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89 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Unidade III 5 TIPOS DE COSMÉTICOS 5.1 Cosméticos para revitalização da pele e alterações inestéticas Como vimos, a pele é considerada o maior órgão do corpo humano por recobrir todo a superfície corporal e tem a função de barreira , isto é, de proteger o corpo contra a fácil agressão de fatores externos. Além da proteção, a pele influencia na manutenção da temperatura corporal, absorção e secreção de líquidos, funções estéticas e sensoriais. Lembrete A estrutura básica da pele é constituída de dois tecidos principais. A epiderme (tecido mais externo) e derme (tecido a partir do qual a epiderme tem origem). A epiderme é constituída de quatro a cinco camadas (basal, espinhosa, granulosa, lúcida e córnea), a camada lúcida pode estar ou não incluída, sendo observada em partes mais espessas da pele. Com o passar do tempo, com o envelhecimento natural (intrínseco) e/ou por conta de agentes externos (envelhecimento extrínseco), podem acontecer alterações fisiológicas. O envelhecimento biológico ou natural promove a diminuição da capacidade funcional e o aumento da susceptibilidade a determinadas doenças e agressões e insultos ambientais. A camada mais externa da pele, o estrato córneo, é constituída por coeneócitos (queratinócitos que não contêm organelas) e a sua principal função é a manutenção da hidratação por meio do controle da perda de água transepidérmica e, com o passar do tempo ou ainda por causa de agressões externas, pode ficar prejudicada, necessitando do auxílio de cosméticos adequados e que ajudam na higienização, nutrição e hidratação. Além disso, o modelo de beleza imposto nos dias atuais tem resultado em insatisfações com as disfunções do corpo por uma grande maioria da população mundial, principalmente o público feminino; tal modelo, além de problemas estéticos, tem promovido alterações no comportamento psicológico e social. Pensando nas insatisfações geradas pelos padrões impostos pela sociedade, a indústria cosmética tem desenvolvido produtos cada vez mais eficientes e mais seguros nos tratamentos envolvendo alterações inestéticas como a acne, tratamento anti‑idade, gordura localizada e alterações da cor da pele (discromias cutâneas). 90 Unidade III 5.1.1 Cosméticos para higienização O processo de higienização e limpeza da pele é fundamental para manutenção da saúde e beleza, sendo este um dos passos mais relevantes no processo de manutenção da pele com características estéticas adequadas. A limpeza diária tem como objetivo retirar impurezas, resíduos ambientais, secreções, bactérias e células mortas da superfície da pele, além de constituir a primeira etapa do protocolo estético, pois o acúmulo de sujidades torna a pele áspera e com textura irregular. Os agentes de limpeza devem ter a capacidade de remover os resíduos cutâneos e o processo de limpeza pode ser dividido em duas partes, a primeira consiste em umedecer a superfície da pele e a segunda, a suspensão das partículas de sujidade, ocorrendo a interação com a barreira do estrato córneo e um sufactante. Importante ressaltar que cada tipo de pele deve ter o seu agente de limpeza adequado, não existindo um agente de higienização adequado para todos os tipos cutâneos. Os cosméticos de higienização devem apresentar qualidades como: não ressecar nem acentuar as rugas, ter ação superficial e não penetrar na pele, apresentar detergência moderada e bom poder de arraste para permanecer na pele o tempo necessário para ação, ser facilmente removido, pH próximo ao da pele, deixar a pele suave e apresentar compatibilidade dermatológica. Entre as formas de limpeza, temos os tensoativos, que agem suavemente por meio do uso de substâncias anfifílicas (afinidade pela água e pelo óleo), as substâncias lipofílicas, que apresentam afinidade química com substâncias de polaridade semelhante e, ainda, os solventes orgânicos, como álcool etílico ou acetona, que apresentam a capacidade de solubilizar as sujidades retiradas da pele por arraste com ajuda de algodão ou tecido. Esse último método pode ser bastante agressivo, pois favorece a perda de água transdérmica e consequentemente promove desidratação, descamação e dermatites. Os cosméticos de limpeza podem ser apresentados de diversas formas: • Emulsões: considerada a forma mais adequada por reunir características agradáveis e práticas e, ainda, pela presença das fases aquosa e oleosa e agentes emulsionantes que promovem efeito de detergência e solubilização. Outra vantagem das emulsões é a sua adaptabilidade quanto à consistência, que pode apresentar‑se como loções (consistência menor como leite de limpeza) ou como cremes (maior consistência como os cremes de limpeza) e ainda quanto ao tipo de pele, indicada para todos os tipos. • Espumas: são formulações modernas e, basicamente, emulsões embaladas em material pressurizado ou soluções detergentes acondicionadas em frasco com válvula com capacidade de formar espuma. Substituem os sabonetes comuns e têm a capacidade de diminuir o ressecamento da pele, remover impurezas, hidratar, sem deixar sensação oleosa na pele. Indicadas para todos os tipos de pele. 91 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Lenços umedecidos: desenvolvido com o uso de TNT (tecido não tecido) ou tecido técnico de fibras sintéticas ou naturais, embebidos em soluções de água, tensoativo, conservantes e fragrância. Os acondicionamentos especiais (flow packs ou travel packs) ou em sachês evitam a contaminação e evaporação da solução em que o produto encontra‑se embebido. • Loções aquosas: soluções aquosas transparentes constituídas de tensoativos suaves associados a solventes orgânicos (álcool etílico). Produtos com diversas funções, indicados para peles oleosas e acneicas pela ausência de compostos oleosos, apresentam pH compatível com a pele e, consequentemente, causam menos danos quanto ao ressecamento em peles envelhecidas e remoção de maquiagem da área dos olhos. Produto prático, pois não requer a retirada do excesso, devendo ser aplicado com o auxílio de algodão. • Sabonetes: o início do desenvolvimento dos sabonetes aconteceu pela saponificação da gordura de cabra, água e cinza rica em carbonato de potássio (pelos fenícios em torno de 6000 a.C.), obtendo‑se um produto sólido e ceroso. São produtos de higiene mais utilizados e podem ser produzidos na forma líquida, de barra e de pó. Os sabonetes na forma de barra são obtidos por meio de reação química entre a gordura ou óleo e uma substância alcalina, resultando em sal de ácido graxo com propriedades detergentes. Os produtos na forma líquida normalmente são desenvolvidos utilizando a mistura de detergentes sintéticos como tensoativos anfotéricos, aniônicos e não iônicos. 5.1.2 Cosméticos para hidratação Quanto ao processo de hidratação, uma pele envelhecida encontra‑se com a derme desidratada e com as quantidades diminuídas de glicosaminoglicanas, que são proteínas com a capacidade de se ligar às moléculas de água e de fixá‑las à derme. Outra característica do envelhecimento é a diminuição na síntese de fibroblastos. Consequentemente, a fixação de água na derme também fica prejudicada, intensificando de uma forma geral a formação das rugas. De uma forma simplificada, existem três tipos de ativos com a capacidade de auxiliar na regulação da hidratação no estrato córneo: os oclusivos (óleos vegetais ricos em ácidos graxos essenciais, manteigas e ceramidas), que formam uma camada ou filme que impede a perda de água pela minimização da evaporação da água transdérmica, além de auxiliar na recomposição do manto hidrolipídico; os umectantes (aminoácidos, proteínas e açúcares e polióis), que absorvem a água do ambiente e a retêm na superfície da pele, e os emolientes, que possuem a função de amolecer e suavizar a pele por seu carater oleoso. Além das glosaminoglicanas e do ácido hialurônico, existem outras substâncias envolvidas no combate ao processo de envelhecimento e, consequentemente,ao processo de desidratação da pele, como dermatan‑sulfato, heparan‑sulfato, heparina, queratan‑sulfato, condroitin‑4 e condroitin‑6‑sulfato. O ácido hialurônico é uma substância amplamente utilizada como agente de hidratação nos mais diversos tipos de cosméticos, pois atua como agente umectante, ajuda na diferenciação de queratinócitos, na formação de corpos lamelares e na organização do citoesqueleto e promove o aumento da síntese de glicosaminoglicanas. 92 Unidade III A formulação de um cosmético com atividade hidratante necessita ser adequada a cada tipo de pele, pois uma pessoa jovem com as estruturas dérmicas preservadas não necessita da ação de ativo que atua de forma profunda, no entanto, quando, pensamos em uma pele envelhecida, é necessário o uso de substância com potencial de ação em camadas mais profundas e que possa repor substâncias que já não são mais sintetizadas ou não são sintetizadas na quantidade adequada pela pele. Apresentaremos alguns ativos hidratantes: • Acacia Collagen: colágeno de origem vegetal que promove hidratação, evitando a perda transdérmica de água pela formação de filme oclusivo. Apresenta peso molecular semelhante ao colágeno animal sem o odor característico. Com o peso molecular elevado, apresenta tamanho de molécula grande, promovendo, assim, um processo de hidratação por meio de oclusão. • Ácido glicólico: conhecido também como ácido hidroxietanóico (AHA) em pH 3,8, apresenta atividade esfoliante e despigmentante e em pH 6 torna‑se um glicolato com ação hidratante. De uma forma geral, com o aumento do pH, ocorre a diminuição do poder de renovação das células epidérmicas. • Active‑Aloe: polpa de Aloe vera com 10% de polissacarídeo (todo sacarídeo tem poder hidratante), apresenta ação regeneradora, hidratante e promove a permeação de ativos. Muito utilizada em produtos pré e pós‑sol na forma de gel, géis para peles oleosas, produtos para tratamentos de queimaduras, fluidos para área dos olhos, peeling e antienvelhecimento. • Advanced moisture complex: composto de PCA‑Na (produzido pelo organismo humano para pele), ureia, trehalose (composto de açúcar) e hialuronato de sódio, promove ação hidratante e umectante com a formação de filme oclusivo. A presença de íons inorgânicos favorece o processo de hidratação. • Ajidew NL‑50: chamado de Pirrolidona Carboxilato de Sódio (PCA‑Na), tem função umectante natural presente em quantidades acima da média no fator de hidratação natural (NMF) da pele humana, com a função de manter a pele e os cabelos adequadamente hidratados. • Alistin (Exsymol): antioxidante universal com a capacidade de recuperar a epiderme danificada pela radição UV, além de preservar a capacidade de defesa natural da pele. Protege o colágeno da forma tóxica da glicose oxidada por radicais livres (glucosona). • Bioceramide – Ceramidas III: ativo obtido por meio de processo biotecnológico, de ação umectante utilizada em cremes e loções cremosas. Promove a formação de filme na pele, impedindo, assim, a perda de água transepidérmica. • Caviar Extract Lipo: ativo lipossolúvel com 18% de ácidos graxos naturais e vitaminas A e D. • Fluido de silicone (dimeticone): facilita a espalhabilidade dos produtos cosméticos, forma filme emoliente, é protetor e oclusivo. Amplamente utilizado em cremes, loções, produtos pós‑barba, desodorantes, produtos solares e para cabelo. 93 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • D‑Pantenol: pró‑vitamina B5 de ação hidratante, suavizante, anti‑inflamatória, estimula a epitelização e auxilia na cicatrização de pequenos ferimentos. Muito utilizado em cosméticos para a área dos olhos, rosto, xampus e condicionadores. • Manteiga de manga: agente de emoliência e hidratação, extraído do caroço da manga, rico em ácidos graxos esteárico e oleico. Confere toque seco e agradável, sendo utilizado em cremes para os pés e mãos, cremes hidratantes faciais e corporais, cremes nutritivos e produtos de proteção solar para o corpo e lábios. • Manteiga de karitê: ação emoliente com propriedades anti‑irritante, agente de consistência a emulsões e hidratação à pele. Utilizado no desenvolvimento de formulações para área dos olhos, produtos labiais e produtos para cabelos. • Oliva HG (Extrato hidroglicólico de oliva): apresenta propriedades emolientes, lubrificantes e restauradoras, utilizado em cremes, xampus e loções. • Ureia: um dos ativos mais utilizados para hidratação corporal por apresentar função hidratante, queratolítica e antibacteriana pela desnaturação das proteínas, além de melhorar o processo de penetração dos ativos. Dependendo da concentração utilizada na formulação, apresenta funções distintas: até 10% (hidratante); de 10 a 20% (trata a hiperqueratose); de 10 a 40% (trata psoríase); de 20 a 40% (trata lingua nigra villosa); em baixas concentrações (até 2%), usada em compressas para tratar ferimentos (limpeza e estimulação da cicatrização). • Vitamina E: ação antirradicais livres e de hidratação. É encontrada em emulsões cremosas e géis em cosméticos para a área dos olhos e produtos corporais e faciais. Observação A manteiga de karitê (Butyrospermum parkii) quando utilizada em formulações cosméticas assume a função de bioativo de reparação. Trata‑se de um composto semissólido na forma de cera, com ponto de fusão entre 30 e 35 °C. Além da sua atividade como ativo, também apresenta atividade emoliente, hidratante, ação anti‑inflamatória e é capaz de absorver as radiações UV. 5.1.3 Cosméticos para nutrição da pele O processo de nutrição é considerado biológico, em que o organismo usa substâncias nutricionais pela assimilição de nutrientes utilizando suas funções vitais. Dessa forma, nutrir a pele é apresentar e devolver substâncias essenciais (carboidratos, gorduras, proteínas, sais minerais, oligoelementos e vitaminas) à função fisiológica da pele. Os agentes de nutrição podem ser considerados substâncias anti‑aging, pois possuem a capacidade na prevenção do envelhecimento. 94 Unidade III Os produtos de nutrição devem apresentar caraterísticas como a facilidade de permeação cutânea e biocompatibilidade. Eles têm funções revitalizante, antioxidante, oxigenante, energizante e regenerador. As substâncias ativas com ação nutritiva podem ser hidro e lipossolíveis. Entre as substâncias lipossolúveis, temos os ácidos graxos (ácidos oleico e palmítico), óleos vegetais (amêndoas, abacate, oliva, canola), triglicerídeos (triglicérides do ácido cáprico‑caprílico), fosfolipídios (lecitina de soja, fosfotidilcolina) e vitaminas (A, E e D). As substâncias hidrossolúveis são os aminoácidos e peptídios (ácido aspártico, glutâmico, alanina, arginina, asparagina, cisteína, hidroxipropila), carboidratos (glicose, frutose, lactose, manose, galactose, D‑psicose), sais minerais e oligoelementos (cálcio, enxofre, ferro, fósforo, magnésio, manganês, silício, zinco) e vitaminas (C e complexo B). Os cosméticos para a nutrição dérmica podem se apresentar de diversas formas, como cremes, creme‑gel, gel‑creme e sérum. Os cremes nutritivos são indicados para peles secas e devem ser utilizados no período noturno ou em massagens profissionais. Produtos apresentados como creme‑gel são indicados para peles normais a mistas, já o gel‑creme são adequados para peles oleosas, acneicas e masculinas por promoverem rápida nutrição e textura livre de gordura e boa espalhabilidade. A tendência dos cosméticos nutritivos são os séruns, que são concentrados de ativos com textura leve e com boa espalhabilidade. 5.1.4 Cosméticos anti‑inflamatórios, cicatrizantes e calmantes Determinadas alterações inestéticas geram processos inflamatórios e irratação da epiderme e, com isso, surge a necessidade de ativos que possam driblar tais condições com atividade anti‑inflamatória, cicatrizante e calmante. Observação Uma das formas de tratamento da acne leve é por meio do uso dos cosméticos que contenham substâncias anti‑inflamatórias, além de medicamentos. A escolha do cosmético ou do medicamenteestá relacionada com o grau da acne e é importante ressaltar que o medicamento só poderá ser indicado por um especialista médico. A seguir listaremos alguns ativos no mercado presentes em cosméticos com atividade anti‑inflamatória, cicatrizante e calmante: • Ácido glicirrízico: atividade anti‑inflamatória, antialergênica e descongestionante. • Aqua Licorice Extract® PU (Galena): extrato de licorice com alta concentração de licochalcona. Apresenta a capacidade de inibir a síntese da enzima 5‑alfaredutase e, consequentemente, de controlar a secreção sebácea. Também apresenta atividade antilipase e antioxidante, inibindo a formação dos ácidos graxos e dos lipoperóxidos, e atividade bacteriostática. 95 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Alantoína: ação anti‑irritante, auxilia na defesa da pele e no processo de proliferação de novas células, estimulando a epitelização. • Alfabisabolol: álcool sesquiterpênico monocíclico insaturado obtido pela destilação direta do óleo de candeia (Vanilos mopsis erytropapa). Atividade anti‑inflamatória, cicatrizante, antisséptica suave. Mesmo em baixas concentrações, apresenta a capacidade de inibir o crescimento de bactérias gram‑positivas. • Betafin® BP20 (Lonza): Substância extraída da beterraba, auxilia na hidratação de longa duração e na produção de colágeno. Ação umectante sem causar oclusão, equilibra o pH. • Bioxycantha Extract® (High chem): extrato de Crataegus oxycantha, apresenta a capacidade de reduzir o processo inflamatório, promove efeito calmante e regula as funções das glândulas sebáceas. • D‑Pantenol ou pró‑vitamina B5: é um álcool que na pele transforma‑se em ácido pantotênico (substância análoga) e forma parte da coenzima A (necessária na estrutura e regeneração dos lipídios da pele e das mucosas) e que pertence ao grupo das vitaminas do complexo B presente na pele e nos cabelos. Promove efeito eutrófico e cicatrizante na derme, promovendo aumento na resistência das fibras de colágeno. Além de sua ação cicatrizante, apresenta atividade antisseborreica, umectante e estimulante do metabolismo epitelial. • Extrato de alcaçuz (licorice): composto de glycyrrhizina, ácido glicirretínico, flavonoides, asparagine, isoflavonoides, chalcone, cumarinas, triterpenoides e sap oninas. Apresenta atividade calmante, descongestionante, antisséptica suave e sebostática. Indicado para produtos para peles sensíveis. • Extrato glicólico de Alteia: rico em mucilagens e pectina, sais minerais (P, Ca e Mg), taninos, esteróis, asparagina (aminoácidos) e vitamina C. Propicia atividade emoliente, amaciante, hidratante, descongestionante, cicatrizante, antirradicais livres e clareadora. Recomendado no tratamento de irritações e de inflamações. • Extrato glicólico de calêndula (Calêndula officinalis): composto de óleo essencial, substâncias colorantes, carotenoides, substâncias amargas, flovonoides, ácido oleico livre e combinado, saponinas, mucilagem, pró‑vitamina B, minerais (Ca e Si) e mono, di e triterpenos. Apresenta propriedades emoliente, cicatrizante, suavizante, refrescante, antialergênica e antisséptica. Indicado em produtos para peles sensíveis e delicadas. • Extrato glicólico de camomila (Matricaria Chamomilla Flower): composto de óleo essencial, sesquiterpenos, flavonoides, cumarinas, ácido salicílico, mucilagens, resinas e potássio. Apresenta atividades emoliente, cicatrizante, suavizante, refrescante, anti‑inflamatória, descongestionante, protetora dos tecidos, antiacneica, filtrante das radições solares e antialergênica. • Vitamina e oleosa: vitamina lipossolúvel envolvida em processos de eliminação de radicais livres metabolicamente. Ação antioxidante pelo controle na formação de peróxidos e oxidação dos 96 Unidade III lipídios. Apresenta atividade umectante, anti‑inflamatória e hipoalergênica, além de inibir a formação de eritema. • Vital ET® (ISP): complexo biofuncional de vitamina E fosfato, que protege a pele quanto ao surgimento da vermelhidão e do inchaço. Apresenta propriedades antioxidantes, reduz sintomas característicos de pele sensível (inchaço, vermelhidão, coceira e irritação) e diminui os sinais de envelhecimento e estresse ambiental. 5.1.5 Cosméticos antiacne A acne é o problema dermatológico mais comum e está presente em aproximadamente 56% da população brasileira, sendo o problema estético que mais leva pessoas aos consultórios dermatológicos. Considerada uma dermatose crônica de alteração benigna, que não compromete a saúde como um todo da pessoa, no entanto, é extremamente danosa ao bem‑estar e autoestima, além de promover alterações psicológicas. É uma doença do folículo pilossebáceo e possui fatores fundamentais relacionados com a hiperprodução sebácea, a hiperqueratinização folicular, o aumento da colonização por Cutiumbacterium acnes e a inflamação dérmica periglandular. A acne pode ocorrer em todas as raças, embora seja menos intensa em orientais e negros; no entanto, manifesta‑se mais gravemente no sexo masculino. Não existe um perfil epidemiológico universal da acne, porém, é aceito o fato de que sua prevalência varie entre 35% e 90% em adolescentes. De uma forma geral, observa‑se que a acne acomete 95% dos meninos e 83% das meninas com 16 anos de idade. O aparecimento da patologia é precoce, em torno de 11 anos para meninas e 12 para meninos, com maior prevalência entre os homens, pela influência androgênica. A frequência na população aumenta com a idade e com a existência de histórico familiar. Em alguns casos, o aparecimento da acne acontece de forma espontânea, normalmente, ao final da adolescência ou da segunda década de vida. A influência genética é um dos fatores mais relevantes, pois acredita‑se que ela seja maior quanto maior for o grau da dermatose. Na acne de grau I, essa participação é de 88%; na de grau II, 86%; na de grau III, 100%. Em indivíduos sem acne, a ocorrência familiar é de 40%. A influência genética ocorre sobre o controle hormonal, a hiperqueratinização folicular e a secreção sebácea, mas não sobre a infecção bacteriana. 5.1.5.1 Classificação e graus da acne Não existe um sistema universal para classificar a acne; no entanto, existem algumas formas de classificá‑la, uma delas é através da presença ou não de processo inflamatório, outra por meio do predomínio das lesões elementares e ainda quanto ao seu grau. 97 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS A acne, quanto ao predomínio de lesões elementares, pode ser classificada como: comedogênica, pápulo‑pustulose e nódulo‑cística ou apenas nodular. A acne comedogênica é a mais simples, caracterizada apenas pela presença de comedões fechados com aspecto esbranquiçado, medindo de 1 a 2 mm, ou abertos, de cor enegrecida pelo processo de oxidação das gorduras e pelo aumento da deposição de melanina por atividade dos melanócitos; o segundo tipo é a pápulo‑putulose, que apresenta pápulas eritematosas e sólidas com até 1 cm de diâmetro, que podem ocorrer em torno dos cômedos, o que indica atividade inflamatória da doença, podendo evoluir com a formação de pústulas circunscritas de até 1 cm de diâmetro; o terceiro tipo caracteriza‑se pela presença de cistos, nódulos e abscessos correspondentes a uma fase avançada da acne, podendo ter tamanhos variados. Os cistos normalmente drenam secreção purulenta e deixam cicatrizes, que podem ser uma consequência natural das lesões inflamatórias, ou o resultado da manipulação das lesões pela destruição das células germinativas localizadas na região mediana do folículo. A acne ainda pode ser dividida em inflamatória e não‑inflamatória e, de acordo com o tipo de lesões presentes, pode ser graduada de I a V, levando em consideração a gravidade da patologia. A acne grau I corresponde à comedogênica com o predomínio de comedões. A acne inflamatória é responsável pelos graus II, III, IV e V. Nos casos de acne grau II, ocorre o predomínio de lesões pápulo‑pustulosas, além dos cômedos; no grau III, nódulos e cistos podem ser observados;no grau IV ou conglobata, a acne é uma forma severa da doença com múltiplos nódulos inflamatórios, formação de abscessos e fístulas. A forma mais rara e grave, com a presença e instalação abrupta, acompanhada de manifestações sistêmicas, como febre, leucocitose e artralgia, é a acne fulminante ou grau V. Observação Termos utilizados para identificação e classificação dos graus de acne: Comedão: lesão elementar da acne, surgindo em consequência da hiperceratose de retenção do folículo pilossebáceo. Pápula: área de eritema e edema em torno do comedão, de pequenas dimensões (até 3 mm). Pústula: conteúdo purulento e normalmente doloroso, acompanhado de prurido. Nódulo: idêntico à pápula, porém, de maiores dimensões (até 2 cm). Cisto: grande comedão que sofre várias rupturas e recapsulações, conteúdo pastoso e caseoso. Cicatriz: depressão irregular coberta por pele atrófica, resultante da destruição do folículo polissebáceo por reação inflamatória. 98 Unidade III 5.1.5.2 Tratamentos da acne e cosméticos utilizados O tratamento da acne pode acontecer de forma sistêmica, tópica, cirúrgica e estética, no entanto, os tratamentos modernos incluem mais de um tipo de procedimento. Os procedimentos estéticos têm como princípio atender e solucionar as questões referentes à acne com mais qualidade, no menor tempo possível. Na escolha do melhor tratamento da acne, é importante o conhecimento do metabolismo de hormônios androgênicos e, ainda, de sua ação nas glândulas sebáceas, já que esta é uma das principais causas da grande incidência de acne em adolescentes e, principalmente, do sexo masculino. As glândulas pilossebáceas sofrem modificação para o processo de formação da acne, ocorrendo uma hipertrofia de toda a glândula decorrente da ação androgênica sobre sua estrutura, não necessariamente levando à formação de acne, mas criando condições para a formação do cômedo. Uma hiperproliferação no infundíbulo da glândula (porção epidérmica) forma uma espécie de “rolha” e oclui o óstio ductal, impedindo a drenagem do sebo normalmente produzido pela glândula e favorecendo a comedogênese. Além da barreira mecânica produzida pelo cômedo, ocorre uma hiperestimulação androgênica para a produção da secreção sebácea e a produção de sebo retida pelo cômedo oclusivo propicia a colonização principalmente bacteriana pelo C. acnes e a instalação do processo inflamatório e infeccioso em toda a glândula. Dessa forma, os pacientes com acne têm glândulas sebáceas maiores e produzem mais sebo que indivíduos sem acne. Os tratamentos tópicos e estéticos da acne podem ser diferenciados de acordo com a presença ou não de processo inflamatório: • Em acne primária, vulgar ou não inflamatória: controlam a oleosidade e promovem esfoliação. • Em acne inflamatória: controlam a oleosidade, desinflamam, descongestionam e promovem a cicatrização de forma acelerada. Os produtos para o tratamento tópico atualmente podem ser divididos em: inibidores enzimáticos da 5‑alfa‑redutase, inibidores da lipase, extratos vegetais com atividade adstringente, absorvedores de oleosidade, antissépticos, bactericidas e defensores da pele e uma grande classe, que são ativos que atuam na hiperqueratose ostiofolicular. Os inibidores enzimáticos da 5‑alfa‑redutase são: • Aspaflor Alp Sebum®: consiste em extrato de planta alpina Epilobium fleischeri, rica em oenothein A e B (taninos), ácidos fenólicos e flavonoides, inibe a 5‑alfaredutase, aromatase e metalloproteinase com ação anti‑inflamatória e antioxidante. • Asebiol LS 2539: hidrolisado de proteínas, piridoxina, niacinamida, pantenol, alantoína e biotina. Apresenta propriedade anti‑irritante e antipuriginosa, sem provocar hipersecreção sebácea e efeito rebote. Indicado para peles e cabelos muito oleosos e mistos. 99 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Azelosome®: é uma forma microemcapsulada (lipossomada) e otimizada do ácido azelaico e atua no metabolismo androgênico e na hiperqueratinização e, consequentemente, nos sintomas do processo inflamatório da acne. • Citobiol Bardane: complexo sinérgico de zinco, extrato de Burdock (bardana) e biotina. Atua como bactericida e regulador da seborreia. O sal orgânico de zinco apresenta propriedades antissépticas e promove regulação de tecidos danificados e a biotina atua no tratamento da pele oleosa. • Sebonormine®: composto de extrato de Ulmária (conhecida como a aspirina dos boticários), que é rica em salicinas. Atua na redução da atividade secretora das glândulas sebáceas pela redução da atividade da enzima 5‑alfaredutase. • Zinco: promove a formação de mais de quatrocentas enzimas no organismo humano. Ação adstringente, inibidora da enzima 5‑alfaredutase, antimicrobiana e anti‑inflamatória. Uso seguro no período da gravidez e lactação. Os inibidores enzimáticos são: • Phlorogine®: extrato de alga Laminaria saccharina, rico em poliuronidas, que possuem a capacidade de purificar e equilibrar o pH fisiológico da pele. Substância indicada ao tratamento de peles oleosas pela regulação da secreção sebácea. • Sebustop®: fitocomplexo composto de extratos de gengibre, canela e sanguisorba. Apresenta alto poder adstringente, inibe o crescimento microbiano e é antilipásico. Pela elevada concentração de taninos, óleos essenciais e saponinas, apresenta resultados rápidos na redução do excesso de sebo. Já os extratos vegetais adstringentes são: • Extrato glicólico de Hamamélis Virginiana: rico em tanino pirogálico, óleo essencial, saponina ácida, colina, ácidos graxos, mucilagem e pectina. Promove ação adstringente, vasoprotetora, vasoconstritora, descongestionante, antioleosidade e antiacne. • Extrato glicólico de Bardana (Arctium Lappa Root): composto por polissacarídeo inulina, óleo essencial, mucilage, fitoesteroides, ácidos orgânicos, taninos, sais minerais, fuquinona e actiopicrina (antibiótico natural). Apresenta ação adstringente, anti‑inflamatória, analgésica, clareadora, emoliente, remineralizante, suavizante, anti‑inflamatória, bactericida, fungicida, antiacne e hidratante. • Extrato glicólico de Sálvia (Salvia Officinalis): o extrato glicólico é composto de terpenos, saponinas ácidas, ácidos ursólico, oleanólico, clorogênico e acafeico, tanino, flavonoide, ácido rosmarínico e mucilagem. Apresenta ação adstringente, tonificante, estimulante celular, antisséptica, adstringente, emoliente, antisseborreica e antissudorífica. 100 Unidade III Os derivados do enxofre são: • Biosulphur®: composto de enxofre (1,6%) solubilizado em derivados hidrofílicos de ácidos graxos. Pela presença do enxofre biodisponível, apresenta atividade superior quando comparado ao enxofre isolado. Regulador da secreção sebácea, age como redutor da oleosidade, antiacneico e secativo, além de apresentar atividade na caspa e na seborreia. • Sulfoconcentrol® (Symrise): associação de um éster de ácido graxo etoxilado, trietanolamina e enxofre. Tem ação reguladora das glândulas sebáceas e auxilia na redução, controle e prevenção do excesso de oleosidade na pele e no cabelo. Quanto aos absorventes de oleosidade, temos: • Argila verde: presença de óxido de ferro associado ao magnésio, cálcio, potássio, manganês, fósforo, zinco, alumínio, silício, cobre, selênio, cobalto e molibidênio. Apresenta atividade antiedematosa, secativa, emoliente, antisséptica, bactericida, analgésica e cicatrizante. • Tersil® G (Terra Mater): argila verde rica em silício, ferro, cálcio, alumínio, titânio, magnésio, potássio e enxofre. Controla a oleosidade cutânea e do couro cabeludo. • Nikkol Takallophane® (Nikkol): composto de silicilato de alumínio usado na diminuição da oleosidade da pele no intuito de acabar com a acne. Age pelo processo de adsorção seletiva dos ácidos graxos da epiderme e apresenta atividade na acne comedogênica. • Microesponjas – Polytrap® 6603 (High Chem): copolímero de polimatacrilato de cadeia altamente cruzada. Apresenta alta capacidade de absorção de substâncias oleosas pelos microporos,obtendo controle da oleosidade e do brilho, sem a absorção da água presente na pele, de modo que não gere ressecamento ou desidratação. • Anti‑oil Spheres® (Galena): composto por microesferas de sílica com elevada capacidade de absorver óleo (em torno de três vezes o seu peso), assim, reduz a oleosidade, melhora e fornece textura acetinda da pele. Ativos que atuam na hiperqueratose ostiofolicular: • Gluconolactona: poli‑hidroxiácido obtido por meio da oxidação da glucose de milho. Devido à sua estrutura química peculiar, apresenta resultado suave e não irritante. Com poucos efeitos colaterais, é bem tolerado em testes clínicos de peles sensíveis. Apresenta benefícios semelhantes ao do ácido glicólico e de outros AHAs tradicionais. Indicado para pacientes de diversas etnias, com acne rosácea e dermatite atrópica. • Beta‑hidroxiácidos (BHAs): o mais conhecido dessa classe é o ácido salicílico. Ele melhora a textura cutânea pela ação esfoliante superficial e dentro dos ostios, além de ter atividade anti‑inflamatória e analgésica. 101 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Com relação aos derivados do ácido salicílico, temos: • Biosalix® (High Chem): extrato de Salix nigra, rico em taninos e sais do ácido salicílico, com atividade analgésica, antisséptica, adstringente e anti‑inflamatória. • DSB‑C® (Exymol): solução aquosa de dimetilsilanol salicilate. Apresenta ação anti‑inflamatória, antiedematosa e hidratante. • Gentil Fol® SA (Lonza): complexo queratolítico pela associação de betaína e do ácido salicílico. A betaína (açúcar natural), com ação hidratante, potencializa os efeitos do ácido salicílico. • Nab Willow Bark Extract® (Lonza): extrato de Salix nigra (salgueiro) rico em taninos e salicinas naturais. Apresenta as ações do ácido salicílico (anti‑inflamatório, analgésico e antisséptico) com menor incidência de irritação. • Nanospheres® 100 Ácido Salicílico: são estruturas poliméricas porosas, inertes, com a capacidade de armazenamento em seu interior ou de fixação em sua superfície. Ativos das mais diversas características, liberam os ativos contidos de forma controlada. Apresentam as mesmas características do ácido salicílico puro, porém com a liberação controlada, promovendo, assim, melhor biodisponibilidade e com dispersão homogênea. • Salix Peel® (Vital especialidades): extrato de Salix alba submetido ao processo de fermentação pelas bactérias Lactobacillus lactis. Considerado um substituto natural do ácido salicílico sintético, normaliza óstios e poros dilatados e apresenta atividade anti‑inflamatória, antimicrobiana e antisséptica. • Retinoides: são compostos por retinol (álcool), retinal (aldeído) e palmitato de retinila (éster). Atuam na produção de enzimas, colágeno e queratina, estimulam a regeneração epidérmica, auxiliam na cicatrização de feridas superficiais, suavizam e fortalecem a pele, além de atuarem no tratamento da acne. Já os derivados da vitamina A são: • Nanospheras® 100 Vitamina A (Exymol): estruturas poliméricas porosas, inertes, com a capacidade de armazenar em seu interior ou de fixar em sua superfície ativos das mais diversas características, como a vitamina A, liberados de acordo com a necessidade e cronologia. • Microcápsulas ou microesponjas de retinol 25%: retinol encapsulado em polímero de acrílico utilizando tecnologia patenteada com liberação prolongada. Estimula a produção de enzimas, a proliferação celular, a síntese de colágeno e a queratina, promovendo o aumento da elasticidade da pele e facilitando a cicatrização tecidual. • Vitamina A hidrossolúvel (Brasquim): vitamina A estável e solúvel em água. 102 Unidade III Os ativos de ação semelhante aos retinóis ou retinoide‑like consistem em: • Hyaxel (Biotec): composto obtido pela associação de ácido hialurônico fracionado e silanol (silício orgânico). Reestrutura a pele pelos estímulos quanto à renovaçãoo celular e combate as reações inflamatórias. A presença do ácido hialurônico fracionado associado ao silício facilita o processo de permeação e intensifica a renovação das células, além de atuar como fator de crescimento celular. • Lanablue® (Quantiq): extrato de alga azul (cyanophycea) silvestre com elevadas concentrações de vitaminas do complexo B, aminoácidos e pigmentos específicos. Ação similar ao retinol natural quanto à diferenciação de queratinócitos, suavizando e densificando a epiderme, além de regenerar e suavizar a pele. • Sytenol® A (Lemma): meroterpeno obtido da Psoralea corylifolia, multifuncional, de elevada pureza (95%) e com a capacidade de reduzir a expressão da enzima 5‑alfaredutase, que é responsável pela conversão de testosterona em seu metabólito extremamente mais potente, a di‑hidrotestosterona (DHT). O metabólito apresenta a capacidade de aumentar o tamanho das glândulas sebáceas e, consequentemente, a quantidade de sebo produzido. Com a ação do Sytenol®, ocorre redução na proporção de sebo produzido. • Revinage® (Chemyunion): extrato supercrítico apolar de picão preto (Bidens pilosa) de ação comprovada nos receptores retinoides da pele, promovendo renovação celular, redução da oleosidade da pele e ação antioxidante. 5.1.6 Cosméticos para tratamento da gordura localizada O termo celulite, também conhecido como adiposidade edematosa, lipodistrofia ginoide e dermatopaniculose deformante, tem sido utilizado para descrever a aparência ondulada e irregular da pele, com aspecto de casca de laranja ou queijo tipo cottage, encontrada tipicamente nas mulheres, preferencialmente nas coxas e nádegas. O termo teve origem na literatura médica francesa há mais de 150 anos. Embora não exista morbidade ou mortalidade associada à celulite, esta é frequente e permanece uma preocupação estética de importante relevância para um grande número de pessoas, com destaque para as mulheres. A celulite é muito mais prevalente nas mulheres e tende a ocorrer nas áreas em que a gordura tem influência do estrógeno (quadris, coxas e nádegas). Também pode ser detectada nas mamas, na parte inferior do abdome, nos braços e na nuca, áreas em que o padrão feminino de deposição do tecido adiposo é observado. É possível identificar em um elevado percentual de mulheres pós‑púberes de todas as raças algum grau de celulite (85% e 98%), no entanto, as caucasianas são mais atingidas, em razão do fator hormonal. 103 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Normalmente presente em mulheres pós‑púberes, é vista em menor incidência em homens, no entanto, pode ocorrer nos que apresentam deficiência androgênica (síndrome de Klinefelter, hipogonadismo, estados pós‑castração, e nos que receberam terapia com estrógeno para câncer de próstata). A etiologia da celulite é desconhecida; no entanto, uma variedade de causas parece contribuir para seu desenvolvimento, incluindo fatores estruturais, circulatórios, hormonais e inflamatórios. As três principais hipóteses etiológicas baseiam‑se em: alterações anatômicas e hormonais, microcirculação e processo inflamatório crônico. No estudo histológico da pele que apresenta celulite, a epiderme não aparece com anormalidades. Na derme papilar e reticular alta, aparecem infiltrados linfocitários discretos perivascular. As fibras de colágeno, nas camadas superiores da derme, aparecem ligeiramente edematosas. A coloração eosinofílica das fibras de colágeno é um pouco menos intensa do que na pele normal e nenhuma indicação de fibrose, esclerose ou hialinização é detectada. As fibras elásticas aparecem diminuídas no plexo subepidérmico e apresentam tendência ao agrupamento de fragmentos nas camadas mais profundas da derme. As glicosaminoglicanos intercelulares podem ser identificadas como edema mucoide entre as fibras de colágeno da derme profunda. Essas substâncias não mostram maior grau de polimerização na imuno‑histoquímica. Na região dos arrectores do músculo pilorum há sinais evidentes de edema e, ocasionalmente, de degeneração vascular. Os vasos sanguíneos não mostram alterações patológicase os vasos linfáticos da derme superior estão visivelmente distendidos. Células individuais de gordura no tecido subcutâneo aparecem alargadas. Os septos do tecido gorduroso são normais, exibindo, eventualmente, discreto edema. A celulite tem sido classificada conforme o estudo proposto por Nürnberger e Müller (1978), e essa classificação baseou‑se em uma metodologia simples, ou seja, em graus variados conforme a apresentação clínica: • Grau 0: sem alterações da superfície cutânea. • Grau I: a superfície da área afetada é plana quando o indivíduo está deitado ou em pé, mas as alterações podem ser vistas e identificadas quando se pinça a área com os dedos ou sob contração da musculatura local. • Grau II: aspecto em “pele de laranja” ou acolchoado é evidente quando o indivíduo está em pé, sem nenhuma manipulação (pinçamento ou contração muscular). • Grau III: as alterações descritas em II estão presentes e associadas a sobrelevações e nodulações. 104 Unidade III De acordo com a classificação de Nürnberger e Müller, não foram levados em conta parâmetros quantitativos, mas apenas qualitativos, o que gera críticas à sua aplicação como método de avaliação de eficácia terapêutica comparativa pré e pós‑tratamentos, uma vez que a melhora em graus seria muito subjetiva e dependente do avaliador. Em virtude das questões quantitativas, foi proposta uma nova metodologia publicada por Hexsel, com o objetivo de tornar a classificação da celulite mais objetiva, utilizando escalas fotonuméricas. O autor desenhou uma escala mais complexa composta de cinco variáveis cuja soma final da pontuação proposta classifica o indivíduo em uma das três seguintes categorias de gravidade: leve (1‑5 pontos), moderada (6‑10 pontos) e grave (11‑15 pontos). Os tratamentos para celulite descritos na literatura mundial estão divididos em dois grupos: não invasivos e invasivos. Os não invasivos estão divididos em dois subgrupos: os tratamentos que não envolvem uso de substâncias biologicamente ativas (medicações) e os que envolvem substâncias ativas. Os tratamentos não invasivos sem substâncias biologicamente ativas consistem em: • Massagem/Endermologia: embora existam muitos métodos assim descritos, o que apresenta maior disseminação é a drenagem linfática, por se acreditar que alterações na drenagem linfática fisiológica estariam envolvidas na etiopatogenia da celulite. As técnicas de massagem podem ser aplicadas manualmente ou por meio de equipamentos que visam rapidez e consistência na aplicação, sendo esse método determinado como endermologia. • Dispositivos baseados em luzes: nessa categoria encontram‑se a luz intensa pulsada (LIP), que promove estímulo à formação de colágeno novo, tornando a derme mais espessa e, portanto, mais semelhante à masculina, que é menos susceptível à celulite e ao laser. Já os tratamentos não invasivos com substâncias biologicamente ativas são muitos no mercado cosmético, no entanto, poucos dispõem de estudos bem desenhados, controlados e com eficácia e segurança comprovadas. Os ativos que apresentam melhores resultados são os retinoides e as metilxantinas, no entanto, os mais populares são a centella asiática e o silício, muito propagados e considerados como eficazes. Centenas de outras substâncias são divulgadas e consideradas eficientes sem comprovação, existindo apenas a indicação, contudo, é extremamente importante estudar e identificar os que apresentam evidências científicas. Os ativos utilizados no tratamento da celulite podem apresentar diversos mecanismos de ação, como: ótico imediato (cria a impressão da atenuação das irregularidades da pele), esfoliação mecânica, despolimerização das glicosaminoglicanas (GAGs), ação antioxidante, efeito anti‑inflamatório, reversão do quadro edematoso, proteção de vasos e capilares, melhora na microcirculação, reparo do tecido conjuntivo e intensificação da lipólise por diversos mecanismos (estímulo de receptores beta, inibição dos receptores alfa, inibição dos receptores neuropeptídeos gama, inibição da fosfodiesterase, 105 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS ativação da adenilciclase, aumento no transporte e entrega de triacilgliceróis até o interior das mitocôndrias), inibição da maturação dos adipócitos, inibição na formação de novos adipócitos e emulsionamento da gordura. A seguir apresentaremos alguns ativos cosméticos utilizados para tratar a celulite: • Adipol®: associação de complexo de extratos vegetais e animais, celulinol e nicotinato de metila, veiculados normalmente em cremes, loções e géis. • Algisium C®: atividade promovida pelo ácido palmítico marinho (manuronato de metilsilanol), apresenta a capacidade de regenerar fibroblastos, de combater a perda de elasticidade da pele e de proteger as células dos radicais livres. • Asiaticosidade®: substância obtida da centella asiática com propriedades que atuam na circulação de retorno, aumentando a elasticidade das paredes venosas, melhorando a circulação sanguínea, eliminando edemas e hematomas, combatendo processos degenerativos do tecido conjuntivo venoso e perturbações funcionais dos membros inferiores. • Biocelucomplex®: composto de fitoestrógenos (alaclóides xantínicos), que apresentam afinidade com os receptores estrogênicos, agindo, assim, como antagonistas competitivos inibitórios de estrógeno endógeno e, com isso, diminuindo a formação da celulite. • Biotannicol l®: composto de teofilina, glicina, extrato de semente de acimunata e cafeína. A ação anticelulite está associada à presença da cafeína e da teofilina, que agem de forma sinérgica. • Cafeiskin®: ativos compostos de cafeína e extratos de centella asiática, ginko boliba e castanha‑da‑índia. • Celutrat®: composto obtido da associação de centella asiática, focus, hera e arnica. Combate a celulite pelo descongestionamento e ativação da circulação periférica e diminui o aspecto “casca de laranja” pela eliminação da fibrose que retém água e acumula gordura. • Coffea Active®: extrato aquoso de café (Coffea arabica) com fenoxietanol e parabenos. O café apresenta propriedades tonificantes, suavizantes, anti‑inflamatórias, antioxidantes e antisséptica. • Ecoslim®: cafeína ativa natural em sistema de liberação de fosfolipídios. Por estar veiculada em sistema fosfolipídico, é possível utilizar concentrações maiores de ativo sem atrapalhar a aparência do cosmético e nem formar cristais. • Extrato de chá verde: rico em cafeína e teobromina, apresenta ação ativadora da circulação sanguínea e lipolítica, além de possuir propriedades tonificantes, suavizantes, antioxidante e antisséptica. 106 Unidade III • Glycosan Cafeína®: sistema formado por ciclodextrina e cafeína sob forma de complexo de inclusão. A ciclodextrina libera a cafeína de forma progressiva e com maior biodisponibilidade para exercer seus efeitos lipolítico e vasodilatador. • Liporedux®: composto por L‑carnitina e ácido linoleico. O ácido linoleico aumenta a quantidade de L‑carnitina que penetra no adipócito, facilitando seu efeito redutor de medidas. • Nicotinato de metila: substância com atividade hiperêmica de aplicação tópica com ação rubefaciente, revulsiva e vasodilatadora. Pode apresentar irritação cutânea. • Redulite®: extrato glicólico de flores de Sambucus nigra, com a capacidade de eliminar a água residual e diminuir a pressão exercida pelo tecido, melhorando, assim, a aparência microscópica da pele. • Unislim®: extrato de semente de Coffea arabica e extrato de folhas de Ilex paraguarienses em solução hidroglicólica, apresenta a capacidade de acelerar a depleção de lipídios e de bloquear a sua entrada nos adipócitos, reduzindo, com isso, a gordura localizada. • Violet Flowers Complex®: associação de extratos de flores violetas (Viola sp e Lavandula officinalis Chaix), formando complexo rico em óleos essencial, resina, tanino, ácidos orgânicos, flavonoides, antocianinas e mucilagens. Apresenta propriedades antissépticas, rubefaciente leve, refrescante e estimulanteda circulação periférica. • Xantalgosil C®: silanol (silício biologicamente ativo ligado à acefinlina) conhecido por proporcionar inibição da ação da fosfodiesterase e da lipoproteína lipase, resultando no aumento da lipose. A endermologia é um dos tratamentos invasivos em que se injetam substâncias biologicamente ativas no local que se deseja tratar. Atualmente existe uma grande variedade de substâncias que provavelmente atuam na fisiopatologia da celulite, no entanto, é importante ressaltar que muitas dessas substâncias não possuem comprovação científica quanto aos seus benefícios. Outro fator que merece destaque quanto ao uso de substâncias injetáveis é o fato de muitas serem produtos manipulados, o que aumenta o risco de contaminação e os efeitos colaterais em nível sistêmico. Outra técnica bastante difundida no tratamento da celulite é a carboxiterapia, em que o gás carbônico é injetado sob a pele com a ajuda de uma agulha. Outros tipos de tratamento invasivo, porém sem o uso de substâncias biologicamente ativas, são a subcisão, lipoaspiração e lipoescultura ultrassônica. A técnica de subcisão consiste em introduzir uma agulha ao tecido subcutâneo e fazer movimentos paralelos à superfície da pele, rompendo as traves fibrosadas. A subcisão é um procedimento bem aceito, no entanto existe a possibilidade de recidiva e de alguns efeitos adversos como eritema persistente e hiperpigmentação. O tratamento com a lipoaspiração não apresenta resultados eficazes e normalmente apresenta recidiva e a lipoescultura ultrassônica, que pode ser bem‑sucedida no tratamento da celulite. 107 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS 5.1.7 Cosméticos para tratamento de discromias cutâneas Os clareadores da pele são substâncias utilizadas para clarear ou diminuir as manchas da pele que venham a surgir por problemas diversos. Os diferentes princípios ativos agem principalmente interferindo na produção e distribuição da melanina por diferentes caminhos e mecanismos de ação, com a finalidade de se conseguir o clareamento. Para entender cada um deles é necessário que se conheça o processo de pigmentação cutânea e as influências que pode receber. 5.1.7.1 Pigmentação cutânea A cor da pele é determinada pela composição de vários fatores, entre os quais podem ser destacados: a vascularização cutânea, quantidade de carotenos e, principalmente, quantidade de melanina presente nos diversos locais do corpo. Saiba mais Leia mais sobre a classificação das raças no trabalho a seguir: MIRANDA, M. Classificação de raça/cor e etnia: conceitos, terminologia e métodos utilizados nas ciências da saúde no Brasil. 2010. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) – Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/ cp155654.pdf. Acesso em: 8 mai. 2020. A vascularização contribui para a pigmentação da pele, levando em conta o estado de dilatação dos vasos sanguíneos, a proximidade com a superfície da pele e o grau de oxigenação, sendo que a hemoglobina oxigenada presente nos capilares confere um tom mais avermelhado e a hemoglobina reduzida das vênulas, um tom mais roxo azulado. Os pigmentos carotenoides amarelos presentes conferem um tom amarelo alaranjado. A melanina, principal pigmento responsável pela cor da pele, de cor marrom a negra, confere à pele desde tons castanhos claros até os mais escuros. A melanina é produzida por células especializadas, chamadas de melanócitos, são células dendríticas, originárias da crista neural, que migram para a camada basal da epiderme (na junção dermo‑epidérmica), com a função de síntese e transferência dos grânulos de melanina para os queratinócitos. Os melanócitos são distribuídos em quantidades diferentes conforme a região do corpo, sendo que nas áreas expostas à luz e nos genitais aparecem em número aproximado de 2000 a 2500 por mm2 e no restante do corpo em número aproximado de 1000 a 1500 por mm2. Além da pele, os melanócitos também estão presentes nos olhos, SNC e cabelos. 108 Unidade III Os grânulos de melaninas sintetizados pelos melanócitos humanos podem ser compostos de diferentes tipos de pigmentos, incluindo as eumelaninas (a oximelanina é uma variante estrutural da eumelanina), feomelaninas (os tricocromos são variantes da feomelanina) ou uma mistura dos dois e, ainda, as neuromelaninas. As eumelaninas possuem coloração de marrom a negra (são nitrogenadas) e são principalmente sintetizadas a partir da tirosina e/ou da fenilalanina, com a participação das enzimas tirosinases. A feomelanina é um pigmento de cor castanho‑avermelhada. É sintetizada a partir da tirosina ou fenilalanina, com a participação da enzima tirosinase e que se combina com o enxofre. Os tricocromos são variedades de baixo peso molecular das feomelaninas, de cor mais alaranjadas. São responsáveis pela cor dos cabelos ruivos. As neuromelaninas são os pigmentos presentes nos neurônios de núcleos cerebrais. Observação Nas plantas, fungos e bactérias são encontradas, ainda, as alomelaninas, que não contêm nitrogênio. Essa classe de melaninas é a que possui mais grupos heterogêneos de polímeros e é a menos estudada. O papel da melanina no sistema tegumentar consiste basicamente em: • Dar cor à pele, através do processo normal de malanogênese. • Fazer a termorregulação, transformando as radiações solares em calor. • Neutralizar os radicais livres (RL) e superóxidos. • Regular a produção de vitamina D. Para que o processo de ativação da vitamina D se inicie, é necessário que o indivíduo receba a luz solar direta, especificamente a radiação ultravioleta B (UVB). • Realizar a fotoproteção. A melanina protege o genoma celular contra as agressões da radiação Ultra Violeta (UV), através da difração ou reflexão da radiação solar. Quando a radiação incide sobre a pele, ela é absorvida pelos melanócitos e a produção de melanina é aumentada. Algumas horas depois, os melanócitos liberam a melanina para os queratinócitos vizinhos. Os melanossomos se reagrupam, parte da melanina fica em torno dos núcleos dos queratinócitos para proteger o material genético contra os danos provocados pela radiação. Outra parte age nos queratinócitos de outras camadas, que migrarão em direção à superfície da pele, até se descamarem. Assim, a melanina protegerá a pele nas futuras exposições à radiação ultravioleta enquanto não ocorrer a descamação das células que contêm a melanina. 109 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Os níveis de melanina sofrem influências de acordo com a raça e genética de cada indivíduo, com os níveis hormonais e com os níveis de incidência da radiação solar. De acordo com a herança genética, os melanossomos são codificados pelos genes da pigmentação e, a partir daí, surgem as diferenças individuais e raciais. Os níveis hormonais de estrógenos, progesterona e α‑MSH (hormônio estimulador do melanócito‑α) influem diretamente na formação e distribuição da melanina. O hormônio estimulador do melanócito‑α (α‑MSH) é um neuropeptídeo, produzido nas células hipofisárias, neurônios, queratinócitos e macrófagos, e intermedeia a comunicação entre o sistema nervoso e o sistema imunológico. Quando o α‑MSH liga‑se ao MC1‑R (receptor de melanocortina‑1), ocorre uma estimulação da produção da eumelanina e do MITF (Fator de Transcrição Microftalmia‑associada ou Fator de Transcrição de Tirosinase). O MITF é essencial para a existência dos melanócitos, pois é responsável por regular a transcrição dos genes envolvidos na melanogênese (processo de síntese de melanina) e ativar as enzimas tirosinase, TRP‑1 e TRP‑2. A exposição à radiação solar, mais especificamente à radiação ultravioleta, estimula a proliferação de melanócitos e determina uma pigmentação maior ou menor à pele conforme o tempo e a intensidade de exposição. A radiação ultravioleta do tipo B (UVB) estimula a melanogenêse enquanto que a radiação ultravioleta do tipo A (UVA) oxida a melanina já formada. A quantidade de melaninaformada na melanogênese depende de diversos fatores que serão citados a seguir. Velocidade e finalização da síntese de melanina (melanogênese propriamente dita) A via de biossíntese das melaninas envolve presença da enzima tirosinase também chamada polifenol oxidase em suas diferentes formas (isoenzimas), a TRP‑1 (tirosinase relacionada à proteína 1, do inglês: Tyrosine‑related‑protein‑1), ou DHICA oxidase (5,6‑dihidroxiindol‑2‑ácido carboxílico oxidase), a TRP‑2 (tirosinase relacionada à proteína 2, do inglês: Tyrosine‑related‑protein‑2), também chamada de dopacromo tautomerase e as T3 e T4. A T4 é a mais efetiva na conversão da dopa e dopacromo em melanina, enquanto que a T1 retarda a atividade, e as formas T2 e T3, solúveis no citoplasma, são responsáveis por aproximadamente 10% da atividade total da enzima. Além da tirosinase e de outras enzimas, fatores não enzimáticos interferem na síntese do pigmento, tais como pH, concentrações de tióis e íons metálicos ou oligoelementos como o cálcio (Ca++). A reação para a formação de melanina acontece em presença de oxigênio molecular e envolve a hidroxilação da tirosina em dopa (3,4‑dihidroxifenilalanina), catalisada pela tirosinase (que é ativada quando em presença de cobre). 110 Unidade III A tirosinase também está envolvida na oxidação de dopa em dopaquinona. A partir da formação da dopaquinona, se estiver em presença de cisteína, é formada a cisteinil dopa (glutationa) e posteriormente convertida em feomelanina. Na ausência de cisteína, a dopaquinona é convertida em leucodopacromo (ciclodopa) e esta em dopacromo. Há duas vias de degradação de dopacromo: uma que forma DHI (5,6‑dihidroxi‑indol) em maior proporção; e outra que forma DHICA (5,6‑dihidroxi‑indol‑2‑ácido carboxílico) em menor quantidade. A enzima dopacromo tautomerase (TRP‑2) converte o dopacromo em DHICA. A enzima DHICA oxidase (TRP‑1) catalisa a oxidação de DHICA a indol‑5,6‑quinona ácido carboxílico. Como produto final da reação há formação da eumelanina. Tirosina Dopa Glutationa / cisteína Enzima ativa Enzima Cuproproteína Tirosinase O2 O2 Dopaquinona Cisteinil dopa Benzotiazilaninas Tricocromos Feomelaninas Leucodopacromo Dopacomo Indol‑5‑6‑quinona Eumelaninas Figura 34 – Esquema simplificado da biossíntese de melanina Velocidade de formação dos melanossomos e de sua transferência • Taxa de formação dos melanossomos A velocidade de formação dos melanossomos está relacionada aos quatro estágios de maturação pelos quais os melanossomos passam antes de efetivarem sua transferência: • No estágio I, o melanossomo apresenta‑se em forma de uma vesícula delimitada por uma membrana sem melanina. • No estágio II, o melanossomo aparece na forma ovoide e surgem inclusões estriadas paralelas e normalmente perpendiculares ao eixo central. • No estágio III, inicia‑se a deposição de pigmentos de melanina na forma de grânulos. 111 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • No estágio IV, a organela é totalmente preenchida pelos grânulos de melanina, tornando‑se homogênea e sem vestígios das estruturas iniciais. Atividade dos queratinócitos e velocidade de transferência dos melanossomos para os queratinócitos Os queratinócitos possuem receptores de melanossomos que produzem fatores estimulantes para a formação de dendritos e melanização dos melanócitos. Depois de formados, os melanossomos são transferidos aos queratinócitos circunvizinhos e enviados aos queratinócitos seguintes em direção à superfície da pele. Coeficiente de reflexão da pele O coeficiente de reflexão da pele varia de acordo com a espessura da pele, da coesão das células, composição e distribuição dos melanossomos de cada indivíduo, características estas influenciadas pelas diferenças raciais. Sendo assim, a cor da pele dos diferentes grupos raciais ocorre basicamente devido às nuances na quantidade e distribuição da melanina, dependendo do número, tamanho e composição de melanossomos, mas não do número de melanócitos, pois estes são invariáveis e estão sempre presentes na proporção de trinta e cinco queratinócitos para um melanócito (35:1). Assim, pode‑se dizer que, de uma maneira geral, as características dos três grandes grupos raciais são as seguintes: • Nos negroides, os melanossomos são grandes, simples e abundantes; ocorre uma maior síntese e quantidade de melanina; a degradação da melanina é lenta e os melanossomos chegam quase que intactos no estrato córneo da epiderme. • Nos mongoloides, os melanossomos são menores, complexados (complexos melanossômicos com presença dos lisossomas secundários, limitados por membranas) e com número semelhante aos negroides; a degradação é um pouco maior e os melanossomos chegam até a camada granulosa da epiderme. • Nos caucasianos, os melanossomos apresentam‑se menores, complexados e em menor número que nos casos anteriores; a degradação da melanina é maior e os melanossomos são degradados antes mesmo de chegarem até a camada granulosa da epiderme. 5.1.7.2 Transtornos de pigmentação A pigmentação cutânea pode sofrer diversos transtornos que geram as discromias causadas pela ausência, diminuição ou aumento de melanina, ou por depósitos de outros pigmentos e substâncias na derme, e são classificadas como acromias, hipocromias e hipercromias respectivamente. 112 Unidade III Dessa maneira, quando existe uma ausência completa de pigmentação num local, ocorre o que chamamos de acromias, que são caracterizadas por manchas brancas e de diferentes formas. Por exemplo: albinismo, vitiligo. Nas hipocromias, a produção ou distribuição insuficiente de melanina poderá levar à ausência ou diminuição da melanina epidérmica em determinadas partes da pele resultando em manchas esbranquiçadas ou com um tom mais claro que a pele normal do indivíduo. Por exemplo: leucodermia solar, pitiríase alba. As hipercromias são originadas pelo aumento de produção de melanina (ou ainda por outros pigmentos como sais biliares e carotenoides). Esses tipos de alterações, também chamados de hiperpigmentações ou hipermelanoses, aparecem frequentemente devido a fatores como o envelhecimento, alterações hormonais e gravidez, inflamações, extravasamento de hemácias, manifestações alérgicas, fotossensibilidade e exposição solar em geral. Por exemplo: melasma, lentigens senis ou melanose solar senil, efélides ou sardas, hiperpigmentação pós‑inflamatória etc. Os distúrbios de pigmentação de mais interesse na área da estética e da dermatologia são aqueles que interferem na aparência dos indivíduos por se localizarem nas regiões mais expostas do corpo, como a face, pescoço, braços e pernas. Algumas dessas alterações são descritas a seguir: • Albinismo: é uma hipomelanose que acontece por uma desordem genética, quando a melanina, apesar de presente, não é produzida pelo melanócito. A pele é branca e, em alguns casos, pode apresentar sardas e tons amarronzados em decorrência de uma pequena produção de melanina nas áreas expostas ao sol; os cabelos são totalmente brancos ou às vezes amarelados, os olhos avermelhados (ausência completa de pigmento), azuis ou até acastanhados. Os indivíduos albinos são mais suscetíveis aos danos causados pelo sol, incluindo envelhecimento precoce e câncer da pele. Figura 35 – Garoto albino • Vitiligo: hipomelanose é uma doença cuja causa ainda não está claramente definida, mas parece estar associada a fenômenos autoimunes. A falta de coloração na pele se dá devido à diminuição 113 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS ou à ausência de melanócitos, e, considerando a hipótese de doença autoimune, pode‑se dizer que a destruição dos melanócitos acontece pelo próprio organismo sem distinção de raça, sexo ou idade. As manchas brancas podem surgir após queimaduras, traumas físicos e emocionais em qualquer parte do corpo e podem evoluir e tomar grandes proporções. O diagnóstico da doença deve ser feito pelo dermatologista. • Leucodermia solar: são manchas brancas, arredondadas, com 2 a 5 mm de diâmetro(conhecidas como sardas brancas), que ocorrem devido aos danos cumulativos na pele, causados pela exposição solar associada à falta de hidratação. • Pitiríase alba: trata‑se de uma hipomelanose caracterizada por manchas arredondadas de aspecto seco. Geralmente aparece no rosto, pescoço, ombros e braços de pessoas com peles ressecadas. É mais comum em homens e crianças. Existem também outros dois tipos de pitiríase: pitiríase versicolor, caracterizada por manchas amarelas causadas pelo fungo Malassezia furfur exacerbadas sob a ação do sol. E a pitiríase rósea, de causa desconhecida, caracterizada por erupções de placas róseas autolimitadas, ao redor das quais surgem placas menores, que se distribuem principalmente pelo tronco, braços e coxas. • Melasma e cloasma: melasma é uma hipermelanose adquirida e exacerbada pela exposição à luz solar, apresentando‑se na forma de manchas castanhas escuras, que acomete principalmente as mulheres. Localizam‑se, predominantemente, na região malar, centrofacial e mandibular da face. Quando o melasma aparece ou piora durante a gestação, ele é chamado de cloasma ou cloasma gravídico. A luz, os hormônios e cosméticos fotossensibilizantes são fatores indiscutíveis para o desencadeamento e ou exacerbação das lesões. O melasma pode ser do tipo epidérmico, em que a melanina aparece concentrada na camada basal e suprabasal por toda epiderme, ou do tipo dérmico, em que o depósito de melanina é maior na derme superior e média, localizado no interior dos macrófagos que ficam ao redor dos vasos. Na dermatologia e na estética, utiliza‑se a “Lâmpada de Wood”, que indica a localização da concentração de pigmentação (se na epiderme ou derme), tornando‑se uma excelente ferramenta para auxiliar na escolha do melhor tratamento. Mancha de melasma Figura 36 – Imagem de melasma 114 Unidade III • Lentigens senis ou melanose solar senil: também conhecidas por “manchas de luz do sol”, são manchas escuras de tamanhos variados (0,5 a 2 cm), que surgem em áreas expostas ao sol, como nos braços, antebraços e dorso das mãos em pessoas com mais de 40 anos de idade, principalmente em peles muito claras e com histórico de exposição à luz solar. Trata‑se de uma proliferação simultânea de queratinócitos e de melanócitos com alongamento das cristas interpapilares. Figura 37 – Mãos com lentigens senis • Efélides ou sardas: são pequenas manchas castanhas arredondadas de cerca de 1 a 2 mm de diâmetro, que aparecem em número variado, principalmente no rosto, braços e costas em pessoas de peles claras e ruivas. São de caráter hereditário e estimuladas pela radiação ultravioleta, por isso são acentuadas durante o verão. São decorrentes de um aumento da atividade dos melanócitos, com consequente aumento de melanina na epiderme. Figura 38 – Costas com sardas • Hiperpigmentação pós‑inflamatória: caracterizada pelo aparecimento de manchas escuras que podem variar desde o tom rosa ou vermelho até o marrom‑escuro ou negro em consequência de algum tipo de resposta de agressão cutânea (resposta inflamatória). Por exemplo: após o aparecimento das lesões de acne, dermatites, psoríase, picadas de inseto, tratamentos com peelings, queimaduras solares e até mesmo uma irritação pós‑barba. Indivíduos de qualquer idade, sexo e fototipo cutâneo podem ser acometidos por esse tipo de hiperpigmentação, no entanto, é mais comum nos que possuem fototipos mais elevados (peles morenas e negras). 115 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Telangiectasias: vasos capilares finos que se adensam debaixo da superfície da pele. Na sua maioria, têm poucos milímetros de comprimento. • Manchas vásculo‑sanguíneas: provocadas por vasodilatação, vasoconstrição ou extravasamento de hemácias. • Eritema: mancha vermelha resultado de vasodilatação que desaparece com pressão digital (ou vitropressão). • Púrpura: mancha vermelha que é consequência de extravasamento de hemácias que não desaparecem com vitropressão e mudam de coloração de acordo com o tempo. É chamada de petéquia quando a mancha tem até 1 cm de diâmetro e de equimose quando tem mais de 1 cm. • Fitofotodermatite: dermatose caracterizada por manchas avermelhadas a marrons que surgem quando se associa o contato com certas frutas cítricas, perfumes ou cosméticos que contenham furocumarinas e a exposição aos raios solares. Em muitos casos, podem também surgir bolhas. Mancha de fitofotodermatite Figura 39 – Fitofotodermatite causada por limão 5.1.7.3 Cosméticos e tratamentos As técnicas utilizadas para os tratamentos dos transtornos de pigmentação incluem o uso de fototerapia com laser, luz intensa pulsada, LED, camuflagem, aplicação de peelings e uso de cosméticos clareadores que contenham princípios ativos despigmentantes que atuem na síntese de melanina e/ou em seu depósito na pele. Essas técnicas devem sempre estar associadas ao uso de protetor solar. Aqui nos ateremos ao estudo dos peelings com substâncias químicas e dos cremes clareadores com princípios ativos despigmentantes. 116 Unidade III Os agentes despigmentantes atuam na região hiperpigmentada através das diferentes formulações e apresentações. Como peeling podem ser citados principalmente os ácidos retinoico, glicólico e salicílico: • Ácido retinoico: também conhecido como tretinoína, é utilizado como agente despigmentante devido a seu efeito de descamação da pele, o ácido promove o aumento da renovação celular de células epidermais, diminuindo o tempo de contato entre os queratinócitos e os melanócitos, levando a uma rápida perda de pigmentação. • Ácido glicólico: é utilizado como peeling cosmético quando aplicado na pele numa concentração de 4 a 10% e como peeling médico quando aplicado na concentração de 30 a 70%. • Ácido salicílico: também pode ser utilizado como peeling e, desse modo, também terá a finalidade de clareamento da pele. A atividade dos princípios ativos despigmentantes pode ser decorrente de diversos mecanismos de ação, entre os quais se destacam a supressão da síntese ou maturação da tirosina; a inibição da síntese da tirosinase; a inibição direta e indireta da tirosinase, inibição da dopacromotautomerase, a toxicidade seletiva aos melanócitos; a inibição da maturação e fagocitose dos melanossomos, a inibição na síntese de DNA e RNA dos melanócitos, a adsorção de melanina; o antagonismo do hormônio alfa‑MSH, o uso de antioxidantes e a estimulação da eliminação da melanina dos queratinócitos. Para facilitar o entendimento desses mecanismos, são citados alguns exemplos de despigmentantes mais conhecidos, mais modernos e inovadores: • Hidroquinona: o mais clássico dos despigmentantes, é hidrossolúvel, e, por isso, fácil de ser incorporado na formulação; entretanto, é muito instável. É considerado um dos mais eficientes dos despigmentantes, no entanto, devido à sua citotoxicidade, atualmente seu uso é proibido em diversos países. Seu mecanismo de ação está relacionado principalmente com a inibição da enzima tirosinase, impedindo a conversão da tirosina à dopa e da dopa à dopaquinona, mas também é responsável pela inibição da síntese de DNA e RNA nos melanócitos além de interferir na formação e degradação de melanossomos. Tirosina Dopa O2 O2 Dopaquinona Dopatromo Hidroquinona Tirosinase (Ativa) Tirosinase (inativada) Eumelaninas Figura 40 – Ação da hidroquinona sobre a tirosinase na reação da melanogênese 117 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Ácido kójico: é produzido através da fermentação do arroz pelas espécies de Aspergillus sp. e de Penicillium sp. Seu efeito está ligado a diversos mecanismos de ação, entre os quais, o principal é a ação quelante dos íons cobre nos sítios ativos da enzima e a inibição da tautomerização do dopacromo 5,6‑dihidroxiindol‑2‑ácido carboxílico, impedindo que a reação de melanogênese continue, além de sua ação antioxidante, também de grande importância. Assim como a hidroquinona, o ácido kójico é hidrossolúvel e instável. No entanto, tem a vantagem denão ser citotóxico e é muito pouco irritante. • Albatin®: é uma solução do ácido aminoetilfosfínico ou Ala‑P (fosfínico análogo da alanina) que inibe a enzima dopacromotautomerase, evitando a polimerização da Dopacromo, impedindo assim a formação de melanina. Tirosina Dopa O2 O2 Dopaquinona Enzima Cuproproteína Acido kójico+ Tirosinase Eumelaninas Figura 41 – Ação do ácido kójico sobre a tirosinase: inativação por quelação dos íons cobre da enzima • Ácido fítico: trata‑se de um despigmentante encontrado em algumas sementes, grãos de cereais e pólen, sua ação se dá através da quelação dos íons cobre e possui ação antirradical livre, antioxidante e anti‑inflamatório. • Arbutin: é um glicosídeo da hidroquinona que, ao ser absorvido pela pele, é transformado em hidroquinona. Portanto, sua ação está relacionada com a inibição da enzima tirosinase. Sua toxicidade é cem vezes menor que a hidroquinona. • Extrato de Uva‑Ursi: conhecido comercialmente como Melfade®, inibe a melanogênese através da inibição da tirosinase (pode impedir até 100% da enzima) e degrada a melanina já existente. Tem uma ação mais lenta que a hidroquinona, mas não é reversível e é cumulativa. • Ácido azelaico: esse ácido interfere na atividade da tirosinase inibindo a síntese de DNA e a oxiredutase mitocondrial sem afetar o melanócito. Não apresenta bons resultados em lentigens e efélides. • Ácido ascórbico: o ácido ascórbico e seus derivados atuam como antioxidantes. Retardam a formação da melanina e reduzem a melanina a leucomelanina. O ácido ascórbico não é estável em soluções aquosas, portanto, para se driblar esse problema, são utilizados os ésteres de ácido ascórbico, que são mais estáveis nesse meio. Na pele, são hidrolisados por fosfatases liberando a vitamina C. 118 Unidade III • Whitessence®: é um concentrado despigmentante obtido de proteínas derivadas de sementes da jaca que inibe a transferência da melanina para os queratinócitos. Dessa maneira, diminui a melanina presente na superfície da pele. • Melawhite®: é uma solução composta de peptídeos seletivamente fracionados. Seu mecanismo de ação se dá através de inibição competitiva específica da tirosinase. • Antipollon HT®: composto de silicato de alumínio sintético finamente granulado com capacidade de absorção da melanina que apresenta a propriedade de adsorver a melanina e atividade despigmentante gradual. Não causa irritação ou sensibilização e pode até ser usado durante o dia. • Argila branca: também tem sua ação fundamentada na adsorção da melanina e não possui ação irritativa ou sensibilizante, promovendo o clareamento cutâneo, além de ação secativa, cicatrizante e emoliente. • Sepiwhite® MSH: é um antagonista do hormônio estimulador do melanócito‑α (α‑MSH), que possui grande afinidade cutânea e atividade clareadora. É composto de um lipoaminoácido do ácido undecilênico com a fenilalanina, que antagoniza o α‑MSH, ligando‑se aos receptores MC1R e inibindo todas as etapas da síntese de melanina. • Ácido tranexâmico: geralmente conhecido como um agente antifibrinolítico, mas atualmente também tem sido utilizado como uma alternativa para o tratamento do melasma e para as cicatrizes de acne. O ácido bloqueia a conversão do plasminogênio (presente nas células basais da epiderme) em plasmina, interferindo no crescimento do melanócito, na síntese de melanina e na interação dos melanócitos com os queratinócitos. • Ácido linoleico e linolênico: também denominados de vitamina F, agem inibindo os melanócitos ativos e a produção de melanina, aceleram a renovação do estrato córneo e regeneram a barreira celular cutânea, por estimular a mitose em nível epidérmico. Atuam também como nutritivos, lubrificantes e lipoprotetores. • Biowhite®: um complexo vegetal que inativa a tirosinase mesmo em baixas concentrações. É estável em pH, desde ligeiramente ácido a ligeiramente alcalino. • Lactokine Fluid®: é composto de citocinas do leite, que possuem ação anti‑inflamatória (inibem a liberação de prostaglandinas) e reforçam as defesas naturais da pele. Tem ação revitalizante e clareadora da pele, por inibir a tirosinase e melhorar a defesa, minimizando a vermelhidão causada pelos raios UV, além de promover o aumento na síntese de colágeno e de componentes da matriz extracelular da pele, auxiliando na restauração da jovialidade cutânea. • Alfa‑hidroxiácidos (AHAs): são compostos integrantes de um grupo de ácidos derivados, principalmente, de plantas e frutas, sendo os mais conhecidos, os ácidos cítrico, láctico, tartárico, glicólico, málico e mandélico. Eles são os responsáveis por realizarem uma esfoliação epidérmica eliminando a melanina depositada. São utilizados em formulações cosméticas e em peelings químicos. 119 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS 5.2 Cosméticos para peelings A necessidade da população em manter a aparência jovem fez com que as técnicas relacionadas aos tratamentos de rejuvenescimento se desenvolvam de forma rápida e cada vez mais eficaz. O envelhecimento cutâneo pode ocorrer de forma cronológica ou intrínseca e/ou, ainda, extrínseca. Fatores como a luz solar, o vento, a umidade, as doenças dermatológicas, o fumo, o álcool e a alimentação podem promover danos que podem ser observados na pele por meio do envelhecimento. O ressecamento, a flacidez, as alterações vasculares, as rugas e a diminuição da espessura da pele estão relacionados ao envelhecimento natural, já a degeneração acentuada das fibras elásticas e colágenas, responsáveis pela sustentação da pele, o surgimento de manchas pigmentadas e a ocorrência de lesões pré‑malignas ou malignas são características do envelhecimento extrínseco. Um dos grandes e maiores promotores do envelhecimento extrínseco é a radiação UV, que é capaz de promover a formação de radicais livres, elevando o número de lesões oxidativas não reparadas, que alteram o metabolismo e elevam o risco de aparecimento de câncer cutâneo. A pele não agredida pelo sol apresenta aspecto mais natural, sem manchas, pigmentação homogenêa e textura macia. Com o envelhecimento, a velocidade de renovação celular é alterada, sendo os peelings um tipo de procedimento capaz de promover o processo de esfoliação cutânea e a renovação celular, pelo uso de substâncias adequadas obtendo‑se um aspecto mais jovial e renovado. Atualmente existem diversos tipos de peelings que se diferenciam pela complexidade da aplicação, apresentando maior ou menor grau de comprometimento dos tecidos e, ainda, pelo resultado final. De uma forma geral, a pele que passa pelo processo de peeling apresenta superfície cutânea mais limpa, suave e macia, além de auxiliar no tratamento da acne, pois ameniza a formação dos comedões e reduz a espessura da camada córnea, facilitando, assim, a permeação dos ativos na pele. Os peelings são indicados para uso facial e corporal para todos os tipos de pele, no entanto, existem contraindicações, principalmente em pele sensíveis, frágeis, facilmente irritadiças e que apresentam telangiectasias. Independentemente do tipo de peeling e de pele, um dos cuidados mais importantes antes e principalmente após o tratamento de peeling é o uso de fotoprotetor, uma vez que a pele que foi agredida está mais suscetível a agressões externas. Os peelings podem ser classificados como biológicos, enzimáticos, físicos, químicos, mecânicos e vegetais. 5.2.1 Peeling biológico Os peelings biológicos facilitam a regeneração da pele atuando diretamente na diferenciação e multiplicação dos queratinócitos, isto é, agem de cima para baixo, estimulando a regeneração da epiderme e, assim, reduzindo as rugas superficiais e finas, além de favorecer a produção de colágeno. Entre os ativos presentes no mercado podemos citar: 120 Unidade III • Algowhite: extrato concentrado de alga marrom (Ascophyllum nodosum), com a capacidade de estimular da enzima SCCE (Stratum Corneum Chymotrypsin Enzyme – serino protease), promovendo esfoliação superficial e gerando degradaçãodos desmossomos do estrato córneo. • Date Palm Extract: extrato aquoso de tâmaras rico em ácido lático, obtido pelo processo de fermentação. Apresenta ação regeneradora e hidratante. • Exo‑T: obtido de um ecossistema de atóis da Polinésia Francesa e rico em polissacarídeo. Apresenta atividade relacionada à estimulação de marcadores de descamação e de diferenciação, além de estimular a transcrição gênica. Comparativamente, possui atividade na estimulação do processo de descamação superior ao ácido retinoico, levando a uma pele renovada de melhor textura e aparência. • Hyaxel: mistura de ácido hialurônico fragmentado e silício, promovendo intensa renovação das células. • Lanablue: substância com alta concentração de vitaminas do complexo B, aminoácidos e pigmentos. Ação semelhante aos retinoides, estimula a renovação de células epidérmicas suavizando rugas finas e linhas de expressão sem causar os efeitos adversos característicos dos retinoides. • Quidgel BRM: associação dos extratos de Botryocladia occidentalis, Hypnea musciformis e Sagassum vulgare com a capacidade de induzir a síntese de colágeno e de fibroblasto. Considerado um imunocosmético com a capacidade de estimular o sistema imunológico e a hidratação, além de proteger a pele da radiação UV e apresentar atividade anti‑inflamatória, cicatrizante, anti‑aging. • Vitamina A: pode ser utilizada sob a forma de retinol (álcool), retinal (aldeído) e palmitato ou acentato de retinila (éster) em cosméticos. Penetra facilmente na pele e concentra‑se na epiderme, ligando‑se aos receptores específicos e promovendo resposta biológica que induz a transcrição gênica. 5.2.2 Peeling enzimático Essa classe de peeling é composta por substâncias proteolíticas com ação esfoliante pela hidrólise da queratina. A classe de enzimas mais utilizada é a protease. São substâncias mais seguras e eficazes, quando comparadas aos peeling físicos. A ação dessa classe de peeling acontece de baixo para cima, diminuindo a coesão das células do extrato córneo, gerando, assim, descamação de forma gradual e renovação das células sem promover irritação. Entre os ativos, apresentaremos sete representantes dessa classe: 121 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Bromelina: é encontrada no caule, folhas, raízes e no fruto do abacaxi (A. comosus) e em todas as espécies da família Bromeliaceae, apresenta atividade de peeling em ampla faixa de pH (4,5 e 9,5), é estável ao calor. Quando aplicada na pele, deve ser retirada com o auxílio da água após 20 minutos da aplicação. • Fruit Secrets Papaina: extrato em pó de mamão papaia (papaína 10%, estabilizada) e maltodextrina, apresenta ação queratolítica , anti‑inflamatória e redutora de medidas • Papaína: extrato látex do mamão papaia (Carita papaya) com atividade em pH 6,0, no entanto, existe a necessidade de ativação por agentes redutores como a cisteína ou glutationa. Por ser uma enzima, apresenta baixa estabilidade, assim, recomenda‑se o uso na forma de pó (mais estável) ou na forma aquosa de uso imediato. • Peeling Enzymatic: associação das enzimas papaína e bromelina e utilizado sob a forma de máscaras para peeling com tempo de no máximo dez minutos de ação. Apresenta a capacidade de hidrolisar proteínas, pectina, açúcares e lipídios indesejáveis secretados pela pele. • Peelmoist: atividade de renovação celular e hidratação pela associação de papaína, pantetonato de cálcio, lactato de magnésio e potássio, ureia, aminoácidos, cloreto de magnésio e citrato de sódio. • Pumpkin Enzime: obtido por meio da fermentação do fruto da abóbora (Curcubita pepo), apresenta atividade similar ao ácido glicólico e promove renovação celular de forma suave, pela elevada concentração de protease. • Renew Zime: considerado uma revolução na renovação celular e regeneração cutânea, é obtido da romã e rico em ácido elágico. Apresenta propriedades anti‑inflamatórias, antioxidante e emoliente. 5.2.3 Peeling físico Substâncias capazes de promover o arraste dos corneócitos pela ação de ativos abrasivos das mais diversas origens (vegetais, minerais, marinhos e sintéticos) e atuam por atividade mecânica, pelo atrito entre a pele e o ativo. O arraste promovido pelas substâncias responsáveis pelos peelings físicos é bastante superficial, conseguindo remover apenas as primeiras filas de células da camada córnea. Com o arraste das células superficiais, consegue‑se levar junto impurezas e células mortas, facilitando o processo de permeação de ativos, além de propiciar e intensificar a ação de peelings químicos, biológicos e enzimáticos. Na área estética, essa classe de peeling é de extrema importância, fazendo parte de praticamente todos os protocolos, no entanto, devem ser observados alguns cuidados quanto ao uso, principalmente os de origem mineral, que não devem ser utilizados em peles sensíveis ou com processos de inflamação pela sua resistência e abrasividade. Os agentes de esfoliação física podem ser classificados de acordo com a sua origem, vegetal, mineral, marinho e sintético, conforme verificamos a seguir: 122 Unidade III • Esfoliantes físicos vegetais: são compostos de grânulos de sementes ou de cascas de frutas. Os oriundos de sementes (damasco, amêndoas, uva e bioscrubs – açaí, andiroba, guaraná, buriti, cupuaçu e murumuru) apresentam forma arredondada com a função de descamar a pele de forma suave indicados para aplicação facial. Os compostos de cascas (araucária, coco e nozes) são grânulos arredondados com função de descamação mais forte e indicados para aplicação corporal. • Esfoliantes físicos minerais: arrastam suavemente as impurezas e promovem clareamento imediato. Exemplos: pedra pome, quartzo dermomineral, microcristais de alumínio (óxido de alumínio), sílica, argilas (amarela e vermelha) e microgrânulos de argila branca. • Esfoliantes físicos marinhos: pós de ostra, cloreto de sódio e diatomácea são alguns exemplos de esfoliantes físicos marinhos. • Esfoliantes físicos sintético: pérolas de polietileno brancas ou coloridas de formato arredondado (de granulometria variada), promovem esfoliação moderada e são consideradas um descamante universal e grânulo de náilon. 5.2.4 Peeling químico Também conhecido como resurfacing químico, esfoliação ou quimiocirurgia, o peeling químico consiste na aplicação de agentes cáusticos na pele, com o intuito de produzir destruição de forma controlada da epiderme. Os peelings químicos podem agir em diferentes níveis de profundidade e, alguns casos, podem afetar a derme. Seu uso de forma popular ocorre pela capacidade em melhorar a aparência da pele e de cicatrizes remanescentes, por meio do estímulo da renovação e crescimento de células, excluindo as células mortas e ajudando no metabolismo da pele. A classificação do peeling químico ocorre por meio de sua profundidade e abrange as categorias muito superficial, superficial, peeling médio e peeling profundo. O peeling muito superficial ou peeling estético tem ação nas camadas mais externas da epiderme, promovendo a melhora da aparência e do brilho, uniformizando a textura e o tom da pele. A nomenclatura peeling estético dá‑se por apresentar ativos em concentrações compatíveis com as encontradas em cosméticos. Os alfa‑hidroxiácidos (ácidos glicólico, lático e mandélico), beta‑hidroxiácidos (ácido salicílico e seus derivados) e poli‑hidroxiácidos (gluconolactona), derivados fenólicos (resorcina) e alfa‑cetácido (ácido pirúvico) são substâncias utilizadas nessa classe de peeling. O peeling superficial tem ação na epiderme e é indicado no tratamento da acne, fotoenvelhecimento leve, eczema hiperquerostático, queratose actínica, rugas finas e melasma. Utiliza substâncias ativas como os alfa‑hidroxiácidos (AHAs), o ácido glicólico (50‑70%), os beta‑hidroxiácidos (ácido salicílico 20‑30%), o ácido tricloroacético (TCA) de 10 a 20%, o resorcinol, ácido azelaico, solução de Jessner (40 – 60%), dióxido de carbono (CO2) sólido e tretinoína. 123 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕESCOSMÉTICAS O peeling médio atua na derme papilar, sendo capaz de melhorar as rugas e linhas finas, o fotoenvelhecimento moderado, as cicatrizes superficiais e as manchas. Entre as substâncias ativas utilizadas temos o TCA (35‑50%) e o ácido glicólico (70%) ou, ainda, a combinação de ativos como o TCA com o CO2, TCA com solução de Jessner ou TAC com ácido glicólico. A ação do peeling profundo ocorre na derme reticular, sendo indicado em casos de lesões epidérmicas, manchas, cicatrizes, discromias actínicas, rugas moderadas, queratoses, melasma e lentigos. Entre os compostos ativos utilizados podemos citar o TCA (50%) e a solução de Baker‑Gordon, também conhecida como fenol, entre outros. Existem diversas substâncias que podem ser utilizadas como agentes de peeling de ação química, a seguir apresentaremos algumas delas e suas características: • Alfa‑hidroxiácidos (AHAs): como já vimos, são compostos derivados do leite (ácido lático), frutas cítricas (ácido maleico e cítrico), uva (ácido tartárico) e cana‑de‑açúcar (ácido glicólico), mas também podem ser de origem sintética. Diferenciam‑se pelo tamanho da molécula, sendo o ácido glicólico menor e, portanto, com maior poder de penetração na pele. São eficientes no tratamento de rugas, desidratação, espessamento e pigmentação irregular da pele. • Ácido glicólico: é o mais utilizado em formulações cosméticas e, pelo fato de sua molécula ser de tamanho pequeno, tem maior poder de penetração em relação aos outros ácidos da mesma classe. Além da concentração utilizada, é importante considerar o valor de pH da preparação, podendo variar de dois a quatro, e quanto menor seu valor (mais ácido) maior a ação esfoliante do peeling e seu poder irritante na pele (o valor de pH 3,5 é o ideal para uma boa esfoliação). Ao longo do tratamento é importante o uso de filtro solar durante o dia, para maior proteção da pele. • Ácido mandélico: é obtido da hidrólise do extrato de amêndoas amargas, apresenta cadeia longa e atividade não irritante, o que o difere do ácido glicólico. Considerado atóxico, normalmente é feito previamente o peeling a laser. Trata desordens da pele, agindo como anti‑aging, clareador e antiacne. • Ácido tartárico: é extraído da uva e apresenta ação esfoliante e antioxidante. O ácido málico é identificado em frutas como maçã e pera e apresenta atividade adstringente, antioxidante, hidratante e ainda ajuda na prevenção do envelhecimento cutâneo. O Bio‑AHAs é uma associação natural de ácidos glicólico, lático, cítrico e tartárico a extratos de limão e laranja doce; apresenta atividade queratolítica, acelera a renovação celular, além de possuir ação amaciante, hidratante, antioxidante, esfoliante e adstringente. • Beta‑hidroxiácidos (BHAs): o principal representante dessa classe é o ácido salicílico utilizado nas concentrações de 20 ou 30% em solução alcoólica e 40 ou 50% sob forma de pasta para aplicação em membros superiores. Apresenta conhecida ação queratolítica, promovendo ação de peeling superficial ou muito superficial e sendo indicado para o tratamento do fotoenvelhecimento leve a moderado, melasma e para as cicatrizes superficiais de acne. É contraindicado para pacientes 124 Unidade III alérgicos ao ácido salicílico, no entanto é um excelente agente no tratamento de quaisquer transtornos da pele escura. • Ácido tartárico: trata‑se de um beta‑hidroxiácido de ação queratolítica, indicado para tratar o fotoenvelhecimento leve a moderado, melasma e cicatrizes superficiais de acne, sendo considerado um excelente agente para tratar quaisquer transtornos da pele escura, no entanto, é contraindicado para pacientes alérgicos ao ácido salicílico. Utilizado em concentrações que podem variar de 20 ou 30% em solução alcoólica e 40% ou 50% sob forma de pasta para aplicação em membros superiores. Promove peelings muito superficiais ou superficiais. • Fenol: também conhecido como ácido carbólico (C6O5OH), considerado um derivado do coaltar, de peso molecular de 94,11. Apresenta‑se como cristais em forma de agulhas e varia de incolor a rosado. Ao aquecimento torna‑se líquido liberando vapor inflamável. Com a exposição ao ar e à luz, sua coloração escurece. Apresenta ponto de fusão de aproximadamente 39 oC, e ponto de ebulição, 182 oC. O mecanismo de ação se dá pela coagulação das proteínas da pele, sendo considerado um agente químico agressivo e que produz rejuvenescimento facial intenso, quando utilizado corretamente. De acordo com a sua concentração, pode promover ação bacteriostáticos (em concentrações mínimas de até 1%) e ação bactericida (acima de 1%). • Ácido retinoico: pode ser utilizado sob a forma de veículo gel, loção, creme ou propilenoglicol nas concentrações que variam de 5 a 12%. Antes de sua aplicação, a pele deve ser desengordurada com álcool e sua remoção deve ser feita com o auxílio de água e sabonete ou, ainda, com o auxílio de loções suaves de limpeza. As aplicações podem ser semanais ou mensais. Uma de suas grandes vantagens está na rara ocorrência de complicações, sendo citadas erupção acneiforme, telangiectasias e queratite superficial. Indicado no tratamento do fotoenvelhecimento leve a moderado, melasma, acne, cicatrizes superficiais e hiperpigmentação pós‑inflamatória e não deve ser utilizado em gestantes. Promove afinamento e compressão do extrato córneo; reversão de atipias em células epidérmicas; dispersão da melanina na epiderme; estimulação da deposição dérmica do colágeno; aumento da deposição de glicosaminoglicanos; aumento da neovascularização da derme. • Solução de Jessner: solução desenvolvida por Max Jessner e obtida pela associação de substâncias como o ácido salicílico (14%), ácido lático (14%) e resorcina (14%) em solução alcoólica, sendo sensível à luz e ao ar pela presença do ácido salicílico e do ácido láctico. O mecanismo de ação dessa solução está diretamente relacionado com atividade queratolítica do ácido salicílico e da resorcina e, ainda, pela ação de epidermólise do ácido lático, sendo indicada para o tratamento da acne comedoniana, hiperpigmentação pós‑inflamatória, melasma e fotoenvelhecimento leve. A penetração depende do número de camadas, podendo chegar a peelings médios. Pode ser aplicado na face e no corpo (pescoço, dorso) e, como efeito indesejado, pode promover ardência e deve‑se ou não ser retirado com água, dependendo do efeito que se espera. Para evitar risco de salicismo, a aplicação deve ser feita em uma área a cada sessão. 125 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS 5.2.5 Peeling mecânico A remoção de células por meio de peeling mecânico é promovida por aparelhos que lixam ou fazem abrasão na pele, representados por escovas manuais, por peelings de cristal, de diamante e ultrassônico. As escovas utilizadas na lavagem do rosto ou corpo promovem de dois (suave ou profunda) a três (macia, média e firme) tipos de remoção das células mortas, permitindo, assim, a permeação de ativos cosméticos e favorecendo o surgimento de uma pele saudável e bonita. O peeling de cristal ou microdermoabrasão é uma técnica não cirúrgica que gera abrasão pelo deslocamento de partículas de óxido de alumínio. O atrito das partículas de óxido de alumínio resulta em descamação controlada pelo número de passagens e pressão da caneta jateadora. O peeling de diamante é realizado com o auxílio de uma caneta com ponteira e uma lixa diamantada, que, aplicada sobre a pele úmida, promove abrasão localizada. Essa técnica é indicada no tratamento de cicatrizes de acne, rejuvenescimento facial, redução de rugas finas e suavização de manchas e estrias. O peeling ultrassônico remove as células córneas por meio de vibrações associadas à corrente elétrica de ação ionizante e estimula a renovação celular, proporcionando aspecto jovial à pele. 5.2.6 Peelings vegetais ou gommage Substâncias utilizadas por meio de massagem vigorosa sob a forma de géis ou mucilagens, em que o veículo evapora e ocorre a formação de grumos que arrastarão as impurezase as células mortas da superfície da pele. Apresentam ação superficial; no entanto, promovem maciez, suavidade e limpeza à pele. Entre as substâncias pertencentes a essa classe temos: goma arábica, mucilagens (linho), marmelo e derivados da celulose (carboximetilcelulose). 5.2.7 Peeling estético Os peelings estéticos são procedimentos superficiais que não agridem a pele de forma intensa, impedindo a formação de vermelhidão e permitindo que as pessoas submetidas a esse tipo procedimento consigam cumprir as atividades diárias. Os peelings estéticos têm como característica: associar substâncias ácidos de origem orgânicos de forma sinérgica, associar tipos de peelings no mesmo tratamento, protocolo fácil, prático e rápido e de ação prolongada, podendo chegar a seis horas. Os benefícios dos peelings estéticos são: • Prepara a pele para tratamentos mais potentes. • Uniformiza o tom e a textura da pele. • Melhora rugas finas e linhas de expressão. 126 Unidade III • Melhora hidratação. • Promove renovação e regeneração celular. • Promove elasticidade e firmeza à pele. • Descamação visível. • Aumento do viço. • Controle da oleosidade. • Clareamento. • Melhora da apresentação dos óstios e poros dilatados. Mesmo sendo peelings superficiais, o uso dos peelings estéticos merece algumas precauções: não deve ser utilizado concomitantemente com outros tipos de peeling químico ou mecânico, só deve ser aplicado depois de três dias após a depilação com cera quente, não deve ser aplicado no mesmo dia que o barbeamento. Além disso, deve ser avaliado se o cliente utiliza alguma tipo de substância química ácida. As contraindicações dos peelings estéticos são: doença de pele ou infecção ativa, estado comportamental alterado, tratamento com isotretinoína há menos de um ano, herpes ativa, acne muito inflamada, eczemas, dermatite, sercicatrizes extensas, tendência à formação de cicatrizes hipertróficas (queloide), peles classificadas como fototipo V e VI (pigmetam mais que a média), diabéticos e pele bronzeada. O tipo de peeling também deve ser relacionado ao tipo de pele. O quadro a seguir apresenta um resumo quanto aos tipos de peeling e o seu modo de ação. Quadro 4 – Resumo quanto aos tipos de peeling e ao seu modo de ação geral Tipo de peeling Modo geral de ação Físico Arraste de células mortas por meio de substâncias abrasivas. Químico Agentes químicos com a capacidade de remover de forma intensa as células. Enzimático Renovação da células por meio da hidrólise da queratina pela presença de enzimas. Biológico Mimetização da regeneraçãoo da camada superficial da pele. Mecânico Equipamentos que promovem lixamento e abrasão de forma controlada. Vegetal (gommage) Aplicação de veíclo que, ao evaporar, forma grumos que removem as células córneas. Estéticos Remoção superficial das células associadas à concentrações cosméticas de ativos. Adaptado de: Pereira (2015, p. 185). 127 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS 6 COSMÉTICOS ESPECÍFICOS E DIFERENCIADOS 6.1 Cosméticos específicos 6.1.1 Desodorantes e antitranspirantes, sabonetes e dentifrícios 6.1.1.1 Desodorantes e antitranspirantes O suor é a secreção produzida pelas glândulas sudoríparas espalhadas pela pele; já a evaporação do suor produzido pelas glândulas sudoríparas é chamada de perspiração. Determinados fatores influenciam na produção exacerbada de suor, como a umidade, a ventilação, a temperatura e o vestuário, no entanto, as maiores influências são a circulação sanguínea e temperatura corporal, embora não possam ser descartadas as questões emocionais. A secreção sudoral não removida ou removida de forma inadequada forma um substrato para a atividade microbiana, que é capaz de originar produtos voláteis responsáveis pelo odor corporal, no entanto, em determinadas situações pode tornar‑se desagradável. A frequência das aplicações dos desodorizantes deve ser de acordo com as características individuais a relação à idade, ao ambiente, ao tipo de atividade desenvolvida, à condição física, ao estado emocional e às dietas. Os termos desodorante e antitranspirante normalmente são colocados lado a lado nas embalagens de produtos destinados a diminuir a umidade axilar, no entanto, os dois termos têm significados bastante distintos. Um antitranspirante é um adstringente destinado a diminuir as secreções dos ductos de suor écrino e apócrino, enquanto o desodorante tem função de remover o odor das axilas. Os desodorantes são produtos destinados à redução dos odores corporais desagradáveis por meio da uma ação antimicrobiana, pois possuem a capacidade de inibir a proliferação dos microrganismos que se encontram na superfície da pele e que degradam as substâncias proteicas do suor, provocando, com isso, o odor desagradável. Os antitranspirantes são produtos destinados a limitar a secreção sudoral excessiva e tem por função bloquear momentaneamente a secreção das glâdula sodoríparas por meio da obstrução dos orifícios excretores das glândulas pela precipitação das proteínas superficiais da pele. Existem diversas substâncias responsáveis pela ação antitranspirante. Elas estão divididas em classes de compostos químicos: • Sais metálicos (cloridrato de alumínio, cloridrato de zircônio de alumínio). • Substâncias anticolinérgicas. • Aldeídos (formaldeído e glutaraldeído). • Inibidores metálicos. • Miscelânea (diversos álcoois e outros ácidos orgânicos). 128 Unidade III O mecanismo de ação dos sais metálicos ainda não é totalmente esclarecido, podendo estar relacionado com a capacidade de danificar o ducto da transpiração, fazendo com que a transpiração se difunda no espaço intersticial ou, ainda, que os sais metálicos causem uma obstrução física da abertura do ducto. As substâncias anticolinérgicas (escopolamina e atropina) são as mais eficazes na ação antitranspirante, pois bloqueiam as glândulas sudoríparas écrinas, interrompendo a sudorese. Os aldeídos possuem a capacidade efetiva de diminuir a sudorese e o bloqueio do ducto écrino do suor, entretanto, podem causar sensibilização (formaldeído) e pigmentação marrom‑amarelada no local de aplicação associada ao glutaraldeído. Os antiadrenérgicos teoricamente podem diminuir a sudorese, pois os neurotransmissores (norepinefrina e epinefrina) exercem essa função quando administrados de forma intradérmica, uma vez que algumas fibras de nervos adrenérgicos têm inervação dual nas glândulas de suor. Os inibidores metabólicos da sudorese diminuem o suprimento de energia pelo bloqueio da Na+/K+‑ATPase. O mecanismo de ação dos desodorantes está relacionado com o mascaramento de odores das axilas por meio do uso de perfumes ou essências ou, ainda, pela redução das bactérias axiliares (Staphylococus aureus, Corynebacter e Aerobacter aerogenes) com a diminuição do pH axilar para 4,5 ou menos. Desodorante e antitranspirantes representam um dos mais importantes e maiores segmentos da indústria de cosméticos personal care, podendo ser apresentados de diversas formas, classificados em líquidos (aerossóis e roll‑on) e sólidos (pós, stickes), conforme veremos a seguir: • Pós: os produtos apresentados sob a forma de pó são os menos utilizados. No entanto, apresentam a finalidade de reduzir a transpiração, principalmente dos pés e, consequentemente, diminuir a formação do mau odor. O principal constituinte desse tipo de produto é o talco (podendo chegar a 85% da formulação), e, embora existam outras substâncias que compõem a formulação (caulim, carbonatos de cálcio e magnésio e óxido de zinco), esses outros componentes devem ser utilizados em misturas de percentagens variadas acrescidas de substâncias específcas antitranspirantes e/ ou desodorantes (cloridol, licopódio, fenolsulfato de alumínio, resinas catiônicas, sais de ácidos undecilêico e propiônico, substâncias antissépticas e antifúngicas). Duas condições devem ser observadas no preparo e desenvolvimento dos produtos na forma de pó, a tenuidade e homogeneidade dos pós. • Sticks: vulgarmentechamados de géis sólidos ou barra, são preparações constituídas por oleato e fenolsulfonato de zinco misturado com cera. Outra forma de se obter o stick é a junção de uma cera dissolvida no álcool a quente, juntamente com um cloreto adstringente que solidifica com o resfriamento, no entanto a consistência pode ser aumentada pela presença de um éster ou de um ácido graxo de peso molecular elevado. A forma clássica de preparo dos sticks baseia‑se na saponificação gerada pela junção de um composto alcalino solubilizado em solução alcoólica do ácido graxo ou ainda na dissolução lenta do sabão no álcool. Outra forma de obtenção do stick ocorre pela junção de goma na base aquosa da emulsão. • Líquidos: as formas líquidas desodorantes podem ser consideradas as soluções simples para lavagem local, águas de colônia, loções dispersas em embalagens roll‑on ou suspensões na forma de spray. A grande maioria dos antitransirantes na forma líquida são soluções hidroalcólicas na presença de 129 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS um sal adstringente, um umectante em pequena quantidade e perfume solubilizado ou disperso em um tensoativo e, caso se faça necessário, ainda pode ser inserida à formulação uma substância com função de tamponamento. A função do umectante nesse tipo de formulação está em diminuir a probabilidade da evaporação da solução no bucal do recipiente que se forma o spray. Os compostos de amônio quaternário são as substâncias mais utilizadas como desodorizantes em solução, no entanto tem‑se questionado o uso dessa classe de substâncias, pois pode causar irritação e sensibilização pelo contato. • Aerossóis: os produtos sob a forma de aerossóis são soluções do agente propelente (fluorados), complexo de coridrol e p‑fenolsulfonado de alumínio ou zinco em solventes apolares. • Roll‑on: as formas roll‑on são normalmente dispersas em emulsões O/A ou em suspensões de sistemas anidros e a maioria das formulações na forma de emulsões contém um veículo (água, ciclometinone), emoliente (dimeticone, ácidos graxos, ésteres graxos alcoxilados), emulsificante não iônico, substância antitranspirante 20% (sais de alumínio e outros em solução aquosa) e aditivos (fragrâncias, pigmentos, sílica, talco, etanol e conservantes). No caso das suspensões, a formulação é composta de veículo (silicones voláteis de base anidra de 60‑70%), emoliente (dimeticone, ácidos graxos, ésteres graxos alcoxilados), agente suspensor (argilas), substâncias ativas (sais de alumínio ou outros) e aditivos (fragrâncias, pigmentos, sílica, talco, etanol e conservantes). Fomulações anidras com elevada concentração de silicones apresentam a grande vantagem em promover um toque aveludado do produto na pele, facilitando assim a sua aplicação, no entanto, apresentam a desvantagem quanto ao elevado custo dos silicones e a estabilidade pode ser compromotida pela presença das argilas. As formulações roll‑on têm sofrido modificações e modernização das formulações, com a introdução de emulsões A/O, não gordurosas, não pegajosas e com secagem rápida. 6.1.1.2 Cosméticos de limpeza O uso de substâncias responsáveis pela limpeza diária da pele é feito há mais de quatro mil anos, quando limpavam as mãos com cinzas de planta saponácia suspensa em água. A técnica utilizada na obtenção de sabonetes modernos foi desenvolvida em torno de 6.000 a.C. pelos fenícios, que saponificavam gordura de cabras, água e cinzas ricas em carbonato de potássio, obtendo um produto ceroso e sólido. Lembrete A popularidade dos sabonetes nem sempre esteve em alta, pois, durante a Idade Média, período em que a Igreja Católica esteve no poder, o uso dos sabonetes era proibido, pois acreditava‑se que expor a pele era demoníaco, no entanto, com o surgimento das infecções promovidas por bactérias, o consumo dos sabonetes voltou a aumentar. O primeiro sabão comercializado de forma ampla foi desenvolvido em 1878 e tinha uma aparência branca, cremosa e perfumada. 130 Unidade III A fabricação de um sabonete em barra consiste em: • Saponificação de gorduras naturais e preparação de fragmentos de moagem. • Mistura dos fragmentos de sabão com os outros componentes. • Extrusão em tiras longas e corte no comprimento apropriado. • Moldagem. • Maturação e empacotamento. De uma forma geral, a obtenção de um sabão acontece pela reação entre uma gordura ou óleo e um agente alcalino, formando um sal de ácido graxo com propriedades detergentes. No entanto, com a modernidade faz‑se necessária a incorporação de outros componentes que modificarão determinadas características da fórmula, como o ajuste do pH, diminuindo a irritação da pele, e, ainda, a incorporação de substâncias que impedirão a precipitação de sais de ácidos graxos de cálcio em água dura. O tipo de agente alcalinizante vai determinar as características importantes para um sabonte em barra. Os sabonetes que utilizam os derivados de sódio apresentam elevada dureza; os de potássio apresentam maior solubilidade; os de trietanolamina são menos alcalinos. Na verdade, o problema dos sabonetes em barra é o seu pH, que pode variar entre 9 e 12, tornando‑os agentes de irritação, com destaque aos danos na face. No entanto, para diminuir ou amenizar a capacidade de irritação é indicado o uso de glicerina, ou ainda do syndet, que associa 10% de saponificáveis a detergentes sintéticos (isotionatos), o que lhes confere suavidade, sensorial agradável e pH entre 5,5 e 7,5, são, assim, indicados para peles com alterações dermatológicas e sensíveis. Os sabonetes líquidos são preparados com a mistura de detergentes sintéticos, como nos xampus. A principal classe de tensoativos são os anfóteros (coco amido propil betaína), aniônicos (lauril éter sulfato de sódio, lauril éter sulfosuccianato de sódio, lauril sulfato de trietanolamina) e os não iônicos (monoetanolamina e dietanolamina dos ácidos fraxos de coco). Entre as características esperadas de um sabonete líquido, temos a suavidade, pH semelhante ao da pele, possibilidade de incorporação de ativos de atividade específica e podem ser indicados para todos os tipos de pele. Assim, apresentam maior eficiência na retirada de resíduos ambientais e do sebo da pele e maior facilidade de serem aplicados quando comparados aos sabonetes em barra, no entanto não apresentam eficiência quanto à retirada da maquiagem. Outra forma de apresentação do sabonete é sob a forma de creme limpador, que, além de higienizar, são capazes de umedecer a pele. Normalmente são compostos por água, óleo mineral, petrolatum e ceras. Os cremes clássicos de limpeza facial são chamados também de cremes frios, que combinam o efeito de um solvente de lipídios (cera de abelha e óleo mineral) com a ção detergente do bórax (decaidrato de tetraborato de sódio). Esse tipo de sabonete é amplamente utilizado na retirada de maquiagem, além de fornecer limpeza adequada para peles secas. 131 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Os tônicos e adstringentes são sinônimos e referem‑se à solução alcoólica perfumada, usada na remoção de óleo e para produzir efeito de tônus à pele. Praticamente todas as linhas de cosméticos apresentam um adstringente, que deve ser utilizado como um syndet. Os adstringentes atualmente podem ser nomeados de loção de controle, loções de clarificação, tônicos protetores, refrescantes da pele e loções tonificantes. Existem diversas fórmulas de adstringentes para todos os tipos de pele, o que causa surpesa, já que o produto foi desenvolvido para a remoção de película de óleo e sabão. As fórmulas indicadas para peles oleosas são compostos de álcool em elevadas concentrações, removendo qualquer gordura, deixando uma sensação de pele seca. Os adstringentes medicamentosos são apropriados para peles acneicas e podem conter mentol e cânfora para promover uma sensação de formigamento quando aplicados na pele. Adstringentes para pele normal contêm menores concentrações de álcool, enquanto os indicados para peles secas não devem conterálcool. Importante ressaltar que é possível a incorporação de substâncias de suavização como alantoína, guaiazuleno e quaternarium. Outra variação quanto aos adstringentes são os controladores da zona T, região da zona central do rosto, em que existe uma grande quantidade de glândulas sebáceas (testa, nariz e região central do queixo), assim essa classe de adstringentes é indicada para diminuir a produção de óleo e absorver o excesso de sebo. Ainda na classe dos agentes de limpeza, existem os esfoliantes químicos, que são adstringentes com a presença de compostos com a capacidade em facilitar a descamação do estrato córneo, de modo que o princípio do produto seja a retirada das células mortas superficiais, facilitando o surgimento das novas células, promovendo uma aparência adequada de limpeza e de aparência fresca, fina e viçosa. Outra função importante dos esfoliantes é a ajuda no tratamento da acne, pois aceleram a renovação e diminuem o surgimento dos comedões. Os esfoliantes mecânicos (agentes abrasivos) também são considerados como agentes de limpeza e agem por meio da ação abrasiva, com a capacidade de retirar células córneas e, assim, obter uma pele mais limpa e mais fresca. Os agentes abrasivos podem ter origem natural e sintética. 6.1.1.3 Dentifrícios A limpeza dos dentes e da cavidade oral é oriunda das civilizações gregas e romana, que utilizavam caules e raízes de plantas e substâncias minerais pulverizadas como utensílios de limpeza. Os primeiros dentifrícios tiveram origem nessas preparações primitivas, que foram aprimoradas tecnologicamente até a obtenção de misturas complexas de pós de origem vegetal e mineral. Atualmente as preparações são reconhecidas como indispensáveis à saúde bucal e, por esse motivo, existe no mercado uma vasta quantidade de produtos com as mais diversas composições, facilitando a escolha do consumidor. Entre as patologias periodontais, a cárie é a mais grave por atingir uma grande parcela da população mundial; sua formação resulta da conjugação de diversos fatores como existência da placa dentária, características inerentes ao indivíduo e o tipo de regime alimentar. 132 Unidade III Dentífricos são preparações destinadas à limpeza e higiene da cavidade oral e dos dentes por meio da escovação, para eliminar os detritos alimentares e o depósito de tártaro e garantir a conservação e integridade funcional dos dentes. As preparações na forma líquida que utilizam o álcool (70° a 95°) como solvente, são denominadas como elixires dentifrícios e incorporam substâncias aromáticas ou compostos com atividade antisséptica. São utilizadas após diluição em água com a lavagem dos dentes e da cavidade oral. Outra forma líquida de dentifrícios são as preparações em que se utiliza água (como solvente), tensoativo ou um sabão líquido. As pastas dentifrícias configuram as preparações de escolha pela grande maioria dos consumidores, pela comodidade, pelos resultados práticos e ainda pela prevenção das doenças periodontais. O preparo dos dentifrícios pode acontecer com o objetivo exclusivo de promover a higiene oral, contendo apenas excipientes e adjuvantes, no entanto, o desenvolvimento de um produto de atividade específca pode receber diversas designações como dentifrícios anticárie e dentifrícios antitártaro. A característica comum a todos os tipos de dentifrícios é o poder abrasivo, com exceção às formulações líquidas. Em preparações na forma de pasta, substâncias detergentes, espessantes, umectantes, abrasivas, detergentes, aromatizantes, edulcorantes, conservantes e corantes são consideradas componentes indispensáveis. Os agentes abrasivos, também conhecidos como agentes de polimento, são fundamentais em preparações na forma de pastas e pós e devem possuir uma dureza específica, para que sejam necessariamente, de forma efetiva, agentes de polimento, devendo ter a capacidade de retirar da superfície dos dentes manchas, placa dentária e resíduos alimentares sem causar danos ao esmalte e à dentina. O poder abrasivo de uma determinada substância está diretamente relacionado à sua dureza (2 a 3 na escala de Mohs), ao tamanho (5 a 20 nm) e à forma (esférica) de suas partículas. Entre as substâncias utilizadas como agentes de abrasão, podemos citar o carbonato de cálcio, fosfato de cálcio (fosfato de cálcio diidratado, fosfato de cálcio anidro, fosfato tri cálcio e o pirofosfato de cálcio), metafosfato de sódio e carbonato de magnésio. Os dentifrícios com ação específica são preparações que utilizam substâncias específicas que determinam a ação do dentifrício como: anticárie (cloreto de cetildimetilbenzilamônio, cloreto de cetilpiridínio, hexatidina e cloro‑hexidina), antitártaro (citrato de sorbitol e ricinoleatos e sulforricinoleatos alcalinos), bactericidas (cloreto de cetildimetilbenzilamônio, cloreto de cetilpiridínio, hexatidina e cloro‑hexidina), adstringentes (sulfato e cloreto de zinco), alcalinizantes (borato de sódio e bicarbonato de sódio), oxidantes (perborato de sódio e peróxido de hidrogênio) e dessensibilizantes (cloreto de estrôncio hexa‑hidratado). 6.1.2 Produtos para cabelos Os cosméticos capilares são preparações com o objetivo de limpar, promover a atratividade, alterar a aparência e/ou proteger, mantendo em boas condições o cabelo e o couro cabeludo. Com a modernidade da indústria e dos insumos cosméticos, espera‑se de um xampu mais do que simplesmente a limpeza do cabelo e do couro cabeludo, os consumidores necessitam de e desejam produtos que exerçam mais de uma atividade. 133 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Pensando em atender a uma grande diversidade de tipos cabelos, as formulações de cosméticos capilares têm o intuito de atender pessoas das mais variadas condições, como idade, sexo, hábitos de cuidado capilar, tipos de fibra capilar e, ainda, problemas relacionados com o couro cabeludo. Dessa forma, é de extrema importância que o desenvolvimento de produtos para os cabelos esteja cada vez mais voltado à necessidade do consumidor, requerendo, assim, investigação contínua e constante. 6.1.2.1 Xampus São produtos destinados à limpeza dos cabelos e do couro cabeludo. O principal objetivo dessa classe de produtos (que pode soar como algo simples, mas convém ser ressaltado) é o processo de limpeza, que consiste na retirada do sebo, dos componentes do suor, descamação do estrato córneo, produtos da tintura e poeira ambiental depositada no cabelo. A remoção da poeira é o mais simples, no entanto, o consumidor moderno deseja algo mais que a simples limpeza, uma vez que a retirada de todo o sebo do cabelo resulta em um aspecto sombrio, áspero ao toque, eletricamente carregado e de difícil arrumação. Dessa forma, além de limparem, os xampus modernos devem deixar os cabelos soltos e brilhantes, não modificar o pH ácido do couro cabeludo, não irritar os olhos e não ser muito detergente. Os componentes de uma fórmula básica de um xampu abarcam os detergentes, as substâncias espumantes, os condicionadores, os espessantes, os opacificantes, as substâncias sequestrantes, as fragrâncias, os conservantes e os aditivos especiais. Os componentes primários responsáveis pela retirada do sebo e da poeira comreendem os detergentes, porém, a ação desses produtos de forma excessiva promove ao cabelo opacidade, suscetibilidade à eletricidade estática e dificuldade de penteabilidade. Contudo, a grande maioria dos consumidores relaciona o poder de detergência à habilidade em formar espuma, fazendo com que o formulador desenvolva um produto que produza espuma abundante e duradoura, com quantidades adicionais de detergentes e agentes espumógenos. Com o acréssimo de detergente, faz‑se necessário o uso de um agente condicionante, que vai regular as cargas do cabelo. Os xampus têm ação de limpeza pela presença dos agentes de detergência, também conhecidos como tensoativos ou surfactantes, com características lipofílicas e hidrofílicas na cadeia química. Assim, o componente lipofílicose junta à gordura, enquanto o componente hidrofílico permite que a água leve e retire a gordura. Os tensoativos utilizados no desenvolvimento de xampus são os sulfatos de alquila, de éter alquila, de alfa olefina e de parafina, isetionatos, sarcosinatos, taurides, lactilatos de acila, sulfossuccinatos, carboxilatos, condensados de proteínas, betaínas, glicinatos e óxidos de amino. No entanto, os tensoativos mais aplicados em xampus são: laurileter sulfato de sódio, lauril sulfato de sódio, lauril éter sulfato de trietanolamina, lauril sulfato de amônia e sulfonato de alfa‑olefina de sódio. Os tensoativos podem ser classificados quimicamente como aniônicos, catiônicos, anfotéricos, não iônicos e tensoativos naturais. O quadro a seguir apresenta os tipos, as classes químicas e as características os principais tensoativos utilizados em xampus. 134 Unidade III Quadro 5 – Tipos de tensoativos e características de cada grupo Tipo de tensoativo Classe química Característica Aniônico Sulfatos de lauril, sulfatos de laurete, sarcosinas, sulfossuccinatos Limpeza profunda, poder de deixar o cabelo áspero Catiônico Ésteres amino de cadeia longa, aminoésteres Pouca limpeza, pouca espuma, promove maciez e maleabilidade Não iônico Álcoois graxos de polioxietileno, ésteres de sorbitol polioxietileno, alcanolaminas Limpeza fraca, promove maleabilidade Anfotérico Betaínas, sultaínas, derivados do imidazol Não irritante aos olhos, limpeza branda, promove maleabilidade Naturais Salsaparrilha, saponária, quilaia, hera agave Pouca limpeza, ótima espuma Fonte: Draelos (1999, p. 123). Os tensoativos catiônicos são nomeados de acordo com o grupo polar carregado positivamente. São detergentes fracos, não apresentam a capacidade de formar espuma em abundância e são incompatíveis com agentes tensoativos aniônicos. Essa classe de tensoativos é utilizada quando se deseja um produto de limpeza que promova suavidade e flexibilidade à fibra capilar. A segunda classe de tensoativos mais utilizados em formulações para os cabelos compreende os não iônicos e, assim, não apresentam em sua estrutura um grupo polar. São substâncias que promovem ação branda de limpeza e devem ser utilizadas como tensoativos sencundários, em associação com os tensoativos aniôcos. Outra classe de tensoativos são as substâncias anfotéricas, que apresentam uma peculiaridade em sua estrutura química: a presença de um grupo aniônico e outro catiônico. As substâncias que se enquadram nesse grupo são as betaínas, sultaínas e os derivados do imidazol. Pela baixa capacidade dessas substâncias em promover limpeza, ação espumógena moderada e suavidade, são amplamente utilizadas em xampus de bebês (não irritam os olhos) e para cabelos finos e quimicamente tratados (não são agressivos). As substâncias espumógenas promovem a formação de bolhas de gás na água. Como comentado anteriormente, alguns consumidores acreditam que xampus que espumam mais consequentemente limpam mais, no entanto, isso não é verdade, pois com a remoção do sebo do cabelo e couro cabeludo, a proporção de espuma diminuirá, pois a presença do sebo inibe a formação de bolhas. Os agentes espessantes e opacificantes não têm função quanto à retirada de sujidades dos cabelos, no entanto, tornam o produto mais atraente ao consumidor. O espessante aumenta a viscosidade de produto e o opacificante reduz a transparência ou a translucidez do cosmético. Os agentes condicionadores promovem brilho, manuseio e propriedades antiestáticas aos fios de cabelo e são identificados em xampus para cabelos secos, danificados ou tratados. Normalmente são ácidos graxos, ésteres graxos, óleos vegetais, óleos minerais ou ainda umectantes. 135 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Os xampus são apresentados das mais diversas formas, podendo ser líquidos, cremes, aerossóis e pós. Outra forma de classificaçãoo dos xampus diz respeito ao seu tipo de indicação, destinado para cabelos secos, oleosos, normais e tratados quimicamente, para bebês, além de condicionadores, profissionais e medicamentosos, como descreveremos a seguir: • Xampus para cabelos normais: são usados detergentes como o lauril sulfato, conferindo boa limpeza e condicionamento reduzido, sendo indicados para adultos com cabelo áspero e couro cabeludo que produz uma quantidade moderada de sebo, no entanto, não são indicados para pessoas com cabelo fino e danificado. • Xampu para cabelos oleosos: apresentam elevada propriedade de limpeza e condicionamento mínimo pelo uso do lauril sulfato ou de detergentes sulfosuccinatos (lauril éter sulfosuccinato de sódio), e são indicados para adolescentes com o cabelo oleoso ou pessoas que estejam com o cabelo muito sujo. Podem ser ressecantes na raiz do cabelo quando utilizados em demasia, no entanto, o uso concomitante desse tipo de xampu com um condicionador forte é capaz de diminuir ou anular a ação ressecante. • Xampu para cabelo seco: oferecem limpeza leve e bom condicionamento, podendo ser indicados também para cabelos danificados. Indicados para pessoas idosas e para aquelas que desejam o uso diário. Reduzem a eletricidade estática e melhoram o manuseio do cabelo fino, porém, é importante ressaltar que alguns produtos podem condicionar de forma exacerbada e limpar de forma inadequada, resultando em um cabelo com aspecto de sujo e excesso de oleosidade na raiz do cabelo; • Xampu para cabelos danificados: indicados para cabelos danificados quimicamente (por tinturas permanentes, substâncias de descoloração, soluções para ondulação permanente e alisantes) ou fisicamente (excesso de lavagem, uso excessivo de secador e/ou piastra e escovação vigorosa e inadequada). Esta classe de xampu também pode ser indicada para cabelos secos, por conterem detergência suave e condicionamento superior. A substância mais adequada para tratar cabelos danificados em xampus é a proteína animal hidrolisada, com ação condicionante, já que, pelo tamanho de sua estrutura reduzida, possui a capacidade de penetrar minimamente na raiz e, assim, restaurar temporariamente as alterações superficiais, resultando em um cabelo com aparência mais adequada, com mais brilho e suavidade. • Xampu para bebês: apresentam limpeza branda (bebês não secretam uma grande quantidade de sebo) e, principalmente, não causam irritação nos olhos pela presença dos tensoativos anfotéricos. • Xampus condicionadores: podem receber essa denominação ou ainda serem rotulados como produtos para cabelos secos ou danificados. Devem apresentar elevada concentração de agente de condicionamento, no entanto, é válido ressaltar que, por ser um xampu, precisam retirar o sebo (condicionador natural do corpo) e, ainda assim, promover o condicionamento. Normalmente, por meio do uso de condicionadores sintéticos, pode‑se dizer que, de uma maneira geral, são considerados produtos que não limpam nem condicionam de forma adequada. As substâncias utilizadas em xampus condicionadores são geralmente anfotéricos ou aniônicos (sulfossuccinato). 136 Unidade III Para a grande maioria dos consumidores, são produtos de um único passo, já que o condicionador não necessita ser aplicado após o uso do xampu. Uma contraindicação é o uso dessa classe de produto antes do uso de tinturas permanentes ou de substâncias que alteram a fibra capilar permanentemente, já que a presença desse tipo de xampu pode diminuir a ação dos outros produtos capilares. • Xampu medicamentoso: são os xampus para caspa que possuem em sua constituição componentes que removerão de forma eficiente o sebo e as escamas do couro cabeludo e agirão como uma substância antibacteriana e antifúngica. A remoção do sebo é feita pelos tensoativos (base do xampu) enquanto as escamas do couro cabeludo são retiradas pela ação mecânica do esfregar. A ação antibacteriana e antifúngica é exercida por substâncias específicas como alcatrão, enxofre, ácido salicílico e fenóis clorinados, entre muitas outras substâncias ativas. • Xampus profissionais:são cosméticos indicados para lavagem dos cabelos antes de cortá‑los ou penteá‑los e ainda para preceder ou proceder processo químico. A diferença principal entre os xampus profissionais e os de uso domiciliar está na concentração, já que os profissionais necessitam ser diluídos antes do uso. Outro tipo de xampu profissional são os aplicados após a descoloração (aniônicos especiais ou acídicos), para neutralizar a alcalinidade residual e preparar a fibra para posterior tintura. Para finalizar o processo de tintura permanente são aplicados os xampus catiônicos ou ácidos, que agem como neutralizantes. Reações adversas como a dermatite cutânea irritante ou alergia de contato, oriundas de xampus, não são comuns, pois o seu tempo de contato com a pele é breve, no entanto, a irritação dos olhos pode acontecer, principalmente pela concentração inadequada de tensoativos anfotéricos. No entanto, outras substâncias são consideradas sensibilizantes como a formalina, parabenos, hexaclorofeno e miranóis. 6.1.2.2 Condicionadores Os condicionadores foram desenvolvidos no início ds anos 1930, com o surgimento das ceras autoemulsionantes, que eram combinadas com hidrolisado de proteína (gelatina, leite e ovos), hidrocarbonetos poliinsaturados e silicones. A necessidade do surgimento dos condicionares data do período em que foram desenvolvidos os xampus com poder de limpeza adequada, com isso, os xampus retiravam da raiz do cabelo todo o sebo, tornando‑o fosco, áspero e pouco manuseável. O objetivo de um condicionador é promover a ação do sebo natural, tornando o cabelo manuseável, macio e com brilho, além de tentar recondiconar os cabelos danificados mecânica e fisicamente. O mecanismo de ação dos condicionadores consiste em melhorar o brilho, diminuir a fragilidade e a porosidade aumentando a força e, por fim, restaurando a degradação na cadeia polipepetídica. Existem diversos tipos de agentes agressores aos cabelos como xampus, secagem, pente, tintura, escova e alterações temporárias (penteado) ou definitivas da fibra capilar (ondulação ou alisamento). Além das agressões citadas anteriormente, existe o dano conhecido por aclimatação, que são os danos causados à raiz do cabelo por meio da exposiçãoo à luz solar, poluição do ar, vento, água do mar e água clorada da piscina. 137 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Os condicionadores promovem melhora do manuseio diminuindo as cargas estáticas, pois, após escovar ou pentear os cabelos, cria‑se um excesso de carga negativa, repelindo um fio do outro e tornando o cabelo com muito volume e aspecto inadequado. Com o uso dos condicionadores, que possuem tensoativos catiônicos (carga positiva) em sua composição, o excesso de carga postiva é neutralizada, melhorando o aspecto e o manuseio por alterações superficiais cuticulares e reduzindo a fricção entre as raízes em 50%, facilitando com isso o desembaraço. Outras características tendem a ser melhoradas no aspecto dos cabelos com uso dos agentes condicionantes, como a maciez, as pontas quebradiças e o brilho. Os condicionadores aumentam a aderência das escamas das cutícilas à raiz do cabelo, promovendo brilho e maciez e reaproximam temporariamente os restos desfiados de medula remanescente e do córtex, dando a impressão de que o cabelo não apresenta pontas quebradiças. Os agentes que promovem condicionamento podem ser classificados quimicamente como glicóis, lipídios, substâncias de superfície ativa e componentes de especialidade, com destaque para os quaternários, derivados de proteína e alcanolaminas. As substâncias quaternárias de condicionamento são os detergentes catiônicos, ou ainda conhecidos como compostos de amônia quaternários. São substâncias encontradas em xampus e em condicionadores que facilitam a aderência das escamas das cutículas à raiz do cabelo, o que aumenta a capacidade do cabelo em refletir a luz e, consequentemente, aumenta o brilho e o lustre. Também são capazes de neutralizar as cargas estáticas negativas dos cabelos. A classe de condicionadores formadores de película faz surgir uma fina camada de polímero (polivinilpirrolidona) sobre a raiz do fio; o polímero é capaz de preencher os defeitos da raiz, criando uma superfície sauve, aumentando o brilho e o lustre, além de eliminar a eletricidade estática por sua caraterística catiônica. O polímero também é capaz de cobrir a raiz do fio, individualmente, promovendo espessamento da fibra. No entanto, os polímeros formadores de película não são indicados para cabelos muito finos, pois o peso do polímero, junto ao pouco peso da fibra, diminui a capacidade em manter o penteado. As substâncias condicionadoras de proteína correspondem à única classe de agentes condicionantes que realmente conseguem penetrar e alterar a raiz danificada dos cabelos. As proteínas advêm de colágeno animal, da queratina e de placenta e são hidrolisadas ao tamanho de uma partícula que seja capaz de penetrar na raiz dos cabelos. Os cométicos condicionadores são apresentados de três formas: • Condicionadores instantâneos: recebem essa denominação por sua aplicação logo após o xampu, com tempo de ação de aproximadamente cinco minutos e enxágue após esse curto período de tempo. São produtos que condicionam minimamente pelo pouco tempo de contato e, basicamente, ajudam na penteabilidade do cabelo molhado e no manuseio. Apresentam pouca capacidade na restauração dos cabelos, no entanto, são o tipo mais popular de condicionador. A fórmula básica de um condicionador instantâneo contém água, substâncias condicionantes (combinação de tensoativos aniônicos, formadores de película e proteínas), lipídios e espessante. 138 Unidade III • Condicionadores profundos: são cremes com pequena viscosidade (líquidos) quando comparados aos condicionadores instantâneos, que contêm os mesmos componentes (água, substâncias condicionantes, lipídios e espessante) dos condicionadores instantâneos, no entanto, são produtos mais concentrados. Uma das diferenças mais significativas dos condicionadores profundos é o tempo que o produto permanece no cabelo de 20 a 30 minutos, o que favorece o condicionamento, no entanto, podem incluir a aplicação de calor com auxílio de um secador, uma piastra ou até uma toalha quente, promovendo aumento da raiz e permitindo maior penetração do condicionador. São produtos indicados para cabelos extremamente secos. Os condicionadores profundos aplicados antes de qualquer procedimento de tintura ou ondulação permanente nos cabelos são chamados de preenchedores, destinando‑se a condicionar a raiz e distal dos cabelos e sendo capazes de reverter alguns efeitos da aclimatização. • Condicionadores sem enxágue ou leave‑in: são produtos aplicados após a secagem dos cabelos com toalha e destinados a permenecer no cabelo durante o penteado e retirados na próxima lavagem. A formulação dessa classe de condicionadores é exatamente a mesma dos instantâneos; como não possuem óleo na formulação, não necessitam ser retirados dos fios. Outra forma de condicionadores sem enxágue são os espessantes de cabelos, que promovem a formação de uma cobertura em cada fio, aumentando o diâmetro instantaneamente. São compostos de proteína, líquidos condicionantes que devem ser massageados por meio da secagem do couro cabeludo com toalha antes de pentear para aumentar o brilho, melhorando o manuseio e a suavidade. São indicados para pessoas com cabelo seco e danificado. Condicionadores sem enxágue também são indicados para pessoas com cabelos finos e encaracolados, pois favorecem a penteabilidade, fornecem brilho adicional, melhoram o manuseio e aumentam o repertório de penteados. 6.1.2.3 Cosméticos para penteados Cosméticos com a função de adornar os cabelos são os produtos mais antigos e conhecidos, os assírios desenvolveram arranjos de cabelos com cortes em camadas e cacheados. Os cachos eram obtidos por meio do uso de ferro quente e a manutenção do padrão desenvolvido era feita com o uso de uma mistura de óleoe perfume. Auxiliares de penteados Todos os compostos que auxiliam a manutenção do penteado têm o objetivo de manter os fios em uma posição de enfeite, fornecer condicionamento e brilho, encorpar e aumentar a maleabilidade do cabelo. Os auxiliares de penteados são aplicados após o xampu e devem ser totalmente removidos em lavagem subsequente. Existem três categorias de produtos de modelagem de cabelos: • Sprays fixadores: os primeiros fixadores para cabelos eram os vernizes aerolizados (resina natural composta de ácidos poliidroxi e ésteres), não mais usados nos dias atuais. Atualmente, os copolímeros (polivinilpirrolidona – PVP) são os principais componentes dos fixadores de cabelo. O PVP é uma resina solúvel em água e facilmente retirada pelo xampu, no entanto, também são 139 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS higroscópicos, pois, em contato com a água da chuva, a umidade e transpiração transformam a película formada pela resina em algo pegajoso e, com isso, a resina perde a capacidade em prender os fios de cabelo na forma desejada. Na tentativa de diminuir a higroscopicidade do PVP, foi adicionado o acetato de vinil (VA), tornando a remoção mais difícil. Os fixadores normalmente são obtidos pela associação de PVP (30 a 70%) e AV. Além das resinas poliméricas, os fixadores também são formados por plastificantes (óleo mineral, lanolina, óleo de castor, palmitato de butil), umectantes (sorbitol e glicerol), solventes (álcool isopropílico) e condicionadores (pantenol, proteínas de plantas, proteínas animais hidrolisadas, quaternarium‑19). Normalmente os fixadores são aplicados após o desenho do penteado, mas também podem ser usados como uma loção de assentamento, mesmo não sendo aconselhável. Estão disponíveis em diversas fórmulas que promovem diversos graus de fixação: fixadores de ação regular, destinados a deixar o cabelo no lugar; fixadores de ação super ou extra; fixadores de penteados e spritzes, que contêm na fórmula uma quantidade superior de copolímero e um veículo menos volátil que os produtos de fixação regular, promovendo, assim, fixação que desafia a gravidade e prolongando o tempo de secagem. Entre as reações adversas, os fixadores podem gerar problemas dermatológicos (problemas nas unhas), acúmulo do produto no cabelo, maior fixação de poeira no cabelo e ressecamento das fibras capilares. • Géis para cabelos: os géis para cabelos são compostos de copolímeros utilizados nos fixadores, no entanto a apresentação ocorre por meio do uso de um gel acondicionado em tubos plásticos moles de pressão. Os produtos estão disponíveis contendo ou não álcool e possuem substâncias polidoras, que recobrem os fios restaurando o brilho natural. Os condicionadores correspondem à outra classe de substância que também pode ser incorporada à formulação. Quanto aos graus de fixação, existem duas fórmulas básicas: os géis para arranjos que apresentam menor fixação e os géis para escultura, que promovem uma fixação superior. Alguns efeitos podem ser acrescidos aos géis, como cores sintéticas com tonalidades não naturais (azul ou vermelho) e substâncias cintilantes. Os pigmentos tornam os géis capazes de cobrir a raiz dos cabelos, dando tons na cor do pigmento presente na formulação. O tamanho da molécula dos pigmentos é grande, impedindo que este penetre na raiz dos cabelos intactos, no entanto, em cabelos porosos (quimicamente tratados) o pigmento pode ser absorvido semipermanentemente, necessitando de quatro a seis lavagens para que a substância colorida seja totalmente retirada. Os géis podem ser aplicados nos cabelos úmidos e secos e distribuídos para que formem uma fina película. Dependendo da quantidade aplicada sobre os cabelos, o resultado pode ter aparência e sensação natural (pequena quantidade) e em grandes quantidades, o cabelo terá aparência molhada e sensação dura. Outra forma de aplicação é quando se deseja um aspecto molhado, devendo ser usado com o cabelo seco. Entre os efeitos indesejáveis dos géis, podemos citar a formação de flocos brancos de polímero pela escovação com o cabelo seco, outra condição inadequada quanto ao uso dos géis relaciona‑se com as altas concentrações de PVP/AV, tornando o produto pegajoso ao entrar em contato com umidade e sendo, assim, inadequado para pessoas que transpiram excessivamente, como atletas. • Mousses para arranjo de cabelos: trata‑se de uma espuma liberada sob pressão de uma lata aerossolizada, na presença de copolímero. Além dos polímeros, podem conter substâncias de brilho, condicionamento e pigmentos coloridos. A aplicação do mousse é semelhante aos géis, 140 Unidade III normalmente para se ober aspecto molhado dos cabelos. Os copolímeros utilizados em mousses são mais leves, não exercendo uma fixação potente e não formando a floculação branca como a dos géis. Podem ser usados para promover aumento do volume do cabelo com aparência natural pela rigidez adicional promovida pelo copolímero, com pequenas quantidades do produto. A secagem ocorre de maneira imediata. 6.1.2.4 Agente de coloração dos cabelos A coloração dos cabelos sempre foi uma tradição comum entre persas, hebreus, gregos e romanos, com destaque ao pigmento natural da hera, oriundo da planta lawsonia e usado desde a terceira dinastia do Egito. Os egípcios misturavam a planta lawsonia (hena) com água quente, obtendo uma coloração laranja‑avermelhada que era aplicada nos cabelos. Os homens romanos, para esconderem os cabelos cinza, utilizavam tinturas metálicas (acetato de chumbo) megulhando pentes de chumbo em vinho azedo. O conceito moderno de tinturas capilares permanentes data de 1883, por meio da obtenção de uma técnica de coloração de peles utilizando p‑fenilenediamina e peróxido de hidrogênio. As tinturas capilares são o principal representante dessa classe e estima‑se que mais de 50% das pessoas utilizam tintas como cosméticos capilares. Atualmente, existe uma grande variedade de produtos cosméticos desenvolvidos para sanar as necessidades dos consumidores como as tinturas graduais, temporárias, semipermanentes e permanentes. Os agentes de coloração de cabelos apresentam segurança com baixo risco de matagenicidade e oncogenicidade. Quanto às dermatites e irritações de contato, as tinturas graduais e temporárias apresentam risco mínimo, no entanto, as semipermanentes e permanentes podem causar dermatites alérgicas pela presença de substâncias como p‑fenilenediamina, que é um agente sensibilizador. Tinturas graduais Essa classe de tinturas também é conhecida como metálicas ou progressivas, e, para se obter o escurecimento desejado, é necessária a aplicação repetida. As tinturas graduais não apresentam controle quanto à cor final obtida e, ainda, o clareamento dos fios não é possível por meio dessa classe de tinturas. As tinturas graduais utilizam sais de metais solúveis em água, que são depositados nas fibras capilares sob a forma de óxidos, subóxidos e sulfetos, e o metal mais utilizado é o chumbo, no entanto, outras substâncias metálicas também podem ser utilizadas como prata, cobre, bismuto, níquel, ferro, manganês e cobalto. A presença do metal na fibra influencia na qualidade do cabelo, podendo inteferir no uso de outros produtos ou técnicas, em razão da avaria do peróxido de hidrogênio na descoloração ou em produtos de ondulação permanente, podendo facilitar a ruptura da fibra. Assim, os cabelos podem ser tratados com tinturas graduais, mas precisam crescer antes da aplicação de outra técnica de alteração da estrutura ou da cor. 141 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS As tinturas metálicas são indicadas para pessoas que não têm o desejo de alterar outras condições e características do cabelo, sendo ideal para homens que cortam o cabelo com frequência e necessitam apenas do escurecimento mínimo, sendo pouco provável o uso de outra técnica antes do novo corte. Tinturas temporárias São produtos de aplicação capilar que podem ser removidos com uma simples lavagem e sãoutilizados no intuito de adicionar uma tintura rápida, clarear apenas com nuance de aspecto natural ou, ainda, melhorar o tom já existente na fibra. Tais características acontecem pelo fato de o pigmento não conseguir penetrar na cutícula, ficando depositado apenas na superfície do cabelo por causa do tamanho de sua partícula. As tinturas temporárias são facilmente aplicadas nos cabelos, no entanto, dependendo de sua forma de apresentação (líquido, mousse, gel ou pulverizador), podem manchar roupas se o cabelo estiver molhado ou se em contato com a chuva ou transpiração. Os produtos temporários sob a forma líquida também são denominados como enxágue de cabelos e normalmente são aplicados no banho após a lavagem, retirando o excesso da tintura no enxágue. Os pigmentos são tinturas ácidas, do mesmo tipo das aplicadas em tecidos de lã. A vantagem dos produtos na forma líquida está no fato de não causarem danos à fibra capilar, por serem compostos de moléculas grandes e incapazes de penetrar. O uso sob a forma de enxágue líquido acontece, normalmente, por pessoas que desejam remover tons indesejáveis de amarelo e obter uma cor uniforme ou, ainda, por pessoas que desejam matizar uma cor de tintura permanente inadequada. As fórmulas de mousse estão disponíveis em cores naturais e artificiais, sendo aplicadas após o uso do xampu nos cabelos secos com a ajuda de uma toalha e não devem ser retiradas com enxágue. Os pigmentos estão dispersos em uma associação de polímeros (polivinilpirrolidona/acetato de vinil ‑PVP/VA) utilizados para manter o penteado e, dessa forma, o mousse serve tanto para colorir como para conservar a forma desejada dos cabelos. A indicação principal desse tipo de produto na forma de mousse é para pessoas que desejam adicionar reflexos ou misturar cabelos cinza e brancos em pessoas morenas com menos de 15% de cabelos cinzas/brancos. Além de adicionar reflexos claros, também podem ser usados para se obter um efeito multicolorido, utilizando os pigmentos artificiais (laranja, roxo, azul, verde e vermelho). Os corantes temporários sob a forma de gel apresentam fórmula idêntica aos mousses, com a diferença de estarem envasados em tubo, e não em lata de aerossol. Os géis também utilizam a associação de polímeros, no entanto, a fixação dos géis é superior à dos mousses. Uma característica dos géis é que só estão disponíveis em cores artificiais, com linhas específicas que promovem brilho aos cabelos. Esses tipos de produtos são indicados para pessoas que desejam estilos que fogem do comum. Nos pulverizadores de corantes temporários os pigmentos estão dissolvidos em solvente específico e são aplicados com o auxílio de um pressurizador. 142 Unidade III De uma forma geral, os agentes de coloração temporária devem ser utilizados com cuidado em pessoas que apresentam posorosidade excessiva nos cabelos pela perda das escamas da cutícula, pois as hastes de cabelos porosos permitem a entrada de moléculas de pigmentos, alterando o tempo de ação deste. Tinturas semipermanentes São tinturas para uso em cabelos naturais, não descoloridos e têm o poder de cobrir o cinza dos cabelos, adicionar reflexos ou incobrir tons indesejados e inadequados. A remoção desse tipo de pigmentação capilar acontece entre quatro e seis lavagens, porque suas partículas apresentam tamanho intermediário e podem entrar e sair das fibras do cabelo. No intuito de aumentar o tempo de duração desse tipo de pigmentação, foi incorporado o peróxido de hidrogênio. A retirada do material tintorial da haste capilar acontece por meio de forças polares fracas (forças de Van der Walls), dessa forma, pigmentos com tamanho de partículas maiores permanecerão por mais tempo no cabelo. A composição das tinturas semipermanentes baseia‑se em pigmentos (nitroanilinas, nitrofenilenediaminas, nitroaminofenóis, azos, antraquinonas), substância alcalinizante, solvente, surfactante, espessante, fragrância e água. Normalmente, para se obter o tom desejado, são misturadas de 10 a 12 tinturas. As tinturas semipermanentes são apresentadas sob a forma de loções, xampus e mousses. Xampu é a forma mais popular e o material tintorial é misturado a um detergente alcalino (para gerar entumescimento do fio facilitando a penetração do pigemento), um espessante (para que o produto permaneça no couro cabeludo) e um estabilizador de espuma (evita que o produto escorra e manche a pele). A apresentação em mousse incorpora o pigmento a uma espuma aerossolisadas. Tanto o xampu como o mousse são aplicados no cabelo úmido, recentemente lavado e devem ficar pelo tempo de 20 a 40 minutos. A função dos produtos semipermanentes é dar tom aos cabelos, e não necessariamente tingi‑los, isto é, produzem coloração tom a tom sem alterações drásticas. Assim, não é possível clarear os cabelos com esse tipo de produto por não conter peróxido de hidrogênio, e também não é possível escurecer os cabelos mais de três tons da cor natural. Coloração permanente Recebem essa denominação porque a “tintura” penetra nos cabelos até o córtex e forma grandes moléculas de cor, que não podem ser removidas pelo xampu. Podem ser usados para cobrir cabelos cinza ou ainda para produzir uma nova cor, no entanto, para a manutenção da cor obtida é necessária a reaplicação do produto de quatro a seis semanas. Na verdade, esse tipo de coloração não contém tintura, mas precursores de tintura sem cor, que reagem com o peróxido de hidrogênio da fibra capilar, produzindo moléculas coloridas. Para o processo 143 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS de pigmentação é necessário o uso de intermediários primários (p‑fenilenediaminas, p‑toluenodiaminas, p‑aminofenóis) que sofrerão oxidação com o peróxido de hidrogênio, sendo expostos a acopladores (resorcinol, 1‑naftol, m‑aminofenol) que formarão uma variedade de tinturas indo. A obtenção da cor final depende da concentração do peróxido de hidrogênio e das substâncias químicas escolhidas para funcionarem como intermediários primários acoplados. Cosméticos de coloração permanente permitem alterar as nuances da cor original dos cabelos, promovendo clareamento ou escurecimento dos fios. Concentrações mais elevadas de peróxido de hidrogênio podem levar ao clareamento ou destruição da melanina, dessa forma, o processo de oxidação funciona para produzir a cor e clarear. O peróxido de hidrogênio não possui a capacidade de retirar toda melanina para clarear o cabelo de forma drástica, no entanto, faz‑se necessário o uso de catalisadores (persulfato de amônia e sulfato de potássio) para se conseguirem maiores graus de clareamento. Os catalisadores devem ficar em contato com o cabelo de uma a duas horas para se obter melhor resultado; no entanto, o sistema peróxido/catalisador não apresenta a capacidade de remover os pigmentos de feomelanina avermelhada, gerando, com o tempo, em pessoas que escolhem alterar da cor escura para uma cor clara, nuances avermelhadas. As tinturas permanentes são comercializadas em dois frascos: um contendo o precursor de pigmento em um sabão alcalino ou base de detergente sintética e o outro contendo uma solução estabilizadora de peróxido de hidrogênio. Para aplicação dos produtos, os materiais dos dois recipientes são misturados antes da aplicação no cabelo, e, assim, os precursores e o peróxido de hidrogênio se difundem gerando uma nova cor aos cabelos. Pela ação oxidativa da melanina, as tinturas permanentes são as que mais danificam a fibra capilar, pois alteram a estrutura interna do cabelo diuindo a sua resistência e força. Diversas condições devem ser observadas para diminuir os danos aos cabelos: • Alterações permanentes quanto à forma do cabelo devem ser feitas antes da coloração, com a necessidade de intervalo de dez dias entre os procedimentos. • Cabelos clareados são mais danificados do que cabelos tingidos com uma cor mais escura. • Cada procedimento de tintura danifica a fibra, assim, o intervalo entre as tinturas deve ser o mais longopossível, já que a tintura deve ser aplicada de forma concentrada na região de crescimento do cabelo proximal, e não na área de cabelo distal, pigmentada anteriormente. Produtos para coloração permanente estão disponíveis para uso profissional e domiciliar e os mecanismos de ação são idênticos para ambos, no entanto, é importante ressaltar que mudanças drásticas na cor dos cabelos necessitam de produtos profissionais. 6.1.2.5 Agente para alteração permanente dos cabelos A ideia de alterar a estrutura do cabelo de forma definitiva é uma condição bastante aceita nos dias modernos, principalmente por pessoas que desejam conseguir estilos de penteados modernos. 144 Unidade III Métodos de alteração da forma dos fios têm sido utilizados desde os tempos antigos pelos egípcios, quando a água e a lama eram aplicadas às mechas de cabelo em bastões e secavam ao sol, já os gregos antigos alteravam a forma dos cabelos pelo uso de ferro quente. As alterações permanentes utilizam três processos, o primeiro é o amaciamento químico, seguido da nova forma e a etapa final consiste na fixação. Basicamente a reação química envolve a redução das ligações dissulfeto do cabelo com mercaptanos (ácido tioglicólico) e o processo pode ser quimicamente caracterizado como: • Penetração do composto químico tiol na fibra do cabelo. • Clivação da ligação dissulfeto do cabelo (KSSK) para reduzir um resíduo de cistina (KSH) e o dissulfeto misturado ao tiol com a queratina do cabelo (KSSR). • Reação com outra molécula de tiol para produzir um segundo resíduo de cisteína e o dissulfeto simétrico à substância qua fará a alteração. • Novo arranjo na estrutura de proteína do cabelo para aliviar o estresse interno determinado pelo tamanho do agente responsável pela alteração e tensão de envolver o cabelo. • Aplicação de uma substância oxidante para reorganizar as ligações cruzadas dissulfeto. Cosméticos que apresentam a capacidade de alterar definitivamente a forma do cabelo consistem em substâncias de redução em solução aquosa com pH ajustado. As substâncias de redução mais conhecidas são os tioglicolatos, tioglicolatos de glicerol e sulfitos. Os agentes de redução podem ser classificados como permanentes alcalinos, alcalinos amarelos (neutralizados), exotérmicos, autorregulados, ácidos e sulfito. Os componentes de uma loção que altera a estruta do fio são apresentados no quadro a seguir. Quadro 6 – Principais componentes de uma formulação capaz de altear a forma da fibra capilar, com exemplos e suas respectivas funções Componente Exemplo químico Função Substância redutora Tioglicolatos e sulfitos Quebra as ligações dissulfeto Substância alcalina Hidróxido de amônia, trietanolamina Ajusta o pH Quelante EDTA Remove metais de depósito Umidificante Álcoois graxos Melhora a saturação do cabelo Condicionador Proteínas umectantes, compostos quaternários Protege o cabelo durante o processo de alteração da forma da fibra Opacificante Poliacrilatos, látex de poliestireno Opacfica a formulação Fonte: Draelos (1999, p. 181). 145 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Outra classe muito importante de substâncias no processo de lateração das fibras dos cabelos são os neutralizantes, que funcionam reformando as ligações de dissulfito rompidas e restauram o cabelo à condição normal. Os neutralizantes utilizam a oxidação para exercer sua função. Existem dois tipos de neutralizantes, os autoneutralizantes e os neutralizantes químicos. Os autoneutralizantes agem de forma natural e demorada (seis a 24 horas), permitindo que o ar oxide os agentes de permanência; no entanto, o método químico é mais popular pela sua velocidade e pela interação com a substância oxidante, normalmente o peróxido de hidrogênio em pH ácido. A fórmula base de um neutralizante será apresentada no próximo quadro. Quadro 7 – Componentes de uma formulação neutralizante com suas respectivas funções e exemplos Componente Exemplos Função Substância oxidante Peróxido de hidrogênio, bromato de sódio Reorganiza as ligações dissulfito rompidas Substância ácida Ácido cítrico, ácido acético, ácido láctico Mantém o pH ácido Estabilizador Estanato de sódio Previne ruptura do peróxido de hidrogênio Substância umidificante Álcoois graxos Melhora saturação do cabelo Condicionador Proteínas umectantes, compostos quaternários Melhora a sensação do cabelo Opacificante Poliacrilatos, látex de poliestireno Torna o neutralizante opaco Fonte: Draelos (1999, p. 183). 6.1.3 Produtos depilatórios A remoção de pelos e cabelos é praticada desde as civilizações antigas, podendo ser motivada por questões religiosas, sociais, como propósito de castigo ou até mesmo para melhorar a aparência social. Tratados históricos e religiosos mencionam costumes e leis que determinavam a retirada de pelos e cabelos. A diferença entre depilação e epilação é ignorada por alguns autores, no entanto, outros as diferenciam: a depilação é a retirada do pelo de forma degratativa e parcial e a epilação consiste na retirada completa do pelo, incluindo a raiz. Durante muito tempo os cosméticos depilatórios eram praticamente exclusivos para mulheres, mas hoje a procura de homens por produtos dessa classe vem crescendo de forma rápida. As ações de remoção de pelos apresentam processos distintos, podendo ser divididos em métodos físicos, químicos e fisioterápicos. O próximo quadro apresenta as técnicas relacionadas a cada tipo de método. 146 Unidade III Quadro 8 – Métodos de depilação/epilação e suas respectivas técnicas Método Técnica Físico Pedra‑pomes Lixas Lâminas Pinças Ceras Bandas Químico Pós Pastas Cremes Géis Líquidos Espumas Elétrico Eletrólise/eletrocoagulação 6.1.3.1 Métodos físicos Os métodos classificados como físicos utilizam forças mecânicas de corte, abrasão e arranque. A pedra‑pomes e as lixas atuam por meio de dermoabrasão, sendo utilizadas nas pernas com movimentos circulares na direção do crescimento do pelo e no sentido oposto. São considerados depilatórios autênticos, de baixo custo, no entanto, não são indicados para peles delicadas e sensíveis, pois causam irritação e trauma. A indicação adequada para o pós‑tratamento é a aplicação de um creme antisséptico para evitar o surgimento da foliculite. As lâminas utilizam a técnica de corte dos pelos nas axilas e nas pernas e o resultado depende das condições da zona anatômica, do fio da lâmina, da espessura do pelo, de sua orientação e inclinação (ângulo do folículo com a superfície epidérmica). O uso das lâminas deve ser precedido de umedecimento por água, cremes ou espumas, no entanto, se o corte for obtido por máquina elétrica, a retirada do pelo acontece sem umedecer a pele. O trauma causado à pele pelas lâminas pode atingir a derme e a epiderme, com a retirada do manto hidrolipídico. Assim, faz‑se necessário o uso de produtos cosméticos que reporão o fator de hidratação natural. As pinças agem por arrancar os pelos e a indicação ocorre em pequenas áreas. Muitas vezes a técnica auxilia a finalização de outra técnica, pois se consegue retirar pelos que não foram removidos. Importante comentar que a pinça deve ser desinfetada com álcool após o uso e a pele deve ser tratada com um agente antisséptico e protegida do calor. A remoção dos pelos com cera é a técnica mais popular atualmente, baseando‑se na adesividade e arranque com objetivo final da epilação. As ceras de epilação são divididas em dois grupos: as ceras quentes e as ceras frias. Ceras quentes são apresentadas sob a forma de placas, cubos ou pastilhas e devem ser fundidas em equipamento adequado. A aplicação da cera fundida é feita com o auxílio de uma espátula, espalhando uma fina camada na área a ser epilada seguindo o sentido do crescimento do pelo. A temperatura da 147 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS cera fundida deve ser aquela que não cause danos à pele, no entanto, a cera não pode esfriar muito ou totalmente, pois perde o seu poder de moldagem, flexibilidade, aderênciae tração, condições necessárias para retirada fácil e adequada dos pelos. A composição das ceras quentes basicamente consiste em ceras, resinas, vaselina, lanolina ou óleo e pigmentos, que constituem uma massa sólida à temperatura ambiente. As ceras (branca de abelha e carnaúba) funcionam como a base das preparações, compostos como vaselina, lanolina ou óleo diminuem o ponto de fusão e facilitam a aplicação do produto na pele e impedem que enrijeça com rapidez. Os pigmentos fornecem cor às ceras. Ceras de depilação a frio são consideradas massas de elevada viscosidade com características adesivas e que não necessitam ser aquecidas para exercer sua função epilatória. O produto é aplicado na pele e deve ser retirado com a ajuda de uma tela. Os danos causados à epiderme dependem da sensibilidade do local de aplicação, número de aplicações na mesma área e espessura e orientação dos pelos. A composição das ceras frias consiste em glucose, que substitui as ceras, resinas sintéticas e óleos fixos. Algumas formulações utilizam o melaço como espessante e plastificante. A grande vantagem desse tipo de cera está no fato de não poder ser recicladas. A determinação do melhor tipo de cera a ser utilizada é bastante subjetiva, dependendo da sensibilidade, da extensão e área, além da espessura do pelo. Há também as bandas, que são adesivos depilatórios, considerados como ceras frias de aplicação fácil e prática. O produto é formado pelo conjunto constituído pelo tecido ou papel especial e a massa adesiva, que é aplicada diretamente sobre a pele com adesão adequada para retirar os pelos. As massas adesivas apresentam baixa viscosidade e podem ser emulsionadas com pós micronizados (óxido de zinco ou talco disperso na cola). No intuito de diminuir a sensação dolorosa, podem ser adicionadas substâncias anestésicas (p‑aminobenzoato de butila). Após a aplicação das bandas, é adequado o uso de cosméticos com propriedades protetoras e regenerativas como as emulsões com vitaminas e extratos vegetais. 6.1.3.2 Métodos químicos Os métodos químicos agem pela destruição da cutícula e do córtex em uma massa gelificada plástica facilmente retirada por lavagem. Entre as características do método, temos a rapidez na ação, a não irritabilidade e não sensibilização na pele. Além disso, não devem agredir as roupas, devem apresentar estabilidade e são de fácil aplicação sem causar dor. A ação dos produtos de ação química ocorre de acordo com a presença de agente alcalino, redutor ou de enzimas. A degradação alcalina do pelo envolve a ruptura da cistina entre as cadeias polipepetídicas, enquanto a ação dos agentes redutores acontece pela quebra ou redução simples das ligações S‑S da cistina de forma semelhante à transformaçãoo da cistina em cisteína. O uso de enzimas na retirada de pelos não acontece de uma forma muito simples: são solubilizados os constituintes do pelo ou apenas sua parte proteica é afetada. 148 Unidade III 6.1.3.3 Método elétrico A eletroforese consiste em método de retirada dos pelos pelo uso da eletricidade de forma definitiva, de acordo com a Food and Drug Administration (FDA). O processo ocorre pela ação de corrente galvânica, que destrói o pelo por reação química ou coagulação. A eletrocoagulação é mais rápida, pela remoção de mais pelos em uma mesma seção. A retirada do pelo acontece pela destruição da raiz pela ação da eletricidade conduzida por uma fina agulha colocada na abertura do pelo e tem a capacidade de penetrar até a região papilar. A eficiência da técnia está diretamente ligada à capacidade de utilização (destreza) e à experiência do operador, dessa forma, o operador deve identificar a direção do pelo, localização da raiz, avaliar e escolher a proporção de corrente adequada e, ainda, o momento certo de parar com a corrente. Caso seja utilizada uma quantidade de corrente e tempo maior que o necessário, podem surgir manchas de queimaduras, caracterizadas pelo escurecimento da pele. Essa técnica apresenta algumas desvantagens por ser demorada, cara, dolorosa, além de não poder ser aplicada em grandes áres do corpo. 6.1.4 Produtos para as unhas As unhas funcionam primariamente para proteger a região da ponta dos dedos, que apresenta elevada sensibilidade. Historicamente a sociedade considera importante a aparência das unhas, relacionando‑as com a condição social, pois pessoas que exerciam trabalhos manuais não tinham como manter as unhas longas e cuidadas, enquanto pessoas que não exerciam atividades manuais, usavam unhas mais compridas, como forma de apresentar sucesso. Inicialmente, apenas as mulheres valorizavam unhas compridas, no entanto, alguns homens do Mediterrâneo deixavam as unhas dos dedos mínimos crescerem, como forma de demonstrar importância. 6.1.4.1 Esmaltes Os esmaltes de unhas são adornos com a capacidade de encobrir o material queratínico, promovendo uma aparência lisa, polida e com cor desejada, além de proteger a unha contra quebra. Os esmaltes foram introduzidos por volta dos anos de 1920 com o desenvolvimento da tecnologia de laqueamento. Antes dos anos 1920, as unhas eram tratadas por polimento com pó abrasivo para se obter brilho e, em 1930, Charles Revson teve a ideia de acrescentar pigmentos aos laqueadores incolores, desenvolvendo, assim, um polidor de unha, colorido e opaco. No entanto, o produto não apresentava características adequadas de qualidade, mas, mesmo assim, era um produto bastante procurado. Com isso, Charles, em 1932, fundou a Revlon e adequou os polidores de unhas com cor às condições necessárias, recebendo o nome de esmalte de unhas. De uma forma geral, os esmaltes são pigmentos suspensos em solvente volátil, adicionados a substâncias formadoras de película. Os principais componentes de uma fórmula de esmaltes são: 149 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS • Formador primário de película (nitrocelulose, polímeros de metacrilatos, polímeros de vinil). • Resina secundária formadora de película (formaldeído, p‑tolueno sulfonamida, poliamida, acrilato, resinas alquídicas e vinil). • Plastificantes (ftalatos de dioctil, ftalatos de dibutil, fosfato de tricresil, cânfora). • Solventes e diluentes (acetatos, cetonas, tolueno, xileno, álcoois). • Pigmentos (orgânicos D&C e inorgânicos). • Filtros especiais (escamas de peixes, guaninas, dióxido de titânio). • Substâncias de suspensão. A nitrocelulose é a substância formadora de película primária mais utilizada no desenvolvimento de esmaltes por produzir uma película brilhosa e áspera que facilita a adesão do produto à placa da unha. A película formada é semipermeável ao oxigênio, permitindo a troca gasosa entre a atmosfera e a unha, no entanto, a placa formada pela nitrocelulose apresenta elevada dureza, devendo ser acrescidas à formulação substâncias que modifiquem essa característica, como resinas e agentes plastificantes. A primeira resina utilizada com o intuito de melhorar a película de nitrocelulose foi o tolueno‑sulfonamida‑formaldeído, todavia, essa substância pode causar sensibilização em grande parte dos usuários, sendo, assim, eliminada de esmaltes hipoalergênicos. Outra classe de componentes dos esmaltes são os plastificantes (ftalato dibutil), que exercem a função de manter o produto macio e flexível. Os solventes (acetato de n‑butil e acetato de etil) têm a funcionalidade de dissolver os componentes da formulação e devem secar de forma rápida e deixar a película colorida na unha. Outras substâncias também podem ser incorporadas à formulação, como os diluentes (tolueno e álcool isopropílico) com a função de manter a viscosidade do esmalte baixa, além de diminuírem o cisto do produto. Os agentes de coloração são pigmentos selecionados de acordo com a lista de substâncias autorizadas pela Anvisa. Os agentes de suspensão evitam que os pigmentos decantem no fundo do recipiente em que estão acondicionados. Os filtros especiais podem ser adicionados à composição para promover um aspecto macio, pelo aumento dareflexão da luz. Os problemas adversos relacionados aos esmaltes estão ligados à coloração da placa ungueal e à dermatite alérgica. A coloração inadequada (manchas) à placa ungueal se dá pela solubilização inadequada dos pigmentos, que devem estar suspensos. A dermatite alérgica pode ser vista em pessoas que apresentam sensibilidade a determinados componentes como a resina toluenossulfonamida/formaldeído, desenvolvendo edema e eritema da prega de unha proximal, sensibilidade na ponta dos dedos e intumescimento e/ou dermatite da palpebral. 150 Unidade III A qualidade de um esmalte pode ser avaliada pela dureza da película, resistência à água, aderência à unha e resistência à abrasão. Saiba mais Conheça a lista de pigmentos autorizados pela Anvisa: ANVISA. Resolução – RDC n. 44, de 9 de agosto de 2012: aprova o Regulamento Técnico Mercosul sobre “Lista de substâncias corantes permitidas para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes” e dá outras providências. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/legislacao#/ visualizar/28892. Acesso em: 19 mai. 2020. 6.1.4.2 Enrigecedores de unhas São formulações utilizadas para aumentar a resistência das unhas com pouca resistência, permitindo que cheguem a comprimentos maiores antes de ocorrer a quebra. A principal causa de unhas quebradiças é o contato excessivo com detergentes e água. A composição de uma fórmula de um endurecedor pode ser bastante variada, como a presença de elevadas concentrações de formaldeído (superior a 10%) responsável pela formação de onicólise, hiperqueratose subungueal, hemorragia subungueal reversível e coloração azulada da placa das unhas. Em decorrência das adversidades provocadas pelo formaldeído, atualmente o concentração máxima permitida pela Anvisa é de 0,05%. Observação Onicólise é o descolamento do leito da unha a partir da ponta (distal) ou, ainda, dos lados. Ocorre principalmente no dedo anelar, mas não é raro acometer as outras unhas. Frequentemente é causada pela psoríase, mas também pode ocorrer na tireotoxicose, no entanto, acredita‑se que está relacionada com a hiperatividade do sistema nervoso simpático. Com o surgimento da onicólise, a unha passa a ter uma coloração branco‑acinzentada causada pela presença de ar sob a unha no espaço subungueal, que pode acumular sujeiras e restos de queratina, no entanto a cor ainda pode variar de amarelo a castanho. A hiperqueratose subungueal é considerada uma anomalia identificada pelo acúmulo de detritos córneos sob a lâmina da unha, capaz de promover o estrangulamento do leito, alterando, assim, o formato e a coloração da unha, deixando o tom amarelado. 151 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS 6.1.4.3 Removedores de esmaltes São produtos destinados a retirar o esmalte contido na placa ungueal e são formados por solventes como a acetona, álcool, acetato de etil ou acetato de butil. Outro tipo de produto com a finalidade de remoção de esmaltes são os removedores condicionadores que agem como umectantes oclusivos das unhas e apresentam em sua composição material graxo como álcool cetil, palmitato de cetil, lanolina, óleo de castor ou outro óleo sintético. Produtos para remover o esmalte podem causar irritação e ressecamento à placa ungueal e em tecidos paronquiais e enfraquecimento da unha. 6.1.4.4 Removedores de cutículas Os removedores de cutículas são formulações líquidas ou cremosas que contêm substância alcalina com a capacidade de destruir a queratina presente nas cutículas. A remoção da cutícula é uma prática comum de muitos profissionais em determinados países, sendo esta responsável por alguns problemas associados às manicures. A remoção das cutículas favorece o surgimento de inflamação paroniquial com infecção bacteriana secundária ou, ainda, colonização por levedura. Um removedor de cutícula pode conter em sua formulação sódio ou hidróxido de sódio (um conhecido irritante primário utilizado nas concentrações de 2 a 5%) e um agente umectante (propilenoglicol ou glicerina). Quando se deseja uma formulação mais suave utiliza‑se o fosfato de trissódio ou o polifosfato de tetrassódio, no entanto, a ação é menos eficiente. Alguns produtos dessa categoria são conhecidos como amacientes de cutículas e são compostos por amômia quaternária (3 a 5%), e, algumas vezes, associados à ureia, fovorecendo o amaciamento da proteína cuticular e facilitando a remoção mecânica. Pela presença de agente alcalino é muito comum o surgimento de efeitos adversos como dermatite de contato irritante e infecção bacteriana secundária e ainda infecção causada por levedura. 6.1.4.5 Umectantes para unhas São produtos indicados para pessoas que possuem unhas secas, quebradiças, fissuradas e/ou lascadas. Uma unha com características normais possui aproximadamente 16% de água, no entanto, essa proporção pode ser alterada pela umidade relativa do ar e ainda pelo uso de agentes agressivos que promovem ressecamento e desidratação. Os produtos dessa classe de cosmético são apresentados sob a forma de cremes e loções com a presença de agente oclusivo (parafina, óleo mineral ou lanolina), agente umectante (glicerina, propilenoglicol e proteínas), substâncias que podem aumentar a ligação entre a água e a placa da unha (alfa‑hidroxiácidos, ácido lático e ureia), na concentração máxima de 5%, com exceção para o ácido láctico, que pode ser usado em concentrações que variam de 12 a 30%. As reações adversas mais comuns são as relacionadas à presença de substâncias como alfa‑hidroxiácidos, ácido lático e ureia, que podem causar ferimento e dermatite de contato em usuários mais predispostos. 152 Unidade III 6.2 Cosméticos diferenciados 6.2.1 Cosméticos masculinos Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, o mercado masculino de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (HPPC) tem se tornado uma tendência mundial. Nos últimos anos, o mercado voltado ao público masculino aumentou aproximadamente 25% em parâmetros mundiais e, no Brasil, o consumo dos itens HPPC dobrou, com destaque para o consumo de sabonetes, produtos capilares e para barbear. Atualmente o mercado brasileiro de produtos cosméticos masculinos está em segundo no ranking de maiores consumidores, movimentando cerca de 4,7 bilhões de dólares. É estimado que o mercado de beleza e cosméticos masculinos mantenha o crescimento de aproximadamente 7,1% ao ano e a projeção é que o Brasil se torne o líder desse ranking. Durante muito tempo, o cuidado com a beleza era considerado “coisa de mulher”, porém cada vez mais as pesquisas tentam entender a mudança de comportamento de compra e o consumo maior de cosméticos por parte do público masculino, caracterizado massivamente com o perfil do “jovem urbano”. A geração jovem é mais aberta ao uso de cosméticos. Muitos homens estão deixando os velhos conceitos e paradigmas de lado e adotando o uso de itens HPPC no seu dia a dia. E não é à toa que esse conceito de associação dos cuidados com a aparência corporal e sucesso profissional e pessoal tornou‑se essencial para a manutenção do bem‑estar, segurança e autoestima masculina. Apesar de não apresentarem grandes diferenças nas formulações, os cosméticos femininos e masculinos possuem mercados distintos e o principal motivo para isso é que os homens não têm as mesmas exigências que as mulheres e vice‑versa. No entanto, algumas características devem ser levadas em consideração no momento de escolher o cosmético masculino, como: secagem rápida, invisibilidade após a aplicação, fácil utilização, além de ser inodoro. A composição da microflora cutânea também altera de acordo com o gênero, a pele masculina é mais espessa e oleosa, pela presença de um maior número de glândulas sebáceas, que respondem justamente à testosterona, e pela quantidade de ácidos graxos e tióis voláteis, promovem que os odores sejam específicos por sexo. 6.2.1.1 Produtos de barbear O processo de barbear, em alguns casos,é considerado uma necessidade cotidiana associada à higienização da pele, mas pode causar agressões, frente a isso, os produtos de barbear passaram a ser pensados e desenvolvidos. Os produtos de barbear devem apresentar algumas condições: ajudar a erigir e endurecer o pelo (se o barbeamento acontecer com aparelho elétrico), tornar o pelo flexível, umedecido e com menor resistência 153 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS (se o barbeamento for mecânico), prevenir irritação, proteger a pele da lâmina (efeito filmógeno), limitar o desengorduramento pela remoção do manto‑hidrolipídico e respeitar o pH fisiológico cutâneo. Cosméticos para o barbeamento são apresentados na forma de loção, mousse, creme, gel, podendo ser indicados para todos os tipos de pele. A composição básica desses produtos compreende: tensoativos não iônicos (ésteres de sacarose), emolientes (glicerol e sorbitol), agentes espumógenos, no caso do mousse, substâncias anti‑irritantes (alantoína, calêndula, alfabisabolol), agentes filmógenos e protetores (povidona, polímero derivado da celulose), suavizantes (lipoaminoácido, lanolina, camomila), hemostáticos (gliconato de cálcio) e antissépticos (irgasan, triclocarban, glicirrizinato, hexamidina). 6.2.1.2 Produtos pós‑barba Esse tipo de produdo é aplicado após o processo de barbeamento e deve apresentar atividade cicatrizante e refrescante, além de diminuir as reações de irritação promovidas pela ação da lâmina como a vermelhidão, comichões e sensação de repuxamento. Promove, ainda, a hidratação. São apresentados sob a forma de emulsões fluidas não gordurosas, bálsamo, gel e loção. Entre os produtos contidos na formulação temos os cicatrizantes (alantoína, pantenol, gliconato de cálcio), refrescante (mentol), anti‑irritante (camomila, hamamelis, bisabolol, óleo de cártamo) e hidratantes (triglicerídeos, piroglutamato de sódio, glicerina, aminoácidos, Aloe vera, pró‑colágeno). 6.2.1.3 Produtos de cuidado da pele Os cosméticos masculinos para cuidados da pele, de uma forma geral, apresentam praticamente a mesma composição dos produtos utilizados pelas mulheres, no entanto, algumas características devem ser observadas no tocante aos fatores intrínsecos, como a questão hormonal, e à exposição a fatores extrínsecos. A pele masculina apresenta algumas diferenças da pele feminina, fazendo com que se pense em alterações nas formulações de cosméticos, que os façam direcionados ao público masculino. No entanto, quando pensamos em cosméticos masculinos, devemos considerar que os homens não possuem as mesmas necessidades que as mulheres, por isso os cosméticos direcionados a esse público devem apresentar toque seco, ser multifuncionais, de fácil utilização e invisíveis após aplicação. Outra condição da pele masculina relaciona‑se a fatores ligados à testosterona, responsável pelas características masculinas, ocasionando uma pele oleosa, com comedões, óstios dilatados e presença de algum tipo de acne e promovendo alteração (elevação) do pH fisiológico, diminuição do filme protetor (manto‑hidrolipídico), desidratação e destruição ou alteração da microbiota. Dessa forma, os produtos de cuidados faciais indicados para os homens devem proporcionar hidratação, proteção, equalização do fluxo seborreico e reesestruturação da pele. Para isso, existem no mercado diversos produtos como: • Cremes hidratantes: emulsões leves, não gordurosas e, em determinados casos hidratantes, protetoras e restauradoras. Contêm colágeno, plâncton termal, vitamina E, alfa bisabolol, alantoína, glicerol, flitros UVA/UVB. 154 Unidade III • Cremes reestruturantes: normalmente apresentam mais de uma função, podendo ser, além de reestruturantes, firmadores e antifadiga. Contêm extratos biológicos, aminoácidos, lipossomas e glutamato de arginina. • Desencrustantes: são gomagens leves que limpam a pele, eliminando o excesso de sebo, retiram as camadas de células mortas superficiais favorecendo a renovaçãoo celular, normalmente apresentadas sob a forma de gel com a presença de goma polivinílica; • Máscaras: apresentam ação estimulante, firmadoras à base albumina e extratos vegetais. 6.2.2 Cosméticos infantis As principais características da pele infantil estão relacionadas com a sua maciez, sensibilidade e fragilidade. Tais características estão relacionadas com a baixa atividade das glândulas sebáceas e, consequentemente, com quantidades menores de lipídios, pH neutro, o que diminui a defesa e possibilita a proliferação de microrganismos e elevado teor de água. A pele da criança apresenta as seguintes características: • É delicada, pois a pele da criança ainda se encontra em processo de maturação do seu sistema de defesa, sendo facilmente permeada na primeira quinzena de vida por substâncias exógenas, e, ainda, está menos preparada na manutenção da homeostasia. À medida que a criança cresce, a pele vai se tornando cada vez mais impermeável, mas não se deve compará‑la com a pele de um adulto. • É fácil de ser agredida. • Está mais propensa à descamação e à perda de água, gerando uma menor resistência aos agentes externos, pois as células córneas estão menos coesas. A atividade das glândulas sebáceas da pele infantil não aumenta até as mudanças hormonais da puberdade, que ocorrem por volta dos 12 anos. Tais mudanças hormonais também causam diferenças na estrutura e no comportamento das peles de meninos e de meninas, que até essa idade são iguais. A pele humana possui diversas funções, no entanto, a mais importante é a sua função de barreira, controlando a passagem de substâncias de dentro para fora e de fora para dentro, protegendo e prevenindo, assim, a desidratação. Outra função de relevância diz respeito à proteção contra agentes externos e à termorregulação. Durante todo a vida a pele vai passando por diversas transformações estruturais e anatômicas. O formulador de produtos infantis deve selecionar de forma criteriosa e adequada os insumos e componentes apropriados e seguros para a finalidade a que se propõe. A Anvisa determina listas de materiais que poderão ser utilizados nos cosméticos infantis como fragrâncias – RDC n. 3 (ANVISA, 2012a) – e corantes – RDC n. 44 (ANVISA, 2012c), além de cumprir o que está determinado na RDC n. 29 155 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS (ANVISA, 2012b), que seleciona as substâncias de ação conservante permitidas para uso em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes. Assim, cabe ao formulador avaliar a toxicidade desses materiais e fazer seus estudos de segurança e testes de compatibilidade cutânea, assim como realizar testes de bancada para a comprovação de sua estabilidade físico‑química, de sua compatibilidade com a embalagem e de seu sensorial em uso. A seguir, abordaremos alguns cosméticos infantis que englobam as seguintes categorias: limpeza e higienização, sabonetes, inibição do hábito de roer as unhas, prevenção de assaduras e repelentes de insetos. 6.2.2.1 Produtos de limpeza e higienização Esses produtos são destinados a limpar e refrescar de forma delicada e sem enxágue a pele do bebê ou da criança pela remoção de sujidades resistentes, como os resíduos de pomada e creme de assaduras ou, ainda, os resíduos fecais e urinários. Essa categoria é composta de toalha umedecida, lenço umedecido, loção de limpeza em emulsão, água e fluido de limpeza. São produtos com ação suave para minimizar possíveis reações alérgicas e devem apresentar pH em torno de 5,00‑6,00. Dessa forma, faz‑se necessário selecionar de forma criteriosa os agentes de limpeza (tensoativos), utilizando quantidades mínimas, já que apresentam a capacidade de remover de forma excessiva os lipídios da superfície da pele. As matérias‑primas utilizadas como agente de higienização devem contemplar tensoativos suaves (aniônicos e anfotéricos), ativos calmantes e suavizantes, que podem auxiliar na limpeza, na higienização e nos cuidados da pele. Os tensoativos mais indicados para produtos infantis são o cocoil glutamatode sódio e o cocoanfoacetato de sódio, que possuem baixo grau de irritabilidade e boa compatibilidade com a pele e as mucosas, além de terem efeito condicionante. Os ativos calmantes e suavizantes têm papel importante nesse tipo de formulação, pois tratarão a pele contra possíveis agressões. Podemos citar como exemplo a alantoína e os extratos vegetais (Aloe vera e calêndula). Outra condição que merece atenção é a escolha dos agentes de conservação e a fragrância. Os preservantes mais indicados são ácido capril‑hidroxâmico, 1,2‑hexanodiol, propenodiol, o benzoato de sódio, sorbato de potássio e, ainda, a biguanida de polaminopropila 6.2.2.2 Sabonetes São agentes de limpeza obtidos pela ação de uma base em uma mistura de ésteres de ácidos graxos. Os sabonetes tradicionais na forma de barra possuem bom poder de limpeza e produzem bastante espuma, mas podem causar irritação, por apresentarem pH alcalino. A composição básica de uma base de sabonete de origem animal ou vegetal compreende aditivos estabilizantes (disodium distyrylbiphenyl disulfonate, ácido etidrônico e tetrasodium EDTA), além de glicerina, perfume, extratos, corantes e dióxido de titânio e apresentam pH em torno de 10,0‑11,0. 156 Unidade III Outra classe de sabonetes são os glicerinados, compostos de uma base de sabonete de origem animal ou vegetal, glicerina, sucrose, ácido esteárico, trietanolamina, perfume e corante. A alternativa mais suave para obter um sabonete em barra é usar os syndets ou sabonetes sintéticos, que são compostos de tensoativos com bom efeito detergente, pH neutro ou ligeiramente ácido (em torno de 5,5‑7,0) e, consequentemente, com menor probabilidade de causar irritação dérmica. São compostos de isotianato de sódio, estearato de sódio, sodium tallowate, cocoato de sódio, ácido esteárico, sulfato de sódio, ácido graxo de coco, cocoamidopropil betaína, ácido etidrônico, perfume, extratos, corantes, dióxido de titânio, tetrasodium EDTA. 6.2.2.3 Produtos para inibir o hábito de roer unhas São produtos que auxiliam na inibição do hábito de roer unhas pelo gosto amargo apresentado pelo produto. São soluções líquidas ou géis compostos por uma substância química não tóxica e de sabor amargo mais conhecido (benzoato de denatônio). Algumas formulações associam substâncias naturais (gengibre) ao produto, que possam promover características ácidas ao produto e, ainda, aumentar a sensação de amargor. As formulações devem ter pH em torno de 6,5‑7,5. 6.2.2.4 Produtos para prevenir assaduras São produtos que auxiliam na prevenção do surgimento de dermatite de contato irritativa, uma das afecções mais comuns da pele infantil, causada principalmente pelo contato da pele com a fralda, também conhecida por “assadura”. A dermatite das fraldas é uma designação dada à condição inflamatória localizada na zona da pele (do bebê) que está em contato com a fralda. A oclusão causada pelas fraldas dá origem à maceração e, consequentemente, à irritação cutânea. A fricção confere à pele maior susceptibilidade à ruptura pelo atrito, gerado entre a sua superfície e a fralda e, paralelamente, com o contato prolongado da pele com a urina e/ou as fezes. Bactérias possuem a capacidade de converter a ureia da urina em amônia, elevando o pH cutâneo e tornando a pele mais suscetível a infecções. A ureia é considerada uma substância irritante para a pele. Outra forma de sensibilizar e irritar a pele é pela presença de resíduos químicos ou detergentes de lavagem presentes nas fraldas, sabões, ou até mesmo alguma loção aplicada diretamente na pele. Com a alteração do pH da pele, pode ter início um processo de infecções oportunistas de origem bacteriana, fúngica ou viral. Assim, o melhor tratamento para a dermatite das fraldas é a prevenção, com o uso de cremes e pomadas contendo óxido de zinco, que auxiliam na prevenção do surgimento das assaduras, pela sua ação protetora, anti‑inflamatória e cicatrizante da pele. As formas cosméticas de emulsão ou pomada têm efeito hidratante na pele e, geralmente, são compostas de óleo de amêndoas e d‑pantenol, um poderoso hidratante, melhorando a barreira cutânea. Por estarem apresentadas sob a forma de emulsões (óleo em água ou água em óleo) é necessária a presença de agente emulsionante, além de agentes suspensores para sua estabilização (polímero cruzado de acrilatos / acrilato de alquila c10‑30, dioleato de metil glicose, álcool cetearílico e fosfato dicetílico, entre outros). Os produtos para prevenção de assaduras possuem pH em torno de 7,0‑8,5. 157 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS 6.2.2.5 Repelente de insetos Os repelentes podem ser classificados como produtos cosméticos. São apresentados no mercado nas mais variadas formas (loções, géis, misturas líquidas, spray) e aplicados diretamente sobre a pele. Devem possuir estudos de eficácia para serem aprovados pela Anvisa, além de seguir legislação específica (ANVISA, 2013), que dispõe sobre os requisitos técnicos para a concessão de registro de produtos cosméticos repelentes de insetos. Os produtos repelentes de insetos são comercializados nas seguintes apresentações: • Spray: apresenta forma líquida, pH entre 7,0 e 8,5, composto de álcool, água, ativo repelente e fragrância, podendo ainda ser adicionado ao produto algum emoliente ou extrato com função de auxiliar na sua cosmeticidade. • Loção: tem forma de emulsão, sendo composta de emulsionantes (estearato de gliceril (e) estearato de PEG‑100, cera emulsificante não iônica, silicato de alumínio e magnésio), além de água, ativo repelente, fragrância e emolientes e apresenta pH entre 6,0 e 7,0. • Gel: apresenta forma de gelificada, pH entre 6,0 e 7,0, sendo composta de álcool, água, ativo repelente, fragrância e um polímero formador de gel (carbômero, polímero cruzado de hidroxietilcelulose (e) acrilatos/isodecanoato de vinil). Os ativos repelentes aprovados para uso são: dietil tolu‑amida (DEET), butilacetilaminopropionato de etila (IR3535) e icaridina (picaridina), além das substâncias citasa, algumas formulações utilizam óleos essenciais de lavanda, neem, eucalipto, citronela, copaíba, alecrim e cravo para completar a formulação. O uso do ativo DEET tem uma legislação específica (ANVISA, 2013) que apresenta o limite máximo de uso, permitindo‑o em crianças de 2 a 12 anos de idade, desde que a concentração do referido ingrediente não seja superior a 10% e restrita a apenas três aplicações diárias, evitando‑se assim o uso prolongado. 6.2.3 Cosméticos prebióticos e probióticos Uma nova tendência nas indústrias de cosméticos está em utilizar os prebióticos e probióticos. Antes de estudarmos os cosméticos, é importante que se tenha o entendimento de como o microbioma da pele humana é influenciado por esses produtos. Segundo Murray (2000), o microbioma humano são comunidades de microrganismos que vivem nos diversos hábitats do corpo humano, desempenhando papéis fundamentais, quer na saúde humana, quer nas doenças. O microbioma humano inclui a população de bactérias que habitam o corpo do ser humano. Até pouco tempo atrás, falava‑se que a quantidade de células dos microrganismos seria dez vezes maior que o número de células humanas. No entanto, hoje se tem o conceito de que as células humanas 158 Unidade III sejam 43% do total de células do corpo e os microrganismos cheguem a 57%. Se considerarmos a relação com o genoma humano, a diferença é considerável, sendo de aproximadamente 20 mil genes humanos para cerca de 2 a 20 milhões de genes do microbioma. A pele humana é um ecossistema com diversos tipos de microambientes, com dobras, invaginações e nichos colonizados por diversos microrganismos, incluindo bactérias, fungos, vírus e ácaros, formando o microbioma. Diversos fatores influenciam na formação do microbioma de cada pessoa, são eles: genética, idade, alimentação, estilo de vida, fatores emocionais, o ambiente externo a que o indivíduo está exposto e uso de medicamentos e cosméticos. Microrganismo: BactériasFungos Vírus Ácaros Glândula Glândula sudoríparasudorípara Glândula Glândula sebáceasebácea Poro por onde Poro por onde sai o suorsai o suor Fio de Fio de cabelocabelo Figura 42 – Representação esquemática da histologia da pele com microrganismos e anexos cutâneos A OMS define probióticos como sendo os organismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, promovem benefício à saúde. Lembrete Probióticos são microrganismos vivos, que, se aplicados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro e regulação da flora residente. Prebióticos são carboidratos não digeríveis, que afetam beneficamente o hospedeiro, por estimularem seletivamente a proliferação e/ou atividade de populações de bactérias e em cosméticos, de uma forma simples, funcionam como alimento dos probióticos. Entre os benefícios que os probióticos promovem, podem ser citados o controle que exercem sobre a flora intestinal, a melhora na absorção dos nutrientes dos alimentos, a modulação do microbioma cutâneo, o aumento na absorção de água pela pele e, com isso, o aumento da hidratação e nutrição da pele. 159 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Os probióticos estimulam as células do tecido cutâneo, principalmente fibroblastos, formando mais fibras colágenas e elásticas e aumentando a síntese de colágeno e elastina. Aumentam também a utilização de oxigênio, e, com o aumento da oxigenação, ativam e incrementam o metabolismo e funcionamento geral das células. Ao mesmo tempo, protegem as células contra o estresse oxidativo. Os probióticos apresentam‑se na forma de leites fermentados, iogurtes ou na forma de pó ou cápsulas (kefir, kombucha e em cosméticos). Os cosméticos se utilizam de células vivas irradiadas com luz ultravioleta em dose não letal, que provoca uma série de mecanismos de proteção, resultando num extrato protoplasmático chamado LYCD, nome originado da língua inglesa live yeast cells derived e traduzido para a língua portuguesa como derivado de células de leveduras vivas. O LYCD promove uma resposta às ações de agressões ao tecido cutâneo, aumentando a resistência da pele, equilibrando a homeostase e equilibrando a microbiota dos microrganismos pertencentes à pele. Os prebióticos são componentes alimentares ricos em fibras não digeríveis, são indigeríveis no trato gastrointestinal, até chegarem ao cólon e lá serão fermentados pela microflora intestinal. Estimulam seletivamente a proliferação ou atividade de populações de bactérias desejáveis no cólon. Conferem benefícios à saúde do hospedeiro associados à modulação do microbioma. São fontes naturais de energia para o crescimento da flora bacteriana saudável e estimulam a proliferação de bactérias desejáveis. De uma forma geral, os prebióticos podem ser considerados como fibras, no entanto, nem todas as fibras podem ser consideradas prebióticos. As características que determinam uma fibra como prebiótico são: resistência ao contato com a acidez gástrica, absorção no trato gastrointestinal superior, fermentação pela microflora intestinal e estímulo do crescimento e/ou atividade das bactérias intestinais desejáveis para a saúde e o bem‑estar dos hospedeiros. Os prebióticos aparecem em fibras específicas de alimentos, como a: • Inulina: presente na cebola, alho, alho‑poró, aspargos, chicória, dente de leão, alcachofra, entre outros alimentos. • Pectina: casca da maçã e em frutas cítricas. • Lignina: cascas de oleaginosas (gergelim, linhaça) e leguminosas (soja, feijão). • Fibras de fruto‑oligosacarídeos (FOS): aveia, trigo, cebola, tomate, banana, cacau, yacon. E industrialmente são comercializadas como fibras em pós, em cápsulas e em formulações cosméticas. 160 Unidade III Os probióticos e prebióticos diminuem a colonização da pele por bactérias patogênicas, aumentam as benéficas, promovendo assim benefícios cutâneos através da modulação do microbioma. A modulação do microbioma é uma nova abordagem usada em cosmetologia, diferente do uso de substâncias antimicrobianas, que eliminam microrganismos. A modulação do microbioma auxilia a restabelecer o equilíbrio do microbioma do organismo. Na dermatologia e na estética, os probióticos e prebióticos são usados nos tratamentos de diversas patologias como a acne, a bromidose (odor desagradável nas axilas e nos pés), a hiperpigmentação pós‑inflamatória, lentigo solar, Psoríase vulgaris etc. Resumo Nos dias atuais, as insatisfações com as disfunções do corpo pela grande maioria da população mundial têm promovido alterações no comportamento psicológico e social. Pensando nisso, a indústria cosmética tem desenvolvido produtos cada vez mais eficientes e mais seguros nos tratamentos que envolvem a higienização, hidratação e nutrição da pele, além de alterações inestéticas como as decorrentes do envelhecimento, a acne, a gordura localizada, a mudança da cor da pele e as discromias cutâneas, utilizando produtos com ação anti‑inflamatória, cicatrizante, calmante, clareadores, incluindo a utilização de peelings. Existem diversos tipos de peelings, sendo que os mais conhecidos e utilizados são os peelings biológico, enzimático, físico, químico, mecânico, vegetais ou gommage e estético. E, ainda, produtos para os cabelos e pelos, unhas, além dos específicos como os masculinos, infantis e que se utilizam de microrganismos para a manutenção da microbiota da pele. Diversos outros compostos estão sempre em desenvolvimento e muitos deles são baseados em plantas e produtos naturais. No panorama atual é intensa a procura por produtos ligados à natureza, que sejam eficazes e menos agressivos. 161 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Exercícios Questão 1. (Enade, 2019) A celulite, também denominada de fibroedemageloide (FEG), é uma disfunção que atinge mulheres de todas as etnias após a puberdade e que altera o aspecto da pele, dando‑lhe a aparência de casca de laranja. Para melhorar essa condição, é possível utilizar uma técnica conhecida como vacuoterapia, em que aparelhos geradores de pressão negativa realizam uma sucção localizada. Bacelar, V. C. F.; Vieira, M. E. S. Importância da vacuoterapia no fibro edema geloide. Fisioterapia Brasil, v. 7, n. 6, p. 440‑443, 2006 (adaptado). Com relação aos objetivos do uso da vacuoterapia em pessoas com FEG, avalie as afirmativas a seguir: I – Incrementar as circulações sanguínea e linfática. II – Promover mobilização profunda da pele e do tecido subcutâneo. III – Maleabilizar o tecido conjuntivo, atuando nas estruturas fibróticas do tecido celulítico. IV – Promover a polimerização da substância fundamental amorfa. É correto o que se afirma em: A) I, II e III, apenas. B) I, II e IV, apenas. C) I, III e IV, apenas. D) II, III e IV, apenas. E) I, II, III e IV. Resposta correta: alternativa A. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: a vacuoterapia melhora a circulação sanguínea, linfática, eliminando zonas de tensão cutânea. Ela participa da mobilização dos tecidos fibrosados por uma ação mecânica simples, identifica e trata as dermalgias reflexas e aumenta a extensibilidade do colágeno. 162 Unidade III II – Afirmativa correta. Justificativa: a vacuoterapia promove uma mobilização profunda da pele e do tecido subcutâneo, permitindo um incremento da circulação sanguínea e linfática. III – Afirmativa correta. Justificativa: FEG é uma patologia crônica de amplo espectro e complexidade, porém a vacuoterapia tem uma importância grande na reversão do quadro por incrementar a circulação sanguínea e linfática, melhorar a maleabilidade do tecido conjuntivo e, assim, contribuir para a diminuição de aderências e fibrose. IV – Afirmativa incorreta. Justificativa: não promove a polimerização (combinação) da substância amorfa, e sim a mobilização desses tecidos com hipertrofia adipocitária, para desfazer as barreiras a todas as trocas vitais. Questão 2. (Enade, 2019) TEXTO 1 A desidratação é um dos fatores que mais prejudicam as funçõesorgânicas da pele, que é considerada hidratada quando contém a quantidade de água adequada. A hidratação cutânea pode ser influenciada pela quantidade de água ingerida, pela umidade do meio ambiente, pelo transporte de água das camadas mais inferiores da pele para a sua superfície e pela capacidade do estrato córneo de manter essa água. Para se proteger da perda de água, a pele dispõe de mecanismos de hidratação natural, porém eles podem ser complementados com o uso de hidratantes. BORGES, F. S.; SCORZA, F. A. Terapêutica em estética: conceitos e técnicas. São Paulo: Phorte, 2016 (adaptado). TEXTO 2 Uma marca de cosméticos profissionais anunciou um creme hidratante corporal, conforme descrição a seguir. 163 COSMETOLOGIA E FORMULAÇÕES COSMÉTICAS Hidratante corporal Óleo de coco, colágeno e ácido hialurônico Hidrata resgatando a maciez e a flexibilidade da pele. Revitaliza a aparência da pele, deixando‑a com um aspecto mais radiante e melhorando imediatamente o seu brilho e a sua textura. Fórmula leve, ideal para o dia a dia. Composição Figura 43 Considerando as informações apresentadas, avalie as afirmativas a seguir: I – O óleo de coco é emoliente e hidrata por oclusão ao formar barreira que limita a perda de água transepidermal. II – O cosmético hidratante deixa a pele luminosa e flexível pela capacidade de permeação do colágeno até a derme. III – A pele desidratada destaca‑se pela sensação de estiramento, descamação, opacidade, aspereza e presença de rugas finas. IV – O ácido hialurônico é um alfa‑hidroxi‑ácido que permeia a camada córnea e libera a água por mecanismos ativos na diferenciação celular. É correto o que se afirma em: A) I e II, apenas. B) I e III, apenas. C) II e IV, apenas. D) III e IV, apenas. E) I, II, III e IV. Resposta correta: alternativa B. 164 Unidade III Análise das afimativas I – Afirmativa correta. Justificativa: os ativos que atuam por oclusão (entre eles os óleos vegetais, ricos em triglicerídeos de ácidos graxos insaturados), formam um filme graxo superficial que impede a perda transepidermal de água, que fica retida entre o filme lipofílico (cosmético) e a camada córnea. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: os produtos cosméticos deixam a pele úmida e hidratada, recompõem as lamelas da camada córnea e induzem a formação de aquaporina. III – Afirmativa correta. Justificativa: a pele desidratada fica ressecada, dura, opaca, apresenta coceira e descamação. IV – Afirmativa incorreta. Justificativa: o ácido hialurônico é um alfa‑hidroxi‑ácido que faz a sustentação da pele, hidrata e preenche espaços, mas não age na diferenciação celular.