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AINE- ANTI-INFLAMATÓRIO NÃO ESTEROIDAL A inflamacã̧o é uma resposta normal de protecã̧o às lesões teciduais causadas por trauma fiśico, agentes quiḿicos ou microbiológicos nocivos. E ́a tentativa do organismo de inativar ou destruir os organismos invasores, remover os irritantes e preparar o cenário para o reparo tecidual. Quando a recuperacã̧o está completa, normalmente o processo inflamatório cessa. Entretanto, a inflamacã̧o também pode advir da ativacã̧o imprópria do siste- ma imune, resultando em doenca̧s imunomediadas, como a artrite reumatoi- de (AR) Normalmente, o sistema imune distingue o que é próprio do que é estranho. ANTI-INFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES Os AINEs são um grupo de fármacos quimicamente heterogêneos que se diferenciam na sua atividade antipirética, analgésica e anti-inflamatória. A classe inclui derivados do ácido saliciĺico (ácido acetilsaliciĺico [AAS], difluni- sal e salsalato), do ácido propiônico (ibuprofeno, fenoprofeno, flurbiprofeno, cetoprofeno, naproxeno e oxaprozina), do ácido acético (diclofenaco, etodo- laco, indometacina, cetorolaco, nabumetona, sulindaco e tolmetina), do áci- do enólico (meloxicam e piroxicam), de fenamatos (ácido mefenâmico e melofenamato) e do inibidor COX-2 seletivo (celecoxibe). Eles atuam, principalmente, inibindo as enzimas cicloxigenase que catalisam o primeiro estágio da biossińtese de prostanoides. Isso leva à reducã̧o da sińtese de PGs, com efeitos desejados e indesejados. e analgésico dos AINEs, ao passo que a inibicã̧o da COX-1 é responsável pela prevencã̧o dos eventos cardiovasculares e pela maioria dos eventos adversos.) A. Ácido acetilsaliciĺico e outros anti-inflamatórios não esteroides O AAS pode ser considerado um AINE tradicional, mas ele apresenta efeito anti-inflamatório apenas em dosagens relativamente altas, rara- mente usadas. Ele é mais usado em dosagens baixas para a preven- cã̧o de eventos cardiovasculares, como o acidente vascular encefálico (AVE) e o infarto do miocárdio (IM). O AAS é diferenciado dos outros AINEs, frequentemente, por ser um inibidor irreversiv́el da atividade da cicloxigenase. 1. Mecanismo de acã̧o: O AAS é um ácido orgânico fraco que aceti- la irreversivelmente e, assim, inativa a cicloxigenase Todos os outros AINEs são inibidores reversiv́eis da cicloxigenase. Os AINEs, inclusive o AAS, realizam três acõ̧es terapêuticas princi- pais: reduzem a inflamacã̧o (afeito anti-inflamatório), a dor (efeito analgésico) e a febre (efeito antipirético) . Entretanto, como será explicado mais adiante, nem todos os AINEs são igualmente potentes em cada uma dessas acõ̧es. a. Acã̧o anti-inflamatória: A inibicã̧o da cicloxigenase diminui a formacã̧o de PGs e, assim, modula os aspectos da inflamacã̧o nos quais as PGs atuam como mediadoras. Os AINEs inibem a inflamacã̧o na artrite, mas não evitam o avanco̧ da doenca̧ nem induzem remissão. b. Acã̧o analgésica: Acredita-se que a PGE2 sensibiliza as termi- nacõ̧es nervosas à acã̧o da bradicinina, da histamina e de outros mediadores quiḿicos liberados localmente pelo processo inflamatório. Assim, diminuindo a sińtese de PGE2, a sensacã̧o de dor pode diminuir. Como a COX-2 é expressa durante inflamacõ̧es e lesões, parece que a inibicã̧o dessa enzima é res- ponsável pelo efeito analgésico dos AINEs. Nenhum AINE de- monstrou eficácia superior aos demais (a eficácia de todos eles é considerada, em geral, equivalente). Os AINEs são usa- dos, principalmente, para combater dores de leves a moderadas originadas de distúrbios musculosqueléticos. Uma exce- cã̧o é o cetorolaco, que pode ser usado contra dores mais graves, mas por um curto periódo.. c.Acã̧o antipirética: A febre ocorre quando o “ponto de referência” do centro termorregulador hipotalâmico anterior é aumen- tado. Isso pode ser causado pela sińtese da PGE2, que é esti- mulada quando agentes endógenos causadores de febre (pirógenos), como as citocinas, são liberados pelos leucócitos ativados por infeccã̧o, hipersensibilidade, câncer ou inflama- cã̧o. Os AINEs diminuem a temperatura corporal em pacientes febris, impedindo a sińtese e a liberacã̧o da PGE2. Esses fármacos, essencialmente, recolocam o “termostato” no normal. Isso rapidamente baixa a temperatura corporal de pacientes febris, aumentando a dissipacã̧o do calor como resultado da vasodilatacã̧o periférica e da sudoracã̧o. Eventos adversos: Devido aos eventos adversos associados enumerados a seguir, é preferiv́el usar os AINEs na menor dosagem eficaz e pelo menor tempo possiv́el. a.Efeitos GI: Os efeitos adversos mais comuns dos AINEs são relacionados ao TGI, variando desde dispepsia até sangramento. Normalmente, a produção de PGI2 inibe a secrecã̧o de ácido gástrico, e a PGE e a PGF α estimulam a sińtese de muco protetor no estômago e no intestino delgado. Fármacos que inibem a COX-1 diminuem os niv́eis benéficos dessas PGs, resultando em aumento da secrecã̧o de ácido gástrico, diminui- cã̧o da protecã̧o da mucosa e aumento do risco de sangramen- to GI e ulceracõ̧es. Fármacos com maior seletividade relativa para a COX-1 podem ter maior risco de eventos GI se compara- dos àqueles com menor seletividade pela COX-1 (isto é, maior seletividade pela COX-2). Os AINEs devem ser tomados com alimento ou liq́uido para diminuir o desconforto GI. Se os AINEs forem usados em pacientes com risco alto de eventos GI, inibi- dores da bomba de prótons ou misoprostol devem ser usados concomitantemente para prevenir úlceras induzidas pelos AINEs. Aumento do risco de sangramentos (efeito antiplaquetá-rio): O TXA2 aumenta a aglutinacã̧o das plaquetas, ao passoque a PGI2 a reduz. O AAS inibe irreversivelmente a formacã̧o de TXA mediada por COX-1, e outros AINEs a inibem reversivelmente. Como as plaquetas não possuem núcleo, elas não podem sintetizar novas enzimas quando inibidas pelo AAS, e a falta de tromboxano persiste durante toda a vida da plaqueta (3-7 dias). Como resultado da diminuicã̧o de TXA2, a aglutinacã̧o plaquetária (o primeiro estágio da formacã̧o do trombo) é reduzida, produzindo efeito antiplaquetário com aumento do tempo de sangramento. Por esse motivo, o uso do AAS é suspenso ou não é administrado por pelo menos uma semana. antes de uma cirurgia. Além do AAS, outros AINEs não são usados por seu efeito antiplaquetário, mas podem prolongar o tempo de sangramento. (Nota: conforme os fármacos se tor- nam mais seletivos para a COX-2, espera-se menor efeito na inibicã̧o plaquetária e no tempo de sangramento.) Os AINEs podem bloquear a ligacã̧o do AAS à cicloxigenase se forem usados simultaneamente. Pacientes que usam AAS para a cardioprotecã̧o devem evitar, se possiv́el, o uso concomitante de AINEs. Acã̧o sobre os rins: Os AINEs previnem a sińtese de PGE2 e PGI2, PGs responsáveis pela manutencã̧o do fluxo sanguińeo renal. A diminuicã̧o da sińtese de PGs pode resultar na retencã̧o de sódio e água e, consequentemente, causar edema em alguns pacientes. Pacientes com histórico de insuficiência cardiáca ou doenca̧ renal estão sob maior risco. Esses efeitos também podem diminuir o efeito benéfico dos anti-hipertensivos. Efeitos cardiácos: Fármacos como o AAS, com alto grau de seletividade pela COX-1, mostraram efeito protetor cardiovascular provavelmente devido à reducã̧o na producã̧o de TXA2. Fármacos com maior seletividade relativa para a COX-2 são associados ao aumento do risco de eventos cardiovasculares, possivelmente por diminuir a producã̧o de PGI2 mediada pela COX-2. O aumento do risco de eventos cardiovasculares, incluindo IM e AVE, é associado a todos os AINEs, com excecã̧o do AAS. O uso de AINE, exceto AAS, é desaconselhado em pacientes com doenca̧cardiovascular estabelecida. Para pa- cientes com doenca̧ cardiovascular nos quais o tratamento com AINEs não pode ser evitado, o naproxeno parece ser o menos prejudicial. O uso de AINEs deve ser limitado à menor dosagem e à menor duracã̧o possiv́eis. Outros efeitos adversos: Os AINEs são inibidores da cicloxigenase e, por isso, inibem a sińtese de PGs, mas não a de eucotrienos. Por essa razão, os AINEs devem ser usados com cautela em pacientes com asma, pois a inibicã̧o da sińtese de PGs pode causar desvio em direcã̧o à producã̧o de leucotrienos e, consequentemente, aumentar manifestacõ̧es de asma. Podem ocorrer eventos adversos no sistema nervoso central (SNC), como cefaleia, zumbidos e tonturas. Aproximadamente 15% dos pacientes tratados com AAS apresentam reacõ̧es de hipersensibilidade. Os sintomas da alergia verdadeira incluem urticária, broncoconstricã̧o e angioedema. O choque anafilático fatal é raro. Pacientes com hipersensibilidade grave ao AAS devem evitar usar AINEs. Celecoxibe O celecoxibe é um inibidor seletivo da COX-2, significativamente mais seletivo para inibir a COX-2 do que a COX-1. Ao contrário da inibicã̧o da COX-1 pelo AAS (que é rápida e irreversiv́el), a inibicã̧o da COX-2 é reversiv́el. Efeitos adversos: Cefaleia, dispepsia, diarreia e dor abdominal são os efeitos adversos mais comuns do celecoxibe. PARACETAMOL (ACETAMINOFENO) O paracetamol (N-acetil-p-aminofenol, ou APAF) inibe a sińtese das PGs no SNC. Isso explica suas propriedades antipiréticas e analgésicas. O paracetamol exerce menor efeito sobre as cicloxigenases nos tecidos periféricos devido à inativacã̧o periférica, o que contribui para a sua fraca atividade anti- inflamatória. Esse fármaco não afeta a funcã̧o plaquetária nem aumenta o tempo de sangramento. O paracetamol não é considerado um AINE. Efeitos adversos Em dosagens terapêuticas normais, o paracetamol é praticamente livre de efeitos adversos significativos. Em dosagens altas, a glutationa disponiv́el no fiǵado se esgota, e a NAPQI reage com o grupo sulfidrila das proteińas hepáticas, formando ligacõ̧es covalente fatal. Os pacientes com doenca̧ hepática, hepatite viral ou história de alcoolismo correm mais riscos de hepatotoxicidade induzida pelo paracetamol. O paracetamol deve ser evitado em pacientes com insuficiência hepática grave.