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SOCIOLOGIA E 
ANTROPOLOGIA DA 
EDUCAÇÃO 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Everson Araujo Nauroski 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Em momentos anteriores, tratamos do quanto a educação é uma 
experiência ancestral que se perde no tempo como prática da vida gregária, um 
comportamento ligado à própria sobrevivência das espécies, sobretudo, dos 
humanos. Na espécie humana, a maior parte do desenvolvimento ocorre após o 
nascimento e depende quase totalmente, pelo menos nos anos iniciais, do cuido 
e da atenção dos progenitores, ou de adultos dispostos a cumprir essa 
responsabilidade. 
O processo educacional e de formação de uma pessoa transcende os 
limites da vida familiar e doméstica. Já faz tempo que a educação 
institucionalizou-se e representa uma esfera estratégica no desenvolvimento das 
pessoas e da sociedade. Ao longo desta aula, veremos como a sociologia 
clássica pode nos ajudar a compreender melhor o papel da educação, 
evidenciando seus problemas, limites e contradições. 
TEMA 1 – EDUCAÇÃO, SIGNIFICADOS E APROXIMAÇÕES COM SOCIOLOGIA 
Quando o assunto é educação, um dos sentidos mais usuais é o que faz 
referência à etimologia da palavra educar, de origem latina – educere –, que 
significa conduzir ou levar para fora, um processo guiado com vistas a fazer com 
que crianças e jovens pudessem aprender a sair de si mesmas em direção ao 
outro, à sociedade, de modo a compreender que a convivência humana 
demanda respeitar as regras de convívio. A esse sentido foi incorporado o 
processo de educar como um conjunto que transcende o aspecto moral, 
envolvendo etapas, processos e conteúdos o tempo todo; um corpo teórico e 
científico foi sendo criado em torno da educação assumindo contornos cada vez 
mais interdisciplinares (Cunha, 2007). 
 
 
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Figura 1 – Criança estudando 
 
Crédito: Ann in the uk/Shutterstock. 
A Figura 1 anterior evoca indicar o quanto a biologia é mais sábia e 
competente que a cultura. Em nove meses, que é o período regular de uma 
gestação humana, milhares de anos de evolução são condensados e replicados 
via DNA para formar um novo ser humano. No campo da cultura, com recorte 
para a fase da educação formal, passamos em média 12 anos tentando transmitir 
os conhecimentos elaborados pela civilização humana. O resultado desse 
processo, considerando muitos dos problemas que já assinalamos e outros 
ainda que vamos tratar, não parece muito animador. Contudo, nos parece que a 
educação ainda é o melhor caminho para construir a humanidade em cada nova 
pessoa que vem ao mundo. 
Se a biologia pode ser aprimorada com cuidados, dietas e vitaminas para 
que o desenvolvimento de criança seja o mais saudável possível, também a 
educação pode ser aperfeiçoada favorecendo o desenvolvimento de pessoas 
cada vez melhores, e por “melhores” entendemos mais virtuosas no sentido 
daqueles valores mais nobres já alcançados, como coragem, justiça, bondade e 
generosidade. 
 Quanto ao sentido etimológico da palavra educação, podemos 
acrescentar que educar envolve sim ensinamentos morais, absolutamente 
importantes para a vida social. Todavia, a educação de uma pessoa vai muito 
além de sua formação moral, representa também a aquisição da cultura, a 
 
 
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formação do caráter, uma aprendizagem que dura a vida toda, pois quando se 
para de aprender começamos a morrer. 
Existe muita poesia e beleza gravitando em torno da educação. Toda uma 
tradição de encantamento em torno do processo de ensinar e aprender, um 
fenômeno universal que para ser bem compreendido precisa ser 
contextualizado. Sem descuidar da beleza que envolve o ato de educar, 
devemos estar atentos em relação às narrativas que buscam romantizar a 
educação. Já devemos ter ouvido em algum lugar ou lido a respeito daquelas 
concepções que colocam os professores como sacerdotes do saber, indivíduos 
abnegados, dedicados a realizar seu trabalho, sua missão, não importando 
condições e circunstâncias (Paixão; Zago, 2007). 
A sociologia nos ajuda a compreender a educação e seus elementos 
(professor, alunos, escola, família, comunidade, currículos, políticas etc.) para 
além de suas romantizações, mostrando que não raro existem ideologias a 
encobrir ou justificar contradições graves envolvendo a educação. Talvez uma 
das mais contemporâneas diz respeito à desvalorização do magistério e às 
péssimas condições de trabalho que envolvem a vida dos profissionais dessa 
área (Nauroski, 2014). 
Ao longo desta aula, vamos pensar juntamente com alguns autores 
clássicos da sociologia com vistas a qualificar nosso olhar sobre o universo 
educacional e sobre algumas de suas contradições. 
A missão primordial da sociologia é provocar a desnaturalização da 
sociedade, um estranhamento em nosso olhar sobre o mundo, de modo que 
passemos a nos interrogar sobre as razões das coisas serem como são. Essa 
crítica dirigida ao mundo humano tem o potencial de despertar as consciências, 
emancipar o pensamento, trazer mudanças e transformações, rever o que 
precisa ser revisto, modificar o que precisa ser modificado. Questionar as causas 
das contradições, dos contrastes e das assimetrias entre povos, grupos e 
classes. 
São reflexões e análises que nascem da teoria sociológica, dos conceitos 
e categorias já consagradas para pensar os problemas sociais, seja em sentido 
geral de problemas, como a pobreza e a guerra, seja em sentido mais específico, 
sobre o crescimento da periferia de uma cidade, o aumento da taxa de suicídio 
em uma certa faixa etária, ou ainda, os impactos na construção de uma 
hidrelétrica em uma região. A produção sociológica contribui para o 
 
 
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melhoramento da sociedade, no sentido de que seus estudos e pesquisas 
ajudam a entender e resolver problemas. Uma pesquisa sociológica sobre o 
tabagismo ou o problema grave do racismo estrutural poderá orientar o 
desenvolvimento de políticas públicas com esse foco. 
Depois dessas breves ponderações sobre a importância e contribuição 
que a ciência sociológica pode trazer, vamos iniciar nosso estudo dos clássicos 
em relação às questões da educação. 
TEMA 2 – TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS E SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA 
 A sociologia é uma das ciências mais recentes no campo dos estudos 
sobre o fenômeno humano, tendo se tornado uma disciplina acadêmica 
reconhecida e ensinada nas universidades a partir do século XX. No entanto, 
será que antes disso não havia conhecimento elaborado sobre a sociedade? 
Certamente havia, mas elaborado como ciência propriamente dita ainda não. 
Podemos falar então em uma pré-sociologia que remonta até as 
contribuições de nomes como Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Erasmo de 
Roterdã, os pensadores iluministas e vários outros. Cada um desses autores, a 
seu modo, tentou explicar muitos dos problemas que hoje são foco da sociologia. 
Discussões sobre o papel do Estado, dos governos, sobre o comportamento das 
pessoas na vida em comunidade, ou ainda, sobre um problema universal e sobre 
o qual ainda hoje pensadores e autoridades se debatem: equacionar liberdade e 
segurança. Estes e vários outros assuntos foram objeto de reflexão de vários 
pensadores ao longo da história antes que a sociologia tivesse se tornado uma 
ciência especializada em produzir conhecimento acerca da sociedade e seus 
problemas (Nauroski, 2018). 
 
 
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Figura 2 – Indústria de tecelagem do século XIX 
 
Crédito: Everett Collection/Shutterstock. 
Quem poderia imaginar que o contexto marcante do surgimento da 
sociologia é o século XIX, ainda sobre os auspícios da Revolução Industrial, que 
coloca a sociedade tecnológica da atualidade como um grande desafio para a 
pesquisa sociológica, considerando seu gigantismo e complexidade. 
Dos tempos de outrora até a atualidade, a sociologia busca explicar o que 
estava acontecendo com o mundo social. Precisamos lembrar de alguns fatos 
históricos importantes. O fim da Idade Média foi aceleradoem parte pelo 
Renascimento, que foi um movimento de cunho artístico com profundas 
implicações na vida social, cultural e política. A ideia central do Renascimento 
era a valorização da cultura humana (humanismo) em detrimento de uma cultura 
religiosa anteriormente dominante (teocentrismo). 
De certa forma, essas mudanças tornaram-se o pano de fundo para outro 
grande movimento que ocorreria no século XVIII, o Iluminismo. Esse movimento 
com foco mais em questões políticas contribuiu enormemente para a elaboração 
de um saber direcionado à sociedade e seus problemas. Outro aspecto de 
relevância foi o desenvolvimento do método científico, nomes como do filósofo 
 
 
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francês Francis Bacon, do astrônomo alemão Johannes Kepler, do matemático 
polonês Nicolau Copérnico e do físico italiano Galileu Galilei foram fundamentais 
na construção de uma nova compreensão da realidade e do papel do ser 
humano, um olhar científico, não mais místico e religioso. 
Com a modernidade, o modelo racional de explicar o mundo vai se 
consolidando. Dentro desse contexto, o precursor do pensamento sociológico, o 
primeiro a ter empregado o termo sociologia, vai surgir com o proposito ousado 
de criar uma ciência da sociedade. Trata-se de Augusto Comte. 
TEMA 3 – POSITIVISMO DE AUGUSTO COMTE 
Isidore Auguste Marie François Xavier Comte não viveu suficientemente 
para testemunhar o impacto e a influência de suas ideias. Nascido em 
Montpeller, na França, em 1798, e morto em Paris, no ano de 1857, Comte 
chamou de física social sua teoria apresentada em famosa obra em seis 
volumes, Curso de filosofia positiva. Para esse autor, o legado social e político, 
um tanto quanto caótico da Revolução Francesa precisava ser reorientado no 
sentido de superar a sensação de insegurança e mal-estar. 
Figura 4 – Augusto Comte 
 
Crédito: CC-PD. 
 
 
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Comte estava convencido de que, assim como as ciências da natureza, 
como a física e química, ou mesmo a matemática, tida por ele como modelo de 
rigor e precisão, existiam para explicar os fenômenos naturais, assim também 
seria possível desenvolver uma ciência com o mesmo rigor que pudesse explicar 
o fenômeno humano, a sociedade. Comte entendia que as causalidades 
presentes nos acontecimentos da vida social poderiam ser conhecidas e 
explicadas nos moldes das ciências da natureza. Ele ficou conhecido por suas 
ideias, batizadas de positivismo, uma doutrina segundo a qual somente os 
conhecimentos mensuráveis e os fatos deveriam ser objeto de estudo científico; 
outros saberes teriam uma importância propedêutica, como uma espécie de 
introdução geral sobre a natureza e sociedade. Ainda segundo a visão 
positivista, a história avança de modo linear, evoluindo progressivamente, tanto 
que Comte, com base nesse princípio, formulou sua conhecida teoria dos três 
estádios, ou estágios, como aparece nos manuais de sociologia. 
Em resumo, a sociedade humana teria evoluído de três etapas. Na 
primeira, chamada de teológica, predominava o pensamento mítico e não 
racional. Na segunda etapa, a metafisica, a filosofia representa sua mais 
contundente expressão, inaugurando o pensamento lógico e racional. 
Entretanto, somente na terceira e última fase, a científica ou positiva, a 
humanidade ganhou de fato sua autonomia, produzindo saberes de relevância 
para a vida prática que possibilitaram um avanço para a vida humana. 
A Revolução Industrial foi considerada por Comte o fenômeno que 
introduziu de vez o conhecimento científico como modelo de saber a ser aceito 
e desenvolvido. 
Precisamos ter presente que a influência das ideias de Comte foi 
marcante em sua época e sua influência perdura até os dias de hoje. São ideias 
centrais do positivismo: 
• a história como um fluxo temporal linear que se desenvolve em etapas ou 
fases evolutivas; 
• a modernidade, que inaugura a terceira e última fase, a positiva e 
científica, que precisa ser continuamente aperfeiçoada; 
• o predomínio da racionalidade na forma de ver e fazer as coisas; 
• a valorização dos conhecimentos científicos, fáticos e mensuráveis; 
• a liderança das classes mais abastadas; 
• o viés conservador em relação às estruturas sociais; 
 
 
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• o defensor da economia de mercado; 
• a organização política e econômica sob a responsabilidade das elites 
pensantes e empreendedoras; 
• a educação mais tecnológica, científica, prática, do que teórica e abstrata. 
Esses tópicos representam em síntese a base da doutrina positivista, que 
acabou se tornando uma espécie de ideologia oficial da burguesia, uma classe 
social emergente na virada da modernidade, mas que depois ia se tornar 
hegemônica nas relações de poder vindouras (Nauroski, 2018). 
Vale lembrar que a sociologia é filha de duas revoluções, a francesa, 
ocorrida em 1798, e a Revolução Industrial, que foi se propagando ao longo dos 
séculos XVIII e XIX, e que para muitos ainda continua com outras roupagens 
envolvendo novas fases de conhecimento, informática, robótica etc., uma 
discussão para outro momento. 
As mudanças ocorridas na Europa no contexto dessas duas revoluções 
marcaram um certo ufanismo em relação ao poder da razão e da ciência como 
únicos caminhos para o desenvolvimento humano. Além disso, o fato de as 
ideias de Comte assumirem que a sociedade moderna seria o protótipo do que 
o mundo deveria se tornar favoreceu muito que fosse sendo criada uma cultura 
positivista. Esse aspecto é fundamental para entendermos a força do positivismo 
e sua influência em diferentes áreas da vida social, sobretudo na área da 
educação. 
Na história do Brasil, as ideias positivistas foram importadas quando as 
elites enviam seus filhos para estudar na Europa, tendo a França como principal 
destino. Lá a progenitura dos notáveis brasileiros filhos das elites e notáveis do 
Brasil tiveram contato com as ideias de Comte e outros positivistas, importando 
para o país essa visão de mundo e da sociedade. Todo o processo de 
independência do Brasil esteve marcado por esses ideais liberais e positivistas. 
Uma figura central nas reformas políticas e sociais brasileiras, muitas com 
profundos impactos na educação, é Benjamin Constant (1836-1891), que, além 
de engenheiro e professor, foi importante liderança política com sólida formação 
dentro desses ideais positivistas. 
A própria organização da escola em cursos e disciplinas, a predominância 
de maior carga horária para disciplinas como matemática, química e física, revela 
ainda forte influência positivista. 
 
 
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Contemporaneamente, no Brasil, vemos um movimento de militarização 
das escolas sob a justificativa de ser um modelo melhor para formação dos 
jovens. São ideias e práticas que tendem a expurgar dos currículos e alijar da 
formação de várias gerações os benefícios de uma educação integral, que leve 
a sério o quanto as contribuições do teatro, da música, da dança, da arte de 
modo geral, como também das ciências humanas, como filosofia, sociologia, 
história e geografia, podem agregar na formação dos indivíduos. 
Se levarmos em consideração o conhecimento produzido pelas ciências 
da alma humana, como psicologia, psicanálise, psiquiatria, e mesmo as 
descobertas das neurociências, veremos que a formação humana depende sim 
de limites, mas sobretudo da capacidade de poder escolher e discernir sobre o 
que e como fazer as coisas. A motivação que brota da escolha e da 
autodisciplina costuma ser muito mais poderosa e duradoura do que as 
obrigações que nascem da autoridade, do poder e do mando. 
TEMA 4 – NASCIMENTO DA SOCIOLOGIA E CONTRIBUIÇÃO DE EMILE 
DURKHEIM 
Muitos autores tentaram ser os precursores na proposição e organização 
dessa nova ciência da sociedade, a sociologia, mas foi Emile Durkheim 
(1958/1917) que logrou êxito nesse fim. Foram vários os fatores que contribuíram 
para o surgimento da sociologia, entre eles: 
• fim da Idade Média e Renascimento – inaugura-se umnovo paradigma 
cultural, o antropocentrismo; 
• acúmulo de conhecimento anterior, principalmente da filosofia política; 
• iluminismo – trouxe a proliferação de novas ideias políticas, como 
democracia, liberdade, igualdade e fraternidade; 
• Revolução Francesa – pôs fim ao absolutismo na França e influenciou 
mudanças na esfera política em todo o mundo; 
• Revolução Industrial – propagação das fábricas e o surgimento de novas 
classes e grupos sociais; 
• desenvolvimento do método científico – fortaleceu a visão racional da 
natureza e impulsionou o desenvolvimento das ciências em geral. 
O conjunto desses fatores representa um desafio aos intelectuais para 
explicar as mudanças que estavam ocorrendo e a velocidade com que as coisas 
 
 
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aconteciam, além é claro dos diversos problemas que decorriam dessas 
mudanças. 
Figura 5 – Revolução Industrial, século XVIII 
 
Créditos: Everett Collection/Shutterstock. 
Os problemas mais graves provocados pela Revolução Industrial 
afetaram principalmente a classe trabalhadora e os mais pobres. 
• Urbanização acelerada nas cidades. 
• Crescimento das periferias. 
• Falta de saneamento. 
• Proliferação de doenças. 
• Greves, protestos e conflitos sociais diversos. 
• Aumento da delinquência e criminalidade. 
• Prostituição. 
• Suicídio, aumento da pobreza. 
Parece contraditório e até paradoxal falar em aumento da pobreza e da 
miséria, em face do crescimento exponencial das economias modernas com a 
consolidação do capitalismo, mas é exatamente isso. Parece fazer parte da 
natureza desse sistema e sua lógica, produzir, de um lado, a concentração de 
riqueza e, de outro, o aumento da pobreza. Aliás, vale a leitura da pesquisa 
recente realizada pelo economista, não marxista, Thomas Piketty, sobretudo em 
seu famoso best-seller, O capital no século XXI, em que explica os mecanismos 
que produzem o aumento da desigualdade ao redor do mundo. 
A sociologia nasce, então, como um tipo novo e diferente de 
conhecimento, que, baseando-se no método científico, se esforça em produzir 
um conjunto de conceitos e teorias que possam explicar esse novo mundo e 
seus complexos fenômenos. 
 
 
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Durkheim viveu em uma época conturbada, viu os efeitos da Primeira 
Guerra Mundial, do avanço tecnológico no campo produtivo, a proliferação das 
fábricas e indústrias, os conflitos sociais e políticos entre sindicatos e o patronato 
e ainda diversas outras contradições do mundo do capitalismo. 
Considerada uma de suas principais obras, As regras do método 
sociológico, publicada originalmente em 1895, foi o livro responsável por 
estabelecer a sociologia como ciência. Isso se deu em razão de ter delimitado 
com clareza o objeto e o método de estudo para a nova ciência, além de alguns 
importantes conceitos que veremos a seguir. 
• Fato social: a sociedade deve ser estudada como se fosse uma coisa. 
Quase tudo é fato social, no sentido de quem que tem as características 
de ser geral externo e coercitivo. Um exemplo: as leis. Quando nascemos, 
encontramos uma legislação que existe antes de nós (externalidade) e 
seu alcance afeta nossa vida (generalidade). Precisamos nos adequar a 
ela, pois, se descumprida, existem penalidades (coercitividade). O mesmo 
se aplica a outros fatos sociais, como a escola, inclusive. 
• Objetividade: o estudo dos fatos sociais requer distanciamento do 
cientista que precisa evitar deixar que suas “pré-noções”, ou seja, que 
suas opiniões e crenças comprometam sua análise. 
• Racionalidade: é preciso buscar a relação de causalidade que existe nos 
fenômenos da sociedade, isto é, somente um fato social pode explicar 
outros fatos sociais. Para entender o aumento ou diminuição na taxa de 
suicídio, precisamos compreender outros fatores (fatos sociais), como se 
a sociedade ou grupo social estudado passa por situações de 
desagregação social, pressão social, discriminação, abandono, tragédias 
naturais que afetam a vida. Na década de 1990, no governo de Collor de 
Mello, o confisco das poupanças afetou drasticamente a vida de milhões 
de brasileiros. Alguns tiveram seu padrão de vida reduzidos ou foram à 
falência, uma época em que se registrou aumento na taxa de suicídios. 
Ou seja, claramente houve interferência do meio social sobre o 
comportamento dos indivíduos. 
• Cientificidade: os estudos da sociologia precisam ser pautados pelo 
método científico, principalmente pela identificação de leis gerais ou 
comportamentos recorrentes. As conclusões dos estudos sociológicos 
precisam ter validade e alcance geral. Quando se estuda a relação entre 
 
 
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desigualdade social e delinquência juvenil, o estudo precisa ter 
aplicabilidade para além da amostra estudada. 
• Anomia: diz respeito aos laços e vínculos de solidariedade social. 
Dependendo do tipo de sociedade, pode haver maior ou menor 
comportamento anômico, desvios de conduta, o que Durkheim também 
chamou de patologia social, como crimes, o suicídio, corrupção e outros 
comportamentos anômicos (Durkheim, 1967). 
TEMA 5 – SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO DE DURKHEIM 
Ao longo de sua obra, Durkheim desenvolveu vários outras categorias de 
análise, como divisão social do trabalho, que é a forma como as sociedades 
organizam sua subsistência ao longo das épocas; solidariedade mecânica, 
referindo-se ao modo de vida de sociedades mais antigas ou menores, nas quais 
existe muita proximidade entre as pessoas e pouca diferenciação social entre 
elas – a exemplo de tribos indígenas mais preservadas, em que é forte o laço de 
interdependência entre elas por compartilharem de uma consciência coletiva 
(mesma moral, mesma religião, mesma cultura em geral). 
No entanto, em sociedades maiores e mais complexas como a nossa, 
existe, ou deveria existir, uma solidariedade orgânica, ou seja, que mantém, ou 
deveria manter, a sociedade em funcionamento, e a interdependência entre as 
pessoas deriva da diferenciação das tarefas entre elas. Simplificadamente, 
dependemos uns dos outros, na medida em que não nos bastamos a nós 
mesmos. Pensemos em quantas pessoas movimentamos desde o momento em 
que levantamos de nossa cama: quase todos os produtos e serviços que 
utilizamos foram feitos por outros. O vínculo e a integração se dão pela 
compreensão da importância e responsabilidade de cada um em relação ao todo. 
No entanto, Durkheim não era ingênuo, percebendo desde logo que a 
sociedades modernas tinham altas taxas de anomia (patologia social), a ponto 
de colocar em risco sua integração e sobrevivência. 
Se na Idade Média a religião desempenhava um importante papel na 
contenção dos comportamentos anômicos, ameaçando as pessoas com 
imagens do pecado, do demônio e do inferno para manter a ordem social, com 
o fim da Idade Média e o progressivo enfraquecimento da cultura religiosa, 
Durkheim acreditava em outras alternativas para a manutenção da vida social. 
Entre essas alternativas, figurava o papel estratégico da educação e da escola 
 
 
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na formação moral e profissional das novas gerações; a divisão social do 
trabalho, de modo que todos tenham o que fazer e possam contribuir com a vida 
social; e também na importância da esfera política, especialmente do 
parlamento, para dar voz e vez às aspirações e demandas da população, de 
modo a promover medidas e projetos que pudessem beneficiar o todo social 
(Durkheim, 1967). 
A propósito, Durkheim tinha uma concepção bastante tradicional e 
conservadora em relação à sociedade e, por consequência, da mesma forma em 
relação à escola, sendo papel dessa instituição internalizar nas mentes das 
crianças valores e costumes da sociedade. 
Durkheim dedicou especial atenção ao papel da escola nos processos de 
reprodução da vida social, na qual sua principal tarefa deveria ser promover a 
socialização das crianças de modo a torná-las aptas à vida em sociedade. Seus 
estudos sobre as questões pedagógicas lhe valeram o mérito de terfundado a 
sociologia da educação. No entendimento desse autor, seria papel do professor 
causar admiração, medo e respeito nas crianças, sem medo da autoridade, 
medo de perder o convívio social, medo de deixar de fazer parte do grupo. Dessa 
forma, a escola, em sua dinâmica de funcionamento, deveria estimular as 
crianças a desenvolverem o espírito de pertencimento ao grupo, sendo 
gratificadas ao agirem nessa direção e devendo ser punidas ao agirem em 
sentido contrário. 
Existe uma boa dose de severidade no modo como esse autor concebe 
as relações escolares. A favor de Durkheim, podemos advogar seu testemunho 
e perplexidade em face das velozes e drásticas mudanças ocorridas em sua 
época e os problemas que demandaram destas. Talvez por isso, esse autor seja 
totalmente avesso a transformações sociais, e esteja mais inclinado em aceitar 
mudanças sociais lentas e em “gotas homeopáticas” de modo que a sociedade 
possa buscar seu progressivo melhoramento. 
 NA PRÁTICA 
Entre os temas estudados nesta aula, o positivismo merece destaque por 
seu alcance e influência na sociedade brasileira, inclusive na atualidade. 
Realize uma pesquisa sobre a influência positivista na educação 
contemporânea e apresente três aspectos ou características que confirmam 
 
 
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essa a influência. É possível escolher um período histórico ou mesmo a 
atualidade. 
FINALIZANDO 
Chegamos ao final desta aula e precisamos reforçar as ideias mais 
importantes que foram trabalhadas. 
• A palavra educação tem como significado um processo social por meio do 
qual os indivíduos são levados a saírem de si mesmos em direção ao 
mundo e ao outro. É uma socialização fundamental para o convívio social. 
• A sociologia nos ajuda a desromantizar o universo da educação e nos faz 
perceber os aspectos críticos e contraditórios que envolvem o universo 
escolar. 
• O positivismo de Comte influenciou a cultura ocidental na valorização dos 
saberes científicos e afetou muitas das reformas educacionais que 
ocorreram no Brasil. 
• O pensamento social de Emile Durkheim indica um papel conservador da 
escola e da educação no processo de manter as relações sociais e 
garantir a integração social sem questionar a própria sociedade. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
CUNHA, A. G. da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 3. ed. Rio de 
Janeiro: Lexikon, 2007. 
DURKHEIM, É. Educação e sociologia. 7. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1967. 
NAUROSKI, E. A. Trabalho docente e subjetividade: a condição dos 
professores temporários (PSS) no Paraná. Tese (Doutorado em Sociologia) – 
Departamento de Sociologia, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2014. 
NAUROSKI, E. A. Teorias sociológicas e problemas sociais contemporâneos. 
Curitiba: InterSaberes, 2018. 
PAIXÃO, L. P.; ZAGO, N. (Org.). Sociologia da Educação: pesquisa e realidade 
brasileira. Petrópolis: Vozes, 2007.

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