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Código Logístico 58549 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6477-9 9 788538 764779 ARTES VISU AIS PIN TU RA VAN IA M ARIA AN DRADE Artes Visuais: Pintura IESDE BRASIL S/A 2019 Vania Maria Andrade Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ A825a Andrade, Vania Maria Artes Visuais: Pintura / Vania Maria Andrade. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE Brasil, 2019. 164 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6477-9 1. Artes. 2. Pintura - Técnica. I. Título. 19-55976 CDD: 750.28 CDU: 75.02 © 2019 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Woters/iStockphoto Vania Maria Andrade Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e em Altas Habilidades/Superdotação pela Faculdade Padre João Bagozzi. Licenciada em Artes Visuais com ên- fase em Computação pela UTP e bacharel em Pintura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora de ensino a distância, autora de conteúdos multimídia e objetos digitais em Arte. Sumário Apresentação 7 1 Introdução ao estudo da pintura 9 1.1 O que é pintura? 12 1.2 Educando o olhar 15 1.3 Os gêneros de pintura 17 2 Elementos de uma composição 27 2.1 Equilíbrio 30 2.2 Linha 31 2.3 Formas 33 2.4 Ritmo 35 2.5 Volume 35 2.6 Luz 36 2.7 Textura 37 3 Iniciando o estudo da cor 41 3.1 Introdução à teoria das cores 44 3.2 Classificação das cores 46 3.3 Cor luz e cor pigmento 51 3.4 Matiz, saturação e brilho 52 4 Os suportes pictóricos 57 4.1 Parede 59 4.2 Madeira 63 4.3 Tecido 64 4.4 Papel 66 4.5 Vidro 68 4.6 Corpo 69 5 Pincéis e outros instrumentos 73 5.1 Instrumentos naturais 76 5.2 Pincéis 77 5.3 Paleta 81 5.4 Godê 82 5.5 Espátulas 83 5.6 Rolos de pintura 84 5.7 Aerografia 85 6 O preparo da tinta: pigmentos 89 6.1 Aglutinantes, solventes e conservantes 92 6.2 Pigmentos naturais 94 6.3 Pigmentos industriais 97 6.4 História de alguns pigmentos 98 7 Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 103 7.1 Têmperas 106 7.2 Pintura a óleo 112 8 Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 117 8.1 Pastel 120 8.2 Lápis de cor 126 9 Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 131 9.1 Aquarela 133 9.2 Nanquim 138 10 Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 145 10.1 Tinta acrílica 147 10.2 Tinta guache 150 10.3 Técnica mista 152 Gabarito 159 Apresentação Considerada uma das formas de expressão mais antigas do ser humano, a pintura tem uma longa história representada por grandes artistas que não só se destacaram por suas produções pic- tóricas como também influenciaram (e continuam influenciando) o desenvolvimento de técnicas, instrumentos e materiais. A pintura expressa muito mais do que ideias e sentimentos. Não sabemos o que o artista dos primórdios da humanidade queria dizer ao retratar os animais nas paredes das cavernas, mas ainda assim suas pinturas são de grande importância para conhecermos mais sobre os nossos ancestrais e sua forma de vida. Assim foi ao longo de toda a história da arte, com pinturas que retratam o pensamento de um período histórico e social. Para compreender melhor essas obras, é preciso aprender a olhar e estar atento aos detalhes, que muitas vezes são apenas sugeridos. Considerando a importância desse olhar, o Capítulo 1 deste livro versa sobre o modo de ver e ler imagens, destacando também alguns gêneros pictóricos de acordo com os quais podemos classificá-las. O Capítulo 2 dá continuidade a essa abordagem, apresentando os principais elementos visuais. Como a cor é um elemento visual de extrema impor- tância na pintura, o Capítulo 3 é todo dedicado a ele. A partir do Capítulo 4, que trata dos variados tipos de suportes para realizar uma produção, iniciamos a abordagem da cozinha da pintura, isto é, os materiais e técnicas envolvidos no processo de criação, como pincéis, paletas, espátulas etc., apresentados no Capítulo 5, e os pigmentos que produzem as tintas, no Capítulo 6. As técnicas de pintura mais conhecidas constam dos capítulos seguintes, que trazem a his- tória de seu surgimento e o uso de cada uma delas por artistas consagrados: Capítulo 7, têmpera e tinta a óleo; Capítulo 8, pastel e lápis de cor; Capítulo 9, aquarela e nanquim; e, por fim, Capítulo 10, acrílica, guache e técnica mista. Pensando em você, que se tornará professor de Arte, cada capítulo traz uma seção deno- minada “Na aula de Arte”, com propostas de atividades a serem adaptadas para cada faixa etária e realidade e que podem ser enriquecidas com ideias próprias, a fim de pôr em prática todos os conteúdos do livro. Convidamos a todos para um mergulho no mundo da pintura, em que visitaremos a produ- ção de inúmeros artistas, com suas variadas formas de se expressar e utilizar materiais e técnicas que resultam em combinações que transformam nossos sentidos. Esperamos que aproveitem e deleitem-se! Bons estudos! Uma pintura sugere muito mais do que afirma. (JANSON; JANSON, 1988, p. 7) Introdução ao estudo da pintura Na página anterior: TOULOUSE-LAUTREC, H. de. At the Moulin Rouge: the dance. 1890. Óleo sobre tela: 115 x 149 cm. Philadelphia Museum of Art, Filadélfia, EUA. Introdução ao estudo da pintura 11 O ato de produzir e observar uma obra de arte modificou-se ao longo da história da humanidade e muito ainda tem sido discutido sobre o que realmente vemos quando olha- mos para uma produção artística. O mundo está em constante transformação. Se cada obra é fruto de seu tempo, em vários aspectos, a arte segue refletindo e promovendo transformações; por isso, ela é tam- bém um meio de conhecimento do passado. Pinturas antigas revelam muito mais do que simplesmente os motivos retratados, é preciso observar calmamente detalhes e levantar alguns questionamentos para começar a absorver o que uma pintura tem a dizer. E você, tem consciência de tudo o que vê em uma pintura? O que é uma pintura? Observe a obra a seguir e reflita sobre o que ela representa para você. Is ab el la M at he us /G oo gl e Ar ts & C ul tu re Fonte: PARREIRAS, A. Ventania. 1888. Óleo sobre tela: 150 x 100 cm. Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil. Figura 1 – Pintura brasileira Artes Visuais: Pintura 12 Agora, observe o ambiente à sua volta. Não importa onde você está, apenas observe. Gire a cabeça lentamente em todos os sentidos, contemplando de forma geral; depois, prenda-se a alguns detalhes. Quais formas você vê? Quais cores? Onde está mais ilumi- nado? Onde está mais escuro? Permita-se dedicar um tempo a essa observação! Após um olhar mais detalhado, escolha algo, com o intuito de pintar, desenhar ou fotografar. O que você escolheu? Como você enquadraria o seu motivo? É possível fotografá-lo? Registre também rabiscando em um papel, sem se preocupar se os traços sairão corretos. 1.1 O que é pintura? Observe cada uma das obras apresentadas a seguir e reflita sobre: o que representa cada uma delas? Quais cores são utilizadas? Onde está mais claro e mais escuro em cada obra? Você identifica as técnicas e os materiais utilizados? O que significa para você cada uma destas obras? É possível saber, apenas olhan- do para elas, o período em que foram produzidas? Figura 2 – Arte sacra Figura 3 – Arte egípcia Ev er et t - A rt /S hu tte rs to ck Th e M et ro po lit an M us eu m o f A rt Fonte: BONDONE, G. di. A adoração dos magos. [ca. 1320]. Têmpera sobre madeira: 45,1 x 43,8 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA. Fonte: EGITO. Estela pintada de Djedbastet. Terceiro Período Intermediário. Dinastia 22. [ca. 825-712 a.C.]. Pintura sobre gesso e madeira:29,3 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA. Figura 4 – Arte japonesa Th e M et ro po lit an M us eu m o f A rt Fonte: JAPÃO. Faixa. Primeira metade do século XX. Pintura em algodão: 34,29 x 95,25 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA. Vídeo Introdução ao estudo da pintura 13 Podemos dizer que esse é o início de uma alfabetização visual. Não é uma alfabetiza- ção verbal, mas uma leitura de imagens, o primeiro passo para começarmos a falar sobre pintura. Mas, afinal, o que é pintura? Pintura: “Arte de pintar. Expressão artística que se desenvolve numa superfície (o suporte) através da cor, recorrendo a técnicas diversas, desde as tintas naturais do Paleolítico Superior, até às mais recentes: acrílico, aquarela, encáustica, fresco, guache, óleo, pastel, têmpera” (CALADO; SILVA, 2005, p. 289). De acordo com diversos dicionários, a pintura, enquanto técnica, consiste em cobrir um suporte utilizando cores1. Como estamos tratando da pintura inserida no campo da arte, vamos nos aprofundar nessa área. A pintura é uma manifestação artística, que representa formas fi- gurativas ou abstratas, originando uma composição. Mas para chegar a esse resultado, o artista deve escolher as técnicas e os materiais mais adequados ao resultado que deseja atingir, além de trabalhar com os elementos visuais que produzirão os efeitos necessários para a manifestação de sua expressão. Lembra-se dos aspectos que você observou ao seu redor e nas pinturas apre- sentadas: a luz do ambiente, as cores, as formas etc.? Posteriormente, veremos mais detalhada- mente cada um desses elementos visuais que compõem uma produção pictórica. Para a artista Lourdes Barreto (2011, p. 22), “entender o que a pintura pede é es- sencial” para que, no momento em que a tinta confronta o suporte, o artista possa estar atento a outras possibilidades de soluções. Da mesma forma, é fundamental compreender os meios de expressão e os meios materiais, pois serão eles que darão corpo à produção artística. Veja outra definição de pintura com destaque a alguns elementos visuais: Pintura: “expressão de ideias e emoções, com a criação de certas qualidades estéticas, numa linguagem visual bidimensional. Os elementos dessa linguagem – suas formas, linhas, cores, tons e texturas – são usados de várias maneiras para produzir sensações de volume, espaço, movimento e luz em uma superfície plana. Esses elementos são combinados em padrões expressivos para representar fenômenos reais ou sobrenaturais, para interpretar um tema narrativo ou criar relações visuais totalmente abstratas” (ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2019, grifos do original)2. 1 Revestimento de uma superfície com substância líquida corante (HOUAISS, 2009); camada de tinta que recobre uma superfície (MICHAELIS, 2019). 2 “Painting, the expression of ideas and emotions, with the creation of certain aesthetic qualities, in a two-dimensional visual language. The elements of this language – its shapes, lines, colours, tones, and textures – are used in various ways to produce sensations of volume, space, movement, and light on a flat surface. These elements are combined into expressive patterns in order to represent real or supernatural phenomena, to interpret a narrative theme, or to create wholly abstract visual relationships”. pictórico: relativo à pintura; pictorial, pictural, pintu- resco, pitoresco (MICHAELIS, 2019). Artes Visuais: Pintura 14 O ato de se expressar pela técnica da pintura existe desde o início da história humana, conforme podemos verificar ao estudar a história da arte desde suas primeiras manifestações, quando o homem vivia em cavernas. Veja a seguir um exemplo de uma obra de arte rupestre. W ik im ed ia C om m on s GRUTA Lascaux. França. [ca. 15.000 a.C.]. Figura 5 – Representação de animais em arte rupestre Ao longo da história da humanidade, as representações pictóricas foram se modifi- cando de acordo com diversos contextos (sociais, políticos, religiosos, tecnológicos e cul- turais). Com toda essa bagagem que temos de expressão por meio da pintura, desde os primórdios da humanidade, podemos enxergar uma produção artística de forma ampla. Ao observar uma pintura, o que você consegue enxergar? Educar o olhar para a observa- ção é importante na medida em que permite enxergar além da superfície da obra, como veremos mais adiante. Na aula de Arte Trabalhar com este breve conteúdo introdutório em sala de aula não é complicado, principalmente com o primeiro segmento do ensino fun- damental, já que crianças tendem a se expressar mais livremente por meio do desenho do que os adolescentes. Com alunos mais velhos, Introdução ao estudo da pintura 15 há a facilidade de utilizar outras tecnologias, como a fotografia. Para isso, deve-se verificar a possibilidade de uso do aparelho que fotogra- fará (celular ou máquina fotográfica): será particular ou da escola? O procedimento prático pode ser o mesmo que propomos aqui: inicie soli- citando que observem detalhadamente o ambiente ao seu redor. Depois de alguns minutos de observação em silêncio, questione se verifica- ram coisas que não haviam percebido antes. Em seguida, proponha que destaquem uma parte do que foi observado para desenhar ou fotogra- far. Permita que se expressem livremente, sem ainda aprofundar sobre os elementos visuais. Organize uma roda de conversa para que mos- trem ou contem os seus motivos destacados, justificando as escolhas. Exponha a importância de saber observar em arte. Após essa atividade introdutória, apresente ao menos três pinturas de momentos distintos da história da arte e proponha a observação livre e silenciosa. Solicite que façam uma lista do que é observado. Depois de um minuto, come- ce a orientar a observação: qual é a técnica utilizada nas obras? Quais são as cores? Há áreas mais iluminadas ou mais escuras? Quando pa- rece ter sido produzida? Faça as considerações sobre o conteúdo, evi- denciando detalhes nas obras. 1.2 Educando o olhar Há muitas formas de se ver uma pintura. John Berger (2006), escritor e crítico de arte, afirma em Modos de ver – série de vídeos que depois virou livro – que se você observa uma imagem com um fundo musical, o som interferirá na sua observação. Se a imagem vier acompanhada de outras, ou de textos, a sua leitura também será modificada, pois o que acompanha a imagem quando a observamos passa a fazer parte dela. Pense na Capela Sistina3. Os afrescos foram produzidos exclusivamente para as suas paredes, adequados à sua arquitetura. Algumas pinturas foram idealizadas para o teto, para que as vissem ao olhar para cima. Atualmente essas imagens são reproduzidas em diversos suportes e lugares, destacando cada detalhe, mas muitas vezes não nos damos conta de que elas podem ter sido idealizadas para serem observadas ao levantar nossa cabeça. 3 Capela localizada no Palácio Apostólico, residência oficial do papa na cidade-Estado do Vaticano, cujo interior é constituído por pinturas – utilizando a técnica do afresco – de autoria de Michelangelo. Vídeo afresco: obra pictórica feita sobre parede, com base de gesso ou arga- massa, utilizando pigmentos à base de água. Artes Visuais: Pintura 16 W ik im ed ia C om m on s Fonte: MICHELANGELO. O juízo final. 1541. Afresco: 1,370 × 1,220 cm. Museu do Vaticano, Roma. Figura 6 – Detalhe do afresco da Capela Sistina A fotografia modificou não só o modo de vermos uma imagem, mas também os comportamentos. Antes dela, os retratos eram encomendados a pintores, depois dela, tor- nou-se muito mais fácil fazer esse registro. Os retratos pintados nos falam de uma época, a fotografia nos fala de outra. Hoje, qualquer pintura pode ser fotografada e reproduzida. Sua reprodução pode ser utilizada para diversos fins; inclusive, as pinturas que trazemos aqui são apenas reproduções. Quando observamos essa imagem do Juízo Final (Figura 6), não estamos olhando para o afresco que está no interior da CapelaSistina. Temos acesso apenas Introdução ao estudo da pintura 17 a uma reprodução muito pequena de uma obra monumental. São experiências muito dife- rentes, limitadas ao alcance dos olhos e dos modos de ver. Os recursos tecnológicos nos favoreceram muito com a possibilidade de observar detalhes. Ler uma imagem demanda tempo de observação dos detalhes, e a fotografia e os demais recursos, como as visitas virtuais a museus e ferramentas de zoom, permitem-nos observar esses detalhes com mais facilidade. Uma imagem sempre será acompanhada do modo de ver do autor, mas só enxer- garemos por meio dos nossos olhos, isto é, só poderemos ver aquilo que nossa interpre- tação permite, e não necessariamente o que o autor quis expressar. Por isso é importante contextualizar as imagens que observamos e cada vez mais educar nosso olhar para nos comunicarmos melhor. De acordo com Donis Dondis (2007, p. 8): Expandir nossa capacidade de ver significa expandir nossa capacidade de entender uma mensagem visual, e, o que é ainda mais importante, de criar uma mensagem visual. A visão envolve algo mais do que o mero fato de ver ou de que algo nos seja mostrado. É parte integrante do processo de comunicação [...]. Portanto vamos, a partir de agora, enxergar com mais atenção tudo o que vemos, ampliando nosso olhar, para que saibamos nos expressar melhor e compreender o que o outro quer dizer. 1.3 Os gêneros de pintura Para facilitar a educação do nosso olhar ao contemplar ou produzir uma pintura, podemos começar nos familiarizando com alguns termos e conceitos básicos, como já fizemos no início do capítulo. Vamos agora listar alguns dos principais gêneros de representação pictórica, uma classificação que ajuda a identificar obras de arte. Não se trata de uma divisão radical, apenas de uma classificação por tema retratado, o que não impede que um tema se mescle a outro em algu- mas obras. Alguns artistas se dedicam mais ao estudo de alguns temas do que outros, portan- to a classificação facilita no momento de caracterização das obras. Antes do período Renascentista, havia uma divisão de gêneros da pintura que aca- bou por se modificar ao longo do tempo. Se antigamente um pintor de retratos não pintava paisagem, com a nova visão da arte no Renascimento, surgiram novas formas de represen- tação pictórica. Daí foram definidos os gêneros de pintura, que não indicam radicalismo na expressão. Devemos entender que a pintura de um retrato mostra muito mais do que apenas o retrato de alguém, não é um gênero rígido em sua definição. O retrato mostra o período histórico, as características físicas, a moda, o entorno do retratado... portanto Vídeo Artes Visuais: Pintura 18 sempre haverá diferentes modos de vê-lo. Sendo assim, não devemos nos prender à no- menclatura, que existe para uma questão de organização. Alguns dos gêneros mais co- nhecidos são: pintura sacra, pintura de gênero, retrato, natureza-morta, paisagem, pintura histórica. Abordaremos cada um deles a seguir. 1.3.1 Pintura sacra Caracteriza-se pela representação de cenas e personagens religiosos. Constitui-se am- plamente pelas pinturas do período gótico e demais decorações de igrejas. Os temas mais representados são: Madona, Santa Ceia, anunciação e crucificação (LICHTENSTEIN, 2004). Te tra kt ys /W ik im ed ia C om m on s Fonte: CARMELO, J. do M. Nossa Senhora do Carmo entrega escapulários a Santos Carmelitas (detalhe do forro da capela-mor). 1784. Óleo sobre madeira. Coleção Convento de Nossa Senhora do Carmo, Santos, São Paulo, Brasil. Figura 7 – Pintura sacra Introdução ao estudo da pintura 19 O pintor afro-brasileiro Jesuíno Francisco de Paula Gusmão, ou Frei Jesuíno do Monte Carmelo (1764-1819), pintou somente obras do gênero religioso. O papa Gregório Magno, que viveu em fins do século VI, tem grande importância na história da arte sacra na medida em que defende o uso de imagens nas igrejas, por seu sentido didático. As imagens são úteis para ensinar a palavra sagrada aos leigos. Diz ele: “A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem ler”. Isso leva a que a arte apele para métodos narrativos, contando e expli- cando os episódios da história bíblica [...]. (ENCICLOPÉDIA, 2019) A arte sacra teve grande produção durante o período barroco brasileiro, mas os ar- tistas continuaram pintando o gênero ao longo da história. Manoel da Costa Ataíde, mais conhecido como Mestre Ataíde, foi um grande representante brasileiro. 1.3.2 Pintura de gênero Caracteriza-se pelas pinturas que retratam cenas da vida diária, o cotidiano, o tra- balho no campo ou na cidade, os costumes e os festejos. Podemos exemplificar com as pinturas produzidas por Jean Baptiste Debret sobre as cenas cotidianas das famílias no Brasil. Outro exemplo é o pintor brasileiro Almeida Júnior, que produziu várias pinturas de gênero (LICHTENSTEIN, 2004). Is ab el la M at he us /G oo gl e At P ro je ct Fonte: JÚNIOR, A. Leitura. 1892. Óleo sobre tela: 95 x 141 cm. Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil. Figura 8 – Pintura de gênero A vitória do protestantismo, por sua vez, obriga os pintores a se especializarem em ramos da arte que não levantem objeções de natureza religiosa. Os retratos, as paisagens e as cenas de gênero aparecem, assim, como alternativas aos ar- tistas que haviam perdido um importante filão de trabalho, a pintura religiosa. (ENCICLOPÉDIA, 2019) Artes Visuais: Pintura 20 Entre os brasileiros que se destacaram nesse gênero, temos Almeida Júnior, Belmiro de Almeida e Henrique Bernardelli. 1.3.3 Retrato Esse gênero de representação foi amplamente explorado por diversos artistas, na for- ma de autorretrato. O autorretrato era uma maneira mais barata para os pintores treinarem a técnica, além de não precisarem depender do modelo em exposição. Vincent Van Gogh talvez seja um dos artistas que mais produziu autorretratos. Ter um retrato pintado da família já foi símbolo de riqueza social (LICHTENSTEIN, 2004). Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras (2019, grifos do original): Na pintura, o retrato se afirma como gênero autônomo no século XIV, após ter sido utilizado no Egito, no mundo grego e na sociedade romana, com finalidades diver- sas: comemorativa, religiosa, funerária etc. Giovanni, o Bom (1360), pertencente ao Museu do Louvre, é considerado um dos primeiros retratos pintados de que se tem notícia. A partir daí, o retrato passa a ocupar lugar destacado na arte europeia, atravessando diferentes escolas e estilos artísticos. O retrato é um gênero muito explorado pelos pintores de forma geral. Na arte brasileira, principalmente os modernistas se destacam, tais como Tarsila do Amaral, Candido Portinari e Alberto da Veiga Guignard. 1.3.4 Natureza-morta É a representação de seres inanimados dis- postos em uma composição. Podem ser flores, caças, comidas e outros objetos. Nesse gênero destacamos as vanitas, tipo de natureza-morta composta por objetos pessoais de determinada pessoa para lembrar que a vida é frágil e os bens são inúteis (LICHTENSTEIN, 2004). “Objetos inanimados são representados na pintura desde a Idade Média, em geral como fundo de pinturas religiosas de cunho realista. Mas é somente em meados do século XVI que a natureza-morta emerge como gênero artístico independente [...]” (ENCICLOPÉDIA, 2019). Os artistas brasileiros retomam esse gênero por volta de 1930, com o grupo Santa Helena e o Núcleo Bernardelli. Sc an M AB /S af ra c at al og ue /W ik im ed ia C om m on s Arthur Timótheo da Costa pintou retratos, paisagens e outros temas. Figura 9 – Retrato Fonte: COSTA, A. T. da. Retrato. [ca. 1922]. Óleo sobre painel: 49 x 41 cm. Museu Afro Brasil, São Paulo, Brasil. Introdução ao estudo da pintura 21 Is ab el la M at he us /W ik im ed ia C om m on s Estevão Silva é considerado um dos maiores pintores brasileiros do gênero. Fonte: SILVA, E. Natureza-morta.1888. Óleo sobre cartão: 37 x 48,5 cm. Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil. Figura 10 – Natureza-morta 1.3.5 Paisagem Gênero representado pelas cenas ao ar livre. Dentre as primeiras pinturas de paisa- gens estão as de autoria de Albrecht Dürer (1471-1528). As pinturas que representam cenas com mar também podem ser consideradas paisagens marinhas (LICHTENSTEIN, 2004). Se a paisagem ocupa lugar secundário na hierarquia acadêmica até o século XVIII, no século XIX ela se alça ao primeiro plano. Uma das inovações na representação da natureza a partir de então diz respeito à pintura ao ar livre, que se populariza com a invenção da bisnaga descartável para tintas. (ENCICLOPÉDIA, 2019) José Pancetti, Giovanni Castagneto e Antônio Parreiras estão entre os inúmeros pin- tores brasileiros que representaram paisagens em suas produções. Artes Visuais: Pintura 22 Ac er vo d o M us eu A fr o Br as il/ W ik im ed ia C om m on s Firmino Monteiro foi um importante paisagista brasileiro. Fonte: MONTEIRO, F. Paisagem. 1885. Óleo sobre tela. Museu Afro Brasil, São Paulo, Brasil. Figura 11 – Pintura de paisagem litorânea M us eu A fr o Br as il/ Sa fr a ca ta lo gu e/ W ik im ed ia C om m on s Fonte: COSTA, A. T. da. Marinha. 1909. Óleo sobre tela: 67 x 79 cm. Museu Afro Brasil, São Paulo, Brasil. Figura 12 – Pintura de marinha Introdução ao estudo da pintura 23 1.3.6 Pintura histórica Geralmente representa cenas da história de uma localidade, seus heróis e cenas de ba- talhas. De acordo com Lichtenstein (2004), muitas pinturas sobre guerras famosas foram pro- duzidas em tamanho monumental, fazendo com que o artista precisasse encontrar estratégias com muita criatividade para representar um grande número de pessoas em uma mesma cena. Realizadas, em geral, sob encomenda, as pinturas históricas evidenciam um tipo de produção plástica comprometida com a tematização da nação e da política. Se os acontecimentos domésticos, o cotidiano e os personagens anônimos são regis- trados pela pintura de gênero, os grandes atos e seus heróis são narrados em tom elevado e estilo grandioso pela pintura histórica. (ENCICLOPÉDIA, 2019) Entre os pintores que representaram cenas históricas brasileiras, destacamos Vítor Meireles e Pedro Américo. W ik im ed ia C om m on s Fonte: MEIRELLES, V. Batalha dos Guararapes. 1879. Óleo sobre tela: 500 x 925 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil. Figura 13 – Pintura histórica Na aula de Arte A abordagem dos gêneros da pintura nas aulas de arte pode ser fei- ta de diversas formas. Uma delas seria apresentar diversas pinturas numeradas, de diferentes gêneros, e solicitar que cada aluno faça uma lista, relacionando a obra com o respectivo gênero. Essa estratégia tem o intuito de verificar se o conteúdo foi bem assimilado. Em seguida, previamente, como motivação, organize uma roda de conversa em que todos possam se expressar verbalmente sobre uma paisagem que te- Artes Visuais: Pintura 24 nham conhecido, ou uma história bíblica que tenham ouvido, ou uma cena do cotidiano (como brincar com um cachorro). Como continua- ção, ou como outra abordagem, proponha que representem, por meio de uma pintura (a técnica pode ser definida ou livre), um dos gêne- ros apresentados. Estimule a riqueza de detalhes, fazendo perguntas. Cada gênero rende conteúdo para uma aula inteira em uma atividade como esta. O trabalho com a natureza-morta permite explorar também o desenho de observação, se você expuser em cima de uma mesa al- gumas frutas e um vaso com flor. Verifique se todos terão boa visibi- lidade da cena e proponha que retratem no papel o que estão vendo, utilizando as técnicas de observação. Considerações finais Vimos neste capítulo que, para se expressar por meio da pintura (em qualquer um dos gêneros), é preciso compor elementos visuais em cores sobre um suporte, de forma que essa composição desperte emoções no espectador. Essas emoções dependem do modo de cada um ler imagens e se expressar por meio delas. Após a assimilação do conteúdo exposto até aqui, escolha um ambiente que lhe agra- de e repita os passos de observação propostos no início do capítulo. Quais são suas im- pressões sobre o que está sendo observado? Escolha um motivo desse ambiente para ser registrado. Aceite o desafio e desenhe ou pinte o que foi escolhido, sem se preocupar com o resultado. Apenas registre, assine, coloque a data e guarde seu estudo. Ampliando seus conhecimentos • WAYS of Seeing. Produção: Mike Dibb. Intérprete: John Berger. EUA, 1972. (30min.) Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dijaKEzXzD8. Acesso em: 16 jan. 2019. O escritor e crítico propõe uma reflexão sobre como enxergamos as imagens. Os dois primeiros episódios estão disponíveis com legendas em português. • PALAVRAS e imagens. Direção: Fred Schepisi. Intérpretes: Clive Owen, Juliette Binoche. EUA, 2015. (1h 56min.). O filme ilustra o desafio entre os alunos de uma professora de Arte e de um pro- fessor de Literatura na decisão do que é mais importante: palavras ou imagens. Introdução ao estudo da pintura 25 Atividades 1. Com base no conteúdo apresentado, tendo como referência os estudos em artes vi- suais, como podemos definir pintura? 2. Observe atentamente a imagem a seguir e responda: em qual gênero pictórico ela se encaixa? Justifique. W ik im ed ia C om m on s Fonte: AMOEDO, R. Ateliê do artista em Paris. 1883. Aquarela sobre cartão: 56.8 x 77 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil. 3. Cite alguns elementos visuais que compõem uma obra pictórica e que podemos dis- tinguir durante a observação de uma obra de arte. Referências BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. BERGER, J. Modos de ver. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. CALADO, M.; SILVA, J. H. P. da. Dicionário de termos de arte e arquitetura. Lisboa: Editorial Presença, 2005. DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Painting. Disponível em: https://www.britannica.com/art/ painting. Acesso em: 14 jan. 2019. HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM. JANSON, H. W.; JANSON, A. F. Iniciação à História da Arte. São Paulo: Martins Fontes,1988. LICHTENSTEIN, J. A pintura. v. 10. São Paulo: Editora 34, 2004. Artes Visuais: Pintura 26 MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Melhoramentos, 2019. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/. Acesso em: 16 jan. 2019. MUSEU Afro Brasil. Disponível em: http://museuafrobrasil.org.br/pesquisa/indice-biografico. Acesso em: 16 jan. 2019. NATUREZA-MORTA. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo360/natureza- morta. Acesso em: 16 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. PINTURA de gênero. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo912/pintura-de- genero. Acesso em: 16 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. PINTURA histórica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo327/pintura- historica. Acesso em: 16 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. PINTURA de paisagem. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo363/pintura-de- paisagem. Acesso em: 20 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. PINTURA sacra. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3823/pintura-sacra. Acesso em:16 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. RETRATO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo364/retrato. Acesso em: 16 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. O artista pode influenciar a alma somente com seus meios tradicionais: a tinta (cores), a forma (isto é, com a distribuição dos planos e das linhas) e a relação entre eles (o movimento). Wassily Kandinsky (CCBB, 2014) Elementos de uma composição Na página anterior: KANDINSKI, W. Composição X. 1939. Óleo sobre tela: 130 x 195 cm. Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Alemanha. Elementos de uma composição 29 Imagine que você está frente a frente com sua pintura preferida, admirando cada deta- lhe dela. Primeiramente, seus olhos fazem um percurso geral pela obra, guiado pelas princi- pais linhas da composição. O ritmo e a direção desse percurso são definidos pelos arranjos de formas e tons registrados na superfície do suporte. O equilíbrio entre todos esses elementos permitirá uma experiência expressiva aos olhos do espectador. Quais são os elementos vi- suais que influenciam nessa experiência de observação de uma pintura? Veremos a seguir. Observe a obra a seguir e suas linhas principais. Atente para o percurso que seus olhos fazem, guiados pelo ritmo da composição. Ab c G al le ry /W ik im ed ia C om m on s Figura 1 – Pintura abstrata Fonte: KANDINSKY, W. Fuga. 1914. Óleo sobre tela: 129,5 x 129,5 cm. Fundação Beyeler, Suíça. De acordo com Barreto (2011, p. 21), “Pintar é estabelecer relações com os meios de expressão”. Portanto, ao produzir uma pintura, o artista escolhe a técnica e o suporte mais adequado ao resultado que deseja atingir. A escolha de materiais influenciará diretamente na sua produção e a compreensão dos elementos visuais com os quais trabalhará facilitará a sua busca por um equilíbrio na composição, permitindo maior expressividade. A forma Artes Visuais: Pintura 30 de abordar todos esses elementos – ou não – e a ênfase em cada um deles é que produzirá a composição final. Muito do conteúdo que veremos sobre pintura também é abordado pelo design, prin- cipalmente no que se refere ao estudo de elementos visuais. Por isso, serão apresentadas aqui algumas referências da área. É importante lembrar que em arte não deve haver radicalismos entre as linguagens de expressão. Elas se complementam, unem-se e muitas vezes se misturam para uma maior liberdade expressiva, para deleite do espectador e uma arte mais desafiadora. 2.1 Equilíbrio Uma composição é considerada equilibrada quando traz suas tensões bem distribuídas e suas forças contrabalançadas. Cores, texturas, formas e outros elementos influenciam diretamente no equilíbrio visual. Para Dondis (2007, p. 17): O equilíbrio é, então, a referência visual mais forte e firme do homem, sua base consciente e inconsciente para fazer avaliações visuais. O extraordinário é que, enquanto todos os padrões visuais têm um centro de gravidade que pode ser tecni- camente calculável, nenhum método de calcular é tão rápido, exato e automático quanto o senso intuitivo de equilíbrio inerente às percepções do homem. Existem dois tipos básicos de equilíbrio: o simétrico e o assimétrico. Veremos as ca- racterísticas de cada um deles a seguir. 2.1.1 Equilíbrio simétrico Não é tão dinâmico quanto o equilíbrio assimétrico, mas é a forma mais fácil de con- seguir equilibrar uma composição. Trata-se de igualar os pesos, repetindo os motivos, ao dividir a obra a partir de um eixo, conforme ilustrado a seguir. G em ee nt e M us eu m /W ik im ed ia C om m on s Figura 2 – Composição simétrica Fonte: MONDRIAN, P. Composição com grade 3: composição de losango com linhas cinzas. 1918. Óleo sobre tela: 84,5 x 84,5 cm. Museu Municipal de Haia, Holanda. Vídeo Elementos de uma composição 31 Essa obra de Mondrian representa bem a simetria em vários sentidos: da esquerda para a direita e de cima para baixo. 2.1.2 Equilíbrio assimétrico A assimetria consiste em equilibrar as tensões, sem repetir os elementos, ao dividir a obra com um eixo imaginário. De acordo com Lupton e Phillips (2006, p. 30), a simetria não é o único meio de atingir o equilíbrio. Projetos assimétricos são geralmente mais ativos que os simétricos; e os designers atingem o equilíbrio ao colocar elementos contrastantes em contraponto um com o outro, produzindo composições que permitem ao olho perambular dentro de uma estabilidade geral. W ik im ed ia C om m on s Fonte: DOESBURG, T. van. Composição Simultânea XXIV. 1929. Óleo sobre tela: 50,2 x 50,4 cm. Galeria de Arte da Universidade Yale, EUA. Figura 3 – Composição assimétrica Há muitas formas de se chegar a um equilíbrio assimétrico, por meio da utilização dos mais variados elementos compositivos: linhas, cores, formas etc. 2.2 Linha Uma linha é o ponto em movimento, ou uma sequência de pontos que, por estarem muito unidos, transmitem a ideia de movimento. É a combina- ção dos tipos de linhas que irão interferir na composição final, sugerindo a direção que o olhar do espectador deve fazer ao passear pela obra. Se vá- rios pontos formam uma linha, o que é o ponto? Observe esta definição: “O Vídeo Artes Visuais: Pintura 32 ponto indica uma posição no espaço. Em termos puramente geométricos, um ponto é um par de coordenadas x, y. Ele não possui massa alguma. Graficamente, contudo, um ponto toma forma como um sinal, uma marca visível” (LUPTON; PHILLIPS, 2006, p. 14). As linhas apresentam espessura, textura e nitidez. Observe as imagens a seguir e pro- cure identificar alguns dos variados tipos de linhas que podemos encontrar em uma pintura: • Retas: horizontais (transmitem repouso), diagonais/inclinadas (instabilidade) ou verticais (indicam altura). • Curvas. • Linhas quebradas ou em zigue-zague. • Linhas tracejadas. • Ângulos. • Grossas e finas. • Mistas. Agora, identifique a variedade de tipos de linhas nesta pintura de Kandinsky. W ik im ed ia C om m on s Fonte: KANDINSKY, W. Composição VIII. 1923. Óleo sobre tela: 140 x 201 cm. Museu Solomon Guggenheim, Nova Iorque, EUA. Figura 4 – Variedade de linhas Elementos de uma composição 33 W ik iA rt Figura 5 – Variedade de linhas retas Fonte: KLEE, P. Estrutural II. 1924. Guache sobre papel: 25.7 x 21 cm. Christie, Nova Iorque, EUA. Klee também explorou o uso de linhas em suas obras. Observe na obra presente na Figura 5 a composição entre as linhas curvas e as linhas retas quebradas, paralelas, perpen- diculares e formando ângulos. 2.3 Formas As linhas se unem e surgem as formas e superfícies. São consideradas três formas básicas e simples na linguagem visual: o círculo, o quadrado e o triângulo equilátero. A variação e a combinação delas geram outras, mas o Vídeo Artes Visuais: Pintura 34 espaço existente entre as formas e as massas feitas por outros elementos também influencia na percepção visual, devendo ser levado em conta no momento de compor uma produção. Todas as formas básicas expressam três direções visuais básicas e significativas: o quadrado, a horizontal e a vertical; o triângulo, a diagonal; o círculo, a curva. Cada uma das direções visuais tem um forte significado associativo e é um valioso instru- mento para a criação de mensagens visuais. (DONDIS, 2007, p. 35) Ao utilizar as formas básicas em uma composição, o artista deve considerar os espa- ços formados entre elas e as linhas para as quais elas direcionam o olhar do espectador: a vertical, a horizontal, a diagonal e a curva. W ik iA rt Fonte: MALEVICH, Kazimir. Suprematismo dinâmico. 1915 ou 1916. Óleo sobre tela: 803 x 800 mm. Figura 6 – Composição com formas geométricas básicas Conhecendo o efeito sugerido pela utilização dessas formas básicas, é possível cons- truir com mais facilidade uma composição equilibrada, mesmo que assimetricamente. Elementos de uma composição 35 2.4 Ritmo Da repetiçãoe variação de linhas, formas e outros elementos começa a surgir o ritmo da composição. A relação entre eles forma uma trama rítmica, mostrando uma cadência expressiva. A palavra ritmo tem o significado de movimento regular, cadência. Para Lupton e Phillips (2006, p. 32): “Assim como a consonância melódica e a fervorosa dissonância na música, a repeti- ção e a variação despertam justaposições visuais vitais. A beleza surge dessa mistura”. W ik iA rt Figura 7 – Ritmo de cores, linhas e formas Fonte: DELAUNAY, R. Ritmo. 1939. Óleo sobre tela: 529 x 592 cm. Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris. O próprio nome da obra de Delaunay sugere um de seus principais elementos vi- suais: o ritmo, dado pela variação e repetição de linhas curvas, cores e formas circulares. 2.5 Volume O volume, a luz e a cor são considerados os elementos mais dinâmi- cos da linguagem visual, por se relacionarem com a representação tridimen- sional (ARNHEIM, 2005). Podemos conseguir o efeito de profundidade na pintura produzindo o volume por meio da representação de luz e sombra e o uso da perspectiva. A representação de uma forma em perspectiva apresen- tará sua tridimensionalidade: “Espaço e volume. Um objeto gráfico que comporta espaço tridimensional tem volume. Ele tem altura, largura e profundidade. Uma folha de papel ou uma tela de computador não têm, claro, profundidade real, logo o volume é representado através de convenções gráficas” (LUPTON; PHILLIPS, 2006, p. 19). Vídeo Vídeo Artes Visuais: Pintura 36 Efeitos gráficos, como hachuras, também produzem o efeito de volume em uma ima- gem bidimensional. Hachuras são as linhas que, desenhadas mais ou menos próximas, definem áreas de sombra em um desenho (HOUAISS, 2019). W ik im ed ia C om m on s Fonte: BONDONE, G. di. Encontro de Joaquim e Ana na porta dourada. 1305. Afresco: 200 x 185 cm. Capela Scrovegni, Itália. Figura 8 – Representação de volume na obra de Giotto Sobre o volume nessa pintura, Ostrower (2013, p. 146) ressalta que podemos iden- tificá-lo na muralha, nas figuras “densas e cilíndricas”, nas pregas das vestimentas, no alto das duas torres e no arco mostrando um interior. 2.6 Luz É o contraste entre claro e escuro que representará a luz em uma pin- tura, que não deve ser confundido com a representação da luz que incide sobre objetos. O artista pode aproveitar-se, evidentemente, de certos efeitos de iluminação natural ou artificial, fazendo-os coincidir com a distribuição de manchas claras e escuras Vídeo Elementos de uma composição 37 na imagem, destacando então, nos objetos representados, certos planos iluminados ou sombras projetadas. Mas o contraste de claro/escuro pode existir independente- mente de um foco de luz. É esse contraste que conta. (OSTROWER, 2013, p. 157) Ao produzir uma pintura, o artista deve, então, verificar como será a representação da luz, podendo utilizar-se da iluminação que incide em um objeto ou representar esse contraste entre o claro e escuro. Ri jk sm us eu m /W ik iA rt Fonte: VAN RIJN, R. A ronda noturna. 1642. Óleo sobre tela: 437 x 363 cm. Rijksmuseum, Amsterdã, Holanda. Figura 9 – A luz de Rembrandt Rembrandt é um dos artistas mais citados quando se aborda a representação da luz, devido à sua forma cenográfica de trabalhar esse elemento em todas as suas composições. 2.7 Textura As texturas são características de uma superfície que podem percebidas pela visão e pelo tato. Por exemplo: liso, rugoso, áspero, aveludado, escorre- gadio etc. Podemos percebê-las ao passar a mão sobre a casca de uma árvo- re, areia, parede, plástico, grama, entre outros. Em uma pintura, as texturas Vídeo Artes Visuais: Pintura 38 podem ser representadas e perceptíveis somente ao olhar, sendo chamadas de texturas ópti- cas, e um exemplo característico são as pinturas de Van Gogh. É possível criar texturas utilizando padrões vibratórios por meio de formas, figuras geométricas, linhas, cores etc. A repetição e a combinação desses elementos podem resul- tar em texturas criativas. Figura 10 – A variedade da textura na obra de Klimt W ik iA rt Fonte: KLIMT, G. Retrato de Adele Bloch-Bauer I. 1907. Óleo sobre tela: 138 x 138 cm. Coleção particular, Galeria Neue, Nova Iorque, EUA. Assim como na vida, a beleza da textura no design encontra-se, com frequência, na pregnância de sua justaposição ou contraste: espinhosa / lisa, pegajosa / seca, rugosa / macia e etc. Colocando uma textura em relação a outra, oposta ou com- plementar, o designer pode amplificar as propriedades formais únicas de cada uma delas. (LUPTON; PHILLIPS, 2006, p. 53) Gustav Klimt foi um artista que explorou amplamente o uso da textura em suas pro- duções, valendo-se de contrastes, sobreposições e combinações entre elas. Na aula de Arte Para trabalhar com os elementos visuais na sala de aula, a proposta é brincar com cada um deles antes de aprofundar seu conteúdo no contex- to de uma obra. Com pontos, a boa e velha atividade de uma composição Elementos de uma composição 39 pontilhista ainda está valendo! Apresente as obras de Georges Seurat e Paul Signac para contextualizar. Varie nas técnicas: hidrocor, colagem, carimbo... lembre-se de que os pontos lado a lado formam linhas! Para as linhas, vamos todos treinar a mão, o braço e os olhos em um exercício com pincel: de um lado a outro, em papel grande, traçar se- quências de linhas de variados tipos, mantendo a proporção do início ao fim, preenchendo todo o papel. A brincadeira com texturas vale para todas as idades! Após uma conversa explicativa sobre o conceito, apresente alguns exemplos e proponha iniciar uma coleção de texturas, que pode ser individual ou coletiva. Cada um pode trazer contribuições para serem guardadas em uma pasta ou caixa da turma. Façam um passeio pela escola, com pa- pel sulfite e giz de cera em mãos. Registrem no papel as texturas que acharem interessantes, anotando no verso a data e local de onde foi retirada. Cada um pode também trazer outros exemplares de casa. So- licite que mostrem e expressem-se verbalmente sobre suas amostras. Proponha uma composição com texturas, já que todos sabem como conseguir variedades delas. Apresente obras de Gustav Klimt e expli- que que podem fazer uma colagem utilizando diferentes texturas. Para alunos mais velhos, a fotografia e a montagem fotográfica com as tex- turas também rendem bons resultados. Considerações finais Os elementos visuais abordados aqui são os ingredientes estáticos ou dinâmicos ne- cessários para uma receita de sucesso expressivo. Devem ser utilizados na medida certa, de acordo com a experiência que se deseja despertar no espectador, pois cada elemento atingirá uma parte da percepção visual de quem observa a composição pictórica. Portanto, a porção certa de cada ingrediente despertará determinada sensação diretamente relacio- nada aos sentidos da percepção. Mas não é só a medida de cada um dos ingredientes que deve ser considerada, e sim cada ingrediente agregado ao outro, respeitando seu efeito em conjunto. O efeito expressivo de um elemento isolado nem sempre corresponde ao que esse elemento transmite quando está sob a influência de outro. Em uma composição, con- sideramos o arranjo entre seus elementos. A consciência e o estudo desses elementos da linguagem visual nos permitem uma melhor comunicação ao nos expressarmos e lermos a expressão de outros artistas. Cada elemento possui sua forma própria de se apresentar perante a percepção visual do espec- tador; entretanto é a relação entre eles que será percebida, na totalidade da composição. Artes Visuais: Pintura 40 Ampliando seus conhecimentos • KANDINSKY, W. Ponto e linha sobre plano. São Paulo: Martins Fontes, 2012. O livro aborda elementos básicos da linguagem visual, mas seu destaque está no fato de ter sido escrito por um artista de grande importância para o desenvolvi- mento da arte, visto que escritos de artistas sempre agregam valor. • FUSARI, M. F.de R.; FERRAZ, M. H. C. de T. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 2009. Esse livro é indispensável para o professor de Arte. Traz sugestões valiosas de ati- vidades e conteúdos para orientar as aulas da disciplina. Atividades 1. Pesquise nos movimentos da arte moderna pinturas que demonstrem equilíbrio simé- trico. Apresente a imagem junto à ficha técnica, contendo as seguintes informações: autor, ano, técnica e localização. 2. Produza uma composição equilibrada utilizando variados tipos de linhas e espessu- ras. Materiais e técnicas livres: pode ser preto e branco ou colorido; a lápis ou pincel. 3. Pesquise nas pinturas da história da arte uma imagem na qual você consiga iden- tificar os elementos básicos trabalhados aqui, tais como equilíbrio, linha, formas, ritmo, luz, textura. Imprima a imagem e faça marcações, numerando cada um dos elementos presentes na obra. Referências ARNHEIM, R. Arte e percepção visual. Uma psicologia da visão: nova versão. São Paulo: Pioneira, 2005. BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil. Kandinsky, tudo começa num ponto. Catálogo de expo- sição. Museu Estadual Russo. São Petersburgo. 2014. Disponível em: http://culturabancodobrasil. com.br/portal/wp-content/uploads/2015/01/Kandinsky-16-oct.pdf. Acesso em: 14 jan. 2019. DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 2007. HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM. LUPTON, E.; PHILLIPS, J. C. Novos fundamentos do design. São Paulo: Cosac Naify, 2006. OSTROWER, F. Universos da arte. São Paulo: Editora da Unicamp, 2013. Iniciando o estudo da cor As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar Os dois lados da janela E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há Azul que é pura memória de algum lugar Teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios Ou pra ser exato, lábios cor de açaí E aqui, trem das cores, sábios projetos: tocar na central E o céu de um azul celeste celestial (Trem das cores, Caetano Veloso) Na página anterior: DELAUNAY, R. Explosão de cor. 1939. Óleo sobre tela. Iniciando o estudo da cor 43 Objeto de estudos iniciados há muito tempo, o fenômeno da cor continua a ser dis- cutido atualmente. O consenso é de que a cor exerce sobre nós estímulos variados. Artistas, designers, cientistas, físicos, cromoterapeutas, entre outros profissionais, ainda discutem e baseiam-se nas antigas teorias cromáticas para aprofundar o estudo da cor, tal é a influên- cia desse elemento visual em nossa vida O homem dos primórdios da humanidade já utilizava a cor para os seus registros nas paredes das cavernas, extraindo pigmentos variados da natureza, como podemos observar na figura a seguir. Ec oP ic /iS to ck .c om Fonte: PINTURA de antílopes. República da África do Sul, África. Figura 1 – Pintura rupestre No Brasil, há muito tempo os indígenas executam técnicas de tingimento para trans- formar as cores de penas dos animais e tingir fios que na produção de seus artefatos se- guem uma ordem cromática rica em significados. Fa bi o Ro dr ig ue s Po zz eb om /A gê nc ia B ra si l/W ik im ed ia Figura 2 – Pintura corporal indígena Artes Visuais: Pintura 44 Veremos a seguir um pouco sobre a teoria das cores: como elas exercem influência sobre o nosso olhar e como podemos observar e trabalhar com esse elemento visual em uma composição pictórica. 3.1 Introdução à teoria das cores A história da teo- ria das cores tomou im- pulso no Renascimento. O pintor e arquiteto Leon Battista Alberti (1404-1472) foi um dos que registrou por escrito suas pesquisas sobre cor, no livro Da pintura (1435). Foi também nos estudos de Alberti que Leonardo da Vinci (1452-1519) se baseou para apro- fundar suas próprias pesquisas, sendo seus escritos organizados postuma- mente no Tratado da pintura (1651). Da Vinci estudou a luz e a sombra, o claro e o escuro, originando o termo italiano chiaroscuro, que designa a técnica de pintura renascentista para representar esse efeito. Em seus escritos surge, pela primeira vez, uma história racional das afinidades das diversas cores em rela- ção às luzes e às sombras. “As cores só são belas quando expressam uma realidade, funcionando como luz, meia-luz, sombra ou treva” (PEDROSA, 2009, p. 45). Observe na pintura de Da Vinci como a luz é representada, focando nas três figuras principais, enquanto o fundo é absorvido pela sombra. Os rostos são luminosa- mente ressaltados. Sobre o chiaroscuro nesta obra, Ostrower (2013, p. 164) destaca: “Na misterio- sa penumbra em que todos os fenômenos mergulham, seria impossível definir onde começam os claros e onde terminam os escuros, tão infinitas e quase imperceptíveis são as gradações e de tal modo se interpenetram os valores para se integrarem em transparências luminosas”. Muitos outros estudiosos levaram adiante as pesquisas de Da Vinci, inclusive aperfei- çoando seus projetos. Por volta de 1665, o cientista Isaac Newton (1642-1727) apresentou Vídeo W ik iA rt Figura 3 – O chiaroscuro na obra de Leonardo Da Vinci Fonte: DA VINCI, L. A virgem dos rochedos. 1505. Óleo sobre tela: 189.5 x 120 cm. Galeria Nacional, Londres. chiaroscuro: técnica de contraste entre luz e sombra na representação de um objeto. Iniciando o estudo da cor 45 a pesquisa de decomposição da luz branca nas cores do espectro solar: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta. Mais de um século antes, Da Vinci já havia afirmado: “O branco não é uma cor, mas o composto de todas as cores” (PEDROSA, 2009, p. 45). Li di ia M oo r/ iS to ck .c om Observe que a luz branca atravessa o prisma triangular, de- compondo-se nas cores do espectro solar, conforme a afir- mação de Newton. Figura 4 – Prisma triangular dispersando a luz branca Dando continuidade às pesquisas sobre luz, em 1810, o escritor e estudioso Johann Wolfgang von Goethe publicou o livro denominado Teoria das cores, bastante explora- do posteriormente por diversos artistas, como Turner (1775-1851) e Kandinsky (1866- -1944). Observe na imagem a seguir a capa do livro com o círculo cromático da teoria de Goethe, que apresentou en- foques diferentes de Newton. A apreciação de artistas pela obra de Goethe refere-se ao enfoque mais estético da cor, que pode ser observado, por exemplo, nas descobertas do pesquisador so- bre as sombras coloridas, e am- plamente discutido pelos artistas modernos e impressionistas. Ao longo dos anos de es- tudo, verificou-se que a cor é a sensação produzida no olho pela ação da luz. Só percebemos as co- res quando há luz suficiente para enxergarmos. Portanto, as cores W ik im ed ia C om m on s Figura 5 – Círculo cromático Fonte: GOETHE, J. W. von. Farbenkreis zur Symbolisierung des menschlichen Geistes- und Seelenlebens. 1809. Freies Deutsches Hochstift – Frankfurter Goethe-Museum. Artes Visuais: Pintura 46 podem modificar-se de acordo com o tipo de luz do ambiente e com as demais cores que a rodeiam. Por exemplo, um vermelho claro pode se tornar mais claro ainda se estiver dis- posto sobre um fundo escuro. 3.2 Classificação das cores Atualmente, existe uma classi- ficação entre as cores que permite o entendimento mais facilitado desse elemento visual. Isaac Newton orga- nizou a sequência das sete cores do espectro solar (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta) em um disco, conhecido como Disco de Newton. Ele calculou a medida correspon- dente a cada cor no espectro, por isso, o Disco de Newton não é dividido em sete partes iguais. Esse modelo de disco passou a ser adotado como círculo cromático, por facilitar o trabalho de artistas e designers na visualização das combinações de cores. Utilizando o círculo, podemos identificar de forma mais prática a classificação das cores de acordo com os seguintes aspectos: • coresprimárias; • cores secundárias; • cores terciárias; • cores complementares; • cores análogas; • cores quentes; • cores frias. A seguir, veremos mais detalhadamente cada um deles. 3.2.1 Cores primárias Para iniciar a compreensão da classificação de cores, começamos com as que são capazes de produzir outras: as cores primárias. “Cor geratriz ou primária é cada uma das três cores indecomponíveis que, misturadas em proporções variáveis, produzem todas as cores do espectro.” (PEDROSA, 2009, p. 18). Vídeo IE SD E Br as il S/ A Figura 6 – Disco de Newton Iniciando o estudo da cor 47 O pintor Piet Mondrian (1872-1944) se interessou amplamente pelo estudo da linha, do plano e da cor, demonstrando isso em suas produções. Entre os anos de 1920 e 1940, suas obras apresentam a mesma estrutura, com linhas pretas que separam quadrados bran- cos intercalados com ouras cores (ARGAN, 2008, p. 409). Nesta obra, Mondrian explora uma composição com as cores primárias. IE SD E Br as il S/ A Figura 8 – Círculo cromático com cores primárias em destaque W ik iA rt Mondrian explorou diversas composições com as três cores primárias. Fonte: MONDRIAN, P. Composição C (N. III) com vermelho, amarelo e azul. 1935. Óleo sobre tela: 56 x 52.2 cm. Coleção particular. Figura 7 – Cores primárias na composição de Mondrian Destacamos aqui que quando estamos tratando de tinta ou pigmento, são conside- radas as cores primárias – amarelo, azul e vermelho –, pois essas são cores puras e não se Artes Visuais: Pintura 48 originam de nenhuma mistura. Se misturarmos uma com a outra, obteremos as demais cores do espectro. Posteriormente, trataremos da cor enquanto luz, não mais pigmento, e veremos que as primárias se modificam. A importância de saber quais são as cores primárias está no fato de que em uma composição elas têm uma independência mais destacada do que as outras cores originadas por elas. Todas as primárias chamam atenção de forma igual, diferentemente das cores secundárias, que veremos a seguir. 3.2.2 Cores secundárias As cores secundárias são as que resultam da mistura entre as cores primárias. São elas: laranja, verde e violeta. Elas são o resultado das seguintes misturas: Figura 9 – Combinação das cores primárias para gerar as secundárias IE SD E Br as il S/ A Conforme vimos anteriormente, se utilizarmos cores primárias e secundárias em uma composição, as primárias se destacarão. Se, por exemplo, usamos as cores amarelo, azul e laranja, o laranja se unirá ao amarelo, que lhe originou, tirando a força do azul. 3.2.3 Cores terciárias As cores terciárias são as que se originam da mistura entre uma cor primária e uma secundária. Por exemplo, o laranja-avermelhado, o amarelo-esverdeado. Assim como a relação entre as cores primárias e secundárias importam mais do que a sua classificação, o mesmo acontece com as terciárias. É a relação entre essas cores e as demais que destacará ou amenizará o efeito de cada uma delas. As secundárias e terciárias fazem uma transferência gradativa para as primárias, equilibrando a independência de cada uma. Iniciando o estudo da cor 49 Ostrower (2013, p. 192) destaca nessa obra de Paul Klee como a relação gradativa entre cores primárias, secundárias e terciárias equilibram a composição numa movimen- tação horizontal e plana: W ik iA rt Fonte: KLEE, P. O mensageiro do outono. 1922. Aquarela e grafite sobre papel: 24,3 x 31,4 cm. Galeria de Arte da Universidade de Yale, EUA. Figura 10 – Relação entre as cores 3.2.4 Cores complementares Os pares de cores que são posicionados diametralmente opostas no círculo, forma- dos por uma cor primária e uma secundária, são chamados cores complementares. O nome, nessa classificação, define a complementação de uma primária pela secundária, por ser essa última a junção das duas outras primárias, completando assim todas as primárias do espectro solar. Por exemplo: vermelho e verde, azul e laranja, amarelo e violeta. IE SD E Br as il S/ A Figura 11 – Círculo cromático destacando um par de cores complementares Artes Visuais: Pintura 50 3.2.5 Cores análogas Por definição, a palavra análoga quer di- zer “semelhança”. Portanto, as cores análogas no círculo cromático são as cores vizinhas e têm em sua base a mesma cor primária e também a mes- ma temperatura (quente ou fria). A obra de Klee também é um bom exemplo para observar a relação entre as cores análogas, como os tons de azuis e verdes. 3.2.6 Cores quentes e cores frias As cores em que predominam os pigmentos vermelhos ou amarelos são chamadas de cores quentes. Já as cores em que predomina o pigmento azul são chamadas de cores frias. A razão de tal distinção não será difícil de acompanhar; ela se origina em expe- riências humanas elementares e imemoriais. Assim, o vermelho e o amarelo são espontaneamente associados ao calor, fogo, sol, enquanto o azul se associa a céu, gelo e frio. Do mesmo modo, deduz-se imediatamente seu teor expressivo: as cores quentes conotando proximidade, densidade, opacidade, materialidade, e as frias, distâncias, transparências, aberturas, imaterialidade. (OSTROWER, 2013, p. 193) W ik iA rt Fonte: CÉZANNE, P. Montanha Sainte-Victoire. 1897. Óleo sobre tela: 65 x 81 cm. Museu de Arte de Baltimore, EUA. Figura 13 – Cores quentes e frias IE SD E Br as il S/ A Figura 12 – Círculo cromático destacando algumas cores análogas Iniciando o estudo da cor 51 Observe nessa pintura (Figura 13) de Cézanne (1839-1906) como o artista trabalhou com as cores quentes, predominando no primeiro plano, e os tons frios, no céu e na mon- tanha, gerando a sensação de profundidade. Isso ocorre porque há uma tendência do nosso olhar em perceber os tons quentes avançando e os tons frios recuando, dando essa sensação de profundidade espacial. Segundo Ostrower (2013, p. 197), o artista fez uso de pinceladas de cores frias e quentes, justapostas e intercaladas, fazendo a composição respirar. Os tons ocres e alaranjados são mediados pelos verdes até surgirem os azuis com alguns toques de rosa, criando um ritmo de contraposições entre frios e quentes, num avançar e recuar de tons. 3.3 Cor luz e cor pigmento Essa classificação refere-se à cor-pigmento, isto é, essa teoria aplica-se quando estamos utilizando a tinta, o pigmento. “Isto acontece porque os pig- mentos absorvem mais luz do que refletem, tornando qualquer mistura mais escura que as cores originais. À medida que novas cores são misturadas, menos luz é refletida. Assim, os sistemas cromáticos baseados em pigmentos são chamados ‘subtrativos’” (LUPTON, 2006, p. 76). Como vimos anteriormente, as descobertas levaram à conclusão de que a cor é um elemento percebido pelos nossos olhos enquanto há luz. Quando vemos uma pintura, es- tamos percebendo o reflexo da luz em uma superfície. De acordo com Lupton (2006, p. 76): “As superfícies absorvem certas ondas de luz e refletem outras em direção aos receptores de cor (cones) de nossos olhos”. Por isso, quando falamos de cor-luz (telas, monitores, televisões, etc.), consideramos outro modelo de clas- sificação de cores. Agora, preste bem atenção, pois não estamos mais falando de cor como pigmento, e sim da cor como luz. Para que nossos olhos enxerguem a luz colorida, são necessárias três cores principais nes- se sistema, conhecido como síntese aditiva (RGB): o vermelho (red), o verde (green) e o azul (blue). A combinação entre essas cores primárias forma todas as outras do espectro, quando falamos de luz colorida. Vídeo Sh ar kD /W ik im ed ia C om m on s Três lâmpadas sobrepostas em um vácuo, adicionadas em conjunto para criar branco. Figura 14 – Mistura aditiva de cores Artes Visuais: Pintura 52 Já para as impressões digitais, o modelo cromático subtrativo utilizado é o CMYK, cujas cores primárias são: azul ciano (cian), magenta, amarelo (yellow) e preto (black). Sh ar kD /W ik im ed ia C om m on s Figura 15 – Misturas subtrativasde cores O mais importante do estudo das cores é conhecer a relação direta com a luz, pois sem luz, não há cor. Todas essas definições são para orientar o nosso raciocínio com relação às escolhas de cores, mas no momento da prática artística o que conta é saber as relações entre as próprias cores e os elementos que estão à sua volta. 3.4 Matiz, saturação e brilho As cores têm três dimensões que podem ser medidas por meio do comprimento da onda de luz: matiz, saturação e brilho. Matiz refere-se à cor em si, à sua tonalidade específica. Muitas vezes o termo é utilizado como sinônimo de cor. Por exemplo, vermelho, amarelo e azul são matizes primários. A saturação ou intensidade refere-se à vivacidade ou palidez da cor, é o grau da sua pureza. Relaciona-se com a quantidade de branco que ela apresenta. O valor, luminosidade ou brilho independe do matiz e da intensidade da cor. Refere-se às variações tonais, é o claro e escuro da cor, isto é, sua intensidade luminosa. O comprimento de onda da luz envolvida é apenas uma das maneiras pelas quais diferenciamos as cores. Como vimos, a tinta azul pode ser azul clara ou azul escura. Em qualquer dos casos, a cor pode ser ou viva e forte, ou opaca e acinzentada, e o que dita estas nuanças de cor são seu matiz, saturação e brilho. Essas qualidades são independentes uma da outra e, para descrever inteiramente uma cor, temos de medir as três. (FRASER; BANKS, 2007, p. 34) Na aula de Arte Ao abordar a teoria das cores, é interessante que todos os alunos tenham em mãos o seu próprio círculo cromático. Produza o seu, para mostrar à turma cada vez que abordar esse assunto. Com as Vídeo Iniciando o estudo da cor 53 crianças, a produção pode ser mais descontraída, apenas utilizando as cores primárias e secundárias, mas com alunos jovens e adultos é possível exigir uma produção mais detalhada, inclusive na mistura das tintas. O material mais adequado, por ser mais resistente, seria o papelão ou o papel cartão, a cartolina também é uma opção viável; verifique a possibilidade de recortar o círculo nesse suporte, princi- palmente para alunos mais novos. Oriente o traçado do círculo, com a ajuda de um molde (CD, prato, tampa plástica etc.), e o traçado das retas. O momento mais divertido é a pintura e a mistura de cores. Deixe um grande modelo à mostra, de preferência com o nome das cores, para que possam se orientar. A turma toda pode pintar cada cor no mesmo momento, ao seu comando, para evitar erros e des- perdício de material ao misturar, exagerando nas quantidades. Você pode também fazer as misturas, para que todos observem, e depois distribuir para cada um. Nesse caso, reserve outra aula para que possam fazer suas próprias misturas, pois essa descoberta mani- pulando as cores é essencial. Considerações finais O estudo das cores é complexo e muito ainda se discute a respeito delas. Mas é im- portante lembrar que essa teoria é um referencial para o artista, que não pode deixar de considerar que cada cor responderá de forma diferente, de acordo com o fundo no qual será inserida, e sofrerá a influência de todos os elementos ao seu redor. Portanto, o uso da cor exige permanente estudo a respeito, visto que é um elemento visual de intenso dinamismo e efeito sobre o espectador. Para Pablo Picasso, “em realidade, trabalha-se com poucas cores. O que ilude seu número é terem sido colocadas no lugar justo” (PEDROSA, 2009, p. 123). Ampliando seus conhecimentos • PLEASANTVILLE, a vida em preto e branco. Direção de Gary Ross. Elenco: Tobey Maguire, Jeff Daniels, Joan Allen. EUA, 1999. (1h54min). O filme Pleasantville, a vida em preto e branco é uma comédia fantasiosa que re- presenta as mudanças de comportamento das personagens por meio das cores. Destaque para o personagem que gostaria de ser pintor e sua admiração ao ver pela primeira vez as pinturas coloridas. Artes Visuais: Pintura 54 • A COR da criação. Direção de Cacá Vicalvi. São Paulo: Rede Sesc/Senac de Televisão, 2001. (23min 26s). Disponível em: http://artenaescola.org.br/uploads/ dvdteca/pdf/arq_pdf_62.pdf. Acesso em: 6 fev. 2019. O documentário educativo para professores A cor da criação, do Instituto Arte na Escola, aborda o processo criativo do artista Paulo Pasta, sua produção e relação com a cor, além de propostas de trabalho para aulas de Artes. • FREITAS, A. Como as paletas de cores determinam o clima dos filmes. Nexo, 27 maio. 2016. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/05/27/Como- as-paletas-de-cores-determinam-o-clima-dos-filmes. Acesso em: 13 fev. 2019. A escolha das cores é capaz de transmitir climas e emoções e aparece como elemen- to central da narrativa em certas obras. Esse texto mostra como a cor é explorada nas obras cinematográficas e apresenta exemplos de alguns filmes conceituados. Atividades 1. Cite ao menos três pesquisadores importantes para o desenvolvimento do estudo da teoria das cores e qual a sua contribuição. 2. O que são cores primárias? Explique. 3. Consulte um círculo cromático e cite dois exemplos de cores complementares, justi- ficando a escolha. Referências ARGAN, G. C. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ARNHEIM, R. Arte e percepção visual. Uma psicologia da visão: nova versão. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Painting. Disponível em: https://www.britannica.com/art/ painting. Acesso em: 14 jan. 2019. FRASER, T.; BANKS, A. Guia completo da cor. São Paulo: SENAC-SP, 2007. FUSARI, M. F. de R.; FERRAZ, M. H. C. de T. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 2009. FUSARI, M. F. de R.; FERRAZ, M. H. C. de T. Metodologia do ensino de Arte: fundamentos e pro- posições. São Paulo: Cortez, 2014. LUPTON, E.; PHILLIPS, J. C. Novos fundamentos do design. Cosac Naify, 2006. OSTROWER, F. Universos da arte. São Paulo: Editora da Unicamp, 2013. Iniciando o estudo da cor 55 PEDROSA, I. Da cor a cor inexistente. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2009. PEDROSA, I. Universo da cor. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2003. VAN GOGH, V. Cartas a Theo. Porto Alegre: L&PM, 1997. VELOSO, C. Trem das cores. Disponível em: https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/43883/. Acesso em: 7 fev. 2019. Os suportes pictóricos A história das imagens que o homem criou está intimamente ligada à eleição de um suporte. (BARRETO, 2011, p. 38) Na página anterior: KOBRA, E. O beijo. 2012-2016. Pintura mural: 11 x 17 m. Nova Iorque, EUA. Os suportes pictóricos 59 O artista, quando se propõe a produzir uma obra que expresse suas ideias, parte em busca de técnicas e materiais que melhor traduzam aquilo que pretende comunicar. Seja por afinidade com alguns materiais ou como resultado de uma pesquisa técnica que responda melhor às suas expectativas, o primeiro passo é definir o suporte mais adequado para a cria- ção, afinal, são tantas as opções, desde os primórdios da humanidade até a atualidade. Alguns suportes são os mesmos, mas novas formas de usá-los acabam por reinventá-los. Sabemos que, por definição, pintura é a técnica de distribuir pigmentos sobre uma superfície. Consequentemente, essa superfície é o suporte, o apoio, a base que sustentará a obra e sobre a qual serão aplicados pigmentos que produzirão a imagem que o artista quer expressar. Sobre ela se apoiará toda a composição. A escolha do suporte é o início da pro- dução pictórica, que influenciará todas as escolhas seguintes. Daí a importância de se co- nhecer as diversas opções de suporte e suas especificidades, fazendo com que a base esteja de acordo com os materiais e as técnicas a serem utilizadas sobre ela. Esse conhecimento é importante não só para o artista que produzirá uma obra, mas também para o professor que orientará as produções dos alunos e o uso de diferentes materiais, tradicionais e alter- nativos. Entre os suportes pictóricos mais conhecidos, destacaremos os seguintes: parede,madeira, tecido, papel, vidro e corpo. 4.1 Parede Provavelmente, a parede foi um dos primeiros suportes utilizados pelo homem para se expressar visualmente, basta lembrarmos dos registros ru- pestres, que datam de cerca de 35 mil anos. O homem dos primórdios da humanidade aproveitava os recursos naturais – no caso, as paredes de caver- nas e rochas – para fazer inscrições, e esses registros já apresentavam formas elaboradas de representação. Nós, porém, desconhecemos o que existia antes deles, as ori- gens dessas imagens, e como eles devem ter levado vários anos para chegar a esse nível de elaboração (JANSON; JANSON, 1988). Vídeo Artes Visuais: Pintura 60 No Antigo Egito, as paredes dos túmulos eram pintadas com imagens referentes à vida do soberano, conforme ilustra a Figura 1. Te rr yJ La w re nc e/ iS to ck .c om Figura 1 – Pintura mural Fonte: TUMBA de Ramose, necrópole Theban, Luxor, Egito. Na Grécia da Antiguidade Clássica, os palácios e outras construções também de- coravam suas paredes, mas já utilizando uma técnica que continuaria a ser explorada por muitos anos: o afresco. De acordo com as pesquisas locais, os afrescos do Palácio de Cnossos, na ilha de Creta, foram produzidos com admirável rigor técnico, mantendo-se resistentes ao tempo. Os minoicos eram peritos rebocadores e pintores de murais; em certo período, a maioria de suas paredes de interiores, inclusive as das habitações comuns, era de afrescos. As decorações eram modificadas de tempos em tempos (talvez do mesmo modo como mudamos nossos papéis de parede), tornando a superfície do velho afresco áspera e aplicando uma camada de gesso fresco. (MAYER, 1996, p. 399) Os suportes pictóricos 61 se e ab ov e/ W ik im ed ia C om m on s Figura 2 – Afresco de golfinhos Fonte: PALÁCIO de Cnossos, na ilha grega de Creta. Civilização Minoica, Grécia. A técnica de pintar paredes continuou sendo utilizada ao longo da história da arte, ora com mais destaque, ora com menos. Ao chegar à contemporaneidade, a pintura de muros se renovou com a técnica do grafite. Para a realização de uma pintura em parede, faz-se necessário atentar para alguns re- quisitos técnicos. Como é uma pintura que fará parte da edificação, seu planejamento deve ser feito de acordo com o espaço e até mesmo considerando o projeto arquitetônico. Não se pode esquecer também que, se produzida em ambiente externo, a obra ficará ao relento, exposta ao sol e à chuva, portanto o material utilizado deve considerar esse detalhe importante. 4.1.1 Afresco Como o próprio nome diz, a pintura com essa técnica é feita sobre uma parede úmi- da, antes de secar o fundo. Observe um exemplo na figura a seguir. Artes Visuais: Pintura 62 cr ys ta ltm c/ iS to ck .c om Figura 3 – Afresco Fonte: POMPEIA, Itália. De acordo com Vasari (2011, p. 48): “De todas as maneiras como os pintores tra- balham, a pintura mural é a que exige mais maestria, porque consiste em fazer em um só dia aquilo que, em outros tipos de trabalho, pode ser retocado depois de pintado”. A pintura de um afresco consiste em aplicar a tinta sobre a parede (ou teto) imediata- mente preparada com uma argamassa de areia e cal. Com a superfície ainda úmida, o pigmento entranha na argamassa, permitindo a sua durabilidade (MAYER, 1996). Isso justifica o comentário de Vasari, de que a técnica exige rapidez na execução, para que a argamassa não seque, deixando o resultado ineficiente. O desenho pode ser transferido para a parede utilizando moldes em papel no tamanho real da pintura. Assim é possível visualizar o todo e organizar as partes que serão pintadas a cada dia, pois é necessário finalizar a obra antes da secagem da argamassa. Os retoques tam- bém não são recomendados, pois podem deixar manchas na cor (VASARI, 2011). A tinta indicada para o afresco é preparada com pigmentos moídos em água destila- da, até que fiquem bem finos e macios. 4.1.2 Parede seca A técnica do afresco é antiga e apresenta um resultado bem peculiar, mas atualmente as paredes podem ser pintadas com técnicas mais simplificadas, apresentando outros resultados. O afresco secco, por exemplo, é uma técnica antiga, muito similar ao afresco tradi- cional, porém, depois da argamassa seca, a tinta aplicada é preparada com os pigmentos diluídos em um aglutinante, como a caseína ou a gema de ovo. A aplicação do afresco secco foi descrita por Theophilus Presbyter, por volta do século XII, e não se modificou muito desde então (MAYER, 1996). Os suportes pictóricos 63 Outras técnicas de pintura foram desenvolvidas e, atualmente, a parede pode ser pre- parada com massa corrida, que, depois de seca, é pintada com têmpera, tinta acrílica ou PVA. 4.1.3 Grafite A origem do termo grafite é italiana, deriva de graffito, técnica antiga de produzir ins- crições em paredes. Vasari (2011, p. 54) descreveu essa técnica, surgida no Renascimento: Os pintores usam outra espécie de pintura, que é desenho e pintura ao mesmo tem- po; seu nome é esgrafito e só serve para ornamentos de fachadas de casas e palácios, pois sua realização é mais rápida, e sua resistência à água é segura. Os contornos, em vez de serem desenhados com carvão ou outro material semelhante, são traça- dos com um estilete pela mão do pintor. Na contemporaneidade, as inscrições em fachadas são feitas com tinta, normalmente o spray, conforme ilustra a obra dos artistas denominados Os Gêmeos (Figura 4). Ci rc le Ey es /iS to ck .c om Figura 4 – Grafite Fonte: OS GÊMEOS. Manhattan, Nova Iorque. O grafite enquanto arte de rua surgiu por volta de 1970, em Nova Iorque, como for- ma de manifestação urbana, típica das ruas dos subúrbios americanos. Porém, logo a arte das ruas abriu passagem para o grafite entrar em museus e galerias, mantendo seu caráter de protesto e confirmando sua posição de produção artística. Artistas como Jean Michel Basquiat, Keith Haring e os brasileiros Os Gêmeos têm sua produção iniciada no grafite e o reconhecimento do cenário artístico internacional (GRAFFITI, 2017). 4.2 Madeira A madeira é outro suporte pictórico muito utilizado desde a história da pintura antiga. A rigidez do material proporciona segurança e facilida- de no manuseio e transporte. A superfície lisa também permite um efeito Vídeo Artes Visuais: Pintura 64 peculiar da pincelada, diferentemente da pintura em tela. São muitos os tipos de madeira disponíveis, com mais ou menos vantagens, porém todas devem ser preparadas com um fundo específico para receber a pintura, geralmente utilizando o gesso cré. É sempre re- comendado o uso de madeiras de lei, como o mogno ou o carvalho, mas elas têm maior custo. W ik iA rt Fonte: CIMABUE. A Virgem e o filho entronizado com dois anjos. [c. 1280-1285]. Têmpera sobre madeira: 25,7 x 20,5 cm. Galeria Nacional, Londres. Figura 5 – Pintura sobre madeira As placas de madeira são vendidas em diversos formatos e devem ter, no mínimo, 2,5 cm de espessura. Para evitar quebras ou empenar, é necessário reforçar atrás com travessões ou ripas, principalmente se a placa for de grandes proporções. Vejamos outras opções com madeira: • Madeira compensada: é produzida com várias camadas, sendo a de cinco folhas a mais indicada. • Aglomerado: é produzido com lascas de madeira prensadas e coladas. Apresenta a desvantagem de ser muito pesado e não possuir nenhuma resistência à umidade, porém não empena. gesso cré: “Massa de gesso prepa- rada com greda branca, para dar mais resistência à composição” (MICHAELIS, 2019). Os suportes pictóricos 65 • MDF: produzida com polpa de madeira prensada. Seu preço é acessível, mas é apropriada somente para estudos. Essas são sugestões de madeiras mais adequadas, porém, enquanto a prática está em fase de experimentação, nada impede a utilização de suportes alternativos, inclusive para acumular experiência e iniciar os registros de uma pesquisa pessoal sobre materiais. 4.3 Tecido O Oriente sempre explorou o uso do tecido comosuporte de pintura. São conhecidas as pinturas em seda, retratando paisagens regionais. Mas o material tornou-se o mais popular suporte devido à facilidade de ser mani- pulado e transportado; o tecido preparado para ser uma tela de pintura pode ser facilmente enrolado, mesmo após a pintura pronta. 4.3.1 Tela A tela para pintura consiste em um pedaço de tecido esticado em um chassi e pre- parado com um fundo para receber a aplicação da pintura. O tecido adequado para a preparação de uma tela de pintura é aquele com trama fechada. Os mais utilizados são os tecidos de origem natural. O linho, por exemplo, é o mais antigo tecido usado no fabrico de telas, porém custa mais. O algodão também é muito usado, mas é bem inferior ao linho, apesar de ser bem mais barato. Uma boa opção é a lona. Conforme define Mayer (1996, p. 399): “O melhor material para pinturas, entretan- to, é um linho puro, de trama apertada, onde as fibras da trama e da urdidura tenham o mesmo peso e resistência”. Tradicionalmente, o linho é a primeira escolha entre os artistas, como suporte em tecido, por apresentar as características citadas anteriormente. Vídeo Artes Visuais: Pintura 66 W eb G al le ry o f A rt /W ik im ed ia Figura 6 – Pintura sobre tela Fonte: DURER, A. Retrato da jovem Fürleger, com cabelo arru- mado. 1497. Óleo sobre tela: 56,5 x 42,5 cm. Gemäldegalerie, Berlim, Alemanha. É muito importante que o tecido seja bem esticado, uniformemente. Para isso, utiliza-se a ferramenta chamada alicate esticador de tela. Se o tecido não estiver esticado corretamente, criará “barrigas”, prejudicando a apresentação final do trabalho. O chassi é a armação de madeira onde o tecido é esticado e grampeado. Essa peça precisa ser firme, com os ângulos retos, e se for de maiores dimensões, deve ter o apoio de travessões para não envergar. “O lado da régua voltado para o tecido deve ser chanfrado, evitando que este cole no chassi quando o fundo for aplicado. Para esticar o tecido é preciso fazer com que a trama e urdidura estejam paralelas às réguas do chassi” (BARRETO, 2011, p. 43). Es ke m ar /iS to ck .c om Figura 7 – Parte de trás da tela esticada em chassi Os suportes pictóricos 67 Uma forma de esticar o tecido pode ser colocando-o sobre uma mesa e apoiando o chassi por cima (verificando se a trama está paralela), com o lado chanfrado virado para o tecido. O tecido deve ser ao menos oito centímetros maior do que o chassi, em cada lado. Deve-se primeiro puxar e grampear (com grampeador de estofador), na parte de trás das réguas, o meio das laterais, alternando os lados, sempre do meio para as laterais. Em segui- da, grampear perto das pontas, deixando-as por último. Verifique sempre se o tecido está sendo bem esticado. Se a tela estiver bem firme, poderá receber o fundo protetor. 5 1 7 628 3 4 A sequência numérica mostra a ordem para alternar os grampos, estican- do o tecido. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 8 – Sequência para grampear o tecido A tela também pode ser esticada ou colada sobre um painel de madeira. Se for ape- nas esticada no painel, pode ser retirada posteriormente, mas o processo de esticar é o mesmo que o do chassi. 4.4 Papel Segundo Asunción (2002), esse suporte tão comumente utilizado para os mais variados fins tem sua história iniciada na China, por volta de 105 d.C. Seus antecedentes foram o papiro e o pergaminho. “Chamamos papel àquela folha delgada que se obtém a partir da união física de materiais fibrosos, prin- cipalmente celulose, previamente hidratados” (ASUNCIÓN, 2002, p. 20). O papel de melhor qualidade é o produzido artesanalmente, com fibras de linho, mas atualmente há muitas marcas de papéis produzidas industrialmente, com qualidade, inclusive os de fibra de algodão. Os melhores apresentam uma marca d’água ou um relevo com o nome do fabricante. Vídeo Artes Visuais: Pintura 68 W ik iA rt A aquarela pode ser produzida em outros suportes, como o tecido, mas o papel é o suporte mais comum, como podemos observar na pintura da impressionista Berthe Morisot. Figura 9 – Pintura sobre papel Fonte: MORISOT, B. Barcos (Entrada da Midina à Ilha de Wight). 1875. Aquarela sobre papel: 19 x 17,4 cm. Museu Fogg (Harvard Art Museums), Cambridge, EUA. Existem diversas classificações, de acordo com as principais características do papel: • Dimensão: é o tamanho – A4, ofício, carta etc. • Gramatura: define o tipo de papel (cartolina, cartão etc.) – 90g, 120g etc. • Cor: cinza, ocre, turmalina etc. • Texturas: lisas, rugosas, teladas etc. Cada técnica de pintura é adequada a determinado tipo de papel, considerando essas e outras características, além da necessidade do artista. O papel só não é adequado como suporte para pinturas com tinta a óleo. 4.4.1 Papelão Existem vários tipos de papelão, mas os mais adequados para técnicas de pintura são o cartão Paraná e o papelão couro. Fabricados com polpa de celulose de baixa qualidade ou Os suportes pictóricos 69 a partir de papéis reciclados, o papelão é barato, portanto adequado para estudos e experi- mentos, mas é necessário um tratamento de fundo para se adequar às técnicas (BARRETO, 2011). O papelão couro, entre os dois, possui mais resistência. 4.5 Vidro Atualmente existem muitas formas de pintura em vidro, inclusive, há tin- tas próprias para essa técnica, facilitando o trabalho do aplique e da secagem. Mas antigamente a técnica era muito mais complexa, exigindo um preparo es- pecífico para sua produção. Conforme Vasari (2011, p. 60): “No princípio, as ja- nelas eram simplesmente feitas de vidros redondos ou quadrados, transparentes, com cantos brancos ou coloridos, mas depois os artistas imaginaram a feitura de um mosaico com figuras, usando vidros de diversos coloridos e encaixados como em pintura”. A técnica da pintura vitral ganhou grande importância ao longo dos anos, permi- tindo o aparecimento de novas formas de executá-la. Desse modo, os vidros das janelas também se tornaram um suporte adequado às pinturas com cores nítidas e composições complexas, como observado na figura a seguir. bp pe rr y/ iS to ck .c om Figura 10 – Pintura vitral Fonte: Anunciação à Virgem Maria. Catedral de Sevilha. Um vitral é uma armação de chumbo que sustenta uma composição de vidros colo- ridos no espaço de uma janela. Segundo Vasari (2011), inicialmente, sua função era apenas arejar o ambiente de forma protegida, permitindo a entrada da luz. Com o desenvolvimento Vídeo Artes Visuais: Pintura 70 da técnica, os artistas passaram a produzir composições figurativas elaboradas. Durante o Renascimento, algumas produções dessa técnica atingiram altos níveis de composições pictóricas, com representações narrativas ricas em temas e no uso das cores. 4.6 Corpo A utilização do corpo como suporte pictórico sempre foi uma prática dos indígenas brasileiros e de grupos aborígenes, com uma pintura corpo- ral rica em grafismos e significados. O uso de tatuagens também faz parte da antiguidade da história do ser humano. Mas é no século XX que o uso do corpo como suporte artístico toma impulso com variadas formas de ex- pressão. A brasileira Lygia Clark foi uma das artistas que investigou em diversas de suas produções o uso do corpo na arte (DOMINGUES, 2003). fil ip ef ra za o/ iS to ck .c om Figura 11 – Pintura corporal indígena De acordo com a Enciclopédia Itaú Cultural (2017, grifos nossos) “body art, ou arte do corpo, designa uma vertente da arte contemporânea que toma o corpo como meio de expressão e/ou matéria para a realização dos trabalhos, associando-se frequentemente a happening e performance”. Marcas, incisões, queimaduras, fazem parte das manifestações da body art, que mostra não haver limites para a expressão da arte contemporânea. Na aula de Arte Em tempos de extrema importância da consciência ecológica, a arte é um instrumento fundamental para manter acesa essa chama. Portan- to, que tal propor uma pesquisa de suportes pictóricosalternativos? Es- Vídeo Os suportes pictóricos 71 timule a criatividade, com uma tempestade de ideias sobre os objetos que poderiam servir de superfície para uma composição de pintura. O objetivo é brincar com possibilidades, abrindo horizontes da criativida- de. Destaque que o formato não precisa ser o convencional, nem plano. Converse com os alunos a respeito da reciclagem e dê algumas ideias, como tampas, bandejas, pedaços de rodapé, objetos cotidianos, bol- sas, garrafas etc. A atividade pode terminar com um projeto por escrito com esboço ou avançar para a produção. Solicite que os discentes des- crevam qual será o suporte e como seria a produção pictórica. Se for possível partir para a prática, oriente na preparação do fundo que será pintado, na escolha de materiais e técnicas. Outra proposta seria pro- duzir pinturas somente em suportes naturais: pedras, cascas, folhas, entre outros. Considerações finais Desde o início da sua história, o ser humano busca novas formas de expressão, pesquisando e experimentando materiais. Todos os suportes que vimos neste capítulo são utilizados na arte há muitos anos, mas a forma de explorá-los sempre se renova, a partir de desafios e do desenvolvimento de tecnologias, movidos por protestos e pelo surgimento de outras necessidades. Como a arte é uma busca incessante por melhores formas de expressão, sempre ha- verá um suporte a ser redescoberto ou revisitado. O profissional que trabalha com arte deve estar sempre atento a essas novas possibilidades de espaços nos quais possa apoiar diferentes formas de expressão. Ampliando seus conhecimentos • AGONIA e êxtase. Direção de Carol Reed. Elenco: Charlton Heston, Rex Harrison, Diane Cilento. EUA, 1965 (2h18min). O filme mostra as diversas dificuldades de Michelangelo ao longo dos quatro anos em que pintou os afrescos da Capela Sistina, em Roma. Vale a pena observar o processo prático do trabalho, a técnica de transferir os esboços para a parede e a dificuldade física de pintar o teto deitado em um andaime. • OS GÊMEOS. Disponível em: http://www.osgemeos.com.br/pt. Acesso em: 21 fev. 2019. A página oficial dos artistas Os Gêmeos apresenta cronologicamente suas produ- ções, que extrapolam os suportes pictóricos mais conhecidos, como ônibus, metrô e outros espaços, que recebem as cores e os traços dos brasileiros. Atividades 1. Entre os suportes apresentados, qual deles é amplamente explorado na arte contem- porânea em produções relacionadas a performances? 2. Em qual suporte convencional se expressa a linguagem do grafite? 3. Pesquise e proponha a utilização de um suporte alternativo para uma produção pictórica ou o uso alternativo para um suporte tradicional. Descreva sua ideia. Referências ASUNCIÓN, J. O papel, técnicas e métodos tradicionais de fabrico. Editorial Estampa: Lisboa, 2002. BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. BODY art. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3177/body-art. Acesso em: 29 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. DOMINGUES, D. Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e criatividade. São Paulo: Editora UNESP, 2003. GRAFFITI. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3180/graffiti. Acesso em: 29 jan. 2019. Verbete da Enciclopédia. JANSON, H. W.; JANSON, A. F. Iniciação à História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1988. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 4. ed. Melhoramentos, 2019. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/. Acesso em: 26 fev. 2019. VASARI, G. Vida dos artistas. São Paulo: Martins Fontes, 2011. Pincéis e outros instrumentos No corpo humano, usa-se o suco do fruto do jenipapo verde, tinta vegetal, e os pincéis são a haste de uma leguminosa, uma lasca de palha de babaçu, os dedos ou o talinho encapado de algodão (VIDAL, 2000, p. 232). Na página anterior: ChamilleWhite/iStock.com Pincéis e outros instrumentos 75 De acordo com as pesquisas feitas em sítios arqueológicos, as primeiras pinturas produzidas pelo ser humano foram feitas com as mãos (Figura 1), os dedos, ou utilizando gravetos e outros objetos da natureza (MAYER, 1996). O uso dessas ferramentas ultrapassou o tempo, e elas continuam sendo exploradas na produção de pinturas da atualidade, mesmo que de outras formas e em outros suportes. O avanço da tecnologia possibilitou a criação de novos meios para a expressão artís- tica. Muitos materiais tradicionais foram adaptados ou reformulados para facilitar o tra- balho do profissional. Atualmente, a variedade de opções de instrumentos de trabalho é grande, portanto, conhecê-los possibilita maior aproveitamento da técnica em benefício de melhor expressividade na relação entre artista, obra e espectador. Bu en av en tu ra m ar ia no /iS to ck .c om Fonte: CAVERNA das Mãos. Pinturas de aproximadamente 9.000 a.C. Argentina. Figura 1 – Pintura rupestre representando mãos Que criança não gosta de pintar as mãos com tinta e sair carimbando por onde pas- sa? Aliás, essa é uma atividade divertidíssima, quando realizada com roupas e em ambiente adequados! E você, já experimentou molhar a ponta do dedo na tinta e fazer marcas em um papel? Experimente, mesmo que sejam desenhos simples, formas básicas. Observe que o traçado com os dedos tem uma naturalidade que é diferente de quando você rabisca com o lápis ou o pincel. É essa naturalidade que deve ser estimulada e trabalhada nas aulas de Artes, para que, posteriormente, cada um possa escolher seus instrumentos de trabalho preferidos e os que melhor expressem suas ideias. Para isso, é importante conhecer todas as opções disponíveis, entre instrumentos tradicionais e alternativos, o que possibilita tam- bém aprender a produzir instrumentos próprios. Assim, é possível personalizar a própria produção, atingindo os objetivos desejados, e agir de forma ecológica e sustentável. Artes Visuais: Pintura 76 Se as mãos foram instrumentos de nossos antepassados e as temos à disposição, é interessante experimentar e explorar a manipulação de tintas com os dedos em uma pro- dução pictórica. Na aula de Arte Para a criança, não só é importante a manipulação de tintas como é a maneira mais espontânea de manifestação, pois utiliza o próprio corpo, sem serem necessários outros instrumentos. É muito simples propor pintura com as mãos para crianças. Se for possível, deixe que pintem as próprias mãos e carimbem em papéis no chão. Com os adolescentes, é possível facilitar uma forma de expressão pictórica utilizando os dedos. Cada um pode escolher uma marca grá- fica para espalhar por vários cartazes. Oriente a criação da marca, para que tenha, no máximo, o tamanho de um palmo. Dê sugestões para a simplificação das formas de objetos, animais, letras etc. É interessante que brinquem um pouco com a própria marca, experimentando cores e fazendo-as repetidas vezes, para se acostumarem ao traçado. Os carta- zes podem ser folhas de tamanho grande em papel kraft ou cartolinas, que podem ficar expostas em corredores, nas paredes da sala ou em muros externos. Ao comando do professor, cada um deve escolher sua cor de tinta e registrar nos cartazes a sua marca, idealizada e rascunha- da previamente. Depois de preenchidos, os cartazes podem ser expos- tos, separados ou em conjunto, criando uma composição. Nas próximas seções deste capítulo, serão apresentados alguns instrumentos utiliza- dos para a produção de obras pictóricas. 5.1 Instrumentos naturais Além de utilizar as mãos para espalhar tinta em grandes áreas, os indí- genas brasileiros fazem uso de diferentes instrumentos, a fim de obter varia- dos tipos de linhas nas pinturas. AFigura 2 ilustra esse costume. Vídeo Pincéis e outros instrumentos 77 Figura 2 – Indígena tupi-guarani pintando o rosto fil ip ef ra za o/ iS to ck .c om A utilização de materiais e instrumentos varia de acordo com cada tribo, assim como os suportes, que podem ser: o corpo, objetos utilitários (como cabaças, cerâmicas ou armas) ou, mais recentemente, o papel. Muitas tribos utilizam os dedos para pintar ou fazem uso de “pincéis” naturais, tais como hastes de leguminosas e lascas de taquara ou de palha de baba- çu. Conforme explica Vidal (2000, p. 98): O corpo, untado com óleo de babaçu, recebe as grandes listras e os detalhes em preto que lhe são impostos com a ajuda de uma espátula de taquara, de carimbos esculpidos em pedaços de miolo da tora de buriti ou feitos de pequenas pontas de cabaça ou de um talo miúdo da folha do buriti, conforme o padrão desejado. O indígena busca na natureza o instrumento adequado ao tipo de pintura que dese- ja. Para produzir linhas mais grossas, utilizam os dedos, por exemplo. Se quiserem linhas mais finas, buscam hastes de vegetais que sejam finas, mas firmes e maleáveis. Outro ins- trumento muito utilizado é produzido com uma haste ou um bambu e um chumaço de algodão em uma das extremidades, permitindo a pintura de linhas mais grossas. Esses são exemplos de como os professores podem buscar materiais alternativos para a realização de pinturas, estimulando a pesquisa de novas possibilidades junto aos alunos. 5.2 Pincéis Como a pintura sempre foi uma atividade de expressão produzida pelo ser humano, a evolução de materiais para essa técnica foi acompanhando a evolução humana. Vídeo Artes Visuais: Pintura 78 “Pincel é um instrumento (ou utensílio) que tem a função de levar a tinta ao suporte, imprimindo o gesto e a ação do pintor” (BARRETO, 2011, p. 50, grifo nosso). O pincel tornou-se uma das mais antigas ferramentas de pintura, consistindo em um cabo com um tufo de pelos presos em uma das extremidades. A parte metálica que prende os pelos no cabo dos pincéis convencionais é chamada de virola. “Virola: aro de metal, para apertar ou reforçar um objeto, que serve algumas vezes de ornamento” (MICHAELIS, 2019). O pincel, portanto, é formado por três partes: cabo, virola e cerdas ou pelos. ge or ge 73 3/ iS to ck .c om Cerdas ou pelos Cabo Virola Figura 3 – Partes de um pincel Ao escolher os pincéis para trabalhar, deve-se considerar o tamanho do suporte, a técnica escolhida e se as características gerais do instrumento são adequadas, como vere- mos a seguir. 5.2.1 Características dos pincéis Cada tipo de pintura exige um tipo específico de pincel, que varia de acordo com a necessidade do artista e os efeitos pictóricos que deseja reproduzir. Veremos alguns tipos, porém a variedade atualmente é muito grande, permitindo muitas possibilidades de efeitos. Os cabos dos pincéis podem ser de madeira ou plástico e variam de tamanho e es- pessura, podendo ser longos ou curtos, finos ou grossos. Cada tamanho adéqua-se melhor a um gesto específico que o artista produzirá sobre o suporte. Os pincéis de cabo longo são mais adequados para os trabalhos realizados no chão ou em cavaletes. Para trabalhos em prancheta, são mais indicados os de cabo curto. Além do tamanho do cabo, o formato dos pelos ou cerdas também varia, podendo ser chatos ou redondos. Os pelos dos pincéis chatos são presos na virola de forma achatada, Pincéis e outros instrumentos 79 produzindo uma pincelada larga, e podem ser quadrados, em leque ou arredondados nas pontas (chamado de língua de gato); já os pincéis redondos têm a virola fechada em forma circular ao prender os pelos. A seguir, são reproduzidas imagens que exemplificam os diferentes formatos de pincéis. G eo rg e7 33 /iS to ck .c om Figura 5 – Pincéis redondos Ev ge ni y Sk rip ni ch en ko /iS to ck .c om Figura 4 – Pincéis chatos As cerdas dos pincéis podem ser naturais ou sintéticas, e o seu uso também deve va- riar de acordo com as tintas e os suportes a serem utilizados. As cerdas naturais podem ser feitas de cabelos ou pelos de animais, como a marta, o camelo, o boi ou o porco. Há ainda as chamadas trinchas, que são pincéis chatos e quadrados, conforme apre- sentado na Figura 6, e são os mais indicados para aplicar bases em superfícies grandes. Artes Visuais: Pintura 80 v_ za its ev /iS to ck .c om Figura 6 – Trinchas de variados tamanhos Ao serem comprados, os pincéis geralmente vêm com as cerdas duras, devido a uma camada de goma para proteção. Os mais comuns possuem uma classificação numérica que varia, aproximadamente, de 00 a 30, de acordo com essas características gerais que vimos anteriormente, como os tamanhos das cerdas: quanto maior a numeração, maior será o tamanho das cerdas. Mas alguns fabricantes podem classificá-los em séries especiais de qualidade diferenciada. Há também os pincéis orientais. Eles geralmente são artesanais, possuem o cabo feito de bambu ou cana e as cerdas variam muito, mas geralmente são feitas com pelos de animais, como ovelha, cabra, carneiro ou cavalo. Há um cuidado especial também na montagem das cerdas, que devem ser de um tamanho ideal, sem nenhum fio fora do lugar. Observe a imagem a seguir. be e3 2/ iS to ck .c om Figura 7 – Pintura com pincel oriental Esse tipo de pincel é produzido especificamente para o uso na arte oriental, com tin- tas orientais e técnicas de aguadas, por isso nem sempre é adequado às práticas ocidentais. Pincéis e outros instrumentos 81 5.2.2 Limpeza de pincéis O pincel deve ser limpo imediatamente após ter sido utilizado, caso contrário, suas cerdas podem se danificar. Não deve ficar de molho e, após limpo, precisa ser secado em pano limpo e guardado com as cerdas viradas para cima. Para a limpeza, se a tinta utilizada for à base de água, basta tirar o excesso em água corrente e fazer uma espuma com sabão de coco na palma da mão para esfregar delicadamente as cerdas e lavar a virola. A forma mais adequada de limpar quando a tinta for à base de óleo é com solvente. O ideal é utili- zar dois vidros com tampa: um com solvente, para tirar o excesso de tinta do pincel (que ficará logo sujo), e outro com um solvente para finalizar a limpeza (que ficará menos sujo e tirará toda a tinta do pincel). Quando o solvente sair limpo, deve-se repetir o processo de lavagem com sabão de coco. 5.3 Paleta Os indígenas brasileiros utilizam a palma da mão, cascas e folhagens como superfície para misturar os pigmentos naturais antes de aplicá-los no suporte pictórico. Essas superfícies fazem o papel de paletas de pintura. “Paletas: qualquer placa de madeira, fórmica ou outro material impermeável onde se mistura a tinta à óleo, acrílica etc.” (BARRETO, 2011, p. 53). A paleta, portanto, é a superfície na qual os pintores colocam um pouco das tin- tas que usarão e onde podem produzir suas misturas. Na paleta tradicional, as tintas são colocadas nas bordas, e o meio da paleta destina-se às misturas de cores, como po- demos observar na Figura 8. Geralmente, o pintor guia-se pela ordem do círculo cromático para dispor as cores na paleta, assim, visualiza mais rapidamente as combinações entre elas. Existem muitos tipos de paletas. A mais antiga é a de madeira, de forma oval, com um orifício onde se pode encaixar o polegar, para que o pintor consiga apoiá-la em uma Vídeo RT im ag es /iS to ck .c om Figura 8 – Paleta com tintas Artes Visuais: Pintura 82 das mãos e acessar facilmente a tinta. Mas outros modelos surgiram com passar dos anos. O formato também variou, surgindo modelos retangulares. A cor da madeira foi substituí- da pelo branco por alguns artistas, devido à semelhança com o fundo da tela e à facilidade de visualização das cores. Atualmente existe a paleta descartável: um bloco de papéis impermeáveis que dis- pensam o trabalho de limpeza, já que a paleta deve estar sempre limpa, para que restos de tinta não interfiram nas novas cores. Paratécnicas de aquarela, geralmente são utilizadas paletas de porcelana com divisó- rias, para que as aguadas não se misturem. Um prato pode transformar-se em uma eficiente paleta. Potes de vidro ou latas que seriam descartados após o uso também servem para misturas de tintas, mas se for reutilizar a paleta improvisada, é importante limpá-la, para não sujar as tintas seguintes. O importante é escolher a própria paleta de forma que ela seja adequada aos materiais e às técnicas que serão utilizadas, para uma melhor organização do trabalho. A paleta tornou-se um símbolo da pintura. Em termos artísticos, também se pode referir às cores de preferência de um determinado pintor como sua paleta, como a paleta de Monet ou a paleta de Degas. 5.4 Godê O godê é um recipiente próprio para preparar tintas, misturar ou di- luir. Na técnica da aquarela ou guache, costuma-se usar godês em formato de paletas, pois é possível manipular as tintas mais aguadas sem o risco de escorrer ou misturá-las sem querer. Observe a figura a seguir. G O LF X/ iS to ck .c om Figura 9 – Godê próprio para aquarela ou guache Vídeo Pincéis e outros instrumentos 83 Na técnica da pintura a óleo, os godês vêm em formato de latinhas que se encaixam na paleta, contendo geralmente solventes e diluentes (que veremos posteriormente). Como a tinta é misturada na paleta, o pintor pode molhar o pincel no solvente ou diluente e, logo em seguida, umedecer a tinta que usará. A escolha do tipo de godês, assim como a paleta, deve estar adequada à forma de trabalho do artista. Latas, vidros e outros recipientes também podem ser utilizados como godês, considerando o tipo de material, pois para o uso de solventes, por exemplo, é mais indicado armazenar em vidros ou latas. Figura 10 – Paleta com godês para solventes O le g Vi nn ic he nk o/ Sh ut te rs to ck 5.5 Espátulas Segundo a definição do Dicionário Michaelis (2019), espá- tula é um “utensílio semelhante a uma faca sem gume, com lâmina larga, flexível, comumente de me- tal, usado para espalmar ou misturar substâncias moles, como tintas, pastas, produtos farmacêuti- cos etc., e para mexer, misturar e/ou levantar pre- parados alimentares”. Como as possibilidades para o uso das espátulas em pintura são muitas, elas tornam-se ferramentas importantes em um ateliê, pois podem ser utilizadas em variados momentos. A figura a seguir mostra alguns dos diferentes ti- pos de espátulas existentes. Vídeo Ku zm ik _A /iS to ck .c om Figura 11 – Conjunto de espátulas pró- prias para pintura Artes Visuais: Pintura 84 Basicamente, na movimentação das tintas e nas misturas, muitas vezes a espátula é mais eficiente do que o pincel, princi- palmente no que se refere à tinta a óleo. Na aplicação de massas de base nos suportes pictóricos, a espátula mais utilizada é de formato retangular, para áreas maiores, encontrada facilmente em lojas de ferragens. Elas apresentam menor flexibilidade e maior resistência do que as espátulas para uso em telas, observe a Figura 12. O uso da espátula vai além e pode servir como pincel, aplicando ou raspando a tinta no suporte, por meio da utili- zação de modelos próprios para pintura, como define Mayer (1996, p. 601): Com lâminas finas, delicadas e muito sensíveis, às vezes soldadas em cabos longos, usadas para pintura direta – para a aplicação e manipulação da tinta na tela. São fabricadas numa profusão de formatos, estilos e tamanhos; devem, em razão da sua fragilidade, ser muito bem cuidadas. A história não registra uso muito difundido destes instrumentos antes da metade ou do final do século XIX. Com as espátulas de pintura, a tinta empastada pode também ser aplicada diretamente no suporte, criando uma textura tátil na pintura. Outra forma de criar textura com a espátula é aplicar uma camada de massa no suporte, para depois da secagem iniciar a pintura. 5.6 Rolos de pintura Os rolinhos de pintura podem ser encontrados facilmente em papelarias ou lojas de ferragens e são ótimas ferramentas não só para cobrir uniformemente grandes áreas dos suportes, mas também para pro- duzir texturas que possibilitem composições bastante cria- tivas. Convém verificar se o tipo de rolo e a tinta que será utilizada são compatíveis. Os de espuma, por exemplo, como o retratado a seguir, são mais adequados para tinta à base de água. Os rolos de espuma costumam ser de valor econô- mico acessível e, como há diversos tamanhos, é fácil ma- nipulá-los em trabalhos de pequeno ou grande porte. Figura 12 – Espátula tipo raspador aj t/ iS to ck .c om Vídeo ph ot os 77 7/ iS to ck .c om Figura 13 – Rolo de pintura Pincéis e outros instrumentos 85 5.7 Aerografia Provavelmente foi essa a técnica utilizada nas pinturas encontradas na Caverna das Mãos, cuja imagem foi apresentamos no início do capítulo. Segundo Mayer (1996, p. 601): “A ideia de pulverizar ou borrifar tinta numa superfície foi pela primeira vez posta em prática pelos antigos pintores das cavernas que sopravam líquidos através de caniços”. Graças ao avanço tecnológico, essa técnica de tinta borrifada pode ser produzida com auxílio de aparelhos e outros instrumentos, conforme ilustra a Figura 14, que facili- tam o processo e o tornam menos nocivo à saúde. H er ra ez /iS to ck .c om Figura 14 – Aerógrafo Aerógrafos, tinta spray e até borrifadores de plantas podem ser utilizados para conse- guir efeitos diferenciados em pintura. A técnica de aerografia, que consiste na pintura por meio de um pulverizador (aerógrafo), tem se modernizado cada vez mais, com aparelhos e tintas adequados a variados tipos de suportes, inclusive ao corpo. Na aula de Arte Conhecer os instrumentos disponíveis para realizar uma pintura é também uma forma de experimentar novas possibilidades de se expres- sar. Portanto, sempre que possível, é interessante apresentar os mate- riais e técnicas aos alunos; mas o mais importante do trabalho do artista é a pesquisa permanente e a descoberta de novos meios expressivos, pois é assim que arte evolui e se transforma. Após conhecer a expressão por meio do instrumento de pintura mais antigo – as mãos –, podemos explorar o mais tradicional: o pincel. Como, provavelmente, todos co- Vídeo Artes Visuais: Pintura 86 nhecem o pincel tradicional, apresente-o aos alunos com suas variadas características, se possível mostrando cada um deles e o resultado da pincelada, de acordo com seu formato. Se for possível todos experimen- tarem essa variedade, traçando linhas, o aprendizado será ainda mais rico. Após essa exploração do instrumento, proponha uma pesquisa so- bre materiais alternativos que poderiam atuar como pincel. Apresente os instrumentos de pintura indígena e promova uma discussão que gere sugestões para a fabricação de pincéis alternativos. A construção pode ser individual ou em grupo. Oriente os projetos e a escolha de materiais. Considerações finais Muitos podem ser os instrumentos utilizados por um artista durante o processo de sua produção. Com certeza existem outros materiais além dos que foram citados aqui, sendo que alguns nem precisamos destacar, pois sua necessidade é clara, como os panos e materiais de limpeza, mesas, aventais, jornal velho, recipientes variados etc. Conhecer os instrumentos de trabalho convencionais e a prática de outros profissionais facilitará o pro- cesso para o domínio de técnicas e ampliará a visão de praticidade no espaço de trabalho. Cada um, ao longo de sua trajetória, vai descobrindo e criando novos meios, ferramentas e instrumentos para facilitar as suas formas de expressão. Ampliando seus conhecimentos • MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. O livro Manual do artista é o que há de mais completo para quem quer se aprofundar em técnicas e materiais artísticos. Aborda também a evolução das técnicas ao longo da história. Sugerimos sua leitura como complemento aos estudos deste capítulo. • AEROGRAFIA. Disponívelem: http://www.aerografia.com/index.html. Acesso em: 11 fev. 2019. Outra leitura complementar interessante é o site aerografia.com, que apresenta inúmeras informações sobre o uso da técnica de pintura com aerógrafo nos mais diversos suportes, além de abordar um pouco da história desse equipamento. Pincéis e outros instrumentos 87 Atividades 1. Qual instrumento de pintura poderia ser selecionado para realizar uma produção pictórica com textura tátil e raspagens da tela? Justifique a escolha. 2. Pesquise e elabore a construção de um pincel com materiais alternativos, definin- do do que serão compostas cada uma das suas três partes básicas, e explicando sua montagem. 3. No que consiste a técnica da aerografia? Referências BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Melhoramentos, 2019. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/. Acesso em: 7 fev. 2019. VIDAL, L. (org.). Grafismo indígena, estudos de antropologia estética. 2. ed. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP: Editora da Universidade de São Paulo, 2000. O preparo da tinta: pigmentos As tintas vegetais têm como fixadores a seiva de maçaranduba ou do ingá-do-mato e são confeccionadas a partir do urucum, que fornece o tom vermelho, do jenipapo e da fuligem, que for- necem a cor negra. (VIDAL, 2000, p. 60) Na página anterior: OttoKrause/iStock.com O preparo da tinta: pigmentos 91 Nos primórdios da humanidade, quando sentia a necessidade de se expressar gra- ficamente, o ser humano produzia suas próprias tintas com pigmentos extraídos direta- mente da natureza. Foi assim que começou a pesquisa sobre quais substâncias naturais poderiam produzir cores. Mas como eram feitas essas tintas? O que era misturado a elas para produzir tintas que duravam séculos, até serem descobertas por civilizações recentes? Quais são os ele- mentos necessários para a produção de uma tinta de qualidade, com perfeita adesão ao suporte, duradoura e de consistência adequada? Vejamos um pouco dessa extensa história que existe por trás de pigmentos que hoje colorem obras de arte consagradas. Vamos tentar responder a todas as questões levantadas, retomando a história desde o início. Os seres humanos que deixaram seus registros nas paredes das cavernas foram os primeiros investigadores das substâncias existentes na natureza que servem como pigmen- tos. Esses pigmentos são matérias coloridas, cuja origem pode ser animal, vegetal ou mi- neral, como veremos mais detalhadamente a seguir. Em termos artísticos, pigmento é um pó fino que confere cor ao ser misturado com outro material (BARRETO, 2011). Os pigmentos eram misturados com outras substâncias na- turais para serem transformados em tinta. Então, podemos definir tinta como sendo a “mistura de pigmentos (cores em pó) com um líquido que lhes serve de veículo” (MAYER, 1996, p. 5). Da n Br ad y/ W ik im ed ia C om m on s Pigmentos para venda na tenda do mercado, em Goa, Índia. Figura 1 – Pigmentos em pó de várias cores Artes Visuais: Pintura 92 De acordo com Mayer (1996), há algumas exigências básicas para avaliar um bom pigmento, destacamos as seguintes: • ser macio e finamente dividido; • não se dissolver no líquido, permanecendo disperso ou suspenso (o que se dissol- ve é corante); • manter grau adequado de opacidade ou transparência; • apresentar resistência à luz e ao meio, não alterando sua cor e qualidade. Os pigmentos podem ser classificados de muitas formas, mas de acordo com sua origem, geralmente, são divididos em orgânicos e inorgânicos, conforme Quadro 1. Quadro 1 – Classificação dos pigmentos Orgânicos Inorgânicos Vegetais: açafrão, índigo, rúbia, garança etc. Minerais: terras naturais, ocres, sienas, sombras. Animais: cochonilla, amarelo indiano, sépia etc. Minerais calcinados: terras queimadas, preto de óxido de ferro etc. Orgânicos sintéticos: vermelho de naftol, quinaqui- dronas, ftalocianinas etc. Cores sintéticas inorgânicas: cádmio, óxido de zin- co, azul cobalto etc. Fonte: Elaborado pela autora. A engenharia química é uma área muito importante no que diz respeito a manipular pigmentos e transformá-los em tintas de cores cada vez mais interessantes, de qualidade e sem toxidade, evitando danos à saúde. 6.1 Aglutinantes, solventes e conservantes Para que uma tinta adquira características adequadas, é necessário que o pigmento seja misturado com uma ou mais substâncias, muitas vezes le- vando em consideração o suporte no qual será aplicada. Essas substâncias podem ser aglutinantes, solventes e conservantes. 6.1.1 Aglutinantes Como o próprio nome diz, aglutinam, unem o pigmento em pó ao suporte. Podem ser de origem animal (colas, ovos, cera de abelha), vegetal (gomas, óleos, ceras vegetais) ou sintética (PVA). Vejamos alguns exemplos de aglutinantes (MAYER, 1996): • Colas: produzidas com peles, ossos ou cartilagens de animais, como uma gelatina. Por exemplo: cola de coelho. • Cola de amido: a pasta é feita misturando farinha ou fécula com água. Vídeo O preparo da tinta: pigmentos 93 • Ceras: podem ser animais, vegetais ou derivadas de petróleo (parafina). Devem ser derretidas com mui- to cuidado, em banho-maria. Por exemplo: cera de abelha (amarela ou branca), cera de carnaúba, cera de inseto chinesa, parafina. A Figura 2 representa a palmeira brasileira, de cujas folhas é extraída a cera de carnaúba. Figura 2 – Palmeira brasileira nb ria m /iS to ck .c om • Gomas: seivas de árvores e arbustos, solúveis em água. Por exemplo: goma arábica, resina extraída das acácias. G ix ie /W ik im ed ia C om m on s Figura 3 – Goma arábica • Óleos: os mais utilizados são os de linhaça e papoula. O óleo de linhaça é muito utilizado na técnica de pin- tura a óleo. ba ib az /iS to ck .c om Figura 4 – Óleo e sementes de linhaça Artes Visuais: Pintura 94 • Caseína: feita com a coalhada de leite desnatado misturado com ácido clorídrico ou sulfúrico. Depois de seca, o resultado é um pó granulado não solúvel em água, devendo ser misturado com amônia. 6.1.2 Solventes e diluentes Os solventes e diluentes são líquidos que dissolvem substâncias e se misturam aos aglutinantes. Podem ser utilizados como solventes: água potável, álcool etílico, querosene, tíner, benzina, terebintina ou aguarrás (que já existe em versão inodora), mas alguns desses materiais exigem manipulação muito cuidadosa e uso de máscaras, pois não devem ser inalados e podem ser inflamáveis. Cada tipo de tinta exige um solvente e diluente adequados. Veremos com mais deta- lhes quando falarmos de cada técnica de pintura especificamente. 6.1.3 Conservantes Os conservantes e fungicidas são importantes para a conservação da tinta, de manei- ra que algumas substâncias utilizadas não se decomponham devido a mofo ou bactérias. Podem ser utilizados: óleo de cravo ou betanaftol. Para uso por crianças, é mais indicado o própolis, a solução de formol a 10% ou o vinagre de vinho branco (BARRETO, 2011). 6.2 Pigmentos naturais Vamos refletir sobre quantos elementos do nosso dia a dia podem dei- xar marcas coloridas. Uma beterraba na salada deixa tudo que a toque na cor rosa! Brincar em poças de lama ou terra úmida pode ser divertido, mas tudo ficará na cor de barro depois... e pode ser barro vermelho, marrom ou um tanto ocre. Foi com essa busca por elementos naturais que produzem cor que se iniciou, nos pri- mórdios da humanidade, a história dos pigmentos. Muitos deles foram descobertos nessa época e ainda são utilizados, como o preto de osso. Os indígenas brasileiros também são grandes exploradores de pigmentos naturais e suas diferentes formas de uso, variando as aplicações de acordo com cada tribo. Veremos a seguir algumas das principais fontes para produzir tintas e algumas formas de obtê-las (VIDAL,2000). Vídeo O preparo da tinta: pigmentos 95 • Carvão: pode ser misturado ao pau-de-leite e aplicado sobre o corpo coberto com óleo de babaçu, formando desenhos ou cobrindo partes inteiras. “Pau-de-leite: árvore lactescente (Brosimum galactodendron), da família das moráceas, nativa da América do Sul, com folhas rígidas e frutos arredondados, apreciada pela seiva, que pode ser utilizada como leite; árvore-de-leite” (MICHAELIS, 2019). Bu riy /iS to ck .c om Figura 5 – Carvão • Urucum: sua pintura tem duração de um ou dois dias, sendo um pigmento menos resistente ao tempo do que o do jenipapo. Pode ser utilizado de diversas formas: amassando e esfregando nas mãos as sementes para espalhar pelo corpo; fervido por longo tempo; com as sementes misturadas em óleo extraído pela mastigação do coquinho de babaçu; ou, ainda, espremendo as sementes em uma panela e mis- turando-as com gordura (de macaco ou anta) ou óleo de andiroba. H ya go X av ie r T ei xe ira /iS to ck .c om Figura 6 – Urucum • Jenipapo: é um produto de grande importância para o povo indígena. O fruto é ralado e a massa é espremida, o líquido resultante é colocado ao sol e escurece aos Artes Visuais: Pintura 96 poucos. Quando está verde, é amassado e colocado nas cinzas de uma fogueira, para depois ser ralado. ja bo tic ab a/ iS to ck .c om Figura 7 – Jenipapo • Resinas: as misturas com resinas dão odor às tintas. São utilizadas com misturas de urucum, resinas cheirosas (como o patchuli) e óleo de andiroba. • Ingá: a tinta preta é produzida para pintura em cerâmica e deve ser aplicada na peça ainda quente. A entrecasca do ingazeiro é ralada, e a massa é misturada com água. • Pedras (óxido de ferro): servem também para pinturas em cerâmica. Pedras en- contradas no solo, nas cores amarelo, vermelho e preto, são esfregadas em uma pedra maior com água, dando origem às tintas. Outros alimentos podem ser utilizados como pigmentos se forem fervidos com um pouco de água: açaí, repolho-roxo, beterraba, café, cebola, erva-mate etc. As sementes de urucum, o açafrão, a amora e algumas madeiras e pétalas de flores podem ser deixados em infusão no álcool. Em ambos os casos, pode- -se acrescentar cola para encorpar a tinta; mas no caso do álcool, a limpeza de pincel deve ser feita com o próprio produto. O tempo para extração da cor varia muito, e o mesmo ali- mento pode produzir cores diferentes se uti- lizado de outras maneiras. Vale experimentar cada um e anotar os resultados, como faziam os artistas antigos, iniciando uma pesquisa própria sobre a utilização de tintas naturais. Ra in er Z en z/ W ik im ed ia C om m on s Figura 8 – Açafrão O preparo da tinta: pigmentos 97 Além desses elementos, as cores da terra também apresentam uma variedade rica em tonalidades, permitindo a produção de tintas naturais, feitas artesanalmente, e a produção in- dustrial, adequando ao consumo e comércio as cores e possibilidades desse elemento natural. Com base nas pesquisas científicas envolvendo diversas áreas do conhecimento, alia- das aos recursos tecnológicos, a produção de tintas evoluiu para utilizar os elementos da natureza combinados a outros que possibilitam qualidade e praticidade para os artistas e demais usuários. Agora que já você já tem conhecimento sobre alguns pigmentos naturais, na próxima seção vamos explorar os pigmentos industriais. 6.3 Pigmentos industriais A variedade de tintas exis- tente atualmente está bem lon- ge da realidade do passado. De acordo com Mayer (1996), após a Revolução Industrial, por volta de 1800, o avanço tecnológico possibilitou mais pes- quisas sobre a produção comercial de tintas que preenchessem todos os requisitos de qualidade. Antes disso, os artistas tinham que pagar caro por alguns pigmentos e moê-los até ficarem bem fini- nhos, ponto ideal de uso. Esse processo lento de preparo de tintas, com poucos recursos, custava muito tempo e investimento dos artistas, pois alguns pigmentos eram extraídos de pedras preciosas, como o lápis lazúli (Figura 9). Porém, se muita coisa mudou com o avanço científico, muitos pigmentos continuaram a ser utilizados, desde sua descoberta até os dias atuais. Se a forma de fabricar tintas evoluiu significativamente, a origem de algumas cores continua a mesma, como veremos em seguida. A nomenclatura dos pigmentos também passou a ser mais organizada, com a moder- nidade. Anteriormente, os nomes eram atribuídos como homenagens a seus descobridores ou por qualquer outro motivo, criando confusões de denominação das cores. Por isso, instituiu-se a adoção do padrão criado pela American Society for Testing and Materials (ASTM), que facilitou a busca por tintas de melhor qualidade (MAYER, 1996). Na próxima seção abordaremos brevemente a história de pigmentos conhecidos na atualidade. Vídeo J- Pa ly s/ iS to ck .c om Figura 9 – Lápis lazúli Artes Visuais: Pintura 98 6.4 História de alguns pigmentos O estudo sobre o uso de pigmentos nas obras de arte desde a Antiguidade permite conhecer as histórias e lendas que envolviam substâncias utilizadas pelos artistas antigos. Esses estudos abordam diversas áreas do conhecimento como arte, física, química, matemática, entre outras. Apresentamos a seguir algumas informações descobertas nessas pesquisas, que utilizaram também a radiografia de obras de arte para descobrir as substâncias presentes. 6.4.1 Carmim É produzido pela moagem do inseto conhecido como cochonilla, encontrado prin- cipalmente em uma espécie de cacto nativo das Américas, tendo sido levado para Europa no século XVI, com a conquista espanhola. Os astecas já utilizavam esse pigmento em tingimentos e pinturas (FELLER, 2012). Fonte: OFICINA de Albrecht Durer. A Virgem e o Menino (A Madonna com a íris). 1500-10. Óleo sobre linho: 149,2 x 117,2 cm. Figura 10 – Carmim em pintura a óleo W ik im ed ia C om m on s Vídeo O preparo da tinta: pigmentos 99 Nessa obra, atribuída ao atelier de Durer, verifica-se nitidamente o uso do pigmen- to no manto da Virgem, quando muitos pintores o utilizavam com óleo, explorando sua translucidez. O inseto cochonilla é utilizado atualmente como corante alimentício. 6.4.2 Preto de osso ou negro de marfim O preto de osso é encontrado nos registros rupestres, na arte egípcia, grega e roma- na, até a atualidade. É utilizado em tintas a óleo e aquarelas. Estudos aprofundados utilizando radiografias indicam que Rembrandt utilizou bas- tante o pigmento, como na pintura deste retrato. W ik iA rt Fonte: VAN RIJN, R. Retrato de Philips Lucasz. 1635. Óleo em carva- lho: 80 x 59 cm. Galeria Nacional, Londres. Figura 11 – Uso do preto de osso por Rembrandt Pigmento de alta qualidade e permanência, o preto de osso é de origem animal, por ser extraído da carbonização de ossos de animais (MAYER, 1996). 6.4.3 Azul da Prússia Considerada a primeira cor moderna, foi descoberta pelo fabricante de pigmentos Heinrich Diesbach, em Berlim, em aproximadamente 1704. Foi extremamente popular no início, tendo sido encontrado em vários pastéis de Edgard Degas (1834-1917) e em traba- lhos de Claude Monet (1840-1926), como Banhistas em La Grenouillere (1869), além de várias pinturas de Pablo Picasso (FITZHUGH, 2012). Artes Visuais: Pintura 100 W ik iA rt Fonte: VAN GOGH, V. La Mousmé. 1888. Óleo sobre tela: 73,3 x 60,3 cm. Galeria Nacional, Washington. Figura 12 – Azul da Prússia em obra de Van Gogh Também por meio das radiografias feitas em pesquisas, identificou-se a presença do pigmento em pinturas de Van Gogh (1853-1890), como esse retrato que vemos na imagem, e também em um autorretrato de 1888 (FITZHUGH, 2012). 6.4.4 Índigo Utilizado desde o Antigo Egito, esse azul intenso era extraído da planta Indigofera, cultivada na Índia, mas des- de 1870 passou a ser fabricado sinteti- camente com melhor qualidade. Possui muita transparência e não é resistente à luz do sol (FELLER, 2012). As pesquisas minuciosas identi- ficaram a utilizaçãodo pigmento nas pinturas de inúmeros artistas, entre eles, Vermeer, como podemos obser- var na imagem. W ik iA rt Fonte: VERMEER, J. Cristo na casa de Marta e Maria. 1654. Óleo sobre tela: 160 x 142 cm. Galeria Nacional de Arte, Edimburgo, Reino Unido. Figura 13 – Índigo na obra de Vermeer O preparo da tinta: pigmentos 101 Na aula de Arte Promova uma pesquisa sobre elementos naturais que produzem cor. Inicie a aula questionando sobre quais alimentos deixam manchas nas mãos ou tecidos quando manipulados. De quais outros elemen- tos naturais também é possível extrair cor? Faça uma lista, conforme a turma se expressa verbalmente, anotando a cor que cada elemento produz e relacionando-os. Estimule a participação de todos. Proponha que cada um pesquise outros elementos e dê mais algumas suges- tões. Além da pesquisa, que deve conter os elementos e como extrair suas cores, cada aluno poderá apresentar uma produção pictórica uti- lizando a cor extraída do elemento. Oriente as escolhas e o preparo de cada pigmento, indicando a forma mais adequada (se deve ser mistu- rado com água, cola ou álcool). Uma ação interessante seria fazer uma coleção com os diferentes tons terrosos, produzindo um disco cromático só dessa coleção. Uma campanha pode mobilizar a escola, estimulando a participação não só de alunos, mas de todos que queiram contribuir com amostras, identi- ficando o local de onde foram retiradas as terras. As crianças se interessam em produzir as tintas de terra junto ao pro- fessor, desde o processo de peneirar a terra, misturar com cola, até a pintura no papel. É uma satisfação deixar a criatividade se manifestar! Considerações finais Muitos materiais utilizados em pintura vêm sendo aprimorados para que não cau- sem danos à saúde. Porém, muitas químicas são manipuladas, sendo aconselhável o extre- mo cuidado e o uso de luvas e máscaras ao lidar com certos materiais, principalmente na manipulação dos pós, para que não ocorra inalação indevida. Esses preparos e misturas, utilizados na manipulação de elementos para criação de outros, é o que chamamos de cozinha da pintura. Essa cozinha envolve substâncias, conhe- cimento de materiais e vontade de pesquisar, mas como tudo é reação entre elementos, a química está muito presente, devendo ser cuidadosamente respeitada. A satisfação pessoal de misturar e produzir uma tinta com as próprias mãos, desde a esco- lha do pigmento até observá-lo tomando corpo aos poucos, faz parte do início de um processo criativo que todos precisam ter a oportunidade de experimentar. O professor de Arte é um agen- te propiciador desse momento, instigando sempre a pesquisa e a experimentação criativa. Artes Visuais: Pintura 102 Ampliando seus conhecimentos • ARQUITETAS nômades. Tinta natural à base de terra, como assim? 19 maio 2018. Disponível em: https://www.arquitetasnomades.com.br/tinta-natural-a-base-de- terra-como-assim/. Acesso em: 17 fev. 2019. O artigo sobre tintas feitas de terra do site Arquitetas nômades explica e ensina a produção da tinta para a aplicação, inclusive, em ambientes exteriores de cons- truções. Trata-se de uma contribuição para uma vida colorida e mais sustentável. • JHON Bermond. Disponível em: https://www.jhonbermond.com/. Acesso em: 15 fev. 2019. O artista Jhon Bermond é um pesquisador dos pigmentos naturais, utilizando-os em muitas de suas produções. Por meio de oficinas, compartilha seus conheci- mentos sobre arte e valorização da natureza. Atividades 1. De acordo com os estudos deste capítulo, qual é a diferença entre pigmento e tinta? 2. Explique, resumidamente, como se deu o surgimento e o desenvolvimento da pro- dução de tintas. 3. Apresente ao menos um exemplo de uma fonte de pigmento utilizada pelos indíge- nas e mencione qual líquido é empregado na produção da tinta. Referências BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. FELLER, R. Artists pigments, a handbook of their history and characteristics. v. 1. Washington: National Gallery of Art; London: Archetype Publications, 2012. FITZHUGH, E. W. Artists pigments, a handbook of their history and characteristics. v. 3. Washington: National Gallery of Art; London: Archetype Publications, 2012. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 4. ed. Melhoramentos, 2019. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/. Acesso em: 15 fev. 2019. VIDAL, L. (org.). Grafismo indígena, estudos de antropologia estética. 2. ed. São Paulo: Studio Nobel; FAPESP: Editora da Universidade de São Paulo, 2000. Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo A têmpera é um processo onde há uma relação muito intensa do pintor com seu material . (BARRETO, 2011, p. 76) Na página anterior: VAN GOGH, V. Noite estrelada. 1889. Óleo sobre tela: 73 x 92 cm. The Museum of Modern Art, Nova Iorque, EUA. Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 105 Nos capítulos anteriores, descrevemos instrumentos e materiais utilizados em pro- cessos de pintura. Ao longo deste e dos próximos capítulos, abordaremos diferentes técni- cas de pintura e suas especificidades, começando pela têmpera e a tinta a óleo. Entre as técnicas de pintura mais antigas, a têmpera foi considerada de excelência por séculos, sendo muito utilizada por artistas do período bizantino, como demonstra a figura a seguir. Figura 1 – Pintura em têmpera do período bizantino Fonte: BUONINSEGNA, D. di. Madonna e criança. ca. 1300. Têmpera e ouro sobre madeira: 23,8 x 16,5 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Com a descoberta da tinta a óleo, no período renascentista, a têmpera passou a ser considerada uma técnica “inferior”, pois o óleo estava no auge de sua utilização nos ateliês artísticos. Muitos pintores substituíram a têmpera pelo óleo nesse período, mas alguns mantiveram sua utilização, esporadicamente. Mas no que consiste cada uma dessas técnicas, e quais são as vantagens e desvanta- gens de cada uma? Por que uma foi substituída pela outra? Segundo Vasari (2011, p. 47), a têmpera era utilizada pelo pintor italiano Cimabue ainda no século XIII (ver Figura 2) e, antes dele, na Antiguidade grega, em pinturas murais. Artes Visuais: Pintura 106 Fonte: CIMABUE. Virgem e Criança Entronizadas e Profetas (Majestade de Santa Trinita). c. 1290-1300. Têmpera em madeira, fundo dourado: 384 x 223 cm. Galeria Uffizi, Florença. Figura 2 – Pintura a têmpera W ik iA rt De Cimabue até o início do século XV, aproximadamente, a têmpera a ovo manteve seu auge até que houvesse abertura para novos materiais, mais especificamente a desco- berta de uma tinta que não secava tão rápido quanto essa, permitindo fazer alterações na pintura em dias posteriores: a tinta a óleo. Após um período em que foi menos utilizada, a têmpera retornou aos ateliês, mos- trando que em arte há espaço para todos (BARRETO, 2011). A seguir, vamos conhecer um pouco mais sobre as tradicionais técnicas de pintura. 7.1 Têmperas O pintor Cennino Cennini descreve a técnica tradicional da têmpera a ovo em sua obra Livro de Arte, datado de meados de 1440, tal como Vasari (2011) a explicaria, posteriormente, por volta de 1550. Enquanto a Itália Vídeo Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 107 difundiu a utilização da têmpera entre os artistas, os pintores flamencos inovaram nos ma- teriais e métodos, facilitando o manuseio, graças a descobertas de matérias-primas e maior disponibilidade de materiais. Com essas novas formas de uso da têmpera, foram produzi- das pinturas de destacável qualidade até aproximadamente o final do século XVI, quando a técnica foi utilizada também em tela (MAYER, 1996). O pintor Giotto (1267-1337) pro- duziu muitas pinturas da técnica em madeira, como a que vemos na figura a seguir. Giotto foi discípulo de Cimabue, e a maestria com que desenvolveu suas pinturas (muitasem têmpera) o fez ser considerado o discípulo que su- perou o mestre. Fonte: BONDONE, G. di. A Adoração dos Magos. ca. 1320. Têmpera sobre madeira, fundo dourado: 45,1 x 43,8 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Figura 3 – Têmpera sobre madeira Ev er et t - A rt /S hu tte rs to ck O termo têmpera tem origem no latim e foi utilizado pelos italianos para designar a mistura de pigmentos em pó com um líquido, até adquirir uma consistência adequada, temperando-a (do italiano temperare) (MAYER, 1996). Podemos considerar têmpera a tinta na qual o aglutinante é solúvel em água. Com o tempo, os artistas foram pesquisando outras combinações, e assim surgiram diversos tipos de têmperas. Veremos alguns mais detalhadamente a seguir. De acordo com Mayer (1996), a têmpera bem preparada mantém a permanência das cores, que depois de secas não se alteram, dificilmente amarelam ou escurecem. Outra ca- racterística é a secagem rápida e o poder de opacidade, apesar de também permitir certos Artes Visuais: Pintura 108 efeitos de transparência. Sua luminosidade e seu brilho são mais opacos, completamente diferentes da tinta a óleo, que apresentará um efeito brilhante mais intenso. Os artistas antigos desenvolveram meios de trabalhar com o pincel para conseguir efeitos na pintura. Chegavam a utilizar pincéis com um só pelo para produzir as sombras com a têmpera. Sua técnica consistia em fazer hachuras ao sobrepor duas cores com pin- celadas bem finas e próximas para áreas mais escuras (ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2019). Observe essa técnica no detalhe da têmpera de Giotto. Fonte: BONDONE, G. di. A Adoração dos Magos. ca. 1320. Têmpera sobre madeira, fundo dourado: 45,1 x 43,8 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova York. Figura 4 – Detalhe de hachuras em têmpera Ev er et t - A rt /S hu tte rs to ck Até aproximadamente o final do século XV, todos os pintores italianos faziam uso da têmpera sobre madeira, geralmente de álamo. Já os pintores nórdicos utilizavam mais a ma- deira do carvalho. Como não pintavam em uma única placa, precisavam emendar várias, que eram reforçadas com travessões, por trás, para que diminuísse o risco de rachar ou empenar com o passar do tempo (MAYER, 1996). A madeira deve ser escolhida com cuidado, para que não apresente sulcos ou relevos, e o tratamento envolve lixar bem e passar um fundo de gesso antes de receber a pintura, já que a madeira é muito absorvente. Se a tinta for aplicada diretamente sobre ela, será completamente absorvida e não aparecerá. Todo esse trabalho artesanal geralmente era realizado por auxiliares e aprendizes dos ateliês. Atualmente, as madeiras mais adequadas para pintura a têmpera são as maciças e os compensados. As madeiras maciças geralmente são mais caras, e os compensados, além de apresentarem preço mais acessível, são adequados ao trabalho. Os melhores compensados são os produzidos com cinco folhas de madeira, que pode ser de pinho, virola, canela e mogno. As camadas são coladas alternadamente em sentidos opostos e é importante que um dos lados seja liso, sem imperfeições. O MDF é indicado somente para estudos e expe- riências, devido a sua baixa qualidade. hachuras: traços pa- ralelos ou cruzados que se empregam nos desenhos, pintu- ras ou gravuras para marcar as sombras e meias-tintas (HOUAISS, 2019). álamo: árvore, geralmente alta, tronco reto e folhas ovais, lanceoladas. O mesmo que choupo (HOUAISS, 2019). Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 109 Os suportes mais adequados para a pintura em têmpera são: • parede (como no afresco ou afresco secco); • madeira maciça ou compensado; • papelão couro ou papelão Paraná; • papel: gramatura alta (próprios para aquarela): • tecido: indicados para tela, mas colados em um suporte rígido. Com exceção da parede, que exige um preparo de fundo específico (como já vimos no Capítulo 4 desta obra), todas as outras opções devem estar devidamente preparadas com o fundo de gesso. 7.1.1 Preparo do fundo na pintura a têmpera Cada técnica de pintura exige um fundo específico para os materiais que serão apli- cados. O fundo – também chamado imprimação – é a camada que receberá a tinta, prote- gendo o suporte e tornando-o adequado para que o resultado da pintura seja satisfatório. Existem várias receitas para o preparo do fundo na técnica da têmpera. Basicamente, ele pode ser obtido misturando pigmento, aglutinante, diluente e carga. Como define Barreto (2011, p. 37), “cargas são substâncias inertes ou pigmentos, sem poder de cobertu- ra, que têm como função dar corpo ou determinadas qualidades à tinta”. Podem agir como cargas: gesso cré, talco, carbonato de cálcio, pó de mármore e pó de pedra-pomes. De acordo com Barreto (2011), a fórmula para preparação de fundo segue cinco passos, conforme apresentado a seguir. 1. Misturar 20 a 30% de cola branca (PVA) com 80 a 70% de água. 2. Misturar gesso cré (equivalente à quantidade de cola) com óxido de zinco (equivalente à quantidade de cola) em um recipiente como um prato fundo, utilizando uma espátula. 3. Acrescentar aos poucos a mistura de água e cola à mistura de gesso (o preparo deve ficar com uma consistência mais líquida, para que possa ser aplicado ao suporte com um rolo de pintura). 4. Esperar secar a primeira demão e passar mais uma ou duas vezes. 5. Verificar a necessidade de passar lixa fina para finalizar. Artes Visuais: Pintura 110 Com o suporte preparado, o passo seguinte é a escolha do tipo de têmpera. Antes de pintar, alguns artistas faziam esboços, desenhando um rascunho na base de gesso depois de seca, com lápis, giz ou aguadas de têmpera. 7.1.2 Tipos de têmpera Ao longo dos anos, as formas de produzir e aplicar a técnica foram se ampliando, de- vido à busca de artistas por mais facilidade no preparo e eficiência no resultado. Algumas têmperas distintas podem ser aplicadas em um mesmo trabalho, respeitando algumas re- gras de misturas, como as tintas à base de água por baixo das tintas à base de óleo. O tempo de uso da tinta a têmpera é reduzido, por isso deve-se produzir a quantida- de para consumo imediato, de preferência no mesmo dia. 7.1.2.1 Têmpera a ovo Considerada a têmpera origi- nal e mais tradicional, também é a que apresenta melhores resultados em termos de permanência de cor. É recomendado o uso de ovos fres- cos, e alguns artistas são bem rígi- dos ao separar o resquício de clara (albumina) da gema. Para isso, bas- ta colocar delicadamente a gema no papel toalha, para que o papel absorva qualquer traço de albumi- na. Em seguida, segura-se a gema sobre um recipiente, com o polegar e o indicador, pinçando-a para fu- rá-la com uma ponta, assim a pele, que não pode ser misturada, ficará entre os dedos. Outra forma não tão precisa de separação da pele é passar a gema em uma peneira fina. Acrescente delicadamente água filtrada na gema, aos poucos e mexendo sempre. A quantidade de Pintura com têmpera a ovo, na qual é possível observar pinceladas que formam áreas escuras das sombras. Figura 5 – Pintura em têmpera a ovo Fonte: LIPPI, F. F. Retrato de uma mulher e um homem em um ca- samento. [ca. 1440]. Têmpera na madeira: 64,1 x 41,9 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 111 água pode ser medida pela casca do ovo que foi quebrada, ou seja, encha com água filtrada uma das metades da casca, mexa sem parar e, se necessário, acrescente mais uma medida. Em um godê, coloque um pouco da gema preparada e, com a espátula, acrescente um pouco do pigmento em pó, misturando com o pincel. Experimente a consistência e faça as adequações, caso seja necessário. As receitas originais não recomendam o uso de conservantes, mas é possível acres- centar uma gota de fungicida (ou três gotas de óleo de cravo) à receita, mexendo sempre delicadamente. 7.1.2.2 Têmpera gorda Existe a possibilidade de misturar um pouco de óleo de linhaça à tempera de ovo, fazen-do com que ela adquira outras características, como o retardo do tempo de secagem da tinta e uma pincelada mais fluida. Nesse caso, basta acrescentar uma colher de sopa de óleo de linhaça à mistura de gema da têmpera a ovo, aos poucos, mexendo sempre (BARRETO, 2011). Figura 6 – Obra pintada com têmpera gorda Na pintura com têmpera gorda produzida por Botticelli, percebe-se a fluidez das pinceladas, principal- mente nas transparências. Fonte: BOTTICELLI, S. Primavera. ca. 1480. Têmpera gorda sobre madeira: 207 x 319 cm. Galeria Uffizi, Itália. Ao adicionar óleo na têmpera, em caso de utilizar mais de uma técnica, deve-se respeitar a seguinte ordem: tintas com óleo por cima das tintas sem óleo, ou seja, camadas gordas sobre camadas magras. Artes Visuais: Pintura 112 7.1.2.3 Têmpera vinílica É a receita de têmpera mais prática para produzir com alunos: basta misturar 20 a 30% de cola branca (PVA) com 80 a 70% de água, verificar a consistência desejada e acres- centar o pigmento (BARRETO, 2011). 7.1.2.4 Têmpera de caseína A caseína é uma proteína derivada do leite, sendo facilmente encontrada no comér- cio como um pó granulado amarelado, que deve ficar de molho por seis horas em reci- piente que não seja de metal. A receita descrita por Barreto (2011) recomenda: para 100 g de caseína, é necessário misturar um litro d’água. Após ficar de molho, pingue 5 ml de amônia, gota a gota, mexendo sempre, até dissolver completamente. Em seguida, pode-se acrescentar fungicida e o pigmento. 7.2 Pintura a óleo Segundo Mayer (1996), os óleos secativos já eram utilizados na mistu- ra de tintas desde a Idade Média, mas foi a partir do Renascimento que a tinta a óleo ganhou po- pularidade. Vasari (2011, p. 49) atribui a descoberta ao pintor Jan Van Eyck (1385- -1441), mas Mayer (1996, p. 21) relata que o fato foi desmentido em 1781, tendo sido a criação da tinta a óleo resultado de um pro- cesso de longos anos de pesquisas e expe- riências por parte de diversos artistas. Isso pode ser verificado por meio das anotações pessoais e dos registros antigos, tanto de ar- tistas quanto de químicos e outros profissio- nais. É preciso lembrar também que, duran- te o Renascimento, a valorização das artes e maior liberdade comercial permitiu uma fa- cilidade de acesso a materiais que não havia anteriormente (MAYER, 1996). De qualquer modo, Van Eyck foi um dos artistas que mais Vídeo Fonte: EYCK, J. van. A anunciação. c. 1435. Óleo sobre tela transferido do painel: 90,2 x 34,1 cm. Galeria Nacional de Arte, Washington. Figura 7 – Pintura a óleo W ik iA rt Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 113 explorou as possibilidades da tinta a óleo, com traços precisos e pinturas que se tornaram íco- nes na história da arte, como a obra a seguir. Em relação aos pigmentos, Vasari (2011, p. 21) explica que eles deveriam ser moídos com óleo de nogueira – considerado melhor, por não amarelar – ou de linhaça, extraído da semente do linho e purificado. A tinta a óleo constitui-se desses pigmentos suspensos no óleo secante, que serve como aglutinante. Mas sua produção artesanal é extremamente cansativa, já que a moagem do pigmento com o óleo deve ser intensa, com um almofariz (pilão), até se chegar ao resultado satisfatório. No século XVI, a pintura a óleo já estava plenamente desenvolvida e, a partir daí, foi sendo explorada por grandes mestres e aperfeiçoada, tendo cada um a utilizado de manei- ra particular. Foi desse modo que o avanço tecnológico permitiu aos artistas do período impressionista saírem do ateliê para pintar ao ar livre, levando a tinta a óleo em tubos de estanho, produzidos pela marca Winsor e Newton, em 1841-1842 (BARRETO, 2011). A tinta a óleo tem grande flexibilidade para produção de efeitos, como velaturas, empastamentos, transparências e opacidade. Observe na Figura 8 como Van Gogh utili- zou muitos empastamentos, carregando o pincel com bastante tinta. Já Leonardo da Vinci explorou as velaturas, técnica que apresenta brilho intenso e permanência de cor, fazendo com que as cores não se alterem depois de secas. Como a secagem é extremamente demo- rada, a pintura pode ser alterada e retocada durante meses. A pintura a óleo também pode ser feita em telas de grandes formatos e transportada com facilidade. Por tantas vantagens, essa técnica é até hoje amplamente utilizada por profissionais e amadores. Fonte: VAN GOGH, V. Campo de trigo com ciprestes. 1889. Óleo sobre tela: 73,2 × 93,4 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Figura 8 – Detalhe da pintura com empastamento Os suportes mais indicados para a pintura a óleo são a madeira e a tela, que devem seguir as mesmas orientações da pintura com têmpera. O uso do papel não é recomendado, Artes Visuais: Pintura 114 pois são materiais incompatíveis: o óleo fragiliza o papel, que se deteriora rapidamente. O suporte também deve ser bem protegido por uma encolagem, que deve isolá-lo do con- tato com a tinta, antes de ser aplicado o fundo apropriado para recebê-la. A preparação do fundo pode ser facilmente resolvida aplicando uma demão de base acrí- lica no suporte. Após a secagem da base acrílica, devem-se passar duas ou três demãos de gesso acrílico, verificando a necessidade de usar uma lixa fina para o acabamento. As telas compradas prontas já vêm preparadas, mas uma camada de gesso acrílico torna a base melhor. A base acrílica substitui os processos artesanais de encolagem. A camada de gesso acrílico é a fase de imprimação da tela, que, de acordo com os processos artesanais, pode ser feita por meio de variadas receitas. Durante a pintura, pode ser necessário umedecer o pincel em óleo de linhaça, para manipular alguma tinta, por isso é bom tê-lo em um godê, assim como a terebintina, que também é recomendada não apenas para eventual limpeza, mas também para ser mistu- rada à tinta. A limpeza dos pincéis deve ser feita em solvente (aguarrás ou tíner), e depois de lim- pos em pano ou jornal, os instrumentos devem ser lavados com espuma de sabão na palma da mão, até que não haja mais resíduo de tinta. Na aula de Arte Apresente algumas obras de arte produzidas em têmpera, variando o período histórico, para que seja possível observar as diferenças de estilo entre elas. Comente sobre cada uma, explicando a técnica e suas peculia- ridades, como a opacidade, os efeitos de linhas, o claro e o escuro. Apresentar em aula o modo de produzir a têmpera a ovo atrai a aten- ção de alunos de todas as idades. Mais interessante ainda é dividir a turma em grupos, para que possam produzir sua própria tinta e utili- zá-la em uma composição ou experimentar diversas formas de fazer hachuras. Mostre alguns exemplos de sobreposição de linhas em co- res diferentes, para motivá-los a explorar as possibilidades da técnica. Se for possível a produção da tinta, deve-se previamente combinar os materiais a serem trazidos pelo grupo, assim como elaborar um esbo- ço de composição, pois a tinta deve ser utilizada imediatamente. Outra forma mais simples de produzir têmpera nas aulas é uti- lizando a receita da têmpera vinílica, já que a cola branca é de fácil acesso, e o pigmento em pó, que pode ser comprado em lojas de fer- ragens, rende bastante. Aproveite para explorar as curiosidades sobre como as têmperas eram produzidas e as dificuldades de se conseguir encolagem: pôr cola em; preparar cobrindo com cola (HOUAISS, 2019). Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 115 matérias-primas. Se possível, mostre um pilão para explicar como os pigmentos eram moídos na água ou no óleo, assim como é apresen- tado no vídeo da Galeria Nacional de Londres, sugerido na seção “Am- pliando seus conhecimentos”. Após a produção e o experimento com têmpera, apresente pinturas produzidas com tinta a óleo, destacando as diferenças entre as técni- cas e suas possibilidades. Considerações finais Ambas as técnicas apresentam possibilidades de efeitos pictóricos completamente diferentes,que podem ser complementares na produção de uma obra que melhor expresse aquilo que o artista tem a dizer. Alguns artistas faziam esboços em têmpera, para depois pintar com tinta a óleo. Por isso, há a necessidade de o estudante, e principalmente o edu- cador em Arte, ampliar seus conhecimentos e práticas acerca dessas possibilidades. Tanto a têmpera quanto a pintura a óleo, apesar de serem técnicas muito antigas, são amplamente utilizadas na expressão artística, permitindo adaptações e atualizações de acordo com o trabalho de cada profissional, por meio da disponibilidade de materiais cada vez mais eficientes e do aprofundamento de pesquisas que ao longo do tempo colaboraram para facilitar o trabalho do artista. Ampliando seus conhecimentos • EMULSION: art terms in action. The Museum of Art. EUA, 24 out. 2010. (51min.). Disponível em: https://youtu.be/GpBD_1pT_mw?list=PLSQl0a2vh4HC3uCrZB74Kdx- tFZIubvzd. Acesso em: 25 fev. 2019. Esse breve vídeo do Museu de Arte Moderna de Nova York é legendado e explica o significado de emulsão, mostrando a produção de tintas que misturam ovo e óleo. • MAKING Green: tempera versus oil. The National Gallery. Londres, 9 jun. 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BtJfQVb7QXY. Acesso em: 25 fev. 2019. O vídeo da Galeria Nacional de Londres demonstra rapidamente a mistura de pigmento nas duas técnicas – têmpera e óleo – com a utilização de material ade- quado a essa produção. Artes Visuais: Pintura 116 • WERNECK, M. Têmperas: pintura 1. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010. Disponível em: http://www.eba.ufrj.br/pintura/pesquisas/docentes/pp.pdf. Acesso em: 19 fev. 2019. A apostila Têmperas, desenvolvida pela Prof.ª Dr.ª Martha Werneck, é um material explicativo abrangente e ilustrado sobre a técnica, apresentando receitas e aplicações. Atividades 1. Quais são os efeitos possíveis de produzir em uma pintura ao utilizar a tinta a óleo? Mencione artistas que produziram esses efeitos em suas obras. 2. Quais são os dois processos necessários à preparação do suporte para a pintura a óleo? Explique. 3. Cite duas características da pintura a têmpera. Referências BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Tempera painting. Disponível em: https://www.britannica. com/art/tempera-painting. Acesso em: 21 mar. 2019. HOUAISS, A. Dicionário Houaiss. Disponível em: https://www.dicio.com.br/houaiss/. Acesso em: 22 fev. 2019. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. VASARI, G. Vida dos artistas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor O desenho e a cor não são coisas distintas; à medida que se vai pintando, vai-se desenhando; quanto mais a cor se harmoniza, mais o desenho se precisa. Paul Cézanne (PEDROSA, 2009, p. 130) Na página anterior: Thomas Soellner/Shutterstock Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 119 Desenho ou pintura? As duas técnicas abordadas neste capítulo permeiam as discus- sões sobre nomenclaturas. Em artes, já sabemos que não há limites e, na verdade, isso pouco importa, desde que sempre haja opções para a expressividade. Mesmo que as técnicas já existam há séculos, elas podem sempre ser reinventadas. Desse modo, com que justificativa podemos considerar o lápis de cor e o pastel como sendo técnicas de pintura? De acordo com a definição de pintura e com o conhecimento sobre cada um desses meios de expressão, vejamos se ao final do capítulo seremos capazes de responder a essa questão. As técnicas de pintura que utilizam pastel ou lápis de cor são chamadas de pinturas a seco, cujo resultado pode ser visualizado imediatamente, não sendo necessário esperar secar. Os pigmentos nesses materiais não se apresentam diluídos em forma líquida ou pastosa. Em cada uma das técnicas, o pigmento é trabalhado de uma forma diferente, resul- tando, por consequência, em produções pictóricas diversas, com variados efeitos. Outro ponto em comum entre essas técnicas é o fato de que começaram a ser ex- ploradas mais em trabalhos de desenho ou esboços, destacando seus efeitos com linhas e hachuras, para posteriormente adquirirem espaço definitivo no meio artístico. Figura 1 – Esboço feito com giz Fonte: BOUCHER, F. Cabeça de uma mulher por trás. c. 1740. Giz sobre papel. Coleção particular. W ik iA rt Foi justamente em trabalhos de esboços que o giz colorido e, posteriormente, o pas- tel começaram a aparecer em trabalhos artísticos, como na obra de Boucher (Figura 1). Artes Visuais: Pintura 120 Desde o século XV, os artistas utilizavam giz para desenhos, mas se pensarmos no giz como pedras e pigmentos que riscavam paredes, a origem do pastel está nos primórdios da humanidade (MAYER, 1996). A seguir, aprofundaremos os estudos acerca da pintura com giz pastel e lápis de cor. 8.1 Pastel Chamadas de lápis pastel, giz pastel, ou simplesmente pastel, as barri- nhas coloridas apresentam maior quantidade de pigmento se comparadas a outras técnicas de pintura. As possibilidades de trabalhar com o pastel são variadas, resultando na produção de texturas diversas, a começar pela posição do bastão, que pode ser usado das se- guintes maneiras: • deitado, cobrindo grandes áreas; • inclinado, permitindo representar detalhes e fazer riscos bem demarcados. A pressão no lápis também influenciará a espessura da linha e a sutileza da cor. O pastel pode produzir linhas, hachuras, camadas de cor e, com a ajuda do dedo ou do pincel, é possível fazer o efeito esfumaçado e graduar cores. Essas escolhas dependem da experiência do artista com o material, experimentando inclusive outros efeitos, como so- breposições de cores e hachuras ou, ainda, sobreposições de técnicas: sobre têmpera ou aquarela, com carvão ou nanquim. O pastel atua no contato com o suporte, que, com sua porosidade e atrito, fixará o pigmento, deixando as marcas coloridas. Por isso, a escolha do suporte deve levar em con- sideração as características do produto. 8.1.1 Pastel seco Foi no século XVIII, em Veneza, que a retratista Rosalba Carriera (1675-1757) ficou conhecida por pintar belos retratos em miniatura nas caixas de rapé. Como suas miniatu- ras ficaram famosas, ela foi estimulada a ir à Paris, onde também adquiriu fama pintando retratos, inclusive dos membros da Corte francesa, como Luís XV, e do pintor Antoine Watteau (1684-1721). Em 1720, Carriera ingressou na Academia Real Francesa, que ra- ramente concedia vagas a mulheres. Foi uma artista de carreira promissora, e influenciou diversos artistas do seu período (ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2019). Vídeo Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 121 Mas o destaque de Carriera está no fato de que foi a responsável pelo início do uso do pastel como técnica de pintura ao produzir seus retratos. Até então, o pastel era utilizado apenas para a produção de esboços realizados antes de uma pintura ou em desenhos mais informais. A abordagem inovadora da técnica pela artista impressionou muito, pois passou a utilizar o pastel como técnica definitiva e bem elaborada, chamando a atenção da comu- nidade artística e das autoridades políticas. Foi a partir disso que o pastel se tornou uma técnica mais popular de expressão, fazendo com que outros grandes artistas passassem a utilizá-lo. Com a fama conquistada, o material foi se tornando mais procurado, cada vez mais acessível e de melhor qualidade. W ik iA rt Figura 2 – Autorretrato de Carriera em pastel Fonte: CARRIERA, R. Autorretrato como “inverno”. 1730-1731. Pastel sobre papel: 46,5 x 34 cm. Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden. Na Figura 2, podemos observar o estilo rococó dos retratos de Carriera, representa- dos geralmente pela altura do busto, e a riqueza da reprodução de texturas variadas de te- cidos, rendas, peles, cabelos e os detalhes sutis de joias e acessórios. Esse primor da arte de retratar explorando as possibilidadesda técnica encantou autoridades de diversos países. rococó: principal estilo do século XVIII europeu, é sutil em relação à comple- xidade formal e aos excessos do barroco (ENCICLOPÉDIA, 2019). Artes Visuais: Pintura 122 Muitas de suas pinturas mitológicas mostram flores com destacada graciosidade, obtidas pelo manejo do material. W ik iA rt Fonte: CHARDIN, J. Autorretrato com óculos. 1771. Pastel: 46 x 38 cm. Museu do Louvre, Paris. Figura 3 – Autorretrato em pastel O uso do pastel dessa maneira continuou a ser explorado por diversos artistas, como Antoine Watteau, Jean-Baptiste Simeon Chardin (1699-1779), Maurice Quentin de La Tour (1704-1788), Jean Honoré Fragonard (1732-1806), entre outros. Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 123 W ik iA rt Figura 4 – Autorretrato em pastel Fonte: LA TOUR, M. Autorretrato com jabot e renda. c. 1750. Pastel sobre papel: 45 cm x 37 cm. Museu Cognacq-Jay, Paris. Compare as pinturas de Chardin (Figura 3) e La Tour (Figura 4), com diferentes formas de utilizar o mesmo material para produzir efeitos tão diversos. Observe o autor- retrato em pastel, de Chardin, que manteve o hábito de pintar em cavalete, mesmo usando lápis pastel como material, apoiando-o sobre uma tela e deixando suas marcas visíveis. Sua pintura difere das obras de La Tour, que demonstrava suavidade no tratamento das cores. O exímio pastelista La Tour criava uma superfície aveludada que nos faz querer passar a mão para sentir a maciez do tecido azul nessa obra. Ele produziu um grande número de retratos e autorretratos, alcançando um domínio técnico impressionante, transmitindo a sensação de que se fixarmos o olhar, seus olhos e sua boca se mexerão. Esta é uma caracte- rística de seus retratos: a sugestão de mobilidade dos rostos que pintava. Se observarmos os detalhes, algumas linhas e tracejados dão brilho à pele, aos cabelos, à renda e ao casaco. No século XIX, Edgar Degas inova a forma de trabalhar com o pastel, descobrindo no- vas possibilidades de efeitos, “introduzindo mais recursos de pintura, sobrepondo camadas em bases pintadas a têmpera, em camadas de pastel fixadas, deixando a última camada sem fixar, mantendo a superfície aveludada que caracteriza o processo” (BARRETO, 2011). Artes Visuais: Pintura 124 Fonte: DEGAS, E. Cavalos de corrida. ca. 1885-88. Pastel na madeira: 30,2 x 40,6 cm. Museu de Arte da Filadélfia. Figura 5 – Pastel de Edgar Degas Nessa imagem, Degas deixa o fundo em madeira como a cor do céu. Em primeiro plano, a madeira embaixo da cor dá o tom quente para o gramado, onde o artista trabalha com grafismos e hachuras variadas. Ao longo do tempo, as técnicas em pastel foram se ampliando, sendo até hoje explo- radas por diversos artistas. Um exemplo disso são as sociedades de pastelistas que surgi- ram no passado, quando a técnica começou a ficar famosa, e permanecem até hoje, como uma forma de manter a pesquisa e as discussões em torno do material. O termo pastel originou-se da pasta em que é modelado o lápis ao ser fabricado. É um processo quase de cor pura, pois a pasta consiste na mistura do pigmento com a carga, quase sem a ação do aglutinante, porque a quantidade utilizada é mínima, apenas para ajudar na modelagem das barrinhas (BARRETO, 2011). O fato de quase não ter a ação aglutinante agrada a muitos artistas, pois sem essa influência as cores não sofrem risco de alteração. Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 125 Vv oe Va le /iS to ck .c om Figura 6 – Pastel seco A desvantagem do pastel é a fragilidade da sua superfície (também devido à escas- sez de aglutinante), que deve ser protegida adequadamente com vidro, fixativo acrílico ou verniz acrílico. Muitos artistas não recomendam o uso de fixativo nenhum, justamente por interferir na aparência do trabalho, mas é o tipo de proteção mais utilizada quando não é possível o uso do vidro. O fixativo protege as cores para que não se desprendam do suporte e deve ser aplicado uniformemente, com o cuidado de distribuí-lo igualmente sobre toda a superfície (MAYER, 1996). A proteção do suporte também pode ser feita envolvendo-o com papel manteiga, mas de forma que não fique se movimentando sobre a pintura, cor- rendo o risco de misturar os pigmentos. O suporte mais indicado para uma produção em pastel é o papel, apesar de alguns ar- tistas utilizarem também a tela. Ao escolher o papel, deve-se considerar que o pastel se fixará na superfície por meio da fricção, então é necessário certa rugosidade para que o pigmento se prenda em alguma porosidade. Portanto, geralmente, qualquer papel adequado à técnica de aquarela ou desenho artístico, com uma textura leve, também servirá ao pastel. 8.1.1.1 Produzindo o pastel seco Os aglutinantes não gordurosos utilizados nas receitas para fabricar pastel seco são: • Goma adragante ou de tragacanto: resina retirada do caule do arbusto Astragalus gummifer. • Goma karaia: resina retirada de caules e ramos de Sterculia urens. Geralmente é mais barata do que a goma adragante. • CMC (carboximetilcelulose): também usado para colar papéis de parede. O preço é bem acessível. Artes Visuais: Pintura 126 1. A goma adragante deve ficar de molho por seis horas, com proporção de 10g para 250ml de água. 2. Após esse tempo, acrescente mais 250ml de água e 1% de fungicida e reserve. 3. Misture em um almofariz ou pilão 70 a 50% de pigmento com 30 a 50% de carga (pode ser carbonato de cálcio). 4. Acrescente aos poucos a mistura da goma, até formar uma massa modelável. 5. Modele as barrinhas e deixe secando sobre um papel toalha em local arejado, mas sem luz do sol. 6. Se utilizar CMC, ao invés da goma, utilize 10g de CMC para 1 litro d’água e mantenha o restante da receita (BARRETO, 2011). 8.1.2 Pastel oleoso O pastel oleoso ou a óleo é uma invenção mais recente, aproximadamente da década de 1920. Inventado pelos japoneses, começou a ser fabricado no Ocidente a partir de 1947, pelas marcas Sennelier e Caran d’Ache (BARRETO, 2011). Conta-se que o pastel oleoso começou a ser fabricado em 1949, devido à procura do pintor Pablo Picasso por um material para pintar em diversos suportes, sem o risco de rachar ou desbotar. O pintor Henri Goetz, amigo de Picasso, conversou sobre isso com o famoso fabricante de materiais artísticos Henri Sennelier, que também conhecia o artista. Sennelier pesquisou e chegou ao formato dos pastéis oleosos (SENNELIER, 2019). A sua fabricação envolve a mistura do pigmento com uma quantidade considerável de aglutinante, isto é, de óleo de linhaça, tornando-o menos frágil e quebradiço do que o pastel seco, além de apresentar maior maciez. O aspecto final da pintura também se apro- xima mais da tinta a óleo, observe a Figura 7. Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 127 N in el itt le /iS to ck .c om Figura 7 – Pastel a óleo É possível produzir pastel oleoso artesanalmente, mas com todo o cuidado, pois en- volve o manuseio de cera de abelha derretida em banho-maria. A cera de abelha é inflamá- vel, por isso todo cuidado é pouco. 8.1.2.1 Produzindo o pastel oleoso A seguir, apresentamos os materiais necessários e um passo-a-passo para a fabrica- ção do pastel oleoso. 1. Misture o pigmento com o mínimo de terebintina até formar uma pasta firme. 2. Aqueça três partes de cera de abelha em banho-maria até derreter. 3. Acrescente uma parte de óleo de linhaça e, com a mistura ainda quente, adicione a pasta do pigmento. 4. Essa mistura deve ser derramada ainda líquida em formas de alumínio úmidas, que podem ser improvisadas com latas de refrigerante ou cerveja (BARRETO, 2011). 8.2 Lápis de cor Esse instrumento é tão conhecido por todos, que muitas vezes as suas possibilidades de expressão passam despercebidas. É com o lápis que todos aprendem a escrever e, com certeza, em algum momento da infância temos lápis de cor disponíveis para desenhar. A sua origem está relacionada a alguns registros do século XVI, quandofoi encon- trado um pedaço de grafite puro entre dois pedaços de madeira, como um sanduíche. Provavelmente, o material foi esquecido durante a construção de uma casa, apresentando Vídeo Artes Visuais: Pintura 128 sinais de uso que atestaram sua idade. O lápis mais antigo do mundo encontra-se no Museu da Faber-Castell, na Alemanha (FABER-CASTELL, 2019). Foi durante esse período que se descobriu o grafite como material mais adequado para a escrita. Inicialmente, eram utilizados couro, papel ou cordão para envolver as varetas de grafite. Entre os pioneiros dos fabricantes de lápis estão Friedrich Staedtler e Kaspar Faber, ambos alemães. Esse último iniciou seus negócios com a fabricação do material em 1761, sendo apenas o começo da história de muitas gerações da família com a indústria do lápis (FABER-CASTELL, 2019). Os primeiros lápis eram fabricados artesanalmente em um pedaço de madeira com um sulco no meio para inserir a vareta de grafite. Posteriormente, o processo passou a ser cada vez mais industrial (FABER-CASTELL, 2019). Com as exigências por parte de artistas, as pesquisas até hoje continuam, com o objetivo de aprimorar cada vez mais os produtos. O lápis de cor começou a ser fabricado por volta de 1834, trocando a vareta do grafite por pigmentos misturados a aglutinantes. O produto demonstrava vantagens sobre o pastel por não sujar as mãos, já que o pigmento é protegido pela madeira e as cores muito mais per- manentes, por aderirem bem ao papel. Johann Sebastian Staedtler queria inovar a fabricação de pastel, e esse foi um dos motivos da fabricação de lápis de cor (STAEDTLER, 2019). pi ca lo tta /iS to ck .c om Figura 8 – Lápis de cor Os lápis de cor são materiais de pintura relativamente mais baratos e de fácil mani- pulação. Atualmente, a variedade de cores e de qualidade é muito grande, como ilustrado na Figura 8. Existem alguns lápis mais macios do que outros, mas essa escolha depende da afinidade do artista com o material. O importante é que a mina colorida seja firme e bem posicionada ao centro da madeira (isso pode ser verificado nas extremidades do lápis). A cor deve aderir bem ao papel, com firmeza e intensidade. Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 129 Os lápis aquareláveis geralmente são mais macios e podem ser utilizados também com um pincel úmido, produzindo um efeito de aquarela. Depois de seco, é possível pintar novamente por cima. Os efeitos da pintura com lápis de cor podem ser obtidos produzindo hachuras ou cobrindo com camadas de cor a superfície do papel. As técnicas de desenho a lápis podem ser utilizadas junto à pintura a lápis, assim como as sobreposições de cores e os efeitos es- fumaçados. Muitas vezes, o lápis de cor é utilizado com outras técnicas, como no caso da figura a seguir. Figura 9 – Obra com lápis de cor e outros materiais Fonte: ULRICH, G. Toilette em Pergamena, Signora Bernasconi, Milano. 1932. Lápis de cor, grafite e tinta metálica. Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, EUA. Qualquer tipo de papel é adequado para pintar com lápis de cor e deve ser escolhido de acordo com a afinidade do artista com o material. Portanto, sugerimos experimentar os efeitos do lápis em diferentes papéis, pois o resultado também será diverso. Na aula de Arte Fabricar artesanalmente o pastel oleoso é uma atividade perigosa, por envolver fogo e inflamáveis. Se houver possibilidade de contar com Artes Visuais: Pintura 130 ajuda de outros profissionais, é possível apenas apresentar o proces- so, para que a turma acompanhe até o resultado do produto final arte- sanal. Outro profissional pode trazer para a sala a cera já derretida em outro ambiente, de modo que a turma assista somente ao processo de mistura. Após a apresentação, todos podem experimentar pastéis oleosos artesanais produzidos previamente. É interessante abrir uma discussão sobre as diferenças entre os dois tipos de pastel, destacan- do as características de cada um. Os alunos podem escrever um relato após experimentar ou observar trabalhos de artistas nas duas técni- cas, apontando inclusive suas preferências pessoais. Em uma segunda atividade, como muitos artistas possuem produ- ções em pastel, a turma pode dividir-se em duplas para apresentar pes- quisas ilustradas sobre as obras, permitindo uma comparação entre os variados efeitos que cada artista explorou. Oriente para que a pesquisa aborde períodos históricos variados, incluindo a arte contemporânea, que apresenta grande diversidade de utilização da técnica. Considerações finais Todas as técnicas mencionadas neste capítulo têm em comum o formato de pintura a seco, em que é possível manipular um material e, por meio da fricção direta dele com um suporte, transferir marcas coloridas cobrindo uma superfície. Portanto, se esses materiais cobrem uma superfície com cor, transmitindo mensagens e ideias, podem ser considera- dos pintura. Mas não devemos nos perder nas definições de termos e distinções de mate- riais. Para um artista se expressar, qualquer meio disponível servirá, mesmo que seja pedra e parede. Devido às pesquisas de artistas e cientistas, atualmente temos grande poder de escolha, inclusive de pintar a seco. Ampliando seus conhecimentos • LANDSCAPE drawing for beginners with pastels – scenery drawing – soft pastel drawing. 20 out. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=vujQt6Fac1s. Acesso em: 25 mar. 2019. O vídeo demonstra o processo da pintura de uma paisagem em pastel, utilizando o recurso de esfumaçar com os dedos. Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 131 • SOCIÉTÉ des pastellistes de france. Disponível em: https://www.pastellistesde- france.com/galeries-maitres-pastellistes. Acesso em: 1 mar. 2019. A galeria do site da Sociedade dos Pastelistas da França mostra trabalhos de ar- tistas contemporâneos franceses. A página apresenta também um breve histórico sobre o uso do pastel na arte francesa. A sociedade foi fundada em 1885. Atividades 1. Qual é a principal diferença entre o pastel seco e o pastel oleoso? Como essa diferen- ça interfere no resultado final? 2. Quais são as vantagens oferecidas pelo lápis de cor sobre o pastel, considerando o início de sua história? 3. Que inovações o pintor Edgar Degas experimentou com o uso do pastel? Referências BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Rosalba Carriera. Disponível em: https://www.britannica.com/ biography/Rosalba-Carriera. Acesso em: 24 fev. 2019. ROCOCÓ. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo65/rococo. Acesso em: 22 mar. 2019. Verbete da Enciclopédia. FABER-CASTELL. História do lápis. Disponível em: http://www.faber-castell.com.br/Curiosidades/ HistoriaDoLapis. Acesso em: 27 fev. 2019. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. PEDROSA, I. Da cor à cor inexistente. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2009. SENNELIER. Oil pastels. Disponível em: http://www.sennelier-colors.com/en/Pastels-huile_88. html. Acesso em: 1 mar. 2019. STAEDTLER. Stadler e o lápis de cor. Disponível em: https://www.staedtler.com.br/pt/empresa/ tradicao-e-inovacao/a-staedtler-e-o-lapis-de-cor/. Acesso em: 1 mar. 2019. Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim A paleta de um pintor não significa nada. É seu olho que faz tudo. Pierre-Auguste Renoir (PEDROSA, 2003, p. 103) Na página anterior: Goja1/iStock.com Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 134 Como é possível que a quantidade de água influencie uma forma de pintar a tal ponto de chamá-la de aguada? Assim ocorre com a produção da tinta que se denomina aquarela, ou aguarela, designando essa combinação de pigmento e água. Mas aquarela e nanquim não são apenas tintas produzidas com água. É o acréscimo da água durante a pintura e de que formaisso pode ser feito que resulta em uma variedade de efeitos que só essas técnicas apresentam. Ao longo das próximas páginas, veremos como isso acontece. Entre as técnicas de pintura à base de água, a aquarela e o nanquim permitem explorar diversos efeitos de cores e pinceladas, de acordo com a quantidade de água que se acrescenta à tinta. As aguadas podem ser obtidas acrescentando mais água à tinta, com o papel seco ou úmido: “pintando” o papel com um pincel largo como uma trincha, embebido em água. A partir daí, a tinta diluída também pode ser aplicada com um pincel largo, na folha toda ou apenas onde se deseja o efeito. Outra característica dessas técnicas é a possibilidade de sobrepor camadas, depois que esta base estiver seca, mas nada impede de pintar também sem acrescentar nem uma gota de água. De qualquer forma, o resultado poderá ser muito bom! Vejamos a seguir um pouco mais sobre essas duas técnicas de pintura. 9.1 Aquarela Como o próprio nome diz, a aquarela é uma técnica de pintura na qual a água é utilizada como diluente. De acordo com Mayer (1996, p. 357), “é baseada no sistema de pigmentação transparente ou velaturas; isto é, utiliza o branco brilhante do papel para seus tons brancos e pálidos [...]”. Essa téc- nica apresenta grandes possibilidades de efeitos pictóricos, podendo a tinta ser aplicada direto do tubo ou diluída em água. “É possível sobrepor várias camadas sem perder a transparência” (BARRETO, 2011, p. 65). As tintas para aquarelas são produzidas com a mistura do pigmento em pó muito fino com goma arábica e água. Podem ser encontradas fluidas, em tubos, ou sólidas, em pastilhas. As mais utilizadas por profissionais são as que vêm em tubo, próprias para artis- tas, mas existem versões economicamente mais viáveis para estudantes. As tintas em tubo devem ser mantidas fechadas, caso contrário, secarão rapidamente. Durante o século XIX, o uso da aquarela enquanto técnica artística atingiu seu auge, principalmente entre os artistas da Inglaterra, tornando-a conhecida como arte in- glesa (BARRETO, 2011). O período ficou conhecido como Idade de Ouro da aquarela. Porém, os egípcios antigos já a conheciam, apesar de não ser possível definir exatamente Vídeo Artes Visuais: Pintura 135 os aglutinantes utilizado por eles. Na Idade Média, a técnica é identificada na pintura de iluminuras em manuscritos, como na figura a seguir (BARKER, 2019). Fonte: LIVRO do Evangelho. [ca. 825–50]. Aquarela sobre pergaminho: 29,9 × 40 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Figura 1 – Aquarela em manuscrito O pintor Albrecht Dürer (1471-1528) teve grande fama com a pintura a óleo, mas também produziu importantes trabalhos em aquarela, como o da Figura 2. Figura 2 – Aquarela de Dürer Fonte: DURER, A. Casa de pescador. c. 1497. Aquarela sobre papel: 21,3 x 22,5 cm. Museu Britânico, Londres. W ik iA rt Ao longo do tempo, outros artistas produziram trabalhos em aquarela, muitas vezes colorindo desenhos em grafite ou utilizando-a apenas com aguadas monocromáticas. Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 136 Em meados do século XVIII, a técnica tomou impulso e começou a se destacar enquanto expressão artística, principalmente com Thomas Girtin (1775-1802) e J. M. William Turner (1775-1851) com sua grandiosa produção (BARKER, 2019). A partir desse período, os artistas se aventuraram mais na descoberta de efeitos pictóricos, explorando as cores mais fortes da técnica. Observe nesta aquarela (Figura 3) como Turner representa com exatidão a espuma branca das ondas e confere um tom dramático à cena com o volume das nuvens carregadas. W ik iA rt Figura 3 – Aquarela de Turner Fonte: TURNER, J. M. William. Um navio contra o Mewstone, na entrada para o Plymouth Sound. [c. 1814]. Aquarela sobre papel: 15,6 x 23,7 cm. Galeria Nacional da Irlanda. Segundo Barker (2019), o pintor John Constable (1776-1837) tornou-se um dos mestres da aquarela desse período, como demonstra uma de suas mais significativas obras (Figura 4), uma das primeiras a serem exibidas em uma exposição da Royal Academy. O artista explorava os efeitos da técnica para representar céus cheios de nuvens em diferen- tes horários e condições climáticas. Fonte: CONSTABLE, J. Velho Sarum. 1834. Aquarela com raspagem sobre papel: 30,0 x 48,7 cm. Museu Victoria & Albert, Londres. Figura 4 – Aquarela de Constable Artes Visuais: Pintura 137 Barker (2019) também descreve que, conforme a popularidade da aquarela foi crescendo, os artistas começaram a se organizar em grupos para discutir e trabalhar com a técnica, dando origem às sociedades de pintores de aquarela. Dessa forma, a fabricação de materiais e pesquisas em aquarela foram se intensificando, permitindo uma melhoria na qualidade e maior facilidade de trabalho do artista. Um exemplo disso foi a criação, em 1846, das tintas para aquarela em tubos de metal, pela Winsor & Newton – que também lançou as tintas a óleo da mesma forma, em 1841. Antes disso, as aquarelas eram vendidas em blocos sólidos para os artistas dissolverem em água, ou cada um produzia sua própria tinta. Como cita Barker (2019), a pintura em aquarela tornou-se um meio eficaz para captar rapidamente as variações da luz na natureza. Sendo assim, com as aquarelas em tubo era muito mais fácil produzir pinturas ao ar livre, o que era comum entre artistas des- de o século XVIII. Para isso, começaram a surgir também os conjuntos próprios para essa prática, constituídos de uma mala com bandeja de pincéis, suportes para tintas, água e mis- turas, além do estojo para giz ou carvão, chegando a ser produzido em versões luxuosas. Esses conjuntos para pintura ao ar livre facilitaram também o uso pelos pintores viajantes, como Delacroix (1798-1863) e Debret (1786-1848), entre muitos outros. Debret produziu inúmeras aquarelas quando veio ao Brasil com a Missão Artística Francesa (BARRETO, 2011). Fonte: DEBRET, J. B. Negra vendendo cajus. 1827. Aquarela sobre papel: 15,7 x 21,6 cm. Museu Chácara do Céu, Rio de Janeiro. Figura 5 – Aquarela de Debret Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 138 Após garantir espaço como técnica consagrada, a aquarela continua a ser utilizada como linguagem de expressão por diversos artistas da modernidade, tais como: Paul Klee (1879-1940), Di Cavalcanti (1897-1976) e Fayga Ostrower (1920-2001). 9.1.1 Suportes para aquarela e outros instrumentos As pinturas egípcias eram feitas sobre papiro, e as aquarelas das iluminuras, sobre pergaminho. Seda, linho e algodão também estão entre os suportes utilizados para a pin- tura com aquarela. Entretanto, o papel é o material mais comum para essa técnica, por ser mais barato e de fácil manipulação da tinta (MAYER, 1996). De acordo com Mayer (1996), os melhores papéis são os feitos à mão, com trapos de linho, por exemplo. Mas os papéis próprios para a pintura com aquarela, à venda no comér- cio, geralmente apresentam boa qualidade. O importante é que a quantidade de cola no papel seja adequada, pois se houver cola em excesso, não absorverá água suficiente e formará poças na superfície, e se não tiver cola suficiente, absorverá toda a água, prejudicando o efeito da pintura. O ideal é que a superfície absorva a quantidade certa de água da tinta. O papel de qualidade é livre de acidez, de produtos químicos e alvejantes, e geral- mente vem com a marca d’água ou um relevo do fabricante indicando o lado para uso. Alguns papéis são texturizados e produzem efeitos na pintura, cabe ao artista es- colher os efeitos apropriados ao resultado que deseja obter, pois os grãos das texturas do papel interferem na fluidez da tinta. Papéis com grãos de aspereza média são muito utili- zados. Observe na Figura 6 o efeito da aguada sobre a textura do papel (MAYER, 1996). As ya _m ix /iS to ck .c om Figura 6 – Papel texturizado Artes Visuais: Pintura 139 Um método eficaz para trabalhar com o papel é prendê-lo com fita crepe em toda a borda em uma placa de madeira– fórmica ou MDF, por exemplo –, para que a ação da água não cause rugas. A fita só deve ser retirada após a secagem da pintura. Segundo Barker (2019), a partir do século XIX, os artistas começaram a usar dife- rentes instrumentos de trabalho em aquarela, como lixas, raspadores e esponjas, para pro- duzir diferentes efeitos. Alguns profissionais usam algodão, cotonetes e papel mata-borrão. Quanto aos pincéis, o de pelo de marta sempre é uma escolha adequada. Podem ser utilizados: pincel de marta kolinski ou marta vermelha, marta tropical, pincel oriental, pincéis sintéticos. Esses últimos são de qualidade inferior aos de marta, mas são bem mais baratos e servem para quem está começando a praticar. 9.2 Nanquim A tinta nanquim ou tinta da China é utilizada há muito tempo para escrever ou desenhar, e recebeu esse nome porque antigamente provinha da cidade de Nanjing, na China. Segundo Mayer (1996), os artistas orientais tinham muitas exigências e especificidades com relação a sua fabricação. A tinta deveria ser produzida seguindo as receitas secretas de cada artista, que contavam com os pig- mentos e outros elementos capazes de pro- duzir mais brilho ou maior variação de tons. A pintura chinesa monocromática utilizava apenas a cor preta, explorando as variações de tom por meio do acréscimo de água ao pigmento. Na dinastia Tang, por exemplo, o uso de outras cores era conside- rado vulgar, já que pintando somente em tons de preto seria possível expressar-se ade- quadamente (PIGMENTS, 2019). Observe na pintura da Dinastia Ming (Figura 7) como os tons de preto elaboram a paisagem. Vídeo Figura 7 – Pintura chinesa Fonte: QICHANG, D. Habitações sombreadas entre riachos e montanhas. Dinastia Ming (1368-1644). [ca. 1622–25]. Tinta sobre papel: 158,4 x 72,1 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 140 Para a fabricação da tinta nanquim, o pigmento utilizado é o negro de fumo, cha- mado também de negro de carbono e negro vegetal. Esse pigmento é o mais antigo conhe- cido pelo homem, e considerado a primeira cor preta. Desde as pinturas das cavernas, nos primórdios da humanidade, ele era obtido da madeira ou outras matérias queimadas e misturadas com aglutinantes naturais. Por isso é considerado um pigmento fácil de obter, pois é feito de carvão. De acordo com Mayer (1996), o pigmento “negro de fumo é um pó fino, leve e macio obtido pela coleta de fuligens”, a partir da queima de óleo, madeira, vegetais e outras maté- rias orgânicas. Muito usado para a produção de esboços, a tinta preparada desse pigmento fosco é de um preto profundo, de excelente poder de cobertura, compatível com vários tipos de veículo (óleo de linhaça, água, gema etc.), sendo usado em praticamente todas as técnicas: têmpera, óleo, aquarela, entre outras. Tradicionalmente, na pintura chinesa, o nanquim é disponível em bastões que são friccionados em blocos de pedra com água, para serem diluídos. Para alguns artistas, até mesmo a forma de realizar essa fricção influencia no resultado final da pintura. Observe a figura a seguir. To ny Ya o/ iS to ck .c om Figura 8 – Nanquim sólido sendo diluído No Ocidente, é possível encontrar o nanquim em bastão ou líquido, sendo o último a forma mais comum, pois já vem preparado para ser aplicado com pincel, bico de pena ou canetas apropriadas. Na seguinte obra, o pintor francês Paul Signac mostra as pinceladas de tinta e aguada que formam a composição. Artes Visuais: Pintura 141 Fonte: SIGNAC, P. Moinhos de vento. 1906. Tinta da China e aguada: 29,9 x 37,7 cm. Figura 9 – Pintura com nanquim W ik im ed ia C om m on s 9.2.1 Suportes para nanquim e outros instrumentos Da mesma forma que na aquarela, a escolha de papéis para pintura com nanquim deve ser cuidadosa, devido à ação da água. Os papéis para aquarela geralmente produzem resultado satisfatório para todas as pinturas à base de água. Quanto aos pincéis, os orientais são os mais adequados para esse tipo de pintura, pro- duzindo linhas finas ou grossas, dependendo do tamanho das cerdas e da pressão exercida sobre elas. Os pincéis de pelo de marta são igualmente indicados, mas outros tipos de pincéis também podem ser utilizados. No caso de utilizar o pincel oriental, é necessário lembrar de que a sua posição correta de manuseio é a vertical, conforme mostra a Figura 10. sc 0r pi 0n ce /iS to ck .c om Figura 10 – Pintura oriental Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 142 Antes de iniciar uma pintura com nanquim, é apropriado treinar um pouco, fazendo alguns traços com o pincel, para se acostumar com o uso desse instrumento e sua forma de carregar o nanquim nas cerdas. Para isso, basta preencher algumas folhas de papel para rascunho com variedades de linhas (verticais, horizontais, inclinadas, redondas e curvas) e treinar algumas camadas de tons, com pinceladas longas, acrescentando água aos poucos. Para treinar a pressão sobre o pincel, o melhor exercício é fazer longas linhas, repetida- mente, finas, grossas e médias. Os pincéis orientais podem ser encontrados em diferentes tamanhos, para produzir uma variedade maior de traços, como mostra a figura a seguir. im ag ec re at or /iS to ck .c om Figura 11 – Pincéis orientais Após o uso, os pincéis e os outros instrumentos devem ser imediatamente lavados com água, pois o nanquim seca rapidamente, podendo danificar esses materiais, reduzin- do sua vida útil e prejudicando o resultado das pinceladas. Na aula de Arte Experimente propor a produção de um fundo em aguada para ser trabalhado depois de seco. Se houver possibilidade, cada um deve ter uma prancheta e um papel um pouco mais absorvente, de melhor qua- lidade. O papel deve ser preso à prancheta com fita crepe, em toda a borda. Se não for possível, verifique se o papel pode ser preso à mesa. Com uma trincha ou um pincel bem largo, oriente para que o pincel embebido de água (sem escorrer, tire o excesso na borda do pote) pin- cele faixas uniformes, de um lado ao outro, desde a parte de cima do papel até embaixo. Com o papel úmido, é hora de fazer o mesmo com a tinta diluída em água. O resultado fica melhor se a prancheta estiver levemente inclina- da, pois o excesso de água se acumulará na faixa final. A escolha das cores pode ser pessoal: monocromática, duas ou três cores etc., apenas Artes Visuais: Pintura 143 lembre-se de que depois haverá uma produção por cima desse fundo, en- tão as cores devem estar em harmonia com o que virá depois. Se possível, mostre alguns exemplos. Observe imagens de aguadas a seguir. Figura 12 – Aguada em azul Se pa ris a/ Sh ut te rs to ck M at ve ev _A le ks an dr /iS to ck .c om Figura 13 – Aguada em duas cores Outra possibilidade é fazer essa aguada variando os tons da mesma cor, começando com a cor intensa na primeira faixa e diluindo a tinta aos poucos em cada faixa seguinte. A faixa mais clara pode ser utiliza- da depois, em cima ou embaixo, tanto faz. A aguada também pode ser feita com o papel seco. É interessante produzir as duas formas diferentes e comparar os efeitos. Destacamos que fazer aguadas uniformes exige muita prática, portanto, nesse ex- perimento, todo resultado é válido, inclusive, as marcas que surgirem podem ser aproveitadas para uma pintura abstrata em seguida. Depois que a aguada secar, proponha uma produção pictórica com a aquarela sem diluir, ou uma pintura com nanquim sobre o fundo. Retire a fita crepe somente após a secagem completa do papel. Essa técnica de aguada pode ser feita também com nanquim, para de- pois pintar com giz branco, pastel ou desenhar com nanquim concentrado. Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 144 Considerações finais Seja nas pinturas tradicionais ou nas com os efeitos mais contemporâneos do uso des- sas duas técnicas tão antigas, não podemos nos esquecer de que elas proporcionam a explo- ração de um efeito bem específico, que é a participaçãodo fundo como elemento atuante da composição. Portanto, seja o tecido ou o papel, branco ou colorido, a pintura com aquarela ou nanquim permite a exposição desse fundo, tirando proveito dessas áreas no diálogo com os demais elementos. O suporte não precisa ser completamente coberto com tinta, pois o fundo também pode falar, ampliando o poder de intensidade e transparência. Ampliando seus conhecimentos • KANTA Harusaki watercolor. 17 mar. 2018. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=eryNsPAVEos. Acesso em: 8 mar. 2019. O vídeo mostra rapidamente todo o processo de uma pintura em aquarela, uti- lizando diversos recursos para produção de efeitos, como a técnica da aguada, o borrifar de água e as pinceladas com pincel japonês. • INSTINTO Mangaká. Aguada de nanquim: dica de desenho. 25 jan. 2019. Disponível em: http://www.instintomangaka.com/aguada-de-nanquim-dica-de- desenho/. Acesso em: 8 mar. 2019. A página é direcionada à produção de desenhos japoneses em forma de mangá e apre- senta um vídeo que ensina a fazer aguada com nanquim para preencher o desenho. • MUTARELLI, L. Técnica de desenho em nanquim. Sesc – São Paulo, 24 fev. 2017. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/10720_ TECNICA+DE+DESENHO+EM+NANQUIM. Acesso em: 8 mar. 2019. O vídeo é breve e mostra o processo de uma pintura em nanquim. O profissional abre sua maleta e apresenta os materiais que serão utilizados, entre eles, pincéis de cerda finíssima. Artes Visuais: Pintura 145 Atividades 1. Quais são as principais características de um papel adequado para a pintura em aquarela? 2. Destaque algumas características do pigmento base utilizado na produção da tinta nanquim. 3. Quais são as principais características comuns entre as pinturas com aquarela e nanquim? Referências BARKER, E. E. Watercolor painting in Britain, 1750-1850. Heilbrunn Timeline of Art History. Nova York: Metropolitan Museum of Art, 2000. Disponível em: http://www.metmuseum.org/toah/hd/ bwtr/hd_bwtr.htm. Acesso em: 10 mar. 2019. BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. PEDROSA, I. Universo da cor. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2003. PIGMENTS trough the ages. Intro to the blacks. Disponível em: http://www.webexhibits.org/pig- ments/intro/blacks.html. Acesso em: 7 mar. 2019. Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista Já eu, passei dos objetos para o signo. Em meu espírito, o papel recortado não implica em uma condenação da pintura a óleo. Esses dois modos de expressão, a meu ver, são igualmente válidos. (MATISSE, 2016, p. 16) Na página anterior: SCHWITTERS, K. Hitler gang. c.1944. Técnica mista: 34,7 x 24,5 cm. Coleção privada. Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 148 A abordagem deste capítulo será referente a duas técnicas de pintura amplamente utilizadas. A primeira é popular entre os artistas da atualidade, devido às diversas vanta- gens que proporciona; a segunda é extremamente popular nas escolas desde a educação infantil, o que não a torna inferior, pois também apresenta grande variedade de possibili- dades exploradas por profissionais. Vamos falar sobre as tintas acrílica e guache, suas características e possibilidades. As duas são à base de água: uma é moderna, e atende às necessidades do artista da época atual; e a outra é antiga, utilizada na pintura do século XVIII. Além delas, será discutida a possibilidade de misturar técnicas pictóricas completa- mente diferentes em um mesmo trabalho. Será possível que técnicas surgidas em épocas tão diversas sejam capazes de se complementar e criar novas possibilidades de efeitos que enriquecem uma produção? Vamos primeiro conhecer melhor cada uma delas, para de- pois verificar do que se trata a técnica mista e como podem acontecer essas misturas. 10.1 Tinta acrílica De acordo com Mayer (1996), a busca incessante dos artistas por no- vas possibilidades expressivas impulsionou, ao longo do tempo, as pesqui- sas e a fabricação de melhores produtos artísticos e novas opções de tra- balho. Assim aconteceu desde o início da história das técnicas artísticas. Lembremo-nos do uso da têmpera a ovo, que satisfez plenamente durante séculos, até surgirem novas necessidades, que geraram a criação da tinta a óleo, quando os próprios artistas começaram a acrescentar gotas de óleo nas têmperas. O óleo e o pigmento já existiam há muito tempo, mas foi no período renascentista que os artistas os misturaram e impulsionaram o surgimento de um novo tipo de tinta. Da mesma forma, a tinta acrílica, cuja criação é recente (data de meados do século XX), é resultado dessa busca dos artistas por novas combinações de elementos que possam ser manipulados e expressar suas ideias. Cada vez mais os profissionais da arte se envol- vem em pesquisas acerca de substâncias e misturas químicas, com o intuito de encontrar novas formas expressivas. A tinta acrílica tem uma história muito recente, portanto, não é possível avaliar sua permanência ao longo dos anos, mas por enquanto ela tem atendido às expectativas, sem tornar-se amarelecida. Segundo Barreto (2011), “a resina acrílica e o acetato de polivinila (PVA) são políme- ros, ou compostos formados por sucessivas aglomerações de grande número de moléculas fundamentais”. A tinta acrílica consiste no pigmento suspenso em um aglutinante de uma emulsão de polímero acrílico. Vídeo Artes Visuais: Pintura 149 De acordo com Mayer (1996), as resinas acrílicas foram produzidas em laboratório em 1901, na Alemanha, e começaram a ser comercializadas por volta de 1930. Barreto (2011) destaca que sua inserção na pintura artística relaciona-se com o período do movi- mento artístico Muralismo Mexicano, que se iniciou em torno de 1920, quando se buscava uma tinta mais adequada às condições climáticas do México para a pintura mural. Assim, artistas e cientistas se uniram para experimentar a junção de pigmentos com as resinas acrílicas, obtendo resultados satisfatórios, principalmente na produção mural de David Alfaro Siqueiros (1896-1974). A tinta acrílica é solúvel em água, de secagem rápida, e quando a água evapora, ori- gina uma superfície protegida por uma película plástica permanente e resistente, que adere bem ao suporte e às outras camadas. Essa tinta permite a aplicação de outras camadas por cima, mas após a secagem não há como interferir no que já foi aplicado, a não ser por meio de raspagem. Nesse ponto, difere do óleo, que possui a secagem lenta, permitindo interfe- rências por muito tempo. A tinta acrílica aproxima-se da tinta a óleo na flexibilidade das pinceladas e no bri- lho, apesar de essa última apresentar brilho mais intenso. Os pigmentos utilizados são os mesmos para as duas técnicas e a cada dia novos são criados. A tinta a óleo pode ser aplicada sobre a tinta acrílica, seguindo a regra da camada gorda sobre a camada magra. Essa regra não pode ser esquecida, portanto será relembrada ao abordarmos a produção pictórica em técnicas mistas. Quando aplicada à técnica de aguada, a acrílica assemelha-se à aquarela, assim como quando o artista deseja criar efeitos de transparência ou os efeitos básicos das tintas solú- veis em água de modo geral. Mas quando aplicada no suporte, a solubilidade da acrílica assemelha-se mais à têmpera do que à aquarela. Além de não ser tóxica, a tinta acrílica também apresenta a vantagem de ser adequa- da a qualquer suporte. As telas podem ser preparadas da mesma forma que para a tinta a óleo, com um fundo de gesso acrílico. Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 150 Ka tja ba ku ro va /iS to ck .c om Figura 1 – Tinta acrílica em tubos A tinta acrílica pode ser encontrada em tubos (Figura 1) ou potes (alguns artistas consideram a tinta do pote mais fluida) e aplicada com pincel ou espátulas, pois permite certo empastamento, criando um efeito de relevo na pintura.Observe na Figura 2 um em- pastamento na concentração da cor branca e, logo abaixo, em cor verde. De nK uv ai ev /iS to ck .c om Figura 2 – Pintura com tinta acrílica Todos os materiais utilizados com acrílica devem ser lavados com água após o uso, e os pincéis devem ficar sempre em vidros com água durante a pintura, devido à secagem rápida da tinta. Se a paleta não for limpa logo após o uso, a tinta acrílica seca se transforma em uma massa plástica insolúvel, que deve ser raspada com a espátula. O pintor Victor Vasarely (1906-1997) explorou a pintura em acrílica com cores mais chapadas. Outros artistas que se destacam com trabalhos nessa técnica são: Rothko (1903- -1970), Morris Louis (1912-1962), Frank Stella (1936) e o brasileiro Glauco Rodrigues (1929-2004). Artes Visuais: Pintura 151 10.2 Tinta guache A tinta guache consiste na mistura dos mesmos ingredientes que a aquarela – pigmento, aglutinante e água –, acrescidos de uma carga, que pode ser o carbonato de cálcio ou giz, responsável pelo maior poder de opacidade que a tinta apresenta. Por isso, a tinta guache é considerada uma aquarela opaca e também é chamada de têmpera guache. Para produzir a tinta guache, os pigmentos não precisam ser tão moídos quanto na aquarela, pois não ne- cessitam ser tão finos, e a quantidade de aglutinante utilizada é muito maior. Figura 3 – Pintura em guache KLEE, P. Jardins do templo. 1920. Guache sobre três folhas de papel: 23,8 × 30,2 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. W ik iA rt Observe na Figura 3 como Klee aplica as cores em tinta guache. O poder de cober- tura da tinta deve ser total, bem adequado para pinceladas lisas e uniformes, capaz de co- brir amplas áreas de cores chapadas. Portanto, uma cor pode cobrir outra completamente. Além disso, a tinta possibilita a produção de texturas e pinceladas variadas, como destaca Mayer (1996, p. 369): Uma pintura a guache pode, se a pessoa assim o desejar, ser pintada em campos de cor deliberadamente aplicados, lisos e impecáveis, e com linhas precisas; porém, o uso que normalmente se dá ao guache é o de uma pintura com efeitos livres, de fluidez espontânea, ou de pinceladas fortes e vistosas. Vídeo Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 152 A pintura com tinta guache pode ser explorada de diversas formas, como destaca Barreto (2011, p. 73), “é possível criar superfícies aveludadas e transparentes, trabalhar o úmido sobre úmido, úmido sobre seco, variando pinceladas marcadas em diferentes for- matos”. Nesta obra (Figura 4), o pintor Paul Klee utiliza a tinta pulverizada sobre o papel. Figura 4 – Guache pulverizado KLEE, P. Pássaro vagando. 1926. Guache pulverizado sobre papel: 40,3 x 48,6 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. W ik iA rt O suporte geralmente utilizado é o pa- pel, normalmente de textura menos áspera do que o usado para aquarela. Muitos artis- tas pintam com guache sobre uma aquarela, sendo seu uso muitas vezes associado a ou- tras técnicas em um mesmo trabalho. O uso da tinta mais empastada exige muita cautela, pois grande quantidade de gua- che empastado tende a rachar após a secagem. O termo guache remete à França do sé- culo XVIII, quando a técnica era popular en- tre os artistas do período rococó – como na pintura de Baudouin (Figura 5) –, mas seu uso já era comum em iluminuras medievais e na antiguidade egípcia (BRITANNICA, 2019). Figura 5 – Pintura rococó em guache Fonte: BAUDOUIN, P. A. A noite. 1723-1769. Guache sobre papel: 25,9 x 20 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Artes Visuais: Pintura 153 A tinta guache é encontrada no comércio em tubos ou potes, mas pode também ser produzida artesanalmente, de acordo com a seguinte receita (BARRETO, 2011): Misturar: 2 partes de goma arábica (xarope), 2 partes de carga (carbonato de cálcio), 5 a 10% de mel e glicerina, 1% de fungicida e pigmento em pó. As tintas devem ser guardadas em potes fechados com tampa de rosca e verificadas com frequência para não mofar ou secar. Caso esteja ficando mais espessa, deve-se acrescentar um pouco de água ao frasco. 10.3 Técnica mista O artista está sempre em busca de melhores formas de se expressar, materiais mais adequados, novas técnicas e formas de inovar as já conhe- cidas. Essa atitude impulsiona a buscar melhores materiais e novidades no campo da arte e a experimentar sempre, descobrindo novas combinações entre técnicas, materiais e instrumentos. Todas as informações sobre as formas de trabalho antigas chegaram até nós por meio dos registros de artistas, seus cadernos de notas, apontamentos e pesquisas. Por isso, pode- mos aproveitar a experiência do passado para criar novas possibilidades. Devido à capacidade que os artistas têm de experimentar o novo, e muitas vezes ou- sar, hoje temos conhecimento das variadas possibilidades de combinações entre técnicas diferentes em um mesmo trabalho. Quando o artista utiliza mais de uma técnica na mesma produção, pode-se chamar de técnica mista. Muitos artistas fizeram uso da técnica mista em seus trabalhos, principalmente quando produziam pinturas em aquarela, guache e giz, que proporcionam efeitos muito complementares entre si. Edgar Degas foi um que explorou a técnica mista em muitas de suas produções, como esta da figura a seguir. Vídeo Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 154 Fonte: DEGAS, E. Dançarinas praticando na barra. 1877. Mídia mista sobre tela: 75,6 x 81,3 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Figura 6 – Técnica mista Degas utilizou muito o pastel oleoso sobre o pastel seco e a aquarela com guache, influenciando também sua amiga, a pintora Mary Cassat (1844-1926), que também uniu essas duas técnicas na seguinte pintura (Figura 7). Fonte: CASSATT, M. Retrato da artista. 1878. Aquarela e guache sobre papel: 60 x 41,1 cm. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque. Figura 7 – Aquarela e guache Artes Visuais: Pintura 155 Mas com Pablo Picasso (1881-1973), por volta de 1912, cresceu a liberdade para unir não apenas técnicas de pintura, mas também outras formas de expressão em uma obra pictórica. Picasso utilizou muito colagens, pintando por baixo ou por cima de papéis ou outros objetos colados. Daí surgiu o termo papier collé, designando essa prática de colagem em desenhos e pinturas (ART TERMS, 2019). Picasso e seu amigo Georges Braque (1882- -1963) exploraram as colagens em suas obras de forma bem variada, aproveitando textos e texturas de jornais, papéis de presente, papelão etc. A partir daí, com o cubismo e as demais vanguardas, diversos artistas ousaram e passaram a produzir novas combinações entre mídias e materiais (ART TERMS, 2019). Entre eles, estão Kurt Schwitters (1887-1948), Chris Ofili (1968), Beatriz Milhazes (1961) e Max Ernst (1891-1976), que trabalhou com a aplicação de objetos tridimensionais em suas produções. Agora observe a Figura 8, de autoria do artista plástico Kurt Schwitters. Fonte: SCHWITTERS, K. Merz Figura 32 A. O quadro de cereja. 1921. Papel cortado e colorido, impresso, tecido, madeira, metal, cortiça, óleo, lápis e tinta: 91,8 x 70,5 cm. Museu de Arte Moderna (MoMA), Nova Iorque. Figura 8 – Técnica mista papier collé: termo em francês para “papel colado”. Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 156 Nessa obra, Schwitters combina colagens e pintura, utilizando palavras (cereja, em alemão e em francês) e imagens impressas, além de pedaços de tecido e cortiça. Os pedaços de papéis mais escuros estão por trás, para dar sensação de profundidade. As pinceladas coloridas também são visíveis ao aproximar o olhar sobre a imagem (MOMA, 2019b). Na aula de Arte Proponha uma produção em técnica mista, após apresentar algu- mas técnicas de pintura previamente, como as que vimos anterior- mente, mostrando exemplos de obras de arte. Dessa maneira, a turma terá repertório suficiente para escolher quais técnicas gostaria de usar para se expressar, tornando a escolha da produçãomais consciente das especificidades de cada opção e de acordo com a vontade pessoal e afinidade com os materiais. Outra opção é solicitar a criação de um fundo pintado (com tinta acrí- lica ou guache, por exemplo) para que sejam coladas algumas figuras retiradas de jornais e revistas, formando uma composição equilibrada de formas e cores, abstrata ou figurativa. O fundo pode ser feito com uma ou mais cores, formando ou não um cenário, o que importa é que seja harmonioso com as colagens. Após a finalização, dê sugestões de novas interferências para sobrepô-las, fazendo os acabamentos com giz, pastel, carvão, tinta, lápis de cor ou hidrocor. Exponha os trabalhos destacando quantas técnicas foram utilizadas em cada produção e explique o termo técnica mista. Aproveite para mos- trar obras de diferentes artistas e períodos com essa técnica. A obra de Max Ernst é fonte de uma inspiração rica para um trabalho de motivação. Considerações finais Apresentamos e comparamos diversas técnicas de pintura com o objetivo de desta- car as especificidades e possibilidades de cada uma, sem deixar de lembrar que todas as técnicas são importantes, cabendo ao artista definir qual será mais adequada para atender a sua expressão. Não se trata de substituir uma técnica por outra, mas sim de verificar qual responderá melhor em cada situação. Experimentar cada técnica e observar obras de ar- tistas é o segredo para o desenvolvimento de um conhecimento crítico e para a construção de uma bagagem de conteúdos que poderá ser utilizada em aula. Para isso, o professor não deve ter medo de experimentar, pois, além disso, descobrir junto aos alunos faz parte de um processo de aprendizagem conjunta. Boas aulas! Artes Visuais: Pintura 157 Ampliando seus conhecimentos • MET MUSEUM. Gouache. Timeline of Art History. Disponível em: https://www. metmuseum.org/toah/keywords/gouache/. Acesso em: 13 mar. 2019. A página do Museu Metropolitano de Arte, em Nova Iorque, apresenta uma lista de pinturas produzidas em tinta guache e técnica mista, mostrando um panorama de diferentes formas de abordar as técnicas ao longo dos anos. • MET MUSEUM. Mixed media. Timeline of Art History. Disponível em: https:// www.metmuseum.org/toah/keywords/mixed-media/. Acesso em: 15 mar. 2019. Essa página, também do Museu Metropolitano de Arte, em Nova Iorque, traz so- mente obras em técnica mista, ou mixed media (termo em inglês). Consta na lista um trabalho da brasileira Beatriz Milhazes. • THE LANDSCAPE remade, Thiebaud's Ponds and Streams. Disponível em: https://youtu.be/yehqkifeEFU. Acesso em: 13 mar. 2019. O vídeo é um passeio pela pintura em acrílico de Wayne Thiebaud, mostrando detalhes das pinceladas e efeitos produzidos pelo artista. A tradução automática para o português permite o entendimento dos tópicos abordados na discussão entre profissionais narradores. Atividades 1. Quais são as diferenças e as semelhanças entre a tinta acrílica e a tinta a óleo? 2. Quais são as características em comum entre a tinta guache e a aquarela? 3. Para uma produção pictórica envolvendo as técnicas de pintura a óleo e guache, qual regra deve ser obedecida? Referências ART TERMS. Tate. Disponível em: https://www.tate.org.uk/art/art-terms. Acesso em: 14 mar. 2019. BARRETO, L. Oficina de pintura: materiais, fórmulas, procedimentos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2011. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Gouache. Disponível em: https://www.britannica.com/art/ gouache. Acesso em: 14 mar. 2019. Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 158 MOMA. Max Ernst. Disponível em: https://www.moma.org/collection/works/79293?artist_ id=1752&locale=pt&page=1&sov_referrer=artist. Acesso em: 16 mar. 2019a. MOMA. Kurt Schwitters. Disponível em: https://www.moma.org/collection/works/33356?artist_ id=5293&locale=pt&page=1&sov_referrer=artist. Acesso em: 16 mar. 2019b. MATISSE, H. Jazz. Catálogo de exposição. Curitiba: Caixa Cultural de Curitiba, 2016. MAYER, R. Manual do artista: de técnicas e materiais. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Gabarito 1 Introdução ao estudo da pintura 1. A pintura é uma manifestação artística que representa formas figurativas ou abstratas, originando uma composição por meio da técnica de aplicar cores sobre um suporte. 2. É uma pintura de gênero, pois representa uma cena da vida diária, uma cena de in- terior, do cotidiano, um ambiente de trabalho. 3. Cor, luz e sombra, linhas e texturas. 2 Elementos de uma composição 1. Entre os principais movimentos de arte moderna com representação do equilíbrio simé- trico estão o abstracionismo, o neo-plasticismo e o suprematismo. Por exemplo: Tr et ya ko v G al le ry /W ik im ed ia C om m on s Fonte: MALEVICH, Kazimir S. Quadrado Negro. 1915. Óleo sobre tela: 79,5 x 79,5 cm. Galeria Tretyakov, Moscou, Rússia. Gabarito 161 W ik iA rt Fonte: HARTLEY, Marsden. Pintura n. 50. 1915. Óleo sobre tela: 79,5 x 79,5 cm. Galeria Tretyakov, Moscou, Rússia. 2. A composição pode ser bem simples, nos moldes de desenhos infantis, figurativo ou abstrato, mas deve apresentar variedade de linhas e demonstrar a noção de equilíbrio. Fonte: Elaborada pela autora. 3. A imagem pode conter a numeração referente ao elemento identificado. Por exemplo: 1. linhas retas e quebradas; 2. volume; 162 Artes Visuais: Pintura 3. forma geométrica: retângulo; 4. ritmo (traçar linha ou forma numerada); 5. linha curva; 6. luz. W ik im ed ia C om m on s 6 5 4 2 1 3 Fonte: Adaptado de BONDONE, Giotto di. Encontro de Joaquim e Ana na porta dourada. 1305. Afresco: 200 x 185 cm. Capela Scrovegni, Itália. 3 Iniciando o estudo da cor 1. Leon Battista Alberti foi o primeiro a registrar por escrito sua teoria sobre cores. Leonardo Da Vinci registrou seus estudos sobre luz e sombra, relacionando-os à cor. Isaac Newton formulou a ideia do disco cromático. Johan Von Goethe publicou o livro Teoria das cores. Gabarito 163 2. São as cores que, misturadas entre si, formam todas as outras cores do espectro solar e apresentam forte independência com relação às outras. 3. Pode ser um dos seguintes pares: vermelho e verde, azul e laranja, amarelo e violeta que estão em lados opostos no círculo cromático e criam uma relação complementar entre as duas. 4 Os suportes pictóricos 1. O corpo, nas representações da body art e ao ser explorado como meio de expressão e matéria nas apresentações de happenings ou performances, como na produção de Lygia Clark, que utilizou o próprio corpo em suas produções. Marcas, incisões e queimaduras também são formas de body art. 2. Convencionalmente, nas paredes ou nos muros. Mas a expressão extrapolou o con- vencional e chegou ao ônibus, aos metrôs etc. 3. Pessoal. Pode ser qualquer um dos suportes apresentados ou um suporte alternati- vo, o que importa é que seja possível realizar uma composição pictórica tomando o objeto como suporte. Por exemplo, a pintura em um pneu velho permite a explora- ção do material e do seu formato. Outros suportes inusitados: cano de PVC, tampas de panelas, calçados etc. 5. Pincéis e outros instrumentos 1. As espátulas de pintura permitem a aplicação de tinta grossa ou massa para a criação de textura tátil. Com esse instrumento também é possível fazer raspagens direta- mente na tela. 2. Pincel de penas. • Cabo: palito de churrasco. • Pelos: penas. • Virola: linha ou barbante. Para a montagem, organize um tufo de penas em uma das extremidades do palito, segurando firmemente e enrolando o barbante em torno do palito, amarrando as penas. Dê nós até verificar que estão bem seguros. Passe cola de silicone no barbante, para maior segurança. 3. Aerografia é a pintura borrifada ou pulverizada, utilizando um aparelho denomina- do aerógrafo. 164 Artes Visuais: Pintura 6 O preparo da tinta: pigmentos 1. Pigmentos são matérias coloridas, cuja origem pode ser animal, vegetal ou mineral. Con- sistem em um pó fino que confere cor ao ser misturado com outro material. A tinta é a mistura dessespigmentos (cores em pó) com um líquido que lhes serve de veículo. 2. Iniciou-se nos primórdios da humanidade, com a busca por elementos naturais que, misturados entre si, produziam cores para a expressão gráfica. Com o avanço tecnoló- gico, a Revolução Industrial e as descobertas científicas, foi possível produzir tintas in- dustrialmente, proporcionando maior variedade de cores e qualidade para os artistas. 3. • O jenipapo, ao ser ralado, e a massa, ao ser espremida, fazem escorrer o líquido que produzirá a tinta. • O urucum pode ser cozido, suas sementes esfregadas nas mãos ou ainda mistura- das com óleos ou gorduras. • As pedras coloridas são esfregadas com outra pedra e água. • A entrecasca do ingá é ralada, e a massa é misturada com água. 7 Técnicas tradicionais de pintura: têmperas e tinta a óleo 1. Empastamento, transparência, velatura, opacidade. Van Gogh trabalhou com em- pastamentos e Leonardo da Vinci explorou as velaturas. 2. A encolagem pode ser feita com uma camada de base acrílica na tela. Após a seca- gem, deve ser feita a imprimadura, isto é, preparar o fundo com duas ou três demãos de gesso acrílico. 3. Secagem rápida e permanência das cores, que não amarelam e nem desbotam depois da pintura seca. 8 Técnicas de pintura com lápis: pastel e lápis de cor 1. O pastel seco é produzido com quantidade muito reduzida de aglutinante não gor- duroso, enquanto que o pastel oleoso é fabricado com uma quantidade considerável de óleo de linhaça. O resultado final do pastel oleoso é muito próximo ao da tinta a óleo, diferentemente do pastel seco, que apresenta uma superfície mais aveludada. 2. O lápis de cor não sujava as mãos, já que vinha protegido por uma camada de madei- ra, além disso, o poder de permanência das cores era muito mais alto. 3. Degas trabalhou com sobreposições de camadas sobre pintura a têmpera e entre pastéis fixados e não fixados. Gabarito 165 9 Técnicas de pintura com aguadas: aquarela e nanquim 1. Papéis feitos à mão são os melhores. A quantidade de cola no papel deve ser adequa- da, sem excesso (senão não absorverá água suficiente), nem falta (senão absorverá toda a água). Devem ser livres de acidez, de produtos químicos e alvejantes. Podem ser texturizados. 2. A tinta nanquim é produzida a partir de um pigmento fosco, que apresenta um preto profundo, de grande poder de cobertura. Pode ser misturada com óleo de linhaça, água, gema etc. para produzir tintas como têmpera, óleo, aquarela, entre outras. 3. Ambas são pinturas à base de água, solúveis em água. Podem ser produzidas com efeitos de aguadas, isto é, acrescentando água para diluir a tinta. Podem também ser utilizadas sem a diluição em água, aplicadas direto com o pincel. Nas duas técnicas, o fundo pode aparecer, fazendo parte da composição. 10 Pintura com tinta acrílica, guache e a técnica mista 1. A acrílica é uma tinta de secagem muito rápida, criada no século XX, enquanto a óleo demora meses para secar e começou a ser utilizada no período do Renascimento. Am- bas apresentam brilho, mas o da tinta a óleo é muito mais intenso. Os pigmentos uti- lizados são os mesmos para as duas, e ambas podem ser aplicadas sobre tela. A tinta a óleo pode ser aplicada sobre a tinta acrílica, mas o inverso não pode ocorrer. 2. Ambas são produzidas a partir dos mesmos elementos, porém a tinta guache recebe também uma carga que lhe confere a opacidade, diferente da aquarela, que é trans- parente. Ambas podem ser trabalhadas com aguadas, transparências e opacidades, respeitando o limite de efeitos de cada uma. Uma técnica pode completar a outra, sendo trabalhadas juntas em uma mesma pintura. 3. Para o uso da técnica mista em que se trabalha essas duas tintas, deve-se primeiro pintar com guache, para depois da secagem aplicar a pintura a óleo, obedecendo a regra da camada gorda sobre a camada magra, isto é, da tinta à base de óleo sobre a tinta à base de água. Código Logístico 58549 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6477-9 9 788538 764779 ARTES VISU AIS PIN TU RA VAN IA M ARIA AN DRADE Página em branco Página em branco