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AULA 3 PLANEJAMENTO URBANO Profª Michela Rossane Cavilha Scupino 2 TEMA 1 – CONCEITOS ASSOCIADOS O ordenamento territorial tem por função orientar um planejamento integrado do espaço, contemplando a ampla diversidade de elementos físicos, humanos e/ou biológicos que compõem determinado espaço. Dentre as formas de ordenamento territorial, cita-se o zoneamento, que utiliza: preceitos estabelecidos na legislação nos níveis Federal, Estadual e Municipal; diagnósticos; objetivos específicos, devendo seguir-se de dinamicidade. À medida que ocorrem as modificações no espaço, o zoneamento pode ser remodelado. O zoneamento considera padrões territoriais e particularidades de natureza biológica, física, paisagística, cultural, de uso e ocupação do solo, mobilidade entre tantos outros elementos. Processo de elaboração, busca sustentabilidade ecológica, econômica e social, com vistas a compatibilizar o crescimento econômico e a conservação da natureza (Brasil, 2002). O zoneamento urbano, em geral, se concretiza no âmbito municipal, porém há diferentes escalas de zoneamento de acordo com as tipologias apresentadas a seguir. 1.1 Tipos de zoneamento Segundo dados do Ministério de Meio Ambiente (MMA)1, diferentes tipologias de zoneamento vem ganhando destaque na formulação, espacialização e implementação de uma série de políticas. Zoneamento Ambiental – instituído como um dos instrumentos da política urbana, pela Lei n, 10.257 de 2001, pelo Estatuto das Cidades. Insere o zoneamento no Planejamento municipal juntamente de: plano diretor; disciplina do parcelamento, do uso e da ocupação do solo; plano plurianual; diretrizes orçamentárias e orçamento anual; gestão orçamentária participativa; planos, programas e projetos setoriais; planos de desenvolvimento econômico e social (Brasil, 2001). Zoneamento Ecológico Econômico – enquanto zoneamento ambiental, foi considerado um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei federal n. 6.938/1981) no artigo 9, sendo regulamentado como Zoneamento 1 Disponível em: <https://www.mma.gov.br/informma/item/8188-outros-tipos-de-zoneamento>. https://www.mma.gov.br/informma/item/8188-outros-tipos-de-zoneamento 3 Ecológico Econômico (ZEE), pelo Decreto Federal n. 4.297/2002. Segundo esse dispositivo legal, tem como objetivo geral “organizar, de forma vinculada, as decisões dos agentes públicos e privados quanto a planos, programas, projetos e atividades que, direta ou indiretamente, utilizem recursos naturais, assegurando a plena manutenção do capital e dos serviços ambientais dos ecossistemas”. Zoneamento socioeconômico-ecológico (ZSEE) – corresponde ao ZEE, porém com indicação clara da dimensão social, e não somente econômica. Zoneamento agroecológico (ZAE) – disposto na Política Agrícola (Lei federal n. 8.171/1991, artigo 19), expõe os zoneamentos agroecológicos, como disciplinamento e ordenamento da ocupação espacial, pelas diversas atividades produtivas, bem como para a instalação de novas hidrelétricas (Brasil, 1991). Zoneamento agrícola de risco climático2 – elaborado com o objetivo de minimizar os riscos relacionados aos fenômenos climáticos adversos, permite a cada município identificar a melhor época de plantio das culturas, nos diferentes tipos de solo e ciclos de cultivares. Zoneamento industrial – disposto na Lei n. 6.803 de 1980, dispõe sobre as diretrizes básicas para o zoneamento industrial nas áreas críticas de poluição, destinando zonas à instalação de indústrias (definidas em esquema de zoneamento urbano) e compatibilizando atividades industriais com a proteção ambiental (Brasil, 1980). Zoneamento urbano – instrumento utilizado nos planos diretores, em que cidade é dividida em áreas sobre as quais incidem diretrizes diferenciadas para o uso e a ocupação do solo. É configurado como zoneamento ambiental no Estatuto da Cidade. Etnozoneamento – entendido como instrumento de planejamento participativo que visa à categorização de áreas de relevância ambiental, sociocultural e produtiva para os povos indígenas, utilizando como prerrogativo o etnomapeamento (Brasil, 2012). Zoneamento em Unidades de Conservação – segundo ICMBio (2018), o zoneamento constitui um instrumento de ordenamento territorial, usado como recurso para se atingir melhores resultados no manejo de Unidade, pois estabelece usos diferenciados para cada zona, segundo seus objetivos e características específicas. 2 Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/assuntos/riscos-seguro/risco- agropecuario/zoneamento-agricola>. 4 1.2 Escalas de zoneamento A representação cartográfica de informações serve de orientação, conhecimento e planejamento do território. As informações dos diferentes tipos de zoneamento são construídas e especializadas em diferentes escalas. Isso porque a representação de processos varia conforme o plano de pesquisa e os dados levantados, determinando o nível de detalhe possível em detrimento do espaço mapeado. A Comissão Nacional de Cartografia (CONCAR) define as Normas Técnicas da Cartografia Nacional por meio do Decreto n. 89.817 de 1984. A escala do mapa pode ser definida como a condição da precisão, da legibilidade e da eficiência do mapa. Dessa forma, entende-se que determinadas escalas são mais ou menos apropriadas para cada situação (Figuras 1 e 2). Figura 1 – Classificação geral das escalas em função do tamanho – escala geográfica e aplicações Fonte: Adaptado de Archela e Théry, 2008. maiores que 1:25.000 Escala de Detalhe (visão local) - Plantas Cadastrais, Levantamentos de Detalhes ou Planos topográficos e Cartas Temáticas. de 1: 25:0000 até 1:250.000 Escala de Semi-Detalhe (visão local e regional) - Cartas Topográficas; Mapas e Cartas Temáticas menores que 1: 250.000 Escala de Reconhecimento ou de Síntese (visão regional, nacional e global) - Cartas Topográficas e Mapas Temáticos 5 Figura 2 – Escala com base na estrutura político-administrativo Fonte: MMA, 2006. TEMA 2 – GEOTECNOLOGIAS ASSOCIADAS AO PLANEJAMENTO A cada dia, o entendimento de relações espaciais, tais como proximidade, coincidência, intersecção, sobreposição, visibilidade e acessibilidade, estão presentes no cotidiano. É cada vez mais frequente o uso de geotecnologias para atividades que envolvem planejamento em diferentes escalas e necessitam de um olhar interdisciplinar. 2.1 Sistema de Informações Geográficas (SIG) Comumente chamado de SIG, corresponde ao conjunto de programas, equipamentos, metodologias, dados e pessoas que integram informações em determinado software, de modo a tornar possível a coleta, o armazenamento, o processamento e a análise de dados georreferenciados. É uma ferramenta para mapear e analisar os fenômenos que ocorrem em diferentes escalas e locais. 2.2 Software e modelos utilizados 2.2.1 ARCGIS É um software profissional cujas ferramentas possibilitam uma série de análises espaciais, permitindo que sejam utilizadas técnicas de modelagens, mapeamento, cruzamentos, entre outras funcionalidades. Por apresentar valor elevado e necessidade frequente de atualização, por vezes é substituído por ferramentas gratuitas. 6 Figura 3 – Sistema de Informações Gráficas Fonte: A autora. 2.2.2 QGIS Configura-se como um software de SIG de uso gratuito. Cada vez mais, está presente nos locais que utilizam geoprocessamento para construções de mapeamento e de SIG. Apresenta ferramentas similares às do ArcGis, disponibilizando um número de funcionalidades nativas e de complementos. 2.2.3 AUTOCAD Ainda que não seja um software para geoprocessamento, é comum sua utilização, especialmente a nível municipal para esse fim. Trata-se de um software para criaçãode desenhos 2 e 3 D com objetos sólidos, superfícies e malhas. 2.2.4 INVEST Uma das ferramentas utilizadas atualmente para modelagem e que contribui para a tomada de decisão em planejamentos é o InVEST (Integrated Mundo Real Usuário Ação Informações para uso diferenciado Fontes de Dados Conversão de Dados Coleta de Dados Análise e integração das informações Gerenciamento de Dados 7 Valuation of Ecosystem Services and Tradeoffs). Esse software consiste em um conjunto de modelos desenvolvidos no âmbito do Projeto Capital Natural, da Universidade de Stanford, em parceria com as organizações não governamentais The Nature Conservancy (TNC) e World Wildlife Fund (WWF), para mapear, quantificar e valorar serviços ecossistêmicos (Sharp et al., 2018, p. 8; Daily et al., 2009, p. 1). Essa ferramenta torna explícita a relação entre o uso do solo e o provimento dos serviços ambientais, identificando áreas críticas nas quais o investimento em ações de conservação e recuperação ambiental possibilita a geração de impactos positivos, tanto sob o aspecto ambiental quanto pelos aspectos econômico e social. O InVEST tem sido utilizado por diversos órgãos e instituições nas tomadas de decisão relativas à gestão de recursos naturais, inclusive para mensurar os benefícios decorrentes da implementação do Programa Produtor de Água ou ainda para direcionar a atuação do Programa, indicando áreas prioritárias de conservação ou recuperação ambiental (Forest Trends, 2015, p. 84; Mansur et al., 2013, p. 22; Guimaraes, 2013, p. 1). 2.2.5 GRAIP Atualmente, com um olhar mais específico para serviços ambientais e a busca para planejamentos mais focados nesses serviços, tem-se utilizado o modelo Geomorphologic Road Analysis and Inventory Package (GRAIP). Ele é capaz de simular a erosão em estradas não pavimentadas e determinar a interação com as vertentes e a rede de drenagem (Black et al., 2012). Foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Utah em conjunto com o Serviço Florestal dos Estados Unidos. Sua aplicação ocorre principalmente quando se observam estradas não pavimentadas que, em geral, apresentam altos níveis de contribuição de materiais sólidos para as redes de drenagem. O modelo requer como inputs básicos o Modelo Digital de Elevação da área (MDT), além da vetorização das estradas não pavimentadas. 2.2.6 SWAT O Soil and Water Assessment Tool (SWAT) é um modelo gratuito que utiliza parâmetros físicos, como tipo e uso do solo, cobertura vegetal e relevo da região 8 em estudo, permitindo a simulação de cenários atuais e futuros em determinada bacia, tanto por processos naturais como desencadeados pela intervenção humana (Souza, 2016). TEMA 3 – ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO O zoneamento ecológico-econômico no Brasil configura-se como o planejamento ambiental territorial com vistas ao desenvolvimento sustentável do país. Enquanto instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, conforme anteriormente retratado, tem sido utilizado pelo poder público com projetos realizados em diversas escalas de trabalho e em frações do território nacional (MMA). Conforme MMA3, o ZEE objetiva: Viabilizar o desenvolvimento sustentável com base na compatibilização do desenvolvimento socioeconômico com a proteção ambiental; Subsidiar a elaboração de macropolíticas territoriais, orientando os tomadores de decisão na adoção de políticas convergentes com as diretrizes de planejamento estratégico do país; Instituir e montar um banco de dados com as informações ambientais e socioeconômicas necessárias ao planejamento macrorregional; Apoiar os empreendimentos federais no que concerne à implantação de políticas setoriais e à infraestrutura conexa; Fornecer a Estados e Municípios diagnósticos gerais e uma perspectiva global sobre a realidade do país, bem como as diretrizes gerais do ZEE propostas pelo Governo Federal. Segundo o documento Diretrizes Metodológicas para o Zoneamento Ecológico-Econômico do Brasil (MMA, 20006), as diretrizes metodológicas perfazem o fluxo da figura 4. Nelas, observam-se quatro fases distintas nas quais o resultado prevê a criação de uma gama de informações capazes de apoiar a gestão e o planejamento territorial, bem como subsidiar políticas públicas com foco na sustentabilidade. 3 Disponível em: <https://www.mma.gov.br/gestao-territorial/zoneamento-territorial.html>. 9 Figura 4 – Fluxo metodológico proposto para o ZEE Brasil Fonte: Adaptado de MMA, 2006. 3.1 Histórico Com o advento da Política Nacional de Meio Ambiente na década de 1980, o zoneamento passou a permear os instrumentos de gestão territorial. Por meio da definição de áreas prioritárias, áreas críticas e de relevante significado ecológico, social e econômico, seria possível a criação de políticas públicas com foco na sustentabilidade. Em conformidade com o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), o zoneamento ecológico-econômico (ZEE) seria executado de maneira compartilhada entre a União, os estados e os municípios. Dentre as análises urbanas previstas para o ZEE, está a dimensão urbano- regional, que considera o “papel de articulação e gestão desempenhado pelos centros urbanos que, embora sejam fenômenos pontuais em termos de ocupação física do território, articulam as relações políticas e econômicas regionais no interior do território nacional e mundial” (MMA, 2006). Conforme Becker (2000) apud MMA (2006), as cidades, enquanto sedes de múltiplos fluxos e redes, garantem a circulação e a integração regional. Por meio de seus serviços, constituem os principais agentes funcionais de ordenamento e de decisão sobre as transformações do espaço. Dessa forma, a análise da configuração espacial de subsistemas integrados, movidos por fluxos e redes apoiados em núcleos urbanos, é fundamental para entender a dinamização das atividades econômicas e políticas ao longo dos eixos de circulação (MMA, 2006). PLANEJAMENTO DIAGNÓSTICO PROGNÓSTICO SUBSÍDIOS À IMPLEMENTAÇÃO Meio Físico Dinâmica Socioeconômica Situação Atual Organização jurídico institucional Mobilização dos Recursos Articulação Instituciona l Consolidaçã o do Projeto Identificação de Demandas Análise e Estruturação das Informações Cenários Unidades de Intervenção Diretrizes Apoio a Gestão Centro de Informação Base de Informação 10 A Figura 5 apresenta o Histórico do ZEE. Figura 5 – Histórico do ZEE Fonte: Adaptado de MMA, 2006. •Política Nacional do Meio Ambiente (Lei federal n. 6.938/1981) •Objetivo de preservar, melhorar e recuperar a qualidade ambiental propícia à vida 1981 •Decreto federal n. 99.193/1990, •Criação de grupo de trabalho para análise e conhecimento dos ZEE •Prioridade para Amazônia Legal 1990 •Programa de Zoneamento para a Amazônia Legal (PZEEAL) •Comissões Estaduais de ZEE •Cooperação técnica, firmado com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) 1991 •O ZEE passou a integrar o Plano Plurianual - “Programa Zoneamento Ecológico- Econômico”. •Processo nacional de discussão 2000 •Detalhamento da Metodologia para Execução do Zoneamento Ecológico-Econômico pelos Estados da Amazônia Legal 1997 •Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro •Macrodiagnóstico da Zona Costeira na Escala da União, cuja revisão foi concluída em 2008 1994 •Consórcio de empresas públicas, denominado de Consórcio ZEE Brasil, regulamentado por meio do decreto federal s/n. de 28/12/2001 •Estatuto da Cidade 2001 •Decreto n. 4.297/2002, regulamentando o processo de implementação do ZEE em território nacional 2002 •ZEE Amazônia Legal (Decreto em 2010) •Macrozee da bacia do Rio São Francisco (sem normatização) •Macrozee da REgião Centro- oeste atual 113.2 Plano Plurianual O ZEE, assim como outros instrumentos de ordenamento territorial, compõe o Plano Plurianual PPA do Governo. Previsto na Constituição Federal, o PPA é destinado a organizar e viabilizar a ação pública, com vistas a cumprir os fundamentos e os objetivos da República4. Constitui-se um instrumento de planejamento em que se definem diretrizes, objetivos e metas da administração com o propósito de viabilizar a implementação e a gestão das políticas públicas5. O ZEE está inserido no objetivo de promoção do desenvolvimento regional e o ordenamento do território brasileiro por meio do planejamento da ocupação e do uso do espaço de maneira sustentável e com abordagem territorial (Brasil, 2016). O desenvolvimento de estratégias e mecanismos para fortalecer, implementar, monitorar e avaliar o ZEE estão presentes no PPA, assim como a necessidade de revisão do instrumento legal da Política Nacional de Desenvolvimento Regional e o desenvolvimento de metodologia para identificação das necessidades estruturantes de centros urbanos regionais. Contudo, ainda que presente em diferentes políticas, a efetiva contribuição do ZEE e dos outros instrumentos de ordenação territorial buscando a sustentabilidade depende da capacidade do poder público e do setor privado de internalizá-lo e, consequentemente, integrá-lo, nos diversos planos, programas, políticas e projetos. TEMA 4 – ZONEAMENTOS URBANOS Ao pensar em zoneamento de áreas urbanas, deve-se analisar o planejamento urbano por meio das redes, buscando compreender a complexidade da sociedade, desnaturalizando conceitos e direcionando-se para o território, que pode ter diferentes escalas que se complementam e se inter-relacionam (Becker, 2009 p. 38). A mesma autora traz como conceito de redes: Redes são um modo de organização. Rede geográfica pode ser definida como um conjunto de ligações geográficas interconectadas entre si por certo número de ligações. Tem um papel estratégico nas relações de poder, gerando simultaneamente ordem/desordem, conexão e exclusão, integração e partição. A densidade de diferentes tipos de redes pode, assim, esboçar uma tipologia de territórios: naturais, técnicas, de comunicação e transnacionais (econômicas e políticas). 4 Disponível em: <http://www.planejamento.gov.br/servicos/faq/planejamento- governamental/plano-plurianual-ppa/o-que-eacute-o-ppa>. 5 Disponível em: <http://www.cade.gov.br/acesso-a-informacao/acoes_e_programas>. 12 Redes políticas, embora menos analisadas, são instâncias e procedimentos de coordenação horizontal e descentralizada. Emergem, com maior nitidez, nos interstícios das esferas de poder estabelecidas pelas instituições estatais. São as redes políticas territorializadas que conectam, solidarizam poderes locais entre si, redesenhado contornos e forjando novas territorialidades. (Becker, 2009 p.38) Atualmente, diferentes instrumentos tratam do uso e da ocupação do solo urbano por meio de zoneamentos. O Plano Diretor Municipal, por exemplo, tem o zoneamento como de fundamental importância para sua estruturação, uma vez que, por meio dele, regulamenta usos e traça suas diretrizes. Questões do uso e ocupação do solo, como o combate a vazios urbanos e a subutilização de imóveis, são recorrentes no cenário urbano tanto municipal como nacional. Além do ordenamento do território, preocupa-se com o ordenamento das relações sociais sobre esse espaço. Rezende e Ultramari (2007) apontam: A prática do planejamento nos municípios visa corrigir distorções administrativas, facilitar a gestão municipal, alterar condições indesejáveis para a comunidade local, remover empecilhos institucionais e assegurar a viabilização de propostas estratégicas, objetivos a serem atingidos e ações a serem trabalhadas. O planejamento é, de fato, uma das funções clássicas da administração científica indispensável ao gestor municipal. Planejar a cidade é essencial, é o ponto de partida para uma gestão municipal efetiva diante da máquina pública, onde a qualidade do planejamento ditará os rumos para uma boa ou má gestão, com reflexos diretos no bem-estar dos munícipes. (Andrade et al., 2005 apud Ultramari 2007) Em linhas gerais, na política urbana nacional, que se reflete na municipal, instrumentos de planejamento são ora valorizados, ora desconectados. Ora valoriza-se a estrutura municipal pública, ora os interesses públicos majoritários, ora defendem-se os interesses do setor privado (Rezende; Ultramari, 2007). Em contrapartida: [...] mudanças no cenário urbano brasileiro podem ser identificadas por fenômenos específicos, tais como a aprovação de novas legislações, reversões econômicas com impacto no perfil contábil das administrações municipais, novas relações institucionais entre as instâncias de poder e novos modos sociais advindos sejam de políticas urbanas, sejam de processos exógenos. (Ultramari; Silva, 2017) Sistematicamente, observam-se planos diretores que priorizaram o ordenamento do uso do solo e não envolvem significativamente a participação social, resultando em planejamentos desconexos. Ultramari e Silva (2017) expõem que “cidade é agora discutida muito mais pela composição de seus compartimentos intraurbanos e menos pelo grande contexto que as envolve”. Tal situação foi observada por autores como Santos Jr. e Montandon (2011 apud 13 Ultramari; Silva, 2017), assim como a permanência da prioridade dada no planejamento urbano para: [...] questões do zoneamento, da gestão do uso do solo, do sistema viário, da habitação e do patrimônio histórico. Por outro lado, parece que, relativamente, houve ainda uma pequena incorporação das temáticas do saneamento ambiental e da mobilidade urbana, ao mesmo tempo em que se percebe uma crescente incorporação da questão ambiental nos planos diretores municipais. A Figura 6 apresenta um quadro sobre os aspectos do cenário urbano brasileiro que podem influenciar a elaboração e aplicação dos planos diretores municipais. Figura 6 – Aspectos do cenário urbano brasileiro que influenciam a elaboração e aplicação dos planos diretores municipais Fonte: Adaptado de Rezende e Ultramari, 2007. PROBLEMAS URBANOS AMBIENTAIS •Cada vez mais complexos e agravados •Prioridades: saneamento, habitação, ocupação de áreas ambientalmente sensíveis, deficiência de serviços comunitários QUADRO DE SERVIDORES •Influência sobre a implementaçao e continuidade de ações •Complexidade dos serviços demandam quantidade e qualidade dos servidores RECURSOS FINANCEIROS •Busca por maior efetividades das ações e competência da gestão pública •Busca por parceiros externos: iniciativa privada, instituições de financiamento externas PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE •Obrigatoria a participação da comunidade na construção do planejamento •Publicidade das ações, democratização •Inserção de novos temas a serem planejados: geração de renda em comunidades carentes, violência 14 TEMA 5 – ZONEAMENTO DE ÁREAS PROTEGIDAS EM AMBIENTE URBANO Como visto anteriormente, há diferentes formas de zoneamento e, em áreas protegidas, de estabelecer zoneamentos. As áreas protegidas são conceituadas como: [...] áreas naturais e semi-naturais definidas geograficamente, regulamentadas, administradas e/ou manejadas com objetivos de conservação e uso sustentável da biodiversidade. Enfoca prioritariamente o Sistema Nacional de Unidade de Conservação da Natureza, as terras indígenas e as terras ocupadas por remanescentes das comunidades quilombolas. (Brasil, 2006) Trataremos aqui especificamente de Unidades de Conservação de Uso Sustentável, uma vez que determinadas categorias podem abrangem áreas urbanas. Regulamentadas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e pelo Decreto n. 4.340/2002, as Áreas de Proteção Ambiental (APA) comumente dispõem deáreas urbanas em seu interior. Por serem constituídas de áreas públicas e privadas, por vezes incorporam complexidades de diferentes municípios e até estados, como o exemplo da APA da Serra da Mantiqueira, gerida pelo ICMBio, a qual a autora coordenou o diagnóstico socioambiental utilizado para subsidiar o Plano de Manejo e consequentemente o zoneamento. É no Plano de Manejo da Unidade de Conservação que se definem o zoneamento e as diretrizes para que as unidades alcancem seus objetivos de criação. Cada categoria dispunha de um roteiro metodológico que orientava a estruturação do Plano de Manejo e definia as zonas possíveis em cada categoria. Desde final de 2018, o ICMBio utiliza um roteiro único para todas as categorias, independentemente de seus objetivos e do grupo em que estão inseridas. 15 REFERÊNCIAS ARCHELA, S. S.; THÉRY, T. Orientação metodológica para construção e leitura de mapas temáticos. Confins. v. 3, 2008. 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