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PLANTAS DANINHAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar a importância do banco de sementes do solo para plantas daninhas. > Entender a dinâmica populacional de plantas daninhas. > Reconhecer os mecanismos de reprodução, multiplicação e disseminação de plantas daninhas. Introdução Os bancos de sementes apresentam papel ecológico fundamental na reconstituição vegetal de áreas degradadas, atuando no fornecimento de novos indivíduos para as comunidades vegetais especialmente importantes na regeneração do ambiente perturbado. No entanto, nos agroecossistemas, o banco de sementes normalmente constitui um sério problema à atividade agrícola, uma vez que permite a infestação de plantas daninhas por longo período, mesmo quando impedida a entrada de novas estruturas reprodutivas na área cultivada. Muitos aspectos contribuem com a dinâmica das populações de plantas dani- nhas, como fatores bióticos e abióticos responsáveis pela dormência e germinação, além da reprodução e dos meios de propagação e dispersão de estruturas repro- dutivas, que podem perpetuar a reinfestação de plantas daninhas no mesmo local, ou serem carregadas para novas áreas. O estudo e o conhecimento do banco de sementes ajudam fortemente no manejo de plantas daninhas, proporcionando previsão de infestação e estratégias de controle, em oposição ao uso indiscri- minado e incorreto de herbicidas, o que pode permitir que certas espécies ou biótipos sejam selecionados e se adaptem ao sistema de cultivo. Banco de sementes do solo Heitor Lisbôa Neste capítulo, você estudará a importância dos bancos de sementes, bem como sua influência sobre a dinâmica populacional de plantas daninhas, os mecanismos de reprodução, multiplicação e dispersão dessas plantas. A importância do banco de sementes do solo O banco de sementes do solo tem papel crucial na substituição de plantas eliminadas por causas naturais e não naturais, como senescência, doenças, movimentos de solo, queimadas, estiagem, condições climáticas adversas (temperatura extremas, estresse hídrico, inundações, etc.) e consumo animal e humano (CARMONA, 1992). Esses reservatórios apresentam papel fundamental no início do processo sucessional, atuando na diminuição da erosão e perda de nutrientes por lixiviação, além de transformar o ambiente, permitindo o estabelecimento de outras espécies sucessoras (COSTA; FONTES; MORAIS, 2013). O termo banco de sementes tem sido utilizado para designar as reservas de sementes viáveis no solo, em profundidade ou na su- perfície (MONQUERO; CHRISTOFFOLETI, 2005). Carvalho (2013) também utiliza o termo banco de dissemínulos, enquanto Carmona (1992) prefere reservatório de sementes, conceituando-o como o montante de sementes e outras estruturas de propagação presente no solo e em restos vegetais, englobando não somente as sementes, mas também estruturas de reprodução vegetativa. Existem dois tipos de bancos de sementes, de acordo com o padrão de germinação e estabelecimento de plântulas: o transitório e o persistente. O banco de sementes transitório é composto por sementes e estruturas vegetativas que se mantêm viáveis por menos de um ano, não acumulando sementes no solo. Já o banco persistente é composto por estruturas que não germinam no primeiro ano, e permanecem viáveis por mais de um ano, em função de mecanismos de dormência ou ausência de condições favoráveis à germinação (maiores profundidades, limitação na obtenção de luminosidade e oxigênio), sendo esta a principal fonte de colonização pelas plantas dani- nhas (CARVALHO, 2013). As sementes de picão-preto (Bidens pilosa) e leiteiro (Euphorbia heterophylla), por exemplo, têm viabilidade no solo de até quatro anos, enquanto as de trapoeraba (Commelina benghalensis) podem germinar até 40 anos após sua incorporação ao solo (VOLL et al., 2001). Em agroecossistemas, as plantas daninhas ajudam a manter a proteção do solo em períodos entressafra, promovendo a ciclagem de nutrientes e fornecendo alimento e abrigo para a fauna (COSTA; FONTES; MORAIS, 2013). Porém, os bancos Banco de sementes do solo2 de sementes de plantas daninhas também configuram um sério problema econô- mico, pois são a principal fonte de reinfestação de plantas invasoras, podendo acarretar quedas de até 30 a 40% na produtividade de culturas agrícolas (LOPES et al., 2020). As plantas invasoras conseguem permanecer e se perpetuar em razão de vantagens competitivas, que estão relacionadas, entre outros aspectos, às sementes, que apresentam elevada produtividade, eficiente dispersão, longevi- dade e especialmente dormência (ISAAC; GUIMARÃES, 2008; LOPES et al., 2020). Em geral, o tamanho do banco de sementes de plantas daninhas é maior em áreas agrícolas em comparação a áreas com baixo distúrbio ambiental. Isso se deve à estratégia dessas plantas de produzir grandes quantidade de sementes em ambientes perturbados (MONQUERO; CHRISTOFFOLETI, 2005). Um levanta- mento realizado por Deuber (1992) demonstrou o grande potencial reprodutivo de algumas espécies de plantas daninhas, como caruru (Amaranthus spp. — 120 mil sementes/planta), beldroega (Portulaca oleracea — 53 mil sementes/planta) e picão-branco (Galinsoga parviflora — 30 mil sementes/planta). A composição dos bancos de sementes e sua distribuição vertical no solo tendem a ser muito heterogêneaa em função das condições edafoclimáticas, das práticas culturais e do histórico de produção na área (BRACCINI, 2011). Plantas mais adaptadas a climas temperados, por exemplo, são mais numerosas em regiões temperadas, assim como sementes com maior reserva energética podem germinar em maiores profundidades, não sendo afetadas tão fortemente pelo revolvimento do solo e presença de palhada (como no plantio direto) (CARVALHO, 2013). Conhecimentos sobre a dinâmica, a densidade e a diversidade das espécies daninhas, por meio de amostragens do banco de sementes do solo, permitem identificar e a quantificar a flora infestante, bem como determinar sua evolução. Um dos principais aspectos a serem considerados em levantamentos fitosso- ciológicos é a tendência de variação da importância de uma ou mais espécies, que podem estar relacionadas às práticas agrícolas adotadas, que alteram a composição da comunidade na formação do banco de sementes (LOPES et al., 2020). Geralmente, os bancos de sementes são compostos por muitas espécies, mas poucas são dominantes, compreendendo de 70 a 90% do total de sementes e estruturas vegetativas presentes no solo. Essas espécies, consideradas mais nocivas, são resistentes às medidas de controle e possuem capacidade de adaptação a diferentes condições edafoclimáticas. Outra parcela menor, que compreende de 10 a 20% das estruturas reprodutivas, é adaptada às condi- ções edafoclimáticas, mas não resistente ao manejo. A porcentagem restante, cerca de 10% das sementes, é formada por espécies recém-introduzidas e/ou sementes inviáveis, podendo ser provenientes da própria cultura ou de culturas anteriores (MONQUERO; CHRISTOFFOLETI, 2005; CARVALHO, 2013). Banco de sementes do solo 3 O manejo do banco de sementes é outro aspecto que merece atenção. A utilização intensiva de herbicidas com modo de ação semelhante pode selecionar espécies tolerantes ou biótipos resistentes. Do mesmo modo, herbicidas com ação residual curta podem selecionar espécies com germinação tardia. No Brasil, já há relatos de espécies de plantas daninhas resistentes ao herbicida glifosato (Commelia benghalensis, Commelia diffusa, Ipomoea spp. e Richardia brasiliensis), especialmente em áreas intensivamente tra- tadas com esse tipo de herbicida, como é o caso de áreas cultivadas com plantas transgênicas e de plantio direito. Para o manejo de plantas invasoras nessas áreas, recomenda-se a rotação de cultura e mistura de glifosato com outros herbicidas que apresentem diferentes mecanismos de ação. Ademais, é necessário estar atento a outros métodos de controle que também podem selecionar plantas tolerantes,como é o caso de meios de controle mecânico, que podem selecionar espécies que apresentem reprodução por propagação vegetativa (MONQUERO; CHRISTOFFOLETI, 2005). Estimativas mais precisas do perfil e potencial do banco de sementes são de extrema importância para prever prováveis infestações de plantas inva- soras, para melhor entender a dinâmica das espécies e para tomar decisões sobre práticas de controle e manejo integrado de plantas daninhas (CARMONA, 1995). Além disso, podem servir como base para modelos bioeconômicos, que utilizam as informações dos bancos de sementes para estimar a população de plantas invasoras, as perdas na produtividade e recomendações de táticas de controle mais econômicas. Dinâmica populacional de plantas daninhas O tamanho e composição botânica de uma população de sementes no solo num dado momento é resultado do balanço entre a entrada de novas se- mentes (por produção e dispersão) e perdas de sementes presentes na área (por germinação, deterioração, predação ou transporte por vários agentes) (CARMONA, 1992). As entradas e saídas do banco de sementes controlam de forma direta a densidade, a composição florística e a reserva energética das espécies em uma comunidade. A dinâmica populacional de plantas daninhas refere-se à mudança na composição da comunidade infestante ao longo do tempo, considerando o número e a dominância relativa de cada espécie no agroecossistema. Análises de populações florísticas permitem deduções quanto a dinamismo, composição e tendências futuras, bem como o conhecimento das relações existentes entre as comunidades (ISAAC; GUIMARÃES, 2008). Banco de sementes do solo4 Os mecanismos que comandam os processos de depósito sementes são a produção e a dispersão de estruturas reprodutivas presentes na área (conhecida como chuva de sementes) e de estruturas reprodutivas vindas de outras áreas. Já os processos de retirada são governados por predação e deterioração (qualquer processo que cause danos à estrutura reprodutiva e inviabilize a germinação), morte fisiológica ou senescência (processo que inviabiliza naturalmente o dis- semínulo por ação do tempo), transporte para outras áreas e a germinação que gera novos indivíduos (CARVALHO, 2013), conforme ilustra o esquema da Figura 1. Figura 1: Dinâmica de um banco de sementes. Fonte: Adaptada de Carmona (1992) e Costa, Fontes e Morais (2013). Além disso, é importante lembrar que algumas características das plantas daninhas permitem que elas apresentem uma tendência de sempre aumentar a densidade dos bancos de sementes, em função de estratégias de adaptação ecológica, como elevado potencial prolífero e de germinação, além de mecanismos diversos de dormência. Assim, a tendência é que as reservas de sementes sejam muito densas, devendo, portanto, ser bem manejadas para que se consiga reduzir a competição com as culturas e os danos econômicos (CARVALHO, 2013). Germinação e dormência A germinação e a dormência de sementes e propágulos de plantas daninhas são processos intimamente ligados à dinâmica do banco de sementes do solo. Representam processos antagônicos: a germinação está ligada ao processo Banco de sementes do solo 5 de retirada de sementes do banco para a formar uma nova plântula, enquanto a dormência refere-se à sua manutenção (CARVALHO, 2013). O processo de germinação de sementes é o resultado do balanço entre condições ambientais favoráveis e características endógenas das sementes. Isso compreende uma sequência ordenada de atividades metabólicas, que resulta na retomada do desenvolvimento do embrião, e consequente desenvol- vimento de uma plântula. Os fatores importantes para que ocorra a germinação são presença de oxigênio, temperatura adequada, disponibilidade de luz (em alguns casos), balanço hormonal e especialmente a disponibilidade de água. Após a absorção de água ocorre a reidratação da semente e a intensificação da respiração e das atividades metabólicas, que geram energia para que o embrião possa romper o tegumento e se desenvolver. Com relação a temperatura, os limites ideais para germinação em cada espécie são muito variáveis. Em geral, porém, altas temperaturas provocam desnaturação de proteínas e perda da atividade enzimática, enquanto baixas temperaturas paralisam ou diminuem o metabolismo, afetando a velocidade e a uniformidade da germinação. A luz é um im- portante fator, pois além de controlar a germinação, tem relação com o balanço hormonal. Em termos de luminosidade, as plantas podem ser classificadas quanto à preferência por presença ou ausência de luz, ou seja, são fotoblásticas positivas quando germinam melhor na presença de luz e fotoblásticas negativas quando germinam melhor na ausência de luz. Há também plantas não fotoblásticas ou indiferentes, que independem da ausência ou presença de luz para germinarem (CASTRO; VIEIRA, 2001; MONQUERO; CHRISTOFFOLETI, 2005). Outro fator que controla a germinação é o balanço e interação hormonal e a presença de inibidores químicos. As giberelinas e citocinas são estimu- lantes da germinação, enquanto os inibidores, como o próprio nome sugere, inibem a germinação. As citocinas atuam como moduladoras do processo de germinação, cancelando o efeito dos inibidores (CARVALHO, 2013). Algumas espécies de plantas daninhas, quando na ausência de algum dos fatores ambientais, podem se tornar quiescentes e limitar sua germinação, ou podem entrar em estado de dormência. Muitos definem erroneamente a dormência como um período em que o mecanismo de crescimento é suspenso, geralmente em razão de condições externas adversas. No entanto, algumas atividades metabólicas, como a síntese de proteínas e ácidos nucléicos, seguem ocorrendo, contrariando a ideia de suspensão total (VIVIAN et al., 2008). Portanto, uma semente está dormente quando é considerada viável e Banco de sementes do solo6 não germina, mesmo sendo oferecidas todas as condições ambientais para isso. O estado de dormência (processo endógeno), no entanto, não deve ser confundido com o de quiescência (processo exógeno), em que a semente, estando viável, é facilmente superável com o oferecimento das condições favoráveis (BRACCINI, 2011). Existem dois tipos de dormência de sementes de plantas daninhas: dormência primária e secundária. A dormência primária (ou natural) ocorre quando a semente está ligada fisiologicamente à planta-mãe. Geralmente apresenta curta duração (algumas semanas ou poucos meses), sendo im- portante para não ocorrer a germinação quando as sementes ainda estão ligadas a própria planta (viviparidade). Esse fenômeno é facilmente supe- rável com um período, não muito longo, de armazenamento de sementes secas, após o que elas adquirem a capacidade germinativa (comumente denominada dormência pós-colheita). Já a dormência secundária (ou induzida) é provocada por fatores ambientais desfavoráveis quando as sementes não se encontram mais ligadas à planta-mãe. Geralmente, esse tipo de dormência é induzido quando são oferecidas todas as condições ambientais favoráveis, exceto uma. Sementes de Xanthium spp., por exem- plo, entram em dormência secundária quando submetidas a baixa tensão de oxigênio, sendo o mesmo observado para a mostarda-branca (Brassica alba), quando exposta a altas tensões de gás carbônico (BRACCINI, 2011; CARVALHO, 2013). A partir dessa divisão, e relacionada à transição e persistência dos bancos de sementes para plantas daninhas, surgiu o conceito de dormên- cia cíclica. Esse fenômeno, descrito especialmente em espécies invasoras de clima temperado, refere-se à alternância gradual entre os estados de não dormência e dormência em sementes enterradas ao longo do ano. A germinação de espécies que apresentam essa ciclagem depende das ca- racterísticas iniciais de dormência no momento da dispersão das sementes e, posteriormente, das condições ambientais que atuam na dormência secundária (VIVIAN et al., 2008). Para a superação da dormência, é necessário queas sementes sejam submetidas a certas condições ambientais ou sofram certas mudanças fi- siológicas. A germinação ocorrerá em dois níveis: o primeiro é relatado como um estado da própria semente (dormência primária — controle interno) e o segundo envolve a atuação de fatores ambientais (dormência secundária — controle externo). A relação entre os dois tipos de controle de dormência pode ser vista na Figura 2 (BRACCINI, 2011). Banco de sementes do solo 7 Figura 2. Controle da dormência e da germinação. Fonte: Adaptada de Braccini (2011). A dormência de sementes pode apresentar uma série de causas ou meca- nismos, sendo fundamental o seu conhecimento para que se possa planejar ou escolher um método para superá-lo, ou ainda para compreender por que as sementes de diversas espécies de plantas daninhas não germinam uniformemente, o que facilita o seu controle. A dormência de sementes pode ser classificada de acordo com o mecanismo ou a localização do inibidor ou bloqueador da seguinte forma: � Embrião imaturo ou rudimentar — ocorre em embriões de sementes que se encontram morfologicamente imaturos por ocasião da dis- persão de sementes da planta e requerem um período para o seu desenvolvimento completo. Para essas espécies, o embrião pode estar indiferenciado, representado por uma massa homogênea de células, sendo necessária a sua diferenciação antes que a germinação seja possível. Exemplos típicos que apresentam esse tipo de dormência são sementes de Polygonum spp. e Scirpus spp. � Impermeabilidade do tegumento à agua — ocorre em sementes cujo tegumento é formado por camadas duplas ou simples de células lig- nificadas, e que não permitem a absorção de água (sementes duras). Essa característica é muito vantajosa do ponto de vista de perpetuação da espécie, pois permite que essas sementes permaneçam vivas e viáveis por longos períodos e se tornem permeáveis individualmente em períodos diferentes após a dispersão. Esse tipo de dormência é muito comum em plantas daninhas das famílias Fabaceae, Malvaceae, Geraniaceae, Chenopodiaceae, Convolvulaceae, Solanaceae e Liliaceae, favorecendo a formação de bancos de sementes no solo. Banco de sementes do solo8 � Impermeabilidade ao oxigênio — ocorre especialmente em sementes da família Poaceae, que apresentam mucilagem envolvendo o tegu- mento, ou quando ocorre absorção de oxigênio pelo próprio tegumento, reduzindo a quantidade disponível para o embrião. � Restrições mecânicas — atribuídas à dureza e à resistência do tegu- mento. Esse tegumento é importante para a manutenção da sobrevi- vência e processo de germinação das sementes de plantas daninhas, atuando na proteção do eixo embrionário e na regulação no tempo de germinação. Essa causa de dormência já foi descrita para o caruru (Amaranthus retroflexus). � Embrião dormente — é o resultado de condições fisiológicas do embrião, que ainda não foram completamente elucidadas. As sementes que apresentam esse mecanismo de dormência têm exigências especiais de luminosidade e resfriamento para a superação da dormência. Além disso, podem estar ligadas a substâncias inibidoras de germinação, como o ácido abscísico, que pode ser encontrado nos embriões e no tegumento da semente. Essa causa de dormência é frequente em espécies de plantas daninhas da família Poaceae e em erva-de-bicho (Polygonum spp.). � Dormência promovida por inibidores internos — associada ao ba- lanço hormonal e a substâncias químicas inibidoras de germinação. Giberelinas, citocininas, etilenos (estimuladores de germinação) e ácido abscísico (inibidor de germinação) são hormônios vegetais que podem conferir dormência ou estimular a germinação. A dor- mência é resultado de um balanço entre as substâncias inibidoras e estimuladoras da germinação, sendo necessário um desequilíbrio a favor das giberelinas para que a germinação ocorra. Algumas condições ambientais, como luz e temperatura, também são fa- tores importantes para a superação da dormência. Além disso, outros metabólitos secundários, como as lactonas saturadas (como a cumarina) e vários compostos fenólicos podem influenciar o processo germinativo. Esse mecanismo é comum em espécies da família Poaceae, além de espécies de erva-de-bicho (Polygonum spp.) e carurus (Amaranthus spp.). � Combinação de causas — podem ocorrer simultaneamente, ou seja, a presença de uma causa de dormência em uma semente não elimina a possibilidade de que outras causas também estejam ocorrendo. Nesse caso, também será necessária uma combinação de estratégias para superar a condição de dormência. Banco de sementes do solo 9 No Quadro 1, são apresentados os métodos que podem ser utilizados para superar a dormência das sementes, de acordo com o mecanismo. Quadro 1. Métodos de superação da dormência dos principais mecanismos de dormência em sementes Tipo de dormência Métodos de superação Impermeabilidade e restrições mecânicas do tegumento Imersão em solventes (água, álcool, acetona etc.) Escarificação mecânica Escarificação com ácido sulfúrico Resfriamento rápido Exposição à altas temperaturas Aumento da tensão de oxigênio Embrião dormente Estratificação à baixa temperatura Tratamentos com hormônios (giberelinas, citocinas) Dormência em Poaceae Rompimento da cariopse Tratamento com nitrato de potássio Exposição à luz Emprego de temperaturas alternadas Aplicação de pré resfriamento Aumento da tensão de oxigênio Tratamento com hormônios Germinação às temperaturas sub ótimas Tegumento impermeável + embrião dormente Escarificação mecânica ou com ácido sulfúrico + estratificação à baixa temperatura Dormência dupla (epicótilo e radícula dormente) Estratificação à baixa temperatura + condições favoráveis para crescimento Fonte: Adaptado de Raccini (2011). As técnicas mais frequentes são (VIVIAN et al., 2008; BRACCINI, 2011; CAR- VALHO, 2013): � escarificação mecânica —submeter a semente contra superfície abrasiva; � escarificação ácida — submergir as sementes em ácido sulfúrico puro por um período de tempo e posteriormente lavar em água corrente; � escarificação térmica — imergir as sementes em água quente — 60 a 100°C — por tempo determinado; � lavagem em água corrente — lavar as sementes por tempo determinado; Banco de sementes do solo10 � secagem prévia — secar as sementes em câmara seca ou a 40°C, com livre circulação de ar; � pré-resfriamento — embeber as sementes submetidas a temperaturas frias — 5 a 10°C — por período determinado; � estratificação — depositar as sementes em recipiente que per- mita a aeração, mas evite ressecamento, para então enterrá-las no solo ou colocá-las em câmara refrigerada — 2 a 7°C — por tempo determinado; � produtos químicos — expor as sementes a produtos químicos, como nitrato de potássio, ácido giberélico, peróxido de hidrogênio e etileno; � temperaturas alternadas — submeter as sementes a variação de temperatura; � exposição à luz — submeter as sementes à iluminação por pelo menos 8 horas diárias, com intensidade de 750 a 1250 lux. Grande parte das causas de dormência, assim como dos métodos para superá-las, é bem conhecida e estudada, embora seu uso no manejo de plantas daninhas ainda seja pouco elucidado. Em laboratório, a quebra de dormência de sementes é facilmente aplicada, mas em condições de campo o problema da dormência torna-se mais difícil de ser solucionado. As prá- ticas culturais (revolvimento do solo, plantio direto, etc.) não são seletivas, podendo promover a dormência em algumas espécies e ao mesmo tempo superá-la em outras. Seja como for, os métodos de plantio direto e revolvimento do solo à noite têm se mostrado satisfatórios, especialmente para aquelas espécies em que o mecanismo de quebra da dormência é a sensibilidade das sementes à luz. Outra forma de utilização da dormência das sementes no manejo é a aplicação de produtos químicos que estimulam a germinação simultânea e possibilitam um controle mais efetivo com herbicidas.No entanto, produtos com essa finalidade, como etileno, sais de nitrato e ácido giberélico, apresentam alto custo, inviabilizando a prática em larga escala. Mecanismos de reprodução, multiplicação e disseminação de plantas daninhas As plantas daninhas apresentam vários mecanismos de reprodução, multi- plicação e disseminação de propágulos. Nessa seção, abordaremos os tipos e aspectos relevantes de cada um desses mecanismos. Banco de sementes do solo 11 Reprodução e multiplicação de plantas daninhas Vários são os tipos de propágulos pelos quais as plantas daninhas podem se perpetuar, tanto por reprodução sexuada ou seminífera, mediante produção de sementes, quanto por reprodução assexuada ou vegetativa, por emissão de estolões, rizomas, tubérculos e bulbos. As espécies invasoras, em geral, apresentam como estratégia de perpetuação a produção de grande quan- tidade de dissemínulos, que apresenta grande variação entre as espécies (BRIGHENTI; OLIVEIRA, 2011). A polinização é a primeira etapa da reprodução sexuada, e consiste na trans- ferência do pólen, que contém a célula reprodutiva masculina, até o receptor feminino, denominado estigma. Os principais agentes polinizadores são os insetos (entomofilia), o vento (anemofilia) e o ser humano (antropofilia). Grande parte das plantas daninhas é autógama ou hermafrodita (apresenta ambos os sexos na mesma planta), e algumas são alógamas (plantas com sexos separados). Para plantas alógamas, a polinização é obrigatória, mas mesmo em plantas em que é possível a autofecundação, o papel da polinização é extremamente importante, pois gera variabilidade genética. A etapa seguinte é chamada de fecundação ou fertilização, que consiste na fusão do gameta masculino (núcleos espermáticos) com o gameta feminino (oosfera), originando, posteriormente, a semente. Muitas plantas daninhas se reproduzem exclusivamente de forma sexuada, como é o caso do azevém (Lolium multiflorum), picão-preto (Bidens spp.), buva (Conyza spp.) e caruru (Amaranthus spp.). Na reprodução assexuada, não há fecundação, sendo as plantas descen- dentes clones das progenitoras, ou seja, geneticamente idênticas à planta- -mãe. Existem vários tipos de reprodução assexuada, destacando-se para plantas daninhas a apomixia (produção de sementes sem fecundação), multi- plicação vegetativa (germinação de gemas e/ou enraizamento de estruturas de propagação), brotação (brotação de gemas presentes em raízes, caules e folhas) e fragmentação (brotação de gemas em estruturas fragmentadas) (CARVALHO, 2013). Existem vários tipos de estruturas de reprodução vegetativa nas plantas daninhas, como: � Estolão ou estolho — é um tipo de caule fino e delicado, que cresce paralelamente ao solo ou a pouca profundidade, de onde partem raízes adventícias e a porção aérea da região dos nós. Alguns exemplos são grama-bermuda (Cynodon dactylon), capim-de-rhodes (Chloris gayana) e grama-boiadeira (Luziola peruviana). Banco de sementes do solo12 � Rizoma — é um tipo de caule subterrâneo longo, com aspecto de raiz grossa e rudimentar, que tem por função reserva e reprodução. Também emite raízes adventícias e parte aérea. Como exemplos podemos mencionar capim-massambará (Sorghum halepense), tiri- rica (Cyperus spp.), samambaia (Pteridium aquilinum) e losna-brava (Artemisia verlotorum). � Tubérculo — é um tipo de caule subterrâneo arredondado, que apre- senta grande quantidade de reserva em forma de amido, além de função reprodutiva. Uma planta conhecida com tubérculo é a batata inglesa. Como exemplos de plantas daninhas, podemos citar a tiririca (Cyperus spp.) e a falsa-tiririca (Hypoxis decumbes). � Bulbos — são gemas subterrâneas constituídas de caule e folhas mo- dificados, com função de reserva e reprodução. A cebola e o alho são plantas que formam bulbos. Em plantas daninhas, destacam-se o trevo (Oxalis latifolia) e o alho-bravo (Nothoscordum inodorum). � Caules — responsáveis pela capacidade de brotamento. As guanxu- mas (Sida spp.), por exemplo, quando cortadas com roçadeira, podem rebrotar. Algumas espécies de plantas daninhas, que se reproduzem vegetati- vamente, também são capazes de produzir sementes. Geralmente, essas plantas são perenes, com alto potencial de infestação e de difícil controle. A tiririca (Cyperus spp.), por exemplo, pode se reproduzir sexuadamente via sementes, mas também assexuadamente por meio de rizomas, tubérculos e bulbos basais (Figura 3) (BRIGHENTI; OLIVEIRA, 2011; CARVALHO, 2013; COSTA; FONTES; MORAIS, 2013). Figura 3. Planta daninha tiririca (Cyperus spp.): (a) sementes; (b) estruturas de reprodução vegetativa. Fonte: Brighenti e Oliveira (2011, p. 14). Banco de sementes do solo 13 Disseminação dos propágulos de plantas daninhas Uma das estratégias mais importantes para o grande sucesso das plantas daninhas, além de todos os outros aspectos já discutidos, é sua grande capaci- dade de dispersão de propágulos por longas distâncias. Caso os dissemínulos caíssem apenas próximos à planta-mãe por ação da gravidade, o controle das plantas infestantes seria mais fácil. No entanto, após a produção das estrutu- ras de reprodução, eles são capazes de se dispersar de diferentes maneiras. A dispersão das plantas daninhas pode ser realizada por meios inerentes à planta-mãe (autocoria), ou ainda por meio de agentes de dispersão não inerentes à planta genitora (alocoria). A autocoria é um método de dispersão limitado quanto à colonização, uma vez que, em geral, as sementes são capazes de alcançar apenas distâncias limitadas ao tamanho da copa da planta. Alguns exemplos de plantas com sementes grandes, como capim-arroz (Echinochoa spp.) e arroz-vermelho (Oryza sativa), utilizam esse tipo de dispersão. Raras exceções apresentam frutos deiscentes com propulsão mecânica (deiscência explosiva), como é o caso do leiteiro (Euphorbia heterophylla), quebra-pedra (Phyllanthus tenellus) e amendoim-bravo (Euphobia heterophylla), cujas se- mentes podem ser lançadas a distâncias de 2 a 5 metros da planta de origem. No caso da alocoria, a classificação é feita quanto ao agente de dispersão, podendo ser dividida nos casos examinados a seguir. Disseminação anemocórica É aquela em que os propágulos são carregados pelo vento. Geralmente, as sementes que apresentam esse tipo de dispersão são leves e pequenas ou apre- sentam alguma estrutura morfológica (como pelos) que facilitam sua dispersão pelo vento. Alguns exemplos são a couvinha (Porophyllum ruderale), que possui aquênios com papilhos pilosos, e a erva-de-touro (Tridax procumbens), com sementes que apresentam pelos sedosos, facilmente dispersados pelo vento. Sementes leves e pequenas como a do caruru (Amaranthus spp.) e da beldroega (Portulaca oleracea) também atingem grandes distância pela força eólica. Disseminação hidrocórica É aquela que abrange todos os casos de dispersão realizada pela água, como chuvas, córregos, canais, rios e inundações. É importante para estruturas leves e secas, com menor densidade que a água. Estudos demonstram que existe uma grande quantidade e variedade de sementes de plantas daninhas em canais de irrigação, sendo verificada grande ocorrência de sementes que flutuam, como é o caso do caruru (Amaranthus spp.). Banco de sementes do solo14 Disseminação zoocórica É quando ocorre dispersão dos propágulos por animais. A zoocoria subdivide- -se em duas categorias: a epizoocoria e endozoocoria. A epizoocoria ocorre quando a estrutura reprodutiva é carregada na parte externa do corpo do animal, geralmente presa numa estrutura de aderência, como é o caso do picão-preto (Bidens spp.), capim-carrapicho (Cenchrus echinatus) e carrapicho- -de-carneiro (Acanthospermum hispidum). Já a endozoocoria é quando o dis- semínulo é ingerido, carregado internamente no corpo do animal e eliminado juntamente com as fezes. Esse tipo de dispersão é especialmente importante para frutos carnosos e coloridos, como é o caso do melão-de-são-caetano (Momocardiacharantia), e plantas utilizadas para o pastejo, como a grama- -batatais (Paspalum notatum). Quanto ao agente de dispersão, os seres humanos são os principais dispersores de plantas (antropocoria), podendo ocorrer dispersão involuntária, ou ainda de forma voluntária com finalidades econômicas e ornamentais. Outra forma de disseminação é via maquinário agrícola, o que torna imprescindível a limpeza criteriosa de colheitadeiras utilizadas em áreas destinadas especialmente à produção de sementes, para evitar contaminação de novas áreas de cultivos e lotes de sementes. Outras terminologias específicas quanto ao animal dispersor são: entomo- coria (insetos), mirmecocoria (formigas), ornitocoria (aves), mamaliocoria (mamí- feros), quiropterocoria (morcegos), ictiocoria (peixes), saurocoria (répteis), entre outros (BRIGHENTI; OLIVEIRA, 2011; CARVALHO, 2013; COSTA; FONTES; MORAIS, 2013) Em geral, as espécies que formam os bancos de sementes do solo apre- sentam mecanismos eficientes de dispersão e produção abundante, bem como dormência e longevidade elevadas das sementes. Essas características são normalmente observadas nas espécies pioneiras, uma vez que espécies tardias secundárias e clímax tendem a formar o banco de plântulas, que apresentam menor viabilidade e maior taxa de predação. Referências BRACCINI, A. de L. Banco de sementes e mecanismos de dormência em sementes de plantas daninhas. In: OLIVEIRA JUNIOR, R. S. de; CONSTANTIN, J.; INOUE, M. H. Biologia e manejo de plantas daninhas. Curitiba: Omnipax, 2011. p. 37–66. BRIGHENTI, A. M.; OLIVEIRA, M. F. Biologia de plantas daninhas. In: OLIVEIRA JUNIOR, R. S. de; CONSTANTIN, J.; INOUE, M. H. Biologia e manejo de plantas daninhas. Curitiba: Omnipax, 2011. p. 1–36. CARMONA, R. Banco de sementes e estabelecimento de plantas daninhas em agroe- cossistemas. Planta Daninha, v. 13, n. 1, p. 3–9, 1995. Disponível em: https://www.scielo. br/pdf/pd/v13n1/a01v13n1.pdf. Acesso em: 23 out. 2020. Banco de sementes do solo 15 CARMONA, R. 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