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AULA 2 - O REGIME JURÍDICO- ADMINISTRATIVO E OS PODERES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA • Conhecer o Regime de Direito Público, que normatiza a atuação dos Órgãos, Agentes e Entidades da Administração Pública e seus poderes. CONTEXTUALIZANDO A APRENDIZAGEM Prezado(a) Aluno(a)! Na Aula 1, estudamos as três funções do Estado Democrático de Direito Contemporâneo; destacando, dentre elas, a função administrativa, objeto de nossa Disciplina. Como vimos, a função administrativa é exercida com preponderância, mas não com exclusividade, pelo Poder Executivo, seus Órgãos, Agentes Públicos e Entidades Estatais. Mas aí, eu pergunto: Quais as atividades estatais que constituem a função administrativa; as características do Regime Jurídico Administrativo e a noção de Direito Administrativo? Quais os poderes da Administração Pública? Não se preocupe, nesta Aula estudaremos o Regime Jurídico de Direito Público, suas prerrogativas e limitações legais; bem como, os poderes inerentes ao exercício da função administrativa. Vamos iniciar nossos estudos? Empenhe-se e lembre-se: o seu sucesso só depende de você. Então, seja bem-vindo(a) a mais uma Aula e bons estudos! Mapa mental panorâmico Para contextualizar e ajudá-lo(a) a obter uma visão panorâmica dos conteúdos que você estudará na Aula 2, bem como entender a inter- relação entre eles, é importante que se atente para o Mapa Mental, apresentado a seguir: O REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO E OS PODERES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 1 O REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO 1.1 O ESTUDO SOBRE A FUNÇÃO ADMINISTRATIVA 1.2 AS ATIVIDADES ESTATAIS QUE CONSTITUEM A FUNÇÃO ADMINISTRATIVA 1.3 DIREITO ADMINISTRATIVO COMO SUBDIVISÃO DO DIREITO PÚBLICO 1.4 O QUE SIGNIFICA A EXPRESSÃO REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO? 2 PODERES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 2.1 PODER VINCULADO E DISCRICIONÁRIO 2.2 PODER DISCIPLINAR 2.3 PODER HIERÁRQUICO 2.4 PODER REGULAMENTAR 2.5 PODER DE POLÍCIA O REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO E OS PODERES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 1 O REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO 1.1 O ESTUDO SOBRE A FUNÇÃO ADMINISTRATIVA O Estudo sobre a Função Administrativa consiste na defesa concreta dos interesses públicos, nos limites legais de atuação da Administração Pública. Assim, a Função Administrativa se refere à execução das Normas Jurídicas, que visam ao atendimento direto e imediato dos interesses da Coletividade; mediante comportamentos infralegais, submetidos a um Regime Jurídico próprio (o Regime Jurídico Administrativo, como veremos a seguir); o que exige que seja realizada por uma estrutura hierárquica de Órgãos e Agentes Estatais; e, se sujeita ao controle de legalidade pelo Poder Judiciário e pelos Tribunais de Contas. No desempenho da Função Administrativa, Estado, por meio de um conjunto de Órgãos e Pessoas Físicas (Agentes Públicos) e Jurídicas (Entes Federados - União, Estados e Municípios; - e, Entes Administrativos - Autarquias, Fundações Públicas e Empresas Públicas), ordenados, juridicamente, deve atender, imediatamente, os interesses da Coletividade. Por isso, é correto dizer que a Função Administrativa é concreta, direta e imediata, posto que a Administração Pública age em situações concretas, mediante Regulamentações e Ordens diretas, sem intermediários; tomando providências em favor do Administrado; prestando os serviços públicos; estabelecendo limites aos Direitos Individuais; fomentando atividades privadas de interesse público; controlando a legalidade da atuação dos Agentes Públicos e Particulares; entre tantas outras formas de provimentos administrativos; aplicando as disposições da Lei aos casos concretos. Como visto, na Aula anterior, a Função Administrativa é exercida, predominantemente, pelo Poder Executivo. 1.2 AS ATIVIDADES ESTATAIS QUE CONSTITUEM A FUNÇÃO ADMINISTRATIVA No Estado Democrático de Direito Contemporâneo, uma série de atribuições foram sendo assumidas pela Administração Pública, frente às demandas por prestação de inúmeros serviços públicos, a fim de concretizar os direitos sociais constitucionais; e, pela necessidade de atuação mais incisiva do Estado, na Economia e no campo das limitações à propriedade e à liberdade dos indivíduos; e, sempre com o objetivo de atender aos interesses coletivos. Podemos reuni-las em quatro tarefas principais, que expressam a gama de interesses coletivos, tutelados pelo Estado, ao exercer a Função Administrativa: a) Prestação de Serviços Públicos: Serviço Público é todo aquele, prestado pela Administração, ou, por seus delegados, sob Normas e Controles Estatais; a fim de satisfazer às necessidades essenciais ou secundárias da Coletividade; ou, simples conveniências do Estado. A atribuição primordial da Administração Pública é oferecer utilidades aos cidadãos; aliás, a justificativa maior para a existência da estrutura administrativa estatal é a prestação de serviços à Coletividade. Esses serviços podem ser essenciais, ou, apenas, úteis à Coletividade; daí a necessária distinção entre Serviços Públicos e Serviços de Utilidade Pública. Mas, em sentido amplo e genérico, quando se faz alusão a Serviços Públicos, o termo abrange todos os tipos de serviços oferecidos, diretamente, pelo Estado ou por delegação a Particulares. A Constituição Federal dispõe, expressamente, que incumbe ao Poder Público, na forma da Lei, direta ou indiretamente, a prestação de serviços públicos. Dessa forma, cabe à Legislação pertinente dispor sobre o regime de delegação desses serviços aos Particulares, os direitos dos Usuários, a política tarifária, a obrigação de manter serviço adequado e as reclamações relativas à prestação (Art. 175, Parágrafo Único, e, Art. 37, § 3º). Como exemplos, podemos citar o serviço de coleta domiciliar de lixo; os serviços de telefonia; os correios; os serviços prestados à população, em Unidades de Saúde Pública; o Ensino Público, em todos os níveis; o transporte público municipal e rodoviário interestadual; a navegação aérea; os serviços e as instalações de fornecimento de energia elétrica; etc. b) Polícia Administrativa: É a atividade da Administração Pública que limita o exercício de determinados direitos individuais; visando garantir a consecução de um interesse público. A Polícia Administrativa constitui um dos mais claros desdobramentos do princípio, segundo o qual o interesse público deve prevalecer sobre o interesse privado; um dos fundamentos do Regime Jurídico Administrativo, como veremos nesta Aula. O Poder de Polícia se manifesta por Normas Gerais (Leis e demais Atos Normativos); e, Normas concretas, Atos Administrativos, sempre, com conteúdo limitador da liberdade, da propriedade e de atividades particulares; visando a atender a determinado interesse da Coletividade. Em nosso Ordenamento Jurídico, temos a seguinte definição legal de Poder de Polícia, estatuída pelo Art. 78, do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 25.10.1966): Atividade da Administração Pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou a abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. Veremos mais detalhes sobre o Poder de Polícia, no Tópico 2, desta Aula. c)Fomento: O Fomento consiste em incentivar Setores da Iniciativa Privada, que desempenhem atividades que o Governo considere importantes para sua política de desenvolvimento econômico e social; de acordo com as Políticas Públicas, que formulou em Lei. Pode se dar, na forma de subvenções financeiras, no Orçamento Público, a determinado segmento empresarial ou social; financiamento de empreendimentos particulares, sob condições especiais, com subsídios governamentais; como, por exemplo, num Programa de Habitação Popular, ou, mesmo, mediante incentivosfiscais, a fim de estimular Setores Industriais. Exemplo bastante conhecido é a concessão de financiamentos, em condições privilegiadas, pelo BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. d) Intervenção Administrativa: A Intervenção Administrativa compreende as atividades de regulação e fiscalização de atividades privadas (intervenção estatal indireta, na Economia) e a atuação direta do Estado, no domínio econômico; normalmente, por meio de Empresas Estatais. A Intervenção abrange todas as atuações estatais; visando regular o Setor Privado. Abrange os casos de desapropriação, tombamento, requisições, atividades de regulação e normatização, etc. Como exemplos, poderiam ser citados os diversos mecanismos, adotados pelo Banco Central, para intervir no mercado de câmbio; e, as Normas, expedidas pelas Agências Reguladoras, a fim de disciplinar diversos serviços privados e atividades econômicas. Ficou claro para você em que consiste a FUNÇÃO ADMINISTRATIVA e cada uma das quatro atividades da Administração Pública realizadas no exercício desta função, quais sejam: a prestação de serviços públicos, a polícia administrativa, o fomento e a intervenção administrativa? É importante que você saiba identificar cada uma delas ao analisar a prática administrativa e o controle interno dos atos da Administração. Se restou alguma dúvida, sugerimos a leitura do Capítulo 2 da obra Direito administrativo, de Maria Sylvia Zanella Di Pietro. Vale a pena a leitura! 1.3 DIREITO ADMINISTRATIVO COMO SUBDIVISÃO DO DIREITO PÚBLICO A Função Administrativa é estudada, por um ramo do Direito específico, qual seja, o Direito Administrativo; o qual Maria Sylvia Zanella Di Pietro define como: O ramo do Direito Público, que tem por objeto os Órgãos, Agentes e Pessoas Jurídicas Administrativas, que integram a Administração Pública; a atividade jurídica não contenciosa, que exerce e os bens de que se utiliza para a consecução de seus fins, de natureza pública (DI PIETRO, 2017, pp. 78-79). Vale destacar que, em nossa Disciplina, iremos estudar e conhecer inúmeros Institutos de Direito Administrativo e de Direito Público, em geral. O Direito Administrativo, portanto, é um ramo do Direito Público, que engloba o Direito Constitucional, o Tributário, o Financeiro, o Penal, o Processual, etc. Como se vê, o Direito Público tem por objeto a regulação dos interesses mais relevantes da sociedade, enquanto Comunidade Política; compondo-se de Normas, que disciplinam as relações jurídicas entre o Estado e os indivíduos; como também, o funcionamento interno dos Órgãos Estatais. Por isso, no Direito Público, em geral, e, no Direito Administrativo, em especial, ao interpretar e aplicar as suas Normas, deve-se observar três premissas interpretativas: A desigualdade jurídica entre Administração Pública e os cidadãos Em decorrência da supremacia dos interesses públicos sobre os privados; sendo que os interesses da Coletividade, quando em confronto com interesses particulares, devem prevalecer. A presunção de legalidade dos atos da Administração Tendo em vista que os Atos Administrativos passam por um processo, regulado por Lei, antes de serem editados e publicados. Essa presunção, contudo, não é absoluta; mas, relativa, já que pode ser refutada, quando se demonstrar a ilegalidade do ato; que pode ser anulado pela própria Autoridade da Administração, que o praticou; ou, pelo Poder Judiciário. A existência de poderes discricionários Para que a Administração Pública possa atender aos interesses públicos, postos à sua gestão. É importante assinalar que o Administrador Público não age como autômato ou mero intérprete da Lei; sendo necessário que se tenha margem de liberdade de escolha entre as providências possíveis, a fim de atender a um interesse da Coletividade, no caso concreto vivenciado pela Administração Pública; desde que tal decisão esteja amparada pelo Ordenamento Jurídico (Princípio da Legalidade). O Direito Administrativo se apresenta como uma subdivisão do Direito Público, que engloba as Normas Jurídicas, reguladoras da Administração Pública, que abrange a função administrativa em si e os Órgãos, Entes e Agentes que têm por atribuição executá-la. Quanto às fontes normativas do Direito Administrativo, de acordo com a maior parte dos Autores, podemos indicar as seguintes fontes: Figura 1: Fontes Normativas do Direito Administrativo. Fonte: Elaborado pelo NEAD. Já, o chamado Direito Privado tem por objetivo a regulação de interesses particulares; tutelando relações jurídicas, estabelecidas entre Particulares; de modo a pacificar o convívio social e garantir a harmonia na celebração de negócios jurídicos; e, na utilização dos bens particulares. Baseia-se na igualdade entre as pessoas que participam de uma relação jurídica. Nele, prevalecem a autonomia da vontade das partes e a liberdade negocial, em regra. São subdivisões do Direito Privado, o Direito Civil, do Consumidor, Empresarial, do Trabalho, etc. 1.4 O QUE SIGNIFICA A EXPRESSÃO REGIME JURÍDICO ADMINISTRATIVO? De forma sintética, podemos definir Regime Jurídico Administrativo ou de Direito Público, como o conjunto de Princípios e Regras Jurídicas, que regem a Administração Pública; o qual confere prerrogativas ou poderes especiais aos Agentes e Órgãos Públicos, para o desempenho de suas funções. Ao lado dessas prerrogativas, existem limitações jurídicas para a atuação dos Administradores Públicos. Por representar os mais relevantes interesses da Coletividade, o Estado, por meio das Normas de Direito Público, em geral; e, de Direito Administrativo, em especial - as quais constituem o chamado Regime Jurídico Administrativo ou de Direito Público -, tem poderes especiais para executar as Funções Administrativas, com o objetivo de garantir a prevalência do interesse público sobre os interesses privados; como veremos a seguir. Por meio desses poderes especiais, que o Estado detém, sempre que exista um choque de interesses entre um interesse coletivo e um interesse particular; aquele prevalece sobre este. Tais poderes ou prerrogativas estatais colocam o Poder Público em posição jurídica de superioridade, frente ao Particular; desde que o Administrador Público atue, visando a atender um interesse público e seus atos sejam praticados, em conformidade com a Lei e respeitem aos direitos e garantias individuais, assegurados pela Constituição. O Estado deve agir ponderando a necessidade de atender o interesse público e de respeitar aos Direitos Constitucionais dos cidadãos; agindo, com razoabilidade e proporcionalidade, entre os meios empregados e os fins sociais, que visa a atingir; porém, sempre, observando a legalidade de suas ações. A defesa do interesse público é a própria razão de ser do Estado. O Estado existe para defender os interesses da Coletividade; favorecendo o bem-estar social; o que deve ser feito, de acordo com a Constituição e as Leis que o regem. Da supremacia especial do interesse público sobre o interesse privado, decorrem inúmeros Institutos, utilizados pelos Gestores Públicos, tais como: a Desapropriação de imóveis privados para, por exemplo, a construção de um viaduto, mediante prévia e justa indenização ao Proprietário; a Prestação de Serviços Públicos pelos Entes da Federação; seja, de forma direta, ou, mediante delegação aos Particulares; os Atos Administrativos, como manifestação da vontade estatal; o Poder de Polícia Administrativa, que consiste numa série de prerrogativas legais, a fim de ordenar a propriedade e a liberdade individual, em favor do interesse público; o Controle Interno e Externo de legalidade dos Atos Administrativos; etc. Estudaremos muitos desses Institutos, em nossa Disciplina, pois constituem objeto de trabalho dos Gestores Públicos. Como veremos, nesta Aula, os Poderes Administrativos constituem instrumentos de ação do Poder Público; mas, sujeitam-se a Normas limitadoras, a fim de evitar que haja abuso de poder ou desvio de finalidade, na atuação dosEntes e Agentes Públicos. Em síntese, podemos dizer que essa série de prerrogativas e limitações especiais, que norteiam as atividades da Administração Pública, expressam-se em Princípios e Regras Constitucionais e Legais; sendo que as prerrogativas ou os poderes da Administração são desdobramentos da supremacia do interesse público sobre o interesse privado; e, as limitações impostas à atuação da Administração são decorrentes da legalidade, que o Estado deve observar ao agir; respeitando à esfera dos direitos fundamentais do cidadão, garantida pela Constituição e pelas Leis Infraconstitucionais, a fim de protegê-los de abusos de Poder Estatal. Dos Princípios da supremacia ou prevalência do interesse público e da legalidade decorrem todos os demais Princípios informativos da Administração Pública; formando-se um conjunto ordenado de Normas reguladoras da atividade administrativa estatal, denominado Regime Jurídico Administrativo, como veremos, nesta Aula. Nesse sentido, assevera Di Pietro: Os dois Princípios fundamentais e que decorrem da assinalada bipolaridade do Direito Administrativo - liberdade do indivíduo e autoridade da Administração - são os Princípios da legalidade e da supremacia do interesse público sobre o particular, que não são específicos do Direito Administrativo, porque informam todos os ramos do Direito Público; no entanto, são essenciais, porque, a partir deles, constroem-se todos os demais. (DI PIETRO, 2017, p.95) Esse conjunto de Normas ordenadoras da Função Administrativa constitui o denominado Regime de Direito Público ou Regime Jurídico Administrativo; o qual estudaremos, no decorrer desta Aula. Em conclusão, o povo é o titular do poder, no Regime Democrático; motivo pelo qual os poderes especiais atribuídos aos Administradores Públicos se justificam, para que haja a correta e eficiente gestão dos interesses coletivos, que lhe foram confiados. Por isso, diz-se que tais poderes são instrumentais, necessários ao dever de administrar os interesses da Coletividade; e, não podem ser, arbitrariamente, usados em benefício dos próprios Gestores Públicos ou de seus aliados políticos. O Gestor Público tem por dever agir, de acordo com a legalidade da atuação administrativa. Esses poderes administrativos se expressam, por meio de Atos da Administração; são chamados de Atos Administrativos, que serão estudados no Tópico 2 da Aula. 2 PODERES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Como vimos acima, a Legislação confere à Administração Pública competências especiais para o adequado desempenho de suas ações. Essas prerrogativas administrativas constituem verdadeiros poderes - deveres instrumentais, que os Órgãos e as Entidades Administrativas detêm, como mecanismos de defesa do interesse público; permitindo que o Estado-administração alcance seus fins sociais, conforme previsão, no Ordenamento Jurídico. O próprio dinamismo da vida em sociedade exige que ao Estado sejam conferidos poderes especiais. Vamos analisar cada um desses poderes. 2.1 PODER VINCULADO E DISCRICIONÁRIO Fala-se em Poder Vinculado ou Poder Regrado, quando a Lei atribui determinada competência; definindo todos os aspectos da conduta a ser adotada; sem atribuir margem de liberdade para o Agente Público escolher a melhor forma de agir. Nesse caso, a Lei já descreve todos os elementos normativos do ato a ser praticado; vinculando a conduta administrativa. Onde houver vinculação, o Agente Público é um simples executor da vontade legal. O ato resultante do exercício dessa competência é denominado de Ato Vinculado. Por outro lado, na discricionariedade, o Legislador atribui certa competência à Administração Pública; reservando uma margem de liberdade, para que o Agente Público, diante da situação concreta, possa selecionar entre as opções predefinidas, qual a mais apropriada para defender o interesse público. Ao invés de o Legislador definir, no plano da Norma, um único padrão de comportamento, delega ao destinatário da atribuição, a incumbência de avaliar a melhor solução para agir, diante das peculiaridades da situação concreta. O ato praticado, no exercício de competência, assim, conferida é chamado de Ato Discricionário. É fundamental que a Lei confira ao Gestor Público a prerrogativa de avaliar o caso concreto em situações, em que o interesse público em questão exija escolhas entre as soluções possíveis, legalmente; conforme a conveniência e o momento em que o ato será praticado. Para saber mais sobre Direito Administrativo: DI PIETRO. Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 30ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2017, pp.92-93. É possível ao Administrador expedir Atos Administrativos Discricionários, quando a Lei confere competências genéricas ao Administrador; a Lei apresenta opções a serem adotadas; permitindo ao Gestor a escolha da mais adequada, a fim de atender ao interesse público concreto; a Lei permite a escolha do melhor momento para a prática do ato; a Lei é clara, ao determinar que o conteúdo do ato a ser praticado será definido, por juízo de conveniência e oportunidade do Administrador. São situações em que a Lei não pode engessar a decisão administrativa, pois o Gestor Público tem o dever de escolher a decisão, que, a seu critério, melhor atenda ao caso concreto; desde que não opte por uma escolha não comportada na Lei ou que seja proibida. O próprio dinamismo e a complexidade dos problemas enfrentados, diariamente, pelos Gestores Públicos, exigem que a Lei lhe reserve uma esfera de liberdade decisória, em determinados casos. Mas, é importante esclarecer que, mesmo agindo, discricionariamente, o Administrador Público não pode abusar de seu poder; seja agindo ou se omitindo em seu dever. Quando o Ato Discricionário é praticado, em desconformidade com os limites, legalmente, postos, ele se torna ilícito; passível de anulação, pela via administrativa, por meio de outro ato de um Superior hierárquico do Agente Público, que praticou o ato; ou, pela via judicial, por meio de um mandado de segurança ou de uma ação anulatória. O abuso de poder pode ocorrer, quando há excesso de poder ou desvio de finalidade. Ocorre excesso de poder, quando a Autoridade Pública atua fora dos limites de sua competência, legalmente, prevista; extrapolando suas funções; praticando atos, que não são de sua atribuição; portanto, ilegais; podendo-se configurar, até mesmo, crime de abuso de autoridade. Já, no desvio de poder, dá-se, quando a Autoridade, embora atuando, nos limites de sua competência, pratica atos, por motivos ou com fins diversos de previsão legal; ou, em desconformidade com o interesse público; agindo com verdadeiro desvio de finalidade ou de poder; movido por interesses pessoais ou políticos. Ex.: Edição de Ato Administrativo para beneficiar parentes. Muitas vezes, o desvio de poder é difícil de ser constatado, pois se reveste de forma, juridicamente, válida; mas, a sua motivação não atende a um legítimo interesse público. Apesar de ser difícil a sua comprovação, uma vez reconhecido pela Autoridade Administrativa ou Judicial, deve ser anulado. Estudaremos o Controle Interno e Externo dos Atos Administrativos, nas próximas Aulas; aprofundando a análise do tema do abuso de poder. 2.2 PODER DISCIPLINAR É a prerrogativa legal da Administração Pública para investigar e punir os Agentes Públicos, que cometam infração de seus deveres funcionais; e, os demais Administrados, sujeitos à disciplina especial administrativa; sempre, observando o direito ao contraditório e à ampla defesa do acusado. O poder disciplinar é exercido, por meio do Processo Administrativo Disciplinar (PAD) ou de Sindicância Preparatória do PAD. É um Poder Discricionário, porque a Administração pode escolher, com alguma margem de liberdade, qual a punição mais apropriada a ser aplicada ao Agente Público. Porém, uma vez constatada a infração, a Administração é obrigada a punir o Agente Público. É um dever vinculado. Somente, a escolha da punição, que é discricionária. Assim, o PoderDisciplinar é vinculado, quanto ao dever de punir; e, Discricionário, quanto à seleção da pena aplicável. O Poder Disciplinar decorre do Poder Hierárquico. 2.3 PODER HIERÁRQUICO É o poder de estruturação interna da Administração Pública; com a finalidade de organizar, distribuir e escalonar, verticalmente, as funções dos Órgãos; possibilitando o controle interno entre Órgãos e Agentes, da mesma Pessoa Jurídica, numa relação de subordinação administrativa. Visa a aprimorar a gestão; especializando e controlando as atribuições administrativas, entre Órgãos e Agentes Públicos. Em decorrência da Hierarquia, certas competências podem ser delegadas a Agentes Públicos subordinados à Autoridade delegante; desde que não haja impedimento legal; tratando-se de mera faculdade discricionária do Superior hierárquico, para uma gestão eficiente das atividades administrativas. Pode ocorrer, também, a avocação de competências, quando uma Autoridade Superior chama para si a competência atribuída, originariamente, ao seu subordinado; mas, é medida excepcional e temporária; e, não podem ser avocadas competências, que, por Lei, sejam atribuídas, com exclusividade, a determinado Órgão ou Agente Público. Decorre do Poder Hierárquico o Poder de Revisão, por Superior, dos atos praticados por Servidores subordinados, a fim de apurar a sua legalidade. 2.4 PODER REGULAMENTAR Trata-se do Poder, conferido à Administração Pública, de Atos Normativos, de caráter geral e abstrato; com o objetivo de editar Normas Complementares à Lei. O Poder Regulamentar tem por fundamento o Art. 84, IV, da Constituição Federal. Ele defere competência aos Chefes de Poder Executivo para que editem Normas, gerais e abstratas, destinadas a detalhar as Leis; possibilitando a sua fiel execução (regulamentos). Hoje, no Brasil, um bom exemplo de Poder Regulamentar são os Atos Normativos, expedidos pelas Agências Reguladoras; os quais visam a elucidar conceitos legais e regular determinado segmento de atividades, consideradas estratégicas e de interesse público. 2.5 PODER DE POLÍCIA Compreende a prerrogativa, reconhecida à Administração Pública, para restringir e condicionar, com fundamento na Lei, o exercício de direitos, com o objetivo de atender ao interesse público. É uma atividade, amplamente, exercida pelos Órgãos e pelas Entidades Administrativas; e, aplica-se a todos os Particulares. Fundamenta-se, na própria ideia de supremacia do interesse público sobre o interesse privado; o qual confere uma supremacia especial para a Administração Pública. Manifesta, por meio de Atos, como Autorizações; Licenças; Certificados; Autos de Infração, numa atividade fiscalizadora; na aplicação de multas; reboque de veículos, em caso de infração de trânsito passível dessa medida; interdição de Estabelecimentos, por violação de Normas Sanitárias; vistoria de veículos; licenciamento ambiental; etc. A competência para exercer o Poder de Polícia é da Pessoa Federativa (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) à qual a Constituição Federal conferiu o poder de regular a matéria; o que exige do Gestor Público, a leitura da Constituição, a fim de delimitar o campo reservado ao Ente Federativo, no sentido de exercer o Poder de Polícia sobre determinado tema. É oportuno mencionar que o Poder de Polícia possui três atributos: Autoexecutoriedade A própria Administração pode aplicar suas decisões, sem necessidade de autorização judicial. No entanto, nem todas as medidas de polícia são dotadas de autoexecutoriedade. Todavia, a autoexecutoriedade só existe em duas situações: por expressa previsão legal; ou, mesmo não estando prevista, expressamente, em Lei, o Administrador se depara com situação de urgência, que demande a execução direta da medida. Discricionariedade O Gestor Público pode decidir, dentre as medidas possíveis, legalmente, qual a que melhor se adequa ao caso concreto. Coercibilidade Deve haver obediência ao ato emanado da Autoridade competente; independente da vontade do cidadão; podendo a Administração usar meios indiretos de coerção, a fim de cumprir o ato expedido. Ex: Aplicação de multas. É importante não confundir o Poder de Polícia Administrativa com a Polícia Judiciária. A Polícia Judiciária é exercida, apenas, por Órgãos e Autoridades Policiais; visando à prevenção, à investigação e à repressão da prática de ilícitos criminais, previstos nas Normas Penais; incidindo sobre as pessoas, diretamente; (Ex.: Corporações da Polícias Militar, Civil e Federal). É estudado pelo Direito Penal e Processual Penal. Já, a Polícia Administrativa se manifesta por diversos Órgãos da Administração e incide sobre bens (uso da propriedade) e direitos (limitações à liberdade); condicionando o uso desses bens e direitos à busca do interesse coletivo. Muitos Autores lembram que, ao lado dos Poderes, existem correlatos deveres dos Gestores Públicos. Iremos estudá-los, ao analisar os Princípios da Administração Pública, na próxima Aula. Após essa Aula, ficou bem claro para você: quais são as Funções do Estado e a sua divisão, em três Poderes, distintos e independentes? E, especialmente, no que consiste a Função Administrativa e suas atividades inerentes, nesse contexto? Você compreendeu, também, o que significa o Regime Jurídico-administrativo e os Poderes da Administração Pública, decorrentes desse Regime de Direito Público? Caso você consiga responder a essas questões, parabéns! Você atingiu os objetivos específicos da Aula 2! Caso tenha dificuldades para respondê-las, não se preocupe! Aproveite para reler o conteúdo das Aulas, acessar o UNIARAXÁ Virtual e interagir com seus Colegas, Tutor(a) e Professor(a). Você não está sozinho(a) nessa caminhada! Conte conosco! Chegou o momento de complementar seu conhecimento. Vá até seu Ambiente Virtual de Aprendizagem e acesse esta aula para assistir a Video Aula RECAPITULANDO Nesta Aula, estudamos as atividades que constituem a Função Administrativa, suas quatro tarefas principais: Prestação de Serviços Públicos; Polícia Administrativa; Fomento; Intervenção Administrativa. Em seguida, analisamos o Regime de Direito Público, em geral, e, suas premissas interpretativas. Compreendemos que o Regime Jurídico Administrativo é o conjunto de Princípios e Regras Jurídicas, que regem a Administração Pública; o qual confere prerrogativas ou poderes especiais aos Agentes e Órgãos Públicos. Na próxima Aula, dando sequência ao nosso estudo, analisaremos os Princípios Jurídicos, que regem a Administração Pública; a organização administrativa do Estado Brasileiro; e, o Regime dos Atos Administrativos, seus requisitos e atributos; matéria essencial para exercício das atividades do Gestor Público. Espero por você na nossa próxima Aula!!! REFERÊNCIAS ALEXANDRE, Ricardo; DE DEUS, João. Direito Administrativo. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2018. Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530981020/cfi/6/10!/4/2/4@0:0> Acesso em: 07 out. 2019. DI PIETRO. Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 30.ª edição. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2017. Disponível em: <https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530976163/cfi/6/2!/4/2/2@0:48.1> Acesso em: 07 out. 2019.