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A CRIANÇA
NO DISCURSO ANALfTICO
O presente volume reúne uma sele-
ção de contnbuições clínicas apre-
sentadas por ocasião das Jornadas
de Estudos do Cereda (Centro de
Pesquisas sobre a Criança no Discurso
Analítico) e que foram publicadas em
vários volumes da revista Analytica.
O Cereda foi criado em 1983, em Pa-
ris, dentro da Fundação do. Campo
Freudiano, por iniciativa de Enc Lau-
rent, Robert e Rosme Lefort. Jac-
ques-Aiain Miller e Judith Mlller. O
Cereda não é UrT}a associação, nem
uma instituição. E um lugar de estu-
dos, aberto a participantes de todos os
horizontes práticos.
A psicanálise de crianças teve um lu-
gar especial no ens inamento de
F reud; esse lugar é particularmente
importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escri-
tos e de seus Seminános: é esta
contribUição da psicanálise de cnan-
ças ao discurso psicanalítico que o
Cereda pretende fazer perststtr. Den-
tro dessa perspectiva, o Cereda sus-
cita ensiname ntos e pesqu isas ,
recenseia atividades que interessam
a este domínio e organiza period1ca·
mente Jornadas de Estudos.
A análise com a criança é um desta-
que ~o discurso analítico. já que o
questionamento sobre a constitu1ção
do sujeito é nela privilegtado. O fato
de que a psicanálise com crianças
s~ja , ~ob t.odo~ ?S aspectos. compa-
ravel a ps1canahse com adultos , é o
que teste~unham as contribu ições
que compoem este livro: unidade da
psicanálise. Essas contribuições clí-
nicas examinam a função do signifi-
cante na " escolha~ da estrutura;
estudam a origem da psicose infantil,
estabelecendo que o tratamento psi-
canalítico se torna possível a partir do
momento em que o estatuto de $Ujeito
é reconhecido na criança. É através
das construções elaboradas nessas
análises que este fato se estabelece:
a criança é um analisando Integral.
Colaboradores:
Aoslne Lefort
Aobert Lefort
Yvonne Lachaize Oemichen
Françoise Koelher
Esthela Solano-Suarez
Ann ick Anglade
Marc Strauss
Jean-Jacques Bouquier
Françoise Josselin
Michàle Faivre-Jussiaux
Li lia Mahjoub-Trobas
Éric Laurent
Guy Clastres
Patrick Valas
Paulo Fernando de Queiroz Siqueira
Marie-Hélene Brousse
Dominique Miller
Alain Grosrichard
François Aegnault
A Criança
no Discurso Analítico
A CRIANÇA
NO DISCURSO ANALfTICO
O presente volume reúne uma sele-
ção de contnbuições clínicas apre-
sentadas por ocasião das Jornadas
de Estudos do Cereda (Centro de
Pesquisas sobre a Criança no Discurso
Analítico) e que foram publicadas em
vários volumes da revista Analytica.
O Cereda foi criado em 1983, em Pa-
ris, dentro da Fundação do. Campo
Freudiano, por iniciativa de Enc Lau-
rent, Robert e Rosme Lefort. Jac-
ques-Aiain Miller e Judith Mlller. O
Cereda não é UrT}a associação, nem
uma instituição. E um lugar de estu-
dos, aberto a participantes de todos os
horizontes práticos.
A psicanálise de crianças teve um lu-
gar especial no ens inamento de
F reud; esse lugar é particularmente
importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escri-
tos e de seus Seminános: é esta
contribUição da psicanálise de cnan-
ças ao discurso psicanalítico que o
Cereda pretende fazer perststtr. Den-
tro dessa perspectiva, o Cereda sus-
cita ensiname ntos e pesqu isas ,
recenseia atividades que interessam
a este domínio e organiza period1ca·
mente Jornadas de Estudos.
A análise com a criança é um desta-
que ~o discurso analítico. já que o
questionamento sobre a constitu1ção
do sujeito é nela privilegtado. O fato
de que a psicanálise com crianças
s~ja , ~ob t.odo~ ?S aspectos. compa-
ravel a ps1canahse com adultos , é o
que teste~unham as contribu ições
que compoem este livro: unidade da
psicanálise. Essas contribuições clí-
nicas examinam a função do signifi-
cante na " escolha~ da estrutura;
estudam a origem da psicose infantil,
estabelecendo que o tratamento psi-
canalítico se torna possível a partir do
momento em que o estatuto de $Ujeito
é reconhecido na criança. É através
das construções elaboradas nessas
análises que este fato se estabelece:
a criança é um analisando Integral.
Colaboradores:
Aoslne Lefort
Aobert Lefort
Yvonne Lachaize Oemichen
Françoise Koelher
Esthela Solano-Suarez
Ann ick Anglade
Marc Strauss
Jean-Jacques Bouquier
Françoise Josselin
Michàle Faivre-Jussiaux
Li lia Mahjoub-Trobas
Éric Laurent
Guy Clastres
Patrick Valas
Paulo Fernando de Queiroz Siqueira
Marie-Hélene Brousse
Dominique Miller
Alain Grosrichard
François Aegnault
A Criança
no Discurso Analítico
Judith Miller
organizadora
. A Criança
no Discurso Analítico
Tradução:
Dulee Duque Estrada
Revisão:
Manoel Barros da Motta
Jorge Zahar Editor
RiodeJ~iro
Tra~ mtori.zada de uma seleção dt: tl:Ato&
publicados em vírios aúmcros da n:visu AMI)fica,
de 1983 • 1988, pocNIIYM'ill Éditeur, de Paris, fraa~
Copyriabt c Navllria Éditc:ar
CopyriB)It c 1991 da cdiçio m~ liazua portuaucsa:
Jorge Zahar Editor uda.
ma Méaico 31 sobreloj•
2003l Rlo de Jaaeõm, RJ
Todos os direõ a reservlldo6.
A reprodução IÚ0-'1.1110ftuda ôe5ll1 publi~, .DO todo
ou em perw.. c:oastic:W violllçio do copyriaiiL (Ui :5.911)
Edi~ eldróaic.: TopTcatos Edições Gráficu Uda.
Jmpmllio: Te.vllml e TriSlio Ltda.
ISBN: 8.S-7 110.1&1-7 (JZE, Rl)
91 •DSIZ
Cl,•&n.si \. CU&lOI)loÇ'ier-U-fo-W
Stndi ut.o MKi OMl do1 (dtt Ol"H clt Lfw-ros .... .
\. PsiQ.I\Ãliu iohnttl , a. Ps tc•nills.. I . Mi llt:r
J udith. lt. Sfl-1t .
coo • 61a.,ZI917
tDU • 1SO. II6• .2·0Sl .Z
Apresentação 7
I. PONTOS NODAIS
Unidade da psicanálise 11
ROSINE LEFORT
Introdução à jornada de estudos do ~A 13
ROBERT LEFORT
A pulsão em cwto-<:ircuito 15
ROSINB LEFORT
Um .. passo a mais .. cn.tre a criança e o adulto:
a estrutura do corpo 17
ROSINE LEFORT
Imagem e objeto separados ou confundidos? 22
ROBERT LEFORT
O St, o sujeito e a psicose 27
RosJNB LEFOR.T
Sumário
O oorpo do Outro: do significante ao objeto a e de volta 34
ROSINE LEFORT .
A criança sem o saber 43
RosiNE LEFOR.T
Sobre o semblante e o objeto a 50
RosiNE LEFOR.T
li. CASOS
Do Outro impossível ao Outro não-barrado 61
YVONNE LACHAJZE ~MICHEN
Tra~ mtori.zada de uma seleção dt: tl:Ato&
publicados em vírios aúmcros da n:visu AMI)fica,
de 1983 • 1988, pocNIIYM'ill Éditeur, de Paris, fraa~
Copyriabt c Navllria Éditc:ar
CopyriB)It c 1991 da cdiçio m~ liazua portuaucsa:
Jorge Zahar Editor uda.
ma Méaico 31 sobreloj•
2003l Rlo de Jaaeõm, RJ
Todos os direõ a reservlldo6.
A reprodução IÚ0-'1.1110ftuda ôe5ll1 publi~, .DO todo
ou em perw.. c:oastic:W violllçio do copyriaiiL (Ui :5.911)
Edi~ eldróaic.: TopTcatos Edições Gráficu Uda.
Jmpmllio: Te.vllml e TriSlio Ltda.
ISBN: 8.S-7 110.1&1-7 (JZE, Rl)
91 •DSIZ
Cl,•&n.si \. CU&lOI)loÇ'ier-U-fo-W
Stndi ut.o MKi OMl do1 (dtt Ol"H clt Lfw-ros .... .
\. PsiQ.I\Ãliu iohnttl , a. Ps tc•nills.. I . Mi llt:r
J udith. lt. Sfl-1t .
coo • 61a.,ZI917
tDU • 1SO. II6• .2·0Sl .Z
Apresentação 7
I. PONTOS NODAIS
Unidade da psicanálise 11
ROSINE LEFORT
Introdução à jornada de estudos do ~A 13
ROBERT LEFORT
A pulsão em cwto-<:ircuito 15
ROSINB LEFORT
Um .. passo a mais .. cn.tre a criança e o adulto:
a estrutura do corpo 17
ROSINE LEFORT
Imagem e objeto separados ou confundidos? 22
ROBERT LEFORT
O St, o sujeito e a psicose 27
RosJNB LEFOR.T
Sumário
O oorpo do Outro: do significante ao objeto a e de volta 34
ROSINE LEFORT .
A criança sem o saber 43
RosiNE LEFOR.T
Sobre o semblante e o objeto a 50
RosiNE LEFOR.T
li. CASOS
Do Outro impossível ao Outro não-barrado 61
YVONNE LACHAJZE ~MICHEN
o Outro quer me perder? 73 Apresentação
FRANÇOISB KOEHI...IiR
O dejeto 78
Es'rHELA SOLANO-SUAREZ
Em busca do sangue perdido 84
ANNicK ANGLA~E
Semblante e transmissio 94
. MARC STRAUSS
o trajeto de Aureliano na estrutura 102
JEAN-JACQUES BoUQUIEll
A cicatriz.: as bolsas e a morte. 110
FRANÇOISE JossELIN .
A criança-muda ll.S
MICHELE FAIVRE-JUSSlAUX
Do semelhanteao semblante. 122
LIUA M.AIDOUB-TROBAS
ID. ESTUOOS
O gozo do débil 131
ERJc LAURENI'
A criança no adulto 136
GUY CLASTRES
O que~ uma aiança? 141
PATRICK VALAS .
A criança e o adulto reencontrados, ou
O bom eocootro com o objeto segundo Winnicott 147
. PAULO FERNANDO DE QUEIROZ SIQUmRA
··uma psicanálise é o tratamento que se espcn de um psicaDalista'' 1S4
.MAIUE-Há.ÊNB BROUSSE · · .
A bela e a fera 163
DoMINIQUE MILLER
À criança e o signiflcante no Emile 169
A1.AIN GROS,RICHARD
O corpo místico 176
FRANÇO'I.s lw:niAULT
OCEREDA
O Cereda (O:nfro de Pesquisas sobre a Criança no Discurso AnaHtico)
foi criado em 1983, dentro da Fundação do Campo Freudiano, por
iniciativa de Éric Lauren4 Robert e Rosine Lefort,Jacques-Alain Milter
e Judith Miller.
O Cereda não é uma associaçao. Não é uma instituição. É um lugar
de estúdos, aberto a participantes de todos os horizontes práticos.
A psicanálise de crianças teve todo um lugar no ensinamento de
Freúd; este lugar é particularmente importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escritos e de seus Seminários: é esta
contribuição da psicanálise de crianças ao discurso psicanalítico que o
Cered.J pretende fazer persistir. É nessa perspectiva que o Cereda
suscita ensinamentos e pesquisas, que recenseia as atividades que inte-
ressam a este domínio e organiza periodicamente Jornadas de Estudo~.
Este volume reúne uma seleção de contribuições clínicas aprc;senta-
das por ocasião dessas Jornadas e que foram publicadas em vários
volumes da revista Analytica. O fato de que a psicanálise com crianças
seja, sob todos os aspectos, comparável à psicanálise com adultos, é o
que testemunham essas contribuições: unidade da psicanálise. A análise
com a criança é inclusive um destaque do discurso analítico, já que o
questionamento sobre a constituição do' sujeito é nela privilegiado .
Essas comunicações clínicas examinam a função do significante na
-escolha" da estrutura; estudam a origem da psicose infantil, estabele-
cendo que o tratamento psicanalítico se toma possível a partir do
momento em que o estatuto de sujeito é reconhecido na criança. É
atrav~s das construções elaboradas nessas análises que este fato se
estabelece: a criança ~ um analisando integral.
1
o Outro quer me perder? 73 Apresentação
FRANÇOISB KOEHI...IiR
O dejeto 78
Es'rHELA SOLANO-SUAREZ
Em busca do sangue perdido 84
ANNicK ANGLA~E
Semblante e transmissio 94
. MARC STRAUSS
o trajeto de Aureliano na estrutura 102
JEAN-JACQUES BoUQUIEll
A cicatriz.: as bolsas e a morte. 110
FRANÇOISE JossELIN .
A criança-muda ll.S
MICHELE FAIVRE-JUSSlAUX
Do semelhante ao semblante. 122
LIUA M.AIDOUB-TROBAS
ID. ESTUOOS
O gozo do débil 131
ERJc LAURENI'
A criança no adulto 136
GUY CLASTRES
O que~ uma aiança? 141
PATRICK VALAS .
A criança e o adulto reencontrados, ou
O bom eocootro com o objeto segundo Winnicott 147
. PAULO FERNANDO DE QUEIROZ SIQUmRA
··uma psicanálise é o tratamento que se espcn de um psicaDalista'' 1S4
.MAIUE-Há.ÊNB BROUSSE · · .
A bela e a fera 163
DoMINIQUE MILLER
À criança e o signiflcante no Emile 169
A1.AIN GROS,RICHARD
O corpo místico 176
FRANÇO'I.s lw:niAULT
OCEREDA
O Cereda (O:nfro de Pesquisas sobre a Criança no Discurso AnaHtico)
foi criado em 1983, dentro da Fundação do Campo Freudiano, por
iniciativa de Éric Lauren4 Robert e Rosine Lefort,Jacques-Alain Milter
e Judith Miller.
O Cereda não é uma associaçao. Não é uma instituição. É um lugar
de estúdos, aberto a participantes de todos os horizontes práticos.
A psicanálise de crianças teve todo um lugar no ensinamento de
Freúd; este lugar é particularmente importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escritos e de seus Seminários: é esta
contribuição da psicanálise de crianças ao discurso psicanalítico que o
Cered.J pretende fazer persistir. É nessa perspectiva que o Cereda
suscita ensinamentos e pesquisas, que recenseia as atividades que inte-
ressam a este domínio e organiza periodicamente Jornadas de Estudo~.
Este volume reúne uma seleção de contribuições clínicas aprc;senta-
das por ocasião dessas Jornadas e que foram publicadas em vários
volumes da revista Analytica. O fato de que a psicanálise com crianças
seja, sob todos os aspectos, comparável à psicanálise com adultos, é o
que testemunham essas contribuições: unidade da psicanálise. A análise
com a criança é inclusive um destaque do discurso analítico, já que o
questionamento sobre a constituição do' sujeito é nela privilegiado .
Essas comunicações clínicas examinam a função do significante na
-escolha" da estrutura; estudam a origem da psicose infantil, estabele-
cendo que o tratamento psicanalítico se toma possível a partir do
momento em que o estatuto de sujeito é reconhecido na criança. É
atrav~s das construções elaboradas nessas análises que este fato se
estabelece: a criança ~ um analisando integral.
1
I. Pontos nodais
. · : ..
I. Pontos nodais
. · : ..
Unidade da psicanálise
Rosine Lefort
Ü Cereda testemunha a unidade da. psicanálise: a análise com a criança
tem uin destaque especial em relação ao que nos_ pode ensinar sobre o
vivo do discurso analítico.
A criança nos ensina, não apenas no nível da nossa escuta em seu
tratamento, mas nos ensina mwto, também, no que se refere aos trata-
mentos dos adultos, lá onde isso é (nesses tratamentos de adultos) e lá
onde isso se interpreta - o que constitui uma contribuição absolutamen-
te privilegiada ao discurso psicanalítico. Para chegar a compreender
esse discurso da criança devemos, penso eu, antes de mais nada nos
distanciar da abordagem familiar, anamnésica, e social, onde o perso-
nalismo a disputa com a psicologia, a menos que a criança, em caso de
psicose, se tome a causa viva, permanente, de um desvio sempre
renovado do discurso de um dos pais - na maioria das vezes, dos dois.
É, pois, com o discurso da criança que lidamos . Um discurso que es~
longe de ser o dos pais - aliás, em muitos casos, o discurso da criança,
sua patologia e seus sintomas assujeitam os pais quanto a seu desejo,
seu gozo e seu saber: nio se deve esquecer este assujeitamento dos pais
pela criança. ·
O ensinamento de Lacan - no qual a referência à criança i. quase
constante - desprezou essas figuras parentais derrisórias que são postas ·
em evidência, como todos sabem: o pai em casa, o pai omisso, o pai
assustador, etc. Não é a isso que se refere nos tratamentos, mas ao
Nome-do-P~ à estrutura, e também à topologia, pedra angular da
transmissão da psicanálise.
A questão, por exemplo, do trauma sofrido por uma criança: como
podemos avaliá-lo escutando o discurso dos pais abalados, feridos ·em
seu narcisismo pelo que aconteceu a ela? A criança, em análise, deverâ
justamente se distanciar desse ferimento dos pais, e até J]lesmo de seu
gozo (ocorre, com freqüência, quando os pais fazem o relatO, esse gozo
paradoxal ligado ao trauma da criança); ela deverá, portanto, se afastar
deste djscurso dos pais, desse gozo, para encontrar seu próprio discurso,
que será variável, aliás, conforme a idade dela no momento do trau.ma.
11
12 a a-iança no discurso anal flioo
Nas comunicações que se seguem vai se tratar ainda do estatuto do
Outro c da transfonnação desse estatuto no interior, no desenrolar do
tratamento analítico da criança. É este es tatuto que iremos questionar,
e veremos que a criança, justamente, está inteiramente apta a nos fazer
acompanhar essa transfonnação do Outro no interior de um tratamento,
sob a condição, é claro, de que o analista entenda a dimensão da
transferência. Mais do que a história da criança, é com esse real que
vamos nos defrontar.
A · emergência do Outro e de sua barra depende do objeto a, c a
transferência demonstra que, ou o Outro é afetado pela falta - e então
a· demanda promove o significante da falta, o falo, sob alguma fonna
pela qual o obj eto tenha sido retirado do Outro - ou então ao Outro nadafalta (o que me fez, por um momento, di?,er que em casos extremos não
haveria Outro na psicose) - o objeto, nesse caso, não passa de um
semblante, retirado, não do corpo do Outro, mas do próprio corpo do
psicótico, ao qual só resta, poderíamos dizer, de humanidade neste
momento, enquanto objeto a, o dizer do analista, cujo invólucro é a voz..
Logo, o analista nesse caso deve radicalizar sua posição: não ser mais
que esta voz de um dizer, cujo dito poderá ser a chance do surgimento
de um sujeito, do sujeito. Esta posição também será radical por parte do
analisando, onde a estrutura substitui o imaginário, como testemunha
muitas vezes o eco topológico que constatamos nas produções gráficas
dessas crianças psicóticas que estão à procura - poderíamos dizer- de
um vazio, de um conjunto vazio que lhes permitiria se contarem e
descontar o Outro.
Esses desenhos me levam precisamente a dizer que a topologia
representa a grande contribuição do ensinamento de Lacan, que permite
superar nossas insuficiências imaginárias para entender, no discurso -
especialmente no do psicótico - ,o real em causa, aquele do corte, aquele
introduzido pelo ato do analista, corte que é a chance de virada do toro
e de reversão do a, de uma estruturação propriamente significante do
corpo.
Radical interrogaçio do sujeito no ser demasiadamente pleno, do
qual se deve excluir toda analogia, qualquer que seja. com a neurose: a
criança o diz; cabe a nós escutá-la sem nos apegarmos a um saber que
poderia produzir fechamento. que produ~ f~.cbamento; cabe a nós nos
tomarmos disponíveis, fazer tábula rasa de um discurso prematuro -o
nosso. ou o dos pais - e não ser mais que uma voz para deixar lugar à
criança como analisando por inteiro.
Introdução à jornada de estudos
do CEREDA
Robert Lefort
Ü objetivo daqueles aqui reunidos é dar à psicanálise de crianças a
amplitude merecida no campo freudiano, e renová-la segundo as pers-
pectivas abertas pelo ensinamento de J. Lacan.
Os que aqui estão têm por bússola, em sua prática, estrutura e
significante - verdadeiro progresso, dizia J . Lacan - para além da
experiência imediata e de toda clivagem entre clfnica e teoria .
Não há especificidade na psicanálise de crianças. A estrutura o
significante e a relação com o Outro não concemem de maneira d{fe-
rente à criança e ao adulto. É isto que faz a unidade da psicanálise.
Nadia e Robert, a ~criança do Lobo", são tes temunhas disso. Nadia
mostra a via de surgimento do sujeito pela longa volta que, em seu
tratamento, ela faz do seu encontro necessário com o espelho, decom-
pondo suas fases. estabelecendo o caráter fundamental do especular
como linha divisória do que toca ao suj eito, linha divisór!a que se
encontra também em toda análise de adulto.
Quanto à psicose de Robert, por infantil que seja, como se diz. nem
por isso deixa de esclarecer certos aspectos da psicose de Schreber, mas
esse esclarecimento é recíproco.
Há um aspecto da nossa prática de psicanálise com crianças que é
acentuado pelo fato de que não é a criança que vem se queixar, mas seus
familiares é que vêm falar dela.
.. 0 que determina a biografia infantil ... escreve Lacan, ~seu motor
está apenas na maneira pela qual se apresentou o desejo no pai, na mãe
e que, em conseqüência, nos incita a explorar não apenas a história, mas
o modo de presença sob o qual cada um destes três termos - saber, gozo
e a - foram efetivamente oferecidos ao sujeito'".
Acrescentemos A e sua topologia, já que o sujeito depende deles.
Sabe-se que o Outro pode não ser barrado, ou seja, não ser marcado pela
falta, e aparecer como um, o um do gozo: é o que demonstra Robert, ao
se oferecer como objeto do gozo do Outro. A criança pode também se
propor como a para preencher o Outto na s ituação perversa. Esse lugar
13
12 a a-iança no discurso anal flioo
Nas comunicações que se seguem vai se tratar ainda do estatuto do
Outro c da transfonnação desse estatuto no interior, no desenrolar do
tratamento analítico da criança. É este es tatuto que iremos questionar,
e veremos que a criança, justamente, está inteiramente apta a nos fazer
acompanhar essa transfonnação do Outro no interior de um tratamento,
sob a condição, é claro, de que o analista entenda a dimensão da
transferência. Mais do que a história da criança, é com esse real que
vamos nos defrontar.
A · emergência do Outro e de sua barra depende do objeto a, c a
transferência demonstra que, ou o Outro é afetado pela falta - e então
a· demanda promove o significante da falta, o falo, sob alguma fonna
pela qual o obj eto tenha sido retirado do Outro - ou então ao Outro nada
falta (o que me fez, por um momento, di?,er que em casos extremos não
haveria Outro na psicose) - o objeto, nesse caso, não passa de um
semblante, retirado, não do corpo do Outro, mas do próprio corpo do
psicótico, ao qual só resta, poderíamos dizer, de humanidade neste
momento, enquanto objeto a, o dizer do analista, cujo invólucro é a voz..
Logo, o analista nesse caso deve radicalizar sua posição: não ser mais
que esta voz de um dizer, cujo dito poderá ser a chance do surgimento
de um sujeito, do sujeito. Esta posição também será radical por parte do
analisando, onde a estrutura substitui o imaginário, como testemunha
muitas vezes o eco topológico que constatamos nas produções gráficas
dessas crianças psicóticas que estão à procura - poderíamos dizer- de
um vazio, de um conjunto vazio que lhes permitiria se contarem e
descontar o Outro.
Esses desenhos me levam precisamente a dizer que a topologia
representa a grande contribuição do ensinamento de Lacan, que permite
superar nossas insuficiências imaginárias para entender, no discurso -
especialmente no do psicótico - ,o real em causa, aquele do corte, aquele
introduzido pelo ato do analista, corte que é a chance de virada do toro
e de reversão do a, de uma estruturação propriamente significante do
corpo.
Radical interrogaçio do sujeito no ser demasiadamente pleno, do
qual se deve excluir toda analogia, qualquer que seja. com a neurose: a
criança o diz; cabe a nós escutá-la sem nos apegarmos a um saber que
poderia produzir fechamento. que produ~ f~.cbamento; cabe a nós nos
tomarmos disponíveis, fazer tábula rasa de um discurso prematuro -o
nosso. ou o dos pais - e não ser mais que uma voz para deixar lugar à
criança como analisando por inteiro.
Introdução à jornada de estudos
do CEREDA
Robert Lefort
Ü objetivo daqueles aqui reunidos é dar à psicanálise de crianças a
amplitude merecida no campo freudiano, e renová-la segundo as pers-
pectivas abertas pelo ensinamento de J. Lacan.
Os que aqui estão têm por bússola, em sua prática, estrutura e
significante - verdadeiro progresso, dizia J . Lacan - para além da
experiência imediata e de toda clivagem entre clfnica e teoria .
Não há especificidade na psicanálise de crianças. A estrutura o
significante e a relação com o Outro não concemem de maneira d{fe-
rente à criança e ao adulto. É isto que faz a unidade da psicanálise.
Nadia e Robert, a ~criança do Lobo", são tes temunhas disso. Nadia
mostra a via de surgimento do sujeito pela longa volta que, em seu
tratamento, ela faz do seu encontro necessário com o espelho, decom-
pondo suas fases. estabelecendo o caráter fundamental do especular
como linha divisória do que toca ao suj eito, linha divisór!a que se
encontra também em toda análise de adulto.
Quanto à psicose de Robert, por infantil que seja, como se diz. nem
por isso deixa de esclarecer certos aspectos da psicose de Schreber, mas
esse esclarecimento é recíproco.
Há um aspecto da nossa prática de psicanálise com crianças que é
acentuado pelo fato de que não é a criança que vem se queixar, mas seus
familiares é que vêm falar dela.
.. 0 que determina a biografia infantil ... escreve Lacan, ~seu motor
está apenas na maneira pela qual se apresentou o desejo no pai, na mãe
e que, em conseqüência, nos incita a explorar não apenas a história, mas
o modode presença sob o qual cada um destes três termos - saber, gozo
e a - foram efetivamente oferecidos ao sujeito'".
Acrescentemos A e sua topologia, já que o sujeito depende deles.
Sabe-se que o Outro pode não ser barrado, ou seja, não ser marcado pela
falta, e aparecer como um, o um do gozo: é o que demonstra Robert, ao
se oferecer como objeto do gozo do Outro. A criança pode também se
propor como a para preencher o Outto na s ituação perversa. Esse lugar
13
14 a ctiança no discurso analíti<:o
da criança como a do Outro deve ser sempre questionado, seja na
pedagogia, na ortopedia ou na análise, mediante a transferência.
Não podemos, por outro lado, deixar de constatar o fracasso da
descrição do desenvolvimento da criança a partir de um ponto de vista
·psicopatológico: é o da criança sem Outro.
É esta, até certo ponto, a descrição de Melanie Klein, cuja referência
ao Outro claudica, na mesma medida em que o sujeito não é repre-
sentado ali por um significante para outro significante, nem que a
alienação do sujeito no significante o apague.
Enfim, a noção fundamental de gozo introduzida por J. Lacan e a dos
objetos a como -mais-gozar" só podem produzir a compreensão do
ponto vital da dependência primeira que a criança tem do Outro.
A pulsão em curto-circuito
Rosine Lefort
G osta.rla de dizer algumas palavras sobre o que surgiu· em nosso
encami~amento sobre a psicose, ou melhor, sobre dois pontos:
- a,divisão do sujeito
- o circuito pulsional
No que se refere à divisão do sujeito (/chspaltung), foi enfatízada,
com freqüência, a clivagem do eu. Melanie Klein fez dela um ponto
central de sua teoria.
Lacan, em contrapartida, não deixou de observar, para além do título
.. lchspaltung .. do último artigo de Freud, que se tratava nesse artigo da
-reCenda do objeto .. , isto é, da passagem do pênis-órgão ao fa lo enquan-
to -<p.
Em caso algum o psicótico indica que possa atingir uma tal refenda
do objeto.
• Esta via, com efeito, pas"sa pela aceitação de uma falta no Outro,
correlativa à promóção do sujeito do inconsciente .
. Essa falta que ele produziria no Outro tem a ver com a pulsão mais
radical, a pulsão de morte. ··
15
14 a ctiança no discurso analíti<:o
da criança como a do Outro deve ser sempre questionado, seja na
pedagogia, na ortopedia ou na análise, mediante a transferência.
Não podemos, por outro lado, deixar de constatar o fracasso da
descrição do desenvolvimento da criança a partir de um ponto de vista
·psicopatológico: é o da criança sem Outro.
É esta, até certo ponto, a descrição de Melanie Klein, cuja referência
ao Outro claudica, na mesma medida em que o sujeito não é repre-
sentado ali por um significante para outro significante, nem que a
alienação do sujeito no significante o apague.
Enfim, a noção fundamental de gozo introduzida por J. Lacan e a dos
objetos a como -mais-gozar" só podem produzir a compreensão do
ponto vital da dependência primeira que a criança tem do Outro.
A pulsão em curto-circuito
Rosine Lefort
G osta.rla de dizer algumas palavras sobre o que surgiu· em nosso
encami~amento sobre a psicose, ou melhor, sobre dois pontos:
- a,divisão do sujeito
- o circuito pulsional
No que se refere à divisão do sujeito (/chspaltung), foi enfatízada,
com freqüência, a clivagem do eu. Melanie Klein fez dela um ponto
central de sua teoria.
Lacan, em contrapartida, não deixou de observar, para além do título
.. lchspaltung .. do último artigo de Freud, que se tratava nesse artigo da
-reCenda do objeto .. , isto é, da passagem do pênis-órgão ao fa lo enquan-
to -<p.
Em caso algum o psicótico indica que possa atingir uma tal refenda
do objeto.
• Esta via, com efeito, pas"sa pela aceitação de uma falta no Outro,
correlativa à promóção do sujeito do inconsciente .
. Essa falta que ele produziria no Outro tem a ver com a pulsão mais
radical, a pulsão de morte. ··
15
t6 a aianc;:a no discurso analítico
No que se refere à pulsão, se a refenda do objeto não se realizar e o
objeto pulsional pennanecer no real, o circuito da pulsão é abortado.
Se a refenda não se fez é porque não houvt redobramento: do
representante à representação do representante, ou seja, à Vorstellung-
reprãsantanz..
Então, diz Lacan, produz-se ~essa ereção do objeto à luz do espanto,
uma for:ma congelada numa inefável estranheza ...
Certamente, a pulsão está ali, sob uma forma truncada, reduzida a
um impulso que é o caráter primordial da pulsão. A fonte também está
ali, já que é orgânica. Mas nem o objeto, nem o objetivo têm lugar.
Nem o objeto, cujo caráter indiferente, no entanto, funda essa suces-
são de um objeto ao outro, para o ps icótico.
Nem o objetivo: é que não houve queda do objeto, isto é, a pulsão
não o circunda .
Então, à falta do que seja o objeto - eternamente faltoso .. :
-enquanto real, ele pode permanecer acoplado à superfície do sujeilo
(daf a importância, no psicótico, do -eu .. todo na superfície);
- ou então, por culpa, ele é devido ao Outro, acoplado, simetricamen-
te, sobre sua superfície.
Trata-se aí de um curto-circuito que bloqueia o circuito pulsional
com duas conseqüências: .
- 11 conseqüência, no plano da alienação: o ~vel" não se inscreve sob
o modo de um -nem ... nem .. , mas s im sob o modo de um -ou ... ou ..
mortífero, que remete o psicótico à perplexidade quanto a sua sexuação,
até mesmo ao -empuxo à mulher'" que é sua conseqüência inevitável em
benefíc io do Outro.
Não há gozo do sujeito ligado à pulsão, mas gozo do Outro que não
é pulsão.
- 21 conseqüência: o curto-circuito corta o circuito pulsional, que não
tem trajeto de volta: ~a verdadeira pulsão ativa-, diz Lacan, pois é este
trajeto de volta que define o bordo da superfície erógena, de onde parte
a invaginação do circuito pulsional, numa busca a que o Outro responde.
Como poderia ele responder se não houvesse queda do objeto?
O quaJ, além do mais, lhe é devido, para que não só ele não tenha
fa lta, mas para que ele não mona, de onde a referência à pulsão de morte
que lhes fiz .
Portanto, a ausência da refenda do sujeito só alcança a identidade
entre o significante e a ·coisa": o significante toma o lugar da -coisa",
se rdenda não há.
Um "passo a mais~~ entre a criança
e o adulto: a estrutura do corpo
Rosine Lefort
A criança no adulto, é sempre o mesmo problema da unidade da
ps icanálise, ou ainda da criança como analisanda integral, porque aos
olhos da psicanálise não há uma criança çu um adulto, há um sujeito.
A elaboração de Freud e de Lacan é inteiramente centrada nesse
·sujeito"., não apenas enquanto - ser falante .. , mas enquanto prematuro
ao nascer, o que faz com que seja através da imagem do Outro que o
homem encontra o recorte unitário de seu corpo. -A realidade .. , diz
Lacan, -é conquistada inicialmente sob a forma virtual da imagem do
corpo ...
É a partir dessa prematuração que Lacan vai se dedicar, não ao
desenvolvimento da criança, noção psicogenética completamente ex -
cluída da psicanálise, mas à estrutura a partir do estágio do espelho, que
vai atravessar toda a sua obra, não apenas sob sua forma primeira,
referente ao narcisismo e ao reconhecimento pelo Outro. mas sob a
fonna do -esquema ótico"' que ultrapassa amplamente a fenomenologia
do espelho e onde, no ~espelho plano do Outro'', isto é, a função do
analista como espelho, não é da função especular que se trata, mesmo
que até certo ponto esteja aí implicada a imagem virtual i' (a).
Se, com efeito, essa captação especular se produz, estamos longe de
uma estrutura acabada e, na pior das hipóteses, um fenômeno de transi-
tivismo pode precipitar o sujeito nessa alienação na imagem do Outro,
até mesmo confundi-lo Com ela, mesmo por intermédio de um signifi-
cante como - a criança do lobo .. nos mostra, no começo de sua análise,
quando gritava -senhora! .. sem se dirigir a ninguém, mas antes como
se anunciasse a si mesmo confundido com o Outro. ~É que a casa do
homem", dizLacan, -está num ponto situado no Outro, para além da
imagem e que, se for revelada, provoca o fenômeno do duplo".
O esquema ótico, ao contrário, está ali para figurar o que pode haver
de furado no espelho-plano do Outro, espelho sem aço que porta o
sujeito num ponto I, distinto do lugar de i' (a) que permite ao sujeito
apreender o que tem a sua identificação de fundamentalmente ilusório,
17
t6 a aianc;:a no discurso analítico
No que se refere à pulsão, se a refenda do objeto não se realizar e o
objeto pulsional pennanecer no real, o circuito da pulsão é abortado.
Se a refenda não se fez é porque não houvt redobramento: do
representante à representação do representante, ou seja, à Vorstellung-
reprãsantanz..
Então, diz Lacan, produz-se ~essa ereção do objeto à luz do espanto,
uma for:ma congelada numa inefável estranheza ...
Certamente, a pulsão está ali, sob uma forma truncada, reduzida a
um impulso que é o caráter primordial da pulsão. A fonte também está
ali, já que é orgânica. Mas nem o objeto, nem o objetivo têm lugar.
Nem o objeto, cujo caráter indiferente, no entanto, funda essa suces-
são de um objeto ao outro, para o ps icótico.
Nem o objetivo: é que não houve queda do objeto, isto é, a pulsão
não o circunda .
Então, à falta do que seja o objeto - eternamente faltoso .. :
-enquanto real, ele pode permanecer acoplado à superfície do sujeilo
(daf a importância, no psicótico, do -eu .. todo na superfície);
- ou então, por culpa, ele é devido ao Outro, acoplado, simetricamen-
te, sobre sua superfície.
Trata-se aí de um curto-circuito que bloqueia o circuito pulsional
com duas conseqüências: .
- 11 conseqüência, no plano da alienação: o ~vel" não se inscreve sob
o modo de um -nem ... nem .. , mas s im sob o modo de um -ou ... ou ..
mortífero, que remete o psicótico à perplexidade quanto a sua sexuação,
até mesmo ao -empuxo à mulher'" que é sua conseqüência inevitável em
benefíc io do Outro.
Não há gozo do sujeito ligado à pulsão, mas gozo do Outro que não
é pulsão.
- 21 conseqüência: o curto-circuito corta o circuito pulsional, que não
tem trajeto de volta: ~a verdadeira pulsão ativa-, diz Lacan, pois é este
trajeto de volta que define o bordo da superfície erógena, de onde parte
a invaginação do circuito pulsional, numa busca a que o Outro responde.
Como poderia ele responder se não houvesse queda do objeto?
O quaJ, além do mais, lhe é devido, para que não só ele não tenha
fa lta, mas para que ele não mona, de onde a referência à pulsão de morte
que lhes fiz .
Portanto, a ausência da refenda do sujeito só alcança a identidade
entre o significante e a ·coisa": o significante toma o lugar da -coisa",
se rdenda não há.
Um "passo a mais~~ entre a criança
e o adulto: a estrutura do corpo
Rosine Lefort
A criança no adulto, é sempre o mesmo problema da unidade da
ps icanálise, ou ainda da criança como analisanda integral, porque aos
olhos da psicanálise não há uma criança çu um adulto, há um sujeito.
A elaboração de Freud e de Lacan é inteiramente centrada nesse
·sujeito"., não apenas enquanto - ser falante .. , mas enquanto prematuro
ao nascer, o que faz com que seja através da imagem do Outro que o
homem encontra o recorte unitário de seu corpo. -A realidade .. , diz
Lacan, -é conquistada inicialmente sob a forma virtual da imagem do
corpo ...
É a partir dessa prematuração que Lacan vai se dedicar, não ao
desenvolvimento da criança, noção psicogenética completamente ex -
cluída da psicanálise, mas à estrutura a partir do estágio do espelho, que
vai atravessar toda a sua obra, não apenas sob sua forma primeira,
referente ao narcisismo e ao reconhecimento pelo Outro. mas sob a
fonna do -esquema ótico"' que ultrapassa amplamente a fenomenologia
do espelho e onde, no ~espelho plano do Outro'', isto é, a função do
analista como espelho, não é da função especular que se trata, mesmo
que até certo ponto esteja aí implicada a imagem virtual i' (a).
Se, com efeito, essa captação especular se produz, estamos longe de
uma estrutura acabada e, na pior das hipóteses, um fenômeno de transi-
tivismo pode precipitar o sujeito nessa alienação na imagem do Outro,
até mesmo confundi-lo Com ela, mesmo por intermédio de um signifi-
cante como - a criança do lobo .. nos mostra, no começo de sua análise,
quando gritava -senhora! .. sem se dirigir a ninguém, mas antes como
se anunciasse a si mesmo confundido com o Outro. ~É que a casa do
homem", diz Lacan, -está num ponto situado no Outro, para além da
imagem e que, se for revelada, provoca o fenômeno do duplo".
O esquema ótico, ao contrário, está ali para figurar o que pode haver
de furado no espelho-plano do Outro, espelho sem aço que porta o
sujeito num ponto I, distinto do lugar de i' (a) que permite ao sujeito
apreender o que tem a sua identificação de fundamentalmente ilusório,
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11 a criança no di8CUrso analilíoo
na medida em que ela é narcí.sica, o que já verificava a criança no CÓlo
do Outro, ao se voltar para esse Outro que o portava. Mais além da
imagem do corpo investida como Eu Ideal, situa-se em I esse Ideal do
Eu, isto é, aquilo a que o sujeito se identifica ao entrar na estrun.ira
significante, para além da observação imaginária.
Mas, dirão vocês, naquilo que lhes digo onde está a criança no
adulto'? Pois bem, ela es .. sempre ali, e desde o início, na obra de Lacan.
Releiam os Complexos Familiares, onde toda a patologia é situada,
principalmente a psicose, a partir do lugar ocupado pela criança em seu
meio; ou ainda, para citar apenas um seminário, o das Formações do
Inconsciente, onde se elabora o Édipo na perspectiva propriamente
lacaniana da topologia do significante. Deve-se ainda lembrar que
Freud descobriu os estágios libidinais das crianças nas análises de
adultos. ·
.Enfun, de um modo mais geral, Lacao, situando o sujeito no discurso,
lembra que a neurose é uma -questão que o ser coloca para o sujeito",
uma questão, diz Freud, que ele coloca a partir .. dali onde ele estava
antes que o sujeito viesse ao mundo ...
Todos aqueles que têm a prática da análise com crianças não podem
deixar de se sensibilizar com a proximidade desses elementos de estru-
tura, com a maneira pela qual elas os demonstram, e isso tanto mais
quanto menor for a criança.
Lembremos o que cada um pode conhecer na prática com adultos,
qwmto a essas cenas que fizeram um ponto de ancoramento, fixação na
fascinação que elas exerceram sobre o sujeito. Mas qual a reconstrução,
para acompanhar Freud a propósito de sua -lembrança encobridora'";
que o analista pode fazer entre o discurso manifesto da lembrança, ou
pelo menos relatado como tal, e a elaboração fantasmática que ali se
esconde'? Ali onde se vê que uma recor~ção de infância não é a da
criança que aquele adulto foi, mas que é necessário encontrar, mais além
do recalque, todos os estratos que recobriram o fascínio inicial.
A criança pequena, ao contrário, pode nos dar uma ilustração e um
acesso mais diretos.
O bebê que era Na dia nos mostra ao vivo, na cena de 10 de dezembro,
o que pode ser um tal fascínio diante do quadro de uma enfermeira com
uma criança no colo, que ela contempla com fortes movimentos de·
sucção. Lembro a vocês que ela só sai disso através do significante do
seu nome, isto é, ela passa do seu olhar à minha voz. M2s, pela
oralidade, ela havia encontrado a manifestação mais ativa, ou seja, seu
desejo, desejo que Lacan demarca de uma maneira que vale para todo
sujeito, crianÇa ou adulto: -o desejo encontra seu suporte fantasmático
naquilo a que se chama de uma defesa do sujeito diante do parceiro
tomado como significante do devoramento realizado ...
pontos nodais 11
Vê-se como, aqui, o fantasma fundamental, o de Nadia nesse caso,
se revela na dialética dos objetos a, o que em caso algum o objeto fálico
imaginário poderia fazer. Vê-se também como a criança pode nos
encaminhar quanto ao que deve ser retirado, no adulto, para se reencon-
trar esseprocesso do fantasma fundamental de que depende a origem
do sintoma.
Lacan há muito tempo, nesse sentido, articulou a pulsio oral e o
complexo de castração, em outras palavras, a passagem do a áo -q>. Essa
é, certamente, a articulação principal da criança no adulto, essa passa-
gem do fantasma que une o sujeito ao a à dialética da castração que une
o sujeito ao -<p.
Com o a, o ponto de angústia está no n.ível do Outro, o corpo da mãe,
daí a situação privilegiada da análise com crianças. Mas isso não exclui,
evidentemente, a questão do -rp, sob a condição de que se veja que não
é mais da mãe que se trata, como no nível da pulsão oral, e sim, numa
posição estritamente invertida, do próprio sujeito, isto é, de seu órgão
como experiência subjetiva da falta. .
Ora, a pulsão oral nessas condições, longe de ser um modo metafó-
rico de abordar o que se passa no nível do objeto fálico, levanta toda a
questão da relação com o Outro, do corte e da promoção ou não do
objeto a necessário à aheridade do Outro. É certo que o que está em
jogo, nesse nível, é considerável, e as pulsões agressivas que aí se
originam padem estar na fonte das -claudicações mais fundamentais-.
A criança es .. no primeiro plano para nos ensinar, mas ela nos sinaliza,
também, que é bem disso que se trata no adulto.
Robert, a -criança do lobo .. , aparece assim como o modelo de um
Schreber cujas reconstruções megalomaníacas podem nos mascarar a
essência de um retomo à impossibilidade de um objeto a oral entre ele
e o Outro. Certamente, essa criança nos dá imediatamente a dimensão
de um debate quanto ao seu pênis na sua relação com o Outro, o que
significa que, longe de ser o significante da falta, o rp é um órgão que
toma o lugar de um a, não para ele mas para o Outro na estrutura, na
origem do gozo de~e Outro. À falta do significante, o Outro aparece
como o sujeito mítico do gozo. Vê-se como aqui a dialética seio-pênis,
cara a Melanie Klein, que confunde os dois em sua equação, prepara o
caminho da psicose, uma psicose nonnal para ela mas que é absoluta-
mente impensável~ impensável, de fato, se questionarmos o surgimento
do a essencial para a barra do Outro, bem como para a constituição do
sujeito no lugar deste I. enquanto s ignificante, e se não tomarmos como
verdadeiro, como na psicose, um órgão - o pênis não simbolizado -
como a, votado portanto à queda e à mutilação. Nesse sentido, o debate
de Robert pode esclarecer o de Schreber.
11 a criança no di8CUrso analilíoo
na medida em que ela é narcí.sica, o que já verificava a criança no CÓlo
do Outro, ao se voltar para esse Outro que o portava. Mais além da
imagem do corpo investida como Eu Ideal, situa-se em I esse Ideal do
Eu, isto é, aquilo a que o sujeito se identifica ao entrar na estrun.ira
significante, para além da observação imaginária.
Mas, dirão vocês, naquilo que lhes digo onde está a criança no
adulto'? Pois bem, ela es .. sempre ali, e desde o início, na obra de Lacan.
Releiam os Complexos Familiares, onde toda a patologia é situada,
principalmente a psicose, a partir do lugar ocupado pela criança em seu
meio; ou ainda, para citar apenas um seminário, o das Formações do
Inconsciente, onde se elabora o Édipo na perspectiva propriamente
lacaniana da topologia do significante. Deve-se ainda lembrar que
Freud descobriu os estágios libidinais das crianças nas análises de
adultos. ·
.Enfun, de um modo mais geral, Lacao, situando o sujeito no discurso,
lembra que a neurose é uma -questão que o ser coloca para o sujeito",
uma questão, diz Freud, que ele coloca a partir .. dali onde ele estava
antes que o sujeito viesse ao mundo ...
Todos aqueles que têm a prática da análise com crianças não podem
deixar de se sensibilizar com a proximidade desses elementos de estru-
tura, com a maneira pela qual elas os demonstram, e isso tanto mais
quanto menor for a criança.
Lembremos o que cada um pode conhecer na prática com adultos,
qwmto a essas cenas que fizeram um ponto de ancoramento, fixação na
fascinação que elas exerceram sobre o sujeito. Mas qual a reconstrução,
para acompanhar Freud a propósito de sua -lembrança encobridora'";
que o analista pode fazer entre o discurso manifesto da lembrança, ou
pelo menos relatado como tal, e a elaboração fantasmática que ali se
esconde'? Ali onde se vê que uma recor~ção de infância não é a da
criança que aquele adulto foi, mas que é necessário encontrar, mais além
do recalque, todos os estratos que recobriram o fascínio inicial.
A criança pequena, ao contrário, pode nos dar uma ilustração e um
acesso mais diretos.
O bebê que era Na dia nos mostra ao vivo, na cena de 10 de dezembro,
o que pode ser um tal fascínio diante do quadro de uma enfermeira com
uma criança no colo, que ela contempla com fortes movimentos de·
sucção. Lembro a vocês que ela só sai disso através do significante do
seu nome, isto é, ela passa do seu olhar à minha voz. M2s, pela
oralidade, ela havia encontrado a manifestação mais ativa, ou seja, seu
desejo, desejo que Lacan demarca de uma maneira que vale para todo
sujeito, crianÇa ou adulto: -o desejo encontra seu suporte fantasmático
naquilo a que se chama de uma defesa do sujeito diante do parceiro
tomado como significante do devoramento realizado ...
pontos nodais 11
Vê-se como, aqui, o fantasma fundamental, o de Nadia nesse caso,
se revela na dialética dos objetos a, o que em caso algum o objeto fálico
imaginário poderia fazer. Vê-se também como a criança pode nos
encaminhar quanto ao que deve ser retirado, no adulto, para se reencon-
trar esse processo do fantasma fundamental de que depende a origem
do sintoma.
Lacan há muito tempo, nesse sentido, articulou a pulsio oral e o
complexo de castração, em outras palavras, a passagem do a áo -q>. Essa
é, certamente, a articulação principal da criança no adulto, essa passa-
gem do fantasma que une o sujeito ao a à dialética da castração que une
o sujeito ao -<p.
Com o a, o ponto de angústia está no n.ível do Outro, o corpo da mãe,
daí a situação privilegiada da análise com crianças. Mas isso não exclui,
evidentemente, a questão do -rp, sob a condição de que se veja que não
é mais da mãe que se trata, como no nível da pulsão oral, e sim, numa
posição estritamente invertida, do próprio sujeito, isto é, de seu órgão
como experiência subjetiva da falta. .
Ora, a pulsão oral nessas condições, longe de ser um modo metafó-
rico de abordar o que se passa no nível do objeto fálico, levanta toda a
questão da relação com o Outro, do corte e da promoção ou não do
objeto a necessário à aheridade do Outro. É certo que o que está em
jogo, nesse nível, é considerável, e as pulsões agressivas que aí se
originam padem estar na fonte das -claudicações mais fundamentais-.
A criança es .. no primeiro plano para nos ensinar, mas ela nos sinaliza,
também, que é bem disso que se trata no adulto.
Robert, a -criança do lobo .. , aparece assim como o modelo de um
Schreber cujas reconstruções megalomaníacas podem nos mascarar a
essência de um retomo à impossibilidade de um objeto a oral entre ele
e o Outro. Certamente, essa criança nos dá imediatamente a dimensão
de um debate quanto ao seu pênis na sua relação com o Outro, o que
significa que, longe de ser o significante da falta, o rp é um órgão que
toma o lugar de um a, não para ele mas para o Outro na estrutura, na
origem do gozo de~e Outro. À falta do significante, o Outro aparece
como o sujeito mítico do gozo. Vê-se como aqui a dialética seio-pênis,
cara a Melanie Klein, que confunde os dois em sua equação, prepara o
caminho da psicose, uma psicose nonnal para ela mas que é absoluta-
mente impensável~ impensável, de fato, se questionarmos o surgimento
do a essencial para a barra do Outro, bem como para a constituição do
sujeito no lugar deste I. enquanto s ignificante, e se não tomarmos como
verdadeiro, como na psicose, um órgão - o pênis não simbolizado -
como a, votado portanto à queda e à mutilação. Nesse sentido, odebate
de Robert pode esclarecer o de Schreber.
20 a a-iança no discurso analítioo
Todo esse debate de Robert, ao funde um tempo em análise, é porque
· ele aceita ter esse órgão de menino, contra sua vontade, contra a do
Outro, já que está sempre disposto, à maneira psicótica primordial, a
privar-se dele para escapar à castração. É verdade que existe sempre,
para o psicótico, a maior dificuldade para se situar no registro da
castração simbólica. A metÁfora delirante pode fazer concessões; a
pedra de toque permanece a foraclusão do Nome-do-Pai.
Vou lhes propor como função do Nome-do-Pai essa possibiJidade de
ter um corpo. Ora, ter um corpo só pode querer dizer tê-lo pelo Outro
no significante: o corpo é o significado desse significante naquilo que
Lacan definiu como .. ponto de basta ... Neste sentido, a foraclusão do
Nome-do-Pai é a separação radical entre o real do corpo e o significante
do Outro.
O real do corpo é, na ausência de todo saber no Outro (S2), não
alguma coisa de perdido, mas alg"TUa coisa que tende para o vazio,
numa perspectiva de continente-conteúdo, com efeito de vaso comuni-
cante entre o sujeito c o Outro: todos os conteúdos do corpo, produtos
e órgãos, est.ão a serviço do gozo do Outro. Diz Scbreber: .. Vivi por
muito tempo sem pulmões, sem fígado, sem intestinos ..... O significante
do Outro, que vem do Outro enquanto tal e não de um mais-além,
exterioriza por sua voz os conteúdos do corpo do sujeito.
Se a primeira dimensão do corpo próprio é o significante - não
estamos af no níveJ do l.maginário - , é preciso ainda que haja ai um
significante, ao menos um, que não seja do Outro, isto é, o significante
da falta, o -<p, senão o significante do Outro equivale ao real do corpo
do sujeito e de suas funções: o real e o significante são completamente
separados, mas equivalentes. Sob o modelo do Outro, .. o sujeito nio é
mais, de alguma maneira, suportado enquanto Eu .. , diz Lacao a propó-
sito de Schreber, .. a não ser por essa trama contínua de alucinações
verbais significantes que constitui, nesse momento. uma espécie de
redobramento em direção a uma postura inicial da gênese de seu mundo
da realidade ... Redobramento para Schreber, mas ponto de partida para
Robert. Ele nos esclarece como, no espelho real com o Outro, ele se
propõe em seuS, como objeto do Outro, cola bando em sua equivalência
o significante do S e o real do objeto a, que são, assim, todos dois do
Outro e, de fato, um Outro absoluto.
É necessário o redobramento do significante no S2 para que um saber
sobre ele possa se destacar do Outro, para que ele cesse de ser o a do
Outro e que este a se destaque e caia no intervalo entreS, e S2•
Seu pênis exercia a função de a até então: ele devia, pois, perdê-lo
até o momento em que passa a poder tê-lo para que enfim se esboce uma
outra perda, a do objeto do qual o Outro é portador. Percurso que
Schreber não atinge, pois que, no espelho real do Outro, ele perde o seu
pontos nodais 21
pênis mas a fim de conservar o seio e mostrá-lo: perde aquilo que não
é um a, seu pênis, para ter o a que o Outro deveria ter perdido, o seio.
A castração do -<p, fator de subjetivação, é referida ao corpo de Das
Ding que faz espelho real. ·
Não se deve crer que o par S,-S2 seja suficiente para desatar essa
equivalência entre o real e o significante. A somatização, ou mais
exatamente o afetamento psicossomático do corpe, está aí para nos
confirmar - e essa é uma etapa inevitável de todo progresso na cura de
um psicótíco - que S2 pode, como S,, estar incluído no Outro e se tomar
bolófrase, isto é, fazer efeito de real e não de significante.
Como, então, não passar pela topologia à espreita de um discurso .. o
mais esvaziado possível de sentido, dispensando toda metáfora"? -A
criança do lobo .. , por exemplo, demonstra isso numa sessão a que
chamei de .. batismo .. , que lhe permite adquirir um corpo de superfície
cuja nomeação, por sua própria boca, de .. Robert .. , faz com que, por essa
nova realidade de corpo, .. o que há de real seja inscrito".
Ensinamento da psicose, e especialmente da psicose infantil, onde a
questão do real e do significante se coloca, partindo de sua separação
radical para chegar a sua articulação.
.. Meu discurso demonstra poder se sustentar até mesmo pela psico-
se", escreve Lacan, ao fmal de l'Étourdit, não sem acrescentar: .. É de
uma retomada da minha fala que nasce o meu Schreber", isto é, quer os
significantes e os maternas façam ai as vezes de real ou não.
20 a a-iança no discurso analítioo
Todo esse debate de Robert, ao funde um tempo em análise, é porque
· ele aceita ter esse órgão de menino, contra sua vontade, contra a do
Outro, já que está sempre disposto, à maneira psicótica primordial, a
privar-se dele para escapar à castração. É verdade que existe sempre,
para o psicótico, a maior dificuldade para se situar no registro da
castração simbólica. A metÁfora delirante pode fazer concessões; a
pedra de toque permanece a foraclusão do Nome-do-Pai.
Vou lhes propor como função do Nome-do-Pai essa possibiJidade de
ter um corpo. Ora, ter um corpo só pode querer dizer tê-lo pelo Outro
no significante: o corpo é o significado desse significante naquilo que
Lacan definiu como .. ponto de basta ... Neste sentido, a foraclusão do
Nome-do-Pai é a separação radical entre o real do corpo e o significante
do Outro.
O real do corpo é, na ausência de todo saber no Outro (S2), não
alguma coisa de perdido, mas alg"TUa coisa que tende para o vazio,
numa perspectiva de continente-conteúdo, com efeito de vaso comuni-
cante entre o sujeito c o Outro: todos os conteúdos do corpo, produtos
e órgãos, est.ão a serviço do gozo do Outro. Diz Scbreber: .. Vivi por
muito tempo sem pulmões, sem fígado, sem intestinos ..... O significante
do Outro, que vem do Outro enquanto tal e não de um mais-além,
exterioriza por sua voz os conteúdos do corpo do sujeito.
Se a primeira dimensão do corpo próprio é o significante - não
estamos af no níveJ do l.maginário - , é preciso ainda que haja ai um
significante, ao menos um, que não seja do Outro, isto é, o significante
da falta, o -<p, senão o significante do Outro equivale ao real do corpo
do sujeito e de suas funções: o real e o significante são completamente
separados, mas equivalentes. Sob o modelo do Outro, .. o sujeito nio é
mais, de alguma maneira, suportado enquanto Eu .. , diz Lacao a propó-
sito de Schreber, .. a não ser por essa trama contínua de alucinações
verbais significantes que constitui, nesse momento. uma espécie de
redobramento em direção a uma postura inicial da gênese de seu mundo
da realidade ... Redobramento para Schreber, mas ponto de partida para
Robert. Ele nos esclarece como, no espelho real com o Outro, ele se
propõe em seuS, como objeto do Outro, cola bando em sua equivalência
o significante do S e o real do objeto a, que são, assim, todos dois do
Outro e, de fato, um Outro absoluto.
É necessário o redobramento do significante no S2 para que um saber
sobre ele possa se destacar do Outro, para que ele cesse de ser o a do
Outro e que este a se destaque e caia no intervalo entreS, e S2•
Seu pênis exercia a função de a até então: ele devia, pois, perdê-lo
até o momento em que passa a poder tê-lo para que enfim se esboce uma
outra perda, a do objeto do qual o Outro é portador. Percurso que
Schreber não atinge, pois que, no espelho real do Outro, ele perde o seu
pontos nodais 21
pênis mas a fim de conservar o seio e mostrá-lo: perde aquilo que não
é um a, seu pênis, para ter o a que o Outro deveria ter perdido, o seio.
A castração do -<p, fator de subjetivação, é referida ao corpo de Das
Ding que faz espelho real. ·
Não se deve crer que o par S,-S2 seja suficiente para desatar essa
equivalência entre o real e o significante. A somatização, ou mais
exatamente o afetamento psicossomático do corpe, está aí para nos
confirmar - e essa é uma etapa inevitável de todo progresso na cura deum psicótíco - que S2 pode, como S,, estar incluído no Outro e se tomar
bolófrase, isto é, fazer efeito de real e não de significante.
Como, então, não passar pela topologia à espreita de um discurso .. o
mais esvaziado possível de sentido, dispensando toda metáfora"? -A
criança do lobo .. , por exemplo, demonstra isso numa sessão a que
chamei de .. batismo .. , que lhe permite adquirir um corpo de superfície
cuja nomeação, por sua própria boca, de .. Robert .. , faz com que, por essa
nova realidade de corpo, .. o que há de real seja inscrito".
Ensinamento da psicose, e especialmente da psicose infantil, onde a
questão do real e do significante se coloca, partindo de sua separação
radical para chegar a sua articulação.
.. Meu discurso demonstra poder se sustentar até mesmo pela psico-
se", escreve Lacan, ao fmal de l'Étourdit, não sem acrescentar: .. É de
uma retomada da minha fala que nasce o meu Schreber", isto é, quer os
significantes e os maternas façam ai as vezes de real ou não.
Imagem e objeto
separados ou confundidos?
Robert Lefort
"A imagem especular é o canal que toma a transfusão da libido em
direção ao objeto." Vqc8s reconheceram uma frase de Lacan em "Sub-
versão do sujeito e dialética do desejo-. No caso, a ponta é o objeto, o
do fantasma, .. essa parte .. , diz ele, -que fica preservada dessa imersão
no especulàr. concentrando nela o mais intimo do auto-erotismo, ope-
rando a exclusão, onde ela se encontra, da imagem especular e consti-
tuindo o protótipo do mundo dos objetos ...
É acompanhando Nadia no .decorrer de sua análise que se podem
apreender as diferentes etapas do surgimento do objeto, tanto no seu
caráter fundamental de não especularizável quanto na alteração do
estatuto do Outro, que é ao mesmo tempo colocado em sua alteridade e
petdendo seu caráter de ·existente" até advir, no progresso do tratamen-
to, no fim da análise, ao lugar de objeto a.
O objeto enquanto caído
Numa primeira fase, a relação entre Nadia e o Outro, que era a analista,
se dava pelo objeto que ainda não caíra. No entanto, ele estava por cair,
como indicavam dois fatos patentes, tanto de sua parte como da do
Outro. · ·
Por seu lado. descrevemos longamente o sintOma de desligamento
que fez com que ela não pudesse apanhar o objeto que cobiçava, doce
ou brinquedo, sem ter imediatamente um movimento reflexo de abertura
da mão que a fazia largar o objeto, perdendo-o. Sob a transferência, isto
se radicalizara até o ponto em que ela se recusava a apanhar, impossi-
bilidade que demonstrava com os punhos cerrados - sintoma tanto mais
manifesto quanto ela se encontrava no colo do Outro -, então, não
apenas fecbava os punhos como mantinha os braços erguidos como que
para evitar qualquer contato com o corpo do Outro, ou melhor, com o
objeto que este portava. Apenas seu olhar, como sabemos, olhar intenso
22
pontos nodais 23
que tanto espantou Rosine Lefort no começo, estava em cau~a na s~a
relação com a analista. Deveríamos dizer: objeto que o Outro é suposto
portar, pois 'o traositivismo se caracteriza pelo fato de que o objeto está
em posição terceira. É o que mostrou a cena, pouco tempo depois do
comeÇo do tratamento, quando, não podendo comer ela mesma o doce
que tinha na mão, pós um pedaço na boca da analista. Então, se era a
analista quem comia, por pouco que fosse, era éla, Nadia, quem vomi-
tava assim que era postà de volta em sua ca~a. Mesmo nessa s ituação
em espelho, Nadia demonstrou que o objeto não devia aparecer enquan-
to tal em seu real, mas devia ser desrealizado e dar lugar a um vazio.
Nenhuma simetria entre o ter o objeto, por parte do pequeno sujeito e
pelo seu Outro, abre o caminho para esse estatuto vazio do objeto, e o
transitivismo em que ele' está implicado conceme à falta.
A psicose vai nos esclarecer quanto a essa diferença entre simetria e
o transitivismo, na medid·a em que, já neste último, por intermédio da
falta de que se trata, a estrutura da mensagem invertida que o pequeno
sujeito recebe do Outro já está presente.
É a realização de um tal lugar de objeto enquanto vazio, enquanto
caído, que vai prosseguir ao longo de toda a análise de Nadia, até a sua
procura e o seu encontro de sua imagem no espelho. Vamos reter, deste
trajeto antes do espelho, apenas duas cenas principais: uma é a de 5 de
dezembro, quando Nadía, crispando as mãos sobre a blusa da analista à
altura do peito, passou do objeto impossível que ela queria tomar ali
para a exclamação de .. mamãe", que disse pela primeira vez, que lhe
permitiu ali, depois de sua tensão, manifestar sua ternura: o significante
anulou o objeto, ~s. mais ainda, essa enunciação teve efeito de sujeito
sobre Na dia enquanto ( -1 ). onde o significado concerne também à queda
do objeto do Outro enquanto (r-i) na álgebra lacaniana.
No entanto, Nadia resistiu a essa alienação no significante, já que
cinco dias mais tarde, a lO de dezembro, apegou-se por via escópica ao
objeto faltoso que alucinou até o ponto de encontrar a borda erógena do
oriffcio da boca, por intensos Di.ovimentós auto-éróticos de sucção. Era
o significante da analista, •Nadia .. , que a separava do objeto e fazia com
que ela se propusesse metonimicamente como objeto de desejo, ao
mesmo tempo em que dava o sinal de uma abertura para o. objeto
metonímico do corpo do Outro.
O enconrro com o espelho
Ela só iria aperfeiçoar essa queda do objeto, essa queda de corpos. por
ocasião de seu encontro· com o espelho, a 16 de janeiro. ~abe-se que,
Imagem e objeto
separados ou confundidos?
Robert Lefort
"A imagem especular é o canal que toma a transfusão da libido em
direção ao objeto." Vqc8s reconheceram uma frase de Lacan em "Sub-
versão do sujeito e dialética do desejo-. No caso, a ponta é o objeto, o
do fantasma, .. essa parte .. , diz ele, -que fica preservada dessa imersão
no especulàr. concentrando nela o mais intimo do auto-erotismo, ope-
rando a exclusão, onde ela se encontra, da imagem especular e consti-
tuindo o protótipo do mundo dos objetos ...
É acompanhando Nadia no .decorrer de sua análise que se podem
apreender as diferentes etapas do surgimento do objeto, tanto no seu
caráter fundamental de não especularizável quanto na alteração do
estatuto do Outro, que é ao mesmo tempo colocado em sua alteridade e
petdendo seu caráter de ·existente" até advir, no progresso do tratamen-
to, no fim da análise, ao lugar de objeto a.
O objeto enquanto caído
Numa primeira fase, a relação entre Nadia e o Outro, que era a analista,
se dava pelo objeto que ainda não caíra. No entanto, ele estava por cair,
como indicavam dois fatos patentes, tanto de sua parte como da do
Outro. · ·
Por seu lado. descrevemos longamente o sintOma de desligamento
que fez com que ela não pudesse apanhar o objeto que cobiçava, doce
ou brinquedo, sem ter imediatamente um movimento reflexo de abertura
da mão que a fazia largar o objeto, perdendo-o. Sob a transferência, isto
se radicalizara até o ponto em que ela se recusava a apanhar, impossi-
bilidade que demonstrava com os punhos cerrados - sintoma tanto mais
manifesto quanto ela se encontrava no colo do Outro -, então, não
apenas fecbava os punhos como mantinha os braços erguidos como que
para evitar qualquer contato com o corpo do Outro, ou melhor, com o
objeto que este portava. Apenas seu olhar, como sabemos, olhar intenso
22
pontos nodais 23
que tanto espantou Rosine Lefort no começo, estava em cau~a na s~a
relação com a analista. Deveríamos dizer: objeto que o Outro é suposto
portar, pois 'o traositivismo se caracteriza pelo fato de que o objeto está
em posição terceira. É o que mostrou a cena, pouco tempo depois do
comeÇo do tratamento, quando, não podendo comer ela mesma o doce
que tinha na mão, pós um pedaço na boca da analista. Então, se era a
analista quem comia, por pouco que fosse, era éla, Nadia, quem vomi-
tava assim que era postà de volta em sua ca~a. Mesmo nessa s ituação
em espelho, Nadia demonstrou que oobjeto não devia aparecer enquan-
to tal em seu real, mas devia ser desrealizado e dar lugar a um vazio.
Nenhuma simetria entre o ter o objeto, por parte do pequeno sujeito e
pelo seu Outro, abre o caminho para esse estatuto vazio do objeto, e o
transitivismo em que ele' está implicado conceme à falta.
A psicose vai nos esclarecer quanto a essa diferença entre simetria e
o transitivismo, na medid·a em que, já neste último, por intermédio da
falta de que se trata, a estrutura da mensagem invertida que o pequeno
sujeito recebe do Outro já está presente.
É a realização de um tal lugar de objeto enquanto vazio, enquanto
caído, que vai prosseguir ao longo de toda a análise de Nadia, até a sua
procura e o seu encontro de sua imagem no espelho. Vamos reter, deste
trajeto antes do espelho, apenas duas cenas principais: uma é a de 5 de
dezembro, quando Nadía, crispando as mãos sobre a blusa da analista à
altura do peito, passou do objeto impossível que ela queria tomar ali
para a exclamação de .. mamãe", que disse pela primeira vez, que lhe
permitiu ali, depois de sua tensão, manifestar sua ternura: o significante
anulou o objeto, ~s. mais ainda, essa enunciação teve efeito de sujeito
sobre Na dia enquanto ( -1 ). onde o significado concerne também à queda
do objeto do Outro enquanto (r-i) na álgebra lacaniana.
No entanto, Nadia resistiu a essa alienação no significante, já que
cinco dias mais tarde, a lO de dezembro, apegou-se por via escópica ao
objeto faltoso que alucinou até o ponto de encontrar a borda erógena do
oriffcio da boca, por intensos Di.ovimentós auto-éróticos de sucção. Era
o significante da analista, •Nadia .. , que a separava do objeto e fazia com
que ela se propusesse metonimicamente como objeto de desejo, ao
mesmo tempo em que dava o sinal de uma abertura para o. objeto
metonímico do corpo do Outro.
O enconrro com o espelho
Ela só iria aperfeiçoar essa queda do objeto, essa queda de corpos. por
ocasião de seu encontro· com o espelho, a 16 de janeiro. ~abe-se que,
24 a alança no discurso analítloo
depois de se ter proposto como objeto caído aos pés do Outro para ser
apanhada, ela reclamou o espelho para af realizar imaginariamente a
imagem que a fascinava, a da criança nos braços do Outro, mas só
encontrou nele a execução radical do objeto perdido: seu boneco ma-
rinheiro. De fato, esse marinheiro que ela tinha na mão e com o qual ia
para diante do espelho, ela não o via ali. Seria o seu objeto? Seria o seu
duplo? A questão permanece em aberto, mas encontra uma resposta
lógica no transitivismo anterior de Nadia, onde ela era ·dois .. , ela e o
Outro, mas onde o objeto já estava marcado pela perda, pois que se
o Outro não era afetado por ela, era ela que o vomitava, isto é, que o
perdia.
Em seu encontro com o espelho, foi a própria Nadia que se defrontou
com a sua perda, não para se assegurar da perda do Outro, desta vez,
mas no seu próprio nfvel, já que o Outro com o qual ela estava antes em
espelho não aparecia nessa primeira imagem especular. Então, ele era
só a referência real, quando ela se voltava para se refugiar em seus
braços.
Não é à toa que Lacan fala desse momento em que o pequenQ
sujeito se volta para o Outro como sendo o ·mais puro momento de
experiência do espelho". Como poderia ele falar assim, se se tratasse
apenas do Eu Ideal da imagem, e não do fato primordial do objeto
enquanto caído?
Não foi isso, absolutamente, o que Robert encontrou, quando .. a
criança do lobo" viu seu reflexo na vidraça pela primeira vez. O que ele
viu, com efeito - seria sua imagem? Certamente que não - ele bateu na
imagem. e se nio viu ali uma imagem que seria a do Outro, nem se
voltou para refugiar-se nos braços deste, como Nadia, é porque o que
ele viu nada tinha a ver com uma imagem narcísica, mas antes com o
objeto que era ele próprio e que devia cair, a ponto de Rosine Lefortter
tido uma apreensão formidável e lhe ter dito que ele não estava naquele
reflexo do vidro, mas ali, realmente, ao lado dela. É que ela sabia, então,
que a perda inerente à imagem especular não tinha para Robert qualquer
escapatória, no significante, a não ser a de seu significante delirante
•tobo-, que veio previamente preencher um furo, um furo no próprio
s ignificante. É isso que faz com que a imagem não venha compensar a
perda do objeto, mas se confunda com essa perda e só se revele no
significante do furo .
O imaginário da imagem onde se compraz o sujeito sob os olhos do
Outro, propondo-se como objeto imaginário para a falta do Outro. é
reduzido a zero diante de um Outro não-banado a quem nada falta . O
sujeito ~icótico se revela aos seus próprios olhos como o objeto cafdo,
submetido por Robert por seu significante -lobo".
pontosnoo.il 25
Foi preciso esperar vários meses para que Robert, reencontrando sua
imagem num pequeno espelho; dialetizasse de modo menos maciço essa
confusão entre imagem e objeto~ Deve~se dizer, além disso, que o
significante '"lobo .. desapareceu bá muito tempo, pelo progresso do
tratamento analítico de Robert. Ele oio tem mais, então, para servir de
tela, esse significante do furo, e t sobre a própria imagem, isto é, sobre
a superffcie do espelho, que tenta impor sua marca sob forma de um
pequeno traço a lápis. que se verifica ser impossível de ser feito sobre
tal superfície.
Naquele momento, a imagem e o objeto não são mais confundidos,
como demonstrou Robe~ repetindo .. Robert" sobre sua imagem depois
que a analista lhe disse que aquela é sua imagem, até mesmo beijando-a,
por um lado, mas principalmente, por outro lado, ·querendo introduzir
nessa imagem o objeto faltoso sob a forma do pequeno traço que queria
fazer com seu lápis-pênis.
Seu fracasso o levou a fazer ao Outro a censura maior quanto a essa
perda de objeto: '"É você quem me priva de meu pênis, que me faz
menina ... Ele o demonstrou indo buscar no armário das enfermeiras um
par de sapatos de salto .alto que ia calçar- que equívoco! -bem como
um cabide cuja ponta chupava como a uma mamadeira, aliando como
sempre o seio e o pênis , expressão paranóica, mas livre no entanto da
opacidade e da confusão imagem-objeto do ~flexo no vidro.
Além disso, o Outro ausente por ocasião desse primeiro episódio
estava bem presente quando do segundo: tinha sua imagem. e Roben
pôde dizer .. Rosine" para essa imagem. Se ele procurou encobrir a queda
do objeto pelo seu traço no espelho. no que se referia à sua própria
imagem, nada veio testemunhar tal preocupação quanto à imagem do
Outro. e foi ali que se situou a perda. Essa perda era a do. Outro. que se
demonstrou por uma primeira demanda oral possível para Robert: pela
primeira vez, ele pediu a mamadeira e tomou alguns goles, calmamente.
nos braços da analista. Se o Outro, pois, tinha a sua imagem, é porque
ele perdera um objeto e era este mesmo o objeto de uma demanda
possível.
Alternativa
Como concluir, a não ser afirmando, conforme estes dois fragmentos de
casos clínicos, que o especular propriamente dito é tanto uma questão
de imagem quanto de objeto. Mas não é um paradoxo que a função
imaginária centrada por Freud no investimento do objeto como narcfsi-
co seja correlacionada a esse objeto enquanto inapreensível no espelho
e ao qual ·a imagem especular só dá suas ves timentas ...
24 a alança no discurso analítloo
depois de se ter proposto como objeto caído aos pés do Outro para ser
apanhada, ela reclamou o espelho para af realizar imaginariamente a
imagem que a fascinava, a da criança nos braços do Outro, mas só
encontrou nele a execução radical do objeto perdido: seu boneco ma-
rinheiro. De fato, esse marinheiro que ela tinha na mão e com o qual ia
para diante do espelho, ela não o via ali. Seria o seu objeto? Seria o seu
duplo? A questão permanece em aberto, mas encontra uma resposta
lógica no transitivismo anterior de Nadia, onde ela era ·dois .. , ela e o
Outro, mas onde o objeto já estava marcado pela perda, pois que se
o Outro não era afetadopor ela, era ela que o vomitava, isto é, que o
perdia.
Em seu encontro com o espelho, foi a própria Nadia que se defrontou
com a sua perda, não para se assegurar da perda do Outro, desta vez,
mas no seu próprio nfvel, já que o Outro com o qual ela estava antes em
espelho não aparecia nessa primeira imagem especular. Então, ele era
só a referência real, quando ela se voltava para se refugiar em seus
braços.
Não é à toa que Lacan fala desse momento em que o pequenQ
sujeito se volta para o Outro como sendo o ·mais puro momento de
experiência do espelho". Como poderia ele falar assim, se se tratasse
apenas do Eu Ideal da imagem, e não do fato primordial do objeto
enquanto caído?
Não foi isso, absolutamente, o que Robert encontrou, quando .. a
criança do lobo" viu seu reflexo na vidraça pela primeira vez. O que ele
viu, com efeito - seria sua imagem? Certamente que não - ele bateu na
imagem. e se nio viu ali uma imagem que seria a do Outro, nem se
voltou para refugiar-se nos braços deste, como Nadia, é porque o que
ele viu nada tinha a ver com uma imagem narcísica, mas antes com o
objeto que era ele próprio e que devia cair, a ponto de Rosine Lefortter
tido uma apreensão formidável e lhe ter dito que ele não estava naquele
reflexo do vidro, mas ali, realmente, ao lado dela. É que ela sabia, então,
que a perda inerente à imagem especular não tinha para Robert qualquer
escapatória, no significante, a não ser a de seu significante delirante
•tobo-, que veio previamente preencher um furo, um furo no próprio
s ignificante. É isso que faz com que a imagem não venha compensar a
perda do objeto, mas se confunda com essa perda e só se revele no
significante do furo .
O imaginário da imagem onde se compraz o sujeito sob os olhos do
Outro, propondo-se como objeto imaginário para a falta do Outro. é
reduzido a zero diante de um Outro não-banado a quem nada falta . O
sujeito ~icótico se revela aos seus próprios olhos como o objeto cafdo,
submetido por Robert por seu significante -lobo".
pontosnoo.il 25
Foi preciso esperar vários meses para que Robert, reencontrando sua
imagem num pequeno espelho; dialetizasse de modo menos maciço essa
confusão entre imagem e objeto~ Deve~se dizer, além disso, que o
significante '"lobo .. desapareceu bá muito tempo, pelo progresso do
tratamento analítico de Robert. Ele oio tem mais, então, para servir de
tela, esse significante do furo, e t sobre a própria imagem, isto é, sobre
a superffcie do espelho, que tenta impor sua marca sob forma de um
pequeno traço a lápis. que se verifica ser impossível de ser feito sobre
tal superfície.
Naquele momento, a imagem e o objeto não são mais confundidos,
como demonstrou Robe~ repetindo .. Robert" sobre sua imagem depois
que a analista lhe disse que aquela é sua imagem, até mesmo beijando-a,
por um lado, mas principalmente, por outro lado, ·querendo introduzir
nessa imagem o objeto faltoso sob a forma do pequeno traço que queria
fazer com seu lápis-pênis.
Seu fracasso o levou a fazer ao Outro a censura maior quanto a essa
perda de objeto: '"É você quem me priva de meu pênis, que me faz
menina ... Ele o demonstrou indo buscar no armário das enfermeiras um
par de sapatos de salto .alto que ia calçar- que equívoco! -bem como
um cabide cuja ponta chupava como a uma mamadeira, aliando como
sempre o seio e o pênis , expressão paranóica, mas livre no entanto da
opacidade e da confusão imagem-objeto do ~flexo no vidro.
Além disso, o Outro ausente por ocasião desse primeiro episódio
estava bem presente quando do segundo: tinha sua imagem. e Roben
pôde dizer .. Rosine" para essa imagem. Se ele procurou encobrir a queda
do objeto pelo seu traço no espelho. no que se referia à sua própria
imagem, nada veio testemunhar tal preocupação quanto à imagem do
Outro. e foi ali que se situou a perda. Essa perda era a do. Outro. que se
demonstrou por uma primeira demanda oral possível para Robert: pela
primeira vez, ele pediu a mamadeira e tomou alguns goles, calmamente.
nos braços da analista. Se o Outro, pois, tinha a sua imagem, é porque
ele perdera um objeto e era este mesmo o objeto de uma demanda
possível.
Alternativa
Como concluir, a não ser afirmando, conforme estes dois fragmentos de
casos clínicos, que o especular propriamente dito é tanto uma questão
de imagem quanto de objeto. Mas não é um paradoxo que a função
imaginária centrada por Freud no investimento do objeto como narcfsi-
co seja correlacionada a esse objeto enquanto inapreensível no espelho
e ao qual ·a imagem especular só dá suas ves timentas ...
26 a aiança no diswrso at~alltJoo
De sorte que estamos diante dçsta alternativa: ou o objeto a nio
adveio enquanto caído, e· é a imagem que cai - o psicótico não tem
imagem - ou o objeto a caiu, mas é inicialmente no Outro que o sujeito
apreende essa causa do desejo, da qual ele poderá, ao mesmo tempo,
assegurar o lugar como objeto imaginúio do de&ejo ao Outro enquanto
( -tp) e encontrar a via significante de suas pulsões (.O D) no único ponto
que responde a isso: S(~).
o sl, o sujeito e a psicose
Rosine Lefort
Lacan inttoduziu o Nome-do-Pai no nível da psicose, isto é, ali onde
ele está foraclufdo. É esta forachisão que ordena a psicose e dá a medida
do poder desse significante, ~ttavés do efeito de sua ausência. O mesmo
se dá com o significante-mestre? Certamente que não, J.ll&S sua funç.ão
e seu estatuto só podem ser afetados pelo remanejamento da estrutura
subjetiva em relação com essa foraclusão do Nome-do-Pai. É a clínica
da '"criança do lobo" e a de Schreber que irão nos guiar.
Cinco episódios da história de Robert ilusttam sua evolução em sua
relação ao significante, na medida em que o representa.
Sem queda
Logo que vi Roben, ele estava, evidentemente, no significante. Mais
ainda por ser p5icótico: pode-se mesmo dizer que ele era o significante
que ele gritava sem parar, sem dirigir-se a ninguém: ·senhora! .. Ele era
~se: hora" comó provava seu comportamento diante de mim, quando
tomava· conta das outras crianças ou lhes dava seus doces sem' guardar
nenhum para si.
.. Senhora" era um significante-mestre? Pode-se dizer que sim, na
medida em que respondia bem à própria origem deste significante no
campo do Outro. Mas este significante, como se sabe, tem por efeito a
afânise, a desaparição do sujeito, pela alienação significante. O único
significao~. então, que poderia fazer o S1, é o .. dá!" alucinado, vindo
do Outro, que implica no .. toma" de Roben, estendendo um doce, atrás
dele, para uma criança que não estava ali, apenas para responder a um
imperativo: o do Outto do supereu.
Tratava-se. pois, de uma montagem, onde todos os elementos
estavam presentes, sem nenhuma queda. Se ó sigoificante-ID.estte era
"Senhora", ele estava bem ali e Robert era ele. Já encontramos essa
c.onfusão entre o real e o significante, que faz com que o seu .. Senbo-
26 a aiança no diswrso at~alltJoo
De sorte que estamos diante dçsta alternativa: ou o objeto a nio
adveio enquanto caído, e· é a imagem que cai - o psicótico não tem
imagem - ou o objeto a caiu, mas é inicialmente no Outro que o sujeito
apreende essa causa do desejo, da qual ele poderá, ao mesmo tempo,
assegurar o lugar como objeto imaginúio do de&ejo ao Outro enquanto
( -tp) e encontrar a via significante de suas pulsões (.O D) no único ponto
que responde a isso: S(~).
o sl, o sujeito e a psicose
Rosine Lefort
Lacan inttoduziu o Nome-do-Pai no nível da psicose, isto é, ali onde
ele está foraclufdo. É esta forachisão que ordena a psicose e dá a medida
do poder desse significante, ~ttavés do efeito de sua ausência. O mesmo
se dá com o significante-mestre? Certamente que não, J.ll&S sua funç.ão
e seu estatuto só podem ser afetados pelo remanejamento da estrutura
subjetiva em relação com essa foraclusão do Nome-do-Pai. É a clínica
da '"criança do lobo" e a de Schreber que irão nos guiar.
Cinco episódios da história de Robert ilusttam sua evolução em suarelação ao significante, na medida em que o representa.
Sem queda
Logo que vi Roben, ele estava, evidentemente, no significante. Mais
ainda por ser p5icótico: pode-se mesmo dizer que ele era o significante
que ele gritava sem parar, sem dirigir-se a ninguém: ·senhora! .. Ele era
~se: hora" comó provava seu comportamento diante de mim, quando
tomava· conta das outras crianças ou lhes dava seus doces sem' guardar
nenhum para si.
.. Senhora" era um significante-mestre? Pode-se dizer que sim, na
medida em que respondia bem à própria origem deste significante no
campo do Outro. Mas este significante, como se sabe, tem por efeito a
afânise, a desaparição do sujeito, pela alienação significante. O único
significao~. então, que poderia fazer o S1, é o .. dá!" alucinado, vindo
do Outro, que implica no .. toma" de Roben, estendendo um doce, atrás
dele, para uma criança que não estava ali, apenas para responder a um
imperativo: o do Outto do supereu.
Tratava-se. pois, de uma montagem, onde todos os elementos
estavam presentes, sem nenhuma queda. Se ó sigoificante-ID.estte era
"Senhora", ele estava bem ali e Robert era ele. Já encontramos essa
c.onfusão entre o real e o significante, que faz com que o seu .. Senbo-
28 a criança no discurso anafítioó
r a,. tenha a_ ver com seu ser, isto é, com o q ue Lacan chama de -sig-
nificante se-lo-·. Ele é o Outro.
É também o significante da relação ao sexo- um certo real -e Robert
iria mostrá-lo na terceira sessão de sua análise ao tentar cortar seu
pênis. O que cai é o órgão, não o significante. Pod~-se inclusive articul~r
a. e~colha d~ ~ob_e,rt como a d~e um si~nificante sê-lo que não é desapa-
nçao ~o SUJe ito, Ja !lu e este na o adveto. Quanto ao sentido, não se pode
falar dtsso na r~la~ao com este Outro do supereu, absoluto, não descom-
pletado. A ausencta de sentido, fora do simbólico, não é o não-senso.
A confusão entre o real e o significante tem um efeito paradoxal de
separaçã~ dos d?is~ na medida em que ficam ambos na presença, sem
es.sa _funçao do stgntficante de ~r furar o real. O significante, então, não
elum?~ o real , mas o redobra. ~Isso que dá esse caráter de exterioridade
ao SUJ eito: tanto as ordens dos outros para Robert, no sentido de dar os
conteúdos ~e seu corpo; quanto, em Schrcber, as funções corporais
tomadas milagrosas pelos raios, são fala. ·
O sentido propiciatório do cocô para Robert, devido ao Outro abso-
luto para conjurar qualquer incompletude sua, explodiu um dia na
sessão em que ele .f~z cocô sem dizer o significante, e quando o ruído
da chave de uma VIZinha que entrou em casa lhe soara como a ordem de
ter que dar seu cocô ao Outro.
O furo real
O aparecimento de seu .. lobo", a 6 de fevereiro diante do buraco do
WC, assumiu um sentido porque Robert estava e.;. análise. Se este é um
signifi~~t~ que se pode qualificar de delirante, nem por isso ele deixa
de se dmg1r ao Outro que sou eu na transferência, e é por isso que
podemos falar em -psicose de transferência". Na multiplicidade de
empregos de seu .. lobo" durante quatro anos e meio, o gozo do Outro
esteve longe de ser central.
Num primeiro tempo, ele era a expressão de seu terror deste Outro
no exte~ior da sala de sessões, aquele cuja fala era só supereu e a quem
ele dev1a tudo, porque não podia tirar nada dele . Mas na transferência
e le gritava, com seu significante •lobo", o furo que normalmente afeta-
va o Outro através de um significante que faltava e que fazia dele um
Outro barrado (~). Esse furo, ainda que marcado pelo significante
-lobo", era real e só poderia afetar o Outro descompletando-o o que era
impossfvel para Robert e que fez com que fosse ele mesmo a s~r afetado
* No original, signifialll m' fire, homófooo a lfiOiíre (merue). (N.T .)
pontos nodais 29
por este furo real. Ele o era, porque não podia di~r um significante -
que aliás, nunca diria -, o significante '"mamadeira.. o qual se o
dissesse, descompletaria o Outro; e é por isso que ele er~ a mam~deira ,
portanto, estava no lugar do furo no significante.
A exterioridade alterada
O encontro de Robcrt com seu reflexo na vidraça modificou radicalmen-
te a cx,terioridade na qual o -lobo .. se aplicaria unicamente ao mundo
ex.terior - a ponto, mesmo, de uma vez. ao fechar a porta, ele ter podido
gntar: -lobo fora!- Portanto, diante do reflexo, Robert manifestara
apenas recusa e, à fa lta extra -simbólica de poder aceitar a perda inerente
à ima~e~, ele ass~iou sua imagem ao seu - lobo"', isto é, ao furo q ue
esse s1gn!ficante vmha tampar. Esse reflexo não dera lugar a qualquer
reconh~Jm~nto ~specular, mas à associação com o significante, o que
me havia felto dtzcr-lhe que aquilo que via não era ele, que ele estava
realmente ao meu lado, para tentar dissociá-lo desse significante do furo
e fazê,-Jo tender para um lugar de a. Vã tentativa, como provou a cena
da noite de 5 de março, fora da sessão, quando Robert foi levado a
encarnar esse significante -lobo'" sem par (ou sem pai).
Sabemos que exis tem pelo menos dois significantes ímpares: o falo
e o Nome-do-Pai, mas que fazem parte da lógica do significante e não
têm substância de encarnação, o que é reservado a a.
Na ausência do a caído do Outro, o psicótico fica reduzido a tentar
colocar, no próprio furo do significante, o próprio significante do delírio
para lhe dar um ~oryo. O '"lobo" assome, de alguma forma, o lugar de
SI, no lugar do s1gmficante sem par que falta e, como vimos, do objeto
que não caiu. Um signifícante.extra~simbólico se torna real, encarnan-
do-se, e o S2 que vem do Outro está completamente ausente.
Entre tanto, a resposta de Robert, que se acalmou quando a enfermeira
lbe deu a escolha entre ser amarrado a sua cama ou ficar quieto,
restabeleceu de alguma maneira um par significante. Mas o lugar de S
2
pareceu então estar ocupado por uma palavra de ordem à qual Robert
aderira, aliás de boa vontade, pois ela o reconfortou ao mes mo tempo
em que esboçara - é por isso que foi tão eficaz - um desejo do Outro
q~e faria dele o seu objeto, e isso como um eco à separação que fiz entre
seu corpo real e seu reflexo na vidraça, que ele identificava com o
significante .. lobo".
Vamos recordar o percurso idêntico de um Schreber que, diante das
falhas de Deus, tem de buscar ele mesmo os significantes da - ordem do
universo .. : ~oxímoro"', diz ele, onde, no combate de Deus contra ele,
está em situação de portar os próprios atributos de Deus. Ali Deus é, na
28 a criança no discurso anafítioó
r a,. tenha a_ ver com seu ser, isto é, com o q ue Lacan chama de -sig-
nificante se-lo-·. Ele é o Outro.
É também o significante da relação ao sexo- um certo real -e Robert
iria mostrá-lo na terceira sessão de sua análise ao tentar cortar seu
pênis. O que cai é o órgão, não o significante. Pod~-se inclusive articul~r
a. e~colha d~ ~ob_e,rt como a d~e um si~nificante sê-lo que não é desapa-
nçao ~o SUJe ito, Ja !lu e este na o adveto. Quanto ao sentido, não se pode
falar dtsso na r~la~ao com este Outro do supereu, absoluto, não descom-
pletado. A ausencta de sentido, fora do simbólico, não é o não-senso.
A confusão entre o real e o significante tem um efeito paradoxal de
separaçã~ dos d?is~ na medida em que ficam ambos na presença, sem
es.sa _funçao do stgntficante de ~r furar o real. O significante, então, não
elum?~ o real , mas o redobra. ~Isso que dá esse caráter de exterioridade
ao SUJ eito: tanto as ordens dos outros para Robert, no sentido de dar os
conteúdos ~e seu corpo; quanto, em Schrcber, as funções corporais
tomadas milagrosas pelos raios, são fala. ·
O sentido propiciatório do cocô para Robert, devido ao Outro abso-
luto para conjurar qualquer incompletude sua, explodiu um dia na
sessão em que ele .f~z cocô sem dizer o significante, e quando o ruído
da chave de uma VIZinha que entrou em casa lhe soara como a ordem de
ter que dar seu cocô ao Outro.
O furo real
O aparecimento de seu .. lobo", a 6 de fevereiro diante do buracodo
WC, assumiu um sentido porque Robert estava e.;. análise. Se este é um
signifi~~t~ que se pode qualificar de delirante, nem por isso ele deixa
de se dmg1r ao Outro que sou eu na transferência, e é por isso que
podemos falar em -psicose de transferência". Na multiplicidade de
empregos de seu .. lobo" durante quatro anos e meio, o gozo do Outro
esteve longe de ser central.
Num primeiro tempo, ele era a expressão de seu terror deste Outro
no exte~ior da sala de sessões, aquele cuja fala era só supereu e a quem
ele dev1a tudo, porque não podia tirar nada dele . Mas na transferência
e le gritava, com seu significante •lobo", o furo que normalmente afeta-
va o Outro através de um significante que faltava e que fazia dele um
Outro barrado (~). Esse furo, ainda que marcado pelo significante
-lobo", era real e só poderia afetar o Outro descompletando-o o que era
impossfvel para Robert e que fez com que fosse ele mesmo a s~r afetado
* No original, signifialll m' fire, homófooo a lfiOiíre (merue). (N.T .)
pontos nodais 29
por este furo real. Ele o era, porque não podia di~r um significante -
que aliás, nunca diria -, o significante '"mamadeira.. o qual se o
dissesse, descompletaria o Outro; e é por isso que ele er~ a mam~deira ,
portanto, estava no lugar do furo no significante.
A exterioridade alterada
O encontro de Robcrt com seu reflexo na vidraça modificou radicalmen-
te a cx,terioridade na qual o -lobo .. se aplicaria unicamente ao mundo
ex.terior - a ponto, mesmo, de uma vez. ao fechar a porta, ele ter podido
gntar: -lobo fora!- Portanto, diante do reflexo, Robert manifestara
apenas recusa e, à fa lta extra -simbólica de poder aceitar a perda inerente
à ima~e~, ele ass~iou sua imagem ao seu - lobo"', isto é, ao furo q ue
esse s1gn!ficante vmha tampar. Esse reflexo não dera lugar a qualquer
reconh~Jm~nto ~specular, mas à associação com o significante, o que
me havia felto dtzcr-lhe que aquilo que via não era ele, que ele estava
realmente ao meu lado, para tentar dissociá-lo desse significante do furo
e fazê,-Jo tender para um lugar de a. Vã tentativa, como provou a cena
da noite de 5 de março, fora da sessão, quando Robert foi levado a
encarnar esse significante -lobo'" sem par (ou sem pai).
Sabemos que exis tem pelo menos dois significantes ímpares: o falo
e o Nome-do-Pai, mas que fazem parte da lógica do significante e não
têm substância de encarnação, o que é reservado a a.
Na ausência do a caído do Outro, o psicótico fica reduzido a tentar
colocar, no próprio furo do significante, o próprio significante do delírio
para lhe dar um ~oryo. O '"lobo" assome, de alguma forma, o lugar de
SI, no lugar do s1gmficante sem par que falta e, como vimos, do objeto
que não caiu. Um signifícante.extra~simbólico se torna real, encarnan-
do-se, e o S2 que vem do Outro está completamente ausente.
Entre tanto, a resposta de Robert, que se acalmou quando a enfermeira
lbe deu a escolha entre ser amarrado a sua cama ou ficar quieto,
restabeleceu de alguma maneira um par significante. Mas o lugar de S
2
pareceu então estar ocupado por uma palavra de ordem à qual Robert
aderira, aliás de boa vontade, pois ela o reconfortou ao mes mo tempo
em que esboçara - é por isso que foi tão eficaz - um desejo do Outro
q~e faria dele o seu objeto, e isso como um eco à separação que fiz entre
seu corpo real e seu reflexo na vidraça, que ele identificava com o
significante .. lobo".
Vamos recordar o percurso idêntico de um Schreber que, diante das
falhas de Deus, tem de buscar ele mesmo os significantes da - ordem do
universo .. : ~oxímoro"', diz ele, onde, no combate de Deus contra ele,
está em situação de portar os próprios atributos de Deus. Ali Deus é, na
30 a aiança no discurso analítico
sua história, a imagem de um pai, aparecido precocemente em sua vida
como Outro absoluto que o privara do desejo de sua mãe, desejo que ete
identifica com a .. ordem do universo ...
Se o S1 da psicose redobra o furo no significante, enquanto signifi-
cante ímpar, não é surpreendente que o psicótico seja submetido irre-
mediavelmente ao Um unificador para se defender contra o Um contável
que, fora do simbólico, seria apenas a explosão real de seu corpo em
pedaços.
Tocamos ai na articulação especifica da psicose entre o a, enquanto
objeto perdido, e o significante, enquanto perfurado pela falta de um
significante primordial. Esta articulação se resolve na indecisão em que
fica o sujeito psicótico quanto a encarnar-se no objeto, o que seria a
solução de encarnar-se no significante de um furo que, por redobramen-
to, é o significante do furo no significante. Para Robert, é o ·lobo" de
modo evidente; para Schreber, é menos claro, a menos que se frise essa
referência constante que ele faz à ·ordem do universo .. que implica
numa dimensão excluída, sempre em referência na sua relação com
Deus.
Vamos retomar essa· dialética exclusiva do ·um .. unificador na
relação ao Outro que tem conseqüências consideráveis sobre a estrutura
do corpo. Vamos subsumi-la sob o termo -dialética continente-conteú-
do-, em oposição à superfície. Trata-se, para dizer tudo, da estrutura do
corpo na psicose, da qual a superfície não é excluída, mas está dentro
de uma lógica diferente. Tudo depende da estrutura do Outro não
descompletado que vimos, e da relação entre o sujeito psic9tico e esse
Outro que funciona para ele segundo o modo anal da demanda e da
ordem: todos os produtos do corpo, isto é, seus conteúdos, são para o
Outro; logo o corpo se encontra inteiramente vazio e seus produtos lhe
são estranhos. É o significante do Outro que faz esse esvaziamento do
corpo, chegando a atingir não apenas os produtos do corpo, mas seus
órgãos.
Quanto aos ~bjetos normalmente fornecidos pelo Outro para in-
gestão, estes perderam seu caráter de ·satisfação, até mesmo para a
necessidade, já que Robert nos diz que não pode tomar nada do
Outro. 'com efeito, este é o caráter do dpm simbólico que falta ao .
objeto oral: ele só está submetido, portanto, como os outros, ao
significante do comando. .
A descrição feita por Schreber da alimentação forÇada é particular-
mente dramática; bem como, no Capítulo XI, sua conseqüência quanto
ao esvaziamento de todos os órgãos do interior de seu corpo. Ele diz,
além disso, que se trata de um fenômeno significante, no qual os -raios
(portadores deste significante) só se oeupam, essencialmente, de provo-
car devastações no corpo de um dado indivíduo· .. o que ele opõe ainda
à ·ordem do universo". Passamos por cima da descrição da perda do
cor!lção, dos pulmões. do estôma1o, para sublinhar a ausência, topolo-
gicamente essencial, do furo do corpo, da boc::a ao ânus, e particular-
mente da borda erógena deste, pois que, como diz ele, •a difusão do
bolo .alimentar se fazia alravés de qualquer parte do corpo e as substân-
cias impuras do corpo eram reabsorvidas pelos raios·, ... ·como por uma
pequena cavilha através das paredes do ventre ...
O significante, com efeilo, designa apenas os furos: não os orifícios
do corpo - como demonstrou Marie-Françoise - mas a realidade do
mundo exterior como um furo. O •Jobo .. vem aí se confundir e colocar
o significante em exterioridade ao sujeito. Af está uma das falhas
específicas da psicose, onde não funciona a separação do que, como diz
Lacan, .. está dentro, isto ~. do que está dentro do saco de pele do que
está fora, todo o resto, pois normalmente faz-se a passagem, para o
sujeito, do que ele representa deste 'fora' que deve estar também no
interior". O significante aí é o provedor, a menos que, como para Robert,
seja o significante quem faz este exterior, como para Scbreber.
A fronteira entre o dentro e o fora, entre o conteúdo e o continente
definido por este saco de pele, é a superfície: ora, esta S\.lperfície, para
Robert, não era sua pele, mas como se sabe, seu avental, uma superfície
que lhe era imposta pelo Outro e que fazia barreira. real contra a intrusão
do exterior, à falta de.uma estrutura significante. Á retirada do avental
o entregou ao gozo, gozo hiper-masoquista que não era o do Outro, mas
o seu próprio. Era. também o de Schreber, cuja pele não era tanto um
saco quanlo um receptáculo de nervos femininos, realmente palpáveis
e fonte deste gozo ao qual ele estava condenado.
A saída de Robert desse impasse de conteúdo sem continente, isto é,
dos objetos para o Outro que não lhe permitiam ter um corpo seu, se fez
então por uma cena que aconteceu depois de minhas numerosas inter-
pretações, e de minhas palavras que passavam por minha voz, indi~ndo
minimamente o desejo do Oútro. Durante esta pequena cena, ele fundou
o continente por um redobramento, um pote cheio d• água dentro de uma
bacia cheia d'água, retirando a água de utn com uma toalha para jogá-la
na outra e me fazendo fazer o inverso. ·
É este o modelo que lhe expliquei numa ·construção em análise .. , a
13 de maio. Pude dizer-lhe que ele foi o conteúdo do corpo !batemo que
era seu continente, por intermédio do líquido amniótico. Robert me
seguiu com os significantes que dizia: .. Mamãe, Robert, água ... O que
era impossível na estrutura continente-conteúdo real, devido a uma
ausência de significante entre ele e o Outro, tomou-se, pelos próprios
significantes dessa cena, uma articulação possível d~ Robert e de seu
corpo no Outro. Este corpo cessou de ser vazio, não porque tivesse sido
30 a aiança no discurso analítico
sua história, a imagem de um pai, aparecido precocemente em sua vida
como Outro absoluto que o privara do desejo de sua mãe, desejo que ete
identifica com a .. ordem do universo ...
Se o S1 da psicose redobra o furo no significante, enquanto signifi-
cante ímpar, não é surpreendente que o psicótico seja submetido irre-
mediavelmente ao Um unificador para se defender contra o Um contável
que, fora do simbólico, seria apenas a explosão real de seu corpo em
pedaços.
Tocamos ai na articulação especifica da psicose entre o a, enquanto
objeto perdido, e o significante, enquanto perfurado pela falta de um
significante primordial. Esta articulação se resolve na indecisão em que
fica o sujeito psicótico quanto a encarnar-se no objeto, o que seria a
solução de encarnar-se no significante de um furo que, por redobramen-
to, é o significante do furo no significante. Para Robert, é o ·lobo" de
modo evidente; para Schreber, é menos claro, a menos que se frise essa
referência constante que ele faz à ·ordem do universo .. que implica
numa dimensão excluída, sempre em referência na sua relação com
Deus.
Vamos retomar essa· dialética exclusiva do ·um .. unificador na
relação ao Outro que tem conseqüências consideráveis sobre a estrutura
do corpo. Vamos subsumi-la sob o termo -dialética continente-conteú-
do-, em oposição à superfície. Trata-se, para dizer tudo, da estrutura do
corpo na psicose, da qual a superfície não é excluída, mas está dentro
de uma lógica diferente. Tudo depende da estrutura do Outro não
descompletado que vimos, e da relação entre o sujeito psic9tico e esse
Outro que funciona para ele segundo o modo anal da demanda e da
ordem: todos os produtos do corpo, isto é, seus conteúdos, são para o
Outro; logo o corpo se encontra inteiramente vazio e seus produtos lhe
são estranhos. É o significante do Outro que faz esse esvaziamento do
corpo, chegando a atingir não apenas os produtos do corpo, mas seus
órgãos.
Quanto aos ~bjetos normalmente fornecidos pelo Outro para in-
gestão, estes perderam seu caráter de ·satisfação, até mesmo para a
necessidade, já que Robert nos diz que não pode tomar nada do
Outro. 'com efeito, este é o caráter do dpm simbólico que falta ao .
objeto oral: ele só está submetido, portanto, como os outros, ao
significante do comando. .
A descrição feita por Schreber da alimentação forÇada é particular-
mente dramática; bem como, no Capítulo XI, sua conseqüência quanto
ao esvaziamento de todos os órgãos do interior de seu corpo. Ele diz,
além disso, que se trata de um fenômeno significante, no qual os -raios
(portadores deste significante) só se oeupam, essencialmente, de provo-
car devastações no corpo de um dado indivíduo· .. o que ele opõe ainda
à ·ordem do universo". Passamos por cima da descrição da perda do
cor!lção, dos pulmões. do estôma1o, para sublinhar a ausência, topolo-
gicamente essencial, do furo do corpo, da boc::a ao ânus, e particular-
mente da borda erógena deste, pois que, como diz ele, •a difusão do
bolo .alimentar se fazia alravés de qualquer parte do corpo e as substân-
cias impuras do corpo eram reabsorvidas pelos raios·, ... ·como por uma
pequena cavilha através das paredes do ventre ...
O significante, com efeilo, designa apenas os furos: não os orifícios
do corpo - como demonstrou Marie-Françoise - mas a realidade do
mundo exterior como um furo. O •Jobo .. vem aí se confundir e colocar
o significante em exterioridade ao sujeito. Af está uma das falhas
específicas da psicose, onde não funciona a separação do que, como diz
Lacan, .. está dentro, isto ~. do que está dentro do saco de pele do que
está fora, todo o resto, pois normalmente faz-se a passagem, para o
sujeito, do que ele representa deste 'fora' que deve estar também no
interior". O significante aí é o provedor, a menos que, como para Robert,
seja o significante quem faz este exterior, como para Scbreber.
A fronteira entre o dentro e o fora, entre o conteúdo e o continente
definido por este saco de pele, é a superfície: ora, esta S\.lperfície, para
Robert, não era sua pele, mas como se sabe, seu avental, uma superfície
que lhe era imposta pelo Outro e que fazia barreira. real contra a intrusão
do exterior, à falta de .uma estrutura significante. Á retirada do avental
o entregou ao gozo, gozo hiper-masoquista que não era o do Outro, mas
o seu próprio. Era. também o de Schreber, cuja pele não era tanto um
saco quanlo um receptáculo de nervos femininos, realmente palpáveis
e fonte deste gozo ao qual ele estava condenado.
A saída de Robert desse impasse de conteúdo sem continente, isto é,
dos objetos para o Outro que não lhe permitiam ter um corpo seu, se fez
então por uma cena que aconteceu depois de minhas numerosas inter-
pretações, e de minhas palavras que passavam por minha voz, indi~ndo
minimamente o desejo do Oútro. Durante esta pequena cena, ele fundou
o continente por um redobramento, um pote cheio d• água dentro de uma
bacia cheia d'água, retirando a água de utn com uma toalha para jogá-la
na outra e me fazendo fazer o inverso. ·
É este o modelo que lhe expliquei numa ·construção em análise .. , a
13 de maio. Pude dizer-lhe que ele foi o conteúdo do corpo !batemo que
era seu continente, por intermédio do líquido amniótico. Robert me
seguiu com os significantes que dizia: .. Mamãe, Robert, água ... O que
era impossível na estrutura continente-conteúdo real, devido a uma
ausência de significante entre ele e o Outro, tomou-se, pelos próprios
significantes dessa cena, uma articulação possível d~ Robert e de seu
corpo no Outro. Este corpo cessou de ser vazio, não porque tivesse sido
32 a criança no discurso analítico
cheio, mas porque enchera o furo de um Outro, que cessou de ser uma
totalidade, não sem furo. O que contava, então, para Robcrt. não era
preencher o Outro, era que o Outro fosse furado.
Tratava-se pois da dialé tica de A e ~. isto é, aquela on.de o Outro é
afetado por uma perda. Em três significantes, .. Mamãe-Robert-ág .. , .. , é
evidentemente a água que constitui o objeto da perda. Mas não apenas
ela, porque durante toda a cena eu falei a Robert, e minha vo1., à qual
ele é tão sensível, atento, era bem o objeto que se destacava de mim, o
a no lugar do qual ele se alojava nonnalmente, por assim dizer. Ele se
alojava aí, não sem perder, ele mesmo, seu objeto de corpo que estava
em causa desde o início: seu pênis; mas, aqui, não era por mutilação,
era sem que ele falasse nisso, nem eu: ele simplesmente fez xixi sentado
na água, sem dizê-lo, e eu não lhe dissenada. Não era mais de alienação
que se tratava, mas de simbolização. Isso queria dizer que o furo não
estava mais ligado ao seu significante ·tobo" - na sessão de dois dias
depois, quando ele o diria pela última vez - mas à perda de seu pênis
enquanto objeto a. A dificuldade, sente-se bem, para dar conta da
experiência de Robert, era o intrincado de diferentes níveis, três ao
menos:
a) sua relação com o Outro, absoluto ou não, segundo a emergência
do objeto a que faz alteridade do Outro. Para Robert, e na psicose, era
o objeto pênis que estava em jogo;
b) a passagem da estrutura de corpo continente-<:onteúdo, própria à
psicose, a um corpo em superfície. Robert conseguiu isso pela cena do
batismo: fez escorrer uma mistura de água e leite sobre seu corpo nu,
até que o líquido pingasse de seu pênis, na sessão de 4 de junho;
c) o plano da alienação entre S1 e Sz, que constitui o maior problema
na psicose, na medida em que não existe a, isto é, nem encarnação do
sujeito nem alteridade do Outro, e que o significante toma seu lugar.
Fenômeno paradoxal onde o significante toma o lugar de um objeto a
fora do significante; daí a exterioridade: do significante na psicose.
·A linguagem desanimada do sujeito fala do sexo, diz Lacan. Fala
porque o corpo, isso goza, e quanto mais se dirige para o gozo mais é
reduzido o significante, a ponto de Lacan ter podido dizer que o
significante primordial S, seria o significante do gozo, antes talvez que
o a tenha caído e esse S1 faça par ordenado com S1, o saber do Outro
que passa, como sabemo~ por Robert, pelo meu dizer e a minha voz.
Sabe-se que é este o caminho da constituição do sujeito pelo significante
no lugar do Outro e que faz parar o gozo. É também a passagem, por
intermédio do significante, do gozo enigmático do Outro ao que resta
dele no gozo. fálico.
Mas Robert não estava af. Ele estava no ponto de queda do a~ em
setembro, sob a forma de seu avental, isto é, de seu envelope vindo
pontos nodais 33
do Outro, do qual ele se livrara, abandonando-o na bacia d'água ao fim
da sessão.
Encontro com a perda
Mas no dia seguinte, ele estava doente: esvaziamento do corpo, angina
c síncope. Era a afânise, a desaparição. Mas, seria ela ligada ao S2? Não
se podia dizer, também, que este esvaziamento do corpo tinha a ver com
um S1 no real do corpo? S1 do ser do sujeito, o significante sê-lo, ao
mesmo tempo Senhora e ·tobo", S2 de envelope do Outro, caíram da
mesma maneira. Não existe ai essa apreensão em massa, como diz
Lacan, da cadeia significante, primitiva, ·essa bolófrasc doS, e do S2 ? ..
Apenas a minha fala podia introduzir um S2•
Disse-lhe, em resumo, que ele se esvaziara de todo o mal, falei-llie
de sua boca c da fala que ele não podia dar, porque nada tinha recebido.
~Agora você vai poder dar a fala por essa boca que aprendeu a conhecer
pela minha fala! ... Ele me escutou com a maior calma e recehcu nele
cada palavra, sentou-se diante de mim, olhou-me intensamente, me
abraçou. Deixei-o muito calmo. Na manhã seguinte estava curado -
como um corpo que pode desaparecer na fala do Outro e não mais,
somaticamente, em S,.
Então, Rohert pôde agora fa~er um novo encontro com sua imagem
especular, em outubro. Foi num pequeno espelho de bolsa. Ai ele
encontrou a perda que recusara, depois de se ter nomeado -Robert"
'diante de sua imagem - mas a nomeação não és. -, procurando impor
sua marca de menino, poderíamos dizer sob a superfície deste espelho ...
em vão. Assim, ele me censurou por faze -lo menina, como se sentia
obrigado a ser no passado. ·senhora" era seu S , e englobava um S2
suposto, não suposto-saber, mas suposto-ser. O S2, pela minha voz, póde
fazer os. cair para fora do corpo, como objeto caído, como a. OS, no
lugar do objeto a é específico da psicose. O S2 lambém é uma queda,
mas a do sujeito pela fala do Outro - o analista -,a ponto de Robcrt,
nessa divisão entre S , e S2, poder reencontrar a memória, a do trauma
da antrotomia feita aos seis meses. É uma memória que está tipicamente
no Outro, pois um dia em novembro, enfiando o bico da mamadeira na
orelha, ele me pediu eltplicação para ela.
32 a criança no discurso analítico
cheio, mas porque enchera o furo de um Outro, que cessou de ser uma
totalidade, não sem furo. O que contava, então, para Robcrt. não era
preencher o Outro, era que o Outro fosse furado.
Tratava-se pois da dialé tica de A e ~. isto é, aquela on.de o Outro é
afetado por uma perda. Em três significantes, .. Mamãe-Robert-ág .. , .. , é
evidentemente a água que constitui o objeto da perda. Mas não apenas
ela, porque durante toda a cena eu falei a Robert, e minha vo1., à qual
ele é tão sensível, atento, era bem o objeto que se destacava de mim, o
a no lugar do qual ele se alojava nonnalmente, por assim dizer. Ele se
alojava aí, não sem perder, ele mesmo, seu objeto de corpo que estava
em causa desde o início: seu pênis; mas, aqui, não era por mutilação,
era sem que ele falasse nisso, nem eu: ele simplesmente fez xixi sentado
na água, sem dizê-lo, e eu não lhe disse nada. Não era mais de alienação
que se tratava, mas de simbolização. Isso queria dizer que o furo não
estava mais ligado ao seu significante ·tobo" - na sessão de dois dias
depois, quando ele o diria pela última vez - mas à perda de seu pênis
enquanto objeto a. A dificuldade, sente-se bem, para dar conta da
experiência de Robert, era o intrincado de diferentes níveis, três ao
menos:
a) sua relação com o Outro, absoluto ou não, segundo a emergência
do objeto a que faz alteridade do Outro. Para Robert, e na psicose, era
o objeto pênis que estava em jogo;
b) a passagem da estrutura de corpo continente-<:onteúdo, própria à
psicose, a um corpo em superfície. Robert conseguiu isso pela cena do
batismo: fez escorrer uma mistura de água e leite sobre seu corpo nu,
até que o líquido pingasse de seu pênis, na sessão de 4 de junho;
c) o plano da alienação entre S1 e Sz, que constitui o maior problema
na psicose, na medida em que não existe a, isto é, nem encarnação do
sujeito nem alteridade do Outro, e que o significante toma seu lugar.
Fenômeno paradoxal onde o significante toma o lugar de um objeto a
fora do significante; daí a exterioridade: do significante na psicose.
·A linguagem desanimada do sujeito fala do sexo, diz Lacan. Fala
porque o corpo, isso goza, e quanto mais se dirige para o gozo mais é
reduzido o significante, a ponto de Lacan ter podido dizer que o
significante primordial S, seria o significante do gozo, antes talvez que
o a tenha caído e esse S1 faça par ordenado com S1, o saber do Outro
que passa, como sabemo~ por Robert, pelo meu dizer e a minha voz.
Sabe-se que é este o caminho da constituição do sujeito pelo significante
no lugar do Outro e que faz parar o gozo. É também a passagem, por
intermédio do significante, do gozo enigmático do Outro ao que resta
dele no gozo. fálico.
Mas Robert não estava af. Ele estava no ponto de queda do a~ em
setembro, sob a forma de seu avental, isto é, de seu envelope vindo
pontos nodais 33
do Outro, do qual ele se livrara, abandonando-o na bacia d'água ao fim
da sessão.
Encontro com a perda
Mas no dia seguinte, ele estava doente: esvaziamento do corpo, angina
c síncope. Era a afânise, a desaparição. Mas, seria ela ligada ao S2? Não
se podia dizer, também, que este esvaziamento do corpo tinha a ver com
um S1 no real do corpo? S1 do ser do sujeito, o significante sê-lo, ao
mesmo tempo Senhora e ·tobo", S2 de envelope do Outro, caíram da
mesma maneira. Não existe ai essa apreensão em massa, como diz
Lacan, da cadeia significante, primitiva, ·essa bolófrasc doS, e do S2 ? ..
Apenas a minha fala podia introduzir um S2•
Disse-lhe, em resumo, que ele se esvaziara de todo o mal, falei-llie
de sua boca c da fala que ele não podia dar, porque nada tinha recebido.
~Agora você vai poder dar a fala por essa boca que aprendeu a conhecer
pela minha fala! ... Ele me escutou com a maior calma e recehcu nelecada palavra, sentou-se diante de mim, olhou-me intensamente, me
abraçou. Deixei-o muito calmo. Na manhã seguinte estava curado -
como um corpo que pode desaparecer na fala do Outro e não mais,
somaticamente, em S,.
Então, Rohert pôde agora fa~er um novo encontro com sua imagem
especular, em outubro. Foi num pequeno espelho de bolsa. Ai ele
encontrou a perda que recusara, depois de se ter nomeado -Robert"
'diante de sua imagem - mas a nomeação não és. -, procurando impor
sua marca de menino, poderíamos dizer sob a superfície deste espelho ...
em vão. Assim, ele me censurou por faze -lo menina, como se sentia
obrigado a ser no passado. ·senhora" era seu S , e englobava um S2
suposto, não suposto-saber, mas suposto-ser. O S2, pela minha voz, póde
fazer os. cair para fora do corpo, como objeto caído, como a. OS, no
lugar do objeto a é específico da psicose. O S2 lambém é uma queda,
mas a do sujeito pela fala do Outro - o analista -,a ponto de Robcrt,
nessa divisão entre S , e S2, poder reencontrar a memória, a do trauma
da antrotomia feita aos seis meses. É uma memória que está tipicamente
no Outro, pois um dia em novembro, enfiando o bico da mamadeira na
orelha, ele me pediu eltplicação para ela.
O corpo do Outro:
do significante ao objeto a e de volta
Rosine Lefort
Ü extra-simbólico da psicose com predominância do real não deixa de
fazer com que rateie o sujeito do real.
Vamos partir do Um unificador, que já apontamos como o único
conhecido pelo psicótico, na ausência do Um contável que faz falta -
a-ser.
O valor Um, diz Lacan na Lógica do Fantasma, •é o pensamento do
Um d.o par da ordem do Outro matemo ... O Um representa o ato sexual no
nível do corpo; quando este Um faz irrupção no campo do Outro, é no nivel
do corpo. O Outro é o corpo." É preciso que · o corpo caia em pedaços .. ,
este corpo despedaçado •nas origens subjetivas, que rompe a bela
unidade do império do corpo matemo".
Acompanhando Nadia de um lado e a Criança do Lobo por outro lado.
poderemos explorar, a partir do banho de linguagem em que está todo
·sujeito, psicótico ou não, o modo pelo qual o sujeito se insere na cadeia
significante para fazer discurso, ou permanecer fora do discurso, e como
isso faz corpo ou não.
Desdohrame nto
O Um unificador tem uma forma significante, é a bolófrase, ou apreen-
são em massa no Outro dos significantes primordiais S, e·S1• Esse Outro
do significante gelificado é o do banho de linguagem, isto é, o do
significante em seu caráter sincrônioo; é só com o corte que o signifi-
cante do Outro vai fazer cadtia e dar seu caráter diacrônico ao discurso.
Ora, o que faz corte é o próprio significante, e disso resulta um resto, o
objeto a que cai para fora do significante: ele cai no intervalo dos dois
significantes do par primordial, fazendo efeito de encarnação, isto é, de
real, do sujeito e do Outro.
Este objeto a, enquanto separável do Outro, se não é alcançável pelo
sujeiLo - que fica reduzido normalmente ao circuito pulsional -, t.ão
deixa de fazer corpo para esse Outro. Se ele deixa de cair, com efeito -
34
pontos nodais 35
e portanto, deixa de ficar na exterioridade tanto do sujeito quanto do
Outro quando cair - , se ele nã o caí, então é todo o signifi cante do
Outro, reduzido a ser apenas significante, que cai c co loca o psicótico
nessa posição específica: o significante na exterioridade, exteriori-
dade que normalmente é o lugar do objeto-causa. É o que se encontra
na holófrase.
Esse caráter holofrásico do significante, tão fixo na psicose, como
em Robert- mas também na debilidade e na psicossomática -,tem no
entanto uma história no advento do sujeito nonnal, como nos mostra
Nadla.
Nadia encontrou seu primeiro significante holofrásico mamãe em 5
de dezembro. Sabe-se sob que condições: foi a partir do objeto portado
pelo Outro, quando ela crispava as mãos sobre meu peito com ar tenso.
que se deu a jaculação desse primeiro significante mamãe, o que aliv iara
sua tensão e acarretara uma cena de ternura nos braços do Ou tro. O
significante que surgiu é aquele que designa o Outro: mamãe, e não o
do objeto, ao qual ela renunciara e que caiu.
Ela não deixou de alucinar, cinco dias mais tarde, a 10 de dezembro,
diante da imagem de uma criança que um adulto tinha no colo (ver
Nascimento do Outro), o objeto de seu desejo que caiu dessa ve1. por
causa do significante Nadia!, do meu apelo, tanto mais que o caráter
alucinado do objeto facilitava o infcio de sua queda.
Os dois signíficantes mamãe e Nadia introduziram um intervalo na
holófrase inicial do mamãe, com um efeit9 de separação e de repartição
entre o significante unário S, que é seu mamãe, e o significante binário
S2, que é meu Nadia , com a queda do objeto a para fora do significante.
Esta inversão, aparentemente paradoxal, estava li gada ao transitivis-
mo inicial que tinha lugar aqui no significante, depois de ela ter mos-
trado esse transitivismo no real, quando vomitou depois que eu comi
um pedaço do biscoito que ela me estendia, transitivismo que só irá
desaparecer com o espelho.
Foi justamente nesse lugar de objeto a que ela se alojou enquanto
corpo, isto é, ela se encarnou aí e se propôs metonimicamente a mim,
es tendendo-me seu pé. Tomou, assim, o lugar de um semblante de
objeto a, causa do meu desejo.
Esse apelo, Nadia, que faz S1 é o do saber do Outro, que se faz
também comando, ordem quando lhe digo que ela não estava ali onde
se comprazia, no objeto alucinado, mas sim ali onde eu falava. Meu
discurso, certamente, fez supereu.
Os elementos de um discurso quadrípode estão, pois, situados: S., SH
a, $. De acordo com os quatro discursos e sua estrutura, o que aparece
aqui como agente é meu apelo, Nadia, que faz ao mesmo tempo saber-Sl,
O corpo do Outro:
do significante ao objeto a e de volta
Rosine Lefort
Ü extra-simbólico da psicose com predominância do real não deixa de
fazer com que rateie o sujeito do real.
Vamos partir do Um unificador, que já apontamos como o único
conhecido pelo psicótico, na ausência do Um contável que faz falta -
a-ser.
O valor Um, diz Lacan na Lógica do Fantasma, •é o pensamento do
Um d.o par da ordem do Outro matemo ... O Um representa o ato sexual no
nível do corpo; quando este Um faz irrupção no campo do Outro, é no nivel
do corpo. O Outro é o corpo." É preciso que · o corpo caia em pedaços .. ,
este corpo despedaçado •nas origens subjetivas, que rompe a bela
unidade do império do corpo matemo".
Acompanhando Nadia de um lado e a Criança do Lobo por outro lado.
poderemos explorar, a partir do banho de linguagem em que está todo
·sujeito, psicótico ou não, o modo pelo qual o sujeito se insere na cadeia
significante para fazer discurso, ou permanecer fora do discurso, e como
isso faz corpo ou não.
Desdohrame nto
O Um unificador tem uma forma significante, é a bolófrase, ou apreen-
são em massa no Outro dos significantes primordiais S, e·S1• Esse Outro
do significante gelificado é o do banho de linguagem, isto é, o do
significante em seu caráter sincrônioo; é só com o corte que o signifi-
cante do Outro vai fazer cadtia e dar seu caráter diacrônico ao discurso.
Ora, o que faz corte é o próprio significante, e disso resulta um resto, o
objeto a que cai para fora do significante: ele cai no intervalo dos dois
significantes do par primordial, fazendo efeito de encarnação, isto é, de
real, do sujeito e do Outro.
Este objeto a, enquanto separável do Outro, se não é alcançável pelo
sujeiLo - que fica reduzido normalmente ao circuito pulsional -, t.ão
deixa de fazer corpo para esse Outro. Se ele deixa de cair, com efeito -
34
pontos nodais 35
e portanto, deixa de ficar na exterioridade tanto do sujeito quanto do
Outro quando cair - , se ele nã o caí, então é todo o signifi cante do
Outro, reduzido a ser apenas significante, que cai c co loca o psicótico
nessa posição específica: o significante na exterioridade, exteriori-
dade que normalmente é o lugar do objeto-causa.É o que se encontra
na holófrase.
Esse caráter holofrásico do significante, tão fixo na psicose, como
em Robert- mas também na debilidade e na psicossomática -,tem no
entanto uma história no advento do sujeito nonnal, como nos mostra
Nadla.
Nadia encontrou seu primeiro significante holofrásico mamãe em 5
de dezembro. Sabe-se sob que condições: foi a partir do objeto portado
pelo Outro, quando ela crispava as mãos sobre meu peito com ar tenso.
que se deu a jaculação desse primeiro significante mamãe, o que aliv iara
sua tensão e acarretara uma cena de ternura nos braços do Ou tro. O
significante que surgiu é aquele que designa o Outro: mamãe, e não o
do objeto, ao qual ela renunciara e que caiu.
Ela não deixou de alucinar, cinco dias mais tarde, a 10 de dezembro,
diante da imagem de uma criança que um adulto tinha no colo (ver
Nascimento do Outro), o objeto de seu desejo que caiu dessa ve1. por
causa do significante Nadia!, do meu apelo, tanto mais que o caráter
alucinado do objeto facilitava o infcio de sua queda.
Os dois signíficantes mamãe e Nadia introduziram um intervalo na
holófrase inicial do mamãe, com um efeit9 de separação e de repartição
entre o significante unário S, que é seu mamãe, e o significante binário
S2, que é meu Nadia , com a queda do objeto a para fora do significante.
Esta inversão, aparentemente paradoxal, estava li gada ao transitivis-
mo inicial que tinha lugar aqui no significante, depois de ela ter mos-
trado esse transitivismo no real, quando vomitou depois que eu comi
um pedaço do biscoito que ela me estendia, transitivismo que só irá
desaparecer com o espelho.
Foi justamente nesse lugar de objeto a que ela se alojou enquanto
corpo, isto é, ela se encarnou aí e se propôs metonimicamente a mim,
es tendendo-me seu pé. Tomou, assim, o lugar de um semblante de
objeto a, causa do meu desejo.
Esse apelo, Nadia, que faz S1 é o do saber do Outro, que se faz
também comando, ordem quando lhe digo que ela não estava ali onde
se comprazia, no objeto alucinado, mas sim ali onde eu falava. Meu
discurso, certamente, fez supereu.
Os elementos de um discurso quadrípode estão, pois, situados: S., SH
a, $. De acordo com os quatro discursos e sua estrutura, o que aparece
aqui como agente é meu apelo, Nadia, que faz ao mesmo tempo saber-Sl,
38 a criança no diSCllr$0 anatilico
e a verdade do significante·S,, que Nadia lançou em min.M direção, seu
mamãe.
Temos, a partir dai, a parte esquerda de um discurso ~~· que se veri-
fica ser o discurso universitário, coisa extraordinária! A parte direita j
aparece também congruente: o a é o objeto que cai, não importa 9uaT,
já que é a imagem da outra criança colada ao adulto. Quanto ao $, ele
é bem a produçio.divisão que depende dos três primeiros elementos: o
significante binário do Outro, o significante unárío que cai, assim como
cai o objeto, com uma conotação, a de impotência para voltar de $ ao
significante·mestre, o que o faria cair no real e o excluiria do simbólico;
veremos isso com Robert.
Notemos o fato essencial de que a emergência do discurso se faz em
duas partes que fazem redobramento, um redobramento inerente à
estrutura do ato, meu ato analhico, que faz também desdobramento do
significante bolofrásico.
Seu S,-verdade, sob meu S2-agente dá o sujeito dividido-$ sob o
objeto a.
Mudança de discurso
Mas sabe-se que a holófrase só se resolve com o encontro do espelho .
Nadia nos provou isso, quando do primeiro espelho, quando, mais além
do recorte unitário de seu corpo ela só pôde se afastar daquilo que
encontrara ali, ou melhor, daquiJo que ela não encontrara, isto é, o furo
no lugar do objeto não especulari:l.ável e que caiu, ou seja, um boneco
marinheiro que ela tinha na mão c do qual não via a imagem.
Se não estava diante do espelho, no júbilo do reconhecimento de sua
imagem pelo Outro, enquanto eu-ideal - mas antes na vertente daquilo
que viria a ser seu -eu .. (je) - ela logo se refugiava em meus braços,
pois para ela o corpo do Outro existia. Ele não existia como uma
totalidade, onde qualquer transitivismo poderia protegê·la da perda que
acabava de encontrar no espelho: ele existia como Outro do desejo, isto
é, como lo. afetado por uma perda. Então, refugiando-se em meus braços,
ela se propunha como objeto dessa perda que causaria meu desejo.
Ela só fez confirmar o que mostrou.logo antes do espelho quando,
deixando-se cair a meus pés, quis que eu a segurasse. A existência de
corpos tanto do sujeito quanto do Outro é função de a enquanto caído.
É no real que isso se passa. ·
Ao longo dos espelhos, ela ia marcar o Outro e o mundo por essa
perda, assumindo o lugar de objeto a, objeto causa do desejo do Outro.
Era uma mudança de discurso, era o amor de transferência no qual.Í
se expandia, em i(a). Ela estava, então, no discurso analítico: s; ;:::
51
.
pontos nodais 37
Ali e la era o agente a para um ~($), e o significante binário S1 , o saber
do Outro, estava em posição de verdade. Quanto ao seu significante·
mestre S, ele era retomado progressivamente pela transformação da
holófrase inicial mamãe que deixaria traços nos significantes de Nadia
durante três meses. ·
Nadia, com efeito, falava bastante e escandia todas as suas sessões
com os significantes a-ga, a-té, &·puro, a-ca, a-pa, para terminar, no fim
de cada período, por -pa-pa-pa .. e -a-pum-ca-da- . Como não ver que
todos esses significantes comportam a raiz única em a, extraído do
·mamãe- primitivo, representante daquilo que ela queria tomar do
Outro e que' só tomava em seu significante, no insabido do inconsciente
que passava ao ato.
A holófrase não dissolvida
Na psicose, veremos que o trajeto é muito mais longo e esbarra no corpo
do Outro. O Senhora! que ele gritava todo o tempo, como uma interjei-
ção, interjeição-holó.frase, mostra que o s. e o s2 do par inicial se
achavam reunidos nesse significante que não fez, ahsolutamenlc, apelo
ao Outro, que ele não dirigiu a ninguém: em outras palavras, esse
significante do Outro absoluto, ele o era, esse significante se confunde
com o real do seu ser- .. o significante sê-lo-. Nesse primeiro tempo,
ele era completamente reabsorvido nessa holófrasc. Como poderia ele
escapar então ao significante do Outro que fazia comando - como meu
discurso para Nadia - mas que aqui era supereu absoluto na ausência
do objeto caído entre esse Outro e ele, que faria separação c lhe daria
um corpo, dele, certamente, mas do Outro tamhém?
O corpo do Outro permaneceu ausente quando o significante mamãe
substituiu Senhora, pois Roberl só o dirigiu, pateticamente, ao vazio no
alto da escada.
Em contrapartida, seu encontro com o objeto·mamadeira, durante as
três primeiras sessões de sua análise, não suscitou nenhum significante
que se dirigisse ao Outro, e o deixasse confrontado com o impossível
do objeto: ele não quis ver que gostaria de tomá-lo, o que lhe disse, e
na mesma noite tentou cortar o pênis com uma tesoura. Cortava nele o
que não podia tomar do Outro.
Se o aparecimento da mamadeira acarretara um corte no real de seu
corpo, esse objeto não tinha resposta no significante, onde ele não
nomeava nem o objeto nem o Outro. Ele se voltava, então, a 6 de
fevereiro, para um produto do corpo, do qual ele tinha o significante
-xixi" - e que estava ligado ao único sintoma de Robert: a enurese -
para significar que era o seu objeto narcísico de corpo. Era o Outro,
38 a criança no diSCllr$0 anatilico
e a verdade do significante·S,, que Nadia lançou em min.M direção, seu
mamãe.
Temos, a partir dai, a parte esquerda de um discurso ~~· que se veri-
fica ser o discurso universitário, coisa extraordinária! A parte direita j
aparece também congruente: o a é o objeto que cai, não importa 9uaT,
já que é a imagem da outra criança colada ao adulto. Quanto ao $, ele
é bem a produçio.divisão que depende dos três primeiros elementos: o
significante binário do Outro, o significante unárío que cai, assim como
cai o objeto,com uma conotação, a de impotência para voltar de $ ao
significante·mestre, o que o faria cair no real e o excluiria do simbólico;
veremos isso com Robert.
Notemos o fato essencial de que a emergência do discurso se faz em
duas partes que fazem redobramento, um redobramento inerente à
estrutura do ato, meu ato analhico, que faz também desdobramento do
significante bolofrásico.
Seu S,-verdade, sob meu S2-agente dá o sujeito dividido-$ sob o
objeto a.
Mudança de discurso
Mas sabe-se que a holófrase só se resolve com o encontro do espelho .
Nadia nos provou isso, quando do primeiro espelho, quando, mais além
do recorte unitário de seu corpo ela só pôde se afastar daquilo que
encontrara ali, ou melhor, daquiJo que ela não encontrara, isto é, o furo
no lugar do objeto não especulari:l.ável e que caiu, ou seja, um boneco
marinheiro que ela tinha na mão c do qual não via a imagem.
Se não estava diante do espelho, no júbilo do reconhecimento de sua
imagem pelo Outro, enquanto eu-ideal - mas antes na vertente daquilo
que viria a ser seu -eu .. (je) - ela logo se refugiava em meus braços,
pois para ela o corpo do Outro existia. Ele não existia como uma
totalidade, onde qualquer transitivismo poderia protegê·la da perda que
acabava de encontrar no espelho: ele existia como Outro do desejo, isto
é, como lo. afetado por uma perda. Então, refugiando-se em meus braços,
ela se propunha como objeto dessa perda que causaria meu desejo.
Ela só fez confirmar o que mostrou.logo antes do espelho quando,
deixando-se cair a meus pés, quis que eu a segurasse. A existência de
corpos tanto do sujeito quanto do Outro é função de a enquanto caído.
É no real que isso se passa. ·
Ao longo dos espelhos, ela ia marcar o Outro e o mundo por essa
perda, assumindo o lugar de objeto a, objeto causa do desejo do Outro.
Era uma mudança de discurso, era o amor de transferência no qual.Í
se expandia, em i(a). Ela estava, então, no discurso analítico: s; ;:::
51
.
pontos nodais 37
Ali e la era o agente a para um ~($), e o significante binário S1 , o saber
do Outro, estava em posição de verdade. Quanto ao seu significante·
mestre S, ele era retomado progressivamente pela transformação da
holófrase inicial mamãe que deixaria traços nos significantes de Nadia
durante três meses. ·
Nadia, com efeito, falava bastante e escandia todas as suas sessões
com os significantes a-ga, a-té, &·puro, a-ca, a-pa, para terminar, no fim
de cada período, por -pa-pa-pa .. e -a-pum-ca-da- . Como não ver que
todos esses significantes comportam a raiz única em a, extraído do
·mamãe- primitivo, representante daquilo que ela queria tomar do
Outro e que' só tomava em seu significante, no insabido do inconsciente
que passava ao ato.
A holófrase não dissolvida
Na psicose, veremos que o trajeto é muito mais longo e esbarra no corpo
do Outro. O Senhora! que ele gritava todo o tempo, como uma interjei-
ção, interjeição-holó.frase, mostra que o s. e o s2 do par inicial se
achavam reunidos nesse significante que não fez, ahsolutamenlc, apelo
ao Outro, que ele não dirigiu a ninguém: em outras palavras, esse
significante do Outro absoluto, ele o era, esse significante se confunde
com o real do seu ser- .. o significante sê-lo-. Nesse primeiro tempo,
ele era completamente reabsorvido nessa holófrasc. Como poderia ele
escapar então ao significante do Outro que fazia comando - como meu
discurso para Nadia - mas que aqui era supereu absoluto na ausência
do objeto caído entre esse Outro e ele, que faria separação c lhe daria
um corpo, dele, certamente, mas do Outro tamhém?
O corpo do Outro permaneceu ausente quando o significante mamãe
substituiu Senhora, pois Roberl só o dirigiu, pateticamente, ao vazio no
alto da escada.
Em contrapartida, seu encontro com o objeto·mamadeira, durante as
três primeiras sessões de sua análise, não suscitou nenhum significante
que se dirigisse ao Outro, e o deixasse confrontado com o impossível
do objeto: ele não quis ver que gostaria de tomá-lo, o que lhe disse, e
na mesma noite tentou cortar o pênis com uma tesoura. Cortava nele o
que não podia tomar do Outro.
Se o aparecimento da mamadeira acarretara um corte no real de seu
corpo, esse objeto não tinha resposta no significante, onde ele não
nomeava nem o objeto nem o Outro. Ele se voltava, então, a 6 de
fevereiro, para um produto do corpo, do qual ele tinha o significante
-xixi" - e que estava ligado ao único sintoma de Robert: a enurese -
para significar que era o seu objeto narcísico de corpo. Era o Outro,
38 a criança no discurso analítico
então, que era marcado por um furo, o furo dos WC que ele mostrava
aterrorizado, gritando lobo. Este significante vinha no lugar do signifi-
cante do Outro, o mamãe de Nadia, mas sem o efeito pacificador
deste; com efeito, estava ligado ao gozo e tomou o lugar de a, a ponto
de Robert chegar mais tarde, em 5 de março, a encarnar esse signifi-
ca nte num estado de furor destrutivo, assinalando o aniquilamento
do Outro.
Assim, não encontrando em seu Outro o lugar do a - que faria
desse Outro o Outro barrado I/. do desejo - o psicótico o introduz à
força, como Robcrt o evidencia, sob a forma de um furo real que não
perfura o Outro, mas, conforme o -tudo ou nada~, toma seu lugar e
o aniquila.
É o que Lacan observa também em Schrebcr (Seminário lii, p. 119)
a propósito das frases interrompidas: -Há, na relação do sujeito com a
linguagem ... um perigo, perpetuamente sabido, de que toda essa fantas-
magoria se reduza a uma unidade (o lugar do a para Robert) que
aniquila, não a sua existéncia, mas a de Deus, que é essencialmente
linguagem. Schreber o escreve fonnalmentc: os raios devem falar . É
preciso que a todo instante se produzam fenômenos de diversão para
que Deus não seja reabsorvido na existência central do sujeito ...
É assim, como diz Schreber, que Deus está em perigo se o psicótico
assumir o lugar do a que causaria seu desejo, e Robcrt veio nos mostrar
que a existência do Outro está ligada à holófrase que faz Um c que, se
se dissolver, põe em perigo a própria exis tência do Outro .
Quando, com efeito, ele viu seu próprio reflexo na vidraça, em 3 de.
março, não era de sua imagem com uma perda que se tratava, mas do
encontro com um furo que ele escandia, com seu significante do furo:
o lobo.
-o que sustenta a imagem é um resto" diz Lacan, um resto que faz
fu ro na própria estrutura da imagem especular e que a funda por esse
real. Robert só apreendeu o furo rear específico desse objeto e, em
conseqüência, ficou sem nenhum recurso ao real do corpo do Outro,
para o qual não se voltava. O único recurso que lhe restava era o seu
significante do furo, tanto que fui obrigado a lhe d izer que ele não estava
ali onde se via, mas ao meu lado, realmente. O real do corpo não era o
do Outro do !f. barrado do desejo com uma perda que fazia furo, onde o
sujeito podia vir se instalar, mas o do próprio sujeito, corpo que fui
obrigada a apoiar para que ele não mergulhasse no furo do seu signifi-
cante lobo.
Então não é um resto, o a não especularizável, aquele que faz com
que a imagem se sustente, que está em causa, é o significante do furo,
ou ainda, como nos disse uma outra criança psicótica, o que ela via, só
diante do espelho, não era sua imagem, mas a de sua mãe, compensando
pontos nodais 39
assim o vazio do corpo do Outro, desta vez não por um significante, mas
pela imagem transitiva desse Outro que ele via no espelho, à fa lta de
poder se sentir visto.
Foi bem a esse ponto que chegou Schreber diante do es pelho, quando
se esforçou para realizar a imagem de uma mulher com seus atavios,
onde ele se comprazia em seu próprio olhar, esperando oferecê-lo ao
olhar dos outros. Era a imagem de seu Outro primordia l, de sua mãe,
que. ele perdera em seu naufrágio.
As vezes, também, é a atinnação do Um unificador que vimos que
aparece, como para esse psicótico que griiB papai-mamãe.' diante de sua
imagem, na qual seu própriocorpo, enquanto corpo do Outro, escorre
no significante faltoso da cena primitiva.
Curto-circuito
Durante sua análise, Robert não deixou de dispendcr a maior energia
para tentar instaurar um objeto entre ele e o Outro e dissolver, assim, a
holófrase. Esse foi também meu objetivo no meu ato analítico da
construção intra-uterina que fiz para ele a 13 de maio. Tratava-se de
fazer Robert sair dessa necessidade de ter que dar todos os objetos-pro-
dutos do seu corpo como sendo devidos ao Outro absoluto e dar a si
próprio o lugar de objeto a, causa do desejo do Outro.
Para fazer isso, tendo seguido Rohert passo a passo em sua busca, fiz
nesse dia a referência ao exterior e ao interior ao mesmo tempo, isto é,
à extimidade do objeto com relação ao Outro. Em outras palavras,
perfurei, então, essa totalidade do Outro sem objeto destacável.
É, de fato, como diz Lacan, -nesse exterior, antes de toda inte-
riorizaçào, é lá que se s itua o a enquanto causa, antes que o sujeito
o apreenda em x no lugar do Outro", e acrescenta: .. na sua forma
especular".
O objeto, nesse dia, era a água que Robert fez circular num circuito
fechado, fazendo-me participar, entre dois recipientes cheios: o pote
cheio d'água dentro da bacia cheia d'água, onde a água recobria tanto
a parede interior quanto a parede exterior do pote . Então, -o objeto a
situar no exterior junta-se a alguma coisa do interior do corpo", diz
Lacan. É a condição irredutível para que o objeto atinja a dimensão
pulsional.
Esta trajetória, por mais que seja real, isto é, do registro do objeto
enquanto fora do significante, nem por isso deixa de se traduzir nos três
significantes de Robert que escandem a sessão: Mamãe, Rt>bert, água.
A água-objeto perfurando o Outro-mamãe faz a separação entre os dois,
tanto para o objeto a quanto para o significante-nome próprio -Robert-
38 a criança no discurso analítico
então, que era marcado por um furo, o furo dos WC que ele mostrava
aterrorizado, gritando lobo. Este significante vinha no lugar do signifi-
cante do Outro, o mamãe de Nadia, mas sem o efeito pacificador
deste; com efeito, estava ligado ao gozo e tomou o lugar de a, a ponto
de Robert chegar mais tarde, em 5 de março, a encarnar esse signifi-
ca nte num estado de furor destrutivo, assinalando o aniquilamento
do Outro.
Assim, não encontrando em seu Outro o lugar do a - que faria
desse Outro o Outro barrado I/. do desejo - o psicótico o introduz à
força, como Robcrt o evidencia, sob a forma de um furo real que não
perfura o Outro, mas, conforme o -tudo ou nada~, toma seu lugar e
o aniquila.
É o que Lacan observa também em Schrebcr (Seminário lii, p. 119)
a propósito das frases interrompidas: -Há, na relação do sujeito com a
linguagem ... um perigo, perpetuamente sabido, de que toda essa fantas-
magoria se reduza a uma unidade (o lugar do a para Robert) que
aniquila, não a sua existéncia, mas a de Deus, que é essencialmente
linguagem. Schreber o escreve fonnalmentc: os raios devem falar . É
preciso que a todo instante se produzam fenômenos de diversão para
que Deus não seja reabsorvido na existência central do sujeito ...
É assim, como diz Schreber, que Deus está em perigo se o psicótico
assumir o lugar do a que causaria seu desejo, e Robcrt veio nos mostrar
que a existência do Outro está ligada à holófrase que faz Um c que, se
se dissolver, põe em perigo a própria exis tência do Outro .
Quando, com efeito, ele viu seu próprio reflexo na vidraça, em 3 de.
março, não era de sua imagem com uma perda que se tratava, mas do
encontro com um furo que ele escandia, com seu significante do furo:
o lobo.
-o que sustenta a imagem é um resto" diz Lacan, um resto que faz
fu ro na própria estrutura da imagem especular e que a funda por esse
real. Robert só apreendeu o furo rear específico desse objeto e, em
conseqüência, ficou sem nenhum recurso ao real do corpo do Outro,
para o qual não se voltava. O único recurso que lhe restava era o seu
significante do furo, tanto que fui obrigado a lhe d izer que ele não estava
ali onde se via, mas ao meu lado, realmente. O real do corpo não era o
do Outro do !f. barrado do desejo com uma perda que fazia furo, onde o
sujeito podia vir se instalar, mas o do próprio sujeito, corpo que fui
obrigada a apoiar para que ele não mergulhasse no furo do seu signifi-
cante lobo.
Então não é um resto, o a não especularizável, aquele que faz com
que a imagem se sustente, que está em causa, é o significante do furo,
ou ainda, como nos disse uma outra criança psicótica, o que ela via, só
diante do espelho, não era sua imagem, mas a de sua mãe, compensando
pontos nodais 39
assim o vazio do corpo do Outro, desta vez não por um significante, mas
pela imagem transitiva desse Outro que ele via no espelho, à fa lta de
poder se sentir visto.
Foi bem a esse ponto que chegou Schreber diante do es pelho, quando
se esforçou para realizar a imagem de uma mulher com seus atavios,
onde ele se comprazia em seu próprio olhar, esperando oferecê-lo ao
olhar dos outros. Era a imagem de seu Outro primordia l, de sua mãe,
que. ele perdera em seu naufrágio.
As vezes, também, é a atinnação do Um unificador que vimos que
aparece, como para esse psicótico que griiB papai-mamãe.' diante de sua
imagem, na qual seu próprio corpo, enquanto corpo do Outro, escorre
no significante faltoso da cena primitiva.
Curto-circuito
Durante sua análise, Robert não deixou de dispendcr a maior energia
para tentar instaurar um objeto entre ele e o Outro e dissolver, assim, a
holófrase. Esse foi também meu objetivo no meu ato analítico da
construção intra-uterina que fiz para ele a 13 de maio. Tratava-se de
fazer Robert sair dessa necessidade de ter que dar todos os objetos-pro-
dutos do seu corpo como sendo devidos ao Outro absoluto e dar a si
próprio o lugar de objeto a, causa do desejo do Outro.
Para fazer isso, tendo seguido Rohert passo a passo em sua busca, fiz
nesse dia a referência ao exterior e ao interior ao mesmo tempo, isto é,
à extimidade do objeto com relação ao Outro. Em outras palavras,
perfurei, então, essa totalidade do Outro sem objeto destacável.
É, de fato, como diz Lacan, -nesse exterior, antes de toda inte-
riorizaçào, é lá que se s itua o a enquanto causa, antes que o sujeito
o apreenda em x no lugar do Outro", e acrescenta: .. na sua forma
especular".
O objeto, nesse dia, era a água que Robert fez circular num circuito
fechado, fazendo-me participar, entre dois recipientes cheios: o pote
cheio d'água dentro da bacia cheia d'água, onde a água recobria tanto
a parede interior quanto a parede exterior do pote . Então, -o objeto a
situar no exterior junta-se a alguma coisa do interior do corpo", diz
Lacan. É a condição irredutível para que o objeto atinja a dimensão
pulsional.
Esta trajetória, por mais que seja real, isto é, do registro do objeto
enquanto fora do significante, nem por isso deixa de se traduzir nos três
significantes de Robert que escandem a sessão: Mamãe, Rt>bert, água.
A água-objeto perfurando o Outro-mamãe faz a separação entre os dois,
tanto para o objeto a quanto para o significante-nome próprio -Robert-
a criança no discurso analítico
que veio designar seu lugar, articulando a necessidade da presença, ao
mesmo tempo, do real e do significante para que, vamos repetir, ~o
sujeito se apreenda em x no lugar do Outro- e passe do Um unificador
da holófrase ao Três da estrutura ternária, isto é, seu S 1 mamãe, meu
S2-água e seu nome, Robert, designando o lugar do objeto.
Faltava, no entanto, a essa estrutura, para assegurá-la, a verdadeira
queda do objeto a, tal como Nadia conheceu a 10 de dezembro, quando
perdeu, devido ao meu apelo Nadia, o objeto oral alucinado de seu
desejo que provocava seus movimentos de sucção. Já Robert, partindo
do significante, e não da queda do objeto, criou o objeto delirante a
partir da homofonia entre l'eau (águ~) e lolo (leite). Ele não chegou ao
recalque primordial mas a essa criaçãodelirante de um objeto que
conjuga os dois significantes e vem obturar o furo real do seu lobo -
mediante. o que ele se desembaraçou deste e só iria dizê-lo depois das
duas sessões seguintes: este objeto era a torneira-pênis que daria leite.
É a seu respeito que nossas reflexões nos conduziram à reconstrução
do fantasma na psicose. Mas quem di:t fantasma, diz superfície, e Robert
não faltou a isso, aperfeiçoando sua superfície de corpo esboçada a 13
de maio para chegar ao seu batismo de 4 de junho com uma virada: não
era mais o pênis que dava leite, mas o leite que, escoando~se ao longo
do seu pênis, ligava este ao corpo. Ele criou assim um portador-de-pê-
nis, Um-pai, que o confinnou na significação de ser Robert, pelo qual
ele se designara então.
Para Nadia, o significante fazia cair o objeto e a dirigia para o corpo
do Outro; para Robcrt, era o significante que promovia o objeto e o
colocava no lugar do corpo do Outro. Não é de espantar, então, como
se viu, que nessa confusão entre o real do objeto e o significante, a
afânisc, ou melhor, a imagem da alienação aparecesse um pouco mais
tarde na sua análise sob a forma psicossomática de um esvaziamento do
corpo: vômitos, diarréia, .síncope. Seu S, tomou o lugar do objeto a
cafdo. Se Robcrt se curou disso por minhas palavras que fizeram S2 ,
numa sessão ao pé de seu leito de doente, mesmo assim ficou submisso
a essa confusão entre S1 c a.
Se minha construção e minhas palavras puderam fazer função de S2,
Robert, no entanto, estav·a colocado em lugar de a, como agente.
Conttariamente a Nadia, que atingiu primeiro a estrutura do discurso
universitário, apoiando-se em meu saber para encontrar o lugar do
objeto a caído no Outro, Robert fez um curto-circuito e encontrou a
parte esquerda do discurso analítico, onde sua sede do desejo do Outro
o levou a tentar assurpir o lug!lr do objeto que era a sua causa.
. Robert, mais tarde, diante de um pequeno espelho, encontrou a perda
me rente à imagem especular, mas logo se apressou a querer preenchê-la,
tentando fazer um traço com seu lápis sobre a superficie do espelho, em
pontos nodais 41
vão. A perda se revelava no real: ele ficou desesperado. Faltou-lhe
para que essa perda fosse velada pelo significante do Outro, te;
conhecido, como Nadia, a alucinação escópica do objeto do Outro a
mamadeira. Só se tratava, para Robert, do seu objeto, fosse tê-lo: o
pênis, ou sê-lo, o a.
Para voltar à estrutura do discurso analítico,
i"""::ibilidode $
S7 :: S I
era impossível, para Robert, que o Outro fosse marcado por uma perda ,
descompletado: /. ou $. Se Robert queria apagar toda perda por seu
traço sobre a superfície do espelho, era impotente para isso. Pôde,
decerto, encontrar no espelho a imagem do Outro: ela era somente
simetria com a sua, e ele não se refugiou, como toda criança-no-espelho,
nos braços deste.
Em vez disso, censurou-me diante do espelho, por tê-lo privado do
objeto, que era então seu pênis, e depois foi buscar sapatos de mulher
para calçar, e ligou o pênis ã mamadeira, sugando o cabide de uma
cnfcnncira como uma mamadeira ridícula.
Foi só depois do quarro encontro com o espelho que e le pôde vir para
o meu colo e me fazer pela primeira vez a demanda oral da mamadeira.
Bebeu apenas dois goles no meu colo, mas já dera o passo decisivo de
ligar o objeto primordial ao Outro, e encontrou sua memória, mediante
a repetição, a memória do trauma da antrotomia: tomando a mamadeira
ele enfiou seu bico na orelha, olhou para mim c esperou de mim um;
ex plicação.
impotência e impossibilidade
Vamos nos aventurar no que indicamos quanto ao que vem fazer discur-
so, a entrada num discurso em Nadia e em Robert.
Se o inconsciente é o discurso do mestre, só se pode tratar disso
depois do Urverdrãngung . Vê-se isso em Nadia, que só entra no discur-
so pelo S2 do Outro e onde o objeto, antes de cair, aparece sobre a
diagonal a;a· imaginária do esquema L, antes que se institua, através
do Outro presentificado por sua fa la, o sujeito dividido entre os dois
p61os da outra diagonal do esquema L, a do inconsciente. ·
Discurso de um primeiro tempo, no qual, já dissemos, a impotência
se situa por um retorno em direção ao significante primordial S1, que
nào teria caído pelo intermédio de Su o que viria colocá-lo em lugar de
real c de objeto, como nos mostra Robert.
O desejo do Outro, a impotência do sujeito situam então o analisando
em lugar de causa do desejo do Outro; é o efei to da análise: -É apenas
a criança no discurso analítico
que veio designar seu lugar, articulando a necessidade da presença, ao
mesmo tempo, do real e do significante para que, vamos repetir, ~o
sujeito se apreenda em x no lugar do Outro- e passe do Um unificador
da holófrase ao Três da estrutura ternária, isto é, seu S 1 mamãe, meu
S2-água e seu nome, Robert, designando o lugar do objeto.
Faltava, no entanto, a essa estrutura, para assegurá-la, a verdadeira
queda do objeto a, tal como Nadia conheceu a 10 de dezembro, quando
perdeu, devido ao meu apelo Nadia, o objeto oral alucinado de seu
desejo que provocava seus movimentos de sucção. Já Robert, partindo
do significante, e não da queda do objeto, criou o objeto delirante a
partir da homofonia entre l'eau (águ~) e lolo (leite). Ele não chegou ao
recalque primordial mas a essa criação delirante de um objeto que
conjuga os dois significantes e vem obturar o furo real do seu lobo -
mediante. o que ele se desembaraçou deste e só iria dizê-lo depois das
duas sessões seguintes: este objeto era a torneira-pênis que daria leite.
É a seu respeito que nossas reflexões nos conduziram à reconstrução
do fantasma na psicose. Mas quem di:t fantasma, diz superfície, e Robert
não faltou a isso, aperfeiçoando sua superfície de corpo esboçada a 13
de maio para chegar ao seu batismo de 4 de junho com uma virada: não
era mais o pênis que dava leite, mas o leite que, escoando~se ao longo
do seu pênis, ligava este ao corpo. Ele criou assim um portador-de-pê-
nis, Um-pai, que o confinnou na significação de ser Robert, pelo qual
ele se designara então.
Para Nadia, o significante fazia cair o objeto e a dirigia para o corpo
do Outro; para Robcrt, era o significante que promovia o objeto e o
colocava no lugar do corpo do Outro. Não é de espantar, então, como
se viu, que nessa confusão entre o real do objeto e o significante, a
afânisc, ou melhor, a imagem da alienação aparecesse um pouco mais
tarde na sua análise sob a forma psicossomática de um esvaziamento do
corpo: vômitos, diarréia, .síncope. Seu S, tomou o lugar do objeto a
cafdo. Se Robcrt se curou disso por minhas palavras que fizeram S2 ,
numa sessão ao pé de seu leito de doente, mesmo assim ficou submisso
a essa confusão entre S1 c a.
Se minha construção e minhas palavras puderam fazer função de S2,
Robert, no entanto, estav·a colocado em lugar de a, como agente.
Conttariamente a Nadia, que atingiu primeiro a estrutura do discurso
universitário, apoiando-se em meu saber para encontrar o lugar do
objeto a caído no Outro, Robert fez um curto-circuito e encontrou a
parte esquerda do discurso analítico, onde sua sede do desejo do Outro
o levou a tentar assurpir o lug!lr do objeto que era a sua causa.
. Robert, mais tarde, diante de um pequeno espelho, encontrou a perda
me rente à imagem especular, mas logo se apressou a querer preenchê-la,
tentando fazer um traço com seu lápis sobre a superficie do espelho, em
pontos nodais 41
vão. A perda se revelava no real: ele ficou desesperado. Faltou-lhe
para que essa perda fosse velada pelo significante do Outro, te;
conhecido, como Nadia, a alucinação escópica do objeto do Outro a
mamadeira. Só se tratava, para Robert, do seu objeto, fosse tê-lo: o
pênis, ou sê-lo, o a.
Para voltar à estrutura do discurso analítico,
i"""::ibilidode $
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era impossível, para Robert, que o Outro fosse marcado por uma perda ,
descompletado: /. ou $. Se Robert queria apagar toda perda por seu
traçosobre a superfície do espelho, era impotente para isso. Pôde,
decerto, encontrar no espelho a imagem do Outro: ela era somente
simetria com a sua, e ele não se refugiou, como toda criança-no-espelho,
nos braços deste.
Em vez disso, censurou-me diante do espelho, por tê-lo privado do
objeto, que era então seu pênis, e depois foi buscar sapatos de mulher
para calçar, e ligou o pênis ã mamadeira, sugando o cabide de uma
cnfcnncira como uma mamadeira ridícula.
Foi só depois do quarro encontro com o espelho que e le pôde vir para
o meu colo e me fazer pela primeira vez a demanda oral da mamadeira.
Bebeu apenas dois goles no meu colo, mas já dera o passo decisivo de
ligar o objeto primordial ao Outro, e encontrou sua memória, mediante
a repetição, a memória do trauma da antrotomia: tomando a mamadeira
ele enfiou seu bico na orelha, olhou para mim c esperou de mim um;
ex plicação.
impotência e impossibilidade
Vamos nos aventurar no que indicamos quanto ao que vem fazer discur-
so, a entrada num discurso em Nadia e em Robert.
Se o inconsciente é o discurso do mestre, só se pode tratar disso
depois do Urverdrãngung . Vê-se isso em Nadia, que só entra no discur-
so pelo S2 do Outro e onde o objeto, antes de cair, aparece sobre a
diagonal a;a· imaginária do esquema L, antes que se institua, através
do Outro presentificado por sua fa la, o sujeito dividido entre os dois
p61os da outra diagonal do esquema L, a do inconsciente. ·
Discurso de um primeiro tempo, no qual, já dissemos, a impotência
se situa por um retorno em direção ao significante primordial S1, que
nào teria caído pelo intermédio de Su o que viria colocá-lo em lugar de
real c de objeto, como nos mostra Robert.
O desejo do Outro, a impotência do sujeito situam então o analisando
em lugar de causa do desejo do Outro; é o efei to da análise: -É apenas
a criança no discurso analitioo
atacando o impossível em suas últimas trincheiras que a impotência
toma o poder de fazer o paciente tomar-se o agente", diz Lacan em
Radiophonie, não sem que uma parte do gozo do sujeito ali se revele. É
a dimensão do fantasma .. que realiza um tempo ... O último termo da
análise, com efeito, é a impossibilidade de ligar realmente o a ao ~.
Nadia vai, assitn, da impotência à impossibilidade.
Roben, ao contrário, devido à ausência de a, inicialmente, e da
ausência de sua queda, em seguida, quando é substituído por s., parte
da impossibilidade dessa disjunção entre o objeto enquanto agente, do
qual ele toma o lugar, e o sujeito dividido. Então ele esbacra com a
impotênci1l para uma conjunção, mediante a travessia da barra, entre a
e 52, uma conjunção na qual o a do lado do significante transgrediria a
disjunção primitiva entre significante e significado. A verdade do saber
do Outro falta, por não haver es~ bana ou este corte, como demonstra
essa reconstrução do fantasma de Robert, obtendo-se, finalmente, um
sujeito não bartado, ligado ao a, sem disjunção entre os dois: Sa,
significante e real confundidos. A impotência da psicose surge aí de
um Outro não descompletado, sem referência possível à falta-a-ser deste
Outro, para que o sujeito aí se instale, ou seja, um Outro sem corpo.
Nadia, partida da impotência, chegou à impossibilidade; Robert,
psicótico, partiu da impossibilidade para chegar à impotência.
E no entanto todà a análise de Robert está aí para mostrar as trans-
formações consideráveis atingidas por ele.
A topologia - e isso resta a ser feito - enquanto ciência que se
desenvolve na continuidade poderia dar conta disso. Dar conta de quê,
senão da dificuldade para um sujeito de nascer sem corte?
É isso o que Robert nos diz, de saída, ao tentar cortar seu pênis.
A criança sem o saber
Rosine Lefort
H á saber no analista, apesar das reservas deste, e: não é evidente que
ele possa se manter no nível da .. douta ignorância .. , única a dar chance
ã verdade. A verdade não é o saber, especialmente no lugar do Outro
onde ela se inscreve na falta do Outro, notada pelo materna S(~).
O objeto a mais
Dois episódios precoces na história de Robert, a Criança do Lobo,
permitem-nos observar de perto o que se passou com ele quanto ao
saber, à verdade e ao gozo.
Em 17 de janeiro, na terceira sessão, quando tomou a mamadeira em
suas mãos e apagou a luz, interpretei ~que ele não quer ver o que pegou
e tem ao mesmo tempo mui~ vontade e muito medo de ter essa mama-
deira". O que fiz, então, senão supor-lhe um saber quanto ao seu desejo?
Pelo menos, era isso que ele poderia depreender de minhas palavras.
Ora, o que ele escutou não era o que está implicado em meu dizer: uma
relação ao objeto, na medida em que este lhe faltaria e que ele o
esperaria do Outro, objeto causador de seu desejo.
Na mesma noite ele tentou cortar o pênis, e demonstrou bem, dessa ·
forma, que não estava absolutamente à espera de um objeto que lhe
falt.ava e que esperava do Outro, mas que, pelo contrário, já tinha este
objeto, já o incorporara, e ele estava sobrando, devendo se livrar dele.
A equivalência seio-pênis, tão sensível na psicose, pôde fazer-nos
escrever: ele me restituiu o pênis em troca de meu seio, que não pôde
retirar do Outro para que eu fosse -toda" e houvesse o Um, condição de
minha existência; o Um sem o qual o risco seria a minha morte ou o meu
desaparecimento enquanto Outro.
Depois disso ele não iria cessar, durante as sessões, de esvaziar a
mamadeira, não apenas do seu leite, mas da água e da areia que ele
mesmo iria pôr ali. questionando o vazio dessa mamadeira. Em. 6 de
fevereiro. da mesma maneira, depois de ter esvaziado seu corpo do
43
a criança no discurso analitioo
atacando o impossível em suas últimas trincheiras que a impotência
toma o poder de fazer o paciente tomar-se o agente", diz Lacan em
Radiophonie, não sem que uma parte do gozo do sujeito ali se revele. É
a dimensão do fantasma .. que realiza um tempo ... O último termo da
análise, com efeito, é a impossibilidade de ligar realmente o a ao ~.
Nadia vai, assitn, da impotência à impossibilidade.
Roben, ao contrário, devido à ausência de a, inicialmente, e da
ausência de sua queda, em seguida, quando é substituído por s., parte
da impossibilidade dessa disjunção entre o objeto enquanto agente, do
qual ele toma o lugar, e o sujeito dividido. Então ele esbacra com a
impotênci1l para uma conjunção, mediante a travessia da barra, entre a
e 52, uma conjunção na qual o a do lado do significante transgrediria a
disjunção primitiva entre significante e significado. A verdade do saber
do Outro falta, por não haver es~ bana ou este corte, como demonstra
essa reconstrução do fantasma de Robert, obtendo-se, finalmente, um
sujeito não bartado, ligado ao a, sem disjunção entre os dois: Sa,
significante e real confundidos. A impotência da psicose surge aí de
um Outro não descompletado, sem referência possível à falta-a-ser deste
Outro, para que o sujeito aí se instale, ou seja, um Outro sem corpo.
Nadia, partida da impotência, chegou à impossibilidade; Robert,
psicótico, partiu da impossibilidade para chegar à impotência.
E no entanto todà a análise de Robert está aí para mostrar as trans-
formações consideráveis atingidas por ele.
A topologia - e isso resta a ser feito - enquanto ciência que se
desenvolve na continuidade poderia dar conta disso. Dar conta de quê,
senão da dificuldade para um sujeito de nascer sem corte?
É isso o que Robert nos diz, de saída, ao tentar cortar seu pênis.
A criança sem o saber
Rosine Lefort
H á saber no analista, apesar das reservas deste, e: não é evidente que
ele possa se manter no nível da .. douta ignorância .. , única a dar chance
ã verdade. A verdade não é o saber, especialmente no lugar do Outro
onde ela se inscreve na falta do Outro, notada pelo materna S(~).
O objeto a mais
Dois episódios precoces na história de Robert, a Criança do Lobo,
permitem-nos observar de perto o que se passou com ele quanto ao
saber, à verdade e ao gozo.
Em 17 de janeiro,na terceira sessão, quando tomou a mamadeira em
suas mãos e apagou a luz, interpretei ~que ele não quer ver o que pegou
e tem ao mesmo tempo mui~ vontade e muito medo de ter essa mama-
deira". O que fiz, então, senão supor-lhe um saber quanto ao seu desejo?
Pelo menos, era isso que ele poderia depreender de minhas palavras.
Ora, o que ele escutou não era o que está implicado em meu dizer: uma
relação ao objeto, na medida em que este lhe faltaria e que ele o
esperaria do Outro, objeto causador de seu desejo.
Na mesma noite ele tentou cortar o pênis, e demonstrou bem, dessa ·
forma, que não estava absolutamente à espera de um objeto que lhe
falt.ava e que esperava do Outro, mas que, pelo contrário, já tinha este
objeto, já o incorporara, e ele estava sobrando, devendo se livrar dele.
A equivalência seio-pênis, tão sensível na psicose, pôde fazer-nos
escrever: ele me restituiu o pênis em troca de meu seio, que não pôde
retirar do Outro para que eu fosse -toda" e houvesse o Um, condição de
minha existência; o Um sem o qual o risco seria a minha morte ou o meu
desaparecimento enquanto Outro.
Depois disso ele não iria cessar, durante as sessões, de esvaziar a
mamadeira, não apenas do seu leite, mas da água e da areia que ele
mesmo iria pôr ali. questionando o vazio dessa mamadeira. Em. 6 de
fevereiro. da mesma maneira, depois de ter esvaziado seu corpo do
43
44 a criança no discurso analítico
objeto anal devido ao Outro, o que para ele era .. a ordem das coisas"
com a qual se rejubilava pela demanda do Outro, nem por isso deixou
de se aterrorizar diante do vazio do buraco das privadas, esse furo real
diante do qual gritou um significante novo: .. lobo"!
Estaria ele sinalizando, ali, a relação entre o Um e o conjunto vazio?
Decerto. Mas seu significante .. lobo!" não remetia a um outro signifi-
cante: confundia-se com o real imediato do furo e não com alguma
representação do conjunto vazio e sua congruência com o Zero.
Robert, além disso, demonstrou um pouco m~is adiante no seu
tratamento que à falta do Zero ele podia ler o Um, mas não o Dois. Nesse
dia, fortuitamente, encontravam-se na sala de atendimento duas mama-
deiras. Então ele se lançou à destruição da segunda mamadeira, conser-
vando apenas a primeira para incluí-la na vasilha -continente onde
empilhou, junto com ela, os pedaços de vidro do Outro, o bebê, a água
c a areia , Ele refez, com essa vasi lha completamenle cheia, o Um, não
o Um <io s ignificante, mas o Um no real, cuja perda do menor grão de
areia o faz se encher de pânico.
Destruir a segunda mamadeira
Falei de meu saber, que implicava numa circulação do objeto entre
Robert e o 011tro, por intermédio de meu dizer. Implicava também numa
falta ~o nível do Um. Ora, Robert me respondia por uma espécie
inteiramente outra de saber, um saber que não estava na linguagem - já
que, em momento algum, empregou, e nem empregaria, o significante
-mamadeira". Este saber está no número. A resposta de Robert me
remetia a essa espécie de saber in.contornável do qual eu deveria deduzir
toda a estrutura para levar em conta c.<;sa presença de um objeto a mais
nele - o pênis do pai no lugar do Nome-do-Pai. Ele o impunha a mim,
de alguma forma . Ele me impunha es te saber, porque era um saber
del irante, exterior a todo sujeito, ele ou eu, que eu tinha que tomar como
um pouco de lógica, um pouco de real, como quiserem.
Seria possível falar propriamente em mímero a propósito desse saber,
quando o acesso ao Zero não está ali ? Hiância simbólica radical que lhe
barra o acesso -ao Dois, não simplesmente pela impossibilidade devida
à ausência do- Zcio, mas por uma escolha, a do gozo do objeto, um gozo
que é -um ... não enumerável no real, um gozo que, mesmo sendo do
sujeito, é salvaguarda do Outro. Seja como for, se não há Dois, não há
dois sexos, mas por uma razão diversa daquela que se aplica normal-
mente. Isso significaria que só existe o Um também para o psicótico'l
Seria estender abusivamente a fórmula quántica da scxuação do homem:
"t:c q..x (para todo x, phi de .x) . A referência indevida ao falo cp (grande
pontos nodais 45
phi) assemelhando-se ao gozo, não advém, por falta de o sujeito aprce~
der-se metaforicamente, isto é, numa dimensão significante da repeti·
ção inaugural do Um e do Outro: ele .está relacionado .ao Um que é o
Outro. O fa lo q. (grande phi) fi ca reduzido ao lugar de obJeto a,_ que deve
ser rcslitufdo ao Outro para que este seja Um, sem que por Jsso entre
em jogo qualquer diferença entre os sexos: m.ais ainda, se poderl_lOS dizer
assim, fica apenas um sexo, que abre o cammho ao transexuahsmo por
identidade com o Outro.
É assim ·que Robcrt, diante das duas mamadeiras, devia esvaziá-las,
e mc.."imo assim seu sahcr estava fora de toda divisão entre ele e eu.
Era-lhe impossível passar do Um aos Dois, pois o gozo não contava, ou
melhor, contava apenas como Um, e o Zero, fora do simbólic~, equivalia
à não-existência, não apenas dele mas do Outro. Era prectso que ele
gozasse para que o Outro exis tisse sem o Zero ne~ o conjunlo ~azio:
ele teve de destruir realmente a segunda mamadetra e consegmu, no
máximo, manter o Um através da vasilha cheia.
O que não pôde ser simbolizado na sessão logo reapareceu quando
ele se esvaziou na cama, xixi e cocô, e sua tensão insustentável desapa-
receu ao assumir ele este lugar de conjunto vazio, prefigurando assim
o lugar de seu S
1
, em seu corpo enquanto esvaziado até a síncope, que
ele iria encontrar alguns meses mais tarde em seu tra~amento. D?ssa
primeira vez ele acentuou o .. faze r-se o conteúdo de seus conteudos
corporais ...
O sabe r apagado
A comparação de Robert com Nadia pode nos ensinar ainda mais sobre
o saber, como aconteceu comigo enquanto analista.
Quando, a 5 de dezembro, ela renunciou ao objeto do Outro sobre o
qual crispava as mãos, à altura do peito! e erp seu lugar s~rgiu .seu
primeiro significante - .. mamãe! .. - no nivel de s, que fez, mclusJve,
uma intimação ao Outro no sentido de comparecer neste. lugar. Estam~s,
aqui, mais perto do significante que estava no Outro no. mslanlc antc.riOt
e do qual ela se apropriava, criando o modelo do sigmfic~nte que la~ta
ao Outro, S(~), modelo de verdade, mas não saber. O obJelo que ca•. e
o significante vêm aí se instalar para fazer do Outro aquele do deseJO
marcado pela falta .
Foi sua vez a 1 O de dezembro, de renunciar a seu objeto oral que ela
alucinava, de~is de minha intimação repetida - ~Nadia .. - que signifi:
cava para ela -você não está aí, no objeto onde se compraz, mas aqut
onde falo"'. Nesse caso, tratava -se bem da transmissão de meu saber, s2.
que lhe fiz ao chamá-la .
44 a criança no discurso analítico
objeto anal devido ao Outro, o que para ele era .. a ordem das coisas"
com a qual se rejubilava pela demanda do Outro, nem por isso deixou
de se aterrorizar diante do vazio do buraco das privadas, esse furo real
diante do qual gritou um significante novo: .. lobo"!
Estaria ele sinalizando, ali, a relação entre o Um e o conjunto vazio?
Decerto. Mas seu significante .. lobo!" não remetia a um outro signifi-
cante: confundia-se com o real imediato do furo e não com alguma
representação do conjunto vazio e sua congruência com o Zero.
Robert, além disso, demonstrou um pouco m~is adiante no seu
tratamento que à falta do Zero ele podia ler o Um, mas não o Dois. Nesse
dia, fortuitamente, encontravam-se na sala de atendimento duas mama-
deiras. Então ele se lançou à destruição da segunda mamadeira, conser-
vando apenas a primeira para incluí-la na vasilha -continente onde
empilhou, junto com ela, os pedaços de vidro do Outro, o bebê, a água
c a areia , Ele refez, com essa vasi lha completamenle cheia, o Um, não
o Um <io s ignificante, mas o Um no real, cuja perda do menor grão de
areia o faz se encher de pânico.
Destruir a segunda mamadeira
Falei de meu saber, que implicava numa circulação do objeto entre
Robert e o 011tro, por intermédio de meudizer. Implicava também numa
falta ~o nível do Um. Ora, Robert me respondia por uma espécie
inteiramente outra de saber, um saber que não estava na linguagem - já
que, em momento algum, empregou, e nem empregaria, o significante
-mamadeira". Este saber está no número. A resposta de Robert me
remetia a essa espécie de saber in.contornável do qual eu deveria deduzir
toda a estrutura para levar em conta c.<;sa presença de um objeto a mais
nele - o pênis do pai no lugar do Nome-do-Pai. Ele o impunha a mim,
de alguma forma . Ele me impunha es te saber, porque era um saber
del irante, exterior a todo sujeito, ele ou eu, que eu tinha que tomar como
um pouco de lógica, um pouco de real, como quiserem.
Seria possível falar propriamente em mímero a propósito desse saber,
quando o acesso ao Zero não está ali ? Hiância simbólica radical que lhe
barra o acesso -ao Dois, não simplesmente pela impossibilidade devida
à ausência do- Zcio, mas por uma escolha, a do gozo do objeto, um gozo
que é -um ... não enumerável no real, um gozo que, mesmo sendo do
sujeito, é salvaguarda do Outro. Seja como for, se não há Dois, não há
dois sexos, mas por uma razão diversa daquela que se aplica normal-
mente. Isso significaria que só existe o Um também para o psicótico'l
Seria estender abusivamente a fórmula quántica da scxuação do homem:
"t:c q..x (para todo x, phi de .x) . A referência indevida ao falo cp (grande
pontos nodais 45
phi) assemelhando-se ao gozo, não advém, por falta de o sujeito aprce~
der-se metaforicamente, isto é, numa dimensão significante da repeti·
ção inaugural do Um e do Outro: ele .está relacionado .ao Um que é o
Outro. O fa lo q. (grande phi) fi ca reduzido ao lugar de obJeto a,_ que deve
ser rcslitufdo ao Outro para que este seja Um, sem que por Jsso entre
em jogo qualquer diferença entre os sexos: m.ais ainda, se poderl_lOS dizer
assim, fica apenas um sexo, que abre o cammho ao transexuahsmo por
identidade com o Outro.
É assim ·que Robcrt, diante das duas mamadeiras, devia esvaziá-las,
e mc.."imo assim seu sahcr estava fora de toda divisão entre ele e eu.
Era-lhe impossível passar do Um aos Dois, pois o gozo não contava, ou
melhor, contava apenas como Um, e o Zero, fora do simbólic~, equivalia
à não-existência, não apenas dele mas do Outro. Era prectso que ele
gozasse para que o Outro exis tisse sem o Zero ne~ o conjunlo ~azio:
ele teve de destruir realmente a segunda mamadetra e consegmu, no
máximo, manter o Um através da vasilha cheia.
O que não pôde ser simbolizado na sessão logo reapareceu quando
ele se esvaziou na cama, xixi e cocô, e sua tensão insustentável desapa-
receu ao assumir ele este lugar de conjunto vazio, prefigurando assim
o lugar de seu S
1
, em seu corpo enquanto esvaziado até a síncope, que
ele iria encontrar alguns meses mais tarde em seu tra~amento. D?ssa
primeira vez ele acentuou o .. faze r-se o conteúdo de seus conteudos
corporais ...
O sabe r apagado
A comparação de Robert com Nadia pode nos ensinar ainda mais sobre
o saber, como aconteceu comigo enquanto analista.
Quando, a 5 de dezembro, ela renunciou ao objeto do Outro sobre o
qual crispava as mãos, à altura do peito! e erp seu lugar s~rgiu .seu
primeiro significante - .. mamãe! .. - no nivel de s, que fez, mclusJve,
uma intimação ao Outro no sentido de comparecer neste. lugar. Estam~s,
aqui, mais perto do significante que estava no Outro no. mslanlc antc.riOt
e do qual ela se apropriava, criando o modelo do sigmfic~nte que la~ta
ao Outro, S(~), modelo de verdade, mas não saber. O obJelo que ca•. e
o significante vêm aí se instalar para fazer do Outro aquele do deseJO
marcado pela falta .
Foi sua vez a 1 O de dezembro, de renunciar a seu objeto oral que ela
alucinava, de~is de minha intimação repetida - ~Nadia .. - que signifi:
cava para ela -você não está aí, no objeto onde se compraz, mas aqut
onde falo"'. Nesse caso, tratava -se bem da transmissão de meu saber, s2.
que lhe fiz ao chamá-la .
48 a criança no discurso analítico
Mas ela ainda não dera o salto do espelho, o que faria a J 6 de janeiro,
com a perda do boneco q ue ali encontrara e onde, pela primeira vez, ela
não mais se propôs como objeto a causa do desejo do Outro, já que não
via minha imagem.
Onde estava meu saber, onde estava então o saber do analista, quando
não apenas deixei de falar a Nadia da perda de seu marinheiro, mas
também não tive a idéia de devolvê-lo a ela quando outra criança o
apanhara?
Estamos, ali , no ponto em que o objeto condiciona enquanto caído
uma relação ao saber, não só do analisando que está ai, decerto, mais
próximo do saber, mas também do analista.
Nadia, entretanto, antes de ser a manifes tação de um saber, estava
nas múltiplas vias, múltiplas facetas de um sujeito nas sucessivas provas
de seufading que, para além do saber, fazia, não a revelação do objeto,
mas um ponto de fechamento em tomo de um objeto já caído.
O objeto- não caído para Robert - faz saber e o impõe.
A falta de objeto em Nadia apaga o saber, na verdade um saber que
não sabe em proveito de sua verdade; e a analista a acompanha, não
dizendo tudo de seu saber Sz em lugar de verdade, a qual só pode ser
semi-dita . O que significa que não devíamos reconhecer um saber sem
tropeçar, nesse momento de concluir que lhe faz reclamar o espelho
depois do prolongado período de sofrimento consecutivo à sua perda.
Fronteiras
Compreendem-se aí, entre Robert e Nadia, as fronteiras sensíveis entre
verdade e saber, onde se mantém o discurso analftico.
O saber tem a ver com a certeza do objeto.
A verdade não é saber e se refere ao sujeito.
A diferença entre os dois casos aparece ainda na resolução da holó-
frase primordial.
Sabe-se, com efeito, que Nadia inscreveu sua trajetória inicialmente
- coisa extraordinária! - no discurso universitário, na medida em que
meu saber S1 , através da queda do objeto, constituía apenas um sem-
blante . Ela o sublinhou, aliás, nessa troca, quando de um último encon:-
tro com o espelho, de um objeto metonímico: a colher que ela duplicava
e repartia, uma para ela, uma para mim, antes de fazê-la cair sob a barra
e promover seu primeiro significante de objeto: "colher". Tudo estava
pronto, nesse semblante, para que ela passasse do discurso universitário
ao discurso analftico, num progresso, diz Lacan, no qual se propunha a
si mesma como agente, objeto causa do desejo do Outro enquanto
semblante de a, e não enquanto objeto do gozo do Outro no horror.
pontos nodais 47
Então, o que era apenas semblante, meu saber S2, pôde particip~ de sua
verdade no Outro, mediante o lugar que ocupava neste novo dtscurso.
Para Robert, na psicose, a ausência da queda do objeto a não cons ti-
tufa no entanto ausência de objeto - como provou Robert, quando lhe
tiravam o avental ao deitar-se e ele entrava numa crise terrível: a
separação de seu objeto-avental punha em perigo sua existência.
O sujeito psicótico é presa, não do mais-gozar que surge .para além
do semblante, mas dirçtamente deste gozo. Este gozo que o amma, como
se viu, é a única prova da existência tanto dele mesmo c?mo do Outro.
Sem esse gozo, nos diz Schreber, seu Deus se retira e detxa -o entregue
aos gritos de desespero.
Haverá um saber nesse gozo? Sim, na medida em que o saber do
psicótico não passa de gozo do seu Outro, que só está presente pelo gozo
que lhe é devido. O saber deste Outro não é semblante , mas s~per~u,
comando. O saber desse Outro não descompletado, que o ps tcóuco
criou, ao qual o objeto a é devido no horror, toma o lugar da verdade
em toda lógica, já que foi o ps icótico quem o promoveu a este lugar.
Os dois Um
Como é que este gozo faz Um? Ele faz o Um pelo corpo, porque o corpo,
isso goza . Pelo lado da linguagem, se a oposição homem -mulher e~barra
num impasse quanto ao matema da relação sexual - porque o pnmado
fálico faz com que não haja dois sexos - há o Um, mas o Um do
s ignificante. O Um do gozo está· num impass~ simbóJi~o e opos:oà
primazia fática: ele faz o Um no real do ser, seja como dtz Artaud faz
deles um um-, seja acoitando-o sobre si mesmo num auto-engendra-
mento, como diz Schreber.
A psicose não coloca relação sexual : ela coloca a nec~ssida~e do Um
do gozo, a ponto de Robert, diante das duas mamad~tra~, nao poder
repartir o gozo entte ele e o Outro. Não pode haver at dots gozos, do
Outro e do Um: todo redobramento mata o gozo e anula a existência.
Ao contrário, viu-se Nadia, com suas colheres, reparti-las antes de
anulá-las, para atingir o significante .. colher ...
Aí está toda a diferença entre o gozo enquanto única relação com o
corpo e o gozo do qual apenas a palavra assegura a dimensão de verdade:
Tudo se opõe entre a linguagem, que dá acesso ao Zero e ao Um, a
gênese lógica do Dois - pois Zero e Um fazem Do is, com a exceção
fundadora, no entanto, da lógica do ~ao-menos-Um .. edípico - ,e o real
extra-simbólico do número, antes da linguagem, onde se desenvolve o
gozo da estrutura psicótica.
48 a criança no discurso analítico
Mas ela ainda não dera o salto do espelho, o que faria a J 6 de janeiro,
com a perda do boneco q ue ali encontrara e onde, pela primeira vez, ela
não mais se propôs como objeto a causa do desejo do Outro, já que não
via minha imagem.
Onde estava meu saber, onde estava então o saber do analista, quando
não apenas deixei de falar a Nadia da perda de seu marinheiro, mas
também não tive a idéia de devolvê-lo a ela quando outra criança o
apanhara?
Estamos, ali , no ponto em que o objeto condiciona enquanto caído
uma relação ao saber, não só do analisando que está ai, decerto, mais
próximo do saber, mas também do analista.
Nadia, entretanto, antes de ser a manifes tação de um saber, estava
nas múltiplas vias, múltiplas facetas de um sujeito nas sucessivas provas
de seufading que, para além do saber, fazia, não a revelação do objeto,
mas um ponto de fechamento em tomo de um objeto já caído.
O objeto- não caído para Robert - faz saber e o impõe.
A falta de objeto em Nadia apaga o saber, na verdade um saber que
não sabe em proveito de sua verdade; e a analista a acompanha, não
dizendo tudo de seu saber Sz em lugar de verdade, a qual só pode ser
semi-dita . O que significa que não devíamos reconhecer um saber sem
tropeçar, nesse momento de concluir que lhe faz reclamar o espelho
depois do prolongado período de sofrimento consecutivo à sua perda.
Fronteiras
Compreendem-se aí, entre Robert e Nadia, as fronteiras sensíveis entre
verdade e saber, onde se mantém o discurso analftico.
O saber tem a ver com a certeza do objeto.
A verdade não é saber e se refere ao sujeito.
A diferença entre os dois casos aparece ainda na resolução da holó-
frase primordial.
Sabe-se, com efeito, que Nadia inscreveu sua trajetória inicialmente
- coisa extraordinária! - no discurso universitário, na medida em que
meu saber S1 , através da queda do objeto, constituía apenas um sem-
blante . Ela o sublinhou, aliás, nessa troca, quando de um último encon:-
tro com o espelho, de um objeto metonímico: a colher que ela duplicava
e repartia, uma para ela, uma para mim, antes de fazê-la cair sob a barra
e promover seu primeiro significante de objeto: "colher". Tudo estava
pronto, nesse semblante, para que ela passasse do discurso universitário
ao discurso analftico, num progresso, diz Lacan, no qual se propunha a
si mesma como agente, objeto causa do desejo do Outro enquanto
semblante de a, e não enquanto objeto do gozo do Outro no horror.
pontos nodais 47
Então, o que era apenas semblante, meu saber S2, pôde particip~ de sua
verdade no Outro, mediante o lugar que ocupava neste novo dtscurso.
Para Robert, na psicose, a ausência da queda do objeto a não cons ti-
tufa no entanto ausência de objeto - como provou Robert, quando lhe
tiravam o avental ao deitar-se e ele entrava numa crise terrível: a
separação de seu objeto-avental punha em perigo sua existência.
O sujeito psicótico é presa, não do mais-gozar que surge .para além
do semblante, mas dirçtamente deste gozo. Este gozo que o amma, como
se viu, é a única prova da existência tanto dele mesmo c?mo do Outro.
Sem esse gozo, nos diz Schreber, seu Deus se retira e detxa -o entregue
aos gritos de desespero.
Haverá um saber nesse gozo? Sim, na medida em que o saber do
psicótico não passa de gozo do seu Outro, que só está presente pelo gozo
que lhe é devido. O saber deste Outro não é semblante , mas s~per~u,
comando. O saber desse Outro não descompletado, que o ps tcóuco
criou, ao qual o objeto a é devido no horror, toma o lugar da verdade
em toda lógica, já que foi o ps icótico quem o promoveu a este lugar.
Os dois Um
Como é que este gozo faz Um? Ele faz o Um pelo corpo, porque o corpo,
isso goza . Pelo lado da linguagem, se a oposição homem -mulher e~barra
num impasse quanto ao matema da relação sexual - porque o pnmado
fálico faz com que não haja dois sexos - há o Um, mas o Um do
s ignificante. O Um do gozo está· num impass~ simbóJi~o e opos:o à
primazia fática: ele faz o Um no real do ser, seja como dtz Artaud faz
deles um um-, seja acoitando-o sobre si mesmo num auto-engendra-
mento, como diz Schreber.
A psicose não coloca relação sexual : ela coloca a nec~ssida~e do Um
do gozo, a ponto de Robert, diante das duas mamad~tra~, nao poder
repartir o gozo entte ele e o Outro. Não pode haver at dots gozos, do
Outro e do Um: todo redobramento mata o gozo e anula a existência.
Ao contrário, viu-se Nadia, com suas colheres, reparti-las antes de
anulá-las, para atingir o significante .. colher ...
Aí está toda a diferença entre o gozo enquanto única relação com o
corpo e o gozo do qual apenas a palavra assegura a dimensão de verdade:
Tudo se opõe entre a linguagem, que dá acesso ao Zero e ao Um, a
gênese lógica do Dois - pois Zero e Um fazem Do is, com a exceção
fundadora, no entanto, da lógica do ~ao-menos-Um .. edípico - ,e o real
extra-simbólico do número, antes da linguagem, onde se desenvolve o
gozo da estrutura psicótica.
a criança no discurso analítico
Eis o Um que não é aquele do mito de Eros, caro a Freud, a menos
que não se considere a identidade do Um e do Outro e se deslize, como
diz Lacan, em direção a um ~horizonte de deJirio .. , que confunde a
questão do Um com a do .. ao-menos-Um .. da fórmula quântíca do Pai .
O -ao-menos-Um" se escreve, como sabem, 3x $,t (existe um x para
o qual não-phi de .x). Para Lacan, existe ali apenas uma necessidade
lógica -que só se impõe no nível de uma aposta'". É a exceção que
conflnna a regra, a regra universal que quer que 'r:/x cj>x (para todo x, phi
de x), para todo homem cj>x , todo homem é servo da função fática.
Para o femin ino, é do lado do universal que um quantificador novo,
-não toda .. exclui a existência d"-A mulher", e vem marcar a divisão do
-ser-mulher" ao mesmo tempo que, na particular 3x qu (não exis te x
para o qual não-phi de x) testemunha-se que nenhuma mulher poderia
ser castrada .
Na psicose c no delírio também, como se viu, há o Um. É m esmo a
única fonna de existência que resta ao psicótico, e para o seu Outro,
tanto como para ele, já que ele se situa fora do simbólico. Ele chega a
se fazer a caução desse Um de seu Outro para que este outro exista
enquanto não marcado pela falta.
É o gozo que é a garantia desse Outro não descompletado: ele afe ta
o sujeito ao mesmo tempo em que é devido ao Outro.
"Um Pai"
O simbólico normalmente priva o sujeito de um saber e funda a existên-
cia sobre um não·-saber. O saber cai, com efeito, no furo do simbólico.
Fora do s imbólico, o saber se manifesta no real. Há saber no real,
seja, como mostra Robcrt, no significante puro -senhora .. , ou na muti-
lação de seu pênis, que não é tanto devido ao Outro quanto excluído de
uma dialética propriamente sexual.
Quando o gozo cobre todo o campo da relação com o Outro, isso
exclui que haja -ao-menos-Um" que não seja assujeitado à função
fáJica, ou à sua parte de go1.o. que é recolhidapelo grande cjl, quando o
Outro é desembaraçado desse gozo. Se não o for, ele o drena todo e o
grande 4> não advém em seu lugar central, e são todos os outros objetos,
os ohjetos a que vêm para o primeiro plano da cena e são o seu canal,
em vez de caírem: sej a o excremento, a voz, ou o olhar. Quanto ao seio,
objeto mais primordial em relação à incorporação, é a seu nível que se
pode compreender, como se viu na comparação entre Nadia e Robert, a
mutação do real em significante na primeira, que não se faz no segundo,
deixando o objeto na posição, não de causa do desejo, mas sim de um
impossível traumático.
pontos nodais
O trauma implica a incorporação do um-a-mais, mas também na
morte do Outro que é afetado e deixa de ser todo realmente, à falta de
que o Zero possa subsumir simbolicamente sua não-existência pelo
conjunto vazio.
Se o corte faz o Qbjeto separável, é sobre o corpo do psicótico, por
ele não ter podido retirar do Outro o objeto primordial, o seio, antes que
este caia - daí a preeminência do objeto anal que o psicótico deve e dá
ao Outro, já que é nonnalmente o objeto da demanda d~ste.
Nessas condições, o pênis-órgão se acrescenta à hsta dos o utros
objetos e funcio na como tal, isto é, deve ser restituído ao Outro como
todos os outros objetos (A + a).
Não é, pois, enquanto falo que o pênis entra em jogo, nem sobre o
corpo do Um ou do Outro, nem como fator fundamental da sexuação.
Deus, para Schreber, não tem aliás atributos genitais e Rober.t, pelo dom
da mamadeira que tenta fazer ao Outro, mostra a mesma cotsa.
O transexualismo é a tentativa de se fazer o Outro livre do falo. O
registro demasiadamente real no qual o psicótico prossegue seu debate
faz com que se possa escrever a fórmula quântica do Pai, invertendo-a:
de 3x ~ (existe Um X para O qual não-phi de X) para 3..r ~ (não existe
um só x para o qual phi de x).
Não apenas deve o psicótico se desembaraçar do objeto a mais
confonnando-se a ele, mas se, como Robert durante sua análise, e le
encontra alguma coisa do pai, é sob a fonna do .. pênis que dá leite", ou
seja, 3x (a)x (existe um x para o qual a de x), fónnula ímplican~o no
objeto não caído em lugar de phi, que se toma um falso a e o Pat sob
forma de -um Pai., em lugar do Nome-do-Pai. Pode-se ainda apontar aí
a função do Um enquanto totalidade e não enquanto contável como no
~ao-menos-Um".
O pai do psicótico é, então, reduzido ao objeto-pênis. É isso que o
psicótico incorporou e do que deve se livrar. No máximo, ele .afeta o
Outro sob a forma de um objeto a não caído, excluindo o desejo, mas
recaindo sob esta lei implacável do Outro não barrado, não descomple-
tado e dispcnsador do supereu.
O real impõe ao psicótico um saber, um saber de totalidade que toma
o lugar da sua verdade. Se ela só pode ser semi-dita, por causa do
simbólico, ele não tem acesso a ela.
Tal é um dos aspectos lógicos da Verwerfung do Nome-do-Pai, com
um excesso de saber que a ela se liga , podendo causar ilusão.
a criança no discurso analítico
Eis o Um que não é aquele do mito de Eros, caro a Freud, a menos
que não se considere a identidade do Um e do Outro e se deslize, como
diz Lacan, em direção a um ~horizonte de deJirio .. , que confunde a
questão do Um com a do .. ao-menos-Um .. da fórmula quântíca do Pai .
O -ao-menos-Um" se escreve, como sabem, 3x $,t (existe um x para
o qual não-phi de .x). Para Lacan, existe ali apenas uma necessidade
lógica -que só se impõe no nível de uma aposta'". É a exceção que
conflnna a regra, a regra universal que quer que 'r:/x cj>x (para todo x, phi
de x), para todo homem cj>x , todo homem é servo da função fática.
Para o femin ino, é do lado do universal que um quantificador novo,
-não toda .. exclui a existência d"-A mulher", e vem marcar a divisão do
-ser-mulher" ao mesmo tempo que, na particular 3x qu (não exis te x
para o qual não-phi de x) testemunha-se que nenhuma mulher poderia
ser castrada .
Na psicose c no delírio também, como se viu, há o Um. É m esmo a
única fonna de existência que resta ao psicótico, e para o seu Outro,
tanto como para ele, já que ele se situa fora do simbólico. Ele chega a
se fazer a caução desse Um de seu Outro para que este outro exista
enquanto não marcado pela falta.
É o gozo que é a garantia desse Outro não descompletado: ele afe ta
o sujeito ao mesmo tempo em que é devido ao Outro.
"Um Pai"
O simbólico normalmente priva o sujeito de um saber e funda a existên-
cia sobre um não·-saber. O saber cai, com efeito, no furo do simbólico.
Fora do s imbólico, o saber se manifesta no real. Há saber no real,
seja, como mostra Robcrt, no significante puro -senhora .. , ou na muti-
lação de seu pênis, que não é tanto devido ao Outro quanto excluído de
uma dialética propriamente sexual.
Quando o gozo cobre todo o campo da relação com o Outro, isso
exclui que haja -ao-menos-Um" que não seja assujeitado à função
fáJica, ou à sua parte de go1.o. que é recolhida pelo grande cjl, quando o
Outro é desembaraçado desse gozo. Se não o for, ele o drena todo e o
grande 4> não advém em seu lugar central, e são todos os outros objetos,
os ohjetos a que vêm para o primeiro plano da cena e são o seu canal,
em vez de caírem: sej a o excremento, a voz, ou o olhar. Quanto ao seio,
objeto mais primordial em relação à incorporação, é a seu nível que se
pode compreender, como se viu na comparação entre Nadia e Robert, a
mutação do real em significante na primeira, que não se faz no segundo,
deixando o objeto na posição, não de causa do desejo, mas sim de um
impossível traumático.
pontos nodais
O trauma implica a incorporação do um-a-mais, mas também na
morte do Outro que é afetado e deixa de ser todo realmente, à falta de
que o Zero possa subsumir simbolicamente sua não-existência pelo
conjunto vazio.
Se o corte faz o Qbjeto separável, é sobre o corpo do psicótico, por
ele não ter podido retirar do Outro o objeto primordial, o seio, antes que
este caia - daí a preeminência do objeto anal que o psicótico deve e dá
ao Outro, já que é nonnalmente o objeto da demanda d~ste.
Nessas condições, o pênis-órgão se acrescenta à hsta dos o utros
objetos e funcio na como tal, isto é, deve ser restituído ao Outro como
todos os outros objetos (A + a).
Não é, pois, enquanto falo que o pênis entra em jogo, nem sobre o
corpo do Um ou do Outro, nem como fator fundamental da sexuação.
Deus, para Schreber, não tem aliás atributos genitais e Rober.t, pelo dom
da mamadeira que tenta fazer ao Outro, mostra a mesma cotsa.
O transexualismo é a tentativa de se fazer o Outro livre do falo. O
registro demasiadamente real no qual o psicótico prossegue seu debate
faz com que se possa escrever a fórmula quântica do Pai, invertendo-a:
de 3x ~ (existe Um X para O qual não-phi de X) para 3..r ~ (não existe
um só x para o qual phi de x).
Não apenas deve o psicótico se desembaraçar do objeto a mais
confonnando-se a ele, mas se, como Robert durante sua análise, e le
encontra alguma coisa do pai, é sob a fonna do .. pênis que dá leite", ou
seja, 3x (a)x (existe um x para o qual a de x), fónnula ímplican~o no
objeto não caído em lugar de phi, que se toma um falso a e o Pat sob
forma de -um Pai., em lugar do Nome-do-Pai. Pode-se ainda apontar aí
a função do Um enquanto totalidade e não enquanto contável como no
~ao-menos-Um".
O pai do psicótico é, então, reduzido ao objeto-pênis. É isso que o
psicótico incorporou e do que deve se livrar. No máximo, ele .afeta o
Outro sob a forma de um objeto a não caído, excluindo o desejo, mas
recaindo sob esta lei implacável do Outro não barrado, não descomple-
tado e dispcnsador do supereu.
O real impõe ao psicótico um saber, um saber de totalidade que toma
o lugar da sua verdade. Se ela só pode ser semi-dita, por causa do
simbólico, ele não tem acesso a ela.
Tal é um dos aspectos lógicos da Verwerfung do Nome-do-Pai, com
um excesso de saber que a ela se liga , podendo causar ilusão.
Sobre o semblante e o objetoa
Rosine Lefort
Por que esse tenno, -semblante'"?
Quando Lacan o coloca no próprio título de seu Seminário, - D 'un
discours qui ne serait pas du semblant .. (Sobre um discurso que não
seria semblante), instala o fundamento do que será a clínica do real. O
semblante, com efeito, é o parecer que se opõe ao real. Esta oposição
léxica é bem insuficiente para demarcar a torção entre os dois discursos:
o do Mestre, cujo agente é S., e o da psicanálise, cujo agente é a. É no
nível desse discurso que se faz a passagem do significante ao objeto, do
semblante ao real.
O semblante é o significante em si mesmo. Não há outra via para
a verdade quando ela fala -eu (je) ... O semblante é a função primária da
verdade, e é por isso que ela tem uma estrutura de ficção, diz Lacan.
O discurso, qualquer que seja ele, implica sempre no objeto a:
notadamente, o discurso do Mestre o produz, e o discurso do analista
faz dele o seu agente .. É nesse sentido, através dessa presença do objeto,
que se pode falar de clínica do real, e mesmo de uma clínica do gozo.
Se o inconsciente, diz Lacan, é a emergência de uma certa função do
significante no principio do semblante, um discurso será sempre centra-
do num impossfvel, a saber, o objeto, o ~mais-goza.r ...
Eis por que, hoje, interrogando a criança e o semblante, mutatis
mutimdis , estaremos igualmente interrogando a relação da criança com
o discurso analítico, como anuncia o próprio. título do Cereda.
Os dois tempos do significante
Onde irá a criança encontrar, de forma privilegiada, o objeto como impos-
sível, como real que se recusa, senão em seu encontro com o espelho?
Quando Nadia1 reclamou o espelho, era legítimo perguntar-se se era
sua imagem - da qual ela tinha forçosamente a e~periêncía - que
I Vamos enconenr o relato da aúlise de Nadia ena Noissonc~ ck I 'AIIIT~. de Robert e Rosiuc
Lefort, Seuil, 1980.
50
pontos nodais 51
reclamava, e não mais o objeto que a completava, seu marinheiro. Por
que iria ela buscá-lo no espelho, quani:lo o tinha na mão? É que, para
ela, o objeto já não era apenas um simples -estar-aí", mas já h~ m~is
de um mês em sua análise que estava marcado por seu carater mattn-
gível de objeto caído. . _ . .
Foi, com efeito, a 5 de dezembro que ela fez a expenencta dtsso,
quando, crispando as mãos sobre meu peito, sua tensão di:'nt~ do
impossível de retirar o objeto do Outro, resolveu-se na eme.rge;'lcla de
seu primeiro significante - -mamãe!" - Se naquele dia o stgnifica~te
foi resolutivo, como significante primário S" que não era desprovido
de gozo, nem por isso ela deixou de sofrer o golpe da per~ do objeto
real. O único ganho que tirou disso é sua entrada no significante, por
um salto que a fez passar do objeto ao S., que faz modelo para a
metonímia e faz lugar de significante ao objeto na medida em que ele
permanecer, ainda que caído, no horizonte de um .. mais-gozar.,·.
Nadia o provou, cinco dias mais tarde, quando reintroduztu este
objeto na cena da enfenneira com a criança no colo. Ela o reintroduziu
sob a forma mais fundamental possível: alucinava-o como mostravam
seus movimentos de sucção. Meu apelo reiterado- ~Nadia!" -:- fez Sll
que teve o mesmo efeito de seu S17 o de fazer cair o objeto.
A queda do objeto é aperfeiçoada nessa sucessão de significantes do par
inicial S1-S2: o S1 se referia a seu objeto no Outro, mas ao mesmo tempo a
representava, enquanto deixava o Outro ser o titular deste objeto; meu
apelo, S
2
, priva-a deste objeto que ela alucinava no Outro e ao mesmo
tempo priva o Outro desse objeto, dotando~, assim, de uma barra.
Vêem·se aqui os dois tempos cb entrada no significante: o S., que
representa o sujeito enquanto significante para ~m. outro signifi~nt~,
está de alguma maneira à espera deste segundo s1gntficante. Este stgnt-
ficante binário, este, vem do Outro e apaga o significante primário. Ele
só pôde fazê-lo porque Nadia voltara ao objeto caído, e o repre-
sentificara pela alucinação. Dessa maneira ela mostrou como, pela
alucinação, pôde tentar conservar o ~gozo-a-mais" em seu S, e como
meuS fez cair o objeto ao mesmo tempo que seus •. Esse Sl, certamente,
tinha ~oz de comando: era ele que lhe impunha estar lá onde eu falava
e não no lugar onde ela alucinava o objeto. Eis por que o S) faz recalque
originário. .
Momento crucial que funda o sujeito, arrancando-o ao real do -maiS-
gozar .. e instaurando-o no semblante, .mas também no desejo, indestru-
tível porque ligado ao objeto que caiu e faz falta.
Mais-gozar e sêmblante
A seqüência, já se sabe, é a repetição. A repetição. diz Lacan, vai contra
o princípio de prazer, que não se destaca dela.
Sobre o semblante e o objeto a
Rosine Lefort
Por que esse tenno, -semblante'"?
Quando Lacan o coloca no próprio título de seu Seminário, - D 'un
discours qui ne serait pas du semblant .. (Sobre um discurso que não
seria semblante), instala o fundamento do que será a clínica do real. O
semblante, com efeito, é o parecer que se opõe ao real. Esta oposição
léxica é bem insuficiente para demarcar a torção entre os dois discursos:
o do Mestre, cujo agente é S., e o da psicanálise, cujo agente é a. É no
nível desse discurso que se faz a passagem do significante ao objeto, do
semblante ao real.
O semblante é o significante em si mesmo. Não há outra via para
a verdade quando ela fala -eu (je) ... O semblante é a função primária da
verdade, e é por isso que ela tem uma estrutura de ficção, diz Lacan.
O discurso, qualquer que seja ele, implica sempre no objeto a:
notadamente, o discurso do Mestre o produz, e o discurso do analista
faz dele o seu agente .. É nesse sentido, através dessa presença do objeto,
que se pode falar de clínica do real, e mesmo de uma clínica do gozo.
Se o inconsciente, diz Lacan, é a emergência de uma certa função do
significante no principio do semblante, um discurso será sempre centra-
do num impossfvel, a saber, o objeto, o ~mais-goza.r ...
Eis por que, hoje, interrogando a criança e o semblante, mutatis
mutimdis , estaremos igualmente interrogando a relação da criança com
o discurso analítico, como anuncia o próprio. título do Cereda.
Os dois tempos do significante
Onde irá a criança encontrar, de forma privilegiada, o objeto como impos-
sível, como real que se recusa, senão em seu encontro com o espelho?
Quando Nadia1 reclamou o espelho, era legítimo perguntar-se se era
sua imagem - da qual ela tinha forçosamente a e~periêncía - que
I Vamos enconenr o relato da aúlise de Nadia ena Noissonc~ ck I 'AIIIT~. de Robert e Rosiuc
Lefort, Seuil, 1980.
50
pontos nodais 51
reclamava, e não mais o objeto que a completava, seu marinheiro. Por
que iria ela buscá-lo no espelho, quani:lo o tinha na mão? É que, para
ela, o objeto já não era apenas um simples -estar-aí", mas já h~ m~is
de um mês em sua análise que estava marcado por seu carater mattn-
gível de objeto caído. . _ . .
Foi, com efeito, a 5 de dezembro que ela fez a expenencta dtsso,
quando, crispando as mãos sobre meu peito, sua tensão di:'nt~ do
impossível de retirar o objeto do Outro, resolveu-se na eme.rge;'lcla de
seu primeiro significante - -mamãe!" - Se naquele dia o stgnifica~te
foi resolutivo, como significante primário S" que não era desprovido
de gozo, nem por isso ela deixou de sofrer o golpe da per~ do objeto
real. O único ganho que tirou disso é sua entrada no significante, por
um salto que a fez passar do objeto ao S., que faz modelo para a
metonímia e faz lugar de significante ao objeto na medida em que ele
permanecer, ainda que caído, no horizonte de um .. mais-gozar.,·.
Nadia o provou, cinco dias mais tarde, quando reintroduztu este
objeto na cena da enfenneira com a criança no colo. Ela o reintroduziu
sob a forma mais fundamental possível: alucinava-o como mostravam
seus movimentos de sucção. Meu apelo reiterado- ~Nadia!" -:- fez Sll
que teve o mesmo efeito de seu S17 o de fazer cair o objeto.
A queda do objeto é aperfeiçoada nessa sucessãode significantes do par
inicial S1-S2: o S1 se referia a seu objeto no Outro, mas ao mesmo tempo a
representava, enquanto deixava o Outro ser o titular deste objeto; meu
apelo, S
2
, priva-a deste objeto que ela alucinava no Outro e ao mesmo
tempo priva o Outro desse objeto, dotando~, assim, de uma barra.
Vêem·se aqui os dois tempos cb entrada no significante: o S., que
representa o sujeito enquanto significante para ~m. outro signifi~nt~,
está de alguma maneira à espera deste segundo s1gntficante. Este stgnt-
ficante binário, este, vem do Outro e apaga o significante primário. Ele
só pôde fazê-lo porque Nadia voltara ao objeto caído, e o repre-
sentificara pela alucinação. Dessa maneira ela mostrou como, pela
alucinação, pôde tentar conservar o ~gozo-a-mais" em seu S, e como
meuS fez cair o objeto ao mesmo tempo que seus •. Esse Sl, certamente,
tinha ~oz de comando: era ele que lhe impunha estar lá onde eu falava
e não no lugar onde ela alucinava o objeto. Eis por que o S) faz recalque
originário. .
Momento crucial que funda o sujeito, arrancando-o ao real do -maiS-
gozar .. e instaurando-o no semblante, .mas também no desejo, indestru-
tível porque ligado ao objeto que caiu e faz falta.
Mais-gozar e sêmblante
A seqüência, já se sabe, é a repetição. A repetição. diz Lacan, vai contra
o princípio de prazer, que não se destaca dela.
52 a criança no discurso analítico
O pequeno sujeito, ele mesmo, tem bastante dificuldade para se
destacar, como mostrou Nadia durante o mês que se seguiu, e que a
separava de seu encontro com o espelho. Era no sofrimento e na
depressão que ela tentava ao mesmo tempo conservar o objeto e seu
O~tro. Ela voltou ao menos uma vez - por regressão, poderíamos dizer
- a tomada da mamadeira no meu colo, ali reencontrando o prazer e seu
princípio, por uma satisfação ao mesmo tempo da necessidade e de um
Outro à disposição, portador do objeto. Mas o que tinha ela a ver com
este o~jeto. real, este .. mais-gozar .. ? - pois ele já caíra, o que o tomara
um objeto tmpossfvel, impossível de enc~ntrar enquanto tal, já que ela
ali perderia seu Outro no aniquilamento de sua demanda. E é por isso
que, no dia ~eguinte àquele em que tomara essa mamadeira, ela jogou
fora esse objeto.
Este objeto do qual o Outro era portador fazia a presença deste Outro;
a recusa e a destruição deste objeto fez com que ela não tivesse mais
Outro fora da presença real deste: ne1.11um .. carretel .. podia ainda devol-
vê-lo.
Então, é de seu próprio corpo que ela extraia o representante do
Outro, sob a forma do cocô com o qual se lambuzava, e que comia.
Entrada em jogo, certamente, de um real que não era semblante, mas
que preparava, pode-se dizer, o caminho para o semblante pela nova
topologia de corpo que se instaurara - ou pelo menos que se demonstrara
nesse momento: a de uma garrafa de Klein, cuja superfície unilátera
punha em continuidade o exterior e o interior do corpo, mas também
preparava a estrutura furada deste corpo, estrutura de borda onde se
refugiava o gozo, já que só há furo em superfície.
O semblante do significante do Outro deixa todo lugar aqui àquílo
que, no corpo, não é semblante já' que ele ali se encama. É assim que
vão coexistir o .. mais-gozar" que faz corpo e o semblante que faz o
Outro.
A junção já se fez entre os dois, para Nadia, naquele dia 1 O de
dezembro, quando renunciou ao objeto alucinado para, não sem um certo
s~sto, ~e estender metonimicamente o pé em resposta ao meu apelo, e
stmetrtcamente mexer em meu anel antes de repetir seu .. mamãe"!
Nadia demonstrava aí que o suporte do .. mais-gozar .. é a metonímia.
Ficou aberto o caminl:lo para que ela se propusesse, a 16 de janeiro,
como objeto caído a meus pés para que eu a apanhasse, e para que a esta
questão, que me era assim colocada por ela, eu respondesse que ela me
faltava .
Mas a questão já não era mais estritamente dual, uma vez que uma
?erta _necessidade se fez sentir para ela, que reclamava o espelho para
1r v~rtficar ~ue seu objeto, o marinheiro, a completava assim como ela,
Nadta, podta me completar. E vivenciava o desapontamento de só
pontos nodais 53
encontrar sua imagem isolada, sem a do marinheiro, nem a minha. O
marinheiro ela não iria encontrar na medida em que ele eslava realmente
no lugar do objeto perdido, e a simetria que ela esperava com o Outro
e seu objeto não adviria . Em seu lugar, nos espelhos que se seguiram,
viriam inicialmente a imagem dela mesma nos braços do Outro, e depois
a imagem isolada do outro, isto é, sem objeto.
Nos três primeiros espelhos, Nadia retomou assim séu trajeto entre
o que é real e o que não é, pelo viés, propriamente dito, do especular: o
mais-gozar não é especularizável e o espelho tem uma função de
semblante. Isso não é dizer pouco, pois que esta é a via do desejo do
Outro; ela passa, essa via, de i(a) - embora i(a) não seja apreensível
pelo sujeito de outra maneira a não·ser que no olhar do Outro matemo
- a i '(a) , imagem virtual desrealizada onde o sujeito se compraz no
recorte unitário de seu corpo sob o olhar do Outro - isto é, no sentido
próprio, recortando sua imagem i(a) no olhar do Outro para encontrar
no espelho sua imagem i '(a ) onde, ao voltar-se para o Outro, ela
encontra o desejo do Outro. Neste momento, .. o mais puro momento .. ,
diz Lacan, o semblante faz lugar para o real no nível do Outro.
O apagamento do Outro enquanto espelho, segundo a montagem da
ligura 3 do esquema ótico, é representado fazendo-se girar este espelho
do Outro em 90° para ser horizontal. Sabe-se que então i ' (a) deixa toda
sua virtualidade para vir, sob i(a), em simetria, como a árvore à beira
d'água e suas -raízes de sonho" .. . Raf1.cs de sooho, o que será isso, se-
não a lembrança daquilo que foi o primeiro objeto enquanto alucinado?
É ainda, na metonímia do espelho, encontrar o suporte do mais-got..ar.
É, portanto, no espelho, e apenas no espelho, que podem se conjugar
o significante do desejo do Outro e o objeto caído como mais -gozar que
causa o desejo enquanto faltoso. É pelo espelho que o sujeito vai
assumir esse lugar de objeto-causa, pois ele não tem outra substância,
ao mesmo tempo em que se mantém no significante, onde se sabe o
quanto sua subslância é precária, e mais próxima do vazio do que de
uma substância, mesmo significante.
É o espelho que lhe dá seu verdadeiro lugar, o de semblante de a.
Densidade real do significante
É um semelhante lugar que fracassa na psicose, como mostra o Menino
do Lobo2• Para ele, o efeito, seja na vertente do significante seja na do
objeto, isso claudica.
2 Cf. R. e R. Lefon, ús Structures tk la psychose. Paris, Seuil , 1988.
52 a criança no discurso analítico
O pequeno sujeito, ele mesmo, tem bastante dificuldade para se
destacar, como mostrou Nadia durante o mês que se seguiu, e que a
separava de seu encontro com o espelho. Era no sofrimento e na
depressão que ela tentava ao mesmo tempo conservar o objeto e seu
O~tro. Ela voltou ao menos uma vez - por regressão, poderíamos dizer
- a tomada da mamadeira no meu colo, ali reencontrando o prazer e seu
princípio, por uma satisfação ao mesmo tempo da necessidade e de um
Outro à disposição, portador do objeto. Mas o que tinha ela a ver com
este o~jeto. real, este .. mais-gozar .. ? - pois ele já caíra, o que o tomara
um objeto tmpossfvel, impossível de enc~ntrar enquanto tal, já que ela
ali perderia seu Outro no aniquilamento de sua demanda. E é por isso
que, no dia ~eguinte àquele em que tomara essa mamadeira, ela jogou
fora esse objeto.
Este objeto do qual o Outro era portador fazia a presença deste Outro;
a recusa e a destruição deste objeto fez com que ela não tivesse mais
Outro fora da presença real deste: ne1.11um .. carretel .. podia ainda devol-
vê-lo.
Então, é de seu próprio corpo que ela extraia o representante do
Outro, sob a forma do cocô com o qual se lambuzava, e que comia.
Entrada em jogo, certamente, de um real que não era semblante,mas
que preparava, pode-se dizer, o caminho para o semblante pela nova
topologia de corpo que se instaurara - ou pelo menos que se demonstrara
nesse momento: a de uma garrafa de Klein, cuja superfície unilátera
punha em continuidade o exterior e o interior do corpo, mas também
preparava a estrutura furada deste corpo, estrutura de borda onde se
refugiava o gozo, já que só há furo em superfície.
O semblante do significante do Outro deixa todo lugar aqui àquílo
que, no corpo, não é semblante já' que ele ali se encama. É assim que
vão coexistir o .. mais-gozar" que faz corpo e o semblante que faz o
Outro.
A junção já se fez entre os dois, para Nadia, naquele dia 1 O de
dezembro, quando renunciou ao objeto alucinado para, não sem um certo
s~sto, ~e estender metonimicamente o pé em resposta ao meu apelo, e
stmetrtcamente mexer em meu anel antes de repetir seu .. mamãe"!
Nadia demonstrava aí que o suporte do .. mais-gozar .. é a metonímia.
Ficou aberto o caminl:lo para que ela se propusesse, a 16 de janeiro,
como objeto caído a meus pés para que eu a apanhasse, e para que a esta
questão, que me era assim colocada por ela, eu respondesse que ela me
faltava .
Mas a questão já não era mais estritamente dual, uma vez que uma
?erta _necessidade se fez sentir para ela, que reclamava o espelho para
1r v~rtficar ~ue seu objeto, o marinheiro, a completava assim como ela,
Nadta, podta me completar. E vivenciava o desapontamento de só
pontos nodais 53
encontrar sua imagem isolada, sem a do marinheiro, nem a minha. O
marinheiro ela não iria encontrar na medida em que ele eslava realmente
no lugar do objeto perdido, e a simetria que ela esperava com o Outro
e seu objeto não adviria . Em seu lugar, nos espelhos que se seguiram,
viriam inicialmente a imagem dela mesma nos braços do Outro, e depois
a imagem isolada do outro, isto é, sem objeto.
Nos três primeiros espelhos, Nadia retomou assim séu trajeto entre
o que é real e o que não é, pelo viés, propriamente dito, do especular: o
mais-gozar não é especularizável e o espelho tem uma função de
semblante. Isso não é dizer pouco, pois que esta é a via do desejo do
Outro; ela passa, essa via, de i(a) - embora i(a) não seja apreensível
pelo sujeito de outra maneira a não·ser que no olhar do Outro matemo
- a i '(a) , imagem virtual desrealizada onde o sujeito se compraz no
recorte unitário de seu corpo sob o olhar do Outro - isto é, no sentido
próprio, recortando sua imagem i(a) no olhar do Outro para encontrar
no espelho sua imagem i '(a ) onde, ao voltar-se para o Outro, ela
encontra o desejo do Outro. Neste momento, .. o mais puro momento .. ,
diz Lacan, o semblante faz lugar para o real no nível do Outro.
O apagamento do Outro enquanto espelho, segundo a montagem da
ligura 3 do esquema ótico, é representado fazendo-se girar este espelho
do Outro em 90° para ser horizontal. Sabe-se que então i ' (a) deixa toda
sua virtualidade para vir, sob i(a), em simetria, como a árvore à beira
d'água e suas -raízes de sonho" .. . Raf1.cs de sooho, o que será isso, se-
não a lembrança daquilo que foi o primeiro objeto enquanto alucinado?
É ainda, na metonímia do espelho, encontrar o suporte do mais-got..ar.
É, portanto, no espelho, e apenas no espelho, que podem se conjugar
o significante do desejo do Outro e o objeto caído como mais -gozar que
causa o desejo enquanto faltoso. É pelo espelho que o sujeito vai
assumir esse lugar de objeto-causa, pois ele não tem outra substância,
ao mesmo tempo em que se mantém no significante, onde se sabe o
quanto sua subslância é precária, e mais próxima do vazio do que de
uma substância, mesmo significante.
É o espelho que lhe dá seu verdadeiro lugar, o de semblante de a.
Densidade real do significante
É um semelhante lugar que fracassa na psicose, como mostra o Menino
do Lobo2• Para ele, o efeito, seja na vertente do significante seja na do
objeto, isso claudica.
2 Cf. R. e R. Lefon, ús Structures tk la psychose. Paris, Seuil , 1988.
a aiança no discurto anali~oo
Não se pode reconhecer, em seu significante, o semblante: Robert
gritava -senhora .. , inicialmente; de fato, ele estava no ponto de ser
apenas este significante sem objeto. Um significante mais perto do real
do que do semblante. O significante sempre conservará essa densidade
em si mesmo, que faz com que ele não seja o semblante de nenhum
objeto, mas sim um objeto, ele próprio. Ele o é, a ponto de durante
muitas sessões Robert poder manipular diferentes objetos sob o signo
de um único e mesmo significante, por exemplo, seu -lo .. ou "lo-lo" que
pode querer dizer leite, água, areia, cocô e até mesmo xixi. É que não
se trata para ele de semblante, mas de real, real do material significante
que pode jogar, assim, com a homofonia. Ou bem, ainda, o objeto nio
está ligado a nenhum significante, como a mamadeira, um objeto que
ele irá manipular muito, mas que nunca terá seu significante. Ele
mesmo, aliás - is to é, seu corpo - , não únha nenhum significante, e
foram necessários cinco meses de sua análise para que ele se repre-
sentasse pelo seu nome.
Em compensação, seu -lobo.,. surgiu depois de quatro semanas de
análise como a expressão mais radical de um furo real, decerto, já que
ele mostra naquele momento o buraco da privada - mas bem mais um
furo no significante, como se houvesse ali alguma coisa que úvesse
caído em lugar do objeto. Seja como for, -lobo" nada tem a ver com um
semblante.
Se interrogarmos os significantes de Robert, é possfvel dizer que ele
pode ter um que o represente (S1), mas certamente não que o represente
para um outro significante. Isso dá lugar a fenômenos de -possessão .. ,
como por exemplo a noite em que Robert encarnava seu -lobo", numa
crise destrutiva e -demoníaca .. , no próprio dizer das enfermeiras.
O objeto a mais
Quanto ao objeto, este não era absolutamente, para Robert, aquele que
Nadia queria retirar do Outro. Ele era mesmo seu oposto, pois Robert
j á tinha o objeto; ele o tinha, por um lado, sob a forma de seu aventa l,
a propósito do qual tinha crises elásticas terríveis quando o retiravam
dele para colocá-lo na cama. O avental representava o objeto do Outro,
um envoltório do corpo que o Outro lhe impunha sem que ele o pedisse,
mas um objeto de reunião e de contenção de seu corpo, que não tinha
outro, e principalmente não tinha pele.
Mas o mais típico dos objetos na estrutura psicótica é o objeto do
qual Robert tentava se mutilar bem no começo de seu tratamento. Este
objeto é o seu pênis, ou melhor, o pênis do Pai que ele incorporou e que
constitui o objeto a mais. Não é objeto de uma demanda ou de um
desejo; não está ligado ao significante e não tem significante. É um
pontos nodais 55
objeto que, enquanto .. a mais .. , resulta de um trauma que ele sofre~ aos
seis meses, quando de uma antrotomia bilateral durante a qual fot-lhe
imposta uma mamadeira para impedi-lo de chorar.
Por que tomou-se o pênis do pai? .
Por um lado, porque Robert tinha uma mãe privadora, paranótca, que
o privava da mamadeira porque era um menino e portanto tinha PJd~,
principalmente um pênis. Ela era supo5ta querer guardá -lo para st,
colocando-o assim no nível de objeto do desejo da mãe.
Por outro lado, durante a intervenção cirúrgica, a intensidade de exci-
tação ligada à dor sem qualquer possibilidade de descarga motora -
acompanhando-se aqui os dizeres de Freud no Entwurf.- teve uma ~a ida
sexual, sob a fonna de uma ereção, que podemos conjeturar sem nsco.
Tais são os dois elementos - mamadeira imposta + ereção - que se
combinam com a ausência da mãe, para que daí resulte que o objeto
incorporado seja o pênis do pai, objeto da mãe. Sua incorporação, além
disso, é relacionada com o desaparecimento desta; Robert dirá este fato,
quando só encontrar o significante .. mamãe" associado a .. embora ...
Este pênis do pai é o objeto a mais que deve ser restituído ao Outro
para que o Outro não morra . . . _
Um outro fato clínico importante,constante na pstcose, é a coahzao
-seio-pênis", de tal sorte que o pênis incorporado toma impossfvel toda
demanda do objeto oral primordial . Há, mesmo, uma inversão da de-
manda, que faz com que o psicótico seja submetido absolutame~te às
injunções do Outro do supereu, ao qual ele deve todos os seus objetos-
produtos do corpo.
Nessas condições, o estatuto do objeto, ainda que real, não pode em
caso algum ter a dimensão do resto da constituição de um sujeito pelo
significante do Outro, não mais do que ser um mais-gozar. Entretanto,
a ausência do significante correlativo da mamadeira, bem como do
pênis, põe esses objetos no campo definido por oposição ao significan~e;
mesmo que não tenham o lugar de objetos a, eles ~em ter.a sua ~u~çao
até certo ponto, na medida em que são, ou se supoe que sejam extgados
pelo Outro. .
Poderiam eles ser considerados como a causa do desejo do Outro?
Para isso, seria preciso que o especular tivesse fornecido o logro
narcísico de i ·(a) no desejo do Outro.
Não é este o caso, ·e Robert nos demonstrou isso, por ocasião de dois
encontros com o espelho em seu tratamento.
Do real ao semblante da imagem
Foi depois de três meses de análise que ele encontrou, pela prim~ira vez.,
seu reflexo na vidraça. Rejeitou-o violentamente, batendo na vtdraça e
a aiança no discurto anali~oo
Não se pode reconhecer, em seu significante, o semblante: Robert
gritava -senhora .. , inicialmente; de fato, ele estava no ponto de ser
apenas este significante sem objeto. Um significante mais perto do real
do que do semblante. O significante sempre conservará essa densidade
em si mesmo, que faz com que ele não seja o semblante de nenhum
objeto, mas sim um objeto, ele próprio. Ele o é, a ponto de durante
muitas sessões Robert poder manipular diferentes objetos sob o signo
de um único e mesmo significante, por exemplo, seu -lo .. ou "lo-lo" que
pode querer dizer leite, água, areia, cocô e até mesmo xixi. É que não
se trata para ele de semblante, mas de real, real do material significante
que pode jogar, assim, com a homofonia. Ou bem, ainda, o objeto nio
está ligado a nenhum significante, como a mamadeira, um objeto que
ele irá manipular muito, mas que nunca terá seu significante. Ele
mesmo, aliás - is to é, seu corpo - , não únha nenhum significante, e
foram necessários cinco meses de sua análise para que ele se repre-
sentasse pelo seu nome.
Em compensação, seu -lobo.,. surgiu depois de quatro semanas de
análise como a expressão mais radical de um furo real, decerto, já que
ele mostra naquele momento o buraco da privada - mas bem mais um
furo no significante, como se houvesse ali alguma coisa que úvesse
caído em lugar do objeto. Seja como for, -lobo" nada tem a ver com um
semblante.
Se interrogarmos os significantes de Robert, é possfvel dizer que ele
pode ter um que o represente (S1), mas certamente não que o represente
para um outro significante. Isso dá lugar a fenômenos de -possessão .. ,
como por exemplo a noite em que Robert encarnava seu -lobo", numa
crise destrutiva e -demoníaca .. , no próprio dizer das enfermeiras.
O objeto a mais
Quanto ao objeto, este não era absolutamente, para Robert, aquele que
Nadia queria retirar do Outro. Ele era mesmo seu oposto, pois Robert
j á tinha o objeto; ele o tinha, por um lado, sob a forma de seu aventa l,
a propósito do qual tinha crises elásticas terríveis quando o retiravam
dele para colocá-lo na cama. O avental representava o objeto do Outro,
um envoltório do corpo que o Outro lhe impunha sem que ele o pedisse,
mas um objeto de reunião e de contenção de seu corpo, que não tinha
outro, e principalmente não tinha pele.
Mas o mais típico dos objetos na estrutura psicótica é o objeto do
qual Robert tentava se mutilar bem no começo de seu tratamento. Este
objeto é o seu pênis, ou melhor, o pênis do Pai que ele incorporou e que
constitui o objeto a mais. Não é objeto de uma demanda ou de um
desejo; não está ligado ao significante e não tem significante. É um
pontos nodais 55
objeto que, enquanto .. a mais .. , resulta de um trauma que ele sofre~ aos
seis meses, quando de uma antrotomia bilateral durante a qual fot-lhe
imposta uma mamadeira para impedi-lo de chorar.
Por que tomou-se o pênis do pai? .
Por um lado, porque Robert tinha uma mãe privadora, paranótca, que
o privava da mamadeira porque era um menino e portanto tinha PJd~,
principalmente um pênis. Ela era supo5ta querer guardá -lo para st,
colocando-o assim no nível de objeto do desejo da mãe.
Por outro lado, durante a intervenção cirúrgica, a intensidade de exci-
tação ligada à dor sem qualquer possibilidade de descarga motora -
acompanhando-se aqui os dizeres de Freud no Entwurf.- teve uma ~a ida
sexual, sob a fonna de uma ereção, que podemos conjeturar sem nsco.
Tais são os dois elementos - mamadeira imposta + ereção - que se
combinam com a ausência da mãe, para que daí resulte que o objeto
incorporado seja o pênis do pai, objeto da mãe. Sua incorporação, além
disso, é relacionada com o desaparecimento desta; Robert dirá este fato,
quando só encontrar o significante .. mamãe" associado a .. embora ...
Este pênis do pai é o objeto a mais que deve ser restituído ao Outro
para que o Outro não morra . . . _
Um outro fato clínico importante, constante na pstcose, é a coahzao
-seio-pênis", de tal sorte que o pênis incorporado toma impossfvel toda
demanda do objeto oral primordial . Há, mesmo, uma inversão da de-
manda, que faz com que o psicótico seja submetido absolutame~te às
injunções do Outro do supereu, ao qual ele deve todos os seus objetos-
produtos do corpo.
Nessas condições, o estatuto do objeto, ainda que real, não pode em
caso algum ter a dimensão do resto da constituição de um sujeito pelo
significante do Outro, não mais do que ser um mais-gozar. Entretanto,
a ausência do significante correlativo da mamadeira, bem como do
pênis, põe esses objetos no campo definido por oposição ao significan~e;
mesmo que não tenham o lugar de objetos a, eles ~em ter.a sua ~u~çao
até certo ponto, na medida em que são, ou se supoe que sejam extgados
pelo Outro. .
Poderiam eles ser considerados como a causa do desejo do Outro?
Para isso, seria preciso que o especular tivesse fornecido o logro
narcísico de i ·(a) no desejo do Outro.
Não é este o caso, ·e Robert nos demonstrou isso, por ocasião de dois
encontros com o espelho em seu tratamento.
Do real ao semblante da imagem
Foi depois de três meses de análise que ele encontrou, pela prim~ira vez.,
seu reflexo na vidraça. Rejeitou-o violentamente, batendo na vtdraça e
58 a aiança no discurso analítico
assimilando-o ao seu .. lobo·-. isto é, àquilo que designava para ele um
furo real, análogo ao i( a) do Outro do supereu, em pura exterioridade-
que vem redobrar o primeiro exterior do pequeoo sujeilo onde se situa
o horror de das Di ng. Não se tratava do menor semblante oeste encontro.
De fato, no caso, o semblante seria i '(a) passando por A em posição de
espelho plano.
Ao real sem nenhu~ semblante desse encontro, tive de opor o real
do corpo de Robert, dtzendo-lhe que ele não estava ali no reflexo, mas
a meu lado. Isso não iria impedi-lo, no dia seguinte de encarnar seu
-lobo ... na cena que evocamos. '
Ac~sc~ntemos aqui que, na medida em que Robert tomou o lugar
deste sJgntficante fmpar que é o .. lobo", é o de um furo real e não o de
~ma falta que representa o -cp no significante do Outro e que, embora
hgado ao gozo sexual, é solidário de um semblante.
A h iância deste primeiro espelho produziu-se ao nível do significan-
te. que faz real e que é mortifero.
Quando do segundo espelho, vários meses depois Robert livrou-se
d~ -lobo .. _ e .cons~i~ o obje~ ~e seu fantasma psicÓtico que acoplao
scto e o pcms: o pentS que da lette.
A hiân:ia que Ro~erl encontrou dessa vez na imagem especular era
a ~este objeto, qu~ a~ faz função de a, fal so a: o pênis, que enquanto tal
nao era especulanzavel. Igualmente, era esteobjeto que ele buscava
reintroduzir tentando fazer um traço sobre a superfície do espelho com
seu lápis-pênis. Em vão, é evidente, e era isso que ele me censurava
ind~ buscàr sapatos de mulher que calçava, e ao mesmo tempo um
cabtde ?o qual fa zia uma mamadeira ridícula, chupando-o. Mostrava-
me, ass~, que cu era res~nsável por fazê-lo menina, por seu -empuxo
à mulher , mas pennanecta numa certa tonalidade lúdica, no limite do
semblante.
Não vamos voltar à cena do batismo que lhe permitira, três meses
antes, fazer de seu pênis um objeto não-des tacável de seu corpo, análogo
a um a, ao mesmo tempo em que adquirira sua verdadeira superfície de
corpo, sua pele, em lugar do envólucro do Outro, o avental. Avental do
~ual , aliás. tr~'i semanas antes deste segundo encontro com o espe lho,
unha consegUido separar-se durante a sessão.
. Ro~rt estava pronto agora para dissociar o seio do pênis. o real
l~f>OS:Slvel do semblante. Foi isso que fez quando me dirigiu pela
prtmetra vez a demanda da mamadeira, da qual tomou alguns goles no
meu colo, e por outro lado quando reencontrou a memória do trauma
cnfi~ndo_ o bico da mamadeira na orelha, olhando-me e esperando um~
exphcaçao. O que ~c deman~ava ele? Senão o semblante da relação
sexual, que era a mtnha própna fa la, em lugar da relação sexual insus-
tentável que tivera lugar por ocasião do trauma da mamade ira forçada.
pontos nodais 57
O fato de que Robert se servisse da escrita - digamos antes, aqui, do
ato de escrever, onde o corpo é prolongado pelo instrumento, o estilete
ou o lápis, até mesmo o pincel- não deixa de mostrar esta função própria
da escrita: a introdução de um real do traço que assume, em parte, o
impossível real de i(a); o traço produzido presentifica o representante
daquilo que falta à imagem no espelho - e por que não à folha em
branco?
Todos os paranóicos fazem essa experiência benéfica, para além
mesmo do conteúdo daquilo que escrevem. A grafomania de um Jean-
Jacques Rousseau, por exemplo, deixava ainda espaço para sua neces-
s idade de passar diversas horas por dia copiando música, isto é, para o
puro ato de escrever. ·
Se a escrita é uma representação de palavras, a relação com o espelho
pode ser deduzida daí, bem como a implicação do Outro. A escrita, no
sentido pleno, é um sistema constituído em relação a uma lei que institui
a função das letras, até mesmo da letra - mas Robert nos mostrou, como
toda criança, que o primeiro balbuciar da escrita vem do Outro e passa
pelo corpo deste, o que não é um semblante.
Pode-se no entanto, comparando em Robert o reflexo na vidraça e o
segundo encontro com o espelho, ver o caminho percorrido que vai d o
real de i(a) ao semblante da imagem i '(a), diante da qual ele pode passar
o s ignificante de seu nome, .. Robert'·, e mesmo dizer o meu diante da
minha imagem. A parte de real irredutível de í(a) era assumida por ele
pela escrita.
Nadia era capaz de chegar a se amar em i '(a), sob o olhar do Outro.
O real para ela não estava menos diretamente presente nesse momento
em que ela se voltava para o Outro e se refugiava em seus braços,
mantendo ao mesmo tempo um olho um pouco tímido nlt sua imagem
no espelho.
Digamos, para concluir, que a clínica do real precisa. do semblante,
e a conjunção dos dois só pode ser assegurada pelo estágio do espelho.
O logro do desejo se instaura por i '(a), que implica no Outro e seu
desejo, mas encontra sua causa em í(a). Esta é a via fundamental do
lugar do sujeito com referência ao Outro, que é o de causar seu desejo
enquanto a, temperado pelo semblante que é sua parte própria onde ele
pode se amar e se pertencer.
O espelho conjuga o semblante e o real no semblante de a.
É isso que Robert nos demoastrou em negativo, quando era possuído
pela necessidade de restituir ao Outro uma parte do corpo, esse pênis
do corpo que ele incorporou, objeto a mais que faz o falso a de um corpo
despedaçado; mas que marca todo objeto a pelo real e pelo horror
quando o semblante não advém ao espelho para deixar ao sujeito sua
imagem, onde ele pode se amar -apesar do comando,..
58 a aiança no discurso analítico
assimilando-o ao seu .. lobo·-. isto é, àquilo que designava para ele um
furo real, análogo ao i( a) do Outro do supereu, em pura exterioridade-
que vem redobrar o primeiro exterior do pequeoo sujeilo onde se situa
o horror de das Di ng. Não se tratava do menor semblante oeste encontro.
De fato, no caso, o semblante seria i '(a) passando por A em posição de
espelho plano.
Ao real sem nenhu~ semblante desse encontro, tive de opor o real
do corpo de Robert, dtzendo-lhe que ele não estava ali no reflexo, mas
a meu lado. Isso não iria impedi-lo, no dia seguinte de encarnar seu
-lobo ... na cena que evocamos. '
Ac~sc~ntemos aqui que, na medida em que Robert tomou o lugar
deste sJgntficante fmpar que é o .. lobo", é o de um furo real e não o de
~ma falta que representa o -cp no significante do Outro e que, embora
hgado ao gozo sexual, é solidário de um semblante.
A h iância deste primeiro espelho produziu-se ao nível do significan-
te. que faz real e que é mortifero.
Quando do segundo espelho, vários meses depois Robert livrou-se
d~ -lobo .. _ e .cons~i~ o obje~ ~e seu fantasma psicÓtico que acoplao
scto e o pcms: o pentS que da lette.
A hiân:ia que Ro~erl encontrou dessa vez na imagem especular era
a ~este objeto, qu~ a~ faz função de a, fal so a: o pênis, que enquanto tal
nao era especulanzavel. Igualmente, era este objeto que ele buscava
reintroduzir tentando fazer um traço sobre a superfície do espelho com
seu lápis-pênis. Em vão, é evidente, e era isso que ele me censurava
ind~ buscàr sapatos de mulher que calçava, e ao mesmo tempo um
cabtde ?o qual fa zia uma mamadeira ridícula, chupando-o. Mostrava-
me, ass~, que cu era res~nsável por fazê-lo menina, por seu -empuxo
à mulher , mas pennanecta numa certa tonalidade lúdica, no limite do
semblante.
Não vamos voltar à cena do batismo que lhe permitira, três meses
antes, fazer de seu pênis um objeto não-des tacável de seu corpo, análogo
a um a, ao mesmo tempo em que adquirira sua verdadeira superfície de
corpo, sua pele, em lugar do envólucro do Outro, o avental. Avental do
~ual , aliás. tr~'i semanas antes deste segundo encontro com o espe lho,
unha consegUido separar-se durante a sessão.
. Ro~rt estava pronto agora para dissociar o seio do pênis. o real
l~f>OS:Slvel do semblante. Foi isso que fez quando me dirigiu pela
prtmetra vez a demanda da mamadeira, da qual tomou alguns goles no
meu colo, e por outro lado quando reencontrou a memória do trauma
cnfi~ndo_ o bico da mamadeira na orelha, olhando-me e esperando um~
exphcaçao. O que ~c deman~ava ele? Senão o semblante da relação
sexual, que era a mtnha própna fa la, em lugar da relação sexual insus-
tentável que tivera lugar por ocasião do trauma da mamade ira forçada.
pontos nodais 57
O fato de que Robert se servisse da escrita - digamos antes, aqui, do
ato de escrever, onde o corpo é prolongado pelo instrumento, o estilete
ou o lápis, até mesmo o pincel- não deixa de mostrar esta função própria
da escrita: a introdução de um real do traço que assume, em parte, o
impossível real de i(a); o traço produzido presentifica o representante
daquilo que falta à imagem no espelho - e por que não à folha em
branco?
Todos os paranóicos fazem essa experiência benéfica, para além
mesmo do conteúdo daquilo que escrevem. A grafomania de um Jean-
Jacques Rousseau, por exemplo, deixava ainda espaço para sua neces-
s idade de passar diversas horas por dia copiando música, isto é, para o
puro ato de escrever. ·
Se a escrita é uma representação de palavras, a relação com o espelho
pode ser deduzida daí, bem como a implicação do Outro. A escrita, no
sentido pleno, é um sistema constituído em relação a uma lei que institui
a função das letras, até mesmo da letra - mas Robert nos mostrou, como
toda criança, que o primeiro balbuciar da escrita vem do Outro e passapelo corpo deste, o que não é um semblante.
Pode-se no entanto, comparando em Robert o reflexo na vidraça e o
segundo encontro com o espelho, ver o caminho percorrido que vai d o
real de i(a) ao semblante da imagem i '(a), diante da qual ele pode passar
o s ignificante de seu nome, .. Robert'·, e mesmo dizer o meu diante da
minha imagem. A parte de real irredutível de í(a) era assumida por ele
pela escrita.
Nadia era capaz de chegar a se amar em i '(a), sob o olhar do Outro.
O real para ela não estava menos diretamente presente nesse momento
em que ela se voltava para o Outro e se refugiava em seus braços,
mantendo ao mesmo tempo um olho um pouco tímido nlt sua imagem
no espelho.
Digamos, para concluir, que a clínica do real precisa. do semblante,
e a conjunção dos dois só pode ser assegurada pelo estágio do espelho.
O logro do desejo se instaura por i '(a), que implica no Outro e seu
desejo, mas encontra sua causa em í(a). Esta é a via fundamental do
lugar do sujeito com referência ao Outro, que é o de causar seu desejo
enquanto a, temperado pelo semblante que é sua parte própria onde ele
pode se amar e se pertencer.
O espelho conjuga o semblante e o real no semblante de a.
É isso que Robert nos demoastrou em negativo, quando era possuído
pela necessidade de restituir ao Outro uma parte do corpo, esse pênis
do corpo que ele incorporou, objeto a mais que faz o falso a de um corpo
despedaçado; mas que marca todo objeto a pelo real e pelo horror
quando o semblante não advém ao espelho para deixar ao sujeito sua
imagem, onde ele pode se amar -apesar do comando,..
11. Casos
59
11. Casos
59
Do Outro impossível ao Outro não-barrado
Yvonne Lachaize-~michen
Pa~a seguir o trajeto do Outro impossível ao Outro não-barrado, aÚ on-
de malogra o desejo do analista, vou falar-lhes de duas crianças psicó-
ticas, Kacem e Cédric, que, em seus respectivos tratamentos , formam
uma montagem de sessões praticamente idênticas. Identidade que me
questionou quanto ao que constituía, para elas, a minha presença .
Sabe-se que, na psicose, a foraclusão do significante do Nome-do-
Pai, perfurando o simbólico, deixa o campo livre para das Ding. Vamos
distinguir a lei do capricho, do arbitrário e da onipotência imposta por
das Ding da lei do desejo. A coisa é anlinõmica do grande Outro, lugar
da fala e da lei. Na psicose, o Outro permanece lugar do significante
não redobrado pelo lugar da lei. O recalque primário e o interdito do
incesto não se inscrevem, portanto o real não se transmuta em signifi-
cante e, como este último permanece uma injunção, não representa o
sujeito para um outro significante.
O psicótico, preenchendo a mãe como corpo real, não pode interro-
gar, já que não adveio corno sujeito, a falta materna, ou seja, seu desejo,
e se encontra enquanto objeto a submetido ao seu gozo não barrado pela
lei. Vou tentar demonstrar que o analista é, então, presença real, teste-
munha impotente do sofrimento em face do objeto tomado impossível
porque não transmutado em significante.
Podemos dizer, com Robert e Rosine Lefort (Ornícar? n11 26/27) que,
na psicose, ·a passagem do real ao um de significante, base do eu, só
pode se fazer porque não há Outro, enquanto os movimentos pulsionais,
enquadrados num real opaco, deixam o corpo no despedaçamento. O
objeto fica impossível, não tendo sido submetido à mutação significante
que inclui o Outro.
Num segundo tempo, vou evocar mais longamente o tratamento de
David, menino de nove anos crucificado, designado como o judeu da
família, tratamento ameaçado pela intrusão materna intervindo em ato,
pouco depois de ter emergido na transferência o significante •mãe
nazista ... Essa e fração interrompeu o tratamento que teria sem dúvida
permitido a David barrar o Outro.
61
Do Outro impossível ao Outro não-barrado
Yvonne Lachaize-~michen
Pa~a seguir o trajeto do Outro impossível ao Outro não-barrado, aÚ on-
de malogra o desejo do analista, vou falar-lhes de duas crianças psicó-
ticas, Kacem e Cédric, que, em seus respectivos tratamentos , formam
uma montagem de sessões praticamente idênticas. Identidade que me
questionou quanto ao que constituía, para elas, a minha presença .
Sabe-se que, na psicose, a foraclusão do significante do Nome-do-
Pai, perfurando o simbólico, deixa o campo livre para das Ding. Vamos
distinguir a lei do capricho, do arbitrário e da onipotência imposta por
das Ding da lei do desejo. A coisa é anlinõmica do grande Outro, lugar
da fala e da lei. Na psicose, o Outro permanece lugar do significante
não redobrado pelo lugar da lei. O recalque primário e o interdito do
incesto não se inscrevem, portanto o real não se transmuta em signifi-
cante e, como este último permanece uma injunção, não representa o
sujeito para um outro significante.
O psicótico, preenchendo a mãe como corpo real, não pode interro-
gar, já que não adveio corno sujeito, a falta materna, ou seja, seu desejo,
e se encontra enquanto objeto a submetido ao seu gozo não barrado pela
lei. Vou tentar demonstrar que o analista é, então, presença real, teste-
munha impotente do sofrimento em face do objeto tomado impossível
porque não transmutado em significante.
Podemos dizer, com Robert e Rosine Lefort (Ornícar? n11 26/27) que,
na psicose, ·a passagem do real ao um de significante, base do eu, só
pode se fazer porque não há Outro, enquanto os movimentos pulsionais,
enquadrados num real opaco, deixam o corpo no despedaçamento. O
objeto fica impossível, não tendo sido submetido à mutação significante
que inclui o Outro.
Num segundo tempo, vou evocar mais longamente o tratamento de
David, menino de nove anos crucificado, designado como o judeu da
família, tratamento ameaçado pela intrusão materna intervindo em ato,
pouco depois de ter emergido na transferência o significante •mãe
nazista ... Essa e fração interrompeu o tratamento que teria sem dúvida
permitido a David barrar o Outro.
61
62 a CJ"iança no díscurso analítico
Kacem
Kacem tinha dezesseis anos. Sua família desinteressara-se por ele, que
estava hospitalizado em tempo integral desde a idade de seis anos. Um
estado de doença teria interrompido seu desenvolvimento com um ano
de idade. Sabe-se pouco de sua história, apenas que viveu com a mãe
até os quatro anos, quando sobreveio um sétimo e último nascimento de
um innão mongolóide, coinddindo com a chegada da família à França,
onde o pai, até então, vivia só. A linguagem de Kacem era rudimentar
e estereotipada:
- ele não mastigava, chupava, sua dentição inutilizada era defeituosa;
- lambuzava sua pele de saliva ou de açúcar;
-ocorria-lhe jogar cocó no teto, e tão bem que, em vez de cair, ficava
grudado;
- enfim, tampava os buracos dos encanamentos.
Durante duas sessões seguidas, Kacem se apoderou de uma cadeira,
que colocara sobre uma mesa baixa. Concordou que eu assegurasse seu
equilíbrio enquanto subia ali para tocar a lâmpada do teto, prisioneira
por trás de grades. Ficou satisfeito por conseguir. Na sessão seguinte,
repetiu a mesma cena, mas desta vez indicou que queria lamber a
lâmpada, o que era impossível. Isso me fez lembrar uma cena anterior,
quando me mostrou que não conseguia colocar seu sexo na boca, como
desejava. O pênis tomou o lugar do seio que nunca foi dele. O corte
sempre passou entre ele e o seio. O Outro primordial nunca teve fa lta
alguma e era ele, Kacem, que era irremediavelmente furado. O circuito
pulsional não inclui o Outro e se rebate sobre o auto-erotismo.
Cédric
Cédric tinha onze anos. Depois de um fracasso na escola maternal,
sempre esteve em hospital-dia . Falava muito, mas não sabia ler nem
escrever. Sua psicose era complicada por problemas psicossomáticos
graves: eczema generalizado desde os seis meses, asma, e estados
convulsivos generalizados que faziam seu pai dizer que Cédric morrera
duas vezes. O pai era uma pessoa ttiste, violento, esgotando-se em
querer impor autoridade ao filho. Desempregado há cinco anos,queixa-
va-se de estar com o corpo todo quebrado. A mulher acusava -o de
alcoólatra e impotente. Única a trabalhar, ela bancava o homem e
encontrava seu gozo na manutenção de um homem servil, um desttoço
de homem de cuja imagem, no entanto, ela cuidava, dando-lhe todo o
seu dinheiro e fazendo-o transportar-se de automóvel, mesmo lhe recu-
sando quaisquer outros transportes.
casos 63
Cédric organizara uma encenação · idêntica à da sessão de ·Kacem:
cadeira em cima da mesa para alcançar a lâmpada, ele estava munido
de ferramentas para consertá-la, mas era ela que o agredia e ele fmgiu
uma eletrocução. Em seguida, voltou, desta vez com uma pequena
escada de madeira, pois era muito pequeno para alcançar o teto. Com
este instrumento, que prendeu na grade da lâmpada, conseguiu tocar no
objeto; foi, então, buscar a boneca-menina, que era -uma tremenda
sem-vergonha" e a pendurou entre dois degraus da escada, ficando tudo
pendurado no teto e evocando dessa maneira o seio, que reintegr_a seu
produto. Cédric saiu, em seguida, da sessão para gritar no vaz1o do
corredor: ~As tetas, os peitos!"
Essas duas crianças me colocaram na posição testemunha de seu
sofrimento diante da impossibilidade do objeto que ficou no real e que
os destrói, ou que eles destroem. A pulsão sexual está agindo em toda
a sua selvageria, não temperada pela vertente significante. Há Repra-
sentanz mas não Vorstellung, não há metáfora significante possível,
pois o slgnificante não é, af, sinal de um sujeito para outro significante.
A cena primitiva é constituída pelo empilhamento de uma cadeira c
uma mesa, onde meu nome, Lacbaize 1, é tomado como objeto na
realidade.
Entretanto, Kacem e Cédric me permitem assegurar seu equilíbrio c
me incluem como testemunha que pode falar: além disso, vêm com
prazer às sessões e seu tratamento, portanto, vai prosseguir.
David
O tratamento de David, de nove anos, desenvolveu -se num dispensário
durante um ano e foi interrompido por ocasião das férias escolares de
verão, pouco depois de se ter formulado claramente para mim o signi-
ficante ~mãe nazista .. , esclarecendo, a posteriori, meu lugar na transfe-
rência . Significante que se voltou, então, contra mim, com os pais
denunciando minha intrusão no segredo de sua história, da qual não se
podia tratar. O único discurso possfvel era o da ordem e da desordem,
da vontade ou da indolência. Além disso, se David havia feito progres-
sos na escola, e se donnia melhor, era devido ao Neurocalcium que
tomava há algum tempo.
David foi trazido ao dispensário pelos pais, pois não ia bem na escola.
da qual estava ameaçado de expulsão. ~Ele é do contra, teimoso, não
1 Trata-se da homofonia enu-e Lachail.e e la chtJiu, a cadeira (N.T.)
62 a CJ"iança no díscurso analítico
Kacem
Kacem tinha dezesseis anos. Sua família desinteressara-se por ele, que
estava hospitalizado em tempo integral desde a idade de seis anos. Um
estado de doença teria interrompido seu desenvolvimento com um ano
de idade. Sabe-se pouco de sua história, apenas que viveu com a mãe
até os quatro anos, quando sobreveio um sétimo e último nascimento de
um innão mongolóide, coinddindo com a chegada da família à França,
onde o pai, até então, vivia só. A linguagem de Kacem era rudimentar
e estereotipada:
- ele não mastigava, chupava, sua dentição inutilizada era defeituosa;
- lambuzava sua pele de saliva ou de açúcar;
-ocorria-lhe jogar cocó no teto, e tão bem que, em vez de cair, ficava
grudado;
- enfim, tampava os buracos dos encanamentos.
Durante duas sessões seguidas, Kacem se apoderou de uma cadeira,
que colocara sobre uma mesa baixa. Concordou que eu assegurasse seu
equilíbrio enquanto subia ali para tocar a lâmpada do teto, prisioneira
por trás de grades. Ficou satisfeito por conseguir. Na sessão seguinte,
repetiu a mesma cena, mas desta vez indicou que queria lamber a
lâmpada, o que era impossível. Isso me fez lembrar uma cena anterior,
quando me mostrou que não conseguia colocar seu sexo na boca, como
desejava. O pênis tomou o lugar do seio que nunca foi dele. O corte
sempre passou entre ele e o seio. O Outro primordial nunca teve fa lta
alguma e era ele, Kacem, que era irremediavelmente furado. O circuito
pulsional não inclui o Outro e se rebate sobre o auto-erotismo.
Cédric
Cédric tinha onze anos. Depois de um fracasso na escola maternal,
sempre esteve em hospital-dia . Falava muito, mas não sabia ler nem
escrever. Sua psicose era complicada por problemas psicossomáticos
graves: eczema generalizado desde os seis meses, asma, e estados
convulsivos generalizados que faziam seu pai dizer que Cédric morrera
duas vezes. O pai era uma pessoa ttiste, violento, esgotando-se em
querer impor autoridade ao filho. Desempregado há cinco anos, queixa-
va-se de estar com o corpo todo quebrado. A mulher acusava -o de
alcoólatra e impotente. Única a trabalhar, ela bancava o homem e
encontrava seu gozo na manutenção de um homem servil, um desttoço
de homem de cuja imagem, no entanto, ela cuidava, dando-lhe todo o
seu dinheiro e fazendo-o transportar-se de automóvel, mesmo lhe recu-
sando quaisquer outros transportes.
casos 63
Cédric organizara uma encenação · idêntica à da sessão de ·Kacem:
cadeira em cima da mesa para alcançar a lâmpada, ele estava munido
de ferramentas para consertá-la, mas era ela que o agredia e ele fmgiu
uma eletrocução. Em seguida, voltou, desta vez com uma pequena
escada de madeira, pois era muito pequeno para alcançar o teto. Com
este instrumento, que prendeu na grade da lâmpada, conseguiu tocar no
objeto; foi, então, buscar a boneca-menina, que era -uma tremenda
sem-vergonha" e a pendurou entre dois degraus da escada, ficando tudo
pendurado no teto e evocando dessa maneira o seio, que reintegr_a seu
produto. Cédric saiu, em seguida, da sessão para gritar no vaz1o do
corredor: ~As tetas, os peitos!"
Essas duas crianças me colocaram na posição testemunha de seu
sofrimento diante da impossibilidade do objeto que ficou no real e que
os destrói, ou que eles destroem. A pulsão sexual está agindo em toda
a sua selvageria, não temperada pela vertente significante. Há Repra-
sentanz mas não Vorstellung, não há metáfora significante possível,
pois o slgnificante não é, af, sinal de um sujeito para outro significante.
A cena primitiva é constituída pelo empilhamento de uma cadeira c
uma mesa, onde meu nome, Lacbaize 1, é tomado como objeto na
realidade.
Entretanto, Kacem e Cédric me permitem assegurar seu equilíbrio c
me incluem como testemunha que pode falar: além disso, vêm com
prazer às sessões e seu tratamento, portanto, vai prosseguir.
David
O tratamento de David, de nove anos, desenvolveu -se num dispensário
durante um ano e foi interrompido por ocasião das férias escolares de
verão, pouco depois de se ter formulado claramente para mim o signi-
ficante ~mãe nazista .. , esclarecendo, a posteriori, meu lugar na transfe-
rência . Significante que se voltou, então, contra mim, com os pais
denunciando minha intrusão no segredo de sua história, da qual não se
podia tratar. O único discurso possfvel era o da ordem e da desordem,
da vontade ou da indolência. Além disso, se David havia feito progres-
sos na escola, e se donnia melhor, era devido ao Neurocalcium que
tomava há algum tempo.
David foi trazido ao dispensário pelos pais, pois não ia bem na escola.
da qual estava ameaçado de expulsão. ~Ele é do contra, teimoso, não
1 Trata-se da homofonia enu-e Lachail.e e la chtJiu, a cadeira (N.T.)
14 a aiança no discurso analítiCXJ
liga para nada. Estaria bem numa ilha deserta, é como se ele nunca
estivesse ar, disse o pai. Em compensação, seu irmão Philippe (lem-
bremos que era este o nome do marechal Pétain), um ano e meio mais
velho, era inventivo, se metia em tudo, queria fazer tudo bem feito e,
nisso, se parecia com a mãe. Os pais não faziam diferenças entre os dois
inilãos, que eram, aliás, duas cópias, ambos louros, quase do mesmo
tamanho, vestidos demodo idêntico. Diante da minha pergunta sobre o
que poderia, mesmo assim, distinguir David, de maneira positiva, em
comparação ao irmão, ele me respondeu, depois de refletir, que era
muito inteligente e tinha uma excelente memória.
Com dificuldade, soube que a mãe era de origem polonesa. Ela
lembrava, com reticências, seus pais que vieram para a França, a mãe
aos seis anos de idade e o pai aos onze. Seu pai se casara tarde, com
uma mulher inválida, que tivera um membro amputado desde a infância,
mas que em compensação já tinha um filho. O casal teve mais um filho,
e em seguida ela, a mais nova. Dizia não compreender o casamento de
seus pais, que brigavam sem parar.
Descreveu sua mãe como uma pessoa .. vulgar .. , que teria querido
intervir na vida da filha, a qual se rebelou e fugiu. O pai de David dizia
da mulher que é -uma parede ... Esta parede era retomada para qualificar
David: .. Ele gosta de ler, enquanto está lendo se tem paz, mas é como
uma parede ... Ora, vamos ver como David esbarrou numa parede.
Ao contrário, a família paterna era bastante presente, tendo se toma-
do a família adotiva da mãe. A avó paterna se ocupava muito dos dois
netos e é ela quem acompanhava David com mais freqüência à sessão.
Fiquei sabendo, entretanto, que .. vovó é como uma criança, hemiplégíco
há dez anos" - portanto, antes do nascimento de David, o qual me disse a
seu respeito: ·Ele foi picado por uma mosca tsé-tsé antes de vir ao mundo".
Vamos notar como as imagens de homens eram fracas em tomo de
David . O pai, na única sessão em que consegui lhe falar, pois em seguida
se esquivara, descreveu a si mesmo como -um agitador que sempre teve
vontade de ser o primeiro, apesar de seu lugar de segundo". Ele inter-
viera junto aos filhos como um .. comando de choque .. . Apareceu, em
seguida, no discurso de sua mulher, como um perfeito robô doméstico.
Quanto ao modelo proposto a David, era o do irmão, que por sua vez se
parecia com a mãe.
A mãe de David se casou aos vinte anos, grávida de Philippe, depois
ficou esperando David sem o ter desejado, e querendo uma filha. Este
segundo nasciQlento forçou-a a parar de trabalhar durante sete anos. Ela
apare<ceu como uma mulher autoritária, rígida, seguidora de receitas,
desejando controlar tudo e não tendo tempo a perder: tudo devia estar
em ordem.
casos 65
A primeira sessão
Em seu primeiro desenho (Desenho I), David representou um mundo
que não existia, onde o Sol, de cabeça para baixo, coexistia com a Lua
e as estrelas deformadas . A isso se acrescentou um homem .. que não deu
certo .. (ele queria fazer karatê, mas seus pais só lhe permitiram aprender
judô, que começou a fazer ao mesmo tempo que iniciou a terapia).
Aquele curioso personagem, com quatro asas em vez de braços, era um
tema que ele iria retomar e complicar ao longo das sessões. Já se podia
reconhecer aí o que iria aparecer mais tarde, em seu tratamento: um
inseto, e uma cruz gamada. Sua cabeça, dizia ele, foi defonnada em
conseqüência de um acidente, no qual houve fogo. Ao desenho, acres-
centou uma ·casa impossfvel" e, num balão, o nome da cidade ~nesfor
meges".
'-\ I
-~'
rf.
11'-
o
o
Desenho I
Neste homem estranho, pode-se entender, sem dúvida, a repre-
;entação que ele tinha do desejo de sua mãe: que seu irmão e ele fossem
um só. David, com efeito, teve que se separar deste duplo perseguidor,
com relação ao qual se negativizava: .. Ele faz tudo ao contrário .. , me
14 a aiança no discurso analítiCXJ
liga para nada. Estaria bem numa ilha deserta, é como se ele nunca
estivesse ar, disse o pai. Em compensação, seu irmão Philippe (lem-
bremos que era este o nome do marechal Pétain), um ano e meio mais
velho, era inventivo, se metia em tudo, queria fazer tudo bem feito e,
nisso, se parecia com a mãe. Os pais não faziam diferenças entre os dois
inilãos, que eram, aliás, duas cópias, ambos louros, quase do mesmo
tamanho, vestidos de modo idêntico. Diante da minha pergunta sobre o
que poderia, mesmo assim, distinguir David, de maneira positiva, em
comparação ao irmão, ele me respondeu, depois de refletir, que era
muito inteligente e tinha uma excelente memória.
Com dificuldade, soube que a mãe era de origem polonesa. Ela
lembrava, com reticências, seus pais que vieram para a França, a mãe
aos seis anos de idade e o pai aos onze. Seu pai se casara tarde, com
uma mulher inválida, que tivera um membro amputado desde a infância,
mas que em compensação já tinha um filho. O casal teve mais um filho,
e em seguida ela, a mais nova. Dizia não compreender o casamento de
seus pais, que brigavam sem parar.
Descreveu sua mãe como uma pessoa .. vulgar .. , que teria querido
intervir na vida da filha, a qual se rebelou e fugiu. O pai de David dizia
da mulher que é -uma parede ... Esta parede era retomada para qualificar
David: .. Ele gosta de ler, enquanto está lendo se tem paz, mas é como
uma parede ... Ora, vamos ver como David esbarrou numa parede.
Ao contrário, a família paterna era bastante presente, tendo se toma-
do a família adotiva da mãe. A avó paterna se ocupava muito dos dois
netos e é ela quem acompanhava David com mais freqüência à sessão.
Fiquei sabendo, entretanto, que .. vovó é como uma criança, hemiplégíco
há dez anos" - portanto, antes do nascimento de David, o qual me disse a
seu respeito: ·Ele foi picado por uma mosca tsé-tsé antes de vir ao mundo".
Vamos notar como as imagens de homens eram fracas em tomo de
David . O pai, na única sessão em que consegui lhe falar, pois em seguida
se esquivara, descreveu a si mesmo como -um agitador que sempre teve
vontade de ser o primeiro, apesar de seu lugar de segundo". Ele inter-
viera junto aos filhos como um .. comando de choque .. . Apareceu, em
seguida, no discurso de sua mulher, como um perfeito robô doméstico.
Quanto ao modelo proposto a David, era o do irmão, que por sua vez se
parecia com a mãe.
A mãe de David se casou aos vinte anos, grávida de Philippe, depois
ficou esperando David sem o ter desejado, e querendo uma filha. Este
segundo nasciQlento forçou-a a parar de trabalhar durante sete anos. Ela
apare<ceu como uma mulher autoritária, rígida, seguidora de receitas,
desejando controlar tudo e não tendo tempo a perder: tudo devia estar
em ordem.
casos 65
A primeira sessão
Em seu primeiro desenho (Desenho I), David representou um mundo
que não existia, onde o Sol, de cabeça para baixo, coexistia com a Lua
e as estrelas deformadas . A isso se acrescentou um homem .. que não deu
certo .. (ele queria fazer karatê, mas seus pais só lhe permitiram aprender
judô, que começou a fazer ao mesmo tempo que iniciou a terapia).
Aquele curioso personagem, com quatro asas em vez de braços, era um
tema que ele iria retomar e complicar ao longo das sessões. Já se podia
reconhecer aí o que iria aparecer mais tarde, em seu tratamento: um
inseto, e uma cruz gamada. Sua cabeça, dizia ele, foi defonnada em
conseqüência de um acidente, no qual houve fogo. Ao desenho, acres-
centou uma ·casa impossfvel" e, num balão, o nome da cidade ~nesfor
meges".
'-\ I
-~'
rf.
11'-
o
o
Desenho I
Neste homem estranho, pode-se entender, sem dúvida, a repre-
;entação que ele tinha do desejo de sua mãe: que seu irmão e ele fossem
um só. David, com efeito, teve que se separar deste duplo perseguidor,
com relação ao qual se negativizava: .. Ele faz tudo ao contrário .. , me
a criança no discurso analltioo
diria a mãe. ·Além disso é canhoto ... Veríamos esta forma tomar-se um
anjo sem cabeça que subia ao céu e, mais tarde, represen~ria aquilo a
que chamava de ·um inverossímil .. (Desenho m, que se podia entender
como ·um verdadeiro semelhante .. 2, e, se era esta sua busca desespera-
da, era também a imagem da família ou da mulher-ele\ cujo tronco
fá li co atravessava desta vez três membros duplos. Talvez fosse esta uma
representação dos três homens da família. Esta figura terminava por
uma cabeça cujo pescoço era trespassado por uma flecha emforma de
p, onde o nariz proeminente tomava o lugar de pênis e a boca estava
ausente.
DesenhoU
2 Jogo de palavns entre ·,n illvroiMiflbUJbte• (um inverosslmil) e·.,,. WGi umblal>k (una
verdadeiro semelhante). (N.T.)
3 l ogo com a homofonia mtrefo,d/1~ (famJUa) e/~lllllle·il. (nwlhec-de). (N.T.).
casos
Ainda nesta primeira sessão, ele queria copiar uma tira de quadrinhos
e quando lhe dizia que não se tratava de copiar. guardava isso como uma
injunção contraditória à ordem familiar.
De saída, David sustentava uma demanda com relação ao tratamento.
Se devia renunciar a vir duas vezes por semana, pois sua mãe se opunha
a isso, fazia questão de anotar seu nome em minha agenda, nas datas
dos próximos encontros ... Um menino que faz furos nas vespas para tirar
leite delas. É preciso que as vespas alimentem os bebês."
Não seria esta a ilustração de uma mãe fálica, da qual é preciso tomar
aquilo que ela guarda para si mesma? Esta mãe da qual se deve descon-
fiar, porque tem um dardo, como se proteger dela? Para se defender, ele
tentou inicialmente tapar todos os orifícios de seu corpo, com exceção
das orelhas, mergulhando, durante uma parte da sessão, na leitura de
histórias em quadrinhos, enchendo, assim, seus olhos de imagens. Ao
fazer isso, enfiava dois dedos de Úma das mãos nas narinas, um outro
na boca, e enquanto se entregava a esse exercício, dizia estas palavras:
·A merda no cu".
Contra este Outro matemo intruso, que eu representava na sessão,
ele ia lutar: primeiramente, faz explodir, num desenho, a mulher nua
que lhe revelou sua emoção, diante da descoberta de que aquilo poderia
faltar. Depois, trouxe armas para a sessão: uma faca, que ele voltou
contra mim para me abrir o ventre e retirar meu apêndice, mas ao aplicar
uma injeção ele se enganou de lado e foi ele quem adormeceu; depois,
revólveres. Em seguida, introduziu a clave de sol, chave mágica com a
qual se pode fazer tudo menos abrir portas. Na sessão seguinte me
confiou uma ilha do tesouro com cinco furos, feitos provavehriente com
um cigarro aceso, sob a qual ele assinou Barba Azul, o homem que mata
as mulheres, talvez porque elas façam furos n'ele\ porque condenam o
homem a ser mulher como elas.
David, com efeito, não assinava Barba Azul, o que aliás eu não lhe
apontava, e sim Borda Azul, pondo-se do lado daquele que tinha a chave
do tesouro para melhor negar seu receio de não tê-la. Qual é o segredo
do Outro? Com que se deve pagar o acesso ao tesouro da linguagem que
abre ao mesmo tempo o furo e a borda à qual se agarr~r? Acesso que
vai permitir escapar à ordem do mestre, que designa um lugar, e
tornar-se um sujeito pelo manejo pessoal dos signos, para além do risco
de morte incorrido pela transgressão, como testemunha o conto. .
Pela magia, e por uma idéia de onipotência - .. David é o re_i dos re1s~
-,ele procurava negar sua angústia de castração. Quando o mt~rprete1
na sessão seguinte - ocasião em que ele se precipitou sobre mtm para
4 Trata-se ainda da bomofonia Q1tre ·u~- (Ilha) e il (ele). (N.T.)
a criança no discurso analltioo
diria a mãe. ·Além disso é canhoto ... Veríamos esta forma tomar-se um
anjo sem cabeça que subia ao céu e, mais tarde, represen~ria aquilo a
que chamava de ·um inverossímil .. (Desenho m, que se podia entender
como ·um verdadeiro semelhante .. 2, e, se era esta sua busca desespera-
da, era também a imagem da família ou da mulher-ele\ cujo tronco
fá li co atravessava desta vez três membros duplos. Talvez fosse esta uma
representação dos três homens da família. Esta figura terminava por
uma cabeça cujo pescoço era trespassado por uma flecha em forma de
p, onde o nariz proeminente tomava o lugar de pênis e a boca estava
ausente.
DesenhoU
2 Jogo de palavns entre ·,n illvroiMiflbUJbte• (um inverosslmil) e·.,,. WGi umblal>k (una
verdadeiro semelhante). (N.T.)
3 l ogo com a homofonia mtrefo,d/1~ (famJUa) e/~lllllle·il. (nwlhec-de). (N.T.).
casos
Ainda nesta primeira sessão, ele queria copiar uma tira de quadrinhos
e quando lhe dizia que não se tratava de copiar. guardava isso como uma
injunção contraditória à ordem familiar.
De saída, David sustentava uma demanda com relação ao tratamento.
Se devia renunciar a vir duas vezes por semana, pois sua mãe se opunha
a isso, fazia questão de anotar seu nome em minha agenda, nas datas
dos próximos encontros ... Um menino que faz furos nas vespas para tirar
leite delas. É preciso que as vespas alimentem os bebês."
Não seria esta a ilustração de uma mãe fálica, da qual é preciso tomar
aquilo que ela guarda para si mesma? Esta mãe da qual se deve descon-
fiar, porque tem um dardo, como se proteger dela? Para se defender, ele
tentou inicialmente tapar todos os orifícios de seu corpo, com exceção
das orelhas, mergulhando, durante uma parte da sessão, na leitura de
histórias em quadrinhos, enchendo, assim, seus olhos de imagens. Ao
fazer isso, enfiava dois dedos de Úma das mãos nas narinas, um outro
na boca, e enquanto se entregava a esse exercício, dizia estas palavras:
·A merda no cu".
Contra este Outro matemo intruso, que eu representava na sessão,
ele ia lutar: primeiramente, faz explodir, num desenho, a mulher nua
que lhe revelou sua emoção, diante da descoberta de que aquilo poderia
faltar. Depois, trouxe armas para a sessão: uma faca, que ele voltou
contra mim para me abrir o ventre e retirar meu apêndice, mas ao aplicar
uma injeção ele se enganou de lado e foi ele quem adormeceu; depois,
revólveres. Em seguida, introduziu a clave de sol, chave mágica com a
qual se pode fazer tudo menos abrir portas. Na sessão seguinte me
confiou uma ilha do tesouro com cinco furos, feitos provavehriente com
um cigarro aceso, sob a qual ele assinou Barba Azul, o homem que mata
as mulheres, talvez porque elas façam furos n'ele\ porque condenam o
homem a ser mulher como elas.
David, com efeito, não assinava Barba Azul, o que aliás eu não lhe
apontava, e sim Borda Azul, pondo-se do lado daquele que tinha a chave
do tesouro para melhor negar seu receio de não tê-la. Qual é o segredo
do Outro? Com que se deve pagar o acesso ao tesouro da linguagem que
abre ao mesmo tempo o furo e a borda à qual se agarr~r? Acesso que
vai permitir escapar à ordem do mestre, que designa um lugar, e
tornar-se um sujeito pelo manejo pessoal dos signos, para além do risco
de morte incorrido pela transgressão, como testemunha o conto. .
Pela magia, e por uma idéia de onipotência - .. David é o re_i dos re1s~
-,ele procurava negar sua angústia de castração. Quando o mt~rprete1
na sessão seguinte - ocasião em que ele se precipitou sobre mtm para
4 Trata-se ainda da bomofonia Q1tre ·u~- (Ilha) e il (ele). (N.T.)
68 a criança no discurso analíti<X>
transformar minha écharpe em gravata, pois seria menos perigoso para
ele se cu fosse um homem e era contra esse perigo que ele trazia todas
essas armas para a sessão- , desenhou um veleiro (Desenho lll) ~o qual
havia um vigia ao lado de um capitão todo armado, o que entendt como:
0 perigo vem do ma~. Iriam aparecer em seguida, na sucessão de desenhos,
de alguma maneira, os dentes do mar: tubarões, carne, uma cabeça de
vampiro que ele associou a dois .. dodóis .. que me mostrou em seu corpo.
E.T.
,l
M ili t-n
Ri
Desenho DI
Uma outra questão se impunha, paralelamente, a David: como se
se parar de seu duplo fraterno? Como, a part~r do idênt~co, fazer o
dife rente? Ele desenhou, então, um homem-passaro: um homem-ela,
seria isso possível ?
5 Outro par de homófonos: mer (mar) c mire (mãe). (N.T.)
•
Depois, a questão do furo se tomou central. A mãe de David havia
frisado, no começo do tratamento, o medo que seu filho sentia de
bunicos, suas vertigens, o medo de cair, de morrer.
No fun de uma sessão, David escreveu furtivamente •buraco", no
quadro. Depois, transformou o pano de um cinto de judô, -que apagou
parcialmente, numa ferradura de cavalo, arma do cavalo, sem dúvida,
mas cujos furos eram tampados por cnvos.
E.T.,o extraterrestre, teria um furo em cima da boca. Este extrater-
restre, ·um robô", me dizia ele, como seu pai era para a mãe, ia aparecer,
separando o nome do seu pai do seu, tomando-se assim e6: o pai e David,
os dois robôs matemos.
Enquanto isso, apareceram desenhos de cruzes gamadas (Desenho
IV), sobre as quais o homem crucificado tinha cravos nas mãos e nos
Desenho IV
6 No original: le pire er Dovid (N.T.)
68 a criança no discurso analíti<X>
transformar minha écharpe em gravata, pois seria menos perigoso para
ele se cu fosse um homem e era contra esse perigo que ele trazia todas
essas armas para a sessão- , desenhou um veleiro (Desenho lll) ~o qual
havia um vigia ao lado de um capitão todo armado, o que entendt como:
0 perigo vem do ma~. Iriam aparecer em seguida, na sucessão de desenhos,
de alguma maneira, os dentes do mar: tubarões, carne, uma cabeça de
vampiro que ele associou a dois .. dodóis .. que me mostrou em seu corpo.
E.T.
,l
M ili t-n
Ri
Desenho DI
Uma outra questão se impunha, paralelamente, a David: como se
se parar de seu duplo fraterno? Como, a part~r do idênt~co, fazer o
dife rente? Ele desenhou, então, um homem-passaro: um homem-ela,
seria isso possível ?
5 Outro par de homófonos: mer (mar) c mire (mãe). (N.T.)
•
Depois, a questão do furo se tomou central. A mãe de David havia
frisado, no começo do tratamento, o medo que seu filho sentia de
bunicos, suas vertigens, o medo de cair, de morrer.
No fun de uma sessão, David escreveu furtivamente •buraco", no
quadro. Depois, transformou o pano de um cinto de judô, -que apagou
parcialmente, numa ferradura de cavalo, arma do cavalo, sem dúvida,
mas cujos furos eram tampados por cnvos.
E.T., o extraterrestre, teria um furo em cima da boca. Este extrater-
restre, ·um robô", me dizia ele, como seu pai era para a mãe, ia aparecer,
separando o nome do seu pai do seu, tomando-se assim e6: o pai e David,
os dois robôs matemos.
Enquanto isso, apareceram desenhos de cruzes gamadas (Desenho
IV), sobre as quais o homem crucificado tinha cravos nas mãos e nos
Desenho IV
6 No original: le pire er Dovid (N.T.)
70 a criança no dlsc:orso analítico
pés. Nesse sentido, ele me dizia que houve a guerra entre os alemães e
os poloneses, me falava de crucificações, de flagelos, torturas, e acres-
centava que os judeus foram mortos pelos alemães.
Foi então que vi sua mãe, que veio só porque David estava _d~nte.
Agressiva e apressada, pensava não ter nada a se censurar, e dtzta que
não pedia de David '"a cruz e a bandeira... Descreveu o filho como
rebelde e sujo, com os dedos que chupava. Ele se r~cu~va a come! de
manhã, então ela o forçava. Quanto a mim, encamtnhet mal as c01~s
interrogando-a sobre a infância de seus pais na Polônia. O_fendJ-a,
fazendo alusão a uma eventual origem judaica. Ela deu aos dots filhos
nomes que estavam, na época, em moda. Nada tinha a dizer ~uanto a
isso, e também não sabia por que sua mãe teve um membro muulado no
passado. . .
Diante desta hostilidade maciça, desta ordem melutável, sugert que
seu filho teria necessidade de que ela lhe consagrasse alguns minutos
por semana. Este modesto pedido foi rej~itado co~o absurdo: ela n~o
estava interessada no que ele contava; alem do mais, ele lhe respondia,
e isso era intolerável.
O Crucificado
David esteve ausente por três semanas, teve febre e uma verruga ~Jantar:
o furo se inscreveu em seu corpo. Na volta, desenhou um croc1ficado
de cabelos compridos: sangue negro escorria de seu lado, ele tinha
cravos nas mãos e nos pés. Falou-me, em seguida, de sua verrog&-cra~o,
da qual fez três desenhos: um círculo redondo com um furo no meto,
que ele perfurou, realmente, no papel; seu pé todo, com um furo dentro,
e finalmente os instrumentos para tratar dele.
Na sessão seguinte, me trouxe, e fez com que eu observasse, um
boneco Goldorak ao qual faltava uma perna e um robô que tinha uma
mão só. Falou-me em seguida das mulheres esquisitas de um falso
americano, que podia ser um nazista disfarçado. Sublinhei que isso de
mulheres podia ser perigoso, eu mesma era uma, e ele e~a um homem.
Ele, então, fez dois desenhos: a cabeça de uma ratazana g1gante com um
enorme focinho e dentes impressionantes, diante de um pedaço de
queijo gruyire cheio de buracos; depois, um segundo desenho, que
dizia de sua impossível virilidade: ele estava condenado a ser uma
mulher. Impossibilidade que, a partir deste desenho, ia bascular para
uma possibilidade.
Este desenho-pivô representava um pirata com uma caveira no cha-
péu: sem dúvida, estava armado: dentes, dois revólveres, u~a g~de
barba, mas não podia alcançar sua espada: cada vez que quena apanhá-
casos 71
la batia-se contra a parede, pois ela estava atrás de uma porta que, apesar
da maçaneta, só podia ser aberta se fosse calçada por um prego em
baixo. Nessas tentativas, ele ficava com um olho preto, pois, estávamos
em guerra, recebia uma flechada nas costas, uma facada na barriga, seu
sangue escorria e suas pistolas se descarregavam sobre seus próprios
pés: ele não tinha chance.
Disse-lhe, então, que talvez David também tivesse a impressão de
não ter uma chance, mas que isso podia mudar, e ele saiu muito
emocionado.
A partir daí as coisas iam se construir para ele. Encontrou sua boca,
que nio era mais apenas um buraco passivo que precisava obstruir para
não ser invadido. Buscou, depois, um modelo de identificação: um
verdadeiro semelhante. Deveria ele copiar uma imagem e tornar-se .. um
fantasma impecável", que daria prazer à mãe, mas estaria morto? Ou se
trataria, antes, de alguma outra coisa? Sem dúvida, o triângulo das
Bermudas é um lugar perigoso no mar, onde os barcos desaparecem, são
tragados, mas o lugar é localizado e pode-se escapar dele. Para isso ele
desenhou um avião-tubarão que podia atacar no ar e na água, evocando
a ereção onde ele tinha um lugar protegido. Existia o monstro do Lago
Ness, mas podia-se matá-lo ou evitá-lo e ele encontrou um suporte na
lenda de David e Golias.
Neste ponto o tratamento foi interrompido pela intrusão materna.
A mãe toda
Este trabalho feito com David é um questionamento da castração e do
desejo m'atemo. No começo do tratamento, ele se defendeu contra a mãe
imaginária, não-barrada, fáHca, tampando todos os orifícios de seu
corpo, com exceção das orelhas. e assim ele se fez parede, fugindo para
o irreal, o extraterrestre: ele era o •homem que fracassou·, e assim
fracassava em toda a parte_ mas recebia na sessão, logo de saída, a
injunção contrária à da mie: você não deve copiar, não lbe peço que
seja meu espelho, nem que seja uma mulher. Durante algum tempo, em
seguida, saindo de suas leituras - que dizia fazer para que todos tives-
sem sossego - interrogou-se sobre como, com uma chave que nio abria
porta alguma, se podia, a partir do mesmo, fazer a diferença.
Num terceiro tempo, para agradar o Outro matemo, desvhilizou-se,
fez-se furo, e foi inclusive atingido em seu corpo. um cravo o trespas-
sou. Foi então que sua mãe me disse: .. David quer ser o mártir, e Pbilippe
quer arrasar o mundo". Lembremo-nos de que o irmão mais velho é
aquele e111 quem a mãe se reconhece.
70 a criança no dlsc:orso analítico
pés. Nesse sentido, ele me dizia que houve a guerra entre os alemães e
os poloneses, me falava de crucificações, de flagelos, torturas, e acres-
centava que os judeus foram mortos pelos alemães.
Foi então que vi sua mãe, que veio só porque David estava _d~nte.
Agressiva e apressada, pensava não ter nada a se censurar, e dtzta que
não pedia de David '"a cruz e a bandeira... Descreveu o filho como
rebelde e sujo, com os dedos que chupava. Ele se r~cu~va a come! de
manhã, então ela o forçava. Quanto a mim, encamtnhet mal as c01~s
interrogando-a sobre a infância de seus pais na Polônia. O_fendJ-a,
fazendo alusão a uma eventual origem judaica. Ela deu aos dots filhos
nomes que estavam, na época, em moda. Nada tinha a dizer ~uanto a
isso, e também não sabia porque sua mãe teve um membro muulado no
passado. . .
Diante desta hostilidade maciça, desta ordem melutável, sugert que
seu filho teria necessidade de que ela lhe consagrasse alguns minutos
por semana. Este modesto pedido foi rej~itado co~o absurdo: ela n~o
estava interessada no que ele contava; alem do mais, ele lhe respondia,
e isso era intolerável.
O Crucificado
David esteve ausente por três semanas, teve febre e uma verruga ~Jantar:
o furo se inscreveu em seu corpo. Na volta, desenhou um croc1ficado
de cabelos compridos: sangue negro escorria de seu lado, ele tinha
cravos nas mãos e nos pés. Falou-me, em seguida, de sua verrog&-cra~o,
da qual fez três desenhos: um círculo redondo com um furo no meto,
que ele perfurou, realmente, no papel; seu pé todo, com um furo dentro,
e finalmente os instrumentos para tratar dele.
Na sessão seguinte, me trouxe, e fez com que eu observasse, um
boneco Goldorak ao qual faltava uma perna e um robô que tinha uma
mão só. Falou-me em seguida das mulheres esquisitas de um falso
americano, que podia ser um nazista disfarçado. Sublinhei que isso de
mulheres podia ser perigoso, eu mesma era uma, e ele e~a um homem.
Ele, então, fez dois desenhos: a cabeça de uma ratazana g1gante com um
enorme focinho e dentes impressionantes, diante de um pedaço de
queijo gruyire cheio de buracos; depois, um segundo desenho, que
dizia de sua impossível virilidade: ele estava condenado a ser uma
mulher. Impossibilidade que, a partir deste desenho, ia bascular para
uma possibilidade.
Este desenho-pivô representava um pirata com uma caveira no cha-
péu: sem dúvida, estava armado: dentes, dois revólveres, u~a g~de
barba, mas não podia alcançar sua espada: cada vez que quena apanhá-
casos 71
la batia-se contra a parede, pois ela estava atrás de uma porta que, apesar
da maçaneta, só podia ser aberta se fosse calçada por um prego em
baixo. Nessas tentativas, ele ficava com um olho preto, pois, estávamos
em guerra, recebia uma flechada nas costas, uma facada na barriga, seu
sangue escorria e suas pistolas se descarregavam sobre seus próprios
pés: ele não tinha chance.
Disse-lhe, então, que talvez David também tivesse a impressão de
não ter uma chance, mas que isso podia mudar, e ele saiu muito
emocionado.
A partir daí as coisas iam se construir para ele. Encontrou sua boca,
que nio era mais apenas um buraco passivo que precisava obstruir para
não ser invadido. Buscou, depois, um modelo de identificação: um
verdadeiro semelhante. Deveria ele copiar uma imagem e tornar-se .. um
fantasma impecável", que daria prazer à mãe, mas estaria morto? Ou se
trataria, antes, de alguma outra coisa? Sem dúvida, o triângulo das
Bermudas é um lugar perigoso no mar, onde os barcos desaparecem, são
tragados, mas o lugar é localizado e pode-se escapar dele. Para isso ele
desenhou um avião-tubarão que podia atacar no ar e na água, evocando
a ereção onde ele tinha um lugar protegido. Existia o monstro do Lago
Ness, mas podia-se matá-lo ou evitá-lo e ele encontrou um suporte na
lenda de David e Golias.
Neste ponto o tratamento foi interrompido pela intrusão materna.
A mãe toda
Este trabalho feito com David é um questionamento da castração e do
desejo m'atemo. No começo do tratamento, ele se defendeu contra a mãe
imaginária, não-barrada, fáHca, tampando todos os orifícios de seu
corpo, com exceção das orelhas. e assim ele se fez parede, fugindo para
o irreal, o extraterrestre: ele era o •homem que fracassou·, e assim
fracassava em toda a parte_ mas recebia na sessão, logo de saída, a
injunção contrária à da mie: você não deve copiar, não lbe peço que
seja meu espelho, nem que seja uma mulher. Durante algum tempo, em
seguida, saindo de suas leituras - que dizia fazer para que todos tives-
sem sossego - interrogou-se sobre como, com uma chave que nio abria
porta alguma, se podia, a partir do mesmo, fazer a diferença.
Num terceiro tempo, para agradar o Outro matemo, desvhilizou-se,
fez-se furo, e foi inclusive atingido em seu corpo. um cravo o trespas-
sou. Foi então que sua mãe me disse: .. David quer ser o mártir, e Pbilippe
quer arrasar o mundo". Lembremo-nos de que o irmão mais velho é
aquele e111 quem a mãe se reconhece.
72 a criança no d iscurso analítioo
A partir desse extremo da castração onde ele disse sua virilidade
impossível, alguma coisa vai se tomar possível. A intrusão real da mãe
de David interrompeu o trabalho que, depois da oferenda de castração,
iria permitir a David descobrir que ele não deixava de ter e que o Outro,
como ele, era barrado.
Quer se trate de seu gozo na psicose, ou de seu desejo na neurose, é
da intrusão do Outro primordial que se fez questão em meu trabalho.
O psicótico, à falta de referência ao terceiro simbólico, permanece
na díade imaginária mãe/filho, mas também pai/filho, onde um e outro
se confundem. por falta de introdução do Nome-do-Pai num mais-além
da mãe, e por isso ele não tem acesso ao um que conta e que se conta.
O Outro, como lugar da lei, permanece impossível.
David se confrontou com a mãe-toda, imaginária, cujo desejo onipo-
tente exigiria sua virilidade para que se perpetuasse o idêntico, o
mesmo, a ordem.
O Outro impossível ou não-barrado impede o advento do sujeito ·ser
de não-ser" representado pelo significante binário que só pode surgir da
castração. -A castração quer dizer que é preciso que o g·ozo seja
recusado para que ela possa ser alcançada pela escala invertida da lei
do desejo" (J. Lacan, '"Subversão do sujeito e dialética do desejo", in
Écrits, p. 827).
O Outro quer me perder?
Françoise Koehler
A clínica analítica de crianças autistas parece trazer uma interrogação
sobre o que pode estar recoberto pelo conceito de autismo. Os analistas
qu~ atende~ e~sas crianças bem sabem que existem diferenças entre os
autistas. Ha cnanças que são qualificadas como mais ou menos autistas
h~ cr~anças par~ as quais o tratamento analítico é efetivo, e outras qu~
nao. Ouve-se as vezes falar de verdadeiros e falsos autistas. Uma
questão permanece: o que acontece ãs crianças ditas autistas, das· quais
se pode desconfiar que sejam psicóticas, quando não encontram um
analista?
Um diagnóstico em questão
~téph~ne me foi e~cam!n?ado aos ~ês anos, pelo serviço de psiquiatria
mfanul, com um dtagnos~tco de auusmo. Era esta, com efe~to, a questão
que se l_evav_a a c?locar d1ante daquela criança sem ling~agem, que não
se ~ex1a, nao bnncava e permanecia imóvel, o olhar fixo, como que
fasctnada por um estranho espetáculo. Sua mãe me dizia que, comple-
tame~te assoberbada _por suas ocupações profissionais, não tivera tempo
de _cutdar dele, que_ foJ confiado a uma ama, que, só muito tempo depois
veJo _a _perce~r, ~ao ~alava com a criança, e, absorvida pelos afaieres
d<?m~ucos, Jamats bnneava com ela. Ep1bora Stéphane tivesse irmãos
e trmas educados da mesma maneira, ela dizia que nunca se dera conta ·
realmente, da gravidade de seu estado. Foi por ocasião c;le sua enttacb
na. escola maternal que os professores, alertados pela inércia da criança,
onentaram os pais para uma consulta.
O que nos indicou a anamnese foi o fato de Stéphane ter sido
c~mpletamen~ abandonado durante seus primeiros anos. A criança era
alimentada, bem tratada, suas necessidades satisfeitas, mas o Outro
nunca considerou seus apelos em seus significantes, o que lhe teria
permitido constituir os significantes de sua demanda e, para além desta
demanda, enunciar seu desejo. Seu mutismo, s ua inércia estavam ali
73
72 a criança no d iscurso analítioo
A partir desse extremo da castração onde ele disse sua virilidade
impossível, alguma coisa vai se tomar possível. A intrusão real da mãe
de David interrompeu o trabalho que, depois da oferenda de castração,
iria permitir a David descobrir que ele não deixava de ter e que o Outro,
como ele, era barrado.
Quer se trate de seu gozo na psicose, ou de seu desejo na neurose, é
da intrusão do Outro primordial que se fez questão em meutrabalho.
O psicótico, à falta de referência ao terceiro simbólico, permanece
na díade imaginária mãe/filho, mas também pai/filho, onde um e outro
se confundem. por falta de introdução do Nome-do-Pai num mais-além
da mãe, e por isso ele não tem acesso ao um que conta e que se conta.
O Outro, como lugar da lei, permanece impossível.
David se confrontou com a mãe-toda, imaginária, cujo desejo onipo-
tente exigiria sua virilidade para que se perpetuasse o idêntico, o
mesmo, a ordem.
O Outro impossível ou não-barrado impede o advento do sujeito ·ser
de não-ser" representado pelo significante binário que só pode surgir da
castração. -A castração quer dizer que é preciso que o g·ozo seja
recusado para que ela possa ser alcançada pela escala invertida da lei
do desejo" (J. Lacan, '"Subversão do sujeito e dialética do desejo", in
Écrits, p. 827).
O Outro quer me perder?
Françoise Koehler
A clínica analítica de crianças autistas parece trazer uma interrogação
sobre o que pode estar recoberto pelo conceito de autismo. Os analistas
qu~ atende~ e~sas crianças bem sabem que existem diferenças entre os
autistas. Ha cnanças que são qualificadas como mais ou menos autistas
h~ cr~anças par~ as quais o tratamento analítico é efetivo, e outras qu~
nao. Ouve-se as vezes falar de verdadeiros e falsos autistas. Uma
questão permanece: o que acontece ãs crianças ditas autistas, das· quais
se pode desconfiar que sejam psicóticas, quando não encontram um
analista?
Um diagnóstico em questão
~téph~ne me foi e~cam!n?ado aos ~ês anos, pelo serviço de psiquiatria
mfanul, com um dtagnos~tco de auusmo. Era esta, com efe~to, a questão
que se l_evav_a a c?locar d1ante daquela criança sem ling~agem, que não
se ~ex1a, nao bnncava e permanecia imóvel, o olhar fixo, como que
fasctnada por um estranho espetáculo. Sua mãe me dizia que, comple-
tame~te assoberbada _por suas ocupações profissionais, não tivera tempo
de _cutdar dele, que_ foJ confiado a uma ama, que, só muito tempo depois
veJo _a _perce~r, ~ao ~alava com a criança, e, absorvida pelos afaieres
d<?m~ucos, Jamats bnneava com ela. Ep1bora Stéphane tivesse irmãos
e trmas educados da mesma maneira, ela dizia que nunca se dera conta ·
realmente, da gravidade de seu estado. Foi por ocasião c;le sua enttacb
na. escola maternal que os professores, alertados pela inércia da criança,
onentaram os pais para uma consulta.
O que nos indicou a anamnese foi o fato de Stéphane ter sido
c~mpletamen~ abandonado durante seus primeiros anos. A criança era
alimentada, bem tratada, suas necessidades satisfeitas, mas o Outro
nunca considerou seus apelos em seus significantes, o que lhe teria
permitido constituir os significantes de sua demanda e, para além desta
demanda, enunciar seu desejo. Seu mutismo, s ua inércia estavam ali
73
74 a criança no diswrso analítico
como outras tantas respostas ao Che vuoi? Diante da questão do que
o Outro queria dele, encontrava o nada. Diante dessa não-resposta do
Outro, lá onde os significantes da demanda faltam, o que a criança vai
pôr em jogo é um fantasma que se poderia enunciar assim: o Outro quer
me perder?
Nas primeiras sessões, Stépbane mostrou que tinha acesso ao simbó-
lico, utilizando a bola que ofereci como uma arma. Atingiu-me com a
bola, e, quando a devolvi, atirou-se no chão, fazendo-se de morto. O
começo do tratamento instituiu o equívoco significante: tu és. Será
como morto que o Outro o deseja? Através desses jogos, ele institui na
transferência o .analista no lugar do Outro, a quem poderia dirigir essas
perguntas.
Depois de alguns meses de tratamento, Stéphane, que já adquirira um
certo número de significantes, me contou histórias. Desenhou um ani-
ma4 do qual me disse: ·É uma cobra que come cocô .. , e depois, f a zen do
pontos numa folha: -sei escrever o meu nome·, e se desenhou. Apare-
ciam desde então em seus desenhos traços e cruzes, prenúncios de uma
escrita.
Na sessão seguinte Stéphane fez tris desenhos. Primeiro desenhou
um círculo vazio, enunciando: ·Isto é a mamãe, não tem nada .. , depois,
com grande júbilo, preencheu o círculo, desenhou enumerando: -Eis os
olhos, o nariz, a boca .. ; em seguida, fez um sol. No segundo desenho,
fez uma mamãe cocô. Depois desenhou dizendo: -Na barriga da mamãe
tem um tudo, um tudo é isso.,.
A cobra que come cocô remete à teoría cloaca!. Esta teoria traz uma
solução ao enigma ·da origem das crianças, solução que não oferece mais
nada de originário. Come-se uma certa coisa, e isso faz com que se tenha
um bebê. Stépbane se identificou ao órgão fálico da mãe, a cobra que
come cocôs, sua maneira própria de fazer filhos no Outro, na trans fe-
rência.
Seis meses depois do começo do tratamento, Stéphane empreendeu
uma importante atividade de recorte: inicialmente, desenhou sua mãe,
da qual cortou as extremidades. Numa sessão posterior, começou a
cortar tiras. de papel. Perguntei-lhe o que fazia e me respondeu que
cortava peixes. -mes estão mortos, os peixes .. , dizia ele, recortando S'l!as
tiras com extremo júbilo, fazendo barulhos, -clack, clack, clack .. , sol-
tando gritinhos agudos visando imitar o grito do peixe que se mata. É
preciso que eu diga, aqui, que os pais de Stépbane faziam comércio de
peixes e foi devido a este comércio que a mie ficou totalmente assober-
bada depois de seu casamento e mais particularmente quando do nasci-
mento de Stéphane.
Na sessão seguinte, Stêphane brincou de me matar com a bola, depois
apagou a luz e, indicando-me o divã, obrigou-me a deitar, di~endo:
75
·Dona Cólera vamos mimir ... Reagi, e ele respondeu por um ·num
~um .. , voltou a acender a luz e me disse: .. Acorde ... Bu lhe perguntei;
Quem tem medo do lobo? .. Respondeu: ·o galo". Seu sobrenome
evocava o nome de um predador de galinheiros. Em seguida, ele apa-
nhou uma caixa cheia de contas, esvaziou-a e disse: '"Não tem nada
aqui ... Depois saiu e foi até a sala de espera constatar a ausência da mãe
que fora fazer compras. Chamou-me, para que eu constatasse com el~
aquela ausência, e voltou a entrar tranqüilamente no consultório.
. Essas sessões foram um momento crucial no tratamento. Elas permi-
tiram compreender aquilo que Stéphane atualizou desde o início de seu
tra!Jimento, nesse movimento que consistia em maw - ser morto. Ele
permanecia estancado na imobilidade do peixe morto identificado . .. . '
~m~gtnartamente com o objeto do desejo de sua mãe. A criança nos
~ndt~ o lugar que o fantasma matemo visava lhe indicar, procurando
tdenuficar-se com o objeto que Lacan designa como objeto a do fantas-
ma. Procura, identificando-se com esse objeto, saturar o modo de falta
no qual se especifica o desejo da mãe. Se a ausência vem indicar que é
o falo que a mãe deseja, então, para agradar a mãe e a f1m de retê-la a
criança não. pr~isa mais do que se identificar com o falo, ou ao obj~to
que o. substitui .. No caso, para Stéphane, o que atraía a mãe para junto
do pat e a mantmha afastada dele eram os peixes.
A sessão em que Stéphane cortou os peixes veio introduzir uma
vir:-da ~m s~a posição subjetiva. Stéphane pôde passar da posição do
objeto Jdennficado com o objeto do desejo da mãe a uma posição de
agente, identificado então com aquele que operava o corte. Houve um
efeito de corte entre a mãe e o objeto, e a criança pôde constatar que
tem poder sobre o mundo. Essa hipótese pareceu se confirmar nas
sessões seguintes: qua~do ele me mandou deitar no divã estava m~
pondo no lugar de objeto, no lugar onde se tem que assumir a angústia
da castração de que ele se fez o agente. Era este poder sobre o mundo
que lhe permitia aceitar a ausência da mãe, a mãe pôde então se ausentar
sem deixá-lo presa de uma angústia dilacerante.
O que aconteceu no tratamento naquele momento iria ter um efeito
singular sobre a mãe. Ela me explicou que durante as festas de Nata)
havia sido presa de uma estafa que a obrigara a interromper seu trabalho.
Efeito de fading, sem dúvida, produzi~o pela mudança delugar de
Stépbane, ocasionando para ela uma perda de gozo.
Uma falta vem recobrir outra
Na sessão seguinte, ele desenhou um menino e o recortou, operando o
corte em diversos níveis do corpo, dizendo-me: -EJe está morto, ele está
74 a criança no diswrso analítico
como outras tantas respostas ao Che vuoi? Diante da questão do que
o Outro queria dele, encontrava o nada. Diante dessa não-resposta do
Outro, lá onde os significantes da demanda faltam, o que a criança vai
pôr em jogo é um fantasma que se poderia enunciar assim: o Outro quer
me perder?
Nas primeiras sessões, Stépbane mostrou que tinha acesso ao simbó-
lico, utilizando a bola que ofereci como uma arma. Atingiu-me com a
bola, e, quando a devolvi, atirou-se no chão, fazendo-se de morto. O
começo do tratamento instituiu o equívoco significante: tu és. Será
como morto que o Outro o deseja? Através desses jogos, ele institui na
transferência o .analista no lugar do Outro, a quem poderia dirigir essas
perguntas.
Depois de alguns meses de tratamento, Stéphane, que já adquirira um
certo número de significantes, me contou histórias. Desenhou um ani-
ma4 do qual me disse: ·É uma cobra que come cocô .. , e depois, f a zen do
pontos numa folha: -sei escrever o meu nome·, e se desenhou. Apare-
ciam desde então em seus desenhos traços e cruzes, prenúncios de uma
escrita.
Na sessão seguinte Stéphane fez tris desenhos. Primeiro desenhou
um círculo vazio, enunciando: ·Isto é a mamãe, não tem nada .. , depois,
com grande júbilo, preencheu o círculo, desenhou enumerando: -Eis os
olhos, o nariz, a boca .. ; em seguida, fez um sol. No segundo desenho,
fez uma mamãe cocô. Depois desenhou dizendo: -Na barriga da mamãe
tem um tudo, um tudo é isso.,.
A cobra que come cocô remete à teoría cloaca!. Esta teoria traz uma
solução ao enigma ·da origem das crianças, solução que não oferece mais
nada de originário. Come-se uma certa coisa, e isso faz com que se tenha
um bebê. Stépbane se identificou ao órgão fálico da mãe, a cobra que
come cocôs, sua maneira própria de fazer filhos no Outro, na trans fe-
rência.
Seis meses depois do começo do tratamento, Stéphane empreendeu
uma importante atividade de recorte: inicialmente, desenhou sua mãe,
da qual cortou as extremidades. Numa sessão posterior, começou a
cortar tiras. de papel. Perguntei-lhe o que fazia e me respondeu que
cortava peixes. -mes estão mortos, os peixes .. , dizia ele, recortando S'l!as
tiras com extremo júbilo, fazendo barulhos, -clack, clack, clack .. , sol-
tando gritinhos agudos visando imitar o grito do peixe que se mata. É
preciso que eu diga, aqui, que os pais de Stépbane faziam comércio de
peixes e foi devido a este comércio que a mie ficou totalmente assober-
bada depois de seu casamento e mais particularmente quando do nasci-
mento de Stéphane.
Na sessão seguinte, Stêphane brincou de me matar com a bola, depois
apagou a luz e, indicando-me o divã, obrigou-me a deitar, di~endo:
75
·Dona Cólera vamos mimir ... Reagi, e ele respondeu por um ·num
~um .. , voltou a acender a luz e me disse: .. Acorde ... Bu lhe perguntei;
Quem tem medo do lobo? .. Respondeu: ·o galo". Seu sobrenome
evocava o nome de um predador de galinheiros. Em seguida, ele apa-
nhou uma caixa cheia de contas, esvaziou-a e disse: '"Não tem nada
aqui ... Depois saiu e foi até a sala de espera constatar a ausência da mãe
que fora fazer compras. Chamou-me, para que eu constatasse com el~
aquela ausência, e voltou a entrar tranqüilamente no consultório.
. Essas sessões foram um momento crucial no tratamento. Elas permi-
tiram compreender aquilo que Stéphane atualizou desde o início de seu
tra!Jimento, nesse movimento que consistia em maw - ser morto. Ele
permanecia estancado na imobilidade do peixe morto identificado . .. . '
~m~gtnartamente com o objeto do desejo de sua mãe. A criança nos
~ndt~ o lugar que o fantasma matemo visava lhe indicar, procurando
tdenuficar-se com o objeto que Lacan designa como objeto a do fantas-
ma. Procura, identificando-se com esse objeto, saturar o modo de falta
no qual se especifica o desejo da mãe. Se a ausência vem indicar que é
o falo que a mãe deseja, então, para agradar a mãe e a f1m de retê-la a
criança não. pr~isa mais do que se identificar com o falo, ou ao obj~to
que o. substitui .. No caso, para Stéphane, o que atraía a mãe para junto
do pat e a mantmha afastada dele eram os peixes.
A sessão em que Stéphane cortou os peixes veio introduzir uma
vir:-da ~m s~a posição subjetiva. Stéphane pôde passar da posição do
objeto Jdennficado com o objeto do desejo da mãe a uma posição de
agente, identificado então com aquele que operava o corte. Houve um
efeito de corte entre a mãe e o objeto, e a criança pôde constatar que
tem poder sobre o mundo. Essa hipótese pareceu se confirmar nas
sessões seguintes: qua~do ele me mandou deitar no divã estava m~
pondo no lugar de objeto, no lugar onde se tem que assumir a angústia
da castração de que ele se fez o agente. Era este poder sobre o mundo
que lhe permitia aceitar a ausência da mãe, a mãe pôde então se ausentar
sem deixá-lo presa de uma angústia dilacerante.
O que aconteceu no tratamento naquele momento iria ter um efeito
singular sobre a mãe. Ela me explicou que durante as festas de Nata)
havia sido presa de uma estafa que a obrigara a interromper seu trabalho.
Efeito de fading, sem dúvida, produzi~o pela mudança de lugar de
Stépbane, ocasionando para ela uma perda de gozo.
Uma falta vem recobrir outra
Na sessão seguinte, ele desenhou um menino e o recortou, operando o
corte em diversos níveis do corpo, dizendo-me: -EJe está morto, ele está
76 a criança no discurso analítico
ferido ... Perguntqu como me chamava, desenhando um homem. Disse
meu nome e lhe perguntei: e você? Ele me respondeu: .. Stéphane".
Repeti seu nome, acot:npanhado do sobrenome. Então ele riscou seu
homem, amassou o papel e o jogou no lixo, dizendo-me algo que não
entendi. E constatei, depois de sua safda, que carregara o desenho sem
que eu visse.
Esta seqüência, a propósito da nomeação, pôs em jogo a vertente
simbólica. Ele pôde, assim, tanto se considerar como morto ou ferido
por intermédio do desenho como se fazer desaparecer simbolicamente.
Era o fantasma de sua morte e desaparecimento que ele encenava. O
Outro podia perdê-lo? No começo do tratamento tínhamos o fantasma
em sua vertente imaginária; agora ele podia ser retomado na vertente
simbólica. Quando escamoteou o desenho, deixou-me privada, faltosa,
uma falta recobrindo outra.
Durante as sessões seguintes, desenhou inicialmente um robô, que
cortou, dizendo: .. É um robô que tem mais", deixando o equívoco entre
~mais .. e "'mais", pondo em jogo sua castração de · menino. Depois,
pegou bichos de pelúcia: um peixe, uma abelha que prudentemente
chamou de libélula (as libélulas não picam), dizendo-me: .. A libélula
come o peixe ... Apanhou garrafas de boliche, que guardava na caixa,
dizendo: .. Que ótimo!". Depois contou, 1-2-3, perguntando-me: .. E
depois de três, quanto é?" e em seguida, depois de 4, de 5, até 9. Então
me disse: .. só falta um. só um ... O um, daqui por diante, pôde faltar, ele
pôde contar a partir da· falta, do zero.
Durante as sessões que iriam se seguir, apanhou livros com figuras
e · fingiu ler. Leu Pinóquio para mim: ~Pinóquio apanhou os peixes
1-2-3, e comeu, e agora a baleia malvada vai comer Pinóquio", e
encadeou: .. Papai caiu na água e morreu". Recuperou-se depressa:
.. Mas existe uma mágica, e assim Pinóquio não morreu". Tomou, então,
um catálogo de brinquedos e fez a lista de todos os brinquedos que
queria que eu comprasse para ele, eliminando aqueles que considerava
como sendo para bebês e só deixando os que julgava serem para
meninos, dos quais dizia: ~Isso é para meninos". Quando sua mãe veio
buscá-lo no f1nal da sessão, ele pegou o catálogo e enumerou para ela
os brinquedos que queria ganhar no seu aniversário. A mãe disse: .. Está
bem, mas não tudo". Fui escandiro ~não tudo", e então ele me olhou
dizendo: .. Esqueci meus revólveres em casa .. , indicando-me que o que
tinha estava em casa. Stépbane exprimiu ao mesmo tempo que não era
mais um bebê, que era um menino e por isso estava confrontado com a
castração, como todos os meninos de cinco anos às voltas com a
problemática edi piana . Introduzia pela primeira vez o significante ·pai ..
nas sessões, num registro que unia a morte e a paternidade.
casos n
Ele construiu uma casa em Lego e instaurou um jogo. Fez entrarem
dois ratinhos, dizendo: .. Ding, ding, entre, quem está aí? Sou eu ...
Inr.talou uma mesa na casa, dizendo-me: .. Olhe só, Dona Cólera, estou
pondo a mesa e os pratos, vamos comer os peixes e as galinhas .. , pondo
em jogo os s ignificantes nos seus valores de uso.
Se a questão inaugural do tratamento de Stéphane era a do autismo,
'~S coisas se resolveram muito depressa. Stéphane está estruturado no
registro neurótico. No entanto, quando veio me ver, Stéphane parecia
fixado sob o significante ·unário, o S., o que lhe dava essa aparente
petrificação, essa presença maciça. Parecia não haver possibilidade para
ele de advir como sujeito barrado. Stéphane havia feito a escolha do ser.
Fazer a escolha do sentido o teria remetido, pelo lado do Outro, a uma
resposta mortífera. O trabalho do tratamento ia lhe pennitir escolher o
sentido colocando a barra no Outro.
76 a criança no discurso analítico
ferido ... Perguntqu como me chamava, desenhando um homem. Disse
meu nome e lhe perguntei: e você? Ele me respondeu: .. Stéphane".
Repeti seu nome, acot:npanhado do sobrenome. Então ele riscou seu
homem, amassou o papel e o jogou no lixo, dizendo-me algo que não
entendi. E constatei, depois de sua safda, que carregara o desenho sem
que eu visse.
Esta seqüência, a propósito da nomeação, pôs em jogo a vertente
simbólica. Ele pôde, assim, tanto se considerar como morto ou ferido
por intermédio do desenho como se fazer desaparecer simbolicamente.
Era o fantasma de sua morte e desaparecimento que ele encenava. O
Outro podia perdê-lo? No começo do tratamento tínhamos o fantasma
em sua vertente imaginária; agora ele podia ser retomado na vertente
simbólica. Quando escamoteou o desenho, deixou-me privada, faltosa,
uma falta recobrindo outra.
Durante as sessões seguintes, desenhou inicialmente um robô, que
cortou, dizendo: .. É um robô que tem mais", deixando o equívoco entre
~mais .. e "'mais", pondo em jogo sua castração de · menino. Depois,
pegou bichos de pelúcia: um peixe, uma abelha que prudentemente
chamou de libélula (as libélulas não picam), dizendo-me: .. A libélula
come o peixe ... Apanhou garrafas de boliche, que guardava na caixa,
dizendo: .. Que ótimo!". Depois contou, 1-2-3, perguntando-me: .. E
depois de três, quanto é?" e em seguida, depois de 4, de 5, até 9. Então
me disse: .. só falta um. só um ... O um, daqui por diante, pôde faltar, ele
pôde contar a partir da· falta, do zero.
Durante as sessões que iriam se seguir, apanhou livros com figuras
e · fingiu ler. Leu Pinóquio para mim: ~Pinóquio apanhou os peixes
1-2-3, e comeu, e agora a baleia malvada vai comer Pinóquio", e
encadeou: .. Papai caiu na água e morreu". Recuperou-se depressa:
.. Mas existe uma mágica, e assim Pinóquio não morreu". Tomou, então,
um catálogo de brinquedos e fez a lista de todos os brinquedos que
queria que eu comprasse para ele, eliminando aqueles que considerava
como sendo para bebês e só deixando os que julgava serem para
meninos, dos quais dizia: ~Isso é para meninos". Quando sua mãe veio
buscá-lo no f1nal da sessão, ele pegou o catálogo e enumerou para ela
os brinquedos que queria ganhar no seu aniversário. A mãe disse: .. Está
bem, mas não tudo". Fui escandir o ~não tudo", e então ele me olhou
dizendo: .. Esqueci meus revólveres em casa .. , indicando-me que o que
tinha estava em casa. Stépbane exprimiu ao mesmo tempo que não era
mais um bebê, que era um menino e por isso estava confrontado com a
castração, como todos os meninos de cinco anos às voltas com a
problemática edi piana . Introduzia pela primeira vez o significante ·pai ..
nas sessões, num registro que unia a morte e a paternidade.
casos n
Ele construiu uma casa em Lego e instaurou um jogo. Fez entrarem
dois ratinhos, dizendo: .. Ding, ding, entre, quem está aí? Sou eu ...
Inr.talou uma mesa na casa, dizendo-me: .. Olhe só, Dona Cólera, estou
pondo a mesa e os pratos, vamos comer os peixes e as galinhas .. , pondo
em jogo os s ignificantes nos seus valores de uso.
Se a questão inaugural do tratamento de Stéphane era a do autismo,
'~S coisas se resolveram muito depressa. Stéphane está estruturado no
registro neurótico. No entanto, quando veio me ver, Stéphane parecia
fixado sob o significante ·unário, o S., o que lhe dava essa aparente
petrificação, essa presença maciça. Parecia não haver possibilidade para
ele de advir como sujeito barrado. Stéphane havia feito a escolha do ser.
Fazer a escolha do sentido o teria remetido, pelo lado do Outro, a uma
resposta mortífera. O trabalho do tratamento ia lhe pennitir escolher o
sentido colocando a barra no Outro.
O dejeto
Esthela Solano-Suarez
O encontro
Marine não falava. Tinha quatro anos e meio. Seu olhar era selvagem,
assustado. Ela foi tratada de uma suposta surdez não constatada pelos
exames realizados.
Embora tivesse aprendido a andar, caía a toda hora. Isso acabou
preocupando seus pais. Insônia, enurese, encopresia e anorexia vinham
completar esse quadro inicial. .. Não há causa orgânica .. , diziam os mé-
dicos do hospital de Trousseau, que recomendaram uma psicoterapia.
O im'cio da análise
A análise começou na presença da mãe, pois qualquer tentativa de
separação provocava em Marine o maior tenor.
Num primeiro tempo, ela dedicou-se energicamente a rasgar em dois
as folhas nas quais acabava de rabiscar uma série de traços. Seguiu-se
uma tentativa fracassada de colagem: a fita gomada era impotente,
depois de cada corte, para ftxar o nada, os pequenos traços ou o rasgado.
Isso não colava, e Marine caiu.
Mais tarde, inventou um jogo que ia lhe dar grande satisfação: um
objeto era modelado; depois ela ia arrancando pedaços dele, atirando-os
ao chão um após o outro, com gritos de alegria e excitação. Desses
pedaços que caíam, separou um. Dessa vez, sim, ele foi ftxado com
durex na folha de papel, tal como um ponto que viria estancar a
cachoeira de pedaços que se precipitavam numa queda infinita.
Desse ponto, ela não deixou de tirar conseqüências: uma forma
emergiu dentre os traços que escreveu, uma forma que denunciava os
contornos de um rosto patético. Este era seguido por quatro círculos,
cada um diferenciado por sua cor. Marine fez um corte no meio de cada
circulo, o que os dividiu em duas metades.
78
casos
As leis da linguagem
Vamos acompanhar Marine no caminho que ela abria a golpes de
tesoura, e saibamos reconhecer nos pequenos traços que desenhava na
pura diferença introduzida pela cor, no corte de superfície que exec~ta
va, as próprias leis da linguagem.
Mesmo que ~isso não falasse .. nela, em sua volta .. isso falava dela"
e ia se verificar que nossos encontros tinham o lugar de campo d~
linguagem. Por ai se abriu um caminho onde se destacava que, entre o
sujeito e o Outro, o inconsciente é o seu corte em ato, tal como Lacan
o definia em Posição do Inconsciente .
Que nossa preocupação de nada querer saber não nos faça esquecer
de que este corte em ato, até mesmo o conceito do inconsciente são
dirigidos ao analista: ele faz parte deles, diz Lacan.
"Pontinha!"
Marine modelara um anel, que depois achatou (I); em seguida, fez um
corte nele (2 ); tomou a fechar o anel (3); cortou-o de novo, em dois
@
Figura l Figura 2 Figura 3
© (QJ
Figura 4 Figura 5
ooo.
o. orE o
Figura 6 Figura 7
O dejeto
Esthela Solano-Suarez
O encontro
Marine não falava. Tinha quatro anos e meio. Seu olhar era selvagem,
assustado. Ela foi tratada de uma supostasurdez não constatada pelos
exames realizados.
Embora tivesse aprendido a andar, caía a toda hora. Isso acabou
preocupando seus pais. Insônia, enurese, encopresia e anorexia vinham
completar esse quadro inicial. .. Não há causa orgânica .. , diziam os mé-
dicos do hospital de Trousseau, que recomendaram uma psicoterapia.
O im'cio da análise
A análise começou na presença da mãe, pois qualquer tentativa de
separação provocava em Marine o maior tenor.
Num primeiro tempo, ela dedicou-se energicamente a rasgar em dois
as folhas nas quais acabava de rabiscar uma série de traços. Seguiu-se
uma tentativa fracassada de colagem: a fita gomada era impotente,
depois de cada corte, para ftxar o nada, os pequenos traços ou o rasgado.
Isso não colava, e Marine caiu.
Mais tarde, inventou um jogo que ia lhe dar grande satisfação: um
objeto era modelado; depois ela ia arrancando pedaços dele, atirando-os
ao chão um após o outro, com gritos de alegria e excitação. Desses
pedaços que caíam, separou um. Dessa vez, sim, ele foi ftxado com
durex na folha de papel, tal como um ponto que viria estancar a
cachoeira de pedaços que se precipitavam numa queda infinita.
Desse ponto, ela não deixou de tirar conseqüências: uma forma
emergiu dentre os traços que escreveu, uma forma que denunciava os
contornos de um rosto patético. Este era seguido por quatro círculos,
cada um diferenciado por sua cor. Marine fez um corte no meio de cada
circulo, o que os dividiu em duas metades.
78
casos
As leis da linguagem
Vamos acompanhar Marine no caminho que ela abria a golpes de
tesoura, e saibamos reconhecer nos pequenos traços que desenhava na
pura diferença introduzida pela cor, no corte de superfície que exec~ta
va, as próprias leis da linguagem.
Mesmo que ~isso não falasse .. nela, em sua volta .. isso falava dela"
e ia se verificar que nossos encontros tinham o lugar de campo d~
linguagem. Por ai se abriu um caminho onde se destacava que, entre o
sujeito e o Outro, o inconsciente é o seu corte em ato, tal como Lacan
o definia em Posição do Inconsciente .
Que nossa preocupação de nada querer saber não nos faça esquecer
de que este corte em ato, até mesmo o conceito do inconsciente são
dirigidos ao analista: ele faz parte deles, diz Lacan.
"Pontinha!"
Marine modelara um anel, que depois achatou (I); em seguida, fez um
corte nele (2 ); tomou a fechar o anel (3); cortou-o de novo, em dois
@
Figura l Figura 2 Figura 3
© (QJ
Figura 4 Figura 5
ooo.
o. orE o
Figura 6 Figura 7
80 a c:rianQI no disrurso analítico
pontos diferentes (4); depois, fechou o anel mais uma vez (S); cortou-o
em seis lugares (6); fechou-o ainda uma vez (7).
Durante todo esse tempo ·eJa chupou a própria lfngua ; em seguida,
colocou um pedaço de massa de rtrodelagem no buraco central do anel,
o furo desapareceu e ela pronunciou a primeira palavra: "Pontinha!"'
O que havia ali de pronto a falar, diz Lacan, desaparecia por não ser
mais que um significante. O que havia em Marine de pronto a falar,
falou, depois deste curioso trabalho onde o corte despertou o batimento
que carac teriza a pulsação temporal do inconsciente. A pontinha é o
nome daquilo que vem no lugar do furo central, furo delimitado pela
borda dessa superfície que se abre e toma a fechar numa alternância de
sucção.
Fort/Da
Marine brincava: a pontinha era colada na palma da mão de sua mãe, e
esta devia bater palmas de modo que a pontinha aparecesse e desapare-
cesse entre suas mãos. Marine, exultante, pedia para repetir! Em segui-
da, e ra e la quem vinha presentificar a pontinha, escondendo-se e
desaparecendo para reaparecer, chamada pelos -pára!" enunciados pela
mãe. Este jogo de aparecer e desaparecer foi sucedido por uma sessão
na qual Marine brincou de nos fazer desaparecer, eu e sua mãe. Ela nos
matou. Nos dias que se seguiram, você e eu apareceram em suas frases.
Esse aniquilamento que ela operou por intermédio de seu jogo fez
com que se sentisse culpada, culpada dessa fa lta que consistia em nada
mais do que aquilo que fazia fa ltà. A falta da qual ela nos iria tratar era
chamada -dodói ... Apesar dos cuidados, um -dodói .. voltava sempre ao
mesmo lugar, em sua mãe. -Mamãe dodói .. , disse Marine , ao mesmo
tempo em que indicava o seio da mãe. Chupou o polegar e rasgou uma
folna em dois.
A partir daí Marine fez as sessões sozinha, isto i, decidiu deixar a
mãe na sala de espera. Esta aceitou, imperturbável, tal como se mani-
festava desde o começo da análise da filha. Esta separação produzida
era, portanto, corte, já observável nessa possibilidade de corte introdu-
zida pelo significante no real.
O objeto oral
O - dodói .. no seio indicava, talvez, esse corte que devia passar entre o
seio e a mãe, para que aquele pudesse ser dado à criança. O esforço de
Marine no que se seguiu fo i concentrado em produzir a queda deste
objelo .
81
O ·dooói .. se deslocou. então, para a boca. Ela brincou de comidinha
e reproduziu uma cena onde o bebê não queria comer, mostrou-se
violenta e brutal: ·você não quer!• Jogou tudo no chão e acrescentou:
"Agora é você quem vai apanhar!"'
Uma outra cena: ela deu de comer à rãzinha de brinquedo e, quando
introduziu um bocado na boca desta. estremeceu e disse "Ai!": Em seu
rosto podia-se ler uma expressão de hoiTor. De que bocado se tratava
de fazer engolir, para produzir tamanho hottor? Seja como for, o bebê
preferiu não se alimentar de nada. E com razão!
Nesse ponto Marine voltou às superfícies. Numa fo lha de papel,
desenhou um círculo (o fonema "rond" (círculo] faz parte de seu
sobrenome). A borda do círculo foi delimitada várias vezes com um
lápis; depois cortou o interior do círculo, um pedacinho central se
destacou dele e Marine caiu, segurando o pedaço de papel. .
Ela observou o furo feito na folha e apanhou uma outra, que dividiu
com um traço para ali inscrever uma escrita em quatro lugares:
L LLL
LLJ..t. L LL L.L
O que ela lia assim: mam~e ~-Maladoé o nome peloqualdesig-
. mamac matauo
nava sua anahsta. .
Logo depois de ter produzido este corte, que instaurou o furo, Mario e
ordenou a escrita, na qual pudemos reconhecer aquela .. estrutura qua-
dripartite desde o inconsciente, sempre exigível na construção de um
ordenamento subjetivo .. , tal como nos indica Lacan em Kant com Sade.
Para Marine, isto foi a escrita de um nome.
Marine contou Jltla primeira vez uma his tória: uma menina come,
man(ge). O -je .. (eu) era elidido de todas as palavras em que aparecia
como fonema; um bebê dorme no berço, o bebê toma seu ·bron ..
(abreviatura de bibero11 , mamadeira), mamãe dá .. bron", papai dá
·bron".
Nessa série de enunciados podemos ler um desejo submetido ao
fantasma. A mamade ira entrou na dialética do dom. O objeto causa do
desejo é acessível na medida em que é tomado no movimento pacifica-
dor instaurado pelo significante fático.
80 a c:rianQI no disrurso analítico
pontos diferentes (4); depois, fechou o anel mais uma vez (S); cortou-o
em seis lugares (6); fechou-o ainda uma vez (7).
Durante todo esse tempo ·eJa chupou a própria lfngua ; em seguida,
colocou um pedaço de massa de rtrodelagem no buraco central do anel,
o furo desapareceu e ela pronunciou a primeira palavra: "Pontinha!"'
O que havia ali de pronto a falar, diz Lacan, desaparecia por não ser
mais que um significante. O que havia em Marine de pronto a falar,
falou, depois deste curioso trabalho onde o corte despertou o batimento
que carac teriza a pulsação temporal do inconsciente. A pontinha é o
nome daquilo que vem no lugar do furo central, furo delimitado pela
borda dessa superfície que se abre e toma a fechar numa alternância de
sucção.
Fort/Da
Marine brincava: a pontinha era colada na palma da mão de sua mãe, e
esta devia bater palmas de modo que a pontinha aparecesse e desapare-
cesse entre suas mãos. Marine, exultante, pedia para repetir! Em segui-
da, e ra e la quem vinha presentificar a pontinha, escondendo-se e
desaparecendopara reaparecer, chamada pelos -pára!" enunciados pela
mãe. Este jogo de aparecer e desaparecer foi sucedido por uma sessão
na qual Marine brincou de nos fazer desaparecer, eu e sua mãe. Ela nos
matou. Nos dias que se seguiram, você e eu apareceram em suas frases.
Esse aniquilamento que ela operou por intermédio de seu jogo fez
com que se sentisse culpada, culpada dessa fa lta que consistia em nada
mais do que aquilo que fazia fa ltà. A falta da qual ela nos iria tratar era
chamada -dodói ... Apesar dos cuidados, um -dodói .. voltava sempre ao
mesmo lugar, em sua mãe. -Mamãe dodói .. , disse Marine , ao mesmo
tempo em que indicava o seio da mãe. Chupou o polegar e rasgou uma
folna em dois.
A partir daí Marine fez as sessões sozinha, isto i, decidiu deixar a
mãe na sala de espera. Esta aceitou, imperturbável, tal como se mani-
festava desde o começo da análise da filha. Esta separação produzida
era, portanto, corte, já observável nessa possibilidade de corte introdu-
zida pelo significante no real.
O objeto oral
O - dodói .. no seio indicava, talvez, esse corte que devia passar entre o
seio e a mãe, para que aquele pudesse ser dado à criança. O esforço de
Marine no que se seguiu fo i concentrado em produzir a queda deste
objelo .
81
O ·dooói .. se deslocou. então, para a boca. Ela brincou de comidinha
e reproduziu uma cena onde o bebê não queria comer, mostrou-se
violenta e brutal: ·você não quer!• Jogou tudo no chão e acrescentou:
"Agora é você quem vai apanhar!"'
Uma outra cena: ela deu de comer à rãzinha de brinquedo e, quando
introduziu um bocado na boca desta. estremeceu e disse "Ai!": Em seu
rosto podia-se ler uma expressão de hoiTor. De que bocado se tratava
de fazer engolir, para produzir tamanho hottor? Seja como for, o bebê
preferiu não se alimentar de nada. E com razão!
Nesse ponto Marine voltou às superfícies. Numa fo lha de papel,
desenhou um círculo (o fonema "rond" (círculo] faz parte de seu
sobrenome). A borda do círculo foi delimitada várias vezes com um
lápis; depois cortou o interior do círculo, um pedacinho central se
destacou dele e Marine caiu, segurando o pedaço de papel. .
Ela observou o furo feito na folha e apanhou uma outra, que dividiu
com um traço para ali inscrever uma escrita em quatro lugares:
L LLL
LLJ..t. L LL L.L
O que ela lia assim: mam~e ~-Maladoé o nome peloqualdesig-
. mamac matauo
nava sua anahsta. .
Logo depois de ter produzido este corte, que instaurou o furo, Mario e
ordenou a escrita, na qual pudemos reconhecer aquela .. estrutura qua-
dripartite desde o inconsciente, sempre exigível na construção de um
ordenamento subjetivo .. , tal como nos indica Lacan em Kant com Sade.
Para Marine, isto foi a escrita de um nome.
Marine contou Jltla primeira vez uma his tória: uma menina come,
man(ge). O -je .. (eu) era elidido de todas as palavras em que aparecia
como fonema; um bebê dorme no berço, o bebê toma seu ·bron ..
(abreviatura de bibero11 , mamadeira), mamãe dá .. bron", papai dá
·bron".
Nessa série de enunciados podemos ler um desejo submetido ao
fantasma. A mamade ira entrou na dialética do dom. O objeto causa do
desejo é acessível na medida em que é tomado no movimento pacifica-
dor instaurado pelo significante fático.
12
O objeto anal
Um outro objeto veio ocupar Marine: o objeto anal. Durante esse
período de sua análise, grande parte de seu trabalho seria feita fora do
alcance de minha visão.
Marine escreveu numa folha com um lápis branco e constatou,
espantada, que sua escrita não deixara traços. Quando refez os traços a
lápis preto, gritou .. enganada", apagou os traços e a folha, tal como
dejeto da operação de apagamento foi para o lixo. Dedicou-se a esva~
ziar. Esvaziou os potes de massa· de modelagem. O conteúdo caiu ao
chão. Em tomo da borda de um desses potes ela colou durex . Seu dedo
e meu dedo deviam girar sucessivamente em tomo do bordo assim
definido. Cada volta era escandida por um .. Ai!., proferido por Marine.
Do conteúdo do pote ela fez um presente para mim, envolvido em papel
e bem amarrado com durex. Verificou que o pote estava vazio, jogou o
resto no lixo, foi ao quadro e escreveu seu nome e o meu. Como meu
nome, escreveu: .. Eo". E isso não se fez.
Podemos observar, nas duas seqüências transmitidas em que se trata
de objeto, primeiro oral, depois anal, o que é que se repete: a produção
de um vazio. No primeiro caso, é o furo na folha, e no segundo caso,
cria volume, pois é o vazio de um pote, seguido por uma queda que se
pontua pela escrita de um nome.
O "je" - eu
Dissemos acima que nos enunciados de Marine o .. je" - eu -era elidido,
bem como na enunciação.
Um dia, ela nos mostrou um boneco que trouxera e a que chamava
de .. menino Jesus". Era, portanto, inaugural.
Bem mais tarde, desenhou duas casas, .. a casa da mamãe e a minha
casa ... Daquela que representava a sua casa ela cortou o teto, pondo-o
de lado, e me disse: ~o teto eu vou colar noutro lugar". O eu (}e) vinha
à luz em seu enunciado. ·
O agente do tormento
Este tratamento, que já está durando quatro anos, ainda não terminou.
Encontra dificuldades que têm a mais estreita relação com o lugar
ocupado por essa criança no fantasma de sua mãe.
Dizer que sua queda era comandada pelo fato de sua posição, em
lugar de objeto, que pudemos destacar desde o inicio do tratamento,
casos 13
não nos parecia suficiente. A questão permanecia, portanto, a de saber
em que economia, e em favor de que gozo ela tinha vindo ocupar este
lugar.
A mãe nos veio dar a resposta, acompanhada de seu marido. Era
surpreendente, sua filha não apresentava mais nenhuma das dificulda~
des que haviam motivado a demanda de análise. No entanto, eles
vinham me dizer que as coisas corriam muito mal.
Para o pai, isso se exprimia por um vel: ·se continuar assim, ou
minha mulher vai enlouquecer, ou então a menina vai para uma insti-
tuição para débeis mentais ... Para a mãe, essa criança era .. o pior dos
tormentos ... Nos últimos dias, ela dissera a Marine: .. Venha fazer sua
leitura, minha querida ... Esta lhe respondeu: .. Não quero ... A mãe retor-
quira : .. Se você não fizer sua leitura, mamãe vai chorar". E Marine:
-chore se quiser, eu não vou ler". Uma vez relatada essa anedota, a mãe
acrescenta: .. Eu sempre sofri tanto ... meu pai me batia, isso me levou a
sair de casa e me refugiar no casamento ...
Marine estaria no lugar de agente do tormento de sua mãe? Seja como
for, a petrificação de que dava provas no começo de seu tratamento., o
mutismo, ao mesmo tempo que o destacamento e a total impenetrabili~
dade, presentificavam nela esta pura presença do dejeto, que nos remete
ao .. impensável da coisa em si", cujo lugar Lacan designa em Kant com
Sade.
É certo que ela mudou de posição, pois está tomada no movimento
de alienação inerente a toda emergência do sujeito no campo do Outro.
Por esse fato, uma aparelhagem de gozo se operou na linguagem.
Entretanto, a revelação do fantasma da mãe e do lugar nele ocupado
por Marine nos fazem crer que, se Marine não contribui mais com seu
grão de areia para o gozo dela, uma perda de realidade- se o fantasma
falhar -é de se temer pelo lado da mãe, a menos que, para preservar
essa realidade, Marine siga definitivamente o caminho dos dejetos e vá
para uma instituição de anormais.
Constatamos desse modo que a análise de crianças, mais além
do objetivo terapêutico, não cessa de se inscrever contra os ideais
estabelecidos.
12
O objeto anal
Um outro objeto veio ocupar Marine: o objeto anal. Durante esse
período de sua análise, grande parte de seu trabalho seria feita fora do
alcance de minha visão.
Marine escreveu numa folha com um lápis branco e constatou,
espantada, que sua escrita não deixara traços. Quando refez os traços a
lápis preto, gritou .. enganada", apagou os traços e a folha, tal como
dejeto da operação de apagamento foi para o lixo. Dedicou-se a esva~
ziar. Esvaziou os potes de massa· de modelagem.O conteúdo caiu ao
chão. Em tomo da borda de um desses potes ela colou durex . Seu dedo
e meu dedo deviam girar sucessivamente em tomo do bordo assim
definido. Cada volta era escandida por um .. Ai!., proferido por Marine.
Do conteúdo do pote ela fez um presente para mim, envolvido em papel
e bem amarrado com durex. Verificou que o pote estava vazio, jogou o
resto no lixo, foi ao quadro e escreveu seu nome e o meu. Como meu
nome, escreveu: .. Eo". E isso não se fez.
Podemos observar, nas duas seqüências transmitidas em que se trata
de objeto, primeiro oral, depois anal, o que é que se repete: a produção
de um vazio. No primeiro caso, é o furo na folha, e no segundo caso,
cria volume, pois é o vazio de um pote, seguido por uma queda que se
pontua pela escrita de um nome.
O "je" - eu
Dissemos acima que nos enunciados de Marine o .. je" - eu -era elidido,
bem como na enunciação.
Um dia, ela nos mostrou um boneco que trouxera e a que chamava
de .. menino Jesus". Era, portanto, inaugural.
Bem mais tarde, desenhou duas casas, .. a casa da mamãe e a minha
casa ... Daquela que representava a sua casa ela cortou o teto, pondo-o
de lado, e me disse: ~o teto eu vou colar noutro lugar". O eu (}e) vinha
à luz em seu enunciado. ·
O agente do tormento
Este tratamento, que já está durando quatro anos, ainda não terminou.
Encontra dificuldades que têm a mais estreita relação com o lugar
ocupado por essa criança no fantasma de sua mãe.
Dizer que sua queda era comandada pelo fato de sua posição, em
lugar de objeto, que pudemos destacar desde o inicio do tratamento,
casos 13
não nos parecia suficiente. A questão permanecia, portanto, a de saber
em que economia, e em favor de que gozo ela tinha vindo ocupar este
lugar.
A mãe nos veio dar a resposta, acompanhada de seu marido. Era
surpreendente, sua filha não apresentava mais nenhuma das dificulda~
des que haviam motivado a demanda de análise. No entanto, eles
vinham me dizer que as coisas corriam muito mal.
Para o pai, isso se exprimia por um vel: ·se continuar assim, ou
minha mulher vai enlouquecer, ou então a menina vai para uma insti-
tuição para débeis mentais ... Para a mãe, essa criança era .. o pior dos
tormentos ... Nos últimos dias, ela dissera a Marine: .. Venha fazer sua
leitura, minha querida ... Esta lhe respondeu: .. Não quero ... A mãe retor-
quira : .. Se você não fizer sua leitura, mamãe vai chorar". E Marine:
-chore se quiser, eu não vou ler". Uma vez relatada essa anedota, a mãe
acrescenta: .. Eu sempre sofri tanto ... meu pai me batia, isso me levou a
sair de casa e me refugiar no casamento ...
Marine estaria no lugar de agente do tormento de sua mãe? Seja como
for, a petrificação de que dava provas no começo de seu tratamento., o
mutismo, ao mesmo tempo que o destacamento e a total impenetrabili~
dade, presentificavam nela esta pura presença do dejeto, que nos remete
ao .. impensável da coisa em si", cujo lugar Lacan designa em Kant com
Sade.
É certo que ela mudou de posição, pois está tomada no movimento
de alienação inerente a toda emergência do sujeito no campo do Outro.
Por esse fato, uma aparelhagem de gozo se operou na linguagem.
Entretanto, a revelação do fantasma da mãe e do lugar nele ocupado
por Marine nos fazem crer que, se Marine não contribui mais com seu
grão de areia para o gozo dela, uma perda de realidade- se o fantasma
falhar -é de se temer pelo lado da mãe, a menos que, para preservar
essa realidade, Marine siga definitivamente o caminho dos dejetos e vá
para uma instituição de anormais.
Constatamos desse modo que a análise de crianças, mais além
do objetivo terapêutico, não cessa de se inscrever contra os ideais
estabelecidos.
Em busca do sangue perdido
Annick Anglade
Yohanna é uma criança de raça negra. Vai-se ~tarde cores durante
toda a sua análise, do vermelho e do negro, poderíamos dizer. O trajeto
de sua análise será o de seu sangue, através cb máquina -o rim artificial
- na qual ela está condenada a viver desde a idade de três anos e meio,
devido a uma grave doença renal; a!~m disso, será também a busca de
suas origens perdidas, pois ela pusera a máquina no lugar do Outro.
Confiada à DDAss• com um mês de idade, Yohanna trocou freqüen·
temente de creche e de pessoas que dela cuidavam. O começo de seu
tratamento coincidiu com a saída da casa de sua última guardiã.
considerada muito distante do hospital pelo pessoal da DDASS. Ela foi
então entregue a uma creche próxima do serviço de nefrologia. Nessa
ocasião, fez uma regressão maciça, perdeu a fala , a marcha e quase
todas as suas atividades motoras. Permanecia durante todo o dia deita-
da em posição fetal , sem o menor contato. Foi preciso mesmo alimen-
tá-la artificialmente.
· Durante as sessões de diálise, em compensação, ficava agitada,
gritava e era necessário amarrá-la na cama. Um dia, com efeito, rendo
arrancado seu cateter, quase mon:eu de uma grave hemorragia externa:
seu sangue esguichava diretamente da fístula, inundando o chio. as
paredes do quarto, como também a superfície de seu corpo. Não foi essa
a única complicação, pois submeteu-se em seguida a quinze interven-
ções cinirgicas.
Aos seis anos , Yohanna foi recolhida por uma família de adoção de
Orléaos. Ali retomou, progressivamente, seu desenvolvimento, mas
continuou encolhida, muda e recusando-se a se alimentar. Fizeram-na
comer à força durante horas, apertando-lhe o nariz_ Seus problemas
• -Di~tioo Depertaroentalc dc:s Savices Sociwx· (Direção Dw:pertame:Dtal de Saviço6
Sociais). Nos departaroentos (raru:eses é a entida4k que ~be e eaauainba aodcs os peclidoli
de assist.enda soc:íal. Nela atuamjuíze$. peda&oaos. médioos, psiquialniS, p6ianalisaas. alia
da burocncia estatal. (N.It)
M
casos
motores eram consideráveis. Eram atribuídos a uma intoxicação pela
uréia, assim como seu odor, quase insuporlável.
As primeiras sessões
A primeira vez que a vi, estava com seis anos e meio. Seu aspecto era
miserável, estava caquétíca, não pesando mais que doze quilos. Seu
rosto, no entanto, estava edemaciado. Sua mímica era inexistente- ela
não olhava para ninguém - , mantinha os olhos baixos, a boca caída.
Quando se deslocava, com dificuldade, era de uma maneira totàlmente
descoordenada, como se a fizessem andar contra a vontade. No entanto,
seguiu-me, resignada.
Na sala de atendimento, dispus ~lguos objetos para ela. Não os viu.
Ajoelhou-se no chão e procurou com os olhos o que era inacessível. Nas
prateleiras do alto, flxou os olhos numa caixa que lhe ofereci, embora
ela não manifestasse demanda alguma. Era uma caixa de peões de cores
diferentes; ela os jogou no chão, olhou para eles c atirou para longe o
único peão branco.
.. É porque ele não é da mesma cor?" Ela fez sinal que sim. '"Então,
quem vai ficar com ele?" Surpresa, ela me olhou pela primeira vez,
depois baixou os olhos e viu, no chão, um objeto que ficara, pode-se
dizer que por acaso, ao lado do aquecedor: era uma régua cilíndrica
oca, aberta nas duas extremidades. Apanhou-a e fez passar por dentro
dela, maquinalmente, tudo o que pôde encontrar de microscópico:
pontas de lápis, migalhas de massa de modelagem, poeiras, etc. Foi
um longo jogo, obsessivo, que ela repetiu incansavelmente, sem o
menor prazer.
Falei-lhe de seu sangue que passava por um tubo e depois voltava
para dentro dela. Ela se imobilizou, parou seu jogo, olhou-me por um
momento e concordou com a cabeça. Perguntei-lhe se aquilo doia. Ela
sacudiu a cabeça negativamente e coçou a cabeça, depois .as bochechas,
ao mesmo tempo em que percebia pela primeira vez que seu nariz estava
escorrendo~ fungou um pouco, levantando a cabeça e olhando para uma
outra caixa. Mas desta vez olhou para mim logo depois, como que para
pedi-la. Estava feito o laço entre sua demanda para mim, a diálise, a
caixa. Dei-a, ela a abriu. .
Era uma caixa retangular formada por quatr{) compartimenaos, duas
panes ocas servindo de reserva para os. peõe.s e duas .perfuradaspor
pequenos buracos de encaixe, n.os quais se pode dispor os peões. Esses
compartimentos ficavam dispostos especularmence com relação ao cen-
tro da caixa, de tal maneira que os dois vazios e os dois com encaixes
Em busca do sangue perdido
Annick Anglade
Yohanna é uma criança de raça negra. Vai-se ~tarde cores durante
toda a sua análise, do vermelho e do negro, poderíamos dizer. O trajeto
de sua análise será o de seu sangue, através cb máquina -o rim artificial
- na qual ela está condenada a viver desde a idade de três anos e meio,
devido a uma grave doença renal; a!~m disso, será também a busca de
suas origens perdidas, pois ela pusera a máquina no lugar do Outro.
Confiada à DDAss• com um mês de idade, Yohanna trocou freqüen·
temente de creche e de pessoas que dela cuidavam. O começo de seu
tratamento coincidiu com a saída da casa de sua última guardiã.
considerada muito distante do hospital pelo pessoal da DDASS. Ela foi
então entregue a uma creche próxima do serviço de nefrologia. Nessa
ocasião, fez uma regressão maciça, perdeu a fala , a marcha e quase
todas as suas atividades motoras. Permanecia durante todo o dia deita-
da em posição fetal , sem o menor contato. Foi preciso mesmo alimen-
tá-la artificialmente.
· Durante as sessões de diálise, em compensação, ficava agitada,
gritava e era necessário amarrá-la na cama. Um dia, com efeito, rendo
arrancado seu cateter, quase mon:eu de uma grave hemorragia externa:
seu sangue esguichava diretamente da fístula, inundando o chio. as
paredes do quarto, como também a superfície de seu corpo. Não foi essa
a única complicação, pois submeteu-se em seguida a quinze interven-
ções cinirgicas.
Aos seis anos , Yohanna foi recolhida por uma família de adoção de
Orléaos. Ali retomou, progressivamente, seu desenvolvimento, mas
continuou encolhida, muda e recusando-se a se alimentar. Fizeram-na
comer à força durante horas, apertando-lhe o nariz_ Seus problemas
• -Di~tioo Depertaroentalc dc:s Savices Sociwx· (Direção Dw:pertame:Dtal de Saviço6
Sociais). Nos departaroentos (raru:eses é a entida4k que ~be e eaauainba aodcs os peclidoli
de assist.enda soc:íal. Nela atuamjuíze$. peda&oaos. médioos, psiquialniS, p6ianalisaas. alia
da burocncia estatal. (N.It)
M
casos
motores eram consideráveis. Eram atribuídos a uma intoxicação pela
uréia, assim como seu odor, quase insuporlável.
As primeiras sessões
A primeira vez que a vi, estava com seis anos e meio. Seu aspecto era
miserável, estava caquétíca, não pesando mais que doze quilos. Seu
rosto, no entanto, estava edemaciado. Sua mímica era inexistente- ela
não olhava para ninguém - , mantinha os olhos baixos, a boca caída.
Quando se deslocava, com dificuldade, era de uma maneira totàlmente
descoordenada, como se a fizessem andar contra a vontade. No entanto,
seguiu-me, resignada.
Na sala de atendimento, dispus ~lguos objetos para ela. Não os viu.
Ajoelhou-se no chão e procurou com os olhos o que era inacessível. Nas
prateleiras do alto, flxou os olhos numa caixa que lhe ofereci, embora
ela não manifestasse demanda alguma. Era uma caixa de peões de cores
diferentes; ela os jogou no chão, olhou para eles c atirou para longe o
único peão branco.
.. É porque ele não é da mesma cor?" Ela fez sinal que sim. '"Então,
quem vai ficar com ele?" Surpresa, ela me olhou pela primeira vez,
depois baixou os olhos e viu, no chão, um objeto que ficara, pode-se
dizer que por acaso, ao lado do aquecedor: era uma régua cilíndrica
oca, aberta nas duas extremidades. Apanhou-a e fez passar por dentro
dela, maquinalmente, tudo o que pôde encontrar de microscópico:
pontas de lápis, migalhas de massa de modelagem, poeiras, etc. Foi
um longo jogo, obsessivo, que ela repetiu incansavelmente, sem o
menor prazer.
Falei-lhe de seu sangue que passava por um tubo e depois voltava
para dentro dela. Ela se imobilizou, parou seu jogo, olhou-me por um
momento e concordou com a cabeça. Perguntei-lhe se aquilo doia. Ela
sacudiu a cabeça negativamente e coçou a cabeça, depois .as bochechas,
ao mesmo tempo em que percebia pela primeira vez que seu nariz estava
escorrendo~ fungou um pouco, levantando a cabeça e olhando para uma
outra caixa. Mas desta vez olhou para mim logo depois, como que para
pedi-la. Estava feito o laço entre sua demanda para mim, a diálise, a
caixa. Dei-a, ela a abriu. .
Era uma caixa retangular formada por quatr{) compartimenaos, duas
panes ocas servindo de reserva para os. peõe.s e duas .perfuradas por
pequenos buracos de encaixe, n.os quais se pode dispor os peões. Esses
compartimentos ficavam dispostos especularmence com relação ao cen-
tro da caixa, de tal maneira que os dois vazios e os dois com encaixes
86 a cr1ança no discurso analilioo
estavam em diagonal. Essa caixa continha dois tipos de peões: cilin-
dros e pequenas pessoas rudimentares, de seis cores diferentes (cem
ao todo) .
Num dos compartimentos, Yohanna colocou os peões cilíndricos,
noutro as pessoas. Mas tomou muito cuidado em alinhá-los por cores,
o que lhe fiz observar. Ela continuou seu jogo, mas alternando-os, e
reprimiu um leve sorriso: todos os peões estavam arrumados.
000000000000
000000000000
000000000000
o oooooooooooo
o ooooooooogoo
o ooooooooo 00
o 00 o o o o o o o o o
oooooooooooo
000000000000
ooooooooooo'!'
o 000 00000001~
00000000000
o cilindro
peões
ô pessoa
Figura 1 - A caixa
o
:
1-
1--.
compartimento
de reserva
para os peões
1--
encaixes des-
tinados aos
peões
Restavam buracos vazios dos dois ladoS, pois ba_via mais buracos do
que peões. Ela disse, agora para minha grande surpresa, com uma
espécie de voz de siotetizador, como a que sai dos computadores, suas
primeiras palavras: ·Faltam outros .. , fazendo beicinho ... Você não gosta
de lugares vazios?" Fez sinal que ·não ... E onde seria o seu lugar?"
Surpresa, ela completou com algumas pessoas o compartimento dos
cilindros, significando-me dessa forma que não seria ali, e me mostrou,
no compartimento das pessoas, os buracos. Hesitou e · mudou várias
vezes cada uma das pessoas de lugar. Disse-lhe que ela mesma mudara
freqüentemente de lugar, de quem a cuidava, de cidade, e que isso não
deve ser fácil de recuperar.
oooo
O : lugares deixados vazios
1/1/ : encaixes preenchidos com cilindros
: encaixes preenchidos oom pessoas
Figura 2- "Faltam outros"
Ela apanhou um lápis preto, uma folba de papel e desenhou uma
espécie de triângulo de onde partiam dois traços paralelos - como um
cordão. Enquanto eu olhava pan seu desenho, ela se encolheu em
posição fetal e começou a coçar, lentamente, meticulosamente, diria
mesmo que religiosamente todo o corpo, principalmente as pernas. Saiu,
levando seu desenho apertado contra si.
Revi-a um mês depois, para uma segunda sessão. Ao entrar na sala,
ela apanhou uma caixa colocada em cima do aquecedor e levou-a para
a sala de atendimento. Ali encontrou, misturados, cartas de jogo e três
peões. Tirou em primeiro lugar o peão preto e o pôs no chão, mas sem
jogá -lo. Tirou, do mesmo modo, o peão vermelho, depois o amarelo.
Colocou, em seguida, todas as cartas no mesmo sentido e procurou o
compartimento que lhes convinha. Ali elas ficavam bem guardadas,
bem juntas. Disse isso a ela.
Seu rosto se iluminou, olhou para mim e sorriu longamente. Em
seguida, arrumou os peões: o vennelho e o preto juntos num comparti-
mento, o amarelo à parte, e me olhou de novo, encantada. No final desta
sessão, descobriu que não estava bem instalada. Deslocou sua cadeira,
que estava em falso, encostou-se confortavelmente e quando lhe apre-
sentei, sem nada dizer; a caixa, deu um grande sorriso de beatitude .
Tomou as pessoas e as dispôs em duas filas, uma com as vermelhas,
outra com as amarelas. ·
Na terceira sessão, Yobanna marcou a primeira escansilo e decidiu
permanecer no escritório. Dispunha de duas peças contiguas: o escritó-
rio, onde recebia a nutriz para combinar horários - era a abertura para
86 a cr1ançano discurso analilioo
estavam em diagonal. Essa caixa continha dois tipos de peões: cilin-
dros e pequenas pessoas rudimentares, de seis cores diferentes (cem
ao todo) .
Num dos compartimentos, Yohanna colocou os peões cilíndricos,
noutro as pessoas. Mas tomou muito cuidado em alinhá-los por cores,
o que lhe fiz observar. Ela continuou seu jogo, mas alternando-os, e
reprimiu um leve sorriso: todos os peões estavam arrumados.
000000000000
000000000000
000000000000
o oooooooooooo
o ooooooooogoo
o ooooooooo 00
o 00 o o o o o o o o o
oooooooooooo
000000000000
ooooooooooo'!'
o 000 00000001~
00000000000
o cilindro
peões
ô pessoa
Figura 1 - A caixa
o
:
1-
1--.
compartimento
de reserva
para os peões
1--
encaixes des-
tinados aos
peões
Restavam buracos vazios dos dois ladoS, pois ba_via mais buracos do
que peões. Ela disse, agora para minha grande surpresa, com uma
espécie de voz de siotetizador, como a que sai dos computadores, suas
primeiras palavras: ·Faltam outros .. , fazendo beicinho ... Você não gosta
de lugares vazios?" Fez sinal que ·não ... E onde seria o seu lugar?"
Surpresa, ela completou com algumas pessoas o compartimento dos
cilindros, significando-me dessa forma que não seria ali, e me mostrou,
no compartimento das pessoas, os buracos. Hesitou e · mudou várias
vezes cada uma das pessoas de lugar. Disse-lhe que ela mesma mudara
freqüentemente de lugar, de quem a cuidava, de cidade, e que isso não
deve ser fácil de recuperar.
oooo
O : lugares deixados vazios
1/1/ : encaixes preenchidos com cilindros
: encaixes preenchidos oom pessoas
Figura 2- "Faltam outros"
Ela apanhou um lápis preto, uma folba de papel e desenhou uma
espécie de triângulo de onde partiam dois traços paralelos - como um
cordão. Enquanto eu olhava pan seu desenho, ela se encolheu em
posição fetal e começou a coçar, lentamente, meticulosamente, diria
mesmo que religiosamente todo o corpo, principalmente as pernas. Saiu,
levando seu desenho apertado contra si.
Revi-a um mês depois, para uma segunda sessão. Ao entrar na sala,
ela apanhou uma caixa colocada em cima do aquecedor e levou-a para
a sala de atendimento. Ali encontrou, misturados, cartas de jogo e três
peões. Tirou em primeiro lugar o peão preto e o pôs no chão, mas sem
jogá -lo. Tirou, do mesmo modo, o peão vermelho, depois o amarelo.
Colocou, em seguida, todas as cartas no mesmo sentido e procurou o
compartimento que lhes convinha. Ali elas ficavam bem guardadas,
bem juntas. Disse isso a ela.
Seu rosto se iluminou, olhou para mim e sorriu longamente. Em
seguida, arrumou os peões: o vennelho e o preto juntos num comparti-
mento, o amarelo à parte, e me olhou de novo, encantada. No final desta
sessão, descobriu que não estava bem instalada. Deslocou sua cadeira,
que estava em falso, encostou-se confortavelmente e quando lhe apre-
sentei, sem nada dizer; a caixa, deu um grande sorriso de beatitude .
Tomou as pessoas e as dispôs em duas filas, uma com as vermelhas,
outra com as amarelas. ·
Na terceira sessão, Yobanna marcou a primeira escansilo e decidiu
permanecer no escritório. Dispunha de duas peças contiguas: o escritó-
rio, onde recebia a nutriz para combinar horários - era a abertura para
.. a criança no disQ.Irto analílioo
o real - e a sala onde se passavam as sessões. Esta só tinha saída para
o escritório. Ali recebia sempre Yohanna sozinha: era o lugar do
imaginário.
Ora, por cinco vezes no decorrer de sua análise, Yohanna iria esco-
lher o escritório como lugar da sessão, escandindo assim, ela mesma,
os grandes movimentos dessa análise. Era ali que ela vinha me dizer a
quantas andava seu esforço de amarrar o real, o imaginário e o simbólico.
Essa terceira sessão foi notável por essa primeira escansão e pelo
encadeamento direto com a sessão anterior, e pela aparição da fala
espontânea: .. Quero sentar direito, aproxime minha cadeira, estou dese-
nhando um castelo cor de laranja, é a minha casa, está estragada, vou
jogar no lixo!- Levantou-se e foi buscar a caixa de jogos na sala vizinha.
Dessa vez, a caixa foi vista em duas partes, uma para ela e uma para
mim. Tomou os peões amarelos ,. me deu os vermelhos - .. porque não
gosto de misturar cores" - disse e Ja. Misturou, no entanto, os cilindros
e as pessoas, colocou os seus e pr.diu que eu pusesse os meus '"igual" -
o que quer dizer em frente, simelricamente, mas não invertidos.
Depois, introduziu em seus peões um cilindro marrom, era o bebê.
Após um momento, ele preferiu ir -lá fora" . Ela o fez então passar para
o meu lado e o instalou entre uma pessoa vermelha, minha, e uma
amarela, dela, ·que também deu para mim.
Era o fim do primeiro período de sua análise, período muito curto,
ao fun do qual Yohanna conseguiu chegar à representação do seu corpo
no espaço, c reencontrar a fala .
O sangue perdido
Num segundo movimento, Yohanna iria me dizer o que fora feito de seu
corpo, c principalmcnte.de sua doença. Ela guardou duas coisas:
- no hospital, lava-se o seu saiwue. Se o lavam é porque ele é sujo,
mas é também porque ele está na superfície. Aliás ela o viu no dia de
sua hemorragia, ele estava por toda a parte;
- o aparelho de diálise: é ligada a ele por um cateter que ·parte do
pulso, mas não vê o sangue dentro do tubo: sente, confusamente, que
ele circula no intcríor da máquina, mas, principalmente, não sabe que
ele volta.
A lavagem do sangue e a máquina constituíam o hospital - eau-pital,
como ela dizia. Iria desenhar além di~so, a lápis de cor, um coelho
vermelho, esquartejado, coin um enonne olho único, como uma mancha
de sangue. Pensei que fosse ela mesma no leito de diálise.
A s mãos do coelho cs1avam sep.aradas dos seus braços por um
intervalo livre como se, para além do cate ler · de diálise, ela não se
pertencesse mais. Mostrando-me o olho ensangüentado, ela disse: -Te-
nho medo, queria que você me ajudasse a apagar isso ...
Num segundo movimento, bastante longo, que chamarei de .. ~ sangue
perdido .. , Yohanna fez uma tentativa desesperada para rearttcular a
diálise à oralidade perdida.
Ela me anunciou sua intenção a partir da quarta sessão, quando,
tendo-me falado pela primeira vez do •hospit.d de Paris .. , viu precisa-
mente neste dia, pela primeira vez também, a mamade~ra na .sala das
sessões. Alguns dias mais tarde, retomando a famosa catxa, almhou as
pessoas amarelas num dos compartimentos: •são crianças ... eles passam
para o outro lado ... vão à piscina ... mas estão em perigo e talvez um lobo
as coma ...
Na décima sessão, Yobanna me pediu para segurar a colher diante
do quadro-negro, pois queria desenhar seu contorno: '"é difícil .. , no
entanto ela iria traçar duas, duas colheres iguais. Disse-lhe que, quando
era pequena, era uma outra pessoa que segurava a c?lher para que ~la
comesse, numa época em que sentia fome e achava tsso bom. ~ gmsa
de resposta, trocou de giz e traçou, em vermelho, um grande trtangulo
cujo vtrtice subia até o alto do quadro. Ficou na ponta dos pés, pergun-
tei-lhe aonde ele ia desse jeito. -A Paris, ver o lobo ...
Alguns dias mais tarde, diria que o quadro estava chei? de san.gue.
Ela passou a esponja, ·porque está sujo, é o sangue do bebe, ele vat ver
o lobo".
Na vez seguinte, explicou-me que em Paris há uma mulher que
lavava. Respondi-lhe que no hospital, de fato, lava-se o se~ sangue e
lhe perguntei o que era que o bebê da outra vez perdera com seu sangue:
-ooldorack-. Ela pegou então um giz amarelo e desenhou duas bolas:
~É para o lobo, mas eu vou :eficonder". Mordiscou o giz rindo, e bem
ereta, diante de mim, cantou uma canção inteira. Disse a ela que, no
hospital, sem dúvida devia pensar: -se minha mamãe estivesse aqui ela
não me deixaria morrer". Talvez ela tivesse imaginado também que o
lobo poderia ter comido sua mãe? ·
Nesse dia Yohanna encontrou, então, coragem para representar o
lobo e sua b~ca grande que lhe dava muito medo, em seguida amass~u
a folha e me anunciou: -Não temmais lobo-. Com o mesmo gtz
vermelho, desenhou grandes ondas. Disse-lhe que era o mar. -Não, ~ã~
ondas ... Disse-lhe que as ond.as estavam no mar. '"Não, ~orno voe~ e
boba são as meninas que estão dentro do mar" ... -e os memnos tamhem,
hem'Í .. 1 Ela pôs o desenho na boca e uivou correndo por toda a sala.
1 Trata-se do par de homófonos mert (mãe) e me r (mar). ambo.~ ~ubscantivos felllininos
em francês (N.T.) '
.. a criança no disQ.Irto analílioo
o real - e a sala onde se passavam as sessões. Esta só tinha saída para
o escritório. Ali recebia sempre Yohanna sozinha: era o lugar do
imaginário.
Ora, por cinco vezes no decorrer de sua análise, Yohanna iria esco-
lher o escritório como lugar da sessão, escandindo assim, ela mesma,
os grandes movimentos dessa análise. Era ali que ela vinha me dizer a
quantas andava seu esforço de amarrar o real, o imaginário e o simbólico.
Essa terceira sessão foi notável por essa primeira escansão e pelo
encadeamento direto com a sessão anterior, e pela aparição da fala
espontânea: .. Quero sentar direito, aproxime minha cadeira, estou dese-
nhando um castelo cor de laranja, é a minha casa, está estragada, vou
jogar no lixo!- Levantou-se e foi buscar a caixa de jogos na sala vizinha.
Dessa vez, a caixa foi vista em duas partes, uma para ela e uma para
mim. Tomou os peões amarelos ,. me deu os vermelhos - .. porque não
gosto de misturar cores" - disse e Ja. Misturou, no entanto, os cilindros
e as pessoas, colocou os seus e pr.diu que eu pusesse os meus '"igual" -
o que quer dizer em frente, simelricamente, mas não invertidos.
Depois, introduziu em seus peões um cilindro marrom, era o bebê.
Após um momento, ele preferiu ir -lá fora" . Ela o fez então passar para
o meu lado e o instalou entre uma pessoa vermelha, minha, e uma
amarela, dela, ·que também deu para mim.
Era o fim do primeiro período de sua análise, período muito curto,
ao fun do qual Yohanna conseguiu chegar à representação do seu corpo
no espaço, c reencontrar a fala .
O sangue perdido
Num segundo movimento, Yohanna iria me dizer o que fora feito de seu
corpo, c principalmcnte.de sua doença. Ela guardou duas coisas:
- no hospital, lava-se o seu saiwue. Se o lavam é porque ele é sujo,
mas é também porque ele está na superfície. Aliás ela o viu no dia de
sua hemorragia, ele estava por toda a parte;
- o aparelho de diálise: é ligada a ele por um cateter que ·parte do
pulso, mas não vê o sangue dentro do tubo: sente, confusamente, que
ele circula no intcríor da máquina, mas, principalmente, não sabe que
ele volta.
A lavagem do sangue e a máquina constituíam o hospital - eau-pital,
como ela dizia. Iria desenhar além di~so, a lápis de cor, um coelho
vermelho, esquartejado, coin um enonne olho único, como uma mancha
de sangue. Pensei que fosse ela mesma no leito de diálise.
A s mãos do coelho cs1avam sep.aradas dos seus braços por um
intervalo livre como se, para além do cate ler · de diálise, ela não se
pertencesse mais. Mostrando-me o olho ensangüentado, ela disse: -Te-
nho medo, queria que você me ajudasse a apagar isso ...
Num segundo movimento, bastante longo, que chamarei de .. ~ sangue
perdido .. , Yohanna fez uma tentativa desesperada para rearttcular a
diálise à oralidade perdida.
Ela me anunciou sua intenção a partir da quarta sessão, quando,
tendo-me falado pela primeira vez do •hospit.d de Paris .. , viu precisa-
mente neste dia, pela primeira vez também, a mamade~ra na .sala das
sessões. Alguns dias mais tarde, retomando a famosa catxa, almhou as
pessoas amarelas num dos compartimentos: •são crianças ... eles passam
para o outro lado ... vão à piscina ... mas estão em perigo e talvez um lobo
as coma ...
Na décima sessão, Yobanna me pediu para segurar a colher diante
do quadro-negro, pois queria desenhar seu contorno: '"é difícil .. , no
entanto ela iria traçar duas, duas colheres iguais. Disse-lhe que, quando
era pequena, era uma outra pessoa que segurava a c?lher para que ~la
comesse, numa época em que sentia fome e achava tsso bom. ~ gmsa
de resposta, trocou de giz e traçou, em vermelho, um grande trtangulo
cujo vtrtice subia até o alto do quadro. Ficou na ponta dos pés, pergun-
tei-lhe aonde ele ia desse jeito. -A Paris, ver o lobo ...
Alguns dias mais tarde, diria que o quadro estava chei? de san.gue.
Ela passou a esponja, ·porque está sujo, é o sangue do bebe, ele vat ver
o lobo".
Na vez seguinte, explicou-me que em Paris há uma mulher que
lavava. Respondi-lhe que no hospital, de fato, lava-se o se~ sangue e
lhe perguntei o que era que o bebê da outra vez perdera com seu sangue:
-ooldorack-. Ela pegou então um giz amarelo e desenhou duas bolas:
~É para o lobo, mas eu vou :eficonder". Mordiscou o giz rindo, e bem
ereta, diante de mim, cantou uma canção inteira. Disse a ela que, no
hospital, sem dúvida devia pensar: -se minha mamãe estivesse aqui ela
não me deixaria morrer". Talvez ela tivesse imaginado também que o
lobo poderia ter comido sua mãe? ·
Nesse dia Yohanna encontrou, então, coragem para representar o
lobo e sua b~ca grande que lhe dava muito medo, em seguida amass~u
a folha e me anunciou: -Não tem mais lobo-. Com o mesmo gtz
vermelho, desenhou grandes ondas. Disse-lhe que era o mar. -Não, ~ã~
ondas ... Disse-lhe que as ond.as estavam no mar. '"Não, ~orno voe~ e
boba são as meninas que estão dentro do mar" ... -e os memnos tamhem,
hem'Í .. 1 Ela pôs o desenho na boca e uivou correndo por toda a sala.
1 Trata-se do par de homófonos mert (mãe) e me r (mar). ambo.~ ~ubscantivos felllininos
em francês (N.T.) '
a criança no dlact~~ anelilloo
Alguns dias depois, desenhou DO meu caderno duas bolas azuis, como
dois seios, com dois mamilos, dizendo-me que ela lavava louça . .. Você
lava'? .. "Sim, é isso ... Lambuzou, em seguida, meu caderno e desenhou
no quadro uma tenda: •ni9 se tem medo, não é, dentro da tenda?
Desenhou tam~m uma cama uul: .. É a cama de Mme. Anglade. É para
o bebê tam~m".
Disse-lhe que ela bem gostaria de ter sido meu bebê e que eu a tivesse
trazido na barriga, mas que não foi assim. Emocionada, ela se apoiou
contra mim e começou a lambuzar a pele, os cabelos e as roupas com o
giz azul. Lambuzou a mim tam~m e, depois de tê-las começado no meu
caderno, desenhou no quadro e nas paredes grandes ondas azuis . .. Olha
o mar ... Depois, voltou-se se para mim: .. Como se chama a sua mãe? ..
No final desse segundo período, Yohanna iria marcar uma nova
escansão, escolhendo meu eS<:ritório como lugar da sessão. Como ela
iniciara a sessão dizendo-me .. Não me lembro mais do seu nome .. , eu
lhe disse, pela primeira vez, seu nome e sobrenome que lhe haviam sido
tirados. Neste dia, desenhou em três folhas de papel com giz amarelo:
-um coelho e a casa dele, ele não pode ir lá porque não pode andar",
.. Um coelho que pode andar mas não tem casa .. - enftm, .. Uma casa,
sem coelho .. , que levou com ela.
O sangue reencontrado
Veio em seguida um terceiro período bastante longo e logorréico,
durante o qual Yohanna iria dispender uma energia considerável negan-
do sua depressão, inventando toda a sorte de histórias nas quais me
punha no lugar do -papai", o que lhe permitia ser a ·mamãe ... Foi um
engano, mas senti que ainda não podia lhe dizer isso.
Entretanto, Uf:J.l dia, depois de haver anunciado, como de hábito:
-Agora eu sou a mamãe .. , ela se corrigiu e ouvi-a murmurar: ·som, vou
parar!- Acrescentou que sua mamãe sentira frio, mas ela não. Depois
tentou descolar um pedaço de massa de modelagem: .. Vou tentardes-
colar este aqui. Está duro." Depois, quando o pedaço se solta: ·oh!
Mamãe!" Era a primeira vez que essa expressão lhe escapara: alguma
coisa adveio.
Restava-lhe articulá-la, como de hábito, no consultório. Ela se dirigiu
então para a porta e tentou abri-la, mas chocou-se com uma impossibi-
lidade. Ela não conseguia abrir a porta nesse dia. Tam~m não pediu
que eu a ajudasse e decidi não fazer nada. Era doloroso, tanto para ela
quantopara mim. Depois de se ter atirado contra a porta, que esmurrava
com todas as suas forças, com os pés e com as mãos, aos gritos, mas
sem lágrimas, desabou diante da porta e perdeu os sentidos. ·
casos
Era, portanto, para uma criança inconsciente, os olhos revirados, tão
branca quanto podia ser, em estado de colapso periférico (mais sangue
sobre a pele), que iria evocar longamente seu episódio regressivo. Iria
falar-lhe de sua mãe verdadeira, que ela perdera, para ser confiada a
uma outra mulher que não a havia carregado no ventre. lria dizer-lhe
também de toda a sua cólera, que a fizera perder a fala e quase a vida.
Ela se levantou sozinha, penosamente, e veio soluçar por muito tempo
nos meus braços.
O quarto movimento é muito curto: vou chamá-lo de sangue reen-
contrado. Durante três sessões, devido às festas de Natal, Yohanna iria
evocar os Reis Magos do presépio, o bolo de Reis com a fava dentro.
Curiosamente, iria usar durante essas três sessões uma voz que não era
a sua - nem a minha, que ela utilizava às vezes - , que era, muito
distintamente, a voz de uma mulher negra.
A vigésima-sétima sessão foi fundamental. Yohanna chegou trans-
formada, bem plantada nas pernas afastadas, as mãos nos bolsos; olhou-
me com ar de desafio: ~Está vendo, estou de calças". De fato, era a
primeira vez. Neste dia, ainda~ ela escolheu meu escritório como local
da sessão e desenhou, cantando, um grande sol preto. Ao lado, no céu,
uma casa também preta. Perguntei a ela o que aquele sol estava aque-
cendo: -um papai e uma mamãe! .. Isso lbe escapara e ela se espantou,
vivamente: ·Ora essa, nunca vi isso! .. - ~É verdade que você nunca viu
seu papai e sua mamãe de verdade·.
Ela se precipitou sobre o desenho: .. Nbam! Nbam! Comi tudo". Foi
buscar um giz branco na sala vizinha e tentou embranquecer o sol e a
casa: não conseguiu. Quis desenhar um grande coelho branco, mas isso
também não deu para se ver. Experimentou, então, vários lápis de cor
sucessivamente, mas eles não lhe agradaram: ·Ha! Hal Estou mudando
de cores o tempo todo!" - .. Seu papai e sua mamãe mudaram de cor,
mas você não ... Ela riu e terminou o coelho grande em preto, depois, na
parte inferior da folha, desenhou um pequeno coelho negro deitado.
•Ete está deitado, este aí? .. - .. Sim, ele está doente." - ~Doente de
quê?" - .. Está com dor de cabeça ... - ·Talvez, quando ele tiver com-
preendido toda a sua história, não tenha mais dor de cabeça 7" - Ela me
respondeu, gravemente: .. É.por isso que eu digo!"
Apanhou o giz vermelho que lhe havia servido para desenhar o
triângulo grande no quadro, aquele que ia ver o lobo, e também o c~lbo
esquartejado com seu olho único, e acrescentou, ao pé do codhinh;o
preto, uma espécie de poça. · Traçou, em seguida, as bocas dos dots
coelhos, com o mesmo giz. e depois ficou deprimida, a cabeç~ entre as
mãos deitada sobre o desenho, cansada, esgotada: .. Ab, nao posso
mais.:.não sei mais ... é duro, bem!" Então, lhe disse: '"Escute, pro~avel
mente é alguma coisa que ele gostaria de comer, já que sua boca é Jgual,
a criança no dlact~~ anelilloo
Alguns dias depois, desenhou DO meu caderno duas bolas azuis, como
dois seios, com dois mamilos, dizendo-me que ela lavava louça . .. Você
lava'? .. "Sim, é isso ... Lambuzou, em seguida, meu caderno e desenhou
no quadro uma tenda: •ni9 se tem medo, não é, dentro da tenda?
Desenhou tam~m uma cama uul: .. É a cama de Mme. Anglade. É para
o bebê tam~m".
Disse-lhe que ela bem gostaria de ter sido meu bebê e que eu a tivesse
trazido na barriga, mas que não foi assim. Emocionada, ela se apoiou
contra mim e começou a lambuzar a pele, os cabelos e as roupas com o
giz azul. Lambuzou a mim tam~m e, depois de tê-las começado no meu
caderno, desenhou no quadro e nas paredes grandes ondas azuis . .. Olha
o mar ... Depois, voltou-se se para mim: .. Como se chama a sua mãe? ..
No final desse segundo período, Yohanna iria marcar uma nova
escansão, escolhendo meu eS<:ritório como lugar da sessão. Como ela
iniciara a sessão dizendo-me .. Não me lembro mais do seu nome .. , eu
lhe disse, pela primeira vez, seu nome e sobrenome que lhe haviam sido
tirados. Neste dia, desenhou em três folhas de papel com giz amarelo:
-um coelho e a casa dele, ele não pode ir lá porque não pode andar",
.. Um coelho que pode andar mas não tem casa .. - enftm, .. Uma casa,
sem coelho .. , que levou com ela.
O sangue reencontrado
Veio em seguida um terceiro período bastante longo e logorréico,
durante o qual Yohanna iria dispender uma energia considerável negan-
do sua depressão, inventando toda a sorte de histórias nas quais me
punha no lugar do -papai", o que lhe permitia ser a ·mamãe ... Foi um
engano, mas senti que ainda não podia lhe dizer isso.
Entretanto, Uf:J.l dia, depois de haver anunciado, como de hábito:
-Agora eu sou a mamãe .. , ela se corrigiu e ouvi-a murmurar: ·som, vou
parar!- Acrescentou que sua mamãe sentira frio, mas ela não. Depois
tentou descolar um pedaço de massa de modelagem: .. Vou tentardes-
colar este aqui. Está duro." Depois, quando o pedaço se solta: ·oh!
Mamãe!" Era a primeira vez que essa expressão lhe escapara: alguma
coisa adveio.
Restava-lhe articulá-la, como de hábito, no consultório. Ela se dirigiu
então para a porta e tentou abri-la, mas chocou-se com uma impossibi-
lidade. Ela não conseguia abrir a porta nesse dia. Tam~m não pediu
que eu a ajudasse e decidi não fazer nada. Era doloroso, tanto para ela
quanto para mim. Depois de se ter atirado contra a porta, que esmurrava
com todas as suas forças, com os pés e com as mãos, aos gritos, mas
sem lágrimas, desabou diante da porta e perdeu os sentidos. ·
casos
Era, portanto, para uma criança inconsciente, os olhos revirados, tão
branca quanto podia ser, em estado de colapso periférico (mais sangue
sobre a pele), que iria evocar longamente seu episódio regressivo. Iria
falar-lhe de sua mãe verdadeira, que ela perdera, para ser confiada a
uma outra mulher que não a havia carregado no ventre. lria dizer-lhe
também de toda a sua cólera, que a fizera perder a fala e quase a vida.
Ela se levantou sozinha, penosamente, e veio soluçar por muito tempo
nos meus braços.
O quarto movimento é muito curto: vou chamá-lo de sangue reen-
contrado. Durante três sessões, devido às festas de Natal, Yohanna iria
evocar os Reis Magos do presépio, o bolo de Reis com a fava dentro.
Curiosamente, iria usar durante essas três sessões uma voz que não era
a sua - nem a minha, que ela utilizava às vezes - , que era, muito
distintamente, a voz de uma mulher negra.
A vigésima-sétima sessão foi fundamental. Yohanna chegou trans-
formada, bem plantada nas pernas afastadas, as mãos nos bolsos; olhou-
me com ar de desafio: ~Está vendo, estou de calças". De fato, era a
primeira vez. Neste dia, ainda~ ela escolheu meu escritório como local
da sessão e desenhou, cantando, um grande sol preto. Ao lado, no céu,
uma casa também preta. Perguntei a ela o que aquele sol estava aque-
cendo: -um papai e uma mamãe! .. Isso lbe escapara e ela se espantou,
vivamente: ·Ora essa, nunca vi isso! .. - ~É verdade que você nunca viu
seu papai e sua mamãe de verdade·.
Ela se precipitou sobre o desenho: .. Nbam! Nbam! Comi tudo". Foi
buscar um giz branco na sala vizinha e tentou embranquecer o sol e a
casa: não conseguiu. Quis desenhar um grande coelho branco, mas isso
também não deu para se ver. Experimentou, então, vários lápis de cor
sucessivamente, mas eles não lhe agradaram: ·Ha! Hal Estou mudando
de cores o tempo todo!" - .. Seu papai e sua mamãe mudaram de cor,
mas você não ... Ela riu e terminou o coelho grande em preto, depois, na
parte inferior da folha, desenhou um pequeno coelho negro deitado.
•Ete está deitado, este aí? .. - .. Sim, ele está doente." - ~Doente de
quê?" - .. Está com dor de cabeça ... - ·Talvez, quando ele tiver com-
preendido toda a sua história, não tenha mais dor de cabeça 7" - Ela me
respondeu, gravemente: .. É.por isso que eudigo!"
Apanhou o giz vermelho que lhe havia servido para desenhar o
triângulo grande no quadro, aquele que ia ver o lobo, e também o c~lbo
esquartejado com seu olho único, e acrescentou, ao pé do codhinh;o
preto, uma espécie de poça. · Traçou, em seguida, as bocas dos dots
coelhos, com o mesmo giz. e depois ficou deprimida, a cabeç~ entre as
mãos deitada sobre o desenho, cansada, esgotada: .. Ab, nao posso
mais.:.não sei mais ... é duro, bem!" Então, lhe disse: '"Escute, pro~avel
mente é alguma coisa que ele gostaria de comer, já que sua boca é Jgual,
a criança no díscurso analítico
talvez ele não esteja conseguindo alcançá-la". Ela se levantou, num
ímpeto: ·Mas ele pode alcançar, olhe só!- De pé, traçou um grande
cordão de fumaça que partia da casa preta e envolveu o coelho pequeno,
até encostar na poça vermelha. Não conseguiu mais falar, tamanha era
sua emoção. '
Depois dessa sessão, Yohanna passou a comer normalmente e seus
distúrbios motores foram progressivamente desaparecendo. Ela voltou
à caixa de jogos algum tempo depois, mas para se interessar pela tampa
da caixa. Colocou-a ao seu lado e olhou para ela, pela primeira vez,
atentamente.
Viam-se ali crianças e adultos jogando uma partida. Ela tentou
servir-se daquilo como modelo, para representar as mesmas disposi-
ções. Depois, improvisou , alinhando o pai, o bebê, a mãe: .. 0 papai e o
bebê são pretos, a mamãe é azul ... Deslooo14 em seguida, o bebê e o pôs
mais para a frente; em seu lugar, ent~e os pais, pôs um peão marrom.
Depois, ao lado do bebê preto, sozinho à frente, colocou um outro peão
negro: .. É porque este é como ele".
Tentou em seguida adivinhar, no desenho da tampa, quem era filho
de quem: .. Aquele ali é filho deste, porque tem o cabelo igual" . .. E você,
tem o cabelo como o de quem?" - .. Como o seu!" Ela teve, então, um
grande ímpeto de ternura em direção a mim, envolveu-me em seus
braços e veio apoiar a cabeça no meu ombro. Retirando então a mamãe
azul, ao lado do bebê marrom, disse muito comovida: .. Você não podia
me dizer que você não tinha mamãe?"
A inversão especular
Yohanna iria passar, em seguida, numerosas sessões assegurando-se de
que era capaz de abrir facilmente a porta entre a sala de atendimento e
o escritório, diante da qual se havia chocado com o impossível e
revivido sua regressão. ·
Enftm, um dia, ela decidiu deixar essa porta aberta. Pôs a caixa de
jogos entre as duas salas, e ela mesma se instalou no escritório. Numa
das extremidades da caixa ela dispôs três peões manons: o papai, o
bebê, a mamãe. O bebê está entre os pais. Na outra extremidade,
reproduziu inicialmente a mesma disposição, depois, corrigindo-se,
decidiu inverter especularmeme: deixou o bebê no centro, mas permu-
tou o papai e a mamãe.
Esse detalhe era notável~ porque os peões eram absolutamente idên-
ticos. Para ela, entio, era só o peso da sua fala que contava. Os dois
compartimentos va.zios enm piscinas. Preencheu, em seguida, um com-
casos
o : lugar deixado vazio
• : cilindro marrom
1//1 : encaixes cheios de cilindros
: encaixes cheios de pessoas
Figura 3 - A inversão especular
parti.mento com cilindros, como na primeira sessão, e me pediu para
fazer a mesma coisa do outro lado, com as pessoas. Rindo, ela disse :
.. Você se lembra, antes, aqueles ali não podiam andar. Agora eles podem
cair na piscina e vo.ltar."
Yobanna serviu-se então da caixa para articular sua relação com o
espelho. A inversão só pôde se produzir através da representação do
retom o do sangue para o interior do seu corpo. Assistiu-se, talvez,
graças a uma patologia um pouco particular, a um remanejamento que
evocava o rolar da esfera.
O círculo se fechou. A caixa de jogos, agora, perdeu o sentido. Ela
não a utilizou mais.
A não ser uma vez, em forma de brincadeira, com um piscar de olhos
para mim, a frm de me mos trar que ela agora sabia contar os peões: um,
dois, três, quatro ...
a criança no díscurso analítico
talvez ele não esteja conseguindo alcançá-la". Ela se levantou, num
ímpeto: ·Mas ele pode alcançar, olhe só!- De pé, traçou um grande
cordão de fumaça que partia da casa preta e envolveu o coelho pequeno,
até encostar na poça vermelha. Não conseguiu mais falar, tamanha era
sua emoção. '
Depois dessa sessão, Yohanna passou a comer normalmente e seus
distúrbios motores foram progressivamente desaparecendo. Ela voltou
à caixa de jogos algum tempo depois, mas para se interessar pela tampa
da caixa. Colocou-a ao seu lado e olhou para ela, pela primeira vez,
atentamente.
Viam-se ali crianças e adultos jogando uma partida. Ela tentou
servir-se daquilo como modelo, para representar as mesmas disposi-
ções. Depois, improvisou , alinhando o pai, o bebê, a mãe: .. 0 papai e o
bebê são pretos, a mamãe é azul ... Deslooo14 em seguida, o bebê e o pôs
mais para a frente; em seu lugar, ent~e os pais, pôs um peão marrom.
Depois, ao lado do bebê preto, sozinho à frente, colocou um outro peão
negro: .. É porque este é como ele".
Tentou em seguida adivinhar, no desenho da tampa, quem era filho
de quem: .. Aquele ali é filho deste, porque tem o cabelo igual" . .. E você,
tem o cabelo como o de quem?" - .. Como o seu!" Ela teve, então, um
grande ímpeto de ternura em direção a mim, envolveu-me em seus
braços e veio apoiar a cabeça no meu ombro. Retirando então a mamãe
azul, ao lado do bebê marrom, disse muito comovida: .. Você não podia
me dizer que você não tinha mamãe?"
A inversão especular
Yohanna iria passar, em seguida, numerosas sessões assegurando-se de
que era capaz de abrir facilmente a porta entre a sala de atendimento e
o escritório, diante da qual se havia chocado com o impossível e
revivido sua regressão. ·
Enftm, um dia, ela decidiu deixar essa porta aberta. Pôs a caixa de
jogos entre as duas salas, e ela mesma se instalou no escritório. Numa
das extremidades da caixa ela dispôs três peões manons: o papai, o
bebê, a mamãe. O bebê está entre os pais. Na outra extremidade,
reproduziu inicialmente a mesma disposição, depois, corrigindo-se,
decidiu inverter especularmeme: deixou o bebê no centro, mas permu-
tou o papai e a mamãe.
Esse detalhe era notável~ porque os peões eram absolutamente idên-
ticos. Para ela, entio, era só o peso da sua fala que contava. Os dois
compartimentos va.zios enm piscinas. Preencheu, em seguida, um com-
casos
o : lugar deixado vazio
• : cilindro marrom
1//1 : encaixes cheios de cilindros
: encaixes cheios de pessoas
Figura 3 - A inversão especular
parti.mento com cilindros, como na primeira sessão, e me pediu para
fazer a mesma coisa do outro lado, com as pessoas. Rindo, ela disse :
.. Você se lembra, antes, aqueles ali não podiam andar. Agora eles podem
cair na piscina e vo.ltar."
Yobanna serviu-se então da caixa para articular sua relação com o
espelho. A inversão só pôde se produzir através da representação do
retom o do sangue para o interior do seu corpo. Assistiu-se, talvez,
graças a uma patologia um pouco particular, a um remanejamento que
evocava o rolar da esfera.
O círculo se fechou. A caixa de jogos, agora, perdeu o sentido. Ela
não a utilizou mais.
A não ser uma vez, em forma de brincadeira, com um piscar de olhos
para mim, a frm de me mos trar que ela agora sabia contar os peões: um,
dois, três, quatro ...
Semblante e transmissão
Marc Strauss
Vou lhes falar de uma pessoa normal. Entendamos, normal na medida
em que está normativizada, normalizada mesmo, a ponto de, à primeira
vista, nada a distinguir particularmente das outtas crianças de sua idade:
doze anos. No máximo, para particularizá-la, pode-se observar que ela
é de origem norte-africana, que está vestida de maneira simples, mas
cuidada, e que seu olhar arregalado, um pouco assustado talvez, lhe dê
certo encanto.
Quando lhes tiver indicado que ela se comporta com perfeita discri-
ção, sem parecer, no entanto, ausente, que cumprimenta com cortesia
quem se dirigir a ela, terei descrito essa pessoa.Quebrado(a)
Nem sempre ela foi assim. Aos dois anos, não falava. O médico,
consultado por esse motivo, assegurou aos pais que ela falaria bem cedo.
Aos quatro anos, como continuasse sem falar, foi colocada num exter-
nato, com uma tarde de psicoterapia de grupo por semana. Mostrou-se
ali, por certo, silenciosa, arredia, solitária, com uma predileção particu-
lar pelos brinquedos com água e areia. Rabiscava alguns traços sobre
uma folha de papel quando lhe pediam que desenhasse. Traços, mas não
superffcies fechadas, e menos ainda esse homenzinho disforme chama-
do de .. cabeçudo" pelos especialistas.
Quando a vi pela primeira vez, encaminhada pelo CMPP• após uma
mudança de residência de seus pais, estava frágil, curvada, corcunda
quase como se ao mesmo tempo em que avançasse desejasse fugir às
pressas, ao mesmo tempo em que olhava para o outro de um modo
,. •een1re Medico-Psydm-Pedagogique· (Cenlro Médico·Psico-Pedag6gico). Ambula·
tório que recebe e encaminha crianças para consultas médicas, psicológicas, psiquiátricas
e psicanalíticas na França. (N.R.)
casos 85
suplicante e espantado. Em suma, tinha todo o comportamento desses
animais domésticos, cães ou cavalos, de que se diz que foram .. quebra-
dos'", por terem sido demasiadamente espancados por seus donos. Que-
brado, justamente, foi uma das primeiras palavras que ela pronunciou.
Mas no início, durante algumas sessões, preencheu com rabiscos todas,
absolutamente todas as folhas à sua disposição, e se dedicou mais tarde
a tirar de suas caixas os brinquedos que ali estavam guardados, e
nomeá-los. Quando não conhecia algum, perguntava, apontando o dedo:
.. 0 que é?" Parecia não escutar a resposta e continuava, até que a caixa
ficou vazia; depois, arrumou meticulosamente todos esses objetos, desta
vez sem nomeá-los e ficou aguardando, passiva.
Em seguida, desenhou uma forma vagamente arredondada, que cha-
mou de mamãe, e fez um homem com a massa de modelagem. Não o
moldou, mas foi pondo os pedaços de massa uns sobre os outtos.
Quando o homenzinho ficou pronto socou-o raivosamente, num júbilo
que não deixava de ser mesclado por um toque de inquietação: ·Ele está
quebrado! ..
Um pouco mais tarde ela quebrou, desta vez sem querer, um lápis.
Engoliu em seco, ficou paralisada e deixou escapar, penosamente, a
palavra •quebrado ... Mais tarde ainda, desenhou uma casa, sem porta,
como a fiz observar. Desenhou então um homem que ia quebrar a porta
e a casa, pintando-o depois de vermelho. Nesse ínterim, mostrou-me
com insistência uma pequena pele peri-ungueal que a incomodava de
maneira obsessiva e que tocava, fascinada. Diversas vezes desenhou
uma mulher, que em seguida riscava com raiva, dizendo: .. Ela está
morta, ela fez bobagens, brigou".
Modificações
À medida que o tempo passou, foi ficando mais ousada, e entre o mo-
mento em que apanhava alguma coisa e aquele em que a largava,
poderíamos dizer que estava .. ganhando tempo ... Levava todo um tempo
para desenhar, manipular os brinquedos, explorar as gavetas às quais
tinha acesso. Não era fácil, aliás, limitá-Ja a essas gavetas a que tinha
direito. As outras, as gavetas proibidas, eram objeto de investidas
furiosas ou jubilosas, mas ela sabia também se fazer suplicante, impe-
riosa ou amuada, muito feminina, p<}rtanto. Essas condutas repetitivas
em face do interdito foram aparecendo progressivamente, para desapa-
recerem d~ modo ainda mais progressivo.
Vou comentar, neste trabalho, apenas duas condutas particulares,
extraídas de um material que não é muito considerável.
Semblante e transmissão
Marc Strauss
Vou lhes falar de uma pessoa normal. Entendamos, normal na medida
em que está normativizada, normalizada mesmo, a ponto de, à primeira
vista, nada a distinguir particularmente das outtas crianças de sua idade:
doze anos. No máximo, para particularizá-la, pode-se observar que ela
é de origem norte-africana, que está vestida de maneira simples, mas
cuidada, e que seu olhar arregalado, um pouco assustado talvez, lhe dê
certo encanto.
Quando lhes tiver indicado que ela se comporta com perfeita discri-
ção, sem parecer, no entanto, ausente, que cumprimenta com cortesia
quem se dirigir a ela, terei descrito essa pessoa.
Quebrado(a)
Nem sempre ela foi assim. Aos dois anos, não falava. O médico,
consultado por esse motivo, assegurou aos pais que ela falaria bem cedo.
Aos quatro anos, como continuasse sem falar, foi colocada num exter-
nato, com uma tarde de psicoterapia de grupo por semana. Mostrou-se
ali, por certo, silenciosa, arredia, solitária, com uma predileção particu-
lar pelos brinquedos com água e areia. Rabiscava alguns traços sobre
uma folha de papel quando lhe pediam que desenhasse. Traços, mas não
superffcies fechadas, e menos ainda esse homenzinho disforme chama-
do de .. cabeçudo" pelos especialistas.
Quando a vi pela primeira vez, encaminhada pelo CMPP• após uma
mudança de residência de seus pais, estava frágil, curvada, corcunda
quase como se ao mesmo tempo em que avançasse desejasse fugir às
pressas, ao mesmo tempo em que olhava para o outro de um modo
,. •een1re Medico-Psydm-Pedagogique· (Cenlro Médico·Psico-Pedag6gico). Ambula·
tório que recebe e encaminha crianças para consultas médicas, psicológicas, psiquiátricas
e psicanalíticas na França. (N.R.)
casos 85
suplicante e espantado. Em suma, tinha todo o comportamento desses
animais domésticos, cães ou cavalos, de que se diz que foram .. quebra-
dos'", por terem sido demasiadamente espancados por seus donos. Que-
brado, justamente, foi uma das primeiras palavras que ela pronunciou.
Mas no início, durante algumas sessões, preencheu com rabiscos todas,
absolutamente todas as folhas à sua disposição, e se dedicou mais tarde
a tirar de suas caixas os brinquedos que ali estavam guardados, e
nomeá-los. Quando não conhecia algum, perguntava, apontando o dedo:
.. 0 que é?" Parecia não escutar a resposta e continuava, até que a caixa
ficou vazia; depois, arrumou meticulosamente todos esses objetos, desta
vez sem nomeá-los e ficou aguardando, passiva.
Em seguida, desenhou uma forma vagamente arredondada, que cha-
mou de mamãe, e fez um homem com a massa de modelagem. Não o
moldou, mas foi pondo os pedaços de massa uns sobre os outtos.
Quando o homenzinho ficou pronto socou-o raivosamente, num júbilo
que não deixava de ser mesclado por um toque de inquietação: ·Ele está
quebrado! ..
Um pouco mais tarde ela quebrou, desta vez sem querer, um lápis.
Engoliu em seco, ficou paralisada e deixou escapar, penosamente, a
palavra •quebrado ... Mais tarde ainda, desenhou uma casa, sem porta,
como a fiz observar. Desenhou então um homem que ia quebrar a porta
e a casa, pintando-o depois de vermelho. Nesse ínterim, mostrou-me
com insistência uma pequena pele peri-ungueal que a incomodava de
maneira obsessiva e que tocava, fascinada. Diversas vezes desenhou
uma mulher, que em seguida riscava com raiva, dizendo: .. Ela está
morta, ela fez bobagens, brigou".
Modificações
À medida que o tempo passou, foi ficando mais ousada, e entre o mo-
mento em que apanhava alguma coisa e aquele em que a largava,
poderíamos dizer que estava .. ganhando tempo ... Levava todo um tempo
para desenhar, manipular os brinquedos, explorar as gavetas às quais
tinha acesso. Não era fácil, aliás, limitá-Ja a essas gavetas a que tinha
direito. As outras, as gavetas proibidas, eram objeto de investidas
furiosas ou jubilosas, mas ela sabia também se fazer suplicante, impe-
riosa ou amuada, muito feminina, p<}rtanto. Essas condutas repetitivas
em face do interdito foram aparecendo progressivamente, para desapa-
recerem d~ modo ainda mais progressivo.
Vou comentar, neste trabalho, apenas duas condutas particulares,
extraídas de um material que não é muito considerável.
a criança no discurso analítico
A primeira se refere aos seus desenhos de pessoas. Assim que
acabava de desenhar uma, ela a recobria completamente de traços de
lápis. Agora este hábito desapareceu,e ela desenha pessoas e casas
bonitas, verossímeis, mas completamente estereotipadas! como fazem
algumas crianças que aprenderam a desenhar na escola. V e-se uma casa,
a árvore e o automóvel ao lado, o jardim com pequenas flores, uma
menina, o sol, tudo está ali, menos ela.
A segunda dessas condutas se refere aos seus jogos ~e escri~. ~o
começo escrevia, dizia ela, o que significa que pre~n~bta um~ pagma
inteira de linhas sinuosas, antes de passar para a pag10a segutote. Ao
mesmo tempo, aprendeu a escrever seu nome, ou melhor, seu prenome,
que cercava de uma linha, como a um hieróglifo. A e~cr~ta d? nome era,
manifestamente, decorada, sem que ela pudesse dtstmgutr as letras
desse nome ou reconhecê-las num outto contexto. Sei disso porque ela
me pedia para ensiná-la a escrever, ou pelo menos enunciava essa
demanda. Era assim que me pedia para escrever um A, um O, etc., numa
situação em que apenas a repetição da ordem e sua execução contavam.
Quando apanhava o papel, decidindo que era sua vez de escrever, eu
devia dizer-lhe que letra escrever, mediante o que rabiscava qualquer
coisa, dizendo ~de novo ... É preciso dizer que minhas tentativas de
correção pedagógica se chocavam com uma comple~ indi~erença ~ E~
seguida, ela preenchia folhas com - cálculos", ou seja, sénes de smats
+, - e -,com uma aplicação entusiástica.
Ainda agora, seis anos passados, acontece-lhe apanhar as canetas
hidrográficas quando estão bem arrumadas em seus estojos de plástico
transparente (as canetas avulsas não têm absolutamente a mesma função
incitadora). Ela apanha uma, faz um traço numa folha, torna a tampar a
caneta, arruma-a, toma a seguinte e recomeça. Em geral, basta-lhe
percorrer o estojo uma só vez. Se faltar uma no conjunto, ela não deixa
de perceber e a procura para colocá-la em seu lugar, assim como se
aplica a tampar as canetas que outros antes dela tenham deixado negli-
gentemente abertas.
Continuemos a explicar o que faz atualmente e o que podemos notar
de diferente com relação ao quadro inaugural. Está infinitamente menos
temerosa. Ao contrário, está sorridente, contente de reencontrar os
objetos conheddos, retomar seus j~gos, principalmente os desenhos,
que consis tem num arranjo de pontos ou traços numa folha . Raramen-
te me pergunta o nome de algum objeto, ela os conhece bem, e seu
vocabulário é extenso, mas me pergunta , a propósito dos objetos
novos: ~oc quem é? É seu? Vou pegar .. , meio sorridente, meio séria .
Quando encontra um objeto quebrado, não fica mais petrificada, mas
anima-se ativamente na procura de seus pedaços esparsos para con-
sertá -lo. Se não consegue, considera que cabe a mim fazê-lo imedia-
casos
tamente. O fato de que nem tudo seja consertável não a angustia, mas é
simplesmente ignorado. .
Notemos ainda que ela é, ocasionalmente, capaz de atitudes de
sedução inequivocamente provocantes, o que arrisca a lhe trazer alguns
aborrecimentos futuros se perseverar, o que é provável.
Portanto, são sensíveis as modificações evocadas no início como uma
normalização; está até freqüentando a escola, sem resultados notáveis,
mas sem problemas.
Foraclusão irremediável
Vejamos agora o que não mudou, que é no fundo aquil~ que enqu_adra,
que constitui a borda do espaço de mudança, e que podena se classtficar
sob dois títulos: a demanda e o jogo, situando-os com relaç~o~a um
mesmo termo: a trama. .
Primeiro a demanda. Essa menininha não demanda nada. ·Pode ' . . . exigir, mas não tem uma demanda que seJa uma expectativa, CUJa
satisfação dependa do outro. Assim, não manifesta aquilo que caracte-
riza a demanda do neurótico dirigida a quem conta para ele, qualquer
que seja a maneira, de autentificar de volta sua identidade,_ seu c~iste,
suas proezas, sua infelicidade ... Esta demanda de autenuficaçao ao
Outro se situa na ordem da verdade, mais do que da exatidão ou da
rea!ldade, e é necessária para que o sujeito se reconheça, assim com? é
necessária a passag~m pelo outro no circuito da fala. Uma outra maneua
de dizê-lo é que não há, nela, apelo ao significante segundo (S
2
) do
saber, ao sujeito suposto saber. O Outro nio é convocado a re_Presentar
este sujeito suposto saber. Também não há apelo nessa mentna a que
lhe seja dada assistência em sua tentativa, que na psicose também pode
ser uma tarefa, de encontrar o ideal. Esta tentativa de igualar-se ao ideal
é ocasionalmente o voto enunciado pelo neurótico, mas. não é seu
·:'él~sejo . É um voto que ele não quer. Por menos que se erga no'boriZ?~te
a possibilidade de sua realização, a angústia aparece e lembra ao SUJeito
que sua demanda era só de fazer de conta, .. fazer se~D;blant~". O que
caracteriza o neurótico é o fracasso: por um pouco, sena aqutlo ... mas
não é. O fracasso é devido ã defesa que é o próprio ~esejo, que preserva.
o desejo, esquivando-se diante da satisfação, do devoramento ou da·
impossibilidade desta insatisfação. Mas unir-se ao ideal pode ser:o voto
e o desejo, a tarefa imperativa do psicótico. François Leguil op~a a
neurose como clínica da identificação. à psicose, como a clínica do
ideal . P~a o neurótico, viu-se que a identificação é sempre significante,
que, pelo próprio princlpio da recorrência do si~nifi~nte,~ a verdade
está sempre alhures. Se o neurótico procura, por tdenuficaçao, superar
a criança no discurso analítico
A primeira se refere aos seus desenhos de pessoas. Assim que
acabava de desenhar uma, ela a recobria completamente de traços de
lápis. Agora este hábito desapareceu, e ela desenha pessoas e casas
bonitas, verossímeis, mas completamente estereotipadas! como fazem
algumas crianças que aprenderam a desenhar na escola. V e-se uma casa,
a árvore e o automóvel ao lado, o jardim com pequenas flores, uma
menina, o sol, tudo está ali, menos ela.
A segunda dessas condutas se refere aos seus jogos ~e escri~. ~o
começo escrevia, dizia ela, o que significa que pre~n~bta um~ pagma
inteira de linhas sinuosas, antes de passar para a pag10a segutote. Ao
mesmo tempo, aprendeu a escrever seu nome, ou melhor, seu prenome,
que cercava de uma linha, como a um hieróglifo. A e~cr~ta d? nome era,
manifestamente, decorada, sem que ela pudesse dtstmgutr as letras
desse nome ou reconhecê-las num outto contexto. Sei disso porque ela
me pedia para ensiná-la a escrever, ou pelo menos enunciava essa
demanda. Era assim que me pedia para escrever um A, um O, etc., numa
situação em que apenas a repetição da ordem e sua execução contavam.
Quando apanhava o papel, decidindo que era sua vez de escrever, eu
devia dizer-lhe que letra escrever, mediante o que rabiscava qualquer
coisa, dizendo ~de novo ... É preciso dizer que minhas tentativas de
correção pedagógica se chocavam com uma comple~ indi~erença ~ E~
seguida, ela preenchia folhas com - cálculos", ou seja, sénes de smats
+, - e -,com uma aplicação entusiástica.
Ainda agora, seis anos passados, acontece-lhe apanhar as canetas
hidrográficas quando estão bem arrumadas em seus estojos de plástico
transparente (as canetas avulsas não têm absolutamente a mesma função
incitadora). Ela apanha uma, faz um traço numa folha, torna a tampar a
caneta, arruma-a, toma a seguinte e recomeça. Em geral, basta-lhe
percorrer o estojo uma só vez. Se faltar uma no conjunto, ela não deixa
de perceber e a procura para colocá-la em seu lugar, assim como se
aplica a tampar as canetas que outros antes dela tenham deixado negli-
gentemente abertas.
Continuemos a explicar o que faz atualmente e o que podemos notar
de diferente com relação ao quadro inaugural. Está infinitamente menos
temerosa. Ao contrário, está sorridente, contente de reencontrar os
objetos conheddos, retomar seus j~gos, principalmente os desenhos,
que consis tem num arranjo de pontos ou traços numa folha . Raramen-
te me pergunta o nome de algum objeto, ela os conhece bem, e seu
vocabulário é extenso, mas me pergunta , a propósito dos objetos
novos: ~oc quem é? É seu? Vou pegar .. , meio sorridente, meio séria .
Quandoencontra um objeto quebrado, não fica mais petrificada, mas
anima-se ativamente na procura de seus pedaços esparsos para con-
sertá -lo. Se não consegue, considera que cabe a mim fazê-lo imedia-
casos
tamente. O fato de que nem tudo seja consertável não a angustia, mas é
simplesmente ignorado. .
Notemos ainda que ela é, ocasionalmente, capaz de atitudes de
sedução inequivocamente provocantes, o que arrisca a lhe trazer alguns
aborrecimentos futuros se perseverar, o que é provável.
Portanto, são sensíveis as modificações evocadas no início como uma
normalização; está até freqüentando a escola, sem resultados notáveis,
mas sem problemas.
Foraclusão irremediável
Vejamos agora o que não mudou, que é no fundo aquil~ que enqu_adra,
que constitui a borda do espaço de mudança, e que podena se classtficar
sob dois títulos: a demanda e o jogo, situando-os com relaç~o~a um
mesmo termo: a trama. .
Primeiro a demanda. Essa menininha não demanda nada. ·Pode ' . . . exigir, mas não tem uma demanda que seJa uma expectativa, CUJa
satisfação dependa do outro. Assim, não manifesta aquilo que caracte-
riza a demanda do neurótico dirigida a quem conta para ele, qualquer
que seja a maneira, de autentificar de volta sua identidade,_ seu c~iste,
suas proezas, sua infelicidade ... Esta demanda de autenuficaçao ao
Outro se situa na ordem da verdade, mais do que da exatidão ou da
rea!ldade, e é necessária para que o sujeito se reconheça, assim com? é
necessária a passag~m pelo outro no circuito da fala. Uma outra maneua
de dizê-lo é que não há, nela, apelo ao significante segundo (S
2
) do
saber, ao sujeito suposto saber. O Outro nio é convocado a re_Presentar
este sujeito suposto saber. Também não há apelo nessa mentna a que
lhe seja dada assistência em sua tentativa, que na psicose também pode
ser uma tarefa, de encontrar o ideal. Esta tentativa de igualar-se ao ideal
é ocasionalmente o voto enunciado pelo neurótico, mas. não é seu
·:'él~sejo . É um voto que ele não quer. Por menos que se erga no'boriZ?~te
a possibilidade de sua realização, a angústia aparece e lembra ao SUJeito
que sua demanda era só de fazer de conta, .. fazer se~D;blant~". O que
caracteriza o neurótico é o fracasso: por um pouco, sena aqutlo ... mas
não é. O fracasso é devido ã defesa que é o próprio ~esejo, que preserva.
o desejo, esquivando-se diante da satisfação, do devoramento ou da·
impossibilidade desta insatisfação. Mas unir-se ao ideal pode ser:o voto
e o desejo, a tarefa imperativa do psicótico. François Leguil op~a a
neurose como clínica da identificação. à psicose, como a clínica do
ideal . P~a o neurótico, viu-se que a identificação é sempre significante,
que, pelo próprio princlpio da recorrência do si~nifi~nte,~ a verdade
está sempre alhures. Se o neurótico procura, por tdenuficaçao, superar
a Ctlança no disc:u rso analitioo
a falta-a-ser instalada em seu coração pelo significante, ao mesmo
tempo ele não quer a petrificação, a alienação que o Outro lhe promete
pelo fato dessa identificação significante. Isso lhe dá o seu estilo de
valsa-hesitação, sua fraqueza, e também seu lado "sem-nome .. de que
nos fala Lacan. A verdade está sempre alhures, e onde a encontra ele'?
No referente do discurso do Outro, naquilo que faz a sua verdade. Este
referente é o objeto, que é pulsional, na medida em que é perdido, e é
em torno dessa perda que se constitui a troca.
O sujeito se faz esta parte, objeto parcial e não-eqüitativo, para
reencontrar o ser que o significante lhe furta . Ora, esse objeto não é um
objeto da realidade, um objeto do mundo, mas um objeto perdido, nem
de um nem de outro. O fato de ser perdido faz, inclusive, a localização
do furo deixado por ele, e a partir daí de sua borda. Neste sentido, é bem
ao corpo, enquanto furado, que se devolve por esta perda o significante
que é ao mesmo tempo aquilo que institui a perda e faz o seu lugar. É
um circuito do furo à perda, pelo significante, fórmula que evoca para
nós, mais imediatamente, a castração. Mas para que o furo seja o lugar
da perda, do um da parcialidade, para que o objeto da pulsão seja
convocado como representante do sujeito junto ao Outro, a partir da sua
demanda, para que o significante faça apelo ao Um como referente, is to
é, ao Um como totalidade, e não seja apenas recorrente ou inconsistente,
despedaçado, produzindo o Um da fragmentação, é necessário o princí-
pio bem conhecido do Nome-do-Pai, oü do falo, já que Nome-do-Pai e
falo são a mesma coisa, como precisa Lacan no Seminário do ano
1970/71.
O furo se faz perda pela operação do significante, do significante
fático como podemos precisar agora, e ao mesmo tempo esta perda é
também, para' o sujeito, a perda do significante da relação sexual e do
outro sexo, o acesso a este só sendo possi~el pela pulsão. .
Algumas frases desse Seminário de 1970/1971, ~v 'un discours qui
ne serait pas du semblanr-, dizem isso muito claramente. Lacan fala da
repartição entre homens e mulheres, e articulà o fato de que essa
repartição só pode ser estabelecida a partir da experiência da fala: -para
dizer tudo, encontramo-nos de saída na dimensão do semblante e é
igualmente testemunha disso a referência à exibição sexual( ... ) a saber.
um nível etológico que é propriamente o do semblante . É certo que o
comportamento sexual humano consiste n(l manutenção desse semblan-
te anima). A única coisa que o diferencia dele é que esse semblante é
veiculado por um discurso".
Mais adiante, a propósito do objeto pulsiooal, o objeto a, ele sublinha
que o mais -gozar só se nonnaliza por uma relação que se estabelece com
o gozo sexual, que ele próprio só se articula pelo falo. O falo, o
Nome-do-Pai é propriamente o gozo sexual enquanto coordenado, en-
quanto solidário a um semblante.
O semblante não é, pois, apenas a irrealização ~Jo simbólico, ou a
imagem ilusória sujeita a todas as variações, mas a imagem enquanto
organizada pelo significante, e enquanto precipita um real do corpo em
ato. É, mais do que uma imagem falsa ou enganadora, a im.ago funda-
dora do primeiro tempo do ensinamento de Lacan. Nada mais verdadei-
ro, pois, que o semblante, intersecção entre o real e a verdade, a qual
está do lado do significante.
É por isso que podemos fazer equivaler a proposição de que a neurose
é uma clínica de identificações com a de que a neurose é uma clínica do
semblante. Pois, na neurose, o que é transmitido pelo significante- isto
é, pelo pai, mais além das identificações - é a falta, como castração.
Transmite-se a barra que afeta o s ignificante. Assim, em Scilicet n° 5,
Lacan nos diz, a propósito do Um: .. Este lugar é o do semblante, ou seja,
de lá onde o ser se faz letra, pode-se dizer".
Na psicose, em compensação, esta foraclusào da barra não irrealiza
o significante, mas o congela num ideal, ao mesmo tempo em que não
irrealiza o objeto. O psicótico, portanto, é destinado a realizar suas
identificações; da mesma forma, não é como semblante na montagem
puls ional que ele é objeto de gozo do Outro.
Fazer igual
Ele pode, ocasionalmente, solicitar o outro - e o psicanalista, por que
não 1 - não para autentificar suas identificações num circuito de retomo,
mas para atestá-las, certificá-las, do lugar de expert que o discurso
social lhe confere. Ele pode demandar um certificado, mas pode também
solicitar este outro como um especialista para ajudá-lo a melhor realizar
suas identificações. Concebe-se, assim, que um paranóico redentor do
universo não terá o mesm0 tipo de atestação, de certificado, que o tran-
sexual, assim como não terá o mesmo tipo de dificuldades a enfrentar.
Evocarei, rapidamente, nesse sentido, um transexual que nos foi
apresentado na Sessão Clínica 1• Veio pedir um certificado, mas o que
demandava, de fato, era um significado - o signifi cado do s ignificante
não-dialetizado que era o seu ser de mulher. Testemunhava perfeita-
mente, por sua dor, o desvio entre seu eu e seu ideal, e o lugar onde
colocavao outro, seu analista, no desvio entre o eu e o i( a), assegurando
a articulação entre os dois, bem como a promessa assintótíca de seu
reencontro numa realização tota l.
I Seção dúüca e de estudos aprofundados da Universidade de Paris VIIJ .
a Ctlança no disc:u rso analitioo
a falta-a-ser instalada em seu coração pelo significante, ao mesmo
tempo ele não quer a petrificação, a alienação que o Outro lhe promete
pelo fato dessa identificação significante. Isso lhe dá o seu estilo de
valsa-hesitação, sua fraqueza, e também seu lado "sem-nome .. de que
nos fala Lacan. A verdade está sempre alhures, e onde a encontra ele'?
No referente do discurso do Outro, naquilo que faz a sua verdade. Este
referente é o objeto, que é pulsional, na medida em que é perdido, e é
em torno dessa perda que se constitui a troca.
O sujeito se faz esta parte, objeto parcial e não-eqüitativo, para
reencontrar o ser que o significante lhe furta . Ora, esse objeto não é um
objeto da realidade, um objeto do mundo, mas um objeto perdido, nem
de um nem de outro. O fato de ser perdido faz, inclusive, a localização
do furo deixado por ele, e a partir daí de sua borda. Neste sentido, é bem
ao corpo, enquanto furado, que se devolve por esta perda o significante
que é ao mesmo tempo aquilo que institui a perda e faz o seu lugar. É
um circuito do furo à perda, pelo significante, fórmula que evoca para
nós, mais imediatamente, a castração. Mas para que o furo seja o lugar
da perda, do um da parcialidade, para que o objeto da pulsão seja
convocado como representante do sujeito junto ao Outro, a partir da sua
demanda, para que o significante faça apelo ao Um como referente, is to
é, ao Um como totalidade, e não seja apenas recorrente ou inconsistente,
despedaçado, produzindo o Um da fragmentação, é necessário o princí-
pio bem conhecido do Nome-do-Pai, oü do falo, já que Nome-do-Pai e
falo são a mesma coisa, como precisa Lacan no Seminário do ano
1970/71.
O furo se faz perda pela operação do significante, do significante
fático como podemos precisar agora, e ao mesmo tempo esta perda é
também, para' o sujeito, a perda do significante da relação sexual e do
outro sexo, o acesso a este só sendo possi~el pela pulsão. .
Algumas frases desse Seminário de 1970/1971, ~v 'un discours qui
ne serait pas du semblanr-, dizem isso muito claramente. Lacan fala da
repartição entre homens e mulheres, e articulà o fato de que essa
repartição só pode ser estabelecida a partir da experiência da fala: -para
dizer tudo, encontramo-nos de saída na dimensão do semblante e é
igualmente testemunha disso a referência à exibição sexual( ... ) a saber.
um nível etológico que é propriamente o do semblante . É certo que o
comportamento sexual humano consiste n(l manutenção desse semblan-
te anima). A única coisa que o diferencia dele é que esse semblante é
veiculado por um discurso".
Mais adiante, a propósito do objeto pulsiooal, o objeto a, ele sublinha
que o mais -gozar só se nonnaliza por uma relação que se estabelece com
o gozo sexual, que ele próprio só se articula pelo falo. O falo, o
Nome-do-Pai é propriamente o gozo sexual enquanto coordenado, en-
quanto solidário a um semblante.
O semblante não é, pois, apenas a irrealização ~Jo simbólico, ou a
imagem ilusória sujeita a todas as variações, mas a imagem enquanto
organizada pelo significante, e enquanto precipita um real do corpo em
ato. É, mais do que uma imagem falsa ou enganadora, a im.ago funda-
dora do primeiro tempo do ensinamento de Lacan. Nada mais verdadei-
ro, pois, que o semblante, intersecção entre o real e a verdade, a qual
está do lado do significante.
É por isso que podemos fazer equivaler a proposição de que a neurose
é uma clínica de identificações com a de que a neurose é uma clínica do
semblante. Pois, na neurose, o que é transmitido pelo significante- isto
é, pelo pai, mais além das identificações - é a falta, como castração.
Transmite-se a barra que afeta o s ignificante. Assim, em Scilicet n° 5,
Lacan nos diz, a propósito do Um: .. Este lugar é o do semblante, ou seja,
de lá onde o ser se faz letra, pode-se dizer".
Na psicose, em compensação, esta foraclusào da barra não irrealiza
o significante, mas o congela num ideal, ao mesmo tempo em que não
irrealiza o objeto. O psicótico, portanto, é destinado a realizar suas
identificações; da mesma forma, não é como semblante na montagem
puls ional que ele é objeto de gozo do Outro.
Fazer igual
Ele pode, ocasionalmente, solicitar o outro - e o psicanalista, por que
não 1 - não para autentificar suas identificações num circuito de retomo,
mas para atestá-las, certificá-las, do lugar de expert que o discurso
social lhe confere. Ele pode demandar um certificado, mas pode também
solicitar este outro como um especialista para ajudá-lo a melhor realizar
suas identificações. Concebe-se, assim, que um paranóico redentor do
universo não terá o mesm0 tipo de atestação, de certificado, que o tran-
sexual, assim como não terá o mesmo tipo de dificuldades a enfrentar.
Evocarei, rapidamente, nesse sentido, um transexual que nos foi
apresentado na Sessão Clínica 1• Veio pedir um certificado, mas o que
demandava, de fato, era um significado - o signifi cado do s ignificante
não-dialetizado que era o seu ser de mulher. Testemunhava perfeita-
mente, por sua dor, o desvio entre seu eu e seu ideal, e o lugar onde
colocava o outro, seu analista, no desvio entre o eu e o i( a), assegurando
a articulação entre os dois, bem como a promessa assintótíca de seu
reencontro numa realização tota l.
I Seção dúüca e de estudos aprofundados da Universidade de Paris VIIJ .
100 a criança no discurso anatítico
Essa bela observação nos demonstrava, assim, a tarefa do analista:
manter este lugar de articulação, mas também de desvio, para evitar a
passagêm ao ato éirúrgico, ou à encenaçio sexual, que, rebatendo a
im(g.~m sobre o eu, desest.abilizaria a suplência significante _numa
realização, com as conseqüências dramáticas que se podem segou.
O psicótico deve, graças ao auxílio q~e encontra do psicanalista,. se
manter ali onde o próprio significante o aloja. no nível do dizer, da éuca
do bem dizer.
-Para voltar à nossa jovem paciente, sua demanda não era a de uma
assistência técnica para uma realização futura. nem 0 0 horizonte do
tempo, nem no de um certificado. Sua demanda, se é que ~e pode.falar
de demanda, era a de manter as coisas num estado de relativa pactfica-:
ção onde o outro, como ela mesma, se manteria numa .. domesticação ..
de boa qualidade, pennitindo a repetição indefinida do exercício do
~controle" sobre o esmigalhamento, o despedaçamento. Esta deman-
da não implica em nenhuma trama por vir, maS constitui em si mesma
uma realização; ela não implica em nenhuma trama além de seus
jogos. onde nada se perde nem se ganha, mas onde o quebrado da
oposição binária pode se articular, se inscrever na escrita, sem esva-
ziar o sujeito do seu ser. ·
Numerosos pós-freudianos se voltaram para essa tentativa de articu-
lação de uma clínica diferencial da verdade e do real, para além do
comport.amento, do fenômeno, ainda que .. normal .. : Hélene Deutch,
com as personalidades as íf, M. Mahler, M. Klein, D. Winnicott com
seu -falso se/f" e outros .
. Mas vamos consagrar alguns instantes ao estudo de D. Melzer sobre
o autismo. Ele distingue, no mecanismo do estado autístico, o desman-
telamento como esmigalhameqto do mundo, que ele refere à sensação,
desconhecendo que é o significante que recorta a reálídade. Assim, dá
o exemplo de uma criança autista que pode assimilar o aspecto liso de
uma mesa ao ventre de sua mãe, pois não leva em conta outros fatores
sensoriais como a rugosidade, a dens idade. a temperatura, sem parecer
perceber que essas qualidades diferenciais são introduzidas no mundo
pelo significante. Dito isto. há um efeito de fragmen~ç~o unári~ do
significante, quando o vazio responde ao apelo do suje1to. Além dtsso,
o que convoca a bidi.mensionalidade