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AULA 5 TEORIA DA COMUNICAÇÃO E COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA Prof.ª Valéria Navarro 2 CONVERSA INICIAL Em absolutamente qualquer relação humana a comunicação é essencial para que qualquer objetivo possa ser alcançado, independentemente de qual seja ele. Desde que ingressamos no universo das relações humanas, mesmo antes de sairmos do útero materno, já estamos vivenciando a experiência extraordinária da comunicação em nossa condição de animais racionais e dotados de sentidos. Ao nascermos e sermos introduzidos em um núcleo familiar, lá está a base para o desenvolvimento de nossos canais comunicativos e para nossa eterna relação com o mundo que nos rodeia, incluindo com os demais seres que nele vivem e interagem. Mesmo uma freira enclausurada em um mosteiro isolado da civilização terá que responder a um modo de vida em contato com outras iguais a ela. Prova disso são os registros de livros secretos das monjas concepcionistas do Mosteiro da Luz, em São Paulo: as que lá viviam em 1822 foram contaminadas por doenças da época, como febre amarela, mesmo vivendo reclusas. Isso porque não se recusavam a atender à população carente que, por vezes, a elas recorria, mesmo diante da filosofia da clausura (Investigação, 2008). Imagine o silêncio que reinava e ainda reina naquele mosteiro... Pois bem, ele é quebrado pelas falas necessárias para a sobrevivência das que ali estão, bem como pela oração ou súplica que cada uma possa proferir em sua suposta solidão. O silêncio pode perdurar alguns segundos, mas são os sons do mundo que predominam sempre. E, para nós, que não optamos pela reclusão, mas por viver em sociedade: os silêncios são praticamente impossíveis. Técnicas budistas para “esvaziar” a mente até podem ajudar a fazermos chegar a um estado de meditação interna que gere paz e silêncio, mas a roda viva da humanidade não para e nela a comunicação faz a humanidade caminhar sempre, vertiginosamente. O desafio é sempre maior para os que optam por profissões em que o contato com o público não é apenas inevitável, mas vital. E esse é o caso da maioria dos trabalhos. Médicos, por exemplo, convivem entre si, com as enfermeiras e os enfermeiros e os demais profissionais de um hospital ou clínica e, mais ainda, com os pacientes que atende. E é fundamental que possa e saiba ouvir seu paciente, assim como se fazer compreender, para que o tratamento por ele indicado possa ser cumprido. Da mesma forma, um engenheiro, ao projetar uma obra, inevitavelmente estará em contato com pedreiros, eletricistas, 3 encanadores, fornecedores, arquitetos... E, mesmo que seu projeto seja minucioso, detalhado, brilhante, um simples tijolo posto fora do lugar demarcado no projeto, por um erro de comunicação, pode colocar toda a estrutura a perder. Atualmente, com a crise financeira, a profissão de motorista em serviço alternativo aos táxis, por meio de aplicativos como Uber e 99, está se tornando cada vez mais comum. Se você já utilizou esse serviço, sabe que, ao final do trajeto, o aplicativo vai solicitar que você atribua ao motorista um número de estrelas de 1 a 5, como forma de avaliação, e o mesmo ocorrerá com o motorista em relação a você, como passageiro(a). Pois bem: quais os fatores envolvidos nessa avaliação? Obviamente, vem a questão de conforto e limpeza do veículo, bem como a capacidade do motorista em relação ao trânsito e à condução do veículo, mas há outro fator que muito irá contribuir com a formação do conceito: a empatia. O motorista foi educado com o passageiro e vice-versa? Tinha uma conversa agradável ou era grosseiro e frio? Olha aí a comunicação fazendo surgir o sucesso ou o fracasso até do motorista de aplicativo e mesmo o seu, como passageiro(a)... Em qualquer entrevista de emprego, por mais que ocorra antes um concurso ou prova escrita, sempre há uma fase, também eliminatória, em que o candidato será entrevistado. Pode ser que a entrevista ocorra diretamente com o dono da empresa, com o chefe do setor, com o psicólogo ou responsável pelo departamento de Recursos Humanos. Não importa. Havendo ou não profissionalismo e técnica, a entrevista sempre será ou não um sucesso graças à empatia que possa ocorrer ou não entre entrevistado e entrevistador. Seu currículo pode ser o melhor, mas outro candidato, por vezes até menos capacitado, poderá ganhar sua vaga simplesmente porque a tal da empatia foi a ele favorável. E de onde surge essa empatia? De um lindo sorriso e uma boa aparência? Isso até pode ajudar, mas é a desenvoltura do candidato diante do entrevistador, a escolha das palavras certas são o que pode levar ao sucesso. E, mesmo que a pessoa escolha um trabalho em que viva praticamente isolada das demais, como é o caso de tradutores, escritores, programadores, escultores, entre muitos outros, em algum momento a comunicação ocorrerá e lhe será fundamental ou até mesmo vital. Compreender a importância da comunicação nas relações humanas é passo básico para estabelecer o sucesso de seus objetivos pessoais, profissionais 4 e de qualquer outra ordem. A solução está sempre na comunicação. O problema, também... TEMA 1 – A IMPOSSIBILIDADE DA NÃO COMUNICAÇÃO Matéria da BBC News, de novembro de 2018, conta a história de uma tribo na Índia que vive isolada na ilha de Sentinela, que faz parte do arquipélago de Andaman e Nicobar, na Baía de Bengala, Oceano Índico, a mais de mil quilômetros de qualquer porto do continente. Conta a reportagem que o mistério a respeito dos moradores da ilha é tão grande que sequer se sabe qual língua possam utilizar entre si, para se comunicarem (Sentinela, 2018). Diz a matéria: Eles são tão desconhecidos que até mesmo na própria Índia pouco se sabe sobre sua existência, explica Ayeshea Perera, editora do serviço hindi da BBC (seção em hindu do serviço mundial), em Delhi. “A última vez que eles receberam atenção foi depois do tsunami de 2004, quando o governo indiano precisou investigar se eles sobreviveram ao desastre”, diz Perera. Agora, os moradores da ilha estão de volta aos holofotes depois do incidente em que o turista americano John Chau foi morto a flechadas. Não está claro se ele foi a Sentinela do Norte para pregar o cristianismo ou para viver uma aventura. (Sentinela, 2018) A reportagem relata ainda que os membros da tribo, além de correrem riscos de serem contaminados se tiverem contatos fora de seu habitat, se destacam pelo uso de arco e flecha para caça e defesa e pelo fato de sempre se mostrarem extremamente arredios a qualquer contato externo (Sentinela, 2018). A possível origem desse grupo parece ser de uma emigração ocorrida da África há 60 mil anos. Em 1974, um diretor da National Geographic e sua equipe também foram recebidos a flechadas quando tentaram filmar o local. No Brasil, assim como em outros países sul-americanos, também há registro de tribos semelhantes, que vivem isoladas. Os pesquisadores, no entanto, sabem que essas tribos possuem uma hierarquia, um modus operandi e uma forma de comunicação internas, com sua própria língua e simbologia. Dizer que vivem isolados é uma forma de dizermos que vivem afastados da civilização tal qual a concebemos hoje. No entanto, entre eles foi criado um universo particular, em que a comunicação também existe e é essencial para sua sobrevivência. E, mesmo se analisarmos a maneira como se comportam diante de estrangeiros, a manifestação de que não desejam contato é uma clara forma de comunicação. Cada flechada carrega uma simbologia, que diz: “Saiam de nossas terras, vocês não são bem-vindos e vamos defender nosso https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/11/21/americano-e-morto-por-tribo-isolada-da-india-dizem-fontes-policiais.ghtml https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/11/21/americano-e-morto-por-tribo-isolada-da-india-dizem-fontes-policiais.ghtml 5 povo e nosso solo e modo de vida na flechada,com luta”. É isso que as flechas falam! Em 2000, um filme americano intitulado O náufrago, do diretor Robert Zemeckis, protagonizado pelo ator Tom Hanks, contava a história do personagem Chuck Noland, um funcionário dedicado da FedEx (semelhante aos nossos Correios), multinacional estadunidense encarregada do envio de cartas e encomendas. Em uma de suas viagens de avião acompanhando cargas, ocorre um grave acidente e Chuck é o único sobrevivente. Como seu corpo nunca havia sido encontrado, todos os amigos, companheiros de trabalho, familiares e até mesmo sua noiva acreditavam que ele estava morto. Mas, Chuck permaneceu isolado em uma ilha por quatro longos anos, até que finalmente construiu uma jangada e se arriscou em alto-mar até ser resgatado e poder voltar à civilização (O náufrago, 2000). Nessa aventura na ilha, sozinho e por quatro longos anos, Chuck teve que criar meios de sobrevivência, enfrentou inúmeros desafios. E o que mais chama atenção na história é que, além de se apegar a uma pequena foto da noiva em uma medalha, aos poucos ele vai enlouquecendo sozinho e, para evitar a total solidão, ele cria um amigo com quem conversar, utilizando uma bola de vôlei que naufragara entre as encomendas que também estavam no avião. O “amigo” se chamava Wilson, portanto a marca da própria bola. Chuck faz um rosto nela com seu próprio sangue e Wilson se torna tão importante para ele em seus diálogos imaginários que ele praticamente desiste da luta quando a bola desaparece em alto-mar, um pouco antes de seu resgate (O náufrago, 2000). Enfim, uma interessante abordagem que não deixa de retratar o sofrimento de um ser humano ao se ver isolado do mundo, praticamente à beira da loucura. Claro que todos nós precisamos de momentos de silêncio e até mesmo solidão. Mas a verdade é que, em nossa condição de seres humanos dotados de comportamentos e precocemente introduzidos às normas de condutas sociais, não temos a capacidade de não comunicar, pois mesmo nosso silêncio algo comunica, no seu próprio comportamento em si. Na atualidade, com o advento da internet, a comunicação se tornou não apenas uma possibilidade, mas uma necessidade e até mesmo um vício. Tornar o ato de comunicar uma ferramenta em prol de seu sucesso pessoal e profissional é o caminho mais acertado para aqueles que desejam contribuir como mediadores 6 dos processos evolutivos sociais e, consequentemente, para uma vida em sociedade com maior qualidade e menos conflitos. Ao tomar para si a responsabilidade do ato de comunicar, reconhecendo sua natureza comportamental voltada à incapacidade de não comunicar, devemos estar constantemente em busca das ferramentas que nos propiciem o domínio da palavra, do saber. A palavra sem metodologia e sem estar embasada no conhecimento é caminho para conflitos e ruídos. Mas a palavra imbuída e alicerçada no saber é a chave para o sucesso! TEMA 2 – A IMPORTÂNCIA DO DOMÍNIO DA PALAVRA E DO SABER Como já vimos anteriormente nos axiomas da comunicação, quando se expressa, o ser humano não está apenas passando uma informação, mas expressando uma conduta. Essa conduta está ancorada em uma base comportamental e, também, em uma base de conhecimento. O conhecimento se dá por meio da realidade em que o ser está inserido e por seu próprio despertar segundo suas capacidades intelectuais. O sujeito procura compreender o meio no qual está inserido e nele evoluir. Explicar os fenômenos do mundo e das relações entre o sujeito e um objeto, entre o sujeito e outro sujeito ou grupo, entre o homem e seu meio, entre o homem e sua razão e entre o homem e seu desejo e mundo interno faz parte dos impulsos que movem e fazem evoluir a humanidade. A forma de procurar compreender o conhecimento passa por vertentes que são o conhecimento empírico, vulgar ou senso comum, o conhecimento filosófico, o conhecimento teológico ou espiritual e, finalmente, o conhecimento científico. O conhecimento empírico ou senso comum surge da relação do sujeito com o mundo que o rodeia e acontece de forma natural e gradativa; não está ancorado em investigações, mas na própria vivência diária. O conhecimento filosófico também é decorrente da relação do sujeito com o mundo que o rodeia, porém já provém de uma preocupação com as respostas para os principais questionamentos que vão surgindo dessa relação, estabelecendo conceitos em constante transformação, pois sempre reflexivos e críticos. Apesar de ser um processo racional, não há, no entanto, qualquer preocupação com a verificação das muitas especulações e possibilidades levantadas. 7 O conhecimento teológico ou espiritual, sim, se preocupa com verdades absolutas, aquelas que só a própria crença interna ou fé podem explicar. Também não há importância em se constatar os fatos, pois as respostas são provenientes de dogmas estabelecidos a priori e tidos como incontestáveis. Já o conhecimento científico é aquele formulado por meio de pesquisas: surge da dúvida e precisa ser comprovado concretamente para gerar leis válidas, passíveis de verificação, investigação, contestação e nova formulação; por isso, está sempre em constante evolução e acaba encontrando assim suas respostas para os fenômenos que norteiam a existência do ser. Em nosso dia a dia, vivemos a tensão entre a produção criativa e espontânea, fruto do simples ato de viver e conviver, e a reprodução e a própria criação de conteúdos legítimos de nossas áreas de formação. O debate entre o senso comum e a ciência vai nos atualizando a respeito da própria formação humana e da maneira com a qual nos relacionamos e nos comunicamos com o outro e com o mundo. Paulo Freire (2005, 2008) sempre chamou atenção, em suas obras e teorias, para o respeito necessário ao saber decorrente da experiência cotidiana, discordando dos pensadores que desprezam o senso comum como se o mundo tivesse partido e evoluído tão somente com base no rigor científico. A valorização do senso comum promove sua legitimidade sem o idealizar como modelo. Ao provocar o debate a respeito da legitimidade do saber popular, Freire (2005, 2008) quer apontar a valorização da palavra do povo. Tanto no livro Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido; como no próprio Pedagogia do oprimido, Freire (2005, 2008) reafirma seu respeito ao popular, demonstrando que ele constitui base também para o conhecimento científico. Por isso, esse importante educador brasileiro, que se autodenominava pós-moderno progressista, sugere o trabalho em nível de práxis, ou seja, com teoria e prática em relação dialética. Assim, respeitando os saberes populares e acessando o conhecimento científico, adentramos um nível de formação e uma postura pessoal e profissional que nos permite conduzir os atos comunicativos diários de forma extremamente positiva e salutar, pois não nos afastamos do outro, em um cientificismo exacerbado, e tampouco desconhecemos os mais diversos aspectos do conhecimento que acabam por nortear a própria conquista dos objetivos que almejamos como seres humanos em busca de um mundo melhor e, como 8 profissionais, em busca do reconhecimento necessário para nossa satisfação e sucesso pessoais. E, como dizia Demerval Saviani (1986): “Só existe uma maneira de acabar com o saber da elite: popularizá-lo”. Tomemos o conhecimento, tomemos o poder da palavra e os usemos em prol daquilo que é importante e fundamental: a dignidade e o respeito. Estabeleçamos em nosso cotidiano relações de empatia, nas quais sejamos capazes de compreender o outro e seus anseios, assim como nós mesmos ansiamos por compreensão. TEMA 3 – CRIANDO EMPATIAS Ao relembrarmos o terceiro axioma da comunicação, o relativo à pontuação, ou seja, à sequência de trocas de informações em que sempre ocorre uma resposta e uma nova mensagem em razão da mensagem anterior, percebemosque a interação entre os comunicantes vai além das palavras. Vimos também sobre a comunicação verbal e a não verbal e em todas as teorias e formas delas decorrentes que a pragmática das relações humanas também é fator determinante, no ato comunicativo. A empatia é a capacidade que todos nós temos de nos colocar no lugar do outro, procurando compreender seus sentimentos e emoções em determinado momento e situação. Ela faz parte da pragmática do ato comunicativo e é capaz de determinar uma relação. A origem da palavra empatia vem do grego empatheia, que significa paixão. Portanto, a empatia possibilita a comunicação afetiva com outra pessoa e é fundamental para a compreensão da dinâmica psicológica e energética dos seres. Podemos dizer que a empatia está ligada ao próprio altruísmo e amor ao próximo, pois, por meio dela, temos a sensibilidade para enxergar além do nosso próprio ego e nos voluntariar a contribuir para o bem comum. É comum escutarmos alguém dizer que teve uma empatia ou uma antipatia instantânea por fulano. Ou seja, há automaticamente uma resposta ao conjunto de comportamento e de saberes que o outro carrega e que se apresenta diante de nós, em determinado ato comunicativo. Mas, a empatia também depende de um esforço pessoal de ultrapassar as convenções, os preconceitos e o medo do desconhecido e do diferente. É preciso romper com o egocentrismo e manter o foco de atenção no outro. Isso porque, se 9 trabalhamos com pessoas e desejamos estabelecer com elas boas relações, a empatia é um sentimento indispensável para a qualidade dessa comunicação. A solução de conflitos, como já vimos em propostas como a da comunicação não violenta, passa diretamente pela capacidade de empatia dos mediadores e das pessoas em geral. Por isso, ela é um desafio e uma prática que devem ser exercitados diariamente. Em qualquer área de atuação profissional, sobretudo as que lidam diretamente com o público, a empatia é fundamental para o sucesso nas relações. Veja o caso dos psicólogos e terapeutas: se esses profissionais não tiverem empatia com seus pacientes, não há chance de eles acessarem os conteúdos desses pacientes, de compreenderem o que se passa com eles e muito menos de poder de fato auxiliá-los e orientá-los para um tratamento adequado das questões apresentadas. Imagine diferentes posturas de um mesmo profissional: uma empática e a outra, não. Vamos exemplificar com uma situação em que um perito do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebe um solicitante de aposentadoria por invalidez. O caso do requerente se refere a uma profunda depressão adquirida após anos de humilhações sofridas em seu local de trabalho. O laudo do psicólogo que trata a pessoa atesta que, de fato, ela apresenta todos os indícios que levam a crer em um caso de grave depressão. No entanto, por ser uma doença de cunho psicológico e emocional, não há exames que o atestem, ainda que um nível baixo de serotonina possa apontar para esse quadro. Na situação 1, temos um perito com capacidade de empatia; assim, veremos um profissional capaz de se colocar no lugar do requerente e perceber sua dor e sofrimento com o avançar do quadro depressivo, alguém capaz de compreender que, de fato, diante de uma situação rotineiramente hostil, em um ambiente de trabalho, uma pessoa mais sensível pode de fato vir a adoecer. Na situação 2 teremos um perito frio e distante, incapaz de qualquer sentimento de empatia, que não levará em conta o laudo do psicólogo e julgará ser uma “frescura” do requerente a tal depressão, pois afinal de contas todos temos que enfrentar problemas no dia a dia e nem por isso caímos doentes... Assim ocorre em muitas outras profissões e campos de atuação. A empatia pode resultar em uma melhor capacidade de solução de impasses e conflitos. O mundo pode se tornar mais leve se todos puderem praticar a empatia em suas 10 relações. Os ruídos nos atos comunicativos poderiam desaparecer se a empatia suavizasse os canais. Um mundo melhor é possível, afinal. TEMA 4 – ENFRENTANDO CONFLITOS Diante de um conflito, seja ele de origem pessoal, seja social, comunicacional, trabalhista, contratual, entre outros, a primeira atitude de pessoas racionais é buscar um meio de solução, decisão ou consenso. E, se isso não é possível tão somente entre as partes envolvidas por meio do diálogo, então serão utilizados meios judiciais ou alternativos para tal. A justiça está repleta de processos aguardando a solução concreta de conflitos de ordem material ou não, que darão a uma das partes ou a ambas a razão a respeito de determinado pleito. Mas, além da decisão judicial, há também caminhos alternativos para a solução de conflitos, que são: a mediação, a conciliação e a arbitragem. A principal diferença entre essas opções está no grau de poder de decisão da pessoa convocada para auxiliar as partes envolvidas em um conflito. 4.1 A mediação A mediação ocorre mediante a presença de um mediador, uma terceira pessoa que irá auxiliar as partes na busca de uma solução que seja favorável a ambas. Seu papel é de facilitador do processo. Não cabe ao mediador julgar, apenas ouvir as partes envolvidas e facilitar os canais de informação para que elas cheguem, por si, a um consenso. Essa técnica pode ser considerada um ponto intermediário entre a negociação e a arbitragem. 4.2 A conciliação O conciliador é aquele que também se coloca como um auxiliar imparcial diante de partes em conflito. Porém, cabe a ele a decisão do mérito do problema e a formalização de uma proposta para a sua solução. De forma mais efetiva, coordenando alternativas de acordo, o conciliador conduzirá as partes para uma solução e, para isso, deverá apresentar qualificações que permitam sugerir ações. 11 4.3 A arbitragem A arbitragem é um meio privado para a solução judicial de conflitos em que as partes submetem a questão a uma entidade privada, sem a necessidade de acionar o Poder Judiciário. O direito aponta que, no Brasil, a arbitragem se limita a conflitos decorrentes de questões patrimoniais. Atualmente, ela é regulamentada pela Lei n. 9.307/1996 (Brasil, 1996). Ainda que um conflito não assuma uma tal proporção para que sejam acionados os caminhos indicados ou, ainda, o Poder Judiciário, eles existem e surgem corriqueiramente em qualquer ambiente. Muitas vezes, ainda que involuntariamente, dada a nossa atividade profissional, acabamos por mediar situações de conflito. E será sempre muito melhor nosso desempenho se estivermos imbuídos de conhecimento sobre o objeto de tais conflitos. TEMA 5 – QUEM NÃO SE COMUNICA... O apresentador Abelardo Barbosa, conhecido como Chacrinha, fez sucesso na televisão nas décadas de 1950 a 1980. É dele a famosa frase “Quem não se comunica se trumbica!” (Barbosa; Rito, 1996). Mas, o que isso quer dizer? Trumbica é um termo da gíria, ou seja, do vocabulário popular. Diz-se do ato de não obter sucesso ou obter resultado negativo em uma empreitada. Portanto: quem não sabe se comunicar ou se nega a fazê-lo, com certeza obterá péssimos resultados na vida ou nas situações diárias em que a comunicação é absolutamente vital. Investir em sua capacidade de comunicar é algo que ocasionará sucesso não apenas para suas relações profissionais, mas também para suas relações pessoais. Compreender o outro e se fazer compreender é, de fato, uma maneira de obter os melhores resultados nos milhares de atos comunicativos a que nós, como seres humanos, não podemos nos furtar, diariamente. Do momento em que o despertador toca ao momento em que finalmente deitamos novamente nosso corpo em nossas camas, almejando uma merecida noite de sono para a reposição das energias, nosso cérebro e nosso corpo como um todo são bombardeados por centenas de informações de atos comunicativos oriundos dos mais diversos meios: da família,durante o café da manhã; do trânsito, até a chegada ao local de trabalho; da rádio, da televisão, do restaurante, durante o horário de almoço, com nossos colegas de serviço ou estudo... O tempo 12 todo somos exigidos pela comunicação abundante que brota ao nosso redor e da qual somos agentes passivos, receptores, mas também autores e emissores. Comuniquemo-nos, então, da melhor forma possível, conhecendo as teorias, sabendo que as realidades são diversas e que somos sempre eternos aprendizes, pois tanto podemos ensinar como aprender com o outro ou os outros. Vamos manter abertos nossos canais de aprendizado e conhecimento, com senso crítico apurado, capaz de buscar as informações além da mídia tradicional, questionando com consistência tudo que nos apresentam, tendo capacidade de discernimento e de construção de uma nova realidade. Não permitamos mais que a mídia tradicional forme nossa visão de mundo. Temos o dever moral e ético, como profissionais e seres humanos que convivem com outros seres, de buscar, em tempos de internet, as informações em diferentes fontes, confrontando-as para que não sejamos enganados por fake news e pelos interesses de uma mídia a serviço das elites e do poder. Como vimos, comunicar é essencial e a não comunicação é algo impossível para nós que vivemos em sociedade. Dominar o saber em determinado campo do conhecimento é essencial para que a nossa comunicação ocorra de maneira satisfatória e para que a nossa mensagem alcance seus objetivos. Além desse domínio, a capacidade de gerar empatia com o interlocutor ou os interlocutores também é determinante para o sucesso do ato comunicativo. Os ruídos de comunicação acontecem justamente quando a mensagem do emissor não foi bem elaborada, quando o canal é inadequado ou quando o receptor não compreende aquilo que se pretendia que entendesse. Nesse percurso, muitos erros podem e devem ser evitados. E, mesmo que ocorram, constatamos que também por meio da comunicação adequada, nos trabalhos de mediação, conciliação e arbitragem, tudo pode ser resolvido. Comunicar é vital! 13 REFERÊNCIAS BARBOSA, F.; RITO, L. Quem não se comunica se trumbica. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1996. BRASIL. Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, p. 18.897, 24 set. 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9307.htm>. Acesso em: 23 set. 2019. FREIRE, P. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008. _____. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. INVESTIGAÇÃO de múmias do Mosteiro da Luz revela detalhes sobre vida de freiras do século XIX. Extra, São Paulo, 3 out. 2008. Disponível em: <https://extra.globo.com/noticias/brasil/investigacao-de-mumias-do-mosteiro-da- luz-revela-detalhes-sobre-vida-de-freiras-do-seculo-xix-585808.html>. Acesso em: 24 set. 2019. O NÁUFRAGO. Direção: Robert Zemeckis. EUA: Fox, 2000. 144 min. SAVIANI, D. Escola e democracia. São Paulo: Cortez, 1986. SENTINELA: como vive a tribo isolada da Índia que matou um jovem aventureiro americano com flechas. BBS News, 24 nov. 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46325758>. Acesso em: 23 set. 2019.