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1ª edição Reitor: Prof. Maurício Chermann EQUIPE DE PRODUÇÃO CORPORATIVA Gerência: Adriane Aparecida Carvalho Coordenação de Produção: Diego de Castro Alvim Coordenação Pedagógica: Karen de Campos Shinoda Equipe Pedagógica: Graziela Franco, Rúbia Nogueira Coordenação Material Didático: Michelle Carrete Revisão de Textos: Adrielly Rodrigues, Aline Gonçalves Diagramação: Amanda Holanda, Douglas Lira, Nilton Alves Ilustração: Everton Arcanjo Impressão: Grupo VLS / Gráfica Cintra Imagens: Fotolia / Freepik / Acervo próprio Os autores dos textos presentes neste material didático assumem total responsabilidade sobre os conteúdos e originalidade. Proibida a reprodução total e/ou parcial. © Copyright Brazcubas 2020 1ª edição 2020 Av. Francisco Rodrigues Filho, 1233 - Mogilar CEP 08773-380 - Mogi das Cruzes - SP Sumário Sumário Apresentação 5 O Professor 7 Introdução 9 1unidade I 1Refração objetiva - Ceratometria 11 1.1 Uma breve história sobre o ceratômetro 11 1.2 Ceratometria 13 1.2.1 O funcionamento do ceratômetro 13 1.3 Os ceratômetros 18 1.3.1 Ceratômetro Javal-Schiotz 18 1.3.1.1 Caraterísticas 19 1.3.1.2 Procedimento de medida 22 1.3.1.2.1 Ajuste da ocular 22 1.3.1.2.2 Alinhamento e foco do ceratômetro 23 1.3.1.2.3 Localização dos meridianos principais e medida do astigmatismo 24 1.3.1.2.4 Estimação do astigmatismo corneano com o ceratômetro Javal 26 1.3.2 Ceratômetro Helmholtz 28 1.3.2.1 Características 29 1.3.2.2 Procedimento de medida 32 1.4 Regra de Javal 34 Referências da unidade I 36 2unidade II 2Refração objetiva - Retinoscopia 37 2.1 A retinoscopia 37 2.1.1 O retinoscópio 38 2.1.2 Sistema de iluminação ou de projeção 38 2.1.3 Sistema de observação 41 2.2 Conceitos básicos de retinoscopia 41 2.2.1 Reflexo retiniano 41 2.2.2 Tipos de sombras 42 Sumário 2.2.3 Espelhos 43 2.2.3.1 Espelho plano 43 2.2.3.2 Espelho côncavo 44 2.2.3.3 Neutralização 44 2.2.4 Distância de trabalho 45 2.2.5 Lente de trabalho 47 2.3 Características do reflexo 47 2.3.1 Velocidade 47 2.3.2 Brilho 48 2.3.3 Largura 48 2.4 Fazendo retinoscopia 48 2.4.1 Determinando a refração 50 2.4.1.1 Ametropias esféricas 50 2.4.1.2 Ametropias cilíndricas 51 2.4.1.2.1 Localização do eixo cilíndrico 51 2.4.1.2.2 Neutralização da potência cilíndrica 54 2.5 Retinoscopia dinâmica 60 2.5.1 Retinoscopia Mohindra 61 Referências da unidade II 62 3unidade III 3Refração subjetiva 63 3.1 Entendendo a refração subjetiva 63 3.1.1 O furo estenopeico e a diminuição da qualidade visual 65 3.2 Materiais para a refração subjetiva 66 3.2.1 Caixa de provas 67 3.2.2 Foróptero 70 3.2.2.1 Comandos de ajuste 71 3.2.2.2 Controle das lentes do foróptero 72 3.3 Refração subjetiva 74 3.3.1 Monocular para longe 74 3.4 Técnicas para o processo refrativo 77 3.4.1 Teste bicromático 78 3.4.2 Método Donders 82 3.4.3 Miopização 83 Referências da unidade III 86 Sumário 4unidade IV 4Afinamento da refração 87 4.1 Refração do astigmatismo 87 4.1.1 Círculo horário 88 4.1.2 Cilindro Cruzado de Jackson (CCJ) 91 4.1.3 Fenda estenopeica 96 4.2 Subjetivo binocular 98 4.2.1 Balanço binocular 99 4.3 Refração subjetiva para perto 103 4.3.1 Teste da grade ou o CCJ para perto 104 4.3.2 Método de pontuação 107 4.4 Critérios para prescrição 108 4.4.1 Prescrição para miopia 109 4.4.2 Prescrição para hipermetropia 109 4.4.3 Prescrição para astigmatismo 110 4.4.4 Prescrição em présbitas 110 4.4.5 Prescrição em forias 110 Referências da unidade IV 111 Apresentação 7 Apresentação Seja muito bem-vindo, aluno, à disciplina de Processos Refrativos. Eu me chamo Paulo e serei o guia que irá ajudá-lo a compreender um pouco mais sobre como realizar a refração e corrigir os erros refrativos de seus pacientes. Nesta disciplina, você aprenderá como realizar o processo refrativo de modo objetivo e também a guiar o paciente no modo subjetivo. Neste livro didático você aprenderá o conceito de instrumentos, assim como verá guias para a realização dos testes que estudará nas aulas presenciais. Dessa forma, meu querido aluno, você dará o primeiro passo para atender todos os tipos de pacientes. E não podemos nos esquecer do AVA. O Ambiente Virtual de Aprendizagem é de fundamental importância para a compreensão da disciplina. As videoaulas fornecem um conteúdo complementar para o livro didático e uma outra visão para a prática além da aula presencial. Os materiais extras são muito importantes, assim como os demais materiais da midiateca. Espero que você se divirta nesta disciplina! Objetivos da disciplina: • Praticar os processos refrativos; • Corrigir os erros refrativos; • Melhorar a qualidade visual do paciente. Competências e habilidades da disciplina: • Análise e compreensão dos processos refrativos; • Conhecimento sobre os princípios ópticos; • Domínio da óptica fisiológica. O Professor 9 O Professor Prof. Paulo Henrique Oliveira de Lima Olá! Meu nome é Paulo Henrique Oliveira de Lima, mais conhecido como Paulo Hol. Assim como você, fui aluno da Brazcubas no curso de Tecnologia em Óptica e Optometria. Eu me formei em 2015, junto com a pós-graduação em Optometria Avançada. Em 2018, conclui minha segunda pós-gra- duação na área, tornando-me especialista em Ortóptica e Ciências Visuais. Antes de conhecer a Optometria, fiz o curso Técnico em Óptica pelo Senac, terminando em 2005. Em paralelo à minha carreira de optometrista, desempenho outra como pesquisador na USP, onde me formei Bacharel em Letras, em 2012, Mestre em Letras Clássicas em 2016 e, atualmente, sou douto- rando nessa área. Na própria Brazcubas tive a oportunidade de orga- nizar dois eventos dedicados à Optometria. Espero que minha breve história sirva de incentivo a você que, buscando conhecimento e um caminho, entra nessa nova jornada para alcançar um novo patamar profissional. Um grande abraço! Introdução 11 Introdução Seja muito bem-vindo aos “Processos refrativos”. Nesta nova disciplina, vamos estudar e compreender como fazer a avaliação visual conhecida como “exame de vista”, com as técnicas específicas para a análise e neutralização dos erros refra- tivos. No livro didático, você conhecerá a teoria para as técnicas refrativas e o passo a passo para a realização delas, que você colocará em prática nas aulas presenciais. Uma vez que você viu nas disciplinas de “Óptica fisiológica” o que são os erros refrativos e o papel da acomodação no olho, em “Óptica oftálmica” o papel das lentes corretivas e como elas funcionam, e em “Testes preliminares” os testes pré-refrativos, agora você aprender as técnicas refrativas e como utilizar os instru- mentos necessários para a sua realização. O livro didático está dividido em quatro unidades: A primeira unidade, denominada “Refração objetiva – Ceratometria”, tem como objetivo apresentar os ceratômetros, instrumentos ópticos de análise da superfície da córnea e seu papel nos processos refrativos, assim como utilizá-los. Na segunda unidade, denominada “Refração objetiva – Retinoscopia”, tem como objetivo a apresentação do retinoscópio, o principal aparelho para a análise e diagnóstico de erros refrativos do olho, assim como técnicas para se conseguir neutralizar os reflexos e sombras. Já a terceira unidade, denominada “Refração subjetiva”, tem como objetivo apresentar o que é a refração subjetiva, os instrumentos necessários para a reali- zação dela e as técnicas para a neutralização da refração monocular do paciente. Por fim, chegamos à quarta unidade, denominada “Afinamento da refração”, que tem como objetivo apresentar técnicas para a neutralização do astigmatismo, a refração binocular, a refração para perto e as recomendações para a prescrição dos óculos. Para nos auxiliar com o domínio da disciplina, além do presente livro e das aulas presenciais, temos também o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), em que serão disponibilizados exercícios, vídeos, novidades e artigos, de modo acomplementar nossos estudos. Bom, pronto para iniciar? Vamos em frente! 1 Refração objetiva - Ceratometria unidade I 13 1unidade I 1Refração objetiva - Ceratometria 1.1 Uma breve história sobre o ceratômetro A córnea é considerada a lente de maio r poder refrativo do aparelho óptico humano. Dessa forma, ela foi moti vo de estudos por diferentes pensa- dores, que utilizaram diversas técnicas ao longo da história. Um dos primeiros e mais célebres instrumentos construídos para estudar a córnea, por meio de sua curvatura anterior e potência, foi o ceratômetro, ou oftalmômetro. A ceratometria, do grego κέρατος, que significa córnea, e μέτρον, que significa medida, é a medida dos raios de curvatura e potência refrativa dos meridianos principais da córnea. A importância dessas medidas é evidente para o processo refrativo do olho. 1Comando Tabela Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 14 As primeiras medidas da forma da córnea foram propostas pelo astrônomo jesuíta Christoph Scheiner, em Oculus hoc est: Fundamentum opticum1, em 1619. O que é importante para nós nessa obra é a forma com que Scheiner aponta um prin- cípio para medir a córnea, que é utilizado até hoje nos instrumentos: consiste em medir o tamanho da imagem de um objeto luminoso refletido pela córnea. O primeiro ceratômetro foi desenvolvido por Jesse Ramsden, em 1796, utili- zando os elementos presentes nos instrumentos atuais, mas seu aparelho passou despercebido. Hermann von Helmholtz, em 1855, criou um dispositivo laboratorial próximo ao de Ramsden, mas seu uso não era clínico. Posteriormente aprimorado por Louis Javal e Hjalmar Schiotz, em 1881, o aparelho foi desenhado para um uso geral. Ainda no século XIX, o oftalmologista português denominado Antônio Plácido, desenvolveu o “Disco de Plácido”, que permitia analisar a distorção da superfície corneana. Nó século XX, mais precisamente em 1932, Bausch & Lomb apresentaram modificações importantes que aumentaram a precisão das medidas para torná-las mais simples. Ainda no século XX, com o advento do estudo das anomalias corneanas, foram incorporados ao disco de Plácido sistemas de registro em fotografia, cujo avanço tecnológico permitiu um registro e segmento de casos de patologias corneais. Nos anos 80 do século passado, com o advento da tecnologia informática, a análise de córnea ficou ainda mais precisa com a topografia de córnea computadorizada. Importante! Por meio da topografia corneana somos capazes de estudar a córnea em diversos níveis: podemos analisá-la de forma central com o ceratômetro, e de forma global com os topógrafos computadorizados. 1 Em uma tradução literal para português: “O olho como ele é: um fundamento óptico”. Refração objetiva - Ceratometria unidade I 15 1.2 Ceratometria O ceratômetro foi o primeiro instrumen to construído para o estudo da superfície corneana com aplicações c línicas. Hoje em dia, ele é utilizado para medir os raios de curvatura coneais , de modo que encontremos tanto a potência astigmática da córnea, como seu eixo. Ele é um aparelho imprescin- dível para o estudo e adaptação das lente s de contato. Importante! Para entender melhor como funciona o ceratômetro, há um conteúdo no AVA chamado de “Fórmula ceratométrica” que vai ajudá-lo a entender a ceratometria. 1.2.1 O funcionamento do ceratômetro O funcionamento do ceratômetro é muito simples. Ele foi projetado para medir o tamanho da imagem formada por reflexão de um objeto de tamanho conhecido. Nesse caso, a córnea atua como um espelho convexo. Dessa forma, uma vez que sabemos o tamanho do objeto conhecido, as miras e a distância do foco, é relativa- mente simples medir a curvatura da córnea por meio do cálculo do raio da superfície óptica. Para calcularmos o raio de curvatura, podemos utilizar os cálculos de óptica geométrica empregados para determinar o tamanho de uma imagem em um espelho convexo. Uma vez conhecido o raio, e assumindo um valor para o índice de refração da córnea, é mais simples para calcularmos a potência corneana por meio de cálculos de óptica paraxial. A fórmula para isso é: Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 16 Na equação, D é a curvatura da córnea em dioptria, η1 é o índice de refração do ar (1), η2 é o índice de refração médio da córnea (1,3375) e r é o raio de curvatura da córnea em metros. Logo, se a curvatura média da córnea é de 8 milímetros, quanto seria seu poder refrativo (curvatura anterior) em dioptrias? Os ceratômetros funcionam a base de u ma teoria simples de óptica geométrica. Todavia, a prática de seu uso não costuma ser muito fácil, afinal o paciente é uma pessoa. Para evitar os micro movimentos do globo ocular, os ceratômetros dispõem de um sistem a duplicador de imagem, de modo que ela seja estabilizada, facilitando a me dida clínica. Figura 1.1 – Sistema de duplicação do ceratômetro Objeto Prisma Objetiva a) b) Imagem duplicada Adaptada de: FURLAN et al. (2009). Refração objetiva - Ceratometria unidade I 17 Como a figura 1.1 demonstra, o sistema de duplicação da imagem é formado por uma lente objetiva e um prisma que forma duas imagens do objeto, que no nosso caso é uma imagem virtual no interior da córnea, de extensão h’. A parte da lente não coberta pelo prisma produz uma imagem sem desvios, ainda que a parte da lente que está coberta pelo prisma produza uma imagem desviada em direção à sua base. Como o prisma produz um desvio angular constante da imagem, a mudança lateral dela será propor- cional à distância entre o prisma e a imagem, de modo que um deslizamento longitudinal (axial) do prisma irá produzir uma mudança transversal da imagem formada através dela. Ajustando a separação entre a lente e o prisma, pode-se chegar a uma situação em que os extremos opostos da imagem direta e deslocada se coincidem. É impor- tante que você note que nessa posição o deslocamento produzido pelo prisma coincide com o tamanho do objeto. Dessa forma, conhecido o desvio angular que o prisma introduz e a distância entre o prisma e as imagens duplicadas, pode-se obter o desvio, ou seja, o tamanho do objeto. Esse modo indireto de medida tem como vantagem fundamental que não é afetado por pequenos movimentos do objeto, pois ante a tais movimentos as duas imagens finais se deslocam sozinhas entre si. Podemos destacar que o ceratômetro está apropriadamente calibrado para que a leitura do raio de curvatura da córnea seja realizada diretamente em uma escala graduada. A calibração leva em conta a duplicação, o tamanho das miras, o aumento do microscópio e todos os elementos controláveis que influenciam na medida. Importante! Resumindo, os elementos de um ceratômetro serão: As miras: que são elementos que definem os extremos do objeto que é empregado na medida; O microscópio: partindo das imagens virtuais das miras, formam uma imagem real que permite sua medida; Sistema de duplicação: duplica a imagem real para facilitar sua medida na presença de pequenos movimentos oculares e melhora a medida dos astigmatismos. Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 18 Existem dois tipos principais de instrumentos: o tipo Helmholtz, em que a medida do raio pode ser realizada deixando fixas as miras e sendo movido o sistema duplicador da imagem, também conhecido como ceratômetro de uma posição; e o tipo Javal-Schiotz, que permite mover as miras, deixando o sistema duplicador fixo, também conhecido como ceratômetro de duas posições. Figura 1.2 – Oftalmômetro desenvolvido por Helmholtz (1851), primeiro modelo de instrumento capaz de medir a superfície da córnea. Disponível em: <https://bit.ly/2vUb6jG>. Acesso em: 01/12/2019. Figura 1.3 – Ceratômetro do tipo Helmholtz adaptado por Bausch & Lomb e vendido comercialmente Fonte: FURLAN et al. (2009). Refração objetiva - Ceratometria unidade I 19 Figura 1.4 – - Ceratômetro desenvolvido por Javal (1888)Disponível em: <https://bit.ly/2uwb7dp>. Acesso em: 01/12/2019. Figura 1.5 – Ceratômetro Javal vendido comercialmente Fonte: FURLAN et al. (2009). Apesar de ser um dos principais equipamentos para a mensuração da topo- grafia corneana, o ceratômetro tem algumas limitações: 9 A medida da córnea é feita apenas em sua zona apical (central), em cerca de 3-4 milímetros de diâmetro; 9 Os cálculos são baseados em valores padrões, com índices de refração pa- drão, pois a reflexão é produzida em uma superfície esférica, assumindo a córnea ser simétrica com relação ao eixe óptico e que sua óptica é paraxial; Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 20 9 A zona corneana a ser explorada pode variar de acordo com o raio de curvatura. Por exemplo, com o equipamento igual, podemos medir em 2,8 mm quando o raio corneano é de 7 mm, e em 3,5 mm se o raio é de 9,1 mm. Tais variações podem alterar a medida de +/- 0,25D até +/- 0,93D para calcular sua potência. Vamos ao AVA! Você pode entender um pouco mais a relação entre astigmatismo e córnea com um conteúdo presente no AVA chamado “Reflexo corneano e astigmatismo”. 1.3 Os ceratômetros Nesta subunidade, você vai ter acesso aos equipamentos necessários para a realização da topografia corneana, os ceratômetros. Assim, você aprenderá as carac- terísticas, o funcionamento, as partes e como realizar as medidas. 1.3.1 Ceratômetro Javal-Schiotz O primeiro equipamento que vamos estudar é o ceratômetro Javal- Schiotz. Ele é um instrumento de duas medidas que possibilita não somente uma medida central, mas periférica, facilitando a análise de um astigma- tismo irregular. Refração objetiva - Ceratometria unidade I 21 Figura 1.6 – Ceratômetro do tipo Javal Fonte: FURLAN et al. (2009). 1.3.1.1 Caraterísticas Este modelo de ceratômetro apresenta um design considerado vanguarda, todavia, ainda é vigente no mercado. Sua simplicidade e fácil compreensão o tornam apropriado para introduzir as características principais dos ceratômetros. O princípio de funcionamento desse equipamento encontra-se na figura 1.7. Figura 1.7 – Funcionamento do ceratômetro Javal Adaptada de: FURLAN et al. (2009). Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 22 As miras se movem simultaneamente, mantendo-se simétricas ao eixo óptico, sobre um arco graduado, simulando os extremos de um objeto de tamanho variável. O arco tem no centro o olho examinado. As miras formam uma imagem virtual por reflexão na córnea do paciente. As imagens são, por sua vez, o objeto do qual a objetiva do microscópio forma uma imagem real no plano focal da ocular, que tem como função permitir observar a imagem final das miras com aumento suficiente e sem esforço acomodativo por parte do observador. No plano focal da ocular podemos encontrar o retículo focal, que é um fino filamento ou uma cruz que sobrepõe a imagem das miras. Atrás da objetiva está o dispositivo de duplicação. No caso desse instrumento é um prisma de Wollaston, que separa simetricamente o eixo das duas imagens resultantes. O conjunto formado pelo prisma de Wollaston e o arco que suporta as miras giram ao redor do eixo óptico para poder alinhar-se com os meridianos principais. Cada um dos dois meridianos principais será medido separadamente, pois esse é um ceratômetro de duas posições. Uma das características mais distintivas do ceratômetro Javal é a forma das miras, como podemos observar na figura 1.8. Uma das miras tem uma forma retan- gular, enquanto a outra é escalonada. Figura 1.8 – Miras do ceratômetro Javal Adaptada de: FURLAN et al. (2009). Refração objetiva - Ceratometria unidade I 23 Ambas as miras são retroiluminadas e podem apresentar-se coloridas, uma verde e outra vermelha. Elas são separadas no centro, formando uma linha escura horizontal que faz o papel de guia. A longitude de referência é a separação entre as bordas interiores da mira, ou seja, o objeto que vamos empregar para a aplicação da fórmula ceratométrica, que, passando pela linha de fé, está entre as duas miras. Quando as miras são observadas através do ceratômetro há a reflexão na córnea. Com isso, buscamos conseguir fazer as bordas das imagens duplicadas se coincidirem, conforme a figura 1.9 demonstra. Figura 1.9 – Aspectos das miras do ceratômetro Javal Adaptada de: Furlan et al. (2009). A duplicação proporcionada pelo prisma de Wollaston é fixa, devido ao ajuste de coincidência das miras se realizarem por meio da separação entre as miras. Elas estão montadas sobre uma faixa semicircular e um sistema mecânico, operado pelo observador, o que permite um desloca- mento sincrônico, separando ou juntando, mas sempre mantendo ambas as miras simétricas no olho. A separação necessária das miras no momento de realizar uma medida ocorre como a figura acima demonstra. Dessa forma, com a linha guia contínua e as miras se tocando, mas não se sobrepondo, podemos encontrar o poder de curvatura do meridiano analisado. Se as miras forem verde e vermelho, em caso de sobreposição, Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 24 tal zona apresentará uma cor branco-amarelada, o que facilita muito a localização da posição de medida. As miras centrais devem ser as únicas observadas para a realização da medida. Podemos notar que sob condições de mensuração, as medidas estão ligadas entre si, como a figura apresentou. Devido a essa disposição, se as miras estão em coin- cidência, ou seja, tocando uma a outra, sem sobreposição, em um meridiano e mudarmos a outro meridiano de maior potência, o tamanho de cada conjunto de miras se reduzirá. Caso a duplicação seja mantida, acabará ocorrendo uma sobre- posição das imagens centrais. A magnitude da sobreposição fornece uma medida orientativa do astigmatismo, visto que as escalas das miras correspondem à aproxi- madamente 1 dioptria. Podemos destacar as características principais do sistema Javal de ceratometria: 9 Miras bicolores escalonadas; 9 Duplicação fixa por meio do prisma de Wollaston; 9 Separação ajustável das miras; 9 Medida sequencial em distintos meridianos pelo giro do canhão. 1.3.1.2 Procedimento de medida Tal qual todos os procedimentos optométricos, a mensuração no ceratômetro do tipo Javal é realizado de forma sistemática. Esse procedimento é relativamente fácil de ser realizado, e quanto mais treino, mais acurado fica. 1.3.1.2.1 Ajuste da ocular O procedimento de medida tem início no ajuste prévio do foco da ocular do microscópio para a eventual ametropia do observador. O ajuste da ocular deve ser feito sem a presença do paciente. A ocular geralmente vem acompanhada de uma escala graduada em dioptrias, o que ajuda o examinador a ajustá-la. Refração objetiva - Ceratometria unidade I 25 A função do ajuste da ocular é fazer com que o observador tenha foco e veja nítido sem utilizar a acomodação. Esse ajuste é considerado crítico e deve ser reali- zado com máxima precisão. Para isso, devemos começar com o máximo poder hipermetrópico e ir variando o foco lentamente até encontrar a primeira posição em que a mira se torna nítida. Dessa forma, garantiremos que o observador não acomodará ao realizar a medida. Se o procedimento não for feito corretamente, uma medida com a calibração fora da necessidade do observador acarretaria em uma tomada errada de medidas. 1.3.1.2.2 Alinhamento e foco do ceratômetro Neste passo, vamos realizar a medida no vértice corneano. Após higie- nizado o aparelho (testeira e queixeira) com álcool 70 e um papel descartável, o paciente deve estar o mais estável possível, com a testa bem encostada na testeira e o queixo na queixeira. Continuamos com o alinhamento aproxi- mado, para que o examinador estabeleça as marcas de referência externa do aparelho com posições específicas do paciente. Para finalizar o alinhamento, o observador deve ajudar a ocular. Uma vez realizado o alinhamento preliminar, devemos também fixar a orien-tação do olho do paciente. Para isso, podemos utilizar uma lanterna ou foco de luz através da ocular. Pedimos para o paciente olhar fixamente o centro do instrumento e com o foco de luz, a alinhamos com a córnea. Movendo o corpo do aparelho de forma lateral e longitudinal, que está ligado ao enfoque, devemos deixar as miras centrais do aparelho no centro do campo visual do paciente, coincidindo com o centro da linha de fé, corretamente focadas. Se as miras não estão centradas no momento da medida, estaremos medindo uma zona excêntrica da córnea, que pode apresentar um raio de curvatura maior e um certo astigmatismo por descentramento. Um foco incorreto dificulta um ajuste preciso e altera o aumento com relação à calibração, produzindo medidas inexatas e com maior variação. Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 26 1.3.1.2.3 Localização dos meridianos principais e medida do astigmatismo O primeiro passo para a medida consiste em alinhar simultaneamente a linha de fé e a coincidência das bordas das miras. Começamos com as miras do cera- tômetro alinhadas no meridiano 180 e depois realizamos o ajuste de coincidência, fixando, assim, as miras centrais. Para que isso ocorra, acionamos o comando de separação das miras até que elas estejam juntas, porém sem sobreposição. Figura 1.10 – Aspectos das miras do ceratômetro Javal Fonte: FURLAN et al. (2009). A figura 1.10 apresenta as possibilidades de contato justaposto entre as miras, sem sobreposição. No primeiro caso, em “a”, há o alinhamento da fenda das miras. Isso significa que o meridiano 180º é um dos meridianos principais, ou que a córnea é esférica. Já na segunda imagem, “b”, ocorre quando levamos as miras a se coin- cidirem, mas não há alinhamento. Dessa forma, conseguimos compreender que o meridiano 180º não é um dos meridianos principais e que existe um astigmatismo Refração objetiva - Ceratometria unidade I 27 corneano. A partir dessa situação, giramos a cabeça do aparelho até conseguirmos o alinhamento, que resultará em um dos meridianos principais. Todavia, temos que ter em conta que ao girarmos o instrumento, as miras podem deixar de coincidirem, uma vez que a potência em outros meridianos é distinta da horizontal. Dessa forma, pode ser necessário o reajuste tanto do giro da cabeça do ceratômetro quanto da separação das miras. Se o procedimento descrito acima for corretamente feito, chegaremos à confi- guração das miras semelhante ao primeiro caso, “a”, exceto pelo alinhamento da fenda, que agora se encontra em meridiano oblíquo, como na figura “c”. Nesse ponto, o alinhamento das miras garantirá que encontramos um dos meridianos principais, cuja orientação é dada após giro de cabeça. A coincidência das miras permite o uso da calibração do instrumento para a obtenção do raio de curvatura ou potência dos valores do primeiro meridiano principal. Uma vez que encontramos o meridiano principal mais próximo ao plano hori- zontal, giramos a cabeça do ceratômetro em 90º. Podem ser encontradas agora três situações, conforme a figura 1.11 apresenta. Figura 1.11 – Coincidência das miras verticais do ceratômetro Fonte: FURLAN et al. (2009). Na primeira, as miras seguem em coincidência, como a figura “a”. Isso indica que a potência do segundo meridiano principal é igual a do primeiro. Essa coincidência de potência apenas será produzida se a córnea for esférica. As outras duas possibilidades aparecem quando as miras estão separadas entre si ou que se sobrepõe, como as figuras “b” e “c”, respectivamente. Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 28 Em qualquer dos dois casos, procederemos para mudar a separação entre as miras até conseguir de novo a coincidência. A leitura dos valores nos meridianos completa a medida ceratométrica da córnea. 1.3.1.2.4 Estimação do astigmatismo corneano com o ceratômetro Javal Devemos lembrar que o caso mais comum de astigmatismo na popu- lação é o “a favor da regra”. Nele, a potência vertical é maior do que a do meridiano horizontal. Tal como vimos anteriormente, se temos as miras em coincidência em um meridiano corneano, ao passar para outro de maior potência, será produzida uma sobreposição entre as miras. O esca- lonamento das miras do ceratômetro Javal tem precisamente o objetivo de poder medir o nível de sobreposição das miras. O tamanho da escala é tal que a diferença entre as potências corresponde ao número de escala de sobreposição. Quando realizamos a medida do meridiano horizontal, ao girarmos as miras até o meridiano perpendicular (situação mais comum) acontecerá a produção de sobreposição das miras, como na figura c. Se contarmos o número da escala de sobreposição, teremos uma estima direta do valor astigmático corneano. Se, todavia, o astigmatismo é “contra a regra”, ocorrerá a separação das miras e a estimação direta não é possível, pois carecerá de referências de medida. Dessa forma, nesse caso, depois de coincidirmos as miras no meridiano vertical, devemos voltar ao meri- diano horizontal e, então, obter a sobreposição proporcional ao astigmatismo. Refração objetiva - Ceratometria unidade I 29 Esse método não substitui a medida exata por meio da escala do ceratômetro, mas serve como uma ajuda para comprovar se o astigmatismo é contra ou a favor da regra, reduzindo a possibilidade de erros. Uma possibilidade que ocorre com pouca frequência é aquela em que, ao girarmos a cabeça em 90º, perdemos o alinhamento. Nesse caso, o meridiano perpendicular ao primeiro não é um meridiano principal. Assim, nos deparamos com um astigmatismo irregular, com meridianos principais não perpendiculares entre si. Nesse caso, giraremos a cabeça até encontrarmos, se é possível, o alinhamento das fendas das miras mais próximas. Deveremos anotar o ângulo e a potência desse meridiano, além da observação de que se trata de um astigmatismo irregular. Os passos descritos se repetem para ambos os olhos, começando pelo direito. Devido à movimentação voluntária e involuntária do paciente, ligada à falta de rigidez do queixo do paciente na queixeira, um ajuste focal e de centralização do ceratômetro é sempre preciso, pois uma medida exata necessita de estabilidade. É importante também manter a estabilidade do filme lacrimal durante a medida, pois em casos de secura, a zona adequada deixa de refletir adequadamente, impossibilitando a medida. O sujeito deve piscar de forma normal e natural durante todo o teste, até o momento da medida, em que devemos pedir para que pare de piscar por alguns instantes. Na prática! Com essa teoria, aliada com os materiais presentes no AVA, em especial o “Guia passo a passo da ceratometria Javal”, treine a ceratometria com seu colega de turma e fique bom nesse que é um dos principais procedimentos optométricos! Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 30 1.3.2 Ceratômetro Helmholtz Figura 1.12 – Ceratômetro do tipo Helmholtz Fonte: FURLAN et al. (2009). Popularmente conhecido como BL, ou Bausch & Lomb, devido à empresa que mais o fabricou, o ceratômetro do tipo Helmholtz apresenta algumas características que tornam seu uso mais fácil em relação ao Javal. Fundamentalmente, ele conta com uma forma de assegurar o foco corre- tamente e, em casos de astigmatismo regular, permite mensurar os dois meridianos principais sem a necessidade de girar a cabeça para fazer duas medidas. Refração objetiva - Ceratometria unidade I 31 1.3.2.1 Características Figura 1.13 – Funcionamento do ceratômetro Helmholtz Adaptada de: FURLAN et al. (2009). Tal qual o ceratômetro Javal, o Helmholtz foi projetado sobre um microscópio que gira sobre um eixo de rotação. A frente do instrumento é uma placa opaca, onde se encontra um furo central diante da objetiva do microscópio e rodeado a ela encontra-se a mira do ceratômetro, que nesse caso é diferente do Javal, apresen- tando um tamanho fixo. Uma lâmpada por detrás da mira enviaa luz através dela para formar a imagem virtual na córnea do paciente. A mira, neste caso, tem forma circular, com duas cruzes e dois segmentos horizontais na parte exterior dos círculos. Esses símbolos são as marcas de referência para o alinhamento e a coincidência. A separação entre as marcas de referência é fixa, pois o ceratômetro é baseado em um sistema de duplicação variável. O sistema empregado é o de prismas deslizáveis ao longo do eixo do aparelho. Uma característica básica do ceratômetro Helmholtz é que ele é um dispositivo de uma posição. O que isso significa? Uma vez ajustado, as escalas de medida dão a medida dos meridianos perpendiculares, sem a necessidade de girar o aparelho em Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 32 90º. Isso é possível devido à introdução de um desdobramento independente em dois meridianos perpendiculares entre si. A objetiva do microscópio é coberta por um diafragma com quatro aberturas. As aberturas numeradas em 1 e 2 estão alinhadas com dois prismas, de desvio hori- zontal e vertical, respectivamente. Assim, a luz que atravessa a abertura 1, atravessa um prisma de base lateral e produz uma imagem desviada em direção horizontal à imagem da mira produzida por reflexão na córnea. De forma análoga, a luz que atra- vessa a abertura 2 passa através do outro prisma que desvia a imagem em direção vertical. Os dois prismas podem deslizar de forma independente, variando o desdo- bramento nos meridianos horizontal e vertical separadamente, por meio de comandos giratórios. Esse dispositivo permite chegar à coincidência das marcas de referências nos dois meridianos sem a necessidade de girar a cabeça do aparelho entre um e outro. Para alinhar qualquer um dos meridianos principais com as direções do desdobra- mento, coincidentes com as marcas de referência, todo o canhão gira com relação ao eixo óptico. A principal vantagem dos ceratômetros de uma posição reside no fato de podermos ajustar os dois meridianos principais simultaneamente, sem existir o risco de movimentos do paciente que possam prejudicar a medida de algum dos meridianos. O diafragma que recobre a obje- tiva tem duas aberturas adicionais, sem prismas associados, que correspondem a um disco de Scheiner. A função desse dispositivo é fornecer uma ajuda para focar. Dessa forma, observamos através da ocular o plano do retículo e a imagem aérea das miras que se encontram diretamente nesse plano. O disco de Scheiner produzirá uma imagem única, similar à que teríamos em uma abertura única. Se, ao contrário, a imagem aérea está desfocada, cada uma das aberturas dará lugar a uma imagem ligeiramente deslocada na Refração objetiva - Ceratometria unidade I 33 direção da abertura, dando como resultado uma imagem duplicada. Para assegurar um foco correto, é necessário apenas ajustar a posição do ceratômetro até conseguir que desapareça a imagem dupla. Todavia, não devemos confundir o deslocamento da imagem com a duplicação da medida. Em conjunto ao efeito das quatro aberturas da máscara do diafragma, quando observamos por meio do ceratômetro a imagem das miras, anali- samos quatro imagens de miras, conforme a figura 1.14a demonstra. Nessa figura, podemos assumir que o foco não está correto. Cada uma das imagens corresponde a cada abertura no diafragma (a imagem da esquerda corresponde à abertura 1, a superior à 2 e os vértices 3 e 4). Uma vez que conseguimos focar o instrumento, apenas observamos três imagens, apare- cendo sobrepostas duas das quatro imagens originais, como a figura 1.14b. Figura 1.14 – Aspectos das miras do ceratômetro Helmholtz Fonte: FURLAN et al. (2009). No ceratômetro Javal, a situação de coincidência ocorria quando as miras entravam em contato, sem sobreposição. Para o Helmholtz, a coincidência é tradu- zida na sobreposição dos sinais + e – para os meridianos principais da córnea. Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 34 1.3.2.2 Procedimento de medida Começamos o processo igual ao ceratômetro Javal, ajustando a ocular. Podemos fazer sem a presença do paciente e o objetivo é fazer com que o examinador veja nitidamente e sem empregar a acomo- dação o retículo. O retículo no Helmholtz geralmente é uma cruz na circunferência central, como a figura demonstra. Depois devemos alinhar o ceratômetro ao olho do paciente e verificar o foco das imagens das circunferências. Devemos buscar a posição de medida ajustando as miras vertical e horizontal por meio de comandos do ceratômetro até chegar à coincidência das marcas referenciais + e -. Os comandos, nesse instrumento, estão nomeados em horizontal e vertical, e comandam ambos meridianos independentemente. Primeiramente, o canhão do aparelho está posicionado com as marcas de referência da mira com forma + no meridiano horizontal. Se o meridiano horizontal for um dos meridianos principais, ou a córnea for esférica, os sinais + da mira central e da esquerda estarão alinhados, fazendo com que os segmentos horizontais sigam sobre uma linha igual. Um exemplo ocorre na figura 1.14b. Todavia, se o meridiano horizontal não é um dos meridianos principais, os segmentos horizontais + não estarão alinhados, como na figura 1.15a. Nesse caso, devemos girar a cabeça do instrumento até conseguirmos um alinhamento, como na figura 1.15b. Uma vez que as miras se encontram alinhadas, conseguiremos a coincidência delas. Depois que as miras referenciais + estiverem coincididas, devemos unir o meridiano perpendicular, com referência -. Todas as miras coin- cididas, chegamos à situação da figura 1.15c. Refração objetiva - Ceratometria unidade I 35 Figura 1.15 – Procedimento de coincidência das miras oblíquas no ceratômetro Helmholtz Fonte: FURLAN et al. (2009). O ceratômetro Helmholtz tem uma vantagem em relação ao modelo Javal. A parte circular da mira não tem uma finalidade para a medida, mas suas deformações podem indicar problemas na córnea e também a quebra do filme lacrimal, apre- sentando zonas descontínuas na circunferência nas partes da córnea onde faltam lágrimas. Em ocasiões especiais, podemos medir córneas com astigmatismo irregular. A única opção, nesse caso, é utilizar o instrumento como se fosse de duas posições, usando apenas a medida horizontal. Resumindo, então, as características do ceratômetro Helmholtz, temos: 9 Miras fixas; 9 Desdobramento variável por meio de prismas deslizantes; 9 Foco preciso pelo disco de Scheiner; 9 Medida simultânea dos dois meridianos principais. Na prática! Agora que você já sabe como fazer o procedimento Helmholtz, treine com seu colega de turma como fazer o procedimento utilizando o conteúdo no AVA chamado “Guia passo a passo de ceratometria Helmholtz”. Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 36 Importante! É importante que você saiba como anotar e estimar o tamanho do astig- matismo corneano. Para isso, é imprescindível que você acesse no AVA o conteúdo “Anotações e cálculo do astigmatismo corneano”. Às vezes, você não conseguirá realizar a ceratometria . Para isso, existe um “gato” para aumentar a amplitude da medida. Ficou curioso de como fazer? Acesse o conteúdo “Estendendo a amplitude de medida” no AVA. A ceratometria é uma técnica de medida objetiva da córnea. Todavia ela não serve apenas para refração. Quer saber outros usos? Acesse o conteúdo “Outras técnicas e usos da ceratometria” presente no AVA e conheça mais. 1.4 Regra de Javal Convencionalmente, dividimos o astigmatismo refrativo total, At, de um olho em dois componentes: o astigmatismo corneano, Ac, pois a córnea é a primeira lente do aparelho óptico e a mais poderosa; e o astigmatismo residual, Ar, que engloba o cristalino e os demais meios refrativos. Uma equação simples para descrever o astig- matismo pode ser escrita: At = Ac + Ar Devido à predominância do astigmatismo corneano no astigmatismo total, podemos dizer então que o astigmatismocorneano é suficiente para se ter uma boa estimativa do astigmatismo total do olho. O astigmatismo residual provém dos demais meios refrativos do olho, em especial o cristalino, especialmente por sua descentralização e inclinação em relação ao eixo visual. Estatisticamente, o astigma- tismo interno é bastante similar na maior parte da população, sendo seu valor médio de 0,50 (-0,50 DC x 90 ou +0,50 DC x 180). Todavia, é importante salientar que esse valor não é exato, então cremos no valor aproximado do astigmatismo residual de +/- 0,50. Bom, se o astigmatismo total pode ser estimado a partir do astigmatismo de córnea, podemos dizer que essa relação é bem conhecida há muito tempo. Assim, a Refração objetiva - Ceratometria unidade I 37 medida das curvaturas da córnea tem o efeito de ser um auxílio importante para a refração. Javal, estudioso espanhol, realizou estatísticas sobre a medida do astigmatismo para obter uma relação empírica entre o astigmatismo corneano, a partir de seu ceratômetro, e o total. Baseando em suas medidas, ele chegou, em 1890, à seguinte equação, conhecida como Regra (ou Lei) de Javal: At = 1,25 Ac - 0,50 DC x 90 A Lei de Javal foi revisada detalhadamente por Grosvenor e seus colaboradores em 1988, ao realizarem um estudo estatístico com mais de mil olhos. À luz de suas próprias medidas, eles propuseram uma simplificação da regra de Javal, que, por sua vez, ajusta-se melhor aos resultados experimentais do que a original. A nova fórmula proposta é: At = Ac - 0,50 DC x 90 Essa expressão é chamada de “Regra de Javal simplificada”. Tanto a regra de Javal, quanto a simplificada, são aplicadas em caso nos quais o astigmatismo corneano é a favor da regra ou contra a regra. Aprendemos que: Nesta unidade, aprendemos um pouco sobre o que é o ceratômetro, um dos principais dispositivos de refração objetiva. Com ele, podemos analisar a córnea, sua dioptria e estimar um erro refrativo. Temos dois aparelhos: o Javal e o Helmholtz, que apresentam certa diferença e especificidades. Por meio da lei de Javal, conseguimos estimar um valor aproximado de astigmatismo do paciente. Refração objetiva - Ceratometriaunidade I 38 Referências da unidade I ALVES, Milton Ruiz. Refratometria ocular e a arte da prescrição médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2013. BENJAMIN, W. Borish’s clinical refraction. 2. ed. Filadelphia: W. B. Saunders, 2006. CARLSON, Nancy. Clinical procedures for ocular examination. 4. ed. New York: McGraw- Hill Education, 2015. FURLAN, W. Fundamentos de Optometria. Refraccion Ocular. 1. ed. Valencia: Universidad Valencia, 2009. MARTIN, Raul; VECILLA, Gerardo. Manual de Optometria. 2. ed. Madrid: Médica Panamericana, 2012. Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 39 2unidade II 2Refração objetiva - Retinoscopia 2.1 A retinoscopia A retinoscopia, ou esquiascopia (palavra q ue vem do grego σκιόεις, que significa sombra e σκοπέω, que significa observar, logo “observação das sombras”) é um método objetivo de refra ção. Dessa forma, ela pode ser obtida sem que o paciente informe qualquer tipo de resposta, apenas com o examinador interpretando o comportamento da luz refletida na retina através do retinoscópio. Para realizar a retinoscopia, é necessária uma leve colaboração do paciente, para que ele mantenha sua fixação no objeto, seja o optotipo para perto, para longe, seja qualquer outro estímulo. A retinoscopia reduz o tempo e os erros na refração, além de ser imprescindível na hora de realizar a refração em situações em que a 2Comando Tabela Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 40 comunicação é difícil ou impossível, como em crianças não verbais, pessoas com problemas mentais, surdos ou muito idosos. 2.1.1 O retinoscópio O retinoscópio é um instrumento que combina um sistema de iluminação com um sistema de observação no mesmo eixo. Dessa forma, um feixe de luz é projetado, seja uma faixa, seja um ponto, sobre o fundo do olho. O sistema de observação permite ver o reflexo de luz proveniente da retina do olho explorado através do espelho. Esses raios são afetados por todo o estado refrativo do olho pelo qual, dependendo das características de seu movimento, você vai poder detectar problemas refrativos, como a miopia, a hipermetropia ou o astigmatismo. 2.1.2 Sistema de iluminação ou de projeção O sistema de projeção ilumina a retina do olho explorado e é composto pelas seguintes partes: Figura 2.1 – Representação de um retinoscópio Espelho semitransparente Luva de comando Lente condensadora Fonte de iluminação RETINOSCÓPIO PACIENTEAVALIADOR Adaptada de: MARTIN; VECILLA (2010). Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 41 Fonte de iluminação: constituída de uma lâmpada com um filamento linear, ela projeta uma linha ou um faixa de luz que pode ser rotacionada para explorar diferentes meridianos. Lente condensadora: consiste em uma lente que focaliza a luz da lâmpada no espelho do retinoscópio. Espelho: situado na cabeça do aparelho, ele pode apresentar um orifício central ou estar semirrevestido para que os raios de luz refletidos na retina do olho possam ser explorados. Figura 2.2 – Tipos de retinoscópio e espelhos Espelho Plano Espelho PlanoEspelho Côncavo Espelho Côncavo RETINOSCÓPIO DO TIPO COPELAND RETINOSCÓPIO WELCH-ALLYN Adaptada de: MARTIN; VECILLA (2010). Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 42 Luva de comando: esse sistema permite variar a distância entre a lâmpada e a lente, de modo que o retinoscópio possa projetar os raios diver- gentes quando o espelho estiver na posição plana, ou raios convergentes, quando o espelho estiver na posição côncava. Na maioria dos retinoscópios, a mudança focal ocorre ao alterar verticalmente o comando de focagem. Na figura 2.2, temos o sistema Copeland, em que o espelho plano fica na posição superior e o côncavo na inferior, enquanto no sistema Welch-Allyn temos o espelho plano na parte inferior e o côncavo na parte superior. Fonte de energia: está situada no cabo do aparelho. O retinoscópio pode ser alimentado por baterias ou conexão com a rede elétrica. Ele dispõe de um reostato que permite modificar a intensidade da luz e o consumo de energia. Podemos, ainda, diferenciar os tipos de retinoscópio em dois, pela forma com que projetam a luz. O retinoscópio de ponto produz uma luz em forma de cone, enquanto o retinoscópio de faixa apresenta uma luz em forma de faixa luminosa. Este é o tipo mais utilizado. Figura 2.3 – Diferença entre retinoscopia de ponto e de faixa Fonte: FURLAN et al. (2009). Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 43 2.1.3 Sistema de observação O sistema de observação permite ver o reflexo luminoso proveniente da retina do olho explorado por meio do espelho. Estes raios são afetados pelo estado refrativo do olho, o que faz com que as características do movimento possam ser detectadas e interpretadas como defeitos refrativos. 2.2 Conceitos básicos de retinoscopia Nesta subunidade você vai compreender o funcionamento da retinoscopia, com as características básicas para sua realização. 2.2.1 Reflexo retiniano Em condições normais, a luz do retinosc ópio viaja até o paciente e a imagem da luz é formada em sua retina. Dessa forma, na pupila do cidadão, é observado um reflexo luminoso proce dente ou refletido pela retina. Esse fenômeno tem o nome de reflexo retinia no. Ao mesmo tempo, por fora da pupila, podemos ver uma faixa luminosa emitida pelo retinoscópio. A relação entre o movimento e o restante desses r eflexos é utilizada para determinar o estado refrativo do olho. No reflexo retiniano de uma pessoa emétrope, os raios refletidos são para- lelos ao eixo óptico, enquanto em um hipermétrope são divergentes e no míope são convergentes, conforme a figura 2.4 demonstra. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 44 Figura 2.4 – Formação da imagem da luz na retinaEMÉTROPE HIPERMÉTROPE MÍOPE Fonte: MARTIN & VECILLA (2010). 2.2.2 Tipos de sombras As sombras são definidas como movimento a favor (ou direta), quando o movi- mento da faixa de luz emitida pelo aparelho e o movimento da luz refletida pela retina do olho têm direções iguais, e movimento contra (ou inversa) quando apre- sentam direções opostas, tal qual a figura 2.5 apresenta. Figura 2.5 – Tipos de sombra e movimento retiniano REFLEXO RETINIANO MOVIMENTO A FAVOR MOVIMENTO CONTRA Adaptada de: MARTIN; VECILLA (2010). Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 45 2.2.3 Espelhos Nesta subunidade, você aprenderá o conceito e um pouco mais sobre o funcio- namento dos espelhos que o retinoscópio apresenta, em especial quando usar um e quando usar o outro. 2.2.3.1 Espelho plano Na posição do espelho plano, a luz emit ida pelo retinoscópio é diver- gente e a presença de sombras diretas (m ovimento a favor) pode significar a presença de miopia menor do que 1,50D para uma distância de trabalho de aproximadamente 66 cm, emetropia ou h ipermetropia. Isso significa que o ponto remoto do p aciente está situado atrás da retina (ponto virtual). Todavia, em situaç ão contrária, quando há a presença de sombras inversas, significa miopia s uperior a 1,50D, ou seja, o ponto remoto do paciente deve estar situado antes da retina, como a figura 2.6 demonstra. Figura 2.6 – Faixas, movimentos de sombras retinianas, suas relações com as ametropias e lente de trabalho. Com lente corretora de +1,50D Sem lente corretora Disponível em: <https://bit.ly/3958cXK>. Acesso em: 17/12/2019. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 46 2.2.3.2 Espelho côncavo No caso da posição do espelho côncavo, a luz emitida pelo retinoscópio é convergente (aproximadamente a 35 cm) e, portanto, o significado do movimento das sombras é o contrário aplicado à posição do espelho plano. Dessa forma, o movimento a favor significa miopias maiores do que 1,50D, e o movimento contra, menores do que 1,50D para a distância de trabalho de aproximadamente 66 cm, emetropia ou hipermetropia. 2.2.3.3 Neutralização O objetivo da retinoscopia é neutralizar as sombras com a ajuda de lentes, que podem ser positivas no caso de movimento a favor, ou negativas para o movimento contra, até que não se tenha mais movimento algum. O ponto de neutralização ocorre quando situamos o ponto remoto (PR) do paciente na abertura do retinoscópio, de modo que todos os raios que refletem na retina do olho e a pupila apareçam unifor- memente iluminados em todos os movimentos. Para que alcancemos a neutralização, é necessário que conheçamos o estado refrativo exato. Na realidade, a neutralização não é um ponto, mas sim uma zona, cuja magnitude depende das dimensões da pupila e da distância de trabalho. A determinação da zona de neutralização não é algo simples, uma vez que se trata de um ponto dentro de uma zona de dúvida, logo quando a direção das sombras começa a mudar. Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 47 Figura 2.7 – Características dos fenômenos de faixa, reflexo retiniano, brilho e largura nos movimentos a favor e contra A favor Contra Neutralização Devagar Opaca Fina Movimento a favor Movimento contra Rápida Brilhante Larga Rápida Brilhante Larga Devagar Opaca Fina Sem Movimento Brilhante Pupila Cheia Disponível em: <https://bit.ly/2Or8Jvo>. Acesso em: 17/12/2019. Quando chegamos à zona de dúvida, é pr eferível escolher a lente ante- rior à inversão do movimento das sombr as. 2.2.4 Distância de trabalho O objetivo da retinoscopia é situar o ponto remoto do paciente na abertura do aparelho, enquanto da refração no infinito óptico, de modo que sua imagem se forme na retina na ausência de acomodação. Para calcularmos o estado refra- tivo real do paciente para longe, é necessário medir o equivalente da distância em que a reti- noscopia foi realizada em dioptrias, com lentes que neutralizam o movimento das sombras. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 48 Chamamos de retinoscopia bruta o valor da lente que neutraliza o movimento das sombras, enquanto denominamos retinoscopia líquida o valor da retinoscopia bruta menos a distância de trabalho. Importante! A distância de trabalho é a distância do instrumento do examinador até o olho examinado, que é geralmente equivalente à distância do braço do examinador. Na prática! Vamos medir a sua distância de trabalho. Para isso, segure o retinoscópio próximo ao olho, como se estivesse olhando através do orifício. Com o outro braço esticado, fique em uma posição confortável, de modo que consiga trocar as lentes. A distância do instrumento até a outra mão é a distância de trabalho. Meça-a com uma fita métrica. A distância de trabalho é útil para sabermos o valor que vamos descontar ou acrescer à potência encontrada na esquiascopia. Para isso, vamos transformar a distância de trabalho em uma dioptria. Você se lembra de como se faz? Supondo que a distância do retinoscópio à sua mão (ou seja, a distância do braço) é de 50 cm, quanto seria a nossa distância de trabalho em dioptrias? Esse valor encontrado é importante, pois para encontrarmos a retinoscopia líquida, precisamos subtrai-lo da retinoscopia bruta. Por exemplo, se fizermos uma retinoscopia e encontrarmos um valor bruto de +6,00, qual será o valor da retinos- copia líquida, se minha distância de trabalho for 40 cm? Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 49 Retinoscopia líquida = Retinoscopia bruta Retinoscopia líquida Retinoscopia líquida Retinoscopia líquida 2.2.5 Lente de trabalho Para evitar a necessidade de realização de cálculos para encontrarmos o valor da retinoscopia líquida, podemos utilizar uma lente de trabalho. Isso significa que podemos colocar uma lente fixa na armação de provas ou foróptero, cujo valor seja igual ou correspondente ao poder dióptrico da distância de trabalho, e dessa forma, realizar a retinoscopia. Dessa forma, uma vez que conseguimos chegar ao ponto de neutralização do movimento, basta que retiremos a lente de trabalho para obter o valor da retinos- copia líquida. Esse procedimento pode apresentar vantagens, como reduzir possíveis erros de cálculo, além de permitir um procedimento mais rápido. 2.3 Características do reflexo Ao realizar a retinoscopia, você deve prestar atenção em alguns detalhes muito importantes. Primeiro, deve determinar o tipo de sombra, se o seu movimento é a favor ou contra. Assim, antes de começar a colocar lentes para neutralizar o movi- mento, é importante que três características básicas do reflexo sejam observadas: a velocidade do movimento, o brilho e a largura. 2.3.1 Velocidade Os erros refrativos elevados produzem reflexos lentos, visto que o reflexo se move com menor velocidade quanto mais longe se encontra o ponto remoto, Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 50 aumentando a velocidade à medida que se aproxima dele. Contudo, erros refrativos menores produzem reflexos rápidos. 2.3.2 Brilho Com relação ao brilho, quanto mais longe está o ponto de neutralização, menos intenso será o reflexo. Ao se aproximar do ponto remoto, ele ficará mais brilhante. Os movimentos contrários produzem menor brilho do que os movimentos a favor do erro refrativo. Dessa forma, pode ficar mais fácil trabalhar sempre com sombras diretas, ou seja, com movimento a favor. 2.3.3 Largura A largura do reflexo é menor quanto mais afastado está o ponto remoto e o preenchimento da pupila ocorrerá quando se alcança o ponto de neutralização. 2.4 Fazendo retinoscopia Podemos realizar a retinoscopia utilizando a caixa de provas, o foróptero ou a régua de esquiascopia, que consiste em lentes de poder crescente alinhadas de maneira que podemos realizar o procedimento mais rápido do que com lentes soltas. Figura 2.8 – Caixa de provas (a); Foróptero (b); Régua de esquiascopia (c). A B C Fonte: RAMOS MEJIA(2019). Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 51 Para que consigamos realizar uma boa retinoscopia, podemos manter uma iluminação baixa ou penumbra, para facilitar a observação das sombras e diminuir a miose. Na retinoscopia estática, o paciente deve manter os dois olhos abertos e olhar fixamente um estímulo, como o maior optotipo (20/200 geralmente), estimulando ao mínimo a acomodação. Podemos também embaçar a visão do olho não explorado com uma lente de aproximadamente +2,00D, de modo a relaxar a acomodação. O examinador realiza primeiro o procedimento no olho direito do paciente utilizando o instrumento em seu próprio olho direito, enquanto usa o esquerdo no olho esquerdo do paciente. Dessa forma, garantimos que o sujeito possa sempre manter o olhar no ponto infinito com olho não explorado, como mostra a figura 2.9. Figura 2.9 – Posição do examinador e do paciente na retinoscopia PACIENTE OPTOTIPO RETINOSCÓPIO EXAMINADOR d = 66 cm Adaptada de: MARTIN; VECILLA (2010). É importante que você realize a retinoscopia no eixo óptico do paciente, ou seja, que veja o reflexo retiniano proveniente da mácula. Pode haver uma mínima obliquidade na observação de 3º aproximadamente. Nessa posição, identificamos o tipo das sombras (se estão a favor ou contra o movimento) e neutralizamos com as lentes adequadas. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 52 2.4.1 Determinando a refração A principal função da retinoscopia é a exploração, busca, análise e diagnóstico de erros refrativos do paciente. Dessa forma, você deve determinar primeiro qual é o tipo do erro refrativo que ele apresenta, para então determinar os valores encon- trados. Nesta subunidade você aprenderá como qualificar e quantificar os erros refrativos com a técnica da retinoscopia. 2.4.1.1 Ametropias esféricas Para encontrarmos as ametropias esféricas, como miopia e astigmatismo, devemos entender que as sombras aparecerão na mesma velocidade, brilho e inten- sidade em todos os meridianos. Portanto, vamos neutralizá-los utilizando lentes esféricas. Também podemos estimar a quantidade da ametropia utilizando as seguintes técnicas: Miopia: o avaliador pode se aproximar do paciente com o retinoscópio, na posição do espelho plano, até que as sombras fiquem a favor. Depois, voltará para trás até encontrar a zona de neutralização. Nesse momento, o avaliador estará no ponto remoto do paciente, e a conversão da distância em dioptrias demonstrará o grau de miopia apresentada. Uma vez reali- zada a medição, devemos afinar a retinoscopia à distância de trabalho. Essa técnica é mais indicada para miopias entre -5,00 e -10,00D. Hipermetropia: podemos utilizar a técnica do realce, que consiste em subir lentamente o comando do retinoscópio, passando da posição de espelho plano para côncavo, até fazermos o reflexo retiniano o mais estreito possível. Se não pudermos estreitar o reflexo retiniano, trata-se de uma hipermetropia de 1,00D ou menor, ainda que se o reflexo retiniano se estreite com um pequeno movimento do comando, a hipermetropia pode oscilar em torno de +2,00D. Quando o comando se move em sua totalidade, conseguimos o máximo realce do reflexo retiniano. Isso significa uma hiper- metropia acima de +5,00D. Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 53 Importante! Em ametropias mais elevadas, podemos ter a sensação de não existir sombras, e isso ser confundido com o ponto de neutralização ou alguma alteração nos meios refrativos. Para confirmar se a ausência de sombras é correspondente ao ponto de neutralização, o examinador pode se postar de 10 a 15 cm do paciente. Se aparecerem sombras a favor (com espelho plano), confirmamos a suspeita de ser o ponto de neutralização. Entretanto, se o reflexo não se alterar, podemos estar diante de uma alta ametropia ou defeito nos meios refrativos. Para descartar a segunda hipótese, podemos colocar lentes de maior potência, como 3,00, 5,00 ou 10,00 D. Se conti- nuar sem aparecerem sombras, confirmamos a suspeita de problemas nos meios transparentes. 2.4.1.2 Ametropias cilíndricas Na retinoscopia, nós podemos reconhecer a presença do astigmatismo quando encontramos reflexos diferentes em cada meridiano principal, nos quais podemos encontrar diferentes velocidades, larguras e brilhos das faixas. Quando não explo- ramos na mesma direção que o meridiano principal, podemos observar que o movimento do reflexo não é paralelo à faixa. Dessa forma, para realizarmos a retinoscopia em um olho com astigmatismo, podemos encontrar três situações: 9 As sombras de ambos os meridianos estão a favor; 9 A sombra de ambos os meridianos estão contra; 9 Um dos meridianos apresenta sombra a favor e o outro apresenta contra. 2.4.1.2.1 Localização do eixo cilíndrico Existem quatro fenômenos que permitem encontrar o eixo cilíndrico: Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 54 1. Fenômeno da quebra: quando não estamos explorando na direção do meridiano principal. O reflexo retiniano e a faixa não são coincidentes, apresentando uma quebra de paralelismo. Devemos, então, girar a faixa para torná-la paralela ao reflexo retiniano. Figura 2.10 – Fenômeno da quebra de continuidade da faixa Fonte: MARTIN; VECILLA (2010). 2. Fenômeno da largura: o reflexo retiniano aparece mais fino quando coincide com a direção do eixo cilíndrico. Figura 2.11 – Alinhamento da faixa com o reflexo Fonte: MARTIN; VECILLA (2010). Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 55 3. Fenômeno da intensidade: o reflexo retiniano aparece mais brilhante quando coincide com o eixo. 4. Fenômeno da inclinação: ocorre quando a orientação é correta e podemos mover ligeiramente a faixa sem rotacioná-la, produzindo um movimento paralelo ao reflexo retiniano. Ainda que estejamos em uma orientação equivocada, o reflexo e a faixa se movem em direções diferentes. Figura 2.12 – Inclinação da faixa com relação ao reflexo retiniano para encontrar o eixo do meridiano principal Reflexo largo Faixa Faixa No eixo Reflexo fino Faixa fora do eixo Faixa fora do eixo Fora do eixo Quebra Reflexo Retiniano Movimento Disponível em: <https://bit.ly/31qkszB>. Acesso em: 17/12/2019. Importante! Na prática clínica, os fenômenos de quebra e largura são mais úteis em cilíndricos elevados, ainda que os de intensidade de brilho e inclinação proporcionem mais ajuda nos casos de cilíndricos menores. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 56 Uma vez que você neutralizou o reflexo retiniano, pode afinar o eixo cilíndrico com a técnica do cavalgamento, que consiste em mudar 45º em cada direção do eixo proposto e comparar ambas as imagens. No caso de serem diferentes, em relação ao brilho, largura ou definição, o eixo proposto estará errado. Para calcular a orien- tação adequada, é necessário mudar o cilindro até o lado em que o reflexo retiniano seja mais brilhante e estreito, até que não encontre mais diferença entre as imagens. 2.4.1.2.2 Neutralização da potência cilíndrica Basicamente, existem dois modos diferentes de neutralizar as sombras do astigmatismo: Neutralização com lentes esféricas: uma vez que você identificou os dois meridianos principais, você neutraliza um deles com lentes esféricas. Gire a faixa em 90º e neutralize o outro meridiano com lentes esféricas. Anote os dois esféricos e a orientação de cada meridiano. Importante! Ao realizar a retinoscopia, identifique os dois meridianos principais. Se eles tiverem as sombras a favor do movimento em 90 e 180º, coloque a faixa de maneira vertical para explorar o meridiano horizontal. Digamos que conseguimos a neutralização com uma lente esférica de +5,50D. Gire a faixa 90º, ou seja, a faixa que antes estava vertical, agora é horizontal, para explorar o meridiano vertical. Dessa forma, digamos que o reflexo foi neutralizado com +2,00D e a refração desse olho será: Refração objetiva - Retinoscopia unidade II57 Na prática! Querido aluno, para fixar um pouco a questão da retinoscopia utilizando lentes esféricas, vamos fazer um exercício. Digamos que um paciente entra em seu consultório e você irá atendê-lo. No olho direito, ao explorar o meridiano horizontal, com a faixa a 90º, foi encontrado a potência de +2,50D. Ao alterar a faixa em 90º, você verifica que as sombras estão fazendo um movimento contra, com uma diferença de 1,00D do outro meridiano. Qual é a refração desse olho? Neutralização com lentes esféricas e cilíndricas: você pode neutra- lizar o meridiano mais positivo com a lente esférica e o outro com uma lente cilíndrica. Esse procedimento é mais preciso, por permitir a comprovação da neutralização de todos os meridianos. Importante! Se utilizarmos o exemplo anterior, depois de neutralizar o meridiano hori- zontal com uma lente de +5,50D, ao explorar o meridiano vertical, você verá as sombras com movimento contra que podem ser neutralizadas com um cilíndrico negativo de -3,50D. A orientação do cilíndrico deve ser igual a da orientação da faixa, nesse caso, em 180º. Quando colocamos a faixa na orientação vertical (90º), exploramos o meridiano horizontal (180º), pois o movimento necessário para observar as sombras é realizado da direita para a esquerda, no plano horizontal. Ao contrário, se colocarmos a faixa na orientação horizontal (180º), o movimento a ser realizado será de cima para baixo, ou seja, o meridiano explorado será o vertical. Por esse motivo, o eixo do cilíndrico vai coincidir com a orientação da faixa e não com a orientação do reflexo retiniano. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 58 Figura 2.13 – Passo a passo de como realizar a retinoscopia estática Passo 1 Localize os meridianos principais e escolha um deles, de prefe- rência o que apresentar a ametropia mais positiva ou menos negativa. Identifique o tipo de movimento das sombras do reflexo retiniano, que nesse caso, são a favor. Passo 2 Neutralize o movimento utilizando lentes esféricas (nas imagens com uma esfera positiva de +3,00D, pois se trata de sombras a favor). Passo 3 Mantendo a lente que neutralizou o primeiro meridiano, gire a faixa em 90º e identifique o tipo de movimento das sombras (de acordo com o passo 1, as sombras estarão em sentido contrário, tal qual a imagem). Passo 5 Calcular a fómula esferocilíndrica: Opção A: Faixa vertical +3,00D e faixa horizontal +1,0D Bicilíndrica de +3,00 90º x +1,00 180º Esferocilíndrica +3,00 esf. -2,00 cil. 180º Opção B: Você consegue a esferocilíndrica direto: +3,00 <> -2,00 x 180º Passo 4 - Opção A Neutralize o movimento com lentes esféricas, diminuindo a sua potência até conseguir um novo ponto de neutralização (no caso, com uma lente esférica de +1,0D). Passo 4 - Opção B Você também pode neutralizar o segundo meridiano com uma lente cilíndrica negativa de -2,00D, pois se trata de um movi- mento contrário à da faixa com a qual foi neutralizada. 1 2 3 4 A 4 B 5 +3,00 +3,00 +3,00 -2,00 +1,00 Adaptada de: MARTIN; VECILLA (2010). Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 59 Na prática! Vamos agora aprender o passo a passo de como realizar a retinoscopia estática: 1. Instrua o paciente a fixar o olhar no objeto o mais longe possível e examine o olho direito; 2. Determine se o erro refrativo é esférico ou astigmático, mudando a posição da luva de comando do retinoscópio e a distância entre o exami- nador e o paciente até o reflexo retiniano a ser neutralizado. Feito isso, gire a luva em 360º, de modo a verificar se há o fenômeno da quebra, da mudança de brilho dentro da pupila: a. Se o erro refrativo for esférico, o reflexo dentro da pupila será contínuo, sem quebra. Se o erro for astigmático, o reflexo dentro da pupila pode não ser contínuo, com quebra. Figura 2.14 – Quebra de continuidade em erro refrativo não esférico Não é um dos meridianos principais Um dos meridianos principais Adaptada de: CARLSON (2015). b. Uma vez que a luva for girada em 360º, a largura do reflexo dentro da pupila será constante em um erro refrativo esférico e variar em um cilíndrico (fenômeno da largura). Como a luva é girada, o brilho do reflexo retiniano se manterá constante em um erro esférico e pode variar no astigmático. Os meridianos principais correspondem às orientações da luva, que mostrará a largura dos reflexos e seu brilho. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 60 Figura 2.15 – Erro refrativo esférico Erro refrativo esférico: Todos os meridianos com a mesma espessura Adaptada de: CARLSON (2015). c. Em um erro astigmático, como a faixa é movida por meio da pupila do paciente, o reflexo dentro dela se moverá paralelamente ao movi- mento da faixa na íris do paciente. Isso ocorre quando a faixa estiver alinhada em um dos dois meridianos principais. O reflexo se moverá em direções diferentes da faixa quando ela não estiver alinhada com um dos meridianos principais. Figura 2.16 – Diferença de espessura no astigmatismo Astigmatismo: A espessura do reflexo varia nos diferentes meridianos. Adaptada de: CARLSON (2015). 3. Se um erro refrativo for esférico, observe se o reflexo está a favor ou contra o movimento e adicione lentes positivas ou negativas para neutralização, dependendo do erro do paciente, a posição da luva de comando do retinoscópio (se o espelho é plano ou côncavo) e o tipo de movimento da faixa. A tabela 2.1 demonstra o tipo de movimento com espelho plano, côncavo e o tipo de lente a se adicionar. Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 61 Tabela 2.1 – Lentes e espelhos usados na neutralização do movimento Erro refrativo Movimento com espelho plano Movimento com espelho côncavo Lentes utilizadas para neutralização Emetropia ou hipermetropia A favor Contra Positiva Baixa miopia Neutralização Neutralização Nenhuma Miopia maior do que a distância de trabalho Contra A favor Negativa Adaptada de: CARLSON (2015). 4. Para neutralizar um erro astigmático, é necessário que primeiro você identifique um dos meridianos principais, como no passo 2. Então, neutralize cada um dos meridianos separadamente. Quando utilizar um foróptero com lentes cilíndricas negativas, você pode neutralizar um meridiano usando as lentes esféricas e o outro em combinação com as lentes cilíndricas, lembrando que o esférico deve ser o mais positivo ou menos negativo. Para um iniciante, pode ser difícil determinar qual meridiano é o menos negativo no começo para ser neutralizado primeiro. Os demais meridianos podem ser examinados e ajustados apenas usando lentes esféricas. 5. Quando ambos os meridianos estiverem neutralizados, reexamine o meridiano neutralizado com esférico e ajuste o poder esférico, se necessário. 6. Quando encontrar a neutralidade, reexamine todos os meridianos com a luva de comando em ambos os espelhos, plano e côncavo. Se a verda- deira neutralização ocorreu, todos os meridianos vão parecer neutros em qualquer posição do retinoscópio. Caso não consiga, tente nova- mente até conseguir. Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 62 7. As lentes, ou combinações de lentes, que produzem a neutralização, são chamadas de “retinoscopia bruta”. Repita os passos 2 a 6 no olho esquerdo. 8. Converta a retinoscopia bruta em retinoscopia líquida, algebricamente descontando a sua distância de trabalho convertida em dioptrias no valor esférico de cada olho. 9. Meça a acuidade visual do paciente com cada olho usando a potência encontrada na retinoscopia líquida. Conheça mais: Você pode achar que a retinoscopia só serve para encontrarmos erros refrativos, certo? Felizmente, seu uso não é tão limitado. Ao ler o artigo “Retinoscopia a dois metros na detecção de fatores causadores de ambliopia em crianças de Curitiba”, disponível em sua midiateca, qual outro uso muito importante você consegue estabelecer para a retinoscopia? Vamos ao AVA! No AVA,você vai encontrar o “Simulador de retinoscopia” disponibilizado pela Alcon, para que treine essa técnica que é uma das principais da refração. Acesse lá! 2.5 Retinoscopia dinâmica Você pode realizar a retinoscopia em visão próxima também. O que isso signi- fica? Significa que ela é feita com o paciente recebendo um estímulo acomodativo, ou seja, utilizando sua acomodação. Dessa forma, se utilizarmos esse critério, a reti- noscopia para longe recebe o nome de estática, por não utilizar a acomodação. Você já conhece as retinoscopias MEM, Nott e Bell, vistas nos testes preliminares, certo? Agora vai conhecer outra, voltada à refração. Refração objetiva - Retinoscopia unidade II 63 2.5.1 Retinoscopia Mohindra A retinoscopia Mohindra tem como objetivo determinar o erro refrativo do paciente usando a luz do retinoscópio como ponto de fixação. Esse método pode ser utilizado em adultos, mas é particularmente mais utilizado em crianças e em especial crianças muito pequenas. Para proceder ao teste, você só precisa de lentes e o retinoscópio. Então, você deve estar a 50 cm do paciente. Durante esse procedimento, se observa o olho direito do sujeito com o seu olho direito, e o esquerdo com o esquerdo. A sala deve estar completamente escurecida e o retinoscópio com um nível de luz que permita a observação do reflexo sem ofuscar o paciente. Com o resultado final da retinoscopia, desconte +1,25D no valor esférico para corrigir o valor da distância. Importante! É importante que você lembre-se de descontar o valor de correção sempre que realizar a retinoscopia dinâmica Mohindra. Vamos utilizar o outro exemplo para entendermos melhor. Digamos que encontramos um valor bruto de +5,50 <> -3,50 x 180º. Realizamos Mohindra, e então ficamos com um valor de +4,25 <> -3,50 x 180º. Na prática! Então, vamos para um passo a passo de como realizar Mohindra: 1. Oclua o olho esquerdo e examine o olho direito; 2. Se você estiver examinando uma criança, peça para que ela olhe para a luz. Se isso não acontecer, estimule a atenção da criança fazendo sons. Se estiver examinando uma criança maior ou um adulto, fale para que ela olhe diretamente para a luz; 3. Examine e observe quais são os meridianos principais; 4. Usando uma lente de teste (do foróptero, caixa de provas ou régua de esquiascopia), identifique o poder no qual neutraliza cada meridiano; 5. Calcule sua retinoscopia bruta, usando o cilindro negativo; Refração objetiva - Retinoscopiaunidade II 64 6. Desconte o valor de +1,25 esférico do componente esférico do seu exame. O resultado esferocilíndrico representa a distância corrigida do paciente; 7. Oclua o olho direito do paciente; 8. Repita os passos 2 ao 6 no olho esquerdo; 9. Anote a acuidade visual do paciente utilizando a correção que você encontrou. Aprendemos que: Nesta segunda unidade, você estudou o que é a retinoscopia, uma impor- tante ferramenta para refração e detecção de erros refrativos do olho. Aprendeu, também, a fazer a retinoscopia estática, com o paciente olhando para o infinito; a retinoscopia dinâmica, com o paciente olhando para um estímulo próximo, como a luz do instrumento, além de como usar as lentes para realizar a tarefa. Referências da unidade II ALVES, Milton Ruiz. Refratometria ocular e a arte da prescrição médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2013. BENJAMIN, W. Borish’s clinical refraction. 2. ed. Filadelphia: W. B. Saunders, 2006. CARLSON, Nancy. Clinical Procedures for Ocular Examination. 4. ed. New York: McGraw- Hill Education, 2015. FURLAN, W. Fundamentos de Optometria. Refraccion Ocular. 1. ed. Valencia: Universidad Valencia, 2009. MARTIN, Raul; VECILLA, Gerardo. Manual de Optometria. 2. ed. Madrid: Médica Panamericana, 2012. Refração subjetiva unidade III 65 3unidade III 3Refração subjetiva 3.1 Entendendo a refração subjetiva Nas duas primeiras unidades, você apren deu como proceder quanto à refração objetiva, ou seja, as técnicas uti lizadas para encontrar o erro refra- tivo do seu paciente, de forma diagnóstic a. Agora, vai aprender a neutralizar essas ametropias e devolver uma boa vis ão a ele. A refração subjetiva consiste em comparar a acuidade visual que uma lente proporciona em relação à outra, utilizando como critério de mudança as respostas dadas pelo paciente. O nosso objetivo ao realizar a refração subjetiva é determinar a melhor combinação de lentes esferocilíndricas que vai proporcionar a melhor 3Comando Tabela Refração subjetivaunidade III 66 acuidade sem gerar desconforto, em função da qualidade visual, rendimento visual com relação ao equilíbrio binocular e acomodativo, levando em consideração sua influência sobre o sistema sensorial. A primeira etapa da refração subjetiva depende do nível de visão que o paciente tem ao medirmos sua AV habitual, com ou sem correção prévia. Por isso é impor- tante que você anote seu valor, para termos um ponto de início. Caso o paciente não apresente uma boa AV com sua melhor correção habitual, é necessário que o mesmo teste seja feito com o furo estenopeico. A refração é feita de modo monocular, ou seja, ocluindo um dos olhos, em um ambiente de iluminação que emule o modo em que o paciente utiliza sua visão. Você deverá utilizar as diversas técnicas para calcular a melhor correção esférica e cilín- drica, como o método Donders, o dial-test, cilindros cruzados de Jackson, miopização, entre outras. Importante! Você já deve ter feito algum exame de vista ou visto algum, certo? Então você via aquela sala escura, com apenas o projetor ou a tabela iluminando o ambiente. Atualmente, essa condição só é utilizada quando o dia a dia do paciente necessitar desse tipo de técnica ou em casos de dificuldade de atenção e concentração. Hoje, emulamos o ambiente para o uso da visão da pessoa, de modo a conseguirmos os melhores resultados reais para ela. Para verificarmos a refração monocular encontrada, podemos utilizar também técnicas de refração binocular, como o equilíbrio binocular, balanço acomodativo, subjetivo binocular, miopização bino- cular, entre outras. Todavia, algumas pessoas podem não apresentar visão binocular devido a estrabismos, ambliopia ou supressão, o que torna a refração subjetiva monocular suficiente. Para testar a presença de alguma anomalia de visão binocular, é recomendado o estudo da motilidade ocular extrínseca e o sistema sensorial antes da refração monocular. Refração subjetiva unidade III 67 3.1.1 O furo estenopeico e a diminuição da qualidade visual O furo estenopeico é uma lente fosca com um orifício circular central com diâmetro entre 1 e 2 mm. O teste consiste em colocar a lente sobre o olho do paciente, de modo a verificar se há ou não melhora da acuidade visual do paciente. O furo estenopeico limita a entrada de raios na zona para-axial (eixo visual), de modo a aumentar a profundidade de foco do sistema óptico e diminuir o embaçamento da imagem retiniana, caso for causado por um erro refrativo. Figura 3.1 – Comparação da entrada da luz no olho sem e com furo estenopeico Fonte: Martin; Vecilla (2010). Se uma ametropia tem um valor moderado, o teste do furo estenopeico tende a melhorar a acuidade visual do paciente e o valor de AV medido sem o furo. Entretanto, se houver algum tipo de alteração orgânica nas estruturas oculares, como opacificação de seus meios, problemas retinianos ou das vias visuais, a AV não melhorará ou até poderá ser reduzida, devido à diminuição da luz que chega à retina e os efeitos de difração. Refração subjetivaunidade III 68 Você deve estar se perguntando: “por que fazer o teste do furo estenopeico?”. A resposta é bem simples. Você deve fazer o teste quando perceber uma AV abaixo do normal ou uma diferença entre os dois olhos. Isso pode lhe indicar uma possível etiologia do problema, se é refrativo ou não a diminuição da AV. Contudo, o uso do furo estenopeicoexige atenção para que a interpretação do resultado seja correta. Em casos de AV menor que 0,1 (20/200), ao realizar o teste, se a AV melhora, você pode suspeitar de um erro refrativo menor do que 5,00D. Se o erro refrativo for maior do que esse valor, é muito comum que não se tenha melhora com o furo. O motivo é que o embaçamento provocado pela ametropia é tão alto que a melhora na profundidade de foco só é perceptível pela pessoa. Dessa forma, a ausência da melhora da AV pode significar também uma ametropia elevada, uma ambliopia, uma possível alteração ou patologia ocular. Importante! Para desvendar o mistério sobre o que pode estar causando a baixa AV do paciente, uma análise da história clínica do paciente pode ser suficiente para diferenciar um caso do outro. Outro ponto importante a ser destacado são outras condições que afetam a refração da luz pelo olho. Condições como astigmatismo irregular (entre eles o ceratocone), ceratoplastias (como cirurgia refrativa radial), leucomas, cataratas, entre outras alterações, podem apresentar uma melhora na AV ao utilizar o furo estenopeico, mas isso não significa que a refração subjetiva corrigirá o problema. O motivo para essa melhora com o furo é que ele permite a visão por uma zona menos irregular ou com menor opacificação. 3.2 Materiais para a refração subjetiva A refração subjetiva pode ser feita com diferentes instrumentos, entre os quais merecem mais destaque a caixa de provas e o foróptero. Refração subjetiva unidade III 69 3.2.1 Caixa de provas Figura 3.2 – Caixa de provas com armação de prova e lentes Fonte: MARTINATO (2019). A caixa de provas é uma mala contendo um conjunto de lentes esféricas posi- tivas, negativas, cilíndricas positivas e negativas, lentes prismáticas e lentes acessórias. Lentes esféricas: normalmente é apresentado um par de cada diop- tria de lente, seja negativa (côncava), seja positiva (convexa), cuja potência varia de 0,25D a 20,00D. Lentes cilíndricas: também é apresentado um par de cada dioptria de lente, seja cilindro negativo, seja positivo, cuja potência varia de 0,25D a 6,00D. Prismas: são apresentadas potências prismáticas em pares de 0,50 a 4,00. Depois uma lente de 6,00, 8,00 e 10,00. Refração subjetivaunidade III 70 Lentes auxiliares: estão presentes o oclusor, a fenda estenopeica, a lente verde, a lente vermelha, a lente estriada de Maddox, uma lente fosca, furo estenopeico e uma lente plana. Nem todas as caixas apresentam as lentes +0,12D e -0,12D e os cilindros cruzados de Jackson. Esse material deve ser montado em uma armação de prova, um óculos que permite regular a longitude da plaqueta, distância nasopupilar, amplitude e altura da ponte nasal e o ângulo pantoscópico. A armação de prova conta com algumas ranhuras para o encaixe das lentes, onde será realizada a refração. Para a refração astigmática, a escala utilizada está no sistema TABO (que você aprendeu na disciplina de Óptica Oftálmica), impressa em passos de 5º, a partir do marcador 0º ao 180º. Existem modelos infantis, com distância pupilar fixa e menor peso. Antes de realizar uma refração com a caixa de provas, é importante que você tenha noção dos ajustes necessários para termos o melhor resultado. Os ajustes da armação de prova incluem a plaqueta, a ponte, a distância pupilar e o ângulo pantoscópico. Plaqueta, ponte e ajuste geral: o ajuste adequado é recomen- dado na armação para se evitar o deslizamento e desconforto que possam ocorrer durante o procedimento, de modo que o paciente esteja o mais cômodo possível. Distância Pupilar (DP): na maioria dos adultos, essa medida varia entre 60-68 mm. É necessário que o ajuste da DP seja feito previamente, para se evitar possíveis efeitos prismáticos. Normalmente, há uma equidistância entre as pupilas e o nariz de forma simétrica, mas pode ser assimétrica também, e essa medida deve ser feita isoladamente em cada olho. Refração subjetiva unidade III 71 Importante! A descentralização em lentes superiores a 4,00D pode provocar efeitos prismáticos que afetam a visão binocular e causar sintomas, conforme a Lei de Prentice, que você viu em Óptica Oftálmica. Na prática! Você pode treinar com seu colega a tomada da medida da distância pupilar. Para isso, tenha em mãos um pupilômetro, aparelho feito para essa finalidade. Ângulo pantoscópico: as armações apresentam uma inclinação entre o plano da lente corretora e o plano de visão que varia entre 5-10º. Esse ângulo garante o ajuste da rotação do olho sobre o eixo óptico da lente, a fim de evitar problemas na adaptação, como podem ser os efeitos dos astigmatismos oblíquos. É recomendável verificar se o ângulo pantos- cópico da armação de prova está correto. Uso das lentes de prova: as lentes de prova podem ser colocadas de diferentes modos durante o processo refrativo, ainda que não seja reco- mendado colocar mais do que três lentes simultaneamente, uma vez que a terceira já está muito longe dos olhos e sua potência corretora pode ser afetada devido à distância ao vértice. À medida que aumentamos a potência das lentes, é recomendável colocarmos o valor total em apenas uma lente. Em ametropias mais elevadas, acima de 5,00 ou 6,00D, é aconselhado colocar a lente de prova no espaço interior da armação de provas. Quando há astigmatismos, devemos colocar o cilindro sobre as lentes esféricas, de modo a permitir seu alinhamento com o eixo adequado e continuar a realização da refração. Se colocarmos a lente esférica ante a cilíndrica, poderemos girar acidentalmente seu eixo, induzindo a um erro refrativo. Refração subjetivaunidade III 72 Na prática! Agora que você conhece o conteúdo de uma caixa de provas, pode começar a saciar a sua curiosidade e mexer em seu interior. Pegue sua caixa de provas e conheça mais o que cada lente faz e como elas agem. Com seu colega, utilize a armação de provas e ajuste a distância pupilar, altura, ângulo pantoscópico etc. 3.2.2 Foróptero Figura 3.3 – Foróptero e suas funções Comando de nível Escala DP Indicador de prumo Distância Pupilar Lentes auxiliares Controle de dioptrias esféricas de 3,00 em 3,00D Cilíndro cruzado de Jackson Escala potência esférica Escala potência cilíndrica Escala de referência cilíndrica Diasporâmetro ou Prisma de Risley Comando de potência esférica Escala de eixo Comando de potência cilíndrica Indicador do eixo cilíndrico Indicador do eixo cilíndrico Fonte: elaborada pelo autor. Refração subjetiva unidade III 73 O foróptero, também conhecido popularmente como Greens, é um instru- mento complexo de lentes que permite uma refração mais rápida e cômoda, tanto para verificarmos o componente esférico como o cilíndrico, permitindo a realização de um estudo da visão binocular, com medida de forias e vergências, e a capacidade acomodativa do paciente. Todavia, essas medidas não são exclusivas pelo uso do foróptero, podendo ser realizadas com os óculos de provas ou outros instrumentos adequados, como você viu em “Testes Preliminares” e verá em “Ortóptica I” e “II”. Contudo, o uso do foróptero não é aconselhável em crianças pequenas ou pessoas com alterações psicológicas, já que ele não permite explorar as feições da pessoa analisada, impedindo a detecção de algumas manobras que podem afetar o resultado da refração, como fechar os olhos com fenda, entre outros. Também temos que ter em mente que o instrumento pode induzir um certo grau de acomodação, do tipo instrumental ou proximal, que os óculos de provas não induzem. 3.2.2.1 Comandos de ajuste O foróptero contém diversos comandos para permitir uma posição adequada do paciente durante a exploração. Com isso, devemos ajustar a distância pupilar (DP), a inclinação do aparelho, o controle da distância ao vértice, a inclinação pantos- cópica e a convergência dos eixos visuais. Ao usarmos o foróptero, os olhos explorados se situam a aproximadamente16 mm da lente, ao invés dos convencionais 12 mm dos óculos de provas ou os próprios óculos regulares. Tal diferença de distância ao vértice torna quase obrigatório o uso dos óculos de provas após o uso do foróptero, de modo a comprovar a refração final e verificar o resultado refrativo, em especial nas ametropias superiores a 4,00D. Esse teste é chamado de ambulatorial ou laboratorial. Para calcular a mudança da potência refrativa com relação à distância ao vértice, você pode usar também cálculos de distometria, que você aprenderá a fundo na disciplina de “Contatologia A”. Refração subjetivaunidade III 74 3.2.2.2 Controle das lentes do foróptero Controle das lentes esféricas: no foróptero há duas rodas dentadas de lentes esféricas, uma para cada olho. Elas apresentam potências que vão de -20,00D à +20,00D, em passos de 0,25D. Geralmente, consistem em dois sistemas de mudanças de lentes, um que permite a escala de 0,25D, e outro que permite 3,00D. As lentes negativas são representadas pela cor vermelha, enquanto as positivas pela cor preta. Controle das lentes cilíndricas: no foróptero há duas rodas de lentes plano-cilíndricas, uma para cada olho, que podem modificar tanto a sua potência quanto o eixo em 180º. O alcance do poder dióptrico é variável entre os modelos, mas os mais comuns vão até 6,00D em passos de 0,25D. Há lentes auxiliares que aumentam o alcance da potência cilíndrica em 2,00D. Há modelos que apresentam cilindros negativos, porém podemos encontrar positivo também. Refração subjetiva unidade III 75 Lentes auxiliares: um pouco acima do comando de controle das lentes esféricas há um pequeno painel de lentes auxiliares. As mais frequentes são: aberto (Open), fechado ou ocluído (Ocluder ou Black), a lente de retinoscopia, podendo variar a potência entre +1,50 ou +2,00, dependendo do fabricante (Retinoscopy), os cilindros cruzados de ± 0,50 (±.50), furo estenopeico ou pin hole (PH), um filtro vermelho (Red Lens), um filtro verde (Green Lens), geralmente o vermelho no olho direito e o verde no contralateral, uma lente estriada de Maddox vertical (Red Maddox Vertical, no caso com filtro vermelho, e White Maddox Vertical, no caso sem filtro), e uma lente estriada de Maddox horizontal (Red Maddox Horizontal, no caso com filtro vermelho, e White Maddox Horizontal, no caso sem filtro), um filtro polarizado (Polaroid) e prismas verticais (6^Up para base superior no olho direito e 10^Inferior para base inferior no olho esquerdo). O foróptero dispõe também de outras unidades auxiliares que podem ser colo- cadas diante dos olhos quando necessário. Elas são: Cilindro Cruzado de Jackson (CCJ): é uma lente +0,25 <> -0,50, em que o ponto vermelho marca a dioptria -0,25D, enquanto o ponto branco ou preto marca a dioptria +0,25D. Ela serve tanto para afinar o eixo cilín- drico quanto sua potência. Diasporâmetro ou prisma de Risley: é um sistema que permite introduzir potências prismáticas. Sua orientação variável segue as neces- sidades do teste que esteja sendo realizado. São extremamente úteis nas medidas quantitativas de forias, como no método Von Graefe, Maddox, e as capacidades vergenciais, como amplitude fusional, que você aprenderá em “Ortóptica II”. Refração subjetivaunidade III 76 3.3 Refração subjetiva A refração subjetiva é aquela em que o paciente relata o que está enxergando ou sentindo. Você se tornará um guia para ajudá-lo a descobrir o melhor modo de corrigir o erro refrativo. Nesta subunidade, você aprenderá as técnicas para a reali- zação dos processos refrativos monoculares, de modo a confeccionar a melhor visão ao seu paciente. 3.3.1 Monocular para longe Antes de realizarmos qualquer teste, devemos situar o paciente de modo que ele esteja sentado o mais correto e cômodo possível. Devemos estabelecer o método a ser utilizado, se é com a caixa de provas ou com o foróptero. Por via de regra, começamos o procedimento sempre pelo olho direito, ocluindo o esquerdo, e depois o contrário. Claro, existem exceções em que não são indicadas a oclusão do olho contralateral, como a refração em um paciente que apresenta nistagmo, em que é necessário realizar a penalização óptica, por exemplo, causar uma hipercorreção positiva de +3,00D ou +5,00D, para evitar o aumento do nistagmo e afetar a acuidade visual ao ocluir um dos olhos. O objetivo da refração subjetiva é conseguir a combinação de lentes esfero- -cilíndricas mais positiva (ou menos negativa) que proporcionam a máxima AV e comodidade do usuário. Podemos resumir a refração subjetiva monocular em seis passos: Ponto de partida: 1 Colocamos no paciente o resultado obtido na retinoscopia ou lensometria. Podemos começar com o valor esférico da retinoscopia, retirando o valor cilíndrico; ou sem nenhuma potência, ou seja, zero. Introduzimos lentes esféricas positivas em hipermétropes e negativas em míopes, de 0,25D em 0,25D no foróptero ou 0,50D nas caixas de provas. Nesse caso em específico, é muito útil o uso das lentes esféricas Refração subjetiva unidade III 77 de torsão de Freeman (também conhecidas como flippers), que consistem em duas lentes esféricas de ±0,25D e ±0,50D. O valor das lentes a serem utilizadas no processo refrativo vai depender da AV e sensibilidade da pessoa, assim, em casos com a AV muito reduzida, mudanças de 0,50D podem não ser identificáveis subjetivamente, sendo necessárias mudanças potenciais maiores, como 1,00D, 2,00D ou até 3,00D para iniciar a refração. Em pacientes com baixa visão, podemos calcular a potência da lente com mínima diferença apreciável, dividindo o denominador da fração de Snellen (em metros) entre 30, ou dividindo entre 2 a AV decimal multiplicada por dez. Por exemplo, uma pessoa com AV 0,1 (6/60), a mínima diferença apreciável seria de: À medida que a lente se aproxima da refração final, é recomendado diminuir a potência das lentes, para afinar o resultado final com potências de 0,25D até alcançar a máxima AV. Controle da acomodação:2 Para evitar o estímulo acomodativo, o ideal é miopizar, incrementando o valor esférico de +0,75D ou +1,00D ao valor obtido na refração objetiva, ou seja, na retinoscopia. Correção esférica:3 Podemos realizar de diferentes formas. Uma das mais utilizadas com os óculos de prova é o método das esferas de torsão de Freeman. Ele consiste em colocar a lente positiva, deixar passar de dois a três segundos, girar a lente e mostrar a lente negativa, de mesma potência. Perguntamos ao paciente em que posição ele vê melhor ou mais nítido. Se ele vê melhor em positivo ou em negativo, aumentamos o valor esférico para a determinada posição. Se não temos os flíperes, podemos realizar o teste com as lentes da caixa de provas, segurando-as em uma mão e colo- cando no eixo visual sem acoplá-las na armação de provas. Ao usar o foróptero, é indicado o método Donders, de miopização com valores de +3,00D acima da refração Refração subjetivaunidade III 78 objetiva e, aos poucos, incrementar a potência esférica de -0,25D a -0,50D. Assim, a cada mudança é importante que você pergunte ao paciente sobre a melhora da AV. Correção cilíndrica:4 Nos casos com astigmatismo, pode ser que somente trabalhar com a potência esférica, o paciente não consiga chegar à AV 1,0. Nos astigmatismos leves é possível conseguir uma AV perfeita ao colocar o círculo de menor confusão na refina. Se suspeitarmos da presença de um astigmatismo, é recomendável realizar o teste do círculo horário. Podemos projetar o círculo horário para o paciente que está com potência esférica e uma AV moderada, de aproximadamente 0,5, para detectar a presença de um possível astigmatismo. Caso exista, podemos identificar sua orien- tação utilizando a regra dos 30, e sua potência será a lente que o paciente consiga ver todas as linhas com nitidez aproximada. Posteriormente, o indicado é afinar o eixo e a potência com o cilindrocruzado de Jackson. O uso da fenda estenopeica e sua refração meridional podem ser indicados especialmente em baixas acuidades visuais. Ainda que o paciente consiga enxergar uma AV de 1,0, pode ser necessário realizar o teste do círculo horário para verificar a existência de um astigmatismo leve não corrigido. O paciente não corrigido pode estar focalizando sobre a retina devido ao círculo de menor difusão do conóide de Sturm (correção de equivalente esférico). O objetivo do teste subjetivo monocular é corrigir o astigmatismo com a lente cilín- drica de menor potência. Equalização esférica:5 Essa manobra é realizada para evitar o estímulo acomodativo com a refração para longe, ou que cada olho acomode de forma desigual. Geralmente, essa técnica é realizada com as técnicas de balanço binocular, e pode ser útil durante o teste bicromático. Refração subjetiva unidade III 79 Subjetivo binocular:6 A refração pode ser concluída com o subjetivo binocular para identificar a lente mais positiva, ou menos negativa, que proporciona a máxima AV em condições binoculares. Uma vez realizada a refração subjetiva, podemos comparar o resultado com a refração prévia e ver a diferença, como a AV alcançada, necessidades visuais do paciente, os efeitos sobre a visão binocular, entre outros. É importante lembrar que a diferença da refração subjetiva é de aproximadamente 0,50D a 1,00D com relação à refração com baixa cicloplegia devido a variações de menor potência no processo de refração e não a mudanças reais de refração. Importante! A refração subjetiva monocular apresenta como um dos aspectos-chave para a refração o adequado controle da acomodação do paciente. No caso de dúvidas ou respostas inesperadas, é recomendado miopizar e reco- meçar a refração. 3.4 Técnicas para o processo refrativo Nesta subunidade, você vai aprender algumas técnicas que irão ajudá-lo a extrair do paciente a melhor refração possível. Esses testes são feitos para que você equilibre a visão binocular do paciente e estabeleça os melhores estados acomoda- tivos e vergenciais para cada necessidade. Refração subjetivaunidade III 80 3.4.1 Teste bicromático Figura 3.4 – Teste bicromático. À esquerda, vermelho e à direita, verde. Disponível em: <https://bit.ly/2uDKfIl>. Acesso em: 08/01/2020. O teste bicromático é baseado no princípio físico da aberração cromática do olho, sendo ele um instrumento óptico, de forma que a longitude das ondas curtas, verde e azul, é focalizada antes da média, a retina; e das longas, vermelhas. Seguindo esse conceito, um olho hipermétrope, ao realizar o teste, deveria ler melhor as letras com fundo verde, ao passo que um olho míope leria melhor sobre o fundo vermelho, e um emétrope não notaria diferença. Como você pode ver pela figura 3.4, para a realização do teste, é necessário que se tenha um optótipo dividido em verde e vermelho, e deve pedir para que o paciente indique se ele enxerga melhor as letras de um lado ou do outro, ou se elas estão parecidas. Este teste pode ser realizado, teoricamente, para verificar se o olho é míope, hipermétrope ou emétrope. Todavia, quando o cidadão apresentar uma AV pobre, abaixo de 0,2, o teste não apresenta precisão. O teste é indicado para controle da refração monocular, de modo que, uma vez finalizada a refração (com a melhor AV possível), nós podemos analisar se o olho está hipo (mais positivo) ou hiper (mais negativo) corrigido. Ou seja, uma pessoa míope, ao ser refracionada, deveria ver igualdade entre os quadros do teste, porém, se ver melhor as letras do fundo verde, significa que a sua visão está hipercorrigida (hipermetropizada), ou seja, a refração passou do ponto, sendo necessário diminuir a potência negativa. Se ele enxergar Refração subjetiva unidade III 81 melhor as letras do fundo vermelho, a sua visão está hipocorrigida, ou seja, ainda falta potência para esse paciente, sendo necessário acrescentar lentes negativas. Já com o hipermétrope acontece exatamente o contrário. Ele deveria enxergar com igualdade as letras nos dois quadros, porém se enxergar melhor as letras com fundo verde, sua visão está hipercorrigida, ainda hipermetropizada, necessitando de mais potência positiva, enquanto se ele enxergar melhor as letras com fundo vermelho, a sua visão estará hipocorrigida, sendo necessário diminuir a potência positiva. Figura 3.5 – Teste bicromático. À esquerda, vermelho; e à direita, verde Disponível em: <https://bit.ly/2UHEMuF>. Acesso em: 08/01/2020. Figura 3.6 – Como ocorre a refração do olho na condição emétrope. Verde dentro do olho, vermelho fora. Equilíbrio. Fonte: elaborada pelo autor. Refração subjetivaunidade III 82 Figura 3.7 – Teste bicromático com vermelho sem nitidez Disponível em: <https://bit.ly/37avQRi>. Acesso em: 08/01/2020. Figura 3.8 – Como ocorre a refração no olho hipermétrope. O verde é mais nítido, pois está re- fratado na retina, enquanto o vermelho desfoca. Fonte: elaborada pelo autor. Refração subjetiva unidade III 83 Figura 3.9 – Teste bicromático com verde desfocado Disponível em: <https://bit.ly/3bxvp78>. Acesso em: 08/01/2020. Figura 3.10 – Como ocorre a refração no olho míope. O vermelho é mais nítido, pois está refrata- do na retina, enquanto o verde desfoca. Fonte: elaborada pelo autor. Na prática! Olá! A técnica do bicromático é muito interessante, não? O que você acha de testá-la com seus colegas? Não é emocionante descobrir se seu amigo é míope, hipermétrope ou está com a correção incorreta? Então, treine bastante! Refração subjetivaunidade III 84 3.4.2 Método Donders O objetivo deste teste é determinar a potência esférica que corrige o erro refrativo do paciente. Ele é bem simples e consiste em adicionar lentes esféricas aumentando a sua potência, seja negativa (no caso de um míope), ou positiva (no caso de um hipermétrope) até conseguir a melhor acuidade visual. Figura 3.11 – Método Donders de refração -1,00 -3,00 A B C Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). Na figura 3.11 podemos compreender como o método Donders funciona. Em “A”, o paciente é míope e está sem correção. Na figura “B”, ao colocar uma lente -1,00D, os raios de luz são divergidos, mas ainda não chegam à retina, o que ocorre na figura “C”, com uma lente -3,00D. Refração subjetiva unidade III 85 Infelizmente, o método Donders apresenta o inconveniente de não permitir a refração astigmática, pois utiliza apenas lentes esféricas para a refração. Desse modo, a técnica tem que ser complementada com outras técnicas de exploração e análise do astigmatismo, como o teste horário e cilindro cruzado de Jackson. Na prática! Agora que você já aprendeu algumas técnicas de refração subjetiva, como o bicromático, que tal pegar o seu colega do teste anterior e tentar verificar a refração esférica dele com as lentes da caixa de provas? 3.4.3 Miopização A técnica de miopização, ou embaçamento, é uma variante do método proposto por Donders. Ela consiste na miopização prévia do paciente, ou seja, deixá-lo enxergando embaçado. Um dos principais desafios para o optometrista, durante o processo refrativo, é o controle da acomodação. Como na optometria brasileira ainda não se pode usar fármacos cicloplégicos para evitar que o paciente acomode, uma alternativa refracional foi desenvolvida: a miopização. Importante! Sobre os fármacos cicloplégicos, é importante que você saiba que eles são invasivos, podendo causar efeitos colaterais associados, como bloqueio da contração pupilar, reações vagais, aumento da pressão intraocular, entre outros. O uso desses fármacos deveria ser feito apenas em casos especiais, como crianças, devido à sua alta capacidade acomodativa, jovens hiper- métropes, e na suspeita de problemas acomodativos, como o espasmo acomodativo, que você entenderá melhor na disciplina de “Ortóptica I”. Refração subjetivaunidade III 86 A técnica da miopização pode ser realizadautilizando a caixa de provas. Contudo, é muito mais fácil e rápido se utilizarmos um foróptero. É recomendável fazer de forma monocular. O teste consiste em introduzir lentes positivas para relaxar a acomodação, ou seja, miopizar o paciente, com uma lente de +3,00D acima da refração objetiva, e ir reduzindo lentamente, em passos de 0,25D, até que ele consiga enxergar a máxima AV possível. Para que você realize de forma correta a técnica da miopização, é importante que entenda o conceito: quando colocamos uma lente positiva no olho do paciente, o tornamos míope, pois a lente positiva é convergente e puxará o foco para antes da retina, provocando um embaçamento e uma AV muito baixa, menor que 0,1. Diminuindo lenta e progressivamente a potência da lente, damos um tempo para a acomodação relaxar e de modo sincronizado projetamos optotipos de maior AV até alcançar a melhor AV. O teste pode ser realizado no início da refração, especialmente em pacientes com boa AV sem correção, quando você suspeitar ser uma baixa hipermetropia; ou realizar o teste como uma das etapas da refração subjetiva, para evitar que a refração objetiva proposta esti- mule a acomodação. Refração subjetiva unidade III 87 Figura 3.12 – Miopização A B C -4,50 -4,50 -4,50 3,00 0,50 Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). Na figura 3.12, temos o exemplo de miopização. Na figura “A”, em uma miopia de 4,00D incorretamente corrigida a partir da técnica de Donders, devemos colocar uma lente de +3,00D para eliminar a acomodação, como na figura “B”. Ao diminuir a potência positiva encontra-se a máxima AV com -4,00D, ou seja, ao relaxar a acomo- dação, conseguimos encontrar o valor máximo positivo que a pessoa consegue enxergar com a melhor AV, como na figura “C”. Dessa forma, podemos dizer que a miopização permite obtermos uma refração mais positiva com menor estímulo acomodativo, especialmente se for a técnica utili- zada para realizar a refração subjetiva. O resultado da miopização é muito próximo da refração com cicloplegia, mas não a substitui. Refração subjetivaunidade III 88 Na prática! Está na hora de você praticar um pouco mais. Agora que você sabe o erro refrativo do seu colega e mais ou menos o valor dele por meio da técnica de Donders, miopize o sujeito até conseguir a melhor refração subjetiva. Aprendemos que: Nesta unidade você aprendeu a fazer a refração subjetiva. A partir da acuidade visual, que serve para medir o quanto o seu paciente consegue enxergar, passando pelo furo estenopeico, que é capaz de detectar problemas que podem impedir que o sujeito tenha uma boa visão em algum dos olhos ou visão binocular, chegamos à refração subjetiva. Por meio de técnicas de refração monocular esféricas, como a miopização, em que o paciente recebe uma potência mais positiva e, ao diminuir esse valor, encontra-se a melhor refração, e o método Donders, feito a partir dos dados obtidos em testes anteriores e colocando lentes até conseguir uma melhor visão, você conseguirá facilmente detectar e neutralizar os erros refrativos esféricos de seu paciente. O teste bicromático é uma ferra- menta útil para equilibrar a acomodação do paciente e a refração do olho, dando o toque final à refração esférica monocular. Referências da unidade III ALVES, Milton Ruiz. Refratometria ocular e a arte da prescrição médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2013. BENJAMIN, W. Borish’s clinical refraction. 2. ed. Filadelphia: W. B. Saunders, 2006. CARLSON, Nancy. Clinical procedures for ocular examination. 4. ed. New York: McGraw- Hill Education, 2015. FURLAN, W. Fundamentos de Optometria. Refraccion Ocular. 1. ed. Valencia: Universidad Valencia, 2009. MARTIN, Raul; VECILLA, Gerardo. Manual de Optometria. 2. ed. Madrid: Médica Panamericana, 2012. Afinamento da refração unidade IV 89 4unidade IV 4Afinamento da refração 4.1 Refração do astigmatismo Agora que você sabe como se inicia a re fração subjetiva e a correção da dioptria esférica, nesta unidade vamo s tratar sobre como afinar a diop- tria cilíndrica, de modo a estabelecer a melhor refração para os olhos do paciente. 4Comando Tabela Afinamento da refraçãounidade IV 90 4.1.1 Círculo horário O círculo horário, também conhecido como dial-test, tem por objetivo deter- minar subjetivamente a presença de um astigmatismo e calcular a potência que irá corrigi-lo, bem como a sua orientação meridional. Esse teste é recomendado quando não conseguimos encontrar a máxima AV do paciente usando lentes esféricas, ou quando suspeitamos da existência de um astigmatismo devido aos dados obtidos na refração objetiva, seja na ceratometria, seja na retinoscopia. O teste consiste na representação gráfica dos meridianos oculares dispostos em um círculo, como um mostrador de um relógio, por isso sua denominação como círculo horário. Figura 4.1 – Dial-test, também chamado de círculo relógio, clock-test, entre outros Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). Quando um olho não apresenta astigmatismo, ele deverá enxergar todas as linhas do teste com a mesma nitidez, tal qual a figura 4.1 demonstra. Todavia, quando o paciente referir ver uma linha (meridiano) mais nítida do que as outras, isso ocorre devido tal meri- diano estar mais próximo da retina do que o resto, portanto, podemos suspeitar de um astigmatismo. Quanto maior for o valor cilíndrico, mais fácil é para o paciente identificar apenas uma linha no teste. Contudo, em astigmatismos de baixa potência, ele poderá referir ver nítida mais de uma linha em orientação próxima ou no mesmo quadrante. Afinamento da refração unidade IV 91 Uma vez que você fizer o teste e conseguir identificar a presença de um astig- matismo, você deve calcular o eixo da potência negativa que irá corrigi-lo aplicando a regra dos 30, que consiste em pegar o menor número da linha mais nítida e multi- plicá-lo por 30. Figura 4.2 – Presença de um astigmatismo miopico a 60º Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). Por exemplo: peguemos a figura 4.2. Se o paciente disser que as linhas 2 e 8 estão mais nítidas, o eixo cilíndrico estará no meridiano 60º, afinal 2, que é a linha de menor valor, multiplicado por 30, dá 60. Importante! É importante destacar que a regra dos 30 identifica o eixo do cilindro nega- tivo. Para isso, é recomendável que você miopize ligeiramente o paciente para a realização do teste, de modo que ambos os focos se situem após a retina. De modo contrário, se estivermos em um astigmatismo hiperme- trópico, o teste também permitirá a detecção do astigmatismo, contudo o eixo estará errado! Uma vez que você conseguiu identificar o eixo do astigmatismo, agora deverá encontrar sua potência. Para isso, vá induzindo potência cilíndrica com a orientação do eixo calculada (no caso do nosso exemplo, 60º), até que o paciente relate ver todas as linhas com nitidez bem próximas. Se, no caso de introduzir potência cilíndrica, não conseguir igualar as linhas, você deve suspeitar que se trata de um astigma- tismo hipermetrópico ou que o eixo está mal calculado. Caso seja um astigmatismo Afinamento da refraçãounidade IV 92 hipermetrópico, é recomendável que você miopize ainda mais o paciente (com lentes esféricas positivas) e reinicie o teste. No caso, o meridiano identificado vai mudar em 90º. Caso o eixo esteja errado, é recomendável refazer tudo de novo. O teste do círculo horário para afinamento do astigmatismo é muito útil na prática optométrica. Todavia, ele apresenta alguns problemas, pois não discrimina um astigmatismo miópico e um hipermetrópico, já que ambos coincidirão na identi- ficação do mesmo meridiano se apresentarem o mesmo eixo. Mas, esse problema é facilmente resolvido: deve-se miopizar o paciente e repetir o teste. A aproximação do eixo de 30º em 30º pode necessitar de outros testes complementares de afinamento, como o cilindro cruzado de Jackson. Para aproximar o eixo do cilindro quandoa linha mais nítida é localizada entre duas horas, deve-se multiplicar pelo valor intermi- tente das duas linhas identificadas no teste horário. Por exemplo, se o paciente enxergar melhor as linhas 1 e 7 e também 2 e 8, o eixo se situa entre 1 e 2, sendo 1,5. Multiplicando por 30, temos 45º. Na prática! Vamos praticar! Pegue um teste horário, um colega e uma lente positiva de modo a miopizá-lo. Em uma distância de 6m ou equivalente à sua miopi- zação, siga os passos descritos acima e verifique se o seu colega tem algum astigmatismo não corrigido. Importante! O dial-test é um teste muito útil para a realização subjetiva. Eu recomendo que você o use durante o processo refrativo, e não de forma isolada. Você pode realizá-lo também para verificar a refração subjetiva final, proje- tando o teste e perguntando se o paciente enxerga todas as linhas com nitidez próxima. Se ele ainda identificar alguma linha mais nítida, você deve ser capaz de identificar e corrigir o erro. Afinamento da refração unidade IV 93 4.1.2 Cilindro Cruzado de Jackson (CCJ) O Cilindro Cruzado de Jackson (CCJ) é uma lente formada por duas dioptrias de idêntica potência (geralmente 0,25 ou 0,50), mas sinal contrário, passando nos dois meridianos principais da lente, orientados perpendicularmente. A lente dispõe de marcas vermelhas para o lado negativo e brancas (ou pretas) para o lado positivo. Pode ter também gravadas linhas para indicar o meridiano intermediário, coinci- dindo com o cabo do cilindro (no caso da caixa de provas). Figura 4.3 – Cilindro Cruzado de Jackson (CCJ) Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). Como se trata de um teste totalmente subjetivo, para que seja bem executado, o paciente deve entender a prova. É conveniente, para evitar confusão, utilizar um optotipo maior que a última linha da AV corretamente identificada pelo paciente, para que ele possa ver bem a mudança durante a manobra. Por exemplo, se o cidadão consegue ler 20/25, convém fazer o teste em 20/30 ou 20/40, uma vez que a função do CCJ é embaçar de forma bem próxima à visão. O procedimento do CCJ visa encontrar tanto o eixo do cilíndrico quanto sua potência. É recomendável que você verifique primeiro o eixo e depois o valor dióptrico. Depois de verificar o eixo e a potência cilíndrica, pode ser necessária a verificação da potência esférica, de modo a evitar erros na prescrição final, ainda que ele tenha uma AV boa. Afinamento da refraçãounidade IV 94 Importante! Os cilindros cruzados de Jackson permitem o cálculo do cilíndrico que corrige o astigmatismo ocular, verificando seu eixo e potência durante a refração subjetiva monocular. Uma vez que a maioria dos astigmatismos é a favor ou contra a regra, o mais provável é que o eixo cilíndrico se encontrará em 180º ou 90º. Portanto, colocamos o CCJ com o eixo a 180º e a 90º, e as potências negativa e positiva a 45º e 135º, pergun- tando ao paciente para que ele identifique em que posição enxerga melhor. Primeiro, o colocamos em 180º e pedimos para que ele olhe fixamente na tabela de optotipo e mudamos o cilindro cruzado, colocando o eixo negativo a 90º, e perguntamos novamente, agora para que ele indique qual das posições enxerga melhor. Uma vez que o eixo se encontre em 180º, giramos o CCJ para deixá-lo com a potência negativa a 45º e depois a 135º. O paciente deve indicar qual posição irá proporcionar melhor visão. Atenção: a partir daqui, devemos girar o CCJ em direção à potência negativa, ou seja, a marca avermelhada. Quando buscamos o eixo do cilín- drico, o ideal é que ambas as imagens estejam com nitidezes próximas. Uma vez encontrado o eixo, colocamos potência cilíndrica de 0,50D ou 1,00D para afinarmos a potência cilíndrica da refração. Para isso, colocamos o ponteiro da potência cilíndrica do CCJ no eixo encontrado. Pediremos ao paciente que observe bem o optotipo e perguntamos em qual posição ele enxerga melhor as letras, se com potência negativa (vermelha) ou positiva (branca/preta). Caso o paciente enxergue melhor com a potência negativa, acresça 0,25D cilíndrica. Mas se ele preferir a lente positiva, desconte 0,25D cilíndrica. Quando buscamos a potência cilíndrica, o ideal é que ambas as imagens estejam com nitidezes próximas. Na prática! Agora é sua hora de brilhar! Um dos principais procedimentos para o afinamento da refração é o Cilindro Cruzado de Jackson. Siga esse passo a passo e vamos treinar! Primeiro, vamos encontrar o eixo: 1. Isole uma linha de letras acima da melhor AV que chegou com o paciente na refração subjetiva monocular. Por exemplo, se o paciente consegue ler 1.0, deixe em 0.8. Afinamento da refração unidade IV 95 2. Coloque o CCJ na frente do olho analisado, de modo que os eixos estejam a 45º do eixo do cilindro da correção provisória no foróptero ou armação de provas. Isso se dá ao alinhar a alça ou a roda giratória do CCJ com o eixo do cilindro no foróptero. 3. Oriente ao paciente de que você mostrará duas imagens da linha de letras, e vai identificá-la com números. Diga que ambas podem estar embaçadas, mas que ele deve falar qual ele vê com menos ou mais embaçamento. Para maior precisão, peça que ele ignore as diferenças nas formas das letras enquanto compara as imagens. 4. Peça para o paciente olhar as letras e diga que essa imagem é a número um. 5. Após dois ou três segundos, gire o manete do CCJ, mostre a segunda imagem, identificando-a. 6. Pergunte ao paciente se ele enxerga uma mais nítida do que a outra, ou se o embaçamento é parecido. Se ele enxergar ambas as imagens com embaçamento próximo, passe ao passo X, pois o eixo está na posição correta, precisando agora encontrar a potência cilíndrica. 7. Se ele não relatar proximidade no embaçamento das imagens, mova o eixo do foróptero em 15º em direção à marcação da potência negativa do CCJ, indicado pela marca vermelha. Figura 4.4 – Os pontos vermelhos estão no sentido horário do mostrador do eixo cilíndrico do foróptero, em 45º Fonte: CARLSON (2015). Afinamento da refraçãounidade IV 96 Se a imagem 1 proporcionar melhor visão ao paciente, você deverá mudar o eixo do foróptero no sentido horário, como indica a figura 4.4. Contudo, se a imagem 2 proporcionar uma visão mais nítida, o eixo do foróptero deverá ser movido em sentido anti-horário, como na figura 4.5. Figura 4.5 – Os pontos vermelhos estão no sentido anti-horário do mostrador do eixo cilíndrico do foróptero, em 45º. Fonte: CARLSON (2015). 8. Mude a orientação da lente do CCJ, de modo que o cabo ou a engre- nagem mantenha-se alinhado no eixo do cilindro do foróptero. Em alguns aparelhos mais novos, o CCJ girará automaticamente junto com o cilíndrico do foróptero, tornando esse passo desnecessário. 9. Repita os passos 2 a 8 enquanto estiver ajustando o eixo e girando na mesma direção, seja horária ou anti-horária. Quando o eixo tiver que ser movido para a direção oposta, repita os passos 2 a 8, mas gire o eixo em 5º ou 10º. O eixo deve ser aprimorado corretamente, ao dimi- nuir sucessivamente a distância. Vale lembrar que quanto maior a potência do cilindro, maior é a necessidade de precisão do eixo. Para potências acima de 5,00D, o eixo deve ser especificado em escala de 1º. Para potências cilíndricas abaixo de 2,00D, o eixo pode ser especificado em passos de 5º, enquanto potências intermediárias podem ser aproxi- madas, variando de acordo com o caso. 10. Finalize o uso do CCJ para encontrar o eixo quando verificar estas duas condições: a. Ambas as imagens tiverem nitidez ou embaçamento parecido; Afinamento da refração unidade IV 97 b. As respostas do paciente fizerem você mover o eixo para frente e para trás em um intervalo muito estreito. Dessa forma, você deverá escolher um eixo no meio do intervalo, ou próximo à prescrição habitual de lentes do paciente. Para encontrarmos a potência cilíndrica a ser prescrita, você deve: 11. Posicionar a lentedo CCJ de modo que o eixo do foróptero esteja alinhado com as marcas vermelhas ou brancas do CCJ, como mostra a figura 4.6 e 4.7. Figura 4.6 – Afinamento de potência cilíndrica com CCJ. Note que a potência negativa está alinhada com o eixo a 45º Fonte: CARLSON (2015). Figura 4.7 – Afinamento de potência cilíndrica com CCJ. Note que a potência positiva está alinhada com o eixo de 45º Fonte: CARLSON (2015) Afinamento da refraçãounidade IV 98 12. As instruções são iguais às dos passos 3 a 5, sendo necessário repeti-los. 13. Apresente duas imagens mudando as lentes do CCJ. Se o paciente relatar que a imagem da marca vermelha (negativo) está mais clara, assim como na figura 4.6, aumente o poder cilíndrico negativo em -0,25D. Todavia, se o paciente relatar que a imagem com a marca branca (positiva) está mais clara, assim como na figura 4.7, diminua o poder cilíndrico nega- tivo em -0,25D. 14. Durante a verificação da potência do CCJ, mantenha o paciente com o valor máximo positivo para a AV da tabela. Assim, para cada aumento de valor cilíndrico de -0,50D que o paciente aceitar, adicione +0,25D no valor esférico, ou retire -0,25D. Para cada vez que diminuir o cilíndrico negativo em -0,50D, adicione -0,25D ao grau esférico. 15. Finalize o uso do CCJ para encontrar potência, quando verificar estas duas condições: a. Ambas as imagens estiverem com nitidez ou embaçamento pare- cidos ao paciente; b. As respostas do paciente exigirem mudanças dentro do espectro de opções. Dessa forma, você deverá selecionar o valor mais próximo encontrado na prescrição habitual dele. Se a prescrição não estiver disponível, selecione a potência de menor valor cilíndrico negativo. 4.1.3 Fenda estenopeica A fenda estenopeica é um método de refração subjetiva que isola os meri- dianos principais do olho e os refrata individualmente. Também chamada de refração meridional, é pouco utilizada devido ao tempo gasto para aplicar a técnica em comparação ao CCJ, mas que pode ser útil em casos de baixa AV e que não se consegue a melhora com as técnicas convencionais. Para a sua realização, é necessária uma fenda estenopeica, que é uma lente auxiliar da caixa de provas e que consiste em um disco preto com uma perfuração central de 15 mm de largura por 0,75 mm de altura, como a figura 4.8 demonstra. Afinamento da refração unidade IV 99 Figura 4.8 – Fenda estenopeica Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). O efeito da fenda estenopeica é similar ao furo estenopeico, o que permite a identificação dos meridianos principais do olho. Dessa forma, para que sejam localizados, é colocada a fenda na armação de provas e é girada até que o paciente relate melhor visão. Essa posição vai coincidir com um dos meridianos principais. Você então deve continuar girando a fenda até identificar o segundo meridiano principal. Nos astigmatismos regulares, a diferença entre os dois meridianos principais é de 90º, todavia, nos irregulares isso não acontece, tal qual a ceratometria. Afinamento da refraçãounidade IV 100 Uma vez que você identificou os meridianos, deve agora neutralizar o erro refrativo, mantendo a fenda e introduzindo lentes esféricas até alcançar a máxima AV. Uma vez que ela foi alcançada em cada meridiano com a potência de ambos, você obtém a fórmula bicilíndrica, e, a partir dela, pode determinar a fórmula esferocilín- drica que corrige a ametropia. Esse cálculo é simples em astigmatismos regulares, mas pode ser necessário um cálculo vetorial em casos de astigmatismos irregulares, que você aprendeu em “Óptica Oftálmica”. Se você usou a fenda estenopeica e encontrou um meridiano principal a 40º, e consegue chegar à máxima AV com uma lente de +3,00D, e o segundo meridiano em 130º e obtém a máxima AV com uma lente de +9,00D, a fórmula bicilíndrica seria: +3,00D x 40º e +9,00D x 130º. Transformando em fórmulas esferocilíndricas, teremos: +3,00 <> +6,00 x 40º ou +9,00 <> -6,00 x 130º. Vamos fazer um exemp lo para que fique mais fácil entender: Importante! Uma coisa que é muito importante é saber que quando utilizamos a fenda estenopeica, a correção da ametropia meridional é feita sempre com lentes esféricas. Não utilizamos lentes cilíndricas para a refração meridional. A diferença entre as duas dioptrias esféricas será o astigmatismo. 4.2 Subjetivo binocular O objetivo do teste é obtermos a fórmula optométrica mais positiva com menor quantidade de potência cilíndrica e menor anisometropia que proporciona a AV de 1,0, ou a máxima AV encontrada. Para a realização desse teste, é imprescindível o uso do foróptero. O uso da refração binocular apresenta alguma controvérsia. Proposta pela OEP (Optometric Extension Program), existem autores que consideram seu uso necessário para calcular a prescrição, ainda que outros considerem que ela pode induzir mais Afinamento da refração unidade IV 101 erros na prescrição final. O uso da técnica, portanto, é do critério do profissional, recomendando que em qualquer caso, uma vez realizada, seja verificado o seu resul- tado para comprovar que a prescrição óptica esteja correta, ou seja, que permita a máxima AV de cada olho e evite a acomodação em visão para longe, facilitando a fusão sensorial sem afetar a visão para perto. Para a realização, é necessário que a diferença entre a AV obtida no exame subjetivo de cada olho não exceda uma linha. As três primeiras manobras: igualar as esferas, igualar cilindros e reduzir cilindros, podem ser realizadas quando o paciente referir diminuição da visão ou incômodo. Também é necessário que o paciente tenha boa visão binocular (fusão e estereopsia), pois esse teste não é aconselhável em pessoas com ambliopias, estrabismos ou alterações binoculares. O resultado final do subjetivo binocular é a refração esferocilíndrica mais posi- tiva com menos anisometropia (esférica e cilíndrica) que permite a máxima AV. Seu objetivo é proporcionar imagens retinianas mais similares para facilitar a fusão e a visão binocular. Vamos ao AVA! No AVA você vai encontrar um vídeo com um pequeno passo a passo sobre como realizar o teste do subjetivo binocular. Uma vez realizado o mono- cular, tente fazer o binocular com seu colega, seguindo as orientações do guia. 4.2.1 Balanço binocular O equilíbrio binocular, também conhecido como balanço binocular, é realizado com os dois olhos abertos, mas com as imagens não fusionadas, ou seja, com o paciente vendo duplo. Dessa forma, você deverá separar a imagem em duas com o uso de um prisma. O objetivo desse teste é igualar o estímulo acomodativo de ambos os olhos, relaxando a acomodação em seu máximo. Em alguns casos, esse teste visa igualar a AV de ambos os olhos. Ele só é indicado quando os dois olhos conseguem a mesma AV monocularmente. Quando a AV entre os olhos não é igual, mas existem indícios Afinamento da refraçãounidade IV 102 para crer em um desequilíbrio acomodativo, é recomendado o equilíbrio binocular bicromático. Há algumas formas de realizar o equilíbrio binocular, sendo todas baseadas na dissociação das imagens, com uma imagem sendo projetada em cada olho e o paciente tendo que comparar a nitidez entre elas. Um modo de realizar é a oclusão alternada dos olhos (como um cover test) e perguntar qual olho apresenta melhor nitidez. Os outros métodos visam à dissociação por meio de prismas, filtros verde-ver- melho ou polarização. Em todos os métodos, se um dos olhos apresentar melhor visão do que o outro, você pode pensar que o motivo é a ligeira estimulação da acomodação, ou talvez por se tratar do olho fixador dominante. Dessa forma, uma vez que você consiga identificar o olho com melhor visão, deve introduzir +0,25D esférico nesse olho e perguntar se as imagens foram igualadas. As respostas do paciente devem variar entre “continuo vendo melhor com o mesmo olho”, o que deverá fazer você introduzir mais +0,25D, ou também ele pode responder que“as imagens estão iguais”, o que o forçará a alterar a prescrição, ou pode relatar uma piora na visão que outrora estava melhor, o que leva ao diagnóstico de que, após introduzir a lente positiva, a visão piora, pois a diferença visual não era oriunda da acomodação e sim da dominância ocular. Figura 4.9 – Balanço binocular utilizando prismas. Na figura “A”: o olho esquerdo apresenta ima- gem mais nítida. Na figura “B”: ao colocar lente +0,25D, ambas as imagens igualam nitidez. Olho Esquerdo (OE) melhor devido ao uso da acomodação. A B OD ODOE OE Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). Afinamento da refração unidade IV 103 Na prática! Vamos praticar o balanço binocular. Essa técnica requer bastante atenção e comunicação com o paciente. Vamos utilizar a técnica mais comum, que é por meio de prismas para dissociação das imagens. Você pode fazer de duas formas: a primeira é introduzindo um prisma de 6Dp com base superior no OD do paciente, o que fará com que a imagem desse olho vá para baixo, enquanto a imagem do OE estará para cima. A segunda técnica é utilizar um prisma de 3Dp com base superior no OD e um prisma de 3Dp com base inferior no OE. O resultado é igual. Vamos ao passo a passo! 1. Tenha certeza de que nenhum dos olhos esteja ocluído e que ambos os olhos possam ver o optotipo. 2. Miopize ambos os olhos com uma lente de +0,75D respectivo ao resul- tado encontrado no subjetivo monocular. Suba a tabela para 20/40. 3. Coloque o prisma de 6Dp no OD ou 3Dp em cada olho, com base superior no direito e inferior no esquerdo. Se você estiver usando o foróptero, no disco há a opção de colocar 6Dp no OD. Você pode utilizar o diasporâ- metro também para fazer a dissociação, como a figura 4.10 demonstra. Figura 4.10 – Dissociação das imagens utilizando diasporâmetro. 3Dp BS no OD e 3Dp BI no OE. Fonte: CARLSON (2015). 4. Fale para o paciente que ele verá duas linhas de letras, ambas podem estar borradas, como a figura 4.11 demonstra. Afinamento da refraçãounidade IV 104 Figura 4.11 – Representação esquemática de dissociação entre os olhos com prisma. Neste exemplo, 20/30, o OE (1ª imagem) apresenta melhor nitidez do que o OD (2ª imagem). Fonte: CARLSON (2015). 5. Com o paciente olhando atentamente as duas linhas de letras, pergunte qual ele vê melhor, a de cima ou a de baixo. Ele pode observar igualdade entre as letras também. 6. Adicione +0,25D (ou tire -0,25D) do olho que enxerga melhor. Por exemplo: se o paciente falar que vê melhor a linha de baixo, como na figura 4.11, adicione +0,25D no OE para clarear a linha de cima OD. 7. Repita os passos 5 e 6 até que o paciente relate nitidez próxima entre as duas linhas. Se não for possível conseguir a igualdade entre os olhos, deixe o olho dominante (que você aprendeu a verificar a sua impor- tância em “Testes Preliminares”) com a melhor visão. 8. Quando a igualdade ou proximidade de nitidez é encontrada, ou o olho dominante apresentar melhor visão, retire os prismas para o paciente ter fusão novamente. Afinamento da refração unidade IV 105 4.3 Refração subjetiva para perto A refração para perto tem grande importância para a prescrição dos óculos. Ela não é baseada somente no auxílio óptico para presbitas, que necessitam de um valor adicional para poder ler, mas fornece também uma importante ferramenta para verificarmos o estado acomodativo do paciente. Dessa forma, a refração para perto é realizada sempre após a refração para longe, independentemente de a pessoa apresentar mais de 45 anos e não utilizar óculos para longe e ter boa AV sem correção, pois ele pode apresentar uma hipermetropia latente que afetará a visão de perto. É recomendável que você realize o teste subjetivo para perto de forma mono- cular, o que permite detectar possíveis erros na refração de longe, em especial quando encontrar adições desiguais ou valores anormalmente altos ou baixos em relação à idade. É também recomendável, quando o paciente apresenta alterações de visão binocular, que se estude a resposta acomodativa independentemente da fusão (CA/A, que você aprenderá em “Ortóptica II”). Nos casos mais comuns, quando o paciente apresentar boa visão binocular, uma correção correta para longe, o teste para visão de perto pode ser binocular. Afinamento da refraçãounidade IV 106 Para realizarmos a refração subjetiva para perto, podemos usar algumas técnicas que são bastante úteis, como os cilindros cruzados de Jackson, que permitem avaliar a resposta acomodativa em pacientes presbitas e não presbitas, e o método de pontuação, que só pode ser usado em présbitas. 4.3.1 Teste da grade ou o CCJ para perto O objetivo deste teste é calcular a lente que proporciona melhor visão para perto. Os pacientes não présbitas relatarão a resposta acomo- dativa isolada ao realizar o teste monocularmente, ou a interação com a convergência, se realizada binocularmente. Tal resultado e o manejo com essa técnica, você verá mais a fundo em “Análises Optométricas”. Conheça mais: A acomodação talvez seja o principal e mais complicado elemento da visão humana. Conhecer seu funcionamento, seus elementos e sua capa- cidade são de fundamental importância para ser um bom optometrista. Recomendo a você a leitura de um artigo chamado “A acomodação e o desconforto da visão”, que está disponível no AVA. Os pacientes présbitas relatarão qual a potência para a visão próxima. É impor- tante que você utilize a distância adequada à visão do paciente, de modo que se adeque ao dia a dia dele. Para a realização, é necessário que o paciente esteja usando sua melhor correção para longe. Todavia, fica um aviso: em alguns casos, não é fácil conseguir uma colaboração adequada por parte do paciente. Se não explicarmos o teste corretamente, ele pode apresentar resultados anômalos, como ver as linhas de forma diferente ao esperado, alteração nas cores etc. Dessa forma, outras técnicas serão exigidas em vez dessa. Afinamento da refração unidade IV 107 Figura 4.12 – Teste da grade feito em um paciente emétrope A B C 3,00 1,00 Fonte: MARTIN; VECILLA (2012). A figura 4.12 apresenta um exemplo de como é feito o teste da grade. Um paciente emétrope realiza seu teste de visão para perto. A imagem do objeto é colocada em uma distância próxima, o que fará com que os raios se formem atrás da retina, como uma hipermetropia. Na parte A, ao colocar o CCJ de ±0,50D com o eixo negativo a 90º, provocamos um conoide de Sturm de 1,00D. O ponto focal vertical estará arás da retina, cilindro negativo a 90º, e o horizontal estará à frente (cilindro positivo). Na figura B, ao colocar uma lente de +3,00D, o conoide se move, situando-se ante a retina, e o ponto focal horizontal estará a 1,00D mais longe da retina do que o vertical. O paciente vai relatar que vê as linhas verticais do teste mais nítidas do que as horizontais. Na figura C, ao diminuir a potência positiva, o conoide vai se aproximando da retina. No momento em que ele está situado no círculo de menor confusão, o sujeito deverá identificar ambas as linhas com nitidez igual. No exemplo da imagem, isso ocorre com uma lente de +1,00D, dessa forma, a adição desse paciente seria de +1,00D. Afinamento da refraçãounidade IV 108 Na prática! Vamos testar a visão de perto de seu colega e afinar sua refração? Para realizarmos o teste da grade, precisamos de uma grade e dois CCJ de 0,50D. Vamos ao passo a passo: 1. Oclua um olho para a realização monocular ou mantenha os dois olhos abertos, caso vá fazer de forma binocular. 2. Coloque um CCJ de ±0,50D de modo que o eixo negativo se situe a 90º. O foróptero já apresenta esse CCJ na roda de opções. 3. Coloque a grade na distância de leitura do paciente, geralmente distância de Hamon (40 cm). 4. Coloque uma lente esférica de +3,00D sobre a refração para longe. Em pacientes présbitas, pode ser necessário aumentar em +1,00D, especial- mente se apresentaremmais de 50 anos. Já em jovens não présbitas pode ser conveniente reduzir 0,75 ou 1,00D, pois +3,00D causa visão muito embaçada. 5. Você deve perguntar ao paciente se ele enxerga todas as linhas do teste de forma igualmente escuras. Não se deve induzir o paciente a ver uma ou outra mais escura. 6. Quando o paciente vê as linhas verticais mais nítidas do que as horizon- tais, deve-se diminuir a potência esférica em passos de 0,25D até que ele relate ver todas com nitidez próxima. Em alguns pacientes não existe esse ponto de igualdade, e você deve tomar como resultado do teste a última lente que permite ver mais nítida as linhas verticais. Às vezes, o paciente pode relatar ver as linhas de diferentes cores, como conse- quência da aberração cromática do olho. 7. Repetir o teste no olho contralateral caso tenha feito monocularmente. Afinamento da refração unidade IV 109 4.3.2 Método de pontuação O objetivo deste teste é calcular a adição necessária para visão de perto de um présbita. A refração é baseada na adição esperada de acordo com a idade e a visão obtida com uma adição de lentes verificada empiricamente. É recomendado que se faça esse teste de forma monocular, e quando não se consegue encontrar a adição com o CCJ (teste da grade). O ponto de partida para o método de pontuação pode utilizar a tabela de amplitude acomodativa de Donders ou a fórmula de Hofstetter: Tabela 4.1 – Tabela de Donders para a amplitude acomodativa em função da idade Idade (anos) AA (D) Idade (anos) AA (D) 8 14,0±2 40 6,0±2 12 13,0±2 44 4,5±1,5 16 12,0±2 48 3,0±1,5 20 11,0±2 52 2,5±1,5 24 10,0±2 56 2,0±1 28 9,0±2 60 1,5±1 32 8,0±2 64 1,0±0,5 36 7,0±2 68 0,5±0,5 Adaptada de: MARTIN; VECILLA (2012). Estatisticamente, é aceitável que a amplitude acomodativa diminui 1,00D a cada 4 anos até os 40 anos. Porém, após os 40 anos, a amplitude acomodativa diminui mais vagarosamente, chegando até a 0,50D a cada 4 anos após os 60 anos. Afinamento da refraçãounidade IV 110 Importante! É importante que você saiba utilizar a tabela de forma consciente. Na internet existem algumas tabelas com adições prefixadas de acordo com a idade do paciente. Todavia, essas tabelas não contemplam o uso da visão e nem seus objetivos. Dessa forma, é importante que você saiba e utilize as técnicas para encontrar a melhor adição de seu paciente. Na prática! Vamos ao passo a passo de como utilizar a técnica de pontuação para encontrar a adição de seu paciente. Lembre-se de que ela é uma alterna- tiva ao teste da grade e só deve ser utilizada em pacientes présbitas. 1. Com o paciente com sua melhor correção para longe, oclua um olho (ou realize binocularmente). 2. Introduzir lentes positivas de +0,25D em +0,25D, até que o paciente consiga enxergar a melhor linha de AV possível (seja 20/20 ou J1). Você também pode utilizar a refração com adição obtida a partir da técnica de Hofstetter. 3. Repetir com o outro olho, caso tenha realizado monocularmente. 4.4 Critérios para prescrição Para prescrevermos uma fórmula optométrica, devemos ter em mente uma série de recomendações, seja para a primeira vez que o paciente irá utilizar os óculos, seja para modificar uma prescrição anterior. Dessa forma, devemos nos atentar para: 9 Não prescrever mudanças refrativas menores do que 0,50D, que podem ser oriundas da variação da metodologia de avaliação subjetiva; 9 Sempre testar a refração subjetiva com os óculos de provas, de modo que você consiga analisar e corrigir possíveis desconfortos e alterações de es- paço que possam ocorrer; Afinamento da refração unidade IV 111 9 Especificar a distância ao vértice quando as potências são maiores do que 4,00D; 9 Procurar evitar alterações no eixo cilíndrico maiores do que 10º. Se a mu- dança é necessária, deve testar a nova prescrição com os óculos de provas durante cerca de 20 minutos, para entender a resposta do paciente; 9 Verificar a foria (direção e magnitude) induzida pela refração tanto para longe quanto para perto, sendo necessário realizar alterações devido ao estado refrativo, quando a foria é fruto de mudanças acomodativas. 4.4.1 Prescrição para miopia Nos míopes, você deve evitar a hipercorreção, pois, ao acomodar, os míopes podem relatar que as letras ficam mais claras e menores. Quando passar dos 40 anos, você deve testar se a prescrição para longe não produz sintomas da presbiopia. Dessa forma, deve analisar se ele pode ler para perto bem sem os óculos. 4.4.2 Prescrição para hipermetropia Você deve sempre prescrever óculos para crianças com hipermetropia maior do que 3,00D, com anisometropia maior do que 1,00D, especialmente se ela causar diminuição de AV ou estiver associada com estrabismos convergentes. Em algumas situações, o objetivo da refração não é conseguir uma boa quali- dade de visão, mas restabelecer o equilíbrio sensório-motor. Dessa forma, podemos denominar o caso de refração terapêutica, cujo exemplo pode ser quando há a refração de um estrabismo convergente acomodativo (que você aprenderá em “Ortóptica I”), em que pode ser compensado em sua totalidade na correção total da hipermetropia e permitir um desenvolvimento visual adequado. Em adultos, o indicado é medir a prescrição para longe, a acuidade visual sem correção para longe, a acuidade visual corrigida e a comodidade da relação visão longe e perto, em função de cada caso. Afinamento da refraçãounidade IV 112 4.4.3 Prescrição para astigmatismo Para crianças menores de 4 anos, é indicada a prescrição de óculos com astig- matismos superiores a 1,00D devido ao seu efeito terapêutico. Mudanças na prescrição do astigmatismo ou seu primeiro uso podem causar visão distorcida e problemas para calcular as distâncias. Em pacientes adultos, essas variações podem impedir o uso dos óculos. 4.4.4 Prescrição em présbitas Nos présbitas, raramente são justificadas adições menores do que 0,75D. O uso de alguns fármacos, como barbitúricos, antidepressivos, anti-histamínicos e descon- gestionantes, podem diminuir a capacidade acomodativa e aumentar os sintomas da presbiopia. Os míopes maiores do que 3,00D podem ler confortavelmente sem óculos, raramente necessitando de uma adição. 4.4.5 Prescrição em forias A indicação da prescrição vai depender do estado refrativo do paciente, da relação CA/A e da presença ou não de um problema de visão binocular. Nos casos de algum desses problemas, além da correção óptica para longe (com a máxima AV para longe), pode ser necessária uma adição para perto, o uso de prismas ou terapia visual, que você aprenderá na disciplina de “Terapia visual”. Dessa forma, é recomendável que você verifique a direção e magnitude da foria induzida pela refração tanto para longe quanto para perto e meça a neces- sidade da correção de acordo com as reservas fusionais do paciente, seguindo o critério de Sheard e Percival (que você aprenderá em “Terapia Visual”). Afinamento da refração unidade IV 113 Aprendemos que: Chegamos ao final de mais uma unidade e de mais uma disciplina. Nesta unidade, você aprendeu a fazer a refração cilíndrica, com as técnicas do dial-test, CCJ e fenda estenopeica, que são extremamente úteis para a prática clínica. Aprendeu também a refração binocular, com a técnica de equilíbrio entre os dois olhos, chamada de balanço binocular, assim como fazer a prescrição para perto e suas técnicas de análise de adição, com o teste da grade e de pontuação. Aqui você aprendeu também a fazer a refração e teve acesso a prati- camente todas as técnicas de refração objetiva e subjetiva que temos disponíveis atualmente. Seguindo o passo a passo e com bastante treino, você será capaz de refratar qualquer olho (desde que ele não tenha algum problema). Espero que tenha se divertido! Referências da unidade IV ALVES, Milton Ruiz. Refratometria ocular e a arte da prescrição médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2013. CARLSON,Nancy. Clinical procedures for ocular examination. 4. ed. New York: McGraw- Hill Education, 2015. FURLAN, W. Fundamentos de Optometria. Refraccion Ocular. 1. ed. Valencia: Univerdidad Valencia, 2009. MARTIN, Raul; VECILLA, Gerardo. Manual de Optometria. 2. ed. Madrid: Médica Panamericana, 2012. Apresentação O Professor Introdução 1unidade I 1Refração objetiva - Ceratometria 1.1 Uma breve história sobre o ceratômetro 1.2 Ceratometria 1.2.1 O funcionamento do ceratômetro 1.3 Os ceratômetros 1.3.1 Ceratômetro Javal-Schiotz 1.3.1.1 Caraterísticas 1.3.1.2 Procedimento de medida 1.3.1.2.1 Ajuste da ocular 1.3.1.2.2 Alinhamento e foco do ceratômetro 1.3.1.2.3 Localização dos meridianos principais e medida do astigmatismo 1.3.1.2.4 Estimação do astigmatismo corneano com o ceratômetro Javal 1.3.2 Ceratômetro Helmholtz 1.3.2.1 Características 1.3.2.2 Procedimento de medida 1.4 Regra de Javal Referências da unidade I 2unidade II 2Refração objetiva - Retinoscopia 2.1 A retinoscopia 2.1.1 O retinoscópio 2.1.2 Sistema de iluminação ou de projeção 2.1.3 Sistema de observação 2.2 Conceitos básicos de retinoscopia 2.2.1 Reflexo retiniano 2.2.2 Tipos de sombras 2.2.3 Espelhos 2.2.3.1 Espelho plano 2.2.3.2 Espelho côncavo 2.2.3.3 Neutralização 2.2.4 Distância de trabalho 2.2.5 Lente de trabalho 2.3 Características do reflexo 2.3.1 Velocidade 2.3.2 Brilho 2.3.3 Largura 2.4 Fazendo retinoscopia 2.4.1 Determinando a refração 2.4.1.1 Ametropias esféricas 2.4.1.2 Ametropias cilíndricas 2.4.1.2.1 Localização do eixo cilíndrico 2.4.1.2.2 Neutralização da potência cilíndrica 2.5 Retinoscopia dinâmica 2.5.1 Retinoscopia Mohindra Referências da unidade II 3unidade III 3Refração subjetiva 3.1 Entendendo a refração subjetiva 3.1.1 O furo estenopeico e a diminuição da qualidade visual 3.2 Materiais para a refração subjetiva 3.2.1 Caixa de provas 3.2.2 Foróptero 3.2.2.1 Comandos de ajuste 3.2.2.2 Controle das lentes do foróptero 3.3 Refração subjetiva 3.3.1 Monocular para longe 3.4 Técnicas para o processo refrativo 3.4.1 Teste bicromático 3.4.2 Método Donders 3.4.3 Miopização Referências da unidade III 4unidade IV 4Afinamento da refração 4.1 Refração do astigmatismo 4.1.1 Círculo horário 4.1.2 Cilindro Cruzado de Jackson (CCJ) 4.1.3 Fenda estenopeica 4.2 Subjetivo binocular 4.2.1 Balanço binocular 4.3 Refração subjetiva para perto 4.3.1 Teste da grade ou o CCJ para perto 4.3.2 Método de pontuação 4.4 Critérios para prescrição 4.4.1 Prescrição para miopia 4.4.2 Prescrição para hipermetropia 4.4.3 Prescrição para astigmatismo 4.4.4 Prescrição em présbitas 4.4.5 Prescrição em forias Referências da unidade IV