Prévia do material em texto
Página 1 de 39
DISCIPLINA DA TERAPIA LACANIANA
I- BIOGRAFIA DE J LACAN
Biografia - Jacques Lacan (1901-1981)
Filósofo e psicanalista francês. Suas idéias de fundo estruturalista abalaram o cenário
psicanalítico da França a partir da década de 1960.
A influência de Lacan, tido como intérprete original da obra de Freud, estendeu-se além
do campo da psicanálise e fez dele uma das figuras dominantes na vida cultural francesa na
década de 1970.
Jacques Marie Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901, de família burguesa e
católica. Formou-se em medicina, especializando-se em psiquiatria, e foi interno de Gaétean
de Clérambaut, a quem considerava seu único mestre no campo psiquiátrico. Com a tese de
doutorado La Psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité (1932; A
psicose paranóica em suas relações com a personalidade), mostrou impressionante
erudição e simpatia pela psicanálise, numa época em que preconceitos obstavam sua
disseminação na França.
Lacan buscou a companhia dos artistas do surrealismo, atraídos pelo caráter
revolucionário das teses freudianas. Acompanhou o famoso seminário de Alexandre Kojève
sobre Hegel e se ligou a intelectuais de ponta do pensamento francês, entre eles Raymond
Aron, Maurice Merleau-Ponty e Georges Bataille. Em 1934, entrou para a Sociedade
Psicanalítica de Paris. Em 1936, apresentou num congresso seu trabalho sobre o "estágio
do espelho". A partir daí, sua história se confunde com a da própria psicanálise.
Conhecedor profundo da obra de Freud, Lacan empreendeu ao mesmo tempo um
retorno e uma revolução em direção a uma psicanálise que para ele havia perdido o sentido
original. O retorno visou resgatar os fundamentos psicanalíticos, que para Lacan se
encontram no próprio conceito de inconsciente. Para empreender sua grande crítica às
vertentes americana e francesa da psicanálise, cujo tema central é a discussão sobre o
imaginário, pesquisou a linguagem e deduziu que é ela a condição de existência do
inconsciente, que só existe no sujeito falante.
Numa retomada crítica dos conceitos saussurianos de "significante" e "significado",
Lacan afirmou a autonomia do significante e o inseriu na origem simbólica, constituída pela
linguagem. Afirmou que o significante preexiste ao sujeito e sobrevive a ele, faz do sujeito
homem ou mulher, traça seu destino e o priva de qualquer relação natural com o mundo.
Lacan não é um autor simples nem fácil. Seus conceitos demandam, além de uma carga
exaustiva de leitura, uma inversão do pensamento racional e linear a que está habituada a
cultura ocidental. Em seus Écrits (1966; Escritos) e vinte seminários abordou temas tão
complexos quanto polêmicos, como a ética da psicanálise, a transferência, o princípio do
prazer e conceitos fundamentais da psicanálise, entre outros.
Em 1980, dissolveu a Escola Freudiana de Paris, que fundara em 1964, e criou a Escola
da Causa Freudiana. Lacan faleceu em Paris, em 9 de setembro de 1981.
©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
Página 2 de 39
Outra Biografia
Nasceu em París em 13 de abril de 1901, sendo um dos quatro filhos de um comerciante
de vinagres . Durante a primeira guerra mundial, o colegio a que asistia se transformou em
uma especie de hospital de campanha, e é provavel que esta experiencia tenha arraigado
nele o desejo futuro de uma carrera médica. No entanto, tambem por aquela época,
Jacques-Marie era definido por quem o conheceu como altaneiro e distante, incapaz de
organizar seu tempo e de comportar-se como os demais.
A agitada vida intelectual de sua época, na qual figuras como André Breton, André Gide,
Jules Romains, James Joyce atraíam cada vez mais sua atenção, é vivida por ele de forma
tal que rechaça os valores familiares e cristãos nos quais havia sido educado. Em 1929,
sofre uma profunda decepção pela partida de seu irmão Marc para a Abadia de
Hautecombe. Havia decidido ordenar-se sacerdote e Jacques, que sempre havia sido seu
protetor, não havia podido evita-lo.
Ao iniciar sua carreira médica, as ideias de Freud estavan ganhando cada vez más
espaço dentro do pensamento frances. Havia sido criada a revista "Evolution Psichiatrique"
e havia sido fundada, no mesmo dia em que Lacan fazia sua primeira apresentação como
médico neurólogo, a SOCIETE PSYCHANALYTIQUE DE PARIS. Por outro lado, a literatura
tambem havia acolhido com entusiasmo a nova concepção da sexualidade humana que
provinha da psicanálise.
Entre 1927 e 1931 realizou os estudos necesarios para a especialização em psiquiatria.
Desta época resaltam seus contatos com Henri Ey, Pierre Mâle e outras figuras daquele
tempo. Tres mestres que deixaram sua influência nelel foram Georges Dumas, Henri Claude
e G.Clérembault.
Em junho de 1932 começa sua análise com Rudolph Loewenstein, quem por aqueles
tempos era considerado como o melhor analista didático da SPP. Este único passo de
Lacan por uma experiência psicanalítica na qual ocupara o lugar de analizando, finalizaria
abrupta e violentamente seis anos mais tarde. Na realidade, se presume que as razões que
levaram Lacan a analizar-se com Loewenstein foram mais políticas que científicas,
transformando-se assim a cura em algo mais parecido a um requisito que sabía
indispensavel se quisesse ocupar posições de maior nivel dentro da SPP. Em alguma
ocasião se ocupou de manifestar que, em verdade, Loewenstein não era o suficientemente
inteligente para analiza-lo. Por seu lado, tampouco Loewenstein se privou de comentar entre
seus achegados que Lacan era inanalizavel.
Página 3 de 39
Logo após algumas relações amorosas vacilantes, em 1934 contrai matrimonio com
Marie Louise Blondin, que era irmã de um antigo companheiro de estudos de Lacan, que
este admirava profundamente. Da união nasceram tres filhos: Caroline (1936), Thibaut
(1938) e Sibylle (1940). A paternidad não afetaria, no entanto, o tempo que dedicava a seus
trabalhos e a divulgação dos mesmos.
Em 1941 se divorcia de M.L.Blondin e se une com Sylvia Bataille, ex-esposa de Georges,
com quem tem uma filha: Judith Sophie(1941). Curiosamente, o criador do nome do pai, não
pôde dar seu nome a esta nova filha, por que a lei francesa lhe proibia por não estar
oficialmente divorciado até então de sua primeira esposa, e a criança foi inscrita como Judith
Sophie Bataille
Em 1934 passa a ser membro aderente da SPP. Assiste ao congresso da ASOCIAÇÃO
INTERNACIONAL DE PSICANALISE em Marienbad, onde apresenta seu trabalho sobre o
estágio do espelho (1936). Lacan consegue, finalmente em 1938, ser nomeado titular da
SPP, depois de exercer pressão para que não se tivera em conta algumas opiniões
desfavoráveis a sua candidatura, entre elas as de Loewenstein.
Sob o signo de um retorno a Freud, replantou conceitos psicanalíticos através do
estruturalismo e a linguística, o que marca a influência de Saussure e da antropologia de
Lévi-Strauss em sua obra. Assim mesmo, foram muito importantes para as
conceitualizações teóricas que tenha desenvolvido as leituras de Husserl, Nietzche, Hegel e
Heidegger. Poderia dizer-se que Lacan leu Freud desde uma exterioridade: psiquiatria,
surrealismo e filosofía.
A partir do interesse comum pela obra de Hegel, começa uma amizade com Georges
Bataille, de quem toma seu interesse por Sade, suas reflexões sobre o impossível e sobre a
heterología, de onde toma o conceito de "real", concebido primeiro como "resto" e depois
como "imposível".
A concepção lacaniana de inconsciente como estrutura também esta plena da influencia
da obra de Lévi-Strauss. Por outro lado, os laços que Lacan estabelece com Koyré, Kojève,
Corbin, Heidegger, Hyppolite, Ricoeur, Althusser e Derrida, mostran que para ele todo
questionamento do freudismo devia passar por uma interrogação de tipo filosófico.
A notoriedade que lhe proporcionou a frequentação do meio intelectual parisiense havía
aportadoa Lacan uma pequena clientela privada, porém até 1947 não recibeu demasiados
pedidos de análises didáticas. Foi o médico pessoal de Picasso.
Em 1953 apresenta sua demissão a SPP. As novas formulações que havia introduzido,
em particular as relativas a prática da cura, fizeram que os setores mais ortodoxos da SPP o
acusaram de semear a discordia na instituição e a rebelião nos que eram seus alunos.
Página 4 de 39
Se une com Lagache para fundar a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) e durante
os dez anos que durou a SFP, encontrará em Francoise Dolto, que também se incorpora a
nova instituição, uma interlocutora que valorava em forma notável. 1953 também assinala o
começo de seus seminarios públicos.
Em 1963 foi expulso da ASOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PSICANALISE, e um ano
máis tarde fundou a Escola Freudiana de París, junto a Dolto, Leclaire, Octave e Maud
Mannoni. Seu objetivo, segundo suas proprias palavras, era a restauração da verdade no
campo aberto por Freud, denunciando as desviações que obstaculizavan seu progresso.
Para isto, dizia, estavam habilitados de participar unicamente aqueles que se havían
formado con ele. O novo grupo esteve composto inicialmente por 134 membros, a maioría
dos quais havía pertencido a SFP.
Paradoxalmente, a razão de sua posterior dissolução talvez haja estado em seu éxito: a
partir de 1966 começou um processo de massificação incontrolavel, que produziu um
grande incremento no número de membros, que para 1979 eram ja 609. Isto não era
precisamente o desejavel para uma instituição que se havía proposto ser uma república das
elites. Foi neste período que Lacan propôs o passe como nova forma de aceder ao título de
didático, sustentando aquilo de que o psicoanalista não se autoriza senão em sí mesmo.
Havendo-se ja iniciado sua declinação física e intelectual, em particular logo depois de
um acidente automobilístico que sofre em 1978, dissolve em 1980 a escola e funda a Causa
Freudiana, que logo sería a Escola da Causa Freudiana. Nestas últimas dissoluções e
fundações ja não atua sozinho, senão que seu genro J.A.Miller é quem toma a frente com
seu consentimento.
Nesses tempos todavia dava alguns seminarios, porém sem a desenvoltura que tanto o
havia caracterizado e que tão profunda fascinação provocava em seu auditorio. Padecía
uma patologia vascular muito lenta em sua evolução, porém de origem claramente cerebral.
Além disso, desde 1980 se lhe havia declarado um câncer de cólon.
Faleceu em 9 de setembro de 1981 em París.
Página 5 de 39
II- TEORIA LACANIANA
Lacan. Teoria do Sujeito. Entre o outro e o grande Outro.
Apresentação
LIVRO - "A Psicanálise depois de Freud"
AUTOR: Bleichmar & Bleichmar
1. Aspectos gerais
Jacques Lacan (1901-1981) formulou uma teoria profunda e complexa que, sob a égide
do retorno a Freud, redefiniu, sob a perspectiva do estruturalismo e da lingüística, todas as
categorias psicanalíticas conhecidas, ao mesmo tempo que criou muitas outras.
Discutido e ao mesmo tempo admirado, para alguns o maior depois de Freud, ou até
mesmo de seu tamanho; desviacionista, fator de retrocesso da psicanálise, para outros, é
necessário que se passe mais tempo para que esta figura, tão controvertida, adquira seu
exato lugar na história da evolução da psicanálise.
Lacan é um dos grandes pós-freudianos. Procedeu a uma reformulação das próprias
bases da teoria, da metapsicologia e da clínica. A outra figura equiparável a ele, em
grandeza, certamente é Melanie Klein.
Em princípio, a modificação conceptual proposta por Jacques Lacan deve ser entendida
no contexto criado pela influência estruturalista na França, principalmente com a lingüística
de Saussure e com a antropologia de Lévi-Strauss.
Obra erudita, difícil de compreender, obscura em suas formulações, com linguagem
alusiva, cheia de jogos de palavras, gongorismo estilístico, pedantismo intelectual, desprezo
a toda formulação próxima da sua, exceto algumas exceções momentâneas; é tudo isto ao
mesmo tempo e em graus diferentes, segundo o texto que considerarmos. O leitor se
encontra diante de um verdadeiro desafio para compreender e assimilar os enfoques
lacanianos.
Nas páginas que se seguem, não procuraremos dar uma visão completa das idéias de
Lacan, mas descrever os vetores principais em que sua teoria se desenvolve. Pretendemos
fazer uma ordenação conceptual que ilustre, panoramicamente, aquilo que, em nossa
opinião, Lacan fornece.
Comecemos por destacar que estamos em presença de um discurso, para usar uma
Página 6 de 39
palavra grata a Lacan, resultante de uma interação entre dois enfoques diferentes: o
filosófico e o psicanalítico. Neste sentido, Lacan é completamente original. Devemos
recordar que, na França, diferentemente do resto do mundo, é comum que os psicanalistas
também tenham formação filosófica e médica. Lacan escreve em termos psicanalíticos,
filosóficos, antropológicos e lingüísticos; sua reflexão sobre o sujeito, quiçá uma das
temáticas principais, orienta-se em todas estas direções. É oportuno recordar que Freud
contribuiu em problemas vinculados à cultura, de uma forma um tanto colateral. Apesar
disso, esses estudos tiveram grandes implicações.
Mesmo que a discussão de problemas filosóficos e antropológicos interesse a um
grande número de psicanalistas, não constituem temas que tenham preocupado,
centralmente, a totalidade do movimento psicanalítico. O psicanalista de formação
tradicional, que em geral provém da medicina e da psiquiatria, tem, portanto, uma
dificuldade inicial para se confrontar com a obra de Lacan. O tipo de linguagem que
emprega o surpreende, propõe-lhe obstáculos e até pode lhe causar desagrado.
Pelo contrário, muitos dos seguidores de Lacan são filósofos ou provêm das ciências
humanísticas, não médicas, motivo pelo qual a linguagem lacaniana lhes é mais acessível.
Freud usou, para suas teorias, modelos biológicos como o do neurônio e o da evolução
de Darwin. Lacan, por seu turno, valeu-se da lingüística de Saussure, da antropologia de
Lévi-Strauss e da dialética de Hegel (relação com o semelhante, dialética do desejo e do
olhar).
Todavia, a lingüística, em Lacan, é muito mais do que um modelo aplicado à resolução
de certos problemas ou à exemplificação de uma idéia. Está incorporada de maneira
constitutiva à teoria lacaniana. O inconsciente se estrutura como linguagem e existe porque
há linguagem ou convenção significante, como Lacan gosta de chamá-la, em um sentido
muito amplo. O desejo do ser humano desliza, incessantemente, de um objeto para outro,
seguindo o caminho que a linguagem lhe indica, com sua organização de deslocamento
sintagmático ou metonímico. A reformulação que Lacan obtém, ao introduzir a lingüística na
psicanálise como elemento fundamental, é muito radical; a linguagem determina o sentido,
engendrando as estruturas da mente.
Toda a metapsicologia se modifica, assim como a clínica. Os termos utilizados por
Lacan: pulsão, desejo, libido, pulsão de morte, para citar somente alguns, adquirem outro
significado no conjunto de sua teoria. Isto nos Faz pensar (problema que examinaremos
com mais vagar na parte de comentários) que se trata de um desenvolvimento psicanalítico
original e não de um retorno a Freud, pelo menos não à estrutura da teoria psicanalítica tal
como Freud a pensava. Concordamos que se sustenta no espírito freudiano, mas não nas
concepções clássicas da psicanálise. Não pensamos que a teoria de Lacan, nem a de
Melanie Klein, possam ser consideradas como simples desenvolvimentos do legado de
Freud.
A discussão das hipóteses de Lacan, como as dos demais autores estudados neste
livro, interessa-nos no plano das idéias e das concepções teóricas. Os problemas do
movimento, políticos ou de ambições pessoais, não serão levados em consideração.
Página 7 de 39
2. Definição de alguns termoslingüísticos
Como a lingüística na obra de Lacan tem o papel decisivo que mencionamos, antes de
entrar no assunto, impõe-se uma breve revisão dos conceitos lingüísticos fundamentais.
Deste modo será mais fácil, depois, acompanhar os desenvolvimentos lacanianos.
Começaremos, necessariamente, por uma menção de Saussure.
No momento em que a figura de Saussure emerge, na lingüística européia, as correntes
em voga realizavam estudos de tipo comparativo e histórico. A língua era comparada a um
organismo vivo, cujas origens e evolução deviam ser elucidadas. Este era o tipo de tarefa
que os gramáticos comparativistas e os neo-gramáticos realizavam. Apesar de ter feito parte
do movimento neo-gramático, Saussure decidiu separar-se desse grupo, propondo que se
suspendesse toda investigação lingüÍstica até que fossem revisa= das as premissas gerais
desta ciência. A isso dedicou os cursos que ministrou em Genebra, entre 1906 e 1911.
Assim surgiu uma nova corrente na lingüística, claramente estruturalista; esta é uma
perspectiva teórica que, segundo veremos mais adiante, também abriu novos rumos em
outras disciplinas, como é o caso da antropologia.
A primeira pergunta a que Saussure procurou responder foi a relativa ao objeto de
estudo da lingüística, que ficou definido como "o conjunto de manifestações da linguagem
humana, sem nenhuma restrição; isto implica todas as línguas, todos os períodos da
história, todas as formas de expressão" (Fuchs e Le Goffic, 1975, p. 15). Portanto, o objeto
de estudo do lingüista é a língua em sua estrutura mais geral.
A perspectiva saussuriana é eminentemente dualista. A linguagem é, ao mesmo tempo,
um fato individual e social; é um sistema estabelecido e em evolução, é uma associação de
sons e idéias.
A primeira das oposições que acabamos de mencionar, correspondem, respectivamente,
os conceitos de fala e língua. A fala é um fenômeno individual. A língua o é, em nível social.
Fuchs e Le Goffic pensam que a oposição entre língua e fala pode ser interpretada pelo
menos em três sentidos:
- como a correspondente aos códigos universais, em contraposição aos códigos
particulares;
- como oposição entre o aspecto virtual da linguagem (conjunto de elementos e suas
possíveis combinações) e sua atualização (combinações que efetivamente têm lugar);
Página 8 de 39
- como a resultante do contraste entre o código universal, dentro de uma comunidade
lingüística, e o ato livre de utilização deste código pelos sujeitos.
Se, agora, considerarmos a relação da linguagem com o eixo temporal, podemos ver
que surge outra dualidade: sincronia versus diacronia. A língua é, em um sentido sincrônico,
um sistema de relações entre signos lingüísticos. Estes permanecem unidos através de
certas leis de associação e cada um ocupa um lugar na estrutura, que o define e o distingue,
simultaneamente, dos demais signos. Porém, Saussure adverte que este sistema não
permanece estático. O enfoque diacrônico se interessa pelas mudanças que a estrutura
sofre com o transcorrer do tempo.
No último parágrafo, introduzimos um conceito ao qual é necessário dedicar algumas
linhas: o signo lingüístico. Saussure propõe que a língua seja composta de unidades
discretas, descontínuas, que estabelecem uma combinação. As unidades também se
definem a partir de uma dualidade: som/idéia. Em seu Cours de Línguístique Générale, diz:
"O papel característico da língua, diante do pensamento, não é o de criar um meio fônico
material para a expressão das idéias, mas o de servir de intermediário entre o pensamento e
o som, em condições tais que sua união leve, necessariamente, a delineamentos recíprocos
de unidades" (Saussure, 1915 p. 192). A unidade fundamental da linguagem é o signo, que
é composto de uma imagem acústica ou significante, e um significado ou conceito.
Notemos, no entanto, que o significante é incorpóreo. Embora seja suscetível de se tornar
sensível, não é requerida sua presença física para que entre na categoria de significante. O
que o caracteriza é a diferença que há entre sua imagem acústica (que pode potencialmente
se tornar sensível) e todas as demais imagens acústicas do sistema.
O significado é aquilo a que o significante se refere. Ducrot e Todorov (1972, p. 122)
explicam que o significado é o que está ausente na parte sensível do signo.
Entre significado e significante existe um equilíbrio impossível de romper: um não existe
sem o outro. O significante não existe sem o significado, é apenas um objeto. O significado,
por sua vez, sem o auxílio do significante, é impensável, indizível é o inexistente.
A aliança entre significado e significante, como acabamos de ver, é indissolúvel. Mas é
arbitrária. Não há nada em um que remeta, de maneira específica, ao outro. Prova disso é o
fatõ de que significados iguais se associam em línguas diferentes, com diferentes
significantes (exemplo: mãe, mother etc.). Portanto, a única forma de explicar um signo é em
relação com os demais signos do sistema e não com a relação recíproca de significante-
significado. Esta idéia foi formulada por Saussure (1915, pp. 130-133) com sua teoria da
arbitrariedade do signo lingüístico.
Saussure outorga ao signo lingüístico outra característica especial: seu valor. Assim
como uma moeda, cada signo vale em relação aos demais signos da estrutura (ibid. pp.
192-202). Tem, com eles, uma relação fixa e, além disso, é intercambiável. O signo cumpre,
assim, duas premissas básicas: a) como designa algo que Ihe é alheio, tem poder de
Página 9 de 39
mudança e b) seu poder significativo depende das relações estabelecidas com os outros
elementos do sistema.
Saussure destacou o fato de que há dois tipos de ordenamentos dos signos: a
concatenação e a substituição de um signo por outro. A partir destes conceitos, Jakobson
(1963) distinguiu, dentro da linguagem, os termos relacionados, por semelhança, com os
associados por contigüidade. Um exemplo dos primeiros seria "fogo" e "paixão"; em troca,
um conceito contíguo a fogo poderia ser "calor". A substituição de um significante por outro,
na base de uma relação de similitude, constitui a metáfora. Se, em compensação, um
significante for substituído por outro que tenha, com o primeiro. uma relação de
contigüidade, estar-se-á efetuando uma metonímia.
O processo metafórico é criador de sentido. Se dissermos, referindo-nos a um homem:
"atirou-se sobre seu inimigo como um lobo", estamos ampliando o sentido da frase, criando,
assim, um novo significado para o conceito de "homem", que o associa, neste exemplo, à
ferocidade e à brutalidade.
Na metonímia, como já dissemos, um significante substitui outro, associado por
contigüidade. Este seria o exemplo da substituição do termo "psicanálise" pela palavra
"divã". Neste caso, não há criação de sentido. No processo, nem um nem outro significante
sofre modificações no que se refere à sua significação. Se, na frase, "aproximou-se do
fogo", substituirmos o último termo por "calor", não mudamos o sentido geral do que
quisemos dizer.
A obra de Lacan hierarquizou os conceitos lingüísticos que acabamos de expor, ao se
servir deles para a elaboração e formalização de sua teoria. Sobre os processos metafóricos
e metonímicos, Lacan constrói sua tese de que o inconsciente se estrutura como linguagem.
Também o lapsus, os atos falhos, os sonhos e os sintomas, em suma, todas as formações
do inconsciente, surgem como resultado das substituições metafóricas ou metonímicas de
um ou mais significantes por outros, vinculados aos originais por diferentes tipos de
relações.
Esta tese fundamental leva Lacan a prestar especial atenção à organização da
linguagem; dela extrai numerosos conceitos que, depois, aplicará ao conhecimento do
objeto psicanalítico por excelência: o inconsciente.
3. Narcisismo. Papel do outro(a) na constituição do sujeitoNo Congresso Psicanalítico Internacional de 1936, Lacan abriu uma nova perspectiva,
com o trabalho que depois se converteria em um clássico e que, em 1949, assumiu sua
versão definitiva: posteriormente, foi incluído em seus Ecrits de 1966. Referimo-nos,
Página 10 de 39
evidentemente, a "Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je telle qu'elle nous
est revélée dans l'expérience psychanalytique".
Lacan parte de um fato observado na psicologia comparada: o bebê, ao redor dos seis
meses, reage jubilosamente diante da percepção de sua própria imagem refletida no
espelho. Esta reação contrasta com a indiferença que outros mamíferos demonstram ante
seu reflexo especular.
A que se deve esta resposta? Que conseqüências tem no desenvolvimento psíquico do
ser humano? Em torno destas perguntas, o autor desenvolve uma teoria sobre o narcisismo
e a identificação primordial.
Em nossa opinião, este tema constitui uma das contribuições mais destacadas da teoria
lacaniana, pois encara o estudo do fenômeno narcisista de uma perspectiva original. Em sua
formulação se conjugam, de maneira ajustada, fatos de observação clínica,
conceptualizações de nível teórico e um modo muito profundo de entender as relações do
homem, não somente com a mãe, mas também com o contexto cultural em que vive.
Lacan pensa que o ser humano tem uma representação fantasmática do corpo, na qual
este aparece fragmentado. A imago de seu esquema corporal fragmentado continua a se
expressar durante a vida adulta nos sonhos, delírios e processos alucinatórios. Concebe seu
corpo como quebrado ou sujeito a se partir em pedaços. Sinal de imaturidade? De
prematuridade? Resultado das vivências relacionadas à incoordenação motora, própria dos
primeiros meses de vida? Imago arcaica compartilhada por todos os homens, em todas as
culturas? Mito? Lacan recorre a todas estas explicações, em diferentes momentos, para
explicar um fato de inquestionável verificação clínica.
A imagem de seu próprio corpo, refletida no espelho, surpreende o lactente, pois se vê
esculpido em uma gestalt que nada mais é do que uma imagem antecipatória da
coordenação e integridade que não possui naquele momento. "O fato de que sua imagem
especular seja assumida, jubilosamente, pelo ser ainda mergulhado na impotência motora e
na dependência da lactância, em que está o homenzinho, nesse estágio infans, parecer-
nos-á, portanto, que manifesta, em sua situação exemplar, a matriz simbólica na qual o
Eu(je) se precipita, em uma forma primordial, antes de se objetivar na dialética da
identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de
sujeito" (1949, p. 87). "É que a forma total do corpo, graças à qual o sujeito se adianta, em
um espelhismo, à maturação de seu poder, não lhe é dada senão como Gestalt, isto é, em
uma exterioridade onde, sem dúvida, esta forma é mais constituinte do que constituída, mas
onde, principalmente, tudo lhe aparece em um relevo de estatura que a coagula e sob uma
simetria que a inverte, em oposição à turbulência de movimentos com que se experimenta a
si mesmo, animando-a" (Ibid., pp. 87-88) (1).
Página 11 de 39
Nesta identificação com uma imago que não é mais do que a promessa daquilo que virá
a ser, há uma falácia: o sujeito se identifica com algo que não é. Na verdade, acredita ser o
que o espelho ou, digamo-lo logo, o olhar da mãe lhe reflete. Identifica-se com um fantasma;
usando o termo lacaniano, com um imaginário. Desde muito cedo, o homem fica preso a
uma ilusão, da qual procurará se aproximar pelo resto de sua vida. Ser um herói, ser
Superman ou o Cavaleiro Solitário, ser um gênio, não são mais do que versões do processo
imaginário. Portanto, vemos que o estágio do espelho não é apenas um momento do
desenvolvimento do ser humano. É uma estrutura, um modelo de vínculo que operará
durante toda a vida. No seio da teoria lacaniana, é conceptualizado como um dos três
registros que definem o sujeito: o registro imaginário.
"Porém, o ponto importante é que esta forma situa a instância do eu, ainda antes de sua
determinação social, em uma linha de ficção, irredutível, para sempre, pelo próprio
indivíduo; ou então, que só assintoticamente tocará o devir do sujeito, seja qual for o êxito
das sínteses dialéticas por meio das quais tem de resolver, enquanto eu (je), sua
discordância a respeito de sua própria realidade" (ibid., p. 87).
Somente pelo fato de viver com outros homens, os seres humanos ficam presos,
irreversivelmente, em um jogo de identificações que os impelem a repetir aquela relação
com a imago antecipatória. Quando uma mulher diz a seu filho: "és a criança mais linda do
mundo", o está introduzindo nesta dialética, da qual a criança, futuro adulto, jamais poderá
escapar. A introdução do registro simbólico, através da problemática edípica, atenuará ou
modificará estas imagos especulares, mas nunca conseguirá acabar com elas.
O Eu assim constituído é, para a teoria lacaniana, o ego ideal, diferente do ideal do ego.
O ego ideal é uma imago antecipatória prévia, o que não somos mas queremos ser. Imagem
mítica, narcisista, cujo alcance persegue o homem incessantemente. A estátua, o uniforme,
o herói são significantes com que o ser humano substitui aquela ilusória assimetria primitiva.
O ideal do ego, pelo contrário, surge da inclusão do sujeito no registro simbólico. Por ser
impossível se tornar esse personagem lendário, poderoso, perfeito, o indivíduo aceita fazer
parte de uma estrutura, da qual é perpetuador. Seu papel é transmitir a lei. E apenas um elo
da cadeia: o homem entregará a seus_filhos o nome (e as normas) que, por seu turno,
recebeu de seu pai, que as recebeu de seu próprio genitor, e assim sucessivamente.
Portanto, o ingresso na conflitiva edípica constitui o grande desafio às ilusões narcisistas
forjadas no estágio do espelho. Mas estas marcam, de maneira definitiva, o que sucederá
no Édipo. Assim, o ego ideal e o ideal do ego estão em permanente luta e interação.
Para Lacan, o complexo de Édipo se desenvolve em três momentos, dos quais o estágio
do espelho constitui o primeiro. O devir psíquico transcorre desde a identificação narcisista,
na ordem imaginária, até a identificação simbólica com a Lei do pai, ao concluir o Édipo.
Entre estes dois pontos, situa-se o momento em que a relação diádica com a mãe marca a
criança, definindo sua identificação com o outro, ou melhor, com o desejo do outro. No
estágio do espelho, a criança se identifica com uma imago antecipatória de si mesma. Em
um segundo momento, fá-lo com o desejo da mãe. Finalmente, ao assumir a castração e
compreender que nem seu pai nem ela mesma são o falo, que somente podem transmiti-lo
de geração em geração, ingressará na ordem simbólica, aceitará a lei. Este último passo
constituiria o que, tradicionalmente é denominado de "dissolução do complexo de Édipo",
Página 12 de 39
embora, na realidade, os três estilos de identificação coexistam, misturando-se durante toda
a vida.
O tipo principal de identificação, com o qual funciona um sujeito, tem grande importância
psicopatológica. Lacan propôs que tanto as psicoses como as perversões se assentam mais
em um estilo identificatório da ordem do imaginário, do que da ordem do simbólico. O não
aceder à ordem do simbólico, à lei, produzirá no psicótico, segundo Lacan, o uso peculiar da
linguagem que o caracteriza. O psicótico tem um vínculo com sua mãe no qual não há
espaço para um terceiro, não há lugar para a triangulação edípica. A mãe ilude o filho com a
crença de que ele é seu falo, o filho vive a ilusão de sê-lo. A ausência do pai (não nos
referimos aqui à ausência real do pai, mas à sua ausência no discurso da mãe) obstaculiza
o ingresso do sujeito na ordem do simbólico. Mãe e filho compartilham uma ficção e, na
verdade, esta ficção é a psicose.
A agressividade, fenômenoque sempre foi polêmico em psicanálise, produz-se quando
é questionada a imago especular que se construiu.
Na conferência intitulada "L'agressivité en psychoanalyse" (1948), Lacan enuncia várias
teses que, em conjunto, procuram demonstrar que a agressividade como vivência
essencialmente subjetiva, surge do encontro entre a identificação narcisista, da qual o
indivíduo é portador, e as fraturas, clivagens, rupturas, às quais esta imago está submetida.
Esclarece que este efeito da ação do outro sobre o ego especular somente pode ser
verificado porque, antes da identificação antecipatória, o sujeito tem uma imago
fantasmática de si mesmo correspondente à do corpo fragmentado.
No começo do trabalho mencionado, em sua tese II, explica: "A agressividade na
experiência, nos é dada com intenção de agressão e como imagem de deslocamento
corporal, e é deste modo que se demonstra eficiente" (p. 96). Basta recordar os jogos e os
desenhos das crianças, nos quais arrancar a cabeça, abrir o ventre, estripar a boneca
constituem eventos completamente naturais. Acrescenta: "Deve-se folhear um álbum que
reproduza o conjunto e os detalhes da obra de Hyeronimus Bosch, para reconhecer neles o
atlas de todas estas imagens agressivas que atormentam os homens..."
"Voltamos a encontrar, constantemente, estas fantasmagorias nos sonhos,
especialmente no momento em que a análise parece ir se refletir no fundo das fixações mais
arcaicas... São todos dados primários de uma gestalt própria da agressão no homem, ligada
ao caráter simbólico..." (ibid., p. 98). Tomando como base estas evidências primitivas e a
função integradora que o estágio do espelho realiza, Lacan postula: "A agressividade é a
tendência correlacinada, à maneira de identificação, que chamamos de narcisista, e que
determina a estrutura formal do ego do homem e do registro de entidades características de
seu mundo" (ibid., p. 102).
Com o imaginário, que instaura o estágio do espelho, começa, em Lacan, a reflexão
sobre a intersubjetividade humana. Relação entre o sujeito e o semelhante, entre a criança e
a mãe, do homem com o outro. Captação do desejo humano no desejo do outro, através do
olhar. Lacan retoma a reflexão hegeliana da Fenomenologia do Espírito, especialmente a
Página 13 de 39
"Dialética do Senhor e do Escravo". É na relação interdependente, mútua, de imprescindível
necessidade entre os dois membros do diálogo, que se constitui a identidade. É-se senhor
porque existe o escravo, e vice-versa. Dialética da intersubjetividade em uma organização
dos lugares, através da estrutura. O olhar do outro produz em mim minha identidade, por
reflexo. Através dele, sei quem sou e, nesse jogo narcisista, me constituo a partir de fora.
O olhar deve ser entendido como uma metáfora geral: é o que pensam de mim, o desejo
do semelhante, o cartel e o espetáculo de propaganda, o posto na família, no trabalho e na
sociedade. Identificação no outro e através do outro, este é meu eu. Lacan diz, em uma
fórmula: o lugar do moi é i(a), identificação com o desejo de a, autre (outro). Torna-se
evidente que então também se inicia a temática da alienação.
Com a ajuda samaritana, a vocação de curar, a "alma bela" e a chamada "lei do
coração", mantêm-se as imagos narcisistas. Tu és meu discípulo, portanto sou teu mestre.
Uma coisa leva à outra, circularmente. Nada irrita mais do que a intenção do outro de sair do
jogo, pois tropeça no que sou. Se o paciente não admite sê-lo, desgosto narcisista no
analista. Se o analista questiona uma certeza do paciente, desperta nele outra tensão
agressiva.
O imaginário interage com a ordem do simbólico do tesouro do significante.
Lacan, com sua teoria do imaginário, produz uma reviravolta muito interessante no
problema da agressividade humana. Propõe que todo questionamento de nossas
fascinações especulares causa uma visão paranóica do mundo. Basta dizer a alguém que
não tem razão, que não é quem acredita ser, mostrar-lhe um ponto onde se limita a
asseveração de si, para que surja a agressividade. Lacan considera a pulsão de morte como
expressão do narcisismo. Posteriormente, fa-la-á interagir, também, com o registro do
simbólico, dizendo que o que insiste, o que se repete, é a cadeia do significante. Ao
abandonar a biologia, como fator explicativo para a agressividade, resta apenas o efeito da
estrutura narcisista, tornando tudo mais simples e lógico. Por outro lado, para que a fratura
seja possível, deve-se admitir que, antes da identificação com a gestalt antecipada, o
indivíduo devia ter uma imago ou representação deslocada, fragmentada de si mesmo. A
citação na qual se refere à obra de Hyeronimus Bosch, ou aos desenhos e jogos infantis,
indica-nos que Lacan acredita que estas imagens fantasmáticas são originárias. Fazem
parte de uma herança mítica, simbólica, que o homem recebe de seus antepassados de
maneira ineludível. Se uma pessoa sentir como agressiva a afirmativa: "creio que isto te
será muito difícil" é, diria Lacan, porque esta afirmativa está questionando a imago
onipotente, poderosa, íntegra, com a qual se identificara no estágio do espelho. Mas,
simultaneamente, se o questionamento se tornar possível, é porque, em alguma parte de
sua mente, o indivíduo percebe a possibilidade de ser fragmentado, criticado ou
desintegrado. Esta representação a priori faz parte do acervo que herdou, somente pelo fato
de existir como ser humano.
4. O inconsciente estruturado como linguagem Primazia do significante e do grande
Outro (A)
Lacan utiliza os elementos da lingüística em diversos planos e níveis. Por vezes, faz
deles um uso antropológico e, em outras, sua reflexão sobre a linguagem tem aplicações
Página 14 de 39
psicanalíticas. Torna-se claro que seu pensamento não se move de maneira homogênea,
nem sempre no mesmo plano, mas que os diversos elementos interagem de maneira
variada. No entanto, com finalidades explicativas, é útil procurarmos discriminar estes
diferentes níveis.
Em uma reflexão basicamente antropológica, Lacan destaca que o homem está inserido
em um universo de linguagem. De fato, o ser humano é, graças à sua inclusão em um
sistema de significantes, e é esta diferença essencial que distingue o homo sapiens das
outras espécies do mundo animal. As abelhas, por exemplo, comunicam-se entre si, podem
transmitir umas às outras a localização das flores, necessária para a fabricação do mel. Mas
estes insetos estão completamente incapacitados de criar, mediante seus meios de
expressão, novos sentidos. Devem se limitar a "dizer-se" aquilo para o qual estão
etologicamente programados. O homem, em compensação, pode utilizar seu meio de
expressão para criar novos sentidos. Isto demonstra que a linguagem é muito mais do que
um meio fixo de comunicação. Seu uso é que faz do homem um ser especial.
Através de que mecanismo pode a linguagem permitir esta criação? Sua própria
estrutura é ambígua. Recordemos os conceitos de sincronia e diacronia. A linguagem é
combinatória nos dois sentidos: um, horizontal, transcorre com o passar do tempo; no outro,
vertical, um significante desloca outro, que está ausente. Se dissermos "traze-me a mesa",
em lugar de "traze-me a cadeira", a substituição do significante "mesa" por "cadeira" muda o
sentido. Obviamente, há substituições que dão muito mais sentido. Voltemos à utilizada
páginas atrás: a substituição de "paixão" por "fogo" ou de "lobo" por "homem",
evidentemente, é criadora de um novo sentido. Segundo a opinião de Saussure, e também
de Lacan, o que permite estes malabarismos é a própria estrutura da linguagem, sua
disposição em forma de trama, de entrecruzamento, com linhas que se associam, em
sentido vertical e horizontal. Esta trama é o que chama de "cadeia significante", descrita
como "anéis, cuja corrente se fecha no anel deoutra corrente feita de anéis" (1957 p. 481).
Portanto, o homem nasce em um universo que fala, em um universo de linguagem. O
fato de ser nomeado o introduz no sistema lingüístico e este sistema o transforma em mais
um significante da cadeia. O sujeito é, segundo Lacan, um significante, para outros sujeitos
ou outros significantes. A única forma de designar um sujeito, em particular, é através dos
significantes da linguagem; dizer "Pedro" ou enunciar "aquele homem de óculos" requer
nossa submissão ao sistema significante da linguagem. Portanto, nada mais somos do que
significantes, em um sistema de significantes. E o somos pelo próprio efeito do sistema.
Do dito até o momento, pode-se deduzir o sentido radical que possui o enunciado
lacaniano: "O sujeito é falado pelo Outro". O Outro é a lei, as normas e, em última instância,
a estrutura da linguagem. O sujeito, enquanto o é não existe mais do que no e pelo discurso
do Outro. Somos alienados pela linguagem, pois somos efeito dela. Recordemos que o
sujeito também está alienado no imaginário, segundo o descrevemos para o estágio do
espelho. Dupla alienação: no desejo do outro (o semelhante) e no discurso do Outro (a lei, a
linguagem). Cada um de nós crê ser o que, na realidade, não é (nível imaginário), ao
mesmo tempo que não é mais do que um significante, produto da estrutura que o
transcende (nível simbólico).
Falamos da criação de sentido, mas não nos detivemos em analisar o mecanismo de
sua produção. Dissemos que o que permite esta criação é a própria estrutura da linguagem.
Mas, como é que isso acontece efetivamente? Lacan introduz uma metáfora: a do ponto de
capitonê ("point de capiton"). Do mesmo modo que o ponto com que o tapeceiro une entre si
as diferentes partes de um estofado, o ponto de capitonê fixa a significação em uma
Página 15 de 39
detetminada cadeia de significantes. O último significante da cadeia é o que dá sentido aos
que o precederam. Um exemplo servirá para esclarecer esta idéia. Pensemos o quanto é
diferente dizer: "a mesa está vazia", do que "a mesa está". O significante "vazia" fecha o
sentido, de uma maneira muito diferente do que é feito com o verbo "está". Sublinhemos,
então, um efeito retroativo de cada significante sobre os significantes que o precederam o
que dá a significação, ou seja o sentido.
Mais adiante, veremos que Lacan utiliza este enfoque na formalização de sua teoria do
desejo, aplicação que tem não poucas conotações. A mais evidente é que, de fato, nosso
autor postula que o desejo humano é, do mesmo modo que o próprio sujeito, efeito da
estrutura da linguagem, cumprindo, portanto, suas regras e normas. Até o momento,
descrevemos o retrato do homem tal como Lacan o concebe: aprisionado entre dois
sistemas, o imaginário e o simbólico. Este último o determina como sujeito, nomeia-o, situa-
o, distingue-o como homem. Em poucas palavras, torna-o ser.
Como se exprimem estas considerações, aplicadas ao homem como sujeito analítico?
Partiremos de uma das mais célebres e, também, controvertidas propostas lacanianas.
Aquela que postula que o inconsciente está estruturado como linguagem. Em seu trabalho
"L'instance de la lettre dans I'inconscient ou la raison depuis Freud" (1957), Lacan diz:
"Nosso título dá a entender que, além desta palavra, é toda a estrutura da linguagem o que
a experiência psicanalítica descobre no inconsciente. Pondo em alerta, desde o princípio, o
espírito, advertido sobre o fato de que pode ser obrigado a revisar a idéia de que o
inconsciente não é mais do que a sede das pulsões" (ibid., pp. 474-475). A letra, por sua
vez, é definida como "... este suporte material que o discurso concreto toma da linguagem..."
(Ibid.). O que, na verdade, nada mais é do que o significante.
"Digamos que o sonho é semelhante àquele jogo de salão, no qual se faz com que os
espectadores adivinhem um enunciado conhecido ou sua variante somente por meio de
uma cena muda. O fato do sonho dispor da palavra nada muda a este respeito, porque, para
o inconsciente, ela nada mais é do que um elemento de colocação em cena, como os
demais... Os procedimentos sutis que, não obstante, o sonho costuma empregar para
representar estas articulações lógicas, de maneira muito menos artificial do que aquela que
o jogo geralmente utiliza, são objeto, em Freud, de um estudo especial no qual se confirma,
uma vez mais, que o trabalho do sonho segue as leis do significante" (Ibid., p. 492).
Para Lacan, o significante tem um peso maior do que o significado. De fato, propõe a
primazia do significante. No seminário sobre o conto de Edgar Allan Poe, "A carta roubada"
(Ecrits, pp. 5-55), fica evidente este ponto de vista, em contraste, digamo-lo, com o equilíbrio
interno do signo lingüístico que Saussure postulara.
No relato, Poe cria uma trama em torno do desaparecimento de uma carta, cujo
conteúdo todos desconhecem. A presença ou ausência da carta põe os protagonistas em
um jogo: quem a tiver, possuirá poder sobre quem não sabe onde ela está. Na carta há, ao
que parece, uma informação incriminatória sobre a rainha. Seu desaparecimento e
Página 16 de 39
substituição por um envelope idêntico, mas com conteúdo diferente, gera a tensão e causa
os diferentes movimentos executados pelos protagonistas.
Lacan utiliza o conto de Poe para demonstrar como o significante tem primazia sobre o
significado. A carta é um envelope, cujo conteúdo é sus peitado mas não conhecido. Neste
sentido, nada mais é do que um significante. Sua posse é o que situa cada um dos
personagens em cena: quem o possui, está em situação de incriminar a rainha; quem o
perde, fica em desvantagem. O espectador pode suspeitar do conteúdo do envelope ( o
significado), através de sua circulação entre os diferentes personagens (significantes).
Mediante esta metáfora, Lacan encena a posição do sujeito, quanto ao significante. O
indivíduo move-se em torno, por causa dele.
Também fica estabelecido seu ponto de vista acerca do que, em sua opinião, tem
prioridade no interior do signo lingüístico: o significante. Em síntese, o conto de Poe ilustra
duas idéias diferentes, mas vinculadas entre si: o significante tem prioridade sobre o
significado e é sua circulação que define o lugar que cada indivíduo ocupa na estrutura. Mas
qual é o valor representativo do significante? Lacan propõe que este decreta a morte da
coisa. O significante é aquilo que a coisa não é, o que determina uma carência que lhe é
intrínseca. E, na medida em que algo lhe falta e, ao mesmo tempo, existe, em relação aos
outros significantes do código; é, porque não é outro significante. Se, como vimos acima, o
sujeito nada mais é do que um significante, para outro significante, então podemos lhe
aplicar esta mesma fórmula, da qual resulta que o sujeito também possui uma carência de
ser fundamental.
A combinação peculiar que os significantes adquirem no inconsciente diz respeito
também às leis da linguagem. A análise do sonho, uma das expressões mais notáveis do
inconsciente, exige a descoberta de uma frase oculta. Os mecanismos, pelos quais se deu
este ocultamento, são proporcionados pela linguagem: referimo-nos à metáfora e à
metonímia.
A importância destes conceitos, na obra de Lacan, nos obriga a Ihes dedicar umas
linhas, para que se possa compreender, em toda sua grandeza, a aplicação clínica que esta
teoria nos propõe.
A metáfora se apóia na primazia do significante, dentro do signo lingüístico.
Se, como faz Lacan, expressarmos, com um algoritmo, o signo lingüístico, poderíamos
dizer que este pode ser representado mediante S/s, onde S é o significante e s o significado.
A presença, no numerador, da fração do significante, indica sua primazia sobre o
significado. Na metáfora, a substituição operada é a de um significante por outro
significante. Sua notação é a seguinte:
Página 17 de 39Aqui, o significante 2 substitui o significante 1, mas este, junto com seu significado,
passam sob a barra de significação. Ficam como conteúdos latentes. Na metáfora, ao
substituir um significante por outro, deve-se colocar, na parte inferior da barra do algoritmo,
o signo completo substituído (significante e significado), pois não sendo assim criar-se-ia um
novo signo e não uma metáfora.
No exemplo que demos em paginas anteriores, esta substituição seria feita do seguinte
modo:
Processo metafórico
Com o signo completo correspondente a "homem", conservando-se "latente", temos a
criação do próprio sentido da metáfora.
Passemos, agora, ao processo metonímico. Como já o mencionamos, na metonímia,
permuta-se um significante por outro, que tem, com o primeiro, uma relação de
contigüidade. Dor (1985, p. 59), em seu didático livro sobre Lacan, exemplifica-a assim:
substituímos o significante psicanálise pelo significante divã. Expressando-o com o algoritmo
lacaniano, diríamos que:
processo
metonímico
No processo metonímico, não e possível tirar o significante substituído do algoritmo, pois
sua presença é necessária para que se constitua a metonímia. O significante 2 somente tem
seu sentido em função da contigüidade com o significante 1. Na metonímia, toma-se
necessário um processo de pensamento capaz de criar o sentido. Na metáfora, em
compensação, o sentido surge imediatamente. Explica-se pelo fato de que neste ú'timo
caso, o significante franqueou a barra de significação, ocupando o lugar do significado.
Apoiado nestes conceitos, Lacan estudou as diversas formações do inconsciente,
propondo que o inconsciente se estrutura como linguagem. Logo veremos as implicações
metapsicológicas que estas idéias possuem.
Página 18 de 39
Dois dos fenômenos oníricos descritos por Freud têm notáveis semelhanças com os
processos metafóricos e metonímicos, próprios da linguagem. São a condensação e o
deslocamento.
Na condensação, que para Lacan é análoga à metáfora, um significante substitui outro
significante, que passou ao estado latente. Uma casa, no sonho, pode ser,
simultaneamente, a casa em que passamos a infância, a escola e nosso atual local de
trabalho. O significante "casa", que faz parte do conteúdo manifesto do sonho, substituiu os
demais significantes, porém estes, como revela o trabalho da interpretação, não
desapareceram. Apenas ficaram sob a barra de significação, como conteúdos ou
significados latentes. A substituição é plena de sentido, pois sua descifração revela uma
associação que, até então, era desconhecida para o sujeito.
Seguindo esta linha, o processo metonímico é análogo ao fenômeno de deslocamento
descrito por Freud. Nele, os elementos significativos são substituídos por outros que,
embora façam parte da mesma idéia geral, são os aspectos menos importantes dela ou
guardam uma relação de causa-efeito ou de continente-conteúdo. Neste caso, a relação
entre um significante e outro é direta e ambos os significantes estão, de uma ou outra
maneira, presentes no material manifesto do sonho. Uma mulher sonhou que desmanchava
o vestido da irmã, no dia em que o estreava. As associações poderiam revelar um sentido
de inveja da irmã e o desejo oculto de que esta fosse lesada. Aqui, o significante "vestido"
substitui, metonimicamente, o significante "irmã", que se torna evidente, porque ambos os
significantes conservam entre si uma relação de contigüidade.
Os lapsus, os atos falhos, o sintoma e o chiste podem ser interpretados desta mesma
perspectiva. No trabalho "Fonction et champ de la parole et du langage en psychoanalyse",
Lacan descreve isto com a seguintes palavras: "O inconsciente é aquela parte do discurso
concreto, enquanto transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a
continuidade de seu discurso consciente" (1963, p. 248), donde se deduz, claramente, que o
inconsciente se revela nos vazios do discurso. E mais adiante: "O inconsciente é o capítulo
de minha história que foi deixado em branco ou ocupado por um embuste: é o capítulo
censurado. Mas a verdade pode ser de novo encontrada; freqüentemente já está escrita em
outro lugar. A saber:
- nos monumentos: este é meu corpo, isto é, o núcleo histérico da neurose, onde o
sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem sendo decifrada como uma inscrição
que, uma vez recolhida, pode, sem grandes perdas, ser destruída;
- também nos documentos de arquivo: são as recordações de minha infância, tão
impenetráveis como elas, quando não conheço sua proveniência;
-na evolução semântica: isto corresponde tanto ao estoque e às acepções do vocabulário
que me é próprio, como ao estilo de minha vida e de meu caráter;
- também na tradição e, ainda, nas lendas que, sob uma forma heróica, veiculam minha
história;
- finalmente, nos rastros que, inevitavelmente, conservam as distorções necessárias para
Página 19 de 39
a conexão do capítulo adulterado com os capítulos que o cercam, e cujo sentido minha
exegese restabelecerá; (ibid., p. 249).
Este enfoque conceptual indica, de maneira decisiva, a forma de trabalho proposta por
Lacan. Se o inconsciente se revelar, através das formações que lhe são próprias, e se estas
forem efeito da estrutura da linguagem, será pelos cortes e erros do discurso que se
tornarão acessíveis à consciência. Assim, não haveria outra forma de acesso ao
inconsciente, senão a escuta atenta do discurso do paciente, à espera de que um lapsus,
um chiste, um sonho, desvendem a combinatória peculiar de associações, que subjaz a
estas produções. Isto devolve à palavra o papel essencial que teve, no início da psicanálise
e, em sentido inverso, diminui a eficácia que alguns analistas atribuem às experiências
emocionais ocorridas na sessão. Lacan critica duramente as idéias daqueles que, como
Balint, Winnicott e outros, propõem que a presença e a atitude empática do analista na
sessão têm um efeito curativo. Em sua opinião, o sentido é revelado ao sujeito através dos
cortes do discurso e de atos que possuem, em última instância, o efeito de u na palavra.
Privilegia-se a palavra, no sentido de que é por meio dela que temos acesso ao
inconsciente. Suas pontuações, seus erros, seus esquecimentos, a cadeia do discurso
(seqüência de significantes que, finalmente, se tornam significados, em virtude do último
significante da cadeia), tudo isso são ferramentas com que conta o analista.
Até o momento, vimos a posição que o sujeito mantém com a linguagem e como Lacan
extrai seus postulados, a partir da hierarquia que a estrutura lingüística possui, em sua
teoria. Vejamos, agora, mais pormenorizadamente, como a linguagem aliena o sujeito. Em
outras palavras, devemos considerar o estudo do mecanismo pelo qual o sujeito se inscreve
na ordem do significante. Este é o tema da Lei e do Outro.
5. O falo. A metáfora do nome-do-pai
O que é o falo, na obra de Lacan? Começaremos por esclarecer o que não é: não é o
pênis. A referência à castração não é, em nenhum momento, uma alusão à privação do
órgão genital masculino. Constitui uma referência à função do pai, como mediador da
relação entre a mãe e a criança. Essa função paterna se interpõe na relação diádica,
imaginária, especular, que é verificada entre o bebê e a mãe. É isto a castração.
Para poder ser o terceiro e intermediar o vínculo diádico, o pai deve transmitir a Lei, fato
que se atualiza por ser o portador do nome. É o pai quem nomeia o filho e, neste ato, está
simbolizado que é o possuidor do falo, da Lei.
Ao sair da fase identificatória do estágio do espelho, a criança está alienada em um
imaginário da mãe. Anseia ser o desejo da mãe. Isto implica ser o que a mãe não possui: o
falo. Há, neste momento, uma segunda etapa identificatória: a identificação com odesejo do
outro. O dilema em que o sujeito se debate, neste momento, é o de ser ou não ser o falo, o
Página 20 de 39
que posterga a temática da castração; esta será enunciada mais adequadamente, se
dissermos que o que ela trata é de ter ou não ter o falo.
Em um segundo momento do processo edípico, o pai passa a participar, momento em
que privará a mãe de seu filho-falo e a este da satisfação imaginária, proporcionada por ser
o falo da mãe. A criança se vê forçada, simultaneamente, a pôr em dúvida sua identificação
fálica e a renunciar a ser o desejo da mãe. Correlativamente, do ponto de vista da mãe, o
pai a priva do falo que se supõe seja o filho. O pai parece ser, para a criança, o objeto fálico
possível.
Precisamos esclarecer que, para que esta mediação seja possível, não basta que o pai
interponha a proibição. A mãe deve se fazer eco dela, transformando-se em porta-voz do
que Lacan chama de "Lei do pai". A criança então descobre que o desejo de cada um deve
se submeter à lei do desejo do outro. Neste ponto, a segunda etapa do Édipo, passa-se da
ilusão de "ser" o falo para a de "ter" o falo, pois se supõe que o pai tem o objeto do qual a
mãe depende, a ponto de impor uma lei que lhe causa, por sua vez, uma privação.
Neste segundo momento do processo edípico, a criança ingressa na simbolização da lei
que, mais tarde, permitirá o declínio do complexo. É confrontada com a castração, que
implica a necessidade de "ter" aquilo que preenche o desejo da mãe. O pai real, ao impor
sua lei, transforma-se em pai simbólico.
Este momento é crucial para o indivíduo, pois só assumindo a castração torna-se
possível aspirar a ter o falo, ou o que é o mesmo, a transmitir a Lei. Qual é o motivo pelo
qual o homem julga que seu pai é possuidor transitório do falo e não que é o próprio falo? A
resposta é dada pelo fato de que o pai é portador de um nome, que, por sua vez, lhe foi
dado por outro homem, seu próprio pai.
Assim, chegamos a uma terceira etapa do Édipo. É comprovada pelo fato de que a
criança recebeu a significação. Ela renuncia à sua condição de "ser" para ingressar na
dialética da negociação, que lhe permitirá "ter". Entra em jogo a identificação do varão com o
pai e da menina (que assume o "não ter") com a mãe.
Na teoria lacaniana, este processo é estruturante. O ingresso no mundo do significante e,
portanto, na constituição do inconsciente e o recalcamento originário, estão sujeitos a ele. É
isto que Lacan teorizou, sob o nome de "A metáfora do nome-do-pai".
Que o falo se constitua no significante por excelência, no significante primordial, é
explicado pelo fato de que é ele que ordena e distribui os papéis do drama vital. Quem o
têm? A quem falta? Quem gostaria de sê-lo? Pai, mãe, filho. Assim como no conto de Poe,
os papéis estão definidos, em relação à posse ou carência deste significante primordial. Não
há outra forma de definir o papel que cabe mais a um do que a outros e esta relação está,
por sua vez, firmada pelo falo, indicador do lugar correspondente a cada um, na estrutura.
A aceitação da lei do pai produz uma primeira substituição metafórica: substitui-se o
Página 21 de 39
significante "falo" pelo "nome-do-pai". Possuir o falo é substituído pela "posse do nome-do-
pai", pois esta posse é que identifica, na estrutura, a posição do próprio pai. Esta primeira
substituição de um significante por outro é a metáfora originária, a metáfora do nome-do-pai.
Também é o primeiro processo de simbolização e o que indica o advento, para o sujeito, da
ordem significante. A partir de então, o objeto do desejo da mãe tem um nome que, embora
nunca seja dito, será enunciado por intermédio de infinitas verbalizações. A partir deste
momento inaugural, todos os objetos de desejo que o sujeito enuncia não são mais do que
deslocamentos metonímicos do significante primordial: o falo.
No curso de sua substituição pelo nome-do-pai, o significante fálico se torna
inconsciente. Porém, o falo é um significante altamente investido, em virtude de ser o desejo
da mãe. Isso faz com que este significante, já in- consciente, atraia outros significantes,
associados metonimicamente com ele. Os sucessivos significantes, que se tornarão objeto
do recalcamento, conservam entre si uma relação semelhante à que a estrutura da
linguagem lhes confere, pois é de suas leis que provêm.
A cadeia de significantes inconscientes responde a leis que estruturam a linguagem, o
recalcamento secundário se produzindo conforme estas mesmas leis. Vemos, então, por
que é a lei do Outro que define seus conteúdos inconscientes; aquilo que será reprimido não
é totalmente alheio; depende, completamente, da estrutura da linguagem e da lei da cultura,
é algo que nos precede e cujo controle escapa às nossas possibilidades.
Esta teorização também serve para Lacan dar uma feliz resposta ao problema da
memória, em psicanálise. Propõe que a memória nada mais é do que a estrutura da
linguagem, presente no inconsciente. Isto explica a in- destrutibilidade do desejo
inconsciente. * * * "Não há outro meio de conceber a indestrutibilidade do desejo
inconsciente - quando não há necessidade que, ao ver que lhe é proibida sua sociedade,
não se quebre, em caso extremo pela consunção do próprio organismo. E em uma memória,
comparável ao que se chama com este nome em nossas modernas máquinas de pensar
(fundadas sobre a realização eletrônica da composição significante), que reside essa cadeia
que insiste em se reproduzir na transferência, e que é a de um desejo morto" (Ecrits, p.
499).
O recalcamento primário, isto é a metáfora paterna, também é induzido pela Lei que o
representa, através da proibição do incesto e da castração. É necessário aceitá-lo para ser
portador, por seu turno, da Lei.
O sujeito psicológico nasce ao ser incluído na ordem do significante e na lei do pai,
reconhecendo a castração. Mas, por este mesmo ato, seu psiquismo é clivado, uma parte
dele ser-lhe-á inteiramente desconhecida: seu inconsciente. Então aparece uma alienação
inicial. Não é sujeito até que ingresse na ordem simbólica da linguagem e, quando o faz, fica
dividido, clivado pelo efeito da própria ordem simbólica.
Página 22 de 39
O que, portanto, se impõe, é a castração; aliena-nos na estrutura da linguagem que não
nos deixa resquícios para ser mais do que sujeitos alienados na demanda. O Outro, ao ditar
as leis da linguagem, que nos estruturam, e das relações de parentesco que estabelecemos,
também dita as normas a que se subordinarão nossos desejos e, conseqüentemente,
nossas demandas.
Os três registros, imaginário, simbólico e real, interagem simultaneamente. São o nó
borromeu, uma figura na qual, ao desatar um dos cordões, os demais ficam soltos. Há uma
solidariedade constitutiva entre todos os registros, embora se indique a primazia do
simbólico, como primazia do significante, em seu efeito sobre o imaginário e o real. Donnet
diz, em seu trabalho "Evolución histórica del psicoanálisis" (1974) que, se Melanie Klein é o
imaginário e Hartmann o real, Lacan é o simbólico. Embora demasiado definitivo, o
julgamento encerra, de todo modo, uma verdade, o papel principal que Lacan outorgou ao
simbólico.
O que é o real? Não se trata da realidade, no sentido tradicional, materialista, com a
tomam Freud e a psicologia do ego. Não temos uma percepção imediata da realidade. Os
significantes a segmentam e a criam. Quando vemos uma porta em um quarto não é só isto
o percebido, o significante "porta" decompõe o plano da parede, organizando o mundo
externo e as emoções.
Lacan não dedica ao registro do real a mesma quantidade de trabalhos que aos demais.
Um dos sentidos que lhe atribui é o de um corte entre os dois registros, simbólico e
imaginário.
6. O desejo humano e sua topologia
Entre o outro e o Outro
Lacan estuda a temática do desejo emvários trabalhos. Destacam-se especialmente
seus seminários sobre Les formations de I’ïnconscient e O desejo e sua interpretação (1957-
58 e 1958-59); retoma o tema em "Subversão do sujeito e a dialética do desejo no
inconsciente freudiano", lido, primeiramente, em setembro de 1960, em Royaumont, sob os
auspícios dos "Colóquios Filosóficos Internacionais" e, posteriormente, publicado nos Ecrits
(773-807).
Estamos, novamente, diante de proposições que, ao reformular, de maneira original, os
conceitos psicanalíticos clássicos, tornam-se de difícil compreensão. Acreditamos que há
várias leituras possíveis do discurso de Lacan a respeito deste tema, pois suas idéias,
algumas vezes, se expressam de forma ambígua, não ficando claramente entendido o que
pensa o autor. Disto decorre que nossa apresentação seja muito pessoal e, logicamente,
passível de causar discordâncias.
Página 23 de 39
As idéias tradicionais sofrem uma notável modificação: a estrutura da intersubjetividade
humana, na ordem imaginária (identificação narcisista), é articulada com as idéias de Lacan
sobre a linguagem e a incidência do Outro ou tesouro do significante. Há problemas a
respeito deste tema que Lacan não consegue definir ou resolver, adquirindo suas
afirmativas, em alguns momentos, um caráter demasiadamente axiomático. No entanto,
tudo isto pode ser estudado com o espírito de constituir um vento renovador, que permite
repensar aspectos muito significativos da psicanálise.
Para Lacan, o desejo humano remete a algo diferente da necessidade biológica
imediata. Em Freud, esta questão foi apresentada ao separar Instinkt (instinto animal) de
Trieb (pulsão humana). Lacan discute o desejo humano fazendo interagir o registro do
imaginário com o do simbólico: as relações entre os processos da identificação imaginária e
os que pertencem ao jogo do significante. Intitulamos este item de "Entre o outro e o Outro",
para explicar, resumidamente, sob que ótica este autor encara o desejo.
Façamos um breve resumo das categorias que iremos encontrar nesta exposição.
- O outro (a) = autre (a): o ser humano se identifica com a imagem que lhe é devolvida
pelo olhar do semelhante. É a base da identificação narcisista. Alienado no desejo alheio, a
criança e o adulto mimetizam as aspirações que vêm de fora. Também é o ego ideal da
figura heróica, construída sobre imagos antecipatórias. O que não se é, mas se deseja ser.
Nossa própria imagem refletida.
- O Outro (A) - Autre (A): a linguagem e o significante constituem um tesouro. É o lugar
do Outro. O homem fica inscrito no universo de palavras e no nome que lhe dá seu lugar,
outra alienação primordial em um discurso que procede do exterior.
- O ideal do ego, que nos diz: "Deverás ser como teu pai, como ele buscarás esposa,
mas não a dele". Surge a Lei e seus significantes ou símbolos, por exemplo, as tábuas da
lei, a Santíssima Trindade.
Os gráficos que Lacan usa em seus seminários (os do desejo, I, II e III, o do sujeito, L),
ilustram e são, ao mesmo tempo, metáforas. Não possuem rigorismo matemático ou
geométrico. Incluem vários níveis simultâneos de leitura. Lacan pensa que uma das
vertentes do desejo humano é que o sujeito procura se constituir em objeto do desejo de
seu semelhante, o outro, em primeira instância, a mãe. Desejo de (a). Desejo como (a) e
que (a) nos tome como objeto de seu desejo. Ali estaria uma das bases do amor (e se isto
não ocorrer, do ódio). A criança quer ser o desejo da mãe; como esta deseja um falo, a
criança deseja ser o falo, para se constituir no objeto do desejo da mãe. Esta estrutura é
definida, em Lacan, como axiomática. O narcisismo remete a uma topologia e a uma
estrutura. É assim e acabou, não há livre arbítrio diante disto, a estrutura se prende como
uma máscara de ferro.
Página 24 de 39
Recordar-se-á que já mencionamos o apoio em Hegel e na "Dialética do Senhor e do
Escravo". A intersubjetividade é definida a partir da demanda do reconhecimento. És meu
escravo e, por isso, reconheço-me como teu amo. Para ser, defino-me na relação. Sem ti,
nada valho. Verdadeira carência de ser que a estrutura detém, momentaneamente, por meio
de uma identidade que se estabelece na alternância com o outro. Sou o que o outro não é.
Portanto, minha existência e meu desejo são definidos pelo desejo e a falta do outro.
A outra vertente do desejo humano vem do grande Outro. Esta incidência é múltipla. É o
Outro quem dá, desde o início, as palavras para desejar. Quando o bebê tem uma
necessidade, a mãe a inscreve, junto com a satisfação desta necessidade, em um universo
de linguagem. A palavra que nomeia a coisa também encerra o gozo e o amor da
experiência. O Outro indica o que desejar. Sua mensagem aparece no sujeito de maneira
invertida quando é expressa como desejo próprio.
Há um duplo desejo de reconhecimento: pelo outro e pelo Outro. Porém, assim como
estrutura o sujeito, a linguagem confere ao desejo uma das características essenciais: o
efeito de deslocamento metonímico de um para outro objeto. Recordemos que, na
metonímia, um significante sempre remete, por contigüidade, a outro significante. Trinta
velas, diz Lacan, substitui o significante "trinta barcos". A linguagem transcorre neste
contínuo deslocamento. O inconsciente, ao acompanhar a estrutura da linguagem, repete
este fenômeno. Isto leva a um deslocamento interminável do objeto do desejo.
O objeto a, objeto da pulsão, a cria e é seu efeito. Neste objeto a, que Lacan vincula ao
fantasma, é onde a pulsão busca sua descarga e o êxito da satisfação. Quando o ser
humano deseja beber, o líquido satisfaz o nível pulsional, mas o desejo fica,
inevitavelmente, insatisfeito. Salta desta para outra experiência, em uma circulação
metonímica incessante. O significante liga o desejo a outro significante, mas o que pode um
significante fazer senão se deslocar, sem nunca se deter? Só dá um sentido em um corte
sincrônico fugaz que, rapidamente, retoma sua marcha.
Assim, desejamos porque falamos. A linguagem é a estrutura que nos torna desejantes
e, ao mesmo tempo, o modelo do desejo. Lacan usa ambos os critérios, simultaneamente. O
desejo Fica, ao mesmo tempo, inscrito e oculto na demanda. Está antes dela. Na realidade,
o que se demanda é ser amado, como sucede na análise, tanto no paciente como no
analista. O Outro regula esta relação, assim como todas as relações. Porque há linguagem,
expressa-se a demanda de amor onde está o desejo de reconhecimento. Este, por efeito de
ordem significante, nunca pode ser preenchido. Aparece sempre de outra forma. Assim
como o dicionário explica um termo com outro e este remete, por sua vez, a um terceiro, um
significante só encontra seu sentido na cadeia de significantes.
Lacan aborda a questão do desejo, combinando o discurso psicanalítico com o
lingüístico. Embora, em um sentido, amplie a teoria, também pode produzir um efeito
redutor. Discuti-lo-emos no setor de comentários.
Página 25 de 39
Lacan diferencia a necessidade, no nível biológico e etológico, do desejo, inscrito em um
nível simbólico e imaginário. Deve-se distinguir o comer ou beber, como necessidade para
sobreviver, do desejo de gozo oral que, em sentido estrito, não é satisfeito com o líquido que
acalma a sede. Requer vinho, champagne ou Coca-Cola. Gozo e prazer são categorias
estritamente humanas do plano do desejo. Na demanda, pede-se reconhecimento e amor.
Demanda do paciente de ser amado por seu analista, de ser reconhecido em seu sintoma e
em sua presença. A ferida narcisista surge diante da frustração da demanda. Aparece a
agressão. Podemos tolerar muitas coisas, mas não suportamos não sermos reconhecidos.
No México se diz "me ningunea" (ignora-me, N. do T.), para exprimir que alguém não se
sente levado em consideração, que é subestimado, não reconhecido. Ferida terrível.
Em seu seminário "Les formationsde l'inconscient", Lacan utiliza o chiste (freudiano, N.
do T.), para nos introduzir na temática do desejo. Um judeu que visita um familiar, rico
personagem, diz, com humor, que o receberam bem, com um tratamento verdadeiramente
familionário. Lacan diferencia o riso provocado pelo chiste, daquele que é causado por algo
cômico. Faz a seguinte reflexão: quando rimos diante da queda de uma pessoa, nossa
reação se deve a um fenômeno de ruptura do imaginário. O indivíduo, ao cair, também
tropeça em uma imagem, a do homem e sua pompa bípede, a figura solene. Junto com o
homem que cai, vem abaixo o ego ideal. O riso, que surge da ruptura imaginária, é efeito de
uma ocorrência cômica.
No chiste do familionário, criou-se um neologismo que causa riso, porque há uma
referência ao tesouro do significante (familiar, milionário). O Outro está presente, fornecendo
os elementos e como ponto de ancoragem, para que surja o sentido oculto. O chiste, eis sua
diferença com o cômico, está escondido no significante, irrompendo por seu jogo.
Lacan pensa que o sintoma neurótico ou o sonho, do mesmo modo que o chiste, é a
metonímia do desejo. Este se esconde neles mas não tanto que não seja alcançado.
Da identificação narcisista surge o desejo de ser o desejo do outro (o semelhante),
ocupando o lugar do objeto de seu desejo. Desejamos ser reconhecidos. Porém, este
mesmo semelhante nos introduz, ao exprimir em palavras nosso desejo, em um universo
significante que exige nossa subordinação às leis da linguagem (o Outro). Como resultado
disso, nosso desejo não poderá ser nomeado jamais e circulará metonimicamente, de um
para outro significante. Desejo de uma roupa nova, mais tarde de outros sapatos, depois, de
uma ceia com caviar, e assim sucessivamente. A estrutura me obriga a continuar desejando.
Definitivamente, desejo desejar. Este seria o desejo oculto na metonímia dos significantes
"roupa", "sapatos", "ceia".
Depois de descrever, em grandes traços, a teorização lacaniana do desejo, vamos
acompanhar, passo a passo, a inscrição do sujeito em sua dialética.
Satisfação da necessidade e objeto da pulsão
Página 26 de 39
No início da vida, diante de uma situação biológica de tensão e desprazer (por exemplo,
a fome), aparece no mundo externo 0 objeto que a satisfaz. A criança, antes de que este
objeto existisse; está em uma situação de necessidade que exige ser satisfeita, e esta se
produz em um registro basicamente orgânico.
O mundo externo propõe-lhe um objeto que ele antes não buscava. Este objeto, junto
com a sensação de satisfação, transformar-se-á em uma marca mnêmica, constituída pela
experiência da necessidade, ligada à representação do objeto que satisfaz. A marca
mnêmica, com seus dois componentes, passará a fazer parte do cenário do repertório
pulsional do bebê.
Quando o estado de tensão reaparece, reativa-se esta representação. Reinveste-se a
imagem do objeto que satisfaz. Em um primeiro momento, a criança confundirá o objeto real
com o objeto representado. Assim se produz a satisfação alucinatória da pulsão. A partir de
sucessivas experiências, a imagem representada será distinguível da real, orientando as
buscas de objetos para um objeto real que permita satisfazer a necessidade. Tudo 0 que
dissemos sobre a experiência de satisfação foi proposto por Freud, e Lacan o acompanha
ponto por ponto.
A relação do desejo com o processo pulsional é peculiar. O desejo é a busca de
satisfação da pulsão, através do reinvestimento do objeto primário, o que equivale a dizer
que o desejo só encontra satisfação de forma alucinatória.
Portanto, não se pode falar de satisfação do desejo, na realidade. A pulsão pode, em
oposição, encontrar ou não sua satisfação. Isto é possível graças, precisamente, ao desejo,
que mobiliza a pulsão para o objeto pulsional. Mas o desejo, como tal, não tem objeto na
realidade.
O outro (a) como espelho e lugar do desejo
A formulação da demanda
Lacan chama o objeto do desejo de objeto a. Como tal é, ao mesmo tempo, um objeto
perdido e a causa e objeto do desejo.
O desejo, assim concebido, pressupõe a presença de um outro. No iní- cio da vida, as
manifestações de tensão produzidas pela necessidade não têm, para a criança, valor
comunicativo. E o outro que as considera signos e, portanto, demandas. Isto demonstra que
Página 27 de 39
o bebê está submergido, desde o começo, em um universo semântico, que significa suas
próprias vivências. É o outro que introduz o bebê neste referencial simbólico, processo
através do qual se transforma no Outro (ocupando o que, para a criança, é um lugar
privilegiado).
A mãe responde à necessidade manifestada pela criança com gestos e palavras, que
dão à satisfação obtida um gozo que transforma a necessidade em desejo. A partir deste
momento, a criança poderá desejar, mas sempre através de uma demanda dirigida ao
Outro.
A demanda, enquanto expressão do desejo, é essencialmente uma demanda de amor
dirigida ao outro; é demanda de ser o único objeto de desejo do Outro.
Pelo modo como Lacan considera o narcisismo, surge a idéia de que o desejo é uma
busca da satisfação primária. Na obra lacaniana, estas proposições têm valor de axiomas
que se enquadram na conceptualização global do sujeito, em sua relação consigo mesmo e
com o outro. Mas, além da busca primária, nas sucessivas buscas há, por parte da criança,
uma intenção de significar o que deseja. Este ingresso na significação, mediado pela
linguagem, é necessariamente incompleto, o que torna impossível reencontrar o júbilo
primário.
O desejo, enquanto desejo do desejo do outro, transforma-se no desejo de um objeto
impossível de significar; o desejo renasce constantemente, sobre a falta deixada pela Coisa.
Todos os objetos com que se procure preencher esta falta serão, apenas, objetos
substitutivos. O objeto do desejo é o objeto "eternamente faltante". Assim, o objeto a,
enquanto objeto faltante é, em si mesmo, o objeto produtor da falta. A criança pressente,
embora não chegue a descobrir, que o outro padece, em seu desejo, da mesma falta que
ela sofre e, por isso, aspira a se converter no objeto faltante (o falo).
De certa maneira, ser o único objeto do desejo do outro transforma-se, na criança, em
uma negociação da essência fundamental do desejo, que é a falta. Recusa tanto esta
dimensão de falta como a falta no outro, ao se apresentar, a si própria, como objeto desta
falta. Inversamente, reconhecer a falta no outro, como algo impossível de preencher, é o
que faculta ao sujeito notar a irreversibilidade de sua própria falta. Este é o primeiro passo
para o desenvolvimento edípico. Na dialética do Édipo, a criança deve abandonar a posição
de objeto do desejo, ocupando, portanto, uma posição na qual passa a ser sujeito do desejo
de objetos substitutivos.
7. A técnica psicanalítica. A transferência
O Sujeito Suposto Saber
Palavra plena e ato simbólico
Antes de entrar no assunto, impõem-se alguns comentários gerais sobre a relação entre
Página 28 de 39
a teoria psicanalítica e a técnica. Quanto mais precisa for a teoria da técnica, a prática
clínica, ao se ajustar a ela, deverá percorrer um caminho mais científico e seguro. Não pode
ser subestimada, portanto, a intenção de estabelecer as categorias da técnica, seus
parâmetros e operações, que são deduzidos a partir de concepções mais gerais, como a do
inconsciente, a transferência ou a estrutura do conflito. Os princípios da associação livre, a
análise dos sonhos, a neutralidade do analista, a análise da transferência, universalmente
aceitos, servem para encaminhar a tarefa clínica do analista, tornando-a mais eficaz. Mas,
assim acontece com as constituições dos países. Existe a letra, e também sua aplicação.
Não é irrelevante que a letra seja adequada, a melhor possível. Porém, depois virá sua
aplicação e, então, o problema será dirimidona saúde mental do analista, em sua
capacidade, integridade e análise pessoal. Qualquer constituição pode ser subvertida em
sua aplicação e qualquer teoria da técnica pode ser invocada para os piores excessos e
erros.
Interessa-nos discutir e apresentar as idéias de Lacan, no plano da teoria da técnica.
Estabelecemos, oportunamente, a diferença entre teoria psicanalítica e movimento
psicanalítico. O movimento inclui muitos problemas de diferentes níveis: conflitos das
pessoas, características das instituições como fenômenos sociais e, evidentemente,
questões ideológicas gerais que se misturam com as do movimento. Também na teoria
incidem alguns destes fatores.
Lacan mudou vários dos critérios técnicos clássicos da psicanálise freudiana. Isto, entre
outras coisas, foi um dos motivos manifestos de sua expulsão da Associação Psicanalítica
Internacional. Ele pensa que no discurso do paciente pode haver palavra vazia e palavra
plena. Há algo que se omite no discurso, quando o paciente recorre ao "molinete de
palavras", esperando a gratificação narcisista de seus conflitos ou envolver neles o analista.
O imaginário é mantido, ficando obstaculizado o acesso à verdade. Para tirar o paciente das
fascinações especulares, Lacan apela mais à interrupção da sessão do que à interpretação.
Crê que um corte adequado conseguirá, através do ato, um efeito simbólico, instaurando o
Outro e a palavra plena. Procura-se desalienar o sujeito de suas imagos, restaurando a
verdadeira história, os determinantes de seu ser, os enganos do sintoma. O ato acentua,
rompe, causa uma saída do imaginário; leva à palavra plena.
Podemos acompanhar o pensamento clínico e técnico de Lacan através de vários de
seus artigos: "Intervention sur le transfert" (1951), Le seminaire de Jacques Lacan. Les écrits
techniques de Freud (1975), e grandes trabalhos como "Function et champ de la parole et
du langage en psychoanalyse" (1953) e "L'instance de la lettre dans I'inconscient ou la
raison depuis Freud" (1957).
As considerações técnicas de Lacan são solidárias com a hierarquia que a linguagem
técnica lhe dá (tesouro do significante) em sua interação com o registro imaginário
(identificação narcisista).
Se a linguagem aliena o sujeito e o converte em significante dentro de uma estrutura, é a
Página 29 de 39
linguagem que deve desaliená-lo. Lacan questiona as correntes pós-freudianas que seguem
a linha das relações de objeto, hierarquizando a importância do vínculo emocional com o
analista. Para ele, o esquecimento da função da palavra, entre outros fatores, levou ao
estancamento da disciplina.
Quanto à teoria da transferência, afasta-se do critério clássico em vários pontos. Em
alguns trabalhos, Lacan considera que, se o analista interpretar adequadamente mantendo
o processo analítico dentro de comparações dialéticas adequadas, não só a análise não se
interrompe, como não se instala a transferência. Em seu trabalho de 1951, diz que a
transferência do paciente é a resposta a um preconceito do analista. Se o analista surgir, de
imediato, como aquele que sabe, fica instalada a transferência. Em princípio, é a estrutura
intersubjetiva que dá lugar ao seu aparecimento.
Para Lacan, como estruturalista, o que explica a transferência é a disposição e a
organização do campo. E um ponto de vista alternativo àquele que sustenta que a
transferência, desdobrada como expressão do conflito do paciente, é que organiza o campo.
Lacan acredita que Dora vê Freud como seu pai (com todas as conseqüências que isto
traz), porque Freud tinha um preconceito acerca de sua escolha de objeto: como Dora era
mulher, seu objeto de amor devia ser o Sr. K. Do ponto de vista sustentado por outros
analistas, para a compreensão da transferência, pensa-se que Dora repetiria,
inexoravelmente, o vínculo com seu pai e poderia ver Freud como se fosse aquele,
independentemente do que este interpretasse ou qual fosse a contra-transferência do
analista.
Um último conceito, que queremos introduzir nesta síntese da técnica lacaniana, é a
idéia do Sujeito Suposto Saber. Pareceria, como o nome diz, que o analista sabe tudo o que
o paciente ignora.
Revelará seu saber na interpretação; o paciente procurara este conhecimento e, ao
reconhecer este papel no analista, também procurará seu amor. O analista pode,
equivocadamente, assumir este papel e "enche" o paciente com seus conhecimentos, em
lugar de deixá-lo revelar sua verdade pela palavra.
Se se colocar no lugar imaginário ou especular, oferecer-se-á ao paciente como aquele
que conhece a verdade, mas como garantia de que se utiliza de um método, a palavra, com
a qual a verdade será posta em evidência. O analista, como o pai do complexo de Édipo,
pode crer e fazer seu paciente crer que é o falo, desconhecendo que haja uma Lei, um
Outro, ao qual ambos, paciente e analista, devem se remeter.
Voltemos ao trabalho de Lacan, "Intervention sur le transfert", em que assenta as bases
para algumas das reformulações que acabamos de comentar.
Página 30 de 39
A experiência analítica se diferencia de outras doutrinas psicológicas porque se
desenrola, inteiramente, de sujeito a sujeito. Na psicanálise, há um diálogo intersubjetivo,
por existir uma escuta.
O caso Dora pode ser reexaminado, à luz destas idéias, como uma sucessão de
inversões dialéticas. "Trata-se de uma escansão das estruturas na qual a verdade se
transmuta para o sujeito e que não toca apenas sua compreensão das coisas mas sua
própria posição, enquanto sujeito, do qual os 'objetos' são função. Isto é, o conceito da
exposição é idêntico ao progresso do sujeito, ou seja, à realidade da cura" (1951, p. 207).
Na epicrise do caso Dora, Freud define a transferência como o obstáculo contra o qual
se chocou a análise. Lacan estuda este tratamento, destacando as etapas através das quais
é decidido seu destino. Cada momento da análise corresponde a um desenvolvimento de
Dora, ao qual Freud contesta com uma inversão dialética. O processo se detém quando
cessam estas inversões. Acompanhemos Lacan em sua exposição.
O primeiro desenvolvimento da verdade consiste em uma afirmativa (dados biográficos
amores de seu pai com a Sra. K etc.), nos quais se expõe como objeto, dizendo a Freud:
"Estes fatos estão aí, procedem da realidade e não de mim. O que você quer mudar neles?"
Freud responde com a primeira inversão dialética: chama Dora, para observar que parte
toca a ela nas desordens daqueles de quem se queixa. Isto dá lugar a uma segunda
formulação da verdade. Dora admite sua cumplicidade com os amantes. Revela uma
relação edípica, na qual aparece manifestamente ciumenta da relação entre o pai e a Sra. K.
Freud responde com uma segunda inversão dialética. Não é o pretenso objeto do ciúme
que dá seu motivo, mas mascara com ele um interesse pela pessoa do sujeito-rival,
expressado de forma invertida. Isto é, Freud sugere que Dora não sente ciúme de seu pai
por sua relação com a Sra. K, mas da relação desta com seu próprio esposo.
Isto leva Dora a uma terceira formulação da verdade. A atração de Dora pela senhora
K., que deveria ter suscitado em Freud uma terceira inversão dialética: como é que, se você
tem em tão alta estima esta pessoa, não sente como uma traição o jogo de intriga que a
senhora K. fez contra você?
Esta terceira inversão poria a descoberto a escolha de objeto homossexual de Dora e o
valor de "mistério" que a sra. K. tem para ela, que representa por sua vez o mistério de sua
própria feminilidade corporal.
Qual teria sido, então, o quarto desenvolvimento?
Página 31 de 39
Provavelmente, a recordação infantil de Dora, chupando o polegar e puxando a orelha
de seu irmão. Esta recordação mostraria a identificação imaginária em que Dora tinha ficado
presa: seu irmão.
Assim, Dora se identificara com o Sr. K e com Freud e sua relação com ambos
"manifestaessa agressividade, na qual vemos a dimensão própria da alienação narcisista"
(Ibid., p. 211). Desvendar.este fenômeno teria evita- do a interrupção do tratamento.
Freud, por seu turno, diz que: 1) o erro foi não interpretar a transferência; 2) poderia
haver uma identificação homossexual.
Das duas afirmativas, Lacan sintetiza que é a dificuldade de Freud para interpretar a
homossexualidade de Dora (por preconceitos admitidos pelo próprio Freud), o que precipitou
a transferência negativa. É devido à contratransferência que Freud não consegue ver o
conflito em sua paciente.
Lacan assim define a transferência: "Ela não pode ser considerada como uma entidade
totalmente relativa à contra-transferência, definida como a soma dos preconceitos, das
paixões, das perplexidades, até da insuficiente informação do analista, naquele momento do
processo dialético? O próprio Freud não nos diz que Dora teria podido transferir para ele o
personagem paterno, se ele tivesse sido bastante tolo para acreditar na versão das duas
coisas que o pai lhe representava?
Dito de outra maneira, a transferência não é nada real no sujeito, mas o aparecimento,
em um momento de estancamento da dialética analítica, dos modos permanentes segundo
os quais constitui seus objetos" (1951, p. 214).
A interpretação da transferência consiste, sob este ponto de vista, em uma operação
que procura encher, com um embuste, o vazio deste ponto morto. "Mas este embuste é útil,
pois, mesmo falaz, volta a lançar o processo" (lbld.).
"Assim, a transferência não leva a nenhuma propriedade misteriosa da afetividade, e
mesmo quando é delatada, sob um aspecto de emoção, esta não adquire seu sentido senão
em função do momento dialético no qual é produzido.
Mas este momento é pouco significativo, pois, comumente, traduz um erro do analista,
embora somente seja o de querer demais o bem do paciente, cujo perigo, muitas vezes, o
próprio Freud denunciará" (Ibid., p. 215).
Esta síntese do trabalho de Lacan, de 1951, permite-nos vislumbrar a conceptualização
que ele faz da transferência, oposta, certamente, àquela que, tradicionalmente, tem sido
aceita. A partir de Freud, pensa-se a transferência como um fenômeno, cuja origem está no
paciente, dirigido para o analista. É o doente que transfere e deposita na pessoa do médico
imagos arcaicas. Lacan vira a luva. Quando a transferência se apresenta, opina, é porque o
analista pôs em jogo, na análise, seus próprios preconceitos, seus pontos cegos e seus
conflitos inconscientes. A transferência não revela apenas o conflito do paciente, ativa-se
pelo conflito inconsciente do terapeuta.
Esta perspectiva é, mais tarde, completada. Em seu seminário Les quatre concepts
fondamentaux de la psychanalyse (1964), Lacan rediscute o tema da transferência e
Página 32 de 39
expressa seu ponto de vista, relacionado às diferentes teorias que procuraram explicar o
fenômeno.
Sobre aqueles que propõem que esta seja produto da situação analítica, opina: "Mesmo
que devamos considerar a transferência como um produto da situação analítica, poderemos
dizer que esta situação não poderia criar, em sua totalidade, o fenômeno, pois; para produzi-
lo, seria preciso que houvesse, fora dela, possibilidades já presentes, que proporcionariam
sua composição, talvez única".
"Isso não exclui, de modo algum, quando não há analista no horizonte, que possa haver
então, propriamente, efeitos de transferência" (Ibid., p. 133).
O autor lembra que, em seu informe de Roma, propôs que o inconsciente é a soma dos
efeitos da linguagem. A transferência, de acordo com as proposições de Freud, expressa-se
em um interrupção do discurso, em um fechamento do inconsciente. Mas, por isso mesmo,
a presença do analista deve ser vista como uma expressão de sua existência. Acrescenta:
"Podemos chegar a crer que a opacidade do traumatismo - tal como é mantida em sua
função inaugural pelo pensamento de Freud, isto é, para nós, a resistência da significação -
então é considerada, principalmente, como responsável pelo limite da rememoração. Depois
de tudo, poderíamos nos encontrar, comodamente, em nossa própria teorização,
reconhecendo que então se dá um momento muito significativo da transição de poderes do
sujeito ao Outro, ao que chamamos de grande Outro, o lugar da palavra, virtualmente o
lugar da verdade" (Ibid., p. 137).
No entanto, como a transferência aparece como interrupção, fechamento do
inconsciente, Lacan conclui que: "Em vez de ser a transmissão de poderes para o
inconsciente, a transferência é, ao contrário, seu fechamento" (ibid., p.137).
Critica duramente a psicologia do ego e sua proposta de se aliar à parte sadia desta
instância psíquica. Propõe que, quando se apela ao ego, ignora-se que é exatamente esta
parte que está interessada na transferência e que, portanto, é quem "fecha a porta",
deixando "a bela"; (o inconsciente) atrás dela.
Recordemos, por último, a proposta freudiana relativa a que a transferência é uma das
expressões da compulsão à repetição e, definitivamente, da pulsão de morte. Fiel à sua
teoria da estrutura inconsciente, Lacan postula que a repetição é um efeito significante, não
se reduzindo a um fenômeno emocional.
O jogo do carretel (Freud, 1920) simboliza a repetição "... mas não, em absoluto, a de
uma necessidade que apelaria para o retorno da mãe e que se manifestaria simplesmente
no grito. É a repetição da partida da mãe como causa de uma Spaltung no sujeito, superada
pelo jogo alternativo, fort-da, que é um aqui ou ali, não indicando, em sua alternância, nada
mais do que ser fort de um da e um da de um fort" (Ibid., p.72).
Este modelo será essencial para a compreensão da função do analista na interpretação
da transferência.
Até aqui, acompanhamos Lacan em suas formulações acerca da origem da
transferência, enquanto expressão da ordem significante. Devemos, agora, considerar o
papel que tem, na relação intersubjetiva, estabelecida entre paciente e analista, a relação
que também se move no registro imaginário.
Página 33 de 39
No capítulo XVIII do seminário Les quatre concepts fondamentaux de la psychoanalyse,
Lacan estuda a fenomenologia da transferência, propondo que ela se baseia na existência
do Sujeito Suposto Saber.
Quando um indivíduo se dirige a outro, colocado no lugar do Sujeito Suposto Saber, a
transferência está bem fundamentada.
"... a psicanálise nos mostra, sobretudo na fase de partida, que o que mais limita a
confiança do paciente, sua entrega à regra analítica, é a ameaça de que o psicanalista seja
enganado por ele" (Ibid., p. 238).
O paciente retém certos elementos, para que o analista não vá depressa demais. "Em
torno deste enganar-se, que alberga a balança, o equilíbrio, deste ponto sutil, infinitesimal,
que quero acentuar" (Ibid. ).
"O sujeito sabe que não querer desejar possui, em si, algo tão irrefutável como uma fita
de Moebius que não tem avesso, isto é, que, ao percorrê-la, chegar-se-á, matematicamente,
ao lado que se julgava o oposto" (Ibid., p.239).
"É neste ponto de encontro que o analista é esperado. Como o analista supõe-se que
saiba, também se supõe que venha ao encontro do desejo inconsciente" (Ibid.). Neste ponto
se articula a transferência.
O aspecto comum com o paciente é, precisamente, o desejo do analista. Recordemos,
além disso, que o desejo do homem é o desejo do Outro. "Se somente no nível do desejo do
Outro o homem pode reconhecer seu desejo, enquanto desejo do Outro, não ocorreria nele
algo, que deve lhe parecer obstaculizar seu desvanecimento, que é um ponto no qual seu
desejo nunca pode ser reconhecido?" (Ibid., p. 240).
Reiteremos que o sujeito está alienado na ordem significante. Porém, a alienação está
essencialmente vinculada ao par de significantes. Não é a mesma coisa, haver dois ou
haver três. Quando há dois, um dos termos fica eclipsado, e isto, essencialmente, constitui aalienação. Quando há três, pode se estabelecer uma relação circular entre eles.
Devemos, agora, nos perguntar qual é, para Lacan, o objetivo último da análise. O que é
proposto com sua técnica, já que renuncia à utilização da interpretação transferencial para
seus fins. Procuremos esclarecê-lo. No seminário Os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise analisa, minuciosamente, este assunto. Sua perspectiva, eminentemente
estruturalista e lingüística, portanto articula seus fins terapêuticos em consonância com o
enfoque, a partir do qual é definido o sujeito e o inconsciente.
No seminário mencionado, Lacan diz que, assim como Descartes introduziu o sujeito no
mundo, Freud disse ao sujeito que onde estava o sonho, era onde era ele mesmo.
A frase Wo es war, soll Ich werden não significa, como geralmente se traduz, que o ego
deve desalojar o id. Quer dizer que onde isso (rede de significante) estiver, está o sujeito.
"Isso" é a rede de significantes, o inconsciente, o sonho. Diz Lacan: "Mas o sujeito está ali
para se encontrar de novo, ali onde era (Ia où c'était) - antecipo - o real" (Ibid., p. 56).
Como se faz para que o sujeito advenha onde estava a rede? "E para saber que se está
ali, não há mais do que um único método: indicar a rede, e como é indicada uma rede?
Volta-se, regressa-se, cruza-se seu caminho, isso coincide sempre da mesma maneira, e,
Página 34 de 39
no Capítulo sétimo de A interpretação dos sonhos não há outra confirmação de seu
Gewiszheit do que essa..." (Ibid., p. 56).
Dos escritos de Freud, em particular da carta 52 a Fliess, pode-se deduzir que, de forma
latente, Freud já tinha notado que a rede não pode ser constituída ao acaso. "Os
significantes não puderam se constituir simultaneamente, mas devido a uma estrutura muito
definida da diacronia constituinte. A diacronia é orientada pela estrutura" (Ibid. ).
Porém, isto não é tudo. A verdade, inscrita na ordem significante, requer, para seu
desvelamento, o ingresso do indivíduo no registro simbólico, o que, como vimos, exige um
certo tipo de vínculo intersubjetivo.
O acesso à "palavra plena" permite a estruturação do sujeito em sua verdade como tal.
No seminário sobre Les écrits techniques de Freud, Lacan diz: "A palavra plena é aquela
que indica, que forma a verdade, tal qual ela se estabelece no reconhecimento de um pelo
outro. A palavra plena é a palavra que faz ato. Depois de sua emergência, um dos sujeitos
já não é o que era antes. Por isso esta dimensão não pode ser eludida na experiência
analítica" (1975, p. 168).
A experiência analítica convoca, portanto, a palavra plena. Esta aparece na hiância, nas
dificuldades do discurso.
Para afastar a tarefa analítica do doutrinamento intelectual, deve-se recorrer, mais uma
vez, à noção de transferência. Esta é que abre a hiância que permite o acesso à palavra
plena. "A transferência eficaz de que falamos é, simplesmente, em sua essência, o ato da
palavra. Cada vez que um homem fala a outro, de modo autêntico e pleno, há, no próprio
sentido do termo, transferência, transferência simbólica: algo acontece, que modifica a
natureza dos dois seres que estão presentes". "Todavia, esta é uma transferência diferente
da que se apresentou primeiramente na análise, não apenas como problema, mas como
obstáculo" (Ibid.). Lacan está se referindo à transferência, situada no plano imaginário. Diz
que, apesar de tudo o que se tem discutido sobre a transferência, ainda não está clara, nem
sua natureza e, portanto, nem a natureza e os recursos da cura analítica. Questiona, a
seguir, as proposições referentes ao papel do superego no processo analítico, destacados
por Strachey (1934), em seu clássico artigo "The nature of the therapeutic action of
psychoanalysis". Lacan propõe, para resolver as contradições que surgem desse trabalho,
considerar a questão das relações entre analisado e analista, no plano do ego e do não-ego,
isto é, no plano da economia narcisista do sujeito (1975, p. 173). Em sua opinião, a
transferência é plurivalente, intervindo nos três registros: imaginário, simbólico e real.
Bibliografia básica
Como introdução à lingüística:
Saussure, F. (1915) Curso de lingüística general. Buenos Aires: Losada. 1945.
Especialmente:
Introducción, caps. I-V. Primeira parte, caps. I-II-III. Segunda parte, caps. IV-V-VI.
Ducrot, O. e Todorov, T. (1972) Diccionario enciclopédico de las ciencias del lenguaje.
Buenos Aires: Siglo XXI. 1974. Especialmente: pp. 17-59, 121-172, 392-396.
Livros introdutórios ao estudo de Lacan:
Dor, J. (1985) Introduction à la lecture de Lacan. Paris: Denël. Em português, há a edição da
Artes Médicas, 1990.
Página 35 de 39
Miller, J. S. (1980) Cinco conferencias caraquenas. Caracas: Ed. Ateneo de Caraca.
Rifflet-Lemaire, A. (1970) Lacan. Barcelona: La Gaya, Ciencia.
Principais trabalhos de Lacan que podem ser consultados em espanhol:
(1948) "La agresividad en psicoanálisis". Escritos, pp. 98-116. México: Siglo
XXI,lOa ed., 1984.
(1949) "EI estadio del espejo..."Escritos, pp. 86-93. México: Siglo XXI, l0a ed.
1984.
(1951) "Intervención sobre la transferencia". Escritos, pp. 204-215. México:
SigIoXXI, 10°ed., 198:f.
(1953) "Función y campo de la palabra y del lenguaje en psicoanálisis".
Escritos,pp. 227-310. México: Siglo XXI. l0a ed., 1984.
(1957) "La instancia de la letra en el inconciente o la razón desde Freud". Escritos,
473-509. México: Siglo XXI, l0a ed., 1984.
(1958) "La significación del falo". Escritos, pp. 665-675. México: SigIoXXI, l0a ed.,
1981.
(1960) "Subversión del sujeto y dialéctica del deseo en el inconciente
freudiano".Escritos, pp. 773- 807. México: SigIoXXI. 10°ed., 1984.
(1957-58) Las formaciones del inconciente. Buenos Aires: Nueva Visión.
(1970-73) Los cuatro principios fundamentales del psicoanálisis. Espana: Barral
Ed., 1977.
(1975) Los escritos técnicos de Freud. Buenos Aires: Paidós, 1981.
NOTA
1) As citações dos Ecrits (1966) correspondem à l0a ediçào em espanhol, 1984. Traduçào
de Tomás Segovia e Armando Suárez. México: Siglo XXI.
FONTE
BLEICHMAR & BLEICHMAR. A Psicanálise depois de Freud. Ed. Artmed
III-A CLÍNICA LACANIANA
AS DUAS CLÍNICAS DE LACAN
Sinopse da aula inaugural de Jorge Forbes
6 de março de 2006
1) Sobre a Psicanálise
No Brasil há uma classificação das melhores faculdades, dos melhores colégios, etc...
Na psicanálise não é bem assim. Por que não? Porque nenhum conceito da psicanálise é
testável. Nem o inconsciente, nem o consciente, nem o grande outro, nem o sujeito do
significante, nem a transferência, nem a contratransferência. Insisto: nenhum conceito da
psicanálise é estável e portanto nenhum conceito da psicanálise é universalizável, e
portanto, nenhum conceito da psicanálise pode ser apresentado no que se chama de
Página 36 de 39
“discurso universitário”; e portanto, nós não temos maneiras de comparação que nos desse
a escola e a escala ou a escola da escala.
Não é possível na Psicanálise determinarmos a excelência pela comparação de escalas
comparativas universais. Isto posto, o melhor instituto de psicanálise chama-se divã – o
mais brilhante instituto de psicanálise. Ele não foi substituído, nem ultrapassado, não existe
transmissão da psicanálise se não for no trabalho efetivo de uma análise pessoal. Nenhuma
outra coisa se compara com o “se por em questão” pra valer, com freqüência, com
conseqüência – e aí sim, nós podemos dizer que se transmite a psicanálise. O resto é pra
gente mais conhecer do que uma psicanálise se valeu. Essa afirmativa vale a pena repetir,
quando a frase é de Jacques Lacan: Estamos aqui até mais para saber do que uma
psicanálise no divã se valeu.
A essência da Psicanálise sempre escapa à palavra.
Uma psicoterapia fixa a pessoa numa identidade. Ela age na ética médica: na medicina há
prescrição, curativos.
A psicanálise quebra todos os curativos, todas as identidades;quebra todas as expectativas
de que o Outro nos compreenda.
A Psicanálise tem a ver com o que há de mais atual, que é o que nos interroga mais e nos
mantém acordados.
2) As clínicas lacanianas
A primeira clínica de Lacan – um retorno à Freud: nessa clínica o analisando aprendia a se
conhecer e fazia análise para conhecer-se melhor e agir com mais segurança.
Essa clínica funcionou bem até os anos 70.
Lacan começou a perceber que essa clínica funcionava cada vez menos do que devia e
inicia uma mudança.
Formaliza então uma nova clínica: a segunda clínica – além de Freud.
As relações sociais começaram a mudar na década de 70 – deixam de ser verticais e
começam a se horizontalizar. A estrutura edípica, construto do final do século XIX, começa a
não responder com a mesma força e exige uma psicanálise além do édipo, além do pai,
além da identidade vertical.
A segunda clínica pode ser caracterizada como uma clínica borromeana (três anéis que se
entrelaçam e que se um deles se solta provoca a dissolução do nó - símbolo da Família
Borromeu). É a clínica do Parlètre (que se antepõe ao sujeito) e do Gozo (que se antepõe
ao desejo), em que o sintoma não é nem social nem decifrável, mas autista.
Na primeira clínica: mais saber, mais ação justificada no Outro.
Na segunda clínica: menos saber, mais ação apostada ou arriscada.
Página 37 de 39
A gente nasce na expectativa do Outro (por que me chamo João, Maria?) e faz análise para
sair da expectativa do Outro, mas muitas vezes entra na expectativa de um Outro mais
complacente (o analista complacente). A gente faz análise para ter honra, diz Lacan
(seminário XVII – Conversa com os estudantes de Filosofia).
3) Freud – o início da Psicanálise e Lacan
A psicanálise é prosaica, é da carne, é do corpo. A gente se queixa ao analista o que a
gente tem vergonha de se queixar ao médico.
Foi assim que começou: Freud descobre que existe alguma coisa diferente que domina o
corpo humano, algo diferente daquilo que ele pensava, do que a neurologia tinha pensado.
A neurologia tinha uma lógica.
A isso que dominava o corpo Freud chamou de inconsciente. Descobre que existe uma
estrutura simbólica que domina a existência humana e que vale a pena tratar dela.
O tratamento da cura pela palavra – a primeira clínica de Lacan. Freud viu que isso
funcionava com as histéricas. E ele começa a descobrir através dos sonhos (A Interpretação
dos sonhos – capítulo 1) um método de falar tudo o que vinha à cabeça, inspirado pelo
tratamento de sua paciente Ana O, a cura pela palavra.
Descobre ainda que essa estrutura que funcionava nas histerias, fobias, obsessões e
delírios, também ocorria nos estágios oníricos. Daí vêm os termos: conteúdo latente,
inconsciente, pré-consciente, consciente, regressão, repressão – sobre os quais Lacan se
volta, sobretudo dois, a saber: condensação e deslocamento. Jacobson, mais tarde,
relaciona condensação à metáfora e deslocamento à metonímia.
A releitura Freudiana de Lacan retira o fascínio que as pessoas sentem pelo conteúdo do
sonho voltado ao estudo da estrutura do sonho e como essa máquina funciona.
Lacan diz que essa máquina funciona como metáfora. Ela repete um sentido primeiro
representado pela ordem maior que é o pai e que mais tarde, Lacan faz equivaler ao pai,
chamando de metáfora paterna.
A metonímia, oposto da metáfora, insiste no mesmo sentido – a metonímia é o
deslocamento contínuo do sentido. E então Lacan diz que a histérica sempre deseja uma
outra coisa – pelo deslocamento. O obsessivo está sempre no mesmo ponto enquanto a
histérica está sempre na diferença.
Freud começa a observar o cotidiano da vida das pessoas e percebe os atos falhos.
Começa a catalogá-los e percebe que somos trapaceiros da existência. Em 1905 Freud
fecha o primeiro momento de sua obra. Abandona Charcot e propõe uma lingüística antes
de Saussure. Escreve os três ensaios sobre a sexualidade. Somos seres sexuais, afirma. A
nossa humanidade resolve tudo menos a relação da sexualidade. Não existe a relação
perfeita, ela não é traduzida e não consigo fazer a justa comparação, conclui.
Muitos anos depois, Lacan vai sintetizar a descoberta de Freud em uma frase: Não existe
relação sexual – que complementa com o fato de que se não existe relação sexual, da
Página 38 de 39
minha posição de sujeito, eu sou sempre responsável. Quer dizer, da minha posição de me
deparar com a falta do justo valor onde se engrena a sexualidade, se eu não quiser dar
resposta mentirosa (isto é, patológica), então:
O obsessivo mente – porque o que não está dentro do seu domínio não existe, não importa.
Ele diz que é possível dominar todas as coisas, pois ele as domina. O que ele não domina é
porque não lhe interessa. Essa é a lógica do obsessivo. Ele mente.
A histérica mente – porque ela diz que existe relação sexual. Ela mente dizendo que existe
uma relação em algum lugar, só que não é você.
Os quadros clínicos são as mentiras sobre o fato da existência da não relação sexual.
O novo ciclo se inicia com o texto “Mais além do Princípio do Prazer”. E aí Freud abre uma
nova perspectiva, da qual a segunda clínica lacaniana toma os termos (EDEN):
Estrutura
Dinâmica
Extensão
Natureza
4) Aonde chegar?
Onde tem pra se chegar?
A levar cada um a dar uma resposta singular e suportá-la no mundo.
Cada um tem que gerar uma resposta única à falta da existência da relação sexual.
A única identidade que a gente reconhece na psicanálise é a solução que cada um encontra
ao seu gozo – a não existência da relação sexual.
E aí que o final de análise é a identificação ao sintoma. Dá-se o nome de sintoma à solução
singular não-interpretável que uma pessoa encontra para incluir no mundo a sua satisfação.
Esse sintoma não é decifrável, porque ele não é do mundo, ele é a própria marca da
pessoa.
Página 39 de 39