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O CONTADOR E A ÉTICA PROFISSIONAL AULA 2 Profª Daiane Lolatto CONVERSA INICIAL Prezado estudante, seja bem-vindo. Nesta aula, estudaremos a nova Norma Brasileira de Contabilidade Profissional Geral, NBC PG 100 (R1), que dispõe sobre o cumprimento do código, dos princípios fundamentais e da estrutura conceitual. Esta norma foi publicada em 21 de novembro de 2019 e entrou em vigor em 1 de janeiro de 2020, assim como a NBC PG 200 (R1) e a NBC PG 300 (R1). Trata-se de uma revisão ao Código de Ética Profissional do Contador, fundamentado no Código Internacional de Ética para Contadores Profissionais, emitido pela Federação Internacional de Contadores (Ifac – International Federation of Accountants). A publicação das NBCs faz parte do processo de convergência aos padrões internacionais. A Federação Internacional de Contadores atribuiu os direitos de realizar a tradução, publicação e distribuição das normas internacionais ao Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e ao Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon). Assim, as normas foram convergidas de acordo com a realidade brasileira. O Código de Ética Internacional para Profissionais da Contabilidade da Ifac está dividido em cinco partes: NBC PG 100 (R1) – Cumprimento do Código, dos Princípios Fundamentais e da Estrutura Conceitual que é a Parte 1 e suas seções de 100 a 199, mais o Glossário; NBC PG 200 (R1) – Contadores Empregados (Contadores Internos) que é a Parte 2 e suas seções de 200 a 299, mais o Glossário; NBC PG 300 (R1) – Contadores que Prestam Serviços (Contadores Externos) que é a Parte 3 e suas seções de 300 a 399, mais o Glossário; NBC PA 400 – Independência para Trabalho de Auditoria e Revisão que é a Parte 4A e suas seções de 400 a 899, mais o Glossário; NBC PO 900 – Independência para Trabalho de Asseguração Diferente de Auditoria e Revisão que é a Parte 5B e suas seções de 900 a 999, mais o Glossário. (NBC PG 100 (R1)). Os princípios fundamentais e a estrutura conceitual serão detalhados na sequência. CONTEXTUALIZANDO Os princípios fundamentais de ética instituem o padrão de comportamento esperado do contador. Considere que determinada empresa entre em contato 3 com um profissional contábil que está no início da carreira. A empresa oferece cinco vezes mais para o contador omitir informações contábeis. O contador precisa angariar clientes para sobreviver no mercado. Assumir a contabilidade da empresa seria uma atitude ética? Que princípio contábil ético está relacionado a esta situação? Saiba mais BARBOZA, E. L.; ROA, M. M. Fluxo de informação no contexto contábil. Revista de Ciência da Informação e Documentação, v. 9, n. 2, 2018. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/incid/article/view/141456>. Acesso em: 16 abr. 2020. TEMA 1 – NBC PG 100 (R1): PRINCÍPIOS ÉTICOS A NBC PG 100 (R1) contempla os princípios fundamentais de ética e a estrutura conceitual aplicável a todos os profissionais da contabilidade. Os princípios éticos estabelecem padrões de comportamento, sendo eles: integridade, objetividade, competência profissional e zelo, confidencialidade e comportamento profissional, que serão tratadas com profundidade ao longo desta aula. A estrutura conceitual, segundo NBC PG 100 (R1), deve ser aplicada pelos profissionais da contabilidade para “identificar, avaliar e tratar as ameaças ao cumprimento dos princípios fundamentais”. Tais ameaças compreendem condutas do profissional que podem interferir no desenvolvimento de seu trabalho, por exemplo, quando o profissional aceita algum incentivo (presente) para manipular as informações contábeis, dentre outros tipos de ameaça que serão estudadas na sequência. A norma aborda os requisitos e o material de aplicação para que o profissional da contabilidade exerça o julgamento profissional. É com base no julgamento do profissional que a continuidade do trabalho poderá ser realizada ou não, como quando o profissional contábil tem competência e experiência suficientes para concluir o trabalho. Outro aspecto tratado na norma diz respeito ao profissional manter-se vigilante a novas informações e mudanças em fatos e circunstâncias e utilize o teste do terceiro informado e prudente. Neste sentido, pode haver o envolvimento de um terceiro no trabalho, a fim de verificar se a informação é consistente, sendo, então, uma atitude prudente do profissional. 4 1.1 Estrutura Conceitual As ameaças ao cumprimento dos princípios fundamentais decorrem das condições de trabalho do profissional da contabilidade. Neste sentido, a seção 120 da NBC PG 100 (R1) descreve os requisitos e o material de aplicação e a estrutura conceitual para auxiliar o exercício da profissão. Assim, o profissional poderá identificar, avaliar e tratar as ameaças de maneira a eliminá-las ou reduzi- las a um nível aceitável. O exercício do julgamento profissional é um requisito importante na execução do trabalho, pois envolve conhecimento, habilidade e experiência para saber se as decisões tomadas são apropriadas às circunstâncias. Para isso, a norma recomenda que o profissional considere os seguintes pontos: Existe razão para se preocupar com informações faltantes nos fatos e circunstâncias conhecidos? Por exemplo, quando o profissional contábil está realizando uma análise da conta estoque da empresa e não dispõe de um relatório de entradas e saídas de mercadorias, a conclusão do trabalho poderá ser prejudicada, pois para apurar o saldo da conta é preciso conhecer as entradas e saídas de mercadorias e, então, calcular o montante final do estoque. Assim, o contador deve julgar se é viável continuar o trabalho mesmo com a falta de informações, ou seja, ele precisará estudar alternativas para não prejudicar a continuidade do trabalho ou finalizar o contrato com o seu cliente explicando os motivos. Os fatos e circunstâncias possuem inconsistências? Isto é, o profissional contábil deve julgar se as informações fornecidas pela empresa são consistentes para que o trabalho seja concluído. Não havendo consistência, o contador precisa comunicar os responsáveis e avaliar a sua permanência com o cliente. É o caso de os documentos fiscais serem ocultados pelos gestores da empresa com intuito de manipular os relatórios contábeis. O profissional contábil tem competência e experiência suficientes para concluir o trabalho? Existe a necessidade de consultar um terceiro que tenha competência ou experiência relevante (teste do terceiro informado e prudente)? As informações são suficientes para concluir o trabalho? 5 A preconcepção ou o comportamento tendencioso do próprio profissional da contabilidade pode interferir no julgamento. Neste caso, por exemplo, quando o contador tiver qualquer tipo de relação próxima com a empresa, deve julgar sua permanência no trabalho, visto que o contato próximo do contador com a empresa pode induzi-lo a atender as exigências da empresa mesmo que sejam indevidas. Existem outras conclusões plausíveis que poderiam ser obtidas com base nas informações disponíveis? Presume-se que as conclusões do julgamento profissional seriam as mesmas obtidas por um terceiro, denominada terceiro informado e prudente. Isso quer dizer que, quando o trabalho do profissional contábil for revisado por outro profissional competente, as conclusões serão as mesmas. Por exemplo, ao analisar a vida útil de um bem ao final do exercício social, o contador conclui que o bem gerará benefícios econômicos futuros por mais três anos. Essa mesma conclusão deve ser obtida por outro profissional contábil. Segundo a NBC PG 100 (R1), o terceiro informado e prudente “não precisa ser profissional da contabilidade, mas ter o conhecimento e a experiência pertinentes para entender e avaliar a adequação das conclusões do profissional da contabilidadede forma imparcial”. A norma evidencia, na fase de identificação das ameaças, as possíveis situações que poderiam ameaçar o cumprimento dos princípios fundamentais, como: interesse próprio, autorrevisão, defesa de interesse do cliente, familiaridade e intimidação. A seguir, algumas situações práticas de ameaça. a) Interesse próprio: manipulação do resultado para redução da tributação. b) Autorrevisão: o julgamento do profissional contábil é realizado sem qualquer revisão, por exemplo, o contador assina as demonstrações elaboradas por um terceiro. c) Defesa de interesse ao cliente: o profissional da contabilidade atua em defesa do cliente mesmo que a conduta da empresa seja incoerente com as normas fiscais ou contábeis. d) Familiaridade: por exemplo, quando a empresa solicita o superfaturamento de notas fiscais e o profissional contábil devido à familiaridade, ou seja, tanto em virtude de laços familiares quanto de proximidade amigável com a empresa, executa o serviço. 6 e) Intimidação: por exemplo, o profissional contábil aceita qualquer imposição da empresa em virtude de não receber seus honorários. Na fase de avaliação das ameaças, é necessário avaliar se a ameaça é aceitável ou não. Considera-se nível aceitável de ameaça quando o profissional usa o teste do terceiro informado e os resultados são os mesmos. Tanto os fatores quantitativos (por exemplo, montante financeiro de perdas possíveis) quanto qualitativos (por exemplo, perda do direito de exercer a atividade profissional) devem ser analisados. Por fim, a fase de tratamento das ameaças compreende o tratamento de ameaças que não estão em nível aceitável. Por exemplo, quando o gestor oferece um incentivo com o propósito de persuadir o contador a manipular as informações contábeis, o contador pode tratar esta ameaça não aceitando o incentivo. Conforme a NBC PG 100 (R1), R120.10, o profissional da contabilidade deve assim proceder, mediante: a) a eliminação das circunstâncias, incluindo interesses ou relacionamentos, que estão gerando as ameaças; b) a aplicação de salvaguardas, quando disponíveis e que possam ser aplicadas, para reduzir as ameaças a um nível aceitável; ou c) a recusa ou o término da atividade profissional específica. Todas essas análises e tratamentos apresentados até esse ponto da aula se devem ao fato de que o profissional contábil deve ser responsável pelas informações geradas, tanto para os usuários internos quanto externos. Nesse sentido, a postura profissional e as decisões devem ser baseadas em determinados princípios, que serão abordados nos próximos temas, ao longo dessa aula. Saiba mais BATISTA, S. Um olhar para a contabilidade, viés da essencialidade e da ética. CFC, 8 mar. 2019. Disponível em: <https://cfc.org.br/destaque/um-olhar-para-a- contabilidade-vies-da-essencialidade-e-da-etica/>. Acesso em: 16 abr. 2020. TEMA 2 – NBC PG 100 (R1): INTEGRIDADE O princípio da integridade estabelece que o profissional da contabilidade deve ser direto e honesto em todas as relações profissionais e comerciais, o que implica em uma negociação justa e verdadeira (NBC PG 100 [R1]). 7 Para isso, o profissional contábil não deve estar vinculado, de maneira consciente, a qualquer informação que: envolva informações substancialmente falsas ou enganosas. Neste caso, por exemplo, o contador não pode ser conivente com o registro contábil de fatos que não apresentam documentos comprovatórios; envolva informações fornecidas de maneira superficial, como estimar as perdas com clientes sem analisar o histórico de perdas da empresa; ou omita ou oculte informações essenciais que levariam a declarações enganosas. Por exemplo, o contador sabendo da possível descontinuidade da empresa, ludibria os usuários da informação com a ocultação de despesas ocorridas. Caso o profissional não tenha conhecimento de que a informação é falsa, enganosa, superficial ou que haja omissão de informações, ele não está violando o Código de Ética. Em contrapartida, se tiver conhecimento, deve tomar providências para se desvincular dessas informações. Caso o contador não tome as providencias necessárias, pode perder seu registro profissional ou prejudicar sua imagem no mercado. O ano de 2001 foi marcado por um dos maiores casos de fraude do mundo, o caso Enron, que nitidamente envolveu a inobservância de integridade por parte dos profissionais envolvidos. A empresa Enron Corporation, fundada em 1985, era uma empresa de energia, commodities e serviços dos EUA. Em 2001, foi descoberto que a empresa ocultava bilhões de dólares (US$) de dívidas incobráveis enquanto inflacionava os ganhos da empresa. Essa prática resultou na queda das ações de aproximadamente US$ 90 para menos de US$ 1 em um ano. Os investidores (acionistas) perderam mais de US $ 74 bilhões. Uma investigação da SEC (Securities and Exchange Commission) detectou que o CEO (Chief Executive Officer) da Enron, Jeff Skillings, e o ex-CEO da Ken Lay manipulavam as informações contábeis e pressionavam a empresa de auditoria, Arthur Andersen, a ignorar o fato. Houve a condenação dos envolvidos Jeff Skillings e Ken Lay e a empresa de auditoria foi dissolvida e a Enron foi a falência (Fenacon, 2017). Os casos envolvendo a falta de integridade do profissional contábil são inúmeros, como reconhecer perda estimada com crédito de liquidação duvidosa (PECLD) a menor, inflar o valor do estoque, desconsiderar possíveis 8 contingências, gerenciar o resultado utilizando taxas de depreciação que não correspondem à realidade, inserir registros falsos para manobrar os resultados, realizar lançamentos fora do sistema contábil de forma manual dentre outros. A ACFE – Association of Certified Fraud Examiners (2016, p. 11) desmembra a fraude nos negócios empresariais em superavaliação e subavaliação do lucro líquido e do patrimônio líquido. As práticas mais comuns abrangem a ocultação de passivos e despesas, reconhecimento de receitas fictícias e a divulgação de ativos inexistentes. O princípio ético da integridade tem forte relação com o exercício de julgamento profissional, pois a responsabilidade de analisar o registro de cada fato contábil é do contador. O profissional contábil, não tendo conhecimento suficiente sobre o assunto, pode consultar outros profissionais ou até mesmo se desvincular dessas informações caso sejam superficiais. 2.1 Caso prático A Fortaleza S.A. é uma indústria que atua no ramo de produção de papel e celulose. Os troncos de madeira são a principal matéria-prima. Depois de os troncos serem cortados, eles passam por um descascador e picador e transformam-se em cavacos. Os cavacos são cozidos por um digestor com líquido, composto de água e agentes químicos, e o produto desse cozimento é a polpa. A polpa passa pelo processo de lavagem e centrifugação, e os resíduos são eliminados. Na sequência, a polpa fica em repouso para separar a celulose de outros resíduos, etapa denominada branqueamento. Ainda em estado aquoso, a polpa da celulose passa por uma mesa plana que transforma a polpa úmida em uma folha contínua e lisa sobre uma esteira rolante. Então, a folha passa pela prensagem, secagem e rebobinagem formando os rolos para corte, empacotamento e distribuição. O processo produtivo envolve questões ambientais que preocupam a administração da empresa. Assim, foram contratados serviços contábeis de um profissional com experiência em registros dessa natureza. O contador, ao acompanhar o processo produtivo da empresa, constatou que realmente os riscos ambientais eram altos e recomendou a administração que reconhecesse em seu passivo uma provisão para contingências ambientais. 9 Pergunta-se: o reconhecimento da provisão para contingências ambientais pressupõe o cumprimento do princípio da integridade? Qual é a relevância da provisão evidenciada?Conforme o princípio da integridade, o processo produtivo foi acompanhado pelo contador, que constatou o risco ambiental e que recomendou o registro da provisão de forma completa, verdadeira. Logo, o lançamento contábil foi realizado de forma íntegra. TEMA 3 – NBC PG 100 (R1): OBJETIVIDADE Conforme dispõe a NBC PG 100 (R1), o profissional da contabilidade não deve comprometer seu julgamento em razão de comportamento tendencioso, por conflito de interesses ou por influência de outros. Isto quer dizer que deve ser objetivo, por exemplo, antecipar o registro de uma venda para que a meta do período seja batida e ocorra o pagamento de remuneração variável. A norma, ainda, estabelece que o profissional não deve realizar uma atividade em que uma circunstância ou relação possa influenciar seu julgamento de maneira inapropriada, por exemplo, efetuar o pagamento de colaboradores a fim de motivá-los sem a devida escrituração para pagar menos encargos trabalhistas. Sendo assim, o contador deve escolher um método mais objetivo baseado em evidências e documentos para que a informação possa ser verificada. A verificabilidade está associada ao teste do terceiro informado e prudente descrito na NBC PG 100 (R1), em que especifica: “as mesmas conclusões seriam provavelmente obtidas por outra parte”. Ludícibus, Marion e Faria (2018, p.109) afirmam que, para não haver distorções nas informações contábeis, o contador deve escolher o procedimento mais objetivo para descrever o fato contábil, sendo este fundamentado em documentos. Segundo os autores, na falta de documento, [...] poder-se-ia convocar peritos em avaliação que, por meio de laudos, forneceriam um valor objetivo para o contador desenvolver, de maneira imparcial, a sua Contabilidade. É importante a impessoalidade (neutralidade) do contador (em relação aos usuários dos informes contábeis) que, quanto mais objetivo for, mais imparciais (não enviesados) serão aqueles informes. Na prática, este princípio requer um consenso profissional, pois as crenças e os valores podem provocar distorções no resultado. Por exemplo, para apurar o valor do estoque, é necessário utilizar o mesmo método de avaliação, 10 pois os resultados obtidos pelos métodos (inventário periódico e permanente) são distintos. 3.1 Caso prático A empresa Bom Sucesso adquiriu uma máquina no valor de R$ 100.000,00, cujo preço tabelado no mercado era de R$ 120.000,00. O contador registrou a máquina no valor de R$ 100.000,00 com base na documentação gerada na transação (nota fiscal). O princípio da objetividade prevê que o registro contábil deve ocorrer pelo valor de aquisição, mesmo que a máquina tenha valor de mercado de R$ 120.000,00. Portanto, a opinião do contador sobre o preço mais adequado para registro não é válida. O contador deve ser objetivo, imparcial, neutro na escrituração dos fatos. TEMA 4 – NBC PG 100 (R1): COMPETÊNCIA E ZELO PROFISSIONAIS Outro princípio norteador da profissão contábil, conforme NBC PG 100 (R1), é o da competência profissional e devido zelo. A competência determina que o profissional contábil aperfeiçoe constantemente e conserve o conhecimento e a habilidade adquiridos a fim de garantir que o cliente ou a entidade empregadora obtenham um serviço apropriado, fundamentado em padrões técnicos e profissionais atuais e em conformidade com a legislação vigente. Neste caso, a incapacidade técnica e facilitação do exercício profissional aos não habilitados seriam infrações éticas, conforme exemplificado pelo Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina (CRC SC). O profissional, inclusive, deve realizar o trabalho com zelo. A diligência na realização do serviço compreende a responsabilidade de atuar de maneira cuidadosa, árdua e oportuna. Segundo a norma, “atender aos clientes e às organizações empregadoras com competência profissional requer o exercício de julgamento sólido na aplicação do conhecimento profissional e habilidade na realização de atividades profissionais”. O aprendizado contínuo proporciona o desenvolvimento que o profissional precisa ter para exercer suas atividades e as habilidade exigidas pelo ambiente profissional. O CFC criou um programa de Educação Profissional Continuada (EPC) por meio da NBC PG 12 (R3), que objetiva atualizar e ampliar conhecimentos e 11 competências técnicas e profissionais, habilidades multidisciplinares e progressão do comportamento social, moral e ético dos profissionais da contabilidade. Profissionais da contabilidade que estejam inscritos no Cadastro Nacional de Auditores Independentes (CNAI), registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), exercem atividades de auditoria independente, sejam responsáveis técnicos pelas demonstrações contábeis e estejam inscritos no Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC), de maneira geral, devem cumprir a pontuação exigida para cada categoria/habilitação. Além disso, o princípio estabelece que o profissional contábil que atribuir tarefas aos que estão trabalhando sob sua responsabilidade deve assegurar que estes receberão treinamento e supervisão adequada. E, quando oportuno, o profissional deve comunicar aos clientes, à entidade empregadora ou a outros usuários dos seus serviços, as restrições pertinentes às atividades (NBC PG 100 (R1)). 4.1 Caso prático Um profissional recém-formado em Ciências Contábeis e ainda não registrado no Conselho Regional de Contabilidade, em razão da reprovação no Exame de Suficiência, foi requisitado pelo seu primo, contador registrado no Conselho, para elaborar alguns demonstrativos contábeis. Seu primo o requisitou devido ao intenso volume de trabalho que estava atrasado. Logo, o recém-formado em Ciências Contábeis não recebeu qualquer orientação quanto à execução do trabalho, porém o realizou da melhor forma possível, atendendo ao conhecimento absorvido durante o curso. Ao concluir os demonstrativos, o contador, registrado no Conselho, assinou os documentos e repassou a informação aos seus clientes sem qualquer revisão. Pergunta-se: os profissionais cumpriram o princípio da competência e zelo? Ambos os profissionais não cumpriram com o princípio da competência e zelo. Apesar de o recém-formado ter realizado o trabalho da melhor forma possível, atendendo a todo o conhecimento absorvido no curso, ele não tem competência técnica, pois ainda não foi aprovado no Exame de Suficiência. Seu primo, contador, também não agiu de forma zelosa. Conforme dispõe a NBC PG 100 (R1), o profissional que atribuir tarefas aos que estão trabalhando sob sua 12 reponsabilidade deve assegurar que estes receberão treinamento e supervisão adequada. TEMA 5 – NBC PG 100 (R1): SIGILO PROFISSIONAL E COMPORTAMENTO PROFISSIONAL Determinadas informações contábeis são extremamente valiosas para a empresa, não devendo ser reveladas à concorrência. Entretanto, existem informações que devem ser evidenciadas aos usuários conforme estabelecido nos normas contábeis. As informações sigilosas que não devem ser relevadas à concorrência são aquelas de aspecto gerencial, por exemplo, o gerenciamento dos custos para obtenção de melhores resultados, pois refere-se a uma estratégia de mercado. Desta forma, tem-se o princípio da confidencialidade. De acordo com a NBC PG 100 (R1), o profissional da contabilidade deve: a) atentar-se para a divulgação inapropriada da informação no ambiente social e, principalmente, a parceiros de negócio ou familiares próximos, por exemplo, o contador em posse da informação não deve repassar a estratégia da empresa em que atua a um familiar que pretende abrir um negócio similar; b) manter o sigilo das informações nos limites da empresa ou da organização empregadora; c) manter o sigilo das informações apresentadas por clientes ou organização empregadora em potencial; d) não divulgar informações confidenciaisfora da empresa ou da organização empregadora resultante de relações profissionais e comerciais sem a devida autorização específica, a não ser que a divulgação seja um direito ou dever legal do profissional da contabilidade; e) não fazer uso de informações confidenciais decorrentes de relações profissionais e comerciais para benefício próprio ou de terceiros, como foi o caso da empresa JBS S.A., grande empresa do setor alimentício e seus controladores, que fizeram uso de informações privilegiadas para obter vantagens ilícitas no mercado de valores mobiliários; 13 f) não fazer uso de informações confidenciais obtidas ou recebidas em razão da relação profissional ou comercial depois do término dessa relação; g) tomar medidas plausíveis para garantir que o pessoal, sob a supervisão do profissional contábil, e as pessoas que o assessoram e prestam assistência respeitem o dever de confidencialidade. Por exemplo, acesso ao banco de dados de cadastro de clientes. O fato de a divulgação de informações confidenciais ser um direito ou dever legal do profissional da contabilidade está relacionado à denúncia de irregularidades praticadas por clientes e empresas empregadoras. Isso ocorre quando o contador sabe que as informações são sigilosas, mas, em razão de serem informações fraudulentas, devem ser divulgadas às autoridades competentes. Por exemplo, o contador detecta que a empresa está superfaturando notas fiscais; é seu dever comunicar aos órgãos competentes, visto que há uma ameaça a sua profissão. A norma internacional Noclar (Responding to Non-Compliance with Laws and Regulations – Resposta ao Descumprimento de Leis e Regulamentos) entrou em vigor em 2017, em vários países, visando estabelecer procedimentos claros sobre atos ilícitos, como descobertas de fraudes ou descumprimento às normas. A NBC PG 100 (R1) regulamenta as circunstâncias nas quais os profissionais da contabilidade são ou podem ser requisitados a divulgar informações confidenciais ou nas quais essa divulgação pode ser adequada: a) a divulgação é exigida por lei, como, por exemplo: b) produção de documentos ou outra disponibilização de evidências no curso dos procedimentos legais; ou c) divulgação às autoridades públicas competentes de infrações da lei que são reveladas; d) A divulgação é permitida por lei e autorizada pelo cliente ou pela organização empregadora; e e) há o dever ou direito profissional de divulgação, quando não for proibido por lei, de: f) cumprir com a revisão de qualidade de órgão profissional; g) responder à indagação ou à investigação por órgão profissional ou regulador; h) proteger os interesses profissionais do profissional da contabilidade em procedimentos legais; ou i) cumprir com as normas técnicas e profissionais, incluindo as exigências éticas. As circunstâncias definidas para divulgação de informação confidencial, por exemplo, “divulgação às autoridades públicas competentes de infrações da 14 lei que são reveladas”, garantem que a sociedade não seja penalizada, pois este evento pode ser, por exemplo, resultado de sonegação fiscal, que impacta na destinação de recursos públicos, atitude antiética. Os fatores a serem considerados na divulgação das informações confidenciais, segundo a norma, são: se o cliente ou a organização empregadora concordar com a divulgação das informações pelo profissional da contabilidade, o interesse de terceiros e demais partes poderiam ser afetadas; considerando que todas as informações relevantes são conhecidas e comprovadas, os fatores que influenciam a decisão de divulgar informações sigilosas compreendem fatos não comprovados, informações incompletas e conclusões não certificadas; a forma de comunicação pretendida e a quem ela é destinada; os receptores da informação a quem a comunicação é dirigida são apropriados. O profissional deve cumprir o princípio da confidencialidade, de maneira que, mesmo que finalize o contrato com o cliente ou com a organização empregadora, as informações não podem ser divulgadas. As experiências adquiridas apenas estarão implícitas nos próximos trabalhos. 5.1 Comportamento Profissional O profissional contábil deve se comportar de acordo com os princípios. As leis e os regulamentos pertinentes à profissão devem ser obedecidos e qualquer conduta que deprecie a profissão deve ser evitada. O código de conduta do profissional contábil determina que não deve haver envolvimento, de forma consciente, com negócio, ocupação ou atividade que cause prejuízo à integridade, à objetividade ou à boa imagem da profissão, visto que seria contrário aos princípios fundamentais. O marketing pessoal não deve desprestigiar a profissão, fazendo declarações falsas, exageradas e depreciando o trabalho de outros profissionais. O contador deve ser sempre correto e sincero. E, caso existam dúvidas, deve- se consultar o órgão profissional competente. 15 5.2 Caso prático Determinado empresário decidiu cotar honorários contábeis antes de firmar contrato com um escritório de contabilidade. Em conversa com um dos escritórios, foram propostos honorários irrisórios comparados aos que o mercado costuma cobrar. O empresário, vislumbrado com a redução de custos contábeis, decidiu contratar o serviço do contador. O que não ficou claro na contratação foi que do contador não estava interessado no recebimento dos honorários, mas no conhecimento que adquiriria sobre o negócio do cliente. A informação obtida a respeito do negócio do empresário beneficiaria a toda a família do contador. Então, logo após o início da prestação dos serviços contábeis, a informação foi divulgada aos interessados. Pergunta-se: o profissional contábil cumpriu com o princípio da confidencialidade? O princípio não foi cumprido, pois, mesmo que os familiares fossem de confiança, a informação gerada é sigilosa e somente pode ser divulgada quando exigida por lei. TROCANDO IDEIAS O profissional da contabilidade não deve comprometer seu julgamento em virtude de comportamento tendencioso, por conflito de interesses ou por influência de outros, ou seja, deve ser objetivo. A objetividade no serviço contábil pode ser fundamentada apenas em acordos verbais? NA PRÁTICA Suponha que a empresa Fortes esteja em busca de um profissional contábil que a oriente na redução da carga tributária. Sem conhecer do assunto, a Fortes confiou todo o processo de planejamento tributário ao contador. O contador, por sua vez, recomendou manipular o resultado reconhecendo uma perda estimada para crédito de liquidação duvidosa a maior. A perda estimada para crédito de liquidação duvidosa é realizada com base nos últimos três anos, mas foi superavaliada para reduzir o resultado e recolher menos tributos. 16 Neste contexto, a atitude do contador foi correta?1 FINALIZANDO O profissional da contabilidade deve cumprir os princípios éticos estabelecidos na NBC PG 100 (R1). O descumprimento desses princípios prejudica o exercício da profissão, tornando a informação falsa. Integridade, objetividade, competência e zelo profissional e confidencialidade da informação são atributos importantes na realização do trabalho do contador. É dever do contador conhecer as normas e aplicá-las de maneira adequada. Por fim, a educação continuidade é de suma importância para esta profissão, que está sempre acompanhado as mudanças socioeconômicas. 1 A resposta esperada para essa seção pode ser encontrada ao final deste material, logo após as referências. 17 REFERÊNCIAS ACFE – Association of Certified Fraud Examiners. Report to the nations on occupational fraud and abuse: 2016 Global Fraud Study. Disponível em: <https://www.acfe.com/rttn2016/resources/downloads.aspx>. Acesso em: 16 abr. 2020. BARBOZA, E.L.; ROA, M. M. Fluxo de informação no contexto contábil. Revista de Ciência da Informação e Documentação, v. 9, n. 2, 2018. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/incid/article/view/141456>. Acesso em: 16 abr. 2020. BATISTA, S. Um olhar para a contabilidade, viés da essencialidade e da ética. CFC, 8 mar. 2019. Disponível em: <https://cfc.org.br/destaque/um-olhar-para-a- contabilidade-vies-da-essencialidade-e-da-etica/>. Acesso em: 16 abr. 2020. CFC – Conselho Federal de Contabilidade. NBC PG 12 (R3): Educação profissional continuada. Disponível em: <https://cfc.org.br/tecnica/normas- brasileiras-de-contabilidade/nbc-pg-geral/>. Acesso em: 16 abr. 2020. _____. NBC PG 100 (R1): Cumprimento do Código, dos Princípios Fundamentais e da Estrutura Conceitual. Disponível em: <https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/nbc-pg-geral/>. Acesso em: 16 abr. 2020. _____. NBC PG 200 (R1): Contadores Empregados (Contadores Internos). Disponível em: <https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de- contabilidade/nbc-pg-geral/>. Acesso em: 16 abr. 2020. _____. NBC PG 300 (R1): Contadores que Prestam Serviços (Contadores Externos). Disponível em: <https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de- contabilidade/nbc-pg-geral/>. Acesso em: 16 abr. 2020. CRCSC – Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina. Ética Profissional. Disponível em: <http://www.crcsc.org.br/servico/view/5>. Acesso em: 16 abr. 2020. IUDÍCIBUS, S. de; MARION, J. C.; FARIA, A. C. de. Introdução à teoria da contabilidade: para graduação. 6. ed. [2. Reimpr.]. São Paulo: Atlas, 2018. OS 9 MAIORES escândalos contábeis do mundo. Fenacon, 23 out. 2017. Disponível em: <http://fenacon.org.br/noticias/os-9-maiores-escandalos- contabeis-do-mundo-2609/>. Acesso em: 16 abr. 2020. 18 GABARITO Não, pois, de acordo com o princípio da integridade, o profissional contábil não deve estar vinculado, de forma consciente, a qualquer informação que ele suponha que: envolva informações substancialmente falsa ou enganosa; envolva informações fornecidas de maneira superficial; ou omita ou oculte informações essenciais que levariam a declarações enganosas. Conversa inicial Contextualizando Trocando ideias Na prática FINALIZANDO REFERÊNCIAS GABARITO