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UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO Adilson Giovani da Costa, RA: 1806195 André Luis Araujo de Souza, RA: 2105064 Daniela Cristina Bonanome Andreato, RA:2103508 Danilo da Silva Hipolito, RA:2102673 Letícia Silva Cavalcante, RA:2100745 Mariana da Silva Moraes Aguiar, RA:2109821 Railane Karen Souza Sena, RA:2100418 Empatia e as dificuldades de interação nos agrupamentos multietários na Educação Infantil no retorno das aulas pós-pandemia Vídeo de apresentação do Projeto Integrador https://youtu.be/CF3oDN9JfCo São Paulo - SP 2022 https://youtu.be/CF3oDN9JfCo UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO Empatia e as dificuldades de interação nos agrupamentos multietários na Educação Infantil no retorno das aulas pós-pandemia Relatório Técnico-Científico apresentado na disciplina de Projeto Integrador para o Eixo de Licenciatura da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (UNIVESP). São Paulo - SP 2022 ANDREATO, Daniela Cristina Bonanome; AGUIAR, Mariana da Silva Moraes; COSTA, Adilson Giovani da; CAVALCANTE, Letícia Silva; HIPOLITO, Danilo da Silva; SENA, Railane Karen Souza; SOUZA, André Luis Araujo de. Empatia e as dificuldades de interação nos agrupamentos multietários na Educação Infantil no retorno das aulas pós-pandemia 42f. Relatório Técnico-Científico. Eixo Licenciaturas – Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Tutor: Michele Dos Santos L. Cerqueira. Polos Campinas, Campo Limpo Paulista, São Paulo – Aricanduva e Várzea Paulista, 2022. RESUMO Este Relatório Técnico-Científico apresenta um estudo exploratório sobre as dificuldades de interação encontradas nos agrupamentos multietários das turmas de Educação Infantil numa escola do município de São Paulo após o retorno das aulas presenciais no período pós- pandemia. PALAVRAS-CHAVE: Agrupamentos Multietários; Educação Infantil; Empatia. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 5 2. DESENVOLVIMENTO ....................................................................................................... 9 2.1 PROBLEMA E OBJETIVOS ........................................................................................................ 9 2.2. JUSTIFICATIVA ...................................................................................................................... 9 2. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................................... 10 2.4. APLICAÇÃO DAS DISCIPLINAS ESTUDADAS NO PROJETO INTEGRADOR ................................ 16 2.5. METODOLOGIA ................................................................................................................... 18 3. RESULTADOS .................................................................................................................. 21 3.1. ANÁLISE DE DADOS.........................................................................................................21 3.2. OBSERVAÇÃO DAS AULAS ............................................................................................26 3.3. SOLUÇÃO INICIAL ............................................................................................................... 27 3.4. SOLUÇÃO FINAL ................................................................................................................. 35 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 39 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 39 ANEXOS ................................................................................................................................ 42 5 1. INTRODUÇÃO A análise e reflexão sobre como podemos trabalhar a empatia como ferramenta para minimizar os conflitos encontrados na sala de aula em decorrência da adesão dos agrupamentos multietários nas turmas de Educação Infantil na Rede de Ensino Municipal de São Paulo logo após o retorno das aulas presenciais pós-pandemia é a problemática que orienta este trabalho. Com a pandemia, algumas crianças sofreram com a falta de socialização, acarretando em alguns casos a defasagem na questão da empatia. Pensando em como podemos trabalhar isso na vida das pessoas em prol da sociedade, pautamos a importância e sua relevância no chão da escola. Em busca de semear a consciência e o respeito sobre o próximo no sistema de educação. Uma das funções mais importantes da inteligência é a empatia, pois propicia a compreensão e o conhecimento de nossos próprios sentimentos e das outras pessoas ao nosso redor, ela estimula a mutualidade, além de melhorar nossa comunicação pessoal e social. Vygotsky (1989) abrange que o desenvolvimento cognitivo do aluno se dá por meio da interação social, ou seja, de sua interação com outros indivíduos e com o meio em que está inserido, sendo assim, a interação entre os indivíduos gera novas experiências e conhecimentos. Em razão disso propomos um projeto de intervenção para que possamos evidenciar a importância de perceber o mundo a partir do olhar do outro. Com o intuito de compreender de forma mais ampla a realidade do contexto escolar vivenciado pela Escola Municipal de Educação Infantil Pero Neto, optamos por iniciar o processo de investigação das problemáticas enfrentadas pela perspectiva tanto da Coordenadora Pedagógica responsável pela Unidade, como dos Professores. Foi através da narrativa destes, que fomos apresentados à problemática envolvendo os agrupamentos multietários. Esta proposta de organização de turmas foi adotada pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo – SMESP, segundo a Instrução Normativa SME nº 43/2021, visando à acomodação da demanda escolar da rede. Apesar do compromisso adotado pela SMESP, disposto nos art. 9º e 27º da Instrução Normativa SME nº 12/2022, de realizar encontros formativos realizados pelas equipes de formação da Educação Infantil da Divisão Pedagógica das Diretoriais Regionais, com o intuito de dialogar pautas que envolvem os agrupamentos multietários; os relatos encontrados apontaram um grande descontentamento por parte da equipe docente com as problemáticas que surgiram após a adoção desta forma de organização etária. https://escoladainteligencia.com.br/como-desenvolver-a-inteligencia-emocional-nas-criancas/ 6 Antes da adoção dos agrupamentos multietários, os alunos que possuíam 4 anos completos até 31 de março eram matriculados em turmas de Educação Infantil I, consequentemente, os que possuíam 5 anos completos até 31 de março eram matriculados nas turmas de Educação Infantil II. Desta forma, crianças que adentravam na Educação Infantil antes de completar 4 anos, não dividiam o mesmo espaço em sala de aula com os alunos que estavam prestes a completar 6 anos até o final do ano letivo. Tomando como partida que, as problemáticas encontradas remetem aos conflitos entre os diferentes níveis de maturidade e demanda das crianças em diferentes fases de adaptação nos agrupamentos multietários na rotina pós pandemia, pretendemos construir um plano de aula com o enfoque na empatia, pois acreditamos que ao trabalhar a importância de olhar para o outro e ser mais compreensivo com a possibilidade de cada um, os alunos possam estreitar os laços de amizade com seus colegas, aumentar a cooperação entre eles e compreender as diferenças e diversidades não só dentro da sala de aula, mas no mundo.Em decorrência da pandemia da Covid 19, os alunos precisaram se ausentar do ensino presencial, substituindo-o por aulas remotas, em que a interação social, cognitiva e afetiva foi, em alguns casos, demasiadamente afetada gerando um cenário apático e individualista. O cenário que ninguém poderia imaginar aconteceu, as crianças ficaram dentro de casa, as aulas foram realizadas à distância e a rotina completamente alterada. Mas, embora tenha sido longo, esse isolamento social acabou e os alunos voltaram para as escolas. Este momento tem sido marcado por inúmeros sentimentos, tais como: alegria, tristeza, ansiedade, insegurança, medo, pois acostumaram-se a companhia de seus familiares, sem que houvesse uma rotina escolar, e agora estão passando por uma readaptação. Em razão disso os professores devem se preparar para acolher seus alunos e seus familiares, fazendo com que o diálogo seja a principal ferramenta em sala de aula. Será necessário ter constantes conversas, sejam elas individuais ou em grupos, pois a troca de informações e experiências, será ótimo para a socialização e conexão que está em falta. No cenário pós-pandemia, a escola terá que ser mais humana, além de aperfeiçoar sua relação com as famílias e acolher seus alunos, cuidando do seu desenvolvimento integral: corpo, mente e emoções (motor, cognitivo e social). Dessa forma os alunos precisam desenvolver as capacidades de ter empatia, de respeitar a diversidade, de agir pensando no coletivo e com cooperação. Essas habilidades são descritas, https://educacaoinfantil.aix.com.br/educacao-infantil-a-distancia/ https://educacaoinfantil.aix.com.br/diversidade-na-sala-de-aula/ 7 inclusive, nas competências 9 e 10 da BNCC. O documento dá algumas pistas de como desenvolvê-las na sala de aula, a saber: Competência 9: “Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos”. (BNCC, 2018 p.10) Competência 10: “Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários”. (BNCC, 2018 p.10) Em vista disso, a empatia não é apenas se colocar no lugar de uma outra pessoa, mas sim ter consciência do outro e entender que ele pode ser diferente compreendendo seus sentimentos, emoções e atitudes, por isso a importância de se trabalhar essa competência na primeira infância, pois os alunos serão preparados desde cedo para tornarem-se adolescentes e adultos com maiores habilidades sociais e valores que serão utilizados na vida em sociedade. Diante do exposto, compreendemos que independentemente da faixa etária, este retorno deve ter muito acolhimento e escuta, para que a adaptação ao “novo normal” seja leve e prazerosa. Estimular a solidariedade, a resiliência e a continuidade das relações sociais entre educadores e alunos nesse período é fundamental, pois ajuda a minorar o impacto psicológico negativo da pandemia nos estudantes. Agora, importa prevenir e reduzir os níveis elevados de ansiedade, de depressão e de estresse que o confinamento provoca nos estudantes em quarentena (MAIA; DIAS, 2020). Um professor pode, por meio de suas atitudes, destacar formas interessantes de valorizar a interação entre os indivíduos: saber ouvir, mostrar-se interessado no ponto de vista, saber levantar argumentos, agradecer, elogiar. Carl Rogers (1902-1987), um psicólogo humanista destaca que devemos aceitar que os outros são diferentes, de nós no sentido de que têm experiências, sentimentos, pontos de vista que podem ser até contrários aos nossos. É preciso então aceitar as diferenças. A empatia abarca todos esses conceitos e qualidades, pois trabalha o ser e o conviver. Paulo Freire enfatizou as palavras “Educação libertadora” e “Humanização” que também englobam as diretrizes da empatia. Dito por ele, Educação Libertadora é uma educação que dialoga, que está posta para socializar e interagir com o meio, e dar voz as crianças é ensina-las também a dar voz ao outro. Para resumir, a empatia é o resultado da humanização, ela tem que 8 estar intrínseca em cada indivíduo em consonância com o trabalho que o professor realizará para que o currículo oculto seja desenvolvido, ou seja, tudo aquilo que os alunos não aprendem formalmente, mas sim implicitamente em meio de várias práticas, como: atitudes, comportamentos e percepções que contribuem para a construção da personalidade dos alunos, tornando-os cidadãos críticos e autônomos. 9 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 Objetivos Dentro das percepções apresentadas pela coordenadora pedagógica e pelos professores percebemos que, para eles, o retorno presencial às aulas pós-pandemia não foi um momento tão conveniente para adotar a organização multietária das turmas. Uma vez que, o tempo que estes alunos passaram sem receber estímulos e conviver com outras crianças – seja da mesma faixa etária ou não – por si, já seria um potencializador de questões conflituosas dentro da sala de aula. Com o aumento nos conflitos causados por esse contexto desfavorável, acreditamos que desenvolver competências socioemocionais trabalhando a capacidade de lidar com o outro, consigo próprio, com seus sentimentos e desenvolvendo a empatia, estaremos contribuindo na construção de uma percepção mais humanizada sobre o próximo e facilitando o processo de aprender e ensinar. Pretendemos demonstrar como está sendo a adaptação dos alunos e docentes frente as classes multietárias, apurar as principais dificuldades de interação entre alunos no retorno das aulas presenciais pós-pandemia causadas pela diversidade de faixa etária encontrada nos agrupamentos multietários, e enfatizar atitudes dos docentes e alunos que serão necessárias a fim de minimizar os conflitos diante das mudanças. 2.2. Justificativa e delimitação do problema Com a recente mudança na forma de agrupamento das turmas de Educação Infantil na capital paulista, encontramos um cenário permeado por dúvidas, indagações, conflitos e expectativas. Em movimento contrário a visão etapista e preparatória, a classificação das crianças em grupos cronológicos específicos foi substituída pela proposta de agrupamentos multietários, ampliando a socialização entre alunos de diferentes idades, e tornando a sala de aula um espaço ainda mais coletivo. Mudança esta que tem gerado estranhamento em quem estava acostumado a preparar aulas pautadas por idade, trazendo questionamentos a respeito de como suprir as necessidades e demandas de crianças que necessitam de estímulos diferentes. 10 Afinal, como crianças com diferentes níveis de maturidade e em diferentes níveis de adaptação poderão conviver, aprender e se desenvolver frente aos conflitos gerados pelo desalinho de idades? É a partir desta indagação que pretendemos propor práticas pedagógicas com enfoque na empatia e na colaboração, com o intuito de construir um território de aprendizagem de encontros múltiplos, respeitando as singularidades, as possibilidades de cada um e o diálogo. 2. 3. Fundamentação teórica Em estudo realizado com crianças de 3 a 6 anos de agrupamentos multietários, ao tomar a brincadeira como objeto de análise, Roveri e Turrini (2022) destacam a importância das interações entre alunos de diferentes idades. As autoras defendem que para favorecer as descobertas e as aprendizagens, nesse contexto, é imprescindível romper com a segmentação de etapas cronológicas. Com o contributo da Sociologia da Infância, Roveri e Turrini (2022) defendem práticas que favoreçam os encontros, as descobertas e os deslocamentos no tempo/espaço da Educação Infantil. Para elas, a proposta de agrupamentos multietáriosnão mudou somente a organização dos atendimentos nas escolas, mas também, as maneiras de conceber as infâncias. O campo da sociologia ampliou as possibilidades teóricas para pensar as crianças como sujeitos sociais, permitindo-nos elaborar estratégias metodológicas que valorizam as crianças, suas vozes e protagonismos. (ROVERI e TURRINI, pg. 339, 2022). A partir dessa perspectiva seria possível romper com o olhar adultocêntrico que tem predominado e permeado na Educação Infantil ao longo dos anos, e ao invés de desvalorizar a opinião e os conhecimentos dos modos de vida das crianças, estas, seriam vistas como ativas dentro dessa construção de múltiplas experiências sociais (ROVERI e TURRINI, 2022). A sociologia da infância, assim, assumiu um olhar para as crianças numa perspectiva social, colocando-as no centro do campo teórico, vistas em suas contínuas interações entre os grupos sociais. (ROVERI e TURRINI, pg. 340, 2022). Seria, então, este novo olhar considerando as especificidades de cada criança e suas relações com o outro frente às novas descobertas, o maior desafio para vencer a visão etapista e preparatória? Para responder esta pergunta, se faz necessário compreender alguns marcos importantes da Educação Infantil, como quando a Constituição Federal (1988) a designou como etapa importante da educação, afastando-a do cunho assistencialista; assim também como: [...] aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI), cujo conteúdo pressupõe que a Educação Infantil não é uma etapa preparatória para o Ensino Fundamental, mas um lugar onde as especificidades da infância são respeitadas, principalmente a partir do eixo do brincar e do binômio cuidar-educar. 11 Esse documento assume que as crianças produzem culturas infantis e, nas interações entre seus pares, aprendem coisas diversas daquelas que aprendem quando estão com os adultos ou com as crianças mais velhas (BRASIL, 2010 apud ROVERI e TURRINI, pg. 342, 2022). Podemos perceber que as discussões sobre as concepções conteudistas e etapistas na Educação Infantil já existiam muito antes da implementação dos agrupamentos multietários, as reflexões e críticas a respeito das classificações das crianças em séries e etapas de desenvolvimento é um desafio antigo. Roveri e Turrini (2022) citam algumas propostas que possibilitam “combater” as rotinas fundadas na didatização do lúdico, seriação, padronização dos ensinamentos e a lógica do apostilamento. [...] a retirada de mesas, cadeiras e berços que ocupavam a centralidade das salas; a ruptura com as atividades pautadas em cadernos e folhas prontas de exercícios; a busca pela construção coletiva de projetos desenvolvidos com a efetiva participação das crianças; a reorganização de brinquedos, do tempo das brincadeiras livres, do uso do parque e das áreas externas; a ênfase no brincar e nas múltiplas linguagens infantis, dentre outras (ROVERI e TURRINI, pg. 343, 2022). Roveri e Turrini (2022) defendem que na infância a sociabilidade não é algo que se dá através de desenvolvimento cronológico, e sim parte de um processo cultural no qual as crianças são ativas na construção de formas de interação, comunicação e pertencimento. Essa construção, de acordo com elas, se dá através do brincar, pois é através dele que elas são transportadas para outras ordens, compartilham novas regras, segredos. Pois é através da brincadeira que crianças maiores e menores se aproximam, se juntam, negociam, interpretam, narram, modificam e elaboram enredos de suas ações e de seus pares. Para isso, cabe-nos esboçar situações significativas que viabilizem às crianças experiências com o mundo e com o outro, sejam desafiadoras, rompam com as certezas e possibilitem a imaginação e a criação (ROVERI e TURRINI, pg. 346, 2022). Roveri e Turrini (2022) apontam que ao utilizar o brincar como uma maneira de adquirir conhecimentos e habilidades específicas, o que parece ser benéfico à etapa do desenvolvimento que, supostamente, a criança se encontra, oferecendo jogos correspondentes às idades e estereótipos de gêneros, se cria um abismo entre as crianças menores e maiores, meninas e meninos. [...] o acolhimento e os vínculos entre as diferentes idades suplantam a lógica da hierarquização das experiências das crianças. A potência das culturas infantis construídas nas relações entre pares multietários não pode ser enquadrada em modelos hegemônicos, como livros didáticos, apostilas e outras propostas pensadas a partir de uma sequência etária e didatizada. Ao contrário, é preciso considerar o quanto a socialização das crianças se amplia no convívio entre as diferentes idades (ROVERI e TURRINI, pg. 351, 2022). Para superar o discurso de que as crianças mais novas podem se machucar quando em contato com as mais velhas, ou que a disparidade de idades pode prejudicar o desenvolvimento das crianças mais velhas causando regressão, é necessário repensar a educação como um 12 território repleto de diversos encontros entre diferentes sujeitos, que dentro de suas singularidades, se modificam e são modificados (ROVERI e TURRINI, 2022). Os agrupamentos multietários só deixarão de ser um desafio quando compreendidos como um espaço coletivo de movimentos permanentes, onde as crianças possam ocupá-lo e experimentá-lo com autonomia e interagindo umas com as outras. É preciso, ainda, educarmos nosso olhar em direção ao que elas manifestam em suas interações, aproximando-nos e acolhendo-as como parceiras atuantes dos tempos e dos espaços da Educação Infantil (ROVERI e TURRINI, pg. 352, 2022). No contexto das classes multisseriadas, o trabalho de Ferri (1994) aborda sobre a realidade das classes multisseriadas na década de 90 no Brasil onde, naquela época, mais de 75% das escolas de 1º grau estavam localizadas nas zonas rurais, e destas, 51% eram de classes multisseriadas. As maiores dificuldades encontradas pelos professores, segundo Ferri (1994), era não conseguirem se dedicar a tarefa de ensinar – pois como havia falta de merendeiras, diretora, orientadora, vigia e recursos educacionais – o professor ficava com acúmulo de funções. Além disso, muitos professores não possuíam instrução suficiente, pois faltava formação, não tinham acesso a fontes de informações, liam muito pouco, estavam isolados em suas comunidades e precisavam ser ao mesmo tempo quatro professoras, da 1ª a 4ª série. As escolas multisseriadas foram o primeiro tipo de escola nas zonas rurais e nas áreas periféricas da zona urbana de Santa Catarina. Sendo sua característica principal possuir apenas um professor para alunos de séries diferentes. Elas surgiram nas fazendas em contrapartida das escolas estrangeiras que surgiram no século passado com o movimento imigratório, e que após a Primeira Guerra Mundial, foram proibidas no Brasil, pelo movimento de nacionalização (FERRI, 1994). Segundo Ferri (1994), quem ajudava a manter essas escolas rurais eram os próprios fazendeiros, e estes tinham pensamento ambíguos: as vezes ajudavam a manter a frequência dos alunos nas escolas para valorizar as fazendas, pois atraia-se mão de obra, mas as vezes forçavam a ausência das crianças para utilizar o trabalho destas nas lavouras em época de colheitas. As classes seriadas eram vistas como a única forma de educação para os filhos dos trabalhadores do campo. Neste contexto das classes multisseriadas da zona rural de Santa Cantariana, por mais que os alunos estivessem em uma única sala, eles ainda eram classificados de acordo com suas séries para efetivação do processo de ensino aprendizagem, e os conteúdos eram passados de 13 acordo com a seriação. A interação entre os alunos ocorria somente na hora do intervalo, onde as crianças brincavam juntas. (FERRI, 1994). Neste estudo, Ferri (1994) se propôs em buscar uma nova possibilidade dopapel da escola em relação ao processo de ensino aprendizagem e para isso precisavam entender o que era as classes multisseriadas, suas possibilidades, limitações, dia a dia, professores. Para que os alunos das classes seriadas agreguem novos conhecimentos, o autor destaca a necessidade que os conteúdos sejam sobre algo que façam sentido na vida pessoal deles. Em estudo realizado por Prado (2006) com alunos de agrupamentos multietários através de diversos materiais coletados junto às crianças (desenhos, histórias, canções etc.), este ressalta que as diversas possibilidades de construção e expressão infantil não estão limitadas à categoria etária, e recorre às teorias sociointeracionistas de Vygotsky (1989) para sustentar a relevância da interação entra as crianças maiores e menores no que diz respeito a construção do conhecimento. As trocas realizadas entre as crianças com diferentes idades permitem que a aprendizagem possa ocorrer na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que é a distância entre o nível de desenvolvimento real (que constitui em função daquilo que a criança já pode fazer sem auxílio) e o nível de desenvolvimento potencial (que se entende como sendo aquilo que a criança poderá fazer sob a orientação de um adulto ou com auxílio de outro par). A ZDP compões um conjunto de informações que a criança tem a potencialidade de aprender, mas ainda não completou o processo, isto é, conhecimentos fora de seu alcance atual, mas potencialmente atingíveis (VYGOTSKY, 1989). Segundo COUTINHO (2005), compreender as crianças como produtoras de culturas infantis, implica em considerar seu protagonismo diante da construção do conhecimento, diferentemente do que durante muito tempo se acreditava, as crianças não são receptoras passivos da realidade, elas são sujeitos ativos que interagem com culturas próprias de variadas hipóteses sistemáticas com conhecimentos mais elaborados. As manifestações infantis são provenientes de culturas da própria criança. (COUTINHO , p.8, 2005) Coutinho (2005) relata uma incrível experiência com crianças de faixas etárias diferentes entre um ano e cinco anos e onze meses, onde de fato se comprova que esta diferença não interfere na socialização e aprendizagem delas. Porém acredita ser para o momento presente inviável por falta de recursos financeiros em outras partes do país, ou seja, inacessível à maioria da população. No entanto válido sim e sem perdas para a formação cultural e educacional para as crianças. 14 Através de carta-manifesto assinada por diversos Coordenadores Pedagógicos que atuam na Educação Infantil na Rede Municipal de São Paulo, é possível compreender de maneira profusa o quanto a adesão aos agrupamentos multietários tem sido criticada pelos profissionais da área. Nela, Alves et al. (2022) apontam as contradições existente nesta tomada de decisão, que para eles, foi vista como autoritária, uma vez que, não houve diálogo, consulta nem oferta de formação prévia. A crítica apresentada por eles é norteada por duas razões principais, sendo elas: o fato de a Secretaria Municipal de Educação não ter levado em consideração a diferença entre Relações Multietárias e Turmas Multietárias; e a contestação da SME ter adotado este modelo de agrupamento como uma solução para questões relacionadas à demanda escolar. Primeiro precisamos diferenciar o que são RELAÇÕES multietárias nas escolas das infâncias e o atendimento realizado por meio das TURMAS multietárias nas escolas das infâncias. Relações multietárias acontecem por todo tempo em múltiplos espaços da sociedade e com frequência são ações planejadas nos ambientes das unidades de educação infantil da nossa rede. Quando bebês e crianças de diferentes idades se relacionam no refeitório, no parque, brincando com terra, com água e em tantos momentos das vivências cotidianas. Já as turmas multietárias como parte de uma proposta pedagógica para toda uma rede, ainda mais uma rede com dimensões gigantes como a nossa, precisa ser tratada como política pública. (ALVES et al., 2022) Apesar de compreenderem que as infâncias estão para além do recorte etário (ALVES et al., 2022), os Coordenadores Pedagógicos que assinaram a carta-manifesto apontam que, as estruturas físicas e humanas encontrada nas escolas atualmente como classes superlotadas, falta de funcionários, dentre outros, assim como o atual momento histórico de retomada das aulas presenciais após o distanciamento que foi imposto pela pandemia de Covid-19, têm dificultado o oferecimento de um acolhimento adequado às crianças diante a implementação dos agrupamentos multietários. Alves et al. (2022) defendem que, como política pública, essa mudança nos agrupamentos precisa, antes de implementada, ser estudada, planejada e estruturada. Para eles, o momento atual pede que, primeiramente, as relações multietárias sejam fortalecidas, para posteriormente, se adotar o modelo de turmas multietárias. Por final, Alves et al. (2022) retomam através dos documentos oficiais da Rede Municipal de Educação – o Currículo Integrador da Infância Paulistana e do INDIQUE – a importância de promover a interação entre as crianças de diferentes idades considerando a concepção de crianças e infâncias, para promover a construção de uma política pública de qualidade para a educação infantil. [...] buscar a qualidade social da Educação Infantil é parte integrante da garantia do direito à educação das crianças pequenas. A concepção de qualidade social inclui tanto os aspectos vinculados ao direito à educação, que deve ser garantido a todos numa sociedade guiada por princípios democráticos, como os aspectos ligados às condições 15 de oferta da educação, o que implica em considerar a qualidade dos ambientes, das interações e das práticas pedagógicas existentes nas instituições educacionais. (SÃO PAULO, p.8, 2016 apud ALVES et al.,2022, p. 6). Prado (2012) em seu artigo buscou divulgar os resultados de sua pesquisa sobre relações multietárias realizada em uma escola pública de Educação Infantil paulista. Através de observações e coleta de materiais, conclui que as limitações definidas pela idade da criança é apenas uma construção social e que esta determinação cronológica não deve ser um difusor na educação de crianças pequenas, pois não interfere no desenvolvimento de suas habilidades e competências entre si. Prado (2012) fundamentou-se em outros autores, tais como Faria (1994), Ferreira (2004), Bourdieu (1983), entre outros, com conceitos que reforçam a sua ideia de que a idade não está bem definida e por isso seria apropriado crianças de diversas idades terem uma conivência juntas. A organização de turmas multietárias é uma oportunidade de pensar sobre a infância como um conceito que vai além da idade, como uma construção social e cultural. (FARIA, 1994, apud PRADO, 2012, p. 167). Prado (2012) aponta ainda que por vivermos em uma sociedade excludente, onde as crianças são agrupadas e isoladas segundo a sua evolução cronológica, somente pela faixa etária e, que critérios como esses, estão presentes na Educação Infantil (PRADO, 2012). Segundo Ferreira (2004, apud PRADO, 2012), em sua etnografia sobre as relações entre as crianças em um jardim de infância de Portugal: [...] dado que a idade não corresponde a uma variável natural e que a variabilidade de desenvolvimento biológico, psicológico e social, nem sempre permite estabelecer uma correspondência coerente entre tamanho, idade e competências, o fato de ser mais frágil do ponto de vista físico não significa, necessariamente, ser mais novo, nem implica, do ponto de vista das interações, uma menor competência cognitiva ou social (FERREIRA, pg. 76, 2004 apud PRADO, 2012, p. 163-164). Suposições de que as crianças com idades diferentes brincando juntas poderiam se machucar ou atrapalhar umas às outras, limitam suas habilidadesde se desenvolverem juntas, não foram comprovadas, tanto nas observações de Prado (2012) quanto nas de Ferreira (2004). A proposta de agrupamentos multietários rompe com essa visão meramente baseada na idade das crianças e que elas são incapazes de produzirem coletivamente; para a autora, essa proposta possibilita maior interação e convívio entre as crianças, quebrando assim o paradigma imposto pela sociedade. Durante as suas observações, Prado (2012, p. 162) destaca que as crianças, em seu processo criativo e em sua capacidade de sociabilidade, durante as propostas de brincadeiras não previstas pelas professoras, constroem suas regras com mais liberdade e escolhem livremente parceiros distintos – como as professoras e outras crianças independentemente da idade, do tamanho ou do gênero delas – para atividades variadas. 16 Ao observar turmas de crianças entre 3 e 6 anos de idade, a autora constatou que através das brincadeiras e do convívio, as crianças podiam ser autênticas na sua forma de ser e, ao mesmo tempo, relacionarem-se bem com suas professoras e entre si. Segundo a autora, as crianças são surpreendentes, propõem o inesperado e, portanto, não teríamos o controle sobre a sua forma de pensar ou de agir, mesmo sendo em um ambiente escolar, que é um espaço onde as atividades e ações são planejadas e organizadas (PRADO 2012). Prado (2012) aponta ainda que, durante essas brincadeiras e atividades, era impossível identificar a idade das crianças e complementando as observações: [...] mais do que desenvolver habilidades entre si, as crianças menores e maiores compartilhavam, negociavam e trocavam experiencias, construindo juntas novas formas de brincar, de fazer as coisas do dia a dia (PRADO, 2012, p. 165). Ainda no contexto da brincadeira como um momento de adquirir novas experiências, as crianças observam, aprendem, cuidam uma das outras, criam laços de amizades e constroem uma cultura diversificada no âmbito social e étnico. Assim como as crianças, as professoras também foram observadas, elas negociavam as regras de conduta nas brincadeiras e conflitos de forma em que as crianças tinham a possibilidade tomar decisões na organização das atividades e das brincadeiras. (PRADO, 2012). É de fundamental importância, segundo Prado (2012), que as professoras aprendam com as crianças, sejam criativas, que inventem, que lidem com o inusitado e com o imprevisto assim como as crianças e, que junto a elas, possam expor seus sentimentos e pensamentos, desenvolvendo deste modo uma pedagogia anti-idadista e interetária, que permita uma produção coletiva de conhecimentos entre crianças de idades diferentes. Portanto, para superar os desafios vistos na organização de turmas multietárias, seria necessário construir: [...] uma Pedagogia da Educação Infantil que dialogue com as contribuições de campos diversos do conhecimento (pensando, aqui, no campo das Ciências Sociais), que ouçam e observem as crianças para sua elaboração, planejamento e organização." (PRADO, 2012, p. 168) 2.4. Aplicação das disciplinas estudadas no Projeto Integrador Ao nos depararmos com uma classe multietária é comum que os professores tenham mais dificuldades em realizar o seu planejamento de aula, registros, relatórios e até mesmo observar cada aluno, uma vez que que eles estarão em etapas e objetivos diferentes. Além disso não podemos desconsiderar o momento em que ainda estamos vivendo, a pandemia, que necessita de mais atenção, acolhimento e empatia entre alunos, escola e sociedade. 17 Dessa forma ressaltamos a importância de nos ampararmos as disciplinas estudadas para que o processo de adaptação a mudança seja mais fácil. Com essas disciplinas a serem mencionadas abaixo pautamos o nosso trabalho, desenvolvendo a nossa solução inicial e final do nosso projeto. Didática e escolarização: Na videoaula 1. Didática e ensino escolar: múltiplos aspectos, vimos que a didática é um conjunto de práticas (arte) articuladas artesanalmente, ou seja, o ensinar não é padrão, e sim flexível a cada turma/aluno, o professor precisa ter clareza dessa prática, pois em uma classe multietária, no qual teremos idades diferentes é preciso que o professor se adeque aos seus alunos para que o ensino seja significativo, por exemplo: Não adianta aplicar da mesma forma o conteúdo da turma da manhã para a turma da tarde, o conteúdo pode até ser o mesmo, mas as turmas, os alunos, a interação, o desenvolvimento das atividades propostas são diferentes. O professor deve refletir a sua própria prática pensando sobre o que vai ensinar, a quem vai ensinar e como vai ensinar, indo além do padrão de ficar apenas em sala de aula, no qual os alunos estão enfileirados e só o professor é o detentor do conhecimento. A aula pode ser de forma prática, fora da sala de aula, inclusive da escola, como foi feito em nosso plano de aula em que alunos puderam explorar a natureza, obtendo resultados fundamentais para o seu desenvolvimento. Escola e cultura: Na videoaula 1. A Escola: Breve histórico e caracterização, pudemos compreender a escola como um espaço socio-interativo levando em conta fatores relacionados a cultura em geral de cada aluno. Nos planos de aula que propomos, os alunos foram de fato os protagonistas das atividades, escutamos com atenção cada sugestão que era dada, cada história que era contada, a individualidade de cada aluno, a cultura que cada um pôde acrescentar uns para o outro e isso contribuiu significativamente para que efetuássemos um segundo plano de aula dando continuidade ao primeiro, enfatizando ainda mais os objetivos que gostaríamos que fossem realizados com aquelas atividades. Avaliação educacional e da aprendizagem: De acordo com as entrevistas propostas pela Professora Vivian Batista da Silva, entendemos que a avaliação não acontece em momentos isolados e sim que ela permeia todo o processo e por isso chamamos ela de formativa, no qual preocupa-se com o processo de apropriação dos saberes pelo aluno, os diferentes caminhos que ele percorre, mediados pela intervenção ativa do professor, além de promover a regulação das aprendizagens, revertendo a eventual rota do fracasso e reinserindo o aluno no processo educativo, ou seja, é preciso que a escola tenha ciência de que a aprendizagem é uma responsabilidade de todos, aluno, professor e escola, pois infelizmente a avaliação ainda é vista 18 pelo sistema como um interesse nos percentuais de aprovação e reprovação; os professores utilizam a avaliação como uma ameaça; os pais querem que seus filhos avancem as séries de escolaridade e os alunos estão sempre da expectativa de saber se serão aprovados ou reprovados e muitas vezes rotulado. Essa questão, precisa ser revista, pois este não é o objetivo de uma avaliação quando vimos o que é uma avaliação formativa, por esse motivo quando efetuamos o nosso plano de ação não foi necessário uma prova em si para provarmos que o aluno entendeu a proposta da atividade, por meio de todo o processo eles já estavam sendo avaliados, não somente pelo currículo real, mas sim pelo oculto, no qual pudemos verificar que os objetivos como: interação, convívio, conhecer o outro e compreendê-lo foram atingidos. Conforme estudamos, para Perrenoud, o ensino é uma profissão relacional, que é o professor, com suas palavras, seus gestos, seu corpo, seu espírito, que dá sentido, luz ou sombras as informações que quer fazer chegar aos alunos, dessa forma, de acordo com as atitudes do professor ele pode favorecer ou desfavorecer a aprendizagem. Psicologia da educação: Na videoaula 9 – A epistemologia genética de Jean Piaget: os estágios do desenvolvimento cognitivo, foi importante para compreendermos as fases de desenvolvimento do aluno para que alinhado aos campos de experiências e objetivos da BNCC, pudéssemos escolher quais as atividades que seriam aplicadasaos nossos alunos, inclusive, no momento do planejamento do plano de aula, no qual precisaríamos levar em consideração as classes multietárias. Além disso na Videoaula 11 – A psicologia histórico-cultural de Vygotsky e a educação de crianças e jovens, compreendemos ainda mais a importância da interação social para o desenvolvimento cognitivo do aluno que consequentemente gera novas experiências e conhecimento. Por isso enfatizamos em nossos planos de aula a importância de trabalharmos com os alunos a interação social, primeiro porque é uma das dificuldades das classes multietárias e 2º pela pandemia. Com a aplicabilidade dessa ação, pudemos observar os benefícios que foram gerados, sendo eles: a troca de linguagens, experiências e culturas, respeito, generosidade e colaboração, sendo possível constatar que a interação social é indispensável para a vivência na escola e que relacionar-se é fundamental para todo o ser humano. 2.5. Metodologia Este projeto se caracteriza como uma pesquisa exploratória com abordagem qualitativa de caráter exploratório no qual pretendemos nos familiarizar com a problemática dos conflitos 19 desencadeados pela nova forma de agrupamento das turmas de Educação Infantil. Por ser uma mudança recente no contexto escolar, nos apoiaremos nas observações, nos relatos, em questionários e levantamentos bibliográficos durante este processo de sondagem do tema pesquisado; para que assim, possamos propor soluções fundamentadas num olhar cuidadoso frente as vivências e realidades encontradas. A Unidade Escolar com na qual este Projeto Integrador está sendo realizado, fica localizada no Distrito do Morumbi na zona sul capital paulista, mais precisamente no bairro Real Parque, pertencente à Diretoria Regional do Butantã. A instituição possui, atualmente, 300 crianças matriculadas e a faixa etária dos matriculados está situada entre 4 e 5 anos de idade. A unidade escolar funciona nos períodos matutino e vespertino e atende seis turmas por período. As turmas são compostas por agrupamentos multietários e cada turma possui, aproximadamente, 27 crianças e dois docentes que compartilham a docência em cada período. As crianças passam dois anos nessa etapa da educação infantil, e em seguida são encaminhadas para instituições de Ensino Fundamental. A unidade escolar em questão foi selecionada para a pesquisa justamente por fazer parte do cenário, proposto pela Secretaria Municipal de Educação, de mudança de organização das turmas nas instituições de Educação Infantil. Como dito anteriormente, a partir de 2022 todas as unidades da rede precisaram organizar seus agrupamentos com crianças de idade diversa e não mais pela relação etapa/idade. Sendo assim, imaginamos que a mudança em questão ocasionasse problemáticas passíveis de estudo, observação e proposição de encaminhamentos. Achamos importante apontar que esta é uma escola que atende a uma demanda bem diversa de famílias, com contextos culturais e socioeconômicos bem distintos. Fazem parte do corpo discente, crianças que residem na 2ª maior comunidade carente da cidade – Paraisópolis –, crianças que residem em bairros nobres – como Cidade Jardim, Pinheiros – e por último, crianças da etnia indígena Pankararu. Acreditamos que a pesquisa exploratória seja o método que melhor poderá contribuir para a compreensão dessa problemática, uma vez que, segundo Gil (2018), este método de pesquisa se caracteriza por “desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias”. É a partir dessa definição que pretendemos através de levantamento bibliográfico, entrevistas e observações, ter uma visão geral e proximidade com o tema abordado. Para realizar nossa pesquisa, iniciamos contato com a instituição, primeiramente, por e- mail, para que fosse viável aproximação com a equipe gestora da unidade. Para nossa surpresa, 20 fomos respondidos rapidamente pela coordenadora pedagógica e agendamos para a semana seguinte uma conversa para a explanação dos objetivos da pesquisa. Sendo assim, após a conversa com a coordenação organizamos os passos de nossa estada na unidade escolar: entrevista com a coordenadora pedagógica, entrevista com alguns docentes e observação das turmas pelo período de um mês, sendo que estaríamos na unidade duas vezes por semana. Além disso, outros instrumentos que compuseram as investigações foram questionários formulados pelo grupo e encaminhados para a coordenação pedagógica e docentes de quatro turmas. Nas observações nos atentamos a alguns pontos específicos: como se davam as interações entre as crianças, quais eram os principais conflitos entre elas, quais eram as estratégias planejadas pelos docentes para o trabalho pedagógico e quais intervenções os docentes realizavam nas situações observadas. Sendo assim, essa pesquisa utiliza análise qualitativa dos dados coletados. Segundo Minayo (2001), a pesquisa qualitativa lida com significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, aprofundando as relações e fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. 21 3. RESULTADOS 3.1. Análise de Dados O questionário apresentado a seguir foi elaborado de maneira que pudéssemos atinar demandas com as quais seria possível trabalhar durante a elaboração deste projeto. As questões foram feitas à Coordenadora Pedagógica da Unidade. Questionário Realizado com a Coordenadora Pedagógica da Unidade PERGUNTAS RESPOSTAS Com qual etapa da educação básica você trabalha? Educação Infantil Qual a faixa etária dos seus alunos? 4/5 anos Com a retomada das aulas 100% presenciais no ano de 2022, qual tem sido a maior problemática/desafio encontrada/enfrentado por você no contexto escolar? Implementação dos agrupamentos multietários na formação de turmas e questões referentes à rotina, interação e estímulos pós período pandêmico em que a maioria das crianças ficaram em casa. Em comparação com o ano anterior, o que você acha que contribuiu para o surgimento dessa problemática? Acredito que a quantidade de crianças nas turmas sempre é um ponto nevrálgico para o trabalho pedagógico. Além disso, em mais de 2 anos é a primeira vez que temos todas as crianças juntas nas turmas e por fim a implementação dos agrupamentos multietários sem formação docente e estrutura de recursos humanos. O que era possível ser trabalhado com alunos nos anos anteriores, que não tem se mostrado tão efetivo este ano por influência dessa problemática? E por quê? Temos percebido que as interações com as crianças têm sido um pouco mais conturbadas que em anos anteriores. Crianças com dificuldades em brincar, em expressar emoções, em lidar com frustrações. Ademais, ainda estamos trabalhando questões a respeito dos combinados e rotina escolar ainda no mês 22 de Maio, uma vez que temos enfrentado muitas dificuldades nesses pontos nesse ano. Esses pontos eram trabalhados em anos anteriores, no entanto, pareciam um pouco menos complicados que atualmente. De que maneira esta problemática tem interferido no êxito das propostas a serem trabalhadas com os alunos? Alguns docentes relatam que sentem-se "patinando" em seus planejamentos. Temos verificado a necessidade de ajustar expectativas, objetivos e planejamentos nesse sentido. Além do que, as necessárias intervenções em questões de relacionamento interpessoal das crianças têm dificultado a fluidez das propostas planejadas. Questionário Realizado com os Professores da Unidade Escolar Para compreender, a partir da perspectiva dos professores, os desdobramentos que esta mudança acarretou na dinâmica vista em sala de aula, realizamos um segundo questionário com enfoque específico nesta problemática. PERGUNTAS RESPOSTAS PROFESSOR 1 RESPOSTAS PROFESSOR 2 RESPOSTAS PROFESSOR 3RESPOSTAS PROFESSOR 4 Com qual etapa da educação básica você trabalha? Educação Infantil Educação Infantil Educação Infantil Educação Infantil Qual a faixa etária dos seus alunos? 4 a 5 anos 4 a 6 anos 3 a 6 anos 4 a 5 anos Qual tem sido o maior desafio enfrentado após a mudança no agrupamento das turmas? Situações procedimentais que envolvem mais autonomia e maturidade. Conciliar a demanda de atenção que os mais novos necessitam; adequação de atividades. Crianças extremamente dependentes, aumento das situações de conflitos, nível de compreensão das propostas. Não percebi grande diferença em relação ao agrupamento. Acredito que o retorno á escola após o período de quarentena é algo que tem mais 23 influência do que a alteração dos agrupamentos. Em comparação com o ano anterior, o que você acha que contribuiu para o surgimento dessa problemática? De que forma essa mudança afetou o seu planejamento de aulas? A pandemia com certeza contribuiu, pois, muitas crianças não frequentaram a escola, sendo assim privados de se adaptarem a rotina de uma escola. Hoje temos crianças em diferentes fases de adaptação tanto em relação a rotina que é diferente da de casa, como em relação a interação com os colegas. Portanto nosso planejamento tem que contemplar todas essas fases, desde procedimentos básicos de higiene e auto cuidado como de interação e troca com os colegas de forma mais coletiva. Acho que as classes multietárias foi uma coisa imposta, sem uma preparação dos professores e implementada após uma pandemia, onde a maioria das crianças ficaram 2 anos sem frequentar a escola. Para além dos efeitos da pandemia, falta de organização, formação e estrutura material/humana para lidar com os agrupamentos multietários. Afeta diariamente, na medida em que a necessidade de mediação aumentou e consequentemente interrupções de vivências e atividades são necessárias para orientações. As interações em ambientes externos foram ampliadas. Como dito anteriormente, o problema é a falta de adaptação de muitas crianças às dinâmicas escolares. Dividir atenção dos adultos ou criança, brinquedos ou utilização de espaços. Dessa forma, acredito que o planejamento deve visar ampliar a autonomia, autorregulação e interação das crianças, tanto com as outras pessoas quanto com o ambiente escolar. Você acredita que tenha sido preparado para enfrentar os desafios que surgiram com a mudança dos agrupamentos? Não Não Não Não 24 O que era possível ser trabalhado com os alunos nos anos anteriores, que não tem se mostrado tão efetivo este ano por influência dessa problemática? Se possível, cite exemplos. Em anos anteriores quando as crianças estavam em fases de maturidade equivalentes avançamos mais com as propostas e desafios. Hoje seguramos um pouco em função dos que ainda não adquiriram as habilidades necessárias. Escrita dos nomes com auxílio do crachá, uso da tesoura. Vivências e atividades que exigem maior nível de atenção e tempo de execução. Acredito que a janela de desenvolvimento entre crianças de 3 a 6 anos não é tão grande e, se estimuladas, as crianças podem desenvolver qualquer trabalho que seja proposto, respeitando seus processos e possibilidades. Dessa maneira, acredito que não há um trabalho que poderia ser feito anteriormente e atualmente não. Para exemplificar podemos utilizar o momento da Roda de Conversa, em que as crianças precisam aprender o momento de falar e de escutar, que é um momento de compartilhar nossas histórias, vontades, dentre outras informações. Para crianças de 4 anos, que iniciam o período escolar na EMEI, isso pode ser um desafio maior do que para crianças que já a frequentavam, porém nos agrupamentos atuais, temos crianças mais novas que já entendem melhor a dinâmica da Roda de 25 Conversa do que crianças mais velhas que, inclusive, já frequentavam a EMEI. De que maneira o agrupamento multietário tem interferido no êxito das propostas a serem trabalhadas com os alunos? Mesma resposta da questão anterior. As propostas são feitas de acordo com o que a maioria tem condições de realizar, o que traz um pouco de prejuízo para os que já conseguem avançar mais. Tem prejudicado, pois muitas vezes eu atraso o que tinha planejado, as atividades do projeto para trabalhar com procedimentos que eles não têm. Nível de maturidade das crianças mais novas em relação às demandas que as mais velhas solicitam e necessitam, uma vez que exigem estímulos diferentes. Não tem interferido. O quanto a mudança para o agrupamento multietário tem interferido no êxito das propostas a serem trabalhadas com os alunos? Tem interferido pouco. Tem interferido muito. Tem interferido muito. Não tem interferido Dentro das percepções apresentadas pela coordenadora pedagógica e pelos professores percebemos que, para eles, o retorno presencial às aulas pós-pandemia não foi um momento tão conveniente para adotar a organização multietária das turmas. Uma vez que, o tempo que estes alunos passaram sem receber estímulos e conviver com outras crianças – seja da mesma faixa etária ou não – por si, já seria um potencializador de questões conflituosas dentro da sala de aula. Com o aumento nos conflitos causados por esse contexto desfavorável, acreditamos que desenvolver competências socioemocionais trabalhando a capacidade de lidar com o outro, consigo próprio, com seus sentimentos e desenvolvendo a empatia, estaremos contribuindo na construção de uma percepção mais humanizada sobre o próximo e facilitando o processo de aprender e ensinar. 26 3.2. Observações das aulas Nos dias em que estivemos na unidade, pudemos vivenciar vários momentos que compõem a rotina escolar das crianças: a entrada, as refeições e o uso dos espaços escolares como ambientes para realização de vivências. É válido mencionar que uma de nossas percepções é a importância que os espaços como: parque, horta, caixa de areia, quadra e solário possuem na rotina diária do trabalho pedagógico. Na unidade referida, há uma linha de tempo confeccionada de modo a garantir que todas as turmas utilizem, ao menos, dois espaços diferenciados por período, além da sala de referência. Pudemos presenciar leituras realizadas no pátio externo, brincadeiras na horta e circuitos montados na quadra. Percebemos que a dinâmica das vivências nesses espaços favorece o processo de interação entre as crianças, em contrapartida, notamos que os momentos na sala de referência são permeados de conflitos entre os infantes. Dificuldades no compartilhamento de brinquedos, em atentar-se aos comandos dados pelo professor, questões envolvendo autorregulação e organização. Choro extremado quando contrariados, dificuldades em lidar com frustrações, limites e combinados, negativas para guardar os brinquedos, a resolução de conflitos utilizando violência física. As crianças menores aparentam ter dificuldades para lidar com eventos atípicos ou com colegas que possuem alguma especificidade como, deficiências ou transtornos globais do desenvolvimento (TGD). Elas ficam bem assustadas, choram, solicitam o professor e por vezes levam bastante tempo para se acalmar mesmo com as intervenções docentes. Durante as refeições observamos também dificuldades desde a organização da fila para a retirada de alimentos para consumo até a extrema seletividade e recusa de alimentos. Em um dos dias, observamos uma criança dizer “eu não gosto de arroz e feijão, eu quero miojo. Eusó como miojo em casa”. Ao refletir sobre o notado, pensamos que é deveras complicado atribuir tais questões apenas à organização multietária dos agrupamentos, uma vez que, a maioria das crianças esteve em suas residências e fora do contexto escolar, praticamente, por dois anos devido à pandemia de Covid-19. Ficam assim, muito mimetizadas as nuances do que é resultante do isolamento social e da nova organização das turmas – fato é que – os pontos dificultosos para o trabalho docente surgem a cada novo momento na rotina escolar. 27 Percebemos para além do trabalho pedagógico, sobretudo no período matutino, a escassez de recursos humanos, principalmente, na equipe de apoio – inspetores e agentes escolares. Na escola da infância, em que o cuidar e o educar é intrínseco a todos os momentos e agentes faltam funcionários para o auxílio na higiene e observação das crianças nas idas ao banheiro, por exemplo. Durante o período em que estivemos na instituição faltava também professores de apoio e/ou suporte para os docentes regentes, mesmo que nas turmas existissem crianças com TGD. 3.3. Solução inicial Levando em conta a queixa de alguns professores a respeito da dificuldade em realizar propostas e atividades dentro da sala de referência, principalmente acarretada pela falta de interesse dos alunos em permanecer muito tempo dentro do mesmo ambiente – por vezes, nada atrativo –, decidimos dar início em nossa proposta de ação realizando uma atividade em um local que ainda era estranho para a turma de alunos, uma praça localizada no bairro que costumava ser visitada pelas turmas antes da pandemia, mas que desde a retomada das aulas presenciais permanecia até então fora das propostas pedagógicas. Esta decisão foi tomada com o intuito de construir Planos de Aulas que interagissem entre si, proporcionando que as atividades trabalhadas pudessem dialogar entre elas. Assim, o que teria início em um ambiente externo fora da escola, seria trazido para o ambiente interno a fim de dar seguimento a uma nova proposta de atividade, sempre ouvindo a opinião e as sugestões das crianças de forma a propiciar momentos de experimentação, criação, imaginação, cooperação – e aquilo que é o foco principal deste trabalho – o fortalecimento da interação entre os alunos através da empatia. PLANO DE AULA 1 Turma: Ed. Infantil Unificada Duração: Aprox. 1h Faixa etária: 4 a 5 anos Proposta Realizada: Explorar a natureza COMPETÊNCIA BNCC: 9 - Empatia e cooperação HABILIDADES BNCC: EI02EO04 - Comunicar-se com os colegas e os adultos, buscando compreendê-los e fazendo-se compreender. EI02EO06 - Respeitar regras básicas de convívio social nas interações e brincadeiras. EI02ET05 - Classificar objetos, considerando determinado atributo (tamanho, peso, cor, forma etc.). 28 EI01ET05 - Manipular materiais diversos e variados para comparar as diferenças e semelhanças entre eles. OBJETIVOS: Proporcionar o contato com a natureza, explorar elementos como gravetos, folhas, galhos, terra, areia, árvores, pedras, para que possam construir conceitos e conhecimentos sobre o mundo em que vivem percebendo suas características, fazendo comparações, descobrindo e identificando sensações, aprender sobre a própria existência, ciclo da vida e a importância de respeitar o meio ambiente. Espaço utilizado: Praça próxima à Unidade Escolar Materiais: Elementos da natureza a livre alcance (pedras, galhos e folhas de diferentes tamanhos, espessuras e pesos). Procedimento Metodológico: Antes de realizar a atividade discutimos com a turma alguns combinados, pois esta seria a primeira vez que os alunos iriam explorar um ambiente externo que fica próximo à escola (Praça Visconde da Cunha Bueno). A escolha da atividade ao ar livre foi tomada devido à dificuldade em manter as crianças na sala de referência. Com o caráter exploratório, propomos que as crianças investigassem o local e coletassem materiais presentes na natureza com os quais pudéssemos trabalhar em outra atividade (Plano de Aula 2). Inicialmente notamos que algumas crianças optaram por fazer a exploração da praça em duplas, outras em pequenos grupos e algumas até mesmo sozinhas – porém sempre com supervisão, tanto nossa quanto das duas professoras regentes, e mais uma funcionária do quadro de apoio. Importante salientar que nesta etapa não realizamos intervenção, através da observação ficou bem evidente que a formação dos grupos/duplas se deu pela identificação com colegas da mesma faixa etária. Algumas crianças, quando encontravam algum elemento da natureza ou animal que não conheciam, indagavam a respeito do que era aquilo, assim, para incentivar a comunicação e cooperação entre eles, sempre questionávamos se alguma criança saberia explicar para o colega o que era aquilo que haviam encontrado (exemplo: o tatu-bola). Algumas crianças mais velhas observaram que, mesmo possuindo lixeiras, em alguns locais da praça era possível encontrar lixo no chão, foi o momento em que discutimos sobre a poluição. Já as mais novas, apesar de em sua maioria, se empenharam mais em 29 explorar o espaço físico e recolher materiais, se demonstraram interessados em ouvir as explicações dos colegas mais velhos. Em certo momento o aluno K. (4 anos) acabou tropeçando e ralando o joelho, dois de seus colegas mais velhos (L. e C., ambos com 5 anos), se fizeram bem preocupados e presente durante a mediação do pequeno acidente. Apesar de a lesão ter sido superficial, K. foi amparado por eles com muitos abraços e gestos carinho. Ao final da proposta de exploração, retornamos à escola com os seguintes materiais recolhidos pelas crianças: gravetos, folhas, pedras pequenas e grandes, areias de diferentes cores e granulações, dentre outros materiais. Durante a realização desta atividade pudemos notar durante a interação dos alunos entre eles e com o ambiente, que nem sempre o processo de aprendizagem e interação precisa, exclusivamente, depender do professor. Alunos mais velhos e mais novos exploraram a praça e foram protagonistas de sua própria construção do conhecimento; através da liberdade de explorar algo novo, diante do desconhecido, puderam contar com o conhecimento de mundo do colega para compreender determinada situação/objeto, foi uma rica troca de experiências entre os alunos de diferentes idades. Dando prosseguimento a ideia inicial de dialogar uma atividade com a outra, a próxima atividade realizada com a turma que explorou a praça seria a exploração sensorial dos materiais por eles coletados, “seria” porque apesar de efetivamente oportunizarmos que as crianças preenchessem algumas formas com água e elementos da natureza, para posteriormente congelar e observar seu derretimento, como nas imagens a seguir: 30 Após o descongelamento, C. (5 anos) apontou para um grande galho de árvore que se encontrava no chão do parque que fica localizado logo na entrada da escola, este galho havia caído de uma das árvores que fazem parte do ambiente arbóreo externo da unidade escolar, as crianças acharam que seria interessante recolhermos o grande galho, pois se assemelhava a uma pequena árvore, e assim o fizemos. A partir da sugestão das crianças de que com o galho encontrado e com restante dos elementos da natureza por elas coletados montássemos uma árvore, construímos um segundo Plano de Aula que pudesse dialogar com essa ideia por elas proposta. Visando estreitar os laços entre os alunos e proporcionar o estabelecimento de vínculos saudáveis entre eles e comitantemente com a vida escolar, solicitamos que as famílias enviassem pelas agendas e/ou pelo grupo de WhatsApp da turma, fotos de momentos que tivessem sido muito importantes para as crianças. PLANO DE AULA 2 Turma: Ed. Infantil Unificada Duração: 2 dias (em semanas diferentes) Faixa etária:4 a 5 anos Proposta Realizada: Construindo a Árvore das Lembranças COMPETÊNCIA BNCC: 9 - Empatia e cooperação HABILIDADES BNCC: 31 EI02EO04 - Comunicar-se com os colegas e os adultos, buscando compreendê-los e fazendo-se compreender. EI02EO06 - Respeitar regras básicas de convívio social nas interações e brincadeiras. EI01EO06 - Interagir com outras crianças da mesma faixa etária e adultos, adaptando- se ao convívio social. OBJETIVOS: Trabalhar a memória afetiva, compartilhar histórias sobre si, conhecer o outro e promover a criação de vínculos. Espaço utilizado: Sala de aula de referência, horta, corredor e refeitório. Materiais: Elementos da natureza (pedras, galhos e folhas de diferentes tamanhos, espessuras e pesos), tinta guache, pincéis, terra, balde, pregadores e fotos. Procedimento Metodológico: Orientamos que cada família dispusesse de um momento de seu dia para se sentar com cada criança, revisitar os álbuns de fotos e escolhessem uma fotografia de um momento que considerassem importante, e que levassem em consideração na hora realizar esta escolha ouvir e perceber os sentimentos de seus filhos ao se depararem com determinadas imagens. As crianças também foram orientadas a realizar a escolha da foto, e durante este momento questionaram se poderiam escolher fotos com animais, um aluno (D. – 4 anos) questionou se poderia ser foto com quem “virou estrelinha”, no que prontamente esclarecemos que sim, pois memórias nem sempre são alegres, às vezes são de saudade. Durante esta conversa tomamos conhecimento que este aluno havia perdido o pai no início do ano (vítima do Covid-19). O compartilhamento de um dos alunos sobre a experiência de perda, foi incorporado durante esta proposta da memória afetiva de modo a proporcionar a compreensão do fim da vida de uma maneira diferente. Trabalhamos com as crianças o filme “Viva: A vida é uma festa”, que retrata o processo de luto através da cultura mexicana, onde o “Dia dos Mortos” é celebrado de maneira compartilhada e expressada, onde as pessoas são convidadas a voltar a se reunir com as memórias/lembranças daqueles que já se foram com afeto e agradecimento. Durante a discussão que sucedeu o término do filme, algumas crianças partilharam mais situações de perdas, uma com seu respectivo cachorro, e outra com sua avó – que posteriormente tiveram suas fotos incluídas na árvore de memórias. A primeira etapa da construção da árvore se deu através do preparo dos materiais que seriam utilizados, as crianças se reuniram na sala de referência para pintar algumas folhas e 32 decorar em conjunto o balde que serviria de “vaso” para nossa árvore. Cada uma ajudou a colocar um punhado de terra dentro do balde para plantarmos o grande galho que haviam encontrado durante o plano de aula anterior. Após pendurarmos as fotos das lembranças com pregadores, cada criança foi convidada e explicar o contexto da foto que havia escolhido, este momento de compartilhamento de histórias pessoais identificamos bastante interesse e entusiasmo por parte dos alunos. Todos permaneceram atentos enquanto o colega falava, ao mesmo tempo que antecipavam sua vez de partilhar a história da sua foto. Tivemos fotos de passeio ao zoológico com a família, de uma das crianças tocando instrumento musical em uma apresentação da igreja, com ente queridos que já se foram, de criança lambuzada em chocolate, alimentando um ninho de passarinhos que foi encontrado caído no quintal de casa, primeira festa de aniversário de uma criança que havia sido adotada no final do ano anterior, dentre muitas outras memórias. 33 Com a conclusão dos planos de aulas, percebemos uma melhora no relacionamento interpessoal das crianças, ao longo das atividades propostas pudemos observar um se colocando no lugar do outro, respeitando o momento de fala dos colegas, respeito aos materiais apresentados, momentos de cooperação durante as construções conjuntas e o compartilhamento de conhecimento até mesmo para tirar dúvidas uns dos outros. 34 Os conflitos, disputas e desentendimentos pouco se fizeram presente, nada que comprometesse a realização das propostas ou prejudicasse o processo de aprendizagem das crianças. Também não notamos indiferença entre alunos mais novos e mais velhos, tampouco desmerecimento quando algum colega apresentava dificuldade com alguma tarefa. A interação entre as crianças se apresentou de forma bastante natural e orgânica, sem muita necessidade de intermediação e regulação. A escuta das opiniões e sugestões das crianças durante todo o processo permitiu com que elas se apropriassem das vivências propostas e incorporassem um pouco de cada uma delas. Durante a finalização da construção da árvore de memórias, uma das crianças (S. – 5 anos) fez a observação de que uma das colegas da turma esteve ausente e não compartilhou uma lembrança com o restante da turma. A criança por ela mencionada (B. – 4 anos), por questões de saúde, só frequentou as aulas presenciais somente por um dia durante este ano letivo, permanecendo em ensino remoto para dar continuidade em um tratamento de saúde (leucemia). Por iniciativa própria, as crianças decidiram em comum acordo que gostariam de compartilhar com a colega que estava em ensino remoto a lembrança que tinham dela do único dia que puderam partilhar juntas; o que resultou na confecção de um cartaz que posteriormente foi enviado a esta colega, para que pudesse recordar com carinho esta lembrança. 35 Acreditamos que como solução inicial, as propostas atingiram o que se era esperado, pudemos mobilizar momentos afetuosos, contribuir com a construção de vínculos e compartilhar momentos significativos entre as crianças. Porém, esta foi uma intervenção realizada unicamente com uma das doze turmas que compõem o quadro da escola, para que propostas semelhantes possam ser usufruídas por todo o corpo de alunos, alguns outros aspectos da dinâmica escolar precisariam ser revistos. 3.4. Solução Final Para a construção da proposta de solução final levamos em consideração a queixa dos professores a respeito da dificuldade em trabalhar com as crianças dentro da sala de referência, que pouco tem sido atrativa, principalmente pela dificuldade que grande parte dos têm apresentado em manter o foco e a concentração – herança de quase dois anos sem frequentar as aulas presenciais – e que tem gerado conflitos. Uma vez que parte dos alunos foi privada de experienciar nos anos anteriores momentos de interação, trocas e criação de vínculos – em vista do distanciamento social e da suspensão das aulas – acreditamos que potencializar a utilização dos espaços externos da escola (pátio, horta, parque, caixa de areia, quadra, solário, dentre outros) com mais turmas compartilhando tais ambientes, poderia ser benéfico. Em discussão com a gestão da escola, com os professores e a partir da observação do melhor aproveitamento e interesse das crianças quando as propostas aconteciam nas áreas externas, propusemos uma mudança na linha do tempo de utilização dos espaços de forma que as turmas conseguissem interagir entre si durante outros momentos – já que anteriormente só se encontravam num mesmo ambiente durante as refeições. Assim, essa reorganização se fez necessária para potencializar o desenvolvimento das interações e das brincadeiras. Com a nova linha do tempo, duas turmas compartilham, por exemplo, os momentos entre o parque e a caixa de areia com a possibilidade das crianças decidirem quando querem estar no parque ou brincar na areia, possibilitando a circulação de infantes entre os dois espaços e fazendo com que a própria criança regule e organize seu tempo de brincadeira. Inicialmente, percebemos certo grau de resistência de alguns componentes do grupode professores, mas com a intervenção da coordenação pedagógica, foi possível o novo arranjo. Assim como o parque, outros espaços também são compartilhados por mais de uma turma no mesmo período. Temos a quadra, o solário e a horta também contemplados na nova organização de linha do tempo com compartilhamento de espaços e tempos. 36 Para que fosse possível, os docentes conversaram com as crianças, explicaram que a partir daquele momento seria possível escolher os espaços para brincar em determinado momento e notou-se que a maioria das turmas se adaptou muito rápido a essa nova organização. Os dois espaços foram coabitados de forma organizada. Antes, os professores acreditavam que as crianças iriam escolher um ambiente em detrimento ao outro, mas isso não se concretizou e a circulação das crianças se deu de forma harmoniosa. Inicialmente, algumas crianças ficaram meio confusas, mas os colegas de turma foram se agrupando e se ajudando mutuamente. Outra proposta que foi sugerida pelo grupo foi pensada a partir do questionamento de um docente do grupo. Tal questionamento abarcava a comemoração dos aniversariantes do mês. Em um horário coletivo que nosso grupo acompanhava, o professor perguntou a razão da comemoração ser a cada trimestre. A coordenação pedagógica relatou que as razões eram financeiras, mas que iria tentar mobilizar os recursos junto a gestão escolar para viabilizar uma comemoração mensal. A partir da possibilidade de uma comemoração mensal, nosso grupo propôs que as crianças pudessem vivenciar a comemoração de maneira mais ampla e não apenas comendo o bolo e cantando parabéns. Sugerimos a construção de um mural na escola com as fotos de todos os aniversariantes. Além de sugerir, ajudamos na confecção das fotos e do mural. Além disso, sugerimos que as crianças fizessem os convites e apresentassem para as outras turmas, atribuindo assim maior significado à comemoração. Também propusemos que as turmas confeccionassem a decoração da mesa e do painel de fotos. Uma das crianças sugeriu a confecção de lembranças para os aniversariantes, assim, cada sala também ficou responsável, de em conjunto, criar presentes para cada aniversariante da sua turma. Desta forma, as turmas se mobilizaram em conhecer um pouco mais sobre cada aniversariante, para que usassem as informações na hora de criar os presentes (cor preferida, do que gostavam, etc.). Dessa vez, o grupo docente gostou muito da ideia desde o princípio e movimentou as sugestões junto às crianças. E o que pudemos notar, foi um envolvimento das crianças muito grande com a comemoração. Ao ver o painel de fotos no pátio da escola, elas ficavam se procurando e os colegas olhavam e falavam quais elementos tinha confeccionado na decoração. O fato de irem às turmas dos colegas convidarem os amiguinhos para a comemoração também foi muito benéfico. Percebemos as crianças eufóricas e totalmente entrosadas na hora de falarem com os 37 colegas. Elas estavam se sentindo realmente parte daquele evento e isso tornou extremamente significativa a comemoração. Abaixo, algumas fotos das turmas posando no painel confeccionado a partir de nossa sugestão, o convite e algumas garrafas sensoriais com glitter (feitas por uma das turmas para presentear os colegas aniversariantes. 38 Através da proposta da comemoração dos aniversariantes mensalmente com a participação ativa de todas as turmas na organização, além de ter promovido uma atividade lúdica, foi possível também promover o estreitamento dos laços sociais das crianças, privilegiamos um momento em que elas puderam dialogar entre si se preocupando com o coletivo. A comemoração só foi possível porque cada sala cumpriu uma pequena parte da organização, fazendo a decoração, pintando os letreiros, confeccionando presentes e convites. Foi uma vivência muito elogiada pelos próprios alunos, que antes costumavam celebrar os aniversariantes do mês somente a cada três meses, com essa nova organização além de homenagear os aniversariantes numa data não tão distante de seus respectivos aniversários, houve bastante interação e cooperação. 39 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar das críticas dos professores de Educação Infantil acerca da imposição dos agrupamentos multietários – de que o retorno pós pandemia não seria o momento ideal para tal mudança, da falta de formação adequada e da não discussão/consulta prévia com a categoria, da dificuldade de trabalhar com crianças com faixa etárias diferentes – pudemos perceber que trabalhar com essa nova organização de agrupamento é um desafio que pode ser minimizado quando se põe em pauta o repensar na educação. A queixa apresentada inicialmente no início da busca ativa, e durante a investigação do contexto da escola participante deste projeto, quanto a dificuldade de trabalhar com crianças de faixas etárias distintas já não é uma problemática tão angustiante ou vista como impossível de ser superada pelo corpo docente, nem um empecilho nas práticas e propostas pedagógicas, assim como também não fomentam conflitos com demasiada frequência em sala de aula. Através das propostas por nós realizadas, procuramos trabalhar a educação como um campo aberto, trabalhando diferenças, interações sociais, cooperação, proporcionando atividades mais criativas e que demandassem a aproximação das crianças, assim como a participação ativa destas, dando espaço para seus discursos, suas subjetividades, criatividades e manifestações. É importante frisar que a falta de formação adequada para o corpo docente ainda é algo que demanda atenção e investimento por parte da Secretaria Municipal de Educação, repensar as práticas pedagógicas de forma articulada só é possível através de estudo e o orientação, pois a mudança nos agrupamentos além de ser muito recente, foi implementada durante um período em que a maioria das crianças não frequentaram espaços em que pudessem por em prática seu potencial criativo, narrativo, subjetivo e social, desta forma, é esperado que ocorram conflitos independentemente da diferença etária. 40 REFERÊNCIAS ALVES, A. C. de F. et al. Carta/Manifesto dos Coordenadores/as Pedagógicos/as de Educação Infantil da Cidade de São Paulo. São Paulo: Sindesp, 2022. Disponível em: https://sindsep-sp.org.br/materiais/documentos/carta-manifesto-dos-coordenadores-as- pedagogicos-as-de-educacao-infantil-da-cidade-de-sao-paulo Acesso em: 9, maio, 2022. BOURDIEU, P.A Juventude é apenas uma palavra. In: ______. 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