 8. Visita a bibliotecas da comunidade: objetivar a familiarização das crianças com as formas de organização das estantes, conhecendo sobre as regras do espaço para que, no futuro, sintam-se à vontade nesses locais. 9. Edição e publicização de textos produzidos por estudantes: imprimir livretos para biblioteca de classe ou da escola. Pode-se pensar na realização de uma sessão de autógrafos, em reuniões com pais, ou em uma feira de livros a ser organizada na escola. O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 91 Vale lembrar que, para essas produções, há que se levar em conta que a escrita é um trabalho que envolve planejamento, escrita e revisão e reescrita, como vimos anteriormente. 10. Feira de troca de livros e revistas: promover essa atividade, oportuniza a prática da argumentação para "venda" do material que a criança está pleiteando trocar com um colega. 11. Entrevista com autores: agendar com autores de obras lidas um encontro virtual com as crianças para uma entrevista planejada ou um bate-papo informal – atualmente, com a internet e os recursos tecnológicos disponíveis, essa experiência ficou bem acessível. Essa é uma experiência memorável para um leitor. As crianças que tiverem assegurado o seu direito ao acesso à litera- tura, certamente, serão estudantes com melhor desempenho escolar e adultos com maiores chances de exercício efetivo da cidadania – con- dição negada à grande parcela da nossa população. Eis, portanto, o le- gado que o agente de leitura deixa não só àqueles com quem interagiu diretamente, mas à sociedade como um todo. O vídeo Conceição Evaristo - encontros de interrogação, do canal Itaú Cultural, é uma dica para você como leitor. Nele, Conceição Evaristo, fala um pouco sobre sua carreira. Conhecer essa escritora é uma forma de compreender melhor as culturas africanas, as questões de racismo e a condição de ser mulher e negra no Brasil. Assista e se encante com essa autora brilhante. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=dHAaZQPI- F8I&ab_channel=Ita%- C3%BACultural. Acesso em: 21 jun. 2021. Vídeo 4.3 Gêneros literários em prosa e poesia Vídeo As obras literárias de todos os tempos e lugares são patrimônio cultural da humanidade, ao qual todos têm direito, conforme defen- de Candido (2006). Por outro lado, essas obras só têm sentido e reali- dade quando lidas. Desse modo, é preciso qualificar leitores e, nesse sentido, a escola é vital, pois o professor exerce o papel de mediador privilegiado entre as obras e o estudante. Para ser agente de leitura, é necessário gostar de ler e se apropriar de um conjunto de conhecimen- tos a respeito de literatura, para orientar a prática pedagógica, no sen- tido de ser coerente com o gênero literário em questão. Nesta seção, vamos abordar as características básicas de alguns gêneros textuais e os mais recorrentes na literatura infantil, a qual pode ser definida como textos escritos por adultos visando atingir o universo infantil por meio da imaginação, do simbólico e do mítico. A produção literária pode ser, de modo amplo, subdividida em prosa e poesia. Assim, pertencem ao primeiro grupo as narrativas ficcionais; já poesia é nome genérico para referência aos textos escritos em versos, e https://www.youtube.com/watch?v=dHAaZQPIF8I&ab_channel=Ita%C3%BACultural https://www.youtube.com/watch?v=dHAaZQPIF8I&ab_channel=Ita%C3%BACultural https://www.youtube.com/watch?v=dHAaZQPIF8I&ab_channel=Ita%C3%BACulturalhttps://www.youtube.com/watch?v=dHAaZQPIF8I&ab_channel=Ita%C3%BACultural https://www.youtube.com/watch?v=dHAaZQPIF8I&ab_channel=Ita%C3%BACultural 92 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita quando nos referimos a um em particular, denominamos este de poema. Tanto em uma como em outra — poesia ou prosa — há ideia e emoção. 4.3.1 As narrativas da literatura infantil Uma narrativa conta uma sequência de fatos, nos quais as persona- gens atuam em determinado espaço e no decorrer do tempo. Portanto, os elementos que compõem as narrativas são: o narrador, o enredo, as personagens, o tempo e o espaço. O marco inicial da literatura infantil é o século XVII, com os con- tos de fadas – edições de narrativas folclóricas, contadas pelos camponeses da França e publicados pelo escritor francês Charles Perrault. Entre eles estão “Chapeuzinho Vermelho”, “A Bela Adormecida”, “O Gato de Botas”, “Cinderela” e “O Pequeno Polegar”. No século XVIII, os irmãos Grimm, na Alemanha, criaram várias fábulas infantis e, em 1812, edi- taram uma coleção de contos de fadas, entre os quais es- tavam “A Gata Borralheira”, “Branca de Neve” e “João e Maria”. Andersen, considerado hoje o “pai” da literatura infan- til, lançou, na Dinamarca, seis volumes de contos infantis. Esse autor chegou à marca de 156 histórias, dentre as quais se destacam “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia”, “A Roupa Nova do Rei” e “A Pequena Vendedora de Fósforos”. No Brasil, a literatura infantil passa a ser consumida no início do sé- culo XX, inicialmente com traduções; aos poucos, vão surgindo autores que escrevem para crianças, porém com o objetivo de ensinar conteú- dos escolares. Na década de 1920, Monteiro Lobato, rompendo com essa prática, traz, nos seus livros, o cotidiano da criança no seio familiar, introduzindo a linguagem oral tanto na fala das personagens como no discurso do narrador, de modo a obter, assim, uma linguagem acessível a pequenos leitores – fator decisivo para despertar o interesse deles por ler ou ouvir as histórias desse autor. Após a década de 1970, essa literatura passa a sofrer transforma- ções quanto ao seu papel de transmitir certos valores às crianças, bem como quanto às temáticas tratadas e à linguagem empregada. Tam- kvio/Shutterstock O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 93 bém, o recurso do narrador em primeira pessoa, pela perspectiva da criança, foi uma mudança significativa da época. Na contemporanei- dade, há um grande número de autores que escrevem para o público infantil e infantojuvenil e têm suas obras impressas, com ótima quali- dade, por diversas editoras. Pertencem ao grupo das narrativas diversos gêneros textuais, que se diferenciam por suas respectivas estruturas organizacionais, dentre os quais vamos expor a caracterização dos seguintes: contos, lendas, mitos, fábulas, peças teatrais e crônicas. Vamos lá! 4.3.1.1 O conto Narrativa curta de fatos fictícios, envolvendo poucos personagens e acontecimentos, com espaço e tempo reduzidos. Nele, são identifica- dos três momentos bem delineados: inicia com um estado de equilíbrio, apresentando personagens, espaço e tempo nos quais a história vai ser narrada, além dos primeiros acontecimentos dela; segue com o surgi- mento de um conflito (situação-problema), que envolve os personagens, em alguns episódios, para tentar resolvê-lo; finaliza com a resolução do conflito e o retorno ao estado de equilíbrio inicial. Assim, um recurso comum nos contos é o diálogo das personagens – estratégia que facilita bastante a compreensão do texto por leitores ainda em processo de formação. A demarcação do tempo e espaço, nos contos tradicionais, é feita no início, usando fórmulas para indicar uma época e um lugar imprecisos, como: “Certo dia...”; “Era uma vez...”; ou “Num reino distante...”. Tam- bém, não raro, fórmulas são utilizadas para o fechamento: “Viveram felizes para sempre”. O narrador é uma figura criada pelo autor para relatar os aconte- cimentos, podendo ser uma personagem. Nesses casos, os fatos são narrados em primeira pessoa, porém pode ser, ainda, um narrador que vê os fatos de fora, relatando-os em terceira pessoa. Quanto aos personagens, são bem-vindos ao mundo da imaginação das crianças, animais, fadas, bruxas, objetos, pessoas de todas as ida- des e até seres extraterrestres. Costa (2007, p. 75. grifos nossos) esclarece que a palavra contos en- globa diversos subgêneros, a saber: 94 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita contos maravilhosos são as narrativas com ou sem fadas, que apresentam uma visão mágica da realidade (com objetos, ani- mais e acontecimentos fora da realidade e transformáveis). Outro grupo é formado pelos chamados contos do cotidiano (com personagens crianças, com protagonistas solitários ou em grupos, vivendo conflitos na rua, na escola, em família). Outros grupos podem ser constituídos pelas denominações contos que contenham enigmas, ou contos de aventuras, ou narrativas sobre aprendizagens, ou sobre ecologia, ou sobre problemas sociais (como a inclusão, por exemplo). Vale chamar a atenção para a importância de trabalhar com nar- rativas compostas apenas por texto visual, não só com crianças ainda não alfabetizadas, mas com os demais também, para promover a edu- cação do olhar, uma vez que vivemos cercados de imagens e, com a aceleração dos avanços tecnológicos, é cada vez maior a diversidade de gêneros textuais que aliam a linguagem verbal às figuras. No am- biente escolar, geralmente, a linguagem visual era objeto de estudo da disciplina de Artes; porém, atualmente, todas as disciplinas podem con- tribuir e o trabalho com literatura tem grande potencial para esse fim. Nessas obras, o leitor é coautor da história narrada, pois transforma a linguagem visual em verbal. Essa operação ele pode fazer pela leitura silenciosa ou oralmente, narrando para os colegas, ou, ainda, de modo escrito, retextualizando a narrativa. Aparentemente, são textos simples, com uma sequência de imagens que gera uma história linear. No entanto, uma obra imagética bem ela- borada propicia a construção de narrativas não lineares, porque os re- cursos visuais possibilitam muitas interpretações. Para uma reflexão sobre a atividade de retextualização de narrativa imagéti- ca em verbal, realize a Atividade 2, no final do capítulo. A imagem tem caráter de intertextualidade, isto é, o leitor estabele- ce relação entre a imagem do texto e outras, sejam os textos escritos ou sons, de acordo com suas experiências. Além disso, ela apresenta caráter polissêmico, ou seja, é plurissignificativa; assim, o leitor opta por alguns significados em detrimento de outros possíveis. Retextualização é um processo de transforma- ção de uma modalidade de texto para outra. No caso de retextualizar contos visuais, mantém-se o mesmo gênero textual e se muda a linguagem; também, pode se realizar na passagem de oral para escrito (registro de uma entrevista) ou de um gênero para outro (com base em um conto, criar um poema, dar uma notí- cia, criar um cartaz etc.). Saiba mais O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 95 4.3.1.2 A peça teatral História que se desenvolve por meio dos diálogos entre os perso- nagens do mundo ficcional construído pelo texto – logo, a figura do narrador não tem relevância. Uma obra teatral é produzida para ser representada, e diretor e atores orientam sua interpretação. Nas obras teatrais, rubricas (ou notações cências) são incluídas no texto para determinar o espaço, o tempo, o desenvolvimento da ação, a caracterização dos personagens, e para indicar aos atores sobre ento- nação e gestualidade. Os textos são organizados em atos que, por sua vez, se subdividem em cenas ou quadros. Repare o uso desse recurso no fragmento da obra escrita por Walmir Ayala (1985), O galo de Belém: Personagens: Rei Mago, o Estalajadeiro, a Estalajadeira,o Galo, a Estrela, Maria, José, o Pastor, a Pastora, Coro. Cenário: uma estalagem: porta e janela rústicas. À direita, a entrada de um pequeno estábulo, com uma escada alta encostada no teto, pela qual a estre- la subirá para ficar brilhando. [...] Galo – Eu vou andando, já está anoitecendo e vai fazer frio. Vou me recolher daqui a pouco. Cocoricó! Cocoricó! Rei Mago (para a plateia) – atenção aí vem o Estalajadeiro e a Estalajadeira. Vou ficar aqui de lado para que não me vejam, senão levam um susto. Eles nunca viram um rei. Vamos ver o que eles dizem. (O Rei Mago se afasta para um canto sombrio do palco. Concentrar a luz nos acontecimentos que se seguem). [...] Entre os autores contemporâneos de textos para teatro infantil estão: Ana Maria Machado (Pluft, escrito em 1955 e encenado incon- táveis vezes), Maria Clara Machado, Carlos Queiroz Telles e Carlos A. Nazareth. 4.3.1.3 A fábula Narrativa curta cujos personagens, geralmente, são animais com comportamento humano; tem sempre uma moral explícita, ou não, no final ou no início do texto. Inclusive, a moral de muitas dessas fábulas adquiriu vida própria, transformando-se em provérbios que se repro- duzem de boca em boca. Por exemplo: faça o bem sem olhar a quem. 96 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Esse gênero textual já existia nas civilizações antigas (indiana, gre- ga e latina) e continua sendo criado na modernidade, principalmente, para a escola. Entre as mais conhecidas estão “A cigarra e as formigas”, “A lebre e a tartaruga” e “O touro e as rãs”. Uma narrativa semelhante à fábula é o apólogo; a diferença está nos personagens que, nesse caso, são objetos inanimados: pedra, agulha, linha etc. 4.3.1.4 A lenda Textos narrativos de origem popular; surgem de fatos históricos, e, por isso, ganham credibilidade de muitos. Ocorre que o fato vai se transformando de maneira idealizada e exagerada pelo povo, e surge uma narrativa resultante de uma construção coletiva. O “Ne- grinho do Pastoreio” é uma das mais conhecidas e, justamente por ser bastante reproduzida, tem versões que se diferenciam um pouco umas das outras. 4.3.1.5 O mito Narrativas criadas por diversos povos para explicar sua própria realidade de forma fantasiosa, isto é, não racional, lógica e históri- ca. Elas surgiram na Antiguidade e podem ser entendidas como a primeira leitura do mundo. Temos documentadas em livros, entre outras, as mitologias grega e romana. No caso de povos indígenas brasileiros, há narrativas fantasio- sas diversas explicando a origem de seres e coisas, por exemplo, o surgimento de uma tribo, das estrelas, do milho, do guaraná, da mandioca, entre outras. 4.3.1.6 A crônica Texto narrativo curto, com linguagem simples e coloquial, que trata de assuntos do cotidiano e, por isso, com o passar do tempo, tende a “envelhecer”, por ficar fora do contexto. São produzidas, essencialmente, para serem veiculadas na im- prensa, nos jornais e nas revistas; porém, quando um autor já tem uma quantidade significativa, ele as reúne em livros, como é o caso de Carlos Drummond de Andrade, na obra Fala amendoeira; de Ru- O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 97 bem Braga, com Crônicas do Espírito Santo; e de Luís Fernando Verís- simo, no livro Comédias para se ler na escola. Esse gênero textual, apesar de tratar de fatos corriqueiros e usar uma linguagem simples, é mais apropriado para crianças que já atin- giram um nível de leitura mais autônoma. 4.3.2 A poesia infantil Poesia é a arte, a habilidade de tornar uma pintura, um filme ou uma foto um texto poético. O termo também é usado para desig- nar o conjunto das obras. Na cultura popular, as cantigas, as qua- drinhas, o cordel, os repentes, as parlendas e os trava-línguas são formas poéticas. Além desses gêneros, há os poemas produzidos por poetas populares ou eruditos. Poema é a obra, o texto literário, geralmente, escrito em versos agrupados, em estrofes distribuídas no espaço de maneira característica. Uma das tendências da poesia infantil é o poema narrativo, aque- le que conta uma história em versos rimados, melodiosos; nele há um enredo com personagens e ação. São exemplos: “Um rei e seu cavalo de pau”, de Elias José; e “Bom dia. Todas as cores!”, de Ruth Rocha (2012). Segue um pequeno fragmento desse último: “Bom dia, sol, / bom dia, flores, / bom dia, todas as cores!”. Nos poemas, o trabalho principal do poeta reside na exploração da linguagem para expressar sentimentos, emoções, sonhos, dese- jos, sua visão da realidade e assim por diante. Entre os recursos de sonoridade recorrentes nos poemas estão o ritmo, a rima e a aliteração. Os poetas também criam palavras (neo- logismos) e usam algumas palavras da língua com novos significa- dos. São as chamadas figuras de linguagem: metáfora, comparação e personificação. A rima – coincidência total ou parcial dos sons do final do verso – é uma característica, porém não obrigatória. Pode vir intercalada, rimando o primeiro com o segundo verso ou de outro modo, con- forme o poeta arranjar essa combinação – por exemplo, rimando palavras no interior do verso: “Passarinho na janela, / pijama de fla- nela, / brigadeiro na panela” (em: “Duas dúzias de coisinhas à toa que deixam a gente feliz”, de Otávio Roth).No entanto, quando não possuem rima, chamam-se versos livres. Bom-dia. Todas as cores!, de Ruth Rocha e ilustrado por Madalena Elek, chama a atenção, inclusive de crianças bem pequenas, por ser bem colorido. Com linguagem muito acessível e uso de caixa-alta para facilitar aos leitores iniciantes, narra a história de um camaleão que muda de cor a cada sugestão de outro bichinho. Ao final do dia, ele descobre que quem não agrada a si não pode agradar a ninguém, e toma uma decisão. A leitura é uma experiência marcante, tanto pelo enredo como pelos efeitos obtidos por meio das rimas que permeiam o texto. ROCHA, R. São Paulo: Salamandra, 2012. Livro 98 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita O ritmo é um efeito de musicalidade obtido pelo valor sonoro das palavras e pelas pausas. Às vezes, é marcado, cadenciado e se mantém ao longo do poema, como é o caso de “Trem de ferro”, de Manuel Bandeira. Outras vezes, vem marcando e, de repente, há quebra do compasso, como fez Manuel Bandeira neste poema: Debussy Para cá, para lá... Para cá, para lá... Um novelozinho de linha Para cá, para lá... Para cá, para lá... Oscila no ar pela mão d e uma criança (Vem e vai...) Que delicadamente e quase a adormecer o balança — Psiu... — Para cá, para lá... Para cá... — O novelozinho caiu. Fonte: Bandeira, 2013. A repetição de fonemas consonantais, localizados no início ou no meio da palavra – aliteração –, também contribui para a expressi- vidade, marcando o ritmo e sugerindo alguns sons semelhantes às palavras que compõem o texto. Esse recurso caracteriza o poema “Tempestade”, de José de Nicola. Repare o efeito obtido com a repe- tição do fonema v na primeira estrofe, sugerindo a sensação de ven- tania: “O vento vem vindo veloz. / Voam folhas, gravetos, troncos”. As figuras de linguagem são recursos relacionados com aspectos semânticos, fonológicos ou sintáticos das palavras. Nos poemas in- fantis, as comparações previsíveis e inesperadas são recursos fre- quentes; para comparar dois elementos, a língua dispõe de palavras específicas: como, que nem, parece, feito etc. Quando essas palavras não são empregadas, temos a metáfora. Confira esses recursos no fragmento do poema musicado “O leão”, de Vinicius de Moraes: A versão musicada do poe- ma de Vinícius de Moraes pode ser consultada, na íntegra, no link a seguir. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=hb-JSVK6L3Q. Acesso em: 21 jun. 2021. Música https://www.youtube.com/watch?v=hb-JSVK6L3Q https://www.youtube.com/watch?v=hb-JSVK6L3Q https://www.youtube.com/watch?v=hb-JSVK6L3Q O texto literário na educação infantil e nos anosiniciais do ensino fundamental 99 Leão! Leão! Leão! Rugindo como um trovão [...] Tua goela é uma fornalha Teu salto, uma labareda Tua garra, uma navalha Cortando a presa na queda. Fonte: Moraes, 1970. Já a personificação é uma figura de linguagem com a qual o poeta atribui um comportamento próprio de seres humanos a um elemento não humano (seres da natureza ou objetos). Esse recurso foi empre- gado por Casimiro de Abreu nesta estrofe do poema “Meus oito anos”: O céu bordado d’estrelas A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia, E a lua beijando o mar! Fonte: Abreu, 1859. Os poemas que brincam com as palavras, explorando-as para obter efeito sonoro, jogando com os significados e com as inversões e pro- vocando humor atraem as crianças porque elas gostam de brincadei- ras. Esses recursos devem ser trabalhados pelo professor de modo a se tornarem salientes para as crianças aprenderem a reparar quando um poema é bem escrito. Não se pode esquecer que poemas que ex- ploram sonoridade, obrigatoriamente, precisam de leitura em voz alta para que rimas, aliterações e ritmo sejam perceptíveis e despertem as sensações e emoções que o texto pode proporcionar. Que tal, agora, após ter lido e refletido sobre textos literários em forma de poemas, você ir para uma prática? No final do capítulo, a Atividade 3 desafia você a fazer apreciação de uma proposta de trabalho com texto poético da cultura popular. 100 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Finalizando, vale destacar que, assim como ocorre com as narrati- vas, a diagramação e ilustração dos poemas são recursos merecedores de atenção no momento da leitura e análise. 4.4 A contação de histórias Vídeo Quando criança, você ouvia histórias contadas por algum fa- miliar ou professor? Quais lembranças ficaram registradas na sua memória afetiva? Agrada muito ouvir um bom contador. Uma história bem contada é uma prática oral poética, por isso seduz não só crianças, mas também jovens e adultos. Há contadores que, explorando apenas voz e expres- são corporal, conseguem chamar a atenção do ouvinte exclusivamente para o texto que, assim, ocupa o centro das atenções. A contação, ao contrário da leitura que está apoiada no livro, sustenta-se na memória do contador, ficando ele com maior liberdade de movimentos para expressão gestual e expressões faciais – principal- mente, podendo dirigir o olhar para os ouvintes. As crianças, em espe- cial, sentem-se muito atraídas para essa atividade e quando a narração cativa, desperta o desejo de ver o livro do qual a história foi retirada, a fim de retomá-la individualmente. Por outro lado, para o professor, também, essa prática é significativa, uma vez que ele resgata a figura tradicional do contador de histórias, mantendo viva a tradição da ora- lidade – que vem se perdendo nos meios urbanos da nossa sociedade. Há que se destacar, ainda, que essa atividade promove uma aproxima- ção mais afetiva entre professor e alunos, fortalecendo o vínculo entre eles. Celso Sisto (2005), que conjuga o papel de contador de histórias com o de pesquisador sobre o tema, no seu livro Textos e pretextos so- bre a arte de contar histórias, dá pistas para quem pretende conhecer sobre essa arte de narrar textos ficcionais. Assim, um contador precisa de estudo, conhecimento, preparo prévio e ensaio, requisitos que de- mandam prazos longos. A participação em cursos e oficinas que propiciem essa formação oportuniza compartilhar experiências e tirar dúvidas, aprender técni- cas para uso da voz e expressão corporal e criar repertório. Porém, os conhecimentos teóricos não são suficientes para despertar o interesse No vídeo Dica Lanterna #6 - Dica de como contar histórias - Qual a diferença entre ler e contar uma história?, do canal Sandra Guzman Narração de His- tórias, você vai encontrar um comentário dela sobre a diferença entre leitura e contação. Guzman defende a relevância de ambos os recursos para desenvolver o gosto das crianças pela leitura e destaca cuidados essenciais que o leitor ou contador precisa levar em conta na sua performance em cada caso. Assistir a es- sas dicas vai contribuir para você compreender melhor o conteúdo abordado nesta seção do livro. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=_cZ2xNePam0. Acesso em: 21 jun. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=_cZ2xNePam0 https://www.youtube.com/watch?v=_cZ2xNePam0 O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 101 do ouvinte pela contação; um critério importante é escolher histórias que emocionem o contador. Logo, se não provocar riso, medo, encan- tamento, reflexão, surpresa ou lágrima é porque não causou emoção, e, nesse caso, a performance, certamente, ficará comprometida. Há uma diferença entre contar histórias memorizadas, por meio de diversas leituras, e aquelas que ouvimos (de um familiar, professor ou outro) e guardamos na memória. Quando contamos histórias às quais tivemos acesso só ouvindo, valendo-nos apenas da memória, nosso texto tem basicamente as características da oralidade, porque a estru- tura da sequência vai sendo construída simultaneamente à narração dos fatos. Porém, se tomamos por base uma narrativa escrita para ser memorizada, com preparo prévio e ensaios, o ouvinte mirim, ao ouvi- -la, vai ampliando seu repertório, expandindo seu vocabulário e apren- dendo diferentes fórmulas para iniciar, marcar a progressão temporal dos fatos e elaborar desfechos – recursos dos quais, depois, poderá lançar mão nas suas produções escritas. Assim como recomendado para a prática de leitura, ao final da conta- ção, é importante estimular os comentários para o estabelecimento de relação entre a história e outros textos ou fatos e para a expressão de sentimentos e sensações. Além disso, essa atividade permite que dela derive(m) outra(s), envolvendo linguagem escrita (leitura ou produção de gêneros textuais abordando a mesma temática da história) ou outras linguagens (música, artes plásticas e dança), para o estabelecimento de relações intertextuais. Vamos a exemplos usando contos clássicos, uma vez que eles dispensam sua leitura neste momento, visto serem largamente difun- didos e, portanto, supostamente conhecidos por você! Pensando na prática A seguir, uma proposta para o trabalho com crianças em processo de alfabetiza- ção e outra para aquelas com autonomia de leitura. 1. Suponha que você escolherá uma boa versão da história “Cinderela” – versões muito resumidas retiram do texto toda a simbologia, reduzindo seu valor literário –, para contá-la a crianças de primeiro ano. Ao término, mostrará o livro de onde a história foi tirada. Após a contação, pode-se apresentar o filme Cinderela e o Príncipe Charles 1 . Na sequência, organizar uma roda de conversa para compara- ção dos dois textos, com relação a pontos semelhantes e diferentes no enredo, na ilustração do livro, no cenário e nos personagens do filme, entre outros aspectos. Você pode acessar a ani- mação pelo link a seguir. Disponível em: youtube.com/ watch?v=2Cei-ClobyM. Acesso em: 13 jul. 2021. 1 (Continua) http://youtube.com/watch?v=2Cei-ClobyM http://youtube.com/watch?v=2Cei-ClobyM 102 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Outra possibilidade é propor atividades de escrita, individual ou em duplas, de tex- tos simples, como: lista de convidados para o casamento de Cinderela; cardápio dos pratos a serem servidos na festa; elaboração do convite de casamento e de cartões de felicitação aos noivos, após terem trabalhado com esses dois gêneros textuais, entre outras. 2. Com crianças que já têm leitura fluente, é possível trabalhar as diferentes versões do conto “A roupa nova do rei”, para um trabalho de intertextualidade. O texto original foi escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen. Publicada em 1837, a obra teve diversos recontos, inclusive com títulos diferentes: A roupa nova do imperador, O fato novo do imperador,O fato novo do rei, As roupas novas do imperador etc. Como existem várias publicações de reconto dessa história ou de paródias dela, uma proposta que gera um trabalho interessante é trabalhar com essas versões, conforme sugerido a seguir. • Iniciar contando a versão escrita por Ruth Rocha, “A roupa nova do rei”. • Apresentar a versão em animação, A roupa nova do imperador 2 , traduzida para o português com sotaque europeu. Após assisti-la, comparar as duas versões, em termos das diferenças que se fizerem notar, tanto em relação ao conteúdo quanto às imagens. Como os personagens são dublados por falantes de português euro- peu, pode-se aproveitar para discutir as diferenças de sotaque e de vocabulário entre essa variedade e o português brasileiro. • Organizar os estudantes em equipes e distribuir outras versões, para serem lidas durante um prazo estabelecido, e, em data marcada, cada equipe apresenta o resu- mo de sua obra com comentários, para toda a classe, podendo, inclusive, convidar outra(s) turma(s) para participarem dessa partilha. Obras sugeridas: • A roupa nova do rei –Turma da Mônica. Clássicos Ilustrados. • A roupa nova do rei: ou o Encontro de João Grilo com Pedro Malazarte, cordel escrito por Marco Aurélio. • “A festa no mar”, poema narrativo publicado no livro A festa no mar e outras histó- rias (A. Herrera e H. Sasaki). • Com que roupa irei para a festa do rei? (T. Freitas e T. Zilberman). Além disso, podem ser realizadas atividades de escrita, como: produção de cartaz para divulgação da festa do rei; convite para outras turmas assistirem às apresen- tações das obras comentadas; continuar a história, contando o que aconteceu com os dois alfaiates que fugiram com os materiais preciosos recebidos para confeccionar a roupa; recontar a história do ponto de vista do rei; entre outras. Assim, a contação, por ser uma arte, não pode ser reduzida a um conjunto de dicas; porém, a título de propor uma iniciação, serão apontados alguns tópicos re- lativos a essa prática que poderão auxiliar você a se aventurar nessa experiência. 1. Selecionar a história: escolha histórias que encantem você, que se identifiquem com seus valores pessoais e cuja extensão e vocabulário sejam compatíveis com a faixa etária das crianças. Você pode acessar a ani- mação pelo link a seguir. Disponível em: youtube.com/ watch?v=4IaX9_RmAYA. Acesso em: 13 jul. 2021. 2 (Continua) https://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Christian_Andersen http://youtube.com/watch?v=4IaX9_RmAYA http://youtube.com/watch?v=4IaX9_RmAYA O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 103 2. Conhecer bem a história: observe o ambiente onde os fatos acontecem, os personagens, o enredo e a subdivisão do texto (situação inicial, complicação, fase das ações, resolução e desfecho). 3. Decidir se vai usar algum recurso: determine se irá utilizar fantoche, dedoche, palitoche, avental de contação, slides, sombras, dobradura, instrumentos musicais ou outros. Cuidado com os excessos, pois o foco deve ser o texto. 4. Contar a história em voz alta: grave-se em vídeo, cronometre (não ultrapasse 10 minutos), assista a gravação e se avalie, a fim de identificar o que pode ser melhorado. 5. Preparar o ambiente (biblioteca, pátio, laboratório de informática, sala de aula etc.): planeje a disposição dos ouvintes no espaço e o posicionamento do conta- dor para assegurar ser visto por todos. 6. Preparar os ouvintes: faça, antes, uma brincadeira usando cantiga e movimento; depois, use um sinal, anunciando que a história vai iniciar (um som suave, um bordão, uma caixa surpresa ou um adereço que o contador coloca em si – chapéu, avental, um enfeite no cabelo ou outro). Esses procedimentos contribuem para que as crianças se acomodem de modo conveniente para a escuta. 7. Atentar-se, durante a contação, à expressão corporal e ao uso da voz: apresente uma boa dicção, modulação da voz e variação no volume e na velocidade da fala, conforme o conteúdo narrado – as pausas, quando bem usadas, enriquecem a contação. Além disso, o olhar deve ser distribuído pela plateia, para que todos sintam que a história está sendo contada para eles, e as expressões faciais devem traduzir as emoções suscitadas pela história. Ainda, é importante se movimentar de acordo com o espaço (caminhar ou ficar parado) e gesticular, associando os movimentos com o conteúdo verbalizado. 8. Mostrar, ao final da contação, o livro de onde a história foi extraída: instigue os ouvintes a comentarem a história, relacionarem a ficção com a vida real, expressarem conteúdos afetivos e intelectuais que emergiram por meio do texto, bem como refletirem sobre seus princípios éticos e morais. Um problema que, normalmente, nos aflige, quando pensamos em contar para grupos grandes de crianças, é a probabilidade de sermos interrompidos por algumas delas fazendo perguntas ou comentários sobre a história. Ana Flávia Basso, psicóloga e contadora, tem diversos vídeos com dicas sobre contação. Em específico no vídeo O que fazer com as interrupções das crianças na hora da história? (O QUE..., 2018), ela apre- senta os tipos de interrupções mais comuns e sugere algumas frases links para retomar a contação interrompida por um comentário ou per- gunta. Por exemplo: “mas, de repente...”; “e então algo aconteceu, sem mais nem menos...”; ou “ah, mas o que eu vou contar agora, ninguém vai acreditar...”. Contadoras de histórias trazem histórias muito bem contadas, das quais podemos nos valer para serem exibidas às crian- ças, mas também para serem tomadas como referência para desenvol- vermos nossa habilidade de contadores. Nos diversos vídeos produzidos por elas, você vai encontrar, ainda, dicas importantes para que as práticas de contação sejam bem-sucedidas. Além disso, há exemplos de atividades para serem realizadas, acompanhan- do histórias. Vale conferir! • Fafá conta Disponível em: https://www.you- tube.com/results?search_query=- faf%C3%A1+conta. Acesso em: 21 jun. 2021. • Ana Flávia Basso Disponível em: https://www.you- tube.com/watch?v=Ert6rP80LQU. Acesso em: 21 jun. 2021. • Bia Bedran Disponível em: https://www.you- tube.com/watch?v=F9vhRf3m4mI. Acesso em: 21 jun. 2021. Dica https://www.youtube.com/results?search_query=faf%C3%A1+conta https://www.youtube.com/results?search_query=faf%C3%A1+conta https://www.youtube.com/results?search_query=faf%C3%A1+conta https://www.youtube.com/watch?v=Ert6rP80LQU https://www.youtube.com/watch?v=Ert6rP80LQU https://www.youtube.com/watch?v=F9vhRf3m4mI https://www.youtube.com/watch?v=F9vhRf3m4mI 104 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Na seção de atividades, Atividade 4, você encontra uma tarefa que vai ajudá- -lo a sistematizar alguns conhecimentos sobre a contação de histórias em espaço escolar. Mãos à obra! Praticar a contação é caminho fértil para se tornar um bom conta- dor. Outra experiência fecunda é assistir apresentações para servirem de parâmetro para a performance. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo ficou evidenciado que a literatura tem papel importante para o ser humano de todos os tempos e lugares, e por isso merece espaço e tempo bem planejados no ambiente escolar, especialmente se levarmos em conta que um grande número de crianças só terá oportunidade de aproximação com textos literários por meio da mediação dos professores. Para efetivar seu papel como agente da leitura literária, o docente precisa ser leitor, a fim de formar repertório, e estar continuamente em busca de informações para aprimoramento de estratégias que visem à formação de leitores. O apanhado básico sobre as características dos gê- neros literários destinados ao público infantil apresentado aqui contribui para o professor se sentir mais seguro na seleção de materiais, bem como preparar atividades para exploração das obras que escolher para leitura e análise com seus alunos, visto que nas obras literárias tão importante quanto exploraros sentidos é explorar a forma do texto, isto é, os recur- sos estéticos empregados pelo autor. As considerações sobre a contação de histórias tiveram como objetivo maior instrumentalizar o docente para uma prática prazerosa que, além de despertar o interesse das crianças pela leitura da literatura, cria laços mais afetivos entre professor e estudantes. ATIVIDADES 1. Imagine que você tenha que argumentar com pais de seus alunos sobre as razões pelas quais, no seu plano de ensino, contemplou uma seção diária de leitura literária para seus alunos. Quais são as razões que você apresentaria para essa prática leitora? Vídeo O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 105 2. A atividade em foco foi realizada por uma criança de segundo ano, que executou a tarefa solicitada pela professora, com uma orientação mais ou menos assim: “Escreva esta história; olhe para as imagens e conte o que está acontecendo em cada uma”. Fonte: Elaborado pela autora. Analisando o encaminhamento: a) Solicitar a escrita de uma história por meio de uma narrativa imagética é uma atividade significativa para a criança? ) ( Sim ) ( Não b) Orientar para que o texto verbal seja escrito ao lado das imagens é coerente? ) ( Sim, porque facilita para a criança. ) ( Não, porque a narrativa imagética dispensa palavras. c) Para a retextualização, seria necessário a criança receber orientações como: ) ( Você deve observar os quadros, criar a história na sua cabeça e colocá-la no papel. ) ( Lembre-se de que seu leitor não verá as imagens, por isso, será preciso iniciar explicando para o leitor quando, quem e onde e, depois, narrar os acontecimentos. ) ( Faça uma frase para cada uma das imagens. 106 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 3. Leia a cantiga para avaliar se os recursos da linguagem poética foram explorados. Os exercícios propostos analisam os sentidos do texto e o modo como foi construído? Escola: _________________________________________________________ Aluno: _________________________________________________________ 1. Cante a cantiga popular abaixo, com os seus colegas, e responda as questões. Se essa rua fosse minha Cantiga Popular Se essa rua Se essa rua fosse minha Eu mandava Eu mandava ladrilhar Com pedrinhas Com pedrinhas de brilhante Para o meu Para o meu amor passar Nessa rua Nessa rua tem um bosque Que se chama Que se chama solidão Dentro dele Dentro dele mora um anjo Que roubou Que roubou meu coração Seu eu roubei Se eu roubei teu coração Tu roubaste Tu roubaste o meu também Se eu roubei Se eu roubei teu coração É porque É porque te quero bem Depois que você e seus colegas cantarem esta cantiga, respondam as questões abaixo dela. 2. O que tem na rua? ( ) Um parque ( ) Um bosque ( ) Um lago 3. Qual o nome do bosque? ( ) Encantado ( ) Paraíso ( ) Solidão 4. Quem é o morador do bosque? ( ) Um anjo ( ) Um ladrão ( ) Um pássaro 5. Por que o anjo roubou o coração? 6. Releia o poema e circule as palavras trissílabas. 4. De acordo com o que foi trabalhado neste capítulo, crie um conjunto com cinco dicas de contação de histórias para professores da educação infantil. REFERÊNCIAS ABREU, C. de. Meus oito anos. 1859. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/wk000472.pdf. Acesso em: 21 jun. 2021. AYALA, W. Teatro infantil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1985. AYALA, W. O galo de Belém. Belo Horizonte: Villa Rica, 1994. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/wk000472.pdf http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/wk000472.pdf O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 107 BANDEIRA, M. Antologia poética. Rio de Janeiro: J, Olympio, 1976. BANDEIRA, M. Debussy. In: BANDEIRA, M. Berimbau e outros poemas. São Paulo: Global, 2013. BRANDÃO, A. C. P.; ROSA, E. C. Literatura na alfabetização: que história é essa? In: BRANDÃO, A. C. P.; ROSA, E.C. (org.) Leitura e produção de textos na alfabetização. 2005. Disponível em: http://coordenacaoescolagestores.mec.gov.br/ufsc/file.php/1/coord_ped/ sala_12/arquivos/Leitura_e_producao_anexo3.pdf. Acesso em: 21 jun. 2021. CANDIDO, A. Direito à literatura. In: CANDIDO, A. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2006. COSSON, R. Letramento literário. São Paulo: Contexto, 2011. COSTA, M. M da. Metodologia do ensino da literatura infantil. Curitiba: Ibpex, 2007. GUSSO, A. M. Representações de crianças não-alfabetizadas sobre gêneros textuais escritos. 2011. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) – Setor de Ciência Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba. LITERATURA Infantil y Alfabetización Inicial. 2012. 1 vídeo (39 min.). Publicado pelo canal Instabiz. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TG0GlQCNLYc. Acesso em: 21 jun. 2021. MORAES, V. de. O Leão. Poesias, 1970. Disponível em: https://www.viniciusdemoraes.com. br/poesia/poesias-avulsas/o-leao. 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Por exemplo, quando fazemos um corte de cabelo, logo queremos ver como ficou o perfil, ajeitamos a frente para um lado e para outro; quando estamos escolhendo uma peça de roupa na loja, queremos um espelho para podermos ver como ficou o caimento e, então, olhamos de perto e de longe e pedimos opinião para quem nos acompanha na compra. Tudo isso é avaliação. Sem dúvidas, as situações mencionadas não são, nem de longe, a mesma coisa que avaliar uma ou mais turmas, em diversas áreas do conhecimento, ao longo de um ano letivo. Portanto, trata-se de um processo amplo, que envolve muitas questões, pois não diz respeito apenas à aplicação de um ou de outro instrumento e, por isso, definitivamente, não é algo fácil. Scaramucci (1990) faz uma interessante consideração sobre avalia- ção escolar, colocando-a como uma questão paradoxal, visto que, ao mesmo tempo que se constitui como um dos problemas do ensino, é fa- tor responsável por grande parte das soluções relativas a ele, devido ao vínculo entre ambos, por seu efeito retroativo potencial e, ainda, por seu poder de abrangência. Considerando que a avaliação estabelece integração entre ensino e aprendizagem, ela desempenha papel essencial no processo pedagógi- co. No ensino de línguas ancorado no paradigma de avaliação formativa, ela funciona como processo contínuo de informações, análise e reflexãosobre o desenvolvimento de capacidades e habilidades nas práticas de uso da língua. Por um lado, ela dá indicativos sobre o desempenho dos estudantes, evidenciando os saberes dos quais cada aluno se apropriou e quais precisam ser retrabalhados com alguns ou com toda a classe. Por Avaliação de oralidade, leitura e escrita 109 outro lado, permite que o professor possa ter retorno sobre a eficácia das metodologias, das estratégias e dos procedimentos de ensino emprega- dos e, se for o caso, reorganizá-los. Sob a ótica desse paradigma, o erro é visto como parte do processo de construção do conhecimento, pois ele dá indícios do que está por trás; logo, com base nesse indicador, o docente pode redirecionar o processo de ensino para que a aprendizagem se efetive. Sendo assim, temos uma avaliação comprometida com a aprendizagem, ao contrário de uma ava- liação classificatória, que atesta se o estudante sabe ou não, parando por aí com a atribuição de uma nota ou conceito. Neste capítulo, vamos focar a avaliação formativa do ensino de língua portuguesa, que tem como eixo central os gêneros textuais, portanto, abordando a avaliação das práticas de oralidade, leitura e escrita. 5.1 Avaliação de práticas orais Vídeo A língua oral apresenta enorme variedade de uso na vida em socie- dade. Desse modo, não se pode crer que o bom desempenho de práti- cas orais mais formais seja obtido por todos os falantes de uma língua apenas por meio do aprendizado espontâneo no dia a dia. Os gêneros orais formais públicos (entrevista, exposição oral, de- bate, entre outros) dependem de um trabalho sistemático para que o estudante compreenda os contextos sociais em que são usados, bem como se familiarize com as características de cada um. Muitos gêneros não serão praticados pelos alunos, como é o caso dos anúncios comerciais, mas serão objeto de estudo para análise das marcas de manipulação do consumidor, de preconceitos ou de discri- minações. Neles serão exploradas, também, as marcas de oralidade, a Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • preparar instrumentos e recursos de avaliação para acom- panhamento dos estudantes no processo de aquisição da língua escrita e no desenvolvimento da oralidade; • inteirar-se sobre objetivos e funcionamento do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Objetivos de aprendizagem 110 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita variação dialetal e as semelhanças e diferenças entre a linguagem usa- da em diferentes anúncios. Nesse grupo se enquadram, ainda, outros programas de rádio ou televisão: noticiário, reportagem, documentário, entrevista etc. As atividades de análise – tanto dos aspectos linguísticos quanto dos semióticos – possibilitam que os estudantes aprendam o funcionamento da língua em contextos sociais diferentes. O artigo Gêneros multimodais, letramentos múltiplos e escolarização, das autoras Angela Mari Gusso, Karina Pacheco dos Santos e Fernanda de Souza da Silva, publicado no XI Congresso Nacional de Educação Educere, em 2013, apresenta os dados de uma pesquisa que investiga se e como os livros didáticos do ensino médio orientam o uso de textos multimodais, promo- vendo os letramentos múltiplos dos estudantes. No artigo, são apresentadas análises de anúncios comerciais e cartazes. Acesso em: 14 jul. 2021. https://educere.bruc.com.br/ANAIS2013/pdf/9469_6128.pdf Artigo Nos anos iniciais, um ponto de partida para o aluno ir se familia- rizando com as situações de práticas de oralidade em público é por meio do trabalho com a oralização da escrita – por exemplo, leitura de poemas, jogral e leitura dramatizada de contos infantis, reconto de histórias, quadrinhas, parlendas e adivinhas memorizadas. À medida que vão sentindo-se mais confiantes, podem vivenciar a prática de ou- tros gêneros, como: entrevista coletiva, entrevista individual, exposição oral, recado, convite, aviso, campanha de conscientização destinada ao público infantil, entre outros, quer seja na forma presencial ou na gra- vação em ferramentas digitais. Todas as atividades orais mencionadas dependem de orientação prévia e de avaliação, para o professor acompanhar o desenvolvimento das habilidades e competências dos alunos em relação às práticas orais trabalhadas. Considerando que a avaliação fornece subsídios ao docen- te e dá indicativos aos familiares e à própria criança sobre seu desen- volvimento, será importante eleger um instrumento para documentar o desempenho dos estudantes ao longo de períodos preestabelecidos (bi- mestral, semestral etc.). Entre os instrumentos possíveis estão o pare- cer descritivo, o relatório de avaliação, o diário e as gravações em vídeo. A fim de concretizar a avaliação formativa, é imprescindível ter cla- ros os objetivos de cada atividade e os pesos estipulados para cada tarefa que a envolve, além de critérios definidos com rigor para os gê- Para se familiarizar com situações de oralidade em público, assista a algumas performances de crianças. • Trilhinha: poema de Manuel Bandeira, do canal tvbrasil. Disponível em: https://www.youtu- be.com/watch?v=g-eRWmpEAyE. Acesso em: 14 jul. 2021. • Dia da Poesia 2019 – Quando as crianças brin- cam, do canal TV UFG. Disponível em: https://www.youtu- be.com/watch?v=U7E92wjWzQg. Acesso em: 14 jul. 2021. • Trilhinha: poema de Ruth Rocha, do canal tvbrasil. Disponível em: https://www.you- tube.com/watch?v=rvjqn8ya2e8. Acesso em: 14 jul. 2021. Vídeo https://educere.bruc.com.br/ANAIS2013/pdf/9469_6128.pdf https://www.youtube.com/watch?v=g-eRWmpEAyE https://www.youtube.com/watch?v=g-eRWmpEAyE https://www.youtube.com/watch?v=U7E92wjWzQg https://www.youtube.com/watch?v=U7E92wjWzQg https://www.youtube.com/watch?v=rvjqn8ya2e8 https://www.youtube.com/watch?v=rvjqn8ya2e8 Avaliação de oralidade, leitura e escrita 111 neros textuais orais trabalhados, pois as performances não são exata- mente as mesmas em todas as situações de oralidade. Por exemplo, em práticas de oralização da escrita, avaliam-se, basi- camente, as habilidades de entoação e pausa, bem como o olhar e o vo- lume da voz. No reconto de histórias, nas recitações, além dos aspectos mencionados, são avaliadas a expressividade facial e a gestualidade. Quando tratar-se de uma exposição oral de informações pesqui- sadas, avaliam-se, da mesma forma, esses aspectos no momento da apresentação; porém, nesse caso, é preciso avaliar, também, o plane- jamento, a seleção e a organização do roteiro a ser usado como apoio à memória na hora da exposição. Vale destacar que, quando se solicita ao aluno a realização de uma pesquisa para apresentá-la aos colegas, existe todo um trabalho de orientação pelo professor, sob pena de os resultados esperados serem frustrantes quando essa guia não aconte- ce. Verifica-se o mesmo com alunos de anos mais avançados e, até mesmo, com universitários. A orientação é imprescindível na pesqui- sa – justamente por esse motivo, mestrandos e doutorandos têm seus orientadores. Para ficar mais evidente o modo como devem ser definidos os cri- térios, examine uma grade de avaliação, apanhada do livro A exposição oral (GOMES-SANTOS, 2012). Ela resultou de uma elaboração coletiva realizada pelos próprios estudantes, mediados pelo professor, com a finalidade de avaliar as exposições apresentadas por equipes. Quadro 1 Exemplo de grade de avaliação da exposição Aspectos a serem avaliados Critérios de avaliação 1. Organização global da exposição a) É possível reconhecer o começo, o meio e o fim da exposição do grupo? 2. Conteúdo da exposição b) Qual o assunto exposto pelo grupo? Por que ele se tornou tema de uma exposição? c) Os conteúdos expostos se referem ao tema anunciado? 3. Forma de exposição dos conteúdos d) Como o conteúdo foi distribuído entre os participantes do grupo? e) Como foi a passagem da vez de falar de um expositor a outro do grupo? f) O que o grupo fez para o auditório com- preender os conteúdos expostos? (Exempli- ficação, reformulação,narrativização, comen- tários etc.) (Continua) 112 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Aspectos a serem avaliados Critérios de avaliação 3. Forma de exposição dos conteúdos g) Quais recursos o grupo utilizou para o auditório compreender os conteúdos expos- tos (voz, expressão facial, olhar, gestos etc.). Como esses recursos foram utilizados? h) Quais instrumentos de auxílio à expo- sição o grupo utilizou (cartaz, transparên- cias, slides etc.). Como esses instrumentos foram utilizados? 4. Auditório i) Como o grupo se relacionou com o auditório? j) Como o auditório se relacionou com o grupo? 5. Sugestões k) Quais sugestões você daria para aperfei- çoar a exposição do grupo? Fonte: Gomes-Santos, 2012, p. 143. A lista de critérios serve de referência para os estudantes prepara- rem a exposição e, depois, serve de feedback para cada equipe tomar ciência de sua performance naquela prática oral. Também com relação à escuta, os estudantes precisam ser orien- tados e avaliados para o acompanhamento do processo de desen- volvimento e aprendizagem. Na situação de escuta, é importante desenvolver, desde os anos iniciais, alguns comportamentos, entre os quais estão: Saber esperar a vez de falar. Ter polidez nas intervenções da fala do outro. Demonstrar cortesia nas relações interpessoais. Respeitar a variedade linguística do outro. Demonstrar participação atenta na escuta de histórias, nas rodas de conversa ou em outras situações sociocomunicativas. BA BA gr ap hi cs tu di o/ Sh ut te rs to ck O vídeo Ensinar a ler, aprender a avaliar (Aula 1), do canal Parábola Edi- torial, é importante para que você tenha clareza sobre os conceitos de ha- bilidades e competências, termos muito frequentes neste capítulo. No vídeo, o Prof. Robson de Carvalho esclarece esses conceitos e comenta como a BNCC dialoga com eles, também discute o conceito de avaliação e a importância de ela deslocar seu foco do produto para o pro- cesso, para tornar-se mais pedagógica. Disponível em: https://www.youtu- be.com/watch?v=YiWwzmpTocA. Acesso em: 12 jul. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=YiWwzmpTocA https://www.youtube.com/watch?v=YiWwzmpTocA Avaliação de oralidade, leitura e escrita 113 Um ponto importante a ser observado é que, embora o trabalho com a oralidade venha sendo indicado nos documentos oficiais há mais de 20 anos, a didatização do conhecimento, nesse campo, ainda não se efetivou de modo amplo. Assim, muitos estudantes podem ter chegado ao quinto ano ou, quem sabe, terminado a educação básica sem ter a oportunidade de vivenciar práticas orais mais formais, conju- gadas com reflexão sobre os gêneros orais. Desse modo, ao se propor a levar a cabo um trabalho sistematizado com a oralidade, o professor precisa sondar os alunos para diagnosticar a realidade deles, pois as atividades propostas precisam ser compatíveis com as habilidades que os estudantes já desenvolveram até então. Não é o fato de estar no quarto ou quinto ano que assegura à crian- ça ter boa desenvoltura em uma apresentação pública, e sim as oportu- nidades que ela teve ou não. Diante disso, independentemente do ano escolar, o docente começará com gêneros mais simples, que não exi- jam planejamento prévio, nem muito monitoramento do falar – como roda de conversa (comentário sobre um livro lido coletivamente, um filme assistido ou um passeio orientado, definição de regras de com- portamento da turma etc.) – e, gradativamente, irá passando para o trabalho com gêneros mais complexos, que exigem planejamento pré- vio e maior rigor no uso da variedade padrão. No feedback, tão importante quanto não constranger a criança é estimulá-la, a fim de que ganhe segurança e confiança para falar em público. Essa é uma competência comunicativa que, para ser con- quistada, depende de um trabalho contínuo com práticas constantes, bem como de orientação em relação aos aspectos que precisam de aprimoramento. Antes de passarmos à próxima seção, vamos sistematizar os saberes trata- dos aqui. Que tal, então, realizar a Atividade 1? Ela está no final do capítulo. No livro Oralidade na edu- cação básica: o que saber, como ensinar, os autores trazem, na parte inicial, fundamentos teóricos sobre o funcionamento da língua oral para a forma- ção docente. Na segunda parte, o livro apresenta uma grande quantidade de atividades, as quais possibilitam à escola organizar um programa planejado e sistematizado, com práticas contínuas e constantes, capazes de permitir o desenvol- vimento da oralidade das crianças. Quando o professor possui conhecimento teórico e clareza na condução do encami- nhamento metodológico, ele tem as chaves para realizar uma avaliação com segurança, uma vez que ela é parte integrante do processo pedagógico. CARVALHO, R. S.; FERRAREZI JÚNIOR, C. São Paulo: Parábola, 2018. Livro 5.2 Avaliação de práticas leitoras Vídeo Se você perguntar a algumas pessoas que frequentaram a escola até, aproximadamente, a década de 1990 como elas eram avaliadas quanto à leitura, certamente, responderão que havia uma prova de lei- tura oral, na qual cada aluno lia um segmento de texto, em voz alta, e o professor atribuía uma nota pela fluência leitora. Também havia uma 114 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita prova escrita, com perguntas de interpretação, que, na verdade, eram questões meramente de extração de informações da superfície do tex- to, em que as respostas estavam explícitas. Essa forma de avaliar decorre de um modelo teórico que trata a com- preensão por meio do pressuposto de que a língua é um código, e a leitura mera decodificação de letra por letra, palavra por palavra. Porém, para teorias mais avançadas, baseadas na noção de língua como atividade que possibilita a interação social, ler é produzir sentidos e “compreender um texto é realizar infe- rências a partir das informações dadas no texto e situadas em contextos mais amplos. Os conhecimentos prévios exercem uma influência muito grande” (MARCUSCHI, 2011, p. 239). Isso significa que o leitor é construtor de sentidos e, assim, suas experiências e seus conhecimen- tos prévios são mobilizados de modo a se entrecruzar com os elementos linguísticos selecionados pelo autor do texto. Perceba, então, que a forma tradicional de avaliação fica incompatível com o pressuposto de que ler equivale a compreen- der. Ou seja, ter boa fluência na leitura oral e responder a questões cujas respostas estão óbvias na superfície do texto não equivale à compe- tência leitora. Desse modo, tanto os textos selecionados para o trabalho com a leitura quanto o encaminhamento metodológico e a avaliação pre- cisam ser compatíveis com os pressupostos teóricos assumidos. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – documento que serve de referencial para a construção dos currículos escolares –, quando há menção à gradação da complexidade de leitura dos anos iniciais do ensino fundamental até o ensino médio, encontramos o trecho a seguir, que está em consonância com a perspectiva teórica de que a leitura vai além da de- codificação, exigindo processos mentais complexos (BRASIL, 2018, p.75): passando de processos de recuperação de informação (identifica- ção, reconhecimento, organização) a processos de compreensão (comparação, distinção, estabelecimento de relações e inferência) e de reflexão sobre o texto (justificação, análise, articulação, aprecia- ção e valorações estéticas, éticas, políticas e ideológicas). A essa altura, você pode estar se perguntando: se o leitor constrói sentido para um texto com base em seus conhecimentos prévios e cada pessoa tem experiências muito diversificadas, então, na interpretação de textos, vale-tudo? Para conhecer a BNCC na íntegra, recomendamos a leitura do documento, disponível no link a seguir. Disponível em: http://basenacional- comum.mec.gov.br/abase/. Acesso em: 14 jul. 2021. Leitura diig nat /Sh utt ers toc k http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/ Avaliação de oralidade, leitura e escrita 115 De fato, um texto permite compreensões diferentes, por isso não se pode esperar que as respostas de todos os estudantes correspondam fiel- mente à do professor. Porém, de outro lado, o leitor não tem total liberda- de, senão cada um leria o quisesse. Existem leituras não autorizadas pelo texto: aquelas que não se sustentam nos elementos que o compõem (pa- lavras, imagens e a própria diagramação), pois eles fornecem pistas para o leque de possibilidades de leitura. Para desenvolver a capacidade de compreensão leitora dos estudan- tes, é essencial formular questões de interpretação que levem à reflexão sobre o conteúdo e a intenção do texto, recuperem o seu contexto de produção, permitam o estabelecimento de relação entre as linguagens presentes, desenvolvam o raciocínio e o pensamento crítico, bem como oportunizem a formação de opinião. É muito comum que as perguntas se restrinjam apenas a: Em Ba Sy /S hu tte rs to ck Quem? Quando? Por quê? Qual? Onde? Como? Ou, então, questões do tipo complete, cite, copie etc. Essas perguntas também são necessárias, mas, por serem objetivas e as respostas estarem explícitas, não possibilitam alcançar o nível da compreensão. De acordo com o que vimos sobre o que é compreensão textual, questões como “qual o autor do texto?”, “quantas estrofes tem o poema?” ou “copie o título do texto” também não são perguntas de compreensão. Elas servem para verificar se o estudante tem conheci- 116 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita mento sobre os termos empregados – um conhecimento necessário, porém útil em outro contexto. É importante não ignorar que a leitura, no ambiente escolar, deve ser tomada em sentido amplo, ou seja, dizendo respeito não só à escrita, como também à linguagem sonora e à imagética (fotos, pinturas, gráficos, vídeos etc.), largamente presentes nos textos multimodais que circulam no meio impresso e na mídia digital. Então, nas questões para explorar o texto, não podem ser esquecidas as outras linguagens associadas à verbal. Visto que todo texto se realiza em algum gênero textual, seja uma bula, uma mensagem por WhatsApp, um atestado médico, um post em blog, uma playlist ou qualquer outro, é importante observar que cada um tem uma maneira própria de ser entendido, exigindo habilidades diferencia- das nas respectivas leituras. Esse aspecto, portanto, precisa ser considera- do na elaboração das questões. 5.2.1 A avaliação de leitores em fase de apropriação do sistema de escrita Os dois primeiros anos, de acordo com a BNCC (BRASIL, 2018), são o tempo previsto para o estudante compreender o modo de relação entre fonemas e grafemas, aprender a decodificar palavras e textos escritos, passar ao reconhecimento global das palavras e, finalmente, desenvolver fluência e rapidez de leitura. Então, nesse estágio, a leitura oral dá indi- cativos ao professor sobre como cada criança vem desenvolvendo habi- lidades/capacidades de decifrar. De modo especial, na alfabetização, a interpretação dos “erros” cometidos no momento da leitura, seguida da mediação do professor para auxiliar a criança na superação deles, torna- -se fundamental porque, para conseguir autonomia de leitura, é preciso automatizar a relação entre letra e som. Para a compreensão, o aluno que está nessa fase ainda depende muito da mediação do professor; por isso, atividades de interpretação oral coletiva são o caminho mais produtivo para oportunizar à criança ampliar vocabulário, localizar informações, fa- zer inferências, realizar comparação, enfim, refletir sobre conteúdos con- tidos no texto. Além disso, é importante não perder de vista que, mesmo ainda não estando alfabetizado, o estudante, por meio do convívio com diversos gê- neros lidos pelo professor, vai apreendendo as propriedades deles, quan- do o docente trabalha com as características e a função social de cada um. Avaliação de oralidade, leitura e escrita 117 Avaliar quais propriedades o aluno apreendeu, e quais ainda não, é um dado importante, visto que esses conhecimentos serão essenciais para ele nas situações de leitura e de produção escrita. Quando o leitor já alcançou a fluência é o momento de propor leitura e interpretação em duplas e individualmente, com perguntas para: iden- tificar o assunto, a finalidade do texto e o suporte onde normalmente é publicado; localizar informações explícitas; realizar inferências por meio de elementos verbais e não verbais; estabelecer relações de tempo, causa e consequência no texto, bem como a finalidade entre as partes dele, con- siderando os conectores; e estabelecer relações entre textos lidos. Para exemplificar, vamos à análise de um trabalho com leitura de texto multimodal (associa palavras com desenhos): A placa que você vê está fixada à beira de uma pista em um parque urbano. Qual seria a finalidade dela? Leia as palavras e os desenhos e re- pare na diferença entre os elemen- tos utilizados. Depois, responda às questões apresentadas. 1. O que significa fazer cooper (lê- -se “cuper”)? 2. A placa foi colocada na pista para: ( ) as pessoas não se perde- rem quando estiverem fazendo cooper. ( ) indicar as atividades que podem e as que não podem ser feitas na pista. 3. Qual dos desenhos da placa indica o que pode ser feito? 4. Quais são as proibições que aparecem na placa? 5. A atividade permitida na pista está desenhada na cor amarela e as proibições, em vermelho. Qual seria o motivo do uso de cores diferentes? 6. Você considera que seria importante ter, também, o desenho de um automóvel nas proibições? Por quê? 7. Essa placa parece feita em madeira. Qual outro material poderia ter sido usado? Fonte: Elaborada pela autora. 118 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Nos casos de textos narrativos ficcionais, o modo de explorá-los será diferente do anterior, pois eles têm finalidade e propriedades peculiares que precisam ser considerados. Vamos exemplificar com o conto “A roupa nova do rei”, tendo em vista crianças que já leem com fluência. 1. Como se chama esse tipo de história? ( ) Conto de fadas ( ) Lenda ( ) Fábula 2. Em que lugar essa história se passa? 3. Quais são os personagens da história? Qual deles é o principal? 4. Descreva o rei como você o imaginou. 5. Por que o rei fingia ver o tecido, se ele não existia? ( ) Não enxergava direito ( ) Queria mostrar que era esperto 6. Os vendedores cobraram preço normal ou mais caro? Qual é a parte do texto que comprova sua resposta? 7. Todos fingiam estar vendo uma roupa fantástica, mas a menina não fingiu e falou a verdade. Por que ela agiu assim? 8. Para se referir ao personagem principal, a palavra usada foi rei. Que outras palavras poderiam ser usadas, no decorrer da histó- ria, para não repetir o termo rei todas as vezes? 9. Para dar continuidade aos fatos da história, a palavra então foi utilizada diversas vezes. Qual destas palavras poderia substituí-la? ( ) Depois disso ( ) Um dia ( ) Certa vez 10. Crie outro título para a história. Para sistematizar esse conhecimento, resolva a Atividade 2, colocada no final do capítulo. Assista ao vídeo Histórias de Papel - A Roupa Nova do Rei, do canal Quintal da Cultura. Nele é possível acompanhar a contação dessa história. Disponível em: https://www.you- tube.com/watch?v=YoNvKWY_fv- w&ab_channel=QuintaldaCultura. Acesso em: 14 jul. 2021. Leitura https://www.youtube.com/watch?v=YoNvKWY_fvw&ab_channel=QuintaldaCultura https://www.youtube.com/watch?v=YoNvKWY_fvw&ab_channel=QuintaldaCultura https://www.youtube.com/watch?v=YoNvKWY_fvw&ab_channel=QuintaldaCultura Avaliação de oralidade, leitura e escrita 119 Pr es sm as te r/ Sh ut te rs to ck O artigo Letramento e capacidades de leitura para a cidadania, escrito por Roxane Rojo, traz o conjunto de capacidades/habilidades leitoras que o letramento escolar precisadesenvolver nos estudantes, para que tenham êxito nas mais diversas práticas letradas da vida em geral. A autora inicia o texto apresentando a evolução das teorias de leitura e de letramento. Na sequência, aborda as três capacidades/habilidades envolvidas no ato de ler – decodificação, compreensão e interpretação –, caracterizando cada uma delas. Sendo assim, esse artigo coloca em evidência a necessi- dade de todas as disciplinas da educação básica expandirem e diversifica- rem as práticas de letramento e de leitura, a fim de capacitar leitores para as exigências de uma sociedade urbana altamente letrada como a nossa. Acesso em: 14 jul. 2021. https://www.academia.edu/1387699/Letramento_e_capacidades_de_leitura_para_a_cidadania Artigo Para finalizar, é importante levar em conta que, para a avaliação de leitura retratar de maneira mais fiel a condição do leitor, ela deve acontecer em situações variadas, de modo a abarcar a leitura de textos de diferentes gêneros, com objetivos também distintos, e não se restringir a avaliações que envolvam perguntas e respostas a questões escritas, em situações de provas. 5.3 Avaliação de produção escrita Vídeo Nos moldes tradicionais, avaliar a escrita de um estudante en- volve atribuir juízo de valor à sua caligrafia e à ortografia, bem como respeito às normas gramaticais. No contexto escolar, es- sas habilidades, em geral, têm sido ava- liadas em ditados, redações e questões de prova que demandam memorização de definições, classificações e listas de palavras. Entretanto, um aluno pode ter um ótimo desempenho nas avaliações desse tipo, porém não saber produzir um texto usado fora do contexto esco- lar, porque esses saberes retratam apenas uma pequena parcela das habilidades necessárias para a es- crita de textos autênticos, isto é, destinados a um leitor real, com uma finalidade específica. https://www.academia.edu/1387699/Letramento_e_capacidades_de_leitura_para_a_cidadania 120 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Quando se trabalha com redação tradicional, a avaliação recai apenas sobre o produto, focando os aspectos normativos da lín- gua. No entanto, quando se tem como objeto de escrita a diver- sidade de gêneros, são esclarecidas as condições de produção (o que, por que, para quem e onde), que orientam o estudante-autor quanto ao modo de dizer no seu texto. Quando o comando é bem formulado, nele já estão implícitos os critérios para avaliação – que variam dependendo do gênero em questão, conforme discu- tido anteriormente. Considerando que a escrita envolve três momentos recursivos – planejamento, escrita e revisão/reescrita –, uma estratégia que tem se mostrado eficaz é a formulação de uma lista de critérios para avaliar o texto. Essa lista apresenta dupla função: é parâme- tro tanto para o aluno planejar quanto para revisar sua produção antes de entregá-la, e é o instrumento para o professor avaliar se os textos entregues pelos estudantes atendem aos requisitos da situação sociocomunicativa delineada no comando da proposta. É vantajoso que a elaboração dos critérios seja feita com a par- ticipação dos alunos, pois, nessa tarefa, já planejarão, em parte, a produção solicitada no enunciado. Se for feita previamente pelo professor, deve ser apresentada e discutida com as crianças logo após a leitura do comando da produção. Para efeito de ilustração, apresentamos, a seguir, uma gra- de com critérios de avaliação, elaborados com base em carac- terísticas típicas do gênero conto maravilhoso/de fadas. Ela foi direcionada a alunos dos anos finais do ensino fundamental, par- ticipantes de uma oficina de produção textual desenvolvida em uma escola pública do Rio Grande do Sul. Evidentemente, para crianças de anos iniciais, a linguagem a ser usada na grade teria menor complexidade, pois todo texto deve levar em conta seu leitor presumido. Na redação tradicional, os comandos, geralmente, são do tipo: escreva um texto sobre a amizade, faça um texto argumenta- tivo sobre a fome, invente uma história à vista das gravuras, entre outros. Atenção Avaliação de oralidade, leitura e escrita 121 Quadro 2 Critérios para produção e avaliação de conto maravilhoso 1. Estrutura narrativa: o texto apresenta trama, clímax e desfecho, compatível com a proposta de redação, cujas informações são suficientes para a compreensão do texto. 2. Há um foco narrativo adequado que se mantém no texto. A voz do narrador, além de bem definida, introduz e articula com propriedade os elementos descri- tivos apresentados em uma direção narrativa clara. 3. Elementos de tempo estão adequadamente empregados para sinalizar determi- nada sequência de ações. 4. O perfil da personagem está de acordo com o que foi proposto, tendo claras relações com a narrativa. 5. Elementos de cenário estão presentes e articulados de modo significativo no enredo. 6. O enredo é resultado da ação da(s) personagem(ns) em determinado(s) cená- rio(s), durante certo(s) período(s) de sua vida. 7. O título está adequado ao gênero e à proposta de produção textual. 8. Progressão temática é adequada (coesão, coerência). 9. Uso adequado do registro padrão da língua (regência, concordância, pontuação, colocação pronominal) em contexto apropriado no gênero conto maravilhoso. 10. Emprego das convenções ortográficas oficiais. Fonte: Fuzer, 2012, p. 244. Para dar a devolutiva ao estudante, o ideal seria realizar um aten- dimento individual, promovendo um diálogo sobre as falhas e o modo de solucioná-las; porém, essa estratégia demanda largo tempo, consi- derando que, nas turmas, em geral, há vários alunos. Assim, uma alter- nativa será o professor realizar essa assistência individual com grupos pequenos de alunos a cada vez, em sistema de rodízio. As duas formas mais usadas para o feedback são o emprego de sinais indicativos, con- vencionados em legendas, e o uso de bilhetes. A utilização de sinais não funciona bem com crianças dos anos iniciais, por elas serem ain- da pouco experientes na escrita. Já os bilhetes, além de mais eficazes, permitem abordar aspectos relacionados a problemas de clareza e de coerência e aos modos de circulação do gênero textual – pontos que, dificilmente, poderiam ser apontados por meio de sinais indicativos. 122 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Ao utilizar os bilhetes orientadores, estabelece-se diálogo com o aluno-autor, tanto para elogiar os aspectos positivos como para apon- tar problemas do texto e encaminhar sugestões para saná-los na reescrita. Essa estratégia permite comentários mais longos do que os usados na margem da folha do texto, além de estimular a reescrita, pois não se trata de uma correção apenas para apontar erros, e sim para aprimorar a produção. Então, após fazê-la, o estudante entrega a nova versão para o professor, que vai compará-la com a primeira e avaliar se os aspectos mencionados para reformulação – sejam de con- teúdo ou de linguagem – foram solucionados. É importante não perder de vista que, na avaliação de língua, deve-se considerar o processo, uma vez que um texto pontual não é parâmetro para se chegar à conclusão sobre se o estudante consegue ou não redigir um gênero textual de modo apropriado à situação sociocomunicativa. Além disso, há que se considerar que a seleção de gêneros está associada ao objetivo pedagógico e depende da faixa etária e do nível de escolaridade da turma. Porém, é essencial não se restringir apenas a narra- tivas, pois os estudantes, para desenvolverem expressão escrita, precisam produzir textos expositivos (abordando as áreas do conhecimento e os temas da atualidade), relatos (fatos da atualidade e relatos de experiência vivida), textos argumentativos (carta do leitor, comentários sobre vídeos, livros etc.) e textos de instrução (receitas e instruções de montagem). 5.3.1 A avaliação de escrita de estudantes em fase de apropriação do sistema gráfico Os dois primeiros anos do ensino fundamental, conformea BNCC (BRASIL, 2018), são a fase prevista para a criança se apropriar do nosso sistema de escrita, ou seja, alfabetizar-se e, paralelamen- te, desenvolver habilidades para usar a língua escrita nas práticas sociais (letramento). Desse modo, aprendizes de escrita podem e devem vivenciar práticas diversas de produção escrita de gêneros textuais, com temas e estruturas compatíveis com a faixa etária e o nível de escolaridade. Nessa fase, é de suma importância a avaliação contínua do processo de aprendizagem, para que o professor, na comparação de cada aluno consigo mesmo, possa observar o pro- gresso individual e diagnosticar as respectivas necessidades para, então, planejar intervenções pedagógicas pertinentes a cada caso. Avaliação de oralidade, leitura e escrita 123 Conforme já mencionado, a produção escrita da criança também fornece indicativos de aspectos, referentes à língua, que necessitam ser trabalhados em atividades de análise linguística, para apropria- ção de conhecimentos diversos, necessários para a produção textual. Em outras palavras, o docente vai enfocar fenômenos da língua que foram observados como problemáticos nas práticas de escritas dos estudantes. Para se orientar, um recurso que funciona bem é anotar os problemas recorrentes quando estiver avaliando os textos – por exemplo, fenômenos linguísticos como uso dos discursos direto e in- direto, presença de marcas da oralidade, elementos de coesão para articular as partes do texto, pontuação, emprego de maiúsculas, or- tografia, paragrafação e concordâncias verbal e nominal. A sistematização de normas da escrita carece e deve acontecer por meio de atividades que coloquem o holofote em um problema de cada vez, mas não para que esses conhecimentos sejam depois cobrados mecanicamente em frases soltas. Eles serão trabalhados, portanto, em situações de reflexão sobre o fenômeno em foco, e avaliados nas prá- ticas de produção escrita. Vejamos alguns exemplos. O texto apresentado a seguir foi pro- duzido por um estudante de segundo ano, com base em pesquisa sobre um animal a sua escolha. Antes, a professora trabalhou a leitura do gênero textual ficha, com informações sobre borboletas, e explorou o tipo de dados que nela constava. Então, solicitou aos alunos que escolhessem um animal e elaborassem um texto conten- do dados da mesma natureza. Depois de revisados, os textos foram reunidos em fichário para compor o acervo da biblioteca da classe. A ANTA O habitat dela é a América do Sul ela tem (ilegível) ela nasce da barriga, ela se alimenta-se de frutas, ela é o maior mamífero e ela vive 35 anos e ela tem 2 metros e 300 quilos. Fonte: Acervo da autora. Ao avaliar o texto, percebemos ser a pontuação algo que demanda um trabalho sistematizado, para que esse estudante (e, provavelmen- te, todos os outros também) amplie seu conhecimento a respeito. Uma forma interessante para trabalhar com pontuação são as anedotas, por serem textos curtos, nos quais aparecem os diversos sinais. 124 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita A repetição exagerada do pronome ela, no texto, evidencia que o fenômeno da coesão textual merece sistematização. Pronomes são recursos apropriados para evitar repetição do nome, porém a lín- gua dispõe de outros, como: sinônimos, hiperônimos, termos gené- ricos e elipse do sujeito da frase. Um modo de a criança perceber essa variedade de recursos é explorá-los nos momentos de análise de textos lidos. Após o trabalho com esses dois fenômenos linguísticos, seria a ocasião propícia para devolver o texto para o estudante, a fim de ele reescrevê-lo, resolvendo esses dois problemas. Outra possibilidade se- ria entregar uma cópia a todos os estudantes, para eles realizarem a reescrita e o professor poder avaliar o grau de apreensão da turma, em geral, sobre os fenômenos trabalhados. Que tal, agora, realizar uma atividade, a fim de analisar como funciona a coe- são textual, para evitar repetições exageradas do referente que está sendo tratado no texto? Para isso, faça a Atividade 3 do final do capítulo. Vamos, agora, a um exemplo de texto argumentativo. O exemplar em foco foi produzido por um estudante de terceiro ano para compor um mu- ral da escola, após uma discussão coletiva da turma sobre tarefas de casa. Em minha opinião os pais Não deve faze tarefa para os seus filios por que si os seus pais faze tarefa para Voce Não Vai aprede le e esqueve e não os pais faze tarefa para Voce Não Vai pasa de ano proriso os pais Não esqueve as tarefa para o seu filio. Fonte: Acervo da autora. Pode-se observar que o estudante apresenta argumentos para o po- sicionamento que defende a respeito do tema; então, podemos dizer que o texto cumpre sua finalidade. Os aspectos que chamam atenção são a falta de pontuação, o uso indiscriminado de letras maiúsculas, o problema de falta de concordância verbal no uso do verbo fazer e a omissão do -r final dos verbos usados no infinitivo. Em relação à ortografia, a escrita do termo esqueve levanta a sus- peita de que esse aluno ainda não percebe que o som [ k ] pode ser grafado com a letra c ou com qu, dependendo da palavra. Porém, para poder afirmar isso, seria necessário ter outras ocorrências de grafias com esse problema, pois um caso isolado pode indicar apenas um Coesão textual, de acordo com Antunes (2005, p. 47) é a “propriedade pela qual se cria e se sinaliza toda espécies de ligação, de laço, que dá ao texto unidade de sentido ou unidade temática”. A língua dispõe de recursos que servem para encadear as partes do texto (palavras, frases e parágrafos), assegurando sua continuidade. Esses recursos estão organiza- dos em dois grupos: a) Coesão referen- cial: estabelecimento de relação entre componen- tes do texto, por meio de pronomes, sinônimos, hiperônimos, termos genéricos, repetições e elipses. b) Coesão sequen- cial: uso de conectores que promovem a continuidade do texto; preposições, con- junções, certos advérbios e suas respectivas locuções são os principais recursos da língua para esse fim. Importante Avaliação de oralidade, leitura e escrita 125 momento de dúvida pontual, levando em conta que, no processo de aquisição, o aprendiz faz idas e vindas por estar construindo a repre- sentação escrita. O mesmo pode ser considerado quanto à grafia da palavra aprede, na qual não há indicação da nasalização do e. Supondo que essas suspeitas fossem confirmadas, esse estudante precisaria de atividades que o fizessem refletir sobre a relação desses fonemas com seus respectivos grafemas. Os demais aspectos percebidos no texto, provavelmente, são co- muns a toda a turma e, por isso, o professor incluirá, no seu planeja- mento, atividades de análise linguística para sistematizá-los, estando consciente de que, para que sejam internalizados e aprofundados, pre- cisarão ser retomados ao longo de toda a escolaridade. As lacunas observadas, nas práticas de oralidade, leitura e escrita dos estudantes fazem emergir os conteúdos que serão sistematizados por meio de análise linguística. A reflexão sobre os fenômenos sele- cionados visa desenvolver habilidades para uso competente da língua, então serão avaliados justamente nessas práticas letradas, ou seja, nas leituras e nas produções (orais e escritas). O vídeo Jussara Hoffmann em avaliação: caminhos para a aprendizagem Vídeo 01, do canal Jussara Hoffmann, é parte de uma teleconferência, da qual participaram os professores universitários, especialistas em avaliação, Jussara Hoffmann e Cipriano Luckesi. Eles defendem que a avaliação escolar é diferente das avaliações certificati- vas ou classificatórias, pois a função dela é acompanhar o processo de aprendizagem dos estudantes.Confira, então, como se conjugam os três processos que compõem o ato pedagógico. Disponível em: https:// www.youtube.com/wat- ch?v=ln7pcf1Th3M.Acesso em: 14 jul. 2021. Vídeo 5.4 O Saeb em foco Vídeo Na última década do século XX, emergiramdiversas iniciativas na- cionais e internacionais de avaliação da educação. Nesse contexto, o Brasil instituiu o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que se caracteriza como um conjunto de avaliações externas em larga escala, realizado periodicamente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O Saeb foi a primeira avaliação realizada em âmbito nacional. Ele surgiu com o propósito de oferecer subsídios à elaboração de políticas públicas para a melhoria da qualidade da educação brasileira, marcada por elevados índices de analfabetismo, de evasão e repetência, além de níveis insatisfatórios de qualidade. Visando assimilar, com mais eficiência, a realidade educacional do país, esse sistema sofreu várias reestruturações ao longo dos anos, até chegar ao seu formato atual. Assim, os instrumentos de avaliação fo- ram, pouco a pouco, aprimorados, e a abrangência da população-alvo foi estendida; além do ensino fundamental e do ensino médio, a educa- ção infantil também passou, recentemente, a integrar o sistema. https://www.youtube.com/watch?v=ln7pcf1Th3M https://www.youtube.com/watch?v=ln7pcf1Th3M https://www.youtube.com/watch?v=ln7pcf1Th3M 126 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Uma mudança ocorrida em 2019 foi a alteração dos nomes das provas, que passaram, então, a ser identificadas como Saeb – as di- ferenças entre elas são marcadas pela indicação da etapa e das áreas do conhecimento avaliadas. Até então, as avaliações recebiam no- mes distintos, dependendo do nível de escolaridade-alvo: Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (Anresc), conhecida como Prova Brasil, e a Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb). Também, a partir de 2019, todas essas avaliações passaram a ser aplicadas em anos ímpares, com a divulgação dos resultados nos anos pares. Porém, de 2021 em diante, uma mudança será implementada gradualmente, até 2025, quando todos os anos e séries da educação básica serão avaliados anualmente, em todas as áreas do conhecimento. Figura 1 Mudanças implantadas no Saeb 2019 Ed uc aç ão in fa nt il Cr ec he Pr é- es co la Acesso e oferta 2º a no 5º a no 9º a no En sin o fu nd am en ta l Avaliação de estudantes 3 º s ér ie En sin o m éd io Avaliação de estudantes Fonte: NOTÍCIAS..., 2021. A Portaria n. 10, de 8 de janeiro de 2021, determinou ajustes técnico-pedagógicos no Saeb, com vistas a implementar os avanços da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), observadas as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), a Política Nacional de Alfabetização (PNA) e o novo ensino médio (BRASIL, 2021). O objetivo dessas avaliações, efetuadas por meio de testes e questionários (no ensino fundamental são aplicados nos estudan- tes de segundo, quinto e nono anos), é realizar um diagnóstico da educação básica e de fatores que possam interferir no desempenho dos estudantes. As provas, acompanhadas das taxas de aprovação, reprovação e abandono, apuradas no Censo Escolar, compõem o http://portal.inep.gov.br/censo-escolar Avaliação de oralidade, leitura e escrita 127 cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), di- vulgado de dois em dois anos. Com base nos resultados do Ideb, é possível dimensionar a qualidade do ensino brasileiro nas esferas municipal, estadual e federal, bem como promover subsídios para elaboração, monitoramento e aprimoramento de políticas públicas de educação, sustentados por evidências. Os testes do Saeb são elaborados com base em matrizes de referên- cia. Os conteúdos associados a competências e habilidades almejadas para cada ano escolar e para cada disciplina são subdivididos em descri- tores, os quais são responsáveis por especificar aquilo que os itens dos testes devem aferir. Os resultados das provas são apresentados em uma escala, desdobrada em níveis de proficiência. Esses níveis estão descritos e organizados de modo crescente em escalas de proficiência das discipli- nas avaliadas nas diferentes etapas de escolarização. O conteúdo programático avaliado nas provas é constituído do conteúdo correspondente à série, de acordo com o que está posto na BNCC, o documento apresenta um conjunto de referências sobre sa- beres que devem ser assegurados a todos os estudantes brasileiros. Serve, assim, como referencial para a construção dos projetos políti- co-pedagógicos das escolas, a fim de assegurar um padrão mínimo de qualidade em todos os cantos do país. Cada escola, levando em conta sua realidade, isto é, o público ao qual atende, o corpo docente e as condições estruturais, faz ajustes e acréscimos para acatar a singulari- dade da instituição. Esse documento também serve de parâmetro para a elaboração de materiais didáticos e de currículos para cursos de for- mação de professores. Em outras palavras, as escolas tomam a BNCC como referência do mínimo que devem contemplar nos seus currículos. Da mesma forma, o Saeb utiliza esse documento como parâmetro para elaborar as ma- trizes de referência das disciplinas curriculares e, nos testes aplicados, avalia competências e habilidades indicadas na BNCC; portanto, as questões da prova versam, necessariamente, sobre tais saberes. Considerando que há essa articulação no processo, é plausível su- por que os resultados aferidos são positivos; entretanto, os dados do Saeb têm evidenciado que grande parcela dos estudantes não lê de modo proficiente muitos gêneros textuais, entre os quais podemos citar os textos não contínuos (tabelas, formulários, fichas e gráficos). O Ideb é o índice que mede a qualidade de ensino e aprendizagem, expressos nos dados obtidos das avaliações de larga escala do Saeb. Saiba mais Fique por dentro da escala de proficiência de língua portuguesa do quinto ano do ensino fundamental, divulgada em 2020. Disponível em: http://portal.inep. gov.br/documents/186968/484421/ Escalas+de+Proficiência+ do+Saeb. Acesso em: 14 jul. 2021. Conheça, também, a escala de proficiência de língua portuguesa do segundo ano do ensino fundamental. Disponível em: https://download. inep.gov.br/publicacoes/institucio- nais/avaliacoes_e_ exames_da_educacao_basica/ escala_de_proficiencia_do_saeb_ ensino_fundamental.pdf. Acesso em: 14 jul. 2021. Saiba mais https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/ideb http://portal.inep.gov.br/documents/186968/484421/Escalas+de+Proficiência+do+Saeb http://portal.inep.gov.br/documents/186968/484421/Escalas+de+Proficiência+do+Saeb http://portal.inep.gov.br/documents/186968/484421/Escalas+de+Proficiência+do+Saeb http://portal.inep.gov.br/documents/186968/484421/Escalas+de+Proficiência+do+Saeb https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/escala_de_proficiencia_do_saeb_ensino_fundamental.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/escala_de_proficiencia_do_saeb_ensino_fundamental.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/escala_de_proficiencia_do_saeb_ensino_fundamental.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/escala_de_proficiencia_do_saeb_ensino_fundamental.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/escala_de_proficiencia_do_saeb_ensino_fundamental.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/escala_de_proficiencia_do_saeb_ensino_fundamental.pdf 128 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Essa lacuna impacta significativamente na vida extraescolar, na medida em que impede os cidadãos de serem bem-sucedidos diante de situa- ções do cotidiano que envolvam leituras dessa natureza. Uma questão relevante dessa avaliação em larga escala é que os dados, coletados por meio dela, traçam o perfilde dificuldade com base nos índices de erros recorrentes entre os estudantes. Assim, esses dados podem e devem ser aproveitados para o planejamento de práticas pedagógicas que envolvam as habilidades não alcança- das. Para tanto, o professor precisa ter acesso a eles e, mais impor- tante, saber interpretá-los. Nesse sentido, demanda-se que os educadores se familiarizem com as características das avaliações em larga escala, entendendo, sobretudo, os métodos utilizados, para que possam direcionar suas práticas pedagógicas, a fim de que se compatibilizem com as recém- -instauradas políticas de avaliação de certificação de qualidade da educação brasileira. 5.5 Desafios em relação à alfabetização e letramentos no Brasil Vídeo A avaliação de leitura do Saeb, por seu formato envolvendo apenas questões de múltipla escolha, não permite a abordagem de habilidades que vão além da compreensão de elementos textuais presentes no texto – portanto, trata-se de uma avaliação de leitura, e não de letramento. Apesar disso, ela tem evidenciado que o ensino de Língua Portuguesa ainda apresenta muitos desafios a serem enfrentados pelos professo- res e gestores da educação, em todas as esferas governamentais. O Saeb de 2017 revelou avanços no desempenho de língua portu- guesa dos estudantes do quinto ano do ensino fundamental, que atin- giram o nível 4 de proficiência média, em uma escala que vai de 0 a 9 – o nível 4 é o primeiro nível do conjunto de padrões considerados básicos pela Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (SEB), portanto esse avanço foi apenas mais um passo para alcançar a meta almejada. O próprio Inep considera que os resultados de apren- dizagem revelados pela avaliação são preocupantes. Nos níveis de escolaridade mais avançados, a situação é ainda mais preocupante, pois apenas 1,62% dos estudantes concluintes do ensi- Avaliação de oralidade, leitura e escrita 129 no médio, que fizeram os testes de língua portuguesa, em 2017, al- cançaram níveis de aprendizagem classificados como adequados pelo Ministério da Educação (MEC). Os dados de 2019, do segundo ano do ensino fundamental, revela- ram que cerca de 55% dos estudantes se encontram entre os níveis 5 e 8 de proficiência em língua portuguesa. Entretanto, apenas 5,04% dos avaliados atingiram o nível 8, que indica domínio da maioria das habili- dades testadas (BRASIL, 2020b). As avaliações de língua portuguesa do Saeb não contemplam a es- crita, restringem-se apenas à leitura. Sem dúvidas, ela é um dos pilares do ensino, por ser base para o desenvolvimento de outras capacidades e conhecimentos essenciais à atuação no mundo letrado. A leitura de diferentes gêneros, com propósitos variados, permeia todas as discipli- nas do currículo escolar, como condição essencial ao ensino e à apren- dizagem de seus respectivos conteúdos. Por essa razão, é imperioso um trabalho coletivo, conjunto, entre os professores das diversas disci- plinas curriculares, implementando atividades pedagógicas que contri- buam para o desenvolvimento de competências leitoras, porém, sem relegar a segundo plano a oralidade e a escrita. Para um bom desempenho linguístico – ou seja, para alcançar o nível de letramento que a sociedade urbana da contemporaneidade exige –, é preciso, além de ler com proficiência diferentes gêneros textuais, sa- ber selecionar o gênero apropriado ao seu objetivo e à situação socio- comunicativa, nas situações de produção oral e escrita. Ter uma concepção clara do que seja leitura, fala e escrita, bem como de seus respectivos ensinos, por meio da aproximação e refle- xão sobre o conhecimento científico produzido, especialmente nos úl- timos 30 anos, a respeito dos processos envolvidos nessas questões, é requisito para o professor alcançar êxito na produção dos letramen- tos dos estudantes. Entretanto, para acessar todos esses saberes que transformaram o ensino de língua materna, acompanhar o acelerado desenvolvimento das tecnologias digitais e, ainda, compreender os ele- mentos pedagógicos expressos na BNCC, é essencial que os gestores educacionais promovam ações voltadas para a formação continuada dos professores. Para assegurar uma educação comprometida com a promoção dos letramentos dos grupos sociais, a fim de que todos possam “participar 130 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita das várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita (le- tramentos) na vida da cidade, de maneira ética, crítica e democrática” (ROJO,2019, p. 11, grifos do original), não bastam apenas o desejo, a vontade e a luta dos professores. A população também precisa cobrar seriedade e responsabilidade na implementação de políticas educacionais, para que o discurso de promover uma educação de qualidade para todos se torne uma rea- lidade, visto ser essa uma condição primordial para a construção de uma sociedade menos desigual e mais justa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, você pôde refletir sobre o processo de avaliação es- colar e perceber que a avaliação formativa, ao contrário da tradicional, é comprometida com a aprendizagem. Como o ato de avaliar faz parte do processo pedagógico, ele deve ir permeando as situações de ensino e aprendizagem, ao invés de ficar lá para o final de um período de aulas, estabelecido conforme a tradição escolar. Essa avaliação processual tem papel importante no processo de ensino e aprendizagem, porque, com base nos resultados dela, o professor tem chance de reorganizar o seu fazer pedagógico quando detectar a necessidade. No caso de língua portuguesa, uma vez que o objeto de estudo é o texto, será ele, também, o objeto da avaliação, pois, em uma sociedade letrada, as pessoas vivem rodeadas pelos textos orais, escritos e multi- modais; portanto, para terem participação plena nessa sociedade, ne- cessitam alcançar as competências exigidas para interagir por meio deles. Para avaliar os usos linguísticos, o professor se valerá de instrumentos diversos – tarefas, testes e provas – que mobilizam habilidades e compe- tências relevantes para a promoção dos letramentos. Os resultados são indicadores da trajetória dos estudantes, porém, como não dizem tudo sobre o processo, precisam ser relativizados. Com relação ao Saeb, é importante compreender seus objetivos e sua metodologia e tomar essa avaliação como uma das referências para o planejamento das práticas pedagógicas. No que diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa, ainda temos um grande desafio, a fim de asse- gurarmos as condições favoráveis para que os concluintes da educação Avaliação de oralidade, leitura e escrita 131 básica desenvolvam as competências, as habilidades e os valores indis- pensáveis à vida cidadã. Embora, para vencer esse desafio, seja impres- cindível a participação de muitos (Ministério, secretarias e conselhos de Educação), o docente ocupa figura central, pois é ele que dá vida aos saberes, fundamentos e conceitos que compõem o projeto político-pe- dagógico da escola; além disso, desempenha papel fundamental para despertar nos estudantes o desejo de aprender – condição indispensável para o êxito na vida escolar. ATIVIDADES 1. Com base nas reflexões suscitadas pela leitura da Seção 5.1, escreva uma justificativa para a necessidade de trabalhar com o ensino de fala e escuta na escola, acompanhada de considerações sobre a avaliação dos estudantes. 2. Considere os itens a seguir para uma prática pedagógica de leitura e análise do gênero textual capa de livro, com crianças em processo de alfabetização. Depois, preencha o quadro apresentado na sequência. a) Primeiro, observe a capa a seguir: o que você imagina que possa ser o conteúdo do livro? Como você chegou a essa conclusão? Vídeo 132 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Agora que você realizou a leitura da capa, responda: b) Qual é o conteúdo do livro? c) As histórias são de um mesmo povo ou de diferentes povos? d) Será que nesse livro tem a história do “O PríncipeSapo”? Qual pista nos dá um indicativo? e) Observe o modo como as palavras do título do texto foram dispostas. A qual imagem podemos associar esse arranjo? f) Qual informação ganhou mais destaque nessa capa? Por quê? Com base em cada item, preencha o quadro a seguir identificando as competências ou as habilidades que foram contempladas na análise textual para a formação do leitor. a) b) c) d) e) f) 3. Leia o fragmento da história a seguir, observando os destaques dados para as palavras que remetem ao casal de personagens; nas situações em que ocorre elipse de sujeito foi inserido o símbolo X. Você deverá fazer o mesmo, porém identificando todas as retomadas do referente sete filhos. Com essa atividade, você está com a lupa no fenômeno linguístico chamado coesão textual. O PEQUENO POLEGAR Era uma vez um casal de lenhadores muito, muito pobres, com sete filhos pequenos. Um deles, o caçula, era magro e fraco, mas esperto e inteligente; era conhecido como Polegar, por X ser muito pequeno ao nascer. Naquele ano difícil, faltava tudo, praticamente não havia o que comer. Os dois lenhadores, desesperados com tanta miséria e tantas bocas para alimentar, encontraram uma triste solução: iriam se livrar dos sete filhos esfomeados. Enquanto os filhos dormiam, pai e mãe planejaram como X agiriam para abandonar as crianças. — Vamos levar as crianças para a floresta — disse o lenhador. — Lá, enquanto juntam lenha, nós as abandonaremos e fugiremos sem que percebam. (Continua) a) Avaliação de oralidade, leitura e escrita 133 Quando o pai pronunciou a última palavra, seus olhos e os de sua esposa estavam cheios de lágrimas. — Coitadinhos dos meus filhos — disse a mãe, soluçando. — Ficarão sozi- nhos, sentindo frio, fome e medo das feras do mato... — Prefere, então, que morram de fome aqui mesmo conosco, sob nossas vistas? — perguntou o pai, também chorando. Não havia solução. As crianças morreriam, em casa ou na floresta. Então, era melhor que fosse longe, para os pais sofrerem menos. X Combinaram o que X fariam no dia seguinte e X foram dormir. Pela manhã, o casal chamou os filhos e foram todos para a floresta. [...] Fonte: Perrault, 2008.. REFERÊNCIAS ANTUNES, I. Lutar com palavras. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. BRASIL. Base nacional comum curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://www.alex.pro.br/BNCC%20L%C3%ADngua%20Portuguesa.pdf. Acesso em: 14 jul. 2021. BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Matrizes de referência de língua portuguesa e matemática do SAEB: documento de referência do ano de 2001. Brasília, DF: INEP, 2020a. Disponível em: https://download. inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/matriz_ de_referencia_de_lingua_portuguesa_e_matematica_do_saeb.pdf. Acesso em: 14 jul. 2021. BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Divulgados resultados amostrais do Saeb 2019. 2020b. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/saeb/divulgados-resultados-amostrais- do-saeb-2019. Acesso em: 30 jul. 2021. BRASIL. Ministério da Educação. Portaria n. 10, de 8 de janeiro de 2021. Estabelece parâmetros e fixa diretrizes gerais para implementação do Saeb. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 jan. 2021. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n- 10-de-8-de-janeiro-de-2021-298322305. Acesso em: 14 jul. 2021. FUZER, C. Bilhete orientador como instrumento de interação no processo ensino-aprendizagem de produção textual. Letras, Santa Maria, v. 22, n. 44, p. 213-245, jan./jun. 2012. GOMES-SANTOS, S. N. A exposição oral: nos anos iniciais do ensino fundamental. São Paulo: Cortez, 2012. MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola, 2011. NOTÍCIAS da Educação. SAEB 2019 – Veja As Mudanças Implantadas!. Atividades para Professores. 2021. Disponível em: https://atividadesparaprofessores.com.br/saeb-2019- mudancas/. Acesso em: 30 jul. 2021. PERRAULT, C. O pequeno polegar. Santa Bárbara, 2008. Disponível em: http:// www.santabarbara.sp.gov.br/educacao/pdf/20200813150334-12.pdf https:// atividadesparaprofessores.com.br/saeb-2019-mudancas/. Acesso em: 14 jul. 2021. ROJO, R. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2019. SCARAMUCCI, M. V. R. Avaliação: mecanismo propulsor de mudanças no ensino/aprendizagem de língua estrangeira. 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Placa, panfleto, anúncio em programa de rádio, cartões de visita, sacola com dados da loja, site. b) Você comprou um eletrodoméstico que apresenta defeito. Embora tenha feito contato por telefone, pretende deixar registrada sua devolução da mercadoria. De qual gênero se valeria? E-mail, carta de reclamação. c) Você conseguiu realizar a viagem dos seus sonhos e, além de filmar e fotografar, quer registrar as informações mais relevantes. Para isso, poderia escrever um... Diário, comentário em blog pessoal. 2. Agora é sua vez de direcionar a análise de um texto possível de ser trabalhado com crianças ainda em processo de alfabetização. @ Utilize como base o cartaz a seguir para responder aos itens a, b e c. Fonte: Brasil, 2012. Resolução das atividades 135 a) Formule questões para explorar os sentidos do texto do cartaz. Exemplo de respostas possíveis para a atividade: 1. Esse texto é um cartaz que foi espalhado por todo o Brasil com qual finalidade? 2. Pela informação do cartaz, quem deve ir tomar a vacina? 3. Qual doença essa vacina evita? 4. Qual era a data dessa vacinação? 5. Que caderneta deve ser levada? 6. A mascote do cartaz dá a pista para você concluir se a vacina é em gotas ou injeção. Quem é capaz de descobrir? 7. Considere que a maior parte do texto está escrito em branco, mas a informação "16 de julho" está escrita com letras amarelas. Por qual motivo houve essa mudança de cor? b) Agora proponha atividades focando o sistema de escrita. Elabore alguns exercícios explorando a palavra vacina. Estimular para que identifiquem em um conjunto palavras que iniciem comV; solicitar que pintem as figuras que iniciam com a sílaba VA; dar pistas para formação de outra palavra usando algumas das letras da palavra e foco, entre outras. c) Escreva um parágrafo justificando a importância de a criança, mediada pelas leituras do professor, ter contato com diferentes gêneros textuais, mesmo antes de estar alfabetizada. Confira se no seu texto você mencionou estes fatos: o convívio com a diversidade de gênero textuais possibilita que a criança perceba usos da escrita na sociedade, as diferenças entre estrutura e extensão dos textos, as marcas de linguagem próprias de cada gênero, as finalidades de cada gênero textual, as diferenças na linguagem usada em cada caso, entre outras. 3. Valendo-se apenas da audição e desconsiderando a forma padrão, leia em voz alta as palavras do quadro e escreva- as usando outras possibilidades de grafia. O objetivo dessa atividade é que você encontre uma justificativa e compreenda as hipóteses das crianças quando elas cometem desvios ortográficos. Professora, o livro será em preto e branco, preciso que a senhora adapte a atividade, ok? 136 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita a) PEQUENO b) ONDAS c) COLCHA d) MAÇà Exemplo de respostas possíveis para a atividade: PEQUENO Piqueno, pikeno, pikenu, pequenu ONDAS Omdas, õdas, ondaz, COLCHA Kouxa, couxa, kolcha, koucha MAÇà Massã, massan, maçan 4. Planeje uma atividade de jogo/brincadeira em que a rima ou as palavras que iniciam com o(s) mesmo(s) som(ns) seja o foco da atenção. Pode ser oral ou escrita. Segue a cartela abaixo como exemplo de uma atividade possível. Porém, há muitas outras, use sua criatividade. Na última coluna, desenhe um objeto, animal ou alimento que rime com as que estão em cada sequência. Th iti sa n/ Sh ut tte rs to ck Ap oG ap o/ Sh ut te rs to ck Re m ar kE liz a/ Sh ut te rs to ck Ni co le sa /S hu tte rs to ck an dr ey nc /S hu tte rs to ck TM P - A n In st an t o f T im e/ Sh ut te rs to ck Ol ga G uc he k/ Sh ut te rs to ck Th e Ar t o f P ic s/ Sh ut te rs to ck gr es ei /S hu tte rs to ck Resolução das atividades 137 Exemplo de respostas possíveis para a atividade: Orais: brincadeiras com cantigas infantis, com parlendas, jogo (dividir a sala em dois grupos, selecionar uma palavra para cada grupo e dar 3 minutos para que reúnam o maior número de palavras que rimam com a palavra-chave. Terminado o tempo, o professor pede para que digam as palavras encontradas em voz alta e registra-as no quadro. Os alunos contam o total de cada grupo e verificam qual venceu). O mesmo procedimento ou variante dele pode ser realizado com palavras que têm a mesma letra ou sílaba inicial. Escritas/desenhadas: 1. Em uma folha impressa, dispor um conjunto de figuras e pedir às crianças que pintem da mesma cor os objetos que têm nomes rimando (ou iniciando de modo semelhante). 2. Na folha de papel, colocar um quadro com duas colunas e cinco linhas. Na coluna da esquerda, colocar uma figura que será a referência; na da esquerda, colocar três figuras, sendo que o nome de uma deverá rimar com a referência. Solicitar que as crianças liguem cada figura da esquerda à sua rima. 3. No papel, apresentar três figuras com seus respectivos nomes, porém faltando a letra inicial. A criança deverá colocar a letra faltante. 2 O processo de aquisição da escrita pela criança 1. Escreva outras palavras e/ou expressões que exemplificam a variação geográfica. Palavras e expressões que exemplificam variação geográfica por região: • Sul do Brasil: bah!, guisado, tri, bagual, vina, penal, tanço, baita etc; • Nordeste do Brasil: calango, calibrado, arretado, calçola, boiado etc; • Centro do Brasil: pinicar, uai, sô, banhar, agoniado, apertume etc; • Norte do Brasil: aperrear, avexar, estribado, galado, eita piula! 2. A dimensão social também contribui para a variação linguística. Fatores como classe ou grupo social a que a pessoa pertence, faixa etária, sexo, grau de escolaridade e função que exerce impactam os modos de falar. Pensando nisso, resolva as seguintes questões: 138 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita a) Escreva exemplos de variação linguística em função de contraste de classe social e escolaridade e função exercida pelos falantes. Os jargões profissionais e gírias se enquadram nesse caso. • Minhas roupa ficou suja de barro. / Minhas roupas ficaram sujas de barro. • Vou assistir o filme. / Vou assistir ao filme. Exemplos de jargões profissionais e gírias: • do mercado financeiro: trade, derreter, fluidez etc. • dos advogados: acórdão, agravo, aditamento, apelação etc. • de surfistas: cavada, cut back, leasch, drop, bomba etc. b) Apresente exemplos de palavras usadas por jovens e palavras utilizadas por faixas etárias mais avançadas. A dimensão social também contribui para a variação linguística. Exemplos de palavras usadas por jovens: cara, maneiro, balada etc. Exemplos de palavras usadas por idosos: senhorita, por obséquio, vosso, baile, sarau etc. 3. Para avaliar os níveis de formalidade, experimente dizer de vários modos estas informações: “já estou indo embora” e “cheguei”. Imagine dizê-las numa situação de entrevista de trabalho, para seu chefe no local trabalho, numa pizzaria e para um grupo de amigos. Entrevista Chefe Amigos Cheguei – Bom dia/boa tarde! – Com licença, posso entrar? – Bom dia/boa tarde! – Olá, tudo bem? – Oi, galera! – Olá, tudo bem? – Cheguei, pessoal! Já estou indo embora – Obrigada! Aguardo seu contato. – Com licença, muito obrigada! – Até amanhã! – Amanhã nos vemos! – Tchau, até amanhã! – Bye, bye, – Fui... – Semana que vem todo mundo aqui de novo, hein! Resolução das atividades 139 4. Compare as três formas de expressão e reflita sobre a relação de prestígio dos falantes e o preconceito linguístico. Variedade desprestigiada Variedade presti- giada Norma-padrão Amanhã vou ir pra escola de ônibus Amanhã vou pra escola de ônibus Amanhã irei para a esco- la de ônibus Cê quer este sapato? Você quer este sapato? Tu queres este sapato? Ontem a gente fomos no dentista Ontem a gente foi ao dentista Ontem nós fomos ao dentista As formas apresentadas na coluna 1 são comumente empregadas por comunidades linguísticas de nível socioeconômico-cultural sem prestígio social; as da segunda coluna, embora transgridam as regras impostas pela gramática normativa, não são estigmatizadas, porque os falantes que usam tais formas têm status na sociedade. Em ambos os casos, não são as estruturas das frases em si, mas sim o prestígio dos usuários delas que são responsáveis por sua rejeição ou aceitação nas práticas linguísticas. Quando o professor tem clareza sobre essas questões, ele atua em duas frentes: combate ao preconceito linguístico e tem base para promover o que Bagno (2020) chama de educação linguística, ou seja, a ampliação do repertório linguístico do estudante, promovendo sua inserção plena no mundo da leitura e da escrita para ele poder interagir socialmente com desenvoltura em várias situações. 5. Você, sem dúvida, observou que a palavra erro, quando se trata de comentário sobre a escrita da criança, foi usada neste capítulo entre aspas. Justifique esse emprego em um breve texto. Os estudiosos esclarecem que a criança, no processo de alfabetização, tem papel ativo, por isso ela (re)constrói conhecimentos sobre a escrita; é possível observar que, no percurso, ela vai mudando progressivamente sua concepção sobre esse objeto de ensino-aprendizagem e (re)formulando suas hipóteses até se aproximar das convenções ortográficas. Sendo assim, é natural que no início ela infrinja normas, pois reflete sobre a representação dos sons pelo alfabeto. À medida que vai descobrindo não existircorrespondência biunívoca entre a maior parte dos sons e das letras, começa a buscar as regras e a diminuir a quantidade de desvios em relação à convenção. 140 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Essas considerações evidenciam que não se justifica taxar de “erro” um saber complexo que está em processo de construção. Já no caso de pessoas escolarizadas, cabe usar o termo, visto que ortografia é uma convenção social e a norma atualmente em vigor foi implantada por meio do Decreto n. 7.875/2012 da Presidência da República. 3 Práticas de uso e reflexão sobre a oralidade e a escrita 1. Ler para estudar ou para buscar uma informação específica dentro de um texto exige estratégias diferenciadas. Vamos testar as diversas estratégias. a) No fragmento a seguir, identifique os dois conceitos que estão sendo abordados pelo autor. Depois, confira a estratégia que empregou: passou os olhos ou fez uma leitura analítica? Para identificar os conceitos abordados, basta passar os olhos. Na linguagem comum e mesmo culta, ética e moral são sinônimos. Assim dizemos: Aqui há um problema ético ou um problema moral. Com isso emitimos um juízo de valor sobre alguma prática pessoal ou social, se boa, se má ou duvidosa. Mas, aprofundando a questão, percebemos que ética e moral não são sinônimos. A ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções. Dizemos, então, que tem caráter e boa índole. A moral é parte da vida concreta. Trata da prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores acei- tos. Uma pessoa é moral quando age em conformidade com os costumes e valores estabelecidos que podem ser, eventualmente, questionados pela ética. Uma pessoa pode ser moral (segue costumes) mas não necessaria- mente ética (obedece a princípios). Embora úteis, estas definições são abstratas porque não mostram o pro- cesso como a ética e a moral, efetivamente, surgem. [...] Fonte: Boff, 2021. Resolução das atividades 141 b) Explique a diferença entre moral e ética. Visto que a pergunta solicita apenas a distinção entre os dois conceitos, basta ir direto ao início do segundo parágrafo – em que o autor esclarece que ética e moral não são sinônimos e estabelece a distinção entre ambos – e buscar as definições. A ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. A moral é parte da vida concreta. Trata da prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores aceitos. c) Qual é a estratégia que você usou para poder estabelecer a distinção entre os dois conceitos? Uma estratégia que provavelmente você aplicou foi ter lido cuidadosamente o segundo parágrafo e ter grifado as palavras ética e moral. d) Releia o último parágrafo e levante hipótese sobre o conteúdo que o autor apresenta na sequência do texto. Prevê-se que o autor vai mostrar o processo de surgimento da ética e da moral. e) Qual é a pista do texto que você usou para chegar a essa conclusão? É possível fazer essa previsão com base na consideração de que as definições apresentadas são “abstratas”. 2. Proponha questões para explorar o cartaz a seguir, em discussão oral coletiva com crianças ainda não alfabetizadas. Castelo das Artes apresenta... Dia 26/7 – 20h (quarta-feira) Teatro Municipal de São Sebastião Ingresso: R$ 5,00 Mais informações: (12) 982326922 www.ocastelodasartes.com M ac ro ve ct or /S hu tte rs to ck 142 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita Algumas das possibilidades: • Para levantamento de hipóteses, antes de ouvirem a leitura da professora: • Quem são os personagens em destaque? • Além dos personagens, o que mais vocês identificam? • Esse cartaz está anunciado um espetáculo: o que vocês acham que é? • Depois da leitura feita pelo professor: • Como é o nome do espetáculo? • O que significa palhaçolândia? Pensem: se Disneylândia é terra de Disney... • Onde e quando será apresentado? • Será gratuito ou é preciso pagar ingresso? Como vocês descobriram isso? • Reparem nas cores usadas no cartaz. Por que foram usadas cores vibrantes em vez de tons suaves? • No centro, há um número de telefone e endereço de site. Por que foram colocados? 3. Suponha que, depois de uma aula em que foi realizada a leitura de uma receita de paçoca de amendoim, publicada em uma revista infantil, você solicitará a alunos do terceiro ano a produção do texto de instrução, apresentada a seguir. Em duplas, pensem em um suco, uma vitamina ou um sanduíche de que vocês gostem e escrevam a receita em formato semelhante à da paçoca. Revisem atentamente e, depois, reúnam todas as receitas da turma em um livreto para a biblioteca da classe. Faça uma lista de critérios que usaria para revisar e orientar a reescrita das receitas produzidas pelos estudantes. Critérios para avaliação para textos de instrução: • Atende ao gênero (é um texto de instrução e apresenta a estrutura típica: duas partes, organizado em tópicos)? Resolução das atividades 143 • As frases são curtas ou médias e iniciadas por verbos dando comando? • As instruções foram colocadas em itens? • No caso de conter ilustração, ela se apresenta clara? • Apresenta linguagem padrão informal? • A disposição gráfica (distribuição de texto e imagem, tamanho e tipos de letras) está bem planejada? • Não há problemas gramaticais ou ortográficos? • A letra é bem legível? 4. O texto a seguir foi escrito por um estudante de terceiro ano, atendendo à proposta de brincar de jornalismo: inventar uma notícia, imaginando publicá-la em jornal. Uma observação: a professora da turma havia trabalhado com notícias jornalísticas. Analise o texto, depois marque X nas afirmações que apresentam aspectos que precisam ser modificados na reescrita. MACACO FOGE DO ZOO E ENTRA NUM SUPERMERCADO Barrigudo, o orangotango comilão do zoológico de Aricanduva, aproveitou um momento de descuido de seu tratador e não teve dúvida: saiu de fininho e saiu pulando, primeiro numa casa e então foi indo até chegar no mercado Festval entrou e começou a pular e pegar comidas e claro comeu todas as bananas. As pessoas ficaram muito assustadas e algumas até desmaiaram e hoje está fechado o mercado, e conseguiram pegar o macaco agora claro tem grades maiores para ele. Fonte: Acervo da autora. ( ) Passar para o passado os verbos do título. ( x ) Eliminar a palavra claro, porque em notícias ela não se enquadra. (supressão) ( x ) Explicar a razão de o mercado estar fechado no dia seguinte ao fato. (acréscimo) ( ) Corrigir a grafia de diversas palavras. ( x ) Alterar a pontuação. (acréscimo e substituição) ( x ) Esclarecer quem pegou o orangotango. (acréscimo) 144 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 4 O texto literário na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental 1. Imagine que você tenha que argumentar com pais de seus alunos sobre as razões pelas quais, no seu plano de ensino, contemplou uma seção diária de leitura literária para seus alunos. Quais são as razões que você apresentaria para essa prática leitora? Argumentos para a defesa da leitura literária: • é uma necessidade, um dos direitos humanos indispensáveis, uma vez que a literatura humaniza, segundo estudiosos da área; • desperta o senso crítico; • estimula a criatividade; • desenvolve o repertório; • amplia o vocabulário; • auxilia a perceber as características da língua escrita; • desperta o interesse da criança em aprender a ler; • desenvolve competência leitora. 2. A atividade em foco foi realizada por uma criança de segundo ano, que executou a tarefa solicitada pela professora, com uma orientação mais ou menos assim: “Escreva esta história; olhe para as imagens e conte o que está acontecendoem cada uma”. Fonte: Elaborado pela autora. Resolução das atividades 145 Analisando o encaminhamento: a) Solicitar a escrita de uma história por meio de uma narrativa imagética é uma atividade significativa para a criança? ( X ) Sim ( ) Não Sim. Solicitar a retextualização de uma narrativa imagética em verbal é uma atividade significativa para a criança, porque exercita a leitura de imagens, permite recriação de história, bem como trabalha com raciocínio lógico e com transposição de oralidade em escrita. b) Orientar para que o texto verbal seja escrito ao lado das imagens é coerente? ( ) Sim, porque facilita para a criança. ( X ) Não, porque a narrativa imagética dispensa palavras. Não. Indicar que o texto verbal seja escrito ao lado das imagens não procede, uma vez que a narrativa foi planejada para o leitor produzir sentido pela sequência de imagens. c) Para a retextualização, seria necessário a criança receber orientações como: ( X ) Você deve observar os quadros, criar a história na sua cabeça e colocá-la no papel. ( X ) Lembre-se de que seu leitor não verá as imagens, por isso, será preciso iniciar explicando para o leitor quando, quem e onde e, depois, narrar os acontecimentos. ( ) Faça uma frase para cada uma das imagens. Para a atividade, a criança deveria ter sido orientada no sentido de perceber que o texto dela será outro e será, por fazer uso apenas da linguagem verbal, e que precisará de ajustes: criação de uma introdução, para apresentar o estado inicial, e, depois, narrar os fatos com os verbos no passado. Além disso, orientar para que seja escrita uma frase para cada uma das imagens é um equívoco, porque não vai resultar em uma narrativa, e sim em frases soltas. 146 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 3. Leia a cantiga para avaliar se os recursos da linguagem poética foram explorados. Os exercícios propostos analisam os sentidos do texto e o modo como foi construído? Escola: _________________________________________________________ Aluno: _________________________________________________________ 1. Cante a cantiga popular abaixo, com os seus colegas, e responda as questões. Se essa rua fosse minha Cantiga Popular Se essa rua Se essa rua fosse minha Eu mandava Eu mandava ladrilhar Com pedrinhas Com pedrinhas de brilhante Para o meu Para o meu amor passar Nessa rua Nessa rua tem um bosque Que se chama Que se chama solidão Dentro dele Dentro dele mora um anjo Que roubou Que roubou meu coração Seu eu roubei Se eu roubei teu coração Tu roubaste Tu roubaste o meu também Se eu roubei Se eu roubei teu coração É porque É porque te quero bem Depois que você e seus colegas cantarem esta cantiga, respondam as questões abaixo dela. 2. O que tem na rua? ( ) Um parque ( ) Um bosque ( ) Um lago 3. Qual o nome do bosque? ( ) Encantado ( ) Paraíso ( ) Solidão 4. Quem é o morador do bosque? ( ) Um anjo ( ) Um ladrão ( ) Um pássaro 5. Por que o anjo roubou o coração? 6. Releia o poema e circule as palavras trissílabas. Nessa atividade, apenas o comando para que os estudantes cantem está apropriado para o trabalho com o texto poético. As questões 2, 3, 4, 5 e 6 são perguntas com respostas óbvias, que não exigem compreensão ou interpretação; basta saber decifrar para respondê-las. A questão 5, por sua vez, foge totalmente do texto, que passa a ser usado como pretexto para o reconhecimento da classificação de palavras quanto ao número de sílabas. Resolução das atividades 147 Nesse texto, a repetição é o recurso responsável pelo ritmo uniforme da cantiga. Analisar o que se diz e os efeitos obtidos pelo modo como se diz, destacando o jogo com a linguagem, seria uma maneira de sensibilizar os estudantes para o aspecto estético da linguagem. 4. De acordo com o que foi trabalhado neste capítulo, crie um conjunto com cinco dicas de contação de histórias para professores da educação infantil. 1. O professor deve conhecer as fases do desenvolvimento infantil para selecionar histórias compatíveis. 2. As histórias com gestos ou mais curtas, com animais, são mais interessantes para as crianças bem pequenas. 3. O ambiente faz toda a diferença, por isso é preciso escolher um local calmo, onde não tenha objetos disponíveis ou barulhos externos que possam gerar distração. 4. Os efeitos especiais, para impactar, não podem ser esquecidos – se for de mistério, pode-se criar o clima falando calmo e pausadamente, se for personagem tagarela, é interessante falar em tom alto e rápido, e assim por diante. 5. Toda história tem sua hora para ser contada; nada de contar história de terror na hora de dormir, pois pode gerar medo ou ansiedade. 5 Avaliação de oralidade, leitura e escrita 1. Com base nas reflexões suscitadas pela leitura da Seção 5.1, escreva uma justificativa para a necessidade de trabalhar com ensino de fala e escuta na escola, acompanhada de considerações sobre a avaliação dos estudantes. Na BNCC, é dada a mesma ênfase ao trabalho com oralidade e com língua escrita, o que permite inferir que uma modalidade de linguagem não é superior à outra; portanto, no ensino de língua portuguesa, ambas devem ser objeto de estudo, com a mesma atenção. Todo falante nativo já sabe falar sua língua usando os gêneros textuais do seu cotidiano e, na escola, vai desenvolver capacidades linguísticas para usar a fala em situações públicas, que exigem textos mais formais. Na avaliação, o professor precisa ter clareza do objetivo e definir critérios específicos para as diferentes práticas orais (fala ou escuta), pois cada gênero textual tem especificidades que requerem performances diferentes. 148 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 2. Considere os itens a seguir para uma prática pedagógica de leitura e análise do gênero textual capa de livro, com crianças em processo de alfabetização. Depois, preencha o quadro apresentado na sequência. a) Primeiramente, observe a capa a seguir: o que você imagina que possa ser o conteúdo do livro? Como você chegou a essa conclusão? Provavelmente, o leitor dirá que se trata de um livro de histórias, devido aos elementos da ilustração. Agora que você realizou a leitura da capa, responda: b) Qual é o conteúdo do livro? São várias histórias; essa pista está contida no título da obra. Resolução das atividades 149 c) As histórias são de um mesmo povo ou de diferentes povos? A expressão volta ao mundo permite deduzir que as histórias contidas na obra são de diferentes povos. d) Será que nesse livro tem a história do “O Príncipe Sapo”? Qual pista nos dá um indicativo? Próximo ao título do livro, a figura de um sapo permite presumir que a história mencionada faça parte da obra. e) Observe o modo como as palavras do título do texto foram dispostas. A qual imagem podemos associar esse arranjo? O arranjo das palavras em semicírculo remete ao formato do planeta (mundo). f) Qual informação ganhou mais destaque nessa capa? Por quê? Ganhou destaque a informação “52 histórias”, pelo tamanho e pela cor da fonte utilizados no registro desse dado. Com base em cada item, preencha o quadro a seguir identificando as competências ou as habilidades que foram contempladas na análise textual para a formação do leitor. a) Neste item, foi explorada a habilidade de levantamento de hipótese sobre o conteúdo do texto a ser lido. b) Este item explora a habilidade de leitura de informação explícita. c) Neste item há o trabalho com a realização de inferência, ou seja, identificação de informação implícita no texto. d) A resposta a este item depende de inferência com base em pista não verbal – leitura de imagem. e) Para este item o leitor precisa estabelecer relação intertextual, associando parte do conteúdo do texto em análise com conhecimento prévio sobre a imagemdo planeta. f) Este item contempla a habilidade de perceber detalhes gráficos e seus efei- tos no texto. 150 Alfabetização: práticas sociais de leitura e escrita 3. Leia o fragmento da história a seguir, observando os destaques dados para as palavras que remetem ao casal de personagens; nas situações em que ocorre elipse de sujeito foi inserido o símbolo X. Você deverá fazer o mesmo, porém identificando todas as retomadas do referente sete filhos. Com essa atividade, você está com a lupa no fenômeno linguístico chamado coesão textual. O PEQUENO POLEGAR Era uma vez um casal de lenhadores muito, muito pobres, com sete filhos pequenos. Um deles, o caçula, era magro e fraco, mas esperto e inteligente; era conhecido como Polegar, por X ser muito pequeno ao nascer. Naquele ano difícil, faltava tudo, praticamente não havia o que comer. Os dois lenhadores, desesperados com tanta miséria e tantas bocas para alimentar, encontraram uma triste solução: iriam se livrar dos sete filhos esfomeados. Enquanto os filhos dormiam, pai e mãe planejaram como X agiriam para abandonar as crianças. — Vamos levar as crianças para a floresta — disse o lenhador. — Lá, enquanto juntam lenha, nós as abandonaremos e fugiremos sem que percebam. Quando o pai pronunciou a última palavra, seus olhos e os de sua esposa estavam cheios de lágrimas. — Coitadinhos dos meus filhos — disse a mãe, soluçando. — Ficarão sozi- nhos, sentindo frio, fome e medo das feras do mato... — Prefere, então, que morram de fome aqui mesmo conosco, sob nossas vistas? — perguntou o pai, também chorando. Não havia solução. As crianças morreriam, em casa ou na floresta. Então, era melhor que fosse longe, para os pais sofrerem menos. X Combinaram o que X fariam no dia seguinte e X foram dormir. Pela manhã, o casal chamou os filhos e foram todos para a floresta. [...] Fonte: Perrault, 2008.. Resolução das atividades 151 O PEQUENO POLEGAR Era uma vez um casal de lenhadores muito, muito pobres, com sete filhos pequenos. Um deles, o caçula, era magro e fraco, mas esperto e inteligente; era conhecido como Polegar, por ser muito pequeno ao nascer. Naquele ano difícil, faltava tudo, praticamente não havia o que comer. Os dois lenhadores, desesperados com tanta miséria e tantas bocas para alimentar, encontraram uma triste solução: iriam se livrar dos sete filhos esfomeados. Enquanto os filhos dormiam, pai e mãe planejaram como X agiriam para abandonar as crianças. — Vamos levar as crianças para a floresta — disse o lenhador. — Lá, enquan- to X juntam lenha, nós as abandonaremos e fugiremos sem que X percebam. Quando o pai pronunciou a última palavra, seus olhos e os de sua esposa estavam cheios de lágrimas. — Coitadinhos dos meus filhos — disse a mãe, soluçando. — X Ficarão sozi- nhos, sentindo frio, fome e medo das feras do mato... — Prefere, então, que X morram de fome aqui mesmo conosco, sob nossas vistas? — perguntou o pai, também chorando. Não havia solução. As crianças morreriam, em casa ou na floresta. Então, era melhor que fosse longe, para os pais sofrerem menos. X Combinaram o que X fariam no dia seguinte e X foram dormir. Pela manhã, o casal chamou os filhos e foram todos para a floresta. Fonte: Perrault, 2008.. Código Logístico I000025 ISBN 978-65-5821-055-9 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 5 5 9 Página em branco Página em branco