Prévia do material em texto
AULA 5 PERFIS CRIMINAIS E COMPORTAMENTAIS – CRIMINAL MINDS Prof. José Benedito Caparros Junior 2 TEMA 1 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS Nesta aula, estudaremos pontos relevantes do universo do Criminal Profiling (CP), assunto vasto que, como veremos, exige muito estudo e muita experiência prática. Embora não seja possível abordar todo o conteúdo disponível no mundo sobre esse campo de estudo e ferramenta, visto que uma disciplina dispõe de pouco para isso, teremos acesso às informações basilares desse universo, que fundamentarão nossa compreensão inicial e, consequentemente, nos concederá um estofo teórico e crítico acerca do assunto. No decorrer desta aula, abordaremos os seguintes assuntos: relação entre teoria e prática no criminal profiler; a história e evolução do criminal profiling; o Libelo de sangue; o Dr. Thomas Bond e Jack, O Estripador; o Dr. James Brussel e Mad Bomber; criminal profiling na contemporaneidade; o o campo de trabalho do criminal profiler e o propósito do criminal profiling; elementos essenciais do criminal profiling; o a cena do crime para o criminal profiler; o as questões a serem levantadas pelo criminal profiler; os recursos visuais para o criminal profiler. Já especificamente no primeiro tema desta aula, começaremos com uma breve reflexão da relação existente entre prática profissional e teoria. Trata-se do momento inicial desta aula, que tem por objetivo desencadear reflexões acerca da formação de um profiler. Existe uma necessidade urgente de tratar sobre a formação desse profissional, pois, conforme leciona o Delegado Penteado Filho (2018, p. 46): Neste sentido – é bom que se diga –, a técnica de perfil criminal não pode ser exercida por qualquer pessoa, sob pena de indivíduos neófitos, despreparados e mal-intencionados usurparem tal arte, com consequências e resultados desastrosos, quer do ponto de vista jurídico, quer do ponto de vista ético, moral ou social. Portanto, ressalta-se, apenas policiais mais experientes na investigação (polícia judiciária) estarão aptos a legitimar tal técnica investigativa. 3 Tais policiais, quando recebem bons treinamentos, podem sentir-se aptos a realizar algumas das abordagens de criminal profiling. Mas, quando se depararem com casos mais difíceis e que sentem a necessidade de auxílio especializado, esses policiais também podem solicitar auxílio de um perito no assunto, os quais podem ser criminólogos, psicólogos, psiquiatras, sociólogos etc. Criminal profiling não é uma técnica fácil de ser posta em prática e, por essa razão, frente a casos mais complexos, uma equipe multidisciplinar pode ser formada. Assim, pode-se perceber que se trata de uma “perícia pluridisciplinar, logo, dificilmente um só indivíduo pode pretender reunir tais características” (Correia; Lucas; Lamia, 2007, p. 595). Posteriormente, nos temas subsequentes, caminharemos desde alguns importantes momentos históricos do criminal profiling até chegarmos a duas abordagens mais conhecidas de criminal profiling. 1.1 - A relação entre teoria e prática Para o mundialmente renomado psicólogo forense Brent Turvey (2011), uma autoridade desse assunto na atualidade, inicialmente precisamos notar que a técnica de criminal profiling, ou apenas profiling, envolve a aplicação das ciências comportamentais à criminologia e ao campo jurídico. Dada essa interação entre ambos os conhecimentos, é difícil argumentar que se pode ser um analista comportamental qualificado em profiling, se não possuir uma sólida educação em pelo menos uma das ciências comportamentais (por exemplo: Psicologia, Psiquiatria, Sociologia, Criminologia etc.). Como veremos ao decorrer desta aula, o profiling deve ser feito por peritos, cada qual aplicando os conhecimentos de suas respectivas áreas, e por policiais (investigadores) devidamente treinados para a utilização dessa técnica. Ao lado dessas ciências, também se faz indispensável a formação na área jurídica, em especial às suas ramificações penais. Essa sólida formação, que não é fácil de ser obtida, proporcionará ao profiler uma compreensão teórica e prática do comportamento humano, bem como de sua aplicação ao mundo do jurídico (Turvey, 2011). Na jornada de estudo e/ou da prática laboral do criminal profiling, verifica- se que alguns alunos e profissionais tendem a se identificar mais com alguma das ciências acima citadas. Em outras palavras, o caminho educacional de um profiler será chefiado pela ciência que mais se identificou, mas nunca somente por ela. 4 Assim, naturalmente, verifica-se que alunos e profissionais acabam por eleger uma dessas ciências para se especializar, aperfeiçoar e profissionalizar. Não há absolutamente nada de errado com isso. Pelo contrário, é importante que o estudante, sobretudo na qualidade de pesquisador, e o profissional, na qualidade de perito ou investigador, afunilem o seu conhecimento em uma dessas ciências. Esse é o cenário ideal. Por exemplo, é possível que um determinado profiler em formação prefira aprofundar seus estudos em Sociologia e/ou Criminologia, uma vez que ele tenha mais interesse sobre a questão da violência urbana. Em outro exemplo, é notável que um outro profiler também em formação se aprofunde mais em Psicologia, uma vez que ele se interesse mais pelos processos mentais e comportamentais de pessoas. Ao lado dessas possíveis especializações, friso que é imprescindível conhecimento na área do direito, sobretudo no direito penal, visto que a atuação será aplicada nesse campo. Contudo, o preparo de um sujeito para o mercado de trabalho não depende apenas da educação formal. A experiência prática é de importância inquestionável para esse processo de formação. A educação formal e a prática andam de mãos dadas, sem que se estabeleça uma hierarquia entre ambas. Assim, um sujeito que opte por ser profiler atuante em cenas de crime deve possuir conhecimento teórico e, consequentemente, longa experiência prática. A experiência prática é importante para o desenvolvimento de novos conhecimentos, técnicas e habilidades para aqueles que, porventura, almejam investigar crimes e aplicar os conhecimentos teóricos e científicos do criminal profiling em um caso em investigação. A experiência prática também permite ao sujeito que, por vezes, esteja correto em suas análises, e que, por vezes, esteja incorreto. Os acertos devem ser reforçados e os erros devem ser corrigidos. Dessa forma, aprende-se a reconhecer seus pontos fortes e fracos, seus acertos e erros, bem como a buscar por mais e mais aprimoramento. A experiência prática é acumulada a partir de estágios formais, prática supervisionada, treinamentos fornecidos no trabalho e, claro, da vida em geral. No entanto, as experiências práticas adquiridas e acumuladas devem ser relevantes e, para que tenham qualquer valor, devem estar em consonância com a teoria das ciências mencionadas e com os métodos científicos. Assim, evita-se especulações, senso comum, julgamentos infundados etc. É por isso que, mais comumente, a educação formal antecede a experiência prática. A teoria e os 5 métodos científicos fornecem subsídios para o pensamento crítico e para a reflexão do profissional em seu dia a dia laboral. Contudo, encontramos alguns obstáculos no que diz respeito às contribuições teóricas sobre o CP e às possibilidades de aplicá-las e testá-las em investigações. Veras (2018, [S.p.]), especialista em criminal profiling, afirma que “a área do Criminal Profiling ainda está em fase inicial no Brasil e no mundo”. Neste mesmo sentindo e em complementação à essa afirmação, Machado e Franck (2019), afirmam que existe uma carência de estudos sobre o tema em nosso país. De acordo com Machado e Franck (2019, [S.p.]) “o Criminal Profiling noBrasil ainda é pouco estudado em termos científicos”. Desse modo, por ser uma área do conhecimento principiante e por haver muitas pesquisas ainda em andamento, torna-se uma tarefa difícil dissertar sobre o Criminal Profiling. Contudo, isso não significa que tenhamos grandes nomes na área. Para além de Veras e Machado e Franck, recém-citados, há outros notórios estudiosos e profissionais brasileiros na área, tais como: a psicóloga e Doutora em Psicologia Investigativa, Dra. Aline Lobato Costa; o Psiquiatra Forense, Dr. Guido Arturo Palomba; o Delegado e Mestre em Direito Processual Penal, Me. Nestor Sampaio Penteado Filho; a Especialista em criminologia, Ilana Casoy; a advogada e psicóloga jurídica, Me. Rosana Cathya Ragazzoni Mangini; e outros tão notórios e importantes quanto esses. Note que os nomes citados acima possuem formações em áreas distintas, mas que apresentam uma forte zona de convergência: o estudo do comportamento humano e sua aplicação às questões criminais e penais. Por vezes, as contribuições de cada um desses renomados profissionais podem divergir em um ou outro ponto. Contudo, tais divergências, as quais estão pautadas nos caminhos que cada um percorreu para se profissionalizar, devem ser entendidas pelos estudantes como informações complementares, e não como informação correta ou errada. Quanto mais tivermos contribuições de distintas áreas sobre o criminal profiling e com diferentes olhares sobre esse objeto, mas essa área do conhecimento e os estudantes e profissionais se beneficiarão e se desenvolverão. Diante de tudo que foi exposto acima, pode-se afirmar que a Psicopatologia, Psicologia, Sociologia, Criminologia e o Direito se casam quando se trata de CP. Portanto, estamos falando de uma área do saber transdisciplinar. 6 Em outras palavras, um campo de estudo e de atuação que necessita da interação entre diferentes áreas do saber e que, consequentemente, estabeleçam entre si cooperação. Por conta disso, o CP é uma área (técnica) que precisa estar atenta às constantes inovações no campo das ciências do comportamento e no campo jurídico, bem como precisa se lapidar dia a dia para atender às demandas e às mudanças que a sociedade impõe. No entanto, antes de começarmos nosso estudo sobre os atuais métodos e fundamentos do criminal profiling, devemos primeiro entender o seu percurso histórico. Isso é feito na esperança de que possamos desvendar como chegamos a este espaço e tempo. A contribuição da história é de fornecer-nos um olhar para trás e, a partir disso, avaliarmos o nosso progresso, visualizarmos os marcos, entendermos nossa posição na História. Em outras palavras, a História permite que entendamos o que fomos, o que somos e o que possivelmente nos tornaremos. Ela nos lembra de onde veio nosso conhecimento e nossa sabedoria, concedendo-nos embasamento crítico para questionar e argumentar frente àqueles que só possuem contato com o contemporâneo. A História nos ensina que as doutrinações dominantes vigentes, seja em nosso país ou em outros países, são apenas temporárias. A História espera pacientemente que mentes insatisfeitas a descubra e, a partir disso, pode-se inferir com razão que o objetivo de estudar História não é apenas aprender fatos para posterior diálogo acadêmico, a fim de parecer intelectual, mas é sobre voltar para ver o que veio antes, a fim de avaliar honestamente onde estamos, porque estamos e para onde podemos ir. TEMA 2 – CRIMINAL PROFILING: A HISTÓRIA Diferentes estudiosos determinam divergentes pontos de partida e acontecimentos para traçar uma linha histórica da evolução do criminal profiling. Não existe um consenso sobre a primeira vez que essa ferramenta tenha sido aplicada. Além disso, nem sempre o criminal profiling foi usado para o bem, ou seja, para tentar identificar criminosos violentos e, consequentemente, puni-los. Pensar assim é limitar-se a uma compreensão atual do criminal profiling. Por isso a importância do estudo histórico, já que ele pode nos mostrar que mesmo as mais belas invenções e ferramentas já foram usadas com as finalidades mais hediondas e sombrias. 7 Alguns estudiosos afirmam que a história do criminal profiling inicia na Idade Média, já outros defendem que essa ferramenta concebida e aplicada pela primeira vez no século XX, sob os auspícios do FBI. Todas essas visões e afirmações estão corretas, uma vez que cada estudioso estipulou critérios para determinar suas pesquisas. Para que esse estudo histórico não se torne exaustivo, mas cumpra com o seu objetivo, o de fornecer fundamentos críticos aos alunos, discutiremos alguns marcos históricos, cuja finalidade é apresentar, de forma didática, alguns dos principais momentos históricos do criminal profiling. 2.1 - Libelo de sangue Pode-se afirmar que, na Idade Média, surgiram as primeiras práticas de criminal profiling, embora elas tenham sido aplicadas da forma mais hedionda, repugnante e injusta possível. Segundo Turvey (2011), nesse período ocorreu um dos primeiros usos documentados de criminal profiling, época em que havia uma cruel “demonização” de judeus naquela sociedade, os quais eram falsamente acusados de sacrificar crianças em rituais religiosos, para obter seus sangues para a produção de pães sem fermento (matzá), que viriam a ser servidos na Páscoa Judaica. O libelo de sangue, ou calúnia de sangue, é considerado por alguns estudiosos como uma forma precoce do criminal profiling, já que envolvia um conjunto predeterminado de características relacionadas ao crime, que acusava um determinado grupo: os judeus. Ainda de acordo com as contribuições de Turvey (2011), o perfil geral utilizado incluiu um ou mais dos seguintes elementos: um jovem cristão desaparece; uma comunidade judaica está nas proximidades; a criança desaparece pouco antes da Páscoa; o corpo pode ter lesões que parecem ser o resultado de um ritual; o corpo pode ter perdido alguma quantidade de sangue. A comunidade judaica, neste espaço e tempo, enfrentou bárbaras, cruéis e infundadas acusações. Rapto, tortura e assassinato, calúnias alimentadas por sentimentos antissemitas da época. Ressalta-se: as acusações são caluniosas, intencionalmente falsas e hediondas. O libelo de sangue não é, portanto, 8 considerado apenas um dos primeiros usos do criminal profiling, mas também uma das primeiras formas documentais de seu incipiente e pior uso. Figura 1 – Gravura alemã do livro Crónica de Nuremberg, publicado em latim e em alemão em 1493, representando o dito martírio de um menino italiano chamado Simão de Trento, supostamente pelas mãos de judeus Fonte: Hartmann schedel/PD Pessoas ou povos foram perseguidos na história, fato repugnante e que precisa ser lembrado, a fim de que a espécie humana não cometa os mesmos erros do passado. Infelizmente, esse é apenas um dos casos de perseguições em que técnicas rudimentares e pré-científicas foram utilizadas para estabelecer algum tipo de perfil. 2.2 Dr. Thomas Bond e Jack, O Estripador Já de acordo com outros estudiosos do criminal profiling, o início do criminal profiling informal remonta ao ano de 1888, quando pistas da cena do crime foram usadas para fazer previsões sobre a personalidade de um famoso serial killer britânico: Jack, o Estripador. A história de Jack, o Estripador, envolve assassinatos extremamente brutais de cinco prostitutas. Essas ocorrências aconteceram entre agosto e novembro de 1888, em Londres, na Inglaterra. Segundo relatos históricos, o autor 9 desses assassinatos se autonomeava Jack, o Estripador. Essa autonomeação ocorria por meio de cartas que o próprio enviava à polícia de Londres, pelas quais informava que ele era o autor desses assassinatos. Inicialmente, a polícia de Londres acreditava que o Estripador era um médico, devido aos cortes encontradosnos corpos das vítimas. Esse caso foi a primeiro caso de serial killer na história a causar um frenesi generalizado na mídia. Figura 2 – O corpo de Mary Jane Kelly, a última vítima de Jack Estripador Fonte: History and art collection / Alamy /fotoarena Diante desse assombroso assassino, a polícia inglesa, totalmente perdida, solicitou ajuda ao Dr. Thomas Bond, médico que realizou o profiling do assassino, caso frequentemente citado como a primeira aplicação de técnicas de criminal profiling. Dr. Thomas Bond usou os resultados das autópsias e as evidências da cena do crime para fazer previsões rudimentares. 10 Figura 3 – O médico inglês, Thomas Bond (1841 – 1901) Fonte: CC/PD Em seu relatório escrito depois de examinar as provas forenses disponíveis, incluindo os corpos, Thomas Bond concluiu que todos os cinco assassinatos, sem dúvida, foram cometidos pela mesma mão, pois: as mulheres foram deitadas no momento de seus assassinatos; as primeiras mutilações foram nas gargantas. Além disso, Dr. Bond também afirmou que Jack não tinha conhecimento de cirurgia médica e que era um homem forte, solitário e ousado. Esta declaração ousada do Dr. Bond se opôs diretamente ao que as autoridades policiais haviam concluído anteriormente, que Jack, o Estripador, era médico ou tinha treinamento médico devido ao fato de que ele havia removido órgãos internos de algumas de suas vítimas. Dr. Bond chegou a sua conclusão depois de notar que as feridas escancaradas infligidas pelo Jack não eram consistentes com a formação de um médico especialista ou "mesmo o conhecimento técnico de um açougueiro ou matadouro de cavalos" (The New Yorker, 2018). Na opinião de Bond, o assassino deve ter sido um homem de hábitos solitários, sujeito a ataques periódicos de mania homicida e erótica, e o caráter das mutilações possivelmente indicando desejo sexual incontrolável. Além disso, esse caso gerou um excesso de absurdas teorias conspiratórias sobre sua identidade ao longo dos anos. Na verdade, existem pelo menos 100 teorias diferentes sobre a sua identidade. Uma das mais fantasiosas 11 envolve uma conexão da família real britânica com os maçons, teoria retratada no filme From Hell, de 2001. Na verdade, grande parte da história de Jack, O Estripador, é pura lenda. Embora o caso não tenha sido desvendado, as contribuições do Dr. Bond marcaram a história. Para muitos estudiosos, é nesse contexto que se inicia, mesmo que informalmente, o uso do criminal profiling. 2.3 Dr. James Brussel e Mad Bomber Entre os anos de 1940 e 1957, um sentimento de pânico assombrava a cidade de Nova Iorque. Durante esse período, bombas em locais públicos eram instaladas e acionadas, incluindo cinemas e teatros. Foram mais de 36 bombas caseiras encontradas, todas praticamente fabricadas da mesma forma e com praticamente os mesmos materiais. Tudo indicava que o autor desses ataques, naturalmente, era a mesma pessoa. Como a identidade do autor permaneceu desconhecida por um longo, aproximadamente 16 anos, a população e os jornais passaram a chamá-lo de Mad Bomber, que em português pode ser traduzido como Bombardeador Maluco. Seus alvos incluíam Radio City Music Hall, Grand Central Station, Penn Station, cinemas, cabines telefônicas e diversos outros locais públicos em toda a cidade. O primeiro ataque do Mad Bomber ocorreu no dia 16 de novembro, de 1940. Uma bomba caseira foi inserida em uma caixa de ferramentas de madeira, que posteriormente foi deixada no peitoral de uma das janelas do edifício da empresa Consolidated Edison, em Manhattan. Não havia testemunhas. Isto é, ninguém viu quem a deixou ou de onde ela tinha vindo. Quando foi aberta, pelos próprios trabalhadores dessa empresa, encontraram a bomba caseira. Ao redor do lado de fora do dispositivo havia uma nota, escrita à mão em letras maiúsculas (The New Yorker, 2018): “CON. EDISON BANDIDA, ISSO É PARA VOCÊ”. Depois de uma investigação realizada no local e com os funcionários e dirigentes dessa empresa, a polícia não encontrou muitas pistas e, naturalmente, chegou a muitas conclusões. Uma das únicas e talvez a mais importante foi de que a bomba foi posta no local para não explodir, mas sim para passar a mensagem que estava contida dentro da caixa. No decorrer dos anos, mais bombas foram instaladas, muitas sem notas. Contudo, embora não envoltas nas 12 bombas, o Mad Bomber costumava se comunicar com a polícia e com a imprensa a partir de pequenas notas escritas com letras maiúsculas. Durante o período em que o Mad Bomber não havia sido identificado e, consequentemente, pego pela polícia, um total de quinze pessoas ficaram feridas. Incrivelmente, ninguém foi morto pelos ataques. Contudo, o medo e o terror só aumentavam, visto que a paranoia de que uma bomba mais potente pudesse a vir ser instalada em um local tumultuado, acarretando uma tragédia sem precedentes. A polícia local conduziu as investigações por aproximadamente 16 anos, mas, mesmo assim, não conseguiram identificar o criminoso, o que fez com que o sentimento de pânico da população só aumentasse. Esse caso provou ser um tormento para a polícia. Frustrado após 16 anos de investigação, o inspetor Howard Finney, do laboratório criminal da Polícia de Nova Iorque, buscou ajuda especializada. Ele contatou o Dr. James Brussel, um psiquiatra. Dr. Brussel desenvolveu um perfil elaborado em dezembro de 1956 e previu que o Mad Bomber possuía as seguintes características: homem estrangeiro e de ascendência do leste europeu; com idade entre 40 e 50 anos; solteiro que vive com parentes do sexo feminino; homem barbeado, bem vestido e com porte atlético; sofria de paranoia. Além desses pontos, havia curiosa previsão do Dr. Brussel: o Mad Bomber teria preferência por ternos com duas fileiras de botões. A partir das contribuições do Dr. Brussel, encontraram o homem por trás do pseudônimo Mad Bomber. Tratava-se de George Metesky, um homem pesado, polonês, de meia-idade, que vivia apenas com sua irmã e que, impressionantemente, gostava de ternos com duas fileiras de botões. Para estudar fotos das cenas do crime, bem como notas escritas à mão enviadas à polícia pelo homem-bomba, Dr. Brussel baseou-se em sua larga formação em Medicina e em sua experiência em assuntos ligados à Psicologia, visto que era um psiquiatra. O Dr. Brussel sabia que a paranoia clínica tende a atingir o pico em torno de trinta e cinco anos na população em geral. Portanto, ele argumentou que, em 1956, dezesseis anos após seu primeiro bombardeio, o autor provavelmente estaria em seus cinquenta anos. https://www.britannica.com/topic/New-York-City-Police-Department https://www.britannica.com/science/psychiatry https://www.britannica.com/topic/criminal-profiling 13 Figura 5 – George Metesky, o Mad Bomber, sendo levado pela polícia Fonte: <https://www.wglt.org/post/unabomber-mad-bomber-look-past-serial-bombers- 0#stream/0>. Acesso em: 23 jan. 2020. Ao ser capturado pela polícia de Nova Iorque, George Metesky confessou os atentados imediatamente. O Mad Bomber, Geroge Metesky, foi detido uma noite em sua casa. Contudo, antes de ser levado pela polícia, Metesky foi autorizado a trocar os pijamas que vestia por uma outra roupa e Metesky vestiu um terno azul, com duas fileiras de botões. Sua prisão foi em janeiro de 1957, ele foi considerado inocente por insanidade no tribunal e internado em um hospital psiquiátrico estadual. Metesky permaneceu lá até sua libertação em 1973, quando especialistas médicos determinaram que ele não era mais uma ameaça à sociedade. Ele morreu em 1994, com a idade de noventa anos. As percepções notáveis do Dr. Brussel no caso do Mad Bomber de Nova Iorque inspirou a pesquisa e o desenvolvimento do criminal profiling pelo FBI. Aproximadamente ao mesmo tempo, inúmeros outros estudiososindividuais preocupados com o fenômeno do crime violento em série também investigaram o conceito do criminal profiling. Com a prevalência aparentemente crescente de crimes violentos em série, o interesse nesse conceito ganhou impulso e levou ao desenvolvimento de outras escolas de pensamento formalizadas sobre o tema. 14 TEMA 3 – Criminal profiling na contemporaneidade São muitos os termos e as definições encontrados para criminal profiling. Portanto, é completamente natural e esperado que estudantes e profissionais das áreas das ciências criminais se deparem com termos e conceitos distintos e, por vezes, aparentemente conflitantes. Na literatura especializada sobre o assunto, os termos criminal profiling e profiling são os mais comumente encontrados. Esses termos se referem à técnica de elaboração do perfil de um criminoso. Ao lado desses termos, encontra-se também os termos criminal profiler e profiler, que designam os profissionais que elaboram o perfil de um criminoso. Quadro 1 – Definição do termo TERMOS LÍNGUA INGLESA TERMOS LÍNGUA PORTUGUESA Criminal profiling Perfil criminal Profiling Perfilamento Criminal profiler Perfilador criminal Profiler Perfilador Esses termos costumam ser utilizados de modo generalista. Isso ocorre porque, até agora, não há uma definição universalmente para criminal profiler e para profiler, visto que ainda existe uma carência de publicações científicas na área e devido à profissão ainda não ser regulamentada (Veras, 2018). Além disso, outros termos para criminal profiling podem ser facilmente encontrados na literatura nacional e internacional, tais como: offender profiling (perfil do agressor), psychological profiling (perfil psicológico), investigative profiling (perfil investigativo), crime scene profiling (perfil da cena do crime), criminal behavior profiling (perfil do comportamento criminoso), bem como tantos outros (Correia; Lucas; Lamia, 2007). Para esta disciplina, utilizaremos os termos criminal profiling, ou somente profiling, para a técnica de perfilamento criminal e criminal profiler, ou somente profiler, para o profissional que aplica essa técnica. A utilização da terminologia inglesa não é por pedantismo! A intenção passa bem longe disso. É preferível utilizar esses termos em inglês, bem como enfatizá-los em nossas aulas, pois boa parte da literatura disponível sobre o assunto está publicada em língua inglesa e, além disso, muitas publicações na língua portuguesa também adotam os termos em inglês. Trata-se de um anglicismo, fenômeno linguístico presente em inúmeros países, onde a língua oficial não é a 15 inglesa. Neste momento, não nos cabe julgar o uso do anglicismo. Precisamos, apenas, assegurar-nos de que esses termos não passem despercebidos em leituras complementares a serem realizadas no futuro, sejam leituras nacionais, sejam leituras internacionais. Já no que se refere aos mais variados conceitos atribuídos ao criminal profiling, destacaremos a visão e as delimitações de autores brasileiros e estrangeiros. Para começar, partiremos de renomadas e renomados pesquisadores e profissionais brasileiros da área: O Criminal Profiling consiste na aplicação de forma sistemática dos conhecimentos da ciência psicológica ao comportamento criminal, proporcionando informação advinda da cena do crime para auxiliar na investigação policial, bem como na captura de um agressor desconhecido [...]. O comportamento do criminoso se revela através do seu crime (Pedro, 2015, p. 300). O perfilamento criminal, ou simplesmente perfil criminal, (criminal profiling), reflete a aplicação de conhecimentos múltiplos (psicologia, criminologia, antropologia, sociologia, biologia, geografia etc.). A efetiva análise das características de autores de delitos relaciona-se ao profiling, que é, em verdade, uma técnica de investigação policial voltada à sincronia entre personalidade e comportamento criminal. Ao profiling são indispensáveis a compreensão do crime e do criminoso (Penteado Filho, 2018, p. 46). [...] uma ferramenta investigativa disponível para ajudar a solucionar um crime. [...] ele nos indica um tipo de criminoso, talvez rascunhe seu histórico psicológico, possivelmente a sua aparência física, tipo de profissão, possível local de residência ou estado civil, entre outras coisas. [...] É processo lógico e racional baseado em estudos psicológicos e sociológicos. [...] sem dúvida é uma arma importantíssima na investigação criminal (Casoy, 2017, p. 44) Já no que se refere às definições empregadas ao termo criminal profiling, elaboradas por autores estrangeiros, destacaremos as seguintes: De um modo geral, o perfil criminal envolve fazer inferências sobre as características físicas, habituais, emocionais, psicológicas e até vocacionais dos criminosos. No entanto, existem muitos métodos diferentes de perfil criminal, e todos variam em relação à solidez da teoria subjacente, lógica e discernimento (Turvey, 2011, p. 15). [...] o criminal profiling representa um processo pelo qual comportamentos e/ou ações exibidos em um crime são avaliados e interpretados para formar previsões sobre as características do provável perpetrador do crime (Kocsis, 2006, p. 2.) 16 Mas diante de tantas contribuições, faz-se necessário que para esta aula seja acordada uma definição norteadora para os nossos estudos. Desse modo, proponho que entendamos o criminal profiling da seguinte forma: é tanto uma área de estudos transdisciplinar quanto uma poderosa ferramenta complementar ao processo de investigação de crimes em que o delinquente é desconhecido, permitindo-nos realizar inferências sobre as características físicas, comportamentais, emocionais (imagem psicossocial). Conforme leciona o Delegado Penteado Filho (2018, p. 48), “a elaboração de perfis é uma espécie de engenharia reversa do crime”. Contudo, embora muito útil, o profiling “jamais poderá substituir o tradicional trabalho da polícia” (Casoy, 2017, p. 46). O profiling não tem por objetivo e não pode por si identificar com precisão um criminoso. Ou seja, “apesar de glorificada pelo cinema e pela imprensa, sobretudo nos EUA, a técnica policial do perfil criminal sozinha não resolve o crime” (Penteado Filho, 2018, p. 46). Na prática, o criminal profiling pode ser visto como uma técnica complementar da investigação criminal. De modo generalista, o profiling objetiva estreitar o campo de suspeitos. É justamente nesse objetivo geral que reside sua importância, “devido ao fato de delimitar na investigação policial o número de suspeitos” (Pedro, 2015, p. 300). Cabe ressaltar que o criminal profiling “utilizando a psicologia, já é utilizado em países como Estados Unidos e Inglaterra há muitos anos, embora no Brasil ainda sejam contribuições bastante pontuais” (Silva, 2015, p. 307). Nesses países estrangeiros, o criminal profiling “obtêm êxito nas investigações [...] a fim de evitar o cometimento de novos delitos e ajudar a Justiça a firmar a sua responsabilização penal” (Pedro, 2015, p. 301). 3.1 O campo de trabalho do criminal profiler O profiler é um especialista em criminal profiling, descrito na literatura como um profissional altamente capacitado e com experiência prática no assunto, que tem por objetivo fornecer à investigação algumas informações personalizadas sobre um determinado tipo de criminoso. Conforme melhor aponta Casoy (2017, p. 47), o profiling pode ser realizado por “[...] um psicólogo, psiquiatra ou médico- legista [...]”. Porém, como enfatiza a autora, esses profissionais não substituem o trabalho da polícia. No que se refere à polícia, faz-se necessário ressaltar que o criminal profiling não compreende todo o processo de investigação criminal, “é importante 17 registrar que é uma técnica de investigação policial” (Penteado Filho, 2018, p. 47). Como a investigação criminal é uma “tarefaexclusiva da polícia judiciária” (Hoffmann, 2018, [S.p.]), logo, majoritariamente são os policiais investigadores os profilers em uma cena de crime. Contudo, o quadro de servidores da polícia pode ser composto por profissionais de várias áreas, bem como são altamente qualificados para todo o processo de investigação criminal (Academia de Polícia). Desse modo, psicólogos, psiquiatra e outros profissionais das áreas das ciências comportamentais podem fazer parte do quadro da polícia, conforme explica Goes Júnior (2012, p. 33): Hoje podemos constatar que já existem, nos quadros da polícia, profissionais (por exemplo, psicólogos, psiquiatras) que podem ser capacitados para executarem esse tipo de investigação. Importante ressaltar que, tanto no processo de formação quanto no de aperfeiçoamento, deverão ser ministrados, também, conhecimentos acerca do Direito Penal e da Legislação Especial Penal, para que o profissional fique habilitado a produzir um trabalho orientado por normas legais, buscando elementos de convicção que auxiliem na identificação da autoria, materialidade e circunstâncias do cometimento da infração penal, possibilitando ao Ministério Público oferecer a denúncia. Porém, o trabalho de um profiler não se restringe apenas à investigação formal, realizada no âmbito da polícia civil, por exemplo. De acordo com o Conselho Federal de Psicologia – CFP (2015, [s.p.]), um profiler pode atuar de várias maneiras: assistente técnico, fornecendo pareceres, quando solicitado judicialmente por algumas das partes (defensoria ou acusação); consultoria e assessoria para investigadores, policiais, delegados, atores jurídicos; consultoria e assessoria para escritores, roteiristas e diretores de filmes e novelas, por exemplo, dada o claro e crescente interesse que essa área desperta no público; ensino de diferentes disciplinas associadas ao Criminal Profiling, seja em instituições de ensino ou empresas, ou mesmo em Academias de Polícia quando requisitados ou aprovados em concursos específicos para vagas de docente; peritos criminais, caso aprovados em concurso da Polícia Civil ou Federal, incentivando e auxiliando no uso dessa estratégia; 18 funcionários de empresas de segurança para evitar a ocorrência de crimes (mesmo fraudes) e seguradoras, com embasamento em seu conhecimento sobre a atuação criminal; Desenvolvimento de pesquisas acadêmicas sobre mapeamento geográfico criminal, comportamento verbal e não verbal, Psicologia Investigativa, Criminologia, entre diversos outros. Quando se trata especificamente de investigações criminais, os profilers podem ser úteis para: reproduzir, a partir de seu aporte técnico científico, as circunstâncias e ações tomadas pelo agente da conduta criminosa, fornecendo "o filme do crime em sua dinâmica" para as autoridades judiciais; inferir o perfil do agressor, fornecendo "seus traços de personalidade" para as autoridades de acusação; buscar antecipar "o próximo comportamento esperado", contrariando futuros "atos" do autor pela intuição dos versos ideais com grau razoável de credibilidade em sua identificação. É importante ressaltar que, tal como os policiais detêm exclusividade em certas atividades laborais, psicólogos e psiquiatras também as detêm. Por exemplo, a Avaliação Psicológica, assunto que estudamos anteriormente, é função exclusiva do psicólogo. Por sua vez, é função exclusiva de médicos realizar diagnósticos e tratamentos medicamentosos. Lembre-se de que a avaliação psicológica e profiling não são a mesma coisa, embora pareçam similaridades. Saiba mais O mercado de trabalho do profiler De acordo com a advogada especialista em criminal profiling e autora de publicações no site Canal Ciências Criminais, Verônyca Veras (2018, [S.p.]), “não existe um limite para o que pode ser aproveitado e tudo vai depender da abertura e da criatividade do profissional disposto a atuar para o seu aperfeiçoamento e evolução do seu ambiente de trabalho, tendo em vista que possui um conhecimento diferenciado e relevante”. 19 Para acessar o conteúdo na íntegra e saber mais sobre o mercado de trabalho do profiler, acesse: <https://canalcienciascriminais.com.br/mercado- trabalho-profiler/>. Acesso em: 23 jan. 2020. TEMA 4 - ELEMENTOS ESSENCIAIS DO CRIMINAL PROFILING O criminal profiling pode ser aplicado a quaisquer ações criminosas violentas cometidas por muitos tipos de criminosos. Sendo assim, diferentemente do que se pensa, essa técnica não se limita a auxiliar investigações de serial killers. De acordo com Correia, Lucas e Lamia (2007, p. 596), aplica-se o criminal profiling nas seguintes situações: casos de homicídios, em série ou não; assédios e estupros, em série ou não; incêndios e explosões, em série ou não; violências voluntárias graves, em série ou não; roubos e furtos; terrorismos; corrupções pública e privada; desaparecimentos de crianças; tráficos de pessoas; sequestros; cibercrimes; ameaças de cunho político. As possibilidades são muitas, basta que exista um crime violento, um criminoso não identificado, uma ou mais vítimas e as evidências do caso (cartas, fotos dos corpos, laudos de peritos, fotografias dos locais etc.). 4.1 – A cena do crime para o criminal profiler A investigação da cena do crime é o ponto de encontro da ciência, da lógica e da lei. Desvendar uma cena de crime é um processo longo que, dentre outras coisas, envolve a coleta de quaisquer evidências que possam clarear a ocorrência e, consequentemente, apontar para possíveis suspeitos. Não há nenhuma cena, nem evidência e nenhuma condução investigativa típicas. Isto é, cada caso é um caso. Para Costa (2013, p. 109): 20 A investigação criminal, por sua vez, constitui-se como uma técnica investigativa que se vincula a diversas disciplinas científicas, no sentido de recolher o maior número de informação com vista a solucionar todos os casos criminais e levar à justiça os seus autores. Desta forma, é correto afirmar que a natureza da investigação criminal não é científica, mas antes, se prefigura como uma arte. Diante disso, nota-se que realizar um profiling na cena de um crime é um verdadeiro desafio. Afinal de contas, “é fácil contar a história de alguma coisa que vimos; porém, é muito diferente quando não a presenciamos. Ao final temos que desvendar o que aconteceu, apenas com base no que observamos [...]” (Desgualdo, 2006, p. 21). Assim, de acordo com Fiorelli e Mangini (2018, p. 344), as seguintes medidas devem ser tomadas logo de início: preservação da cena do crime; coleta de dados; classificação e tipificação do crime; reconstituição dos acontecimentos; entrevistas com as testemunhas; entrevistas com pessoas relacionadas aos protagonistas da ocorrência; elaboração do perfil do criminoso (fase inicial). Aquele que exerce a função de profiler in loco deve ter consciência e estar preparado para presenciar uma realidade dinâmica. Isto é, por mais que tudo possa estar imóvel no local, deve-se refletir sobre o movimento que ocorreu na cena. Ou seja, a sequência das ações, seja da vítima, seja do criminoso. Assim, o profiler inicia suas primeiras interpretações e hipóteses. Para isso, de acordo com o delegado Penteado Filho (2018, p. 46), o profiler deve realizar as seguintes perguntas na cena do crime: o que passou na cena do crime? por quais razões os fatos se deram? que tipo de indivíduos estão envolvidos? No que se refere à reconstituição dos acontecimentos, “há uma técnica de investigação criminal, desenvolvida em São Paulo, desde 1994, de autoria de Marco Antonio Desgualdo, denominada de ‘recognição visuográfica de local de crime’” (Penteado Filho, 2018, p. 41). De acordo com o próprio Desgualdo (2006, p. 24), a recognição visuográfica é “um conhecimento visualdo que fora pesquisado, traduzido graficamente. Não deixa de ser uma anamnésia do crime, 21 descrita, esquematizada e ilustrada fotograficamente”. Trata-se de um documento que deve ser preenchido pelos delegados investigadores. Neste documento deverão constar dados como: o local, hora, dia, condições externas ao local do crime (como clima), testemunhas, cadáver (qualificação) e seu modo de vida, a provável descrição do criminoso, seus possíveis hábitos e modus operandi, além do croqui descritivo do local e fotografias do local e dos instrumentos do crime etc. (Teixeira, 2006, p. 26) Saiba mais Recognição Visuográfica e a Lógica na Investigação Criminal, por Marco Antonio Desgualdo. Acesse: <http://tmp.mpce.mp.br/orgaos/CAOCRIM/pcriminal/files_4ca23424cfeaaLocal% 20Crime.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2020. 4.2 – As questões a serem levantadas pelo criminal profiler O criminal profiling moderno preocupa-se com a coleta de informações, tais como: traços de personalidade; transtornos mentais; tendências comportamentais; localizações geográficas; evidências biológicas de um agressor no contexto do crime, na tentativa de identificar o tipo de autor que poderia ter cometido o crime e para preencher lacunas de informação. Na literatura especializada, por exemplo, para homicídio, revelou uma grade de exigências à qual a investigação científica desse tipo de crime deve responder: o que aconteceu na cena do crime e quais foram as razões do assassinato? o homicídio foi cometido no local onde o corpo foi encontrado? quem é a vítima (quem foi morto)? quando a conduta criminosa ocorreu (quando foi morto)? como a conduta criminosa ocorreu (como a assassinato foi executado)? o assassino tomou medidas para esconder o assassinato e quais foram elas? a conduta criminosa (assassinato) foi cometida por uma ou por várias pessoas? como o(s) agente(s) do crime teve acesso à cena do crime, como ele deixou a cena do crime, por quanto tempo permaneceu no local e quais condutas criminosas cometeu? quem é (são) o(s) agente(s) da conduta criminosa (assassinato)? 22 quais são as experiências positivas e as limitações da investigação científica resultantes da resolução do caso? O resultado do perfil criminal não significa obter seu nome ou seu retrato, significa um rótulo psicológico que se aplica ao agressor e dá uma descrição de sua personalidade, referindo-se à idade, ao sexo, à etnia, às características físicas - tipo de desfiguração, peso, altura, ocupação, formação profissional, estado civil, o tipo de casa em que ele poderia estar vivendo, o tipo de carro que ele poderia estar dirigindo, distúrbios comportamentais, quaisquer defeitos de fala ou dificuldades em seus relacionamentos com os outros. TEMA 5 - OS RECURSOS VISUAIS PARA O CRIMINAL PROFILER No que se refere aos recursos visuais (evidências) em caso de homicídio, o delegado Penteado Filho (2018, p. 46) leciona: Uma investigação de homicídios em série pode acabar perdendo o foco, em virtude da quantidade de informações recebidas sobre cada uma das vítimas, por isso é recorrente exibir mapas e fotos importantes em quadros. Os mapas podem ser marcados com alfinetes coloridos para determinar o lugar onde os corpos foram encontrados, as informações secundárias e eventuais lugares de rapto. É fundamental na utilização desses recursos visuais que as fotos sejam mostradas de acordo e na ordem cronológica como ocorreram as mortes e não na ordem em que os corpos foram encontrados [...] Figura 6 - Cena da série Homeland, em que a personagem Carrie Mathison, interpretada pela atriz Claire Danes, olha para o seu quadro repleto de fotos, anotações, reportagens etc Fonte: <https://homeland.blogflop.com/2018/04/03/hellyeahomelandcarrie-mathison-on-board/>. Acesso em: 23 jan. 2020. 23 Um perfil bem elaborado pode sugerir faixa etária, gênero, nível de educação, áreas e locais que sejam familiares ao criminoso, traços de personalidade, tendências comportamentais, transtornos mentais etc. Como dito anteriormente, o objetivo do criminal profiling é ajudar uma investigação policial, reduzindo a quantidade de suspeitos. Isso ocorre a partir do momento em que as evidências são conectadas, ligadas umas às outras, de forma lógica e cronológica. Trata-se de um grande quebra-cabeça que precisa que suas peças sejam juntadas. Feito isso, um relatório pode ser elaborado para nortear a investigação, garantindo que os esforços para encontrar o criminoso sejam melhor aproveitados. Se todos os investigadores e policiais estiverem a par de todas as evidências, bem como de suas possíveis conexões, certamente estarão alertas potenciais suspeitos e suas possíveis ligações. Para esse trabalho, uma equipe multidisciplinar pode ser formada, o que é de extrema valia, desde que todos sejam bem treinados, comprometidos e que exista um bom trabalho em equipe. No que se refere à presença de profissionais das áreas pertinentes ao comportamento humano, como psicólogos, psiquiatras e criminólogos, sociólogos etc., pode-se trazer à luz insights e inferências sobre como o criminoso se comportou na cena do crime e, porventura, suposições de seus próximos passos. De acordo com a renomada psicóloga Dra. Aline Lobato Costa (2015, p. 33), mestre e doutora em Psicologia Investigativa pela Universidade de Liverpool, a Psicologia: analisa então padrão comportamental, personalidade, relação criminoso-vítima, ações na cena do crime, buscando contribuir com a tomada de decisão auxiliando a investigação criminal. O criminoso ao cometer seus crimes performa ações e estas ações vão estabelecer um padrão comportamental refletindo características desse indivíduo. E a Psicologia Investigativa se propõe a fazer inferências sobre as características de um criminoso considerando a análise das ações observadas na cena do crime. E, neste contexto, tem muito a contribuir. De fato, em muitos países não se questiona mais a importância do auxílio de psicólogo dessa área para a investigação criminal. 24 REFERÊNCIAS CASOY, I. Serial killers: louco ou cruel?. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017. CASOY, I. Serial killers: made in Brazil. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017. COELHO, A. G.; PEREIRA, T. A.; MARQUES, F. G. A responsabilidade penal do psicopata à luz do ordenamento jurídico penal brasileiro. JUS.com.br, ago. 2017. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/59573/a-responsabilidade-penal-do- psicopata-a-luz-do-ordenamento-juridico-penal-brasileiro> Acesso em: 24 jan. 2020. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” em Criminal Profiling – Psicologia Investigativa. 2015. Disponível em: <https://site.cfp.org.br/?evento=curso-de-pos-graduacao-lato-sensu-em-criminal- profiling-psicologia-investigativa>. Acesso em: 30 jan. 2020 CORREIA, E.; LUCAS, S.; LAMIA, A. Profiling: uma técnica auxiliar de investigação criminal. Análise Psicológica (2007), p595-601. Disponível em: <http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v25n4/v25n4a05.pdf> Acesso em: 24 jan. 2020. COSTA, B. Perfis psicocriminais: do estripador de Lisboa ao Profiler. Lisboa: Pactor, 2013. DESGUALDO, M. A. Recognição visuográfica e a lógica na investigação. 2006. Disponível em: <http://www.pgj.ce.gov.br/orgaos/CAOCRIM/pcriminal/files_4ca23424cfeaaLocal %20Crime.pdf> Acesso em: 24 jan. 2020. FIORELLI, J. O.; MANGINI, R. C. R. Psicologia Jurídica. 9. ed. São Paula: Atlas, 2018. GOES JUNIOR, C. M. A importância da psicologia criminal na investigação policial. Cogito, Salvador, v.13, p.32-40, nov. 2012. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519- 94792012000100005&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 24 jan. 2020. 25 HOFFMAN, H. Investigação exclusivamente criminal é atribuição da polícia judiciária. Consultor Jurídico, 27 nov. 2018. Disponível em<https://www.conjur.com.br/2018-nov-27/academia-policia-investigacao- exclusivamente-criminal-atribuicao-policia-judiciaria>. Acesso em: 24 jan. 2020. KOCSIS, R. N. Criminal profiling: principles and practice. New Jersey: Humana Press, 2006. MACHADO, N. S.; FRANCK, W. Criminal Profiling. JUS.com.br, fev. 2019. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/71897/criminal-profiling>. Acesso em: 19 dez. 2019. PENTEADO FILHO, N. S. Manual esquemático de criminologia. 8. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. ROBERTS, S. Retracing the ’50s Hunt for New York’s ‘Mad Bomber’. The New York Times. 20 abr. 2017. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2017/04/20/nyregion/retracing-the-50s-hunt-for-new- yorks-mad-bomber.html>. Acesso em: 25 jan. 2020. SILVA JUNIOR, A. S. R. A reconstituição do crime no processo penal brasileiro. JUS.com.br, out. 2004. Disponível em <https://jus.com.br/artigos/5804/a- reconstituicao-do-crime-no-processo-penal-brasileiro>. Acesso em: 25 jan. 2020. TEIXEIRA, E. F. Perícia em locais de morte: a falta de preservação adequada do local. 48f. Monografia (Graduação em Direito) – Universidade Federal do Paraná, Paraná, 2006. Disponível em: <https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/30921/710.pdf?sequence=1& isAllowed=y>. Acesso em: 25 jan. 2020. THE NEW YORKER. The Mad Bomber who terrorized Manhattan, 22 fev. 2018. Disponível em: <https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/the-mad- bomber-who-terrorized-manhattan>. Acesso em: 19 dez. 2019. TURVEY, B. E. Criminal Profiling: an introduction to behavioral evidence analysis. Ed. 4. San Diego: Elsevier (Academic Press), 2011. 26 VERAS, V. Criminal Profiling no Brasil? Canal Ciências Criminais, 23 fev. 2018. Disponível em <https://canalcienciascriminais.com.br/criminal-profiling-brasil/>. Acesso em: 25 jan. 2020. VERAS, V. O mercado de trabalho do profiler. Canal Ciências Criminais, 9 mar. 2018. Disponível em: <https://canalcienciascriminais.com.br/mercado-trabalho- profiler/>. Acesso em: 25 jan. 2020.