Prévia do material em texto
05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 1/55 Religião e religiosidade no mundo antigo Prof. Rodrigo Rainha Descrição As manifestações religiosas, com ênfase na Antiguidade, e a formulação do monoteísmo de hebreus e cristãos. Propósito Instrumentalizar os alunos interessados em estudar Antiguidade por um viés da religião, percebendo como essas relações ainda são vivas em nossa dinâmica social. Objetivos Módulo 1 Conceitos para o estudo da religião no mundo antigo Identificar conceitos que nos permitam o estudo de religião e religiosidade na Antiguidade. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 2/55 Módulo 2 Investigando abordagens religiosas na Antiguidade Reconhecer práticas religiosas associadas à investigação de documentos na Antiguidade no que tange às suas interpretações. Módulo 3 Eis que surge o monoteísmo Distinguir as características do monoteísmo hebraico e cristão. Introdução Estudar religião, em qualquer momento, é um desafio. Envolve paixões, negações e identidades. Muitas pessoas se definem por sua religião, não sendo só seu sistema de crenças, mas também a maneira como explicam sua própria existência. Por isso, um cuidado prévio que devemos ter é enfatizar que estamos falando de estudo, de cruzar dados filosóficos, científicos e socioculturais para compreender o fenômeno que chamamos de religião. A fé, os valores, as crenças dialogam com a prática e com as escolhas pessoais. Mas precisamos ter esse cuidado mesmo olhando para o mundo antigo? Sim. Afinal, a armadilha sobre o preconceito religioso pode estar sempre armada. Podemos ter poucos problemas para tratar de um Deus babilônio, como Marduk, ou um Deus grego, como Zeus ou Hórus, um Deus egípcio, mas a relação com o conhecimento deve ser igual ao tratarmos do Deus cristão - junto com Pai e Espírito Santo - Jesus ou Javé, a forma hebraica de se referir a “O Deus”. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 3/55 Outro alerta é sobre os purismos. Religiões, desaparecidas ou ainda existentes, têm nomes próximos, mas mensagens reinterpretadas à luz dos novos contextos. Os dogmas e as informações sobre as tradições religiosas são constantemente reescritos, e por causa disso ressignificados. Isso gera uma batalha de intelectuais sobre o que na etimologia é o mais correto, ou mais profundo, qual o princípio verdadeiro. Aqui não será o lugar desses debates, mas sim o de perceber a relação entre o estudo e as possibilidades do estudo de religião. O desejo não é alcançar a verdade, mas reconhecer as características das religiosidades escolhidas em termos de reminiscência e fortalecer os instrumentos de análise. 1 - Conceitos para o estudo da religião no mundo antigo Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car conceitos que nos permitam o estudo de religião e religiosidade na Antiguidade. O papel da religião nas sociedades antigas Iniciando os debates 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 4/55 A tentativa de estudar religião e religiosidade no mundo antigo é um trabalho de escolhas. O discurso religioso faz parte de praticamente todas as sociedades que se organizam no momento que costumamos chamar de Antiguidade. Povos como hititas, egípcios, sumérios, nórdicos, entre muitos outros, têm na religião o sentido explicativo do mundo e nas práticas individuais - conhecidas como religiosidades - muitas de suas marcas de práticas sociais. Sem recorte é impossível estudar porque tratam-se de: Inúmeros registros produzidos sobre o assunto a serem apresentados e discutidos Milhares de quilômetros possíveis de regiões a serem apresentadas e discutidas Milênios distintos de história a serem apresentados e discutidos As escolhas, quando observamos o volume de possibilidades, se basearam em dar fundamentos ao aluno para que ele tenha capacidade de, em primeiro lugar, estudar sobre os fenômenos religiosos. Entre os muitos caminhos que poderíamos seguir, escolhemos aqueles que dialogam mais intensamente com o mundo contemporâneo: o nascimento do monoteísmo, por isso dois módulos são dedicados a hebreus e cristãos. Antes de nos concentrarmos sobre essas relações, optamos por dar a escolha a todos que desejam estudar religião na Antiguidade demarcando como é possível fazê-lo, nos concentrando em observar o constructo entre a teologia política e os sacerdotes, percebendo que do diálogo entre estes é que são construídos os papéis religiosos. Depois passamos pelo exercício prático sobre o qual remetem os elementos religiosos e como podem ser associados a práticas econômicas, sociais e culturais. Passamos agora a nos concentrar sobre as ferramentas que nos permitirão esse desenvolvimento. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 5/55 O que é religião? As diferenças entre religião e religiosidade Religião tem vários sentidos repetidos no senso comum. O mais recorrente é a ideia do religare como sendo a ponte entre os mundos físico e metafísico, ou tangível e intangível, ou real e espiritual. Seja qual for a “ponte”, essa visão é limitada porque a religião é um fenômeno humano de interpretação do mundo e tem um forte viés de construção de valor social. Analisaremos o que isso significa a partir de um react com o professor Rodrigo Rainha: React: o armário e o discurso religioso Você já assistiu ao filme Homens de Preto 2? Vamos assistir e comentar um trecho, a “cena do armário”. Religião é diferente de religiosidade, apesar de se aproximarem: Religião A religião vem do processo de institucionalização e reconhecimento de práticas para além da ação individual, mas 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 6/55 dos reconhecimentos coletivos. Religiosidade A religiosidade representa um conjunto de práticas e elementos que são, constantemente, significados e ressignificados. Vikings carregam uma árvore recém-cortada para decorar os lares. Por exemplo, grupos nórdicos acendiam fogueiras em 23 de dezembro e enfeitavam as árvores com luzes (fogo), para sinalizar que o sol voltasse após noite mais longa do ano. As tradições cristãs adaptaram o modelo ao pinheiro e ao período de comemoração do Natal. Sociedades do sul, que sequer têm esse frio e cuja noite está longe de ser longa, usam em suas salas árvores de Natal, pinheiros enfeitados com luzes. A religião gera um esclarecimento que é ressignificado, rediscutido, reinventado, dependendo do ponto de vista. Com essa definição, claramente reduzida e que busca facilitar o entendimento, religião é desenvolvida a partir da organização de crenças e valores, em que determinadas lideranças assumem a função de explicação, ordenamentos e sentidos. Segundo Max Weber (1989), a liderança emerge ou da capacidade de explicar e difundir a mensagem ou daquele que possui o poder mágico e que, de forma carismática, é reconhecido. Exemplo As explicações sobre manifestações a serem seguidas facilitam a compreensão. Por exemplo, ao notar a relação entre os homens e as divindades no mundo grego - termo generalizante para fazer referência aos grupos que se identificavam com a cultura helênica -, onde os deuses têm um papel bem diferente do que na contemporaneidade entende-se por deidade. Os deuses fazem dos homens joguetes e estão 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 7/55 relacionados com o orgulho, as necessidades e os desejos. Quando, por exemplo, Apolo se apaixona, mais de uma vez,e se os mortais recusam seus desejos, ele os transforma em um tipo de árvore. Ainda que para nossa estranheza, é possível verificar que boa parte da construção do ideal do homem grego parte do ideal de educação da Grécia clássica, a paideia, que tem uma relação vívida com essa pressão “divina”. Dessas disputas, negações e aproximações, podemos perceber que o entendimento do que é religião e a sua relação com os seus seguidores não é linear. Outro exemplo está no zoroastrismo, prática de caráter religioso predominante entre os persas, em que Arimã - a mentira - e Ahura Mazda - a verdade - viviam em constantes buscas pelo equilíbrio e era necessário que os dois continuassem a existir. O equilíbrio das forças era um exercício recorrente, mas, claro, a religião de um período histórico pode ser apropriada e relida. Ormuzd, deus do zoroastrismo, representado em templo no Irã. Quando Dario I, que estava fora da linha de sucessão do Império Persa, vê a morte de sua liderança, Cambises II, encontra uma oportunidade de lutar contra o irmão, considerando-o como o mago de Arimã (a mentira) que teria roubado o trono do filho de Ciro II - Gaumata, nome adotado pelo o impostor que usurpou o trono da Pérsia de Cambises II. Para Ciro, a verdade se estabeleceu e sua teologia política passa a ser aquela que leva à verdade. Assim, o rei dos reis, a partir do governo de Dario I, seguia em busca de equilibrar as forças, mas impondo a verdade e estabelecendo-se contra as mentiras e seus inimigos. A religião foi algo reconhecido e ressignificado. A Inscrição de monte Beistum, no Irã, é um Patrimônio Mundial da UNESCO e possuí inscrições que narram, em três línguas e alfabetos diferentes - persa antigo, elamita e assiro-babilônio - a história de como Dario I assumiu o trono após derrubar um usurpador Gaumata. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 8/55 A antropologia do fenômeno religioso Rito, mito, ciência e magia A Antropologia, que estuda fenômenos religiosos, pode ser dividida por um conjunto de quatro referenciais mais comuns: Todas as religiões têm uma construção mitológica, uma tentativa de explicação de fenômenos naturais e sociais necessários conforme as trocas. Devemos compreender que o mito não é uma mentira. Mito é uma tentativa explicativa, ela não tem uma fundamentação, uma prova com características científicas. Mito é uma construção a partir da qual você interpreta aqueles fenômenos de uma determinada sociedade, sua história, hierarquia e disputas políticas. De alguma forma, está associado a determinados processos racionais, criando, assim, um símbolo para toda a sociedade. Saturno devorando um filho, Francisco de Goya, 1819-1823. Por exemplo, quando Cronos, o titã do tempo da mitologia grega - chamado de Saturno na mitologia romana -, para evitar que fosse destituído, comia os próprios filhos. Enganando-o - com a ajuda da esposa Reia - Zeus conseguirá uma vitória. Vitória essa que resultará na queda do próprio Cronos. A divindade que rompe o tempo é uma metáfora explicativa sobre o tempo e o poder dos deuses, seu caráter e forma como os homens se relacionam. Como mito, reconhecemos elementos da educação Mito 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 9/55 ética e moral da Grécia clássica, a Paideia e sua construção explicativa do cidadão grego ideal. O rito é necessário para que cada conjunto de práticas religiosas se torne compreensível. Dessa forma, possuir uma série de rituais ou práticas que sejam reconhecidas faz parte de sua estrutura de reconhecimento e poder. É importante ressaltar que não adianta pensar somente sobre o aspecto institucional, as pessoas que participam de uma religião precisam ter a capacidade de reconhecer as outras pessoas, e é isso que pode se dar em cerimoniais ou em pequenos atos do cotidiano. Pense, uma palavra, um gesto, um cumprimento. Por exemplo: os marcos do imperador eram postos em todas as grandes cidades do império romano e o imperador deveria ser saudado como um deus. Cristãos recusavam a saudação, pois em sua construção mitológica e em seus ritos, aquilo seria um grande equívoco e foram perseguidos e mortos por mais de dois séculos no Império Romano por seus mitos e ritos. A última prece dos mártires cristãos, Jean-Léon Gérôme, 1883. O ritual pode se consolidar nas trocas e nos diálogos que as pessoas fazem e ficam no grupo. Pode ser consolidado quando se usa trajes e na forma como um sacerdote se comporta. Vamos a outro exemplo: a iconografia dos deuses egípcios possui em determinados rituais reproduções recorrentes ao longo da história, como a adoção da coroa do faraó, que mistura elementos do Alto e do Baixo Nilo. Não era um símbolo somente político, mas de uma liderança religiosa. Uma religião tem figuras que são capazes de trazer a mensagem, de dominar as informações, explicar, interpretar os fenômenos e Rito Ciência 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 10/55 sinais. Aqueles que lideram os eventos e ofertam sentido a eles são os portadores do conhecimento, da verdade, da ciência. O reconhecimento cotidiano de grupos de especialistas é fundamental para as religiões. Esses especialistas de alguma maneira têm que ter em sua construção um efeito de “verdade”. Por isso todos têm uma ciência no sentido do conhecimento. São aqueles que serão ouvidos, como intérpretes das vontades e das práticas divinas e que, por isso, acabam se tornando lideranças religiosas. José interpreta os sonhos do faraó, Peter von Cornelius, 1816-1817. Por exemplo, pense na história de José do Egito interpretando o sonho do Faraó Apopi I, na tradição judaico-cristã. O sonho não era dele, no entanto, sua capacidade de interpretar e constituir a mensagem passa a ser reconhecida e ganha uma função que dialoga com esse fator de interpretar as vontades e as práticas divinas. Muita gente confunde a magia com prática mágica. Práticas mágicas são feitas por indivíduos, pode ou não configurar um processo de institucionalização. Magia é algo que pessoas não são capazes de fazer, como um ato concreto e reconhecido. Quando um grupo interpreta uma mensagem e fortalece a importância de seu poder mágico, tudo ganha sentido. Ter o poder mágico é um elemento importante, um exemplo é a transformação de água em vinho durante as bodas de Caná, que é considerado como o primeiro dos milagres de Jesus e é um aspecto do poder mágico e do reconhecimento de que o ato tem valor a partir de uma escolha divina que é a magia. Magia 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 11/55 As Bodas de Caná, Paolo Veronese, 1562-1563. A magia de uma religião envolve o individual, é o reconhecimento de como cada pessoa sente a magia em si, de forma única. Por exemplo: os episódios considerados milagres são ou não são milagres? Se é o que você sente em sua experiência religiosa, no aspecto individual, então é real. A magia é sempre marcada pelo seu aspecto individual, pela maneira como a pessoa sente e se coloca sobre aquilo, faz parte da construção da explicação da magia. Esses quatro fatores reunidos nos permitem de alguma forma entender como sua associação ganha algumas maneiras de ser explicada e como passa por um conjunto de práticas institucionais que acabam consolidando grupos que conseguem uma maior institucionalização e reconhecimento. Por exemplo, no Brasil, elementos da moral cristã acabam sendo presentes em torno do conjunto social, independentemente de você seguir ou não a religião, pois ela está introjetada na identidade do brasileiro. A cruz católica, com a representação da crucificação de Jesus Cristo, no Supremo Tribunal Federalbrasileiro, em 2020. Esse reconhecimento é sempre estabelecido por dois grandes grupos e instituições, aqueles que compartilham as práticas e que disputam posição internamente e os demais grupos sociais, que acabam por reconhecer a importância daquele campo. Esses conjuntos internos podem estabelecer ou não instituições como igrejas, templos, centros, cuja difusão de suas práticas é tão intensa e clara, que eles são reconhecidos para além de seus muros, além de seus praticantes, ainda que para negar reconhecendo seus fundamentos, nem que seja para criticar. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 12/55 Sociologia da religião Os códigos sociais em Weber A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber, 1934. Ao pesquisar sobre a abordagem weberiana das seitas protestantes e o espírito do capitalismo, notamos que seu principal predicado é a observação social. O autor lida com as influências e o papel da História na construção dos códigos sociais e suas transformações em momentos específicos. Chamando atenção para uma referência frequentemente por ele valorizada: não é a doutrina ética de uma religião, mas a forma de conduta ética a que são atribuídas recompensas é que importa, porque essas recompensas funcionam na forma e na condição dos respectivos bens de salvação. Essa conduta constitui o ethos específico de cada pessoa no sentido sociológico da palavra, que representa uma síntese dos costumes e traços comportamentais que distinguem um povo. Essa citação mostra qual a compreensão do autor sobre o próprio trabalho. Nesse sentido, observamos o quanto parece lhe impressionar a importância dos estudos sobre religião, dos aspectos sociais e das escolhas pessoais. Seu olhar propõe um modelo de leitura dos fenômenos religiosos e, principalmente, sua interação com a política, a economia e a cultura. Dos conceitos weberianos, importa-nos sua visão histórica da Sociologia da Religião, uma vez que a observação de “tais construções possibilita determinar o local tipológico do fenômeno histórico” (WEBER, 2002, p. 372). 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 13/55 Max Weber. Na visão weberiana, são densas as noções de ascetismo e misticismo: Ascetismo É uma ação que envolve o papel do devoto como um instrumento de Deus, liga-se às gradações de renúncia e interação com o mundo. O asceta age no século como forma de fuga. Misticismo É uma ação que visa ao estado de possessão do sagrado, é irracional, sem explicação para este mundo por ser voltado para outro. O místico evita agir na ordem do mundo. Neste ponto chegamos ao centro da proposta weberiana - a tensão entre religião e mundo, um concedendo sentido ao outro, ao mesmo tempo em que concorrem. Essa visão holística fundamenta a relação entre as práticas mágicas, místicas no seu centro, e o seu controle, ligado à ascese e à prática religiosa. As práticas mágicas, consideradas provenientes de caminhos da tensão entre mundo e religião, ganham aspectos singulares na disputa dos membros da elite religiosa por seu controle: 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 14/55 O mágico é o precursor do profeta, e o profeta do salvador, podendo se manifestar tanto como exemplares como emissários. (WEBER, 2002, p. 377) No papel desses agentes está estabelecida a noção de carisma mágico, no sentido de ser reconhecido como aquele que porta ou liga à salvação, esta última, manifestada quando um grupo ou alguém consegue a posse do carisma mágico. Tal busca por esse carisma inicia uma série de sistematizações e racionalizações de modo de vida, atribuindo ou ressignificando o que tem valor sagrado e condenando aquilo que se considera profano. Resumindo Esse é o espaço da ascese, da indicação do caminho prático e lógico da proposta do salvador. Mas, como, a partir de um modelo salvador/salvação, organiza-se na sociedade uma instituição religiosa complexa? Em Weber, essa operação acontece em três níveis entrelaçados: A “propaganda” de um salvador O controle do dogma por grupos estruturados A formação de sucessores quali�cados na construção das relações entre mestre e discípulo Os três níveis desse fenômeno, como toda a proposta weberiana, aparecem de formas diferentes em cada espaço pela: 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 15/55 Racionalização de cada local História de cada local Disputas de poder envolvidas É necessário sublinhar que a propaganda de um salvador é o oferecimento de um grande mestre, central, capaz de ser reconhecido por algo especial que possa ser legítimo junto às populações que têm a chance de segui-lo. Aqui, a presença do dogma deve ser realçada, já que favorece o controle e a sofisticação da mensagem. É algo que se pressupõe imutável, mas a partir das especificidades pode ser perfeitamente reinterpretado. E quem é o único capaz de fazê-lo? Aquele que se apresenta como o produtor legítimo no espaço religioso, o qual pode alcançar reconhecimento no corpo social. Essa construção permite que sejam estruturados porta-vozes autorizados, capazes de legitimar e justificar papéis sociais; o que, ao mesmo tempo, abre a possibilidade de uma reinterpretação dogmática e sua difusão. A religiosidade, uma vez estruturada, interage com diversas esferas sociais, como a econômica, a política, a estética, a erótica e a intelectual. No esquema weberiano são, portanto, apontadas 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 16/55 interlocuções e, principalmente, tensões que se manifestam entre diversos aspectos dessa sociedade. Os conceitos de habitus em Bourdieu Partindo da exposição do próprio sociólogo francês, Pierre Bourdieu, a compreensão de religião é marcada pelo controle dos bens de salvação e sua relação entre a Igreja e a sociedade. Para construir essa proposta, Bourdieu demonstra a influência de Max Weber em sua obra, ressaltando o papel da salvação e da formação de um corpo de especialistas, responsável por organizar hierarquicamente o espaço religioso e que se apresenta como condutor para os demais espaços sociais. Nas proposições bourdianas, daremos foco, particularmente, aos conceitos de: Um grupo regido por práticas comuns que têm o papel de integrar, fundamentar e legitimar determinados interesses. Podemos verificar esse conceito como o elo integrador, que aproxima esses elementos em torno de um conhecimento comum, suas práticas e formas de obtê-las. Um espaço que agrupa os membros que compartilham do mesmo habitus, mas que são marcados por disputas entre dominantes e dominados. É importante salientar que os campos são caracterizados pela disputa em todos os seus segmentos, não existindo a visão dualista de dominantes e dominados. Pelo contrário, o campo sobrevive e se modifica pela constante ação dos seus membros, via confrontos entre os diversos dominantes e dominados. Habitus Campo 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 17/55 Representantes de religiões de matriz africana protestam contra a depredação de terreiros e a intolerância religiosa em geral. Um conjunto de bens que são válidos no mercado interno de cada campo, e são disputados por seus membros como forma de ascensão na estrutura social. Esse capital se reflete como um todo no campo. Um grupo terá maior legitimidade junto à sociedade a partir do momento em que os seus bens simbólicos sejam conhecidos e reconhecidos pelos demais campos, constituindo nesse reconhecimento o poder simbólico. Regras de etiqueta à mesa exigidas em refeiçõesformais. Bourdieu identifica a educação como um conjunto de práticas, inscrito no habitus, e pelo qual a intenção dos dominantes no campo é vender aos demais participantes seu olhar e sua forma de ver o mundo. Nesse sentido, o autor rompe com a ideia de a educação ser um instrumento inovador, mas sim uma prática que garante a reprodução, algo que oferece regras e lógicas às disputas sociais. Para entendermos a função da legitimação que estará constantemente presente em nossa tese, devemos recorrer à explicação do próprio Bourdieu para seu papel no espaço religioso: A função genérica de legitimação não pode realizar-se sem que antes esteja especificada a função dos interesses religiosos ligados às diferentes posições na estrutura social. Isto ocorre Capital simbólico 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 18/55 pelo fato de que o interesse religioso naquilo que ele tem de pertinente para a sociologia, a saber, o interesse que um grupo ou uma classe encontra em um tipo determinado de prática ou crença religiosa e, sobretudo, na produção, reprodução, difusão e consumo de um tipo determinado de bens de salvação (dentre os quais a própria mensagem religiosa), é função do reforço que o poder de legitimação contido na religião considerada pode trazer à força material e simbólica possível de ser mobilizada por este grupo ou classe ao legitimar as propriedades materiais ou simbólicas associadas a uma posição determinada na estrutura social. (BOURDIEU, 1974, p. 48) Podemos observar, portanto, que sua ação política e intelectual fundamentam o seu poder. Devemos observar as lideranças eclesiásticas necessariamente como líderes locais com interesses religiosos, políticos, econômicos e sociais associados ao seu comando. Por conta do habitus religioso, suas disputas se manifestavam por meio de discursos. Logo, enfrentamentos políticos eram ressaltados em defesa da unidade religiosa. Apesar disso, a tensão entre a esfera política e religiosa acaba por ficar em segundo plano, já que o priorizado é a busca do monopólio eclesiástico da produção intelectual e a construção de sua própria unidade e coesão. Resumindo Com o controle do campo religioso, que dialoga profundamente com a educação, o conjunto religioso passa a afirmar constantemente sua importância, a determinar hierarquias, a estruturar o conjunto, ainda que em um primeiro momento de maneira idealizada. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 19/55 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Na busca de estudarmos o fenômeno religioso, é necessário entender que, ainda que de formas particulares, ele pode ser comparado em termos de suas práticas, facilitando a compreensão. Quando tratamos sobre como a sociologia de Weber discute a religião, chegamos à conclusão de que A a religião é ópio do povo, sendo considerada um fator de alienação e, por isso, deve ser investigado como ela serve ao controle social. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 20/55 Parabéns! A alternativa E está correta. Na visão weberiana, a religião é interpretada como numa relação de tensão entre como o homem se percebe e criação com o mundo. Dessas tensões surgem porta-vozes autorizados, capazes de legitimar e justificar papéis sociais. Questão 2 A Antropologia fornece instrumentos importantes para o estudo de religião e suas dinâmicas. Entre esses fatores da constituição e separação de classificações religiosas, podemos destacar B a religião é o conjunto de regras que funcionam em uma determinada sociedade, servindo pela moral, como forma de organizar suas estruturas. C a religião é parte do discurso de massa e, por isso, um fenômeno cultural de larga escala. D a religião é um fenômeno especificamente antropológico e deve ser estudado por métricas de mito, rito e magia. E a religião se expressa em uma tensão entre o homem e quem ele é, e a sociedade e o que ela representa. Sendo assim, ao assumir, na figura de seus portadores da mensagem, um discurso de verdade, acaba por gerar explicações sobre o funcionamento das coisas. A a magia, que constitui o conjunto de práticas de um grupo e sua reprodução. B o mito, que separa fenômenos religiosos, que tem fiéis, templos e dogmas, de mitologias como histórias genéricas e sem fundamento. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 21/55 Parabéns! A alternativa E está correta. Mito, rito, magia e ciência são alguns dos conceitos referenciais que são propostos por antropólogos diversos a fim de poderem analisar fenômenos religiosos distintos. A correlação de mito, como uma explicação metafísica, ciência como uma explicação física da mensagem, a magia como um fenômeno individual de crença e valor e o rito como práticas repetidas e identitárias. 2 - Investigando abordagens religiosas na Antiguidade Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer práticas religiosas associadas à investigação de documentos na Antiguidade no que tange às suas interpretações. C a ciência como uma adversária histórica da religião e que, por conta disso, deve ser negada como preceito do discurso religioso. D a magia como elemento diferencial das religiões em que as crenças populares são repletas em oposição à dogmática das religiões. E o rito, que serve de conjunto identitário e de práticas dos sujeitos, servindo para aproximar e negar grupos. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 22/55 Política e religião no Egito Antigo Nesse video o professor Rodrigo Rainha aborda a religião e política do Egito antigo Mesopotâmia A cidade e os deuses Encontro das águas dos rios Tigre e Eufrates, no Iraque. A região do entre rios Tigre e Eufrates é repleta de povos e culturas e, por consequência, de aspectos religiosos que se misturam. Um dos nomes que nos ajudam a pensar sobre a relação das cidades e das práticas religiosas na Mesopotâmia é a professora Gwendolyn Leick (2003). Ela destaca que, no poderoso legado da religião com o 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 23/55 crescimento das cidades, a constituição de seu papel na construção de identidades é um elemento que se torna vital. Em outras palavras, o papel dos sacerdotes em explicar, participar da administração e legitimar poderes os transforma em figuras políticas das mais importantes. Esses portadores da palavra vão defender os graus de diferenciação entre os grupos e reafirmar os fatores determinantes da administração: tomada de decisão relativa a conflitos, produção e distribuições da produção agrícola e justiça. Esses papeis, no entanto, só podem ser investigados graças aos monumentos que nos dão pistas desse seu papel. Rei mesopotâmico, Ur-Nammu, concedendo o governo de uma cidade a um patesi, um sumo sacerdote, cerca de 2.100 AEC. Um aspecto que devemos destacar é a ideia da relação deus-cidade. As cidades compartilhavam de um amplo e complexo panteão de deuses da mitologia mesopotâmica, mas cada cidade assumia um papel singular de representação política para cada um desses deuses, ou seja, cada cidade tinha sempre um deus específico que a definia. O rei Hammurabi, de pé, recebendo sua insígnia real de Marduk, na parte superior da estela do código de leis de Hammurabi. O principal deus da Babilônia era Marduk, sua representação poderia ter a forma de um leão alado ou, ainda, em sua forma humana. Ele tinha uma imagem que ficava no “centro de poder”. Tornou-se algo recorrente a ideia de que quando outrospovos conquistavam a Babilônia, a estátua sumia, e voltava quando os babilônios retomavam seu lugar, sendo o mito de Marduk a própria representação da força da cidade da Babilônia. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 24/55 Vamos investigar A historiadora Amanda Podany recorda um tablete de pedra com uma inscrição de Enannatum, um dos reis de Lagash. Também encontrado em um templo de Inanna, esse documento foi cuidadosamente guardado em uma caixa junto a uma estatueta de cobre de Shulutula, deus pessoal do rei. Inscrição de Enannatum. A inscrição começa com uma dedicatória à deusa, louva o fato de Enannatum ter construído templo grandioso e, ao fim, explica o propósito do tablete: "Pôs [este, o tablete] em seu lugar para que seu deus, Shulutula, pudesse rezar para Inanna para sempre". Esse texto, produzido por volta de 2450 AEC, pretendia "expressar pensamentos complexos e comemorar a piedade e devoção do rei" (PODANY, 2013, p. 46). A inscrição era o rei personificado: ela o substituía presencialmente para que a oração que continha funcionasse como a voz permanente de Enannatum. Acima, Eannatum liderando suas tropas à pé e embaixo, Eannatum liderando tropas em uma carruagem de guerra, Estela dos Abutres. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 25/55 Eannatum em traje completo, em uma reconstituição do fragmento da Estela dos Abutres. Essa noção de presentificação do rei por meio da escrita pode ser observada também nas estelas, que são pedras gravadas com inscrições ou registros que remetem à monumentalização, como no código de leis hamurabiano. Código de leis de Hammurabi, talhado em uma estela de 2,25m de altura, por volta de 1.700 AEC. Detalhe da estala do Código de leis de Hammurabi, localizada em 1901, no sudoeste do Irã e hoje exposta no Museu do Louvre. Em sua reforma jurídica, testemunhada pelos 282 parágrafos escritos nesse monolito negro de 2,25m, Hamurabi não apenas define as punições relativas aos atos, mas também se autoproclama e se presentifica. Ao final do prólogo, na parte superior da estela, escrita pelo escriba em primeira pessoa (na voz de Hamurabi), lê-se: “Quando o deus Marduk encarregou-me de fazer justiça aos povos, de ensinar o bom caminho ao país, eu estabeleci a verdade e o direito na linguagem do país, eu promovi o bem-estar do povo”. A imagem em relevo que 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 26/55 encabeça o documento reforça essa atribuição e presentificação do rei, representando-o em postura devota enquanto recebe as insígnias do poder. Marduk e os reis da Babilônia Vamos fazer a relação entre investigar um documento e dialogar com a religião, com o professor Rodrigo Rainha: Egito A religião e a palavra No Egito temos um grande exemplo do uso da palavra, ou dos registros das palavras e da religião. A sociedade egípcia é marcada por uma união simbólica entre o Alto e o Baixo Egito e lá também se consolidam tipos diversos de pesquisa, sendo uma delas os aspectos divinos e, por isso, coordenados e executados pelos sacerdotes. Anubis Retratado - antigo deus egípcio com cabeça de chacal. Anúbis era o deus da mumificação. Templo de Osíris em Abydos, Egito. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 27/55 O templo de Seti I, também conhecido como Grande Templo de Abidos, o centro religioso de maior veneração popular no Egito antigo. O templo de Seti I, também conhecido como Grande Templo de Abidos, o centro religioso de maior veneração popular no Egito antigo. O templo de Seti I, também conhecido como Grande Templo de Abidos, o centro religioso de maior veneração popular no Egito antigo. Trata-se de um sistema de escrita bastante longevo, surgido em 3200 a.C., pelo menos a considerar que o último texto descoberto até o momento data de 394. Era uma língua composta de mais ou menos 1.000 símbolos regulares, entre fonogramas, logogramas e terminativos. O grau de especialização para sua leitura era tão grande que exigia longos anos de formação como escriba. Não menos importante, nessa língua há, como lembra Ciro Flamarion Cardoso, uma unidade originária radical entre imagens e escrita. Vamos investigar 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 28/55 Estátua de Ramsés II como uma criança, 2006 AEC. Além das inscrições na base da estátua, há outro hieróglifo que a maioria de nós é incapaz de perceber e que pouquíssimos egípcios foram capazes de ler. Observe que o rei da XIX dinastia é representado com uma flexão de pernas e com uma das mãos na boca. Em sua cabeça está representado o deus Rá, o disco solar. Na outra mão, segura uma espécie de cajado com detalhes na base. Essas posições e elementos correspondem a três símbolos dos hieróglifos: o logograma ra, acima da cabeça do menino, e dois fonogramas biliterais: o formado pelas pernas e boca é lido como mes ou ms; o representado pelo cajado se lê sw ou su. Assim, conforme Ciro Cardoso apontou, isso quer dizer que na estatueta poderia ler-se hieroglificamente a palavra composta Ra-mes-su, isto é, a grafia, na época, do nome do rei Ramsés. A documentação escrita que chegou até nós, salvo exceções, tende a representar as aspirações e visões de mundo das elites. Como vimos, saber ler e escrever, ainda que não fosse uma exigência para a vida prática, costumava ser privilégio das elites em boa parte do mundo antigo. As imagens e documentos arqueológicos, ao contrário, tendem a ser mais disseminadas: ainda que feitas sob encomenda por algum sujeito abastado, os responsáveis pela produção costumavam ser trabalhadores especializados de classes populares, o que certamente influenciava os discursos imagéticos. O fato de a leitura das imagens dispensar o longo período de formação necessário para dominar as linguagens escritas permitiu não apenas ampliar o público, mas também os temas, assegurando que possamos estudar práticas laborais, vida cotidiana e muitos outros aspectos sociais de estratos da população que tendem a ser sub-representadas em escritos. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 29/55 Um relevo de aproximadamente 2300 AEC, localizado na tumba de um alto oficial do governo, de nome Ni-ankh-nesut, é um exemplar bem conservado de como os egípcios idealizavam a fartura na “vida após a vida”. Por meio dele é possível analisar o cotidiano de trabalhadores egípcios livres em um cenário de bonança e prosperidade. Hoje, sob a tutela do The Detroit Institute of Arts, vemos a imagem de dois grupos de trabalhadores interagindo por meio do mesmo frontalismo aplicado a Otávio Augusto no templo núbio. À esquerda, um pastor, com um bezerro nas costas, interrompe o trajeto que realizava com seu gado e observa o trabalho de pescadores que puxam uma rede cheia de peixes. O peso pode ser atestado pelo movimento de pernas e braços do primeiro pescador. Pescadores e pastor com seus animais. Relevo da tumba de Ni-ankh-nesut, 2300 AEC. The Detroit Institute of Arts, p. 468. Os peixes, aliás, foram tão cuidadosamente traçados, que é possível até mesmo identificar as espécies: o Mugil sp., Gnathonemus cyprinoides, Tilapia nilotica e Mormyrus kannume são todos peixes nativos do Nilo e seus canais, também representados pela linha que corta a cena na altura do joelho do pastor. Akhenaton, Nefertiti e seus filhos cultuando o deus Aton. A dinâmica entre a palavra e os sacerdotes e como isso representa poder politicamente pode ser observada no caso do faraó Akhenaton. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidadeno mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 30/55 Esse faraó da XVIII dinastia do Egito reinou por dezessete anos e morreu em 1336 ou 1334 AEC. Seu grande feito foi o rompimento com os sacerdotes, em especial os do templo de Amon. Ele passa, segundo documentos e registros, a construir templos dedicados ao deus Aton, o deus do disco solar e decreta que esse deus deveria ser entendido como a única divindade a ser cultuada e sendo o próprio faraó o único representante dessa divindade entre os mortais. As mudanças de Akhenaton apontam uma articulação política vitoriosa, pelo tempo de seu reinado e por conseguir passar a seu filho a continuidade dinástica. Seu filho, muito jovem, não consegue manter as mudanças, abandona o nome Tutankaton, para assumir Tutankamon, o mesmo faraó menino da história contada sobre a descoberta de uma tumba inteira, a tumba de um faraó considerado de menor importância. Grécia e Roma A religião e o poder As imagens também têm se mostrado um recurso importante para pensar os contatos e diálogos entre sociedades antigas. A ideia de “nação”, por princípio, não faz sentido para a Antiguidade. Porém, e sobretudo graças aos nacionalismos europeus do século XX, muitos historiadores foram induzidos ou optaram por uma abordagem que emula essa lógica moderna no mundo antigo. O efeito mais visível é que cada grande sociedade antiga foi estudada em estado de isolamento esplêndido, exceto em caso de guerras, quando forçosamente era preciso lembrar da existência de vizinhos ilustres. A globalização, que entrou em nosso debate público há pouco mais de trinta anos, estimulou a historiografia a repensar esse paradigma nacional e a refletir acerca das influências mútuas e do modo com que as culturas dialogavam entre si. Vamos investigar 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 31/55 Imperador representado como faraó em um templo, Núbia, Egito. O caso do imperador Otávio Augusto representado como faraó é um exemplo particular de um sintoma mais geral: os romanos eram hábeis em identificar os regimes visuais dos grupos dominados e se apropriar de suas linguagens para fins políticos. Em todo contato, por mais que novas práticas e objetos sejam forjados, há relações de poder que fazem com que as influências sejam assimétricas. No contexto de dominação do Egito, faz mais sentido que um imperador romano seja representado como faraó do que o contrário. Nem sempre, porém, essas diferenças são bem percebidas. Como último exemplo, os rytha gregos. Em Atenas, a partir do século V AEC, o uso do rython se tornou bem disseminado. Trata-se de um objeto ricamente adornado no qual uma das extremidades é aberta para receber o vinho e a outra quase sempre é acompanhada de cabeças de animais. O corpo da cerâmica costumava ser coberto com narrativas visuais. No rython ao lado, de aproximadamente 470 AEC, atribuído ao pintor Brygos, vê-se cenas de simpósios gregos acima e atrás da cabeça de carneiro que ocupa a base. O aproveitamento dos espaços disponíveis mostra que o artesão estava bastante atento à importância das imagens que fazem referência ao provável momento em que esse vaso era usado. Rython de cerâmica ática atribuído ao pintor Brygos, 480-470 AEC, Cleveland Museum of Art, Ohio, EUA. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 32/55 Rython aquemênida de prata com patas e cabeça de um carneiro, século V AEC, Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA. Não menos curioso é o fato de que esses vasos - pouco funcionais para a forma grega de beber - são de origem oriental, como podemos observar no exemplo da imagem ao lado. Muito consumidos na Pérsia, que os gregos, sob a liderança de Atenas, tinham derrotado há poucos anos. A vitória no mar garantiu enorme prestígio e vantagens políticas para essa pólis, que passou a exigir tributos e a exportar a perspectiva de que a liberdade contra os “bárbaros” teria sido um presente ateniense a toda Grécia. Ao fim da guerra, a derrota de Xerxes aumentou exponencialmente o capital político, o poder militar e a influência econômica de Atenas. Re�exão Ora, em uma relação de guerra, tendemos a acreditar que a influência cultural é exercida pelo vencedor sobre o vencido. Então, por que Atenas estaria adaptando para si um modelo de vaso amplamente utilizado pelo seu adversário? Como se sabe, não há explicações monocausais em História, mas um bom argumento sugere a necessidade de manter a proximidade com a cultura do derrotado para assegurar a sobrevivência da memória dessa guerra tão importante para a política externa de Atenas. Segundo o historiador Pierre Romana Fernandes: [...] a recepção ‘negociada’ dos rytha [...] pode ser compreendida como recursos manipulados estrategicamente por atenienses, desde o processo de fabricação até o seu uso, para a obtenção de uma posição hegemônica dentro de sua comunidade de aliados. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 33/55 (FERNANDES, 2020, p. 114) Essa vitória não gerou impacto significativo no vastíssimo Império Persa, que seguiu poderoso; para os gregos foi uma oportunidade única para defender seus próprios méritos. Os contatos e influências mútuas mostram que situações de guerra não são contatos esporádicos ou casuais, mas parte das conectividades que nos ajudam a superar a lógica da “nação” que isola algumas sociedades de outras. Os discursos sobre o valor grego nas guerras greco-pérsicas, indispensável para avaliar essas cerâmicas, não se mantiveram restritos à Antiguidade: os europeus da modernidade fizeram amplo uso dessa vitória na condição autoproclamada de herdeiros. O filósofo liberal inglês John Stuart Mill chegou a afirmar que a Batalha de Maratona, ocorrida no verão de 490 a.C., foi a mais importante batalha da história inglesa, superando, inclusive, a célebre Batalha de Hastings (1066). Segundo sua lógica, se o resultado do embate contra os persas tivesse sido diferente, os bretões e os saxões poderiam ter alterado o curso da história inglesa. John Stuart Mill. Notem: elementos e batalhas que misturam a atuação das divindades e de política acabam sendo ressaltados como uma força singular na maneira de contar a história e o tempo. Podemos andar de região em região e colecionaremos feitos políticos associados a feitos dos deuses. Exemplo Roma tem muitos exemplos: a intervenção divina em prol de Rômulo e Remo, os meninos jogados no rio pelo tio e salvos pela intervenção de Júpiter; o papel dos imperadores como deidades; a ponte de Milívio, onde Constantino avistou o próprio Jesus anunciando sua vitória, considerado o milagre de conversão de Constantino e que dá vantagem ao futuro imperador; Davi e sua vitória sobre Golias, história em que um jovem inspirado por Deus e mesmo fora do corpo militar enfrenta e vence o gigante do exército inimigo em batalha corpo a corpo com uma pedra e uma funda; a fuga de Ramsés na batalha de Kadesh - o Faraó estava em um campo de batalha, cercado por inimigos e o próprio Amon o resgata, o que significa o amor dos deuses por ele. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 34/55 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 35/55 A exemplificação é um desafio, pois permite um grupo de olhares muito dispersos sobre a relação entre religião e política. O papel dos deuses não é sempre igual e dialoga com a sociedade. Por exemplo, Marduk Parabéns! A alternativa D está correta. Marduk é uma das divindades babilônicas, criador domundo e protetor dos homens, tem a função mítica, mas também simbólica pela presença de sua estátua à frente ou ausente do palácio monárquico. Questão 2 Os egípcios são vistos no senso comum como adoradores de deuses, idólatras pela forma como organizam sua iconografia. No entanto, seus ícones têm variações e papéis sociais diversos, que nos ajudam a perceber sobre o funcionamento dessa sociedade. A escrita sobre a sociedade egípcia e sua relação com a divindade revela: A é ícone dos hititas e é levado na frente de batalha para dizer que o deus luta primeiro. B é a formulação central de legitimidade da coroa egípcia e por isso está no topo da cabeça do faraó. C é a ideia de que existe um deus único devendo os outros deuses ser abandonados. D é uma formulação que mistura iconografia e representação, por isso a ausência e a presença do deus na Babilônia são formas de comunicar. E é a formulação de uma verdade de um deus que dá as ordens ao mundo e escolhe os governantes. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 36/55 Parabéns! A alternativa E está correta. A forma de organizar a dinâmica entre religião e política nos ajuda a entender o papel do sacerdote e de seus conhecimentos como algo especial, e é esse fenômeno que percebemos na sociedade egípcia: ao mesmo tempo que vem a monumentalização, vem o domínio da palavra e do conhecimento como um diferencial religioso. A A escrita era uma forma de registrar o que acontecia na religião. B A escrita era uma estrutura política e vinculada ao faraó. C A escrita e a religião não se relacionam, fora quando os porta-vozes a manifestam de forma escrita. D A escrita do passado linear era a base da religiosidade egípcia. E A escrita tem no Egito um viés divino e, por isso, a hieroglífica era principalmente de domínio sacerdotal. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 37/55 3 - Eis que surge o monoteísmo Ao �nal deste módulo, você será capaz de distinguir as características do monoteísmo hebraico e cristão. História judaico-cristã e a matriz de pensamento ocidental Devemos atentar para o fato de que as histórias das tradições têm um caminho, tudo é arquitetado para que haja um início, um meio e um fim, e que esse fim está sempre próximo. Reconhecem essa fórmula? Quantas vezes na Educação Básica você não estudou história dessa forma? Essa tradição tem uma forma cronística, judaico-cristã, adaptada em um discurso que indica que nossa visão de tempo e mundo dialoga com os valores da cultura religiosa monoteísta de hebreus e suas formas e adaptação cristãs. A tradição dessas religiões acaba sendo marcante para o entendimento da própria História como disciplina e a ideia de que nós nos constituímos como seres sociais a partir dessa lógica cronológica. O registro de um povo é o registro de sua própria identidade, e essa reminiscência não é natural, mas sim construída e se torna parte da cultura ocidental. A forma de elaborar é a dos livros. Em 23 de fevereiro de 1455, Johannes Gutenberg, imprimiu sua primeira Bíblia. Registros de tempo e de um caminho único de história, que podem ser lineares ou ter versões, como o Novo Testamento cristão, mas tem o mesmo modelo: reproduzir pelo tempo a identidade do grupo e a explicação do funcionamento do mundo. Mesmo quando os livros são traduzidos e rediscutidos, mesmo que se estude que suas narrativas não são lineares, eles ainda mantêm essa ideia. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 38/55 Não são lineares? São sim, professor. Leiam o Gênese, a descrição da queda do paraíso, notem como os eventos se misturam. Vejam como um evento relacionado a Jesus, como a Páscoa pode ter formações tão diferentes, com Marcos se misturando com as práticas judaicas e em João as negando profundamente. Outro ponto que é importante falarmos é que os livros são diferentes. Os registros sobre a tradição do Pentateuco, apesar de se manifestarem tanto na tradição hebraica, como na tradição cristã, foram adaptados e multiplicados a partir das suas histórias e relações políticas. Dialogam por construir a tradição monoteísta, junto com o islamismo, surgido no século VI somente, como o principal ícone religioso e prática do mundo contemporâneo. Islamismo O Islamismo é uma religião monoteísta que teve influência de judeus e cristãos e nasce a partir da revelação do profeta Muhammad. Sua mensagem se consolida na Península Arábica nos séculos VI e VII e durante os séculos IX e XI tornar-se-á a grande religião que conhecemos. Durante o imperialismo perde força política, mas ainda é uma das principais religiões monoteístas do mundo. A religião se baseia na mensagem recebida pelo profeta reunida em forma de versos, escritos obrigatoriamente em árabe, de nome Alcorão ou Corão, diferente da Bíblia e da Torá, que têm linhas cronológicas. Manuscrito do Alcorão exposto no Museu do Brooklyn. Mas por que a religião se tornou tão importante no Ocidente? Porque ela se tornou fator cultural, naturalizado e reconhecido ao longo do século XVI, servindo a estabelecer, durante todo o período moderno: Estabelecer princípios morais 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 39/55 Participar dos debates políticos Cumprir o papel de organização e liderança religiosa Mesmo na sociedade do capital, a religião nunca perdeu condição de fator e reconhecimento, por isso é indiscutível ter que entender sobre o deus único e sua construção histórica. Não é o credo pessoal em um deus único, assim a figura religiosa não pode ser confundida somente com a lógica de um credo pessoal, mas ela é parte estrutural da própria formulação e da identidade da comunidade. Mas como interpretar o deus monoteísta nas sociedades antigas, em sua formação? É a maneira como os deuses foram rediscutidos para Deus, primeiro de um povo e depois em uma fórmula teológica, como único, onipresente e onisciente. No nascedouro, o Deus de Abraão e de seus descendentes acaba por atuar de forma prática, formulando princípios, invertendo e explicando situações. Isso a princípio. Num momento posterior, teremos algumas figuras que, sendo especiais, têm acesso às suas designações e formulações. Basta compararmos a relação de Jacó, que rouba a primogenitura, que dialoga de forma direta e se torna um líder, assumindo a figura de Israel, com a forma como a manifestação divina chega para José ou Moisés, como eventos impactantes para ambos. Jacó Jacó, neto de Abraão e filho de Isaac e Rebeca, que será o próprio Israel, não era primogênito, este era um direito de Esaú, seu irmão gêmeo. Jacó vai roubar a primogenitura, com o apoio de sua mãe e vai ter uma série de críticas em relação a comportamentos por parte de família e irmãos, mas ainda assim é o escolhido de Javé nessas querelas. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 40/55 José Qual a representação de José, filho de Jacó e Raquel? Após ser vendido pelos próprios irmãos e separado de sua família, não é esquecido ou fica desprotegido por Javé. Por sua habilidade mágica de interpretar sonhos, vai se tornar conselheiro do faraó, traduzindo sonhos e criando terreno para que judeus se estabelecessem no Egito. Atenção! Quando o historiador vê esses eventos, eles devem ser lidados como meras narrativas ou reproduções de verdade? Não! Eles devem ser cruzados, explicados, relacionados aos processos de migração, às explicações sobre funcionamento de clãs, o peso de sociedades como a egípcia nesse contexto para grupos menores. A religião deve ser trabalhada como um fator de cruzamento social. Professor, pode me darum exemplo melhor, para que eu entenda? Claro! Estamos no Novo Reino, Egito. Possivelmente em um momento em que judeus estão presentes. Muitos defendem que o êxodo, liderado por Moisés, acontece no governo de Ramsés II. Pois bem, Deus aparece como fogo que não queima, tem uma representação de pedir uma mudança e romper com o status atual. Cruzando fatos, cerca de cinquenta anos antes, um faraó egípcio propõe romper com a tradição politeísta e se aproximar da noção de um deus único, o Disco Solar, Aton. Devo dizer que então significa... Não!!! Significa que você tem que pesquisar mais, traçar hipóteses, perceber as relações, mas é um grande indício, uma grande pista de investigação. O deus dos hebreus Conhecendo Javé Abraão rompe com o clã e parte para a constituição de uma nova cidade/povo e, para que possam ser um povo de forma efetiva, a ideia é constituir uma terra. Notem a associação de elementos, uma nova 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 41/55 tradição e, por isso, uma nova política. Entender uma vez mais que não estamos lidando com fé é importante. Sendo assim, de forma clara: para a história, o texto hebraico é construído à parte de relações eloístas e javistas ente os séculos V e IV AEC. Essas tradições são escolhidas e reproduzem a passagem de uma transição das tradições orais para formas escritas. Os hebreus, como um povo menor em meio às organizações políticas de grande porte como babilônios, hititas e egípcios, construíram uma narrativa apoiada na história e modelo cronístico para afirmar sua própria existência e seus vínculos familiares. Ao lidar com o Deus hebraico, podemos afirmar que ele nasce único. A afirmação não é simples, e peço atenção: o Deus de Abraão, o Deus de Israel era o deus de seu clã, de sua família. A relação era íntima e a intervenção cotidiana, como o texto revela com detalhes o papel cotidiano de consultas e decisões ligadas a Deus. Acontece que esse era um modelo recorrente em diversas cidades ou grupos. Um anjo impede que Abraão sacrifique seu filho Isaac. A Reconciliação de Jacó e Esaú, Peter Paul Rubens, 1624. A ideia de que o texto revela um monoteísmo fechado desde seu princípio não é, para além de aspectos de fé, justificável. O povo hebreu é um povo semita, dialoga com sociedades, experencia domínios de egípcios, babilônicos e persas. É impossível que suas relações sociais e culturais não dialoguem. Não se formula como um discurso que fornece legitimidade específica, quer dizer, uma nova forma rompedora de deus, mas algo próximo a uma superioridade de dinástica religiosa, o Deus mais poderoso e para nós único. Isso se sustenta nos textos religiosos? Sim! Moisés ouve sobre a necessidade de humilhar os deuses adversários. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 42/55 Os hebreus deixando o Egito. Que fique claro, a tradição hebraica começa a ser registrada de maneira organizada e escrita somente a partir da consolidação dos reinos, pelos escribas com foco nos juízes. Quando temos um povo, disputa de territórios, necessidade de organização, é escolhida a ideia de serem um povo escolhido por Javé e um povo cuja história é legítima e que está presente desde o início dos tempos, possivelmente, a partir de duas tradições diversas, as citadas eloístas e javistas, e só foram consolidadas em um período mais tardio, próximo à invasão romana, mas tendo contornos ocidentais somente nas escolhas da Vulgata de Jerônimo, que acaba por romper de vez o afastamento histórico entre cristãos e judeus. Resumindo Não existe nenhum juízo de valor ou demérito ao se afirmar que a ideia de Deus dos judeus não era uma fórmula monoteísta, mas a vinculação de um povo a um único deus. Essa fórmula, recorrente em sociedades antigas, tem entre os judeus uma importante inovação: exclusividade. Monoteísmo hebraico Quando surge efetivamente o monoteísmo hebraico? Existe um debate entre duas correntes que não deve ser entendido como excludente: Formulação monoteísta durante o período dos reis em Israel A ideia de que o conselho decide definir um rei, decisão criticada por lideranças religiosas, apontava para a necessidade de uma nova teologia. Porque, junto à ideia do deus de um grupo mergulhado em lutas e com um rei que o próprio teria escolhido, a possibilidade de uma derrota era um problema. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 43/55 Formulação monoteísta partir dos profetas A ideia de que o povo poderia precisar do mau líder, de que estruturas como o livre-arbítrio poderiam interferir em resultados e justificações de guerra. Assim, com Samuel e principalmente a partir de Davi, essas formas passam a ser discutidas e colocadas até que o deus dos hebreus se torna o “Deus”. A unção de Davi por Samuel, François-Léon Bénouville, 1842. Outros autores defendem que essa fórmula remete ao “cativeiro da Babilônia” em que as formulações do profeta Daniel, baseadas nas fórmulas de Daniel sobre Davi, teriam - por necessidade - que gerar a noção de um deus sobre o comando de todas as coisas. Mesmo diante de uma tragédia política, entendida como sem precedentes, como a destruição do Reino de Israel, o trabalho compulsório na Babilônia, o crescimento de Judá com um monoteísmo menos estruturado, ainda assim Deus tem um plano e esse plano é executado independentemente dos sentidos limitados dos homens. Cativeiro da Babilônia Período em que o Reino de Israel foi vencido pelos babilônios e depois libertado pelo monarca persa, Dario I, que tem uma passagem importante com Daniel na cova dos leões e o processo de conversão e crença. A construção de uma teologia política que assume que Deus não é um combatente, mas o autor de um plano divino, espiritual, que está atento ao que cada um precisa, que mesmo os sofrimentos são dádivas para que os sujeitos possam ser melhores e as bençãos 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 44/55 como presentes e recompensas são elementos que marcam uma figura em constante ato de proteção e governo. A noção de um deus portador de todos os caminhos, mas que ao mesmo tempo oportuniza aos homens suas ações e atitudes é reforçada pela ideia messiânica. Para que o povo aprenda e seja guiado, um novo Davi deve voltar. Ele governará céus e terra, por isso é rei e deus. O retorno do messias hebraico é político e religioso, sem distinção de papéis, por isso é aguardado até os dias de hoje. Uma vertente se estrutura no entorno do século I AEC, vinculado a tradições marginais do mundo hebraico, sua pregação ganha força, seja entre apóstolos populares, figuras políticas, até que seja condenado politicamente. Sua história é contada nos textos bíblicos e em outros materiais como a História dos hebreus, de Flávio Josefo. Flávio Josefo, historiador judaico-romano. Jesus é um caso à parte nessa história. A partir de seu nascimento/advento, passamos a constituir uma nova teologia que será consolidada ao longo de séculos e ainda é viva nesta sociedade. Ainda que se perceba como herdeira da tradição judaica, é, em si, um processo de remodelação do credo e de sua estrutura. O Deus cristão A história do cristianismo passa pela história do Ocidente. E como tal, ela tem tantos elementos e revezes que seria impossível contar nestas poucas páginas. Então, aqui nos dedicamos a uma pequena parte: a construção na Antiguidade do Deus cristão em diálogo com o Deus hebraico e com a sua consolidação mediterrânica, e só isso é um desafio. Para que possamos entender a história do cristianismo, em primeiro lugar precisamos separar as tradições e a maneira como essas tradições se organizam dentro das sociedades. 05/05/2023 10:26 Religiãoe religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 45/55 O cristianismo, quando se forma, tem características do momento da sua construção, dialogando com o “Oriente” e a realidade hebraica. Mas quando o cristianismo se difunde para o que é conhecido como o mundo romano, ele está assumindo um novo conjunto de características. Dessa vez, conhece e conversa com intelectuais gregos, com tradições romanas, germânicas, de Axum - considerado o primeiro reino convertido ao cristianismo - ou da Armênia. O cristianismo não surge com seus dogmas definidos nem politicamente forte: a princípio, ele é múltiplo e disperso, porém, essa maleabilidade dogmática inicial permitiu que a difusão de seus princípios fosse mais intensa. Batismo de Constantino. Quando o imperador romano Constantino se converte ao cristianismo, conversão essa atribuída a um milagre e, a partir dela, o cristianismo torna-se uma das principais religiões do império, entre os séculos 306 e 337 EC. Ele assume novas possibilidades e modalidades nas relações políticas dominantes no século IV, suas formas, credos e hierarquias mudam. Assim será ao longo de toda a história. Se tentarmos imaginar que as práticas cristãs de hoje são o exato modelo de uma proposição feita na Antiguidade, só existe uma possibilidade: estamos falando de fé. Eu acredito e pronto, isso é uma verdade compartilhada em mim. Qualquer análise científica simplória não consegue manter esse argumento por mais de um minuto. Em termos científicos, os movimentos culturais e religiosos que caracterizam o cristianismo necessariamente são diferentes a cada momento e região. Logo, não nos cabe analisar todas as suas variações entre o século I e o século XXI, mas suas formas no século I. Se fizermos um breve retorno aos debates deste material, perceberemos que Jesus, dentro da dinâmica já explicada sobre estudos da religião, era o portador do poder mágico. Era ele quem era capaz de dialogar com a própria divindade, o Deus único, era ele que tinha poderes curativos, era ele que tinha uma força de divindade, capaz de mobilizar os grupos locais a aderirem sua mensagem. Exemplo 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 46/55 A conversão de água em vinho na festa é considerada, muitas vezes, como o primeiro milagre em Caná, é um traço de poder mágico, um diferencial entre todos os demais. Outro exemplo, e neste caso de outra maturidade do poder mágico, é quando Lázaro, mesmo já estando morto há alguns dias, é ordenado por Jesus que se levante. Repare que isso é o auge do poder mágico, porque vencer a morte é considerado um dos elementos mais difíceis dentro da condição humana e um traço especial no sentido religioso. Jesus Cristo ressuscitando Lázaro. A discussão sobre quando começa a religião cristã, e não só a questão do poder mágico reconhecido, é importante. A religião cristã é constituída quando Jesus, em vida, organiza seus apóstolos e caminha pelas cidades. Será que ele já estaria organizando um novo modelo religioso que supera a ideia de uma simples prática mágica, mas, como Salvador - termo adotado para um conjunto de religiões que trabalham com o papel de que, para além do poder mágico, o centro é a salvação eterna -, que já tem um conjunto de sacerdotes? A atuação pode ser interpretada corretamente como mais estruturada e rompedora de tradições. A cada cidade onde a voz era ouvida, em cada articulação, nota-se que os passos foram dados. A noção de Messias, líder, é organizada e pensada em vida e corroborada posteriormente, pela Paixão. A noção de que o movimento cristão, não tendo sido compreendido, é perseguido e condenado, e o auge do poder mágico retoma seu lugar, com a vitória sobre a morte. Funda a disseminação dos poderes junto aos seus seguidores, esses poderes constituem um exemplo de estrutura e organização. Mas já é a forma final da religião? Claro que não. Ela será organizada de fato posteriormente, pela disseminação da palavra e em linhas escritas pelos apóstolos de Jesus, apóstolos que atuam em regiões judaicas, apóstolos em regiões marginais. É a partir da conversão de um judeu helenizado, cidadão romano, que vemos um novo salto da religião. Paulo de Tarso, uma vez convertido, inicia a pregação aos gentios, grupos sem tradição ou vinculação com o mundo hebraico. A chegada 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 47/55 ao Mediterrâneo e os diálogos com o mundo greco-romano mudam a mensagem, a adaptam, trazem traços da cultura helenística e permitem uma disseminação difusa da religião. Paulo de Tarso. Os registros da história cristã Aqui, ao analisar a construção da religião a partir de seus documentos, é repetido o modelo: contar a história. No caso de Jesus, em quatro versões distintas, mas busca manter a mensagem. O Novo Testamento é uma organização já posterior ao período dessa formação, são reunidos e escolhidos os materiais que deveriam contar uma nova história, por isso a coleção junta linhas diversas como a vida de Jesus, os atos dos apóstolos e um livro do fim. A ideia de organizar um livro do fim, O Apocalipse, marca muito do modelo de lidar com o tempo e controlar o tempo. O lidar com a divindade era lidar com a proximidade do fim. A tradição hebraica registra a história de maneira linear, organizando o modelo de síntese, já a tradição cristã traz o primeiro rompimento dessa lógica, justamente sobre a ideia da multiplicação dos mesmos relatos, serão quatro sujeitos diferentes, de épocas diferentes e de línguas diferentes que serão os responsáveis por registrar ou difundir aquilo que é entendido como o centro da mensagem religiosa: Marcos, Mateus, Lucas e João. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 48/55 Apóstolo Marcos. Apóstolo Mateus. Apóstolo Lucas. Apóstolo João. Dali seria baseada a experiência de vida daquele que possuía o poder mágico e a relação direta com a manutenção dos sacerdotes e o poder mágico manifestado em Pentecostes e pela ideia do Espírito Santo. Deus torna-se um condutor, e não um personagem, ele é agente da história na figura de Jesus, tem contornos de pai e prepara para um fim próximo. Deus é único, mas seu papel e função têm formas e maneiras bem distintas. Essa nova religião, por vezes, é tratada como o cristianismo primitivo, não vamos entrar no mérito das críticas aos termos, mas sobre essa 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 49/55 religião que começa a ter novos impactos e novas formas. Sua principal forma de organização no primeiro momento é em comunidade. Essas comunidades podem ser vistas e analisadas no próprio texto bíblico a partir dos Atos, as comunidades organizadas por esses Apóstolos, como as organizadas por Paulo, Lucas e que dão uma mudança de paradigma ao cristianismo. Espírito Santo Sem mergulhar em aspectos teológicos, os apóstolos recebem o Espírito Santo, em experiência divina, e a partir dele, ganham traços dos poderes de Jesus. Nenhum deles tem o poder pessoalmente, o poder é divino, faz parte da santíssima trindade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, aliás, é a explicação da possibilidade dos milagres dos santos e afins. O Deus dos hebreus torna-se cada vez mais o Deus cristão, assim, da providência, a partir dos portadores da graça. Seu nascimento fortemente voltado para uma realidade oriental, não semita, mas de trocas com o mundo helenizado, gerando e fortalecendo essa nova mistura: tradições hebraicas e a influência greco-romana. Aquilo que já tinha sido chamado de uma disputa da mensagem hebraica, torna-se helenizada, como uma consequência do pensamento filosófico que já tendia a criticar anoção politeísta de gregos e romanos em prol da ideia de um deus único. Oferecer a luz é uma vertente monoteísta que já vinha sendo discutida dentro das cidades no Mediterrâneo e, quando isso é difundido, ainda que de forma não organizada, o cristianismo passa a ser um adversário para o imperador, afinal, nem o imperador poderia ser tratado como divindade em nenhuma forma. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 50/55 Imperador Júlio César. A fórmula é refeita, e a negação do reconhecimento a qualquer tipo de divindade humana, portanto a do César, pode ser revista para ser de legitimidade, de forma a dar a César o direito divino. O cristianismo será lentamente incorporado no mundo romano, até que seja forte o suficiente para ser escolhido como nova forma de legitimidade do Império. De comunidades e interpretações diversas, a teologia cristã precisará em contato com Roma ter o traço romano principal: ser organizada. A partir do momento em que elas se consolidam, passamos a ter alguns autores que passam a ser considerados os mais importantes da história da religião por organizarem a mensagem. Estes são chamados de membros da patrística. A disseminação do cristianismo nas porções ocidentais acaba gerando um crescimento da sua presença, inclusive dentro dos centros urbanos, saindo de uma ideia de estar somente vinculado a intelectuais ou comunidades, mas permitindo vozes a outros grupos que não necessariamente tinham a ideia de uma religião. Assim, a conversão de Constantino não é uma ação pontual, mas Constantino é fruto de uma dinâmica de disputas. O batismo de Constantino, Rafael Sanzio, 1520 - 1524. Deus, a partir desse momento, é uma figura relacionada a uma nova tradição. Não tem um fim essa história, somente um início, por isso, ainda sabendo que temos dezenas de questões, deixamos o desafio: hora de estudar! Cristianismo romano O professor Rodrigo Rainha contará a romanização do cristianismo. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 51/55 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 52/55 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O monoteísmo é uma fórmula filosófica na qual passa a ser compreendido que o mundo e suas fragmentações são humanas, mas a porção divina é una. Esse tipo de pensamento contribuiu para que o cristianismo Parabéns! A alternativa B está correta. A noção de que o monoteísmo já era discutido no Mediterrâneo e como o cristianismo assume fórmulas filosóficas nos permite compreender a sua disseminação e também as influências que passará a receber. Questão 2 O Deus dos hebreus é uma fórmula recorrente na tradição hebraica. Ela nos permite entender que A se tornasse a religião mais importante do mundo. B se difundisse nos ambientes helenizados do Mediterrâneo. C rompesse com as tradições hebraicas. D se organizasse como uma força antagônica ao Império. E se estruturasse para substituir o judaísmo. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 53/55 Parabéns! A alternativa E está correta. A ideia de um monoteísmo contínuo é um equívoco, o processo dialoga com o contexto de sua criação e produção e somente mais tarde será revisto para dar sentido aos novos contextos políticos. Considerações �nais Chegamos ao fim de um enorme desafio. Como estudar tantos caminhos possíveis para pensar a tradição religiosa no mundo antigo, percebendo seu papel? Por isso, o primeiro módulo é teórico, um convite a estabelecer relações sobre como a religião pode ser interpretada e discutida. Em seguida, passamos a pensar em algumas manifestações, primeiro politeístas e depois monoteístas, deixando um portfólio aberto. Ao lidar com hebreus e cristãos, entendemos discordâncias, dores, negações. Mas, por favor, tirem seu olhar crítico, pensem como chaves, chamadas para, a partir daqui, construir, discutir, perceber. Assim, tudo terá sentido. Boa leitura! A o judaísmo nasce a partir da caminhada no deserto com Moisés. B Abraão, como patriarca, mantém traços do valor divino da Babilônia. C originalmente é uma sociedade politeísta e só muito depois se tornará cristã. D os hebreus são um povo diferente que rompe com todas as tradições antigas criando o monoteísmo. E Javé surge vinculado ao rompimento de um povo, a uma terra, só mais tarde assumindo uma fórmula monoteísta. 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 54/55 Podcast Ouça o podcast. Nele, faremos um breve resumo do tema com o professor Rodrigo Rainha. Referências BOURDIEU, P. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, R. Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994, p. 89-94. BOURDIEU, P. Gênese e estrutura do campo religioso. In: BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 27-69. BROWN, P. A ascensão do cristianismo no Ocidente. Lisboa: Editorial Presença, 1999. CARDOSO, C. F. Escrita, sistema canônico e literatura no Antigo Egito. In: BAKOS, M. M.; POZZER, K. M. P. III Jornada de Estudos do Oriente Antigo: línguas, escritas e imaginário. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 95-144. FERNANDES, P. R. Entre Atenas e o Império Aquemênida: percepções de receptividade e etnicidade em Rytha de cerâmica ática do século V a.C. 2020. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-graduação em História. UFF. PPGH/UFF: Niterói, 2020. JOHNSON, P. História dos judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1995. JOSEFO, F. História dos hebreus. Joinville: Clube de Autores, 2018. LEICK, G. Mesopotâmia: a invenção da cidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003. MILL, J. S. The Collected Works of John Stuart Mill, Volume XI - Essays on Philosophy and the Classics. London: Routledge and Kegan Paul, 05/05/2023 10:26 Religião e religiosidade no mundo antigo https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03437/index.html# 55/55 1978, p. 273. PINTO, L. Pensar a prática: pressupostos e predisposições. In: Pierre Bourdieu e a Teoria Social. Rio de Janeiro: FGV, 2000, p. 37-42. PODANY, Amanda H. The Ancient Near East: A Very Short Introduction. Nova York: Oxford University Press, 2013. ROGERSON, J. Bíblia: os caminhos de Deus. Madrid: Del Prado, 1996. v. 1. ROPS, D. A história da Igreja de Cristo I: A Igreja dos apóstolos e dos mártires. Porto: Livraria Tavares Martins, 1956. WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: UnB, 1999. WEBER, M. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1989. Explore + Para saber mais sobre os assuntos tratados neste tema, leia: Bíblia de Jerusalém, da Paulus. Vida de Constantino, de Eusébio de Cesareia. Histórias do povo da Bíblia: relatos do Talmud e do Midrasch, de Jacó Guinsburg.