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AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PERFIS CRIMINAIS E 
COMPORTAMENTAIS – 
CRIMINAL MINDS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. José Benedito Caparros Junior 
 
 
2 
TEMA 1 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
Nesta aula, estudaremos pontos relevantes do universo do Criminal 
Profiling (CP), assunto vasto que, como veremos, exige muito estudo e muita 
experiência prática. Embora não seja possível abordar todo o conteúdo disponível 
no mundo sobre esse campo de estudo e ferramenta, visto que uma disciplina 
dispõe de pouco para isso, teremos acesso às informações basilares desse 
universo, que fundamentarão nossa compreensão inicial e, consequentemente, 
nos concederá um estofo teórico e crítico acerca do assunto. No decorrer desta 
aula, abordaremos os seguintes assuntos: 
 relação entre teoria e prática no criminal profiler; 
 a história e evolução do criminal profiling; 
o Libelo de sangue; 
o Dr. Thomas Bond e Jack, O Estripador; 
o Dr. James Brussel e Mad Bomber; 
 criminal profiling na contemporaneidade; 
o o campo de trabalho do criminal profiler e o propósito do criminal 
profiling; 
 elementos essenciais do criminal profiling; 
o a cena do crime para o criminal profiler; 
o as questões a serem levantadas pelo criminal profiler; 
 os recursos visuais para o criminal profiler. 
Já especificamente no primeiro tema desta aula, começaremos com uma 
breve reflexão da relação existente entre prática profissional e teoria. Trata-se do 
momento inicial desta aula, que tem por objetivo desencadear reflexões acerca 
da formação de um profiler. Existe uma necessidade urgente de tratar sobre a 
formação desse profissional, pois, conforme leciona o Delegado Penteado Filho 
(2018, p. 46): 
Neste sentido – é bom que se diga –, a técnica de perfil criminal não 
pode ser exercida por qualquer pessoa, sob pena de indivíduos neófitos, 
despreparados e mal-intencionados usurparem tal arte, com 
consequências e resultados desastrosos, quer do ponto de vista jurídico, 
quer do ponto de vista ético, moral ou social. Portanto, ressalta-se, 
apenas policiais mais experientes na investigação (polícia judiciária) 
estarão aptos a legitimar tal técnica investigativa. 
 
 
3 
Tais policiais, quando recebem bons treinamentos, podem sentir-se aptos 
a realizar algumas das abordagens de criminal profiling. Mas, quando se 
depararem com casos mais difíceis e que sentem a necessidade de auxílio 
especializado, esses policiais também podem solicitar auxílio de um perito no 
assunto, os quais podem ser criminólogos, psicólogos, psiquiatras, sociólogos etc. 
Criminal profiling não é uma técnica fácil de ser posta em prática e, por essa razão, 
frente a casos mais complexos, uma equipe multidisciplinar pode ser formada. 
Assim, pode-se perceber que se trata de uma “perícia pluridisciplinar, logo, 
dificilmente um só indivíduo pode pretender reunir tais características” (Correia; 
Lucas; Lamia, 2007, p. 595). 
Posteriormente, nos temas subsequentes, caminharemos desde alguns 
importantes momentos históricos do criminal profiling até chegarmos a duas 
abordagens mais conhecidas de criminal profiling. 
1.1 - A relação entre teoria e prática 
Para o mundialmente renomado psicólogo forense Brent Turvey (2011), 
uma autoridade desse assunto na atualidade, inicialmente precisamos notar que 
a técnica de criminal profiling, ou apenas profiling, envolve a aplicação das 
ciências comportamentais à criminologia e ao campo jurídico. Dada essa 
interação entre ambos os conhecimentos, é difícil argumentar que se pode ser um 
analista comportamental qualificado em profiling, se não possuir uma sólida 
educação em pelo menos uma das ciências comportamentais (por exemplo: 
Psicologia, Psiquiatria, Sociologia, Criminologia etc.). Como veremos ao decorrer 
desta aula, o profiling deve ser feito por peritos, cada qual aplicando os 
conhecimentos de suas respectivas áreas, e por policiais (investigadores) 
devidamente treinados para a utilização dessa técnica. 
Ao lado dessas ciências, também se faz indispensável a formação na área 
jurídica, em especial às suas ramificações penais. Essa sólida formação, que não 
é fácil de ser obtida, proporcionará ao profiler uma compreensão teórica e prática 
do comportamento humano, bem como de sua aplicação ao mundo do jurídico 
(Turvey, 2011). 
Na jornada de estudo e/ou da prática laboral do criminal profiling, verifica-
se que alguns alunos e profissionais tendem a se identificar mais com alguma das 
ciências acima citadas. Em outras palavras, o caminho educacional de um profiler 
será chefiado pela ciência que mais se identificou, mas nunca somente por ela. 
 
 
4 
Assim, naturalmente, verifica-se que alunos e profissionais acabam por eleger 
uma dessas ciências para se especializar, aperfeiçoar e profissionalizar. Não há 
absolutamente nada de errado com isso. Pelo contrário, é importante que o 
estudante, sobretudo na qualidade de pesquisador, e o profissional, na qualidade 
de perito ou investigador, afunilem o seu conhecimento em uma dessas ciências. 
Esse é o cenário ideal. Por exemplo, é possível que um determinado profiler em 
formação prefira aprofundar seus estudos em Sociologia e/ou Criminologia, uma 
vez que ele tenha mais interesse sobre a questão da violência urbana. Em outro 
exemplo, é notável que um outro profiler também em formação se aprofunde mais 
em Psicologia, uma vez que ele se interesse mais pelos processos mentais e 
comportamentais de pessoas. Ao lado dessas possíveis especializações, friso que 
é imprescindível conhecimento na área do direito, sobretudo no direito penal, visto 
que a atuação será aplicada nesse campo. 
Contudo, o preparo de um sujeito para o mercado de trabalho não depende 
apenas da educação formal. A experiência prática é de importância inquestionável 
para esse processo de formação. A educação formal e a prática andam de mãos 
dadas, sem que se estabeleça uma hierarquia entre ambas. Assim, um sujeito que 
opte por ser profiler atuante em cenas de crime deve possuir conhecimento teórico 
e, consequentemente, longa experiência prática. 
A experiência prática é importante para o desenvolvimento de novos 
conhecimentos, técnicas e habilidades para aqueles que, porventura, almejam 
investigar crimes e aplicar os conhecimentos teóricos e científicos do criminal 
profiling em um caso em investigação. A experiência prática também permite ao 
sujeito que, por vezes, esteja correto em suas análises, e que, por vezes, esteja 
incorreto. Os acertos devem ser reforçados e os erros devem ser corrigidos. 
Dessa forma, aprende-se a reconhecer seus pontos fortes e fracos, seus acertos 
e erros, bem como a buscar por mais e mais aprimoramento. A experiência prática 
é acumulada a partir de estágios formais, prática supervisionada, treinamentos 
fornecidos no trabalho e, claro, da vida em geral. 
No entanto, as experiências práticas adquiridas e acumuladas devem ser 
relevantes e, para que tenham qualquer valor, devem estar em consonância com 
a teoria das ciências mencionadas e com os métodos científicos. Assim, evita-se 
especulações, senso comum, julgamentos infundados etc. É por isso que, mais 
comumente, a educação formal antecede a experiência prática. A teoria e os 
 
 
5 
métodos científicos fornecem subsídios para o pensamento crítico e para a 
reflexão do profissional em seu dia a dia laboral. 
Contudo, encontramos alguns obstáculos no que diz respeito às 
contribuições teóricas sobre o CP e às possibilidades de aplicá-las e testá-las em 
investigações. 
Veras (2018, [S.p.]), especialista em criminal profiling, afirma que “a área 
do Criminal Profiling ainda está em fase inicial no Brasil e no mundo”. Neste 
mesmo sentindo e em complementação à essa afirmação, Machado e Franck 
(2019), afirmam que existe uma carência de estudos sobre o tema em nosso país. 
De acordo com Machado e Franck (2019, [S.p.]) “o Criminal Profiling noBrasil 
ainda é pouco estudado em termos científicos”. Desse modo, por ser uma área do 
conhecimento principiante e por haver muitas pesquisas ainda em andamento, 
torna-se uma tarefa difícil dissertar sobre o Criminal Profiling. 
Contudo, isso não significa que tenhamos grandes nomes na área. Para 
além de Veras e Machado e Franck, recém-citados, há outros notórios estudiosos 
e profissionais brasileiros na área, tais como: a psicóloga e Doutora em Psicologia 
Investigativa, Dra. Aline Lobato Costa; o Psiquiatra Forense, Dr. Guido Arturo 
Palomba; o Delegado e Mestre em Direito Processual Penal, Me. Nestor Sampaio 
Penteado Filho; a Especialista em criminologia, Ilana Casoy; a advogada e 
psicóloga jurídica, Me. Rosana Cathya Ragazzoni Mangini; e outros tão notórios 
e importantes quanto esses. 
Note que os nomes citados acima possuem formações em áreas distintas, 
mas que apresentam uma forte zona de convergência: o estudo do 
comportamento humano e sua aplicação às questões criminais e penais. Por 
vezes, as contribuições de cada um desses renomados profissionais podem 
divergir em um ou outro ponto. Contudo, tais divergências, as quais estão 
pautadas nos caminhos que cada um percorreu para se profissionalizar, devem 
ser entendidas pelos estudantes como informações complementares, e não como 
informação correta ou errada. Quanto mais tivermos contribuições de distintas 
áreas sobre o criminal profiling e com diferentes olhares sobre esse objeto, mas 
essa área do conhecimento e os estudantes e profissionais se beneficiarão e se 
desenvolverão. 
Diante de tudo que foi exposto acima, pode-se afirmar que a 
Psicopatologia, Psicologia, Sociologia, Criminologia e o Direito se casam quando 
se trata de CP. Portanto, estamos falando de uma área do saber transdisciplinar. 
 
 
6 
Em outras palavras, um campo de estudo e de atuação que necessita da interação 
entre diferentes áreas do saber e que, consequentemente, estabeleçam entre si 
cooperação. Por conta disso, o CP é uma área (técnica) que precisa estar atenta 
às constantes inovações no campo das ciências do comportamento e no campo 
jurídico, bem como precisa se lapidar dia a dia para atender às demandas e às 
mudanças que a sociedade impõe. 
No entanto, antes de começarmos nosso estudo sobre os atuais métodos 
e fundamentos do criminal profiling, devemos primeiro entender o seu percurso 
histórico. Isso é feito na esperança de que possamos desvendar como chegamos 
a este espaço e tempo. A contribuição da história é de fornecer-nos um olhar para 
trás e, a partir disso, avaliarmos o nosso progresso, visualizarmos os marcos, 
entendermos nossa posição na História. Em outras palavras, a História permite 
que entendamos o que fomos, o que somos e o que possivelmente nos 
tornaremos. Ela nos lembra de onde veio nosso conhecimento e nossa sabedoria, 
concedendo-nos embasamento crítico para questionar e argumentar frente 
àqueles que só possuem contato com o contemporâneo. A História nos ensina 
que as doutrinações dominantes vigentes, seja em nosso país ou em outros 
países, são apenas temporárias. A História espera pacientemente que mentes 
insatisfeitas a descubra e, a partir disso, pode-se inferir com razão que o objetivo 
de estudar História não é apenas aprender fatos para posterior diálogo 
acadêmico, a fim de parecer intelectual, mas é sobre voltar para ver o que veio 
antes, a fim de avaliar honestamente onde estamos, porque estamos e para onde 
podemos ir. 
TEMA 2 – CRIMINAL PROFILING: A HISTÓRIA 
Diferentes estudiosos determinam divergentes pontos de partida e 
acontecimentos para traçar uma linha histórica da evolução do criminal profiling. 
Não existe um consenso sobre a primeira vez que essa ferramenta tenha sido 
aplicada. Além disso, nem sempre o criminal profiling foi usado para o bem, ou 
seja, para tentar identificar criminosos violentos e, consequentemente, puni-los. 
Pensar assim é limitar-se a uma compreensão atual do criminal profiling. Por isso 
a importância do estudo histórico, já que ele pode nos mostrar que mesmo as mais 
belas invenções e ferramentas já foram usadas com as finalidades mais 
hediondas e sombrias. 
 
 
7 
Alguns estudiosos afirmam que a história do criminal profiling inicia na 
Idade Média, já outros defendem que essa ferramenta concebida e aplicada pela 
primeira vez no século XX, sob os auspícios do FBI. Todas essas visões e 
afirmações estão corretas, uma vez que cada estudioso estipulou critérios para 
determinar suas pesquisas. 
Para que esse estudo histórico não se torne exaustivo, mas cumpra com o 
seu objetivo, o de fornecer fundamentos críticos aos alunos, discutiremos alguns 
marcos históricos, cuja finalidade é apresentar, de forma didática, alguns dos 
principais momentos históricos do criminal profiling. 
2.1 - Libelo de sangue 
Pode-se afirmar que, na Idade Média, surgiram as primeiras práticas de 
criminal profiling, embora elas tenham sido aplicadas da forma mais hedionda, 
repugnante e injusta possível. Segundo Turvey (2011), nesse período ocorreu um 
dos primeiros usos documentados de criminal profiling, época em que havia uma 
cruel “demonização” de judeus naquela sociedade, os quais eram falsamente 
acusados de sacrificar crianças em rituais religiosos, para obter seus sangues 
para a produção de pães sem fermento (matzá), que viriam a ser servidos na 
Páscoa Judaica. 
O libelo de sangue, ou calúnia de sangue, é considerado por alguns 
estudiosos como uma forma precoce do criminal profiling, já que envolvia um 
conjunto predeterminado de características relacionadas ao crime, que acusava 
um determinado grupo: os judeus. Ainda de acordo com as contribuições de 
Turvey (2011), o perfil geral utilizado incluiu um ou mais dos seguintes elementos: 
 um jovem cristão desaparece; 
 uma comunidade judaica está nas proximidades; 
 a criança desaparece pouco antes da Páscoa; 
 o corpo pode ter lesões que parecem ser o resultado de um ritual; 
 o corpo pode ter perdido alguma quantidade de sangue. 
A comunidade judaica, neste espaço e tempo, enfrentou bárbaras, cruéis e 
infundadas acusações. Rapto, tortura e assassinato, calúnias alimentadas por 
sentimentos antissemitas da época. Ressalta-se: as acusações são caluniosas, 
intencionalmente falsas e hediondas. O libelo de sangue não é, portanto, 
 
 
8 
considerado apenas um dos primeiros usos do criminal profiling, mas também 
uma das primeiras formas documentais de seu incipiente e pior uso. 
Figura 1 – Gravura alemã do livro Crónica de Nuremberg, publicado em latim e 
em alemão em 1493, representando o dito martírio de um menino italiano 
chamado Simão de Trento, supostamente pelas mãos de judeus 
 
Fonte: Hartmann schedel/PD 
Pessoas ou povos foram perseguidos na história, fato repugnante e que 
precisa ser lembrado, a fim de que a espécie humana não cometa os mesmos 
erros do passado. Infelizmente, esse é apenas um dos casos de perseguições em 
que técnicas rudimentares e pré-científicas foram utilizadas para estabelecer 
algum tipo de perfil. 
2.2 Dr. Thomas Bond e Jack, O Estripador 
Já de acordo com outros estudiosos do criminal profiling, o início do criminal 
profiling informal remonta ao ano de 1888, quando pistas da cena do crime foram 
usadas para fazer previsões sobre a personalidade de um famoso serial killer 
britânico: Jack, o Estripador. 
A história de Jack, o Estripador, envolve assassinatos extremamente 
brutais de cinco prostitutas. Essas ocorrências aconteceram entre agosto e 
novembro de 1888, em Londres, na Inglaterra. Segundo relatos históricos, o autor 
 
 
9 
desses assassinatos se autonomeava Jack, o Estripador. Essa autonomeação 
ocorria por meio de cartas que o próprio enviava à polícia de Londres, pelas quais 
informava que ele era o autor desses assassinatos. Inicialmente, a polícia de 
Londres acreditava que o Estripador era um médico, devido aos cortes 
encontradosnos corpos das vítimas. Esse caso foi a primeiro caso de serial killer 
na história a causar um frenesi generalizado na mídia. 
Figura 2 – O corpo de Mary Jane Kelly, a última vítima de Jack Estripador 
 
Fonte: History and art collection / Alamy /fotoarena 
Diante desse assombroso assassino, a polícia inglesa, totalmente perdida, 
solicitou ajuda ao Dr. Thomas Bond, médico que realizou o profiling do assassino, 
caso frequentemente citado como a primeira aplicação de técnicas de criminal 
profiling. Dr. Thomas Bond usou os resultados das autópsias e as evidências da 
cena do crime para fazer previsões rudimentares. 
 
 
 
10 
Figura 3 – O médico inglês, Thomas Bond (1841 – 1901) 
 
Fonte: CC/PD 
Em seu relatório escrito depois de examinar as provas forenses 
disponíveis, incluindo os corpos, Thomas Bond concluiu que todos os cinco 
assassinatos, sem dúvida, foram cometidos pela mesma mão, pois: 
 as mulheres foram deitadas no momento de seus assassinatos; 
 as primeiras mutilações foram nas gargantas. 
Além disso, Dr. Bond também afirmou que Jack não tinha conhecimento de 
cirurgia médica e que era um homem forte, solitário e ousado. Esta declaração 
ousada do Dr. Bond se opôs diretamente ao que as autoridades policiais haviam 
concluído anteriormente, que Jack, o Estripador, era médico ou tinha treinamento 
médico devido ao fato de que ele havia removido órgãos internos de algumas de 
suas vítimas. Dr. Bond chegou a sua conclusão depois de notar que as feridas 
escancaradas infligidas pelo Jack não eram consistentes com a formação de um 
médico especialista ou "mesmo o conhecimento técnico de um açougueiro ou 
matadouro de cavalos" (The New Yorker, 2018). 
Na opinião de Bond, o assassino deve ter sido um homem de hábitos 
solitários, sujeito a ataques periódicos de mania homicida e erótica, e o caráter 
das mutilações possivelmente indicando desejo sexual incontrolável. 
Além disso, esse caso gerou um excesso de absurdas teorias 
conspiratórias sobre sua identidade ao longo dos anos. Na verdade, existem pelo 
menos 100 teorias diferentes sobre a sua identidade. Uma das mais fantasiosas 
 
 
11 
envolve uma conexão da família real britânica com os maçons, teoria retratada no 
filme From Hell, de 2001. Na verdade, grande parte da história de Jack, O 
Estripador, é pura lenda. 
Embora o caso não tenha sido desvendado, as contribuições do Dr. Bond 
marcaram a história. Para muitos estudiosos, é nesse contexto que se inicia, 
mesmo que informalmente, o uso do criminal profiling. 
2.3 Dr. James Brussel e Mad Bomber 
Entre os anos de 1940 e 1957, um sentimento de pânico assombrava a 
cidade de Nova Iorque. Durante esse período, bombas em locais públicos eram 
instaladas e acionadas, incluindo cinemas e teatros. Foram mais de 36 bombas 
caseiras encontradas, todas praticamente fabricadas da mesma forma e com 
praticamente os mesmos materiais. Tudo indicava que o autor desses ataques, 
naturalmente, era a mesma pessoa. Como a identidade do autor permaneceu 
desconhecida por um longo, aproximadamente 16 anos, a população e os jornais 
passaram a chamá-lo de Mad Bomber, que em português pode ser traduzido 
como Bombardeador Maluco. Seus alvos incluíam Radio City Music Hall, Grand 
Central Station, Penn Station, cinemas, cabines telefônicas e diversos outros 
locais públicos em toda a cidade. 
O primeiro ataque do Mad Bomber ocorreu no dia 16 de novembro, de 
1940. Uma bomba caseira foi inserida em uma caixa de ferramentas de madeira, 
que posteriormente foi deixada no peitoral de uma das janelas do edifício da 
empresa Consolidated Edison, em Manhattan. 
Não havia testemunhas. Isto é, ninguém viu quem a deixou ou de onde ela 
tinha vindo. Quando foi aberta, pelos próprios trabalhadores dessa empresa, 
encontraram a bomba caseira. Ao redor do lado de fora do dispositivo havia uma 
nota, escrita à mão em letras maiúsculas (The New Yorker, 2018): 
“CON. EDISON BANDIDA, ISSO É PARA VOCÊ”. 
Depois de uma investigação realizada no local e com os funcionários e 
dirigentes dessa empresa, a polícia não encontrou muitas pistas e, naturalmente, 
chegou a muitas conclusões. Uma das únicas e talvez a mais importante foi de 
que a bomba foi posta no local para não explodir, mas sim para passar a 
mensagem que estava contida dentro da caixa. No decorrer dos anos, mais 
bombas foram instaladas, muitas sem notas. Contudo, embora não envoltas nas 
 
 
12 
bombas, o Mad Bomber costumava se comunicar com a polícia e com a imprensa 
a partir de pequenas notas escritas com letras maiúsculas. 
Durante o período em que o Mad Bomber não havia sido identificado e, 
consequentemente, pego pela polícia, um total de quinze pessoas ficaram feridas. 
Incrivelmente, ninguém foi morto pelos ataques. Contudo, o medo e o terror só 
aumentavam, visto que a paranoia de que uma bomba mais potente pudesse a vir 
ser instalada em um local tumultuado, acarretando uma tragédia sem 
precedentes. A polícia local conduziu as investigações por aproximadamente 16 
anos, mas, mesmo assim, não conseguiram identificar o criminoso, o que fez com 
que o sentimento de pânico da população só aumentasse. Esse caso provou ser 
um tormento para a polícia. 
Frustrado após 16 anos de investigação, o inspetor Howard Finney, do 
laboratório criminal da Polícia de Nova Iorque, buscou ajuda especializada. Ele 
contatou o Dr. James Brussel, um psiquiatra. Dr. Brussel desenvolveu um perfil 
elaborado em dezembro de 1956 e previu que o Mad Bomber possuía as 
seguintes características: 
 homem estrangeiro e de ascendência do leste europeu; 
 com idade entre 40 e 50 anos; 
 solteiro que vive com parentes do sexo feminino; 
 homem barbeado, bem vestido e com porte atlético; 
 sofria de paranoia. 
Além desses pontos, havia curiosa previsão do Dr. Brussel: o Mad Bomber 
teria preferência por ternos com duas fileiras de botões. A partir das contribuições 
do Dr. Brussel, encontraram o homem por trás do pseudônimo Mad Bomber. 
Tratava-se de George Metesky, um homem pesado, polonês, de meia-idade, que 
vivia apenas com sua irmã e que, impressionantemente, gostava de ternos com 
duas fileiras de botões. 
Para estudar fotos das cenas do crime, bem como notas escritas à mão 
enviadas à polícia pelo homem-bomba, Dr. Brussel baseou-se em sua larga 
formação em Medicina e em sua experiência em assuntos ligados à Psicologia, 
visto que era um psiquiatra. O Dr. Brussel sabia que a paranoia clínica tende a 
atingir o pico em torno de trinta e cinco anos na população em geral. Portanto, ele 
argumentou que, em 1956, dezesseis anos após seu primeiro bombardeio, o autor 
provavelmente estaria em seus cinquenta anos. 
https://www.britannica.com/topic/New-York-City-Police-Department
https://www.britannica.com/science/psychiatry
https://www.britannica.com/topic/criminal-profiling
 
 
13 
Figura 5 – George Metesky, o Mad Bomber, sendo levado pela polícia 
 
Fonte: <https://www.wglt.org/post/unabomber-mad-bomber-look-past-serial-bombers-
0#stream/0>. Acesso em: 23 jan. 2020. 
Ao ser capturado pela polícia de Nova Iorque, George Metesky confessou 
os atentados imediatamente. O Mad Bomber, Geroge Metesky, foi detido uma 
noite em sua casa. Contudo, antes de ser levado pela polícia, Metesky foi 
autorizado a trocar os pijamas que vestia por uma outra roupa e Metesky vestiu 
um terno azul, com duas fileiras de botões. Sua prisão foi em janeiro de 1957, ele 
foi considerado inocente por insanidade no tribunal e internado em um hospital 
psiquiátrico estadual. Metesky permaneceu lá até sua libertação em 1973, quando 
especialistas médicos determinaram que ele não era mais uma ameaça à 
sociedade. Ele morreu em 1994, com a idade de noventa anos. 
As percepções notáveis do Dr. Brussel no caso do Mad Bomber de Nova 
Iorque inspirou a pesquisa e o desenvolvimento do criminal profiling pelo FBI. 
Aproximadamente ao mesmo tempo, inúmeros outros estudiososindividuais 
preocupados com o fenômeno do crime violento em série também investigaram o 
conceito do criminal profiling. Com a prevalência aparentemente crescente de 
crimes violentos em série, o interesse nesse conceito ganhou impulso e levou ao 
desenvolvimento de outras escolas de pensamento formalizadas sobre o tema. 
 
 
14 
TEMA 3 – Criminal profiling na contemporaneidade 
São muitos os termos e as definições encontrados para criminal profiling. 
Portanto, é completamente natural e esperado que estudantes e profissionais das 
áreas das ciências criminais se deparem com termos e conceitos distintos e, por 
vezes, aparentemente conflitantes. Na literatura especializada sobre o assunto, 
os termos criminal profiling e profiling são os mais comumente encontrados. Esses 
termos se referem à técnica de elaboração do perfil de um criminoso. Ao lado 
desses termos, encontra-se também os termos criminal profiler e profiler, que 
designam os profissionais que elaboram o perfil de um criminoso. 
Quadro 1 – Definição do termo 
TERMOS LÍNGUA INGLESA TERMOS LÍNGUA PORTUGUESA 
Criminal profiling Perfil criminal 
Profiling Perfilamento 
Criminal profiler Perfilador criminal 
Profiler Perfilador 
Esses termos costumam ser utilizados de modo generalista. Isso ocorre 
porque, até agora, não há uma definição universalmente para criminal profiler e 
para profiler, visto que ainda existe uma carência de publicações científicas na 
área e devido à profissão ainda não ser regulamentada (Veras, 2018). 
Além disso, outros termos para criminal profiling podem ser facilmente 
encontrados na literatura nacional e internacional, tais como: offender profiling 
(perfil do agressor), psychological profiling (perfil psicológico), investigative 
profiling (perfil investigativo), crime scene profiling (perfil da cena do crime), 
criminal behavior profiling (perfil do comportamento criminoso), bem como tantos 
outros (Correia; Lucas; Lamia, 2007). 
Para esta disciplina, utilizaremos os termos criminal profiling, ou somente 
profiling, para a técnica de perfilamento criminal e criminal profiler, ou somente 
profiler, para o profissional que aplica essa técnica. A utilização da terminologia 
inglesa não é por pedantismo! A intenção passa bem longe disso. 
É preferível utilizar esses termos em inglês, bem como enfatizá-los em 
nossas aulas, pois boa parte da literatura disponível sobre o assunto está 
publicada em língua inglesa e, além disso, muitas publicações na língua 
portuguesa também adotam os termos em inglês. Trata-se de um anglicismo, 
fenômeno linguístico presente em inúmeros países, onde a língua oficial não é a 
 
 
15 
inglesa. Neste momento, não nos cabe julgar o uso do anglicismo. Precisamos, 
apenas, assegurar-nos de que esses termos não passem despercebidos em 
leituras complementares a serem realizadas no futuro, sejam leituras nacionais, 
sejam leituras internacionais. 
Já no que se refere aos mais variados conceitos atribuídos ao criminal 
profiling, destacaremos a visão e as delimitações de autores brasileiros e 
estrangeiros. Para começar, partiremos de renomadas e renomados 
pesquisadores e profissionais brasileiros da área: 
O Criminal Profiling consiste na aplicação de forma sistemática dos 
conhecimentos da ciência psicológica ao comportamento criminal, 
proporcionando informação advinda da cena do crime para auxiliar na 
investigação policial, bem como na captura de um agressor 
desconhecido [...]. O comportamento do criminoso se revela através do 
seu crime (Pedro, 2015, p. 300). 
O perfilamento criminal, ou simplesmente perfil criminal, (criminal 
profiling), reflete a aplicação de conhecimentos múltiplos (psicologia, 
criminologia, antropologia, sociologia, biologia, geografia etc.). A efetiva 
análise das características de autores de delitos relaciona-se ao 
profiling, que é, em verdade, uma técnica de investigação policial voltada 
à sincronia entre personalidade e comportamento criminal. Ao profiling 
são indispensáveis a compreensão do crime e do criminoso (Penteado 
Filho, 2018, p. 46). 
[...] uma ferramenta investigativa disponível para ajudar a solucionar um 
crime. [...] ele nos indica um tipo de criminoso, talvez rascunhe seu 
histórico psicológico, possivelmente a sua aparência física, tipo de 
profissão, possível local de residência ou estado civil, entre outras 
coisas. [...] É processo lógico e racional baseado em estudos 
psicológicos e sociológicos. [...] sem dúvida é uma arma importantíssima 
na investigação criminal (Casoy, 2017, p. 44) 
Já no que se refere às definições empregadas ao termo criminal profiling, 
elaboradas por autores estrangeiros, destacaremos as seguintes: 
De um modo geral, o perfil criminal envolve fazer inferências sobre as 
características físicas, habituais, emocionais, psicológicas e até 
vocacionais dos criminosos. No entanto, existem muitos métodos 
diferentes de perfil criminal, e todos variam em relação à solidez da teoria 
subjacente, lógica e discernimento (Turvey, 2011, p. 15). 
 
[...] o criminal profiling representa um processo pelo qual 
comportamentos e/ou ações exibidos em um crime são avaliados e 
interpretados para formar previsões sobre as características do provável 
perpetrador do crime (Kocsis, 2006, p. 2.) 
 
 
 
16 
Mas diante de tantas contribuições, faz-se necessário que para esta aula 
seja acordada uma definição norteadora para os nossos estudos. Desse modo, 
proponho que entendamos o criminal profiling da seguinte forma: é tanto uma área 
de estudos transdisciplinar quanto uma poderosa ferramenta complementar ao 
processo de investigação de crimes em que o delinquente é desconhecido, 
permitindo-nos realizar inferências sobre as características físicas, 
comportamentais, emocionais (imagem psicossocial). 
Conforme leciona o Delegado Penteado Filho (2018, p. 48), “a elaboração 
de perfis é uma espécie de engenharia reversa do crime”. Contudo, embora muito 
útil, o profiling “jamais poderá substituir o tradicional trabalho da polícia” (Casoy, 
2017, p. 46). O profiling não tem por objetivo e não pode por si identificar com 
precisão um criminoso. Ou seja, “apesar de glorificada pelo cinema e pela 
imprensa, sobretudo nos EUA, a técnica policial do perfil criminal sozinha não 
resolve o crime” (Penteado Filho, 2018, p. 46). Na prática, o criminal profiling pode 
ser visto como uma técnica complementar da investigação criminal. De modo 
generalista, o profiling objetiva estreitar o campo de suspeitos. É justamente nesse 
objetivo geral que reside sua importância, “devido ao fato de delimitar na 
investigação policial o número de suspeitos” (Pedro, 2015, p. 300). Cabe ressaltar 
que o criminal profiling “utilizando a psicologia, já é utilizado em países como 
Estados Unidos e Inglaterra há muitos anos, embora no Brasil ainda sejam 
contribuições bastante pontuais” (Silva, 2015, p. 307). Nesses países 
estrangeiros, o criminal profiling “obtêm êxito nas investigações [...] a fim de evitar 
o cometimento de novos delitos e ajudar a Justiça a firmar a sua responsabilização 
penal” (Pedro, 2015, p. 301). 
3.1 O campo de trabalho do criminal profiler 
O profiler é um especialista em criminal profiling, descrito na literatura como 
um profissional altamente capacitado e com experiência prática no assunto, que 
tem por objetivo fornecer à investigação algumas informações personalizadas 
sobre um determinado tipo de criminoso. Conforme melhor aponta Casoy (2017, 
p. 47), o profiling pode ser realizado por “[...] um psicólogo, psiquiatra ou médico-
legista [...]”. Porém, como enfatiza a autora, esses profissionais não substituem o 
trabalho da polícia. 
No que se refere à polícia, faz-se necessário ressaltar que o criminal 
profiling não compreende todo o processo de investigação criminal, “é importante 
 
 
17 
registrar que é uma técnica de investigação policial” (Penteado Filho, 2018, p. 47). 
Como a investigação criminal é uma “tarefaexclusiva da polícia judiciária” 
(Hoffmann, 2018, [S.p.]), logo, majoritariamente são os policiais investigadores os 
profilers em uma cena de crime. Contudo, o quadro de servidores da polícia pode 
ser composto por profissionais de várias áreas, bem como são altamente 
qualificados para todo o processo de investigação criminal (Academia de Polícia). 
Desse modo, psicólogos, psiquiatra e outros profissionais das áreas das 
ciências comportamentais podem fazer parte do quadro da polícia, conforme 
explica Goes Júnior (2012, p. 33): 
Hoje podemos constatar que já existem, nos quadros da polícia, 
profissionais (por exemplo, psicólogos, psiquiatras) que podem ser 
capacitados para executarem esse tipo de investigação. Importante 
ressaltar que, tanto no processo de formação quanto no de 
aperfeiçoamento, deverão ser ministrados, também, conhecimentos 
acerca do Direito Penal e da Legislação Especial Penal, para que o 
profissional fique habilitado a produzir um trabalho orientado por normas 
legais, buscando elementos de convicção que auxiliem na identificação 
da autoria, materialidade e circunstâncias do cometimento da infração 
penal, possibilitando ao Ministério Público oferecer a denúncia. 
Porém, o trabalho de um profiler não se restringe apenas à investigação 
formal, realizada no âmbito da polícia civil, por exemplo. De acordo com o 
Conselho Federal de Psicologia – CFP (2015, [s.p.]), um profiler pode atuar de 
várias maneiras: 
 assistente técnico, fornecendo pareceres, quando solicitado judicialmente 
por algumas das partes (defensoria ou acusação); 
 consultoria e assessoria para investigadores, policiais, delegados, atores 
jurídicos; 
 consultoria e assessoria para escritores, roteiristas e diretores de filmes e 
novelas, por exemplo, dada o claro e crescente interesse que essa área 
desperta no público; 
 ensino de diferentes disciplinas associadas ao Criminal Profiling, seja em 
instituições de ensino ou empresas, ou mesmo em Academias de Polícia 
quando requisitados ou aprovados em concursos específicos para vagas 
de docente; 
 peritos criminais, caso aprovados em concurso da Polícia Civil ou Federal, 
incentivando e auxiliando no uso dessa estratégia; 
 
 
18 
 funcionários de empresas de segurança para evitar a ocorrência de crimes 
(mesmo fraudes) e seguradoras, com embasamento em seu conhecimento 
sobre a atuação criminal; 
 Desenvolvimento de pesquisas acadêmicas sobre mapeamento geográfico 
criminal, comportamento verbal e não verbal, Psicologia Investigativa, 
Criminologia, entre diversos outros. 
Quando se trata especificamente de investigações criminais, os 
profilers podem ser úteis para: 
 reproduzir, a partir de seu aporte técnico científico, as circunstâncias e 
ações tomadas pelo agente da conduta criminosa, fornecendo "o filme do 
crime em sua dinâmica" para as autoridades judiciais; 
 inferir o perfil do agressor, fornecendo "seus traços de personalidade" para 
as autoridades de acusação; 
 buscar antecipar "o próximo comportamento esperado", contrariando 
futuros "atos" do autor pela intuição dos versos ideais com grau razoável 
de credibilidade em sua identificação. 
É importante ressaltar que, tal como os policiais detêm exclusividade em 
certas atividades laborais, psicólogos e psiquiatras também as detêm. Por 
exemplo, a Avaliação Psicológica, assunto que estudamos anteriormente, é 
função exclusiva do psicólogo. Por sua vez, é função exclusiva de médicos realizar 
diagnósticos e tratamentos medicamentosos. 
Lembre-se de que a avaliação psicológica e profiling não são a mesma 
coisa, embora pareçam similaridades. 
Saiba mais 
O mercado de trabalho do profiler 
De acordo com a advogada especialista em criminal profiling e autora de 
publicações no site Canal Ciências Criminais, Verônyca Veras (2018, [S.p.]), “não 
existe um limite para o que pode ser aproveitado e tudo vai depender da abertura 
e da criatividade do profissional disposto a atuar para o seu aperfeiçoamento e 
evolução do seu ambiente de trabalho, tendo em vista que possui um 
conhecimento diferenciado e relevante”. 
 
 
19 
Para acessar o conteúdo na íntegra e saber mais sobre o mercado de 
trabalho do profiler, acesse: <https://canalcienciascriminais.com.br/mercado-
trabalho-profiler/>. Acesso em: 23 jan. 2020. 
TEMA 4 - ELEMENTOS ESSENCIAIS DO CRIMINAL PROFILING 
O criminal profiling pode ser aplicado a quaisquer ações criminosas 
violentas cometidas por muitos tipos de criminosos. Sendo assim, diferentemente 
do que se pensa, essa técnica não se limita a auxiliar investigações de serial 
killers. De acordo com Correia, Lucas e Lamia (2007, p. 596), aplica-se o criminal 
profiling nas seguintes situações: 
 casos de homicídios, em série ou não; 
 assédios e estupros, em série ou não; 
 incêndios e explosões, em série ou não; 
 violências voluntárias graves, em série ou não; 
 roubos e furtos; 
 terrorismos; 
 corrupções pública e privada; 
 desaparecimentos de crianças; 
 tráficos de pessoas; 
 sequestros; 
 cibercrimes; 
 ameaças de cunho político. 
As possibilidades são muitas, basta que exista um crime violento, um 
criminoso não identificado, uma ou mais vítimas e as evidências do caso (cartas, 
fotos dos corpos, laudos de peritos, fotografias dos locais etc.). 
4.1 – A cena do crime para o criminal profiler 
A investigação da cena do crime é o ponto de encontro da ciência, da lógica 
e da lei. Desvendar uma cena de crime é um processo longo que, dentre outras 
coisas, envolve a coleta de quaisquer evidências que possam clarear a ocorrência 
e, consequentemente, apontar para possíveis suspeitos. Não há nenhuma cena, 
nem evidência e nenhuma condução investigativa típicas. Isto é, cada caso é um 
caso. Para Costa (2013, p. 109): 
 
 
20 
A investigação criminal, por sua vez, constitui-se como uma técnica 
investigativa que se vincula a diversas disciplinas científicas, no sentido 
de recolher o maior número de informação com vista a solucionar todos 
os casos criminais e levar à justiça os seus autores. Desta forma, é 
correto afirmar que a natureza da investigação criminal não é científica, 
mas antes, se prefigura como uma arte. 
Diante disso, nota-se que realizar um profiling na cena de um crime é um 
verdadeiro desafio. Afinal de contas, “é fácil contar a história de alguma coisa que 
vimos; porém, é muito diferente quando não a presenciamos. Ao final temos que 
desvendar o que aconteceu, apenas com base no que observamos [...]” 
(Desgualdo, 2006, p. 21). Assim, de acordo com Fiorelli e Mangini (2018, p. 344), 
as seguintes medidas devem ser tomadas logo de início: 
 preservação da cena do crime; 
 coleta de dados; 
 classificação e tipificação do crime; 
 reconstituição dos acontecimentos; 
 entrevistas com as testemunhas; 
 entrevistas com pessoas relacionadas aos protagonistas da ocorrência; 
 elaboração do perfil do criminoso (fase inicial). 
Aquele que exerce a função de profiler in loco deve ter consciência e estar 
preparado para presenciar uma realidade dinâmica. Isto é, por mais que tudo 
possa estar imóvel no local, deve-se refletir sobre o movimento que ocorreu na 
cena. Ou seja, a sequência das ações, seja da vítima, seja do criminoso. Assim, 
o profiler inicia suas primeiras interpretações e hipóteses. Para isso, de acordo 
com o delegado Penteado Filho (2018, p. 46), o profiler deve realizar as seguintes 
perguntas na cena do crime: 
 o que passou na cena do crime? 
 por quais razões os fatos se deram? 
 que tipo de indivíduos estão envolvidos? 
No que se refere à reconstituição dos acontecimentos, “há uma técnica de 
investigação criminal, desenvolvida em São Paulo, desde 1994, de autoria de 
Marco Antonio Desgualdo, denominada de ‘recognição visuográfica de local de 
crime’” (Penteado Filho, 2018, p. 41). De acordo com o próprio Desgualdo (2006, 
p. 24), a recognição visuográfica é “um conhecimento visualdo que fora 
pesquisado, traduzido graficamente. Não deixa de ser uma anamnésia do crime, 
 
 
21 
descrita, esquematizada e ilustrada fotograficamente”. Trata-se de um documento 
que deve ser preenchido pelos delegados investigadores. 
Neste documento deverão constar dados como: o local, hora, dia, 
condições externas ao local do crime (como clima), testemunhas, 
cadáver (qualificação) e seu modo de vida, a provável descrição do 
criminoso, seus possíveis hábitos e modus operandi, além do croqui 
descritivo do local e fotografias do local e dos instrumentos do crime etc. 
(Teixeira, 2006, p. 26) 
Saiba mais 
Recognição Visuográfica e a Lógica na Investigação Criminal, por 
Marco Antonio Desgualdo. Acesse: 
<http://tmp.mpce.mp.br/orgaos/CAOCRIM/pcriminal/files_4ca23424cfeaaLocal%
20Crime.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2020. 
4.2 – As questões a serem levantadas pelo criminal profiler 
O criminal profiling moderno preocupa-se com a coleta de informações, tais 
como: traços de personalidade; transtornos mentais; tendências 
comportamentais; localizações geográficas; evidências biológicas de um agressor 
no contexto do crime, na tentativa de identificar o tipo de autor que poderia ter 
cometido o crime e para preencher lacunas de informação. Na literatura 
especializada, por exemplo, para homicídio, revelou uma grade de exigências à 
qual a investigação científica desse tipo de crime deve responder: 
 o que aconteceu na cena do crime e quais foram as razões do assassinato? 
 o homicídio foi cometido no local onde o corpo foi encontrado? 
 quem é a vítima (quem foi morto)? 
 quando a conduta criminosa ocorreu (quando foi morto)? 
 como a conduta criminosa ocorreu (como a assassinato foi executado)? 
 o assassino tomou medidas para esconder o assassinato e quais foram 
elas? 
 a conduta criminosa (assassinato) foi cometida por uma ou por várias 
pessoas? 
 como o(s) agente(s) do crime teve acesso à cena do crime, como ele deixou 
a cena do crime, por quanto tempo permaneceu no local e quais condutas 
criminosas cometeu? 
 quem é (são) o(s) agente(s) da conduta criminosa (assassinato)? 
 
 
22 
 quais são as experiências positivas e as limitações da investigação 
científica resultantes da resolução do caso? 
O resultado do perfil criminal não significa obter seu nome ou seu retrato, 
significa um rótulo psicológico que se aplica ao agressor e dá uma descrição de 
sua personalidade, referindo-se à idade, ao sexo, à etnia, às características físicas 
- tipo de desfiguração, peso, altura, ocupação, formação profissional, estado civil, 
o tipo de casa em que ele poderia estar vivendo, o tipo de carro que ele poderia 
estar dirigindo, distúrbios comportamentais, quaisquer defeitos de fala ou 
dificuldades em seus relacionamentos com os outros. 
TEMA 5 - OS RECURSOS VISUAIS PARA O CRIMINAL PROFILER 
No que se refere aos recursos visuais (evidências) em caso de homicídio, 
o delegado Penteado Filho (2018, p. 46) leciona: 
Uma investigação de homicídios em série pode acabar perdendo o foco, 
em virtude da quantidade de informações recebidas sobre cada uma das 
vítimas, por isso é recorrente exibir mapas e fotos importantes em 
quadros. Os mapas podem ser marcados com alfinetes coloridos para 
determinar o lugar onde os corpos foram encontrados, as informações 
secundárias e eventuais lugares de rapto. É fundamental na utilização 
desses recursos visuais que as fotos sejam mostradas de acordo e na 
ordem cronológica como ocorreram as mortes e não na ordem em que 
os corpos foram encontrados [...] 
Figura 6 - Cena da série Homeland, em que a personagem Carrie Mathison, 
interpretada pela atriz Claire Danes, olha para o seu quadro repleto de fotos, 
anotações, reportagens etc 
 
Fonte: <https://homeland.blogflop.com/2018/04/03/hellyeahomelandcarrie-mathison-on-board/>. 
Acesso em: 23 jan. 2020. 
 
 
23 
Um perfil bem elaborado pode sugerir faixa etária, gênero, nível de 
educação, áreas e locais que sejam familiares ao criminoso, traços de 
personalidade, tendências comportamentais, transtornos mentais etc. Como dito 
anteriormente, o objetivo do criminal profiling é ajudar uma investigação policial, 
reduzindo a quantidade de suspeitos. Isso ocorre a partir do momento em que as 
evidências são conectadas, ligadas umas às outras, de forma lógica e cronológica. 
Trata-se de um grande quebra-cabeça que precisa que suas peças sejam 
juntadas. Feito isso, um relatório pode ser elaborado para nortear a investigação, 
garantindo que os esforços para encontrar o criminoso sejam melhor 
aproveitados. Se todos os investigadores e policiais estiverem a par de todas as 
evidências, bem como de suas possíveis conexões, certamente estarão alertas 
potenciais suspeitos e suas possíveis ligações. 
Para esse trabalho, uma equipe multidisciplinar pode ser formada, o que é 
de extrema valia, desde que todos sejam bem treinados, comprometidos e que 
exista um bom trabalho em equipe. No que se refere à presença de profissionais 
das áreas pertinentes ao comportamento humano, como psicólogos, psiquiatras 
e criminólogos, sociólogos etc., pode-se trazer à luz insights e inferências sobre 
como o criminoso se comportou na cena do crime e, porventura, suposições de 
seus próximos passos. 
De acordo com a renomada psicóloga Dra. Aline Lobato Costa (2015, p. 
33), mestre e doutora em Psicologia Investigativa pela Universidade de Liverpool, 
a Psicologia: 
analisa então padrão comportamental, personalidade, relação 
criminoso-vítima, ações na cena do crime, buscando contribuir com a 
tomada de decisão auxiliando a investigação criminal. O criminoso ao 
cometer seus crimes performa ações e estas ações vão estabelecer um 
padrão comportamental refletindo características desse indivíduo. E a 
Psicologia Investigativa se propõe a fazer inferências sobre as 
características de um criminoso considerando a análise das ações 
observadas na cena do crime. E, neste contexto, tem muito a contribuir. 
De fato, em muitos países não se questiona mais a importância do 
auxílio de psicólogo dessa área para a investigação criminal. 
 
 
 
24 
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