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(in)formação em Maycon Pereira Silva Antonio Carlos Gomes 1ª edição 2020 Maycon Pereira Silva Antonio Carlos Gomes INSTITUTO FEDERAL Espírito Santo (in)formação em PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO DE HUMANIDADES - PPGEH Av. Vitória, 1729 – Jucutuquara Vitória - ES CEP: 29040-780 COMISSÃO CIENTÍFICA Prof. Dr. Antônio Donizetti Sgarbi Prof. Dr. Antônio Henrique Pinto CAPA E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Aline Antonio PRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO PPGEH / IFES Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Silva, Maycon Pereira (In)formação em direitos humanos [livro eletrônico] / Maycon Pereira Silva, Antonio Carlos Gomes. -- 1. ed. -- Vitória, ES : Ed. do Autor, 2020. PDF ISBN 978-65-00-08549-5 1. Educação 2. Direitos humanos - Brasil - História 3. Direitos humanos (Direito internacional) I. Gomes, Antonio Carlos. II. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Direitos humanos : Ciência política : História 323.09 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129 20-43570 CDU-323.09 INSTITUTO FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO JADIR JOSÉ PELA Reitor ANDRÉ ROMERO DA SILVA Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação RENATO TANNURE ROTTA DE ALMEIDA Pró-Reitor de Extensão ADRIANA PIONTTKOVSKY BARCELLOS Pró-Reitora de Ensino LEZI JOSÉ FERREIRA Pró-Reitor de Administração e Orçamento LUCIANO DE OLIVEIRA TOLEDO Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional IFES – CAMPUS VITÓRIA HUDSON LUIZ COGO Diretor Geral MÁRCIO ALMEIDA CÓ Diretor de Ensino CHRISTIAN MARIANI Diretor de Extensão ROSENI DA COSTA SILVA PRATTI Diretora de Administração MÁRCIA REGINA PEREIRA LIMA Diretora de Pesquisa e Pós-Graduação LEONARDO BIS DOS SANTOS Coordenadora do PPGEH ILUSTRAÇÕES As imagens utilizadas neste trabalho foram retiradas de sites com acesso público. Em respeito aos autores, citamos os links para as fontes de textos, vídeos e imagens, pois nosso objetivo, com esta publicação, é apenas educativo. OS autores MAYCON PEREIRA SILVA Possui graduação em Direito pela Universidade Presidente Antônio Carlos – UNIPAC (2016). É discente do Programa de Pós graduação em ensino de Humanidades oferecido pelo Instituto Federal do Espírito Santo (PPGEH- Ifes). Atua como policial militar desde o ano de 2007 atuando na cidade de Aimorés-MG. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (1986). Mestre e doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista - UNESP. É professor do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo, atua no Ensino Médio, na Graduação e Pós-graduação. É docente permanente do Mestrado Profissional em Ensino de Humanidades - PPGEH e do Mestrado Profissional em Letras – Profletras. É coordenador do curso de Licenciatura em Letras Português distância. antonio carlos gomes APRESENT Caro(a) leitor(a), Este e-book é parte do trabalho final de curso “OS DIREITOS HUMANOS EM SALA DE AULA: CONSTITUINDO-SE SUJEITOS POR MEIO DA (IN)FORMAÇÃO DE ALUNOS-PROFESSORES” do estudante Maycon Pereira Silva. orientado pelo professor Dr. Antônio Carlos Gomes, no Mestrado Profissional de Ensino em Humanidades do Ifes, nele convidamos você para dialogar sobre direitos humanos através de uma metodologia educacional freiriana. Nos 07 capitúlos que compõem este material, juntos vamos entender o conceito e a evolução dos direitos humanos - tanto em nível mundial quanto nacional - bem como refletir sobre a sua efetividade no mundo contemporâneo e acerca dos possíveis desdobramentos para alunos e professores. Os direitos humanos há muito e muito tempo estão cimentados na vida das pessoas. Será por quê? Hoje, no Brasil, faz sentido discutir e lutar pelos direitos humanos? Afinal, a quem esses tais direitos assistem? Então, quais os nossos direitos? Vamos caminhar juntos neste trabalho conhecendo os direitos humanos, os nossos direitos, sabendo que neles subentendem-se os nossos deveres. Esperamos que esta caminhada proporcione uma reflexão agradável para você e seja o início de uma mudança para outras trajetórias. Boa leitura! suMÁRIO 08 CAPITULO I INTRODUÇÃO 19 CAPITULO II PANORAMA INTERNNACIONAL 33 CAPITULO III PANORAMA NACIONAL 56 CAPITULO V DIREITOS SOCIAIS 48 CAPITULO IV DIREITOS INDIVIDUAIS 66 CAPITULO VI DIREITOS DIFUSOS 76 CAPITULO VII EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS capítulo I INTRODUÇÃO Fonte: http://www.blogdoroldao.com/2018/10/declaracao-universal-dos-direitos.html Fonte: http://www.blogdoroldao.com/2018/10/declaracao-universal-dos-direitos.html “Qualquer situação em que alguns homens impedem os outros de se engajarem no processo de investigação é de violência; ... alienar os seres humanos de suas próprias decisões é transformá-los em objetos”. Paulo Freire Vamos dialogar sobre direitos humanos? Que pessoas são titulares dos direitos humanos? Para quem são esses direitos? 09 Fonte:https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6c/Declaration_of_the_Rights_of_Man_and_of_the_Citizen_in_1789.jpg Imagem 1: Declaração de direitos do Homem e do Cidadão INTRODUÇÃO Ao perguntar aos alunos de determinada classe o que lhes vem à memória quando escutam a expressão "os direitos humanos”, várias seriam as respostas possíveis. Uns poderiam mencionar alguns dos direitos que constam na Declaração Universal dos Direitos Humanos - lembrada na imagem 01 que segue: LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A 10 Fonte: https://www.archives.gov/files/research/military/ww2/photos/images/ww2-178.jpg Imagem 2: Horrores do Holocausto INTRODUÇÃO Outros poderiam dizer que é um monte de leis sem efetiva prática para muitos. Há aqueles que diriam se trata de algo distante da realidade de diversos povos; que são garantias de poucos, validadas ou ignoradas conforme os interesses daqueles que detêm o maior poder aquisitivo, bélico ou político. A foto acima, Imagem 02 que foi trazida ao diálogo, lembra o encarceramento de pessoas no período do holocausto na Alemanha, momento em que todos os direitos do povo judeu foram retirados, em razão da crença, da diferença cultural e da disputa pelo poder aquisitivo. O que uma pessoa pensa e sabe a respeito de um assunto é importante não só para uma conversa, mas também para o ato de ensinar e de aprender. Assim, no encontro do discente com o docente sobre a temática dos direitos humanos, é fundamental saber com antecedência respostas para questionamentos como: houve acesso ao tema direitos humanos na escola ou em qualquer outro espaço? Conhece quais são os direitos abarcados pelos direitos humanos? Sentem-se plenamente contemplados pelos direitos? Percebem-se como (co)responsáveis pela efetiva garantia de direitos? etc. Gostaríamos também de chamar a sua atenção para o fato de que as leis contidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos são construções social e histórica, ou seja, há nelas as marcas de diversas mãos que atuaram em sua escrita, que passaram por dificuldades e buscaram soluções em dado momento histórico, por isso há princípios norteadores e objetivos específicos que se desejam ver alcançados com cada uma das contribuições. 11 Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 3: Armandinho e Paulo Freire INTRODUÇÃO Perceber que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não surgiu ao acaso e nem é natural ao ser humano, mostra a importância de conversarmos sobre como se deu a construção desse documento. Por isso, neste curso, você terá a oportunidade de falar da temática, conhecer um pouco o contexto histórico internacional que levou à declaração, bem como os acontecimentos que levaram o Brasil ao seu encontro. Em todo o curso você será chamado para também dialogar com Paulo Freire, o pedagogo brasileiro que nos convidou a assumir uma postura ético-política no ambiente de ensino e aprendizagem onde estivermos inseridos, seja em uma sala de aula na escola presencial, uma sala de aprendizagem virtual, uma organizaçãocomunitária ou uma em roda de conversa embaixo de uma mangueira. Nosso proposto é fazer com que o ensino e o aprendizado neste curso tenham as marcas das questões significativas à superação de dificuldades locais e globais, apelem para a garantia de direitos aos oprimidos e questionem a qualquer forma de opressão, a fim de assegurar a todos uma vida digna. Em nosso curso, dialogando com a proposta de ensino que estaremos assumindo para a educação sobre os direitos humanos, também comparecerá algumas das tiras de Alexandre Beck, autor que gentilmente cedeu o uso de cada uma das imagens que serão apresentadas, como a tira a seguir: Na imagem 03 apresentada, os protagonistas lembram uma importante ponderação de Paulo Freire (2013), ou seja, que a educação precisa ser libertadora para que o oprimido possa romper com o sonho de ser o opressor. Tal diretriz é extremamente importante ao nosso estudo dos direitos humanos, visto ser comum nas escolas a reprodução de piadas, jogos e outras práticas que (re)produzem a discriminação por etnia, gênero, orientação sexual, necessidades educacionais especiais, pobreza e outras separações impostas aqueles que são descritos por minorias sociais. Por isso retomaremos essa conversa em outros momentos do curso. Vamos iniciar nossas reflexões com a apresentação do conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que tem cunho recomendatório aos países que são membros da Organização das Nações Unidas - ONU, para que esses criem leis específicas em seus territórios a fim de validar e efetivar o conteúdo da declaração: 12 INTRODUÇÃO Preâmbulo Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos; Considerando que é essencial a proteção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais humanos, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais; Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso: A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efetivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição. Artigo 1° Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Artigo 2° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania. Artigo 3° Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Artigo 4° Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos. Artigo 5° Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Artigo 6° Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica. Artigo 7° Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei. Todos têm direito a proteção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. Artigo 8° Toda a pessoa tem direito a recurso efetivo para as jurisdições nacionais competentes contra os atos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei. Artigo 9° Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado. Declaração Universal dos Direitos humanos 13 INTRODUÇÃO Artigo 10° Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida. Artigo 11° 1. Toda a pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas. 2. Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam ato delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o ato delituoso foi cometido. Artigo 12° Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei. Artigo 13° 1. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. 2. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país. Artigo 14° 1. Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países. 2. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por atividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas. Artigo 15° 1. Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. 2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade. Artigo 16° 1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais. 2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos. 3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado. Artigo 17° 1. Toda a pessoa, individual ou coletivamente, tem direito à propriedade. 2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade. Artigo 18° Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião oude convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos. Artigo 19° Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão. Artigo 20° 1. Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas. 2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação. Artigo 21° 1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direção dos negócios, públicos do seu país, quer diretamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. 2. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país. 3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto. Artigo 22° Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país. 14 (Fonte: https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por) INTRODUÇÃO Artigo 23° 1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego. 2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual. 3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de proteção social. 4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses. Artigo 24° Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas. Artigo 25° 1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade. 2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma proteção social. Artigo 26° 1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito. 2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. 3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos. Artigo 27° 1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. 2. Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria. Artigo 28° Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração. Artigo 29° 1. O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade. 2. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática. 3. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas. Artigo 30° Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma atividade ou de praticar algum ato destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados. 15 (Fonte: http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/betto.htm) INTRODUÇÃO Pensando em uma outra forma de apresentação da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, apresentamos também a versão popular de Frei Netto: Após a leitura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, notou alguma expressão que não conhecia? Como você abordaria a Declaração em uma sala de aula? Consegue pensar em exemplos que facilitariam o ensino e o aprendizado para os alunos? Todos nascemos livres e somos iguais em dignidade e direitos. Todos temos direitos à vida, à liberdade e à segurança pessoal e social. Todos temos direito de resguardar a casa, a família e a honra. Todos temos direito ao trabalho digno e bem remunerado. Todos temos direito ao descanso, ao lazer e às férias. Todos temos à saúde e assistência médica e hospitalar. Todos temos direito à instrução, à escola, à arte e à cultura. Todos temos direito ao amparo social na infância e na velhice. Todos temos direito à organização popular, sindical e política. Todos temos direito de eleger e ser eleito às funções de governo. Todos temos direito à informação verdadeira e correta. Todos temos direito de ir e vir, mudar de cidade, de Estado ou país. Todos temos direito de não sofrer nenhum tipo de discriminação. Ninguém pode ser torturado ou linchado. Todos somos iguais perante a lei. Ninguém pode ser arbitrariamente preso ou privado do direito de defesa. Toda pessoa é inocente até que a justiça, baseada na lei, prove a contrário. Todos temos liberdade de pensar, de nos manifestar, de nos reunir e de crer. Todos temos direito ao amor e aos frutos do amor. Todos temos o dever de respeitar e proteger os direitos da comunidade. Todos temos o dever de lutar pela conquista e ampliação destes direitos. 16 CAPITULO VII EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Material necessário: Duração: quadro/lousa, giz ou pincel 01 aula. Desenvolvimento: 1- Escrever no quadro as palavras “DIREITOS” e “HUMANOS” e pergunte aos alunos o que eles entendem por cada uma, em separado. Anote cada resposta dada pelos alunos e escute os apontamentos deles. Nesse momento você faz uma sondagem para entender quais são as realidades dos alunos. Isso o ajudará a apreender a melhor forma de abordar os temas durante as aulas. Busque limitar o tempo de resposta para cada palavra, aproximadamente dez minutos, para que tenha tempo de analisar as respostas junto à turma. 17 DIREITOS HUMANOS NA SALA DE AULA Sugestão de atividade pedagógica 2- Escreva as palavras de forma conjunta “direitos humanos” e explique o conceito básico de tais direitos. Conseda alguns minutos para que os alunos falem sobre o que entenderam como sendo “direitos humanos”. Explore esse momento como forma de entender ainda mais a realidade dos alunos. 3- Converse sobre a importância da defesa dos direitos humanos,utilize as respostas apresentadas pelos alunos para problematizar questões relacionadas aos direitos humanos. 4- Trabalhar uma produção de texto individual, escrevendo 03 frases ou tópicos, respondendo à pergunta: 5- Reunir as respostas de forma anônima e ler para a turma na aula seguinte. O que eu poderia fazer para defender os direitos humanos? LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A Fonte: http://ogazeteiro.com.br/ze3011190916/ 18 Fonte: https://draflaviaortega.jusbrasil.com.br/noticias/319981593/- quais-sao-os-3-principios-basilares-dos-direitos-humanos-contemporaneos CAPÍTULO II PANORaMA INTERNACIONAL Fonte: https://draflaviaortega.jusbrasil.com.br/noticias/319981593/- quais-sao-os-3-principios-basilares-dos-direitos-humanos-contemporaneos “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo” . Paulo Freire Vamos dialogar sobre direitos humanos? Você já ouviu falar do contexto internacional dos direitos humanos? Que momentos você apontaria como importante para que tais direitos sejam resguardados? Qual a necessidade, histórica, para a existência dos direitos humanos? 20 Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 1: Declaração Universal dos Direitos Humanos Em nosso último encontro conversamos e ficou entendido que direitos humanos é uma construção social, que foi estabelecida pelo trabalho de diversas mãos, fruto das necessidades que compareceram em diversos povos. Hoje entraremos no cenário internacional e percorreremos alguns dos momentos importantes que contribuíram para que, no dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia das Nações Unidas declarasse, de modo aberto, o texto que ficou intitulado por Direitos Humanos, de cunho recomendatório aos países que são membros da Organização das Nações Unidas - ONU, para que esses criassem leis específicas em seus países a fim de validar e efetivar o conteúdo da declaração. Como marco documental inicial, citamos a Magna Carta de Liberdade que data de 1215, na qual um rei limitou o seu próprio poder. Trata-se de um documento inglês que foi escrito após diversos desentendimentos entre a nobreza, os clérigos católicos e a monarquia, uma vez que os dois primeiros detinham cada vez mais o poder aquisitivo, enquanto o terceiro permanecia com os poderes judiciário e legislativo. Sem opção e prestes a entrar em colapso por falta de recurso e apoio, o monarca aceitou reduzir os seus poderes em troca de favores financeiros dos outros dois. Ressalta-se a cláusula 39 da Magna Carta, que é considerada uma segurança contra os desmandos reais, pois assegurou que o monarca não é o dono da lei e que ele deve se submeter a ela, como afirmou Comparato (2003, p. 49): “A cláusula 39, geralmente apontada como o coração da Magna Carta, desvincula da pessoa do monarca tanto a lei quanto a jurisdição. Os homens livres devem ser julgados pelos seus pares e de acordo com a lei da terra”. LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A PANORAMA INTERNACIONAL 21 Uma segunda norma inglesa que destacamos é o Habeas Corpus de 1679, cuja necessidade se deu devido às recorrentes manutenções de súditos de vossa majestade em encarceramentos, mesmo quando não mais lhes era imposta a pena ou quando a pena já estivesse cumprida. Apesar da prerrogativa processual de tal direito existir desde a Magna Carta, não havia especificação dos atos processuais a serem observados para a validade da mesma, por isso a nova norma estipulada foi importante, ou seja, ela criou o direito à locomoção do indivíduo e garantiu o mesmo (COMPARATO, 2003). (Falta alguma coisa... o mesmo o quê?) Ainda, na Inglaterra, temos a Declaração de Direitos de 1689, mais conhecida como Bill of Rights, que quebrou com o regime de monarquia absolutista que, até então, propagava que o poder era emanado da figura do rei e instituiu, pela primeira vez, a separação dos poderes. Comparato (2003) narrou que o período que a antecede é marcado por hostilidades, rebeliões, guerras civis e guerras de caráter religioso, explicação que nos leva a perceber que os direitos conquistados foram resultantes de interesses em conflito e de práticas que buscaram o rompimento das velhas leis, com vistas ao fortalecimento de novos projetos de vida. Não foi uma conversa pacífica - o que seria melhor para o ser humano, mas uma disputa intensa, com a perda de muitas vidas. Além da separação dos poderes, houve limitações ao poder monárquico e o aumento dos poderes do parlamento inglês, criando-se uma monarquia constitucional e não mais absolutista. A Bill of Rights também é uma carta que contém, de forma expressa, os direitos individuais dos cidadãos, pois ela contemplou direitos como: “instituição do júri e reafirmação dos direitos fundamentais dos cidadãos, os quais são expressos até hoje, pelas Constituições modernas, como o direito de petição e a proibição de penas inusitadas e cruéis” (COMPARATO, 2003, p. 57). Em meio a todas essas mudanças, as relações sociais construíram novos discursos e estabeleceram outras formas de perceber o homem e suas necessidades. Em 1762 Jean Jacques Rousseu se utilizou do termo “direitos do homem”, “direitos da humanidade”, “direitos do cidadão” e “direito divino natural” em seu livro Contrato Social, no qual buscou estabelecer uma relação entre a religião e a preservação de direitos. Ainda que não tenha se aprofundado na questão do direito do homem, o seu texto é lembrado por muitos pesquisadores, pois a expressão que usou levantou a questão dos direitos fundamentais que são inerentes à pessoa humana. Agora, avançando em quase um século no tempo e mudando o foco do nosso olhar para o continente americano, chegamos à Declaração de Independência dos Estados Unidos, que ocorreu um ano depois da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), uma prática que foi motivada pela cobrança de altos impostos pelos ingleses à colônia e as recorrentes limitações aos colonos, a exemplo, lembramos a proibição da compra de chá que não fosse da companhia das índias orientais, mesmo quando esta estava por decretar falência e onerando os custos dos colonos (HUNT, 2012). PANORAMA INTERNACIONAL Thomas Jefferson, iluminista e um dos fundadores dos Estados Unidos que foi o posterior presidente da nação, ao redigir e reescrever por diversas vezes o texto da declaração, buscou demonstrar quais direitos a Declaração da Independência protegia. Em uma primeira versão a redação se encontrava da seguinte forma: “Consideramos que estas verdades são sagradas e inegáveis: que todos os homens são criados iguais e independentes, que dessa criação igual derivam direitos inerentes e inalienáveis” (HUNT, 22 2012, p.13). Com essa afirmação, evidencia-se a concepção de que haveria direitos que são inerentes a todos os homens, sem a necessidade de quaisquer requisitos para a sua aquisição. Ao final das revisões feitas por Thomas Jefferson o texto se tornou ainda mais categórico ao tratar destes direitos, como se nota na parte preambular: Consideramos estas verdades auto evidentes: que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males sãosuportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança. (DECLARAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS, 1776). Na verdade, a ideia de uma declaração à humanidade está intimamente ligada ao princípio da nova legitimidade política: a soberania popular. Uma nação só está legitimada a auto-afirmar sua independência, porque o povo que a constitui detém o poder político supremo. Os governos são instituídos entre os homens para garantir seus direitos naturais, de tal forma que seus poderes legítimos derivam do consentimento dos governados. […] toda vez que alguma Forma de Governo torna-se destrutiva (dos fins naturais da vida em sociedade), é Direito do Povo alterá-la ou aboli-la, e instituir uma nova Forma de Governo. O texto também demonstra uma troca de posições entre o governo e os governados quanto à composição dos estados ou nação. Está escrito que os governos são criados ao derivar seus justos poderes do consentimento dos governados, desta forma o governo é a representação dos seus governados. Isto inverte a posição que antes era tida como principal do governante para os governados, pois os últimos passaram a ter o direito declarado de se opor ao governo caso este não se mostre a expressão de sua vontade, vigora, então, o direito declarado de revolução e resistência. Cria-se aqui um novo tipo de legitimidade política: a soberania popular. Nestes termos, Comparato (2003, p. 63) afirma: O texto universalista da Declaração de Independência Americana ressoou pelo mundo e fez com que o interesse pelos direitos universais se insuflassem em outros países, como foi observado na França, onde, depois da revolução francesa, os deputados franceses sentiram a necessidade de declarar um direito que não fosse apenas francês, mas que fosse de todos os homens, que comparece na Declaração do Homem e do Cidadão de 1789. Sobre tal documento, explica Hunt (2013), os franceses buscaram declarar direitos universais e inalienáveis do homem sem citar nenhuma vez o rei, a igreja ou a nobreza, eles buscaram declarar direitos dos homens como fundação de todo e qualquer governo e isto ficou evidente quando estes frisam o uso dos dizeres “homem”, “todos os homens”, “cidadãos”, “sociedade” quando poderiam ter feito uso de povo francês. PANORAMA INTERNACIONAL 23 De forma resumida, o texto da Declaração do Homem e do Cidadão é uma declaração de direitos de todos os homens, com foco na liberdade, igualdade e fraternidade. A abstração presente em suas linhas busca uma afirmação de direitos de todos os homens, nações e povos, por isso difere do tom aristocrático presente na declaração americana, esta que parece focar na declaração de sua independência e proteção ao seu próprio povo (COMPARATO, 2003). Na Declaração do Homem ou do Cidadão, para Hunt (2012), pelo uso que nela se fez dos termos abertos para “todos dos homens”, “toda sociedade”, em contraste com os termos “ninguém”, “nenhum indivíduo”, “nenhum homem”, era literalmente um tudo ou nada, as classes, as religiões e os sexos não apareciam no referido documento. E aí? Como você está em meio a tanta informação? Sabemos que a história que estamos levantando é longa, mesmo assim se mostra necessária. Por isso fizemos essa pequena pausa e trazemos ao diálogo mais uma tira de Alexandre Beck. Nesta segunda ilustração os personagens falam do impacto da leitura de um livro sobre o protagonista, que declara não sair ileso de tal ação. De igual modo Paulo Freire nos convida a não passarmos ilesos do ambiente de ensino e aprendizado, que busquemos os nossos motivos para falar do assunto, trazendo crítica as nossa práxis. Assim, você percebe pessoas desassistidas de direitos que precisam saber deste conteúdo? Conhece pessoas que oprimem o próximo e precisam repensar sua prática? Em que o diálogo que está em andamento te afeta, o seu eu aluno e eu professor, ser indivisível? Como levar a discussão apresentada para o nosso cotidiano? Como futuros professores, como contextualizar o ensino desse conteúdo em uma linguagem que chegue aos alunos – crianças, adolescentes, jovens e adultos? Para tanto, ter o mínimo de informação é necessário e mostra-se relevante. Então, chamamos você para voltar aos marcos históricos dos direitos humanos. Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 2: A verdade sobre os livros PANORAMA INTERNACIONAL 24 MUDANÇA NO MODO DE PRODUÇÃO, TAMBÉM PARA A VIDA A mostra como era a mineração na Serra Pelada, no município de Curionópolis- Pará, e conversará conosco a partir deste momento. Nela, o que chama a sua atenção? Quais as condições de trabalho presentes? Há água e outras condições que tornam salubre o trabalho? Há risco de vida? A quem tantos trabalhadores espremidos atendem? Nos reportamos a um novo momento histórico, os anos após as cartas declarativas dos Estados Unidos e da França foram marcados pela modificação constante do modo de produção, que se afirmou burguês e pautado no aumento da demanda de material humano para a produção em grande escala, em detrimento ao valor de trabalho. Do primor do ser humano enquanto pessoa capaz e digna, agora afirma a diminuição dos valores sociais da vida humana. Com o advento da revolução industrial e a produção em larga escala de materiais de consumo, o trabalho humano também se equiparou ao das máquinas: carga horária elevada, direitos quase nulos, o mínimo de proteção a quem estava na base das relações do modo de produção capitalista. Percebe-se que, com a revolução francesa e após a revolução industrial inglesa, ocorre a ascensão da burguesia e de um novo modelo econômico de vida e modo de produção, o capitalismo, que veio para capitalizar riquezas acima de qualquer outra necessidade, até mesmo os direitos que antes foram defendidos quando da Declaração dos Cidadãos e do Homem de 1789 foram abandonados, apesar de permanecerem no discurso como expressão de garantias de direitos. Em contrapartida à garantia de direitos fundamentais, instaura-se uma aglomeração de pessoas nas grandes cidades, especialmente ao redor das fábricas, em busca de uma nova condição de vida e trabalho, longe dos campos. Por sua vez, as fábricas vêm impor um novo ritmo de produção em massa, os empregados são expostos às péssimas condições de salário, alimentação e moradia. Fonte: https://www.flickr.com/photos/midianinja/11115150685/in/album-72157638173463336/ Imagem 3: Mineração predatria no Brasil PANORAMA INTERNACIONAL 25 Em pouco tempo o trabalho é fracionado e o trabalhador substituível, cada empregado se torna uma peça da grande máquina e não reconhece a sua produção. Também ganha espaço instituições do Estado, como as escolas, em que são ofertadas a instrução mínima aos trabalhadores, que agora precisam ler o suficiente para entender um manual de instrução e repetir a ação ordenada. Os empregados e desempregados (que se avolumam) são equiparados às massas de manobra, tornando-se desejados pelos donos dos meios de produção por se permitir manipular, por serem formados como os muitos trabalhadores dóceis que se precisava ao local fabril hostil, como o campo de mineração acima apresentado, ainda assim desejado, por haver um novo discurso de que isso era a modernidade, o desenvolvimento natural do homem, o padrão de normalidade presentado ao empregado padrão. O filósofo Karl Marx, ao nos falar pela primeira vez sobre o materialismo histórico, diz que “o modo de produção da vida material determina o caráter geral dos processos da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens o que lhes determina a realidade objetiva” Marx (1978, p. 130), ao que acrescentamos, é o modocomo nossa práxis no trabalho se dá. Saindo de tal período e chegando ao nosso tempo, mesmo após os avanços legislativos para a proteção da base trabalhadora, podemos dizer que os direitos na relação de trabalho agora atende a todos? O “chão de fábrica” fica assistido, é respeitado e atendido como deveria ser? Colocando-se entre os trabalhadores deste país, você confia que detém força para poder lutar diretamente por seus direitos? Estamos longe da realidade narrada na fala de Marx acima? Fonte: https://f001.backblazeb2.com/file/papocine/2012/12/20190605-42890269.jpg) Imagem 4: Tempos Modernos Sugerimos que você assista ao filme Tempos Modernos, que é uma obra cinematográfica de 1936, idealizada por Charles Chaplin, e retrata a realidade a que nos referimos com humor e criticidade. Uma boa ferramenta de ensino. PANORAMA INTERNACIONAL 26 Calcula-se que 60 milhões de pessoas foram mortas durante a 2ª Guerra Mundial, a maior parte delas civis, ou seja, seis vezes mais do que no conflito do começo do século, em que as vítimas, em sua quase-totalidade, eram militares. Além disso, enquanto a guerra do início do século provocou o surgimento de cerca de 4 milhões de refugiados, com a cessação das hostilidades na Europa, em maio de 1945, contavam-se mais de 40 milhões de pessoas deslocadas, de modo forçado ou voluntário, dos países onde viviam em meados de 1939. Mas, sobretudo, a qualidade ou característica essencial das duas guerras mundiais foi bem distinta. A de 1914-1918 desenrolou-se, apesar da maior capacidade de destruição dos meios empregados (sobretudo com a introdução dos tanques e aviões de combate), na linha clássica das conflagrações imediatamente anteriores, pelas quais os Estados procuravam alcançar conquistas territoriais, sem escravizar ou aniquilar os povos inimigos. A 2ª Guerra Mundial, diferentemente, foi deflagrada com base em proclamados projetos de subjugação de povos considerados inferiores, lembrando os episódios de conquista das Américas a partir dos descobrimentos. Demais, o ato final da tragédia - o lançamento da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente - soou como um prenúncio de apocalipse: o homem acabara de adquirir o poder de destruir toda a vida na face da Terra. Retornando a análise histórica da evolução ou criação das principais normas relativas aos direitos humanos fundamentais podemos frisar a formulação da convenção de Genebra de 1864, que tratou dos direitos de guerra ou do direito humanitário, primeiro tipo de proteção aos direitos humanos de caráter internacional. Após, em 1907, a convenção de Haia, que incluiu o conflito marítimo nos direitos de guerra e, posteriormente, outras convenções em Genebra nos anos de 1926 e 1929, que versaram sobre a escravidão (visando impedir e reprimir o tráfico de escravos, e ainda, abolir a escravatura) e o tratamento humanizado aos prisioneiros de guerra, respectivamente. Temos ainda a introdução dos direitos trabalhistas nos direitos fundamentais, que adveio com a promulgação da Carta Política Mexicana de 1917, bem como a criação da chamada Constituição de Weimar, a Constituição Alemã de 1919, está última carta de direitos criada após a Alemanha ter perdido por volta de 2 milhões de pessoas, entre mortos e desaparecidos, após quatro anos de guerra (COMPARATO, 2003). É importante frisar que a constituição alemã refletiu diretamente no direito brasileiro, foi quando Getúlio Vargas instituiu nova constituição em 1937, a constituição conhecida como polaca, que substituiu a constituição de 1934. Apesar dos esforços de caráter internacional para uma cultura de proteção a direitos que podem se notar na primeira metade do século XX, até mesmo os de caráter mais nacionalistas como as cartas constitucionais dos Estados, o mundo não estava preparado para as atrocidades que se veriam durante a Segunda Guerra Mundial. Comparato (2003, p. 128), compara a Primeira e Segunda Guerra Mundial e diz: Fonte: https://f001.backblazeb2.com/file/papocine/2012/12/20190605-42890269.jpg) PANORAMA INTERNACIONAL O medo dominou o meio do século passado, a morte pairava sobre a cabeça de todos os que se encontravam ainda com vida, e não era de forma metafórica ou fantasiosa. A presença da morte durante os anos de 1939 a 1945, a segregação do outro e o objetivo de eliminar do mundo populações ou povos inteiros por considerá-los inferiores, o fascismo presente nas falas e atos dos líderes das nações, estes causavam medo e pavor no coração das pessoas mesmo após a cessação das hostilidades. 27 Fonte: https://www.archives.gov/files/research/military/ww2/photos/images/ww2-183.jpg Imagem 5: Horrores da guerra I Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e4/Waldenburg1945edit.jpg Imagem 6: Horrores da guerra II PANORAMA INTERNACIONAL 28 Nós, os povos das nações unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. E para tais fins, praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais, e a garantir, pela aceitação de princípios e a instituição dos métodos, que a força armada não será usada a não ser no interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos os povos. Resolvemos conjugar nossos esforços para a consecução desses objetivos. Em vista disso, nossos respectivos governos, por intermédio de representantes reunidos na cidade de São Francisco, depois de exibirem seus plenos poderes, que foram achados em boa e devida forma, concordaram com a presente carta das nações unidas e estabelecem, por meio dela, uma organização internacional que será conhecida pelo nome de nações unidas (Carta das Nações Unidas, preâmbulo, 1945). As imagens 05 e 06 ajudam a percepção do cenário de destruição e morte encontrados em contextos de guerra. Em especial, propomos que tais imagens sejam levadas para os espaços educativos, independente das séries envolvidas, e com as turmas problematizemos quais os valores, crenças, discursos e práticas que hoje adotamos que sejam capazes de favorecer o retorno de atos de extrema violência contra o próximo, bem como as que precisamos adotar em resistência e oposição às mesmas, a fim de afastar tal mal de toda a humanidade, afirmando-se os direitos humanos. No intuito de nunca mais acontecerem atrocidades pelas quais o mundo passou nas grandes guerras, 51 países, dentre eles o Brasil, no dia 24 de outubro de 1945, assinaram uma carta em que proclamam a intenção de colocar a guerra fora da legislação, esforçando-se por um mundo a ser reconstruído no pós-guerra. Diz o preâmbulo da Carta das Nações Unidas: Essa carta colaborou com a preservação dos direitos e com a proteção dos seres humanos, como firmou a criação da Organização das Nações Unidas – ONU. Ela se diferiu dos demais pactos e tratados, como a liga das nações, por visar à inclusão de todos os países que desejassem proteção e união entre os povos, com vista a uma vida pacífica e à relação amistosa, em momentos de conflitos de interesses. Quanto à carta, em si, ela apenas visou demonstrar o interesse dos países associados em proteger os direitos de todos os seres humanos, embora ainda não os declarasse de forma aberta. Estabeleceu-se, então, uma comissão de direitos humanos que ficou responsável por criar o texto da declaraçãouniversal de direitos humanos (COMPARATO, 2003). Somente após o trabalho deliberativo da comissão de direitos humanos instituída, que o projeto da Declaração Universal de Direitos Humanos foi aprovado pela Assembleia das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948. O trabalho da Comissão de direitos humanos não era apenas esse, ele foi dividido em três etapas: a primeira cuidou do projeto de declaração universal de direitos humanos, a segunda da criação dos pactos de direitos civis e políticos, estes já realizados e, por fim, houve a criação dos mecanismos que viessem a garantir, de forma universal, a prevalência dos direitos humanos (COMPARATO, 2003). PANORAMA INTERNACIONAL 29 Em nosso caso, notamos um tom de reclamação por um direito preexistente que veio sendo negado nas diversas relações sociais estabelecidas ao longo da história de muitos povos. Percebe-se que a adoção de um regramento jurídico que veio para preservar ou criar os direitos invioláveis, no sentido de aceitar a existência anterior destes como um direito universal, adveio de um período de rebeldia, de luta, de guerra, ou de grande violação. O tom, então, que é dado aos direitos humanos é o de proteção a um direito que não é respeitado, é um alerta de cuidado, de fraternidade e de carinho. O que mais uma vez nos fez lembrar Paulo Freire (2013). Ele demonstrou preferir ser criticado como idealista e sonhador inveterado quanto à importância da educação emancipatória, do que apostar exclusivamente na criação de uma legislação demarcatória e punitivista, pois estas não têm se mostrado suficientes para garantir que a ética e a equidade de oportunidades passe a reger a prática humana. Pela conversa com nosso pedagogo brasileiro, acreditamos na necessidade de adotarmos estratégias de ensino e aprendizado que levem o opressor a entrar em diálogo com o oprimido, que ambos pensem o seu local de habitação e a coexistência assumida entre eles, de modo que a relação de um para com o outro seja questionada, rompida e jamais invertida, ou melhor, que não seja o desejo do oprimido assumir o lugar do opressor, como o que vimos ocorrer ao longo da história. Depois de passarmos por alguns dos tratados, cartas, normas e declarações que versaram sobre os direitos humanos universais, qual a percepção que você teve de todo o processo? Ele se deu de modo harmônico? Os termos que constam na Declaração dos Direitos Humanos podem ser colocados de lado? Os direitos humanos têm sido respeitados? PANORAMA INTERNACIONAL 30 Material necessário: Duração: cópia da declaração, papel e caneta, 5 folhas de papel cenário 2 horas/aula. Desenvolvimento: 1- Na primeira aula pergunte aos alunos o que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos para eles. Ouvir as respostas dialogando com a turma. 2- Distribuir uma cópia da declaração e pedir que os alunos observem os artigos listados e tentem relacionar o que pode ter acontecido para que tal documento fosse construído, registrando as respostas. 31 DIREITOS HUMANOS NA SALA DE AULA Sugestão de atividade pedagógica Thomas Jefferson, iluminista e um dos fundadores dos Estados Unidos que foi o posterior presidente da nação, ao redigir e reescrever por diversas vezes o texto da declaração, buscou demonstrar quais direitos a Declaração da Independência protegia. Em uma primeira versão a redação se encontrava da seguinte forma: “Consideramos que estas verdades são sagradas e inegáveis: que todos os homens são criados iguais e independentes, que dessa criação igual derivam direitos inerentes e inalienáveis” (HUNT, 3- Dividir a turma em 5 grupos e solicitar que pesquisem imagens daquilo que eles acham que contribuiu para a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos. 4- Na segunda aula, peça que os alunos montem uma composição em uma folha de papel cenário, utilizando as imagens que eles conseguiram, associando-as as respostas dadas na na aula anterior. 5- Solicitar que cada grupo compartilhe com os outros as suas impressões da atividade. Algo mudou depois da pesquisa de imagem? 6- Comente com a turma os marcos internacionais (como a Magna Carta de Liberdade, Declaração de Direitos de 1689, Declaração de Independência dos Estados Unidos), dialogando com eles as respostas que eles deram e as imagens encontradas. 7 – Expor para a turma os painéis de fotos e conversar sobre a importância de a população participar dos movimentos sociais, para que possa se ver representada na mudança de uma realidade. 32 Fonte: https://voluntariadoempresarial.com.br/voluntariado-cidadao/ CAPÍTULO III panorama nacional “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Paulo Freire Vamos dialogar sobre direitos humanos? Observando a realidade atual, comparando-a com outros fatos do nosso passado desde a colonização, diga-nos! O que você pensa a respeito da evolução dos direitos humanos no Brasil? Como esses direitos foram conquistados? Fonte: https://voluntariadoempresarial.com.br/voluntariado-cidadao/ 34 Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 1: Fome no Brasil panorama nacional No capitúlo II conversamos sobre alguns fatos ocorridos em território internacional, que foram importantes ao presente curso, uma vez que contribuíram para que direitos fundamentais e invioláveis ao homem e à mulher fossem declarados, publicamente, pelos países que estavam presentes na Assembleia das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, entre eles o Brasil. Uma vez que o Brasil estava presente naquela Assembleia das Nações Unidas e aceitou os termos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, faz-se necessário observar o que foi feito internamente para garantir a sua efetivação. Para dar início ao nosso estudo, conversaremos com mais uma tira de Alexandre Beck, que versa sobre o território da garantia de direitos humanos fundamentais à vida digna: Na tira (imagem 01) o protagonista levanta o fato de que no Brasil existem pessoas que passam fome. Essa situação aparece com frequência em noticiários e revela a negligência aos direitos humanos fundamentais, assim como também ocorre quando encontramos pessoas que moram em casas improvisadas debaixo de viadutos ou sob papelões nas calçadas das grandes cidades; crianças e adolescentes fora da escola; falta ou insuficiência de saneamento básico e água tratada nos bairros; falta de recursos materiais e profissionais no sistema de saúde para atender à população; superlotação de encarcerados no sistema prisional; entre outras realidades encontradas nos Estados brasileiros. Recomendamos que você faça uma pesquisa a respeito de omissões como essas em reportagens locais e registre os dados que você encontrar. Isso contribuirá para ampliar a sua percepção dos problemas. LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A 35 Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 2: Pessoas em situação de rua Imagem 3: Abordagem as pessoas em situação de rua panorama nacional Em resposta a questões como essas apontadas, os políticos brasileiros eleitos apontam em entrevistas e outras declarações públicas que isso é resultante fatores, como: verba pública insuficiente para atender às necessidades de toda a população, descaso dos governantes anteriores que promoveram a corrupção ativa, risco de ingerência administrativa e econômica etc. Nesse caso, seria toda a população brasileira atingida pelas mesmas dificuldades? Falta escola para as crianças de todas as classes econômicas? Quais bairros sofrem com a falta de água tratada e saneamento básico? Quais grupos étnicos têm passado fome no país? Quem superlota o sistema prisional? Quem mora debaixo dos viadutos? Quem compõe o grupo que se encontra em vulnerabilidade social? Para tencionar um pouco mais a questão, acrescentamos duas fotos (imagens 02 e 03) que foram tiradas na cidade de Cariacica/ES,no dia 06/04/2020. A primeira mostra uma casa de madeirite, construída de modo irregular debaixo de um viaduto. A moradia é habitada por um catador de material a ser reciclado e sua família, que permitiu a foto, desde que ele não comparecesse na imagem. A segunda foto foi retirada na mesma cidade, ela mostra uma abordagem policial às pessoas que estão em situação de rua. Como se pode perceber, todos os abordados são pardos ou negros. 36 panorama nacional Também trazemos para o nosso diálogo as pesquisas de Lima (2017) e Novaes (2018) sobre as medidas socioeducativas aplicadas aos adolescentes acusados de praticar ato tipificado como infracional a nossa sociedade. Essas duas pesquisadoras apontaram que, na prática, nem todos os jovens têm sido processados e/ou punidos igualmente por fatos similares. Também ressaltaram que as unidades de internação estão cheias de adolescentes e jovens pardos e negros, do sexo masculino, vindos de famílias de pouco recurso econômico, acentuando a diferença de quando o ato considerado infracional é praticado por outros grupos sociais. Esses estudos dão pistas do processo de criminalização de uma parcela específica da população, ou seja, das pessoas de origem afrodescendente, geralmente encontradas em situação de vulnerabilidade social nos bairros de periferia das grandes cidades. As questões levantadas até aqui revelam que, para falar do panorama atual dos direitos humanos no Brasil, também é preciso passar por questões que envolvem as políticas públicas e a história de composição étnica da nação. Como ocorreu na aula anterior, faremos alguns recortes na história do país. Ressaltamos que os fatos escolhidos e os grupos sociais envolvidos não são os únicos que poderiam ser citados, nem os elegemos como os mais importantes. Por exemplo, a história que envolve os nossos índios será pouco abordada, mesmo entendendo que ela é fundamental ao estudo dos direitos humanos. Os recortes escolhidos foram implicados pela limitação do tempo de pesquisa para organizar este curso, por isso recomendamos a todos os alunos que busquem outros momentos históricos significativos e compartilhem nos espaços de diálogo do curso, uma vez que toda informação pode contribuir com o aprendizado e com o posterior ensino da referida temática. Começamos pela chegada dos portugueses ao Brasil. Eles colonizaram a terra e a população nativa de modo exploratório por mais de 300 anos, retirando o máximo possível de recursos para o enriquecimento de Portugal. Para extrair/produzir as riquezas, lançaram mão do escravismo dos índios nativos e também dos negros africanos, estes retirados de seu continente de modo violento pelo tráfico de escravos, uma atividade econômica considerada licita em muitos países em tal período, por isso o povo africano foi separado de sua nação, do seu modo de vida e da família sem qualquer critério de proteção. UMA HISTÓRIA DE LEIS QUE REVELA A OMISSÃO DOS DIREITOS HUMANOS Fonte:https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1d/%C3%8Dndios_escravizados,_s%C3%A9culo_XIX.jpg Imagem 1: Índios escravizados no Brasil 37 panorama nacional A imagem 04, com que ilustramos o escravismo de pessoas no Brasil, mostra parte do tratamento que era ofertado aos escravizados, nesse caso presos por correntes nos seus pescoços. Olhando para a imagem, tente responder: como tais povos eram tratados no cotidiano? Como eles se sentiam? Onde estava a sua família? O que ocorria com os seus filhos? Podiam manter práticas religiosas ou outras manifestações de sua cultura? Havia a possibilidade de reclamarem do modo como eram tratados? Infelizmente os registros que falam desta época indicam pistas de que os grupos que eram escravizados no Brasil tiveram sua cultura, tradições, valores, corpos e laços familiares desvalorizados e/ou ignorados, como se não fossem humanos, muito menos humanos de direitos. Uma vez que o escravo não era um cidadão, ele não podia dispor de propriedade e nem mesmo da sua vida, pois a lei legitimava que ele fosse tratado como uma posse de seu dono, equiparando-o a um animal e, por isso, podia sofrer qualquer tipo de castigo, até mesmo ser estuprado e mantido acorrentado a um tronco por dias (CARVALHO, 2002). Analisando o período em questão, Comparato (2003) afirmou que o escravismo que foi utilizado nas Américas, principalmente no Brasil, foi o responsável pelo maior caso de uso de mão de obra escrava na história humana. E Carvalho (2002, p. 15 e 16) acrescentou: Outra questão significativa a se notar é que o proprietário de escravos não era considerado como uma pessoa de má índole aos olhos da lei naquela época, desde que ele cumprisse com preceitos legais e mantivesse seus impostos em dia. Enquanto isso, na mesma época, em outros países, já vinha tomando corpo a discussão de direitos humanos fundamentais: na Inglaterra houve a Declaração de Direitos de 1689, nos Estados Unidos a Declaração de Independência em 1764, na França a Declaração do Homem e do Cidadão de 1789, cada uma dessas trazendo novos elementos ao diálogo sobre a importância de se preservar e garantir direitos humanos, e isso acabou tensionando o cenário internacional quanto ao escravismo, inclusive Portugal que colonizava o Brasil. Em 1822 ocorre a proclamação da independência do Brasil, cuja constituição é promulgada dois anos depois, em 1824. O novo normativo de leis não cita artigos relativos à escravidão, apegando-se ao estabelecimento do regime monárquico constitucional, atribuição de alguns direitos políticos, e à separação dos poderes legislativo, judiciário, executivo e moderador. Este último acabando por revelar um governo ainda absolutista, vez que coube ao imperador irresponsabilidade absoluta, ou seja, a lei não se aplicava ao mesmo. Apesar da importância histórica daquela constituição, que foi a primeira do Brasil enquanto nação livre, ela carregou consigo o peso da escravidão, isso quer dizer que a inviolabilidade dos direitos civis e políticos que foi garantida aos cidadãos brasileiros, com base na liberdade, segurança individual e a posse de sua propriedade, foi garantida apenas àqueles que eram considerados cidadãos, o que excluía os escravos. Os escravos começaram a ser importados na segunda metade do século XVI. A importação continuou ininterrupta até 1850, 28 anos após a independência. Calcula-se que até 1822 tenham sido introduzidos na colônia cerca de 3 milhões de escravos. Na época da independência, numa população de cerca de 5 milhões, incluindo uns 800 mil índios, havia mais de 1 milhão de escravos. Embora concentrados nas áreas de grande agricultura exportadora e de mineração, havia escravos em todas as atividades, inclusive urbanas. Nas cidades eles exerciam várias tarefas dentro das casas e na rua. Nas casas, as escravas faziam o serviço doméstico, amamentavam os filhos das sinhás, satisfaziam a concupiscência dos senhores. Os filhos dos escravos faziam pequenos trabalhos e serviam de montaria nos brinquedos dos sinhozinhos. Na rua, trabalhavam para os senhores ou eram por eles alugados. Em muitos casos, eram a única fonte de renda de viúvas. Trabalhavam de carregadores, vendedores, artesãos, barbeiros, prostitutas. 38 panorama naciOnal Por volta da terceira década do séc. XIX, a Inglaterra passou a pressionar o Brasil para que este desse fim ao tráfico de escravos e ao escravismo em si. Em 1840, inclusive, os navios ingleses passaram a afundar os navios brasileiros que fossem considerados como alimentadores do tráfico de escravos, o que foi muito importante para a diminuição desse comércio. Em 1871 foi declarada a lei do ventre livre no Brasil, que determinou que todo aquele que fosse nascido após a criação desta legislação seria considerado livre. Carvalho (2002) analisou que pouco se teve, entretanto, de efetiva mudança com esta lei para os nascidos livres, pois dentro do mesmo texto também se encontrava o uso do trabalho do nascido livre pelo senhor, de forma gratuita, enquantoo “liberto” não completasse 21 anos. E acrescentou: “[…] do ponto de vista do progresso da cidadania, a única alteração importante que houve nesse período foi a abolição da escravidão, em 1888. A abolição incorporou os ex-escravos aos direitos civis” (CARVALHO, 2002, p. 13). Já o usufruto desses direitos civis por aqueles que antes estavam na condição de escravos se deu de forma muito lenta, o que nos leva a perceber que, no início, tratava-se apenas de uma legislação para abolir e criminalizar o tráfico de escravos no território brasileiro. Como visto, a abolição da escravidão no Brasil só ocorreu muitos anos após as primeiras tentativas de controle do tráfico de escravos. Até se dar está legislação, tem-se muitos anos de conflito, com pressão de países estrangeiros e efetiva luta dos que foram escravizados no país, com recorrentes tentativas de fuga, perseguição e a consequente morte de muitos. E mesmo com a nova legislação, a luta de tal povo não acabou. Muitos negros, antes escravizados e agora livres, não tiveram condições de se manter, sem instrução e ainda considerados como se fossem inferiores aos demais, tendo em vista o tempo que foram considerados posse e não sujeitos de direitos, tiveram que vender a sua força de trabalho por valor que não lhes garantia uma vida digna, isso quando conseguiam algum emprego. Muitos acabaram voltando para as fazendas em que antes trabalhavam de modo escravo e pediram para voltar ao trabalho em troca de comida e abrigo, sem maior remuneração. Por isso a literatura a respeito de tal período afirma que se libertou os escravos, entretanto não se buscou uma igualdade efetiva destes para com as outras pessoas livres (CARVALHO, 2002). E será que a dificuldade de tal povo acabou depois de percorridos mais de 130 anos da abolição da escravidão no Brasil? Podemos falar em conquista de direitos? Há vida digna para os mesmos? Observa-se respeito para com o corpo, a família, o trabalho, a cultura e as crenças do povo negro? As piadas racistas foram dizimadas? Estas são perguntas importantes ao estudo dos direitos humanos, que serão retomadas em outros momentos de nosso curso. Por ora daremos continuidade aos recortes da história do Brasil, para observamos outras questões significativas. 39 panorama naciOnal Iniciamos este tópico com uma nova tira de Alexandre Beck, cujo protagonista revela perceber um grande número de pessoas dormindo nas ruas, situação que é atual e que perpassa o tempo da República, como dialogaremos nas próximas linhas. Um ano após a abolição da escravidão no Brasil, o império cai e é proclamada a república dos Estados Unidos do Brasil em 15 de novembro de 1889. Adota-se nova bandeira e visa uma forma nova de estado e governo, que é firmada com a constituição de 1891. Em análise de tal período histórico, Carvalho (2002) explicou que a nova constituição fez melhorias pontuais aos direitos humanos fundamentais, à dignidade da pessoa humana e à evolução da cidadania, mostrando-se mais preocupada em garantir um modelo político novo do que, efetivamente, proporcionar a igualdade entre todas as pessoas. Mesmo assim, pode-se frisar que a constituição de 1891 garantiu a possibilidade de responsabilização do chefe do poder executivo, suprimiu o poder moderador, passando a vigorar modelo de três poderes: judiciário, legislativo e executivo. Ela consagrou também a liberdade religiosa ao separar a igreja católica e o Estado, instituiu o habeas corpus e aboliu as penas de morte, de galés e de banimento. Apesar dessas mudanças, Carvalho (2002) afirmou que a primeira constituição da república teve um caráter de manter a elite no poder, perceptível ao se abster, de forma expressa, de responsabilidades nas áreas sociais, do ensino e do trabalho. Logo, em resposta, pode-se imaginar que permaneceram em situação de miséria e dificuldades os grupos marginalizados, em especial, os afrodescentes, tendo em vista que os preconceitos raciais perduraram. Quando Getúlio Vargas ascendeu ao poder, em 1930, após um golpe militar que encerrou a primeira república, fez-se uma nova assembleia constituinte que, em 1934, promulgou a segunda constituição da república dos Estados Unidos do Brasil. Esta tinha entre os seus objetivos “organizar um regime democrático, que assegure à Nação a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico” (Preâmbulo, Constituição 1934). Essa constituição se inspirava na constituição alemã de 1933, a constituição de Weimar, dedicada à ordem econômica e social ao mesmo tempo. Há de se ressaltar uma das maiores conquistas relativa à defesa dos direitos dos trabalhadores, a Justiça do Trabalho, ainda que sua real implantação tenha apenas ocorrido no ano de 1941. NOVAS LEIS: ONDE FICAM OS DIREITOS HUMANOS Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor Imagem 5: Armandinho: ajudar o próximo 40 panorama naciOnal Após o período em que deveria permanecer como presidente, Getúlio Vargas aplicou um golpe para permanecer no poder e, com o apoio dos donos das indústrias e das forças armadas, implantou o Estado Novo. Segundo Carvalho (2002), antes do golpe o comunismo foi vítima de perseguição interna, criou-se a ilusão de que o mesmo representava um perigo para o país, um inimigo a ser combatido a todo custo por uma mão forte e combativa, a mão do Estado Novo. No tocante aos direitos fundamentais, por se tratar de um regime ditatorial civil, os direitos políticos foram limitados e o congresso fechado. Mesmo assim, o presidente Getúlio Vargas buscou trabalhar de forma popular, a fim de que a população trabalhadora e de baixa renda estivesse sempre a seu favor. Surge o populismo, nome que foi dado ao modo como o governo ditatorial deste período foi realizado, nele, de modo paternalista, frisou-se a necessidade de assegurar os direitos trabalhistas do operariado, mas como se isto fosse uma dádiva do Estado, quando se tratava de garantir os direitos fundamentais de toda pessoa humana. Da mesma forma se criou os sindicatos não obrigatórios, em que participavam operários, patrões e o Estado, este último como órgão fiscalizador. Os operários que participavam do sindicato tinham vantagens em relação àqueles não sindicalizados, como direito a férias e proteção contra perseguição patronal (CARVALHO, 2002). Getúlio é derrubado e com ele cai o Estado Novo. São convocadas eleições e o general Gaspar Dutra é eleito e toma posse em 1946, mesmo ano em que é promulgada a nova constituição brasileira, que manteve os direitos políticos, civis e trabalhistas até então conquistados, uma única ressalva se fez quanto ao direito a greve, que passa a ter como requisito a necessidade de autorização pela Justiça do Trabalho. Mesmo que o Partido Comunista tenha tido o seu registro cassado, Carvalho (2002) comenta que este período é considerado como a primeira amostra de democracia real em solo brasileiro e durou até 1964, pois, apesar de várias tentativas de golpe, manteve-se a regularidade de eleições para todos os cargos políticos e também foram criados muitos partidos de cunho nacionalista. E como estaria a situação dos direitos humanos? Contamos com o poema “O Bicho”, que foi escrito por Manoel Bandeira em 1947, na cidade do Rio de Janeiro, que nos oferta as pistas da situação vivida pela população em vulnerabilidade social no Brasil, um ano antes da Declaração Universal de Direitos Humanos (1948) da qual o Brasil foi signatário: Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. (Fonte: https://www.pensador.com/poesia_o_bicho_de_manoel_bandeira/) 41 panorama naciOnal Como podemos apreender no poema, a situação de uma parcela da população ainda era muito ruim. Nesse contexto, em 1950, Getúlio Vargas retornou ao poder por meiodo voto da população em eleições diretas, dando continuidade a seu projeto nacionalista, populista e assistencialista, o que manteve a situação de vulnerabilidade da população desassistida das políticas públicas que a levassem à superação dos reais problemas enfrentados. Ele permaneceu no governo até 1954, ano que cometeu suicídio. Após quase dez anos de luta política entre a herança democrática e o perigo do autoritarismo militar, a democracia perdeu e se instaurou novo regime militar no Brasil em 1964, que durou até o ano de 1985. Sobre a instauração deste período, Carvalho (2002) contou que em 1964 o presidente João Goulart discursou na Central do Brasil no Rio de Janeiro, onde prometeu mudanças na estrutura social de base com uma reforma agrária, e educacional. Como resposta, os conservadores organizaram em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela liberdade, que reuniu cerca de 500 mil pessoas em oposição. No mesmo ano o exército marchou para a tomada de poder e João Goulart, para evitar uma guerra civil, se refugiou no Uruguai. Em abril do mesmo ano foi decretado o Ato Institucional número 1, AI-1, que cassou os mandatos políticos daqueles que eram de oposição aos conservadores e ainda instituiu a retirada da estabilidade dos funcionários públicos. Durante todo a ditadura militar os atos institucionais vigoraram como uma forma de se institucionalizar condutas que o governo militar acreditava serem necessárias para se manter no poder. Quebrando a hierarquia das leis, o governo militar criou a figura do Ato Institucional para eliminar direitos e garantias constitucionais do povo, colocando a figura de tal Ato acima da própria constituição da nação, e fez isto se dizendo revolucionário, amparando-se em um engodo de proteção contra o perigo comunista que ameaçava a segurança e a estabilidade da paz nacional. Dentre os atos institucionais, Carvalho (2002, p. 161) comenta que Para regulamentar o governo militar, em 1967 foi criada uma nova constituição federal, com tom autoritário a fim de garantir o apoio jurídico para os atos que perpetrava. Com este normativo ficou clara a intenção de o governo militar permanecer no poder. Esta constituição concentrou o poder nas mãos do poder executivo, comandado por militares, e retirou a liberdade de expressão, o direito a greve, bem como o voto direto, autorizando ainda que o poder executivo extinguisse os partidos políticos. Seguiu-se um período complexo ao usufruto de diversos direitos humanos. Em Carvalho (2002), observa-se que o executivo ficou nas mãos dos militares, que retiravam direitos e garantias da pessoa humana por vontade, de modo que a população ficou à mercê da ditadura. O autor também comentou que não havia oposição legalmente constituída e aqueles que se opunham ao governo militar eram reprimidos de forma violenta, inclusive houve a introdução da Lei de Segurança Nacional que reinstituiu a pena de morte, por fuzilamento, banida desde o império. Outros direitos como o de imprensa, de inviolabilidade do lar, de reunião, de vida, de paz e de segurança desapareceram. O Ato Institucional nº 5 (AI-5) foi o mais radical de todos, mais fundo atingiu direitos políticos e civis. O Congresso foi fechado, passando o presidente, general Costa e Silva, a governar ditatorialmente. Foi suspenso o habeas corpus para crimes contra a seguran91 nacional, e todos os atos decorrentes do AI-S foram colocados fora da apreciação judicial. 42 panorama naciOnal Não podendo se posicionar contra de forma ordeira e legal, a oposição se fez clandestinamente, via guerra urbana que não foi declarada, mas era efetiva e permaneceu por todo o regime ditatorial militar, o que levou ao desaparecimento de inúmeras pessoas consideradas subversivas (CARVALHO, 2002). Como o Estado no regime miliar se dava o direito de dispor dos direitos humanos fundamentais do seu povo, ele claramente feria a Declaração de Direitos Humanos de 1948. Somente em 1974 a democracia começou a voltar ao território, contudo de forma lenta e gradual, como afirmou que seria o governo Médici. Em quatro anos os atos institucionais foram revogados, a censura prévia deixou de existir e aqueles que se encontravam no exílio puderam retornar para o Brasil (CARVALHO, 2002). No ano de 1979 é promulgada a lei de anistia, extinguindo-se o bipartidarismo político e com isto a oposição toma força e intensifica a redemocratização do país. Os anos 80 foram turbulentos, a mobilização popular era tremenda, diversas greves aconteceram, partidos políticos nasceram neste período e sindicatos foram fortalecidos. Entre os educadores foram publicados vários livros falando da importância da educação histórico-crítica e/ou emancipatória com base em Freire (2013), por fim questionando a educação bancária, para que o sujeito pudesse perceber o seu lugar na história, na produção de renda, na multiplicação de valores e cultura, na busca e garantias dos direitos humanos fundamentais, pois cada um de nós contribui com a produção da realidade nas relações sociais que estabelece e pode, ao mesmo tempo, questioná-la quando opressora. O que nos lembra mais uma tira de Alexandre Beck, Imagem 05, na qual o protagonista chama a figura que lembra um policial a se perceber enquanto classe trabalhadora e, assim, questionar a prática que busca oprimir o povo do qual faz parte: Ainda sobre as movimentações da década de 80, mostraram-se importantes as mobilizações populares chamadas de “Diretas Já” no ano de 1984: A campanha das diretas foi, sem dúvida, a maior mobilização popular da história do país, se medida pelo número de pessoas que nas capitais e nas maiores cidades saíram as ruas. Ela começou com um pequeno comício de 5 mil pessoas em Goiânia, atingiu depois as principais cidades e terminou com um comício de 500 mil pessoas no Rio de Janeiro e outro de mais de 1 milhão em São Paulo. Tentativas de impedir as manifestações, partidas de alguns militares inconformados com a abertura, não tiveram êxito (CARVALHO, 2002, p. 189). Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor Imagem 6: Uma luta de todos 43 panorama naciOnal Apesar de toda essa mobilização popular, a emenda constitucional para as eleições diretas foi derrotada no congresso em 1985. Por isso Tancredo Neves foi eleito presidente do Brasil pelo antigo sistema, ele era o candidato da oposição e não teve rival do grupo militar, que se absteve de lançar candidato à presidência. Antes de ser empossado presidente eleito, Tancredo Neves faleceu e seu vice, José Sarney, assumiu a presidência em 15 de março de 1985. Convocou-se eleição para a assembleia nacional constituinte no ano de 1986, cujo grupo de trabalho se reuniu por mais de um ano até chegar à redação final do texto constitucional que foi aprovado em 1988. Está normativa rege as nossas relações sociais atuais, é considerada a mais liberal e a que afirma mais direitos sociais para as pessoas que a nação brasileira já teve em toda a sua história e, por isso, recebeu o apelido de constituição cidadã. Dentre os preceitos básicos que a constituição retoma e aqueles que cria, podemos destacar: [...] a liberdade de expressão, de imprensa e de organização. [...] inovou criando o direito de habeas data, em virtude do qual qualquer pessoa pode exigir do governo acesso às informações existentes sobre ela nos registros públicos, mesmo as de caráter confidencial. Criou, ainda, o "mandado de injunção", pelo qual se pode recorrer à justiça para exigir o cumprimento de dispositivos constitucionais ainda não regulamentados. Definiu também o racismo como crime inafiançável e imprescritível e a tortura como crime inafiançável e não anistiável. Uma lei ordinária de 1989 definiu os crimes resultantes de preconceito de cor ou raça. A Constituição ordenou também que o Estado protegesse o consumidor, dispositivo que foi regulamentado na Lei de Defesa do Consumidor, de 1990. [...] E, ainda, como formade proteger os direitos e garantias fundamentais elencados no texto constitucional, bem como os direitos humanos estabelecidos na DUDH, “foi criado em 1996 o Programa Nacional dos Direitos Humanos, que prevê várias medidas práticas destinadas a proteger esses direitos (CARVALHO, 2002 p. 210). 44 A leitura desta imagem nos leva a perguntar: • os direitos humanos estão garantidos em nosso país? • há distribuição de renda que possibilite vida digna a todas as pessoas? • os direitos básicos chegam com igualdade às periferias urbanas, às vilas rurais e aos povos índios que ainda vivem no Brasil? • os preconceitos foram superados? • o que fazer para mudar? Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 7: Pessoa em situação de rua Fonte: http://educacao.globo.com/historia/assunto/colonizacao-do-no- vo-mundo/escravidao-na-america-portuguesa.html Material necessário: Duração: imagens do escravismo no Brasil, papel e caneta 01 hora/aula. Desenvolvimento: 45 DIREITOS HUMANOS NA SALA DE AULA Sugestão de atividade pedagógica Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46229943 Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46229943 1- Apresentar aos alunos imagens do escravismo no Brasil, como as aqui apresentadas acima, solicitar que façam a leitura e pedir para que eles fechem os olhos e se coloquem no lugar daquelas pessoas envolvidas na cena e descrevam o que sentem. 2- Perguntar aos alunos que direitos humanos podemos dizer que comparecem ou são negligenciados nas imagens, registrando as respostas. a. Questionar se há correlação das imagens com a realidade que eles vivem ou assistem acontecer com outras pessoas. Registrar as respostas. 46 Imagem 8 e 9: Escravo sendo torturado Fonte: https://blog.cenatcursos.com.br/vulnerabilidade-social-e-saude-mental/ 3- A partir das respostas, conversar com os alunos sobre o que é estar em vulnerabilidade social, e sobre o período que sucedeu ao escravismo, ou seja, de que os negros foram alforriados sem direitos a qualquer indenização pelos anos de exploração. 4- Solicitar uma produção de texto indicando o que os alunos acham que deveria ter sido feito àquela época e o deve ser feito agora para garantir os direitos humanos à população brasileira como um todo. 47 Imagem 10: Vulnerabilidade social: aglomerados urbanos Fonte: https://cnbmg.org.br/recivil-recivil-da-inicio-ao-projeto-promovendo-cidadania/ CAPÍTULO IV direitos individuais Fonte: https://cnbmg.org.br/recivil-recivil-da-inicio-ao-projeto-promovendo-cidadania/ “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Paulo Freire Vamos dialogar sobre direitos humanos? Os direitos humanos de primeira geração estão ligados ao pensamento de liberdade individual de cada pessoa humana e visam criar meios de coibir a interferência do poder estatal e de terceiros na vida privada. Diante dessa afirmativa você: • conseguiria identificar alguns desses direitos? Eles são, de fato, respeitados e assegurados na vida cotidiana? • concorda que o Estado realmente respeita a liberdade individual em todos os locais? • dizer que há pessoas que têm seus direitos humanos de primeira geração menos valorizados e assegurados? 49 Fonte: Arquivo Imagem 1: Pessoa em situação de rua direitos individuais No capitúlo III percorremos alguns momentos da história do Brasil que se mostraram importantes ao estudo dos direitos humanos, como, por exemplo, os problemas decorrentes de nossa nação ter sido colônia de exploração de Portugal por mais de três séculos; ter ocorrido escravismo dos índios nativos e dos negros africanos por período ainda maior; as recorrentes mudanças de forma de governo e constituições que não deram ênfase à garantia da cidadania, democracia e vida digna a toda a população; até que, em 1988 foi aprovada a constituição que chega aos nossos dias, chamada de “Constituição Cidadã”, por afirmar o maior número de direitos sociais que a nação teve em sua história. Mesmo assim, ainda hoje observamos cenas como a da foto a seguir imagem 01): Esta foto (imagem 01) foi tirada em uma avenida de Cariacica/ES, no dia 08/04/2020. Nela aparece uma pessoa dormindo no chão de uma calçada, sobre pedaços de papelão. Uma realidade vivida por boa uma parcela da população em situação de vulnerabilidade social. Isso também oferece indícios de que há negligência do Estado e da sociedade para com os direitos humanos fundamentais. Assim, somos juntos responsáveis por efetivar/garantir os artigos que constam na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foram validados pela nossa Constituição de 1988. Nesse capitúlo falaremos dos direitos individuais, que representam uma de três dimensões ou gerações dos direitos humanos fundamentais, essa divisão foi estabelecida unicamente para fins didáticos. Complementam tal divisão os direitos sociais e os direitos difusos. LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A 50 direitos individuais Antes de prosseguir, mostra-se importante resumir e diferenciar os direitos individuais, sociais e difusos, para tanto citaremos Fabriz (2015): As três dimensões ou gerações dos direitos humanos não foram separadas por critérios de importância, pois todas são fundamentais e devem ser garantidas de modo ético-político, ou seja, um direito se soma ao outro por equidade e não em detrimento do outro. De modo bem simples, as referidas dimensões nos lembram os três princípios da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade, que inspirou a Declaração do Homem e do Cidadão de 1789 e, por fim, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, como vimos no panorama histórico internacional. Os Direitos individuais, direitos civis e políticos, guardam o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, e à propriedade, que são protegidos enquanto o seu usufruto não prejudica o mesmo ou outro direito que compete ao próximo. São os direitos humanos de primeira geração e são entendidos como a imposição ao Estado, e qualquer terceiro, de adentrar na esfera dos direitos do indivíduo, ou seja, são travas ao poder estatal visando a proteção do indivíduo. Para explicar tal afirmação, que pode ser complexa em princípio, buscaremos exemplificar cada um dos direitos em separado, contudo a maior parte deles perpassam o cotidiano. Começamos pelo direito à vida, que deve ser protegida independente do gênero, da etnia, de ser brasileiro ou estrangeiro, da idade, estado de saúde, orientação sexual, desenvolvimento cognitivo, motor ou afetivo, de onde estivermos ou do que fazemos, mesmo que em uma ação considerada criminosa. Isto quer dizer, por exemplo, que quando um policial segue para impedir um crime em andamento, ele também deverá proteger a vida da pessoa que está na prática de um delito. Por isso as muitas mortes que foram provocadas/geradas nas guerras feriram os direitos humanos fundamentais, pois elas defenderam o território, a soberania, a honra, a religião ou outros elementos que não a vida. Um exemplo de afirmação do direito a vida é a vedação a pena de morte no Brasil (a título de curiosidade a pena de morte pode ocorrer no nosso país em caso de guerra declarada). O QUE ESPERAR DOS DIREITOS INDIVIDUAIS? DIREITOS INDIVIDUAIS: Interesse juridicamente tutelado do indivíduo, Direito “que reconhece autonomia ao particular, garantindo iniciativa e independência ao indivíduo diante dos demais membros da sociedade política e do próprio Estado”. Direito individual é o direito, cuja fruição esgota-se no círculo de atuação de seu destinatário (MANCUSO, 1991, p.13). Exemplos: direito à propriedade; direito à locomoção; direito de expressão; liberdade religiosa etc. DIREITOS SOCIAIS: (...) São prestações positivas do Estado. Impõem um dever-fazer ao Estado (sujeito passivo) objetivando resguardar a liberdade e a dignidade daquelas pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade, principalmentena perspectiva econômica. São aquelas pessoas denominadas hipossuficientes. São direitos exigíveis ao Estado. Exemplos: direito à saúde; educação; moradia; assistência social; proteção da família; ao lazer; direito ao trabalho etc. DIREITOS DIFUSOS: Referem-se a coletividade, não necessitando de vínculo jurídico entre os indivíduos. Baseiam-se em fatos genéricos, acidentais e mutáveis. São titularizados por uma cadeia abstrata de pessoas ligadas por vínculos fáticos. De titularidade aberta, referem-se a bens indivisíveis. A satisfação do interesse refere-se à satisfação de toda sociedade. (PINHO, 2002). São direitos de feitio promocional e educativo. Exemplos: meio ambiente; direito do consumidor; direito das gerações futuras; vida em paz; direito ao desenvolvimento; direito à informação etc. (FABRIZ, 2015, p.30). 51 direitos individuais O direito à vida parece simples mas tem gerado várias discussões, como a questão de ser legal ou não a prática do aborto depois da mulher ter passado por um estupro. Ou de uma pessoa ser julgada pela morte de outra, quando a segunda invadiu a propriedade da primeira para a prática de um crime, no qual proporcionou grave ameaça. Ou de se fazer opção clínica por usar um aparelho respiratório em alguém que demostre maior condição de sobreviver em relação a um segundo - discussão que ganhou evidência em 2020, com a situação de pandemia provocada pelo Corona vírus (COVID – 19), por não haver equipamento suficiente para tentar salvar a vida de todos os contaminados em estado grave. Nesses casos e em outros mais, a questão sai da letra da lei e ganha uma discussão ética caso a caso que, por isso, pede maior atenção e gera enorme conflito entre a população. Quando se fala em direito à vida não se fala apenas no direito de viver e de não ser morto, mas também na qualidade da vida da pessoa. Assim, o princípio norteador do direito a vida se baseia no princípio de dignidade da pessoa humana, princípio este que é a base das ações públicas e políticas sociais em si tratando de direitos humanos e que traz em si o reflexo de que o Estado não pode retroagir nas políticas públicas para prejudicar o que já foi alcançado para os hipossuficientes (princípio da proibição ao retrocesso social). Quanto ao direito à liberdade, a mesma é garantida a todos, desde que não se infrinja outra lei e tal ação implique em pena de restrição. Lembramos que no Brasil a aplicação de uma pena pede um julgamento (princípio do devido processo legal e da proibição de tribunal de exceção), com amplo direito de defesa, o que, por si só, é reflexo dos direitos humanos diretamente na legislação brasileira. Nos outros casos a restrição da liberdade é considerada indevida e ilegal. Ao mesmo tempo, lotam os tribunais os pedidos de internação compulsória de pessoas que fazem uso compulsório e dependente de substâncias ilícitas, com a afirmativa de que se busca a proteção da vida que, nesse caso, se propõe como um bem maior do que a liberdade. Também há os pedidos de interdição de pessoa que se indique como incapaz de exercer os atos civis que administrem os seus próprios bens. Além dos pedidos de censura aquilo que é considerado imoral a determinado grupo e lícito a outro. E, assim, o direito passa à análise de um terceiro julgador, o juiz de direito. No quesito liberdade religiosa, mesmo que o país se afirme laico, percebe-se vigorar um calendário católico que rege grande parte dos feriados nacionais, além de haver o dizer “Deus seja louvado” nas cédulas do real. O que nos lembrou uma tira de Alexandre Beck, (imagem 02) em que ele tensiona a mistura da religião com as práticas de governo: O QUE ESPERAR DOS DIREITOS INDIVIDUAIS? O QUE ESPERAR DOS DIREITOS INDIVIDUAIS? Fonte:: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 2: Armandinho: Laicidade 52 O QUE ESPERAR DOS DIREITOS INDIVIDUAIS? direitos individuais Mostra-se importante levar tal questão para os espaços educativos, visto que ao governo não cabem práticas excludentes, pois ele precisa garantir os direitos individuais a todos. Como o Estado garante os direitos individuais a todos se for parcial em algum quesito? Sobre o direito à segurança e à propriedade, falaremos dos dois em conjunto por que o primeiro tem o objetivo de garantir o segundo, assim como todos os demais, por isso ele costura os direitos individuais. O respeito à propriedade pode ser questionado no caso de dívida pública ou a terceiro, momento em que os bens individuais podem ser bloqueados, até o julgamento da questão por juízo específico e, comprovada a dívida, vendidos para a quitação da mesma, caso não haja outro recurso. A lei apenas protege a propriedade em que o indivíduo reside, pois esta é considera inviolável para se garantir vida digna. Quanto à questão da segurança, os servidores que o exercem muitas vezes são questionados, pois entram em conflito com a população que reivindica algum direito, e com isso, por vezes, no lugar de proteger a vida, percebe-se que o Estado determina a proteção da ordem de governo ou do patrimônio público. Como visto, mesmo simples de exemplificar, os direitos individuais são complexos e pedem diálogo quanto ao que eles podem assegurar, efetivamente. Nesta aula levantamos várias questões que se mostram importantes, outras tantas podem ser levantadas entre os discentes e os docentes, a fim de colaborar com o estudo da temática, que pode ser atingida por interesses pragmáticos individualistas, crenças e preconceitos racistas. Levantar questões com a comunidade escolar de como aprender os direitos humanos é tornar vivo o conhecimento, o ensino e o aprendizado, pois possibilita que os dois últimos se tornem críticos e significativos ao levante de novas posturas, de um agir que se faça ético para com o outro, este que é tão importante quanto as nossas necessidades individuais. No próximo capitúlo falaremos dos direitos sociais, aguardamos você com ânimo, curiosidade e espírito de colaboração. 53 Fonte: https://radiopraca.wordpress.com/2017/03/11/relatorio-sobre- -direitos-humanos-pede-maior-liberdade-de-expressao-a-policiais-brasileiros/ Material necessário: Duração: papel, caneta, lápis, lápis de cor. 01 hora/aula. 54 DIREITOS HUMANOS NA SALA DE AULA Sugestão de atividade pedagógica Desenvolvimento: 1- Montar com os alunos uma roda de conversa sobre o tema liberdade, levantando as seguintes questões: o que é a liberdade? Qual a sua importância? É possível garantir a liberdade sempre? Há situações em que a liberdade de um pode ferir o direito de uma outra pessoa? 2- Com aproveitamento das respostas, explicar quais são os direitos individuais. 3- Apresentar a tira de Alexandre Beck a seguir: Conversar com os alunos sobre as respostas que foram construídas ao longo da aula e de que o Estado precisa se manter “imparcial” para poder estabelecer políticas públicas, por isso a importância de se manter laico. 5 – Solicitar que os alunos criem tirinhas que colaborem com o diálogo sobre a Liberdade em nossa sociedade, e exponha o material aos colegas, dialogando sobre sua intenção ao redigir a tira. 4- Pedir para que os alunos falem de suas percepções sobre a mesma. 55 Fonte: https://www.dnoticias.pt/pais/portugal-celebra-dia-internacio- nal-dos-direitos-humanos-e-reflecte-sobre-o-futuro-YM4086753 CAPÍTULO V direitos sociais Fonte: https://www.dnoticias.pt/pais/portugal-celebra-dia-internacio- nal-dos-direitos-humanos-e-reflecte-sobre-o-futuro-YM4086753 “A opressão é domesticadora. Um obstáculo gravíssimo para a conquista da libertação é que a realidade opressiva absorve os que nela estão e, assim, age para submergir a consciência dos seres humanos”. Paulo Freire Vamos dialogar sobre direitos humanos? Fica a dica: Direitos sociais, ou direitos de segunda geração, estão ligados a igualdade e com eles buscamos conseguir igualar as pessoas na medida das suas desigualdades, ou seja, buscamosuma sociedade mais equitativa e com menos diferenças sociais. Agora você seria capaz de dizer que direitos são esses? Como eles são assegurados e qual o papel do Estado, enquanto órgão prestador de serviços, para a efetividade de tais direitos? 57 direitos SOCIAIS No capitúlo IV vimos que os direitos humanos fundamentais são divididos, didaticamente, em três dimensões ou gerações: individuais, sociais e difusos, entre os quais não há hierarquia de valor. Também percorremos o território dos Direitos individuais, que buscam garantir a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade, enquanto o seu usufruto não prejudicar a um terceiro. Na presente aula passaremos aos Direitos sociais, que são definidas como as práticas positivas necessárias do Estado, por via do estabelecimento de políticas públicas, a fim de assegurar a liberdade, a dignidade e a igualdade às pessoas que são hipossuficientes, ou seja, aquelas que, por si só, não consigam acessar à saúde, à educação, à moradia, ao lazer, ao trabalho e à assistência social, entre outros aspectos. O que nos lembra uma tira de Alexandre Beck (imagem 01), na qual os personagens conversam sobre a importância de perceber as diferenças existentes em nível social. Para garantir a universalização de um direito e, ao mesmo tempo, as especificidades regionais, as políticas públicas precisam se fazer concretas e próximas, ou seja, buscar espaços de diálogo com a população atendida, daí a importância dos fóruns municipais de direitos, que são diferenciados por temas, nos quais deve haver a participação de representantes de bairro e/ou líderes comunitários. Para facilitar a discussão dos Direitos Sociais, vamos comentar questões relativas à garantia de saúde, educação, moradia e trabalho, ficando como sugestão que você pesquise os outros direitos e compartilhe nos fóruns de diálogo do curso. Passemos ao direito à saúde que, no nosso país, é regido pelo Sistema Único de Saúde – SUS, regulamentado pela Lei 8.080 (de 19 de setembro de 1990) e pelo Decreto 7.508 (de 28 de junho de 2011), cujas características principais são: - regionalização: os serviços de saúde devem ser organizados em uma área geográfica delimitada, com definição da população atendida e articulação da rede de atendimento, para comando unificado; LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A 58 Imagem 1: Consciência étnica e social direitos SOCIAIS - hierarquização: divisão de níveis de atenção e garantias de forma de acesso, conforme a complexidade e recursos disponíveis; - resolubilidade: o serviço deve estar capacitado a atender a demanda individual ou coletiva que o requisitou, até a sua solução, que pode recorrer a outros níveis de atendimento; - descentralização: distribuição de responsabilidades quanto às ações e serviços nos três níveis de governo (municipal, estadual e federal), para que a decisão fique mais próxima, possível, do problema; - participação cidadã: deve se dar pelos Conselhos de Saúde, com representação paritária de usuários, governo, profissionais de saúde e prestadores de serviço. Outra forma de participação são as conferências de saúde, para definir prioridades e linhas de ação sobre a saúde; - complementariedade do setor privado: quando for insuficiente o setor público, contrata-se o serviço privado por tempo definido, com celebração de contrato que garanta o interesse público, em primeiro lugar, e a instituição privada deverá seguir as normas técnicas e a regulamentação do SUS. Enquanto objeto de discussão no espaço educativo, consideramos importante mencionar que o SUS, assim como os demais serviços públicos, vem sofrendo ataques nos meios de comunicação em massa, que questiona à sua competência. Como faz isso? Estampando-se em reportagens ações pontuais que não deram certo e omitindo todos os bons resultados. É fato que faltam recursos físicos e profissionais para atender toda a necessidade que se apresenta, contudo, a resposta não é desativar o serviço, mas cobrar investimento público para a sua melhoria. Em 2020, a importância do SUS ficou evidente com pandemia provocada pelo Corona vírus (COVID – 19), pois é a rede pública de saúde que tem absorvido a grande demanda de atenção, exames e tratamento ofertado à maior parte dos doentes. Como resultado, vimos circular um grande número de postagens nas redes sociais com a afirmação “proteja o SUS”. Cabe lembrar que difamação do SUS favorece a busca pelo sistema privado de saúde que, ao contrário do primeiro, tem como objetivo o lucro do capitalista e não a saúde pública, cuja negligência implica a impossibilidade de manter a vida. Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 2 e 3: Cuidados hospitalares 59 direitos SOCIAIS Quanto ao direito à educação, ele aparece no artigo 208 da Constituição de 1988 (já com emendas e reformas) da seguinte maneira: Os artigos 109 e 114 da referida lei também tratam do direito à educação, ofertando outros detalhes aos que tiverem interesse, por isso recomendamos a leitura. No caso deste curso, apontamos algumas dificuldades comuns entre a educação pública e o sistema público de saúde, como o questionamento que a mídia levanta da eficácia dos referidos serviços, somada a falta de recursos físicos e humanos suficientes para atender toda a população. Ao mesmo tempo, encontramos em muitas escolas públicas municipais, estaduais e federais resistência ativa ao sucateamento, com projetos político-pedagógicos implicados na realidade da comunidade e oferta de um ensino histórico-crítico, voltado para romper com as disciplinas hierárquicas do estudo bancário, aquele que visa à docilização dos corpos dos estudantes. Nas escolas que lutam pela autonomia dos estudantes, convida-se o discente e a comunidade a participar do ensinar e aprender, de modo emancipatório, assim como propõe Paulo Freire (2013 e 2014). As fotos a seguir (imagens 04 e 05) tem efeito apenas ilustrativo, elas foram doadas por educadores para este curso, sob anonimato. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; II - progressiva universalização do ensino médio gratuito; III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; IV - educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade; V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; VII - atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. § 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. § 2º O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente. § 3º Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola. Imagem 4 e 5: Educação Infantil Fonte: Arquivo pessoal. 60 direitos SOCIAIS Uma vez que estamos falando de educação e cuidado por parte do Estado, não podemos deixar de mencionar o Estatuto da Criança e do Adolescente, que foi criado em 1990 para ampliar a proteção deste grupo etário (de 0 a 18 anos incompletos), impedir a negligência, os maus tratos e todo tipo de violência, bem como dar providências urgentes em caso de abandono ou da incapacidade da família biológica de garantir os cuidados e os demais direitos. Também é importante ressaltar que no referido Estatuto consta as seis medidas socioeducativas que podem ser aplicadas em caso de ato que seja consideradoinfracional na nossa sociedade, quando praticado por adolescente, são elas: advertência, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Com base em seu estudo sobre a temática, Novaes (2018) apontou que o referido normativo foi: A foto a seguir (imagem 06) é uma montagem caseira, com uso de dois brinquedos (algema e arma), para ilustrar a situação. Em caminho oposto à proteção, educação e o cuidado que fundamentam o Estatuto, tem-se observado a escolha pela punição para os adolescentes em processo de ato que seja considerado infracional, mas não é aplicada a todos, punem-se, especialmente, aqueles de origem pobre, de etnia parda ou negra, oferecendo-se pistas do processo de criminalização dessa população e seu consequente extermínio, muitas vezes antes de chegar à idade adulta (LIMA, 2017), com isso, negligencia-se os direitos humanos fundamentais. Essa é mais uma importante questão a ser levada para os espaços educativos. Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 6: Criança pegando uma arma […] publicado, mas não divulgado; à disposição, mas não debatido acerca da necessária ingerência das entidades familiares, da comunidade e da sociedade no processo socioeducativo, uma vez que o Estado se faz presente de forma punitiva e encarceradora. 61 direitos SOCIAIS Chegamos ao direito de moradia e trabalho e para dar início ao diálogo, juntamos mais duas fotos (imagens 07 e 08) registradas uma avenida de comércio em Cariacica/ES, no dia 08/04/2020. Em cada uma delas parece uma pessoa dormindo sobre um colchão na calçada. Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 7 e 8: Pessoas em situação de rua Nas imagens, o primeiro personagem tem consigo o seu cão e um carrinho, que é comum aos catadores de papelão, que nos faz lembrar mais uma tira de Alexandre Beck (imagem 09), que tenciona a questão: Na tira, um dos protagonistas aponta uma criança na situação de catador, a cena retratada fere o Estatuto da Criança e do Adolescente devido ao trabalho infantil, o que, possivelmente, reflete a vulnerabilidade social do personagem. Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 9: Armandinho: sobre não enxergar o outro 62 direitos SOCIAIS Na tira, um dos protagonistas aponta uma criança na situação de catador, a cena retratada fere o Estatuto da Criança e do Adolescente devido ao trabalho infantil, o que, possivelmente, reflete a vulnerabilidade social do personagem. Às pessoas em vulnerabilidade social consta o direito de permanecer em abrigo público, que oferte banho, vestuário e alimentação, até que possa se recompor, procurar por trabalho e manter-se em sua residência. Caso se trate de uma criança ou adolescente, o abrigo é específico para elas, por isso são separadas de suas famílias biológicas, o que acaba por produzir o rompimento de vínculos familiares. Como se vê, nem sempre um direito respeita o outro, este é um dos muitos nós para aqueles que se envolvem com a luta pela garantia dos direitos humanos fundamentais. Então, como efetivar todos os artigos que constam na Declaração Universal dos Direitos Humanos? A resposta, possivelmente, passa por programas de governo que invistam na ruptura efetiva das desigualdades sociais, que deixem de lado as políticas assistencialistas (que são cabides de voto) e fortaleçam a capacidade da população em tomar decisão para o bem comum, pois ela é corresponsável pelas políticas públicas adotadas e sua demarcação, para tanto. Mais uma vez chamamos a atenção para a importância da educação e de um ensino que se proponha a discutir essas questões, a fim de buscar junto com a comunidade o seu protagonismo. 63 Material necessário: Duração: papel cenário, caneta, lápis, lápis de cor 01 hora/aula. Fonte: https://politicaedireitoshumanos.files.wordpress.com/2011/10/joell150110_charge02-2.jpg 64 DIREITOS HUMANOS NA SALA DE AULA Sugestão de atividade pedagógica Desenvolvimento: 1- Apresentar aos estudantes a tira de Alexandre Beck a seguir: 2- Perguntar qual a percepção deles sobre o conteúdo da tira; se nela há algum direito humano negligenciado. 3- A partir das respostas apontadas, explica os Direitos Sociais. 4- Com uso de papel cenário, mapear com os alunos o bairro em que a escola se encontra, identificando onde estão localizados os pontos em que os direitos sociais são garantidos à população ou listar onde falta esses direitos. 5- Verificar quais direitos sociais são ofertados em outros bairros. Dialogar sobre as dificuldades que isto acarreta e como conseguir melhorar a situação. 6 - Conversar sobre a importância do monitoramento das políticas sociais e solicitar uma pesquisa sobre: - como as políticas sociais são estabelecidas? - como acompanhar a tomada de decisão e a execução do que será feito no bairro, no estado e na nação? 65 CAPÍTULO VI Fonte: https://sp.cut.org.br/noticias/mp-mira-ongs-que-atuam-em-defesa-de-direitos-humanos-diz-diretor-da-abong-4589 direitos difusos Fonte: https://sp.cut.org.br/noticias/mp-mira-ongs-que-atuam-em-defesa-de-direitos-humanos-diz-diretor-da-abong-4589 “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes”. Paulo Freire Vamos dialogar sobre direitos humanos? Os direitos difusos estão ligados à fraternidade e visam à proteção da coletividade abstrata e do ambiente em que vivemos. Contudo, cabe a nós pensarmos sobre a real proteção desses direitos. Na sua opinião... O que tais direitos protegem realmente? No Brasil atual esses direitos são considerados prioritários? O Estado brasileiro tem interesse na proteção do ambiente em que vivemos? 67 direitos difusos Uma vez que já conversamos sobre os Direitos individuais, como o direito à vida, liberdade, igualdade e propriedade, bem como sobre os Direitos sociais, como o direito à saúde, educação, trabalho e moradia, entre outros; na presente aula estudaremos os Direitos difusos, que compõem a terceira dimensão ou geração de direitos humanos fundamentais que integram a Constituição de 1988. Os Direitos difusos versam sobre os fatos que são transindividuais, acidentais e mutáveis que, segundo Fabriz (2015), atingem uma coletividade que não tem entre si um vínculo jurídico, mas estão ligadas por circunstâncias de fato, como o meio ambiente, patrimônio público, questões urbanísticas e direitos do consumidor. Tomando a foto da Cidade de Vila Velha que postamos acima, por exemplo, ao falar do destino do esgoto que é, comumente, despejado no mar em cidades litorâneas, tratamos de um Direito difuso, pois isto atinge os moradores do local, os visitantes da orla marítima e quem consome produtos da região. Estamos, então, falando do interesse comum a um meio ambiente equilibrado, pois esta oferta qualidade de vida a uma comunidade específica, assim como ocorre com a qualidade do ar, do solo, dos rios, a vegetação nativa, dentre outros bens da vida que não pertencem a uma pessoa, mas atinge à população presente, podendo prejudicar também às gerações futuras. LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A Imagem 1: Vila Velha Fonte: Arquivo pessoal. 68 direitos DIFUSOS A defesa dos Direitos difusos atendem ao grupo de pessoas que é atingida em caso de desabamentos, desequilíbrio do meio ambiente, assim como as doenças e desemprego causadas por estas, que podem representar inclusive prejuízos financeiros, como no caso do rompimento da barragem de Brumadinho, que ocorreu no dia 25 de janeiro de 2019, que é considerado o maior desastre da mineração no Brasil. Para colaborar com o diálogo sobre os Direitos difusos, postamos duas fotos que foram retiradas em um mesmo local a beira do Rio Jucu, em momentos distintos do ano de 2019, a primeira emépoca de seca e a segunda em época de intensa chuva: Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 2 e 3: Rio Jucu: diferenças 69 direitos DIFUSOS Frente a esta provocação, questionamos: serão os grandes latifundiários fiscalizados e, caso necessário, punidos com o mesmo rigor que se aplica ao pequeno produtor rural, aquele que produz para a sua subsistência? Essa é uma outra questão pertinente em espaços educativos, que pode ser provocada com o levantamento de reportagens que falam da questão. Frente a observação das duas fotos, perguntamos: a escassez de água que se mostra na primeira foto é um fato ligado, exclusivamente, a um evento natural (chuva ou seca)? Como a população pode contribuir com o mesmo? Vemos uma estrada que foi construída ao lado do rio. Além dela, há outras construções que invadem as margens do Jucu, estreitando sua passagem e devastando/prejudicando a vegetação que é necessária à proteção do leito do rio e à alimentação dos seres que nele/dele vivem. O rio passa por assoreamento devido a retirada da vegetação de sua margem? Há lixo lançado em seu interior? Usam-se venenos nas lavouras próximas dele que, nas épocas das chuvas, são levados ao seu interior, consequentemente, atingindo outros locais, os peixes da região e a comunidade ribeirinha? O fato é que tanto a população do entorno do rio Jucu precisa que ele permaneça bem, como as populações mais distantes que fazem uso do que tal recurso hídrico garante, no mínimo, a água e os seres a que ele mantém a vida (peixes, anfíbios, repteis, mamíferos, aves e plantas). A discussão levantada sobre o rio Jucu, que poderia ser em relação a qualquer outro rio próximo de vocês, lembra a importância das leis que tratam de questões ambientais, da educação da população sobre o impacto de suas ações e da aplicação de penalidade em caso de prejuízo ao meio ambiente, cuja manutenção em equilíbrio é um direito humano fundamental, tratado dentro dos Direitos difusos. Neste momento convidamos Alexandre Beck ao diálogo, com uma tira (imagem 04) que tensiona o território ao levantar a questão do uso político da justiça em dadas situações, como também afirmou Maquiavel “aos amigos os favores, aos inimigos a lei”: Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. Imagem 4: Law fare 70 direitos DIFUSOS Apesar de termos focado, até o momento, em discussões de cunho ambiental, o Direito disperso também regulamenta questões ligadas ao patrimônio público, atribuindo responsabilidades ao Estado por sua conservação e aqueles sujeitos que o danificarem, vez que sua proteção é compreendida como um direito desta geração e da futura, a fim de manter viva a memória cultural e/ou as suas características naturais. Lembramos a cidade de Ouro Preto, que foi declarada Monumento Nacional em 1933 e tombada pelo Iphan em 1938, haja visto o seu conjunto arquitetônico e urbanístico. Ela também foi declarada como patrimônio mundial pela Unesco, em 5 de setembro de 1980, sendo o primeiro bem cultural brasileiro inscrito na Lista do Patrimônio Mundial. Quanto às questões ligadas ao urbanismo, trazemos à cena a investigação de irregularidades no programa minha casa e minha vida, que é palco de debates políticos e jurídicos quanto aos locais escolhidos para as obras e o superfaturamento das mesmas, entre outros quesitos que denunciam o mal uso de verba pública, logo a sobreposição de interesses privados ao público, prejudicando a população interessada pelas moradias e aquelas que deixaram de receber o investimento público em outro quesito, vez que ele foi mal empregado. Imagem 5: Zona rural brasileira: latifúndios e responsabilidade ambiental Imagem 6: Ouro Preto Fonte: Arquivo pessoal. Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/download/imagem/ea000057.jpg 71 direitos DIFUSOS Outras questões ligadas ao urbanismo atingem as comunidades, como veremos em três exemplos a seguir: I- Imagem 07 que é uma foto tirada em bairro de periferia da Serra/ES e indica que casas foram construídas em área próxima das torres de alta-tensão, possivelmente fruto do crescimento desordenado das cidades urbanas, e nas quais residem pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social. Para a situação, perguntamos: há risco de vida ou de doenças associadas? Qual a responsabilidade dos órgãos públicos para esta questão? Como conversar sobre a situação com a população local, que se percebe sem condições para buscar um outro local em que possa construir sua casa, haja vista a especulação imobiliária presente na maior parte dos locais urbanos? Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 7: Torres de energia em meio a rua A próxima foto (imagem 08) mostra um poste que sustenta os fios de energia no meio do beco de um bairro da periferia da Serra/ES, o que impede a passagem de carro pelo local. Não faz sentido procurar quem veio primeiro, se o poste ou a rua, mas como resolver a questão que atinge à comunidade local? Quais os prejuízos relacionados? Como resolver o problema? 72 direitos DIFUSOS Como vimos, os Direitos difusos estão presentes em muitos espaços; no campo, em região praiana ou nas cidades urbanas, em diversas situações, inclusive no que diz respeito aos direitos do consumidor, que não foi discutido, por isso sugerimos que cada um de nós pesquise a temática e compartilhe com outras pessoas, como forma de ampliar o aprendizado. Já a imagem 09 é uma foto que retrata o Córrego Maria Preta, que atravessa alguns bairros de Cariacica/ES. Percebe-se a construção de casas muito próximas ao córrego, que ficam expostas ao transbordamento em tempo de forte chuva, vez que há o crescimento de vegetação no entorno, esgoto e lixo lançados no seu leito. Quais riscos o transbordamento do córrego traz nessas condições? Fonte: arquivo pessoal. Imagem 8: Viela no Córrego Maria Preta - Cariacica/ES Fonte: arquivo pessoal. Imagem 9: Construções as margem do rio 73 DIREITOS HUMANOS NA SALA DE AULA Sugestão de atividade pedagógica Material necessário: Duração: papel e caneta 2 horas/aulas. Fonte: https://www.iucn.org/pt/crossroads-blog/201803/nova-mare-para- -o-rio-doce-um-rio-de-volta-a-vida 74 Desenvolvimento: 1- Na primeira aula levar os alunos até o pátio da escola, sentar em roda e conversar sobre o entorno, caso possível, dar uma volta coletiva no quarteirão ao redor. 2- Levantar as situações que parecem ofertar risco aos moradores locais: há encostas descobertas? Há rios próximos que sobem no período de fortes chuvas? Há mata devastada? Há esgoto a céu aberto? 3- A partir da observação do entorno, levantar situações problemas para a comunidade, bem como a quem cabe interferir nessa situação. 4- Dialogar sobre o papel da defesa civil em situações de risco e do Estado. 5- A partir dos diálogos estabelecidos, dividir os alunos em 5 grupos, a fim de pesquisar outras situações que lembram o que foi conversado, por via de reportagens que deverão ser apresentadas na segunda aula do tema. 6- Na segunda aula, pedir que os grupos apresentem suas reportagens e teçam comentários sobre formas de evitar cada um dos acidentes que apresentarem. Repensar o entorno da escola e indicar pedidos que seriam interessantes de serem encaminhadas ao Ministério Público, que é o responsável por interceder neste tipo de situação. 7- Redigir coletivamente uma carta aberta (líder comunitário, prefeito ou outro representante do povo), denunciando a situação que afeta a todos. 75 Fonte: https://www.secularism.org.uk/news/2018/12/report-highlights-religious-threat-to-global-human-rights CAPÍTULO VII Educação e direitos humanos Fonte: https://www.secularism.org.uk/news/2018/12/report-highlights-religious-threat-to-global-human-rights “O professor é, naturalmente, um artista, mas ser um artista não significa que ele ou ela consiga formar o perfil, possa moldar os alunos. O que um educador faz no ensino é tornar possível que os estudantes se tornem eles mesmos.” Paulo FreireVamos dialogar sobre direitos humanos? Quando falamos de educação em direitos humanos, expressamos mais do que apenas apresentar uma lista de artigos que visam a proteger direitos; falamos da vida e do cotidiano escolar, do contexto histórico de cada indivíduo e da sociedade, falamos de experiências e de vivências que se conflitam e dialogam. Você como protagonista do ato educativo, como sujeito líder na sala de aula e intelectual orgânico na escola, como imagina trabalhar os direitos humanos a fim de que os educandos atinjam a emancipação e entendam que podem, e devem, ser multiplicadores na luta pela defesa dos direitos humanos? 77 A GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS E OS ESPAÇOS EDUCATIVOS Educação e direitos humanos Nos capitúlos anteriores conversamos sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foi afirmada publicamente pelos países signatários da ONU em 1948. Ressaltamos alguns dos marcos históricos internacionais e nacionais que favoreceram o diálogo sobre os direitos humanos fundamentais. Também dialogamos sobre as três gerações dos direitos humanos que, em conformidade com a Constituição de 1988, são divididos em direitos individuais, direitos sociais e direitos difusos. Em cada aula focamos as questões ético-políticas, bem como, destacamos a importância de elas chegarem aos espaços educativos, para que os direitos humanos possam, efetivamente, também chegar às pessoas que se encontram em vulnerabilidade social. DESAFIOS À PRÁXIS EDUCATIVA FRENTE AOS DIREITOS HUMANOS O conteúdo da tira de Beck (imagem 01) revela a aula de hoje, na qual aprofundaremos o diálogo dos direitos humanos que pode e deve ser estabelecido dentro dos diversos espaços educativos, com foco nas práxis docentes. Neste momento, mostra-se fundamental a provocação do protagonista da tira, ou seja: “os professores são assim tão perigosos?” Antes de responder a essa inquietação, juntamos uma mensagem usada como epígrafe na dinâmica da disciplina deste curso. Ela foidirigida aos professores e encontrada em um campo de concentração nazista, depois de encerrada a Segunda Guerra Mundial: LI BE RD AD E IG UA LD AD E PA Z DI GN ID AD E JU ST IÇ A Imagem 1: Armandinho: professorees são perigosos? Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor 78 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Prezado Professor, Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver. Câmaras de gás construídas por engenheiros formados. Crianças envenenadas por médicos diplomados. Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas. Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas suspeitas sobre a Educação. Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas (DOWBOR, 2001, p.1). o que motiva a sua busca pela docência? qual o objetivo de sua prática educativa? como você pretende estabelecer o ensino/aprendizagem? sua prática é uma práxis educativa? PRÁTICA NÃO É O MESMO QUE PRÁXIS Para diferenciar a prática da práxis contamos com a ajuda do livro “Gramsci e os novos embates da Filosofia da práxis”, de Giovanni Semeraro (2006) que, além de chamar o leitor ao contexto histórico que leva à diferenciação desses dois conceitos, também dialoga sobre as contribuições da práxis de Gramsci, um filósofo com rica produção teórica apesar da sua morte precoce. Ele passou por exílio em cárcere devido a sua posição ético-política contrária às barbáries a que presenciou em sua época. No livro também é mencionada a práxis pedagógica de Paulo Freire, educador que também passou por exílio na época da ditadura miliar no Brasil, motivado por sua produção teórica emancipatória. Por prática definimos a ação que não é contextualizada e nem problematizada, ela tem aparência mecânica e se faz porque tem que fazer, seguindo os manuais propostos. Já a práxis desvela um agir que se pergunta o que faz, porquê faz e como faz, há contextualização sócio-histórica, bem como uma busca por diálogo com os pares a seu respeito, com fins de mudar uma realidade (SEMERANO, 2006). Nesse caso, percebemos que a prática docente que se baseia no ensino bancário não traz em si os princípios da práxis educativa, pois ela se preocupa com a repetição e apropriação dos conteúdos ministrados, os quais, por sua vez, tendem a ser vistos como prontos e acabados, como se não tivessem possibilidade de mudança. Tal prática é um grave prejuízo para quem se encontra em lugar de oprimido e também de opressor, pois passa a impressão/crença negativa de que uma realidade posta não pode ser alterada. 79 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Acreditamos, em diálogo com Freire (2005 e 2013), na importância do questionamento e da ruptura com a naturalização de uma realidade opressora posta, para tanto é necessário tentar dissipar com esta envergadura das relações de poder e se inquietar com a tentativa de cristalização das relações capitalistas de produção, pois essas têm a finalidade de docilizar os muitos corpos de trabalhadores (subjugando-os), para aumentar o lucro dos donos dos meios de produção em massa. A importância da práxis na educação é que ela implica em um agir ético-político, ou seja, ela é crítica e busca a garantia da vida, da dignidade, da liberdade e da cidadania, o que é o mesmo que dizer que ela está em defesa dos direitos humanos fundamentais. Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/com- mons/d/db/Famine_Kharkov_1933.jpg Imagem 2: Pessoas em situação de rua em 1933 A DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS PEDE AÇÃO EM VARIADOS ESPAÇOS Defendemos a práxis no nosso ambiente de ensino/aprendizagem - palavras que vêm conjugadas com um propósito neste curso - temos como princípio a necessidade de uma troca dialética permanente entre docente, discente, comunidade e conhecimento. Nesse contexto, é hora de pensarmos em quais momentos e a quem compete conversar sobre os direitos humanos. Ao observarmos a foto acima (imagem 03) imaginamos um período de guerras e também as muitas pessoas que vivem em vulnerabilidade social em nosso país, que se encontram nas ruas das nossas cidades, muitas caídas pelas calçadas. Quem são estas pessoas? O que o Estado faz por elas? O que nos cabe fazer por/com elas hoje? Por opção ético-política, entendemos que é responsabilidade de todos garantir os direitos humanos fundamentais e que esses precisam ser conversados em múltiplos momentos e variados espaços, pois a sua efetivação precisa se dar no cotidiano e, por isso, tal ação não deve se limitar a um projeto específico, a ser apresentado em uma mostra cultural, ou ser papel de um único docente em uma aula específica, deve ser uma ação que tenha um agir por meio do olhar/ouvir/sentir atento de todos (docentes, discentes, família, comunidade), onde quer que haja a possibilidade do encontro. 80 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS OLHAR/OUVIR/SENTIR CONTRA OS MAUS-TRATOS E AS VIOLÊNCIAS NOS ESPAÇOS EDUCATIVOS 1) DIALOGO SOBRE A POBREZA, UMA LUZ EM NELSON MANDELA. Observada a necessidade de trabalhar as questões que ferem os direitos humanos em variadas frentes, ressaltamos que a prática educativa que se efetiva em ambientes formais destinados ao ensino (seja ele presencial ou EAD) têm grande responsabilidade, pois a práxis educativa pode instrumentalizar muitos sujeitos por meio da educação, para que se tornem multiplicadores da defesa dos direitos humanos, para que busquem romper com as relações sociais que são marcadas pela opressão (Freire, 2005), para que não aja com indiferença e/ou preconceito em relação àqueles que se encontram entre as minorias sociais, ou que estejam fora dos padrões de beleza, produtividade e cultura tomados em nossa sociedade como os certos e desejáveis. Dando sequência as nossas reflexões, problematizaremosalguns temas importantes à defesa dos direitos humanos, que dizem respeito aos preconceitos ligados à pobreza, ao racismo, aos índios, a LGBT, ao gênero, às pessoas que apresentam necessidades especiais e ao bullying. Elegemos apenas esses temas, porém há muitos que poderiam ser abordados ao tratar dos direitos humanos, cabe a você, enquanto professor, fazer a seleção considerando a proximidade do público com quem dialoga. Para que possamos questionar uma dada situação no ambiente de ensino, é importante perceber junto aos alunos se isto é significativo para eles. A questão da pobreza perpassa todos os grupos sociais no Brasil, pois convivemos com tal realidade: pessoas pedem dinheiro nos sinais de trânsito, sofrem pelo desemprego, fazem ou participam da arrecadação de alimentos, são abordadas por ambulantes no transporte coletivo, deparam-se com pessoas em situação de rua ou morando com suas famílias em casas improvisadas em locais irregulares, etc. Diante desse cenário, o que causa a pobreza e suas consequências merecem foco nas discussões de aula? Suas implicações comparecem nos discursos cotidianos? Isso inquieta o nosso agir? Em um de seus discursos, Nelson Mandela afirmou que “A pobreza não é um acidente. Assim como a escravidão e o Apartheid, a pobreza foi criada pelo homem e pode ser removida pelas ações dos seres humanos”. Este grande líder africano revelou uma importante lição que precisa referenciar as práticas educativas, ou seja, podemos adotar uma práxis que movimente e modifique o território em que é produzida a pobreza, de igual modo a exclusão social, a opressão e a negligência aos direitos humanos. O como fazer isto é a grande questão. Você vê com naturalidade cenas como as retratadas nas imagens 03 e 04? 81 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Pense!... Questões como as citadas são relevantes e não deveriam ser naturalizadas por meio de argumentos imediatistas de que a situação posta às pessoas em vulnerabilidade social, especialmente, no quesito financeiro, é algo natural, vontade de uma divindade ou fruto da preguiça. O que há por trás da pobreza? Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 3 e 4: Pessoas em situaçã de rua Vimos em outros momentos deste curso que a manutenção dos afrodescentes em escravismo, por mais de 300 anos, seguida de alforria sem qualquer retorno/indenização financeiro pela exploração imposta, jogou tal povo entre os miseráveis do país. Além disso, a adoção do modo de produção capitalista vem ofertando aos trabalhadores precárias condições de trabalho, com salários baixos à maioria e alto lucro aos donos dos meios de produção, isso desde o século XIX. Vimos que para tal sistema é relevante manter um exército de desempregados, pois isto força os demais a serem gratos pelo subemprego que mantém. Além disso, soma-se uma política pobre para os pobres, como afirmou Possmozer (2017) ao pesquisar o envolvimento de crianças no tráfico de drogas e a forma como as políticas públicas enfrentam a situação de miserabilidade de grande parte da população de periferia das grandes cidades. 82 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Que práxis precisamos assumir nos espaços educativos para romper com o racismo? Esta é uma questão que, volta e meia, traz polêmica às relações estabelecidas, pois muitos dizem que o racismo não existe mais no Brasil, inclusive há quem defenda que as piadas que se faz contra o negro também atinge os brancos e as outras etnias. Nesse caso, vemos dois problemas: não cabe a defesa de qualquer piada que faça discriminação de pessoa por sua origem étnica; em segundo lugar, como observamos na aula em que foram levantados alguns momentos da história de nosso país, os índios nativos do Brasil e o povo de origem negra africana passaram por longo período em escravismo, no qual sofreram gravoso preconceito, maus-tratos e diversos tipos de violência. Uma clara negligência aos direitos humanos, cujos reflexos são sentidos até os dias atuais, por via das crenças pejorativas que foram naturalizadas ao seu respeito. Reconhecer isso é o primeiro passo para problematizar a questão. Por que não fazer com os discentes um levantamento simples de palavras e expressões derivadas do negro (denegrir, passado negro, lado escuro da vida, serviço de preto, a coisa tá preta, mercado negro, da cor do pecado, não sou tuas negas, cabelo ruim, barriga suja) e do branco (clarear, dia de branco, inveja branca), buscando-se perceber qual delas têm aspecto positivo e quais são negativas? E se a práxis educativa for voltada às crianças pequenas, que elas descrevam as características de Pedrinho, Narizinho e do Saci Pererê. A quem são destinados os vícios, a malandragem, os maus costumes, a fala grosseira, a falta de família? Em qual época foi escrito o Sitio do Pica-Pau Amarelo? Como a sociedade era composta? Por fim, há a questão das cotas. É importante conversar com os alunos do porquê da adoção do heteroreconhecimento para a análise do pedido de cotas por etnia, que é o processo que visa garantir representatividade da cor de pele negra e parda, visto que este foi o critério adotado para a exclusão social. 2 - RACISMO NÃO MITO, É UMA PRÁTICA NATURALIZADA ATÉ PELO FOLCLORE Quando falamos dos índios e de sua história no escravismo brasileiro, logo vemos que sua resistência à colonização dos povos estrangeiros foi desqualificada por muitos contadores de história, pois contra os indígenas aparece a atual crença de que eles são preguiçosos, vivem à custa do governo e que não querem trabalhar, assim como outras formas de violência verbal, patrimonial (tomada de terra) e físicas contra os mesmos. Sugerimos uma pesquisa de reportagens que tratem de tais questões, como a que fala do homicídio do índio Galdino, que ocorreu em 1997, em Brasília, queimado vivo enquanto dormia, pela ação de 5 jovens. Em questionamento às crenças que desqualificam o índio brasileiro, percebemos que estes conheciam melhor a terra nativa do que os povos colonizadores, por isso alguns deles conseguiam fugir e resistir à envergadura dos europeus. Mesmo assim, vários grupos indígenas foram dizimados ou se recolheram em locais ermos das florestas, para garantir sua cultura e modo de ser e estar no mundo. 3 - O PRECONCEITO AO ÍNDIO BRASILEIRO PEDE ATENÇÃO 83 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Hoje alguns grupos indígenas pedem a ampliação de suas terras para poder viver sua cultura e forma de subsistência, bem como tentam impedir que o crescimento de outras culturas invada as terras que já possuem. Isto não é bem-visto por aqueles que defendem o modo capitalista de produção que, por sua vez, visam o lucro acima das pessoas, costumes e tradições, por isso a estes últimos servem as crenças negativas em relação ao índio, pois tais valores acabam por calar as demais pessoas nos casos de conflito com os índios. Esta é uma importante questão a ser trabalhada nos espaços educativos: cabe aos índios os direitos humanos fundamentais? Eles têm o direito de gerenciar sua propriedade? Como os órgãos públicos têm lidado com os conflitos e disputas que envolvem os indígenas? Fonte: https://br.freepik.com/fotos-gratis/amazon-rio-brasil-negro-floresta-indios_669015.htm#query=indio&position=0 Imagem 5: Vida indígena A sigla LGBTTT comporta a pessoa que se define como lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual e transgênero. Para entender melhor a sigla e a história que leva às suas variações (como LGBT+, entre outros) sugerimos que vejam a entrevista de Rafael Ciscati (2019), na qual ele explica “Por que a sigla LGBTI+ mudou ao longo dos anos”. Enquanto posicionamento ético-político, nossa constituição afirma que a orientação sexual não deve diferenciar uma pessoa da outra, quanto menos impor a retirada ou a negligência de direitos. Mesmo assim, em dadas situações, já ocorreu de pessoas que se declaram LGBTTT terem sido ofendidas e espancadas, tradadas como imorais, viram seus bens danificados e suas produções teóricas questionadas por adotarem uma orientaçãosexual diversa do modelo heterossexual. 4 - LGBTTT: EM BUSCA DE UM MUNDO SEM EXCLUSÃO E PRECONCEITOS 84 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS A questão ganha os espaços educativos e vários estudantes acabam retraídos em suas cadeiras e/ou isolados no pátio. Alguns alunos até mudam/saem da escola, com vergonha de recorrentes chacotas e humilhações públicas, que se fazem por meio de piadas e outras ações opressoras, que tem grande poder ofensivo. Percebemos que todos os que são atingidos pelo preconceito LGBTTT mostram resistência ao mesmo e à homofobia, quer se calem ou usem dos espaços públicos para exigir que tal ação tenha fim, urgente. Tendo em vista o sofrimento envolvido e a evidente negligência para com os direitos humanos que envolve os preconceitos e as violências citadas, a temática se mostra uma importante discussão dentro dos espaços educativos, que pode ser iniciada com o questionamento do que representa a sigla LGBTTT, levantamento de piadas e provocações preconceituosas relacionadas ao tema, bem como a pesquisa de livros que abordam o assunto, especialmente aqueles que são produzidos por órgãos de proteção aos direitos, tal como: O Ministério Público e os direitos de LGBT: conceitos e legislação. Fonte: https://br.freepik.com/vetores-gratis/conceito-dia-orgu- lho_4536630.htm#page=1&query=orgulho%20gay&position=1 Imagem 6: Orgulho LGBT O conceito de gênero busca abarcar uma separação binária que foi estabelecida em nossa sociedade entre os homens e as mulheres. Quando o ensino, acesso à cultura e demais bens sociais, divisão de tarefas e garantia de direitos ocorre sem levar em conta tal questão, fala-se de igualdade de gênero. Por outro lado, ao se estabelecer uma diferenciação por tais critérios, produz-se a desigualdade de gênero. Tais conceitos e a problematização dos mesmos podem ser trabalhados com o uso de imagens móveis, como exemplifica o vídeo “Desigualdade de gênero”, que foi sugerido ao final da aula. Neste curso focaremos a violência, preconceitos e violações direcionadas às mulheres, uma vez que estas são as que mais sofrem de violência doméstica, com alto índice de mortalidade feminina, chegando-se a falar de feminicídio íntimo no Brasil. 5 - VIOLÊNCIA, PRECONCEITO E TANTAS VIOLAÇÕES DIRECIONADAS AO GÊNERO 85 Fonte: Arquivo pessoal. Imagem 7: Cartaz contra a violência a mulher EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS O conceito de gênero busca abarcar uma separação binária que foi estabelecida em nossa sociedade entre os homens e as mulheres. Quando o ensino, acesso à cultura e demais bens sociais, divisão de tarefas e garantia de direitos ocorre sem levar em conta tal questão, fala-se de igualdade de gênero. Por outro lado, ao se estabelecer uma diferenciação por tais critérios, produz-se a desigualdade de gênero. Tais conceitos e a problematização dos mesmos podem ser trabalhados com o uso de imagens móveis, como exemplifica o vídeo “Desigualdade de gênero”, que foi sugerido ao final da aula. Neste curso focaremos a violência, preconceitos e violações direcionadas às mulheres, uma vez que estas são as que mais sofrem de violência doméstica, com alto índice de mortalidade feminina, chegando-se a falar de feminicídio íntimo no Brasil. Dentre as mulheres que mais sofrem violência, ressalta-se as mulheres negras, o que é explicado pelos demais preconceitos que este grupo étnico já carrega sobre si, como já conversamos em aulas anteriores. Para trabalhar a temática em espeço educativo, sugerimos uma pesquisa histórica dentro do Brasil com os estudantes, levantando-se o passado patriarcal dos colonizadores portugueses do Brasil, que trouxeram o seu modo de perceber e tratar a mulher em posição de inferioridade e dependência ao homem (pai, irmão ou marido). Ainda sob está temática, buscar perceber se os valores do patriarcado ainda estão presentes no cotidiano, por análise de propagandas, novelas, filmes ou outra modalidade de comunicação em massa que chega às famílias. Sobre a exposição do corpo feminino e masculino em propagandas, buscar várias imagens e observar qual implica a sexualização, ainda que o produto não se relacione com isso. 86 As dificuldades que as pessoas que apresentam necessidades especiais apresentam, quer sejam de ordem biológica, afetiva, psiquiátrica, comportamental ou outra, são discutidas em muitos espaços, inclusive na escola, como apontam os estudos de Glats, Magalhães & Carneiro (1998), Ferreira (2007) e Correia (2014), nos quais percebe-se que o comprometimento das funções motoras dos estudantes prejudica a sua capacidade de ir e vir até os espaços educativos, a falta dos movimentos finos dos membros superiores dificultam a sua escrita e o registro do conteúdo, sentimentos e pensamentos, já a ausência da fala, visão e audição interferem na interação com os colegas e docentes. Isso pensando na escola, estende-se aos demais espaços sociais que frequenta. Outra questão presente, quando dialogamos sobre as dificuldades que as pessoas que apresentam necessidades especiais, é o preconceito relativo à capacidade de produção que, por critérios capitalistas do que se entende por produção e capacidade de produzir, julga-se tais pessoas inferiores às demais (VALLADAO, 2017). Dos múltiplos termos ofensivos que são utilizados para descrever as pessoas que apresentam necessidades especiais, citamos: anormal, doido, maluco, mongol, incapacito, defeituoso. A cada uma das ofensas agrega-se dois sofrimentos à pessoa, pois está se vê atingida naquilo que ela não pode mudar (Correia, 2014) e, em geral, por pessoas de seu cotidiano, daqueles que sabem das demais dificuldades enfrentadas. 6 - AO FALAR EM VIOLAÇÕES DE DIREITOS, INCLUI-SE AS PESSOAS QUE APRESENTAM NECESSIDADES ESPECIAIS EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Por fim, não se pode deixar de fora o diálogo sobre a Lei Maria da Penha (Lei Federal nº 11.340, de 07 de Agosto de 2006) e como buscar proteção nos casos de violência doméstica. Isto é fundamental para resguardar vidas. Tais atividades se mostram importantes ao diálogo da violência contra a mulher, os preconceitos quanto ao seu corpo e sua forma de ser e estar no mundo, pois ressaltam o modo como a mesma era e ainda é percebida dentro das relações sociais estabelecidas. Isto também revela que uma lei em contrário não muda uma prática excludente, como se observa nos diversos direitos que ainda são negados à mulher no cotidiano, ainda que a Constituição de 1988 firme igualdade a homens e mulheres e que haja código penal específico para a punição dos infratores. Imagem 8 e 9: Símbolos Fonte: http://www.pisoscvt.com.br/de- marcacao_vagas_deficientes.asp Fonte: https://www.biologianet.com/do- encas/autismo.htm 87 7 - BULLYING – USO RECORRENTE E PERSEGUITÓRIO DE VELHOS PRECONCEITOS E VIOLÊNCIAS Imagem 10: EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS Tendo em vista os episódios citados, mostra-se fundamental incluir o diálogo das dificuldades vividas e dos preconceitos enfrentados pelas pessoas que apresentam necessidades especiais, quando falamos de garantia de direitos humanos. Nesse caso como incluir a temática, de modo que os demais alunos também se sintam inquietos com a situação dos colegas que são diretamente atingidos? Apostamos em uma vivência prática da situação, que já tem sido experimentada em alguns espaços educativos: vendar os olhos de um aluno e pedir que caminhe de um ponto ao outro do pátio sem ajuda dos demais; usar cadeira de rodas em uma volta ao entorno da escola; impedir o som e tentar explicar algo à pessoa sem recurso de escrita, foto ou vídeo; pintar uma tela com o uso dos pés. São muitas as possibilidades que, além de lúdicas, trazem a experiência da situação dialogada. E depois da experiência pedir que aquele que passou pela atividade conte aos demais o que viveu e registre suas dificuldades, que a turma seja chamada a propor alternativas, construir caminhos e se solidarizar com o próximo, que não pode encerrar em qualquer momento a sua necessidade especial.Nos últimos anos vimos crescer a prática de bullying dentro dos espaços educativos, que se refere a uma ação ofensiva repetitiva contra outra pessoa ou grupo, geralmente, com uso de agressões verbais. Para tanto, o opressor cita uma característica da outra pessoa a quem oprime, que esteja fora do padrão de beleza (branco, magro, alto), status financeiro (maior poder aquisitivo), condição de saúde. No site do Ministério da Educação (http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/34487) consta orientações a respeito e cita a Lei nº 13.185, que entrou em vigor desde 2016, que classifica o bullying como intimidação sistemática, quando há violência física, verbal ou psicológica em atos de humilhação ou discriminação. Esta prática se diferencia das brigas comuns, pois se torna rotineiro, com perseguição a um ou mais colegas. 88 NÃO ENCERRAMOS O DIÁLOGO COM FREIRE, ISSO FOI SÓ O COMEÇO Imagem 12: Fonte: Tiras do Armandinho. https://www.facebook.com/tirasarmandinho. Uso autorizado pelo autor. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS O bullying é outra temática importante quando falamos da busca pela garantia dos direitos humanos fundamentais. Ele pede uma práxis que possibilite ao grupo envolvido pensar de modo dialético a sua ação, refletindo sobre o porquê da desqualificação ou agressão ao outro, de agir como opressor (FREIRE, 2005) e sobre as consequências desse agir violento, que, às vezes, pode levar pessoas ao suicídio, por não suportarem as falas agressivas que receberam. No diálogo de todas as 07 temáticas que elegemos, Paulo Freire se faz presente, ele foi um pedagogo que mostrou esperança na capacidade de os demais humanos mudarem a sua prática para a práxis, independentemente do que se esteja fazendo, seja a limpeza de uma casa, a retirada do lixo, o descarregamento de um caminhão de comida para gado, o plantio de alface. Afazeres que citamos não por serem de menor importância, mas porque muitos os desqualificam, como se todos pudessem fazer tais ações, mas, o fato é que não fazem. Cabe às minorias sociais um grupo específico de funções que, em geral, são desqualificadas e, por isso, paga-se pouco por elas. Artimanhas do poder e do modo capitalista de produção. De igual modo, a desqualificação pessoal dos indivíduos por via de preconceitos é válida ao sistema capitalista, pois eles jogam um contra o outro e isto afasta as pessoas, que tendem a não lutar uma pelas outras. O preconceito fraciona a massa operária, isto não é bom para ela. Vejamos um exemplo: quando um sindicato chama uma categoria para luta por seus direitos (como os motoristas de ônibus), isso incomoda aos demais operários, que criticam os condutores por não se sentirem beneficiados, colocando-se ao lado dos patrões. Este é um pequeno exemplo, importante à pedagogia da autonomia (FREIRE, 2013), pois ela nos chama a sair de nosso círculo individual de necessidades, medos e vontades e assumir um agir comunitário, que luta pelos direitos humanos fundamentais de todos, em especial, com interesse na superação da situação de vulnerabilidade social em que muitos se encontram. A QUEM RECORRER, NO CASO DE NEGLIGENCIA DE DIREITOS, VIOLÊNCIA E MAUS TRATOS? Finalizamos o curso com a provocação de que, além de conhecermos os nossos direitos, é importante saber como defendê-los, para que a próxima tira de Alexandre Beck (imagem 12) não faça sentido em nossas relações sociais: 89 EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS 1- Nos casos de negligência, abandono, maus-tratos e violência contra a criança (de 0 a 12 anos incompletos) e o adolescente (de 12 a 18 anos incompletos), precisa-se acionar o Conselho Tutelar do município, pois este órgão é o responsável por averiguar a situação com uso de visita, proceder com o socorro imediato, solicitar vaga em escola e atendimento em unidade de saúde, levar para prestar queixa e fazer exame de corpo de delito, caso necessário, acolher de modo provisório em casas de acolhimento institucional e solicitar as medidas protetivas que constam no Estatuto da Criança e do Adolescente ao judiciário, entre outras funções que visam a proteção integral da criança e do adolescente. Também se pode fazer denúncia às Polícias Civil e Militar e ao Ministério Público, podendo ser noticiadas também aos serviços de disque-denúncia (disque 100) 2- Nas situações de violência contra a mulher por Lei Maria da Penha (que envolve um homem da família), deve-se procurar a delegacia especializada para tal fim, nas cidades que comportam tal atendimento, ou uma delegacia comum. Cabe o direito de ser assistida por defensor público para defesa de direitos. 3- Nos demais casos faz-se o registro de queixa em delegacia comum, competindo ao representante do Ministério Público analisar o fato e ingressar com ações judiciais de ato infracional (por fato praticado por criança ou adolescente) ou penais (aos demais). Para a proteção das vítimas, há o disque 180 para denuncia de fato em andamento: 90 (in)formação em LEITURAS RECOMENDADAS CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/legislacaoConstituicao/anexo/CF.pdf DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf DIREITOS HUMANOS - ATOS INTERNACIONAIS https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/508144/000992124.pdf?sequence=1 DIREITOS HUMANOS - INCLUSÃO E EXCLUSÃO SOCIAL http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Etica/3_fasc_direitos_humanos.pdf ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE https://www.gov.br/mdh/pt-br/centrais-de-conteudo/crianca-e-a- dolescente/estatuto-da-crianca-e-do-adolescente-versao-2019.pdf LEI DE COMBATE AO BULLYING http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13185.htm LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/lei9394_ldbn1.pdf LEI DE INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm LEI SOBRE HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/file PROGRAMA MUNDIAL PARA EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS http://www.dhnet.org.br/dados/textos/edh/br/plano_acao_programa_mundial_edh_pt.pdf TEORIA GERALDOS DIREITOS HUMANOS https://www.editorajuspodivm.com.br/cdn/arquivos/b2a50b4781eee4a6f57984883c64bd8e.pdf LEI MARIA DA PENHA http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm 91 (in)formação em referências bibliográficas Ato Institucional Nº 1, de 9 de abril de 1964. 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