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SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA EDUCAÇÃO AULA 3 Prof. Everson Araujo Nauroski 2 CONVERSA INICIAL Em momentos anteriores, tratamos do quanto a educação é uma experiência ancestral que se perde no tempo como prática da vida gregária, um comportamento ligado à própria sobrevivência das espécies, sobretudo, dos humanos. Na espécie humana, a maior parte do desenvolvimento ocorre após o nascimento e depende quase totalmente, pelo menos nos anos iniciais, do cuido e da atenção dos progenitores, ou de adultos dispostos a cumprir essa responsabilidade. O processo educacional e de formação de uma pessoa transcende os limites da vida familiar e doméstica. Já faz tempo que a educação institucionalizou-se e representa uma esfera estratégica no desenvolvimento das pessoas e da sociedade. Ao longo desta aula, veremos como a sociologia clássica pode nos ajudar a compreender melhor o papel da educação, evidenciando seus problemas, limites e contradições. TEMA 1 – EDUCAÇÃO, SIGNIFICADOS E APROXIMAÇÕES COM SOCIOLOGIA Quando o assunto é educação, um dos sentidos mais usuais é o que faz referência à etimologia da palavra educar, de origem latina – educere –, que significa conduzir ou levar para fora, um processo guiado com vistas a fazer com que crianças e jovens pudessem aprender a sair de si mesmas em direção ao outro, à sociedade, de modo a compreender que a convivência humana demanda respeitar as regras de convívio. A esse sentido foi incorporado o processo de educar como um conjunto que transcende o aspecto moral, envolvendo etapas, processos e conteúdos o tempo todo; um corpo teórico e científico foi sendo criado em torno da educação assumindo contornos cada vez mais interdisciplinares (Cunha, 2007). 3 Figura 1 – Criança estudando Crédito: Ann in the uk/Shutterstock. A Figura 1 anterior evoca indicar o quanto a biologia é mais sábia e competente que a cultura. Em nove meses, que é o período regular de uma gestação humana, milhares de anos de evolução são condensados e replicados via DNA para formar um novo ser humano. No campo da cultura, com recorte para a fase da educação formal, passamos em média 12 anos tentando transmitir os conhecimentos elaborados pela civilização humana. O resultado desse processo, considerando muitos dos problemas que já assinalamos e outros ainda que vamos tratar, não parece muito animador. Contudo, nos parece que a educação ainda é o melhor caminho para construir a humanidade em cada nova pessoa que vem ao mundo. Se a biologia pode ser aprimorada com cuidados, dietas e vitaminas para que o desenvolvimento de criança seja o mais saudável possível, também a educação pode ser aperfeiçoada favorecendo o desenvolvimento de pessoas cada vez melhores, e por “melhores” entendemos mais virtuosas no sentido daqueles valores mais nobres já alcançados, como coragem, justiça, bondade e generosidade. Quanto ao sentido etimológico da palavra educação, podemos acrescentar que educar envolve sim ensinamentos morais, absolutamente importantes para a vida social. Todavia, a educação de uma pessoa vai muito além de sua formação moral, representa também a aquisição da cultura, a 4 formação do caráter, uma aprendizagem que dura a vida toda, pois quando se para de aprender começamos a morrer. Existe muita poesia e beleza gravitando em torno da educação. Toda uma tradição de encantamento em torno do processo de ensinar e aprender, um fenômeno universal que para ser bem compreendido precisa ser contextualizado. Sem descuidar da beleza que envolve o ato de educar, devemos estar atentos em relação às narrativas que buscam romantizar a educação. Já devemos ter ouvido em algum lugar ou lido a respeito daquelas concepções que colocam os professores como sacerdotes do saber, indivíduos abnegados, dedicados a realizar seu trabalho, sua missão, não importando condições e circunstâncias (Paixão; Zago, 2007). A sociologia nos ajuda a compreender a educação e seus elementos (professor, alunos, escola, família, comunidade, currículos, políticas etc.) para além de suas romantizações, mostrando que não raro existem ideologias a encobrir ou justificar contradições graves envolvendo a educação. Talvez uma das mais contemporâneas diz respeito à desvalorização do magistério e às péssimas condições de trabalho que envolvem a vida dos profissionais dessa área (Nauroski, 2014). Ao longo desta aula, vamos pensar juntamente com alguns autores clássicos da sociologia com vistas a qualificar nosso olhar sobre o universo educacional e sobre algumas de suas contradições. A missão primordial da sociologia é provocar a desnaturalização da sociedade, um estranhamento em nosso olhar sobre o mundo, de modo que passemos a nos interrogar sobre as razões das coisas serem como são. Essa crítica dirigida ao mundo humano tem o potencial de despertar as consciências, emancipar o pensamento, trazer mudanças e transformações, rever o que precisa ser revisto, modificar o que precisa ser modificado. Questionar as causas das contradições, dos contrastes e das assimetrias entre povos, grupos e classes. São reflexões e análises que nascem da teoria sociológica, dos conceitos e categorias já consagradas para pensar os problemas sociais, seja em sentido geral de problemas, como a pobreza e a guerra, seja em sentido mais específico, sobre o crescimento da periferia de uma cidade, o aumento da taxa de suicídio em uma certa faixa etária, ou ainda, os impactos na construção de uma hidrelétrica em uma região. A produção sociológica contribui para o 5 melhoramento da sociedade, no sentido de que seus estudos e pesquisas ajudam a entender e resolver problemas. Uma pesquisa sociológica sobre o tabagismo ou o problema grave do racismo estrutural poderá orientar o desenvolvimento de políticas públicas com esse foco. Depois dessas breves ponderações sobre a importância e contribuição que a ciência sociológica pode trazer, vamos iniciar nosso estudo dos clássicos em relação às questões da educação. TEMA 2 – TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS E SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA A sociologia é uma das ciências mais recentes no campo dos estudos sobre o fenômeno humano, tendo se tornado uma disciplina acadêmica reconhecida e ensinada nas universidades a partir do século XX. No entanto, será que antes disso não havia conhecimento elaborado sobre a sociedade? Certamente havia, mas elaborado como ciência propriamente dita ainda não. Podemos falar então em uma pré-sociologia que remonta até as contribuições de nomes como Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Erasmo de Roterdã, os pensadores iluministas e vários outros. Cada um desses autores, a seu modo, tentou explicar muitos dos problemas que hoje são foco da sociologia. Discussões sobre o papel do Estado, dos governos, sobre o comportamento das pessoas na vida em comunidade, ou ainda, sobre um problema universal e sobre o qual ainda hoje pensadores e autoridades se debatem: equacionar liberdade e segurança. Estes e vários outros assuntos foram objeto de reflexão de vários pensadores ao longo da história antes que a sociologia tivesse se tornado uma ciência especializada em produzir conhecimento acerca da sociedade e seus problemas (Nauroski, 2018). 6 Figura 2 – Indústria de tecelagem do século XIX Crédito: Everett Collection/Shutterstock. Quem poderia imaginar que o contexto marcante do surgimento da sociologia é o século XIX, ainda sobre os auspícios da Revolução Industrial, que coloca a sociedade tecnológica da atualidade como um grande desafio para a pesquisa sociológica, considerando seu gigantismo e complexidade. Dos tempos de outrora até a atualidade, a sociologia busca explicar o que estava acontecendo com o mundo social. Precisamos lembrar de alguns fatos históricos importantes. O fim da Idade Média foi aceleradoem parte pelo Renascimento, que foi um movimento de cunho artístico com profundas implicações na vida social, cultural e política. A ideia central do Renascimento era a valorização da cultura humana (humanismo) em detrimento de uma cultura religiosa anteriormente dominante (teocentrismo). De certa forma, essas mudanças tornaram-se o pano de fundo para outro grande movimento que ocorreria no século XVIII, o Iluminismo. Esse movimento com foco mais em questões políticas contribuiu enormemente para a elaboração de um saber direcionado à sociedade e seus problemas. Outro aspecto de relevância foi o desenvolvimento do método científico, nomes como do filósofo 7 francês Francis Bacon, do astrônomo alemão Johannes Kepler, do matemático polonês Nicolau Copérnico e do físico italiano Galileu Galilei foram fundamentais na construção de uma nova compreensão da realidade e do papel do ser humano, um olhar científico, não mais místico e religioso. Com a modernidade, o modelo racional de explicar o mundo vai se consolidando. Dentro desse contexto, o precursor do pensamento sociológico, o primeiro a ter empregado o termo sociologia, vai surgir com o proposito ousado de criar uma ciência da sociedade. Trata-se de Augusto Comte. TEMA 3 – POSITIVISMO DE AUGUSTO COMTE Isidore Auguste Marie François Xavier Comte não viveu suficientemente para testemunhar o impacto e a influência de suas ideias. Nascido em Montpeller, na França, em 1798, e morto em Paris, no ano de 1857, Comte chamou de física social sua teoria apresentada em famosa obra em seis volumes, Curso de filosofia positiva. Para esse autor, o legado social e político, um tanto quanto caótico da Revolução Francesa precisava ser reorientado no sentido de superar a sensação de insegurança e mal-estar. Figura 4 – Augusto Comte Crédito: CC-PD. 8 Comte estava convencido de que, assim como as ciências da natureza, como a física e química, ou mesmo a matemática, tida por ele como modelo de rigor e precisão, existiam para explicar os fenômenos naturais, assim também seria possível desenvolver uma ciência com o mesmo rigor que pudesse explicar o fenômeno humano, a sociedade. Comte entendia que as causalidades presentes nos acontecimentos da vida social poderiam ser conhecidas e explicadas nos moldes das ciências da natureza. Ele ficou conhecido por suas ideias, batizadas de positivismo, uma doutrina segundo a qual somente os conhecimentos mensuráveis e os fatos deveriam ser objeto de estudo científico; outros saberes teriam uma importância propedêutica, como uma espécie de introdução geral sobre a natureza e sociedade. Ainda segundo a visão positivista, a história avança de modo linear, evoluindo progressivamente, tanto que Comte, com base nesse princípio, formulou sua conhecida teoria dos três estádios, ou estágios, como aparece nos manuais de sociologia. Em resumo, a sociedade humana teria evoluído de três etapas. Na primeira, chamada de teológica, predominava o pensamento mítico e não racional. Na segunda etapa, a metafisica, a filosofia representa sua mais contundente expressão, inaugurando o pensamento lógico e racional. Entretanto, somente na terceira e última fase, a científica ou positiva, a humanidade ganhou de fato sua autonomia, produzindo saberes de relevância para a vida prática que possibilitaram um avanço para a vida humana. A Revolução Industrial foi considerada por Comte o fenômeno que introduziu de vez o conhecimento científico como modelo de saber a ser aceito e desenvolvido. Precisamos ter presente que a influência das ideias de Comte foi marcante em sua época e sua influência perdura até os dias de hoje. São ideias centrais do positivismo: • a história como um fluxo temporal linear que se desenvolve em etapas ou fases evolutivas; • a modernidade, que inaugura a terceira e última fase, a positiva e científica, que precisa ser continuamente aperfeiçoada; • o predomínio da racionalidade na forma de ver e fazer as coisas; • a valorização dos conhecimentos científicos, fáticos e mensuráveis; • a liderança das classes mais abastadas; • o viés conservador em relação às estruturas sociais; 9 • o defensor da economia de mercado; • a organização política e econômica sob a responsabilidade das elites pensantes e empreendedoras; • a educação mais tecnológica, científica, prática, do que teórica e abstrata. Esses tópicos representam em síntese a base da doutrina positivista, que acabou se tornando uma espécie de ideologia oficial da burguesia, uma classe social emergente na virada da modernidade, mas que depois ia se tornar hegemônica nas relações de poder vindouras (Nauroski, 2018). Vale lembrar que a sociologia é filha de duas revoluções, a francesa, ocorrida em 1798, e a Revolução Industrial, que foi se propagando ao longo dos séculos XVIII e XIX, e que para muitos ainda continua com outras roupagens envolvendo novas fases de conhecimento, informática, robótica etc., uma discussão para outro momento. As mudanças ocorridas na Europa no contexto dessas duas revoluções marcaram um certo ufanismo em relação ao poder da razão e da ciência como únicos caminhos para o desenvolvimento humano. Além disso, o fato de as ideias de Comte assumirem que a sociedade moderna seria o protótipo do que o mundo deveria se tornar favoreceu muito que fosse sendo criada uma cultura positivista. Esse aspecto é fundamental para entendermos a força do positivismo e sua influência em diferentes áreas da vida social, sobretudo na área da educação. Na história do Brasil, as ideias positivistas foram importadas quando as elites enviam seus filhos para estudar na Europa, tendo a França como principal destino. Lá a progenitura dos notáveis brasileiros filhos das elites e notáveis do Brasil tiveram contato com as ideias de Comte e outros positivistas, importando para o país essa visão de mundo e da sociedade. Todo o processo de independência do Brasil esteve marcado por esses ideais liberais e positivistas. Uma figura central nas reformas políticas e sociais brasileiras, muitas com profundos impactos na educação, é Benjamin Constant (1836-1891), que, além de engenheiro e professor, foi importante liderança política com sólida formação dentro desses ideais positivistas. A própria organização da escola em cursos e disciplinas, a predominância de maior carga horária para disciplinas como matemática, química e física, revela ainda forte influência positivista. 10 Contemporaneamente, no Brasil, vemos um movimento de militarização das escolas sob a justificativa de ser um modelo melhor para formação dos jovens. São ideias e práticas que tendem a expurgar dos currículos e alijar da formação de várias gerações os benefícios de uma educação integral, que leve a sério o quanto as contribuições do teatro, da música, da dança, da arte de modo geral, como também das ciências humanas, como filosofia, sociologia, história e geografia, podem agregar na formação dos indivíduos. Se levarmos em consideração o conhecimento produzido pelas ciências da alma humana, como psicologia, psicanálise, psiquiatria, e mesmo as descobertas das neurociências, veremos que a formação humana depende sim de limites, mas sobretudo da capacidade de poder escolher e discernir sobre o que e como fazer as coisas. A motivação que brota da escolha e da autodisciplina costuma ser muito mais poderosa e duradoura do que as obrigações que nascem da autoridade, do poder e do mando. TEMA 4 – NASCIMENTO DA SOCIOLOGIA E CONTRIBUIÇÃO DE EMILE DURKHEIM Muitos autores tentaram ser os precursores na proposição e organização dessa nova ciência da sociedade, a sociologia, mas foi Emile Durkheim (1958/1917) que logrou êxito nesse fim. Foram vários os fatores que contribuíram para o surgimento da sociologia, entre eles: • fim da Idade Média e Renascimento – inaugura-se umnovo paradigma cultural, o antropocentrismo; • acúmulo de conhecimento anterior, principalmente da filosofia política; • iluminismo – trouxe a proliferação de novas ideias políticas, como democracia, liberdade, igualdade e fraternidade; • Revolução Francesa – pôs fim ao absolutismo na França e influenciou mudanças na esfera política em todo o mundo; • Revolução Industrial – propagação das fábricas e o surgimento de novas classes e grupos sociais; • desenvolvimento do método científico – fortaleceu a visão racional da natureza e impulsionou o desenvolvimento das ciências em geral. O conjunto desses fatores representa um desafio aos intelectuais para explicar as mudanças que estavam ocorrendo e a velocidade com que as coisas 11 aconteciam, além é claro dos diversos problemas que decorriam dessas mudanças. Figura 5 – Revolução Industrial, século XVIII Créditos: Everett Collection/Shutterstock. Os problemas mais graves provocados pela Revolução Industrial afetaram principalmente a classe trabalhadora e os mais pobres. • Urbanização acelerada nas cidades. • Crescimento das periferias. • Falta de saneamento. • Proliferação de doenças. • Greves, protestos e conflitos sociais diversos. • Aumento da delinquência e criminalidade. • Prostituição. • Suicídio, aumento da pobreza. Parece contraditório e até paradoxal falar em aumento da pobreza e da miséria, em face do crescimento exponencial das economias modernas com a consolidação do capitalismo, mas é exatamente isso. Parece fazer parte da natureza desse sistema e sua lógica, produzir, de um lado, a concentração de riqueza e, de outro, o aumento da pobreza. Aliás, vale a leitura da pesquisa recente realizada pelo economista, não marxista, Thomas Piketty, sobretudo em seu famoso best-seller, O capital no século XXI, em que explica os mecanismos que produzem o aumento da desigualdade ao redor do mundo. A sociologia nasce, então, como um tipo novo e diferente de conhecimento, que, baseando-se no método científico, se esforça em produzir um conjunto de conceitos e teorias que possam explicar esse novo mundo e seus complexos fenômenos. 12 Durkheim viveu em uma época conturbada, viu os efeitos da Primeira Guerra Mundial, do avanço tecnológico no campo produtivo, a proliferação das fábricas e indústrias, os conflitos sociais e políticos entre sindicatos e o patronato e ainda diversas outras contradições do mundo do capitalismo. Considerada uma de suas principais obras, As regras do método sociológico, publicada originalmente em 1895, foi o livro responsável por estabelecer a sociologia como ciência. Isso se deu em razão de ter delimitado com clareza o objeto e o método de estudo para a nova ciência, além de alguns importantes conceitos que veremos a seguir. • Fato social: a sociedade deve ser estudada como se fosse uma coisa. Quase tudo é fato social, no sentido de quem que tem as características de ser geral externo e coercitivo. Um exemplo: as leis. Quando nascemos, encontramos uma legislação que existe antes de nós (externalidade) e seu alcance afeta nossa vida (generalidade). Precisamos nos adequar a ela, pois, se descumprida, existem penalidades (coercitividade). O mesmo se aplica a outros fatos sociais, como a escola, inclusive. • Objetividade: o estudo dos fatos sociais requer distanciamento do cientista que precisa evitar deixar que suas “pré-noções”, ou seja, que suas opiniões e crenças comprometam sua análise. • Racionalidade: é preciso buscar a relação de causalidade que existe nos fenômenos da sociedade, isto é, somente um fato social pode explicar outros fatos sociais. Para entender o aumento ou diminuição na taxa de suicídio, precisamos compreender outros fatores (fatos sociais), como se a sociedade ou grupo social estudado passa por situações de desagregação social, pressão social, discriminação, abandono, tragédias naturais que afetam a vida. Na década de 1990, no governo de Collor de Mello, o confisco das poupanças afetou drasticamente a vida de milhões de brasileiros. Alguns tiveram seu padrão de vida reduzidos ou foram à falência, uma época em que se registrou aumento na taxa de suicídios. Ou seja, claramente houve interferência do meio social sobre o comportamento dos indivíduos. • Cientificidade: os estudos da sociologia precisam ser pautados pelo método científico, principalmente pela identificação de leis gerais ou comportamentos recorrentes. As conclusões dos estudos sociológicos precisam ter validade e alcance geral. Quando se estuda a relação entre 13 desigualdade social e delinquência juvenil, o estudo precisa ter aplicabilidade para além da amostra estudada. • Anomia: diz respeito aos laços e vínculos de solidariedade social. Dependendo do tipo de sociedade, pode haver maior ou menor comportamento anômico, desvios de conduta, o que Durkheim também chamou de patologia social, como crimes, o suicídio, corrupção e outros comportamentos anômicos (Durkheim, 1967). TEMA 5 – SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO DE DURKHEIM Ao longo de sua obra, Durkheim desenvolveu vários outras categorias de análise, como divisão social do trabalho, que é a forma como as sociedades organizam sua subsistência ao longo das épocas; solidariedade mecânica, referindo-se ao modo de vida de sociedades mais antigas ou menores, nas quais existe muita proximidade entre as pessoas e pouca diferenciação social entre elas – a exemplo de tribos indígenas mais preservadas, em que é forte o laço de interdependência entre elas por compartilharem de uma consciência coletiva (mesma moral, mesma religião, mesma cultura em geral). No entanto, em sociedades maiores e mais complexas como a nossa, existe, ou deveria existir, uma solidariedade orgânica, ou seja, que mantém, ou deveria manter, a sociedade em funcionamento, e a interdependência entre as pessoas deriva da diferenciação das tarefas entre elas. Simplificadamente, dependemos uns dos outros, na medida em que não nos bastamos a nós mesmos. Pensemos em quantas pessoas movimentamos desde o momento em que levantamos de nossa cama: quase todos os produtos e serviços que utilizamos foram feitos por outros. O vínculo e a integração se dão pela compreensão da importância e responsabilidade de cada um em relação ao todo. No entanto, Durkheim não era ingênuo, percebendo desde logo que a sociedades modernas tinham altas taxas de anomia (patologia social), a ponto de colocar em risco sua integração e sobrevivência. Se na Idade Média a religião desempenhava um importante papel na contenção dos comportamentos anômicos, ameaçando as pessoas com imagens do pecado, do demônio e do inferno para manter a ordem social, com o fim da Idade Média e o progressivo enfraquecimento da cultura religiosa, Durkheim acreditava em outras alternativas para a manutenção da vida social. Entre essas alternativas, figurava o papel estratégico da educação e da escola 14 na formação moral e profissional das novas gerações; a divisão social do trabalho, de modo que todos tenham o que fazer e possam contribuir com a vida social; e também na importância da esfera política, especialmente do parlamento, para dar voz e vez às aspirações e demandas da população, de modo a promover medidas e projetos que pudessem beneficiar o todo social (Durkheim, 1967). A propósito, Durkheim tinha uma concepção bastante tradicional e conservadora em relação à sociedade e, por consequência, da mesma forma em relação à escola, sendo papel dessa instituição internalizar nas mentes das crianças valores e costumes da sociedade. Durkheim dedicou especial atenção ao papel da escola nos processos de reprodução da vida social, na qual sua principal tarefa deveria ser promover a socialização das crianças de modo a torná-las aptas à vida em sociedade. Seus estudos sobre as questões pedagógicas lhe valeram o mérito de terfundado a sociologia da educação. No entendimento desse autor, seria papel do professor causar admiração, medo e respeito nas crianças, sem medo da autoridade, medo de perder o convívio social, medo de deixar de fazer parte do grupo. Dessa forma, a escola, em sua dinâmica de funcionamento, deveria estimular as crianças a desenvolverem o espírito de pertencimento ao grupo, sendo gratificadas ao agirem nessa direção e devendo ser punidas ao agirem em sentido contrário. Existe uma boa dose de severidade no modo como esse autor concebe as relações escolares. A favor de Durkheim, podemos advogar seu testemunho e perplexidade em face das velozes e drásticas mudanças ocorridas em sua época e os problemas que demandaram destas. Talvez por isso, esse autor seja totalmente avesso a transformações sociais, e esteja mais inclinado em aceitar mudanças sociais lentas e em “gotas homeopáticas” de modo que a sociedade possa buscar seu progressivo melhoramento. NA PRÁTICA Entre os temas estudados nesta aula, o positivismo merece destaque por seu alcance e influência na sociedade brasileira, inclusive na atualidade. Realize uma pesquisa sobre a influência positivista na educação contemporânea e apresente três aspectos ou características que confirmam 15 essa a influência. É possível escolher um período histórico ou mesmo a atualidade. FINALIZANDO Chegamos ao final desta aula e precisamos reforçar as ideias mais importantes que foram trabalhadas. • A palavra educação tem como significado um processo social por meio do qual os indivíduos são levados a saírem de si mesmos em direção ao mundo e ao outro. É uma socialização fundamental para o convívio social. • A sociologia nos ajuda a desromantizar o universo da educação e nos faz perceber os aspectos críticos e contraditórios que envolvem o universo escolar. • O positivismo de Comte influenciou a cultura ocidental na valorização dos saberes científicos e afetou muitas das reformas educacionais que ocorreram no Brasil. • O pensamento social de Emile Durkheim indica um papel conservador da escola e da educação no processo de manter as relações sociais e garantir a integração social sem questionar a própria sociedade. 16 REFERÊNCIAS CUNHA, A. G. da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2007. DURKHEIM, É. Educação e sociologia. 7. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1967. NAUROSKI, E. A. Trabalho docente e subjetividade: a condição dos professores temporários (PSS) no Paraná. Tese (Doutorado em Sociologia) – Departamento de Sociologia, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2014. NAUROSKI, E. A. Teorias sociológicas e problemas sociais contemporâneos. Curitiba: InterSaberes, 2018. PAIXÃO, L. P.; ZAGO, N. (Org.). Sociologia da Educação: pesquisa e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 2007.