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Bem-vindo(a) à disciplina de História do Cristianismo I! Nela você estudará prioritariamente aspectos históricos ligados à fé cristã nos períodos antigo e medieval, buscando também fazer conexões de análise com a realidade da igreja em outras temporalidades. APR ESEN TAÇÃO DA DISCIPLIN A UN IDADE 1 - CR ISTIAN ISMO AN TIGO - PAR TE I UN IDADE 2 - CR ISTIAN ISMO AN TIGO - PAR TE II Apresentação da disciplina Introdução à unidade 1 1. O estudo da História. O Cristianismo Antigo e Medieval 2. O contexto sociocultural do Cristianismo antigo: o ambiente greco-romano 3. Contexto religioso em que se desenvolveu o Cristianismo antigo 4. Crescimento do movimento cristão em seus primórdios Introdução à unidade 2 Apostila: História do Cristianismo I (PDF) UN IDADE 3 - CR ISTIAN ISMO MEDIEVAL UN IDADE 4 - CR ISTIAN ISMO MEDIEVAL 1. Con�itos entre Cristianismo e Império Romano 2. Liturgia e espiritualidade na igreja antiga 3. O desenvolvimento doutrinal do Cristianismo antigo 4. O papel dos Pais da igreja: por uma igreja �el às origens apostólicas Considerações �nais Introdução à unidade 3 1. Como se deu o surgimento do catolicismo romano? 2. Como se caracterizava a igreja medieval institucional e como era a religiosidade do povo? 3. Doutrinas e ritos praticados na Idade Média Considerações �nais Introdução à unidade 4 1. O surgimento do Islã e as cruzadas medievais 2 - Vida monástica: por uma espiritualidade voltada à simplicidade e ao próximo 3. Movimentos pré-reformadores: por um retorno doutrinal e eclesiástico às origens apostólicas Considerações �nais Bem-vindo(a) à disciplina de História do Cristianismo I! Nela você estudará prioritariamente aspectos históricos ligados à fé cristã nos períodos antigo e medieval, buscando também fazer conexões de análise com a realidade da igreja em outras temporalidades. Dentro da organização curricular da FTSA, a contextualização tem um papel muito representativo, pois seu ensino está comprometido em oferecer uma educação contextualmente direcionada às necessidades das igrejas brasileiras e latino-americanas. Para análise da realidade, o conhecimento histórico é preponderante, pois possibilita a compreensão do Apresentação da disciplina História do Cristianismo I Professor Riscado desenvolvimento social, político, cultural religioso que configurou esta realidade. Permite que se conheça a realidade, fundamente sua interpretação e, por conseguinte, oriente a ação transformadora em contextos do tempo presente, visto que a missão da igreja é continuidade de práticas que nos antecederam no transcurso dos tempos. Neste sentido, a FTSA desde suas origens não abre mão do legado teológico produzido pelo processo histórico no advento da Reforma Protestante do século XVI, mas, igualmente, considera preponderante que essa teologia, que deve estar sempre se reformando, seja interpretada e relida a partir das especificidades do ambiente latino americano. A história possibilita compreender como a igreja, em outras temporalidades, vivenciou a fé, a espiritualidade, praticou seu culto, formulou sua teologia e cumpriu sua missão, agindo em favor de um mundo mais justo e pleno de vida, pelas prerrogativas do reino de Deus, promovendo assim transformações em perspectiva integral. Deste modo, a disciplina histórica serve de referência para as demais, pois é transversal aos diferentes conteúdos que compõem a matriz curricular do curso teológico. Por ser também crítica da realidade, contribui para ensinar que o movimento cristão experimentou situações de luta, crises e desafiadores comprometimentos; fala de perseguições sofridas que ameaçaram sua subsistência, assim como de perseguições que ele mesmo empreendeu, em dados momentos, contra os que se lhe opuseram ou não se moldaram a seus dogmas. O trabalho do estudante de história consiste em estabelecer uma relação de interrogação recíproca entre presente e passado, promovendo uma problematização, evitando os simplismos, triunfalismos e determinismos, tendo em vista que o presente não é mera repetição de fenômenos ou acontecimentos passados. Como uma metáfora do estudo da história, das relações entre passado e presente, ou das permanências e rupturas ocorridas no tempo, os historiadores costumam citar o exemplo do palimpsesto. Palimpsesto é uma palavra grega usada para identificar o que ocorria com a escrita em pergaminhos: uma antiga escrita, depois de ser apagada para dar lugar a um novo registro, com o passar do tempo reaparecia, permitindo sua leitura interposta ao novo relato, mesmo em tempos muito posteriores. A analogia do palimpsesto é usada para demonstrar como determinadas práticas podem reaparecer em tempos subsequentes, não como mera repetição, mas de forma ressignificada, com novos sentidos, mesmo que já tenha sido considerada superada ou apagada pelo tempo. São os processos de rupturas e permanências que caracterizam o transcurso histórico. Na estrutura curricular da FTSA, o curso de história está distribuído em três disciplinas. A parte I concentra-se nos primórdios do movimento cristão em evidência no ambiente judaico e greco- romano, avançando até o mundo medieval, quando ocorre a consolidação da cristandade. Em história II, os conteúdos focam os processos que envolveram a Reforma Protestante e seus desdobramentos no mundo ocidental, nisto incluindo os movimentos que marcaram os séculos XVIII e XIX, como avivamento e impulso às missões modernas. E, finalmente, a parte III abordará a presença do Cristianismo no contexto brasileiro e na América Latina, com caracterização dos grupos que deram origem ao cenário religioso hoje em evidência: católicos, protestantes e pentecostais, em suas diversas tipologias. A mensagem que teve início na Galileia, passou por Jerusalém, e como Jesus havia predito, chegou até “aos confins da terra” (At 1:8). A disciplina de História possibilitará compreender como isso foi possível, guiando-nos numa travessia de 21 séculos pelos caminhos desafiadores que o tempo desenhou. Você, estudante, é nosso(a) convidado(a) a dar os primeiros passos nesta fascinante jornada a partir de agora. Prof. Dr. Wander de lara Proença Esta unidade tem como principais objetivos conhecer aspectos conceituais que orientam o estudo da História; identificar aspectos característicos do Cristianismo antigo e medieval; compreender o contexto em que surgiu e se desenvolveu o Cristianismo; apresentar exemplos históricos da vivência da fé cristã no ambiente antigo e medieval. Apresentaremos alguns dos procedimentos que orientam o estudo da História. Identificaremos o contexto de surgimento das primeiras comunidades cristãs, assim como as transformações que envolveram as práticas do Cristianismo nascente a partir do ambiente judaico, grego e romano. Estudar a trajetória do movimento cristão nestes primeiros séculos significa incursão em temáticas historicamente riquíssimas e desafiadoras, como por exemplo: quem e como viviam os primeiros cristãos? as relações de conflito com o Império Romano? as estratégias que utilizaram para a propagação de sua fé? quais desafios enfrentaram em um contexto complexo de mitologias crenças e correntes filosóficas? Introdução à unidade 1 Introdução à unidade Esta unidade tem como principais objetivos conhecer aspectos conceituais que orientam o estudo da História; identificar aspectos característicos do Cristianismo antigo e medieval; compreender o contexto em que surgiu e se desenvolveu o Cristianismo; apresentar exemplos históricos da vivência da fé cristã no ambiente antigo e medieval. Apresentaremos alguns dos procedimentos que orientam o estudo da História. Identificaremos o contexto de surgimento das primeiras comunidades cristãs, assim como as transformações que envolveram as práticas do Cristianismo nascente a partir do ambiente judaico, grego e romano. Estudar a trajetória do movimento cristão nestes primeiros séculos significa incursão em temáticas historicamenteriquíssimas e desafiadoras, como por exemplo: quem e como viviam os primeiros cristãos? as relações de conflito com o Império Romano? as estratégias que utilizaram para a propagação de sua fé? quais desafios enfrentaram em um contexto complexo de mitologias crenças e correntes filosóficas? 1. O estudo da História. O Cristianismo Antigo e Medieval A História configura-se no campo de conhecimento que estuda o “tempo”, mais essencialmente, os acontecimentos e as transformações ocorridos ao longo do tempo. Ou ainda, como afirmou o influente historiador Marc Bloch: “História é o estudo do ser humano no tempo”. Um dos termos da língua grega para a palavra “tempo” é kronos – de onde advém cronologia, que trata das temporalidades históricas. Essas temporalidades são classificadas para melhor demarcar os períodos históricos. Para definição dessas escalas temporais, que indicam quando começa e quando termina uma temporalidade, são convencionalmente propostos alguns marcos ou acontecimentos representativos. Glossário As divisões cronológicas da História: 1. Pré-história: todo o período que antecede a invenção da escrita em 3 mil a.C. 2. Período antigo: da invenção da escrita, em cerca de 3 mil a.C., até a queda do Império Romano no Ocidente, no século V d.C. 3. Período medieval: da queda do Império Romano no Ocidente até o fim do Império Romano no Oriente, no século XV, quando em 1453 os muçulmanos tomaram a cidade Constantinopla (capital do referido Império. 4. Período moderno: desde a tomada de Constantinopla até a Revolução Francesa, em 1789. 5. Período contemporâneo: da Revolução Francesa aos dias atuais. 1.1 Em que consiste o estudo da História? Fica caracterizado, pelos episódios indicados acima, que os critérios usados são indicativos de mudanças (com dimensões geralmente políticas ou sociais). Mas isto é algo simbólico, pois não significa que abruptamente um período se encerra e começa outro absolutamente novo, pois um determinado período continua existindo ou se estendendo na temporalidade do outro, naquilo que em História se chama de “continuidades” ou “permanências”. Também é importante dizer que outros critérios ou circunstâncias podem ser usados para distinguir uma temporalidade de outra. Veja o texto de apoio, a seguir. Texto de apoio O historiador Martin Dreher, por exemplo, apresenta argumentos pertinentes sobre isto. Ao invés de indicar a queda do Império Romano no Ocidente como marco divisor, prefere o ano 529, como referência simbólica. Diz ele: “Onde começa a Idade Média, onde termina? No ano 529, um decreto do imperador cristão Justiniano ordenou o fechamento da academia platônica de Atenas, que ali funcionara sob esse mesmo nome por nove séculos. No mesmo ano de 529, aconteceu outro fato de maior relevância: Bento de Núrsia fundou Monte Cassino – o primeiro mosteiro Beneditino. O ano é, pois, significativo: sinaliza o final de um período e aponta para o novo. O fechamento da academia representaria o fim da “filosofia pagã”; mas a fundação do Monte Cassino representa a preservação do pensamento dos antigos, pois é nos conventos que o saber da Antiguidade vai ser preservado, também a filosofia pagã. Do convento vai surgir a universidade, centro de estudo e pesquisa. Assim, a Idade Média é também um período de gestação do novo. A Idade Média começou com a busca por assimilação de todo o mundo da cultura da Antiguidade. A Idade Média terminou, assim me parece, quando esse processo de assimilação chegou ao seu final [...] As novidades trazidas com o descobrimento de novos mundos, Para o estudo da história são fundamentais as fontes, que servem para o historiador buscar evidências em sua análise e relato. As fontes para estudo do Cristianismo são diversas, como por exemplo: os próprios textos neotestamentários, as obras de Flávio Josefo, os achados arqueológicos dos manuscritos de Qumran, a Didaquê, as catacumbas de Roma, registros de historiadores não cristãos, correspondências, literaturas não canonizadas, dentre outros. Em geral, as fontes se dividem em três principais categorias: escritas, orais (tradição transmitida apenas de forma verbal) e materiais (objetos e vestígios estudados, por exemplo, pela Arqueologia). da parte dos europeus, trouxeram crise para o mundo medieval” (DREHER, Martin. A igreja no mundo medieval. São Leopoldo: Sinodal, 1994, p.7-9). Glossário 1 – Fontes históricas: Documentos ou vestígios que, através de seus sinais e interpretação, permitem ao historiador reconstruir ou interpretar a história. 2 – Flávio Josefo: Judeu que viveu entre os anos 37 e 100 d.C, e liderou a revolta judaica contra Roma, na Palestina, no ano 66. Posteriormente, capturado pelos romanos, tornou-se autor de obras importantes sobre os episódios do século I, como a História dos Hebreus. 3 – Manuscritos de Qumran: Conjunto de textos encontrados em 1947, em cavernas nas regiões do Mar Morto, na Judéia, preservados em jarros de barro, referentes a uma numerosa comunidade judaica surgida no ano 150 a.C., conhecida como essênios, e que existiu até a guerra entre judeus e romanos no ano 66 d.C. Estima-se que João Batista, personagem do Novo Testamento, tenha sido membro desta comunidade. As literaturas encontradas correspondem a todos os livros do Antigo Testamento, exceto o livro de Ester, além de vários manuais litúrgicos e o modo de vida da comunidade). 4 – Didaquê: Manual litúrgico elaborado por volta do ano 100 d.C., usado pelas comunidades cristãs primitivas nas atividades de culto e práticas de fé. 5 – Catacumbas de Roma: Túmulos de cristãos sepultados em cemitérios próximos à cidade de Roma, no período de perseguição sofrida pela igreja nos três primeiros séculos; no local, preservam-se pinturas representando símbolos da fé cristã primitiva, que servem de fontes de análise para a pesquisa histórica. 6 – Historiadores antigos não cristãos: Tácito, Suetônio, dentre outros, que no século II registram informações sobre o movimento cristão nascente e sua relação com o Império Romano. 7- Correspondências: Cartas trocadas entre o governador Plínio, da Bitínia, na Ásia Menor, e o imperador romano Trajano, no século II, sobre como o Estado deveria agir em relação aos cristãos. 8 – Literaturas não canonizadas: Textos cristãos dos séculos I e II, como o Evangelho de Tomé, que foi achado em 1945, em um cemitério copta no Egito, que revelam práticas de comunidades cristãs em diferentes regiões do mundo antigo. A história de conquista, poder e domínio do Império Romano começa com a morte de Alexandre, chamado de Alexandre O Grande, no século IV a.C. Com a morte deste imperador, o Império grego foi se fragmentando, possibilitando assim a dominação de um outro poder emergente: Roma. Mantendo a influência da cultura e língua dos gregos, os romanos tornaram-se sucessores daquela civilização em todos os lugares conhecidos no mundo antigo, passando a difundir em regiões extensivas de todo o Mar Mediterrâneo, abrangendo o Ocidente, Oriente, Ásia e África, os valores da então chamada cultura greco-romana (resultante da fusão entre as duas culturas) por meio da construção e manutenção desse poderoso Império. Segundo o historiador Martin Dreher, houve um movimento que foi o grande responsável pela unidade cultural do Império Romano: o helenismo. Basicamente, trata-se da cultura da era de Alexandre, quando língua, costumes, utensílios, arte, literatura, filosofia e religião dos gregos foram disseminados em diferentes lugares do mundo antigo. 2. O contexto sociocultural do Cristianismo antigo: o ambiente greco-romano Saiba Mais Siglas que identificam temporalidades: a.C: antes de Cristo d.C: depois de Cristo a.D: anno domini (termo que significa “ano do Senhor”, em referência à era de Cristo) No período em que se consolidou como imperador romano, nos anos 40 a.C., Otaviano estabeleceu uma ordem ansiada por muitos, por meio da chamada Pax Romana. Utilizando-se do controle das legiões armadas, fez cessar os conflitosnas dimensões do Império através do uso da força. Em 12 a.C. recebeu o altíssimo cargo sacerdotal de “Pontifex Maximus”. Por meio de uma votação popular o senado lhe acrescentou ainda: “Augusto pater patriae”. Pouco antes de morrer, Otaviano Augusto apresentou um relatório retrospectivo de sua política, destacando orgulhosamente os títulos que recebera como homenagem por sua clemência, justiça e piedade. Os romanos desenvolveram o culto ao imperador a partir do momento em que este passou a receber o título de “Augusto”. Uma inscrição feita na Ásia menor, em 9 a.C., dizia: “Pode-se colocar o início do ano no aniversário de César, pois a divina providência trouxe à vida dos homens: paz, salvação, abolição de guerras. O dia do nascimento do deus foi para o mundo o início de boas notícias”. De acordo com Dreher (1993), a unidade do Império apresentava-se de maneira visível na figura do Imperador, que reunia na sua pessoa os principais cargos da antiga república romana. Glossário Pax Romana: paz romana Pontifex Maximus: máximo pontífice Pontífice: líder religioso supremo Pater Patriae: pai da pátria Augusto: venerável, digno de culto. César: título concedido aos imperadores romanos que sucederam a Caio Júlio César; designava o sucessor do imperador reinante. No ano 14 d.C., ocorreu a morte de Augusto (aos 76 anos de idade). Seu filho adotivo Tibério logo assumiu o governo, com 56 anos. Sob o seu governo, Pôncio Pilatos foi constituído procurador da Judéia e da Samaria (26-36 d.C.) – Jesus morreu durante o seu reinado. Em 37 d.C., Calígula assumiu o governo, com 25 anos de idade: vida dissoluta e aspiração exagerada; quis exigir que sua estátua fosse colocada no templo de Jerusalém. Sua morte súbita, impediu a realização deste projeto. Em 41 d.C. foi morto numa revolta palaciana, pela guarda pretoriana, a qual proclamou Cláudio (tio de Calígula), como César (41-54). Em Roma, Cláudio, no ano 49 (d.C.), fez um decreto contra os judeus devido a conflitos surgidos entre eles. O testemunho do historiador antigo Suetônio - em sua obra Vidas dos Césares - apresenta as razões dessa medida adotada: “Expulsou os judeus de Roma, por que causavam agitação contínua, instigados por um certo Chresto” (apud FABRIS, p. 45). Chresto seria uma referência a Cristo? As circunstâncias parecem denotar esta interpretação: a pregação sobre Jesus, anunciado como Cristo, o Messias de Israel, teria provocado divisões e conflitos entre judeus, uma parte ligada ao judaísmo e outra já convertida ao Cristianismo. Fato é que os judeus foram expulsos da cidade, havendo lá grande comunidade deles. Foram proibidos a eles o culto e as reuniões sinagogais. Este decreto também envolveu, portanto, os judeus-cristãos. Mais tarde, Nero revogaria esse edito. Glossário Sinagoga: etimologicamente significa “casa do livro”, ou seja, lugar de ensino da Lei e dos costumes judaicos; as sinagogas surgiram no período do exílio babilônico sofrido pelos judeus, no século VI a.C., passando a ter um papel importante na diáspora (dispersão) decorrente daquele exílio, no propósito de manter a identidade das tradições judaicas, na ausência ou distanciamento geográfico do Templo de Jerusalém. No ano 54 d.C., Cláudio foi envenenado por sua esposa Agripina, que o assassinou para entronizar seu filho Nero, fruto de seu primeiro matrimônio, adotado por Cláudio. Nero tinha apenas 17 anos, recebendo, por isso, auxílio de outros na condução de seu governo. Tornou-se depois descomedido: gostava de apresentar-se publicamente como artista; mandou matar sem escrúpulos quem se opusesse a ele; instigou a primeira perseguição contra os cristãos em Roma, incendiando a cidade em 64, culpando por isto os cristãos, perseguindo e condenando à morte os que eram presos. Tácito, historiador antigo, relata as atrocidades praticadas por Nero, mandando, inclusive, matar membros de sua família; suicidou-se em 68. Tempos depois da morte de Nero, correu o boato de que na verdade não havia morrido, o que teria sido apenas mais uma de suas artimanhas. A sua possível reaparição causava terror e pode estar associada à base imaginária com que o Apocalipse descreve a Besta que ressurge, depois de ter sido “ferida de morte” (Ap 13). Após sua morte, três generais foram proclamados simultaneamente seus sucessores: Galba (Espanha); Oto (Roma); Vitélio (Germânia). Nenhum dos três conseguiu aprovação de todo o Império: o que tornava iminente uma nova guerra civil. Diante disto, Vespasiano (que estava com suas tropas na Palestina, e com o apoio delas, conseguiu apoderar-se do governo e estabelecer a ordem, em 69 d.C. Vespasiano impôs a renovação da instituição do “primeiro sucessor”, criada por Augusto, assegurando assim a sucessão de seus filhos. Em 79, morre; seu filho Tito - o conquistador de Jerusalém - tornou-se imperador. Em 81, sucedeu-lhe o seu irmão Domiciano (81-96), que: procurava sublinhar seu poder absoluto; propagava em público a santidade de sua pessoa, deleitando-se com a aclamação do povo a si e à sua esposa no anfiteatro, no dia do grande banquete (“salve nosso Senhor e nossa senhora”); exigia de todos uma cega submissão às suas ordens; sufocava qualquer movimento de resistência; em 96, foi vítima de uma conjuração. Este é o imperador que ocupa o poder na época em que o livro do Apocalipse foi escrito. Após sua morte, operou-se uma mudança: o senado elegeu como imperador um descendente de uma antiga família romana: Nerva (96-98), correspondendo assim à imagem do soberano movida pelo pensamento estóico: “o melhor deveria governar em função do bem comum”. Em 98, Trajano (Filho adotivo de Nerva) ocupa o poder, nele permanecendo até o ano 117. Desta forma, pelo método da adoção, assegurava-se a escolha do mais capacitado entre os candidatos. Saiba Mais Continue assistindo ao vídeo: O Império Romano – Parte I. (Série Curiosidades bíblicas e histórias do Cristianismo). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=d91zM8qIE_E&t=3s https://www.youtube.com/watch?v=d91zM8qIE_E&t=3s 3.1 Crenças e diversidade de cultos no contexto greco-romano Desde a antiguidade, o Oriente considerava os soberanos como filhos dos deuses. Por exemplo, no Egito, o Faraó recebia poder, leis e proteção para governar o seu povo; isso legitimava seu poder como majestade intocável. Quanto aos gregos, os deuses adorados por eles não estavam separados dos homens por uma fronteira bem definida. Homens importantes podiam ser elevados da condição humana à divina, colocados como heróis na comunhão sagrada, como observado nas mitologias. Acreditava-se que os deuses vinham até onde estavam os humanos ou desciam à terra em forma humana, semelhante ao que é observado em Atos 14:11: Paulo e Barnabé, em Listra, após a cura de um paralítico desde a infância, provocaram a reação de que “deuses em forma humana desceram até nós”. Alexandre Magno, que difundiu o Império grego, no século IV a.C., já era venerado por muitos de seus súditos. Sobre o chamado culto estatal, as cidades romanas tinham seus deuses particulares: construíram-lhes esplêndidos templos; a vontade dos deuses determinava a vida da cidade e do Estado; festas e espetáculos culturais eram realizados durante o ano em sua homenagem, das quais algumas, por exemplo, estão associadas aos jogos Olímpicos realizados a cada quatro anos. Os deuses romanos participavam ativamente da política e da sociedade. O culto era voltado em torno do Estado, havendo datas pré-estabelecidas pelo calendário. O culto era obrigação civil. Durante a época de Augusto, muitos templos foram edificados na Grécia, na Itália, no oriente e norte da África. Tentava-se forjar uma moral a partir da religião, mas a influências externas culturais eram muito intensas. Também houve forte influência de cultos estrangeiros, trazidos do oriente para Roma. Valorizavam-se os sacerdotes, cujos oráculos orientavam as batalhas, por exemplo. O deus Sol (Hélio) ganhou projeção, na época do Novo Testamento,o qual 3. Contexto religioso em que se desenvolveu o Cristianismo antigo correspondia a Mitras (deus persa), ao ponto do próprio imperador se identificar como seu legítimo filho. No ano 40 a.C., Herodes O Grande, de origem induméia, convertido ao judaísmo e cidadão hebreu, que governava sobre os judeus, assinou um acordo deste povo com Roma, no qual foram assegurados três principais benefícios aos judeus: não trabalhar no sábado, não servir ao exército romano, não cultuar os deuses do Império (apenas fazer orações em favor do imperador). Nos primeiros anos de sua existência, comunidades cristãs, formadas também por judeus, beneficiaram-se destas prerrogativas concedidas a este povo no âmbito do Império Romano, pois eram vistas pelas autoridades como ramificações do judaísmo. Muitos cristãos, em função disto, optavam inclusive por realizar a circuncisão, como forma de se proteger de possível questionamento pela não veneração aos deuses romanos ou pela ausência em cerimônias religiosas obrigatórias. Posteriormente, porém, à medida que os cristãos cresceram, tendo a adesão de diferentes povos gentílicos – havendo, também, conflitos entre judeus e cristãos – estas regalias foram desaparecendo, dando lugar a tensões e conflitos. No Império Romano, um elemento importante destes cultos eram os sacrifícios e oferendas de animais, feitos, de modo geral, da seguinte maneira: parte era queimada; parte era dada aos sacerdotes; outra vendida como carne no mercado; parte era distribuída aos pobres em ocasiões especiais; desse modo, toda carne era de alguma forma sacrificada. Também se faziam banquetes no templo, com a presença de parentes e amigos. Esperava-se, com isto, que os deuses favorecessem o destino dos humanos e afugentassem o infortúnio e a ruína das cidades. Acontecimentos milagrosos também ocorriam por meio de pessoas consideradas dotadas de poderes especiais, que irradiavam força divina. Por exemplo, quando o imperador Vespasiano chegou a Alexandria, no início dos anos 70, pouco tempo depois de tomar posse do governo romano, um cego pediu-lhe que molhasse seus olhos com saliva, e um paralítico que lhe tocasse a perna com seu calcanhar. Segundo Suetônio, historiador romano, o imperador atendeu a esses pedidos, transmitindo força curativa aos doentes, que recuperaram a saúde. 3.2 Religiões de mistério Paralelamente ao culto oficial desenvolveu-se grande religiosidade popular marcada por intenso misticismo. No século I era muito forte o medo, a ameaça dos poderes demoníacos, de doenças, infortúnios etc. As pessoas se sentiam indefesas ante as forças sobrenaturais. Havia a busca por acontecimentos milagrosos. As religiões de mistério se apresentavam para dar segurança e meios de proteção, prometendo salvação e oferecendo-lhe força curativa. Por exemplo, o deus da cura Asclépio (ou Apolo), era popularmente muito venerado, cujo símbolo era a serpente. O culto foi introduzido em 19 a.C., devido à grande peste que ocorrera nas dimensões do Império. Ao redor dos templos deste deus, existiam vários dormitórios onde os Glossário Cultos de mistério: A expressão decorre do fato de os adeptos reunidos para determinados atos cultuais guardarem silêncio absoluto sobre tais atos, nada podendo revelar aos que não fossem iniciados. Os iniciados recebiam fórmulas sagradas e sinais simbólicos, que ajudavam na identificação mútua. Celebrava-se ali o renascimento da pessoa para a eternidade; acreditava que os deuses sofriam, morriam e ressuscitavam. Estes elementos criaram aproximações entre os adeptos e a mensagem que ouviram sobre Jesus. Destes cultos participavam libertos e escravos, homens e mulheres. Circuncisão: rito praticado pelos judeus a partir de uma aliança estabelecida entre Deus e este povo, nos primórdios da narrativa do Antigo Testamento. Para o menino hebreu, determinava-se a realização deste rito ao oitavo dia de vida; mas era também praticado na fase adulta aos homens que se convertiam à fé judaica. A prática consiste em: realizar de uma pequena “cirurgia” ou corte do prepúcio no órgão genital masculino, possibilitando melhores condições de higiene, assepsia e saúde, sendo por isso considerado um “sinal de vida” e longevidade. doentes ficavam hospedados, esperando serem curados durante o sono à noite – especialmente paralíticos, mudos e cegos. O culto a Mitras também se difundiu bastante no Império Romano. Proveniente da Pérsia, esse culto tratava de luta e vitória, por isso muitos soldados se filiavam a essa religião, levando-a às fronteiras do Império. Venerado como deus da luz, Mitras era aquele que dissipava as trevas. Era uma religião de mistério que, ao contrário das demais, só aceitava a filiação de homens, que eram marcados na fronte com um ferro candente, como um guerreiro. Tornavam-se membros por meio de um batismo, após o qual podiam participar dos banquetes santos, para os quais a comunidade se reunia. Após a morte, cada um deveria responder por seus atos perante um tribunal divino, que os pesaria numa balança antes de permitir-lhes a entrada ou não para o mundo da luz. Este culto atraía fiéis pelo dever moral que impunha. Saiba mais Exemplo de um rito de iniciação nos cultos de mistério Um dos rituais que envolvia os cultos de Ísis e Apolo dava-se geralmente da seguinte maneira: o iniciante fazia votos de ablução (não comer carne por um determinado tempo, por exemplo, 10 dias); logo após, o noviço vestia uma roupa específica, ao pôr-do-sol, e era levado ao salão de culto, sendo que ali, repetia palavras como: “eu cheguei às proximidades da morte e com a ajuda da divindade estou agora alcançando a luz verdadeira”; no dia seguinte, ao clarear do dia, terminada a celebração, o iniciado apresentava-se ao povo, vestido com uma estola adornada com a figura do deus Sol. Isto significava que, através da consagração, nasceu agora como ser divino, cheio de força e rodeado por brilhante luz; estava agora preparado para um dia se apresentar a Osíris, o juiz dos mortos. Em síntese, os cultos de mistério: (a) estavam difundidos em todo o Império; (b) ofereciam proteção contra o mal e ajuda redentora da divindade; (c) concediam benesses mediante os ritos praticados pelos iniciados. Saiba mais Mitras e o Cristianismo: o culto a Mitras desempenhou uma acirrada disputa com o Cristianismo pela conquista de adeptos. Como será visto em detalhes, mais adiante, esse embate terminou no 4º século, quando o imperador romano Constantino – adepto de Mitras – declarou-se cristão e ressignificou ritos deste culto com ritos cristãos, como, por exemplo, a fixação do dia 25 de dezembro como o natal de Cristo. Por isso, em muitos lugares construíram-se templos cristãos sobre santuários de Mitras, simbolizando a vitória de Cristo. Mapa: regiões de expansão do cristianismo entre os séculos I e IV 4.1 As contribuições que o Cristianismo recebeu para se expandir Costuma-se afirmar que três povos ou civilizações acabaram por contribuir para a expansão do Cristianismo no contexto em que surgiu: os gregos – pela língua grega, que foi difundida pelo 4. Crescimento do movimento cristão em seus primórdios Império de Alexandre o Grande, facilitando assim a comunicação do evangelho (todo o Novo Testamento, exceto o evangelho de Mateus, foi escrito nessa língua); os romanos – criaram redes de comunicação por meio das estradas, além da tolerância religiosa geralmente praticada em relação aos diferentes povos sob seu domínio, o que deu certa liberdade para o Cristianismo se expandir por um determinado tempo; os judeus – outorgaram ao Cristianismo a fé monoteísta e a ideia da vinda de um Messias, por meio das inúmeras sinagogas espalhadas no tempo da diáspora; além do que, o judaísmo é o berço religioso das comunidades cristãs, em termos de culto e espiritualidade, conforme atestado pelo próprio Novo Testamento. Por que os judeus foram para países estrangeiros? Por vários móvitos: devido aos exílios a que foram submetidos; para seguir as grandes rotascomerciais, estabelecendo-se nas cidades mercantes ou portos; em razão dos pesados tributos impostos pela dominação estrangeira à agricultura, cresceu a pobreza e muitos preferiram outra sorte, por isso recorreram ao comércio. O judaísmo da diáspora também crescia pela conversão de não-judeus. Glossário Diáspora: termo que ignifica dispersão. Em relação aos judeus, dá-se o nome de diáspora às duas grandes dispersões que envolveram este povo: a primeira ocorrida por ocasião do cativeiro babilônico, no século VI a.C.; e a segunda quando da destruição do templo de Jerusalém pelos romanos, no ano 70 d.C. Para o judeu que vivia fora da Palestina, Jerusalém permaneceu como o centro da sua fé e referencial de vida. Lá era o local de sacrifícios ou peregrinações. A Palestina continuava sendo a sua terra, herança dada por Deus. Fora do país, o povo hebreu estava em terra alheia ou impura. A diáspora judaica só começou a se desfazer em 1948, quando houve a reconstrução do Estado de Israel, por decisão e reconhecimento político da ONU, conforme se verá com mais detalhes nas disciplinas de história do Cristianismo, ao longo do curso. Podem ser identificados os seguintes locais em que viviam os judeus, em expressivas aglomerações no mundo antigo: Babilônia; Síria; Ásia menor e Norte da África. Só no Egito, viviam 1 milhão de judeus, sendo a maior parte em Alexandria. Sobre as condições em que viviam os judeus na Diáspora, os seguintes dados se destacam: a) desfrutavam de isenção do serviço militar; b) não tinham necessidade de comparecer no dia de sábado perante instituições públicas e tribunais; c) as comunidades tinham certa autonomia especialmente nas questões de fé; d) todo judeu pagava sua contribuição ao templo, anualmente, o equivalente a dois dias de trabalho (jornaleiro); quem podia pagava voluntariamente quantidades mais altas; e) viagem a Jerusalém nas festas religiosas; f) por outro lado, o Templo mantinha relações com as comunidades judaicas da diáspora; g) falavam quase que exclusivamente grego; h) sofriam influência do helenismo (iam ao teatro, participavam de competições esportivas etc.); i) atraíam muitos simpatizantes às sinagogas, identificados com as pregações e orações, mas o rito da circuncisão se tornava obstáculo para se fazer prosélito; j) sofriam perseguições e discriminações devido ao seu estilo de vida e costumes. 4.2 Desafios do movimento cristão para se desenvolver no mundo urbano antigo O movimento que Jesus inaugurou e liderou ocorreu em um ambiente com traços marcadamente rurais. Seus ensinos têm como cenário a vida camponesa: fala de sementes na parábola do semeador, de flores, trigo, pássaros, pescadores, lírios do campo, e assim por diante. Em razão disto, após sua morte há uma grande demanda por se fazer a transposição desta mensagem cristã de cariz rural para o mundo urbano, da pólis (cidade) grega. Para o tempo em que isto se fez necessário, a providência divina preparou e vocacionou Saulo (depois, Paulo). Este teria a tarefa de fazer prosseguir a obra de Jesus agora no espaço das grandes cidades. Neste aspecto, comparativamente, cabe estabelecer um contraponto entre Jesus e Saulo: - Saulo, nascido e formado até os 18 anos na cidade intelectual de Társis, mudou-se em seguida para Jerusalém para estudos na escola rabínica farisaica, tendo como mestre Gamaliel. Nesse tempo de estudos, residiu provavelmente na casa de sua irmã, que morava naquela cidade (At 23:16). Jesus, por sua vez, 90% de sua existência terrena foram vividos nas regiões rurais da Galileia; não obteve títulos na escola rabínicas do Templo (nem teria condições financeiras para tal). Saulo era cidadão romano; Jesus, para sobreviver, trabalhava na carpintaria ou no campo. - Saulo, posteriormente, irá elaborar todo o seu ensino tendo como pano de fundo a vida urbana: suas ilustrações e metáforas têm origem naquilo que é próprio do seu contexto de formação, ou seja, em seus escritos, encontram-se reflexos de vistas e cenários de Tarso de quando era ainda jovem, de ser conduzido em “triunfo”, de jogos olímpicos, compara o “tabernáculo terrestre” desta vida a um edifício de Deus, destaca as correntes filosóficas circulantes nas pólis gregas. - Seguindo a estratégia de Jesus, Paulo procurou também formar líderes, voltados aos grandes centros, especialmente com a criação da Escola Paulina de Éfeso, para que os mesmos dessem continuidade à missão de proclamar o evangelho, principalmente entre os gentios. Saiba mais Társis: região da atual Turquia, com uma população de 300 mil habitantes à época de Paulo. Era considerada o terceiro mais importante centro da filosofia antiga, ficando atrás somente de Atenas e Alexandria. Por essa razão, nela circulavam diferentes correntes de pensamento; uma cidade cosmopolita, ou seja, nela estavam representados diferentes mundos culturais. Jerusalém: cidade com cerca de 60 mil habitantes nos dias de Jesus. Nela estava situado o templo judaico, que abrigava a escola rabínica (formada por fariseus) e a escola sacerdotal (formada por saduceus); ambas forneciam membros para compor o Sinédrio (alta corte jurídica formada por 70 doutores da Lei). Saulo, depois Paulo, teve, portanto, um papel decisivo na tarefa de introduzir a mensagem cristã nos espaços das grandes cidades do mundo antigo. O êxito de tal empreitada se pode medir pela presença da igreja – muitas vezes incômoda - nas principais cidades do mundo antigo até o século II, como: Roma, Alexandria no Egito, Éfeso, Corinto, além de Jerusalém e Antioquia. 4.3 Grupos sociais influentes no Império Romano A mensagem cristã exerceu atração sobre três principais grupos sociais bastante representativos no Império romano: escravos, soldados e mulheres. Em relação aos escravos, que compunham basicamente dois terços da população total do Império Romano, que era de cerca de 70 milhões de pessoas, a pregação cristã falava de igualdade de relações, como por exemplo: “porque em Cristo não há mais escravo nem livre” (Gl 3:28); quando ao escrever a Filemon, Paulo adverte que o escravo Onésimo fosse tratado como “irmão caríssimo” e não mais como escravo (Fm 16); dentro da comunidade cristã as distinções sociais eram niveladas, não havendo mais separação entre senhor e escravo; isso apontava para o fim da escravidão em escala crescente à medida que o reino de Deus fosse implantado e Jesus retornasse para reinar. Saiba mais Escola Paulina de Éfeso: Éfeso era a cidade greco- romana com a segunda maior população do Império Romano: 500 mil habitantes à época, ficando atrás apenas de Roma. Ali Paulo permaneceu por cerca de 18 meses (seu maior tempo de fixação em uma cidade, quando esteve em liberdade) e criou a Escola Paulina, provavelmente no lugar onde anteriormente funcionara a Escola de Tirano (At 19:9). A Escola Paulina teve três importantes funções: )1 treinar e preparar l íderes para a expansão missionária (Tito, Timóteo e Silas são exemplos destas lideranças ali treinadas); produzir cópias das cartas paulinas para envio circular a diferentes comunidades paulinas; 3) preservar a teologa paulina, voltada aos gentios, fazendo frente às ideias judaizantes que influenciavam o Cristianismo nascente. Em relação aos soldados, a guerra era uma das sinas do Império Romano, expondo precocemente a vida dos combatentes; desse modo, uma mensagem que falava de um mundo novo no qual não mais haveria a guerra e a violência, exercia grande fascínio sobre tais personagens e suas respectivas famílias, que ansiavam por novos valores de preservação da vida. Quanto à mulher, sua condição de exclusão social foi impactada por uma mensagem de que em Cristo “não há mais distinção entre homens e mulheres” (Gl 3:28). Segundo Rodney Stark (2006), as comunidades cristãs se transformaram em espaços de acolhimento de mães em busca de proteção para as filhas recém-nascidas que, segundo costumes no mundo greco- romano, poderiam ser “descartadas” (abandonadas) ao nascer quando em umacasa já existisse uma filha. Abortos e infanticídios de meninas eram comuns naquela sociedade. A igreja primitiva combateu as práticas abortivas e de infanticídio de meninas, promovendo assim uma mobilização em favor da vida. As mulheres, com isso, recorreram à comunidade cristã e a dela passaram a fazer parte, ocasionando desse modo uma presença numericamente muito expressivas de mulheres nas comunidades cristãs. Glossário Androcentrismo: comportamentos, sociedades ou situações em que o foco é o homem, ou que são controlados por uma perspectiva masculina. Samaritanos: Após a morte do rei Salomão, o reino de Israel foi dividido em reino do Sul (com duas tribos) e reino do Norte (com 10 tribos). O reino do Norte foi invadido em 722 a.C. pelos Assírios, os quais introduziram naquele território povos estrangeiros, que se casaram com judeus, além de promover a disseminação de outros costumes culturais e crenças. Isto fez com que houvesse uma radical separação com os judeus do reino do Sul, culminando num isolamento e estado de conflito étnico e religioso entre os dois grupos irmãos. Estas tensões estavam presentes até os dias de Jesus, conforme a própria mulher samaritana reconhece: “porque os judeus não se dão com os samaritanos” (Jo 4). Saiba mais A mulher no mundo antigo O valor dado à mulher é um aspecto marcante no contexto das primeiras comunidades cristãs. No ambiente judaico havia se formatado desde os tempos vétero-testamentários uma mentalidade patriarcal de absoluta superioridade do homem sobre a mulher. Exemplo disto era o rigor com que a Lei religiosa se impunha em relação à mulher, sendo por isso legada sua participação nos cerimoniais e cultos a uma condição de inferioridade e submissão. Nestes eventos, havia espaços próprios e limites para a sua restrita participação, sendo obrigada, inclusive, a permanecer em silêncio. Tais restrições impostas à mulher geravam comportamentos até mesmo constrangedores: estudos mostram que todo judeu piedoso costumava repetir três vezes ao dia a oração “graças te dou, oh! Deus, porque não nasci samaritano, nem escravo e nem mulher”. Na filosofia grega à época também não era muito diferente: a liberdade era atributo do homem. Platão e Xenofonte, por exemplo, afirmavam que as mulheres haviam sido criadas exclusivamente para trabalhos domésticos. Nesse contexto, foi decisiva para a libertação da mulher a atitude de Jesus na realização de seu ministério terreno. Ele estabeleceu um comportamento inaugural ao criar espaços de sociabilidade em relação às mulheres, razão pela qual muitas passaram a segui- lo e a servi-lo, como atestam os relatos dos evangelhos (Mt 27:55,56). Esta participação ativa pode ser observada nos evangelhos, de forma explícita ou não: Jesus valorizou a viúva no momento do ofertório (Mc 12:41-44); beneficiou-as com milagres e curas (Mt 9:19-22, 15:21-28); citou-as em seus ensinos (Mt 13:33; 25:1-13); delas recebeu presentes (Mt 26:6-13); no momento em que celebrou a última páscoa, no cenáculo, lá certamente estavam as mulheres não apenas servindo na preparação dos elementos, mas também desfrutando daquele momento de comunhão; no primeiro anúncio que se faz da ressurreição acontecida, confiou-se a uma mulher, Maria Madalena, essa nobre tarefa; também quando ocorreu o envio do Espírito Santo em pentecostes, mulheres também estavam lá presentes, em oração. Um antigo manuscrito, que se constatou ser um evangelho escrito pelo apóstolo Tomé, foi encontrado por arqueólogos no Egito, em 1945, o qual não apenas registra referências da valorização dada por Jesus à mulher, como também destaca a participação de liderança feminina no movimento comandado pelo Filho de Deus. Quando nasceram inúmeras comunidades cristãs pelo trabalho apostólico, mulheres também participaram ativamente do estabelecimento daquela tarefa, constituindo-se também em membros da liderança que se formava. São exemplos disto: Febe, diaconisa e líder da igreja existente no porto de Cencréia, na cidade de Corinto; Trifena, Trifosa e Pérside, que “muito trabalharam” em comunidades paulinas; Priscila, que juntamente com seu marido, Áquila, realizou importante trabalho missionário em Roma e, depois, em Corinto como colaboradores de Paulo, ressaltando-se que há, inclusive, hipóteses de ter Priscila participado da redação da carta aos Hebreus; Maria, mãe de Jesus que, segundo tradições da igreja antiga, teve um importante papel de liderança nas igrejas da Ásia Menor, desempenhando funções de pregadora e missionária em toda aquela região, especialmente na cidade de Éfeso, onde também morou até o final da sua vida junto à família de João apóstolo. Em síntese, fica evidente que a mensagem e a práxis cristã no mundo antigo não separaram alma de corpo, ou o que é espiritual do que é material. Com isso, desenvolveu-se uma missão contextualizada com as demandas sociais daquele tempo, caracterizando-se, assim, por uma integralidade no modo de cumprir sua tarefa. O movimento cristão nascente não quis apenas salvar as almas, mas transformar o mundo pela pregação do Evangelho. Referências BARRO, Jorge H. De cidade em cidade. Londrina: Descoberta, 2002. COMBLIN, José. Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 1993. COMBY, J.; LEMONON. Vida e religiões no império romano no tempo das primeiras comunidades cristãs. São Paulo: Paulinas, 1988. DREHER, Martin. A igreja no império romano. São Leopoldo: Sinodal, 1993. DREHER, Martin. A igreja no mundo medieval. São Leopoldo: Sinodal, 1994. FABRIS, Rinaldo. Jesus de Nazaré: história e interpretação. São Paulo: Loyola, 1988. MOULE, C. F. D. As origens do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1979. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006. Textos complementares DREHER, Martin. A igreja no império romano. São Leopoldo: Sinodal, 1993, p.10-21. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006. Capítulo 5: O papel das mulheres no crescimento cristão (p.109-144) UNIDADE II – CRISTIANISMO ANTIGO Nesta unidade, veremos sobre a expansão do Cristianismo, investigando possíveis razões que conduziram um movimento religioso de minorias e vinculada a seguidores de condições sociais menos favorecidas, ao patamar de religião em franca expansão e, por fim, assumindo um caráter universal em termos de adesão e amplitude. Iniciaremos destacando as perseguições e martírios que envolveram o movimento cristão pelos conflitos ocasionados em relação ao Império Romano, com seu poderio e controle. [A1] Abordaremos também como se delineia a espiritualidade cristã nos quadros da igreja antiga, usando como base alguns fragmentos de textos espirituais da época, como os do Bispo Hipólito de Roma. Primeiramente, falaremos sobre como eram as reuniões e cultos na igreja em seus primórdios. Em seguida, a partir do exemplo de Hipólito, delinearemos algumas das características da espiritualidade cristã primitiva, mesmo sabendo que elas não se aplicavam a todos em todos os contextos. Trataremos também das controvérsias doutrinárias e sobre a atuação dos Pais da Igreja. O Cristianismo, diferente das religiões pagãs do mundo romano, não nascera como resultado de mitos e mágicas. Ele teve como base a realidade e o fato histórico. Orígenes, Tertuliano, Justino Mártir, Agostinho e tantos outros defensores da fé tiveram grande influência em tornar a mensagem do movimento cristão mais razoável para os intelectuais, levando inclusive muitos destes à conversão. Teremos, portanto, a oportunidade de estudar e conhecer um pouco mais sobre a contribuição de alguns deles. Introdução à unidade 2 1. Conflitos entre Cristianismo e Império Romano: os imperadores que perseguiram e as formas de perseguição O primeiro imperador a iniciar uma ostensiva perseguição ao cristianismo foi Nero (54-68). Após o incêndio na cidade de Roma, no ano64, a mando do próprio imperador, quando dez dos quatorze bairros foram destruídos, os cristãos passaram a ser acusados como culpados por tal episódio, sofrendo por isso atroz perseguição. Tácito, historiador antigo, descreve as atitudes tomadas por Nero na perseguição aos cristãos: Além de matá-los (aos cristãos) fê-los servir de diversão para o público. Vestiu-os em peles de animais para que os cachorros os matassem a dentadas. Outros foram crucificados. E a outros acendeu-lhes fogo ao cair da noite para que a iluminassem. Nero fez que se abrissem seus jardins para esta exibição, e no circo ele mesmo ofereceu um espetáculo pois se misturava com as multidões disfarçado de condutor de carruagem (Gonzalez, 1989, p. 56). Dados históricos e informações preservadas pela tradição antiga referentes ao que ocorrera com os apóstolos e outros importantes líderes do cristianismo em seus primórdios, também nos ajudam a entender que o compromisso com o caminho da cruz foi levado até às últimas consequências. Muitos foram submetidos ao martírio por causa do evangelho de Cristo. Vejamos primeiramente alguns exemplos envolvendo aqueles que fizeram parte dos doze discípulos chamados por Jesus (Mc 3:13-19): 1. . Conflitos entre Cristianismo e Império Romano André: após a morte e ressurreição de Jesus, foi pregar o evangelho na região do Mar Negro (hoje parte da Rússia); depois, segundo a tradição, pregou na Grécia, em Acaia, onde foi martirizado numa cruz em forma de “X”. Daí este instrumento de tortura ter ficado conhecido como “cruz de Santo André”. Bartolomeu: pregou inicialmente na Arábia, depois Etiópia, e por fim, ao lado de Tomé, atuou como missionário na Índia, onde foi martirizado. Filipe: atribui-se a este apóstolo a fundação da igreja de Bizâncio, cidade mais tarde conhecida como Constantinopla. Posteriormente, pregou o evangelho na Ásia Menor, na região de Hierápolis, onde se convertera a mulher de um cônsul romano pela sua pregação. O cônsul, então furioso por este episódio, mandou prender a Filipe e matá-lo de forma cruel. Matias: Para o lugar de Judas Iscariotes, que se suicidou, a igreja primitiva escolheu Matias como seu substituto (At 1:21-26). Segundo a tradição, esse apóstolo se tornou missionário na Síria, onde acabou sendo queimado numa fogueira por causa do evangelho. Judas Tadeu: segundo a tradição, pregou na Pérsia, onde foi martirizado. Mateus: desenvolveu grande parte de seu ministério pastoreando a igreja de Antioquia, onde também escreveu o seu evangelho. Dirigiu- se posteriormente para a Etiópia, onde veio a ser martirizado por causa da pregação. Pedro: depois de exercer importante liderança na igreja de Jerusalém, este apóstolo transferiu- se para a cidade de Roma, capital do Império. No ano 67, durante perseguição imposta por Nero, Pedro foi preso e condenado a morrer crucificado. Relatos do segundo século afirmam que o apóstolo, antes de sua execução, disse que não era digno de morrer como morrera Jesus, o seu Senhor, e pediu para que fosse crucificado de cabeça para baixo, e assim ocorreu. Paulo: considerado um apóstolo “nascido fora de tempo” (1 Co 15:8), tornara-se o grande líder da igreja entre os gentios e propagador da “mensagem da cruz” (1Co 1:18-23). Uma carta de Clemente de Roma, no segundo século, testifica o que ocorrera com este apóstolo: Paulo esteve preso sete vezes; foi chicoteado, apedrejado; pregou tanto no Oriente quanto no Ocidente, deixando atrás de si a gloriosa fama de sua fé; e assim, tendo ensinado justiça ao mundo inteiro, e tendo para esse fim viajado até os mais longínquos confins do Ocidente, sofreu por fim o martírio por ordens dos governadores, e partiu deste mundo para ir ocupar o seu santo lugar (Anglin e Knight, 1947, p. 13). No ano 67, quando da perseguição movida por Nero, Paulo foi preso e levado a Roma, onde recebera o martírio. Pelo fato de possuir cidadania romana, este apóstolo não poderia ser crucificado (algo humilhante para o cidadão romano), por isso deram-lhe como sentença a decapitação (morte instantânea). A tradição conservou de forma reverente o lugar da execução deste apóstolo, juntamente com Pedro: “Desde a mais alta antiguidade, a igreja romana celebrou juntos os martírios de Pedro e de Paulo no dia 29 de junho” (Comblin, 1993, p. 169,170). Simão Zelote: desenvolveu seu ministério de evangelização na Pérsia, onde o culto ao deus Mitras (deus Sol) estava extremamente desenvolvido. Devido a conflitos com seguidores de Mitras, acabou sendo morto por se negar a oferecer sacrifício a esta divindade. Tiago (Filho de Alfeu): pregou o evangelho na Síria. Segundo o historiador antigo Flávio Josefo, foi linchado e apedrejado até a morte (Proença, 2001, p. 103). Tiago (filho de Zebedeu): segundo tradições antigas, citadas por Justo Gonzalez, este apóstolo desenvolveu um trabalho missionário na Espanha, pregando na região da Galícia e Zaragoza. “Seu êxito não foi notável, pois os naturais desses lugares se negaram a aceitar o evangelho”. Ao regressar para Jerusalém, percorreu o caminho que deu origem ao lugar hoje conhecido como “Caminho de San Tiago de Compostela”, na Espanha. Em Jerusalém, veio a ser preso, sendo em seguida, decapitado por ordem de Herodes Agripa, no ano 44 (At 12:1,2) (Proença, 2001, p. 103). Saiba mais Santiago de Compostela: Os Caminhos de Santiago são os percursos dos peregrinos que afluem a Santiago de Compostela, na região noroeste da Espanha, desde o século IX, para venerar as Tomé: segundo a tradição, desenvolveu sua atividade missionária inicialmente na Índia. Dali dirigiu-se para o Egito, onde realizou importante trabalho entre os habitantes de língua copta, ministério este que deu origem à comunidade até hoje lá existente. A Igreja Cristã Copta, como é conhecida, está separada do catolicismo romano desde o IV século, tendo patriarcas em sua liderança (Proença, 2001, p. 103). João: este é, reconhecidamente pela tradição e pelos depoimentos do cristianismo antigo, o último apóstolo a morrer. Morreu na velhice, por volta do ano 100, na cidade de Éfeso, onde morava com sua família. Este apóstolo desenvolveu o seu ministério na Ásia Menor, onde foi preso nos anos 90, na época da intensa perseguição imposta pelo imperador Domiciano ao cristianismo, quando acabou deportado à ilha de Patmos, no Mar Egeu, vindo a receber ali a revelação do Apocalipse, por volta do ano 96. Sendo solto posteriormente, permaneceu em Éfeso ensinando até ao final da sua vida (Gonzalez, 1989, p. 60). Além dos apóstolos, outros importantes líderes do Cristianismo primitivo também deram a vida pela causa do evangelho. É o caso de Timóteo, discípulo de Paulo, que segundo testemunho de Nicéfero, no segundo século, “foi martirizado durante o reinado de Domiciano, no ano 96 a.D., em Éfeso, cidade onde morava quando o apóstolo lhe escreveu as duas cartas” (Anglin, 1947, p. 15). Também Tiago, conhecido como “o irmão do Senhor”, que exerceu importante liderança na igreja de Jerusalém, foi martirizado. O historiador Flávio Josefo, que descreveu o sítio desta cidade pelo exército do general Tito, no ano 70, atribui a destruição de Jerusalém a um “juízo de Deus sobre os judeus pelo fato de terem assassinado a Tiago, o Justo” (Anglin, 1947, p. 11). De igual modo, o historiador da igreja, Eusébio, cita um escritor do segundo século, chamado relíquias do apóstolo Tiago, cujo suposto sepulcro se encontra na catedral daquela cidade. A peregrinação foi uma das mais concorridas da Europa medieval, sendo concedida indulgência plena a quem a fizesse. Ainda hoje, peregrinos de diferentes matizes religiosas ou espirituais, refazem o percurso desse caminho motivados por elementos de fé. Hegesipo, que descreve a morte de Tiago. Afirma este autor, que tinha se levantado um conflito entre os judeus convertidos e os descrentes a respeito de Jesus ser ou não o Messias, e pediram a Tiago que resolvesse a questão. “Os escribas e fariseus” – diz Hegesipo – “Colocaram Tiagode um lado do templo e exclamaram, dirigindo-se a ele: visto que o povo é levado em erro a seguir a Jesus que foi crucificado, declara-nos qual é a porta pela qual se chega a Jesus, o crucificado?” Ao que ele respondeu em alta voz: “O Filho do Homem está agora assentado nos céus, à mão direita do grande poder e está para vir nas nuvens do céu”. E como muitos se gloriaram no testemunho de Tiago, estes mesmos sacerdotes e fariseus tomaram a decisão de levá-lo à parte alta do templo e de lá o lançaram abaixo, “passando em seguida a apedrejá-lo, visto não ter morrido logo que caiu no chão, enquanto, ajoelhando-se pedia o perdão de Deus aos seus agressores”. Deste modo ele sofreu o martírio (Anglin e Knight, 1947, p. 11,12). Até o terceiro século da era cristã, a cruz realmente pautou a atuação da igreja. E é evidência disto o fato de tal período ter ficado conhecido como a “era dos mártires”. O historiador Justo Gonzalez descreve com precisão ainda outros fatos desse período, como por exemplo, o testemunho de fé demonstrado por Inácio de Antioquia. Discípulo do apóstolo João, viveu no período de 60 a 117 d.C. Tornou- se célebre pela fidelidade a Cristo em meio às perseguições que sofrera e às cadeias que enfrentou devido à fé que professava. Sendo levado a Roma, em algumas paradas obrigatórias, não se esquecia de escrever às igrejas que o recebiam ou lhe enviavam saudações. Para testemunhar sobre Jesus Cristo, Inácio está disposto a enfrentar a morte. E, a caminho do martírio, proferiu as seguintes palavras: “Não quero apenas ser chamado de cristão, quero também me comportar como tal. Meu amor está crucificado. Não me agrada mais a comida corruptível... mas quero o plano de Deus que é a carne de Jesus Cristo... e seu sangue quero beber, que é bebida imperecível. Porque quando eu sofrer, serei livre em Jesus Cristo, e com ele ressuscitarei em liberdade. Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de me moer, para que possa ser oferecido como pão limpo de Cristo” (Gonzalez, 1989, p. 66). Não é diferente o exemplo de fé de Policarpo de Esmirna, o qual, diante da insistência das autoridades para que jurasse pelo imperador e maldissesse a Cristo, recebendo em troca disto a liberdade, respondeu: “vivi oitenta e seis anos servindo-lhe, e nenhum mal me fez, como poderia eu maldizer ao meu rei, que me salvou?” E estando atado já em meio à fogueira, Policarpo elevou os olhos ao céu e orou em voz alta: “Senhor Deus Soberano [...] dou-te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. Por isso te bendigo e a te glorifico. Amém” (Gonzalez, 1989, p. 71,72). As experiências de Inácio e Policarpo retratam bem a disposição dos cristãos de tal período em dar testemunho de sua fé em obediência a Jesus Cristo, até às últimas consequências. Para a igreja desse período, a ressurreição foi, sem dúvida, o impulso maior à perseverança e à fidelidade ao caminho da Cruz. Ao falar sobre martírios de cristãos, o teólogo Jürgen Moltmann diz que em Cristo aconteceu o que acontecerá com todos os que trilham o caminho da cruz: nos sofrimentos de Cristo são antecipados os sofrimentos escatológicos do mundo inteiro. Ele acrescenta que “é Cristo que sofre através dos seus discípulos mártires, pois na Paixão apostólica pelo evangelho e pela nova criação está presente o próprio Cristo”. Por isso os sofrimentos apostólicos, como perseguição, prisão, pobreza e fome, são também sofrimentos de Cristo e, como tais, dores de parto da nova criação. E finaliza: “Nestes sofrimentos do caminho da cruz, o mundo presente perece e nasce o novo mundo de Deus” (Moltmann, 1993, p. 216). Trilhando o caminho da cruz, a igreja primitiva encontra na ressurreição de Cristo a grande esperança de vitória e transformação, como visto no texto de Apocalipse 12:11: “[...] por causa do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida”; e Apocalipse 20:4, “vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus... viveram e reinaram com Cristo. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte nessa ressurreição... sobre estes a segunda morte não tem autoridade [...]”. Na comunidade cristã do primeiro século, iniciou-se um novo paradigma litúrgico, no qual predominava não os holocaustos expiatórios mosaicos – posto que a cruz era o cerne da fé e da práxis dos crentes, sendo, portanto, o sacrifício de Cristo suficiente para a remissão dos pecados e à “justificação” do pecador –, mas sim, os atos que provocavam comunhão, misericórdia e solidariedade entre os fraternos. Esta é uma possibilidade aceita, mesmo considerando a posição de alguns autores, como N. Lohfink, que alegam que a prestação de culto a Jesus como Divino no primeiro século é uma hipótese que esbarra na tradição monoteísta judaica, da qual aqueles primeiros cristãos procediam, fato que leva a ponderar a possibilidade de ter-se prestado culto a Jesus como “intermediário”, ou seja, um culto que “de Cristo subia novamente a Deus Pai” (Proença, 2001, p. 24). Vale destacar algumas das características comuns aos cultos das primeiras comunidades cristãs, com base nas informações de Justo Gonzalez (1993, p. 150-155). A primeira delas, o espírito de celebração, que aquela comunidade mantinha em quase todos os cultos. Segundo Gonzalez, tudo era motivo para celebração: “a comunhão era uma celebração. O tom característico do culto era o gozo e a gratidão, e não a dor ou a compunção”; sabe-se com segurança, porém, que o paradigma da comunhão entre os da fé era simbolizado pelo “partir do pão”, conforme ensinara Jesus. A comunidade se reunia para o culto todo primeiro dia da semana, impulsionada especialmente pela alegria da comunhão e a celebração do Cristo ressurreto: “É patente que o maior motivo que levou os primeiros cristãos a cultuarem a Jesus foi, sem dúvida alguma, a sua ressurreição, a qual autenticou sua origem divina e seu senhorio” (Proença, 2001, p. 26). Outra característica comum era a participação da comunhão somente aos batizados. A todos era permitido assistir os cultos. Todavia, quando se aproximava o momento da ceia, permaneciam obrigatoriamente no recinto apenas os membros assíduos da igreja, ou seja, apenas os batizados. Neófitos não batizados e visitantes ficavam de fora. 2. Liturgia e espiritualidade na igreja antiga Gonzalez (1993, p. 152) ressalta ainda outra característica que, desde cedo, fizera parte do repertório litúrgico daquelas comunidades: a celebração nas catacumbas. A razão pela qual se davam estas reuniões nestes locais inauditos, era porque ali estavam enterrados os heróis da fé; e os cristãos criam que a comunhão os unia, não só entre si e com Jesus Cristo, mas também com seus antepassados na fé. Contudo, muito mais que nas catacumbas, os cristãos reuniam- se nos lares particulares. Há inclusive indicações disto nas Escrituras (como, por exemplo, em At 16:40 e Fl 1,2). Gonzalez afirma que, à medida que as congregações iam crescendo e se expandindo, algumas casas foram dedicadas exclusivamente aos cultos, e posteriormente foram transformadas em templos (mas com a devida descrição pública). Por muito tempo, pode-se dizer que o cristianismo continuou sendo um “braço” do judaísmo, posto que, mesmo avançando com a doutrina evangélica apostólica, este preservou a tradição ritualística da lei e dos costumes judaicos. Daí se fala em uma tradição “judaico-cristã”, não podendo desvincular a segunda da primeira. Um exemplo é que a igreja primitiva possuía duas vertentes teológicas: a ala judaizante (representada por Pedro), e a ala gentílica, da qual Paulo fora o mentor. Aliás, de acordo com José Comblin, Paulo foi o verdadeiro fundador do cristianismo, como movimento religioso independente do judaísmo (Comblin, 1993). Para melhor traçar o perfil religioso aqui referido, faremos breve menção do caso de um bispo e pastor da igreja de Roma no século III, Hipólito de Roma (160-235).Exímio escritor e erudito, Hipólito intentara com seus escritos recuperar para a vida da igreja o que considerava a “verdadeira tradição apostólica”, difundindo seus comentários e lembranças dos costumes legados pelos apóstolos, mas que aos poucos vinham sendo deixados de lado. A espiritualidade cristã, em Hipólito, resumia-se basicamente em guardar preceitos morais e costumes religiosos (“místicos”). Nota-se uma observância exagerada aos mínimos detalhes dos ritos, que regiam a ação humana de forma global. Havia ritos e normas para tudo: quanto ao “uso” correto da sexualidade, sobre a castidade, sobre casados e solteiros, orientações aos batizandos, aos catecúmenos, às viúvas, confessores e até crianças. Sobre a doutrina de Hipólito, um comentarista, que escreveu a introdução de um de seus escritos, disse o seguinte: Torna-se moralista. Considerada a época crítica e difícil da igreja, comenta o livro de Daniel e, fazendo ressaltar as catástrofes do porvir da humanidade, tira lições, dá conselhos [...] Pretende assim levar à confiança em Deus, mesmo quando se é perseguido ou incompreendido, fatos esses reais em sua vida agitada [...] Liga-se de modo escravizante ao texto bíblico como este se encontra, sem interrogar se tal capítulo fora escrito em hebraico, aramaico ou se encontra apenas em grego [...] Preocupa-se com o ensinamento que pretende tirar de um texto, como perfeito alegorista, sem tomar em consideração a realidade à qual a revelação quer ser resposta (Roma, 1981, p. 08). Dessa forma, observa-se que a liturgia era a própria vida para os cristãos que seguiam tais preceitos, e a vida prosseguia sendo regida por normas e orientações de ordem litúrgica. Exercia-se o sacerdócio sob o controle da tradição apostólica, porém, admitindo paralelamente a submissão a um legalismo ritualístico, reminiscente do judaísmo. Estabelecia-se, assim, uma espiritualidade “seletiva”, onde as regras de fé e prática mais aparentavam um código de posturas moralizante e legalista do que qualquer outra coisa, fato que mais distanciava do que facilitava a aproximação dos neófitos até Cristo. De que modo podemos relacionar o problema das controvérsias teológicas e doutrinárias entre a igreja e outras crenças ou religiosidades do mundo antigo com o desenvolvimento e as facetas que o cristianismo foi assumindo até a conclusão deste período? Essa pergunta servirá como problema e orientação para o que será desenvolvido nesse tópico. A ideia básica é a de expor sobre duas abordagens inter-relacionadas com este problema, a saber: a) caracterização das crenças e/ou “heresias” principais que fizeram frente ao cristianismo; b) as respostas dadas pela Igreja, seja contra ou a favor da manifestação dessas crenças. Conflitos são comuns quando falamos em ser humano e história. Mais ainda, quando esse ser humano é o crente (tanto no sentido estrito, como lato), e quando essa história é a história da Igreja. Desde os começos da era cristã, vimos controvérsias de todos os tipos: no tempo de Paulo foram o gnosticismo, judaísmo e outras doutrinas semelhantes; no século III foi debatida a questão da readmissão dos “desviados” na igreja. Quer dizer, não faltaram querelas e muito menos respostas (umas se julgando bem fundamentadas, outras nem tanto) para as principais questões que envolviam a fé cristã de um modo geral. Neste tópico, vamos tratar especificamente sobre algumas das crenças e “heresias” que geraram muitas das controvérsias até o IV século da era cristã. De modo semelhante, também veremos a atuação dos chamados “Pais da Igreja”, tanto no Oriente como no Ocidente cristão, nos casos de afirmação ou negação e combate de uma determinada doutrina ou crença. As perguntas que podemos lançar inicialmente são: quais os fatores que, na história da igreja, determinaram o surgimento da teologia cristã? O que é uma heresia e como ela se constitui? De que forma a igreja combateu os “hereges” desse período? Em nome de que ou quem e com que “armas” ela combateu e por quê? Qual foi o papel dos pais da igreja nesse contexto de conflitos 3. O desenvolvimento doutrinal do Cristianismo antigo de interesse e controvérsias doutrinárias? Nosso olhar certamente estará condicionado pelo presente, mas nunca na intenção de julgar, e sim de compreender (ainda que parcialmente) o passado, que sempre estará em suspenso e seus fatos nunca poderão ser apreendidos absolutamente, “tal como aconteceram”. 3.1. Os chamados “movimentos heréticos” Os movimentos chamados “heréticos”, muitas vezes pejorativamente e sem uma devida investigação, são considerados, na história da igreja, como aqueles que se apresentaram subversivos à ortodoxia, por defenderem ideias, práticas e doutrinas que ameaçavam a integridade dogmática e institucional da igreja. Nesse sentido, vale observar que, para a igreja, bastava algum movimento ou pessoa destoar do que era ensinado e determinado pela regra de fé ortodoxa, que já poderia ser considerado “herético” e digno de condenação, o que nem sempre significava avesso à Bíblia e seus ensinamentos. Um exemplo disso está no que aconteceu com os anabatistas no século XVI, perseguidos pela própria igreja protestante e julgados como hereges perturbadores da ordem, basicamente porque ansiavam e lutavam por uma reforma mais profunda (estrutural). Assim, faz-se necessário para nós pesquisadores da igreja, considerar uma multiplicidade de vertentes que geram um dado movimento e certa crença ou doutrina, sem condenar de antemão. O julgamento sempre deve ser evitado, especialmente no estudo da história. O que aqui vamos fazer é um breve “passeio” pelos principais movimentos que foram condenados na era cristã, descrevendo as mais latentes marcas deixadas, tentando exercitar, antes, uma mentalidade crítica e investigativa, e não condenatória. a) Gnosticismo (séc. I) Afirmava basear-se no “conhecimento” (gnose), embora não se tratasse do conhecimento racional (que, por sinal, era rejeitado pelos gnósticos), mas um conhecimento místico, sobrenatural, transcendental. Defendia uma visão dualista do universo, de origem persa, que separava pares opostos, irreconciliáveis, como o Deus transcendente dos gnósticos (criador da realidade espiritual, boa) e um “demiurgo” (semideus, que criara o mundo material, mau). Considerando que o mundo material é mau, logo, Cristo não poderia ter tido uma encarnação real, mas aparente, isto é, de natureza docética, um espírito visível, um fantasma. Boa parte dessa visão gnóstica da realidade se arraigou tanto que até hoje continua viva e presente, inclusive na Igreja. b) Marcionismo (séc. II) Um dos movimentos provenientes do gnosticismo. Foi fundado em 144 d.C. por Marcião de Sinope, um cristão religioso que foi denunciado pela igreja como herege. Sustentava em sua doutrina elementos gnósticos, tais como o dualismo, o docetismo cristológico e a recusa do Antigo Testamento. Desenvolveu melhor essa doutrina dos dois deuses, representados nos dois testamentos: A.T. - Demiurgo (justiça/lei); N.T. - Deus Superior (Jesus/Evangelho/amor). c) Montanismo (séc. II) Originou-se entre 160 e 170 na Frígia, através de um certo Montanus, um ex-sacerdote das religiões de mistério, convertido ao movimento cristão. Ao ser batizado, pelo ano 150, manifestou a glossolalia (dom de línguas), passando a ensinar, a partir daí, que a direção da igreja não deveria ser por intermédio de cargos ou ofícios, mas sim, pela “voz do Espírito Santo” transmitida pela glossolalia. Passou a anunciar o fim do mundo através de suas profecias e ordenava a seus adeptos a se reunirem em um determinado local — regiões da Frígia, na Ásia Menor — para aguardar a descida da Jerusalém celestial. Possuía duas discípulas imediatas: Priscila e Maximila, que serviam como suas intérpretes, quando dizia comunicar-se verbalizando “línguas espirituais”. Foi um movimento que queria a renovação das realidades pneumáticas e escatológicas da igreja dos primeiros tempos.Sua doutrina reunia três elementos principais: escatologia, ascetismo e profetismo. c) Arianismo (séc. III-IV) Foi uma visão cristológica sustentada pelo presbítero Ário (246- 336), que negava a divindade de Jesus e sua consubstancialidade com o Pai. O início da controvérsia se deu quando o bispo Alexandre de Alexandria (250-328) começou a debater teologicamente com o pai do arianismo. A dinâmica do debate é bastante ampla. Seus pontos eram vários e sutis. Mas, como faz lembrar Justo González (1991, p. 90), “podemos resumir toda a controvérsia à questão de se o Verbo era co-eterno com o Pai ou não”. O próximo tópico trata, dentre outras coisas, dos desdobramentos desta controvérsia na vida da igreja da época. Gonzalez resume graficamente o campo de forças em torno do qual tal querela gravitava: Ário dizia que o Verbo (Cristo) não era Deus, mas somente a primeira dentre as criaturas. Alexandre, valendo-se da visão do Evangelho de João, afirmava que o Verbo sempre tinha existido com o Pai e que, junto com o Pai, ele também era Deus, isto é, tinham a mesma essência divina, embora não fossem uma e a mesma pessoa. Interessante notar que ambos os partidos tinham textos bíblicos em que se embasavam e razões lógicas que faziam a posição do oponente parecer insustentável (Gonzalez, 1990, p. 91). 3.2. A reação da igreja: doutrinas e dogmas Evidentemente, a Igreja não permaneceu calada e imóvel, apenas assistindo a implosão de suas doutrinas e práticas tradicionais. O cerne de sua reação se dá por conta de iniciativas isoladas, como a de Alexandre e outros bispos e teólogos da igreja, não citados. Quer dizer, tinha-se, em primeiro lugar, a convicção de que essas contendas só podiam ser vencidas pela força do argumento da fé. E é aqui que começam a surgir, de maneira mais sistematizada, as produções teológicas do período. A teologia nasce como produto do conflito. Porém, em segundo lugar, entravam também as implicações políticas dessas controvérsias. Com o surgimento da “paz” na Igreja, após a ascensão e “conversão” ao cristianismo do Imperador Constantino o perigo de perseguição se tornou praticamente remoto, ao passo que havia uma liberdade maior para se debater religião. Porém, Igreja e Estado aliaram-se no sentido de conter os conflitos que pudessem surgir entre os fiéis em função de tais debates. Segundo Gonzalez (1990, p. 88), “Constantino queria que a igreja fosse o ‘cimento do império’, e por isso qualquer divisão nela podia ameaçar a unidade do Império”. Assim, quando a controvérsia ariana se tornou pública, com o risco de dividir toda a igreja oriental, Constantino resolveu interferir, dando opiniões sobre o assunto. A saída que ele encontrou para resolver esse e outros impasses e colocar a vida da igreja em estabilidade, foi a de convocar uma grande assembleia de todos os bispos cristãos. E foi assim que, em 325, o concílio afinal se reuniu na cidade de Nicéia, na Ásia menor, perto de Constantinopla. Hoje conhecemos esta assembleia como sendo o primeiro concílio universal da igreja na história. Não se sabe o número exato de bispos ali reunidos. Como informa Gonzalez, acredita-se que tenham sido trezentos. Embora a maioria dos cristãos ali congregados não pertencesse a nenhum dos grupos outrora mencionados, conta-se que a maioria se posicionou para o lado que defendia a doutrina da Trindade, em oposição à negação da divindade de Jesus por parte dos arianos. Aliás, a natureza divino-humana, ora apenas divina, ora apenas humana, de Jesus foi um dos temas mais recorridos desde o primeiro século, como vimos anteriormente. Em Nicéia, portanto, chega-se ao que podemos chamar de ápice, naquele tempo, das discussões acerca da natureza de Deus: divino? Humano? Um? Dois? Três? Depois de um processo interno à reunião, que aqui não cabe narrar, mas que contou, entre outras coisas, com a intervenção de Constantino, sugerindo que fosse incluída a palavra “consubstancial” (de uma só substância) no documento final, chegou- se à formulação de uma Doutrina da Trindade através do “Credo Niceno”, que hoje em dia é tido como o credo cristão mais universalmente aceito. Pode-se dizer, como finalização deste tópico, que as reações da Igreja a todos estes e outros movimentos, crenças e “heresias” que surgiram até o fim do período antigo, deram-se através de quatro principais instâncias: Primeiro, o fortalecimento da autoridade apostólica: hierarquização ou clericalização da Igreja; Segundo, a produção de importantes escritos: credos, confissões de fé, manuais. Terceiro, Concílios eclesiásticos; Quarto, estabelecimentos de livros “canônicos”, os quais deveriam ser escritos por apóstolos ou por discípulos de apóstolos; serem livros cristocêntricos e, por fim, serem aceitos perante a comunidade. Nesta unidade, estamos aprendendo um pouco mais sobre como se fazia teologia no período antigo com a experiência dos chamados Pais da Igreja. A partir deles, veremos que a teologia é um saber racional, sim, mas que tem uma dimensão espiritual e de reverência para com o sopro do Espírito. Ao mesmo tempo, concluiremos que teologia é coisa humana, composta a partir de experiências concretas de fé, luta e busca por iluminação pela vontade de Deus. Sua matéria- prima é a própria vida e seu chão é a história. A pergunta é: de que maneira homens como Gregório, Ambrósio, Agostinho ou Jerônimo tornaram-se pais da igreja e em função de que questões e atuação? Os Pais da Igreja ficaram assim conhecidos por serem os representantes diretos e indiretos da tradição apostólica, isto é, a tradição da igreja. Devemos tratar de uma maneira mais específica sobre quem foram os pais, por quais critérios eles foram assim chamados e as razões pelas quais os cristãos, hoje, ainda podem e devem recorrer à leitura dos pais. Uma dessas características é o zelo para com as Escrituras, algo bastante peculiar em se tratando do contexto ao qual acabamos de estudar, de controvérsias e conflitos doutrinários. O professor de estudos bíblicos e teológicos do Eastern College, Christopher Hall, afirma que os pais demonstravam um enorme zelo para com Deus e as Escrituras. E, muitas vezes, como acontece conosco, seu zelo manifestava-se tanto em suas forças como em suas fraquezas. Afirma que “eles têm muito a ensinar-nos sobre reverência, santo temor, autosacrifício, autoconsciência e autodecepção, adoração, respeito, oração, estudo e meditação” (Hall, 2000, p. 53). 4. O papel dos Pais da igreja: por uma igreja fiel às origens apostólicas Dentro da classificação mais ampla dos “pais da igreja”, segundo Hall, encontramos os oito doutores da igreja: quatro doutores do oriente e quatro doutores do ocidente, aos quais, baseados neste autor, dedicaremos especial atenção, destacando os principais pontos que envolvem suas vidas e pensamentos. 4.1. Os quatro doutores do Oriente a) Atanásio (296-373): Segundo relatos, foi um dos homens mais corajosos, astutos e cuidadosos de seu tempo. “Não haviam respostas neutras a Atanásio” (Hall, 2000, p. 59). Precoce no desenvolvimento de seu pensamento, escreveu duas importantes obras (“Um discurso contra o incrédulo” e “Sobre a Encarnação”) antes dos 20 anos de idade. Aos 33, foi nomeado bispo da igreja em Alexandria. Durante quarenta e cinco anos, foi exilado cinco vezes de sua igreja pela oposição firme feita às ideias do presbítero Ário. Suas ênfases principais geralmente gravitavam em torno do tema da encarnação do Filho. A controvérsia com o arianismo era o que balizava sua teologia, que era principalmente Glossário Patrística: filosofia cristã formulada pelos pais da igreja nos primeiros cinco séculos da era cristã, buscando combater a descrença e o paganismo por meio de uma apologética da nova religião, calcando-se em argumentos e conceitos procedentes da filosofia grega. Algumas das principais ênfases ou marcas teológicas da “teologia patrística” são: as “duas naturezas de Cristo” (humanidade e divindade); formulação da doutrina da trindade;concílios ecumênicos (formulação dos Credos Niceno e Calcedônio); combate às heresias do gnosticismo e da religiosidade e cultura helênica (grega). soteriológica. Para ele, “somente Deus pode salvar”, e “Cristo é adorado nas igrejas” (Hall, 2000, p. 60-61). b) Gregório de Nazianzo (329-390): Nasceu na pequena cidade de Nazianzo, na Capadócia. Membro de família rica, tinha uma personalidade forte, introspectiva, talvez o que o tenha feito se atrair para a solidão, oração e vida contemplativa. Recebeu excelente educação ao longo de sua vida. Rejeitava posições de liderança na igreja, em detrimento de uma vida calma e tranquila dedicada aos estudos. Isso, porém, gerou um conflito que o acompanhou ao longo de sua trajetória: a disposição em atender ao chamado para servir a igreja, para depois abrir mão desta tarefa em nome da intensa vocação para a vida monástica e acadêmica. Embora fosse amante da academia, sua leitura das escrituras não estava condicionada aos imperativos racionais. Neste ponto surge seu conflito com os eunomianos, um grupo de estudiosos que defendia a razão como o maior princípio norteador do conhecimento sobre a divindade. Gregório combate isso ao dizer que “a saúde espiritual e a argúcia hermenêutica não podem ser separadas” (Hall, 2000, p. 71). c) Basílio, O Grande (330-379): Bispo e teólogo da igreja proveniente da província romana da Capadócia. Era amigo íntimo de Gregório, com quem estudou em Atenas por seis anos, mergulhando na arte da retórica. Diferentemente de seu amigo, Basílio era um homem orientado para a ação. Tanto que, após um ano de experiência como docente na escola de Cesaréia, ele abandona a carreira acadêmica para se dedicar à vida eclesial, como fruto de uma “renovação espiritual” pela qual passara. Todavia, tanto quanto seu prezado Gregório, Basílio desenvolveu uma teologia coerente com seu pensamento. Sua ênfase está na rejeição da “alegoria” em sua versão interpretativa da criação. O caminho mais seguro, segundo ele, é ficar em silêncio perante o texto. A autoridade de Gênesis está no movimento do Espírito em Moisés. d) João Crisóstomo (347-407): De todos os pais da igreja, exceto Agostinho, afirma Hall, a exegese de João é a mais inteligível, acessível e disponível aos leitores modernos. Por sua inflamada retórica, ficou conhecido como o “boca de ouro” (que significa “Crisóstomo”, em grego). Possui uma vasta obra teológica, mais concentrada em homilias exegéticas e sermões. É um dos pais que mais ressaltou a importância de estudar as escrituras. “A raiz de todos os males”, acreditava ele, “é a falta de conhecimento das escrituras” (Hall, 2000, p. 93). 4.2. Os quatro doutores do Ocidente a) Ambrósio de Milão (339-397): Nasceu em Tréveros, mudando-se logo depois para Roma, onde recebeu boa educação, estudando literatura romana e grega, já que provinha de uma família bem abastada. Era bastante respeitado por sua ética e autoridade moral, fruto de sua vida pública íntegra no meio político. Assim, com a morte do bispo Auxêncio (que era ariano), Ambrósio foi escolhido para ser o novo bispo de Milão. Embora não tivesse formação teológica, seus estudos na língua grega o auxiliaram em sua exegese das Escrituras. Como bispo, não se envolveu muito em controvérsias teológicas. Era conhecido mais por seu caráter, diplomacia, coerência e bondade, que por suas ideias e/ou qualidades como teólogo. Teve grande influência na conversão de Agostinho, a quem batizou tempos depois. A interpretação alegórica das Escrituras (especialmente do AT) foi sua marca como teólogo. b) Jerônimo (347-420): “A vida de Jerônimo é um admirável exemplo da graça de Deus operando por meio das ambiguidades humanas” (Hall, 2000, p. 106). Possuía uma personalidade áspera e contraditória: extremamente sensível às críticas, capaz de atacar alguém com uma mão, e acariciar com a outra. É geralmente reconhecido como o erudito mais eminente entre os pais. Reconhecido tradutor da Bíblia, dos textos hebraicos e parte do NT em grego para o Latim, uma versão que ficou conhecida como vulgata. Seu pensamento também é rico por tocar em termos não muito usuais na época (como a relação entre sexo, Deus e teologia), e pelo fato de interagir com os grandes escritores de sua época e cultural. Por isso, como afirma Hall, relacionar nossa experiência a de Jerônimo pode abrir novos caminhos de reflexão sobre a vida cristã e o chamado ao discipulado no século XXI. c) Agostinho (354-430): Um dos mais brilhantes pensadores cristãos de todos os séculos. Seu pensamento situa-se na transição entre a antiguidade e a medievalidade. Foi um grande “divisor de águas”, visto que influenciou todo o pensamento teológico posterior na igreja cristã (medieval e moderna). Teve uma trajetória longa e conflitiva, passando por diversas crenças e movimentos (que influenciaram a formação de seu pensamento), antes de se converter definitivamente ao cristianismo: maniqueísmo, ceticismo, astrologia, neoplatonismo. Suas principais ênfases teológicas foram: Graça, Livre-Arbítrio (embate com Pelágio), Mal (ideia de pecado original), Autoridade, Verdade, Razão e Fé. Escreveu várias obras teológicas, comentários bíblicos e sermões. As mais conhecidas são as suas Confissões (397-398) e Cidade de Deus (iniciado em 413, terminado em 426). d) Gregório, O Grande (540-604): Quase 150 anos separam o papa Gregório I de Agostinho. Sua vida parece, como diz Hall, providencialmente ordenada para o papel que desenvolveria na Igreja Ocidental: seu avô (Felix II) também havia sido papa; assim como Ambrósio, antes de se tornar monge, ele também passou pela vida política, tendo sido prefeito de Roma; depois de um período vivido como monge beneditino, foi indicado pelo papa Pelágio II para servir como representante episcopal na igreja Oriental em Constantinopla. Posteriormente, em seu posto como papa (de 590 a 604), Gregório foi responsável pelo envio de missionários para atuar no mundo anglo- saxão, e também pela divulgação de uma espécie de canto musical hoje conhecida como canto gregoriano. Assim, como Ambrósio, ele tinha predileção pela alegoria como forma de interpretação da Bíblia. Nada podia ser ignorado e desprezado, desde que saudável, como instrumento de leitura das escrituras. Em uma de suas cartas, ele escreveu que, na “compreensão da Escritura sagrada, tudo quanto não se opõe a uma fé sadia não deve ser rejeitado” (Hall, 2000, p. 121). Escreveu muitos sermões sobre diversos livros da Bíblia. Tratou-se, nos tópicos anteriores, de um panorama histórico acerca das controvérsias doutrinárias e produção teológica da igreja até o fim desse período chamado antigo (com exceção da menção a Gregório O Grande, que se situa na medievalidade). A intenção foi mostrar que o desenvolvimento do pensamento cristão na história da igreja antiga não se deu de uma forma unânime, uníssona, sem conflitos. Temos de suspeitar até mesmo dos “consensos” e acordos outrora feitos, como no caso de Constantino e Nicéia, embora a providência divina nos faça crer que, mesmo em meio aos desacordos e falhas humanas, o Espírito de Deus continuou soprando e agindo nos “vasos de barro”. Isso é o mais fascinante. Entre os pais da igreja, vimos tanto consonâncias como discórdias, e um exemplo disso está no caso da interpretação alegórica das escrituras: enquanto Basílio e Crisóstomo criticaram o uso da alegoria e defenderam uma interpretação mais literal, Ambrósio e o papa Gregório a advogaram. Os desentendimentos entre essas importantes figuras mostram a diversidade de interpretações, visões, e produções teológicas existentes no meio cristão desde os primórdios. Terá sido isso algo apenas negativo? Deixamos algumas “conclusões inconclusas” sobre as quais podemos chegar acerca do desenvolvimento teológico e doutrinário nesse período: Primeiro, a reflexão teológica não é permanente e perene (constante, imutável); Segundo, ela dialoga com os problemas, tendências e conflitos de uma época; Terceiro,a teologia é necessariamente, e ao mesmo tempo, espiritual e saber racional. Isso aprendemos com os pais da igreja, especialmente com Agostinho; Quarto, a Teologia é coisa humana, composta a partir de experiências concretas de fé, luta e busca por iluminação pela vontade de Deus. Sua matéria-prima é a própria vida. Entre Constantino e Teodósio: uma igreja profética frente à oficialização romana O escritor Leonardo Bo� (1988, p. 59) ilustra a atuação da igreja em seus primórdios ao citar a opinião de Celso – filósofo pagão do século III - que classifica os cristãos como “os que se colocavam contra as instituições divinas do império”. Por seu modo de viver, diria este filósofo, “os cristãos levantaram um grito de revolta” contra a ideologia imperial que fazia do Imperador um deus e das estruturas do vasto império algo divino. Bo� acrescenta que o novo comportamento dos cristãos provocou, sem violência, um tipo de revolução social e cultural no Império Romano, que está na base de nossa civilização ocidental, hoje vastamente secularizada e esquecida de seu princípio genético. Tudo isso entrou no mundo por causa do comportamento de Jesus que atingiu o homem pelas suas raízes, acionando o princípio- esperança e fazendo-o sonhar com o Reino que não é um mundo totalmente outro que este, mas esse mesmo, porém totalmente novo e renovado (Bo�, 1988, p.59). A partir do quarto século d. C., outro quadro será vislumbrado. Constantino, que se torna imperador romano, declara-se cristão por volta do ano 313, após uma experiência mística que afirma ter-lhe ocorrido, quando se preparava para uma guerra: um sinal de cruz apareceu-lhe no sol, sob os dizeres “por este sinal vencerá”. Constantino, que era devoto do deus Mitra, após a vitória na guerra, entendeu ser uma mensagem de mudança. Daí em diante concedeu liberdade de culto ao cristianismo, doou recursos para construção de templos, remunerou o clero com as espessas do Estado, conferindo-lhe também poder administrativo no Império, reabriu a Terra Santa aos cristãos e judeus, cuidou pessoalmente da realização do primeiro grande concílio da igreja: o de Nicéia, em 325. Considerações finais Parte da igreja entendeu ser Constantino um instrumento divino para ajudar a consolidar politicamente o reino de Deus na terra. Mais tarde, outro imperador — Teodósio, em 382 — consolidou o projeto de tornar o cristianismo a religião oficial do Império Romano. Nascia assim a Igreja Católica Romana. A partir daí a igreja desempenhará em tal sociedade um papel semelhante ao da velha religião estatal, ou seja, concebendo Cristo apenas como um rei celestial que dá apoio ao imperador cristão que governava em seu nome. Mas é preciso ponderar que, mesmo não sendo majoritário, sempre houve um grupo que resistiu e buscou vias alternativas para preservar as origens apostólicas da mensagem e da missão cristãs, lutando por um reino de Deus que não se rendia ao reino do poder político e do dinheiro. A voz profética voltada para o mundo e em favor da vida em sua integralidade, resistiu, como o veremos em discussões subsequentes deste curso. Referências ANGLIN, W.; KNIGHT, A. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Casa Editora Evangélica, 1947. BOFF, Leonardo. Jesus Cristo libertador. Petrópolis: Vozes, 1988. BORNKAMM, G. Crítica Literária de Filipenses. In: ____. Pablo de Tarso. Salamanca: Sigueme, 1982. COMBLIN, José. Paulo Apóstolo de Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 1993. Mitra: deus do Sol, da sabedoria e da guerra na mitologia persa. Representava a luz, significando, literalmente, em persa, "divindade solar". Ao longo dos séculos, foi incorporado à mitologia hindu e à mitologia romana. No império romano, seu dia de celebração era 25 de dezembro, em razão do solstício de inverno. Glossário GONZALEZ, Justo. A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1989. GONZALEZ, Justo. A era dos gigantes. Uma história ilustrada do Cristianismo, Vol. 2. São Paulo: Vida Nova, 1991. MOLTMANN, Jürgen. O caminho de Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 1993. PROENÇA, Wander de Lara. Cruz e ressurreição: a identidade de Jesus para os nossos dias. Londrina: Descoberta, 2001. ROMA, Hipólito de. Liturgia e catequese em Roma no século III. Petrópolis: Vozes, 1981. Textos complementares: DREHER, Martin. A igreja no império romano. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p.22-32. HALL, Cristopher A. Lendo as escrituras com os pais da igreja. Viçosa: Ultimato, 2000, p.46-57. MCGRATH, Alister. Teologia histórica: uma introdução à história do pensamento cristão. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2007, p.52-71. PINHEIRO, Jorge; SANTOS, Marcelo. A expansão do cristianismo. In: Manual de história da igreja e do pensamento cristão. São Paulo: Fonte Editorial, 2013, p.65-79. O objetivo desta unidade é compreender as principais transformações pelas quais passou o cristianismo na transição da antiguidade para a medievalidade. Também, identificar alguns dos elementos que propiciaram essas transformações e como eles influenciaram a vida da igreja e sua visão de mundo nos séculos adiante. Que transformações sofreu o movimento cristão ao tornar-se religião imperial e que configuração assumiria a partir do momento em que o papado tomou os poderes espirituais e temporais supremos, assim como diante de outras mudanças no transcorrer da Idade Média? Procuraremos responder a estas questões ao longo desta unidade, abordando tanto o processo de institucionalização do cristianismo e a clericalização, como o surgimento de uma de suas principais instituições, que permanece firme e forte até hoje: o papado. O termo “medieval”, é importante observar, muitas vezes assume um sentido pejorativo e preconceituoso, quando utilizado para descrever um período intermediário (médio) de espera, no qual quase nada de importante teria acontecido, nenhum modelo interessante, padrão estilístico atraente ou produção intelectual relevante que se possa considerar. É visto como um tempo-lacuna, que fica no meio, entre a antiguidade e a idade moderna, estes sim, períodos de “real validade” (Dreher, 1994, p. 7). Muitos, inclusive, a denominam de “idade das trevas”, ou “era das trevas”; mil anos sombrios de desilusão e derrocada de sonhos. Essa ideia surge entre pensadores do século XV em diante, interessados em enaltecer a influência do pensamento antigo — retomado com o advento do Renascimento e depois com o Iluminismo — e rejeitar qualquer traço que representasse o Antigo Regime, que, por sinal, ainda sobrevivia nas formas de exploração dos camponeses. Ao lado deste, coexiste e frutifica um outro mito, tão prejudicial quanto aquele, porém, com tonalidades mais imaginárias: é a idealização e romantização dos tempos medievais, povoados de heróis cavaleiros investidos em suas armaduras, que percorrem o mundo batalhando pela Introdução à unidade 3 justiça e pela fé, como no caso das Cruzadas, pela honra e pelo amor. Consideramos ambas as posições no sentido de mostrar como a ideia de Idade Média pode ser ao mesmo tempo complexa e simples, bem como de esclarecer alguns dos preconceitos que gravitam em torno dela. Fato é que se trata de um novo período na vida da Igreja, com novas práticas, novas doutrinas, novos desafios, tanto em sua vida interna, como nas relações externas. A história não se repete, está sempre se transformando. Nosso intuito aqui não é abarcar todas as transformações ocorridas nesse período, mas apenas destacar as principais, no que diz respeito a dogmas e doutrina. Iniciamos, portanto, com as seguintes perguntas: que transformações sofreu o cristianismo ao tornar-se religião imperial e que configuração assumirá a partir do momento em que o papado ostenta poderes espirituais e temporais supremos? Quais foram os processos que culminaram na cristandade medieval? Que tipo de doutrinas e dogmas são originários desse período? 1.1. O fortalecimento institucional O Ocidente medieval nasce sobre as ruínas do mundo romano. Segundo o historiadorJacques Le Go� (1994, p. 27), em Roma esse “novo” ocidente encontrou vantagens e desvantagens; “ela foi seu alimento e sua paralisia”. A partir da adesão de Constantino à fé cristã, no séc. IV, Roma deixa, pelo menos oficialmente, a proteção dos deuses tutelares, em nome da proteção do Deus cristão: paz e prosperidade parecem estar de volta sob o comando de Cristo. Cria-se uma falsa ideia de unidade do império, tendo a religião cristã como cimento dessa unidade. Mas, como diz Le Go�, “o cristianismo é um falso aliado de Roma”. As estruturas romanas não passavam de “um quadro” onde o cristianismo poderia tomar forma. Essa religião tinha pretensões mais universais, e não se limitava a uma só civilização. Com a queda do Império em 476, no Ocidente – após um período de quase setenta anos, iniciado com a invasão e tomada de Roma por Alarico, chefe dos Godos, em 410 – explica Le Go� que o cristianismo será “o principal agente de transmissão da cultura romana ao Ocidente medieval. Herdara, sem dúvida, de Roma e das suas origens históricas, a tendência para dobrar-se sobre si próprio” (1994, p. 29). 1. Como se deu o surgimento do catolicismo romano? Um fator primordial para a coesão e fortalecimento do cristianismo, nesse momento de nascimento do medievo, foi o crescimento do papado. Desde Constantino, a autoridade da igreja, por meio dos serviços realizados pelos clérigos e bispos regionais — sempre, é claro, debaixo do olhar vigilante do imperador romano — vinha sendo cada vez mais incrementada e valorizada. Quando as estruturas desse império, que possuía na igreja seu elemento de coesão, começam a ruir com as invasões germânicas, ocorre processualmente um empoderamento natural das autoridades eclesiásticas como sendo as vozes máximas do cristianismo. A igreja passa a ser a “grande instituição provedora da antiga ordem que fora capaz de sobreviver, evitando ser subvertida pelos invasores” (Walker, 1981, p. 180). Inocêncio I (402-417) foi um desses líderes de destaque e proeminência nesse período. Reivindicou para a igreja romana a custódia da tradição apostólica e o mérito da fundação do cristianismo ocidental e, além disso, buscou a fundamentação no concílio de Nicéia, em 325, para a jurisdição universal dos bispos romanos. A ideia exposta por Martin Dreher é de que “a Idade Média foi um período de tradução”. Neste sentido, a cristandade, enquanto herdeira da cultura greco-romana, manteve alguns laços inevitáveis com essa cultura. Mas a linguagem conceitual com a qual ela se dirige a esse mundo medieval, não é de tradução do antigo, mas de recriação desse antigo em função de um novo. O que isto significa? Quer dizer que ela recria esse mundo a partir do próprio universo de linguagem e representação que a Idade Média apresenta, conferindo, talvez, a “velhas práticas”, uma nova roupagem, um novo verniz, configurando assim algumas práticas novas. Essa transição da língua grega para a latina não se dá por meio de uma tradução, mas de refundações e ressignificações, a partir da linguagem e do símbolo. DREHER, Martin N. A Igreja no Mundo Medieval. Vol. 02. (Coleção História da Igreja). São Leopoldo: Sinodal, 1994, p.9 Saiba mais 1.2. O nascimento do papado Estabelecer categoricamente quem foi o primeiro papa e quando isso se deu tem sido um assunto controverso, pois prevalecem imprecisões históricas sobre os critérios e argumento apresentados pela própria igreja romana. Porém, um nome importante e referencial aparece ainda no século V: Leão I (440-461), que pode ser considerado o primeiro papa nos moldes como hoje conhecemos essa figura religiosa. Leão I teve um papel importante quando da invasão dos hunos e vândalos, e também nos resultados a que chegou o Concílio de Calcedônia (451). Porém, os historiadores convencionam que sua principal contribuição se deu com a “ênfase ao primado de Pedro entre os apóstolos, tanto no que respeita à fé, quanto no que se refere ao governo, ensinando que o que Pedro possuíra, havia passado aos sucessores de Pedro”. Para completar, conseguiu com que o imperador do Ocidente, Valentino III, promulgasse um edito ordenando a todos que obedecessem ao bispo de Roma (papa), como portador que era do “primado de São Pedro” (Walker, 1987, p. 180). Assim, todos os bispos de Roma, a partir de Leão I, passaram a ser reconhecidos como sucessores do apóstolo Pedro, título cuja argumentação justificatória principal se vale de uma interpretação das próprias palavras de Jesus, quando declarou: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). Outros bispos vierem após estes. Em suma, vale destacar que os direitos que o papado medieval viria mais tarde reivindicar para si, já se esboçavam por volta dos séculos V e VI. E, como observa Walker (1981, p. 181), “só no transcurso dos séculos, e não sem fazer face a muitas vicissitudes, foi que se deu a plena efetivação do ideal papal”. O papado, enquanto coqueluche da igreja católica medieval, aparece como fruto de um processo, entre conflitos, impedimentos e avanços. Fato é que ele se estabeleceu no Ocidente, a partir do V século, e permanece até os dias atuais como força representativa do poderio máximo da igreja católica e como guardião de seus mais caros interesses. Todavia, o reinado da igreja não iria se estabelecer assim, sem conflitos. Estamos falando de um período em que a ocupação e o domínio do antigo território do império pelos povos bárbaros é crescente, além de ser fonte de confrontos e mortes por toda parte. Era necessário à igreja, a fim de manter seus privilégios perante a civilização e influência sobre as questões públicas, fazer novos acordos e estreitar novas relações, exatamente como fizera com o antigo império, quando de sua oficialização como religião do imperador. “A relação entre igreja e estado”, afirma David Bosch (2002, p. 273), “era, efetivamente, a de ‘dar’ e ‘receber’. O regime seria abençoado pela igreja, e o Estado, em troca, garantiria a esta proteção e apoio”. Como ilustração, basta mencionar a carta que o imperador carolíngio Carlos Magno escreveu ao papa Leão III, em 796, na qual reafirmava seu dever de defender, em qualquer lugar, a sagrada igreja de Cristo contra os assaltos dos pagãos e as devastações dos descrentes. Saiba mais A relação entre o poder da Igreja e o poder do Império A relação entre imperador e papa, durante o início da Idade Média, jamais foi livre de tensão; havia quase constantemente uma silenciosa contenda pela supremacia. Ao mesmo tempo, sabiam que se necessitavam mutuamente. O que valia para a esfera mais alta também valia no nível local; cada bispo ou sacerdote dependia da boa vontade e apoio das autoridades, e todo governante local requeria a aprovação da igreja. A dependência da igreja em relação ao poder imperial, também no trabalho missionário, constituía tanto uma necessidade quanto um ônus (BOSCH, David. Missão Transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p. 273). 2.1. Autoridade, clericalismo e exclusão dos leigos O historiador medievalista Hilário Franco Jr. fala de uma “linha tendencial” que ocupa a igreja cristã por toda a Idade Média, e resume a participação política e eclesiástica do cristianismo nesse período, dizendo que, num primeiro momento, a organização da hierarquia eclesiástica visava à consolidação da recente vitória do cristianismo. A seguir, a aproximação com os poderes políticos garantiu à igreja maiores possibilidades de atuação. Em uma terceira fase, o corpo eclesiástico separou-se completamente da sociedade laica e procurou dirigi-la, buscando desde fins do século XI erigir uma teocracia que esteve em via de se concretizar em princípios do século XIII. Contudo, por fim, as transformações que a cristandade conhecera ao longo desse tempo inviabilizaram o projeto papal e prepararam a sua maior crise, a Reforma Protestante do século XVI (Franco Jr.,2006, p. 67). Na opinião de Franco Jr. (2006, p. 69), a Idade Média nasceu da articulação que a igreja fez entre elementos da romanidade e elementos da cultura germânica. Ela foi “o ponto de encontro entre aqueles povos”. Foi necessária, porém, a criação de uma estrutura e hierarquia próprias, voltadas ao controle do laicato pelo clero, supervisionando ofícios religiosos, dando orientação em questões referentes a dogma e doutrina, realizando obras sociais, protegendo os mais pobres, oferecendo privilégios aos mais ricos, combatendo (e, paradoxalmente, legitimando) o paganismo. 2. Como se caracterizava a igreja medieval institucional e como era a religiosidade do povo? Nesse momento se acentua o controle dos “bens de salvação” pelo clero. Ocorre o que eu chamaria de cartada definitiva da hierarquia em relação à exclusão dos leigos (que já vinha gradativamente ocorrendo), seja na administração dos sacramentos, seja no acesso às escrituras. O grego, aos poucos, deixa de ser a língua-mãe, língua de acesso, dando lugar ao latim, língua restritiva, especialmente às camadas populares. A igreja adota o latim como seu dialeto principal, passa a usar a vulgata, versão em latim da Bíblia, traduzida por Jerônimo, e as missas (outra instituição desse período) também são realizadas exclusivamente em latim. De um movimento profético, em suas origens, o cristianismo passa a ser uma religião cada vez mais institucionalizada e clericalizada. Isso se dava por um processo de legitimação dessa autoridade junto às camadas leigas. Boreau afirma que a concentração de todas essas atividades nas mãos de apenas alguns cristãos, era aceita com naturalidade pelo conjunto dos fiéis, já que tal poder lhes fora atribuído pela própria Divindade: segundo o texto bíblico, Cristo dera aos apóstolos autoridade para expelir demônios, curar doenças e difundir sua doutrina. Os apóstolos, por sua vez, transmitiram esse poder aos bispos, isto é, os anciãos da comunidade, que fizeram o mesmo com seus auxiliares. Logo o clero se formava pela transferência de certo poder extra-humano por parte de quem possuía, para indivíduos que desde então passavam a integrar a mesma comunidade sagrada. Desde o princípio, por sua própria natureza, o clero estava distanciado dos demais cristãos (Boureau, 2002, p. 214). Muito rapidamente, desde o século III, a organização da igreja foi hierarquizando os ministérios, que antes eram destinados a todo o povo de Deus, conforme se pode notar nas palavras de Alain Boureau: Glossário Germânico: referente à atual Alemanha. Do conjunto de línguas faladas por tribos germânicas é que se originaram o inglês, o alemão, o neerlandês e as línguas escandinavas. Laicato: referente a leigo, ou seja, a quem não pertence ao clero; uma referência aos cristãos não ordenados para ofícios religiosos. [A1] Clero: referente aos ocupantes de cargos ou ofícios eclesiásticos institucionalizados; autoridades religiosas que concentram funções de liderança em distinção aos leigos. Os ofícios carismáticos de profeta, de doutor, de confessor são perdidos ou integrados ao “carisma da verdade” (charisma veritatis certum) atribuído aos ministérios propriamente sacerdotais. Tal institucionalização do carisma conhece um desenvolvimento particular no Ocidente, no qual as funções de bispo e de papa adquirem uma crescente amplitude, ligada a uma espiritualidade específica, mas também à ausência de um poder imperial forte e à solidez das estruturas territoriais romanas utilizadas pela rede episcopal. Assim, a igreja ocidental constitui-se efetivamente em garantia da fé, em objeto substantivo da confiança no Cristo (2002, p. 414). Hilário Franco Jr., um historiador, obviamente não considera o fator teológico que envolve a questão. Mas, apenas para realçar, as lideranças eclesiásticas foram constituídas, desde o tempo apostólico, para o serviço à igreja, manutenção da ordem, ensino do Evangelho e esclarecimento frente às crenças e ataques de seu tempo. Com o passar dos séculos ela foi se perdendo em meio às querelas de poder, prestígio, autoridade e doutrina. E o ministério ordenado, que entre os primeiros cristãos nasceu sob o signo do serviço e do amor, começa a se desvirtuar e gerar essa “natureza” de separação e distanciamento, à qual alude Franco Jr, em relação aos demais cristãos, subvertendo os princípios sob os quais fora instituída (ver 1 Pe 5:1-4). A cobrança de Pedro em torno dos líderes da igreja, no aludido texto, não era para que se transformassem em líderes polivalentes, personalistas e gananciosos, como muitos foram através dos séculos e como alguns hoje, consciente ou inconscientemente, ambicionam se tornar. Sua tarefa era mais ampla e difícil: conduzir o rebanho com o desejo de servir (não dominar) e em busca da mútua cooperação, como aconteceu com os primeiros cristãos (At 2:42-47). Não é o pastoreio do isolamento, da imunidade ou superioridade em relação às ovelhas, mas da sujeição, encarnação e envolvimento dignos de servos participantes dos sofrimentos e também da glória de Cristo. Veremos, mais adiante, que o monasticismo foi uma das instituições que, em parte, conseguiu preservar esse ideal do evangelho, a partir do VI século. Até aqui, realçamos o mundo de práticas religiosas institucionalizadas; agora, passamos para o das não institucionalizadas ou, até certo ponto, não reconhecidas pela igreja, e por isso subversivas; passaremos, portanto, não somente pelos processos que envolvem o poder e a instituição da igreja, mas principalmente por algumas das crenças e práticas religiosas que vão sendo reafirmadas, criadas e alimentadas entre os do povo, com ou sem a anuência da ordem, seus dogmas e doutrinas. O historiador André Vauchez, em sua obra A Espiritualidade na Idade Média Ocidental, diz que para falar de espiritualidade na Idade Média é preciso ir além de um pensamento que a postule como mera adesão a um corpo de doutrinas e dogmas, mas também “uma impregnação dos indivíduos e das sociedades pelas crenças religiosas que eles professam”. A espiritualidade que passa a ser desenvolvida nesse momento, especialmente entre as camadas populares (pobres, artesãos, camponeses), tem mais a ver com expressividades e religiosidades que são fruto de uma interiorização e individualização da mensagem cristã nas pessoas, em contato com as crenças pagãs (Vauchez, 1995, p.11). 2.2. Religiosidade popular Da sacralidade das formas organizadas, deslocamo-nos para a sacralidade dos ritos e da religiosidade popular. Comentamos anteriormente que nos séculos V e VI houve uma profusão de crenças místicas que se misturam com a fé cristã. No século VIII, a clericalização só fazia aumentar o fluxo dessas crenças entre os leigos. Sobre o sincretismo na Idade Média, Vauchez afirma que: Pressentimos que a vida espiritual das massas transbordava dos limites obrigatórios da instituição eclesiástica, e até do dogma cristão. [...] Mesmo nas regiões cristianizadas de mais longa data, a religião oficial ainda era apenas, em muitos casos, um verniz que recobria superficialmente elementos heterogêneos qualificados de “superstições” pelos clérigos (1995, p.23). A natureza ou o teor dessas práticas também já foi comentada na unidade anterior. Vauchez destaca algumas novas e velhas práticas que vigoravam nesse momento, como o culto dos mortos, como mostra, no século IX, a instituição da festa de todos os santos, satisfazendo um dos caprichos da piedade popular, à medida que enfatizava a vocação para a salvação dos fiéis já falecidos. Estes ritos foram introduzidos no cânon da missa, mostrando que “a espiritualidade do clero e a dos fiéis não constituíam nessa época dois mundos sem comunicação”. Essa observação de Vauchez incrementa as suspeitas de que o combate às superstições nem sempre foi algo assim tão ferrenho, a julgar pelas conveniências e/ou tendências de cada momento desse período medieval, em constante mudança. Outro encontro entre piedade popular e clericalestá no culto dos santos e anjos. Segundo Vauchez, a imagem de um Deus-Juiz, implacável, onisciente e distante, que estava incutida no imaginário dos fiéis, fazia com que o desamparo desses só aumentasse. Havia, assim, a necessidade de recorrer a mediadores, entidades espirituais mais acessíveis aos homens comuns, papel este desempenhado pelos santos e os anjos. Seu papel era o de conferir validade aos desejos dos fiéis e atendê-los na medida do possível. Mas a principal função era a proteção dos homens. “Os arcanjos, únicos individualizados, eram gênios tutelares das comunidades humanas e dos detentores do poder”. Outra prática que só crescia em vigor e prestígio era o culto das relíquias. Relíquias eram os objetos, ou até supostas partes do corpo, dos santos do passado (apóstolos, mártires), que passaram a ser veneradas ao representarem o contato desses fiéis com o “outro mundo”, também pelo “dinamismo benéfico” delas emanado, visto como meio de obtenção de vitórias e curas nas mais diferentes áreas da vida. Desse modo, a espiritualidade medieval assumia contornos cada vez mais definidos: o contato com o sobrenatural se dava por meio de gestos, expressões da alma e sacrifícios feitos pelos fiéis. Fórmulas, barganhas e promessas: elementos constitutivos de uma religião que se tornava cada vez mais utilitária e voltada para a satisfação das carências pessoais. Paralelamente, tanto ao espiritualismo utilitário que se desenvolvia na periferia da igreja, como ao engessamento institucional e dogmático vislumbrado no centro, desenvolvia-se uma forma “alternativa” de espiritualidade no período medieval, que é a espiritualidade monástica. Em síntese, a flexibilização crescente dos costumes e das práticas religiosas no seio da igreja cristã e à revelia dos dogmas e leis, que supostamente deveriam coibir tais práticas, conduziu a uma espiritualidade ao mesmo tempo em que mais intimista, também mais utilitária, no sentido de tentar manipular o sagrado em função dos desejos e anseios humanos. Vimos, portanto, que a espiritualidade que passa a ser desenvolvida nesse momento, especialmente entre as camadas populares (pobres, artesãos, camponeses), tem mais a ver com expressividades e religiosidades que são fruto de uma interiorização e individualização da mensagem cristã nas pessoas, em contato com as crenças pagãs. 3.1. O surgimento de heresias Para a consolidação da estrutura hierárquica e autoridade, vistas em itens anteriores, um outro elemento, paradoxalmente, deu sua parcela de contribuição: as chamadas “heresias”. De acordo com Hilário Franco Jr. (2006, p. 69), estas eram produto do sincretismo que fazia a força, mas também a fraqueza do cristianismo. De fato, ao reunir e harmonizar componentes de várias crenças da época, a religião cristã tornava-se mais facilmente assimilável, porém passível de interpretações discordantes do pensamento oficial do clero cristão. Do ponto de vista deste, heresia era, portanto, um desvio em relação ao dogma que colocava em perigo a unidade da fé. 3. Doutrinas e ritos praticados na Idade Média Saiba mais Importantes concílios da igreja antiga: A forma mais usual de debate e combate às heresias foi, desde o século II, a realização de grandes concílios ecumênicos (universais), como os de Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Porém, com o estabelecimento da cristandade a partir da Idade Média, foi necessário, em certos momentos, fazer “vistas grossas” frente a rebelião de crenças populares que se uniram ao catolicismo. Na desordem provocada pelas invasões, como afirma Le Go� (1994, p.60), os bispos e os monges haviam se tornado eles mesmos chefes polivalentes de um mundo desorganizado: juntavam à sua função religiosa uma função política, negociando com os bárbaros; uma função econômica, distribuindo víveres e esmolas; uma função social, protegendo pobres contra poderosos; e até uma função militar, organizando a resistência ou lutando com as ‘armas espirituais’, onde já não houvesse armas materiais. Tentaram conter o avanço dos costumes bárbaros, com a aplicação de disciplinas penitenciais e da lei canônica (o início do século VI é, simultaneamente à codificação civil, época de realização de sínodos e concílios). Porém, como observa Le Go�, eles mesmos estavam sendo “barbarizados” e viam-se incapazes de lutar contra as ingerências da barbárie dos grandes (líderes, chefes dos povos) e do povo. Usaram, assim, a velha tática de guerra do “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. A igreja começa a institucionalizar práticas que até então eram avidamente rechaçadas como superstições e heresias, ratificando, nas palavras de Le Go� (1994, p. 61), a regressão da espiritualidade e da prática religiosa: “julgamentos de Deus, inaudito crescimento do culto das relíquias, reforço dos tabus sexuais e alimentares em que a mais primitiva tradição bíblica se alia aos costumes bárbaros”. Desde a sua oficialização, no séc. IV, como aponta Leonildo S. Campos, o cristianismo se tornou um produtor hegemônico de símbolos, práticas e rituais religiosos. Nesse período, com a abertura ao culto cristão, já vinha ocorrendo um progressivo processo de sincretismo, sob os olhos do imperador. Como descreve Campos (1997, p. 170), desde então, houve uma espécie de adaptação do culto cristão aos novos lugares de adoração, alguns deles anteriormente dedicados aos deuses pagãos. Vários santuários locais foram reconsagrados aos mártires e santos cristãos, e com o passar dos séculos, um comércio de imagens, ícones e relíquias sagradas se estabeleceu ao redor deles, práticas essas que constituíram mais de mil anos depois, aos olhos dos reformadores, evidências claras da “paganização” da Igreja cristã. Após a desintegração do poder político do Império Romano, a igreja permaneceu como o único centro de referência capaz de manter a tradição e os costumes do passado. O uso da violência e a imposição da fé, especialmente sobre uma população rural portadora de crenças mágicas e pagãs, tornou-se algo comum naquele momento. Entretanto, como acentua Campos, essa catequese “apenas formou uma camada de verniz sobre uma antiga realidade religiosa”. Como também aponta Keith Thomas (1991, p. 171), a aristocracia eclesiástica não conseguiu influenciar profundamente as massas populares, e por toda a parte na Europa, “multiplicavam- se os cultos às relíquias sagradas, verdadeiros fetiches milagrosos, aos quais se atribuíam poder de curar enfermidades e proteger as pessoas dos perigos”. Uma das características da espiritualidade medieval no século VIII foi o retorno ao Antigo Testamento. Dela, o que marcou profundamente foi a vida espiritual e as mentalidades religiosas. Na época do Império carolíngio o cristianismo tornara-se mais e mais uma questão de práticas exteriores e cumprimento de lei e regras espirituais. O moralismo carolíngio e os costumes bárbaros facilitaram mais um regresso às práticas judaizantes, e a fé cristã corria o risco de se deformar em credos e costumes supersticiosos. Glossário Carolíngio: referente a Carlos Magno (742 - 814), cujo personagem é o maior representante do Império Carolíngio – dinastia que ocupou grande parte da região central da Europa medieval, constituindo o embrião da atual França. Dogma: referente à doutrina ou conjunto verdades religiosas que define o que é correto se acreditar ou crer. Cânon: termo da língua grega que significa “vara de medir”, ou “medida”; no sentido religioso, consiste em uma referência ao que se estabelece como “medida da fé”, ou seja, verdade sagrada ou divina. Concílio: reunião de autoridades eclesiásticas para análise e tomada de decisões de assuntos referentes à fé ou à doutrina religiosa. Nesse tempo, a vida litúrgica toma lugar crescente na vida dos fiéis. Os paramentos da missa evoluem e, com a constante clericalização, há uma exclusão dos fiéis da comunhão, que se evidenciava por diversas razões práticas (Vauchez, 1995, p. 16-17): Primeiro,o culto e seus ritos tornaram-se um “apanágio de especialistas”; Segundo, houve a inserção do canto gregoriano (forma erudita de canto, bem alheia ao costumes e cultura do povo); Terceiro, a adoção do latim como língua cultual; as leituras, especialmente da Bíblia, eram feitas em latim, tornando impossível a compreensão pela maioria das pessoas, de cultura germânica; Quarto, uma separação da relação que havia entre vida cotidiana e sacramento; elimina-se tudo o que poderia haver de realista e concreto no sacramento. Por ex. A comunhão (eucaristia) passou a ser dada, não mais na mão do fiel, mas diretamente em sua boca. 3.2. Valorização da magia Um legado do catolicismo medieval foi, portanto, o apego às relíquias ou objetos mágicos como fetiches de proteção. Estes eram guardados nos lares dos devotos com o sentido de ajuda contra doenças, infortúnios do demônio, intempéries ou pragas que poderiam ameaçar as colheitas. Thomas exemplifica isto dizendo que o ritual básico era o benzimento com sal e água para a saúde do corpo e expulsão dos maus espíritos. Mas os livros litúrgicos da época também traziam rituais para benzer casas, gados, culturas, embarcações, ferramentas, armas, cisternas e fornalhas. Havia fórmulas para abençoar homens que se preparavam para sair em viagem, para travar um duelo, para entrar em batalha ou mudar de casa. Havia métodos para abençoar os doentes e tratar de animais estéreis, para afastar o trovão e trazer a fecundidade ao leito matrimonial. Fundamentalmente em todo esse procedimento era a ideia de exorcismo, o esconjuro formal do demônio, expulsando de algum objeto material por meio de preces e da invocação do nome de Deus. A água benta podia ser utilizada para afastar maus espíritos e vapores pestilenciais. Era remédio contra a doença e a esterilidade (Thomas, 1991, p. 38). Destarte, a igreja, nas palavras de Thomas, atuava como “repositório de poderes sobrenaturais”, subsidiando crenças sobre as quais nem ela mesma tinha o controle. Esses poderes podiam ser distribuídos aos fiéis para auxiliá-los em seus problemas do cotidiano. O mais paradoxal é que essas crenças surgiam, sobretudo, ligadas aos sacramentos tradicionais da igreja, como o batismo e a eucaristia, além de ritos como a missa (que entra em vigor por volta do século VI), o culto mariano – que ocorre como uma adaptação do antigo culto à deusa Diana, a partir da homologação da devoção à Maria como Mãe de Jesus, no concílio de Éfeso em 431 – e o culto aos mártires ou a adoração dos santos. Essa última, ao lado do culto mariano, tornou-se uma das formas de devoção popular mais comuns e mais bem difundidas no período medieval. Acreditava-se na proteção dos santos, que estavam sempre a postos para cuidar de uma variedade de eventualidades da vida cotidiana. O historiador Keith Thomas diz que a crença na proteção dos santos conferia um sentido de identidade e existência corporativa a pequenas instituições que, do contrário, seriam indiferenciadas. Foi por isso que continuaram a ter popularidade, como nomes para escolas e universidades mesmo numa era protestante. Mas a adoração dos santos em geral dependia da crença de que os santos e santas do passado, além de terem sido exemplos de um código ideal de conduta moral, podiam ainda empregar poderes sobrenaturais para aliviarem as adversidades de seus devotos na Terra. As doenças, assim como as profissões e localidades, eram atribuídas aos cuidados especiais de um santo apropriado, pois, na mentalidade popular, os santos eram usualmente vistos mais como especialistas do que como clínicos gerais (Thomas, 1991, p.37). Não obstante levarmos em consideração esses elementos, vale ressaltar, segundo Thomas, que não era a igreja quem oferecia diretamente e deliberadamente esse “corpo mágico” de ritos e Magia: prática baseada na crença de ser possível influenciar o curso dos acontecimentos e produzir efeitos não naturais, valendo-se da intervenção de seres sobrenaturais e da manipulação de algum princípio oculto supostamente presente na natureza, seja por meio de fórmulas rituais ou de ações simbólicas. Glossário crenças aos leigos. “As principais preocupações da igreja eram espirituais. Em sua maioria, as alegações de magia na religião eram parasitárias de suas doutrinas” (Thomas, 1991, p. 51). Ou seja, pela leitura que faz esse historiador, era apenas em âmbito popular que se creditava um poder mágico a tais doutrinas da igreja; as crenças populares eram, nesse sentido, releituras ou ressignificações, desde uma perspectiva originária daqueles meios, do corpo ritual e dogmático tradicional estabelecido e disponibilizado pela igreja. Por isso, pode-se concluir que ela foi em parte “culpada” por possíveis desvios doutrinários ou “heresias”, e em parte inocente ou mera expectadora de tudo aquilo. Contudo, a igreja combatia e deixava de combater as chamadas “superstições” em seu seio conforme as conveniências do momento, adotando uma postura ambivalente: ora lutando contra as crenças populares, ora endossando ou fazendo “vistas grossas” frente a elas. É como pressupõe a lógica oferecida por Thomas (1991, p. 54), quando diz que, se a crença na eficácia mágica da hóstia servia para aumentar o respeito pelo clero e fazer com que os leigos fossem mais regularmente à igreja, por que não tolerá-la tacitamente? Práticas como a veneração de relíquias, a recitação de preces ou o uso de talismãs e amuletos podiam chegar a excessos, entretanto, se o efeito disso fosse unir mais o povo ao que se considerava a verdadeira igreja e a Deus, prevalecia o argumento de que os fins justificam os meios. O que contava era a intenção do devoto, e não os meios empregados. Desde que tais práticas refletissem uma autêntica confiança em Deus e seus santos, delas não poderia advir dano sério. Os líderes e articuladores da Reforma Protestante, no século XVI, viriam a reagir energicamente contra as conotações mágicas vivenciadas pela igreja católica medieval, atribuindo às mesmas, inspirações do mal, associando-as à prática de necromancia. Os ritos católicos eram vistos, em sua maioria, como metamorfoses mal disfarçadas de cerimônias pagãs anteriores, os primeiros reformadores também começaram a suspender costumes tradicionais do calendário. Evidentemente, essa nova atitude protestante em relação à magia eclesiástica não logrou uma vitória imediata, pois algumas tradições do passado católico insistiam em subsistir (Thomas, 1991, p. 66-70). Retomando de maneira breve o conteúdo das duas últimas unidades, dada sua interligação: vimos, em primeiro lugar, que o desenvolvimento do papado foi extremamente relevante para o fortalecimento institucional do cristianismo em meio a um império em ruínas e as facetas de um novo mundo (medieval), cheio de “armadilhas” e desafios, que requereria novas posturas e adaptações por parte da igreja; em um segundo momento, a clericalização dos ministérios e a exclusão do povo de Deus à mera passividade (pelo menos em tese) foi outra forma que a igreja encontrou para se articular e se firmar frente às mudanças políticas e sociais na Idade Média. Em terceiro lugar, fez-se uma observação geral acerca das crenças e doutrinas que emergiram nesse período, ora sendo combatidas, ora sendo legitimadas, de acordo com a estratégia e/ou a conveniência do momento. Nisso vemos claramente destacada a capacidade da religião, em um sentido mais amplo, tanto de dogmatização e intolerância, quanto de flexibilização dos costumes e práticas que configuram uma vida consagrada. Vislumbramos, de modos diferentes, essa adaptação sendo feita no cristianismo contemporâneo, seja entre católicos ou protestantes. A adaptação, seja de que ordem for, não é um problema. O problema ocorre quando essa adaptação compromete a integridade da mensagem e do testemunho cristãos. E quanto a isso precisamos estar atentos. O conhecimento histórico, assim, nos ajuda a compreender a realidade e interpretá-la, construindo diretrizes paranovas ações no tempo presente. Outro fator para o qual precisamos atentar é quanto à nossa tendência ao julgamento. Frisamos este ponto já na primeira unidade, mas é uma ressalva sempre cabível: avaliar criticamente não equivale a julgar de forma anacrônica; o julgamento é um dos lugares impróprios da história e da teologia. Dadas as alternativas históricas que estes cristãos medievais tinham à sua disposição, as escolhas aqui apresentadas foram as que pareceram ter mais nexo para eles. “É preciso perguntar se nossas opções, em circunstâncias similares, teriam sido mais adequadas, mesmo se diferentes” (Bosch, 2002, p. 274). Considerações finais Glossário Anacronismo: atribuir a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época; julgar atitudes ou fatos com critérios que estejam fora de sua respectiva época. Referências BOSCH, David. Missão Transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002. BOUREAU, Alain. Fé. In: LE GOFF, J. & SCHIMITT, J. C. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Vol. 1. São Paulo: EDUSC, 2002. CAMPOS, Leonildo S. Templo, Teatro e Mercado. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Simpósio e UMESP, 1997. DREHER, Martin N. A Igreja no Mundo Medieval. Vol. 02. (Coleção História da Igreja). São Leopoldo: Sinodal, 1994. FRANCO JR, Hilário. A Idade Média. Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006. LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Vol. I. Lisboa: Editorial Estampa, 1994. THOMAS, Keith. Religião e o Declínio da Magia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. VAUCHEZ, André. A Espiritualidade na Idade Média Ocidental. Séculos VIII a XIII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. WALKER, W. História da Igreja Cristã. São Paulo: ASTE, 1987. Textos complementares PINHEIRO, Jorge; SANTOS, Marcelo. Manual da história da igreja e do pensamento cristão. São Paulo: Fonte Editorial, 2013, p.101-111 VAUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média Ocidental. Séculos VIII a XIII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, p.11-31. CONTI NUE UNIDADE IV – CRISTIANISMO MEDIEVAL Nos próximos tópicos, vamos estudar outro fenômeno religioso importante da Idade Média: o monasticismo. Buscamos compreender, em linhas gerais, o que se entende por monasticismo? Onde ele surgiu e com que proposta? Em que medida ele se diferenciava do modelo de igreja vigente, e/ou em que medida apenas lhe servia de apoio? Quais são os desdobramentos possíveis desse movimento? Em que medida o monasticismo pode ser considerado um “agente missionário” durante esse período? Que tipo de influência exerceu na história do cristianismo, não apenas na Idade Média, mas também em seu futuro? Em linhas gerais, compreender o que foi o monasticismo, suas principais correntes e influências no mundo medieval; entender em que medida o monasticismo pode ser considerado um “agente missionário” durante esse período. Neste aspecto, cabe destacar seu papel voltado à integralidade da missão: cuidado social de desvalidos, doentes, órfãos, idosos e viúvas; trabalho educacional oferecido a quem não podia pagar por ele; produção de livros e formação de bibliotecas, assegurando a preservação e transmissão de conhecimentos e saberes às gerações futuras; o conhecimento de plantas, responsável por assegurar tratamento e cura das vítimas mais expostas a um tempo de epidemias coletivas, salvando assim os que se encontravam mais alijados do amparo social. Também veremos sobre o Islamismo. Este tem sido, nos dias atuais, assunto recorrente nos meios de comunicação, assim como tema cada vez mais desafiador nos campos de estudo que tratam do cenário religioso contemporâneo. O movimento islâmico tem suas raízes históricas na Idade Média, sendo, já em sua gênese, protagonista de tensões e embates envolvendo cristianismo e judaísmo, especialmente pelas disputas e controle de territórios sagrados. Objetivamos conhecer o surgimento do Islamismo; analisar a relação do Islã com o cristianismo e o judaísmo no contexto medieval; trazer reflexões para o cenário religioso atual que envolve as religiões monoteístas. Introdução à unidade 4 Veremos por que uma reforma passou a ser vista como necessária na Igreja, ainda no período medieval, culminando na ruptura protestante configurada no século XVI? Por que muitos cristãos, por diferentes motivos, especialmente a partir do século X, passaram a ver a necessidade de reforma? Buscaremos conhecer os motivos que levaram cristãos em diferentes momentos e lugares do contexto medieval a desejarem uma reforma na igreja; identificar e caracterizar alguns dos aspectos teológico-doutrinários que são vistos como preponderantes para a busca por reformas; estabelecer noções preparatórias para compreensão dos movimentos denominados de “pré-reformadores” no período medieval, a serem analisados na próxima unidade. Diante disto, ainda analisar: O que foram os chamados movimentos pré- reformadores e por que assim são denominados? Qual a importância deles nesse período de transição? No que de fato avançaram em relação ao status quo religioso de seu tempo? Começamos a estudar aqui um período importante na história da igreja, pois os personagens e acontecimentos desse período precederam e abriram passagem para aquilo que tempos depois se passou a denominar Reforma Protestante. 1.1. As origens do Islã Discórdia familiar: assim começa a descrição bíblica do que viria a se tornar um histórico conflito entre povos que professam a fé monoteísta. Segundo a narrativa bíblica do Gênesis, não podendo ter filho de sua mulher Sarai, Abrão tomou por esposa a sua escrava egípcia, Hagar, da qual viera a nascer-lhe Ismael. Esta atitude, que foi inicialmente sugerida pela própria Sarai, tinha precedentes legais no Código de Hamurabi (elaborado na Mesopotâmia), o qual prescrevia para os contratos de casamento, a obrigação de prover-se esposa para o marido, caso a mulher não pudesse lhe gerar filhos. 1. O surgimento do Islã e as cruzadas medievais Glossário Mesopotâmia: termo que significa terra ou região entre rios; entre os rios Tigre e Eufrates, localizados na Ásia. Código de Hamurabi: conjunto de leis criadas na Mesopotâmia, por volta do século XVIII a.C., pelo rei Hamurabi, da primeira dinastia babilônica. O código é baseado na lei de talião, “olho por olho, dente por dente”. As 281 leis foram talhadas numa rocha de diorito de cor escura. A concepção de Ismael, entretanto, gerou desentendimento e conflito entre senhora e escrava: “Vendo Hagar que havia concebido, foi sua senhora por ela desprezada ... Disse Sarai a Abrão: seja sobre ti a afronta que se me faz a mim [...] Sarai humilhou-a, e ela fugiu de sua presença” (Gn 16:1-6). Depois disso, um anjo do Senhor apareceu-lhe “no caminho do deserto de Sur” (v.7) ordenando a Hagar que voltasse para a casa de sua senhora, fazendo-lhe, inclusive, uma promessa: “Multiplicarei sobremodo a sua descendência [...] Concebeste, e darás à luz um filho a quem chamarás Ismael [...] Ele será entre os homens como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele”. (Gn 16:9-12). Interessante é notar que as promessas feitas por Deus a Abrão incluem também Ismael: “Dar-te-ei à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em possessão perpétua, e serei o seu Deus [...] abençoá-lo- ei (Ismael), fá-lo-ei fecundo e o multiplicarei extraordinariamente; gerará doze príncipes, e dele farei uma grande nação” (Gn 17:8,20). Ismael também foi incluído na aliança pelo rito da circuncisão, juntamente com seu pai (Gn 17: 23-27). Mais tarde, de forma miraculosa, a estéril Sara também viria a conceber, seria um menino sobre o qual também repousaria grande e até maior promessa: “Sara tua mulher te dará um filho e lhe chamarás Isaque: estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua para a sua descendência” (Gn 17:19). Um novo desentendimento surge quando ocorre o nascimento daquela criança: “Vendo Sara queo filho de Hagar, a egípcia, caçoava de Isaque, disse a Abraão: rejeita essa escrava e seu filho, porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque meu filho” (Gn 21:9-10). A escrava então conduziu o seu filho ao deserto, onde se tornou guerreiro, vindo a se casar com uma egípcia. Ismael morreu com “cento e trinta e sete anos” (Gn 25:17) e a sua descendência passou a ocupar as regiões da atual Arábia Saudita (v. 18). 1.2. A ocupação da Palestina pelo povo hebreu Segundo a narrativa do Gênesis, e como dito anteriormente, de Abraão descende Isaque, do qual nasceu Jacó, que teve o seu nome mudado para Israel (Gn 32:28). De Israel nasceram doze filhos, que vieram a formar as doze tribos que ocupariam a terra prometida por Deus a Abraão, por volta do ano 1.200 a.C., conquistada sob a liderança de Josué, após a libertação do Egito e a peregrinação pelo deserto. Nesta terra da promessa, o rei Davi, por volta do ano mil a.C., fez de Jerusalém a capital do seu reino, onde seria construído por Salomão, no século X a. C., o templo sobre o Monte Sião, que se tornaria a principal referência sagrada para o povo judeu, que faria daquela cidade, definitivamente, a “Cidade Santa”. Historicamente, nasceria ali a primeira religião monoteísta: o Judaísmo (nome dado por referência à proeminente tribo de Judá). Da descendência deste povo, mais tarde, também nasceu Jesus Cristo, a partir de quem se formou a segunda crença monoteísta: o Cristianismo. No século VI a.C., os hebreus foram submetidos ao duro exílio babilônico, quando também ocorreu a primeira destruição do templo. Após setenta anos de cativeiro, apenas um terço da população que fora deportada retornou, o restante espalhou-se nas mais diferentes cidades do mundo antigo, fato que ficou conhecido como a diáspora (dispersão) judaica. A população que voltou do exílio, sob a liderança de Esdras e Neemias, teve a difícil tarefa de reerguer a nação, reconstruir os muros e o antigo templo. Nos dias de Cristo, da população de 5,5 milhões de judeus, apenas um terço continuava a viver na sua própria pátria, estando sob o domínio político do Império Romano. Esta presença estrangeira na sua terra gerava grande desconforto e revolta ao povo que se considerava legítimo herdeiro daquelas possessões devido às promessas que o próprio Deus havia feito ao patriarca Abraão. Foi nesse ambiente de insatisfação que, no ano 66 d.C., eclodiu uma revolta armada dos partidos religiosos judaicos que buscavam a libertação da presença e dominação romana na Palestina. Após quatro anos de sangrentos combates, finalmente, as legiões romanas, lideradas pelo general Tito, conseguiram retomar o controle da cidade de Jerusalém, quando o templo acabou sendo completamente destruído pelos soldados romanos, cumprindo, assim, o que Cristo havia predito em Mateus 24:1,2. Neste episódio, no ano 70 d. C., todos os judeus foram definitivamente expulsos da sua terra, ocasionando a segunda diáspora. A partir disso, o povo judeu passou a existir como nação sem território e sem Estado. Disperso agora pelo mundo, foi através da religião, centralizada nas sinagogas, que este povo procurou preservar os seus costumes, tradição e a identidade religiosa. Os sacrifícios de animais deixaram, então, de ser praticados: não havia mais o templo para este rito. Um rabino, por volta do ano 90, ao visitar as ruínas da Cidade Santa, interpretou o texto de Oséias 6:6 (“pois misericórdia quero, e não sacrifício”), dizendo que a partir de então, a “caridade” iria substituir os sacrifícios até o dia em que aquele espaço sagrado fosse novamente restaurado. No século IV, Constantino, imperador romano, declarou-se cristão e reconheceu o Cristianismo como religião lícita em todo o Império. Helena, mãe do imperador, tornou-se uma cristã piedosa e promoveu a construção de templos na Palestina, em locais considerados sagrados pelos antigos cristãos: o da Natividade em Belém, onde Jesus nascera, e também o do Santo Sepulcro, onde se acreditava que o corpo de Cristo havia sido sepultado. A partir daí, nos séculos seguintes, visitar a Palestina passou a ser o sonho de toda a cristandade, motivada pelos mais diferentes interesses: conhecer os lugares em que Jesus viveu; batizar-se no Rio Jordão; conseguir objetos supostamente sagrados (como, pedaços da cruz em que Cristo morrera, ou que tivessem sido utilizados por algum dos apóstolos, e ainda, pedras do Sinai, água do Rio Jordão etc.), por acreditarem que os mesmos possuíssem poderes miraculosos contra enfermidades ou para proteção das casas e dos negócios; pagar votos ou penitências. Também foram construídos vários mosteiros nestes arredores. Neste tempo, os judeus tiveram nova permissão para visitar a Terra Santa, na prática, porém, houve dificuldades para ali se estabelecerem devido à presença em maioria de cristãos que lá se fixaram e ao estigma que os cristãos medievais cultivavam por eles. Tal embate era basicamente ocasionado por dois motivos: primeiro, eram diretamente responsabilizados pela morte de Jesus; segundo, haviam perseguido a igreja primitiva, proibindo os cristãos de se reunirem no templo de Jerusalém e também em muitas das suas sinagogas. No século V, porém, com a tomada do Império Romano do Ocidente, pelos chamados “povos bárbaros”, ocorreram profundas turbulências políticas que afetaram o controle da Palestina pelos cristãos. Mas, foi partir do século VII d. C, quando surgiu a religião fundada por Maomé, que a disputa religiosa pela Cidade Santa se agravou ainda mais. 1.3. Formação e desenvolvimento do Islamismo No século VII d.C., surgiu a terceira religião monoteísta, o Islamismo, fundada por Maomé, de origem árabe. Atribui-se a ascendência genealógica do povo árabe a Ismael, o filho de Abraão com a escrava egípcia Hagar. As diferentes tribos, que se formaram a partir deste povo, se tornaram politeístas (crença em vários deuses), ao contrário dos descendentes de Isaque. É de uma destas tribos que nascerá, no ano 570 d. C., em Meca, Maomé. Tendo ficado órfão muito cedo, Maomé foi criado por seu tio. Passou por grandes privações até tornar-se administrador dos bens da rica viúva Kadidja, com a qual se casou em 595. Ao tornar-se mercador, viajou até a Síria, onde teve contato com as doutrinas monoteístas (crença em um só Deus), passando a ser por elas influenciado. Foi a partir daí que começou então a se preocupar com as crenças do seu povo, fato que o levava a se retirar sistematicamente para as montanhas nas proximidades de Meca, onde, por volta do ano 610, afirmara ter tido visões e audições nas quais ouvia a voz de Deus e via o arcanjo Gabriel. Passou a estar convicto de ser um escolhido de Deus (nome que em árabe significa Alá) para ser o profeta que iria reconduzir o seu povo à verdadeira fé no verdadeiro Deus. Suas primeiras pregações, em que descrevia em cores vivas o fim do mundo, os castigos do inferno e as alegrias do paraíso, não obtiveram muito êxito. Conflitos de ordem econômica levaram-no a fugir para Medina, em 622, onde viria a conquistar muitos seguidores. Como um líder messiânico, acreditava ser o escolhido para restaurar a verdadeira religião de Abraão; objetivava aperfeiçoar o Judaísmo e Cristianismo, nos quais via distorções. Tornou-se ferrenho adversário dos judeus quando estes rejeitaram suas pregações. Por ocasião da sua morte, em 632, Meca já havia sido por ele conquistada tornando-se a cidade sagrada do Islã e quase toda a Arábia já seguia seus ensinamentos. O Alcorão (ou Corão), que registra seus ensinos e revelações, veio a ser escrito algum tempo depois, tornando-se a verdade absoluta a ser obedecida e o fundamento do Islamismo (“islã” significa “submissão à vontade de Deus”). Glossário Monoteísmo: Fé professada em um único Deus. Alá: Palavra árabe que significa “Deus”. Alcorão (ou Corão): Termo da língua árabe Al-qurã, que significa “A leitura” (leitura sagrada). Islã (Islamismo): Significa “submissão à vontade de Alá”. Israelenses:Judeus que atualmente vivem no Estado de Israel (na Palestina). Após a morte de Maomé, o movimento islâmico passou a ser liderado pelos califas (“sucessores”), e um objetivo maior passou a ser perseguido: fazer com que todos os homens reconheçam que Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta. Para isso formaram-se exércitos árabes, pois a verdade do Islã deveria ser propagada, ainda que para isso fosse preciso o auxílio da espada. Iniciava-se, desta forma, o que viria a se configurar em guerra santa. Em pouco mais de um século de existência, o Islamismo já havia feito grandes conquistas religiosas e territoriais. Uma delas foi Jerusalém, com seus lugares sagrados, invadida e dominada pelos árabes no ano 638, sob a liderança religiosa do califa Omar. Dois anos depois, com a conquista de Cesareia e Gaza, toda a região estava sob o domínio do Islã. No início, não houve perseguição nem a cristãos nem a judeus que habitavam a Terra Santa pelo fato de serem também monoteístas. Ao entrar em Jerusalém, o califa Omar decretou: “os cristãos terão garantidos os seus bens e suas igrejas ... Os judeus podem morar em Jerusalém junto com os cristãos, desde que respeitem o Profeta e o Corão”. Proibiu-se, entretanto, que os cristãos fizessem propagação da sua fé entre os muçulmanos e que estes viessem a se converter ao Cristianismo ou ao Judaísmo. Mais tarde, no lugar do antigo templo dos judeus, os árabes construiriam duas mesquitas, sendo a de Omar considerada o terceiro mais importante santuário do Islã, por acreditarem que daquele lugar o profeta Maomé ascendeu ao céu, logo depois de sua morte. Toda a igreja imperial do Oriente sucumbiu perante o Islã: o Egito e o Norte da África, Damasco, Pérsia; parte da França e Espanha, também trocaram o Evangelho pelas leis do Corão. Os principais centros da fé cristã antiga, como Jerusalém, Antioquia (Síria), Alexandria (Egito) e Cartago (África), foram dominados por essa nova religião, restando apenas Roma e Muçulmano: Vocábulo do árabe Muslim, que significa “aquele que se entrega ao Islã”. Palestina: Região geográfica da Ásia, atualmente ocupada por judeus, cristãos e muçulmanos. Palestino: Termo usado para identificar os muçulmanos que atualmente vivem na Palestina. Constantinopla, sendo que esta última viria também a ser conquistada pelos turcos otomanos, em 1453. Com o controle das regiões que haviam sido o berço da fé cristã, a partir do século VIII, cristãos e judeus passaram a ter cada vez mais dificuldades para realizarem peregrinações à Terra Santa. Por isso, a partir do século XI, os cristãos passaram a organizar movimentos conhecidos como “Cruzadas”, que duraram dois séculos (1096-1291), visando a libertação daqueles territórios. A organização da primeira cruzada se deu no ano de 1096, por convocação do Papa Urbano II. Foi constituída por um exército de cristãos que totalizou 20 mil homens e mulheres, os quais marcharam para Jerusalém, em uma caminhada que durou mais de dois anos. O historiador Martin Dreher descreve os episódios e as mobilizações que marcaram algumas das cruzadas: O primeiro grupo partiu da França e era composto por 20.000 homens e mulheres. Seu líder era um eremita de nome Pedro de Amiens, um dos muitos pregadores ambulantes da época. Pedro e todos os seus seguidores queriam ir para Jerusalém, a fim de esperar a libertação de Sião e milagres. Não tinham dinheiro, nem alimentos, mas muita fome. Houve depredações, saques e mortes por onde passaram. Depois de muitas dificuldades chegaram à Ásia Menor, onde foram dizimados pelos turcos [...] Em 1097 formou-se um grupo com 12.000 homens e mulheres. A caminhada até Jerusalém levou dois anos. Em 14 de julho de 1099 Jerusalém foi tomada. Como era uma sexta-feira, todos se lembraram da crucificação de Jesus e, por isso, organizaram uma matança feroz contra a população muçulmana. Não houve sobreviventes. Os judeus haviam se refugiado em sua sinagoga. Ela foi posta em chamas. Todos morreram. Finalmente, esse bando, manchado de sangue, entrou na Igreja do Santo Sepulcro para se reunir em oração diante de Deus (1994, p. 58, 59). Na verdade, o objetivo da libertação da Terra Santa jamais foi alcançado, pois tudo o que conquistaram voltaram rapidamente a perder. Ainda mais sete cruzadas foram organizadas sem que obtivessem maiores êxitos, pelo contrário, quase todas tiveram um fim trágico, principalmente para os cristãos do Ocidente. A partir desse momento, a Palestina ficou exclusivamente debaixo do controle islâmico, que fez definitivamente de Jerusalém um dos lugares sagrados de sua fé. SAIBA MAIS: A Palestina nos dias atuais Amparadas pela Inglaterra, desde o final do século XIX, grandes levas de judeus começaram a imigrar para a antiga Palestina, fato que se intensificaria ainda mais na década de 1940, quando o movimento nazista, liderado por Hitler, na Alemanha, provocou a Segunda Guerra Mundial, ocasião em que aproximadamente 6 milhões de judeus foram mortos nos campos de concentração. Com este “holocausto”, no final da guerra, em 1945, o mundo se sensibilizou com a situação em que se encontrava este povo. A partir daí, países como Estados Unidos e Inglaterra, lideraram um movimento para a reintegração de Israel em sua pátria, até que em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU), em uma reunião presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha, votou pela partilha da terra da Palestina em dois territórios, dando aos judeus o direito de reconstruírem o seu Estado. Dessa forma, em 1948, foi criado o novo Estado de Israel, do qual, perto de 800 mil árabes saíram ou foram expulsos, formando um contingente atual de 2,5 milhões de refugiados vivendo em vários países. Em pouco tempo os judeus, que receberam uma região desértica, desenvolveram avançada tecnologia de irrigação, fazendo literalmente o “deserto florescer”, vindo a constituir-se em uma das grandes potências no cenário econômico mundial. Nesta partilha de território feita com os árabes, Jerusalém e outros locais sagrados tiveram que também ser divididos, sendo que o exato lugar do antigo templo judaico continuou ocupado pela mesquita muçulmana de Omar. Daí porque os judeus passarem a empreender guerrilhas na Terra Santa visando expandir suas fronteiras, transferir para Jerusalém a capital do seu Estado, atualmente centrada em Telaviv, e reconquistar para sua fé o lugar do antigo templo, do qual só lhes resta, atualmente, o Muro das Lamentações, e ali novamente reconstruir um novo santuário aos moldes daquele. Em 1967, após intensos e sangrentos combates, a parte árabe da cidade de Jerusalém foi tomada pelos israelenses, desencadeando, assim, a revolta por parte dos palestinos (como são chamados os muçulmanos que lá vivem), o que transformou a Terra Santa num permanente palco de guerrilhas. Foi neste período que surgiu o líder Yasser Arafat, que criou, no final dos anos 60, a Fath, movimento guerrilheiro islâmico que se tornou a espinha dorsal da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Nos anos 70, ele colocou a questão da Palestina no centro das atenções mundiais com uma sangrenta campanha terrorista contra Israel, momento em que os países árabes chegaram a fazer um boicote nas exportações de petróleo. Porém no final dos anos 80, desistiu do plano de riscar o Estado judeu do mapa. Já nos anos 90, Arafat começou a procurar acomodação com o inimigo, passando a buscar acordos de paz, chegando a receber, inclusive, o Prêmio Nobel, ganho em parceria com o israelense Itzhak Rabin pelos acordos de paz assinados em 1993. Nesses acordos, Rabin concordara em ceder, aos poucos, os territórios ocupados enquanto a OLP, por sua vez, passaria a reconhecer o Estado israelense. O assassinato de Itzhak em 1995, por um judeu fanático, atravancaria novamente os processos de paz. Yasser Arafat passou a presidir a Autoridade da Palestina, com sede na Faixa de Gaza, que controla 80% deste território que é habitado por 1 milhão de palestinos e 4 mil colonos israelenses, exercendo também controle sobre40% da Cisjordânia, onde vivem milhões de Palestinos e 200 mil colonos judeus. Arafat teve como grande objetivo não só recuperar territórios perdidos, mas, principalmente, constituir um Estado Palestino, com capital em Jerusalém. Em outubro de 2000, o então presidente americano Bill Clinton convocou Arafat e o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, para discutirem um acordo final para as desavenças entre árabes e judeus. A reunião ocorreu no Egito, e os dois líderes concordaram em tentar acalmar os ânimos no Oriente Médio, mas se recusaram a pôr o acordo no papel e até mesmo a trocar um aperto de mãos. Barak chegou, inclusive, a surpreender com uma ousada proposta de criar o Estado palestino em 90% da Cisjordânia, com capital nos bairros árabes de Jerusalém. Israel anexaria apenas áreas densamente habitadas por judeus. Sob o olhar de Bill Clinton, Yasser Arafat rejeitou integralmente a oferta. Para espanto e irritação do anfitrião americano, partiu sem fazer a contraproposta esperada pela Casa Branca. Certamente, Arafat não pensava numa proposta inferior do que a soberania palestina sobre a parte árabe da Cidade Santa, ocupada por Israel na Guerra de 1967, pois, prometera centenas de vezes ao seu povo que não negociaria a entrega de Jerusalém Oriental e, particularmente, aquilo que se tornou o ícone do nacionalismo palestino: a Esplanada das Mesquitas (local do antigo templo da religião judaica). Muitos israelenses viram nesta atitude a prova de que o líder palestino nunca pretendeu realmente fazer a paz. Contudo os palestinos também ficaram frustrados com o resultado de oito anos de negociações e com a determinação dos israelenses de continuarem instalando colonos nos territórios que ocupam desde 1967. O líder iraquiano Saddam Hussein, quando convidado a participar de uma reunião com outros governantes árabes para discutir o conflito na Palestina, em outubro de 2000, não hesitou em propor uma guerra santa para libertar Jerusalém. (Proença, 2006) SAIBA MAIS: O monoteísmo em conflito As três únicas religiões monoteístas do mundo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, têm em comum não apenas o fato de professarem a fé no mesmo Deus, chamado de “Javé” pelos judeus, de “Senhor” pelos cristãos, e de “Alá” pelos islâmicos, mas também o pertencimento a uma aliança feita com o mesmo patriarca, Abraão: árabes e judeus pela ascendência étnica, e cristãos pela herança espiritual, conforme análise feita pelo apóstolo Paulo em Gálata 3:16, dizendo que o “legítimo descendente de Abraão é Cristo”. No relato bíblico de Gênesis 12, Deus fez promessas a esse patriarca dizendo que a sua “descendência seria numerosa”, e de fato isto aconteceu, sobretudo no que diz respeito à família de fé monoteísta: as três únicas religiões monoteístas, isto é, que professam a fé em um só Deus, são conjuntamente responsáveis pelo maior número de seguidores no cenário religioso mundial: o judaísmo, professado pelo judeus, que totalizam hoje uma população de aproximadamente 15 milhões de pessoas, vivendo, em sua maioria, fora do Estado de Israel; a religião islâmica, que perfaz um total de 1,4 bilhão de adeptos no mundo; e o cristianismo, que, em todas as suas ramificações, reúne atualmente cerca de dois bilhões de fiéis. Curiosamente, essas três religiões estão agora sendo protagonistas do estado de medo e de tensão de um possível conflito mundial. Os conflitos envolvendo islâmicos e norte- americanos, por exemplo, vêm se intensificado cada vez mais nos últimos anos, atingindo seu ápice no atentado terrorista contra os Estados Unidos, na cidade de Nova York, ocorrido no dia 11 de setembro de 2001, motivado por grupos radicais islâmicos. Diante disso, uma pergunta vem normalmente sendo feita: por que esse sentimento de ódio entre líderes políticos e religiosos que professam a fé no mesmo Deus? É possível esboçarmos algumas explicações a esta questão. Em primeiro lugar, porque os EUA tiveram participação direta no processo de criação do Estado de Israel na Palestina, em 1948, motivados, certamente pelo interesse de estabelecer um braço de controle no Oriente Médio, região onde estão as maiores reservas de petróleo do mundo, responsáveis pelo movimento da “máquina” de produção capitalista, combustível este que está sob o controle dos países muçulmanos. Segundo, porque os norte-americanos são grandes aliados de Israel nos conflitos contra os árabes na Palestina, fornecendo-lhe apoio e armamento bélico que faz do seu exército, uma poderosa e temível força militar. Terceiro, porque a economia norte-americana alimenta e fortalece ainda mais a já poderosa economia israelense, uma vez que grandes detentores do capital mundial são banqueiros judeus — por isso o atentado ter sido feito contra os maiores símbolos do capitalismo, no grande centro econômico do mundo. Em quarto lugar, porque vem sendo cultivado historicamente um sentimento de ódio do Islamismo para com o Cristianismo, desde o tempo das Cruzadas Medievais, quando cristãos e muçulmanos travaram sangrentos combates na disputa por territórios, em que a escravidão e outras formas de atrocidades foram praticadas reciprocamente para com os prisioneiros de guerra. Em quinto lugar, porque durante a Guerra Fria (disputa político- armamentista entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética), nas alianças estabelecidas, os judeus foram aliados dos norte-americanos, e, nesta disputa de interesses, alguns países muçulmanos acabaram sendo invadidos pelos soviéticos, como fora o caso do Afeganistão, em 1979, fato que transformou territórios sagrados pelos islâmicos em palco de disputas por parte dos “infiéis”. Desta forma, com a ruína do “muro” do socialismo, em 1989, os cristãos norte-americanos capitalistas comemoraram a “vitória”, enquanto que do lado muçulmano permaneceram rancores e sentimentos de vingança para com o Ocidente, devido ao rastro de miséria e destruição que foram deixados em seus territórios. Em sexto lugar, porque durante a Guerra do Golfo, em 1991, os americanos estabeleceram bases militares na Arábia Saudita, para combater o Iraque, mantendo-as até hoje, fato que é visto por grupos islâmicos mais radicais como profanação do território que lhes é sagrado. Sétimo, porque além de ser honroso para os islâmicos, é obrigação, se preciso for, agirem radicalmente pela fé que professam, conforme a interpretação literal que fazem de certas passagens do Alcorão, como por exemplo, o que está escrito na Sura 9, versículo 5: “Matai os idólatras onde quer que os encontreis, e capturai-os, e cercai-os e usai de emboscadas contra eles”. E mais adiante, o livro insiste que nações, não importa quão poderosas, deverão ser combatidas “até que abracem o Islã”. Vale dizer que o Islamismo mais ortodoxo considera os cristãos como idólatras, por adorarem as três pessoas da Trindade. A julgar pelas escatologias concebidas por essas três religiões, para Jerusalém e a Terra Santa ainda estão reservados muitos acontecimentos apocalípticos: os judeus ortodoxos ainda aguardam a vinda do Messias, que naquela terra instaurará um reinado político, subjugando as demais nações; cristãos prenunciam uma batalha do bem contra o mal no “Vale do Armagedom” (localizado na Palestina); e os islâmicos também se preparam para o jihad, que será a “guerra santa” final contra os inimigos do Corão. Fato é que, o fanatismo, a intolerância religiosa e o desrespeito para com a vida humana, permanentemente estão a ponto de desencadear um conflito do Oriente contra o Ocidente, motivados pela crença de “uma luta do bem contra o mal”. Neste sentido, a religião, em sua essência, deve ser promotora da paz, da valorização da vida e de parâmetros para o respeito e a convivência humana. A vida do Planeta em toda a sua biodiversidade, não pode ser exposta ao que seria um terceiro conflito mundial, o que reconduziria a humanidade aos tempos de combates tribais, conforme o que já alertara o grande físico Albert Einstein: “Não sei com que armas se lutaria na Terceira Guerra Mundial; na Quartasim: com paus e pedras.” (Proença, 2006) 2.1. Oriente: os pais do deserto Origina-se no séc. IV, no deserto egípcio, uma marca bem específica do monasticismo: a fuga do mundo. Não era uma fuga ou escape puro e simples, mas uma busca por novas formas de martírio. Nessa época, com a oficialização do cristianismo como religião imperial e o fim das perseguições, o “martírio de sangue” caiu em desuso: não era mais necessário pagar o preço, até com a própria vida, para ser discípulo e discípula de Jesus. A “vitória” do cristianismo, para os cristãos mais comprometidos e fervorosos dessa época, representou, na verdade, uma grande derrota, pois ocorreu uma aliança com os poderes seculares, e, como corolário, ruína ética e moral, venda de princípios; o mundo não se tornou mais cristão porque se cristianizou; continuou-se a preferir a escuridão à luz (1Jo 3:19). A lógica, portanto, foi: se o mundo não era mais o inimigo do cristão, então o cristão é quem deveria estabelecer inimizade com o mundo. Os eremitas (monges) tornaram-se os novos mártires, à medida que se afastaram do mundo, opondo-se ao seu sistema e estilo de vida, optando pelo deserto, cujas expressões eram: fuga, silêncio e oração. Henri Nouwen (2004, p. 12-13) relata que a fuga para o deserto era o meio de evitar a tentadora conformidade ao mundo. Antão, Agatão, Macário, Poemen, Teodora, Sara e Sinclética foram líderes espirituais no deserto. Ali se tornaram um novo tipo de mártires: testemunhas contra os poderes destrutivos do mal, testemunhas do poder salvífico de Jesus Cristo. Desta forma, seu objetivo principal era: viver sempre em pureza e morrer em paz! 2. Vida monástica: por uma espiritualidade voltada à simplicidade e ao próximo O monasticismo ocidental, por sua vez, nasce por volta do VI século, através do modelo legado pela regra de Benedito de Núrsia, ou simplesmente São Bento. Inicialmente, bebeu dos ideais e paradigmas de seu homônimo oriental. Mas logo se distanciou deste, especialmente em quatro aspectos, destacados por Justo González (1991, p. 39-41): Primeiro, o espírito prático dos romanos. Muito acostumados com a vida cotidiana, a colocar a “mão no arado”, os romanos rejeitavam o espírito ascético oriental, de flagelação do corpo para elevar o espírito. Para eles o ascetismo deveria servir de apoio e fortalecimento ( do corpo) para os enfrentamentos da vida humana secular. Segundo, no monasticismo ocidental não se buscava apenas a salvação individual, mas a realização da obra de Deus. O ideal de São Bento era: cultivar a terra com as mãos e praticar a opus Dei (obra de Deus). Terceiro, o ideal beneditino de vida em comunidade. Os monastérios eram verdadeiras “confrarias de ajuda mútua”. Ao invés de reclusos e exclusivistas, os monges eram ativos na comunidade, prestando serviços e interagindo com ela. Quarto, o monasticismo ocidental não vivia em permanente tensão com a igreja hierárquica; embora fosse uma expressão diferencial dessa igreja, ainda se mantinha fiel aos seus princípios fundamentais, isto é, submisso à hierarquia eclesiástica. Era essencialmente comunitário, bem organizado e estruturado. O labor dos monges era algo extraordinário e exemplar. O trabalho era uma atividade sagrada, obra do Senhor. Havia uma união entre o trabalho intelectual, o trabalho físico, braçal, na lavoura, nas edificações e serviços do mosteiro, e o trabalho espiritual, de oração, muito importante aos monges beneditinos. A oração era o alimento para a vida, para o enfrentamento das intempéries do tempo e das circunstâncias existenciais. A espiritualidade desenvolvida pelos monges do ocidente era, nesse sentido, uma “espiritualidade a longo prazo” ( Bosch, 2002, p.286), pois não se fiava em métodos e “mandingas” espirituais para se alcançar o sucesso imediato nas coisas da vida; era preciso muito trabalho em todos os sentidos, e o trabalho iniciado por uma geração deveria ser 2.2. Ocidente: monasticismo beneditino terminado por gerações posteriores, que deveriam nutrir o mesmo espírito de perseverança, de enfrentamento das adversidades e de proatividade frente aos desafios que se tinha adiante. 2.3. O monasticismo como agente missionário Em princípio, tratou-se de um movimento que não parecia ter nenhum tipo de consciência missionária, devido ao seu ideal ascético, que se acentuava muito mais entre os monges do Oriente. Porém, o monasticismo ocidental diferenciou-se do oriental no sentido de não propor uma fuga do mundo e nada mais. Como vimos, a intenção da vida ascética, para eles, estava intrinsecamente relacionada com a vida em comunidade e o envolvimento (até certo ponto) com o mundo ao redor. Nesse sentido é que o missiólogo David Bosch aponta para esta forma de monasticismo como sendo missionária por excelência, talvez uma das únicas expressões missionárias cristãs que se viu na igreja medieval (considerando as demais ordens religiosas, que surgiram nos séculos posteriores). Segundo Richard Niebuhr (apud Bosch, 2002, p. 283), o monasticismo salvou a igreja medieval daquilo que seria a petrificação e perda da visão e caráter revolucionários do cristianismo. Bosch (2002, p. 285-286), por sua vez, aponta algumas razões para isso. Destaca que o monasticismo pode ser considerado como um agente missionário no mundo medieval devido: Primeiro, à alta estima que os monges gozavam entre a população geral. Com a Era Constantiniana, os monges passaram a ocupar o lugar antes reservado aos mártires, aos olhos dos cristãos. Os monges representavam uma vida cristã austera, e eram aqueles que repeliam os “inimigos espirituais” dos muros da cidade. Segundo, ao seu estilo de vida exemplar, que alcançou principalmente os camponeses. Veja essa frase de um monge celta chamado Columbano (543-615): “Aquele que diz crer em Cristo deve andar como Cristo andou, pobre, humilde e pregando sempre a verdade”. O interessante aqui é que, ao invés de arrancar de forma violenta, procurava-se transformar as crenças dos camponeses, relacionando-as com a liturgia e calendário cristãos. Terceiro, aos mosteiros, que eram centros de trabalho, mas também de cultura e educação. Cada mosteiro constituía um vasto complexo de edificações, igrejas, oficinas, armazéns e asilos que beneficiavam toda a comunidade adjacente. A antiga tradição de estudo encontrou refúgio nos monastérios. “O monastério incorporou o ideal da ordem espiritual e da atividade moral disciplinada que, com o tempo, permeou a igreja toda, deveras, a sociedade em sua íntegra”. Quarto, paciência, obstinação e perseverança dos monges. Houve ataques dos povos bárbaros, no séc. VI, que se sentiam atingidos com o sucesso dos mosteiros. Noventa e nove de cem monastérios poderiam ser destruídos (e vários realmente foram), mas a teimosia e forte persistência dos monges faziam com que nenhuma causa fosse considerada perdida. Tudo poderia ser retomado e reconstruído pelos sobreviventes, que, mesmo em meio a muitas limitações e dificuldades, conseguiam se reerguer e manter viva a tradição monástica. Todas essas atitudes eram missionárias, sem pretender sê-las. Ou seja, seguindo Bosch (2002, p.286), embora essas comunidades monásticas não fossem intencionalmente missionárias, quer dizer, criadas com o propósito da missão, elas estavam impregnadas de uma dimensão missionária. Com suas principais marcas: peregrinação, comunidade, reflexão, ascetismo, contemplação ao Divino e sua Criação, essas comunidades realizaram a missão de Deus. É bom que isso seja ressaltado, antes que o período medieval passe como um período árido da igreja em termos de cumprimento dos propósitos para os quais foi criada. Não restam dúvidas de que a Idade Média foi um período em que a igreja e os cristãos se viram envoltos em uma série de problemas das mais diversas ordens, como já vimos até aqui. E talvez esses problemas (e os julgamentos a eles correspondentes) sejam muito mais evidentes para nós, mesmo enxergando a séculos de distância, que para os cristãosdaquela época. A avaliação sobre este contexto, não pode ser de todo negativa, como ressalta Bosch: Havia algo errado com a ideia de tentar criar uma civilização cristã, de moldar as leis de acordo com o ensinamento bíblico, de submeter reis e imperadores à obrigação explícita do discipulado cristão? É indubitável que o paradigma analisado neste capítulo tem seu lado obscuro, mas ele também ofereceu contribuições positivas. Além disso, precisa-se entender que era lógico as coisas se desenvolverem dessa maneira após a vitória de Constantino; ademais, era inevitável, dadas as circunstâncias, que assim evoluíssem. Portanto, ao criticarmos nossos antecedentes espirituais, e o fazemos incansavelmente, lembremos que não nos teríamos havido melhor que eles (2002, p. 291). Glossário Monasticismo: Referente ao modo de vida monástica ocorrido a partir da Idade Média, quando monges passaram a viver a fé cristã de modo comunitário ou coletivo, dedicando-se a orações, estudo e práticas da espiritualidade cristã, trabalho social e educacional; modo de vida regido por regras e disciplina cristã. Ascetismo: Modo de vida cristã regido por isolamento social, místico e contemplativo; abstenção de prazeres e conforto material, em busca do aperfeiçoamento espiritual. Ordens religiosas: Organizações voltadas um estilo de vida consagrada, caracterizada por seus membros fazerem, no caso do Catolicismo, votos de cumprimento de uma missão religiosa em diversas áreas, como assistência social, educação e evangelização. Como visto nas unidades anteriores deste curso, no período “medieval” ou Idade Média, que corresponde aos séculos V e XV, desenvolveu-se o catolicismo marcadamente institucionalizado, com acentuada estrutura hierárquica, sustentada na figura papal e no clericalismo de bispos e sacerdotes. Nesse mesmo período, também, foi marcante a vivência de um cristianismo mais popular, folclórico, profundamente arraigado em imaginários religiosos sincréticos, com fortes raízes fincadas no elemento da magia. Isso porque, especialmente, a partir do século IV, quando o cristianismo se tornou religião lícita e oficial do Império Romano, desenvolveu-se um intenso e crescente processo de aculturação entre doutrinas cristãs e antigas práticas cúlticas que permeavam o universo religioso do mundo greco-romano. No chamado “período áureo” da Idade Média, verificam-se vários prejuízos à missão da igreja. A preocupação da igreja voltou-se quase que exclusivamente para a elaboração dogmática da teologia, fundamentada em categorias filosóficas, sob forte influência da metafísica. O que mais importava era o Cristo triunfante e transcendental, e não o Jesus histórico. Há também, nesta época, forte interesse pela vida monástica, a qual levava os cristãos a fugirem do mundo e seus conflitos, com o propósito de se dedicarem à purificação e contemplação nos desertos. Diante desse quadro, alguns dos fatores podem ser destacados como preponderantes para um anseio por mudanças ou reformas, que prepararam, inclusive, o advento da Reforma Protestante do século XVI. 3.1. Motivos de reforma Primeiro, a igreja estava vivendo uma crise teológica, doutrinária e institucional. Até o séc. IV, por exemplo, o Cristianismo, sem ter posses, em meio a perseguições e conflitos internos, 3. Movimentos pré-reformadores: por um retorno doutrinal e eclesiástico às origens apostólicas manteve uma linha de frente que fazia jus aos ensinamentos deixados por Jesus e os apóstolos. Após o IV século, porém, especialmente a partir do momento em que o imperador romano Constantino se declarou cristão, um outro quadro passa se configurar. Segundo, pelas disputas e corrupção do poder. Após Constantino, os clérigos passam a ter remuneração do Estado, constroem-se suntuosos templos, o poder religioso passa a estar atrelado ao poder político etc. A igreja alia-se ao Império Romano, contra o qual deixa de exercer função profética de denúncia e reivindicação — o Estado passa agora a beneficiá-la. A igreja desempenha em tal sociedade, a partir de então, um papel semelhante ao da velha religião estatal, ou seja, concebendo Cristo apenas como um rei celestial que dá apoio ao imperador cristão que governava em seu nome. A missão histórica de Jesus foi por isso obscurecida, e a missão legítima da igreja também o foi, na mesma proporção. Terceiro, se observa o que se pode chamar de “adesão sem conversão”, ou seja, inúmeras pessoas passaram a aderir ao cristianismo por conveniência ou status, afinal, era agora a “religião do Imperador”. Com isso, trouxeram consigo para o âmbito da igreja antigas crenças, especialmente as que estavam associadas às divindades femininas no panteão greco-romano. Foi assim que o culto a Diana, tão popular na cidade de Éfeso, por exemplo, foi substituído a partir do século V pelo culto a Maria mãe de Jesus; também os antigos deuses protetores das cidades foram substituídos pelos “santos protetores” cristãos, no caso, os apóstolos e mártires; e ainda, a veneração de objetos e imagens como elementos do culto. Quarto, Jesus deixa de ser o único mediador (também a mãe de Jesus e os apóstolos, especialmente passam a exercer tal função); surge a figura papal, como representante de Cristo na Terra; a Bíblia passa a ser lida somente em latim e pelos clérigos, ficando, portanto, distante do povo; a justificação passa a se dar também por obras, daí as penitências, os autoflagelos, as indulgências como meios de redimir pecados. Quinto, surge ainda a doutrina do purgatório, mediante a qual era dada a oportunidade de salvação após a morte àqueles que não se preparam devidamente em vida. Sobre o Purgatório: A crença na possibilidade de redimir certos pecados após a morte não tem fundamentação nas escrituras bíblicas. Entretanto, alguma expectativa esse respeito pode ser localizada no livro de origem judaica de 1 Macabeus, não cononizado pela escola judaica de Jamnia, nos anos 80 d.C., nem pelo Concílio cristão de Cartago, em 397, que definiu o conjunto de textos do Novo Testamento. Neste livro, há a seguinte referência: 2 Macabeus 12: 43-46 43. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, 44. porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. 45. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, 46. era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas. Além de Macabeus, o catolicismo medieval usava os seguintes textos do Novo Testamento para tentar fundamentar a ideia de Purgatório: “Se alguém pra ferir alguma palavra contra o Filho do homem ser- lhe-á perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (Mt 12:32). Saiba mais “Antes de tudo, pois, exorta que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens”. (1 Tm 2:1) Paulo ora a Deus pelo amigo Onesíforo: “Que o Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia do Senhor naquele dia” (2 Tm 1:18) O Concílio de Trento (1545-1563), referendou a existência do Purgatório, fazendo um enfrentamento ao protestantismo nascente, que questionava essa existência e sua função. Diz o texto do Concílio de Trento, também conhecido como da contra- reforma: “Desde que a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, nos sagrados escritos e pela antiga tradição dos Pais, tem ensinado nos santos concílios, e, ultimamente, neste Concilio Ecumênico, que há Purgatório, e que as almas nele retidas são assistidas pelos sufrágios das missas, este santo concílio ordena a todos os bispos a que, diligentemente, se esforcem para que a salutar doutrina concernente ao purgatório — transmitida a nós pelos veneráveis pais e sagradosconcílios — seja crida, sustentada, ensinada e pregada em toda parte pelos fiéis de Cristo” (Seção XXV). O historiador Jacques Le Goff é autor do livro O nascimento do Purgatório (Petrópolis: Vozes, 2017). Neste, o autor situa o surgimento desta crença e doutrina no contexto econômico da Idade Média. Diz que no sistema dualista do além, entre o Céu e o Inferno, não havia lugar para o cumprimento das penas purgatoriais. Foi necessário esperar até o final do século XII para o aparecimento da palavra Purgatório, para que este se tornasse um terceiro lugar do além em uma nova geografia do outro mundo. A Presente pesquisa percorre as transformações do nascimento do Sexto, pode ser citado ainda o surgimento da Inquisição, que se constituía num tribunal eclesiástico que dava à igreja o direito de punir e de matar, se preciso fosse, àqueles que ousassem questionar as doutrinas canônicas ou a verdade que pertencia de forma exclusiva e absoluta à igreja medieval. Sétimo, grande apego à magia. Segundo o sociólogo Leonildo Campos, nesse período, a assimilação da fé cristã pela população rural, mediante a catequese, “formou uma camada de verniz sobre uma antiga realidade religiosa” (1977, p.170), desencadeando um intenso apego às relíquias como fetiches de proteção, com caráter mágico, objetos esses que supostamente teriam sido utilizados pelos apóstolos ou outros mártires do cristianismo e que eram, então, guardados nos lares dos devotos com o sentido de proteção contra doenças, contra infortúnios do demônio ou como ajuda contra as intempéries que poderiam ameaçar as colheitas. Esta “magia” dos objetos desencadeou um verdadeiro comércio de amuletos. Leonildo Campos descreve este cenário de magia: Purgatório desde crenças iniciais na antiguidade até a Divina Comédia de Dante. Le Goff aponta como motivo ápice para a criação do Purgatório a necessidade econômica do período de se permitir as negociações com dinheiro. Até então, as atividades do usurário (espécie de banqueiro) eram consideradas de alto risco para a perdição da alma. A partir do século XIII, especialmente, indispensável a movimentação financeira e de comércio, obrigou a igreja a apresentar uma alternativa de salvação para estes agentes. O Purgatório é então oficialmente criado pelo papa Inocêncio III, garantindo aos que lidavam com dinheiro a segurança de terem seus pecados terrenos expiados no pós- morte, possibilitando-lhes posterior chegada ao Paraíso. O nascimento do Purgatório, portanto, está associado a questões econômicas do período. Multiplicaram-se os cultos às relíquias sagradas, verdadeiros fetiches milagrosos, aos quais se atribuíam poder de curar enfermidades e proteger as pessoas dos perigos. Esses objetos, que pensavam terem pertencido aos santos ou simplesmente por terem sido usados na missa, eram trocados, presenteados, roubados, vendidos ou comprados. Muitos deles eram empregados com as mais diversas finalidades, desde o auxílio no trabalho de parto até na cura de peste no gado bovino ou afastar epidemias de seca, fome ou pragas de gafanhotos (1997, p. 171). O historiador inglês Keith Thomas (1991, p.36). também afirma que no contexto da Idade Média as relíquias sagradas tornaram-se fetiches milagrosos, tidos como dotados do poder de curar enfermidades e proteger contra perigos; atribuía-se igualmente uma eficácia miraculosa às imagens. A representação de são Cristóvão, que com tanta frequência ornamentava as paredes das igrejas das aldeias inglesas, supostamente concedia um dia de imunidade à doença ou à morte a todos os que a fitassem. Este mesmo autor constata que no mundo medieval havia se desenvolvido um “amplo leque de fórmulas para atrair a bênção prática de Deus sobre as atividades seculares”, acrescentando. Keith Thomas descreve algumas destas práticas carregadas de magia e simbolismo: O ritual básico era o benzimento com sal e água para a saúde do corpo e expulsão dos maus espíritos. Mas os livros litúrgicos da época também traziam rituais para benzer casas, gados, culturas, embarcações, ferramentas, armas, cisternas e fornalhas. Havia fórmulas para abençoar homens que se preparavam para sair em viagem, para travar um duelo, para entrar em batalha ou mudar de casa. Havia métodos para abençoar os doentes e tratar de animais estéreis, para afastar o trovão e trazer a fecundidade ao leito matrimonial [...] Fundamentalmente em todo esse procedimento era a ideia de exorcismo, o esconjuro formal do demônio, expulsando de algum objeto material por meio de preces e da invocação do nome de Deus. A água benta podia ser utilizada para afastar maus espíritos e vapores pestilenciais. Era remédio contra a doença e a esterilidade (1991, p.38). Observa ainda que, no período entre os séculos XVI e XVII, da história inglesa, os objetivos pelos quais a maioria dos homens recorria a sortilégios e a feiticeiros eram precisamente aqueles para os quais “não havia alternativa técnica adequada”. Assim, na agricultura, o lavrador que normalmente confiava em suas próprias habilidades e perícias, quando ficava dependente de circunstâncias fora do seu controle — a fertilidade do solo, as condições meteorológicas, a saúde do gado —, ele se mostrava mais propenso a acompanhar suas atividades normais com alguma precaução mágica. Na ausência de herbicidas, “havia encantamentos para manter a erva daninha distante das plantações”, e, em lugar de inseticida e raticida, “havia fórmulas mágicas para afastar as pestes”. Havia também sortilégios para aumentar a fertilidade da terra, além de precauções rituais que rodeavam a caça e a pesca, “atividades especulativas, isto é, incertas ambas” (Thomas, 1991, p.175). 3.2. Os principais movimentos O Ocidente Medieval vivia (entre os séculos XIII e XIV) um período de transição e transformações em diversas áreas, trazidas por guerras, pragas e crises econômicas. Na igreja a situação não era muito diferente. O que se contempla é o declínio da igreja institucional, que havia se transformado em uma monarquia e rivalizava com as nações-estado emergentes na época. Emergentes, também, foram alguns movimentos que despontaram da periferia eclesiástica nesse período. Foram, em parte, movimentos de contestação e, em parte, de assentimento à ordem estabelecida. Vimos que na Idade Média o monasticismo, de certo modo, representa um movimento de contestação a certo estilo de vida e maneira de ser igreja na sociedade, embora se mantivesse ligado formalmente a ela. O conhecido mosteiro de Cluny, na França, fundado em 910 D. C., levara às últimas consequências os preceitos estabelecidos pela regra de São Bento. Muito mais disciplina, oração, estudo, penitências e dedicação à opus Dei (obra de Deus). “Não seria exagero ver em Cluny a expressão mais autêntica das aspirações espirituais da sociedade feudal” (Vauchez, 1995, p. 36). Vejamos a seguir alguns desses movimentos. 3.2.1. Os Albigenses ou Cátaros O termo Albigense se deve o local de surgimento deste movimentô a cidade de Albi, na França, no século XII. Também ficaram conhecidos como Cátaros ( termo grego que significa “puros). Um movimento de leigos os quais começaram a ler a Bíblia, traduzindo trechos do evangelho para a língua francesa; denunciavam que o papa e os clérigos não tinham exclusivamente acesso a Deus; criticaram a corrupção do clero; celebravam a ceia, o batismo, negavam a veneração de imagens. Esse movimento foi responsável pela organização mais sistematizada do tribunal da Santa Inquisição, sob ordens do papa Inocêncio III, com o intuito de combater como hereges os albigenses e, em seguida, também os valdenses. Perseguidos da França se espalharam para outras regiões da Europa, funcionando como “comunidades cristãs secreta . 3.2.2. Os Valdenses Em 1176, Pedro Valdo, um rico comerciante de Lyon perguntou a um mestre de teologi “Qual o melhor caminho para Deus?”. O mestrg por sua ve citou-lhe um venerado texto monásticô “Se queres ser perfeito, vai, vende os teusbens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu”. Valdo obedeceu ao “chamado”. Vendeu tudo que tinha, deixando uma quantia razoável para sua mulher e filhos , e o restante doou aos pobres Sua atitude impressionou vivamente seus amigos. Em 1177, um grupo de homens e mulheres juntou-se a ele, pregando o arrependimento. Eles mesmos se auto-intitulavam “Pobres de Espírito”. Dirigiram-se ao Concílio Lateranense, em 1179, solicitando a permissão para pregar. O pedido foi indeferido. Pedro e seus fraternos entenderam aquilo como a “voz do homem em oposição à voz de Deus” (Walker, 1981, p. 324). Continuaram a pregar. Considerados desertores, todos foram expulsos da igreja, em 1184, pelo papa Lúcio III (1181-1185). Vindo a Reforma, os valdenses, que haviam se expandido em meio à forte repressão da igreja para fora de sua região de origem, aceitaram seus princípios e se tornaram protestantes. 3.2.3. Os Dominicanos Na mesma atmosfera de “pobreza apostólica” e literal cumprimento dos mandamentos de Cristo, surge a ordem dos dominicanos. Foi fundada por Domingos (1170-1221). Estudante brilhante, jovem de grande espírito religioso, Domingos resolveu escolher o caminho da abnegação, sacrifício e seguir o modelo de Paulo, querendo ganhar o povo pela “loucura da pregação”. Em 1215, amigos presentearam-no com uma casa em Toulouse. Ali realizou os primeiros trabalhos de treinamento e discipulado. Com a permissão do Papa Honório III (1216-1227) — embora não sem resistência e lutas — criou então uma ordem de pregadores, que logo recebeu o nome de “ordem dos dominicanos”. Quando Domingos faleceu (1221), a ordem já contava com sessenta casas espalhadas em oito províncias. Sua marca característica era o zelo no estudo e a ênfase na pregação e no ensino. Trabalhou nas cidades universitárias e logo se viu bem representada nos corpos docentes das universidades. 3.2.4. Os Franciscanos Se grande foi o prestígio dos dominicanos, maior ainda talvez tenha sido a honra e aceitação popular alcançada pelos franciscanos e, de modo especial, pelo seu fundador Francisco (1182- 1226). Ele não era monge, nem clérigo; era um leigo, que fazia questão de assim permanecer para evangelizar os leigos abandonados pastoralmente, em especial, os pobres (Bo�, 2002, p. 136). Surge não do centro do poder, mas da periferia da igreja institucional, como a maioria dos movimentos de renovação da igreja na história, como ressalta Bo� (2002, p. 13): “É na periferia que eclodiram os grandes profetas, nasceram os movimentos reformadores e onde viceja o Espírito. A periferia possui um privilégio teológico, pois nela nasceu o filho de Deus”. Iniciou seu movimento na “igrejinha de Porciúncula”, a mais pobre das igrejas de Assis, cidade natal de Francisco. Durante uma peregrinação a Roma, em 1206, ele julgou ter ouvido a voz divina, o próprio Cristo dizendo: “Francisco, vai e repara minha igreja porque, como vês, está em ruínas”. Foi o que, intuitivamente, ele fez. O franciscanismo foi um movimento de contestação à igreja, por ser uma ordem monástica das ruas, fora dos mosteiros, pregando a pobreza voluntária, defendendo o direito dos pobres e necessitados e vivendo ao lado deles, formando uma comunidade de fraternos e iguais. Uma de suas petições mais frequentes era para que: “No nosso gênero de vida, ninguém seja prior, mas todos sejam designados indistintamente como irmãos menores e se lavem os pés uns dos outros” (apud Bo�, 2002, p. 141). Sua contestação se firmava principalmente contra as formas de poder e controle clerical, e contra as riquezas e benesses usurpadas pela igreja, em sua associação com os poderes seculares. Há uma história de uma conversa entre o papa (Inocêncio III) e Francisco, em que o primeiro disse: “Veja, no tempo de Pedro se dizia que a igreja não possuía nem ouro e nem prata. Hoje, temos ouro e temos prata”, argumentou ele apontando para uma suntuosa basílica recém edificada; Francisco, por sua vez, respondeu: “Na mesma proporção em que podes afirmar agora possuir ouro e prata, já não podes, porém, dizer ao paralítico: ‘Levanta-te e anda’”. Bo� (2002, p. 134) complementa, dizendo que em Francisco encontramos, coexistindo com grande tensão e equilíbrio, o não conformismo com a obediência, a aceitação da Igreja dos clérigos com o alargamento corajoso do espaço dos leigos, o respeito pela piedade litúrgica oficial com a criatividade de uma cultura religiosa popular. Glossário Prior: No contexto da Idade Média, prior designava o chefe, o comandante ou, literalmente, “aquele que está à frente” de uma organização religiosa ou militar. No caso da Igreja, o prior era um padre, e o conjunto de seus domínios era chamado de priorado. Respeitou até a morte esse princípio. Tanto que em seu leito de morte recomendou: “Conservar a pobreza e a fidelidade à Igreja romana, mas pondo acima de todas as normas o santo evangelho”. Ou seja, para Francisco era importante a persistência na igreja e obediência a seus líderes. Mas, acima de qualquer estrutura temporal, religiosa, política e ideológica, estava a submissão ao Evangelho. Ele seguia os vestígios da madre igreja, mas, principalmente, os vestígios de Jesus Cristo e do Evangelho. 3.2.5. John Wycli� e os Lolardos Na Inglaterra do séc. XIV surgiu o pré-reformador João Wycli� (1328-1384), que estudou e ensinou em Oxford durante grande parte de sua vida. Ali ele desenvolveu suas atividades como padre e como professor universitário. Ensejando um retorno ao ideal neotestamentário, Wycli� começou incisivamente a se opor aos dogmas e ingerências da Igreja Católica, a partir de 1378, chegando a atacar a autoridade do papa em 1382. Afirmou em um de seus livros que “Cristo e não o Papa era o chefe da igreja”, e que “a Bíblia e não a Igreja era a autoridade única para o crente e que a igreja Romana deveria se modelar segundo o padrão da Igreja do Novo Testamento” (Cairns, 1995, p. 206). Como suporte a esses ideais, tomou duas importantes medidas: a tradução completa do Novo Testamento para o inglês; a criação de um grupo de pregadores leigos, os “lolardos”, que deram continuidade às ideias de Wycli� por toda a Inglaterra e região. Glossário Lolardos: terminologia que significa “cantores”; ou “perseguidos”. 3.2.6. John Huss e os Hussitas Quando Ricardo II, da Inglaterra, casou-se com Ana, da Boêmia, muitos jovens boêmios foram estudar na Inglaterra e lá conheceram as ideias de Wycli�. John Huss (1373-1415), que também era originário da mesma região, tendo estudado e lecionado na Universidade de Praga, leu e adotou as ideias de Wycli� e, tal como ele, também se propôs a reformar a Igreja Romana em sua região, o que lhe rendeu a inimizade do papa. Muitos de seus livros foram reproduções quase literais dos livros de Wycli� (como a sua obra Sobre a Igreja, de 1412). Em 1413, um sínodo romano condenou formalmente os escritos de Wycli�. Huss foi condenado à morte e executado (queimado vivo), após haver negado a se retratar de suas colocações no Concílio de Constança (1415). Jonh Huss foi queimado vivo em 1415. Conta a história que ao ser levado para a execução teria pronunciado uma frase profética, mais ou menos nos seguintes termos: “dentro de um século Deus levantará alguém cuja voz não poderão calar”. Exatamente um século depois, Martinho Lutero deflagraria o golpe final nas estruturas eclesiásticas que ainda resistiam às reformas que se faziam urgentes. Todos esses têm sido chamados de precursores da Reforma. Não há dúvidas de que merecem esse nome visto que representaram, em seu tempo e de maneiras próprias, uma contestação à igreja: ao defenderem o direito do pobre, ao resistirem à ostentação de poder e riqueza eclesiástica, ao se preocuparem com a espiritualidade do povo, ao abrirem acesso à Palavra de Deus, e assim por diante. Mas também é verdade que todos foram homens e mulheres (visto que alguns movimentos, como o dos franciscanos, acolheram mulheres) de seu tempo, atendendo a demandas muitopeculiares. E, como tais, tiveram suas limitações, que nos impedem de os associar diretamente à Reforma do século XVI. Indiretamente, porém, plantou-se uma semente, preparou-se um terreno. O Espírito de Deus age na história de maneira irreverente e revolucionária, escolhendo seres humanos como agentes, ultrapassando as barreiras estruturais e institucionais com o dinamismo e a força que fazem do Evangelho do Reino de Deus, um vinho novo que sempre transborda dos velhos odres para uma nova geração atenta aos propósitos divinos e disposta a cumprir sua missão. Diante de um quadro religioso e teológico que não mais se fundamentava nas escrituras bíblicas como única regra de fé e prática, surgiram movimentos de reforma dentro da própria igreja medieval, antes mesmo da Reforma Protestante que viria a ocorrer no século XVI. Como vimos, desde meados do século XII, movimentos que nasceram da periferia da igreja institucional começaram, através da pregação e, sobretudo, do estilo de vida que passaram a imprimir, a ser considerados movimentos de contestação à ordem estabelecida. Começando pela iniciativa de pessoas como Domingos, Francisco, Valdo, Huss, Wycli�, dentre outros, conhecidos ou anônimos, vimos que surgiram aqui e acolá genuínas buscas por servir a Deus e a seu reino em meio ao governo temporal da igreja (que muitas vezes militou contra o próprio reino). Dentre os movimentos pré-reformadores, destacam-se os Cátaros ou Albigenses (na França), no século XII; os Valdenses (na França e Itália), nos séculos XII e XIII; os movimentos liderados por John Wicly� na Inglaterra, no século XIV, e Jonh Huss, na Boêmia, no século XV. Todos esses tiveram em comum o anseio de mudanças e restauração de princípios teológico- doutrinários apostólicos. Desse modo, por exemplo, traduziram e leram a Bíblia em suas próprias línguas; prestaram cultos e buscaram a Deus sem a mediação sacerdotal ou institucional; vivenciaram uma espiritualidade simples, leiga, carismática; questionaram a supremacia papal e o valor das obras como meios de salvação; desenvolveram uma missão de forma integral, preocupando-se com os necessitados, lutando por construir um mundo mais justo e igualitário. Considerações finais Referências BOSCH, David. Missão transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. São Leopoldo: EST; Sinodal, 2002. BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. CAIRNS, Earle. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995. CAMPOS, L. S. Teatro, templo e mercado. Organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997. DELUMEAU, Jean. As grandes religiões do mundo. Lisboa: Editorial Presença, 1999. DREHER, Martin N. A Igreja no mundo medieval. 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