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Prostituição na IdadeMédia As prostitutas eram figuras recorrentes nas cidades da Idade Média; quase não havia cidades que não possuíssem prostíbulos. Iwan Bloch, em "Die Prostitution", identifica que existiam de cinco a seis mil prostitutas em Paris, que continha uma população de 200 mil pessoas. Onde procuravam clientes? Elas procuravam clientes nas tavernas, praças, casas de banho e até mesmo igrejas. Muitas cidades medievais possuíam uma "Rua da Rosa", onde colher uma rosa significava fazer sexo com uma prostituta, tornando-se assim um centro de prostituição. Também foram criadas zonas vermelhas, que eram centros de prostituição. Razões para entrar na prostituição: Basicamente, como em quase todas as épocas, as mulheres entravam na prostituição por razões de pobreza, perda de status, pressão familiar (que podia ser violenta ou incestuosa, sendo que um quarto delas era colocada pela própria família), e havia também algumas que entravam por escolha própria. No fim do período medieval, quatro a cada cinco prostitutas pertenciam a setores mais pobres da população, e a maioria ingressava na profissão aos dezessete anos. Hierarquia: Posteriormente na Idade Média, havia uma hierarquia na prostituição (similar à da Grécia). O bordel municipal estava no topo; as prostitutas prestavam juramento às autoridades, pagavam aluguel semanal, a uma cafetina e contribuíam nos custos de aquecimento e vigilância. Em seguida, vinham as casas menores, geralmente dirigidas por mulheres, com uma equipe de jovens servas. A última camada, além da prostituição generalizada nas casas de banho (mesmo existindo um regulamento para que isso não acontecesse), eram as prostitutas autônomas que operavam ao ar livre em muralhas, descampados, jardins públicos, vielas, margens de rios, pontes e terrenos baldios - qualquer lugar onde a prostituta e o cliente conseguissem um momento de privacidade. A privacidade não era algo tão simples na cidade medieval, e as atividades da prostituta eram frequentemente expostas à exposição pública, como acontecia em alguns casos de julgamentos. Quem era a clientela: Os maiores grupos atendidos pelas prostitutas eram os homens, jovens e não casados. Mesmo com tudo o que a Igreja falava sobre celibato e sexo, havia uma certa aceitação social de homens em prostíbulos antes do casamento. Principalmente porque a prostituição era vista como uma forma de aliviar o desejo sexual enquanto evitava que os homens se aproximassem das mulheres consideradas respeitáveis e dignas de casamento, prevenindo também estupros coletivos realizados por gangues, além de evitar relações homossexuais. Essa ação era relevante na sociedade, pois os homens tendiam a retardar o casamento para consolidar suas carreiras, e aprendizes e estudantes universitários adiavam o casamento para quase trinta anos de idade; alguns eram desincentivados devido ao valor do dote. Assim, era permitido usar o bordel a partir dos dezessete ou dezoito anos. Os clérigos, homens casados, judeus e leprosos não deveriam frequentar bordéis, mas acabavam indo. Rossiaud calcula que 20% da clientela da prostituição nas casas de banho e bordéis privados eram clérigos. Mas ele também comenta que isso não gerava desaprovação dos clérigos, porque se esperava que homens que não eram casados mantivessem relações sexuais, e era melhor que eles se voltassem a prostitutas do que às moças das famílias. Prostituição, um produto das cidades: À medida que as cidades cresceram e se expandiram no século 11 e 12, a prostituição passou a ser vista cada vez mais como um fenômeno social que precisava de regulamentação. As igrejas e monarquias nacionais emergentes tomaram medidas para tentar lidar com isso. A Igreja estabeleceu como a prostituição deveria ser encarada. É importante lembrar que ela não era tratada da mesma forma em todos os lugares e que, durante os períodos, houve variações, pois às vezes tentavam expulsar e fechavam bordéis, mas eles acabavam voltando, e às vezes era considerada algo irremediável e um "esgoto" da sociedade. Como o Estado e a Igreja lidaram com a prostituição: Primeiramente, a definição de uma prostituta foi feita pela Igreja, elaborada por São Jerônimo no começo do século 5, afirmando que uma meretriz era aquela que estava disponível para atender os desejos de muitos homens. Isso foi incorporado na lei canônica, distinguindo o concubinato da prostituição de fato. Os canonistas denunciavam a prostituição, mas Santo Agostinho a via como um mal necessário, argumentando que sua existência tornava possível manter alguns padrões sociais, afirmando que, se as prostitutas deixassem de existir ou fossem expulsas, a sociedade se desorganizaria devido aos desejos sexuais. Isso está relacionado à forma como ele via o desejo sexual. Enfim, a Igreja tentava lidar com a prostituição de forma que houvesse uma contenção e restrição muito cuidadosa. A forma de tratamento pode ser relacionada aos leprosos; as prostitutas eram segregadas da população decente, usando vestes distintivas, como foi decretado no Concílio de Paris (1213). Isso levou ao surgimento de um código de vestimenta distintivo das "Zonas Vermelhas". Código de vestimenta: Foi criado o equivalente aos sinos ou guizos dos leprosos. Na França, era comum que essa marca fosse uma corda com nós pendentes no ombro e de cor diferente do vestido. Em outros lugares, essa marca era diferente; em Viena, era um lenço amarelo, em Milão era uma capa branca, em Florença eram luvas e um sino no chapéu. Eles acreditavam que dessa maneira estariam protegendo as mulheres honradas do constrangimento. Além disso, a Igreja tentou regenerar as prostitutas e incentivá-las a casar. O Papa Inocêncio III incentivou todos os verdadeiros cristãos a ajudarem a recuperar prostitutas, casando-se com elas, oferecendo remissão de seus pecados se assim o fizessem. Assim, foram criadas várias casas religiosas de regeneração de prostitutas sob a administração da Ordem de Santa Maria Madalena. Em relação às monarquias nacionais emergentes, elas queriam ter mais controle da prostituição, pois isso era parte do processo de assumir a frente (ou assumir responsabilidades). Henrique II da Inglaterra, em 1161, estabeleceu regulamentações para os bordéis de Southwark, que fora das muralhas da cidade havia se transformado em uma zona de luz vermelha. Ele estabeleceu que não poderia haver bordéis abertos em dias santos ou festas religiosas, mulheres casadas, freiras ou grávidas não podiam ser aceitas como prostitutas, não poderia haver aliciamento aberto dos clientes, bebidas alcoólicas e comida não podiam ser servidas na casa, e as mulheres não podiam residir ali. O objetivo principal era criar ambientes ordeiros e eficientes para satisfação sexual e que, dentro do possível, não ofendessem a moral pública. Isso se tornou objetivo da coroa e das autoridades locais. Inicialmente, o foco era manter as prostitutas fora das muralhas da cidade, mas logo elas começaram a se espalhar pelo norte de Londres. Assim, em 1285, o rei Eduardo I ordenou que todas as prostitutas passassem a residir fora das muralhas, mantendo a regulamentação do vestuário. As prostitutas e os bordéis eram vistos como um perigo para a ordem e a moral pública. O conselho municipal instituiu em Londres em 1393 um toque de recolher onde todos eram proibidos de circular a partir das nove da noite. A prostituta que fosse pega tinha as roupas confiscadas, assim como seu emblema, o que, em teoria, a impedia de trabalhar. Em 1417, todos os bordéis foram fechados devido a queixas de brigas e roubos próximos a eles. Essas medidas precisavam ser reafirmadas ao longo dos anos e eram muitas vezes descumpridas, o que mostra a falta de eficácia que elas tinham. Tentavam expulsar as prostitutas mais de uma vez, mas como se tornava impossível, definia-se os locais onde poderiam ser zonas vermelhas e depois estabeleciam-se casas municipais. Na França central, a prostituição ficou sobo controle de um funcionário chamado "Rei dos Libertinos", que geralmente também ficava encarregado de outras funções, como punir bandidos e até mesmo ser o carrasco, ou seja, ele lidava com outros malfeitores. Em 1403, em Florença, foi estabelecido um bordel oficial, e em 1360, Veneza havia feito o seu, mesmo após o conselho ter expulsado as prostitutas; porém, em 1358, eles admitiram a necessidade da prostituição. Porém, os bordéis tinham certas condições; as prostitutas não podiam morar neles, e eles não podiam funcionar após às onze da noite. Os impostos do prostíbulo ficavam numa arca que as autoridades recolhiam. Todavia, fica claro a partir de alguns registros legais que as prostitutas desrespeitavam essas leis e também continuavam aliciando clientes nas portas de igrejas, casas de banho, etc. Bordéis municipais: Havia três formas: podiam ser arrendados para quem oferecesse mais, sendo a receita utilizada para sua manutenção e benefícios dos cofres municipais; podiam ser administrados por uma organização municipal de caridade, com o lucro indo para a caridade; quando eram pequenos demais, podiam ser administrados por empresas de fins não lucrativos ou pelo serviço público. Apesar desses bordéis municipais, ainda havia a preocupação com o local onde eles seriam colocados, para que o exercício da atividade de prostituição não fosse escandaloso, delimitando sempre onde as prostitutas iriam ficar. Essa municipalização ocorreu principalmente para combater a homossexualidade, tentando introduzir os jovens aos prazeres da heterossexualidade, já que a maioria deles ficava sem casar, e alguns recorriam a práticas homossexuais. Em Borgonha, por exemplo, a homossexualidade estava se tornando um problema, e essa municipalização servia para atender às necessidades sexuais da população masculina não-casada e proteger as filhas de famílias honradas do assédio. Mas ainda havia toda uma preocupação com a honra, de forma que os governos locais criavam diversas formas de regulamentar o funcionamento desses bordéis. Algumas regras dos bordéis municipais: As prostitutas só poderiam trabalhar naquela zona, e o local devia ser longe de áreas respeitáveis, como igrejas e ruas principais. Os clientes deveriam entregar suas armas ao entrar (a administração podia ter armas). A admissão era seletiva e podia ser recusada. A posição das prostitutas: Dessa forma, a posição das prostitutas era muito relacionada à dos judeus e leprosos, proibidos de circular livremente e também de circular pela cidade durante a Semana Santa. A Igreja tentava privar as prostitutas de seus direitos civis; a lei canônica impedia as prostitutas de acusarem outras pessoas de crimes e também de comparecerem aos tribunais. Não podiam herdar propriedade e eram consideradas incapazes de serem vítimas de estupro. Apesar da Igreja não punir de fato o exercício da prostituição. Apesar da lei canônica, há evidências de que não era exatamente dessa forma, que havia ocorrências de prostitutas herdando propriedades, casando e também comparecendo para testemunhar em tribunal. O imperador Frederico II declarou nas Constituições de Melfi (1231) que os estupradores de prostitutas deveriam ser executados. A partir do século XV, elas foram se tornando mais parte da sociedade, o uso das peças que as distinguiam foi abandonado, as prostitutas passaram a se submeter aos tribunais normalmente, eram encontradas participando de festas cívicas. Além disso, como a restrição de horas, roupas e localização era constantemente desrespeitada, com o tempo foi caindo em desuso. Pode ser que essa melhora das condições da prostituta se deva ao passar da Peste, que trouxe uma filosofia de moderação e temperança para combater o culto à diversão que havia sido criado. Com o surgimento do protestantismo, a pressão moral voltou a se tornar muito rígida, pois exigia a castidade absoluta antes do casamento, sem inclinação à tolerância. Assim, a influência da Reforma (século 16) e depois da Contra-Reforma levou tanto protestantes quanto católicos a serem mais estritos em relação à moral..