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A CRIANÇA 
NO DISCURSO ANALfTICO 
O presente volume reúne uma sele-
ção de contnbuições clínicas apre-
sentadas por ocasião das Jornadas 
de Estudos do Cereda (Centro de 
Pesquisas sobre a Criança no Discurso 
Analítico) e que foram publicadas em 
vários volumes da revista Analytica. 
O Cereda foi criado em 1983, em Pa-
ris, dentro da Fundação do. Campo 
Freudiano, por iniciativa de Enc Lau-
rent, Robert e Rosme Lefort. Jac-
ques-Aiain Miller e Judith Mlller. O 
Cereda não é UrT}a associação, nem 
uma instituição. E um lugar de estu-
dos, aberto a participantes de todos os 
horizontes práticos. 
A psicanálise de crianças teve um lu-
gar especial no ens inamento de 
F reud; esse lugar é particularmente 
importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escri-
tos e de seus Seminános: é esta 
contribUição da psicanálise de cnan-
ças ao discurso psicanalítico que o 
Cereda pretende fazer perststtr. Den-
tro dessa perspectiva, o Cereda sus-
cita ensiname ntos e pesqu isas , 
recenseia atividades que interessam 
a este domínio e organiza period1ca· 
mente Jornadas de Estudos. 
A análise com a criança é um desta-
que ~o discurso analítico. já que o 
questionamento sobre a constitu1ção 
do sujeito é nela privilegtado. O fato 
de que a psicanálise com crianças 
s~ja , ~ob t.odo~ ?S aspectos. compa-
ravel a ps1canahse com adultos , é o 
que teste~unham as contribu ições 
que compoem este livro: unidade da 
psicanálise. Essas contribuições clí-
nicas examinam a função do signifi-
cante na " escolha~ da estrutura; 
estudam a origem da psicose infantil, 
estabelecendo que o tratamento psi-
canalítico se torna possível a partir do 
momento em que o estatuto de $Ujeito 
é reconhecido na criança. É através 
das construções elaboradas nessas 
análises que este fato se estabelece: 
a criança é um analisando Integral. 
Colaboradores: 
Aoslne Lefort 
Aobert Lefort 
Yvonne Lachaize Oemichen 
Françoise Koelher 
Esthela Solano-Suarez 
Ann ick Anglade 
Marc Strauss 
Jean-Jacques Bouquier 
Françoise Josselin 
Michàle Faivre-Jussiaux 
Li lia Mahjoub-Trobas 
Éric Laurent 
Guy Clastres 
Patrick Valas 
Paulo Fernando de Queiroz Siqueira 
Marie-Hélene Brousse 
Dominique Miller 
Alain Grosrichard 
François Aegnault 
A Criança 
no Discurso Analítico 
A CRIANÇA 
NO DISCURSO ANALfTICO 
O presente volume reúne uma sele-
ção de contnbuições clínicas apre-
sentadas por ocasião das Jornadas 
de Estudos do Cereda (Centro de 
Pesquisas sobre a Criança no Discurso 
Analítico) e que foram publicadas em 
vários volumes da revista Analytica. 
O Cereda foi criado em 1983, em Pa-
ris, dentro da Fundação do. Campo 
Freudiano, por iniciativa de Enc Lau-
rent, Robert e Rosme Lefort. Jac-
ques-Aiain Miller e Judith Mlller. O 
Cereda não é UrT}a associação, nem 
uma instituição. E um lugar de estu-
dos, aberto a participantes de todos os 
horizontes práticos. 
A psicanálise de crianças teve um lu-
gar especial no ens inamento de 
F reud; esse lugar é particularmente 
importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escri-
tos e de seus Seminános: é esta 
contribUição da psicanálise de cnan-
ças ao discurso psicanalítico que o 
Cereda pretende fazer perststtr. Den-
tro dessa perspectiva, o Cereda sus-
cita ensiname ntos e pesqu isas , 
recenseia atividades que interessam 
a este domínio e organiza period1ca· 
mente Jornadas de Estudos. 
A análise com a criança é um desta-
que ~o discurso analítico. já que o 
questionamento sobre a constitu1ção 
do sujeito é nela privilegtado. O fato 
de que a psicanálise com crianças 
s~ja , ~ob t.odo~ ?S aspectos. compa-
ravel a ps1canahse com adultos , é o 
que teste~unham as contribu ições 
que compoem este livro: unidade da 
psicanálise. Essas contribuições clí-
nicas examinam a função do signifi-
cante na " escolha~ da estrutura; 
estudam a origem da psicose infantil, 
estabelecendo que o tratamento psi-
canalítico se torna possível a partir do 
momento em que o estatuto de $Ujeito 
é reconhecido na criança. É através 
das construções elaboradas nessas 
análises que este fato se estabelece: 
a criança é um analisando Integral. 
Colaboradores: 
Aoslne Lefort 
Aobert Lefort 
Yvonne Lachaize Oemichen 
Françoise Koelher 
Esthela Solano-Suarez 
Ann ick Anglade 
Marc Strauss 
Jean-Jacques Bouquier 
Françoise Josselin 
Michàle Faivre-Jussiaux 
Li lia Mahjoub-Trobas 
Éric Laurent 
Guy Clastres 
Patrick Valas 
Paulo Fernando de Queiroz Siqueira 
Marie-Hélene Brousse 
Dominique Miller 
Alain Grosrichard 
François Aegnault 
A Criança 
no Discurso Analítico 
Judith Miller 
organizadora 
. A Criança 
no Discurso Analítico 
Tradução: 
Dulee Duque Estrada 
Revisão: 
Manoel Barros da Motta 
Jorge Zahar Editor 
RiodeJ~iro 
Tra~ mtori.zada de uma seleção dt: tl:Ato& 
publicados em vírios aúmcros da n:visu AMI)fica, 
de 1983 • 1988, pocNIIYM'ill Éditeur, de Paris, fraa~ 
Copyriabt c Navllria Éditc:ar 
CopyriB)It c 1991 da cdiçio m~ liazua portuaucsa: 
Jorge Zahar Editor uda. 
ma Méaico 31 sobreloj• 
2003l Rlo de Jaaeõm, RJ 
Todos os direõ a reservlldo6. 
A reprodução IÚ0-'1.1110ftuda ôe5ll1 publi~, .DO todo 
ou em perw.. c:oastic:W violllçio do copyriaiiL (Ui :5.911) 
Edi~ eldróaic.: TopTcatos Edições Gráficu Uda. 
Jmpmllio: Te.vllml e TriSlio Ltda. 
ISBN: 8.S-7 110.1&1-7 (JZE, Rl) 
91 •DSIZ 
Cl,•&n.si \. CU&lOI)loÇ'ier-U-fo-W 
Stndi ut.o MKi OMl do1 (dtt Ol"H clt Lfw-ros .... . 
\. PsiQ.I\Ãliu iohnttl , a. Ps tc•nills.. I . Mi llt:r 
J udith. lt. Sfl-1t . 
coo • 61a.,ZI917 
tDU • 1SO. II6• .2·0Sl .Z 
Apresentação 7 
I. PONTOS NODAIS 
Unidade da psicanálise 11 
ROSINE LEFORT 
Introdução à jornada de estudos do ~A 13 
ROBERT LEFORT 
A pulsão em cwto-<:ircuito 15 
ROSINB LEFORT 
Um .. passo a mais .. cn.tre a criança e o adulto: 
a estrutura do corpo 17 
ROSINE LEFORT 
Imagem e objeto separados ou confundidos? 22 
ROBERT LEFORT 
O St, o sujeito e a psicose 27 
RosJNB LEFOR.T 
Sumário 
O oorpo do Outro: do significante ao objeto a e de volta 34 
ROSINE LEFORT . 
A criança sem o saber 43 
RosiNE LEFOR.T 
Sobre o semblante e o objeto a 50 
RosiNE LEFOR.T 
li. CASOS 
Do Outro impossível ao Outro não-barrado 61 
YVONNE LACHAJZE ~MICHEN 
Tra~ mtori.zada de uma seleção dt: tl:Ato& 
publicados em vírios aúmcros da n:visu AMI)fica, 
de 1983 • 1988, pocNIIYM'ill Éditeur, de Paris, fraa~ 
Copyriabt c Navllria Éditc:ar 
CopyriB)It c 1991 da cdiçio m~ liazua portuaucsa: 
Jorge Zahar Editor uda. 
ma Méaico 31 sobreloj• 
2003l Rlo de Jaaeõm, RJ 
Todos os direõ a reservlldo6. 
A reprodução IÚ0-'1.1110ftuda ôe5ll1 publi~, .DO todo 
ou em perw.. c:oastic:W violllçio do copyriaiiL (Ui :5.911) 
Edi~ eldróaic.: TopTcatos Edições Gráficu Uda. 
Jmpmllio: Te.vllml e TriSlio Ltda. 
ISBN: 8.S-7 110.1&1-7 (JZE, Rl) 
91 •DSIZ 
Cl,•&n.si \. CU&lOI)loÇ'ier-U-fo-W 
Stndi ut.o MKi OMl do1 (dtt Ol"H clt Lfw-ros .... . 
\. PsiQ.I\Ãliu iohnttl , a. Ps tc•nills.. I . Mi llt:r 
J udith. lt. Sfl-1t . 
coo • 61a.,ZI917 
tDU • 1SO. II6• .2·0Sl .Z 
Apresentação 7 
I. PONTOS NODAIS 
Unidade da psicanálise 11 
ROSINE LEFORT 
Introdução à jornada de estudos do ~A 13 
ROBERT LEFORT 
A pulsão em cwto-<:ircuito 15 
ROSINB LEFORT 
Um .. passo a mais .. cn.tre a criança e o adulto: 
a estrutura do corpo 17 
ROSINE LEFORT 
Imagem e objeto separados ou confundidos? 22 
ROBERT LEFORT 
O St, o sujeito e a psicose 27 
RosJNB LEFOR.T 
Sumário 
O oorpo do Outro: do significante ao objeto a e de volta 34 
ROSINE LEFORT . 
A criança sem o saber 43 
RosiNE LEFOR.T 
Sobre o semblante e o objeto a 50 
RosiNE LEFOR.T 
li. CASOS 
Do Outro impossível ao Outro não-barrado 61 
YVONNE LACHAJZE ~MICHEN 
o Outro quer me perder? 73 Apresentação 
FRANÇOISB KOEHI...IiR 
O dejeto 78 
Es'rHELA SOLANO-SUAREZ 
Em busca do sangue perdido 84 
ANNicK ANGLA~E 
Semblante e transmissio 94 
. MARC STRAUSS 
o trajeto de Aureliano na estrutura 102 
JEAN-JACQUES BoUQUIEll 
A cicatriz.: as bolsas e a morte. 110 
FRANÇOISE JossELIN . 
A criança-muda ll.S 
MICHELE FAIVRE-JUSSlAUX 
Do semelhanteao semblante. 122 
LIUA M.AIDOUB-TROBAS 
ID. ESTUOOS 
O gozo do débil 131 
ERJc LAURENI' 
A criança no adulto 136 
GUY CLASTRES 
O que~ uma aiança? 141 
PATRICK VALAS . 
A criança e o adulto reencontrados, ou 
O bom eocootro com o objeto segundo Winnicott 147 
. PAULO FERNANDO DE QUEIROZ SIQUmRA 
··uma psicanálise é o tratamento que se espcn de um psicaDalista'' 1S4 
.MAIUE-Há.ÊNB BROUSSE · · . 
A bela e a fera 163 
DoMINIQUE MILLER 
À criança e o signiflcante no Emile 169 
A1.AIN GROS,RICHARD 
O corpo místico 176 
FRANÇO'I.s lw:niAULT 
OCEREDA 
O Cereda (O:nfro de Pesquisas sobre a Criança no Discurso AnaHtico) 
foi criado em 1983, dentro da Fundação do Campo Freudiano, por 
iniciativa de Éric Lauren4 Robert e Rosine Lefort,Jacques-Alain Milter 
e Judith Miller. 
O Cereda não é uma associaçao. Não é uma instituição. É um lugar 
de estúdos, aberto a participantes de todos os horizontes práticos. 
A psicanálise de crianças teve todo um lugar no ensinamento de 
Freúd; este lugar é particularmente importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escritos e de seus Seminários: é esta 
contribuição da psicanálise de crianças ao discurso psicanalítico que o 
Cered.J pretende fazer persistir. É nessa perspectiva que o Cereda 
suscita ensinamentos e pesquisas, que recenseia as atividades que inte-
ressam a este domínio e organiza periodicamente Jornadas de Estudo~. 
Este volume reúne uma seleção de contribuições clínicas aprc;senta-
das por ocasião dessas Jornadas e que foram publicadas em vários 
volumes da revista Analytica. O fato de que a psicanálise com crianças 
seja, sob todos os aspectos, comparável à psicanálise com adultos, é o 
que testemunham essas contribuições: unidade da psicanálise. A análise 
com a criança é inclusive um destaque do discurso analítico, já que o 
questionamento sobre a constituição do' sujeito é nela privilegiado . 
Essas comunicações clínicas examinam a função do significante na 
-escolha" da estrutura; estudam a origem da psicose infantil, estabele-
cendo que o tratamento psicanalítico se toma possível a partir do 
momento em que o estatuto de sujeito é reconhecido na criança. É 
atrav~s das construções elaboradas nessas análises que este fato se 
estabelece: a criança ~ um analisando integral. 
1 
o Outro quer me perder? 73 Apresentação 
FRANÇOISB KOEHI...IiR 
O dejeto 78 
Es'rHELA SOLANO-SUAREZ 
Em busca do sangue perdido 84 
ANNicK ANGLA~E 
Semblante e transmissio 94 
. MARC STRAUSS 
o trajeto de Aureliano na estrutura 102 
JEAN-JACQUES BoUQUIEll 
A cicatriz.: as bolsas e a morte. 110 
FRANÇOISE JossELIN . 
A criança-muda ll.S 
MICHELE FAIVRE-JUSSlAUX 
Do semelhante ao semblante. 122 
LIUA M.AIDOUB-TROBAS 
ID. ESTUOOS 
O gozo do débil 131 
ERJc LAURENI' 
A criança no adulto 136 
GUY CLASTRES 
O que~ uma aiança? 141 
PATRICK VALAS . 
A criança e o adulto reencontrados, ou 
O bom eocootro com o objeto segundo Winnicott 147 
. PAULO FERNANDO DE QUEIROZ SIQUmRA 
··uma psicanálise é o tratamento que se espcn de um psicaDalista'' 1S4 
.MAIUE-Há.ÊNB BROUSSE · · . 
A bela e a fera 163 
DoMINIQUE MILLER 
À criança e o signiflcante no Emile 169 
A1.AIN GROS,RICHARD 
O corpo místico 176 
FRANÇO'I.s lw:niAULT 
OCEREDA 
O Cereda (O:nfro de Pesquisas sobre a Criança no Discurso AnaHtico) 
foi criado em 1983, dentro da Fundação do Campo Freudiano, por 
iniciativa de Éric Lauren4 Robert e Rosine Lefort,Jacques-Alain Milter 
e Judith Miller. 
O Cereda não é uma associaçao. Não é uma instituição. É um lugar 
de estúdos, aberto a participantes de todos os horizontes práticos. 
A psicanálise de crianças teve todo um lugar no ensinamento de 
Freúd; este lugar é particularmente importante no ensinamento de Jac-
ques Lacan, ao longo de seus Escritos e de seus Seminários: é esta 
contribuição da psicanálise de crianças ao discurso psicanalítico que o 
Cered.J pretende fazer persistir. É nessa perspectiva que o Cereda 
suscita ensinamentos e pesquisas, que recenseia as atividades que inte-
ressam a este domínio e organiza periodicamente Jornadas de Estudo~. 
Este volume reúne uma seleção de contribuições clínicas aprc;senta-
das por ocasião dessas Jornadas e que foram publicadas em vários 
volumes da revista Analytica. O fato de que a psicanálise com crianças 
seja, sob todos os aspectos, comparável à psicanálise com adultos, é o 
que testemunham essas contribuições: unidade da psicanálise. A análise 
com a criança é inclusive um destaque do discurso analítico, já que o 
questionamento sobre a constituição do' sujeito é nela privilegiado . 
Essas comunicações clínicas examinam a função do significante na 
-escolha" da estrutura; estudam a origem da psicose infantil, estabele-
cendo que o tratamento psicanalítico se toma possível a partir do 
momento em que o estatuto de sujeito é reconhecido na criança. É 
atrav~s das construções elaboradas nessas análises que este fato se 
estabelece: a criança ~ um analisando integral. 
1 
I. Pontos nodais 
. · : .. 
I. Pontos nodais 
. · : .. 
Unidade da psicanálise 
Rosine Lefort 
Ü Cereda testemunha a unidade da. psicanálise: a análise com a criança 
tem uin destaque especial em relação ao que nos_ pode ensinar sobre o 
vivo do discurso analítico. 
A criança nos ensina, não apenas no nível da nossa escuta em seu 
tratamento, mas nos ensina mwto, também, no que se refere aos trata-
mentos dos adultos, lá onde isso é (nesses tratamentos de adultos) e lá 
onde isso se interpreta - o que constitui uma contribuição absolutamen-
te privilegiada ao discurso psicanalítico. Para chegar a compreender 
esse discurso da criança devemos, penso eu, antes de mais nada nos 
distanciar da abordagem familiar, anamnésica, e social, onde o perso-
nalismo a disputa com a psicologia, a menos que a criança, em caso de 
psicose, se tome a causa viva, permanente, de um desvio sempre 
renovado do discurso de um dos pais - na maioria das vezes, dos dois. 
É, pois, com o discurso da criança que lidamos . Um discurso que es~ 
longe de ser o dos pais - aliás, em muitos casos, o discurso da criança, 
sua patologia e seus sintomas assujeitam os pais quanto a seu desejo, 
seu gozo e seu saber: nio se deve esquecer este assujeitamento dos pais 
pela criança. · 
O ensinamento de Lacan - no qual a referência à criança i. quase 
constante - desprezou essas figuras parentais derrisórias que são postas · 
em evidência, como todos sabem: o pai em casa, o pai omisso, o pai 
assustador, etc. Não é a isso que se refere nos tratamentos, mas ao 
Nome-do-P~ à estrutura, e também à topologia, pedra angular da 
transmissão da psicanálise. 
A questão, por exemplo, do trauma sofrido por uma criança: como 
podemos avaliá-lo escutando o discurso dos pais abalados, feridos ·em 
seu narcisismo pelo que aconteceu a ela? A criança, em análise, deverâ 
justamente se distanciar desse ferimento dos pais, e até J]lesmo de seu 
gozo (ocorre, com freqüência, quando os pais fazem o relatO, esse gozo 
paradoxal ligado ao trauma da criança); ela deverá, portanto, se afastar 
deste djscurso dos pais, desse gozo, para encontrar seu próprio discurso, 
que será variável, aliás, conforme a idade dela no momento do trau.ma. 
11 
12 a a-iança no discurso anal flioo 
Nas comunicações que se seguem vai se tratar ainda do estatuto do 
Outro c da transfonnação desse estatuto no interior, no desenrolar do 
tratamento analítico da criança. É este es tatuto que iremos questionar, 
e veremos que a criança, justamente, está inteiramente apta a nos fazer 
acompanhar essa transfonnação do Outro no interior de um tratamento, 
sob a condição, é claro, de que o analista entenda a dimensão da 
transferência. Mais do que a história da criança, é com esse real que 
vamos nos defrontar. 
A · emergência do Outro e de sua barra depende do objeto a, c a 
transferência demonstra que, ou o Outro é afetado pela falta - e então 
a· demanda promove o significante da falta, o falo, sob alguma fonna 
pela qual o obj eto tenha sido retirado do Outro - ou então ao Outro nadafalta (o que me fez, por um momento, di?,er que em casos extremos não 
haveria Outro na psicose) - o objeto, nesse caso, não passa de um 
semblante, retirado, não do corpo do Outro, mas do próprio corpo do 
psicótico, ao qual só resta, poderíamos dizer, de humanidade neste 
momento, enquanto objeto a, o dizer do analista, cujo invólucro é a voz.. 
Logo, o analista nesse caso deve radicalizar sua posição: não ser mais 
que esta voz de um dizer, cujo dito poderá ser a chance do surgimento 
de um sujeito, do sujeito. Esta posição também será radical por parte do 
analisando, onde a estrutura substitui o imaginário, como testemunha 
muitas vezes o eco topológico que constatamos nas produções gráficas 
dessas crianças psicóticas que estão à procura - poderíamos dizer- de 
um vazio, de um conjunto vazio que lhes permitiria se contarem e 
descontar o Outro. 
Esses desenhos me levam precisamente a dizer que a topologia 
representa a grande contribuição do ensinamento de Lacan, que permite 
superar nossas insuficiências imaginárias para entender, no discurso -
especialmente no do psicótico - ,o real em causa, aquele do corte, aquele 
introduzido pelo ato do analista, corte que é a chance de virada do toro 
e de reversão do a, de uma estruturação propriamente significante do 
corpo. 
Radical interrogaçio do sujeito no ser demasiadamente pleno, do 
qual se deve excluir toda analogia, qualquer que seja. com a neurose: a 
criança o diz; cabe a nós escutá-la sem nos apegarmos a um saber que 
poderia produzir fechamento. que produ~ f~.cbamento; cabe a nós nos 
tomarmos disponíveis, fazer tábula rasa de um discurso prematuro -o 
nosso. ou o dos pais - e não ser mais que uma voz para deixar lugar à 
criança como analisando por inteiro. 
Introdução à jornada de estudos 
do CEREDA 
Robert Lefort 
Ü objetivo daqueles aqui reunidos é dar à psicanálise de crianças a 
amplitude merecida no campo freudiano, e renová-la segundo as pers-
pectivas abertas pelo ensinamento de J. Lacan. 
Os que aqui estão têm por bússola, em sua prática, estrutura e 
significante - verdadeiro progresso, dizia J . Lacan - para além da 
experiência imediata e de toda clivagem entre clfnica e teoria . 
Não há especificidade na psicanálise de crianças. A estrutura o 
significante e a relação com o Outro não concemem de maneira d{fe-
rente à criança e ao adulto. É isto que faz a unidade da psicanálise. 
Nadia e Robert, a ~criança do Lobo", são tes temunhas disso. Nadia 
mostra a via de surgimento do sujeito pela longa volta que, em seu 
tratamento, ela faz do seu encontro necessário com o espelho, decom-
pondo suas fases. estabelecendo o caráter fundamental do especular 
como linha divisória do que toca ao suj eito, linha divisór!a que se 
encontra também em toda análise de adulto. 
Quanto à psicose de Robert, por infantil que seja, como se diz. nem 
por isso deixa de esclarecer certos aspectos da psicose de Schreber, mas 
esse esclarecimento é recíproco. 
Há um aspecto da nossa prática de psicanálise com crianças que é 
acentuado pelo fato de que não é a criança que vem se queixar, mas seus 
familiares é que vêm falar dela. 
.. 0 que determina a biografia infantil ... escreve Lacan, ~seu motor 
está apenas na maneira pela qual se apresentou o desejo no pai, na mãe 
e que, em conseqüência, nos incita a explorar não apenas a história, mas 
o modo de presença sob o qual cada um destes três termos - saber, gozo 
e a - foram efetivamente oferecidos ao sujeito'". 
Acrescentemos A e sua topologia, já que o sujeito depende deles. 
Sabe-se que o Outro pode não ser barrado, ou seja, não ser marcado pela 
falta, e aparecer como um, o um do gozo: é o que demonstra Robert, ao 
se oferecer como objeto do gozo do Outro. A criança pode também se 
propor como a para preencher o Outto na s ituação perversa. Esse lugar 
13 
12 a a-iança no discurso anal flioo 
Nas comunicações que se seguem vai se tratar ainda do estatuto do 
Outro c da transfonnação desse estatuto no interior, no desenrolar do 
tratamento analítico da criança. É este es tatuto que iremos questionar, 
e veremos que a criança, justamente, está inteiramente apta a nos fazer 
acompanhar essa transfonnação do Outro no interior de um tratamento, 
sob a condição, é claro, de que o analista entenda a dimensão da 
transferência. Mais do que a história da criança, é com esse real que 
vamos nos defrontar. 
A · emergência do Outro e de sua barra depende do objeto a, c a 
transferência demonstra que, ou o Outro é afetado pela falta - e então 
a· demanda promove o significante da falta, o falo, sob alguma fonna 
pela qual o obj eto tenha sido retirado do Outro - ou então ao Outro nada 
falta (o que me fez, por um momento, di?,er que em casos extremos não 
haveria Outro na psicose) - o objeto, nesse caso, não passa de um 
semblante, retirado, não do corpo do Outro, mas do próprio corpo do 
psicótico, ao qual só resta, poderíamos dizer, de humanidade neste 
momento, enquanto objeto a, o dizer do analista, cujo invólucro é a voz.. 
Logo, o analista nesse caso deve radicalizar sua posição: não ser mais 
que esta voz de um dizer, cujo dito poderá ser a chance do surgimento 
de um sujeito, do sujeito. Esta posição também será radical por parte do 
analisando, onde a estrutura substitui o imaginário, como testemunha 
muitas vezes o eco topológico que constatamos nas produções gráficas 
dessas crianças psicóticas que estão à procura - poderíamos dizer- de 
um vazio, de um conjunto vazio que lhes permitiria se contarem e 
descontar o Outro. 
Esses desenhos me levam precisamente a dizer que a topologia 
representa a grande contribuição do ensinamento de Lacan, que permite 
superar nossas insuficiências imaginárias para entender, no discurso -
especialmente no do psicótico - ,o real em causa, aquele do corte, aquele 
introduzido pelo ato do analista, corte que é a chance de virada do toro 
e de reversão do a, de uma estruturação propriamente significante do 
corpo. 
Radical interrogaçio do sujeito no ser demasiadamente pleno, do 
qual se deve excluir toda analogia, qualquer que seja. com a neurose: a 
criança o diz; cabe a nós escutá-la sem nos apegarmos a um saber que 
poderia produzir fechamento. que produ~ f~.cbamento; cabe a nós nos 
tomarmos disponíveis, fazer tábula rasa de um discurso prematuro -o 
nosso. ou o dos pais - e não ser mais que uma voz para deixar lugar à 
criança como analisando por inteiro. 
Introdução à jornada de estudos 
do CEREDA 
Robert Lefort 
Ü objetivo daqueles aqui reunidos é dar à psicanálise de crianças a 
amplitude merecida no campo freudiano, e renová-la segundo as pers-
pectivas abertas pelo ensinamento de J. Lacan. 
Os que aqui estão têm por bússola, em sua prática, estrutura e 
significante - verdadeiro progresso, dizia J . Lacan - para além da 
experiência imediata e de toda clivagem entre clfnica e teoria . 
Não há especificidade na psicanálise de crianças. A estrutura o 
significante e a relação com o Outro não concemem de maneira d{fe-
rente à criança e ao adulto. É isto que faz a unidade da psicanálise. 
Nadia e Robert, a ~criança do Lobo", são tes temunhas disso. Nadia 
mostra a via de surgimento do sujeito pela longa volta que, em seu 
tratamento, ela faz do seu encontro necessário com o espelho, decom-
pondo suas fases. estabelecendo o caráter fundamental do especular 
como linha divisória do que toca ao suj eito, linha divisór!a que se 
encontra também em toda análise de adulto. 
Quanto à psicose de Robert, por infantil que seja, como se diz. nem 
por isso deixa de esclarecer certos aspectos da psicose de Schreber, mas 
esse esclarecimento é recíproco. 
Há um aspecto da nossa prática de psicanálise com crianças que é 
acentuado pelo fato de que não é a criança que vem se queixar, mas seus 
familiares é que vêm falar dela. 
.. 0 que determina a biografia infantil ... escreve Lacan, ~seu motor 
está apenas na maneira pela qual se apresentou o desejo no pai, na mãe 
e que, em conseqüência, nos incita a explorar não apenas a história, mas 
o modode presença sob o qual cada um destes três termos - saber, gozo 
e a - foram efetivamente oferecidos ao sujeito'". 
Acrescentemos A e sua topologia, já que o sujeito depende deles. 
Sabe-se que o Outro pode não ser barrado, ou seja, não ser marcado pela 
falta, e aparecer como um, o um do gozo: é o que demonstra Robert, ao 
se oferecer como objeto do gozo do Outro. A criança pode também se 
propor como a para preencher o Outto na s ituação perversa. Esse lugar 
13 
14 a ctiança no discurso analíti<:o 
da criança como a do Outro deve ser sempre questionado, seja na 
pedagogia, na ortopedia ou na análise, mediante a transferência. 
Não podemos, por outro lado, deixar de constatar o fracasso da 
descrição do desenvolvimento da criança a partir de um ponto de vista 
·psicopatológico: é o da criança sem Outro. 
É esta, até certo ponto, a descrição de Melanie Klein, cuja referência 
ao Outro claudica, na mesma medida em que o sujeito não é repre-
sentado ali por um significante para outro significante, nem que a 
alienação do sujeito no significante o apague. 
Enfim, a noção fundamental de gozo introduzida por J. Lacan e a dos 
objetos a como -mais-gozar" só podem produzir a compreensão do 
ponto vital da dependência primeira que a criança tem do Outro. 
A pulsão em curto-circuito 
Rosine Lefort 
G osta.rla de dizer algumas palavras sobre o que surgiu· em nosso 
encami~amento sobre a psicose, ou melhor, sobre dois pontos: 
- a,divisão do sujeito 
- o circuito pulsional 
No que se refere à divisão do sujeito (/chspaltung), foi enfatízada, 
com freqüência, a clivagem do eu. Melanie Klein fez dela um ponto 
central de sua teoria. 
Lacan, em contrapartida, não deixou de observar, para além do título 
.. lchspaltung .. do último artigo de Freud, que se tratava nesse artigo da 
-reCenda do objeto .. , isto é, da passagem do pênis-órgão ao fa lo enquan-
to -<p. 
Em caso algum o psicótico indica que possa atingir uma tal refenda 
do objeto. 
• Esta via, com efeito, pas"sa pela aceitação de uma falta no Outro, 
correlativa à promóção do sujeito do inconsciente . 
. Essa falta que ele produziria no Outro tem a ver com a pulsão mais 
radical, a pulsão de morte. ·· 
15 
14 a ctiança no discurso analíti<:o 
da criança como a do Outro deve ser sempre questionado, seja na 
pedagogia, na ortopedia ou na análise, mediante a transferência. 
Não podemos, por outro lado, deixar de constatar o fracasso da 
descrição do desenvolvimento da criança a partir de um ponto de vista 
·psicopatológico: é o da criança sem Outro. 
É esta, até certo ponto, a descrição de Melanie Klein, cuja referência 
ao Outro claudica, na mesma medida em que o sujeito não é repre-
sentado ali por um significante para outro significante, nem que a 
alienação do sujeito no significante o apague. 
Enfim, a noção fundamental de gozo introduzida por J. Lacan e a dos 
objetos a como -mais-gozar" só podem produzir a compreensão do 
ponto vital da dependência primeira que a criança tem do Outro. 
A pulsão em curto-circuito 
Rosine Lefort 
G osta.rla de dizer algumas palavras sobre o que surgiu· em nosso 
encami~amento sobre a psicose, ou melhor, sobre dois pontos: 
- a,divisão do sujeito 
- o circuito pulsional 
No que se refere à divisão do sujeito (/chspaltung), foi enfatízada, 
com freqüência, a clivagem do eu. Melanie Klein fez dela um ponto 
central de sua teoria. 
Lacan, em contrapartida, não deixou de observar, para além do título 
.. lchspaltung .. do último artigo de Freud, que se tratava nesse artigo da 
-reCenda do objeto .. , isto é, da passagem do pênis-órgão ao fa lo enquan-
to -<p. 
Em caso algum o psicótico indica que possa atingir uma tal refenda 
do objeto. 
• Esta via, com efeito, pas"sa pela aceitação de uma falta no Outro, 
correlativa à promóção do sujeito do inconsciente . 
. Essa falta que ele produziria no Outro tem a ver com a pulsão mais 
radical, a pulsão de morte. ·· 
15 
t6 a aianc;:a no discurso analítico 
No que se refere à pulsão, se a refenda do objeto não se realizar e o 
objeto pulsional pennanecer no real, o circuito da pulsão é abortado. 
Se a refenda não se fez é porque não houvt redobramento: do 
representante à representação do representante, ou seja, à Vorstellung-
reprãsantanz.. 
Então, diz Lacan, produz-se ~essa ereção do objeto à luz do espanto, 
uma for:ma congelada numa inefável estranheza ... 
Certamente, a pulsão está ali, sob uma forma truncada, reduzida a 
um impulso que é o caráter primordial da pulsão. A fonte também está 
ali, já que é orgânica. Mas nem o objeto, nem o objetivo têm lugar. 
Nem o objeto, cujo caráter indiferente, no entanto, funda essa suces-
são de um objeto ao outro, para o ps icótico. 
Nem o objetivo: é que não houve queda do objeto, isto é, a pulsão 
não o circunda . 
Então, à falta do que seja o objeto - eternamente faltoso .. : 
-enquanto real, ele pode permanecer acoplado à superfície do sujeilo 
(daf a importância, no psicótico, do -eu .. todo na superfície); 
- ou então, por culpa, ele é devido ao Outro, acoplado, simetricamen-
te, sobre sua superfície. 
Trata-se aí de um curto-circuito que bloqueia o circuito pulsional 
com duas conseqüências: . 
- 11 conseqüência, no plano da alienação: o ~vel" não se inscreve sob 
o modo de um -nem ... nem .. , mas s im sob o modo de um -ou ... ou .. 
mortífero, que remete o psicótico à perplexidade quanto a sua sexuação, 
até mesmo ao -empuxo à mulher'" que é sua conseqüência inevitável em 
benefíc io do Outro. 
Não há gozo do sujeito ligado à pulsão, mas gozo do Outro que não 
é pulsão. 
- 21 conseqüência: o curto-circuito corta o circuito pulsional, que não 
tem trajeto de volta: ~a verdadeira pulsão ativa-, diz Lacan, pois é este 
trajeto de volta que define o bordo da superfície erógena, de onde parte 
a invaginação do circuito pulsional, numa busca a que o Outro responde. 
Como poderia ele responder se não houvesse queda do objeto? 
O quaJ, além do mais, lhe é devido, para que não só ele não tenha 
fa lta, mas para que ele não mona, de onde a referência à pulsão de morte 
que lhes fiz . 
Portanto, a ausência da refenda do sujeito só alcança a identidade 
entre o significante e a ·coisa": o significante toma o lugar da -coisa", 
se rdenda não há. 
Um "passo a mais~~ entre a criança 
e o adulto: a estrutura do corpo 
Rosine Lefort 
A criança no adulto, é sempre o mesmo problema da unidade da 
ps icanálise, ou ainda da criança como analisanda integral, porque aos 
olhos da psicanálise não há uma criança çu um adulto, há um sujeito. 
A elaboração de Freud e de Lacan é inteiramente centrada nesse 
·sujeito"., não apenas enquanto - ser falante .. , mas enquanto prematuro 
ao nascer, o que faz com que seja através da imagem do Outro que o 
homem encontra o recorte unitário de seu corpo. -A realidade .. , diz 
Lacan, -é conquistada inicialmente sob a forma virtual da imagem do 
corpo ... 
É a partir dessa prematuração que Lacan vai se dedicar, não ao 
desenvolvimento da criança, noção psicogenética completamente ex -
cluída da psicanálise, mas à estrutura a partir do estágio do espelho, que 
vai atravessar toda a sua obra, não apenas sob sua forma primeira, 
referente ao narcisismo e ao reconhecimento pelo Outro. mas sob a 
fonna do -esquema ótico"' que ultrapassa amplamente a fenomenologia 
do espelho e onde, no ~espelho plano do Outro'', isto é, a função do 
analista como espelho, não é da função especular que se trata, mesmo 
que até certo ponto esteja aí implicada a imagem virtual i' (a). 
Se, com efeito, essa captação especular se produz, estamos longe de 
uma estrutura acabada e, na pior das hipóteses, um fenômeno de transi-
tivismo pode precipitar o sujeito nessa alienação na imagem do Outro, 
até mesmo confundi-lo Com ela, mesmo por intermédio de um signifi-
cante como - a criança do lobo .. nos mostra, no começo de sua análise, 
quando gritava -senhora! .. sem se dirigir a ninguém, mas antes como 
se anunciasse a si mesmo confundido com o Outro. ~É que a casa do 
homem", dizLacan, -está num ponto situado no Outro, para além da 
imagem e que, se for revelada, provoca o fenômeno do duplo". 
O esquema ótico, ao contrário, está ali para figurar o que pode haver 
de furado no espelho-plano do Outro, espelho sem aço que porta o 
sujeito num ponto I, distinto do lugar de i' (a) que permite ao sujeito 
apreender o que tem a sua identificação de fundamentalmente ilusório, 
17 
t6 a aianc;:a no discurso analítico 
No que se refere à pulsão, se a refenda do objeto não se realizar e o 
objeto pulsional pennanecer no real, o circuito da pulsão é abortado. 
Se a refenda não se fez é porque não houvt redobramento: do 
representante à representação do representante, ou seja, à Vorstellung-
reprãsantanz.. 
Então, diz Lacan, produz-se ~essa ereção do objeto à luz do espanto, 
uma for:ma congelada numa inefável estranheza ... 
Certamente, a pulsão está ali, sob uma forma truncada, reduzida a 
um impulso que é o caráter primordial da pulsão. A fonte também está 
ali, já que é orgânica. Mas nem o objeto, nem o objetivo têm lugar. 
Nem o objeto, cujo caráter indiferente, no entanto, funda essa suces-
são de um objeto ao outro, para o ps icótico. 
Nem o objetivo: é que não houve queda do objeto, isto é, a pulsão 
não o circunda . 
Então, à falta do que seja o objeto - eternamente faltoso .. : 
-enquanto real, ele pode permanecer acoplado à superfície do sujeilo 
(daf a importância, no psicótico, do -eu .. todo na superfície); 
- ou então, por culpa, ele é devido ao Outro, acoplado, simetricamen-
te, sobre sua superfície. 
Trata-se aí de um curto-circuito que bloqueia o circuito pulsional 
com duas conseqüências: . 
- 11 conseqüência, no plano da alienação: o ~vel" não se inscreve sob 
o modo de um -nem ... nem .. , mas s im sob o modo de um -ou ... ou .. 
mortífero, que remete o psicótico à perplexidade quanto a sua sexuação, 
até mesmo ao -empuxo à mulher'" que é sua conseqüência inevitável em 
benefíc io do Outro. 
Não há gozo do sujeito ligado à pulsão, mas gozo do Outro que não 
é pulsão. 
- 21 conseqüência: o curto-circuito corta o circuito pulsional, que não 
tem trajeto de volta: ~a verdadeira pulsão ativa-, diz Lacan, pois é este 
trajeto de volta que define o bordo da superfície erógena, de onde parte 
a invaginação do circuito pulsional, numa busca a que o Outro responde. 
Como poderia ele responder se não houvesse queda do objeto? 
O quaJ, além do mais, lhe é devido, para que não só ele não tenha 
fa lta, mas para que ele não mona, de onde a referência à pulsão de morte 
que lhes fiz . 
Portanto, a ausência da refenda do sujeito só alcança a identidade 
entre o significante e a ·coisa": o significante toma o lugar da -coisa", 
se rdenda não há. 
Um "passo a mais~~ entre a criança 
e o adulto: a estrutura do corpo 
Rosine Lefort 
A criança no adulto, é sempre o mesmo problema da unidade da 
ps icanálise, ou ainda da criança como analisanda integral, porque aos 
olhos da psicanálise não há uma criança çu um adulto, há um sujeito. 
A elaboração de Freud e de Lacan é inteiramente centrada nesse 
·sujeito"., não apenas enquanto - ser falante .. , mas enquanto prematuro 
ao nascer, o que faz com que seja através da imagem do Outro que o 
homem encontra o recorte unitário de seu corpo. -A realidade .. , diz 
Lacan, -é conquistada inicialmente sob a forma virtual da imagem do 
corpo ... 
É a partir dessa prematuração que Lacan vai se dedicar, não ao 
desenvolvimento da criança, noção psicogenética completamente ex -
cluída da psicanálise, mas à estrutura a partir do estágio do espelho, que 
vai atravessar toda a sua obra, não apenas sob sua forma primeira, 
referente ao narcisismo e ao reconhecimento pelo Outro. mas sob a 
fonna do -esquema ótico"' que ultrapassa amplamente a fenomenologia 
do espelho e onde, no ~espelho plano do Outro'', isto é, a função do 
analista como espelho, não é da função especular que se trata, mesmo 
que até certo ponto esteja aí implicada a imagem virtual i' (a). 
Se, com efeito, essa captação especular se produz, estamos longe de 
uma estrutura acabada e, na pior das hipóteses, um fenômeno de transi-
tivismo pode precipitar o sujeito nessa alienação na imagem do Outro, 
até mesmo confundi-lo Com ela, mesmo por intermédio de um signifi-
cante como - a criança do lobo .. nos mostra, no começo de sua análise, 
quando gritava -senhora! .. sem se dirigir a ninguém, mas antes como 
se anunciasse a si mesmo confundido com o Outro. ~É que a casa do 
homem", diz Lacan, -está num ponto situado no Outro, para além da 
imagem e que, se for revelada, provoca o fenômeno do duplo". 
O esquema ótico, ao contrário, está ali para figurar o que pode haver 
de furado no espelho-plano do Outro, espelho sem aço que porta o 
sujeito num ponto I, distinto do lugar de i' (a) que permite ao sujeito 
apreender o que tem a sua identificação de fundamentalmente ilusório, 
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11 a criança no di8CUrso analilíoo 
na medida em que ela é narcí.sica, o que já verificava a criança no CÓlo 
do Outro, ao se voltar para esse Outro que o portava. Mais além da 
imagem do corpo investida como Eu Ideal, situa-se em I esse Ideal do 
Eu, isto é, aquilo a que o sujeito se identifica ao entrar na estrun.ira 
significante, para além da observação imaginária. 
Mas, dirão vocês, naquilo que lhes digo onde está a criança no 
adulto'? Pois bem, ela es .. sempre ali, e desde o início, na obra de Lacan. 
Releiam os Complexos Familiares, onde toda a patologia é situada, 
principalmente a psicose, a partir do lugar ocupado pela criança em seu 
meio; ou ainda, para citar apenas um seminário, o das Formações do 
Inconsciente, onde se elabora o Édipo na perspectiva propriamente 
lacaniana da topologia do significante. Deve-se ainda lembrar que 
Freud descobriu os estágios libidinais das crianças nas análises de 
adultos. · 
.Enfun, de um modo mais geral, Lacao, situando o sujeito no discurso, 
lembra que a neurose é uma -questão que o ser coloca para o sujeito", 
uma questão, diz Freud, que ele coloca a partir .. dali onde ele estava 
antes que o sujeito viesse ao mundo ... 
Todos aqueles que têm a prática da análise com crianças não podem 
deixar de se sensibilizar com a proximidade desses elementos de estru-
tura, com a maneira pela qual elas os demonstram, e isso tanto mais 
quanto menor for a criança. 
Lembremos o que cada um pode conhecer na prática com adultos, 
qwmto a essas cenas que fizeram um ponto de ancoramento, fixação na 
fascinação que elas exerceram sobre o sujeito. Mas qual a reconstrução, 
para acompanhar Freud a propósito de sua -lembrança encobridora'"; 
que o analista pode fazer entre o discurso manifesto da lembrança, ou 
pelo menos relatado como tal, e a elaboração fantasmática que ali se 
esconde'? Ali onde se vê que uma recor~ção de infância não é a da 
criança que aquele adulto foi, mas que é necessário encontrar, mais além 
do recalque, todos os estratos que recobriram o fascínio inicial. 
A criança pequena, ao contrário, pode nos dar uma ilustração e um 
acesso mais diretos. 
O bebê que era Na dia nos mostra ao vivo, na cena de 10 de dezembro, 
o que pode ser um tal fascínio diante do quadro de uma enfermeira com 
uma criança no colo, que ela contempla com fortes movimentos de· 
sucção. Lembro a vocês que ela só sai disso através do significante do 
seu nome, isto é, ela passa do seu olhar à minha voz. M2s, pela 
oralidade, ela havia encontrado a manifestação mais ativa, ou seja, seu 
desejo, desejo que Lacan demarca de uma maneira que vale para todo 
sujeito, crianÇa ou adulto: -o desejo encontra seu suporte fantasmático 
naquilo a que se chama de uma defesa do sujeito diante do parceiro 
tomado como significante do devoramento realizado ... 
pontos nodais 11 
Vê-se como, aqui, o fantasma fundamental, o de Nadia nesse caso, 
se revela na dialética dos objetos a, o que em caso algum o objeto fálico 
imaginário poderia fazer. Vê-se também como a criança pode nos 
encaminhar quanto ao que deve ser retirado, no adulto, para se reencon-
trar esseprocesso do fantasma fundamental de que depende a origem 
do sintoma. 
Lacan há muito tempo, nesse sentido, articulou a pulsio oral e o 
complexo de castração, em outras palavras, a passagem do a áo -q>. Essa 
é, certamente, a articulação principal da criança no adulto, essa passa-
gem do fantasma que une o sujeito ao a à dialética da castração que une 
o sujeito ao -<p. 
Com o a, o ponto de angústia está no n.ível do Outro, o corpo da mãe, 
daí a situação privilegiada da análise com crianças. Mas isso não exclui, 
evidentemente, a questão do -rp, sob a condição de que se veja que não 
é mais da mãe que se trata, como no nível da pulsão oral, e sim, numa 
posição estritamente invertida, do próprio sujeito, isto é, de seu órgão 
como experiência subjetiva da falta. . 
Ora, a pulsão oral nessas condições, longe de ser um modo metafó-
rico de abordar o que se passa no nível do objeto fálico, levanta toda a 
questão da relação com o Outro, do corte e da promoção ou não do 
objeto a necessário à aheridade do Outro. É certo que o que está em 
jogo, nesse nível, é considerável, e as pulsões agressivas que aí se 
originam padem estar na fonte das -claudicações mais fundamentais-. 
A criança es .. no primeiro plano para nos ensinar, mas ela nos sinaliza, 
também, que é bem disso que se trata no adulto. 
Robert, a -criança do lobo .. , aparece assim como o modelo de um 
Schreber cujas reconstruções megalomaníacas podem nos mascarar a 
essência de um retomo à impossibilidade de um objeto a oral entre ele 
e o Outro. Certamente, essa criança nos dá imediatamente a dimensão 
de um debate quanto ao seu pênis na sua relação com o Outro, o que 
significa que, longe de ser o significante da falta, o rp é um órgão que 
toma o lugar de um a, não para ele mas para o Outro na estrutura, na 
origem do gozo de~e Outro. À falta do significante, o Outro aparece 
como o sujeito mítico do gozo. Vê-se como aqui a dialética seio-pênis, 
cara a Melanie Klein, que confunde os dois em sua equação, prepara o 
caminho da psicose, uma psicose nonnal para ela mas que é absoluta-
mente impensável~ impensável, de fato, se questionarmos o surgimento 
do a essencial para a barra do Outro, bem como para a constituição do 
sujeito no lugar deste I. enquanto s ignificante, e se não tomarmos como 
verdadeiro, como na psicose, um órgão - o pênis não simbolizado -
como a, votado portanto à queda e à mutilação. Nesse sentido, o debate 
de Robert pode esclarecer o de Schreber. 
11 a criança no di8CUrso analilíoo 
na medida em que ela é narcí.sica, o que já verificava a criança no CÓlo 
do Outro, ao se voltar para esse Outro que o portava. Mais além da 
imagem do corpo investida como Eu Ideal, situa-se em I esse Ideal do 
Eu, isto é, aquilo a que o sujeito se identifica ao entrar na estrun.ira 
significante, para além da observação imaginária. 
Mas, dirão vocês, naquilo que lhes digo onde está a criança no 
adulto'? Pois bem, ela es .. sempre ali, e desde o início, na obra de Lacan. 
Releiam os Complexos Familiares, onde toda a patologia é situada, 
principalmente a psicose, a partir do lugar ocupado pela criança em seu 
meio; ou ainda, para citar apenas um seminário, o das Formações do 
Inconsciente, onde se elabora o Édipo na perspectiva propriamente 
lacaniana da topologia do significante. Deve-se ainda lembrar que 
Freud descobriu os estágios libidinais das crianças nas análises de 
adultos. · 
.Enfun, de um modo mais geral, Lacao, situando o sujeito no discurso, 
lembra que a neurose é uma -questão que o ser coloca para o sujeito", 
uma questão, diz Freud, que ele coloca a partir .. dali onde ele estava 
antes que o sujeito viesse ao mundo ... 
Todos aqueles que têm a prática da análise com crianças não podem 
deixar de se sensibilizar com a proximidade desses elementos de estru-
tura, com a maneira pela qual elas os demonstram, e isso tanto mais 
quanto menor for a criança. 
Lembremos o que cada um pode conhecer na prática com adultos, 
qwmto a essas cenas que fizeram um ponto de ancoramento, fixação na 
fascinação que elas exerceram sobre o sujeito. Mas qual a reconstrução, 
para acompanhar Freud a propósito de sua -lembrança encobridora'"; 
que o analista pode fazer entre o discurso manifesto da lembrança, ou 
pelo menos relatado como tal, e a elaboração fantasmática que ali se 
esconde'? Ali onde se vê que uma recor~ção de infância não é a da 
criança que aquele adulto foi, mas que é necessário encontrar, mais além 
do recalque, todos os estratos que recobriram o fascínio inicial. 
A criança pequena, ao contrário, pode nos dar uma ilustração e um 
acesso mais diretos. 
O bebê que era Na dia nos mostra ao vivo, na cena de 10 de dezembro, 
o que pode ser um tal fascínio diante do quadro de uma enfermeira com 
uma criança no colo, que ela contempla com fortes movimentos de· 
sucção. Lembro a vocês que ela só sai disso através do significante do 
seu nome, isto é, ela passa do seu olhar à minha voz. M2s, pela 
oralidade, ela havia encontrado a manifestação mais ativa, ou seja, seu 
desejo, desejo que Lacan demarca de uma maneira que vale para todo 
sujeito, crianÇa ou adulto: -o desejo encontra seu suporte fantasmático 
naquilo a que se chama de uma defesa do sujeito diante do parceiro 
tomado como significante do devoramento realizado ... 
pontos nodais 11 
Vê-se como, aqui, o fantasma fundamental, o de Nadia nesse caso, 
se revela na dialética dos objetos a, o que em caso algum o objeto fálico 
imaginário poderia fazer. Vê-se também como a criança pode nos 
encaminhar quanto ao que deve ser retirado, no adulto, para se reencon-
trar esse processo do fantasma fundamental de que depende a origem 
do sintoma. 
Lacan há muito tempo, nesse sentido, articulou a pulsio oral e o 
complexo de castração, em outras palavras, a passagem do a áo -q>. Essa 
é, certamente, a articulação principal da criança no adulto, essa passa-
gem do fantasma que une o sujeito ao a à dialética da castração que une 
o sujeito ao -<p. 
Com o a, o ponto de angústia está no n.ível do Outro, o corpo da mãe, 
daí a situação privilegiada da análise com crianças. Mas isso não exclui, 
evidentemente, a questão do -rp, sob a condição de que se veja que não 
é mais da mãe que se trata, como no nível da pulsão oral, e sim, numa 
posição estritamente invertida, do próprio sujeito, isto é, de seu órgão 
como experiência subjetiva da falta. . 
Ora, a pulsão oral nessas condições, longe de ser um modo metafó-
rico de abordar o que se passa no nível do objeto fálico, levanta toda a 
questão da relação com o Outro, do corte e da promoção ou não do 
objeto a necessário à aheridade do Outro. É certo que o que está em 
jogo, nesse nível, é considerável, e as pulsões agressivas que aí se 
originam padem estar na fonte das -claudicações mais fundamentais-. 
A criança es .. no primeiro plano para nos ensinar, mas ela nos sinaliza, 
também, que é bem disso que se trata no adulto. 
Robert, a -criança do lobo .. , aparece assim como o modelo de um 
Schreber cujas reconstruções megalomaníacas podem nos mascarar a 
essência de um retomo à impossibilidade de um objeto a oral entre ele 
e o Outro. Certamente, essa criança nos dá imediatamente a dimensão 
de um debate quanto ao seu pênis na sua relação com o Outro, o que 
significa que, longe de ser o significante da falta, o rp é um órgão que 
toma o lugar de um a, não para ele mas para o Outro na estrutura, na 
origem do gozo de~e Outro. À falta do significante, o Outro aparece 
como o sujeito mítico do gozo. Vê-se como aqui a dialética seio-pênis, 
cara a Melanie Klein, que confunde os dois em sua equação, prepara o 
caminho da psicose, uma psicose nonnal para ela mas que é absoluta-
mente impensável~ impensável, de fato, se questionarmos o surgimento 
do a essencial para a barra do Outro, bem como para a constituição do 
sujeito no lugar deste I. enquanto s ignificante, e se não tomarmos como 
verdadeiro, como na psicose, um órgão - o pênis não simbolizado -
como a, votado portanto à queda e à mutilação. Nesse sentido, odebate 
de Robert pode esclarecer o de Schreber. 
20 a a-iança no discurso analítioo 
Todo esse debate de Robert, ao funde um tempo em análise, é porque 
· ele aceita ter esse órgão de menino, contra sua vontade, contra a do 
Outro, já que está sempre disposto, à maneira psicótica primordial, a 
privar-se dele para escapar à castração. É verdade que existe sempre, 
para o psicótico, a maior dificuldade para se situar no registro da 
castração simbólica. A metÁfora delirante pode fazer concessões; a 
pedra de toque permanece a foraclusão do Nome-do-Pai. 
Vou lhes propor como função do Nome-do-Pai essa possibiJidade de 
ter um corpo. Ora, ter um corpo só pode querer dizer tê-lo pelo Outro 
no significante: o corpo é o significado desse significante naquilo que 
Lacan definiu como .. ponto de basta ... Neste sentido, a foraclusão do 
Nome-do-Pai é a separação radical entre o real do corpo e o significante 
do Outro. 
O real do corpo é, na ausência de todo saber no Outro (S2), não 
alguma coisa de perdido, mas alg"TUa coisa que tende para o vazio, 
numa perspectiva de continente-conteúdo, com efeito de vaso comuni-
cante entre o sujeito c o Outro: todos os conteúdos do corpo, produtos 
e órgãos, est.ão a serviço do gozo do Outro. Diz Scbreber: .. Vivi por 
muito tempo sem pulmões, sem fígado, sem intestinos ..... O significante 
do Outro, que vem do Outro enquanto tal e não de um mais-além, 
exterioriza por sua voz os conteúdos do corpo do sujeito. 
Se a primeira dimensão do corpo próprio é o significante - não 
estamos af no níveJ do l.maginário - , é preciso ainda que haja ai um 
significante, ao menos um, que não seja do Outro, isto é, o significante 
da falta, o -<p, senão o significante do Outro equivale ao real do corpo 
do sujeito e de suas funções: o real e o significante são completamente 
separados, mas equivalentes. Sob o modelo do Outro, .. o sujeito nio é 
mais, de alguma maneira, suportado enquanto Eu .. , diz Lacao a propó-
sito de Schreber, .. a não ser por essa trama contínua de alucinações 
verbais significantes que constitui, nesse momento. uma espécie de 
redobramento em direção a uma postura inicial da gênese de seu mundo 
da realidade ... Redobramento para Schreber, mas ponto de partida para 
Robert. Ele nos esclarece como, no espelho real com o Outro, ele se 
propõe em seuS, como objeto do Outro, cola bando em sua equivalência 
o significante do S e o real do objeto a, que são, assim, todos dois do 
Outro e, de fato, um Outro absoluto. 
É necessário o redobramento do significante no S2 para que um saber 
sobre ele possa se destacar do Outro, para que ele cesse de ser o a do 
Outro e que este a se destaque e caia no intervalo entreS, e S2• 
Seu pênis exercia a função de a até então: ele devia, pois, perdê-lo 
até o momento em que passa a poder tê-lo para que enfim se esboce uma 
outra perda, a do objeto do qual o Outro é portador. Percurso que 
Schreber não atinge, pois que, no espelho real do Outro, ele perde o seu 
pontos nodais 21 
pênis mas a fim de conservar o seio e mostrá-lo: perde aquilo que não 
é um a, seu pênis, para ter o a que o Outro deveria ter perdido, o seio. 
A castração do -<p, fator de subjetivação, é referida ao corpo de Das 
Ding que faz espelho real. · 
Não se deve crer que o par S,-S2 seja suficiente para desatar essa 
equivalência entre o real e o significante. A somatização, ou mais 
exatamente o afetamento psicossomático do corpe, está aí para nos 
confirmar - e essa é uma etapa inevitável de todo progresso na cura de 
um psicótíco - que S2 pode, como S,, estar incluído no Outro e se tomar 
bolófrase, isto é, fazer efeito de real e não de significante. 
Como, então, não passar pela topologia à espreita de um discurso .. o 
mais esvaziado possível de sentido, dispensando toda metáfora"? -A 
criança do lobo .. , por exemplo, demonstra isso numa sessão a que 
chamei de .. batismo .. , que lhe permite adquirir um corpo de superfície 
cuja nomeação, por sua própria boca, de .. Robert .. , faz com que, por essa 
nova realidade de corpo, .. o que há de real seja inscrito". 
Ensinamento da psicose, e especialmente da psicose infantil, onde a 
questão do real e do significante se coloca, partindo de sua separação 
radical para chegar a sua articulação. 
.. Meu discurso demonstra poder se sustentar até mesmo pela psico-
se", escreve Lacan, ao fmal de l'Étourdit, não sem acrescentar: .. É de 
uma retomada da minha fala que nasce o meu Schreber", isto é, quer os 
significantes e os maternas façam ai as vezes de real ou não. 
20 a a-iança no discurso analítioo 
Todo esse debate de Robert, ao funde um tempo em análise, é porque 
· ele aceita ter esse órgão de menino, contra sua vontade, contra a do 
Outro, já que está sempre disposto, à maneira psicótica primordial, a 
privar-se dele para escapar à castração. É verdade que existe sempre, 
para o psicótico, a maior dificuldade para se situar no registro da 
castração simbólica. A metÁfora delirante pode fazer concessões; a 
pedra de toque permanece a foraclusão do Nome-do-Pai. 
Vou lhes propor como função do Nome-do-Pai essa possibiJidade de 
ter um corpo. Ora, ter um corpo só pode querer dizer tê-lo pelo Outro 
no significante: o corpo é o significado desse significante naquilo que 
Lacan definiu como .. ponto de basta ... Neste sentido, a foraclusão do 
Nome-do-Pai é a separação radical entre o real do corpo e o significante 
do Outro. 
O real do corpo é, na ausência de todo saber no Outro (S2), não 
alguma coisa de perdido, mas alg"TUa coisa que tende para o vazio, 
numa perspectiva de continente-conteúdo, com efeito de vaso comuni-
cante entre o sujeito c o Outro: todos os conteúdos do corpo, produtos 
e órgãos, est.ão a serviço do gozo do Outro. Diz Scbreber: .. Vivi por 
muito tempo sem pulmões, sem fígado, sem intestinos ..... O significante 
do Outro, que vem do Outro enquanto tal e não de um mais-além, 
exterioriza por sua voz os conteúdos do corpo do sujeito. 
Se a primeira dimensão do corpo próprio é o significante - não 
estamos af no níveJ do l.maginário - , é preciso ainda que haja ai um 
significante, ao menos um, que não seja do Outro, isto é, o significante 
da falta, o -<p, senão o significante do Outro equivale ao real do corpo 
do sujeito e de suas funções: o real e o significante são completamente 
separados, mas equivalentes. Sob o modelo do Outro, .. o sujeito nio é 
mais, de alguma maneira, suportado enquanto Eu .. , diz Lacao a propó-
sito de Schreber, .. a não ser por essa trama contínua de alucinações 
verbais significantes que constitui, nesse momento. uma espécie de 
redobramento em direção a uma postura inicial da gênese de seu mundo 
da realidade ... Redobramento para Schreber, mas ponto de partida para 
Robert. Ele nos esclarece como, no espelho real com o Outro, ele se 
propõe em seuS, como objeto do Outro, cola bando em sua equivalência 
o significante do S e o real do objeto a, que são, assim, todos dois do 
Outro e, de fato, um Outro absoluto. 
É necessário o redobramento do significante no S2 para que um saber 
sobre ele possa se destacar do Outro, para que ele cesse de ser o a do 
Outro e que este a se destaque e caia no intervalo entreS, e S2• 
Seu pênis exercia a função de a até então: ele devia, pois, perdê-lo 
até o momento em que passa a poder tê-lo para que enfim se esboce uma 
outra perda, a do objeto do qual o Outro é portador. Percurso que 
Schreber não atinge, pois que, no espelho real do Outro, ele perde o seu 
pontos nodais 21 
pênis mas a fim de conservar o seio e mostrá-lo: perde aquilo que não 
é um a, seu pênis, para ter o a que o Outro deveria ter perdido, o seio. 
A castração do -<p, fator de subjetivação, é referida ao corpo de Das 
Ding que faz espelho real. · 
Não se deve crer que o par S,-S2 seja suficiente para desatar essa 
equivalência entre o real e o significante. A somatização, ou mais 
exatamente o afetamento psicossomático do corpe, está aí para nos 
confirmar - e essa é uma etapa inevitável de todo progresso na cura deum psicótíco - que S2 pode, como S,, estar incluído no Outro e se tomar 
bolófrase, isto é, fazer efeito de real e não de significante. 
Como, então, não passar pela topologia à espreita de um discurso .. o 
mais esvaziado possível de sentido, dispensando toda metáfora"? -A 
criança do lobo .. , por exemplo, demonstra isso numa sessão a que 
chamei de .. batismo .. , que lhe permite adquirir um corpo de superfície 
cuja nomeação, por sua própria boca, de .. Robert .. , faz com que, por essa 
nova realidade de corpo, .. o que há de real seja inscrito". 
Ensinamento da psicose, e especialmente da psicose infantil, onde a 
questão do real e do significante se coloca, partindo de sua separação 
radical para chegar a sua articulação. 
.. Meu discurso demonstra poder se sustentar até mesmo pela psico-
se", escreve Lacan, ao fmal de l'Étourdit, não sem acrescentar: .. É de 
uma retomada da minha fala que nasce o meu Schreber", isto é, quer os 
significantes e os maternas façam ai as vezes de real ou não. 
Imagem e objeto 
separados ou confundidos? 
Robert Lefort 
"A imagem especular é o canal que toma a transfusão da libido em 
direção ao objeto." Vqc8s reconheceram uma frase de Lacan em "Sub-
versão do sujeito e dialética do desejo-. No caso, a ponta é o objeto, o 
do fantasma, .. essa parte .. , diz ele, -que fica preservada dessa imersão 
no especulàr. concentrando nela o mais intimo do auto-erotismo, ope-
rando a exclusão, onde ela se encontra, da imagem especular e consti-
tuindo o protótipo do mundo dos objetos ... 
É acompanhando Nadia no .decorrer de sua análise que se podem 
apreender as diferentes etapas do surgimento do objeto, tanto no seu 
caráter fundamental de não especularizável quanto na alteração do 
estatuto do Outro, que é ao mesmo tempo colocado em sua alteridade e 
petdendo seu caráter de ·existente" até advir, no progresso do tratamen-
to, no fim da análise, ao lugar de objeto a. 
O objeto enquanto caído 
Numa primeira fase, a relação entre Nadia e o Outro, que era a analista, 
se dava pelo objeto que ainda não caíra. No entanto, ele estava por cair, 
como indicavam dois fatos patentes, tanto de sua parte como da do 
Outro. · · 
Por seu lado. descrevemos longamente o sintOma de desligamento 
que fez com que ela não pudesse apanhar o objeto que cobiçava, doce 
ou brinquedo, sem ter imediatamente um movimento reflexo de abertura 
da mão que a fazia largar o objeto, perdendo-o. Sob a transferência, isto 
se radicalizara até o ponto em que ela se recusava a apanhar, impossi-
bilidade que demonstrava com os punhos cerrados - sintoma tanto mais 
manifesto quanto ela se encontrava no colo do Outro -, então, não 
apenas fecbava os punhos como mantinha os braços erguidos como que 
para evitar qualquer contato com o corpo do Outro, ou melhor, com o 
objeto que este portava. Apenas seu olhar, como sabemos, olhar intenso 
22 
pontos nodais 23 
que tanto espantou Rosine Lefort no começo, estava em cau~a na s~a 
relação com a analista. Deveríamos dizer: objeto que o Outro é suposto 
portar, pois 'o traositivismo se caracteriza pelo fato de que o objeto está 
em posição terceira. É o que mostrou a cena, pouco tempo depois do 
comeÇo do tratamento, quando, não podendo comer ela mesma o doce 
que tinha na mão, pós um pedaço na boca da analista. Então, se era a 
analista quem comia, por pouco que fosse, era éla, Nadia, quem vomi-
tava assim que era postà de volta em sua ca~a. Mesmo nessa s ituação 
em espelho, Nadia demonstrou que o objeto não devia aparecer enquan-
to tal em seu real, mas devia ser desrealizado e dar lugar a um vazio. 
Nenhuma simetria entre o ter o objeto, por parte do pequeno sujeito e 
pelo seu Outro, abre o caminho para esse estatuto vazio do objeto, e o 
transitivismo em que ele' está implicado conceme à falta. 
A psicose vai nos esclarecer quanto a essa diferença entre simetria e 
o transitivismo, na medid·a em que, já neste último, por intermédio da 
falta de que se trata, a estrutura da mensagem invertida que o pequeno 
sujeito recebe do Outro já está presente. 
É a realização de um tal lugar de objeto enquanto vazio, enquanto 
caído, que vai prosseguir ao longo de toda a análise de Nadia, até a sua 
procura e o seu encontro de sua imagem no espelho. Vamos reter, deste 
trajeto antes do espelho, apenas duas cenas principais: uma é a de 5 de 
dezembro, quando Nadía, crispando as mãos sobre a blusa da analista à 
altura do peito, passou do objeto impossível que ela queria tomar ali 
para a exclamação de .. mamãe", que disse pela primeira vez, que lhe 
permitiu ali, depois de sua tensão, manifestar sua ternura: o significante 
anulou o objeto, ~s. mais ainda, essa enunciação teve efeito de sujeito 
sobre Na dia enquanto ( -1 ). onde o significado concerne também à queda 
do objeto do Outro enquanto (r-i) na álgebra lacaniana. 
No entanto, Nadia resistiu a essa alienação no significante, já que 
cinco dias mais tarde, a lO de dezembro, apegou-se por via escópica ao 
objeto faltoso que alucinou até o ponto de encontrar a borda erógena do 
oriffcio da boca, por intensos Di.ovimentós auto-éróticos de sucção. Era 
o significante da analista, •Nadia .. , que a separava do objeto e fazia com 
que ela se propusesse metonimicamente como objeto de desejo, ao 
mesmo tempo em que dava o sinal de uma abertura para o. objeto 
metonímico do corpo do Outro. 
O enconrro com o espelho 
Ela só iria aperfeiçoar essa queda do objeto, essa queda de corpos. por 
ocasião de seu encontro· com o espelho, a 16 de janeiro. ~abe-se que, 
Imagem e objeto 
separados ou confundidos? 
Robert Lefort 
"A imagem especular é o canal que toma a transfusão da libido em 
direção ao objeto." Vqc8s reconheceram uma frase de Lacan em "Sub-
versão do sujeito e dialética do desejo-. No caso, a ponta é o objeto, o 
do fantasma, .. essa parte .. , diz ele, -que fica preservada dessa imersão 
no especulàr. concentrando nela o mais intimo do auto-erotismo, ope-
rando a exclusão, onde ela se encontra, da imagem especular e consti-
tuindo o protótipo do mundo dos objetos ... 
É acompanhando Nadia no .decorrer de sua análise que se podem 
apreender as diferentes etapas do surgimento do objeto, tanto no seu 
caráter fundamental de não especularizável quanto na alteração do 
estatuto do Outro, que é ao mesmo tempo colocado em sua alteridade e 
petdendo seu caráter de ·existente" até advir, no progresso do tratamen-
to, no fim da análise, ao lugar de objeto a. 
O objeto enquanto caído 
Numa primeira fase, a relação entre Nadia e o Outro, que era a analista, 
se dava pelo objeto que ainda não caíra. No entanto, ele estava por cair, 
como indicavam dois fatos patentes, tanto de sua parte como da do 
Outro. · · 
Por seu lado. descrevemos longamente o sintOma de desligamento 
que fez com que ela não pudesse apanhar o objeto que cobiçava, doce 
ou brinquedo, sem ter imediatamente um movimento reflexo de abertura 
da mão que a fazia largar o objeto, perdendo-o. Sob a transferência, isto 
se radicalizara até o ponto em que ela se recusava a apanhar, impossi-
bilidade que demonstrava com os punhos cerrados - sintoma tanto mais 
manifesto quanto ela se encontrava no colo do Outro -, então, não 
apenas fecbava os punhos como mantinha os braços erguidos como que 
para evitar qualquer contato com o corpo do Outro, ou melhor, com o 
objeto que este portava. Apenas seu olhar, como sabemos, olhar intenso 
22 
pontos nodais 23 
que tanto espantou Rosine Lefort no começo, estava em cau~a na s~a 
relação com a analista. Deveríamos dizer: objeto que o Outro é suposto 
portar, pois 'o traositivismo se caracteriza pelo fato de que o objeto está 
em posição terceira. É o que mostrou a cena, pouco tempo depois do 
comeÇo do tratamento, quando, não podendo comer ela mesma o doce 
que tinha na mão, pós um pedaço na boca da analista. Então, se era a 
analista quem comia, por pouco que fosse, era éla, Nadia, quem vomi-
tava assim que era postà de volta em sua ca~a. Mesmo nessa s ituação 
em espelho, Nadia demonstrou que oobjeto não devia aparecer enquan-
to tal em seu real, mas devia ser desrealizado e dar lugar a um vazio. 
Nenhuma simetria entre o ter o objeto, por parte do pequeno sujeito e 
pelo seu Outro, abre o caminho para esse estatuto vazio do objeto, e o 
transitivismo em que ele' está implicado conceme à falta. 
A psicose vai nos esclarecer quanto a essa diferença entre simetria e 
o transitivismo, na medid·a em que, já neste último, por intermédio da 
falta de que se trata, a estrutura da mensagem invertida que o pequeno 
sujeito recebe do Outro já está presente. 
É a realização de um tal lugar de objeto enquanto vazio, enquanto 
caído, que vai prosseguir ao longo de toda a análise de Nadia, até a sua 
procura e o seu encontro de sua imagem no espelho. Vamos reter, deste 
trajeto antes do espelho, apenas duas cenas principais: uma é a de 5 de 
dezembro, quando Nadía, crispando as mãos sobre a blusa da analista à 
altura do peito, passou do objeto impossível que ela queria tomar ali 
para a exclamação de .. mamãe", que disse pela primeira vez, que lhe 
permitiu ali, depois de sua tensão, manifestar sua ternura: o significante 
anulou o objeto, ~s. mais ainda, essa enunciação teve efeito de sujeito 
sobre Na dia enquanto ( -1 ). onde o significado concerne também à queda 
do objeto do Outro enquanto (r-i) na álgebra lacaniana. 
No entanto, Nadia resistiu a essa alienação no significante, já que 
cinco dias mais tarde, a lO de dezembro, apegou-se por via escópica ao 
objeto faltoso que alucinou até o ponto de encontrar a borda erógena do 
oriffcio da boca, por intensos Di.ovimentós auto-éróticos de sucção. Era 
o significante da analista, •Nadia .. , que a separava do objeto e fazia com 
que ela se propusesse metonimicamente como objeto de desejo, ao 
mesmo tempo em que dava o sinal de uma abertura para o. objeto 
metonímico do corpo do Outro. 
O enconrro com o espelho 
Ela só iria aperfeiçoar essa queda do objeto, essa queda de corpos. por 
ocasião de seu encontro· com o espelho, a 16 de janeiro. ~abe-se que, 
24 a alança no discurso analítloo 
depois de se ter proposto como objeto caído aos pés do Outro para ser 
apanhada, ela reclamou o espelho para af realizar imaginariamente a 
imagem que a fascinava, a da criança nos braços do Outro, mas só 
encontrou nele a execução radical do objeto perdido: seu boneco ma-
rinheiro. De fato, esse marinheiro que ela tinha na mão e com o qual ia 
para diante do espelho, ela não o via ali. Seria o seu objeto? Seria o seu 
duplo? A questão permanece em aberto, mas encontra uma resposta 
lógica no transitivismo anterior de Nadia, onde ela era ·dois .. , ela e o 
Outro, mas onde o objeto já estava marcado pela perda, pois que se 
o Outro não era afetado por ela, era ela que o vomitava, isto é, que o 
perdia. 
Em seu encontro com o espelho, foi a própria Nadia que se defrontou 
com a sua perda, não para se assegurar da perda do Outro, desta vez, 
mas no seu próprio nfvel, já que o Outro com o qual ela estava antes em 
espelho não aparecia nessa primeira imagem especular. Então, ele era 
só a referência real, quando ela se voltava para se refugiar em seus 
braços. 
Não é à toa que Lacan fala desse momento em que o pequenQ 
sujeito se volta para o Outro como sendo o ·mais puro momento de 
experiência do espelho". Como poderia ele falar assim, se se tratasse 
apenas do Eu Ideal da imagem, e não do fato primordial do objeto 
enquanto caído? 
Não foi isso, absolutamente, o que Robert encontrou, quando .. a 
criança do lobo" viu seu reflexo na vidraça pela primeira vez. O que ele 
viu, com efeito - seria sua imagem? Certamente que não - ele bateu na 
imagem. e se nio viu ali uma imagem que seria a do Outro, nem se 
voltou para refugiar-se nos braços deste, como Nadia, é porque o que 
ele viu nada tinha a ver com uma imagem narcísica, mas antes com o 
objeto que era ele próprio e que devia cair, a ponto de Rosine Lefortter 
tido uma apreensão formidável e lhe ter dito que ele não estava naquele 
reflexo do vidro, mas ali, realmente, ao lado dela. É que ela sabia, então, 
que a perda inerente à imagem especular não tinha para Robert qualquer 
escapatória, no significante, a não ser a de seu significante delirante 
•tobo-, que veio previamente preencher um furo, um furo no próprio 
s ignificante. É isso que faz com que a imagem não venha compensar a 
perda do objeto, mas se confunda com essa perda e só se revele no 
significante do furo . 
O imaginário da imagem onde se compraz o sujeito sob os olhos do 
Outro, propondo-se como objeto imaginário para a falta do Outro. é 
reduzido a zero diante de um Outro não-banado a quem nada falta . O 
sujeito ~icótico se revela aos seus próprios olhos como o objeto cafdo, 
submetido por Robert por seu significante -lobo". 
pontosnoo.il 25 
Foi preciso esperar vários meses para que Robert, reencontrando sua 
imagem num pequeno espelho; dialetizasse de modo menos maciço essa 
confusão entre imagem e objeto~ Deve~se dizer, além disso, que o 
significante '"lobo .. desapareceu bá muito tempo, pelo progresso do 
tratamento analítico de Robert. Ele oio tem mais, então, para servir de 
tela, esse significante do furo, e t sobre a própria imagem, isto é, sobre 
a superffcie do espelho, que tenta impor sua marca sob forma de um 
pequeno traço a lápis. que se verifica ser impossível de ser feito sobre 
tal superfície. 
Naquele momento, a imagem e o objeto não são mais confundidos, 
como demonstrou Robe~ repetindo .. Robert" sobre sua imagem depois 
que a analista lhe disse que aquela é sua imagem, até mesmo beijando-a, 
por um lado, mas principalmente, por outro lado, ·querendo introduzir 
nessa imagem o objeto faltoso sob a forma do pequeno traço que queria 
fazer com seu lápis-pênis. 
Seu fracasso o levou a fazer ao Outro a censura maior quanto a essa 
perda de objeto: '"É você quem me priva de meu pênis, que me faz 
menina ... Ele o demonstrou indo buscar no armário das enfermeiras um 
par de sapatos de salto .alto que ia calçar- que equívoco! -bem como 
um cabide cuja ponta chupava como a uma mamadeira, aliando como 
sempre o seio e o pênis , expressão paranóica, mas livre no entanto da 
opacidade e da confusão imagem-objeto do ~flexo no vidro. 
Além disso, o Outro ausente por ocasião desse primeiro episódio 
estava bem presente quando do segundo: tinha sua imagem. e Roben 
pôde dizer .. Rosine" para essa imagem. Se ele procurou encobrir a queda 
do objeto pelo seu traço no espelho. no que se referia à sua própria 
imagem, nada veio testemunhar tal preocupação quanto à imagem do 
Outro. e foi ali que se situou a perda. Essa perda era a do. Outro. que se 
demonstrou por uma primeira demanda oral possível para Robert: pela 
primeira vez, ele pediu a mamadeira e tomou alguns goles, calmamente. 
nos braços da analista. Se o Outro, pois, tinha a sua imagem, é porque 
ele perdera um objeto e era este mesmo o objeto de uma demanda 
possível. 
Alternativa 
Como concluir, a não ser afirmando, conforme estes dois fragmentos de 
casos clínicos, que o especular propriamente dito é tanto uma questão 
de imagem quanto de objeto. Mas não é um paradoxo que a função 
imaginária centrada por Freud no investimento do objeto como narcfsi-
co seja correlacionada a esse objeto enquanto inapreensível no espelho 
e ao qual ·a imagem especular só dá suas ves timentas ... 
24 a alança no discurso analítloo 
depois de se ter proposto como objeto caído aos pés do Outro para ser 
apanhada, ela reclamou o espelho para af realizar imaginariamente a 
imagem que a fascinava, a da criança nos braços do Outro, mas só 
encontrou nele a execução radical do objeto perdido: seu boneco ma-
rinheiro. De fato, esse marinheiro que ela tinha na mão e com o qual ia 
para diante do espelho, ela não o via ali. Seria o seu objeto? Seria o seu 
duplo? A questão permanece em aberto, mas encontra uma resposta 
lógica no transitivismo anterior de Nadia, onde ela era ·dois .. , ela e o 
Outro, mas onde o objeto já estava marcado pela perda, pois que se 
o Outro não era afetadopor ela, era ela que o vomitava, isto é, que o 
perdia. 
Em seu encontro com o espelho, foi a própria Nadia que se defrontou 
com a sua perda, não para se assegurar da perda do Outro, desta vez, 
mas no seu próprio nfvel, já que o Outro com o qual ela estava antes em 
espelho não aparecia nessa primeira imagem especular. Então, ele era 
só a referência real, quando ela se voltava para se refugiar em seus 
braços. 
Não é à toa que Lacan fala desse momento em que o pequenQ 
sujeito se volta para o Outro como sendo o ·mais puro momento de 
experiência do espelho". Como poderia ele falar assim, se se tratasse 
apenas do Eu Ideal da imagem, e não do fato primordial do objeto 
enquanto caído? 
Não foi isso, absolutamente, o que Robert encontrou, quando .. a 
criança do lobo" viu seu reflexo na vidraça pela primeira vez. O que ele 
viu, com efeito - seria sua imagem? Certamente que não - ele bateu na 
imagem. e se nio viu ali uma imagem que seria a do Outro, nem se 
voltou para refugiar-se nos braços deste, como Nadia, é porque o que 
ele viu nada tinha a ver com uma imagem narcísica, mas antes com o 
objeto que era ele próprio e que devia cair, a ponto de Rosine Lefortter 
tido uma apreensão formidável e lhe ter dito que ele não estava naquele 
reflexo do vidro, mas ali, realmente, ao lado dela. É que ela sabia, então, 
que a perda inerente à imagem especular não tinha para Robert qualquer 
escapatória, no significante, a não ser a de seu significante delirante 
•tobo-, que veio previamente preencher um furo, um furo no próprio 
s ignificante. É isso que faz com que a imagem não venha compensar a 
perda do objeto, mas se confunda com essa perda e só se revele no 
significante do furo . 
O imaginário da imagem onde se compraz o sujeito sob os olhos do 
Outro, propondo-se como objeto imaginário para a falta do Outro. é 
reduzido a zero diante de um Outro não-banado a quem nada falta . O 
sujeito ~icótico se revela aos seus próprios olhos como o objeto cafdo, 
submetido por Robert por seu significante -lobo". 
pontosnoo.il 25 
Foi preciso esperar vários meses para que Robert, reencontrando sua 
imagem num pequeno espelho; dialetizasse de modo menos maciço essa 
confusão entre imagem e objeto~ Deve~se dizer, além disso, que o 
significante '"lobo .. desapareceu bá muito tempo, pelo progresso do 
tratamento analítico de Robert. Ele oio tem mais, então, para servir de 
tela, esse significante do furo, e t sobre a própria imagem, isto é, sobre 
a superffcie do espelho, que tenta impor sua marca sob forma de um 
pequeno traço a lápis. que se verifica ser impossível de ser feito sobre 
tal superfície. 
Naquele momento, a imagem e o objeto não são mais confundidos, 
como demonstrou Robe~ repetindo .. Robert" sobre sua imagem depois 
que a analista lhe disse que aquela é sua imagem, até mesmo beijando-a, 
por um lado, mas principalmente, por outro lado, ·querendo introduzir 
nessa imagem o objeto faltoso sob a forma do pequeno traço que queria 
fazer com seu lápis-pênis. 
Seu fracasso o levou a fazer ao Outro a censura maior quanto a essa 
perda de objeto: '"É você quem me priva de meu pênis, que me faz 
menina ... Ele o demonstrou indo buscar no armário das enfermeiras um 
par de sapatos de salto .alto que ia calçar- que equívoco! -bem como 
um cabide cuja ponta chupava como a uma mamadeira, aliando como 
sempre o seio e o pênis , expressão paranóica, mas livre no entanto da 
opacidade e da confusão imagem-objeto do ~flexo no vidro. 
Além disso, o Outro ausente por ocasião desse primeiro episódio 
estava bem presente quando do segundo: tinha sua imagem. e Roben 
pôde dizer .. Rosine" para essa imagem. Se ele procurou encobrir a queda 
do objeto pelo seu traço no espelho. no que se referia à sua própria 
imagem, nada veio testemunhar tal preocupação quanto à imagem do 
Outro. e foi ali que se situou a perda. Essa perda era a do. Outro. que se 
demonstrou por uma primeira demanda oral possível para Robert: pela 
primeira vez, ele pediu a mamadeira e tomou alguns goles, calmamente. 
nos braços da analista. Se o Outro, pois, tinha a sua imagem, é porque 
ele perdera um objeto e era este mesmo o objeto de uma demanda 
possível. 
Alternativa 
Como concluir, a não ser afirmando, conforme estes dois fragmentos de 
casos clínicos, que o especular propriamente dito é tanto uma questão 
de imagem quanto de objeto. Mas não é um paradoxo que a função 
imaginária centrada por Freud no investimento do objeto como narcfsi-
co seja correlacionada a esse objeto enquanto inapreensível no espelho 
e ao qual ·a imagem especular só dá suas ves timentas ... 
26 a aiança no diswrso at~alltJoo 
De sorte que estamos diante dçsta alternativa: ou o objeto a nio 
adveio enquanto caído, e· é a imagem que cai - o psicótico não tem 
imagem - ou o objeto a caiu, mas é inicialmente no Outro que o sujeito 
apreende essa causa do desejo, da qual ele poderá, ao mesmo tempo, 
assegurar o lugar como objeto imaginúio do de&ejo ao Outro enquanto 
( -tp) e encontrar a via significante de suas pulsões (.O D) no único ponto 
que responde a isso: S(~). 
o sl, o sujeito e a psicose 
Rosine Lefort 
Lacan inttoduziu o Nome-do-Pai no nível da psicose, isto é, ali onde 
ele está foraclufdo. É esta forachisão que ordena a psicose e dá a medida 
do poder desse significante, ~ttavés do efeito de sua ausência. O mesmo 
se dá com o significante-mestre? Certamente que não, J.ll&S sua funç.ão 
e seu estatuto só podem ser afetados pelo remanejamento da estrutura 
subjetiva em relação com essa foraclusão do Nome-do-Pai. É a clínica 
da '"criança do lobo" e a de Schreber que irão nos guiar. 
Cinco episódios da história de Robert ilusttam sua evolução em sua 
relação ao significante, na medida em que o representa. 
Sem queda 
Logo que vi Roben, ele estava, evidentemente, no significante. Mais 
ainda por ser p5icótico: pode-se mesmo dizer que ele era o significante 
que ele gritava sem parar, sem dirigir-se a ninguém: ·senhora! .. Ele era 
~se: hora" comó provava seu comportamento diante de mim, quando 
tomava· conta das outras crianças ou lhes dava seus doces sem' guardar 
nenhum para si. 
.. Senhora" era um significante-mestre? Pode-se dizer que sim, na 
medida em que respondia bem à própria origem deste significante no 
campo do Outro. Mas este significante, como se sabe, tem por efeito a 
afânise, a desaparição do sujeito, pela alienação significante. O único 
significao~. então, que poderia fazer o S1, é o .. dá!" alucinado, vindo 
do Outro, que implica no .. toma" de Roben, estendendo um doce, atrás 
dele, para uma criança que não estava ali, apenas para responder a um 
imperativo: o do Outto do supereu. 
Tratava-se. pois, de uma montagem, onde todos os elementos 
estavam presentes, sem nenhuma queda. Se ó sigoificante-ID.estte era 
"Senhora", ele estava bem ali e Robert era ele. Já encontramos essa 
c.onfusão entre o real e o significante, que faz com que o seu .. Senbo-
26 a aiança no diswrso at~alltJoo 
De sorte que estamos diante dçsta alternativa: ou o objeto a nio 
adveio enquanto caído, e· é a imagem que cai - o psicótico não tem 
imagem - ou o objeto a caiu, mas é inicialmente no Outro que o sujeito 
apreende essa causa do desejo, da qual ele poderá, ao mesmo tempo, 
assegurar o lugar como objeto imaginúio do de&ejo ao Outro enquanto 
( -tp) e encontrar a via significante de suas pulsões (.O D) no único ponto 
que responde a isso: S(~). 
o sl, o sujeito e a psicose 
Rosine Lefort 
Lacan inttoduziu o Nome-do-Pai no nível da psicose, isto é, ali onde 
ele está foraclufdo. É esta forachisão que ordena a psicose e dá a medida 
do poder desse significante, ~ttavés do efeito de sua ausência. O mesmo 
se dá com o significante-mestre? Certamente que não, J.ll&S sua funç.ão 
e seu estatuto só podem ser afetados pelo remanejamento da estrutura 
subjetiva em relação com essa foraclusão do Nome-do-Pai. É a clínica 
da '"criança do lobo" e a de Schreber que irão nos guiar. 
Cinco episódios da história de Robert ilusttam sua evolução em suarelação ao significante, na medida em que o representa. 
Sem queda 
Logo que vi Roben, ele estava, evidentemente, no significante. Mais 
ainda por ser p5icótico: pode-se mesmo dizer que ele era o significante 
que ele gritava sem parar, sem dirigir-se a ninguém: ·senhora! .. Ele era 
~se: hora" comó provava seu comportamento diante de mim, quando 
tomava· conta das outras crianças ou lhes dava seus doces sem' guardar 
nenhum para si. 
.. Senhora" era um significante-mestre? Pode-se dizer que sim, na 
medida em que respondia bem à própria origem deste significante no 
campo do Outro. Mas este significante, como se sabe, tem por efeito a 
afânise, a desaparição do sujeito, pela alienação significante. O único 
significao~. então, que poderia fazer o S1, é o .. dá!" alucinado, vindo 
do Outro, que implica no .. toma" de Roben, estendendo um doce, atrás 
dele, para uma criança que não estava ali, apenas para responder a um 
imperativo: o do Outto do supereu. 
Tratava-se. pois, de uma montagem, onde todos os elementos 
estavam presentes, sem nenhuma queda. Se ó sigoificante-ID.estte era 
"Senhora", ele estava bem ali e Robert era ele. Já encontramos essa 
c.onfusão entre o real e o significante, que faz com que o seu .. Senbo-
28 a criança no discurso anafítioó 
r a,. tenha a_ ver com seu ser, isto é, com o q ue Lacan chama de -sig-
nificante se-lo-·. Ele é o Outro. 
É também o significante da relação ao sexo- um certo real -e Robert 
iria mostrá-lo na terceira sessão de sua análise ao tentar cortar seu 
pênis. O que cai é o órgão, não o significante. Pod~-se inclusive articul~r 
a. e~colha d~ ~ob_e,rt como a d~e um si~nificante sê-lo que não é desapa-
nçao ~o SUJe ito, Ja !lu e este na o adveto. Quanto ao sentido, não se pode 
falar dtsso na r~la~ao com este Outro do supereu, absoluto, não descom-
pletado. A ausencta de sentido, fora do simbólico, não é o não-senso. 
A confusão entre o real e o significante tem um efeito paradoxal de 
separaçã~ dos d?is~ na medida em que ficam ambos na presença, sem 
es.sa _funçao do stgntficante de ~r furar o real. O significante, então, não 
elum?~ o real , mas o redobra. ~Isso que dá esse caráter de exterioridade 
ao SUJ eito: tanto as ordens dos outros para Robert, no sentido de dar os 
conteúdos ~e seu corpo; quanto, em Schrcber, as funções corporais 
tomadas milagrosas pelos raios, são fala. · 
O sentido propiciatório do cocô para Robert, devido ao Outro abso-
luto para conjurar qualquer incompletude sua, explodiu um dia na 
sessão em que ele .f~z cocô sem dizer o significante, e quando o ruído 
da chave de uma VIZinha que entrou em casa lhe soara como a ordem de 
ter que dar seu cocô ao Outro. 
O furo real 
O aparecimento de seu .. lobo", a 6 de fevereiro diante do buraco do 
WC, assumiu um sentido porque Robert estava e.;. análise. Se este é um 
signifi~~t~ que se pode qualificar de delirante, nem por isso ele deixa 
de se dmg1r ao Outro que sou eu na transferência, e é por isso que 
podemos falar em -psicose de transferência". Na multiplicidade de 
empregos de seu .. lobo" durante quatro anos e meio, o gozo do Outro 
esteve longe de ser central. 
Num primeiro tempo, ele era a expressão de seu terror deste Outro 
no exte~ior da sala de sessões, aquele cuja fala era só supereu e a quem 
ele dev1a tudo, porque não podia tirar nada dele . Mas na transferência 
e le gritava, com seu significante •lobo", o furo que normalmente afeta-
va o Outro através de um significante que faltava e que fazia dele um 
Outro barrado (~). Esse furo, ainda que marcado pelo significante 
-lobo", era real e só poderia afetar o Outro descompletando-o o que era 
impossfvel para Robert e que fez com que fosse ele mesmo a s~r afetado 
* No original, signifialll m' fire, homófooo a lfiOiíre (merue). (N.T .) 
pontos nodais 29 
por este furo real. Ele o era, porque não podia di~r um significante -
que aliás, nunca diria -, o significante '"mamadeira.. o qual se o 
dissesse, descompletaria o Outro; e é por isso que ele er~ a mam~deira , 
portanto, estava no lugar do furo no significante. 
A exterioridade alterada 
O encontro de Robcrt com seu reflexo na vidraça modificou radicalmen-
te a cx,terioridade na qual o -lobo .. se aplicaria unicamente ao mundo 
ex.terior - a ponto, mesmo, de uma vez. ao fechar a porta, ele ter podido 
gntar: -lobo fora!- Portanto, diante do reflexo, Robert manifestara 
apenas recusa e, à fa lta extra -simbólica de poder aceitar a perda inerente 
à ima~e~, ele ass~iou sua imagem ao seu - lobo"', isto é, ao furo q ue 
esse s1gn!ficante vmha tampar. Esse reflexo não dera lugar a qualquer 
reconh~Jm~nto ~specular, mas à associação com o significante, o que 
me havia felto dtzcr-lhe que aquilo que via não era ele, que ele estava 
realmente ao meu lado, para tentar dissociá-lo desse significante do furo 
e fazê,-Jo tender para um lugar de a. Vã tentativa, como provou a cena 
da noite de 5 de março, fora da sessão, quando Robert foi levado a 
encarnar esse significante -lobo'" sem par (ou sem pai). 
Sabemos que exis tem pelo menos dois significantes ímpares: o falo 
e o Nome-do-Pai, mas que fazem parte da lógica do significante e não 
têm substância de encarnação, o que é reservado a a. 
Na ausência do a caído do Outro, o psicótico fica reduzido a tentar 
colocar, no próprio furo do significante, o próprio significante do delírio 
para lhe dar um ~oryo. O '"lobo" assome, de alguma forma, o lugar de 
SI, no lugar do s1gmficante sem par que falta e, como vimos, do objeto 
que não caiu. Um signifícante.extra~simbólico se torna real, encarnan-
do-se, e o S2 que vem do Outro está completamente ausente. 
Entre tanto, a resposta de Robert, que se acalmou quando a enfermeira 
lbe deu a escolha entre ser amarrado a sua cama ou ficar quieto, 
restabeleceu de alguma maneira um par significante. Mas o lugar de S
2 
pareceu então estar ocupado por uma palavra de ordem à qual Robert 
aderira, aliás de boa vontade, pois ela o reconfortou ao mes mo tempo 
em que esboçara - é por isso que foi tão eficaz - um desejo do Outro 
q~e faria dele o seu objeto, e isso como um eco à separação que fiz entre 
seu corpo real e seu reflexo na vidraça, que ele identificava com o 
significante .. lobo". 
Vamos recordar o percurso idêntico de um Schreber que, diante das 
falhas de Deus, tem de buscar ele mesmo os significantes da - ordem do 
universo .. : ~oxímoro"', diz ele, onde, no combate de Deus contra ele, 
está em situação de portar os próprios atributos de Deus. Ali Deus é, na 
28 a criança no discurso anafítioó 
r a,. tenha a_ ver com seu ser, isto é, com o q ue Lacan chama de -sig-
nificante se-lo-·. Ele é o Outro. 
É também o significante da relação ao sexo- um certo real -e Robert 
iria mostrá-lo na terceira sessão de sua análise ao tentar cortar seu 
pênis. O que cai é o órgão, não o significante. Pod~-se inclusive articul~r 
a. e~colha d~ ~ob_e,rt como a d~e um si~nificante sê-lo que não é desapa-
nçao ~o SUJe ito, Ja !lu e este na o adveto. Quanto ao sentido, não se pode 
falar dtsso na r~la~ao com este Outro do supereu, absoluto, não descom-
pletado. A ausencta de sentido, fora do simbólico, não é o não-senso. 
A confusão entre o real e o significante tem um efeito paradoxal de 
separaçã~ dos d?is~ na medida em que ficam ambos na presença, sem 
es.sa _funçao do stgntficante de ~r furar o real. O significante, então, não 
elum?~ o real , mas o redobra. ~Isso que dá esse caráter de exterioridade 
ao SUJ eito: tanto as ordens dos outros para Robert, no sentido de dar os 
conteúdos ~e seu corpo; quanto, em Schrcber, as funções corporais 
tomadas milagrosas pelos raios, são fala. · 
O sentido propiciatório do cocô para Robert, devido ao Outro abso-
luto para conjurar qualquer incompletude sua, explodiu um dia na 
sessão em que ele .f~z cocô sem dizer o significante, e quando o ruído 
da chave de uma VIZinha que entrou em casa lhe soara como a ordem de 
ter que dar seu cocô ao Outro. 
O furo real 
O aparecimento de seu .. lobo", a 6 de fevereiro diante do buracodo 
WC, assumiu um sentido porque Robert estava e.;. análise. Se este é um 
signifi~~t~ que se pode qualificar de delirante, nem por isso ele deixa 
de se dmg1r ao Outro que sou eu na transferência, e é por isso que 
podemos falar em -psicose de transferência". Na multiplicidade de 
empregos de seu .. lobo" durante quatro anos e meio, o gozo do Outro 
esteve longe de ser central. 
Num primeiro tempo, ele era a expressão de seu terror deste Outro 
no exte~ior da sala de sessões, aquele cuja fala era só supereu e a quem 
ele dev1a tudo, porque não podia tirar nada dele . Mas na transferência 
e le gritava, com seu significante •lobo", o furo que normalmente afeta-
va o Outro através de um significante que faltava e que fazia dele um 
Outro barrado (~). Esse furo, ainda que marcado pelo significante 
-lobo", era real e só poderia afetar o Outro descompletando-o o que era 
impossfvel para Robert e que fez com que fosse ele mesmo a s~r afetado 
* No original, signifialll m' fire, homófooo a lfiOiíre (merue). (N.T .) 
pontos nodais 29 
por este furo real. Ele o era, porque não podia di~r um significante -
que aliás, nunca diria -, o significante '"mamadeira.. o qual se o 
dissesse, descompletaria o Outro; e é por isso que ele er~ a mam~deira , 
portanto, estava no lugar do furo no significante. 
A exterioridade alterada 
O encontro de Robcrt com seu reflexo na vidraça modificou radicalmen-
te a cx,terioridade na qual o -lobo .. se aplicaria unicamente ao mundo 
ex.terior - a ponto, mesmo, de uma vez. ao fechar a porta, ele ter podido 
gntar: -lobo fora!- Portanto, diante do reflexo, Robert manifestara 
apenas recusa e, à fa lta extra -simbólica de poder aceitar a perda inerente 
à ima~e~, ele ass~iou sua imagem ao seu - lobo"', isto é, ao furo q ue 
esse s1gn!ficante vmha tampar. Esse reflexo não dera lugar a qualquer 
reconh~Jm~nto ~specular, mas à associação com o significante, o que 
me havia felto dtzcr-lhe que aquilo que via não era ele, que ele estava 
realmente ao meu lado, para tentar dissociá-lo desse significante do furo 
e fazê,-Jo tender para um lugar de a. Vã tentativa, como provou a cena 
da noite de 5 de março, fora da sessão, quando Robert foi levado a 
encarnar esse significante -lobo'" sem par (ou sem pai). 
Sabemos que exis tem pelo menos dois significantes ímpares: o falo 
e o Nome-do-Pai, mas que fazem parte da lógica do significante e não 
têm substância de encarnação, o que é reservado a a. 
Na ausência do a caído do Outro, o psicótico fica reduzido a tentar 
colocar, no próprio furo do significante, o próprio significante do delírio 
para lhe dar um ~oryo. O '"lobo" assome, de alguma forma, o lugar de 
SI, no lugar do s1gmficante sem par que falta e, como vimos, do objeto 
que não caiu. Um signifícante.extra~simbólico se torna real, encarnan-
do-se, e o S2 que vem do Outro está completamente ausente. 
Entre tanto, a resposta de Robert, que se acalmou quando a enfermeira 
lbe deu a escolha entre ser amarrado a sua cama ou ficar quieto, 
restabeleceu de alguma maneira um par significante. Mas o lugar de S
2 
pareceu então estar ocupado por uma palavra de ordem à qual Robert 
aderira, aliás de boa vontade, pois ela o reconfortou ao mes mo tempo 
em que esboçara - é por isso que foi tão eficaz - um desejo do Outro 
q~e faria dele o seu objeto, e isso como um eco à separação que fiz entre 
seu corpo real e seu reflexo na vidraça, que ele identificava com o 
significante .. lobo". 
Vamos recordar o percurso idêntico de um Schreber que, diante das 
falhas de Deus, tem de buscar ele mesmo os significantes da - ordem do 
universo .. : ~oxímoro"', diz ele, onde, no combate de Deus contra ele, 
está em situação de portar os próprios atributos de Deus. Ali Deus é, na 
30 a aiança no discurso analítico 
sua história, a imagem de um pai, aparecido precocemente em sua vida 
como Outro absoluto que o privara do desejo de sua mãe, desejo que ete 
identifica com a .. ordem do universo ... 
Se o S1 da psicose redobra o furo no significante, enquanto signifi-
cante ímpar, não é surpreendente que o psicótico seja submetido irre-
mediavelmente ao Um unificador para se defender contra o Um contável 
que, fora do simbólico, seria apenas a explosão real de seu corpo em 
pedaços. 
Tocamos ai na articulação especifica da psicose entre o a, enquanto 
objeto perdido, e o significante, enquanto perfurado pela falta de um 
significante primordial. Esta articulação se resolve na indecisão em que 
fica o sujeito psicótico quanto a encarnar-se no objeto, o que seria a 
solução de encarnar-se no significante de um furo que, por redobramen-
to, é o significante do furo no significante. Para Robert, é o ·lobo" de 
modo evidente; para Schreber, é menos claro, a menos que se frise essa 
referência constante que ele faz à ·ordem do universo .. que implica 
numa dimensão excluída, sempre em referência na sua relação com 
Deus. 
Vamos retomar essa· dialética exclusiva do ·um .. unificador na 
relação ao Outro que tem conseqüências consideráveis sobre a estrutura 
do corpo. Vamos subsumi-la sob o termo -dialética continente-conteú-
do-, em oposição à superfície. Trata-se, para dizer tudo, da estrutura do 
corpo na psicose, da qual a superfície não é excluída, mas está dentro 
de uma lógica diferente. Tudo depende da estrutura do Outro não 
descompletado que vimos, e da relação entre o sujeito psic9tico e esse 
Outro que funciona para ele segundo o modo anal da demanda e da 
ordem: todos os produtos do corpo, isto é, seus conteúdos, são para o 
Outro; logo o corpo se encontra inteiramente vazio e seus produtos lhe 
são estranhos. É o significante do Outro que faz esse esvaziamento do 
corpo, chegando a atingir não apenas os produtos do corpo, mas seus 
órgãos. 
Quanto aos ~bjetos normalmente fornecidos pelo Outro para in-
gestão, estes perderam seu caráter de ·satisfação, até mesmo para a 
necessidade, já que Robert nos diz que não pode tomar nada do 
Outro. 'com efeito, este é o caráter do dpm simbólico que falta ao . 
objeto oral: ele só está submetido, portanto, como os outros, ao 
significante do comando. . 
A descrição feita por Schreber da alimentação forÇada é particular-
mente dramática; bem como, no Capítulo XI, sua conseqüência quanto 
ao esvaziamento de todos os órgãos do interior de seu corpo. Ele diz, 
além disso, que se trata de um fenômeno significante, no qual os -raios 
(portadores deste significante) só se oeupam, essencialmente, de provo-
car devastações no corpo de um dado indivíduo· .. o que ele opõe ainda 
à ·ordem do universo". Passamos por cima da descrição da perda do 
cor!lção, dos pulmões. do estôma1o, para sublinhar a ausência, topolo-
gicamente essencial, do furo do corpo, da boc::a ao ânus, e particular-
mente da borda erógena deste, pois que, como diz ele, •a difusão do 
bolo .alimentar se fazia alravés de qualquer parte do corpo e as substân-
cias impuras do corpo eram reabsorvidas pelos raios·, ... ·como por uma 
pequena cavilha através das paredes do ventre ... 
O significante, com efeilo, designa apenas os furos: não os orifícios 
do corpo - como demonstrou Marie-Françoise - mas a realidade do 
mundo exterior como um furo. O •Jobo .. vem aí se confundir e colocar 
o significante em exterioridade ao sujeito. Af está uma das falhas 
específicas da psicose, onde não funciona a separação do que, como diz 
Lacan, .. está dentro, isto ~. do que está dentro do saco de pele do que 
está fora, todo o resto, pois normalmente faz-se a passagem, para o 
sujeito, do que ele representa deste 'fora' que deve estar também no 
interior". O significante aí é o provedor, a menos que, como para Robert, 
seja o significante quem faz este exterior, como para Scbreber. 
A fronteira entre o dentro e o fora, entre o conteúdo e o continente 
definido por este saco de pele, é a superfície: ora, esta S\.lperfície, para 
Robert, não era sua pele, mas como se sabe, seu avental, uma superfície 
que lhe era imposta pelo Outro e que fazia barreira. real contra a intrusão 
do exterior, à falta de.uma estrutura significante. Á retirada do avental 
o entregou ao gozo, gozo hiper-masoquista que não era o do Outro, mas 
o seu próprio. Era. também o de Schreber, cuja pele não era tanto um 
saco quanlo um receptáculo de nervos femininos, realmente palpáveis 
e fonte deste gozo ao qual ele estava condenado. 
A saída de Robert desse impasse de conteúdo sem continente, isto é, 
dos objetos para o Outro que não lhe permitiam ter um corpo seu, se fez 
então por uma cena que aconteceu depois de minhas numerosas inter-
pretações, e de minhas palavras que passavam por minha voz, indi~ndo 
minimamente o desejo do Oútro. Durante esta pequena cena, ele fundou 
o continente por um redobramento, um pote cheio d• água dentro de uma 
bacia cheia d'água, retirando a água de utn com uma toalha para jogá-la 
na outra e me fazendo fazer o inverso. · 
É este o modelo que lhe expliquei numa ·construção em análise .. , a 
13 de maio. Pude dizer-lhe que ele foi o conteúdo do corpo !batemo que 
era seu continente, por intermédio do líquido amniótico. Robert me 
seguiu com os significantes que dizia: .. Mamãe, Robert, água ... O que 
era impossível na estrutura continente-conteúdo real, devido a uma 
ausência de significante entre ele e o Outro, tomou-se, pelos próprios 
significantes dessa cena, uma articulação possível d~ Robert e de seu 
corpo no Outro. Este corpo cessou de ser vazio, não porque tivesse sido 
30 a aiança no discurso analítico 
sua história, a imagem de um pai, aparecido precocemente em sua vida 
como Outro absoluto que o privara do desejo de sua mãe, desejo que ete 
identifica com a .. ordem do universo ... 
Se o S1 da psicose redobra o furo no significante, enquanto signifi-
cante ímpar, não é surpreendente que o psicótico seja submetido irre-
mediavelmente ao Um unificador para se defender contra o Um contável 
que, fora do simbólico, seria apenas a explosão real de seu corpo em 
pedaços. 
Tocamos ai na articulação especifica da psicose entre o a, enquanto 
objeto perdido, e o significante, enquanto perfurado pela falta de um 
significante primordial. Esta articulação se resolve na indecisão em que 
fica o sujeito psicótico quanto a encarnar-se no objeto, o que seria a 
solução de encarnar-se no significante de um furo que, por redobramen-
to, é o significante do furo no significante. Para Robert, é o ·lobo" de 
modo evidente; para Schreber, é menos claro, a menos que se frise essa 
referência constante que ele faz à ·ordem do universo .. que implica 
numa dimensão excluída, sempre em referência na sua relação com 
Deus. 
Vamos retomar essa· dialética exclusiva do ·um .. unificador na 
relação ao Outro que tem conseqüências consideráveis sobre a estrutura 
do corpo. Vamos subsumi-la sob o termo -dialética continente-conteú-
do-, em oposição à superfície. Trata-se, para dizer tudo, da estrutura do 
corpo na psicose, da qual a superfície não é excluída, mas está dentro 
de uma lógica diferente. Tudo depende da estrutura do Outro não 
descompletado que vimos, e da relação entre o sujeito psic9tico e esse 
Outro que funciona para ele segundo o modo anal da demanda e da 
ordem: todos os produtos do corpo, isto é, seus conteúdos, são para o 
Outro; logo o corpo se encontra inteiramente vazio e seus produtos lhe 
são estranhos. É o significante do Outro que faz esse esvaziamento do 
corpo, chegando a atingir não apenas os produtos do corpo, mas seus 
órgãos. 
Quanto aos ~bjetos normalmente fornecidos pelo Outro para in-
gestão, estes perderam seu caráter de ·satisfação, até mesmo para a 
necessidade, já que Robert nos diz que não pode tomar nada do 
Outro. 'com efeito, este é o caráter do dpm simbólico que falta ao . 
objeto oral: ele só está submetido, portanto, como os outros, ao 
significante do comando. . 
A descrição feita por Schreber da alimentação forÇada é particular-
mente dramática; bem como, no Capítulo XI, sua conseqüência quanto 
ao esvaziamento de todos os órgãos do interior de seu corpo. Ele diz, 
além disso, que se trata de um fenômeno significante, no qual os -raios 
(portadores deste significante) só se oeupam, essencialmente, de provo-
car devastações no corpo de um dado indivíduo· .. o que ele opõe ainda 
à ·ordem do universo". Passamos por cima da descrição da perda do 
cor!lção, dos pulmões. do estôma1o, para sublinhar a ausência, topolo-
gicamente essencial, do furo do corpo, da boc::a ao ânus, e particular-
mente da borda erógena deste, pois que, como diz ele, •a difusão do 
bolo .alimentar se fazia alravés de qualquer parte do corpo e as substân-
cias impuras do corpo eram reabsorvidas pelos raios·, ... ·como por uma 
pequena cavilha através das paredes do ventre ... 
O significante, com efeilo, designa apenas os furos: não os orifícios 
do corpo - como demonstrou Marie-Françoise - mas a realidade do 
mundo exterior como um furo. O •Jobo .. vem aí se confundir e colocar 
o significante em exterioridade ao sujeito. Af está uma das falhas 
específicas da psicose, onde não funciona a separação do que, como diz 
Lacan, .. está dentro, isto ~. do que está dentro do saco de pele do que 
está fora, todo o resto, pois normalmente faz-se a passagem, para o 
sujeito, do que ele representa deste 'fora' que deve estar também no 
interior". O significante aí é o provedor, a menos que, como para Robert, 
seja o significante quem faz este exterior, como para Scbreber. 
A fronteira entre o dentro e o fora, entre o conteúdo e o continente 
definido por este saco de pele, é a superfície: ora, esta S\.lperfície, para 
Robert, não era sua pele, mas como se sabe, seu avental, uma superfície 
que lhe era imposta pelo Outro e que fazia barreira. real contra a intrusão 
do exterior, à falta de .uma estrutura significante. Á retirada do avental 
o entregou ao gozo, gozo hiper-masoquista que não era o do Outro, mas 
o seu próprio. Era. também o de Schreber, cuja pele não era tanto um 
saco quanlo um receptáculo de nervos femininos, realmente palpáveis 
e fonte deste gozo ao qual ele estava condenado. 
A saída de Robert desse impasse de conteúdo sem continente, isto é, 
dos objetos para o Outro que não lhe permitiam ter um corpo seu, se fez 
então por uma cena que aconteceu depois de minhas numerosas inter-
pretações, e de minhas palavras que passavam por minha voz, indi~ndo 
minimamente o desejo do Oútro. Durante esta pequena cena, ele fundou 
o continente por um redobramento, um pote cheio d• água dentro de uma 
bacia cheia d'água, retirando a água de utn com uma toalha para jogá-la 
na outra e me fazendo fazer o inverso. · 
É este o modelo que lhe expliquei numa ·construção em análise .. , a 
13 de maio. Pude dizer-lhe que ele foi o conteúdo do corpo !batemo que 
era seu continente, por intermédio do líquido amniótico. Robert me 
seguiu com os significantes que dizia: .. Mamãe, Robert, água ... O que 
era impossível na estrutura continente-conteúdo real, devido a uma 
ausência de significante entre ele e o Outro, tomou-se, pelos próprios 
significantes dessa cena, uma articulação possível d~ Robert e de seu 
corpo no Outro. Este corpo cessou de ser vazio, não porque tivesse sido 
32 a criança no discurso analítico 
cheio, mas porque enchera o furo de um Outro, que cessou de ser uma 
totalidade, não sem furo. O que contava, então, para Robcrt. não era 
preencher o Outro, era que o Outro fosse furado. 
Tratava-se pois da dialé tica de A e ~. isto é, aquela on.de o Outro é 
afetado por uma perda. Em três significantes, .. Mamãe-Robert-ág .. , .. , é 
evidentemente a água que constitui o objeto da perda. Mas não apenas 
ela, porque durante toda a cena eu falei a Robert, e minha vo1., à qual 
ele é tão sensível, atento, era bem o objeto que se destacava de mim, o 
a no lugar do qual ele se alojava nonnalmente, por assim dizer. Ele se 
alojava aí, não sem perder, ele mesmo, seu objeto de corpo que estava 
em causa desde o início: seu pênis; mas, aqui, não era por mutilação, 
era sem que ele falasse nisso, nem eu: ele simplesmente fez xixi sentado 
na água, sem dizê-lo, e eu não lhe dissenada. Não era mais de alienação 
que se tratava, mas de simbolização. Isso queria dizer que o furo não 
estava mais ligado ao seu significante ·tobo" - na sessão de dois dias 
depois, quando ele o diria pela última vez - mas à perda de seu pênis 
enquanto objeto a. A dificuldade, sente-se bem, para dar conta da 
experiência de Robert, era o intrincado de diferentes níveis, três ao 
menos: 
a) sua relação com o Outro, absoluto ou não, segundo a emergência 
do objeto a que faz alteridade do Outro. Para Robert, e na psicose, era 
o objeto pênis que estava em jogo; 
b) a passagem da estrutura de corpo continente-<:onteúdo, própria à 
psicose, a um corpo em superfície. Robert conseguiu isso pela cena do 
batismo: fez escorrer uma mistura de água e leite sobre seu corpo nu, 
até que o líquido pingasse de seu pênis, na sessão de 4 de junho; 
c) o plano da alienação entre S1 e Sz, que constitui o maior problema 
na psicose, na medida em que não existe a, isto é, nem encarnação do 
sujeito nem alteridade do Outro, e que o significante toma seu lugar. 
Fenômeno paradoxal onde o significante toma o lugar de um objeto a 
fora do significante; daí a exterioridade: do significante na psicose. 
·A linguagem desanimada do sujeito fala do sexo, diz Lacan. Fala 
porque o corpo, isso goza, e quanto mais se dirige para o gozo mais é 
reduzido o significante, a ponto de Lacan ter podido dizer que o 
significante primordial S, seria o significante do gozo, antes talvez que 
o a tenha caído e esse S1 faça par ordenado com S1, o saber do Outro 
que passa, como sabemo~ por Robert, pelo meu dizer e a minha voz. 
Sabe-se que é este o caminho da constituição do sujeito pelo significante 
no lugar do Outro e que faz parar o gozo. É também a passagem, por 
intermédio do significante, do gozo enigmático do Outro ao que resta 
dele no gozo. fálico. 
Mas Robert não estava af. Ele estava no ponto de queda do a~ em 
setembro, sob a forma de seu avental, isto é, de seu envelope vindo 
pontos nodais 33 
do Outro, do qual ele se livrara, abandonando-o na bacia d'água ao fim 
da sessão. 
Encontro com a perda 
Mas no dia seguinte, ele estava doente: esvaziamento do corpo, angina 
c síncope. Era a afânise, a desaparição. Mas, seria ela ligada ao S2? Não 
se podia dizer, também, que este esvaziamento do corpo tinha a ver com 
um S1 no real do corpo? S1 do ser do sujeito, o significante sê-lo, ao 
mesmo tempo Senhora e ·tobo", S2 de envelope do Outro, caíram da 
mesma maneira. Não existe ai essa apreensão em massa, como diz 
Lacan, da cadeia significante, primitiva, ·essa bolófrasc doS, e do S2 ? .. 
Apenas a minha fala podia introduzir um S2• 
Disse-lhe, em resumo, que ele se esvaziara de todo o mal, falei-llie 
de sua boca c da fala que ele não podia dar, porque nada tinha recebido. 
~Agora você vai poder dar a fala por essa boca que aprendeu a conhecer 
pela minha fala! ... Ele me escutou com a maior calma e recehcu nele 
cada palavra, sentou-se diante de mim, olhou-me intensamente, me 
abraçou. Deixei-o muito calmo. Na manhã seguinte estava curado -
como um corpo que pode desaparecer na fala do Outro e não mais, 
somaticamente, em S,. 
Então, Rohert pôde agora fa~er um novo encontro com sua imagem 
especular, em outubro. Foi num pequeno espelho de bolsa. Ai ele 
encontrou a perda que recusara, depois de se ter nomeado -Robert" 
'diante de sua imagem - mas a nomeação não és. -, procurando impor 
sua marca de menino, poderíamos dizer sob a superfície deste espelho ... 
em vão. Assim, ele me censurou por faze -lo menina, como se sentia 
obrigado a ser no passado. ·senhora" era seu S , e englobava um S2 
suposto, não suposto-saber, mas suposto-ser. O S2, pela minha voz, póde 
fazer os. cair para fora do corpo, como objeto caído, como a. OS, no 
lugar do objeto a é específico da psicose. O S2 lambém é uma queda, 
mas a do sujeito pela fala do Outro - o analista -,a ponto de Robcrt, 
nessa divisão entre S , e S2, poder reencontrar a memória, a do trauma 
da antrotomia feita aos seis meses. É uma memória que está tipicamente 
no Outro, pois um dia em novembro, enfiando o bico da mamadeira na 
orelha, ele me pediu eltplicação para ela. 
32 a criança no discurso analítico 
cheio, mas porque enchera o furo de um Outro, que cessou de ser uma 
totalidade, não sem furo. O que contava, então, para Robcrt. não era 
preencher o Outro, era que o Outro fosse furado. 
Tratava-se pois da dialé tica de A e ~. isto é, aquela on.de o Outro é 
afetado por uma perda. Em três significantes, .. Mamãe-Robert-ág .. , .. , é 
evidentemente a água que constitui o objeto da perda. Mas não apenas 
ela, porque durante toda a cena eu falei a Robert, e minha vo1., à qual 
ele é tão sensível, atento, era bem o objeto que se destacava de mim, o 
a no lugar do qual ele se alojava nonnalmente, por assim dizer. Ele se 
alojava aí, não sem perder, ele mesmo, seu objeto de corpo que estava 
em causa desde o início: seu pênis; mas, aqui, não era por mutilação, 
era sem que ele falasse nisso, nem eu: ele simplesmente fez xixi sentado 
na água, sem dizê-lo, e eu não lhe disse nada. Não era mais de alienação 
que se tratava, mas de simbolização. Isso queria dizer que o furo não 
estava mais ligado ao seu significante ·tobo" - na sessão de dois dias 
depois, quando ele o diria pela última vez - mas à perda de seu pênis 
enquanto objeto a. A dificuldade, sente-se bem, para dar conta da 
experiência de Robert, era o intrincado de diferentes níveis, três ao 
menos: 
a) sua relação com o Outro, absoluto ou não, segundo a emergência 
do objeto a que faz alteridade do Outro. Para Robert, e na psicose, era 
o objeto pênis que estava em jogo; 
b) a passagem da estrutura de corpo continente-<:onteúdo, própria à 
psicose, a um corpo em superfície. Robert conseguiu isso pela cena do 
batismo: fez escorrer uma mistura de água e leite sobre seu corpo nu, 
até que o líquido pingasse de seu pênis, na sessão de 4 de junho; 
c) o plano da alienação entre S1 e Sz, que constitui o maior problema 
na psicose, na medida em que não existe a, isto é, nem encarnação do 
sujeito nem alteridade do Outro, e que o significante toma seu lugar. 
Fenômeno paradoxal onde o significante toma o lugar de um objeto a 
fora do significante; daí a exterioridade: do significante na psicose. 
·A linguagem desanimada do sujeito fala do sexo, diz Lacan. Fala 
porque o corpo, isso goza, e quanto mais se dirige para o gozo mais é 
reduzido o significante, a ponto de Lacan ter podido dizer que o 
significante primordial S, seria o significante do gozo, antes talvez que 
o a tenha caído e esse S1 faça par ordenado com S1, o saber do Outro 
que passa, como sabemo~ por Robert, pelo meu dizer e a minha voz. 
Sabe-se que é este o caminho da constituição do sujeito pelo significante 
no lugar do Outro e que faz parar o gozo. É também a passagem, por 
intermédio do significante, do gozo enigmático do Outro ao que resta 
dele no gozo. fálico. 
Mas Robert não estava af. Ele estava no ponto de queda do a~ em 
setembro, sob a forma de seu avental, isto é, de seu envelope vindo 
pontos nodais 33 
do Outro, do qual ele se livrara, abandonando-o na bacia d'água ao fim 
da sessão. 
Encontro com a perda 
Mas no dia seguinte, ele estava doente: esvaziamento do corpo, angina 
c síncope. Era a afânise, a desaparição. Mas, seria ela ligada ao S2? Não 
se podia dizer, também, que este esvaziamento do corpo tinha a ver com 
um S1 no real do corpo? S1 do ser do sujeito, o significante sê-lo, ao 
mesmo tempo Senhora e ·tobo", S2 de envelope do Outro, caíram da 
mesma maneira. Não existe ai essa apreensão em massa, como diz 
Lacan, da cadeia significante, primitiva, ·essa bolófrasc doS, e do S2 ? .. 
Apenas a minha fala podia introduzir um S2• 
Disse-lhe, em resumo, que ele se esvaziara de todo o mal, falei-llie 
de sua boca c da fala que ele não podia dar, porque nada tinha recebido. 
~Agora você vai poder dar a fala por essa boca que aprendeu a conhecer 
pela minha fala! ... Ele me escutou com a maior calma e recehcu nelecada palavra, sentou-se diante de mim, olhou-me intensamente, me 
abraçou. Deixei-o muito calmo. Na manhã seguinte estava curado -
como um corpo que pode desaparecer na fala do Outro e não mais, 
somaticamente, em S,. 
Então, Rohert pôde agora fa~er um novo encontro com sua imagem 
especular, em outubro. Foi num pequeno espelho de bolsa. Ai ele 
encontrou a perda que recusara, depois de se ter nomeado -Robert" 
'diante de sua imagem - mas a nomeação não és. -, procurando impor 
sua marca de menino, poderíamos dizer sob a superfície deste espelho ... 
em vão. Assim, ele me censurou por faze -lo menina, como se sentia 
obrigado a ser no passado. ·senhora" era seu S , e englobava um S2 
suposto, não suposto-saber, mas suposto-ser. O S2, pela minha voz, póde 
fazer os. cair para fora do corpo, como objeto caído, como a. OS, no 
lugar do objeto a é específico da psicose. O S2 lambém é uma queda, 
mas a do sujeito pela fala do Outro - o analista -,a ponto de Robcrt, 
nessa divisão entre S , e S2, poder reencontrar a memória, a do trauma 
da antrotomia feita aos seis meses. É uma memória que está tipicamente 
no Outro, pois um dia em novembro, enfiando o bico da mamadeira na 
orelha, ele me pediu eltplicação para ela. 
O corpo do Outro: 
do significante ao objeto a e de volta 
Rosine Lefort 
Ü extra-simbólico da psicose com predominância do real não deixa de 
fazer com que rateie o sujeito do real. 
Vamos partir do Um unificador, que já apontamos como o único 
conhecido pelo psicótico, na ausência do Um contável que faz falta -
a-ser. 
O valor Um, diz Lacan na Lógica do Fantasma, •é o pensamento do 
Um d.o par da ordem do Outro matemo ... O Um representa o ato sexual no 
nível do corpo; quando este Um faz irrupção no campo do Outro, é no nivel 
do corpo. O Outro é o corpo." É preciso que · o corpo caia em pedaços .. , 
este corpo despedaçado •nas origens subjetivas, que rompe a bela 
unidade do império do corpo matemo". 
Acompanhando Nadia de um lado e a Criança do Lobo por outro lado. 
poderemos explorar, a partir do banho de linguagem em que está todo 
·sujeito, psicótico ou não, o modo pelo qual o sujeito se insere na cadeia 
significante para fazer discurso, ou permanecer fora do discurso, e como 
isso faz corpo ou não. 
Desdohrame nto 
O Um unificador tem uma forma significante, é a bolófrase, ou apreen-
são em massa no Outro dos significantes primordiais S, e·S1• Esse Outro 
do significante gelificado é o do banho de linguagem, isto é, o do 
significante em seu caráter sincrônioo; é só com o corte que o signifi-
cante do Outro vai fazer cadtia e dar seu caráter diacrônico ao discurso. 
Ora, o que faz corte é o próprio significante, e disso resulta um resto, o 
objeto a que cai para fora do significante: ele cai no intervalo dos dois 
significantes do par primordial, fazendo efeito de encarnação, isto é, de 
real, do sujeito e do Outro. 
Este objeto a, enquanto separável do Outro, se não é alcançável pelo 
sujeiLo - que fica reduzido normalmente ao circuito pulsional -, t.ão 
deixa de fazer corpo para esse Outro. Se ele deixa de cair, com efeito -
34 
pontos nodais 35 
e portanto, deixa de ficar na exterioridade tanto do sujeito quanto do 
Outro quando cair - , se ele nã o caí, então é todo o signifi cante do 
Outro, reduzido a ser apenas significante, que cai c co loca o psicótico 
nessa posição específica: o significante na exterioridade, exteriori-
dade que normalmente é o lugar do objeto-causa. É o que se encontra 
na holófrase. 
Esse caráter holofrásico do significante, tão fixo na psicose, como 
em Robert- mas também na debilidade e na psicossomática -,tem no 
entanto uma história no advento do sujeito nonnal, como nos mostra 
Nadla. 
Nadia encontrou seu primeiro significante holofrásico mamãe em 5 
de dezembro. Sabe-se sob que condições: foi a partir do objeto portado 
pelo Outro, quando ela crispava as mãos sobre meu peito com ar tenso. 
que se deu a jaculação desse primeiro significante mamãe, o que aliv iara 
sua tensão e acarretara uma cena de ternura nos braços do Ou tro. O 
significante que surgiu é aquele que designa o Outro: mamãe, e não o 
do objeto, ao qual ela renunciara e que caiu. 
Ela não deixou de alucinar, cinco dias mais tarde, a 10 de dezembro, 
diante da imagem de uma criança que um adulto tinha no colo (ver 
Nascimento do Outro), o objeto de seu desejo que caiu dessa ve1. por 
causa do significante Nadia!, do meu apelo, tanto mais que o caráter 
alucinado do objeto facilitava o infcio de sua queda. 
Os dois signíficantes mamãe e Nadia introduziram um intervalo na 
holófrase inicial do mamãe, com um efeit9 de separação e de repartição 
entre o significante unário S, que é seu mamãe, e o significante binário 
S2, que é meu Nadia , com a queda do objeto a para fora do significante. 
Esta inversão, aparentemente paradoxal, estava li gada ao transitivis-
mo inicial que tinha lugar aqui no significante, depois de ela ter mos-
trado esse transitivismo no real, quando vomitou depois que eu comi 
um pedaço do biscoito que ela me estendia, transitivismo que só irá 
desaparecer com o espelho. 
Foi justamente nesse lugar de objeto a que ela se alojou enquanto 
corpo, isto é, ela se encarnou aí e se propôs metonimicamente a mim, 
es tendendo-me seu pé. Tomou, assim, o lugar de um semblante de 
objeto a, causa do meu desejo. 
Esse apelo, Nadia, que faz S1 é o do saber do Outro, que se faz 
também comando, ordem quando lhe digo que ela não estava ali onde 
se comprazia, no objeto alucinado, mas sim ali onde eu falava. Meu 
discurso, certamente, fez supereu. 
Os elementos de um discurso quadrípode estão, pois, situados: S., SH 
a, $. De acordo com os quatro discursos e sua estrutura, o que aparece 
aqui como agente é meu apelo, Nadia, que faz ao mesmo tempo saber-Sl, 
O corpo do Outro: 
do significante ao objeto a e de volta 
Rosine Lefort 
Ü extra-simbólico da psicose com predominância do real não deixa de 
fazer com que rateie o sujeito do real. 
Vamos partir do Um unificador, que já apontamos como o único 
conhecido pelo psicótico, na ausência do Um contável que faz falta -
a-ser. 
O valor Um, diz Lacan na Lógica do Fantasma, •é o pensamento do 
Um d.o par da ordem do Outro matemo ... O Um representa o ato sexual no 
nível do corpo; quando este Um faz irrupção no campo do Outro, é no nivel 
do corpo. O Outro é o corpo." É preciso que · o corpo caia em pedaços .. , 
este corpo despedaçado •nas origens subjetivas, que rompe a bela 
unidade do império do corpo matemo". 
Acompanhando Nadia de um lado e a Criança do Lobo por outro lado. 
poderemos explorar, a partir do banho de linguagem em que está todo 
·sujeito, psicótico ou não, o modo pelo qual o sujeito se insere na cadeia 
significante para fazer discurso, ou permanecer fora do discurso, e como 
isso faz corpo ou não. 
Desdohrame nto 
O Um unificador tem uma forma significante, é a bolófrase, ou apreen-
são em massa no Outro dos significantes primordiais S, e·S1• Esse Outro 
do significante gelificado é o do banho de linguagem, isto é, o do 
significante em seu caráter sincrônioo; é só com o corte que o signifi-
cante do Outro vai fazer cadtia e dar seu caráter diacrônico ao discurso. 
Ora, o que faz corte é o próprio significante, e disso resulta um resto, o 
objeto a que cai para fora do significante: ele cai no intervalo dos dois 
significantes do par primordial, fazendo efeito de encarnação, isto é, de 
real, do sujeito e do Outro. 
Este objeto a, enquanto separável do Outro, se não é alcançável pelo 
sujeiLo - que fica reduzido normalmente ao circuito pulsional -, t.ão 
deixa de fazer corpo para esse Outro. Se ele deixa de cair, com efeito -
34 
pontos nodais 35 
e portanto, deixa de ficar na exterioridade tanto do sujeito quanto do 
Outro quando cair - , se ele nã o caí, então é todo o signifi cante do 
Outro, reduzido a ser apenas significante, que cai c co loca o psicótico 
nessa posição específica: o significante na exterioridade, exteriori-
dade que normalmente é o lugar do objeto-causa.É o que se encontra 
na holófrase. 
Esse caráter holofrásico do significante, tão fixo na psicose, como 
em Robert- mas também na debilidade e na psicossomática -,tem no 
entanto uma história no advento do sujeito nonnal, como nos mostra 
Nadla. 
Nadia encontrou seu primeiro significante holofrásico mamãe em 5 
de dezembro. Sabe-se sob que condições: foi a partir do objeto portado 
pelo Outro, quando ela crispava as mãos sobre meu peito com ar tenso. 
que se deu a jaculação desse primeiro significante mamãe, o que aliv iara 
sua tensão e acarretara uma cena de ternura nos braços do Ou tro. O 
significante que surgiu é aquele que designa o Outro: mamãe, e não o 
do objeto, ao qual ela renunciara e que caiu. 
Ela não deixou de alucinar, cinco dias mais tarde, a 10 de dezembro, 
diante da imagem de uma criança que um adulto tinha no colo (ver 
Nascimento do Outro), o objeto de seu desejo que caiu dessa ve1. por 
causa do significante Nadia!, do meu apelo, tanto mais que o caráter 
alucinado do objeto facilitava o infcio de sua queda. 
Os dois signíficantes mamãe e Nadia introduziram um intervalo na 
holófrase inicial do mamãe, com um efeit9 de separação e de repartição 
entre o significante unário S, que é seu mamãe, e o significante binário 
S2, que é meu Nadia , com a queda do objeto a para fora do significante. 
Esta inversão, aparentemente paradoxal, estava li gada ao transitivis-
mo inicial que tinha lugar aqui no significante, depois de ela ter mos-
trado esse transitivismo no real, quando vomitou depois que eu comi 
um pedaço do biscoito que ela me estendia, transitivismo que só irá 
desaparecer com o espelho. 
Foi justamente nesse lugar de objeto a que ela se alojou enquanto 
corpo, isto é, ela se encarnou aí e se propôs metonimicamente a mim, 
es tendendo-me seu pé. Tomou, assim, o lugar de um semblante de 
objeto a, causa do meu desejo. 
Esse apelo, Nadia, que faz S1 é o do saber do Outro, que se faz 
também comando, ordem quando lhe digo que ela não estava ali onde 
se comprazia, no objeto alucinado, mas sim ali onde eu falava. Meu 
discurso, certamente, fez supereu. 
Os elementos de um discurso quadrípode estão, pois, situados: S., SH 
a, $. De acordo com os quatro discursos e sua estrutura, o que aparece 
aqui como agente é meu apelo, Nadia, que faz ao mesmo tempo saber-Sl, 
38 a criança no diSCllr$0 anatilico 
e a verdade do significante·S,, que Nadia lançou em min.M direção, seu 
mamãe. 
Temos, a partir dai, a parte esquerda de um discurso ~~· que se veri-
fica ser o discurso universitário, coisa extraordinária! A parte direita j 
aparece também congruente: o a é o objeto que cai, não importa 9uaT, 
já que é a imagem da outra criança colada ao adulto. Quanto ao $, ele 
é bem a produçio.divisão que depende dos três primeiros elementos: o 
significante binário do Outro, o significante unárío que cai, assim como 
cai o objeto, com uma conotação, a de impotência para voltar de $ ao 
significante·mestre, o que o faria cair no real e o excluiria do simbólico; 
veremos isso com Robert. 
Notemos o fato essencial de que a emergência do discurso se faz em 
duas partes que fazem redobramento, um redobramento inerente à 
estrutura do ato, meu ato analhico, que faz também desdobramento do 
significante bolofrásico. 
Seu S,-verdade, sob meu S2-agente dá o sujeito dividido-$ sob o 
objeto a. 
Mudança de discurso 
Mas sabe-se que a holófrase só se resolve com o encontro do espelho . 
Nadia nos provou isso, quando do primeiro espelho, quando, mais além 
do recorte unitário de seu corpo ela só pôde se afastar daquilo que 
encontrara ali, ou melhor, daquiJo que ela não encontrara, isto é, o furo 
no lugar do objeto não especulari:l.ável e que caiu, ou seja, um boneco 
marinheiro que ela tinha na mão c do qual não via a imagem. 
Se não estava diante do espelho, no júbilo do reconhecimento de sua 
imagem pelo Outro, enquanto eu-ideal - mas antes na vertente daquilo 
que viria a ser seu -eu .. (je) - ela logo se refugiava em meus braços, 
pois para ela o corpo do Outro existia. Ele não existia como uma 
totalidade, onde qualquer transitivismo poderia protegê·la da perda que 
acabava de encontrar no espelho: ele existia como Outro do desejo, isto 
é, como lo. afetado por uma perda. Então, refugiando-se em meus braços, 
ela se propunha como objeto dessa perda que causaria meu desejo. 
Ela só fez confirmar o que mostrou.logo antes do espelho quando, 
deixando-se cair a meus pés, quis que eu a segurasse. A existência de 
corpos tanto do sujeito quanto do Outro é função de a enquanto caído. 
É no real que isso se passa. · 
Ao longo dos espelhos, ela ia marcar o Outro e o mundo por essa 
perda, assumindo o lugar de objeto a, objeto causa do desejo do Outro. 
Era uma mudança de discurso, era o amor de transferência no qual.Í 
se expandia, em i(a). Ela estava, então, no discurso analítico: s; ;::: 
51
. 
pontos nodais 37 
Ali e la era o agente a para um ~($), e o significante binário S1 , o saber 
do Outro, estava em posição de verdade. Quanto ao seu significante· 
mestre S, ele era retomado progressivamente pela transformação da 
holófrase inicial mamãe que deixaria traços nos significantes de Nadia 
durante três meses. · 
Nadia, com efeito, falava bastante e escandia todas as suas sessões 
com os significantes a-ga, a-té, &·puro, a-ca, a-pa, para terminar, no fim 
de cada período, por -pa-pa-pa .. e -a-pum-ca-da- . Como não ver que 
todos esses significantes comportam a raiz única em a, extraído do 
·mamãe- primitivo, representante daquilo que ela queria tomar do 
Outro e que' só tomava em seu significante, no insabido do inconsciente 
que passava ao ato. 
A holófrase não dissolvida 
Na psicose, veremos que o trajeto é muito mais longo e esbarra no corpo 
do Outro. O Senhora! que ele gritava todo o tempo, como uma interjei-
ção, interjeição-holó.frase, mostra que o s. e o s2 do par inicial se 
achavam reunidos nesse significante que não fez, ahsolutamenlc, apelo 
ao Outro, que ele não dirigiu a ninguém: em outras palavras, esse 
significante do Outro absoluto, ele o era, esse significante se confunde 
com o real do seu ser- .. o significante sê-lo-. Nesse primeiro tempo, 
ele era completamente reabsorvido nessa holófrasc. Como poderia ele 
escapar então ao significante do Outro que fazia comando - como meu 
discurso para Nadia - mas que aqui era supereu absoluto na ausência 
do objeto caído entre esse Outro e ele, que faria separação c lhe daria 
um corpo, dele, certamente, mas do Outro tamhém? 
O corpo do Outro permaneceu ausente quando o significante mamãe 
substituiu Senhora, pois Roberl só o dirigiu, pateticamente, ao vazio no 
alto da escada. 
Em contrapartida, seu encontro com o objeto·mamadeira, durante as 
três primeiras sessões de sua análise, não suscitou nenhum significante 
que se dirigisse ao Outro, e o deixasse confrontado com o impossível 
do objeto: ele não quis ver que gostaria de tomá-lo, o que lhe disse, e 
na mesma noite tentou cortar o pênis com uma tesoura. Cortava nele o 
que não podia tomar do Outro. 
Se o aparecimento da mamadeira acarretara um corte no real de seu 
corpo, esse objeto não tinha resposta no significante, onde ele não 
nomeava nem o objeto nem o Outro. Ele se voltava, então, a 6 de 
fevereiro, para um produto do corpo, do qual ele tinha o significante 
-xixi" - e que estava ligado ao único sintoma de Robert: a enurese -
para significar que era o seu objeto narcísico de corpo. Era o Outro, 
38 a criança no diSCllr$0 anatilico 
e a verdade do significante·S,, que Nadia lançou em min.M direção, seu 
mamãe. 
Temos, a partir dai, a parte esquerda de um discurso ~~· que se veri-
fica ser o discurso universitário, coisa extraordinária! A parte direita j 
aparece também congruente: o a é o objeto que cai, não importa 9uaT, 
já que é a imagem da outra criança colada ao adulto. Quanto ao $, ele 
é bem a produçio.divisão que depende dos três primeiros elementos: o 
significante binário do Outro, o significante unárío que cai, assim como 
cai o objeto,com uma conotação, a de impotência para voltar de $ ao 
significante·mestre, o que o faria cair no real e o excluiria do simbólico; 
veremos isso com Robert. 
Notemos o fato essencial de que a emergência do discurso se faz em 
duas partes que fazem redobramento, um redobramento inerente à 
estrutura do ato, meu ato analhico, que faz também desdobramento do 
significante bolofrásico. 
Seu S,-verdade, sob meu S2-agente dá o sujeito dividido-$ sob o 
objeto a. 
Mudança de discurso 
Mas sabe-se que a holófrase só se resolve com o encontro do espelho . 
Nadia nos provou isso, quando do primeiro espelho, quando, mais além 
do recorte unitário de seu corpo ela só pôde se afastar daquilo que 
encontrara ali, ou melhor, daquiJo que ela não encontrara, isto é, o furo 
no lugar do objeto não especulari:l.ável e que caiu, ou seja, um boneco 
marinheiro que ela tinha na mão c do qual não via a imagem. 
Se não estava diante do espelho, no júbilo do reconhecimento de sua 
imagem pelo Outro, enquanto eu-ideal - mas antes na vertente daquilo 
que viria a ser seu -eu .. (je) - ela logo se refugiava em meus braços, 
pois para ela o corpo do Outro existia. Ele não existia como uma 
totalidade, onde qualquer transitivismo poderia protegê·la da perda que 
acabava de encontrar no espelho: ele existia como Outro do desejo, isto 
é, como lo. afetado por uma perda. Então, refugiando-se em meus braços, 
ela se propunha como objeto dessa perda que causaria meu desejo. 
Ela só fez confirmar o que mostrou.logo antes do espelho quando, 
deixando-se cair a meus pés, quis que eu a segurasse. A existência de 
corpos tanto do sujeito quanto do Outro é função de a enquanto caído. 
É no real que isso se passa. · 
Ao longo dos espelhos, ela ia marcar o Outro e o mundo por essa 
perda, assumindo o lugar de objeto a, objeto causa do desejo do Outro. 
Era uma mudança de discurso, era o amor de transferência no qual.Í 
se expandia, em i(a). Ela estava, então, no discurso analítico: s; ;::: 
51
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pontos nodais 37 
Ali e la era o agente a para um ~($), e o significante binário S1 , o saber 
do Outro, estava em posição de verdade. Quanto ao seu significante· 
mestre S, ele era retomado progressivamente pela transformação da 
holófrase inicial mamãe que deixaria traços nos significantes de Nadia 
durante três meses. · 
Nadia, com efeito, falava bastante e escandia todas as suas sessões 
com os significantes a-ga, a-té, &·puro, a-ca, a-pa, para terminar, no fim 
de cada período, por -pa-pa-pa .. e -a-pum-ca-da- . Como não ver que 
todos esses significantes comportam a raiz única em a, extraído do 
·mamãe- primitivo, representante daquilo que ela queria tomar do 
Outro e que' só tomava em seu significante, no insabido do inconsciente 
que passava ao ato. 
A holófrase não dissolvida 
Na psicose, veremos que o trajeto é muito mais longo e esbarra no corpo 
do Outro. O Senhora! que ele gritava todo o tempo, como uma interjei-
ção, interjeição-holó.frase, mostra que o s. e o s2 do par inicial se 
achavam reunidos nesse significante que não fez, ahsolutamenlc, apelo 
ao Outro, que ele não dirigiu a ninguém: em outras palavras, esse 
significante do Outro absoluto, ele o era, esse significante se confunde 
com o real do seu ser- .. o significante sê-lo-. Nesse primeiro tempo, 
ele era completamente reabsorvido nessa holófrasc. Como poderia ele 
escapar então ao significante do Outro que fazia comando - como meu 
discurso para Nadia - mas que aqui era supereu absoluto na ausência 
do objeto caído entre esse Outro e ele, que faria separação c lhe daria 
um corpo, dele, certamente, mas do Outro tamhém? 
O corpo do Outro permaneceu ausente quando o significante mamãe 
substituiu Senhora, pois Roberl só o dirigiu, pateticamente, ao vazio no 
alto da escada. 
Em contrapartida, seu encontro com o objeto·mamadeira, durante as 
três primeiras sessões de sua análise, não suscitou nenhum significante 
que se dirigisse ao Outro, e o deixasse confrontado com o impossível 
do objeto: ele não quis ver que gostaria de tomá-lo, o que lhe disse, e 
na mesma noite tentou cortar o pênis com uma tesoura. Cortava nele o 
que não podia tomar do Outro. 
Se o aparecimento da mamadeira acarretara um corte no real de seu 
corpo, esse objeto não tinha resposta no significante, onde ele não 
nomeava nem o objeto nem o Outro. Ele se voltava, então, a 6 de 
fevereiro, para um produto do corpo, do qual ele tinha o significante 
-xixi" - e que estava ligado ao único sintoma de Robert: a enurese -
para significar que era o seu objeto narcísico de corpo. Era o Outro, 
38 a criança no discurso analítico 
então, que era marcado por um furo, o furo dos WC que ele mostrava 
aterrorizado, gritando lobo. Este significante vinha no lugar do signifi-
cante do Outro, o mamãe de Nadia, mas sem o efeito pacificador 
deste; com efeito, estava ligado ao gozo e tomou o lugar de a, a ponto 
de Robert chegar mais tarde, em 5 de março, a encarnar esse signifi-
ca nte num estado de furor destrutivo, assinalando o aniquilamento 
do Outro. 
Assim, não encontrando em seu Outro o lugar do a - que faria 
desse Outro o Outro barrado I/. do desejo - o psicótico o introduz à 
força, como Robcrt o evidencia, sob a forma de um furo real que não 
perfura o Outro, mas, conforme o -tudo ou nada~, toma seu lugar e 
o aniquila. 
É o que Lacan observa também em Schrebcr (Seminário lii, p. 119) 
a propósito das frases interrompidas: -Há, na relação do sujeito com a 
linguagem ... um perigo, perpetuamente sabido, de que toda essa fantas-
magoria se reduza a uma unidade (o lugar do a para Robert) que 
aniquila, não a sua existéncia, mas a de Deus, que é essencialmente 
linguagem. Schreber o escreve fonnalmentc: os raios devem falar . É 
preciso que a todo instante se produzam fenômenos de diversão para 
que Deus não seja reabsorvido na existência central do sujeito ... 
É assim, como diz Schreber, que Deus está em perigo se o psicótico 
assumir o lugar do a que causaria seu desejo, e Robcrt veio nos mostrar 
que a existência do Outro está ligada à holófrase que faz Um c que, se 
se dissolver, põe em perigo a própria exis tência do Outro . 
Quando, com efeito, ele viu seu próprio reflexo na vidraça, em 3 de. 
março, não era de sua imagem com uma perda que se tratava, mas do 
encontro com um furo que ele escandia, com seu significante do furo: 
o lobo. 
-o que sustenta a imagem é um resto" diz Lacan, um resto que faz 
fu ro na própria estrutura da imagem especular e que a funda por esse 
real. Robert só apreendeu o furo rear específico desse objeto e, em 
conseqüência, ficou sem nenhum recurso ao real do corpo do Outro, 
para o qual não se voltava. O único recurso que lhe restava era o seu 
significante do furo, tanto que fui obrigado a lhe d izer que ele não estava 
ali onde se via, mas ao meu lado, realmente. O real do corpo não era o 
do Outro do !f. barrado do desejo com uma perda que fazia furo, onde o 
sujeito podia vir se instalar, mas o do próprio sujeito, corpo que fui 
obrigada a apoiar para que ele não mergulhasse no furo do seu signifi-
cante lobo. 
Então não é um resto, o a não especularizável, aquele que faz com 
que a imagem se sustente, que está em causa, é o significante do furo, 
ou ainda, como nos disse uma outra criança psicótica, o que ela via, só 
diante do espelho, não era sua imagem, mas a de sua mãe, compensando 
pontos nodais 39 
assim o vazio do corpo do Outro, desta vez não por um significante, mas 
pela imagem transitiva desse Outro que ele via no espelho, à fa lta de 
poder se sentir visto. 
Foi bem a esse ponto que chegou Schreber diante do es pelho, quando 
se esforçou para realizar a imagem de uma mulher com seus atavios, 
onde ele se comprazia em seu próprio olhar, esperando oferecê-lo ao 
olhar dos outros. Era a imagem de seu Outro primordia l, de sua mãe, 
que. ele perdera em seu naufrágio. 
As vezes, também, é a atinnação do Um unificador que vimos que 
aparece, como para esse psicótico que griiB papai-mamãe.' diante de sua 
imagem, na qual seu própriocorpo, enquanto corpo do Outro, escorre 
no significante faltoso da cena primitiva. 
Curto-circuito 
Durante sua análise, Robert não deixou de dispendcr a maior energia 
para tentar instaurar um objeto entre ele e o Outro e dissolver, assim, a 
holófrase. Esse foi também meu objetivo no meu ato analítico da 
construção intra-uterina que fiz para ele a 13 de maio. Tratava-se de 
fazer Robert sair dessa necessidade de ter que dar todos os objetos-pro-
dutos do seu corpo como sendo devidos ao Outro absoluto e dar a si 
próprio o lugar de objeto a, causa do desejo do Outro. 
Para fazer isso, tendo seguido Rohert passo a passo em sua busca, fiz 
nesse dia a referência ao exterior e ao interior ao mesmo tempo, isto é, 
à extimidade do objeto com relação ao Outro. Em outras palavras, 
perfurei, então, essa totalidade do Outro sem objeto destacável. 
É, de fato, como diz Lacan, -nesse exterior, antes de toda inte-
riorizaçào, é lá que se s itua o a enquanto causa, antes que o sujeito 
o apreenda em x no lugar do Outro", e acrescenta: .. na sua forma 
especular". 
O objeto, nesse dia, era a água que Robert fez circular num circuito 
fechado, fazendo-me participar, entre dois recipientes cheios: o pote 
cheio d'água dentro da bacia cheia d'água, onde a água recobria tanto 
a parede interior quanto a parede exterior do pote . Então, -o objeto a 
situar no exterior junta-se a alguma coisa do interior do corpo", diz 
Lacan. É a condição irredutível para que o objeto atinja a dimensão 
pulsional. 
Esta trajetória, por mais que seja real, isto é, do registro do objeto 
enquanto fora do significante, nem por isso deixa de se traduzir nos três 
significantes de Robert que escandem a sessão: Mamãe, Rt>bert, água. 
A água-objeto perfurando o Outro-mamãe faz a separação entre os dois, 
tanto para o objeto a quanto para o significante-nome próprio -Robert-
38 a criança no discurso analítico 
então, que era marcado por um furo, o furo dos WC que ele mostrava 
aterrorizado, gritando lobo. Este significante vinha no lugar do signifi-
cante do Outro, o mamãe de Nadia, mas sem o efeito pacificador 
deste; com efeito, estava ligado ao gozo e tomou o lugar de a, a ponto 
de Robert chegar mais tarde, em 5 de março, a encarnar esse signifi-
ca nte num estado de furor destrutivo, assinalando o aniquilamento 
do Outro. 
Assim, não encontrando em seu Outro o lugar do a - que faria 
desse Outro o Outro barrado I/. do desejo - o psicótico o introduz à 
força, como Robcrt o evidencia, sob a forma de um furo real que não 
perfura o Outro, mas, conforme o -tudo ou nada~, toma seu lugar e 
o aniquila. 
É o que Lacan observa também em Schrebcr (Seminário lii, p. 119) 
a propósito das frases interrompidas: -Há, na relação do sujeito com a 
linguagem ... um perigo, perpetuamente sabido, de que toda essa fantas-
magoria se reduza a uma unidade (o lugar do a para Robert) que 
aniquila, não a sua existéncia, mas a de Deus, que é essencialmente 
linguagem. Schreber o escreve fonnalmentc: os raios devem falar . É 
preciso que a todo instante se produzam fenômenos de diversão para 
que Deus não seja reabsorvido na existência central do sujeito ... 
É assim, como diz Schreber, que Deus está em perigo se o psicótico 
assumir o lugar do a que causaria seu desejo, e Robcrt veio nos mostrar 
que a existência do Outro está ligada à holófrase que faz Um c que, se 
se dissolver, põe em perigo a própria exis tência do Outro . 
Quando, com efeito, ele viu seu próprio reflexo na vidraça, em 3 de. 
março, não era de sua imagem com uma perda que se tratava, mas do 
encontro com um furo que ele escandia, com seu significante do furo: 
o lobo. 
-o que sustenta a imagem é um resto" diz Lacan, um resto que faz 
fu ro na própria estrutura da imagem especular e que a funda por esse 
real. Robert só apreendeu o furo rear específico desse objeto e, em 
conseqüência, ficou sem nenhum recurso ao real do corpo do Outro, 
para o qual não se voltava. O único recurso que lhe restava era o seu 
significante do furo, tanto que fui obrigado a lhe d izer que ele não estava 
ali onde se via, mas ao meu lado, realmente. O real do corpo não era o 
do Outro do !f. barrado do desejo com uma perda que fazia furo, onde o 
sujeito podia vir se instalar, mas o do próprio sujeito, corpo que fui 
obrigada a apoiar para que ele não mergulhasse no furo do seu signifi-
cante lobo. 
Então não é um resto, o a não especularizável, aquele que faz com 
que a imagem se sustente, que está em causa, é o significante do furo, 
ou ainda, como nos disse uma outra criança psicótica, o que ela via, só 
diante do espelho, não era sua imagem, mas a de sua mãe, compensando 
pontos nodais 39 
assim o vazio do corpo do Outro, desta vez não por um significante, mas 
pela imagem transitiva desse Outro que ele via no espelho, à fa lta de 
poder se sentir visto. 
Foi bem a esse ponto que chegou Schreber diante do es pelho, quando 
se esforçou para realizar a imagem de uma mulher com seus atavios, 
onde ele se comprazia em seu próprio olhar, esperando oferecê-lo ao 
olhar dos outros. Era a imagem de seu Outro primordia l, de sua mãe, 
que. ele perdera em seu naufrágio. 
As vezes, também, é a atinnação do Um unificador que vimos que 
aparece, como para esse psicótico que griiB papai-mamãe.' diante de sua 
imagem, na qual seu próprio corpo, enquanto corpo do Outro, escorre 
no significante faltoso da cena primitiva. 
Curto-circuito 
Durante sua análise, Robert não deixou de dispendcr a maior energia 
para tentar instaurar um objeto entre ele e o Outro e dissolver, assim, a 
holófrase. Esse foi também meu objetivo no meu ato analítico da 
construção intra-uterina que fiz para ele a 13 de maio. Tratava-se de 
fazer Robert sair dessa necessidade de ter que dar todos os objetos-pro-
dutos do seu corpo como sendo devidos ao Outro absoluto e dar a si 
próprio o lugar de objeto a, causa do desejo do Outro. 
Para fazer isso, tendo seguido Rohert passo a passo em sua busca, fiz 
nesse dia a referência ao exterior e ao interior ao mesmo tempo, isto é, 
à extimidade do objeto com relação ao Outro. Em outras palavras, 
perfurei, então, essa totalidade do Outro sem objeto destacável. 
É, de fato, como diz Lacan, -nesse exterior, antes de toda inte-
riorizaçào, é lá que se s itua o a enquanto causa, antes que o sujeito 
o apreenda em x no lugar do Outro", e acrescenta: .. na sua forma 
especular". 
O objeto, nesse dia, era a água que Robert fez circular num circuito 
fechado, fazendo-me participar, entre dois recipientes cheios: o pote 
cheio d'água dentro da bacia cheia d'água, onde a água recobria tanto 
a parede interior quanto a parede exterior do pote . Então, -o objeto a 
situar no exterior junta-se a alguma coisa do interior do corpo", diz 
Lacan. É a condição irredutível para que o objeto atinja a dimensão 
pulsional. 
Esta trajetória, por mais que seja real, isto é, do registro do objeto 
enquanto fora do significante, nem por isso deixa de se traduzir nos três 
significantes de Robert que escandem a sessão: Mamãe, Rt>bert, água. 
A água-objeto perfurando o Outro-mamãe faz a separação entre os dois, 
tanto para o objeto a quanto para o significante-nome próprio -Robert-
a criança no discurso analítico 
que veio designar seu lugar, articulando a necessidade da presença, ao 
mesmo tempo, do real e do significante para que, vamos repetir, ~o 
sujeito se apreenda em x no lugar do Outro- e passe do Um unificador 
da holófrase ao Três da estrutura ternária, isto é, seu S 1 mamãe, meu 
S2-água e seu nome, Robert, designando o lugar do objeto. 
Faltava, no entanto, a essa estrutura, para assegurá-la, a verdadeira 
queda do objeto a, tal como Nadia conheceu a 10 de dezembro, quando 
perdeu, devido ao meu apelo Nadia, o objeto oral alucinado de seu 
desejo que provocava seus movimentos de sucção. Já Robert, partindo 
do significante, e não da queda do objeto, criou o objeto delirante a 
partir da homofonia entre l'eau (águ~) e lolo (leite). Ele não chegou ao 
recalque primordial mas a essa criaçãodelirante de um objeto que 
conjuga os dois significantes e vem obturar o furo real do seu lobo -
mediante. o que ele se desembaraçou deste e só iria dizê-lo depois das 
duas sessões seguintes: este objeto era a torneira-pênis que daria leite. 
É a seu respeito que nossas reflexões nos conduziram à reconstrução 
do fantasma na psicose. Mas quem di:t fantasma, diz superfície, e Robert 
não faltou a isso, aperfeiçoando sua superfície de corpo esboçada a 13 
de maio para chegar ao seu batismo de 4 de junho com uma virada: não 
era mais o pênis que dava leite, mas o leite que, escoando~se ao longo 
do seu pênis, ligava este ao corpo. Ele criou assim um portador-de-pê-
nis, Um-pai, que o confinnou na significação de ser Robert, pelo qual 
ele se designara então. 
Para Nadia, o significante fazia cair o objeto e a dirigia para o corpo 
do Outro; para Robcrt, era o significante que promovia o objeto e o 
colocava no lugar do corpo do Outro. Não é de espantar, então, como 
se viu, que nessa confusão entre o real do objeto e o significante, a 
afânisc, ou melhor, a imagem da alienação aparecesse um pouco mais 
tarde na sua análise sob a forma psicossomática de um esvaziamento do 
corpo: vômitos, diarréia, .síncope. Seu S, tomou o lugar do objeto a 
cafdo. Se Robcrt se curou disso por minhas palavras que fizeram S2 , 
numa sessão ao pé de seu leito de doente, mesmo assim ficou submisso 
a essa confusão entre S1 c a. 
Se minha construção e minhas palavras puderam fazer função de S2, 
Robert, no entanto, estav·a colocado em lugar de a, como agente. 
Conttariamente a Nadia, que atingiu primeiro a estrutura do discurso 
universitário, apoiando-se em meu saber para encontrar o lugar do 
objeto a caído no Outro, Robert fez um curto-circuito e encontrou a 
parte esquerda do discurso analítico, onde sua sede do desejo do Outro 
o levou a tentar assurpir o lug!lr do objeto que era a sua causa. 
. Robert, mais tarde, diante de um pequeno espelho, encontrou a perda 
me rente à imagem especular, mas logo se apressou a querer preenchê-la, 
tentando fazer um traço com seu lápis sobre a superficie do espelho, em 
pontos nodais 41 
vão. A perda se revelava no real: ele ficou desesperado. Faltou-lhe 
para que essa perda fosse velada pelo significante do Outro, te; 
conhecido, como Nadia, a alucinação escópica do objeto do Outro a 
mamadeira. Só se tratava, para Robert, do seu objeto, fosse tê-lo: o 
pênis, ou sê-lo, o a. 
Para voltar à estrutura do discurso analítico, 
i"""::ibilidode $ 
S7 :: S I 
era impossível, para Robert, que o Outro fosse marcado por uma perda , 
descompletado: /. ou $. Se Robert queria apagar toda perda por seu 
traço sobre a superfície do espelho, era impotente para isso. Pôde, 
decerto, encontrar no espelho a imagem do Outro: ela era somente 
simetria com a sua, e ele não se refugiou, como toda criança-no-espelho, 
nos braços deste. 
Em vez disso, censurou-me diante do espelho, por tê-lo privado do 
objeto, que era então seu pênis, e depois foi buscar sapatos de mulher 
para calçar, e ligou o pênis ã mamadeira, sugando o cabide de uma 
cnfcnncira como uma mamadeira ridícula. 
Foi só depois do quarro encontro com o espelho que e le pôde vir para 
o meu colo e me fazer pela primeira vez a demanda oral da mamadeira. 
Bebeu apenas dois goles no meu colo, mas já dera o passo decisivo de 
ligar o objeto primordial ao Outro, e encontrou sua memória, mediante 
a repetição, a memória do trauma da antrotomia: tomando a mamadeira 
ele enfiou seu bico na orelha, olhou para mim c esperou de mim um; 
ex plicação. 
impotência e impossibilidade 
Vamos nos aventurar no que indicamos quanto ao que vem fazer discur-
so, a entrada num discurso em Nadia e em Robert. 
Se o inconsciente é o discurso do mestre, só se pode tratar disso 
depois do Urverdrãngung . Vê-se isso em Nadia, que só entra no discur-
so pelo S2 do Outro e onde o objeto, antes de cair, aparece sobre a 
diagonal a;a· imaginária do esquema L, antes que se institua, através 
do Outro presentificado por sua fa la, o sujeito dividido entre os dois 
p61os da outra diagonal do esquema L, a do inconsciente. · 
Discurso de um primeiro tempo, no qual, já dissemos, a impotência 
se situa por um retorno em direção ao significante primordial S1, que 
nào teria caído pelo intermédio de Su o que viria colocá-lo em lugar de 
real c de objeto, como nos mostra Robert. 
O desejo do Outro, a impotência do sujeito situam então o analisando 
em lugar de causa do desejo do Outro; é o efei to da análise: -É apenas 
a criança no discurso analítico 
que veio designar seu lugar, articulando a necessidade da presença, ao 
mesmo tempo, do real e do significante para que, vamos repetir, ~o 
sujeito se apreenda em x no lugar do Outro- e passe do Um unificador 
da holófrase ao Três da estrutura ternária, isto é, seu S 1 mamãe, meu 
S2-água e seu nome, Robert, designando o lugar do objeto. 
Faltava, no entanto, a essa estrutura, para assegurá-la, a verdadeira 
queda do objeto a, tal como Nadia conheceu a 10 de dezembro, quando 
perdeu, devido ao meu apelo Nadia, o objeto oral alucinado de seu 
desejo que provocava seus movimentos de sucção. Já Robert, partindo 
do significante, e não da queda do objeto, criou o objeto delirante a 
partir da homofonia entre l'eau (águ~) e lolo (leite). Ele não chegou ao 
recalque primordial mas a essa criação delirante de um objeto que 
conjuga os dois significantes e vem obturar o furo real do seu lobo -
mediante. o que ele se desembaraçou deste e só iria dizê-lo depois das 
duas sessões seguintes: este objeto era a torneira-pênis que daria leite. 
É a seu respeito que nossas reflexões nos conduziram à reconstrução 
do fantasma na psicose. Mas quem di:t fantasma, diz superfície, e Robert 
não faltou a isso, aperfeiçoando sua superfície de corpo esboçada a 13 
de maio para chegar ao seu batismo de 4 de junho com uma virada: não 
era mais o pênis que dava leite, mas o leite que, escoando~se ao longo 
do seu pênis, ligava este ao corpo. Ele criou assim um portador-de-pê-
nis, Um-pai, que o confinnou na significação de ser Robert, pelo qual 
ele se designara então. 
Para Nadia, o significante fazia cair o objeto e a dirigia para o corpo 
do Outro; para Robcrt, era o significante que promovia o objeto e o 
colocava no lugar do corpo do Outro. Não é de espantar, então, como 
se viu, que nessa confusão entre o real do objeto e o significante, a 
afânisc, ou melhor, a imagem da alienação aparecesse um pouco mais 
tarde na sua análise sob a forma psicossomática de um esvaziamento do 
corpo: vômitos, diarréia, .síncope. Seu S, tomou o lugar do objeto a 
cafdo. Se Robcrt se curou disso por minhas palavras que fizeram S2 , 
numa sessão ao pé de seu leito de doente, mesmo assim ficou submisso 
a essa confusão entre S1 c a. 
Se minha construção e minhas palavras puderam fazer função de S2, 
Robert, no entanto, estav·a colocado em lugar de a, como agente. 
Conttariamente a Nadia, que atingiu primeiro a estrutura do discurso 
universitário, apoiando-se em meu saber para encontrar o lugar do 
objeto a caído no Outro, Robert fez um curto-circuito e encontrou a 
parte esquerda do discurso analítico, onde sua sede do desejo do Outro 
o levou a tentar assurpir o lug!lr do objeto que era a sua causa. 
. Robert, mais tarde, diante de um pequeno espelho, encontrou a perda 
me rente à imagem especular, mas logo se apressou a querer preenchê-la, 
tentando fazer um traço com seu lápis sobre a superficie do espelho, em 
pontos nodais 41 
vão. A perda se revelava no real: ele ficou desesperado. Faltou-lhe 
para que essa perda fosse velada pelo significante do Outro, te; 
conhecido, como Nadia, a alucinação escópica do objeto do Outro a 
mamadeira. Só se tratava, para Robert, do seu objeto, fosse tê-lo: o 
pênis, ou sê-lo, o a. 
Para voltar à estrutura do discurso analítico, 
i"""::ibilidode $ 
S7 :: S I 
era impossível, para Robert, que o Outro fosse marcado por uma perda , 
descompletado: /. ou $. Se Robert queria apagar toda perda por seu 
traçosobre a superfície do espelho, era impotente para isso. Pôde, 
decerto, encontrar no espelho a imagem do Outro: ela era somente 
simetria com a sua, e ele não se refugiou, como toda criança-no-espelho, 
nos braços deste. 
Em vez disso, censurou-me diante do espelho, por tê-lo privado do 
objeto, que era então seu pênis, e depois foi buscar sapatos de mulher 
para calçar, e ligou o pênis ã mamadeira, sugando o cabide de uma 
cnfcnncira como uma mamadeira ridícula. 
Foi só depois do quarro encontro com o espelho que e le pôde vir para 
o meu colo e me fazer pela primeira vez a demanda oral da mamadeira. 
Bebeu apenas dois goles no meu colo, mas já dera o passo decisivo de 
ligar o objeto primordial ao Outro, e encontrou sua memória, mediante 
a repetição, a memória do trauma da antrotomia: tomando a mamadeira 
ele enfiou seu bico na orelha, olhou para mim c esperou de mim um; 
ex plicação. 
impotência e impossibilidade 
Vamos nos aventurar no que indicamos quanto ao que vem fazer discur-
so, a entrada num discurso em Nadia e em Robert. 
Se o inconsciente é o discurso do mestre, só se pode tratar disso 
depois do Urverdrãngung . Vê-se isso em Nadia, que só entra no discur-
so pelo S2 do Outro e onde o objeto, antes de cair, aparece sobre a 
diagonal a;a· imaginária do esquema L, antes que se institua, através 
do Outro presentificado por sua fa la, o sujeito dividido entre os dois 
p61os da outra diagonal do esquema L, a do inconsciente. · 
Discurso de um primeiro tempo, no qual, já dissemos, a impotência 
se situa por um retorno em direção ao significante primordial S1, que 
nào teria caído pelo intermédio de Su o que viria colocá-lo em lugar de 
real c de objeto, como nos mostra Robert. 
O desejo do Outro, a impotência do sujeito situam então o analisando 
em lugar de causa do desejo do Outro; é o efei to da análise: -É apenas 
a criança no discurso analitioo 
atacando o impossível em suas últimas trincheiras que a impotência 
toma o poder de fazer o paciente tomar-se o agente", diz Lacan em 
Radiophonie, não sem que uma parte do gozo do sujeito ali se revele. É 
a dimensão do fantasma .. que realiza um tempo ... O último termo da 
análise, com efeito, é a impossibilidade de ligar realmente o a ao ~. 
Nadia vai, assitn, da impotência à impossibilidade. 
Roben, ao contrário, devido à ausência de a, inicialmente, e da 
ausência de sua queda, em seguida, quando é substituído por s., parte 
da impossibilidade dessa disjunção entre o objeto enquanto agente, do 
qual ele toma o lugar, e o sujeito dividido. Então ele esbacra com a 
impotênci1l para uma conjunção, mediante a travessia da barra, entre a 
e 52, uma conjunção na qual o a do lado do significante transgrediria a 
disjunção primitiva entre significante e significado. A verdade do saber 
do Outro falta, por não haver es~ bana ou este corte, como demonstra 
essa reconstrução do fantasma de Robert, obtendo-se, finalmente, um 
sujeito não bartado, ligado ao a, sem disjunção entre os dois: Sa, 
significante e real confundidos. A impotência da psicose surge aí de 
um Outro não descompletado, sem referência possível à falta-a-ser deste 
Outro, para que o sujeito aí se instale, ou seja, um Outro sem corpo. 
Nadia, partida da impotência, chegou à impossibilidade; Robert, 
psicótico, partiu da impossibilidade para chegar à impotência. 
E no entanto todà a análise de Robert está aí para mostrar as trans-
formações consideráveis atingidas por ele. 
A topologia - e isso resta a ser feito - enquanto ciência que se 
desenvolve na continuidade poderia dar conta disso. Dar conta de quê, 
senão da dificuldade para um sujeito de nascer sem corte? 
É isso o que Robert nos diz, de saída, ao tentar cortar seu pênis. 
A criança sem o saber 
Rosine Lefort 
H á saber no analista, apesar das reservas deste, e: não é evidente que 
ele possa se manter no nível da .. douta ignorância .. , única a dar chance 
ã verdade. A verdade não é o saber, especialmente no lugar do Outro 
onde ela se inscreve na falta do Outro, notada pelo materna S(~). 
O objeto a mais 
Dois episódios precoces na história de Robert, a Criança do Lobo, 
permitem-nos observar de perto o que se passou com ele quanto ao 
saber, à verdade e ao gozo. 
Em 17 de janeiro, na terceira sessão, quando tomou a mamadeira em 
suas mãos e apagou a luz, interpretei ~que ele não quer ver o que pegou 
e tem ao mesmo tempo mui~ vontade e muito medo de ter essa mama-
deira". O que fiz, então, senão supor-lhe um saber quanto ao seu desejo? 
Pelo menos, era isso que ele poderia depreender de minhas palavras. 
Ora, o que ele escutou não era o que está implicado em meu dizer: uma 
relação ao objeto, na medida em que este lhe faltaria e que ele o 
esperaria do Outro, objeto causador de seu desejo. 
Na mesma noite ele tentou cortar o pênis, e demonstrou bem, dessa · 
forma, que não estava absolutamente à espera de um objeto que lhe 
falt.ava e que esperava do Outro, mas que, pelo contrário, já tinha este 
objeto, já o incorporara, e ele estava sobrando, devendo se livrar dele. 
A equivalência seio-pênis, tão sensível na psicose, pôde fazer-nos 
escrever: ele me restituiu o pênis em troca de meu seio, que não pôde 
retirar do Outro para que eu fosse -toda" e houvesse o Um, condição de 
minha existência; o Um sem o qual o risco seria a minha morte ou o meu 
desaparecimento enquanto Outro. 
Depois disso ele não iria cessar, durante as sessões, de esvaziar a 
mamadeira, não apenas do seu leite, mas da água e da areia que ele 
mesmo iria pôr ali. questionando o vazio dessa mamadeira. Em. 6 de 
fevereiro. da mesma maneira, depois de ter esvaziado seu corpo do 
43 
a criança no discurso analitioo 
atacando o impossível em suas últimas trincheiras que a impotência 
toma o poder de fazer o paciente tomar-se o agente", diz Lacan em 
Radiophonie, não sem que uma parte do gozo do sujeito ali se revele. É 
a dimensão do fantasma .. que realiza um tempo ... O último termo da 
análise, com efeito, é a impossibilidade de ligar realmente o a ao ~. 
Nadia vai, assitn, da impotência à impossibilidade. 
Roben, ao contrário, devido à ausência de a, inicialmente, e da 
ausência de sua queda, em seguida, quando é substituído por s., parte 
da impossibilidade dessa disjunção entre o objeto enquanto agente, do 
qual ele toma o lugar, e o sujeito dividido. Então ele esbacra com a 
impotênci1l para uma conjunção, mediante a travessia da barra, entre a 
e 52, uma conjunção na qual o a do lado do significante transgrediria a 
disjunção primitiva entre significante e significado. A verdade do saber 
do Outro falta, por não haver es~ bana ou este corte, como demonstra 
essa reconstrução do fantasma de Robert, obtendo-se, finalmente, um 
sujeito não bartado, ligado ao a, sem disjunção entre os dois: Sa, 
significante e real confundidos. A impotência da psicose surge aí de 
um Outro não descompletado, sem referência possível à falta-a-ser deste 
Outro, para que o sujeito aí se instale, ou seja, um Outro sem corpo. 
Nadia, partida da impotência, chegou à impossibilidade; Robert, 
psicótico, partiu da impossibilidade para chegar à impotência. 
E no entanto todà a análise de Robert está aí para mostrar as trans-
formações consideráveis atingidas por ele. 
A topologia - e isso resta a ser feito - enquanto ciência que se 
desenvolve na continuidade poderia dar conta disso. Dar conta de quê, 
senão da dificuldade para um sujeito de nascer sem corte? 
É isso o que Robert nos diz, de saída, ao tentar cortar seu pênis. 
A criança sem o saber 
Rosine Lefort 
H á saber no analista, apesar das reservas deste, e: não é evidente que 
ele possa se manter no nível da .. douta ignorância .. , única a dar chance 
ã verdade. A verdade não é o saber, especialmente no lugar do Outro 
onde ela se inscreve na falta do Outro, notada pelo materna S(~). 
O objeto a mais 
Dois episódios precoces na história de Robert, a Criança do Lobo, 
permitem-nos observar de perto o que se passou com ele quanto ao 
saber, à verdade e ao gozo. 
Em 17 de janeiro,na terceira sessão, quando tomou a mamadeira em 
suas mãos e apagou a luz, interpretei ~que ele não quer ver o que pegou 
e tem ao mesmo tempo mui~ vontade e muito medo de ter essa mama-
deira". O que fiz, então, senão supor-lhe um saber quanto ao seu desejo? 
Pelo menos, era isso que ele poderia depreender de minhas palavras. 
Ora, o que ele escutou não era o que está implicado em meu dizer: uma 
relação ao objeto, na medida em que este lhe faltaria e que ele o 
esperaria do Outro, objeto causador de seu desejo. 
Na mesma noite ele tentou cortar o pênis, e demonstrou bem, dessa · 
forma, que não estava absolutamente à espera de um objeto que lhe 
falt.ava e que esperava do Outro, mas que, pelo contrário, já tinha este 
objeto, já o incorporara, e ele estava sobrando, devendo se livrar dele. 
A equivalência seio-pênis, tão sensível na psicose, pôde fazer-nos 
escrever: ele me restituiu o pênis em troca de meu seio, que não pôde 
retirar do Outro para que eu fosse -toda" e houvesse o Um, condição de 
minha existência; o Um sem o qual o risco seria a minha morte ou o meu 
desaparecimento enquanto Outro. 
Depois disso ele não iria cessar, durante as sessões, de esvaziar a 
mamadeira, não apenas do seu leite, mas da água e da areia que ele 
mesmo iria pôr ali. questionando o vazio dessa mamadeira. Em. 6 de 
fevereiro. da mesma maneira, depois de ter esvaziado seu corpo do 
43 
44 a criança no discurso analítico 
objeto anal devido ao Outro, o que para ele era .. a ordem das coisas" 
com a qual se rejubilava pela demanda do Outro, nem por isso deixou 
de se aterrorizar diante do vazio do buraco das privadas, esse furo real 
diante do qual gritou um significante novo: .. lobo"! 
Estaria ele sinalizando, ali, a relação entre o Um e o conjunto vazio? 
Decerto. Mas seu significante .. lobo!" não remetia a um outro signifi-
cante: confundia-se com o real imediato do furo e não com alguma 
representação do conjunto vazio e sua congruência com o Zero. 
Robert, além disso, demonstrou um pouco m~is adiante no seu 
tratamento que à falta do Zero ele podia ler o Um, mas não o Dois. Nesse 
dia, fortuitamente, encontravam-se na sala de atendimento duas mama-
deiras. Então ele se lançou à destruição da segunda mamadeira, conser-
vando apenas a primeira para incluí-la na vasilha -continente onde 
empilhou, junto com ela, os pedaços de vidro do Outro, o bebê, a água 
c a areia , Ele refez, com essa vasi lha completamenle cheia, o Um, não 
o Um <io s ignificante, mas o Um no real, cuja perda do menor grão de 
areia o faz se encher de pânico. 
Destruir a segunda mamadeira 
Falei de meu saber, que implicava numa circulação do objeto entre 
Robert e o 011tro, por intermédio de meu dizer. Implicava também numa 
falta ~o nível do Um. Ora, Robert me respondia por uma espécie 
inteiramente outra de saber, um saber que não estava na linguagem - já 
que, em momento algum, empregou, e nem empregaria, o significante 
-mamadeira". Este saber está no número. A resposta de Robert me 
remetia a essa espécie de saber in.contornável do qual eu deveria deduzir 
toda a estrutura para levar em conta c.<;sa presença de um objeto a mais 
nele - o pênis do pai no lugar do Nome-do-Pai. Ele o impunha a mim, 
de alguma forma . Ele me impunha es te saber, porque era um saber 
del irante, exterior a todo sujeito, ele ou eu, que eu tinha que tomar como 
um pouco de lógica, um pouco de real, como quiserem. 
Seria possível falar propriamente em mímero a propósito desse saber, 
quando o acesso ao Zero não está ali ? Hiância simbólica radical que lhe 
barra o acesso -ao Dois, não simplesmente pela impossibilidade devida 
à ausência do- Zcio, mas por uma escolha, a do gozo do objeto, um gozo 
que é -um ... não enumerável no real, um gozo que, mesmo sendo do 
sujeito, é salvaguarda do Outro. Seja como for, se não há Dois, não há 
dois sexos, mas por uma razão diversa daquela que se aplica normal-
mente. Isso significaria que só existe o Um também para o psicótico'l 
Seria estender abusivamente a fórmula quántica da scxuação do homem: 
"t:c q..x (para todo x, phi de .x) . A referência indevida ao falo cp (grande 
pontos nodais 45 
phi) assemelhando-se ao gozo, não advém, por falta de o sujeito aprce~ ­
der-se metaforicamente, isto é, numa dimensão significante da repeti· 
ção inaugural do Um e do Outro: ele .está relacionado .ao Um que é o 
Outro. O fa lo q. (grande phi) fi ca reduzido ao lugar de obJeto a,_ que deve 
ser rcslitufdo ao Outro para que este seja Um, sem que por Jsso entre 
em jogo qualquer diferença entre os sexos: m.ais ainda, se poderl_lOS dizer 
assim, fica apenas um sexo, que abre o cammho ao transexuahsmo por 
identidade com o Outro. 
É assim ·que Robcrt, diante das duas mamadeiras, devia esvaziá-las, 
e mc.."imo assim seu sahcr estava fora de toda divisão entre ele e eu. 
Era-lhe impossível passar do Um aos Dois, pois o gozo não contava, ou 
melhor, contava apenas como Um, e o Zero, fora do simbólic~, equivalia 
à não-existência, não apenas dele mas do Outro. Era prectso que ele 
gozasse para que o Outro exis tisse sem o Zero ne~ o conjunlo ~azio: 
ele teve de destruir realmente a segunda mamadetra e consegmu, no 
máximo, manter o Um através da vasilha cheia. 
O que não pôde ser simbolizado na sessão logo reapareceu quando 
ele se esvaziou na cama, xixi e cocô, e sua tensão insustentável desapa-
receu ao assumir ele este lugar de conjunto vazio, prefigurando assim 
o lugar de seu S
1
, em seu corpo enquanto esvaziado até a síncope, que 
ele iria encontrar alguns meses mais tarde em seu tra~amento. D?ssa 
primeira vez ele acentuou o .. faze r-se o conteúdo de seus conteudos 
corporais ... 
O sabe r apagado 
A comparação de Robert com Nadia pode nos ensinar ainda mais sobre 
o saber, como aconteceu comigo enquanto analista. 
Quando, a 5 de dezembro, ela renunciou ao objeto do Outro sobre o 
qual crispava as mãos, à altura do peito! e erp seu lugar s~rgiu .seu 
primeiro significante - .. mamãe! .. - no nivel de s, que fez, mclusJve, 
uma intimação ao Outro no sentido de comparecer neste. lugar. Estam~s, 
aqui, mais perto do significante que estava no Outro no. mslanlc antc.riOt 
e do qual ela se apropriava, criando o modelo do sigmfic~nte que la~ta 
ao Outro, S(~), modelo de verdade, mas não saber. O obJelo que ca•. e 
o significante vêm aí se instalar para fazer do Outro aquele do deseJO 
marcado pela falta . 
Foi sua vez a 1 O de dezembro, de renunciar a seu objeto oral que ela 
alucinava, de~is de minha intimação repetida - ~Nadia .. - que signifi: 
cava para ela -você não está aí, no objeto onde se compraz, mas aqut 
onde falo"'. Nesse caso, tratava -se bem da transmissão de meu saber, s2. 
que lhe fiz ao chamá-la . 
44 a criança no discurso analítico 
objeto anal devido ao Outro, o que para ele era .. a ordem das coisas" 
com a qual se rejubilava pela demanda do Outro, nem por isso deixou 
de se aterrorizar diante do vazio do buraco das privadas, esse furo real 
diante do qual gritou um significante novo: .. lobo"! 
Estaria ele sinalizando, ali, a relação entre o Um e o conjunto vazio? 
Decerto. Mas seu significante .. lobo!" não remetia a um outro signifi-
cante: confundia-se com o real imediato do furo e não com alguma 
representação do conjunto vazio e sua congruência com o Zero. 
Robert, além disso, demonstrou um pouco m~is adiante no seu 
tratamento que à falta do Zero ele podia ler o Um, mas não o Dois. Nesse 
dia, fortuitamente, encontravam-se na sala de atendimento duas mama-
deiras. Então ele se lançou à destruição da segunda mamadeira, conser-
vando apenas a primeira para incluí-la na vasilha -continente onde 
empilhou, junto com ela, os pedaços de vidro do Outro, o bebê, a água 
c a areia , Ele refez, com essa vasi lha completamenle cheia, o Um, não 
o Um <io s ignificante, mas o Um no real, cuja perda do menor grão de 
areia o faz se encher de pânico. 
Destruir a segunda mamadeira 
Falei de meu saber, que implicava numa circulação do objeto entre 
Robert e o 011tro, por intermédio de meudizer. Implicava também numa 
falta ~o nível do Um. Ora, Robert me respondia por uma espécie 
inteiramente outra de saber, um saber que não estava na linguagem - já 
que, em momento algum, empregou, e nem empregaria, o significante 
-mamadeira". Este saber está no número. A resposta de Robert me 
remetia a essa espécie de saber in.contornável do qual eu deveria deduzir 
toda a estrutura para levar em conta c.<;sa presença de um objeto a mais 
nele - o pênis do pai no lugar do Nome-do-Pai. Ele o impunha a mim, 
de alguma forma . Ele me impunha es te saber, porque era um saber 
del irante, exterior a todo sujeito, ele ou eu, que eu tinha que tomar como 
um pouco de lógica, um pouco de real, como quiserem. 
Seria possível falar propriamente em mímero a propósito desse saber, 
quando o acesso ao Zero não está ali ? Hiância simbólica radical que lhe 
barra o acesso -ao Dois, não simplesmente pela impossibilidade devida 
à ausência do- Zcio, mas por uma escolha, a do gozo do objeto, um gozo 
que é -um ... não enumerável no real, um gozo que, mesmo sendo do 
sujeito, é salvaguarda do Outro. Seja como for, se não há Dois, não há 
dois sexos, mas por uma razão diversa daquela que se aplica normal-
mente. Isso significaria que só existe o Um também para o psicótico'l 
Seria estender abusivamente a fórmula quántica da scxuação do homem: 
"t:c q..x (para todo x, phi de .x) . A referência indevida ao falo cp (grande 
pontos nodais 45 
phi) assemelhando-se ao gozo, não advém, por falta de o sujeito aprce~ ­
der-se metaforicamente, isto é, numa dimensão significante da repeti· 
ção inaugural do Um e do Outro: ele .está relacionado .ao Um que é o 
Outro. O fa lo q. (grande phi) fi ca reduzido ao lugar de obJeto a,_ que deve 
ser rcslitufdo ao Outro para que este seja Um, sem que por Jsso entre 
em jogo qualquer diferença entre os sexos: m.ais ainda, se poderl_lOS dizer 
assim, fica apenas um sexo, que abre o cammho ao transexuahsmo por 
identidade com o Outro. 
É assim ·que Robcrt, diante das duas mamadeiras, devia esvaziá-las, 
e mc.."imo assim seu sahcr estava fora de toda divisão entre ele e eu. 
Era-lhe impossível passar do Um aos Dois, pois o gozo não contava, ou 
melhor, contava apenas como Um, e o Zero, fora do simbólic~, equivalia 
à não-existência, não apenas dele mas do Outro. Era prectso que ele 
gozasse para que o Outro exis tisse sem o Zero ne~ o conjunlo ~azio: 
ele teve de destruir realmente a segunda mamadetra e consegmu, no 
máximo, manter o Um através da vasilha cheia. 
O que não pôde ser simbolizado na sessão logo reapareceu quando 
ele se esvaziou na cama, xixi e cocô, e sua tensão insustentável desapa-
receu ao assumir ele este lugar de conjunto vazio, prefigurando assim 
o lugar de seu S
1
, em seu corpo enquanto esvaziado até a síncope, que 
ele iria encontrar alguns meses mais tarde em seu tra~amento. D?ssa 
primeira vez ele acentuou o .. faze r-se o conteúdo de seus conteudos 
corporais ... 
O sabe r apagado 
A comparação de Robert com Nadia pode nos ensinar ainda mais sobre 
o saber, como aconteceu comigo enquanto analista. 
Quando, a 5 de dezembro, ela renunciou ao objeto do Outro sobre o 
qual crispava as mãos, à altura do peito! e erp seu lugar s~rgiu .seu 
primeiro significante - .. mamãe! .. - no nivel de s, que fez, mclusJve, 
uma intimação ao Outro no sentido de comparecer neste. lugar. Estam~s, 
aqui, mais perto do significante que estava no Outro no. mslanlc antc.riOt 
e do qual ela se apropriava, criando o modelo do sigmfic~nte que la~ta 
ao Outro, S(~), modelo de verdade, mas não saber. O obJelo que ca•. e 
o significante vêm aí se instalar para fazer do Outro aquele do deseJO 
marcado pela falta . 
Foi sua vez a 1 O de dezembro, de renunciar a seu objeto oral que ela 
alucinava, de~is de minha intimação repetida - ~Nadia .. - que signifi: 
cava para ela -você não está aí, no objeto onde se compraz, mas aqut 
onde falo"'. Nesse caso, tratava -se bem da transmissão de meu saber, s2. 
que lhe fiz ao chamá-la . 
48 a criança no discurso analítico 
Mas ela ainda não dera o salto do espelho, o que faria a J 6 de janeiro, 
com a perda do boneco q ue ali encontrara e onde, pela primeira vez, ela 
não mais se propôs como objeto a causa do desejo do Outro, já que não 
via minha imagem. 
Onde estava meu saber, onde estava então o saber do analista, quando 
não apenas deixei de falar a Nadia da perda de seu marinheiro, mas 
também não tive a idéia de devolvê-lo a ela quando outra criança o 
apanhara? 
Estamos, ali , no ponto em que o objeto condiciona enquanto caído 
uma relação ao saber, não só do analisando que está ai, decerto, mais 
próximo do saber, mas também do analista. 
Nadia, entretanto, antes de ser a manifes tação de um saber, estava 
nas múltiplas vias, múltiplas facetas de um sujeito nas sucessivas provas 
de seufading que, para além do saber, fazia, não a revelação do objeto, 
mas um ponto de fechamento em tomo de um objeto já caído. 
O objeto- não caído para Robert - faz saber e o impõe. 
A falta de objeto em Nadia apaga o saber, na verdade um saber que 
não sabe em proveito de sua verdade; e a analista a acompanha, não 
dizendo tudo de seu saber Sz em lugar de verdade, a qual só pode ser 
semi-dita . O que significa que não devíamos reconhecer um saber sem 
tropeçar, nesse momento de concluir que lhe faz reclamar o espelho 
depois do prolongado período de sofrimento consecutivo à sua perda. 
Fronteiras 
Compreendem-se aí, entre Robert e Nadia, as fronteiras sensíveis entre 
verdade e saber, onde se mantém o discurso analftico. 
O saber tem a ver com a certeza do objeto. 
A verdade não é saber e se refere ao sujeito. 
A diferença entre os dois casos aparece ainda na resolução da holó-
frase primordial. 
Sabe-se, com efeito, que Nadia inscreveu sua trajetória inicialmente 
- coisa extraordinária! - no discurso universitário, na medida em que 
meu saber S1 , através da queda do objeto, constituía apenas um sem-
blante . Ela o sublinhou, aliás, nessa troca, quando de um último encon:-
tro com o espelho, de um objeto metonímico: a colher que ela duplicava 
e repartia, uma para ela, uma para mim, antes de fazê-la cair sob a barra 
e promover seu primeiro significante de objeto: "colher". Tudo estava 
pronto, nesse semblante, para que ela passasse do discurso universitário 
ao discurso analftico, num progresso, diz Lacan, no qual se propunha a 
si mesma como agente, objeto causa do desejo do Outro enquanto 
semblante de a, e não enquanto objeto do gozo do Outro no horror. 
pontos nodais 47 
Então, o que era apenas semblante, meu saber S2, pôde particip~ de sua 
verdade no Outro, mediante o lugar que ocupava neste novo dtscurso. 
Para Robert, na psicose, a ausência da queda do objeto a não cons ti-
tufa no entanto ausência de objeto - como provou Robert, quando lhe 
tiravam o avental ao deitar-se e ele entrava numa crise terrível: a 
separação de seu objeto-avental punha em perigo sua existência. 
O sujeito psicótico é presa, não do mais-gozar que surge .para além 
do semblante, mas dirçtamente deste gozo. Este gozo que o amma, como 
se viu, é a única prova da existência tanto dele mesmo c?mo do Outro. 
Sem esse gozo, nos diz Schreber, seu Deus se retira e detxa -o entregue 
aos gritos de desespero. 
Haverá um saber nesse gozo? Sim, na medida em que o saber do 
psicótico não passa de gozo do seu Outro, que só está presente pelo gozo 
que lhe é devido. O saber deste Outro não é semblante , mas s~per~u, 
comando. O saber desse Outro não descompletado, que o ps tcóuco 
criou, ao qual o objeto a é devido no horror, toma o lugar da verdade 
em toda lógica, já que foi o ps icótico quem o promoveu a este lugar. 
Os dois Um 
Como é que este gozo faz Um? Ele faz o Um pelo corpo, porque o corpo, 
isso goza . Pelo lado da linguagem, se a oposição homem -mulher e~barra 
num impasse quanto ao matema da relação sexual - porque o pnmado 
fálico faz com que não haja dois sexos - há o Um, mas o Um do 
s ignificante. O Um do gozo está· num impass~ simbóJi~o e opos:oà 
primazia fática: ele faz o Um no real do ser, seja como dtz Artaud faz 
deles um um-, seja acoitando-o sobre si mesmo num auto-engendra-
mento, como diz Schreber. 
A psicose não coloca relação sexual : ela coloca a nec~ssida~e do Um 
do gozo, a ponto de Robert, diante das duas mamad~tra~, nao poder 
repartir o gozo entte ele e o Outro. Não pode haver at dots gozos, do 
Outro e do Um: todo redobramento mata o gozo e anula a existência. 
Ao contrário, viu-se Nadia, com suas colheres, reparti-las antes de 
anulá-las, para atingir o significante .. colher ... 
Aí está toda a diferença entre o gozo enquanto única relação com o 
corpo e o gozo do qual apenas a palavra assegura a dimensão de verdade: 
Tudo se opõe entre a linguagem, que dá acesso ao Zero e ao Um, a 
gênese lógica do Dois - pois Zero e Um fazem Do is, com a exceção 
fundadora, no entanto, da lógica do ~ao-menos-Um .. edípico - ,e o real 
extra-simbólico do número, antes da linguagem, onde se desenvolve o 
gozo da estrutura psicótica. 
48 a criança no discurso analítico 
Mas ela ainda não dera o salto do espelho, o que faria a J 6 de janeiro, 
com a perda do boneco q ue ali encontrara e onde, pela primeira vez, ela 
não mais se propôs como objeto a causa do desejo do Outro, já que não 
via minha imagem. 
Onde estava meu saber, onde estava então o saber do analista, quando 
não apenas deixei de falar a Nadia da perda de seu marinheiro, mas 
também não tive a idéia de devolvê-lo a ela quando outra criança o 
apanhara? 
Estamos, ali , no ponto em que o objeto condiciona enquanto caído 
uma relação ao saber, não só do analisando que está ai, decerto, mais 
próximo do saber, mas também do analista. 
Nadia, entretanto, antes de ser a manifes tação de um saber, estava 
nas múltiplas vias, múltiplas facetas de um sujeito nas sucessivas provas 
de seufading que, para além do saber, fazia, não a revelação do objeto, 
mas um ponto de fechamento em tomo de um objeto já caído. 
O objeto- não caído para Robert - faz saber e o impõe. 
A falta de objeto em Nadia apaga o saber, na verdade um saber que 
não sabe em proveito de sua verdade; e a analista a acompanha, não 
dizendo tudo de seu saber Sz em lugar de verdade, a qual só pode ser 
semi-dita . O que significa que não devíamos reconhecer um saber sem 
tropeçar, nesse momento de concluir que lhe faz reclamar o espelho 
depois do prolongado período de sofrimento consecutivo à sua perda. 
Fronteiras 
Compreendem-se aí, entre Robert e Nadia, as fronteiras sensíveis entre 
verdade e saber, onde se mantém o discurso analftico. 
O saber tem a ver com a certeza do objeto. 
A verdade não é saber e se refere ao sujeito. 
A diferença entre os dois casos aparece ainda na resolução da holó-
frase primordial. 
Sabe-se, com efeito, que Nadia inscreveu sua trajetória inicialmente 
- coisa extraordinária! - no discurso universitário, na medida em que 
meu saber S1 , através da queda do objeto, constituía apenas um sem-
blante . Ela o sublinhou, aliás, nessa troca, quando de um último encon:-
tro com o espelho, de um objeto metonímico: a colher que ela duplicava 
e repartia, uma para ela, uma para mim, antes de fazê-la cair sob a barra 
e promover seu primeiro significante de objeto: "colher". Tudo estava 
pronto, nesse semblante, para que ela passasse do discurso universitário 
ao discurso analftico, num progresso, diz Lacan, no qual se propunha a 
si mesma como agente, objeto causa do desejo do Outro enquanto 
semblante de a, e não enquanto objeto do gozo do Outro no horror. 
pontos nodais 47 
Então, o que era apenas semblante, meu saber S2, pôde particip~ de sua 
verdade no Outro, mediante o lugar que ocupava neste novo dtscurso. 
Para Robert, na psicose, a ausência da queda do objeto a não cons ti-
tufa no entanto ausência de objeto - como provou Robert, quando lhe 
tiravam o avental ao deitar-se e ele entrava numa crise terrível: a 
separação de seu objeto-avental punha em perigo sua existência. 
O sujeito psicótico é presa, não do mais-gozar que surge .para além 
do semblante, mas dirçtamente deste gozo. Este gozo que o amma, como 
se viu, é a única prova da existência tanto dele mesmo c?mo do Outro. 
Sem esse gozo, nos diz Schreber, seu Deus se retira e detxa -o entregue 
aos gritos de desespero. 
Haverá um saber nesse gozo? Sim, na medida em que o saber do 
psicótico não passa de gozo do seu Outro, que só está presente pelo gozo 
que lhe é devido. O saber deste Outro não é semblante , mas s~per~u, 
comando. O saber desse Outro não descompletado, que o ps tcóuco 
criou, ao qual o objeto a é devido no horror, toma o lugar da verdade 
em toda lógica, já que foi o ps icótico quem o promoveu a este lugar. 
Os dois Um 
Como é que este gozo faz Um? Ele faz o Um pelo corpo, porque o corpo, 
isso goza . Pelo lado da linguagem, se a oposição homem -mulher e~barra 
num impasse quanto ao matema da relação sexual - porque o pnmado 
fálico faz com que não haja dois sexos - há o Um, mas o Um do 
s ignificante. O Um do gozo está· num impass~ simbóJi~o e opos:o à 
primazia fática: ele faz o Um no real do ser, seja como dtz Artaud faz 
deles um um-, seja acoitando-o sobre si mesmo num auto-engendra-
mento, como diz Schreber. 
A psicose não coloca relação sexual : ela coloca a nec~ssida~e do Um 
do gozo, a ponto de Robert, diante das duas mamad~tra~, nao poder 
repartir o gozo entte ele e o Outro. Não pode haver at dots gozos, do 
Outro e do Um: todo redobramento mata o gozo e anula a existência. 
Ao contrário, viu-se Nadia, com suas colheres, reparti-las antes de 
anulá-las, para atingir o significante .. colher ... 
Aí está toda a diferença entre o gozo enquanto única relação com o 
corpo e o gozo do qual apenas a palavra assegura a dimensão de verdade: 
Tudo se opõe entre a linguagem, que dá acesso ao Zero e ao Um, a 
gênese lógica do Dois - pois Zero e Um fazem Do is, com a exceção 
fundadora, no entanto, da lógica do ~ao-menos-Um .. edípico - ,e o real 
extra-simbólico do número, antes da linguagem, onde se desenvolve o 
gozo da estrutura psicótica. 
a criança no discurso analítico 
Eis o Um que não é aquele do mito de Eros, caro a Freud, a menos 
que não se considere a identidade do Um e do Outro e se deslize, como 
diz Lacan, em direção a um ~horizonte de deJirio .. , que confunde a 
questão do Um com a do .. ao-menos-Um .. da fórmula quântíca do Pai . 
O -ao-menos-Um" se escreve, como sabem, 3x $,t (existe um x para 
o qual não-phi de .x). Para Lacan, existe ali apenas uma necessidade 
lógica -que só se impõe no nível de uma aposta'". É a exceção que 
conflnna a regra, a regra universal que quer que 'r:/x cj>x (para todo x, phi 
de x), para todo homem cj>x , todo homem é servo da função fática. 
Para o femin ino, é do lado do universal que um quantificador novo, 
-não toda .. exclui a existência d"-A mulher", e vem marcar a divisão do 
-ser-mulher" ao mesmo tempo que, na particular 3x qu (não exis te x 
para o qual não-phi de x) testemunha-se que nenhuma mulher poderia 
ser castrada . 
Na psicose c no delírio também, como se viu, há o Um. É m esmo a 
única fonna de existência que resta ao psicótico, e para o seu Outro, 
tanto como para ele, já que ele se situa fora do simbólico. Ele chega a 
se fazer a caução desse Um de seu Outro para que este outro exista 
enquanto não marcado pela falta. 
É o gozo que é a garantia desse Outro não descompletado: ele afe ta 
o sujeito ao mesmo tempo em que é devido ao Outro. 
"Um Pai" 
O simbólico normalmente priva o sujeito de um saber e funda a existên-
cia sobre um não·-saber. O saber cai, com efeito, no furo do simbólico. 
Fora do s imbólico, o saber se manifesta no real. Há saber no real, 
seja, como mostra Robcrt, no significante puro -senhora .. , ou na muti-
lação de seu pênis, que não é tanto devido ao Outro quanto excluído de 
uma dialética propriamente sexual. 
Quando o gozo cobre todo o campo da relação com o Outro, isso 
exclui que haja -ao-menos-Um" que não seja assujeitado à função 
fáJica, ou à sua parte de go1.o. que é recolhidapelo grande cjl, quando o 
Outro é desembaraçado desse gozo. Se não o for, ele o drena todo e o 
grande 4> não advém em seu lugar central, e são todos os outros objetos, 
os ohjetos a que vêm para o primeiro plano da cena e são o seu canal, 
em vez de caírem: sej a o excremento, a voz, ou o olhar. Quanto ao seio, 
objeto mais primordial em relação à incorporação, é a seu nível que se 
pode compreender, como se viu na comparação entre Nadia e Robert, a 
mutação do real em significante na primeira, que não se faz no segundo, 
deixando o objeto na posição, não de causa do desejo, mas sim de um 
impossível traumático. 
pontos nodais 
O trauma implica a incorporação do um-a-mais, mas também na 
morte do Outro que é afetado e deixa de ser todo realmente, à falta de 
que o Zero possa subsumir simbolicamente sua não-existência pelo 
conjunto vazio. 
Se o corte faz o Qbjeto separável, é sobre o corpo do psicótico, por 
ele não ter podido retirar do Outro o objeto primordial, o seio, antes que 
este caia - daí a preeminência do objeto anal que o psicótico deve e dá 
ao Outro, já que é nonnalmente o objeto da demanda d~ste. 
Nessas condições, o pênis-órgão se acrescenta à hsta dos o utros 
objetos e funcio na como tal, isto é, deve ser restituído ao Outro como 
todos os outros objetos (A + a). 
Não é, pois, enquanto falo que o pênis entra em jogo, nem sobre o 
corpo do Um ou do Outro, nem como fator fundamental da sexuação. 
Deus, para Schreber, não tem aliás atributos genitais e Rober.t, pelo dom 
da mamadeira que tenta fazer ao Outro, mostra a mesma cotsa. 
O transexualismo é a tentativa de se fazer o Outro livre do falo. O 
registro demasiadamente real no qual o psicótico prossegue seu debate 
faz com que se possa escrever a fórmula quântica do Pai, invertendo-a: 
de 3x ~ (existe Um X para O qual não-phi de X) para 3..r ~ (não existe 
um só x para o qual phi de x). 
Não apenas deve o psicótico se desembaraçar do objeto a mais 
confonnando-se a ele, mas se, como Robert durante sua análise, e le 
encontra alguma coisa do pai, é sob a fonna do .. pênis que dá leite", ou 
seja, 3x (a)x (existe um x para o qual a de x), fónnula ímplican~o no 
objeto não caído em lugar de phi, que se toma um falso a e o Pat sob 
forma de -um Pai., em lugar do Nome-do-Pai. Pode-se ainda apontar aí 
a função do Um enquanto totalidade e não enquanto contável como no 
~ao-menos-Um". 
O pai do psicótico é, então, reduzido ao objeto-pênis. É isso que o 
psicótico incorporou e do que deve se livrar. No máximo, ele .afeta o 
Outro sob a forma de um objeto a não caído, excluindo o desejo, mas 
recaindo sob esta lei implacável do Outro não barrado, não descomple-
tado e dispcnsador do supereu. 
O real impõe ao psicótico um saber, um saber de totalidade que toma 
o lugar da sua verdade. Se ela só pode ser semi-dita, por causa do 
simbólico, ele não tem acesso a ela. 
Tal é um dos aspectos lógicos da Verwerfung do Nome-do-Pai, com 
um excesso de saber que a ela se liga , podendo causar ilusão. 
a criança no discurso analítico 
Eis o Um que não é aquele do mito de Eros, caro a Freud, a menos 
que não se considere a identidade do Um e do Outro e se deslize, como 
diz Lacan, em direção a um ~horizonte de deJirio .. , que confunde a 
questão do Um com a do .. ao-menos-Um .. da fórmula quântíca do Pai . 
O -ao-menos-Um" se escreve, como sabem, 3x $,t (existe um x para 
o qual não-phi de .x). Para Lacan, existe ali apenas uma necessidade 
lógica -que só se impõe no nível de uma aposta'". É a exceção que 
conflnna a regra, a regra universal que quer que 'r:/x cj>x (para todo x, phi 
de x), para todo homem cj>x , todo homem é servo da função fática. 
Para o femin ino, é do lado do universal que um quantificador novo, 
-não toda .. exclui a existência d"-A mulher", e vem marcar a divisão do 
-ser-mulher" ao mesmo tempo que, na particular 3x qu (não exis te x 
para o qual não-phi de x) testemunha-se que nenhuma mulher poderia 
ser castrada . 
Na psicose c no delírio também, como se viu, há o Um. É m esmo a 
única fonna de existência que resta ao psicótico, e para o seu Outro, 
tanto como para ele, já que ele se situa fora do simbólico. Ele chega a 
se fazer a caução desse Um de seu Outro para que este outro exista 
enquanto não marcado pela falta. 
É o gozo que é a garantia desse Outro não descompletado: ele afe ta 
o sujeito ao mesmo tempo em que é devido ao Outro. 
"Um Pai" 
O simbólico normalmente priva o sujeito de um saber e funda a existên-
cia sobre um não·-saber. O saber cai, com efeito, no furo do simbólico. 
Fora do s imbólico, o saber se manifesta no real. Há saber no real, 
seja, como mostra Robcrt, no significante puro -senhora .. , ou na muti-
lação de seu pênis, que não é tanto devido ao Outro quanto excluído de 
uma dialética propriamente sexual. 
Quando o gozo cobre todo o campo da relação com o Outro, isso 
exclui que haja -ao-menos-Um" que não seja assujeitado à função 
fáJica, ou à sua parte de go1.o. que é recolhida pelo grande cjl, quando o 
Outro é desembaraçado desse gozo. Se não o for, ele o drena todo e o 
grande 4> não advém em seu lugar central, e são todos os outros objetos, 
os ohjetos a que vêm para o primeiro plano da cena e são o seu canal, 
em vez de caírem: sej a o excremento, a voz, ou o olhar. Quanto ao seio, 
objeto mais primordial em relação à incorporação, é a seu nível que se 
pode compreender, como se viu na comparação entre Nadia e Robert, a 
mutação do real em significante na primeira, que não se faz no segundo, 
deixando o objeto na posição, não de causa do desejo, mas sim de um 
impossível traumático. 
pontos nodais 
O trauma implica a incorporação do um-a-mais, mas também na 
morte do Outro que é afetado e deixa de ser todo realmente, à falta de 
que o Zero possa subsumir simbolicamente sua não-existência pelo 
conjunto vazio. 
Se o corte faz o Qbjeto separável, é sobre o corpo do psicótico, por 
ele não ter podido retirar do Outro o objeto primordial, o seio, antes que 
este caia - daí a preeminência do objeto anal que o psicótico deve e dá 
ao Outro, já que é nonnalmente o objeto da demanda d~ste. 
Nessas condições, o pênis-órgão se acrescenta à hsta dos o utros 
objetos e funcio na como tal, isto é, deve ser restituído ao Outro como 
todos os outros objetos (A + a). 
Não é, pois, enquanto falo que o pênis entra em jogo, nem sobre o 
corpo do Um ou do Outro, nem como fator fundamental da sexuação. 
Deus, para Schreber, não tem aliás atributos genitais e Rober.t, pelo dom 
da mamadeira que tenta fazer ao Outro, mostra a mesma cotsa. 
O transexualismo é a tentativa de se fazer o Outro livre do falo. O 
registro demasiadamente real no qual o psicótico prossegue seu debate 
faz com que se possa escrever a fórmula quântica do Pai, invertendo-a: 
de 3x ~ (existe Um X para O qual não-phi de X) para 3..r ~ (não existe 
um só x para o qual phi de x). 
Não apenas deve o psicótico se desembaraçar do objeto a mais 
confonnando-se a ele, mas se, como Robert durante sua análise, e le 
encontra alguma coisa do pai, é sob a fonna do .. pênis que dá leite", ou 
seja, 3x (a)x (existe um x para o qual a de x), fónnula ímplican~o no 
objeto não caído em lugar de phi, que se toma um falso a e o Pat sob 
forma de -um Pai., em lugar do Nome-do-Pai. Pode-se ainda apontar aí 
a função do Um enquanto totalidade e não enquanto contável como no 
~ao-menos-Um". 
O pai do psicótico é, então, reduzido ao objeto-pênis. É isso que o 
psicótico incorporou e do que deve se livrar. No máximo, ele .afeta o 
Outro sob a forma de um objeto a não caído, excluindo o desejo, mas 
recaindo sob esta lei implacável do Outro não barrado, não descomple-
tado e dispcnsador do supereu. 
O real impõe ao psicótico um saber, um saber de totalidade que toma 
o lugar da sua verdade. Se ela só pode ser semi-dita, por causa do 
simbólico, ele não tem acesso a ela. 
Tal é um dos aspectos lógicos da Verwerfung do Nome-do-Pai, com 
um excesso de saber que a ela se liga , podendo causar ilusão. 
Sobre o semblante e o objetoa 
Rosine Lefort 
Por que esse tenno, -semblante'"? 
Quando Lacan o coloca no próprio título de seu Seminário, - D 'un 
discours qui ne serait pas du semblant .. (Sobre um discurso que não 
seria semblante), instala o fundamento do que será a clínica do real. O 
semblante, com efeito, é o parecer que se opõe ao real. Esta oposição 
léxica é bem insuficiente para demarcar a torção entre os dois discursos: 
o do Mestre, cujo agente é S., e o da psicanálise, cujo agente é a. É no 
nível desse discurso que se faz a passagem do significante ao objeto, do 
semblante ao real. 
O semblante é o significante em si mesmo. Não há outra via para 
a verdade quando ela fala -eu (je) ... O semblante é a função primária da 
verdade, e é por isso que ela tem uma estrutura de ficção, diz Lacan. 
O discurso, qualquer que seja ele, implica sempre no objeto a: 
notadamente, o discurso do Mestre o produz, e o discurso do analista 
faz dele o seu agente .. É nesse sentido, através dessa presença do objeto, 
que se pode falar de clínica do real, e mesmo de uma clínica do gozo. 
Se o inconsciente, diz Lacan, é a emergência de uma certa função do 
significante no principio do semblante, um discurso será sempre centra-
do num impossfvel, a saber, o objeto, o ~mais-goza.r ... 
Eis por que, hoje, interrogando a criança e o semblante, mutatis 
mutimdis , estaremos igualmente interrogando a relação da criança com 
o discurso analítico, como anuncia o próprio. título do Cereda. 
Os dois tempos do significante 
Onde irá a criança encontrar, de forma privilegiada, o objeto como impos-
sível, como real que se recusa, senão em seu encontro com o espelho? 
Quando Nadia1 reclamou o espelho, era legítimo perguntar-se se era 
sua imagem - da qual ela tinha forçosamente a e~periêncía - que 
I Vamos enconenr o relato da aúlise de Nadia ena Noissonc~ ck I 'AIIIT~. de Robert e Rosiuc 
Lefort, Seuil, 1980. 
50 
pontos nodais 51 
reclamava, e não mais o objeto que a completava, seu marinheiro. Por 
que iria ela buscá-lo no espelho, quani:lo o tinha na mão? É que, para 
ela, o objeto já não era apenas um simples -estar-aí", mas já h~ m~is 
de um mês em sua análise que estava marcado por seu carater mattn-
gível de objeto caído. . _ . . 
Foi, com efeito, a 5 de dezembro que ela fez a expenencta dtsso, 
quando, crispando as mãos sobre meu peito, sua tensão di:'nt~ do 
impossível de retirar o objeto do Outro, resolveu-se na eme.rge;'lcla de 
seu primeiro significante - -mamãe!" - Se naquele dia o stgnifica~te 
foi resolutivo, como significante primário S" que não era desprovido 
de gozo, nem por isso ela deixou de sofrer o golpe da per~ do objeto 
real. O único ganho que tirou disso é sua entrada no significante, por 
um salto que a fez passar do objeto ao S., que faz modelo para a 
metonímia e faz lugar de significante ao objeto na medida em que ele 
permanecer, ainda que caído, no horizonte de um .. mais-gozar.,·. 
Nadia o provou, cinco dias mais tarde, quando reintroduztu este 
objeto na cena da enfenneira com a criança no colo. Ela o reintroduziu 
sob a forma mais fundamental possível: alucinava-o como mostravam 
seus movimentos de sucção. Meu apelo reiterado- ~Nadia!" -:- fez Sll 
que teve o mesmo efeito de seu S17 o de fazer cair o objeto. 
A queda do objeto é aperfeiçoada nessa sucessão de significantes do par 
inicial S1-S2: o S1 se referia a seu objeto no Outro, mas ao mesmo tempo a 
representava, enquanto deixava o Outro ser o titular deste objeto; meu 
apelo, S
2
, priva-a deste objeto que ela alucinava no Outro e ao mesmo 
tempo priva o Outro desse objeto, dotando~, assim, de uma barra. 
Vêem·se aqui os dois tempos cb entrada no significante: o S., que 
representa o sujeito enquanto significante para ~m. outro signifi~nt~, 
está de alguma maneira à espera deste segundo s1gntficante. Este stgnt-
ficante binário, este, vem do Outro e apaga o significante primário. Ele 
só pôde fazê-lo porque Nadia voltara ao objeto caído, e o repre-
sentificara pela alucinação. Dessa maneira ela mostrou como, pela 
alucinação, pôde tentar conservar o ~gozo-a-mais" em seu S, e como 
meuS fez cair o objeto ao mesmo tempo que seus •. Esse Sl, certamente, 
tinha ~oz de comando: era ele que lhe impunha estar lá onde eu falava 
e não no lugar onde ela alucinava o objeto. Eis por que o S) faz recalque 
originário. . 
Momento crucial que funda o sujeito, arrancando-o ao real do -maiS-
gozar .. e instaurando-o no semblante, .mas também no desejo, indestru-
tível porque ligado ao objeto que caiu e faz falta. 
Mais-gozar e sêmblante 
A seqüência, já se sabe, é a repetição. A repetição. diz Lacan, vai contra 
o princípio de prazer, que não se destaca dela. 
Sobre o semblante e o objeto a 
Rosine Lefort 
Por que esse tenno, -semblante'"? 
Quando Lacan o coloca no próprio título de seu Seminário, - D 'un 
discours qui ne serait pas du semblant .. (Sobre um discurso que não 
seria semblante), instala o fundamento do que será a clínica do real. O 
semblante, com efeito, é o parecer que se opõe ao real. Esta oposição 
léxica é bem insuficiente para demarcar a torção entre os dois discursos: 
o do Mestre, cujo agente é S., e o da psicanálise, cujo agente é a. É no 
nível desse discurso que se faz a passagem do significante ao objeto, do 
semblante ao real. 
O semblante é o significante em si mesmo. Não há outra via para 
a verdade quando ela fala -eu (je) ... O semblante é a função primária da 
verdade, e é por isso que ela tem uma estrutura de ficção, diz Lacan. 
O discurso, qualquer que seja ele, implica sempre no objeto a: 
notadamente, o discurso do Mestre o produz, e o discurso do analista 
faz dele o seu agente .. É nesse sentido, através dessa presença do objeto, 
que se pode falar de clínica do real, e mesmo de uma clínica do gozo. 
Se o inconsciente, diz Lacan, é a emergência de uma certa função do 
significante no principio do semblante, um discurso será sempre centra-
do num impossfvel, a saber, o objeto, o ~mais-goza.r ... 
Eis por que, hoje, interrogando a criança e o semblante, mutatis 
mutimdis , estaremos igualmente interrogando a relação da criança com 
o discurso analítico, como anuncia o próprio. título do Cereda. 
Os dois tempos do significante 
Onde irá a criança encontrar, de forma privilegiada, o objeto como impos-
sível, como real que se recusa, senão em seu encontro com o espelho? 
Quando Nadia1 reclamou o espelho, era legítimo perguntar-se se era 
sua imagem - da qual ela tinha forçosamente a e~periêncía - que 
I Vamos enconenr o relato da aúlise de Nadia ena Noissonc~ ck I 'AIIIT~. de Robert e Rosiuc 
Lefort, Seuil, 1980. 
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pontos nodais 51 
reclamava, e não mais o objeto que a completava, seu marinheiro. Por 
que iria ela buscá-lo no espelho, quani:lo o tinha na mão? É que, para 
ela, o objeto já não era apenas um simples -estar-aí", mas já h~ m~is 
de um mês em sua análise que estava marcado por seu carater mattn-
gível de objeto caído. . _ . . 
Foi, com efeito, a 5 de dezembro que ela fez a expenencta dtsso, 
quando, crispando as mãos sobre meu peito, sua tensão di:'nt~ do 
impossível de retirar o objeto do Outro, resolveu-se na eme.rge;'lcla de 
seu primeiro significante - -mamãe!" - Se naquele dia o stgnifica~te 
foi resolutivo, como significante primário S" que não era desprovido 
de gozo, nem por isso ela deixou de sofrer o golpe da per~ do objeto 
real. O único ganho que tirou disso é sua entrada no significante, por 
um salto que a fez passar do objeto ao S., que faz modelo para a 
metonímia e faz lugar de significante ao objeto na medida em que ele 
permanecer, ainda que caído, no horizonte de um .. mais-gozar.,·. 
Nadia o provou, cinco dias mais tarde, quando reintroduztu este 
objeto na cena da enfenneira com a criança no colo. Ela o reintroduziu 
sob a forma mais fundamental possível: alucinava-o como mostravam 
seus movimentos de sucção. Meu apelo reiterado- ~Nadia!" -:- fez Sll 
que teve o mesmo efeito de seu S17 o de fazer cair o objeto. 
A queda do objeto é aperfeiçoada nessa sucessãode significantes do par 
inicial S1-S2: o S1 se referia a seu objeto no Outro, mas ao mesmo tempo a 
representava, enquanto deixava o Outro ser o titular deste objeto; meu 
apelo, S
2
, priva-a deste objeto que ela alucinava no Outro e ao mesmo 
tempo priva o Outro desse objeto, dotando~, assim, de uma barra. 
Vêem·se aqui os dois tempos cb entrada no significante: o S., que 
representa o sujeito enquanto significante para ~m. outro signifi~nt~, 
está de alguma maneira à espera deste segundo s1gntficante. Este stgnt-
ficante binário, este, vem do Outro e apaga o significante primário. Ele 
só pôde fazê-lo porque Nadia voltara ao objeto caído, e o repre-
sentificara pela alucinação. Dessa maneira ela mostrou como, pela 
alucinação, pôde tentar conservar o ~gozo-a-mais" em seu S, e como 
meuS fez cair o objeto ao mesmo tempo que seus •. Esse Sl, certamente, 
tinha ~oz de comando: era ele que lhe impunha estar lá onde eu falava 
e não no lugar onde ela alucinava o objeto. Eis por que o S) faz recalque 
originário. . 
Momento crucial que funda o sujeito, arrancando-o ao real do -maiS-
gozar .. e instaurando-o no semblante, .mas também no desejo, indestru-
tível porque ligado ao objeto que caiu e faz falta. 
Mais-gozar e sêmblante 
A seqüência, já se sabe, é a repetição. A repetição. diz Lacan, vai contra 
o princípio de prazer, que não se destaca dela. 
52 a criança no discurso analítico 
O pequeno sujeito, ele mesmo, tem bastante dificuldade para se 
destacar, como mostrou Nadia durante o mês que se seguiu, e que a 
separava de seu encontro com o espelho. Era no sofrimento e na 
depressão que ela tentava ao mesmo tempo conservar o objeto e seu 
O~tro. Ela voltou ao menos uma vez - por regressão, poderíamos dizer 
- a tomada da mamadeira no meu colo, ali reencontrando o prazer e seu 
princípio, por uma satisfação ao mesmo tempo da necessidade e de um 
Outro à disposição, portador do objeto. Mas o que tinha ela a ver com 
este o~jeto. real, este .. mais-gozar .. ? - pois ele já caíra, o que o tomara 
um objeto tmpossfvel, impossível de enc~ntrar enquanto tal, já que ela 
ali perderia seu Outro no aniquilamento de sua demanda. E é por isso 
que, no dia ~eguinte àquele em que tomara essa mamadeira, ela jogou 
fora esse objeto. 
Este objeto do qual o Outro era portador fazia a presença deste Outro; 
a recusa e a destruição deste objeto fez com que ela não tivesse mais 
Outro fora da presença real deste: ne1.11um .. carretel .. podia ainda devol-
vê-lo. 
Então, é de seu próprio corpo que ela extraia o representante do 
Outro, sob a forma do cocô com o qual se lambuzava, e que comia. 
Entrada em jogo, certamente, de um real que não era semblante, mas 
que preparava, pode-se dizer, o caminho para o semblante pela nova 
topologia de corpo que se instaurara - ou pelo menos que se demonstrara 
nesse momento: a de uma garrafa de Klein, cuja superfície unilátera 
punha em continuidade o exterior e o interior do corpo, mas também 
preparava a estrutura furada deste corpo, estrutura de borda onde se 
refugiava o gozo, já que só há furo em superfície. 
O semblante do significante do Outro deixa todo lugar aqui àquílo 
que, no corpo, não é semblante já' que ele ali se encama. É assim que 
vão coexistir o .. mais-gozar" que faz corpo e o semblante que faz o 
Outro. 
A junção já se fez entre os dois, para Nadia, naquele dia 1 O de 
dezembro, quando renunciou ao objeto alucinado para, não sem um certo 
s~sto, ~e estender metonimicamente o pé em resposta ao meu apelo, e 
stmetrtcamente mexer em meu anel antes de repetir seu .. mamãe"! 
Nadia demonstrava aí que o suporte do .. mais-gozar .. é a metonímia. 
Ficou aberto o caminl:lo para que ela se propusesse, a 16 de janeiro, 
como objeto caído a meus pés para que eu a apanhasse, e para que a esta 
questão, que me era assim colocada por ela, eu respondesse que ela me 
faltava . 
Mas a questão já não era mais estritamente dual, uma vez que uma 
?erta _necessidade se fez sentir para ela, que reclamava o espelho para 
1r v~rtficar ~ue seu objeto, o marinheiro, a completava assim como ela, 
Nadta, podta me completar. E vivenciava o desapontamento de só 
pontos nodais 53 
encontrar sua imagem isolada, sem a do marinheiro, nem a minha. O 
marinheiro ela não iria encontrar na medida em que ele eslava realmente 
no lugar do objeto perdido, e a simetria que ela esperava com o Outro 
e seu objeto não adviria . Em seu lugar, nos espelhos que se seguiram, 
viriam inicialmente a imagem dela mesma nos braços do Outro, e depois 
a imagem isolada do outro, isto é, sem objeto. 
Nos três primeiros espelhos, Nadia retomou assim séu trajeto entre 
o que é real e o que não é, pelo viés, propriamente dito, do especular: o 
mais-gozar não é especularizável e o espelho tem uma função de 
semblante. Isso não é dizer pouco, pois que esta é a via do desejo do 
Outro; ela passa, essa via, de i(a) - embora i(a) não seja apreensível 
pelo sujeito de outra maneira a não·ser que no olhar do Outro matemo 
- a i '(a) , imagem virtual desrealizada onde o sujeito se compraz no 
recorte unitário de seu corpo sob o olhar do Outro - isto é, no sentido 
próprio, recortando sua imagem i(a) no olhar do Outro para encontrar 
no espelho sua imagem i '(a ) onde, ao voltar-se para o Outro, ela 
encontra o desejo do Outro. Neste momento, .. o mais puro momento .. , 
diz Lacan, o semblante faz lugar para o real no nível do Outro. 
O apagamento do Outro enquanto espelho, segundo a montagem da 
ligura 3 do esquema ótico, é representado fazendo-se girar este espelho 
do Outro em 90° para ser horizontal. Sabe-se que então i ' (a) deixa toda 
sua virtualidade para vir, sob i(a), em simetria, como a árvore à beira 
d'água e suas -raízes de sonho" .. . Raf1.cs de sooho, o que será isso, se-
não a lembrança daquilo que foi o primeiro objeto enquanto alucinado? 
É ainda, na metonímia do espelho, encontrar o suporte do mais-got..ar. 
É, portanto, no espelho, e apenas no espelho, que podem se conjugar 
o significante do desejo do Outro e o objeto caído como mais -gozar que 
causa o desejo enquanto faltoso. É pelo espelho que o sujeito vai 
assumir esse lugar de objeto-causa, pois ele não tem outra substância, 
ao mesmo tempo em que se mantém no significante, onde se sabe o 
quanto sua subslância é precária, e mais próxima do vazio do que de 
uma substância, mesmo significante. 
É o espelho que lhe dá seu verdadeiro lugar, o de semblante de a. 
Densidade real do significante 
É um semelhante lugar que fracassa na psicose, como mostra o Menino 
do Lobo2• Para ele, o efeito, seja na vertente do significante seja na do 
objeto, isso claudica. 
2 Cf. R. e R. Lefon, ús Structures tk la psychose. Paris, Seuil , 1988. 
52 a criança no discurso analítico 
O pequeno sujeito, ele mesmo, tem bastante dificuldade para se 
destacar, como mostrou Nadia durante o mês que se seguiu, e que a 
separava de seu encontro com o espelho. Era no sofrimento e na 
depressão que ela tentava ao mesmo tempo conservar o objeto e seu 
O~tro. Ela voltou ao menos uma vez - por regressão, poderíamos dizer 
- a tomada da mamadeira no meu colo, ali reencontrando o prazer e seu 
princípio, por uma satisfação ao mesmo tempo da necessidade e de um 
Outro à disposição, portador do objeto. Mas o que tinha ela a ver com 
este o~jeto. real, este .. mais-gozar .. ? - pois ele já caíra, o que o tomara 
um objeto tmpossfvel, impossível de enc~ntrar enquanto tal, já que ela 
ali perderia seu Outro no aniquilamento de sua demanda. E é por isso 
que, no dia ~eguinte àquele em que tomara essa mamadeira, ela jogou 
fora esse objeto. 
Este objeto do qual o Outro era portador fazia a presença deste Outro; 
a recusa e a destruição deste objeto fez com que ela não tivesse mais 
Outro fora da presença real deste: ne1.11um .. carretel .. podia ainda devol-
vê-lo. 
Então, é de seu próprio corpo que ela extraia o representante do 
Outro, sob a forma do cocô com o qual se lambuzava, e que comia. 
Entrada em jogo, certamente, de um real que não era semblante,mas 
que preparava, pode-se dizer, o caminho para o semblante pela nova 
topologia de corpo que se instaurara - ou pelo menos que se demonstrara 
nesse momento: a de uma garrafa de Klein, cuja superfície unilátera 
punha em continuidade o exterior e o interior do corpo, mas também 
preparava a estrutura furada deste corpo, estrutura de borda onde se 
refugiava o gozo, já que só há furo em superfície. 
O semblante do significante do Outro deixa todo lugar aqui àquílo 
que, no corpo, não é semblante já' que ele ali se encama. É assim que 
vão coexistir o .. mais-gozar" que faz corpo e o semblante que faz o 
Outro. 
A junção já se fez entre os dois, para Nadia, naquele dia 1 O de 
dezembro, quando renunciou ao objeto alucinado para, não sem um certo 
s~sto, ~e estender metonimicamente o pé em resposta ao meu apelo, e 
stmetrtcamente mexer em meu anel antes de repetir seu .. mamãe"! 
Nadia demonstrava aí que o suporte do .. mais-gozar .. é a metonímia. 
Ficou aberto o caminl:lo para que ela se propusesse, a 16 de janeiro, 
como objeto caído a meus pés para que eu a apanhasse, e para que a esta 
questão, que me era assim colocada por ela, eu respondesse que ela me 
faltava . 
Mas a questão já não era mais estritamente dual, uma vez que uma 
?erta _necessidade se fez sentir para ela, que reclamava o espelho para 
1r v~rtficar ~ue seu objeto, o marinheiro, a completava assim como ela, 
Nadta, podta me completar. E vivenciava o desapontamento de só 
pontos nodais 53 
encontrar sua imagem isolada, sem a do marinheiro, nem a minha. O 
marinheiro ela não iria encontrar na medida em que ele eslava realmente 
no lugar do objeto perdido, e a simetria que ela esperava com o Outro 
e seu objeto não adviria . Em seu lugar, nos espelhos que se seguiram, 
viriam inicialmente a imagem dela mesma nos braços do Outro, e depois 
a imagem isolada do outro, isto é, sem objeto. 
Nos três primeiros espelhos, Nadia retomou assim séu trajeto entre 
o que é real e o que não é, pelo viés, propriamente dito, do especular: o 
mais-gozar não é especularizável e o espelho tem uma função de 
semblante. Isso não é dizer pouco, pois que esta é a via do desejo do 
Outro; ela passa, essa via, de i(a) - embora i(a) não seja apreensível 
pelo sujeito de outra maneira a não·ser que no olhar do Outro matemo 
- a i '(a) , imagem virtual desrealizada onde o sujeito se compraz no 
recorte unitário de seu corpo sob o olhar do Outro - isto é, no sentido 
próprio, recortando sua imagem i(a) no olhar do Outro para encontrar 
no espelho sua imagem i '(a ) onde, ao voltar-se para o Outro, ela 
encontra o desejo do Outro. Neste momento, .. o mais puro momento .. , 
diz Lacan, o semblante faz lugar para o real no nível do Outro. 
O apagamento do Outro enquanto espelho, segundo a montagem da 
ligura 3 do esquema ótico, é representado fazendo-se girar este espelho 
do Outro em 90° para ser horizontal. Sabe-se que então i ' (a) deixa toda 
sua virtualidade para vir, sob i(a), em simetria, como a árvore à beira 
d'água e suas -raízes de sonho" .. . Raf1.cs de sooho, o que será isso, se-
não a lembrança daquilo que foi o primeiro objeto enquanto alucinado? 
É ainda, na metonímia do espelho, encontrar o suporte do mais-got..ar. 
É, portanto, no espelho, e apenas no espelho, que podem se conjugar 
o significante do desejo do Outro e o objeto caído como mais -gozar que 
causa o desejo enquanto faltoso. É pelo espelho que o sujeito vai 
assumir esse lugar de objeto-causa, pois ele não tem outra substância, 
ao mesmo tempo em que se mantém no significante, onde se sabe o 
quanto sua subslância é precária, e mais próxima do vazio do que de 
uma substância, mesmo significante. 
É o espelho que lhe dá seu verdadeiro lugar, o de semblante de a. 
Densidade real do significante 
É um semelhante lugar que fracassa na psicose, como mostra o Menino 
do Lobo2• Para ele, o efeito, seja na vertente do significante seja na do 
objeto, isso claudica. 
2 Cf. R. e R. Lefon, ús Structures tk la psychose. Paris, Seuil , 1988. 
a aiança no discurto anali~oo 
Não se pode reconhecer, em seu significante, o semblante: Robert 
gritava -senhora .. , inicialmente; de fato, ele estava no ponto de ser 
apenas este significante sem objeto. Um significante mais perto do real 
do que do semblante. O significante sempre conservará essa densidade 
em si mesmo, que faz com que ele não seja o semblante de nenhum 
objeto, mas sim um objeto, ele próprio. Ele o é, a ponto de durante 
muitas sessões Robert poder manipular diferentes objetos sob o signo 
de um único e mesmo significante, por exemplo, seu -lo .. ou "lo-lo" que 
pode querer dizer leite, água, areia, cocô e até mesmo xixi. É que não 
se trata para ele de semblante, mas de real, real do material significante 
que pode jogar, assim, com a homofonia. Ou bem, ainda, o objeto nio 
está ligado a nenhum significante, como a mamadeira, um objeto que 
ele irá manipular muito, mas que nunca terá seu significante. Ele 
mesmo, aliás - is to é, seu corpo - , não únha nenhum significante, e 
foram necessários cinco meses de sua análise para que ele se repre-
sentasse pelo seu nome. 
Em compensação, seu -lobo.,. surgiu depois de quatro semanas de 
análise como a expressão mais radical de um furo real, decerto, já que 
ele mostra naquele momento o buraco da privada - mas bem mais um 
furo no significante, como se houvesse ali alguma coisa que úvesse 
caído em lugar do objeto. Seja como for, -lobo" nada tem a ver com um 
semblante. 
Se interrogarmos os significantes de Robert, é possfvel dizer que ele 
pode ter um que o represente (S1), mas certamente não que o represente 
para um outro significante. Isso dá lugar a fenômenos de -possessão .. , 
como por exemplo a noite em que Robert encarnava seu -lobo", numa 
crise destrutiva e -demoníaca .. , no próprio dizer das enfermeiras. 
O objeto a mais 
Quanto ao objeto, este não era absolutamente, para Robert, aquele que 
Nadia queria retirar do Outro. Ele era mesmo seu oposto, pois Robert 
j á tinha o objeto; ele o tinha, por um lado, sob a forma de seu aventa l, 
a propósito do qual tinha crises elásticas terríveis quando o retiravam 
dele para colocá-lo na cama. O avental representava o objeto do Outro, 
um envoltório do corpo que o Outro lhe impunha sem que ele o pedisse, 
mas um objeto de reunião e de contenção de seu corpo, que não tinha 
outro, e principalmente não tinha pele. 
Mas o mais típico dos objetos na estrutura psicótica é o objeto do 
qual Robert tentava se mutilar bem no começo de seu tratamento. Este 
objeto é o seu pênis, ou melhor, o pênis do Pai que ele incorporou e que 
constitui o objeto a mais. Não é objeto de uma demanda ou de um 
desejo; não está ligado ao significante e não tem significante. É um 
pontos nodais 55 
objeto que, enquanto .. a mais .. , resulta de um trauma que ele sofre~ aos 
seis meses, quando de uma antrotomia bilateral durante a qual fot-lhe 
imposta uma mamadeira para impedi-lo de chorar. 
Por que tomou-se o pênis do pai? . 
Por um lado, porque Robert tinha uma mãe privadora, paranótca, que 
o privava da mamadeira porque era um menino e portanto tinha PJd~, 
principalmente um pênis. Ela era supo5ta querer guardá -lo para st, 
colocando-o assim no nível de objeto do desejo da mãe. 
Por outro lado, durante a intervenção cirúrgica, a intensidade de exci-
tação ligada à dor sem qualquer possibilidade de descarga motora -
acompanhando-se aqui os dizeres de Freud no Entwurf.- teve uma ~a ida 
sexual, sob a fonna de uma ereção, que podemos conjeturar sem nsco. 
Tais são os dois elementos - mamadeira imposta + ereção - que se 
combinam com a ausência da mãe, para que daí resulte que o objeto 
incorporado seja o pênis do pai, objeto da mãe. Sua incorporação, além 
disso, é relacionada com o desaparecimento desta; Robert dirá este fato, 
quando só encontrar o significante .. mamãe" associado a .. embora ... 
Este pênis do pai é o objeto a mais que deve ser restituído ao Outro 
para que o Outro não morra . . . _ 
Um outro fato clínico importante,constante na pstcose, é a coahzao 
-seio-pênis", de tal sorte que o pênis incorporado toma impossfvel toda 
demanda do objeto oral primordial . Há, mesmo, uma inversão da de-
manda, que faz com que o psicótico seja submetido absolutame~te às 
injunções do Outro do supereu, ao qual ele deve todos os seus objetos-
produtos do corpo. 
Nessas condições, o estatuto do objeto, ainda que real, não pode em 
caso algum ter a dimensão do resto da constituição de um sujeito pelo 
significante do Outro, não mais do que ser um mais-gozar. Entretanto, 
a ausência do significante correlativo da mamadeira, bem como do 
pênis, põe esses objetos no campo definido por oposição ao significan~e; 
mesmo que não tenham o lugar de objetos a, eles ~em ter.a sua ~u~çao 
até certo ponto, na medida em que são, ou se supoe que sejam extgados 
pelo Outro. . 
Poderiam eles ser considerados como a causa do desejo do Outro? 
Para isso, seria preciso que o especular tivesse fornecido o logro 
narcísico de i ·(a) no desejo do Outro. 
Não é este o caso, ·e Robert nos demonstrou isso, por ocasião de dois 
encontros com o espelho em seu tratamento. 
Do real ao semblante da imagem 
Foi depois de três meses de análise que ele encontrou, pela prim~ira vez., 
seu reflexo na vidraça. Rejeitou-o violentamente, batendo na vtdraça e 
a aiança no discurto anali~oo 
Não se pode reconhecer, em seu significante, o semblante: Robert 
gritava -senhora .. , inicialmente; de fato, ele estava no ponto de ser 
apenas este significante sem objeto. Um significante mais perto do real 
do que do semblante. O significante sempre conservará essa densidade 
em si mesmo, que faz com que ele não seja o semblante de nenhum 
objeto, mas sim um objeto, ele próprio. Ele o é, a ponto de durante 
muitas sessões Robert poder manipular diferentes objetos sob o signo 
de um único e mesmo significante, por exemplo, seu -lo .. ou "lo-lo" que 
pode querer dizer leite, água, areia, cocô e até mesmo xixi. É que não 
se trata para ele de semblante, mas de real, real do material significante 
que pode jogar, assim, com a homofonia. Ou bem, ainda, o objeto nio 
está ligado a nenhum significante, como a mamadeira, um objeto que 
ele irá manipular muito, mas que nunca terá seu significante. Ele 
mesmo, aliás - is to é, seu corpo - , não únha nenhum significante, e 
foram necessários cinco meses de sua análise para que ele se repre-
sentasse pelo seu nome. 
Em compensação, seu -lobo.,. surgiu depois de quatro semanas de 
análise como a expressão mais radical de um furo real, decerto, já que 
ele mostra naquele momento o buraco da privada - mas bem mais um 
furo no significante, como se houvesse ali alguma coisa que úvesse 
caído em lugar do objeto. Seja como for, -lobo" nada tem a ver com um 
semblante. 
Se interrogarmos os significantes de Robert, é possfvel dizer que ele 
pode ter um que o represente (S1), mas certamente não que o represente 
para um outro significante. Isso dá lugar a fenômenos de -possessão .. , 
como por exemplo a noite em que Robert encarnava seu -lobo", numa 
crise destrutiva e -demoníaca .. , no próprio dizer das enfermeiras. 
O objeto a mais 
Quanto ao objeto, este não era absolutamente, para Robert, aquele que 
Nadia queria retirar do Outro. Ele era mesmo seu oposto, pois Robert 
j á tinha o objeto; ele o tinha, por um lado, sob a forma de seu aventa l, 
a propósito do qual tinha crises elásticas terríveis quando o retiravam 
dele para colocá-lo na cama. O avental representava o objeto do Outro, 
um envoltório do corpo que o Outro lhe impunha sem que ele o pedisse, 
mas um objeto de reunião e de contenção de seu corpo, que não tinha 
outro, e principalmente não tinha pele. 
Mas o mais típico dos objetos na estrutura psicótica é o objeto do 
qual Robert tentava se mutilar bem no começo de seu tratamento. Este 
objeto é o seu pênis, ou melhor, o pênis do Pai que ele incorporou e que 
constitui o objeto a mais. Não é objeto de uma demanda ou de um 
desejo; não está ligado ao significante e não tem significante. É um 
pontos nodais 55 
objeto que, enquanto .. a mais .. , resulta de um trauma que ele sofre~ aos 
seis meses, quando de uma antrotomia bilateral durante a qual fot-lhe 
imposta uma mamadeira para impedi-lo de chorar. 
Por que tomou-se o pênis do pai? . 
Por um lado, porque Robert tinha uma mãe privadora, paranótca, que 
o privava da mamadeira porque era um menino e portanto tinha PJd~, 
principalmente um pênis. Ela era supo5ta querer guardá -lo para st, 
colocando-o assim no nível de objeto do desejo da mãe. 
Por outro lado, durante a intervenção cirúrgica, a intensidade de exci-
tação ligada à dor sem qualquer possibilidade de descarga motora -
acompanhando-se aqui os dizeres de Freud no Entwurf.- teve uma ~a ida 
sexual, sob a fonna de uma ereção, que podemos conjeturar sem nsco. 
Tais são os dois elementos - mamadeira imposta + ereção - que se 
combinam com a ausência da mãe, para que daí resulte que o objeto 
incorporado seja o pênis do pai, objeto da mãe. Sua incorporação, além 
disso, é relacionada com o desaparecimento desta; Robert dirá este fato, 
quando só encontrar o significante .. mamãe" associado a .. embora ... 
Este pênis do pai é o objeto a mais que deve ser restituído ao Outro 
para que o Outro não morra . . . _ 
Um outro fato clínico importante, constante na pstcose, é a coahzao 
-seio-pênis", de tal sorte que o pênis incorporado toma impossfvel toda 
demanda do objeto oral primordial . Há, mesmo, uma inversão da de-
manda, que faz com que o psicótico seja submetido absolutame~te às 
injunções do Outro do supereu, ao qual ele deve todos os seus objetos-
produtos do corpo. 
Nessas condições, o estatuto do objeto, ainda que real, não pode em 
caso algum ter a dimensão do resto da constituição de um sujeito pelo 
significante do Outro, não mais do que ser um mais-gozar. Entretanto, 
a ausência do significante correlativo da mamadeira, bem como do 
pênis, põe esses objetos no campo definido por oposição ao significan~e; 
mesmo que não tenham o lugar de objetos a, eles ~em ter.a sua ~u~çao 
até certo ponto, na medida em que são, ou se supoe que sejam extgados 
pelo Outro. . 
Poderiam eles ser considerados como a causa do desejo do Outro? 
Para isso, seria preciso que o especular tivesse fornecido o logro 
narcísico de i ·(a) no desejo do Outro. 
Não é este o caso, ·e Robert nos demonstrou isso, por ocasião de dois 
encontros com o espelho em seu tratamento. 
Do real ao semblante da imagem 
Foi depois de três meses de análise que ele encontrou, pela prim~ira vez., 
seu reflexo na vidraça. Rejeitou-o violentamente, batendo na vtdraça e 
58 a aiança no discurso analítico 
assimilando-o ao seu .. lobo·-. isto é, àquilo que designava para ele um 
furo real, análogo ao i( a) do Outro do supereu, em pura exterioridade-
que vem redobrar o primeiro exterior do pequeoo sujeilo onde se situa 
o horror de das Di ng. Não se tratava do menor semblante oeste encontro. 
De fato, no caso, o semblante seria i '(a) passando por A em posição de 
espelho plano. 
Ao real sem nenhu~ semblante desse encontro, tive de opor o real 
do corpo de Robert, dtzendo-lhe que ele não estava ali no reflexo, mas 
a meu lado. Isso não iria impedi-lo, no dia seguinte de encarnar seu 
-lobo ... na cena que evocamos. ' 
Ac~sc~ntemos aqui que, na medida em que Robert tomou o lugar 
deste sJgntficante fmpar que é o .. lobo", é o de um furo real e não o de 
~ma falta que representa o -cp no significante do Outro e que, embora 
hgado ao gozo sexual, é solidário de um semblante. 
A h iância deste primeiro espelho produziu-se ao nível do significan-
te. que faz real e que é mortifero. 
Quando do segundo espelho, vários meses depois Robert livrou-se 
d~ -lobo .. _ e .cons~i~ o obje~ ~e seu fantasma psicÓtico que acoplao 
scto e o pcms: o pentS que da lette. 
A hiân:ia que Ro~erl encontrou dessa vez na imagem especular era 
a ~este objeto, qu~ a~ faz função de a, fal so a: o pênis, que enquanto tal 
nao era especulanzavel. Igualmente, era esteobjeto que ele buscava 
reintroduzir tentando fazer um traço sobre a superfície do espelho com 
seu lápis-pênis. Em vão, é evidente, e era isso que ele me censurava 
ind~ buscàr sapatos de mulher que calçava, e ao mesmo tempo um 
cabtde ?o qual fa zia uma mamadeira ridícula, chupando-o. Mostrava-
me, ass~, que cu era res~nsável por fazê-lo menina, por seu -empuxo 
à mulher , mas pennanecta numa certa tonalidade lúdica, no limite do 
semblante. 
Não vamos voltar à cena do batismo que lhe permitira, três meses 
antes, fazer de seu pênis um objeto não-des tacável de seu corpo, análogo 
a um a, ao mesmo tempo em que adquirira sua verdadeira superfície de 
corpo, sua pele, em lugar do envólucro do Outro, o avental. Avental do 
~ual , aliás. tr~'i semanas antes deste segundo encontro com o espe lho, 
unha consegUido separar-se durante a sessão. 
. Ro~rt estava pronto agora para dissociar o seio do pênis. o real 
l~f>OS:Slvel do semblante. Foi isso que fez quando me dirigiu pela 
prtmetra vez a demanda da mamadeira, da qual tomou alguns goles no 
meu colo, e por outro lado quando reencontrou a memória do trauma 
cnfi~ndo_ o bico da mamadeira na orelha, olhando-me e esperando um~ 
exphcaçao. O que ~c deman~ava ele? Senão o semblante da relação 
sexual, que era a mtnha própna fa la, em lugar da relação sexual insus-
tentável que tivera lugar por ocasião do trauma da mamade ira forçada. 
pontos nodais 57 
O fato de que Robert se servisse da escrita - digamos antes, aqui, do 
ato de escrever, onde o corpo é prolongado pelo instrumento, o estilete 
ou o lápis, até mesmo o pincel- não deixa de mostrar esta função própria 
da escrita: a introdução de um real do traço que assume, em parte, o 
impossível real de i(a); o traço produzido presentifica o representante 
daquilo que falta à imagem no espelho - e por que não à folha em 
branco? 
Todos os paranóicos fazem essa experiência benéfica, para além 
mesmo do conteúdo daquilo que escrevem. A grafomania de um Jean-
Jacques Rousseau, por exemplo, deixava ainda espaço para sua neces-
s idade de passar diversas horas por dia copiando música, isto é, para o 
puro ato de escrever. · 
Se a escrita é uma representação de palavras, a relação com o espelho 
pode ser deduzida daí, bem como a implicação do Outro. A escrita, no 
sentido pleno, é um sistema constituído em relação a uma lei que institui 
a função das letras, até mesmo da letra - mas Robert nos mostrou, como 
toda criança, que o primeiro balbuciar da escrita vem do Outro e passa 
pelo corpo deste, o que não é um semblante. 
Pode-se no entanto, comparando em Robert o reflexo na vidraça e o 
segundo encontro com o espelho, ver o caminho percorrido que vai d o 
real de i(a) ao semblante da imagem i '(a), diante da qual ele pode passar 
o s ignificante de seu nome, .. Robert'·, e mesmo dizer o meu diante da 
minha imagem. A parte de real irredutível de í(a) era assumida por ele 
pela escrita. 
Nadia era capaz de chegar a se amar em i '(a), sob o olhar do Outro. 
O real para ela não estava menos diretamente presente nesse momento 
em que ela se voltava para o Outro e se refugiava em seus braços, 
mantendo ao mesmo tempo um olho um pouco tímido nlt sua imagem 
no espelho. 
Digamos, para concluir, que a clínica do real precisa. do semblante, 
e a conjunção dos dois só pode ser assegurada pelo estágio do espelho. 
O logro do desejo se instaura por i '(a), que implica no Outro e seu 
desejo, mas encontra sua causa em í(a). Esta é a via fundamental do 
lugar do sujeito com referência ao Outro, que é o de causar seu desejo 
enquanto a, temperado pelo semblante que é sua parte própria onde ele 
pode se amar e se pertencer. 
O espelho conjuga o semblante e o real no semblante de a. 
É isso que Robert nos demoastrou em negativo, quando era possuído 
pela necessidade de restituir ao Outro uma parte do corpo, esse pênis 
do corpo que ele incorporou, objeto a mais que faz o falso a de um corpo 
despedaçado; mas que marca todo objeto a pelo real e pelo horror 
quando o semblante não advém ao espelho para deixar ao sujeito sua 
imagem, onde ele pode se amar -apesar do comando,.. 
58 a aiança no discurso analítico 
assimilando-o ao seu .. lobo·-. isto é, àquilo que designava para ele um 
furo real, análogo ao i( a) do Outro do supereu, em pura exterioridade-
que vem redobrar o primeiro exterior do pequeoo sujeilo onde se situa 
o horror de das Di ng. Não se tratava do menor semblante oeste encontro. 
De fato, no caso, o semblante seria i '(a) passando por A em posição de 
espelho plano. 
Ao real sem nenhu~ semblante desse encontro, tive de opor o real 
do corpo de Robert, dtzendo-lhe que ele não estava ali no reflexo, mas 
a meu lado. Isso não iria impedi-lo, no dia seguinte de encarnar seu 
-lobo ... na cena que evocamos. ' 
Ac~sc~ntemos aqui que, na medida em que Robert tomou o lugar 
deste sJgntficante fmpar que é o .. lobo", é o de um furo real e não o de 
~ma falta que representa o -cp no significante do Outro e que, embora 
hgado ao gozo sexual, é solidário de um semblante. 
A h iância deste primeiro espelho produziu-se ao nível do significan-
te. que faz real e que é mortifero. 
Quando do segundo espelho, vários meses depois Robert livrou-se 
d~ -lobo .. _ e .cons~i~ o obje~ ~e seu fantasma psicÓtico que acoplao 
scto e o pcms: o pentS que da lette. 
A hiân:ia que Ro~erl encontrou dessa vez na imagem especular era 
a ~este objeto, qu~ a~ faz função de a, fal so a: o pênis, que enquanto tal 
nao era especulanzavel. Igualmente, era este objeto que ele buscava 
reintroduzir tentando fazer um traço sobre a superfície do espelho com 
seu lápis-pênis. Em vão, é evidente, e era isso que ele me censurava 
ind~ buscàr sapatos de mulher que calçava, e ao mesmo tempo um 
cabtde ?o qual fa zia uma mamadeira ridícula, chupando-o. Mostrava-
me, ass~, que cu era res~nsável por fazê-lo menina, por seu -empuxo 
à mulher , mas pennanecta numa certa tonalidade lúdica, no limite do 
semblante. 
Não vamos voltar à cena do batismo que lhe permitira, três meses 
antes, fazer de seu pênis um objeto não-des tacável de seu corpo, análogo 
a um a, ao mesmo tempo em que adquirira sua verdadeira superfície de 
corpo, sua pele, em lugar do envólucro do Outro, o avental. Avental do 
~ual , aliás. tr~'i semanas antes deste segundo encontro com o espe lho, 
unha consegUido separar-se durante a sessão. 
. Ro~rt estava pronto agora para dissociar o seio do pênis. o real 
l~f>OS:Slvel do semblante. Foi isso que fez quando me dirigiu pela 
prtmetra vez a demanda da mamadeira, da qual tomou alguns goles no 
meu colo, e por outro lado quando reencontrou a memória do trauma 
cnfi~ndo_ o bico da mamadeira na orelha, olhando-me e esperando um~ 
exphcaçao. O que ~c deman~ava ele? Senão o semblante da relação 
sexual, que era a mtnha própna fa la, em lugar da relação sexual insus-
tentável que tivera lugar por ocasião do trauma da mamade ira forçada. 
pontos nodais 57 
O fato de que Robert se servisse da escrita - digamos antes, aqui, do 
ato de escrever, onde o corpo é prolongado pelo instrumento, o estilete 
ou o lápis, até mesmo o pincel- não deixa de mostrar esta função própria 
da escrita: a introdução de um real do traço que assume, em parte, o 
impossível real de i(a); o traço produzido presentifica o representante 
daquilo que falta à imagem no espelho - e por que não à folha em 
branco? 
Todos os paranóicos fazem essa experiência benéfica, para além 
mesmo do conteúdo daquilo que escrevem. A grafomania de um Jean-
Jacques Rousseau, por exemplo, deixava ainda espaço para sua neces-
s idade de passar diversas horas por dia copiando música, isto é, para o 
puro ato de escrever. · 
Se a escrita é uma representação de palavras, a relação com o espelho 
pode ser deduzida daí, bem como a implicação do Outro. A escrita, no 
sentido pleno, é um sistema constituído em relação a uma lei que institui 
a função das letras, até mesmo da letra - mas Robert nos mostrou, como 
toda criança, que o primeiro balbuciar da escrita vem do Outro e passapelo corpo deste, o que não é um semblante. 
Pode-se no entanto, comparando em Robert o reflexo na vidraça e o 
segundo encontro com o espelho, ver o caminho percorrido que vai d o 
real de i(a) ao semblante da imagem i '(a), diante da qual ele pode passar 
o s ignificante de seu nome, .. Robert'·, e mesmo dizer o meu diante da 
minha imagem. A parte de real irredutível de í(a) era assumida por ele 
pela escrita. 
Nadia era capaz de chegar a se amar em i '(a), sob o olhar do Outro. 
O real para ela não estava menos diretamente presente nesse momento 
em que ela se voltava para o Outro e se refugiava em seus braços, 
mantendo ao mesmo tempo um olho um pouco tímido nlt sua imagem 
no espelho. 
Digamos, para concluir, que a clínica do real precisa. do semblante, 
e a conjunção dos dois só pode ser assegurada pelo estágio do espelho. 
O logro do desejo se instaura por i '(a), que implica no Outro e seu 
desejo, mas encontra sua causa em í(a). Esta é a via fundamental do 
lugar do sujeito com referência ao Outro, que é o de causar seu desejo 
enquanto a, temperado pelo semblante que é sua parte própria onde ele 
pode se amar e se pertencer. 
O espelho conjuga o semblante e o real no semblante de a. 
É isso que Robert nos demoastrou em negativo, quando era possuído 
pela necessidade de restituir ao Outro uma parte do corpo, esse pênis 
do corpo que ele incorporou, objeto a mais que faz o falso a de um corpo 
despedaçado; mas que marca todo objeto a pelo real e pelo horror 
quando o semblante não advém ao espelho para deixar ao sujeito sua 
imagem, onde ele pode se amar -apesar do comando,.. 
11. Casos 
59 
11. Casos 
59 
Do Outro impossível ao Outro não-barrado 
Yvonne Lachaize-~michen 
Pa~a seguir o trajeto do Outro impossível ao Outro não-barrado, aÚ on-
de malogra o desejo do analista, vou falar-lhes de duas crianças psicó-
ticas, Kacem e Cédric, que, em seus respectivos tratamentos , formam 
uma montagem de sessões praticamente idênticas. Identidade que me 
questionou quanto ao que constituía, para elas, a minha presença . 
Sabe-se que, na psicose, a foraclusão do significante do Nome-do-
Pai, perfurando o simbólico, deixa o campo livre para das Ding. Vamos 
distinguir a lei do capricho, do arbitrário e da onipotência imposta por 
das Ding da lei do desejo. A coisa é anlinõmica do grande Outro, lugar 
da fala e da lei. Na psicose, o Outro permanece lugar do significante 
não redobrado pelo lugar da lei. O recalque primário e o interdito do 
incesto não se inscrevem, portanto o real não se transmuta em signifi-
cante e, como este último permanece uma injunção, não representa o 
sujeito para um outro significante. 
O psicótico, preenchendo a mãe como corpo real, não pode interro-
gar, já que não adveio corno sujeito, a falta materna, ou seja, seu desejo, 
e se encontra enquanto objeto a submetido ao seu gozo não barrado pela 
lei. Vou tentar demonstrar que o analista é, então, presença real, teste-
munha impotente do sofrimento em face do objeto tomado impossível 
porque não transmutado em significante. 
Podemos dizer, com Robert e Rosine Lefort (Ornícar? n11 26/27) que, 
na psicose, ·a passagem do real ao um de significante, base do eu, só 
pode se fazer porque não há Outro, enquanto os movimentos pulsionais, 
enquadrados num real opaco, deixam o corpo no despedaçamento. O 
objeto fica impossível, não tendo sido submetido à mutação significante 
que inclui o Outro. 
Num segundo tempo, vou evocar mais longamente o tratamento de 
David, menino de nove anos crucificado, designado como o judeu da 
família, tratamento ameaçado pela intrusão materna intervindo em ato, 
pouco depois de ter emergido na transferência o significante •mãe 
nazista ... Essa e fração interrompeu o tratamento que teria sem dúvida 
permitido a David barrar o Outro. 
61 
Do Outro impossível ao Outro não-barrado 
Yvonne Lachaize-~michen 
Pa~a seguir o trajeto do Outro impossível ao Outro não-barrado, aÚ on-
de malogra o desejo do analista, vou falar-lhes de duas crianças psicó-
ticas, Kacem e Cédric, que, em seus respectivos tratamentos , formam 
uma montagem de sessões praticamente idênticas. Identidade que me 
questionou quanto ao que constituía, para elas, a minha presença . 
Sabe-se que, na psicose, a foraclusão do significante do Nome-do-
Pai, perfurando o simbólico, deixa o campo livre para das Ding. Vamos 
distinguir a lei do capricho, do arbitrário e da onipotência imposta por 
das Ding da lei do desejo. A coisa é anlinõmica do grande Outro, lugar 
da fala e da lei. Na psicose, o Outro permanece lugar do significante 
não redobrado pelo lugar da lei. O recalque primário e o interdito do 
incesto não se inscrevem, portanto o real não se transmuta em signifi-
cante e, como este último permanece uma injunção, não representa o 
sujeito para um outro significante. 
O psicótico, preenchendo a mãe como corpo real, não pode interro-
gar, já que não adveio corno sujeito, a falta materna, ou seja, seu desejo, 
e se encontra enquanto objeto a submetido ao seu gozo não barrado pela 
lei. Vou tentar demonstrar que o analista é, então, presença real, teste-
munha impotente do sofrimento em face do objeto tomado impossível 
porque não transmutado em significante. 
Podemos dizer, com Robert e Rosine Lefort (Ornícar? n11 26/27) que, 
na psicose, ·a passagem do real ao um de significante, base do eu, só 
pode se fazer porque não há Outro, enquanto os movimentos pulsionais, 
enquadrados num real opaco, deixam o corpo no despedaçamento. O 
objeto fica impossível, não tendo sido submetido à mutação significante 
que inclui o Outro. 
Num segundo tempo, vou evocar mais longamente o tratamento de 
David, menino de nove anos crucificado, designado como o judeu da 
família, tratamento ameaçado pela intrusão materna intervindo em ato, 
pouco depois de ter emergido na transferência o significante •mãe 
nazista ... Essa e fração interrompeu o tratamento que teria sem dúvida 
permitido a David barrar o Outro. 
61 
62 a CJ"iança no díscurso analítico 
Kacem 
Kacem tinha dezesseis anos. Sua família desinteressara-se por ele, que 
estava hospitalizado em tempo integral desde a idade de seis anos. Um 
estado de doença teria interrompido seu desenvolvimento com um ano 
de idade. Sabe-se pouco de sua história, apenas que viveu com a mãe 
até os quatro anos, quando sobreveio um sétimo e último nascimento de 
um innão mongolóide, coinddindo com a chegada da família à França, 
onde o pai, até então, vivia só. A linguagem de Kacem era rudimentar 
e estereotipada: 
- ele não mastigava, chupava, sua dentição inutilizada era defeituosa; 
- lambuzava sua pele de saliva ou de açúcar; 
-ocorria-lhe jogar cocó no teto, e tão bem que, em vez de cair, ficava 
grudado; 
- enfim, tampava os buracos dos encanamentos. 
Durante duas sessões seguidas, Kacem se apoderou de uma cadeira, 
que colocara sobre uma mesa baixa. Concordou que eu assegurasse seu 
equilíbrio enquanto subia ali para tocar a lâmpada do teto, prisioneira 
por trás de grades. Ficou satisfeito por conseguir. Na sessão seguinte, 
repetiu a mesma cena, mas desta vez indicou que queria lamber a 
lâmpada, o que era impossível. Isso me fez lembrar uma cena anterior, 
quando me mostrou que não conseguia colocar seu sexo na boca, como 
desejava. O pênis tomou o lugar do seio que nunca foi dele. O corte 
sempre passou entre ele e o seio. O Outro primordial nunca teve fa lta 
alguma e era ele, Kacem, que era irremediavelmente furado. O circuito 
pulsional não inclui o Outro e se rebate sobre o auto-erotismo. 
Cédric 
Cédric tinha onze anos. Depois de um fracasso na escola maternal, 
sempre esteve em hospital-dia . Falava muito, mas não sabia ler nem 
escrever. Sua psicose era complicada por problemas psicossomáticos 
graves: eczema generalizado desde os seis meses, asma, e estados 
convulsivos generalizados que faziam seu pai dizer que Cédric morrera 
duas vezes. O pai era uma pessoa ttiste, violento, esgotando-se em 
querer impor autoridade ao filho. Desempregado há cinco anos,queixa-
va-se de estar com o corpo todo quebrado. A mulher acusava -o de 
alcoólatra e impotente. Única a trabalhar, ela bancava o homem e 
encontrava seu gozo na manutenção de um homem servil, um desttoço 
de homem de cuja imagem, no entanto, ela cuidava, dando-lhe todo o 
seu dinheiro e fazendo-o transportar-se de automóvel, mesmo lhe recu-
sando quaisquer outros transportes. 
casos 63 
Cédric organizara uma encenação · idêntica à da sessão de ·Kacem: 
cadeira em cima da mesa para alcançar a lâmpada, ele estava munido 
de ferramentas para consertá-la, mas era ela que o agredia e ele fmgiu 
uma eletrocução. Em seguida, voltou, desta vez com uma pequena 
escada de madeira, pois era muito pequeno para alcançar o teto. Com 
este instrumento, que prendeu na grade da lâmpada, conseguiu tocar no 
objeto; foi, então, buscar a boneca-menina, que era -uma tremenda 
sem-vergonha" e a pendurou entre dois degraus da escada, ficando tudo 
pendurado no teto e evocando dessa maneira o seio, que reintegr_a seu 
produto. Cédric saiu, em seguida, da sessão para gritar no vaz1o do 
corredor: ~As tetas, os peitos!" 
Essas duas crianças me colocaram na posição testemunha de seu 
sofrimento diante da impossibilidade do objeto que ficou no real e que 
os destrói, ou que eles destroem. A pulsão sexual está agindo em toda 
a sua selvageria, não temperada pela vertente significante. Há Repra-
sentanz mas não Vorstellung, não há metáfora significante possível, 
pois o slgnificante não é, af, sinal de um sujeito para outro significante. 
A cena primitiva é constituída pelo empilhamento de uma cadeira c 
uma mesa, onde meu nome, Lacbaize 1, é tomado como objeto na 
realidade. 
Entretanto, Kacem e Cédric me permitem assegurar seu equilíbrio c 
me incluem como testemunha que pode falar: além disso, vêm com 
prazer às sessões e seu tratamento, portanto, vai prosseguir. 
David 
O tratamento de David, de nove anos, desenvolveu -se num dispensário 
durante um ano e foi interrompido por ocasião das férias escolares de 
verão, pouco depois de se ter formulado claramente para mim o signi-
ficante ~mãe nazista .. , esclarecendo, a posteriori, meu lugar na transfe-
rência . Significante que se voltou, então, contra mim, com os pais 
denunciando minha intrusão no segredo de sua história, da qual não se 
podia tratar. O único discurso possfvel era o da ordem e da desordem, 
da vontade ou da indolência. Além disso, se David havia feito progres-
sos na escola, e se donnia melhor, era devido ao Neurocalcium que 
tomava há algum tempo. 
David foi trazido ao dispensário pelos pais, pois não ia bem na escola. 
da qual estava ameaçado de expulsão. ~Ele é do contra, teimoso, não 
1 Trata-se da homofonia enu-e Lachail.e e la chtJiu, a cadeira (N.T.) 
62 a CJ"iança no díscurso analítico 
Kacem 
Kacem tinha dezesseis anos. Sua família desinteressara-se por ele, que 
estava hospitalizado em tempo integral desde a idade de seis anos. Um 
estado de doença teria interrompido seu desenvolvimento com um ano 
de idade. Sabe-se pouco de sua história, apenas que viveu com a mãe 
até os quatro anos, quando sobreveio um sétimo e último nascimento de 
um innão mongolóide, coinddindo com a chegada da família à França, 
onde o pai, até então, vivia só. A linguagem de Kacem era rudimentar 
e estereotipada: 
- ele não mastigava, chupava, sua dentição inutilizada era defeituosa; 
- lambuzava sua pele de saliva ou de açúcar; 
-ocorria-lhe jogar cocó no teto, e tão bem que, em vez de cair, ficava 
grudado; 
- enfim, tampava os buracos dos encanamentos. 
Durante duas sessões seguidas, Kacem se apoderou de uma cadeira, 
que colocara sobre uma mesa baixa. Concordou que eu assegurasse seu 
equilíbrio enquanto subia ali para tocar a lâmpada do teto, prisioneira 
por trás de grades. Ficou satisfeito por conseguir. Na sessão seguinte, 
repetiu a mesma cena, mas desta vez indicou que queria lamber a 
lâmpada, o que era impossível. Isso me fez lembrar uma cena anterior, 
quando me mostrou que não conseguia colocar seu sexo na boca, como 
desejava. O pênis tomou o lugar do seio que nunca foi dele. O corte 
sempre passou entre ele e o seio. O Outro primordial nunca teve fa lta 
alguma e era ele, Kacem, que era irremediavelmente furado. O circuito 
pulsional não inclui o Outro e se rebate sobre o auto-erotismo. 
Cédric 
Cédric tinha onze anos. Depois de um fracasso na escola maternal, 
sempre esteve em hospital-dia . Falava muito, mas não sabia ler nem 
escrever. Sua psicose era complicada por problemas psicossomáticos 
graves: eczema generalizado desde os seis meses, asma, e estados 
convulsivos generalizados que faziam seu pai dizer que Cédric morrera 
duas vezes. O pai era uma pessoa ttiste, violento, esgotando-se em 
querer impor autoridade ao filho. Desempregado há cinco anos, queixa-
va-se de estar com o corpo todo quebrado. A mulher acusava -o de 
alcoólatra e impotente. Única a trabalhar, ela bancava o homem e 
encontrava seu gozo na manutenção de um homem servil, um desttoço 
de homem de cuja imagem, no entanto, ela cuidava, dando-lhe todo o 
seu dinheiro e fazendo-o transportar-se de automóvel, mesmo lhe recu-
sando quaisquer outros transportes. 
casos 63 
Cédric organizara uma encenação · idêntica à da sessão de ·Kacem: 
cadeira em cima da mesa para alcançar a lâmpada, ele estava munido 
de ferramentas para consertá-la, mas era ela que o agredia e ele fmgiu 
uma eletrocução. Em seguida, voltou, desta vez com uma pequena 
escada de madeira, pois era muito pequeno para alcançar o teto. Com 
este instrumento, que prendeu na grade da lâmpada, conseguiu tocar no 
objeto; foi, então, buscar a boneca-menina, que era -uma tremenda 
sem-vergonha" e a pendurou entre dois degraus da escada, ficando tudo 
pendurado no teto e evocando dessa maneira o seio, que reintegr_a seu 
produto. Cédric saiu, em seguida, da sessão para gritar no vaz1o do 
corredor: ~As tetas, os peitos!" 
Essas duas crianças me colocaram na posição testemunha de seu 
sofrimento diante da impossibilidade do objeto que ficou no real e que 
os destrói, ou que eles destroem. A pulsão sexual está agindo em toda 
a sua selvageria, não temperada pela vertente significante. Há Repra-
sentanz mas não Vorstellung, não há metáfora significante possível, 
pois o slgnificante não é, af, sinal de um sujeito para outro significante. 
A cena primitiva é constituída pelo empilhamento de uma cadeira c 
uma mesa, onde meu nome, Lacbaize 1, é tomado como objeto na 
realidade. 
Entretanto, Kacem e Cédric me permitem assegurar seu equilíbrio c 
me incluem como testemunha que pode falar: além disso, vêm com 
prazer às sessões e seu tratamento, portanto, vai prosseguir. 
David 
O tratamento de David, de nove anos, desenvolveu -se num dispensário 
durante um ano e foi interrompido por ocasião das férias escolares de 
verão, pouco depois de se ter formulado claramente para mim o signi-
ficante ~mãe nazista .. , esclarecendo, a posteriori, meu lugar na transfe-
rência . Significante que se voltou, então, contra mim, com os pais 
denunciando minha intrusão no segredo de sua história, da qual não se 
podia tratar. O único discurso possfvel era o da ordem e da desordem, 
da vontade ou da indolência. Além disso, se David havia feito progres-
sos na escola, e se donnia melhor, era devido ao Neurocalcium que 
tomava há algum tempo. 
David foi trazido ao dispensário pelos pais, pois não ia bem na escola. 
da qual estava ameaçado de expulsão. ~Ele é do contra, teimoso, não 
1 Trata-se da homofonia enu-e Lachail.e e la chtJiu, a cadeira (N.T.) 
14 a aiança no discurso analítiCXJ 
liga para nada. Estaria bem numa ilha deserta, é como se ele nunca 
estivesse ar, disse o pai. Em compensação, seu irmão Philippe (lem-
bremos que era este o nome do marechal Pétain), um ano e meio mais 
velho, era inventivo, se metia em tudo, queria fazer tudo bem feito e, 
nisso, se parecia com a mãe. Os pais não faziam diferenças entre os dois 
inilãos, que eram, aliás, duas cópias, ambos louros, quase do mesmo 
tamanho, vestidos demodo idêntico. Diante da minha pergunta sobre o 
que poderia, mesmo assim, distinguir David, de maneira positiva, em 
comparação ao irmão, ele me respondeu, depois de refletir, que era 
muito inteligente e tinha uma excelente memória. 
Com dificuldade, soube que a mãe era de origem polonesa. Ela 
lembrava, com reticências, seus pais que vieram para a França, a mãe 
aos seis anos de idade e o pai aos onze. Seu pai se casara tarde, com 
uma mulher inválida, que tivera um membro amputado desde a infância, 
mas que em compensação já tinha um filho. O casal teve mais um filho, 
e em seguida ela, a mais nova. Dizia não compreender o casamento de 
seus pais, que brigavam sem parar. 
Descreveu sua mãe como uma pessoa .. vulgar .. , que teria querido 
intervir na vida da filha, a qual se rebelou e fugiu. O pai de David dizia 
da mulher que é -uma parede ... Esta parede era retomada para qualificar 
David: .. Ele gosta de ler, enquanto está lendo se tem paz, mas é como 
uma parede ... Ora, vamos ver como David esbarrou numa parede. 
Ao contrário, a família paterna era bastante presente, tendo se toma-
do a família adotiva da mãe. A avó paterna se ocupava muito dos dois 
netos e é ela quem acompanhava David com mais freqüência à sessão. 
Fiquei sabendo, entretanto, que .. vovó é como uma criança, hemiplégíco 
há dez anos" - portanto, antes do nascimento de David, o qual me disse a 
seu respeito: ·Ele foi picado por uma mosca tsé-tsé antes de vir ao mundo". 
Vamos notar como as imagens de homens eram fracas em tomo de 
David . O pai, na única sessão em que consegui lhe falar, pois em seguida 
se esquivara, descreveu a si mesmo como -um agitador que sempre teve 
vontade de ser o primeiro, apesar de seu lugar de segundo". Ele inter-
viera junto aos filhos como um .. comando de choque .. . Apareceu, em 
seguida, no discurso de sua mulher, como um perfeito robô doméstico. 
Quanto ao modelo proposto a David, era o do irmão, que por sua vez se 
parecia com a mãe. 
A mãe de David se casou aos vinte anos, grávida de Philippe, depois 
ficou esperando David sem o ter desejado, e querendo uma filha. Este 
segundo nasciQlento forçou-a a parar de trabalhar durante sete anos. Ela 
apare<ceu como uma mulher autoritária, rígida, seguidora de receitas, 
desejando controlar tudo e não tendo tempo a perder: tudo devia estar 
em ordem. 
casos 65 
A primeira sessão 
Em seu primeiro desenho (Desenho I), David representou um mundo 
que não existia, onde o Sol, de cabeça para baixo, coexistia com a Lua 
e as estrelas deformadas . A isso se acrescentou um homem .. que não deu 
certo .. (ele queria fazer karatê, mas seus pais só lhe permitiram aprender 
judô, que começou a fazer ao mesmo tempo que iniciou a terapia). 
Aquele curioso personagem, com quatro asas em vez de braços, era um 
tema que ele iria retomar e complicar ao longo das sessões. Já se podia 
reconhecer aí o que iria aparecer mais tarde, em seu tratamento: um 
inseto, e uma cruz gamada. Sua cabeça, dizia ele, foi defonnada em 
conseqüência de um acidente, no qual houve fogo. Ao desenho, acres-
centou uma ·casa impossfvel" e, num balão, o nome da cidade ~nesfor­
meges". 
'-\ I 
-~'­
rf. 
11'-
o 
o 
Desenho I 
Neste homem estranho, pode-se entender, sem dúvida, a repre-
;entação que ele tinha do desejo de sua mãe: que seu irmão e ele fossem 
um só. David, com efeito, teve que se separar deste duplo perseguidor, 
com relação ao qual se negativizava: .. Ele faz tudo ao contrário .. , me 
14 a aiança no discurso analítiCXJ 
liga para nada. Estaria bem numa ilha deserta, é como se ele nunca 
estivesse ar, disse o pai. Em compensação, seu irmão Philippe (lem-
bremos que era este o nome do marechal Pétain), um ano e meio mais 
velho, era inventivo, se metia em tudo, queria fazer tudo bem feito e, 
nisso, se parecia com a mãe. Os pais não faziam diferenças entre os dois 
inilãos, que eram, aliás, duas cópias, ambos louros, quase do mesmo 
tamanho, vestidos de modo idêntico. Diante da minha pergunta sobre o 
que poderia, mesmo assim, distinguir David, de maneira positiva, em 
comparação ao irmão, ele me respondeu, depois de refletir, que era 
muito inteligente e tinha uma excelente memória. 
Com dificuldade, soube que a mãe era de origem polonesa. Ela 
lembrava, com reticências, seus pais que vieram para a França, a mãe 
aos seis anos de idade e o pai aos onze. Seu pai se casara tarde, com 
uma mulher inválida, que tivera um membro amputado desde a infância, 
mas que em compensação já tinha um filho. O casal teve mais um filho, 
e em seguida ela, a mais nova. Dizia não compreender o casamento de 
seus pais, que brigavam sem parar. 
Descreveu sua mãe como uma pessoa .. vulgar .. , que teria querido 
intervir na vida da filha, a qual se rebelou e fugiu. O pai de David dizia 
da mulher que é -uma parede ... Esta parede era retomada para qualificar 
David: .. Ele gosta de ler, enquanto está lendo se tem paz, mas é como 
uma parede ... Ora, vamos ver como David esbarrou numa parede. 
Ao contrário, a família paterna era bastante presente, tendo se toma-
do a família adotiva da mãe. A avó paterna se ocupava muito dos dois 
netos e é ela quem acompanhava David com mais freqüência à sessão. 
Fiquei sabendo, entretanto, que .. vovó é como uma criança, hemiplégíco 
há dez anos" - portanto, antes do nascimento de David, o qual me disse a 
seu respeito: ·Ele foi picado por uma mosca tsé-tsé antes de vir ao mundo". 
Vamos notar como as imagens de homens eram fracas em tomo de 
David . O pai, na única sessão em que consegui lhe falar, pois em seguida 
se esquivara, descreveu a si mesmo como -um agitador que sempre teve 
vontade de ser o primeiro, apesar de seu lugar de segundo". Ele inter-
viera junto aos filhos como um .. comando de choque .. . Apareceu, em 
seguida, no discurso de sua mulher, como um perfeito robô doméstico. 
Quanto ao modelo proposto a David, era o do irmão, que por sua vez se 
parecia com a mãe. 
A mãe de David se casou aos vinte anos, grávida de Philippe, depois 
ficou esperando David sem o ter desejado, e querendo uma filha. Este 
segundo nasciQlento forçou-a a parar de trabalhar durante sete anos. Ela 
apare<ceu como uma mulher autoritária, rígida, seguidora de receitas, 
desejando controlar tudo e não tendo tempo a perder: tudo devia estar 
em ordem. 
casos 65 
A primeira sessão 
Em seu primeiro desenho (Desenho I), David representou um mundo 
que não existia, onde o Sol, de cabeça para baixo, coexistia com a Lua 
e as estrelas deformadas . A isso se acrescentou um homem .. que não deu 
certo .. (ele queria fazer karatê, mas seus pais só lhe permitiram aprender 
judô, que começou a fazer ao mesmo tempo que iniciou a terapia). 
Aquele curioso personagem, com quatro asas em vez de braços, era um 
tema que ele iria retomar e complicar ao longo das sessões. Já se podia 
reconhecer aí o que iria aparecer mais tarde, em seu tratamento: um 
inseto, e uma cruz gamada. Sua cabeça, dizia ele, foi defonnada em 
conseqüência de um acidente, no qual houve fogo. Ao desenho, acres-
centou uma ·casa impossfvel" e, num balão, o nome da cidade ~nesfor­
meges". 
'-\ I 
-~'­
rf. 
11'-
o 
o 
Desenho I 
Neste homem estranho, pode-se entender, sem dúvida, a repre-
;entação que ele tinha do desejo de sua mãe: que seu irmão e ele fossem 
um só. David, com efeito, teve que se separar deste duplo perseguidor, 
com relação ao qual se negativizava: .. Ele faz tudo ao contrário .. , me 
a criança no discurso analltioo 
diria a mãe. ·Além disso é canhoto ... Veríamos esta forma tomar-se um 
anjo sem cabeça que subia ao céu e, mais tarde, represen~ria aquilo a 
que chamava de ·um inverossímil .. (Desenho m, que se podia entender 
como ·um verdadeiro semelhante .. 2, e, se era esta sua busca desespera-
da, era também a imagem da família ou da mulher-ele\ cujo tronco 
fá li co atravessava desta vez três membros duplos. Talvez fosse esta uma 
representação dos três homens da família. Esta figura terminava por 
uma cabeça cujo pescoço era trespassado por uma flecha emforma de 
p, onde o nariz proeminente tomava o lugar de pênis e a boca estava 
ausente. 
DesenhoU 
2 Jogo de palavns entre ·,n illvroiMiflbUJbte• (um inverosslmil) e·.,,. WGi umblal>k (una 
verdadeiro semelhante). (N.T.) 
3 l ogo com a homofonia mtrefo,d/1~ (famJUa) e/~lllllle·il. (nwlhec-de). (N.T.). 
casos 
Ainda nesta primeira sessão, ele queria copiar uma tira de quadrinhos 
e quando lhe dizia que não se tratava de copiar. guardava isso como uma 
injunção contraditória à ordem familiar. 
De saída, David sustentava uma demanda com relação ao tratamento. 
Se devia renunciar a vir duas vezes por semana, pois sua mãe se opunha 
a isso, fazia questão de anotar seu nome em minha agenda, nas datas 
dos próximos encontros ... Um menino que faz furos nas vespas para tirar 
leite delas. É preciso que as vespas alimentem os bebês." 
Não seria esta a ilustração de uma mãe fálica, da qual é preciso tomar 
aquilo que ela guarda para si mesma? Esta mãe da qual se deve descon-
fiar, porque tem um dardo, como se proteger dela? Para se defender, ele 
tentou inicialmente tapar todos os orifícios de seu corpo, com exceção 
das orelhas, mergulhando, durante uma parte da sessão, na leitura de 
histórias em quadrinhos, enchendo, assim, seus olhos de imagens. Ao 
fazer isso, enfiava dois dedos de Úma das mãos nas narinas, um outro 
na boca, e enquanto se entregava a esse exercício, dizia estas palavras: 
·A merda no cu". 
Contra este Outro matemo intruso, que eu representava na sessão, 
ele ia lutar: primeiramente, faz explodir, num desenho, a mulher nua 
que lhe revelou sua emoção, diante da descoberta de que aquilo poderia 
faltar. Depois, trouxe armas para a sessão: uma faca, que ele voltou 
contra mim para me abrir o ventre e retirar meu apêndice, mas ao aplicar 
uma injeção ele se enganou de lado e foi ele quem adormeceu; depois, 
revólveres. Em seguida, introduziu a clave de sol, chave mágica com a 
qual se pode fazer tudo menos abrir portas. Na sessão seguinte me 
confiou uma ilha do tesouro com cinco furos, feitos provavehriente com 
um cigarro aceso, sob a qual ele assinou Barba Azul, o homem que mata 
as mulheres, talvez porque elas façam furos n'ele\ porque condenam o 
homem a ser mulher como elas. 
David, com efeito, não assinava Barba Azul, o que aliás eu não lhe 
apontava, e sim Borda Azul, pondo-se do lado daquele que tinha a chave 
do tesouro para melhor negar seu receio de não tê-la. Qual é o segredo 
do Outro? Com que se deve pagar o acesso ao tesouro da linguagem que 
abre ao mesmo tempo o furo e a borda à qual se agarr~r? Acesso que 
vai permitir escapar à ordem do mestre, que designa um lugar, e 
tornar-se um sujeito pelo manejo pessoal dos signos, para além do risco 
de morte incorrido pela transgressão, como testemunha o conto. . 
Pela magia, e por uma idéia de onipotência - .. David é o re_i dos re1s~ 
-,ele procurava negar sua angústia de castração. Quando o mt~rprete1 
na sessão seguinte - ocasião em que ele se precipitou sobre mtm para 
4 Trata-se ainda da bomofonia Q1tre ·u~- (Ilha) e il (ele). (N.T.) 
a criança no discurso analltioo 
diria a mãe. ·Além disso é canhoto ... Veríamos esta forma tomar-se um 
anjo sem cabeça que subia ao céu e, mais tarde, represen~ria aquilo a 
que chamava de ·um inverossímil .. (Desenho m, que se podia entender 
como ·um verdadeiro semelhante .. 2, e, se era esta sua busca desespera-
da, era também a imagem da família ou da mulher-ele\ cujo tronco 
fá li co atravessava desta vez três membros duplos. Talvez fosse esta uma 
representação dos três homens da família. Esta figura terminava por 
uma cabeça cujo pescoço era trespassado por uma flecha em forma de 
p, onde o nariz proeminente tomava o lugar de pênis e a boca estava 
ausente. 
DesenhoU 
2 Jogo de palavns entre ·,n illvroiMiflbUJbte• (um inverosslmil) e·.,,. WGi umblal>k (una 
verdadeiro semelhante). (N.T.) 
3 l ogo com a homofonia mtrefo,d/1~ (famJUa) e/~lllllle·il. (nwlhec-de). (N.T.). 
casos 
Ainda nesta primeira sessão, ele queria copiar uma tira de quadrinhos 
e quando lhe dizia que não se tratava de copiar. guardava isso como uma 
injunção contraditória à ordem familiar. 
De saída, David sustentava uma demanda com relação ao tratamento. 
Se devia renunciar a vir duas vezes por semana, pois sua mãe se opunha 
a isso, fazia questão de anotar seu nome em minha agenda, nas datas 
dos próximos encontros ... Um menino que faz furos nas vespas para tirar 
leite delas. É preciso que as vespas alimentem os bebês." 
Não seria esta a ilustração de uma mãe fálica, da qual é preciso tomar 
aquilo que ela guarda para si mesma? Esta mãe da qual se deve descon-
fiar, porque tem um dardo, como se proteger dela? Para se defender, ele 
tentou inicialmente tapar todos os orifícios de seu corpo, com exceção 
das orelhas, mergulhando, durante uma parte da sessão, na leitura de 
histórias em quadrinhos, enchendo, assim, seus olhos de imagens. Ao 
fazer isso, enfiava dois dedos de Úma das mãos nas narinas, um outro 
na boca, e enquanto se entregava a esse exercício, dizia estas palavras: 
·A merda no cu". 
Contra este Outro matemo intruso, que eu representava na sessão, 
ele ia lutar: primeiramente, faz explodir, num desenho, a mulher nua 
que lhe revelou sua emoção, diante da descoberta de que aquilo poderia 
faltar. Depois, trouxe armas para a sessão: uma faca, que ele voltou 
contra mim para me abrir o ventre e retirar meu apêndice, mas ao aplicar 
uma injeção ele se enganou de lado e foi ele quem adormeceu; depois, 
revólveres. Em seguida, introduziu a clave de sol, chave mágica com a 
qual se pode fazer tudo menos abrir portas. Na sessão seguinte me 
confiou uma ilha do tesouro com cinco furos, feitos provavehriente com 
um cigarro aceso, sob a qual ele assinou Barba Azul, o homem que mata 
as mulheres, talvez porque elas façam furos n'ele\ porque condenam o 
homem a ser mulher como elas. 
David, com efeito, não assinava Barba Azul, o que aliás eu não lhe 
apontava, e sim Borda Azul, pondo-se do lado daquele que tinha a chave 
do tesouro para melhor negar seu receio de não tê-la. Qual é o segredo 
do Outro? Com que se deve pagar o acesso ao tesouro da linguagem que 
abre ao mesmo tempo o furo e a borda à qual se agarr~r? Acesso que 
vai permitir escapar à ordem do mestre, que designa um lugar, e 
tornar-se um sujeito pelo manejo pessoal dos signos, para além do risco 
de morte incorrido pela transgressão, como testemunha o conto. . 
Pela magia, e por uma idéia de onipotência - .. David é o re_i dos re1s~ 
-,ele procurava negar sua angústia de castração. Quando o mt~rprete1 
na sessão seguinte - ocasião em que ele se precipitou sobre mtm para 
4 Trata-se ainda da bomofonia Q1tre ·u~- (Ilha) e il (ele). (N.T.) 
68 a criança no discurso analíti<X> 
transformar minha écharpe em gravata, pois seria menos perigoso para 
ele se cu fosse um homem e era contra esse perigo que ele trazia todas 
essas armas para a sessão- , desenhou um veleiro (Desenho lll) ~o qual 
havia um vigia ao lado de um capitão todo armado, o que entendt como: 
0 perigo vem do ma~. Iriam aparecer em seguida, na sucessão de desenhos, 
de alguma maneira, os dentes do mar: tubarões, carne, uma cabeça de 
vampiro que ele associou a dois .. dodóis .. que me mostrou em seu corpo. 
E.T. 
,l 
M ili t-n 
Ri 
Desenho DI 
Uma outra questão se impunha, paralelamente, a David: como se 
se parar de seu duplo fraterno? Como, a part~r do idênt~co, fazer o 
dife rente? Ele desenhou, então, um homem-passaro: um homem-ela, 
seria isso possível ? 
5 Outro par de homófonos: mer (mar) c mire (mãe). (N.T.) 
• 
Depois, a questão do furo se tomou central. A mãe de David havia 
frisado, no começo do tratamento, o medo que seu filho sentia de 
bunicos, suas vertigens, o medo de cair, de morrer. 
No fun de uma sessão, David escreveu furtivamente •buraco", no 
quadro. Depois, transformou o pano de um cinto de judô, -que apagou 
parcialmente, numa ferradura de cavalo, arma do cavalo, sem dúvida, 
mas cujos furos eram tampados por cnvos. 
E.T.,o extraterrestre, teria um furo em cima da boca. Este extrater-
restre, ·um robô", me dizia ele, como seu pai era para a mãe, ia aparecer, 
separando o nome do seu pai do seu, tomando-se assim e6: o pai e David, 
os dois robôs matemos. 
Enquanto isso, apareceram desenhos de cruzes gamadas (Desenho 
IV), sobre as quais o homem crucificado tinha cravos nas mãos e nos 
Desenho IV 
6 No original: le pire er Dovid (N.T.) 
68 a criança no discurso analíti<X> 
transformar minha écharpe em gravata, pois seria menos perigoso para 
ele se cu fosse um homem e era contra esse perigo que ele trazia todas 
essas armas para a sessão- , desenhou um veleiro (Desenho lll) ~o qual 
havia um vigia ao lado de um capitão todo armado, o que entendt como: 
0 perigo vem do ma~. Iriam aparecer em seguida, na sucessão de desenhos, 
de alguma maneira, os dentes do mar: tubarões, carne, uma cabeça de 
vampiro que ele associou a dois .. dodóis .. que me mostrou em seu corpo. 
E.T. 
,l 
M ili t-n 
Ri 
Desenho DI 
Uma outra questão se impunha, paralelamente, a David: como se 
se parar de seu duplo fraterno? Como, a part~r do idênt~co, fazer o 
dife rente? Ele desenhou, então, um homem-passaro: um homem-ela, 
seria isso possível ? 
5 Outro par de homófonos: mer (mar) c mire (mãe). (N.T.) 
• 
Depois, a questão do furo se tomou central. A mãe de David havia 
frisado, no começo do tratamento, o medo que seu filho sentia de 
bunicos, suas vertigens, o medo de cair, de morrer. 
No fun de uma sessão, David escreveu furtivamente •buraco", no 
quadro. Depois, transformou o pano de um cinto de judô, -que apagou 
parcialmente, numa ferradura de cavalo, arma do cavalo, sem dúvida, 
mas cujos furos eram tampados por cnvos. 
E.T., o extraterrestre, teria um furo em cima da boca. Este extrater-
restre, ·um robô", me dizia ele, como seu pai era para a mãe, ia aparecer, 
separando o nome do seu pai do seu, tomando-se assim e6: o pai e David, 
os dois robôs matemos. 
Enquanto isso, apareceram desenhos de cruzes gamadas (Desenho 
IV), sobre as quais o homem crucificado tinha cravos nas mãos e nos 
Desenho IV 
6 No original: le pire er Dovid (N.T.) 
70 a criança no dlsc:orso analítico 
pés. Nesse sentido, ele me dizia que houve a guerra entre os alemães e 
os poloneses, me falava de crucificações, de flagelos, torturas, e acres-
centava que os judeus foram mortos pelos alemães. 
Foi então que vi sua mãe, que veio só porque David estava _d~nte. 
Agressiva e apressada, pensava não ter nada a se censurar, e dtzta que 
não pedia de David '"a cruz e a bandeira... Descreveu o filho como 
rebelde e sujo, com os dedos que chupava. Ele se r~cu~va a come! de 
manhã, então ela o forçava. Quanto a mim, encamtnhet mal as c01~s 
interrogando-a sobre a infância de seus pais na Polônia. O_fendJ-a, 
fazendo alusão a uma eventual origem judaica. Ela deu aos dots filhos 
nomes que estavam, na época, em moda. Nada tinha a dizer ~uanto a 
isso, e também não sabia por que sua mãe teve um membro muulado no 
passado. . . 
Diante desta hostilidade maciça, desta ordem melutável, sugert que 
seu filho teria necessidade de que ela lhe consagrasse alguns minutos 
por semana. Este modesto pedido foi rej~itado co~o absurdo: ela n~o 
estava interessada no que ele contava; alem do mais, ele lhe respondia, 
e isso era intolerável. 
O Crucificado 
David esteve ausente por três semanas, teve febre e uma verruga ~Jantar: 
o furo se inscreveu em seu corpo. Na volta, desenhou um croc1ficado 
de cabelos compridos: sangue negro escorria de seu lado, ele tinha 
cravos nas mãos e nos pés. Falou-me, em seguida, de sua verrog&-cra~o, 
da qual fez três desenhos: um círculo redondo com um furo no meto, 
que ele perfurou, realmente, no papel; seu pé todo, com um furo dentro, 
e finalmente os instrumentos para tratar dele. 
Na sessão seguinte, me trouxe, e fez com que eu observasse, um 
boneco Goldorak ao qual faltava uma perna e um robô que tinha uma 
mão só. Falou-me em seguida das mulheres esquisitas de um falso 
americano, que podia ser um nazista disfarçado. Sublinhei que isso de 
mulheres podia ser perigoso, eu mesma era uma, e ele e~a um homem. 
Ele, então, fez dois desenhos: a cabeça de uma ratazana g1gante com um 
enorme focinho e dentes impressionantes, diante de um pedaço de 
queijo gruyire cheio de buracos; depois, um segundo desenho, que 
dizia de sua impossível virilidade: ele estava condenado a ser uma 
mulher. Impossibilidade que, a partir deste desenho, ia bascular para 
uma possibilidade. 
Este desenho-pivô representava um pirata com uma caveira no cha-
péu: sem dúvida, estava armado: dentes, dois revólveres, u~a g~de 
barba, mas não podia alcançar sua espada: cada vez que quena apanhá-
casos 71 
la batia-se contra a parede, pois ela estava atrás de uma porta que, apesar 
da maçaneta, só podia ser aberta se fosse calçada por um prego em 
baixo. Nessas tentativas, ele ficava com um olho preto, pois, estávamos 
em guerra, recebia uma flechada nas costas, uma facada na barriga, seu 
sangue escorria e suas pistolas se descarregavam sobre seus próprios 
pés: ele não tinha chance. 
Disse-lhe, então, que talvez David também tivesse a impressão de 
não ter uma chance, mas que isso podia mudar, e ele saiu muito 
emocionado. 
A partir daí as coisas iam se construir para ele. Encontrou sua boca, 
que nio era mais apenas um buraco passivo que precisava obstruir para 
não ser invadido. Buscou, depois, um modelo de identificação: um 
verdadeiro semelhante. Deveria ele copiar uma imagem e tornar-se .. um 
fantasma impecável", que daria prazer à mãe, mas estaria morto? Ou se 
trataria, antes, de alguma outra coisa? Sem dúvida, o triângulo das 
Bermudas é um lugar perigoso no mar, onde os barcos desaparecem, são 
tragados, mas o lugar é localizado e pode-se escapar dele. Para isso ele 
desenhou um avião-tubarão que podia atacar no ar e na água, evocando 
a ereção onde ele tinha um lugar protegido. Existia o monstro do Lago 
Ness, mas podia-se matá-lo ou evitá-lo e ele encontrou um suporte na 
lenda de David e Golias. 
Neste ponto o tratamento foi interrompido pela intrusão materna. 
A mãe toda 
Este trabalho feito com David é um questionamento da castração e do 
desejo m'atemo. No começo do tratamento, ele se defendeu contra a mãe 
imaginária, não-barrada, fáHca, tampando todos os orifícios de seu 
corpo, com exceção das orelhas. e assim ele se fez parede, fugindo para 
o irreal, o extraterrestre: ele era o •homem que fracassou·, e assim 
fracassava em toda a parte_ mas recebia na sessão, logo de saída, a 
injunção contrária à da mie: você não deve copiar, não lbe peço que 
seja meu espelho, nem que seja uma mulher. Durante algum tempo, em 
seguida, saindo de suas leituras - que dizia fazer para que todos tives-
sem sossego - interrogou-se sobre como, com uma chave que nio abria 
porta alguma, se podia, a partir do mesmo, fazer a diferença. 
Num terceiro tempo, para agradar o Outro matemo, desvhilizou-se, 
fez-se furo, e foi inclusive atingido em seu corpo. um cravo o trespas-
sou. Foi então que sua mãe me disse: .. David quer ser o mártir, e Pbilippe 
quer arrasar o mundo". Lembremo-nos de que o irmão mais velho é 
aquele e111 quem a mãe se reconhece. 
70 a criança no dlsc:orso analítico 
pés. Nesse sentido, ele me dizia que houve a guerra entre os alemães e 
os poloneses, me falava de crucificações, de flagelos, torturas, e acres-
centava que os judeus foram mortos pelos alemães. 
Foi então que vi sua mãe, que veio só porque David estava _d~nte. 
Agressiva e apressada, pensava não ter nada a se censurar, e dtzta que 
não pedia de David '"a cruz e a bandeira... Descreveu o filho como 
rebelde e sujo, com os dedos que chupava. Ele se r~cu~va a come! de 
manhã, então ela o forçava. Quanto a mim, encamtnhet mal as c01~s 
interrogando-a sobre a infância de seus pais na Polônia. O_fendJ-a, 
fazendo alusão a uma eventual origem judaica. Ela deu aos dots filhos 
nomes que estavam, na época, em moda. Nada tinha a dizer ~uanto a 
isso, e também não sabia porque sua mãe teve um membro muulado no 
passado. . . 
Diante desta hostilidade maciça, desta ordem melutável, sugert que 
seu filho teria necessidade de que ela lhe consagrasse alguns minutos 
por semana. Este modesto pedido foi rej~itado co~o absurdo: ela n~o 
estava interessada no que ele contava; alem do mais, ele lhe respondia, 
e isso era intolerável. 
O Crucificado 
David esteve ausente por três semanas, teve febre e uma verruga ~Jantar: 
o furo se inscreveu em seu corpo. Na volta, desenhou um croc1ficado 
de cabelos compridos: sangue negro escorria de seu lado, ele tinha 
cravos nas mãos e nos pés. Falou-me, em seguida, de sua verrog&-cra~o, 
da qual fez três desenhos: um círculo redondo com um furo no meto, 
que ele perfurou, realmente, no papel; seu pé todo, com um furo dentro, 
e finalmente os instrumentos para tratar dele. 
Na sessão seguinte, me trouxe, e fez com que eu observasse, um 
boneco Goldorak ao qual faltava uma perna e um robô que tinha uma 
mão só. Falou-me em seguida das mulheres esquisitas de um falso 
americano, que podia ser um nazista disfarçado. Sublinhei que isso de 
mulheres podia ser perigoso, eu mesma era uma, e ele e~a um homem. 
Ele, então, fez dois desenhos: a cabeça de uma ratazana g1gante com um 
enorme focinho e dentes impressionantes, diante de um pedaço de 
queijo gruyire cheio de buracos; depois, um segundo desenho, que 
dizia de sua impossível virilidade: ele estava condenado a ser uma 
mulher. Impossibilidade que, a partir deste desenho, ia bascular para 
uma possibilidade. 
Este desenho-pivô representava um pirata com uma caveira no cha-
péu: sem dúvida, estava armado: dentes, dois revólveres, u~a g~de 
barba, mas não podia alcançar sua espada: cada vez que quena apanhá-
casos 71 
la batia-se contra a parede, pois ela estava atrás de uma porta que, apesar 
da maçaneta, só podia ser aberta se fosse calçada por um prego em 
baixo. Nessas tentativas, ele ficava com um olho preto, pois, estávamos 
em guerra, recebia uma flechada nas costas, uma facada na barriga, seu 
sangue escorria e suas pistolas se descarregavam sobre seus próprios 
pés: ele não tinha chance. 
Disse-lhe, então, que talvez David também tivesse a impressão de 
não ter uma chance, mas que isso podia mudar, e ele saiu muito 
emocionado. 
A partir daí as coisas iam se construir para ele. Encontrou sua boca, 
que nio era mais apenas um buraco passivo que precisava obstruir para 
não ser invadido. Buscou, depois, um modelo de identificação: um 
verdadeiro semelhante. Deveria ele copiar uma imagem e tornar-se .. um 
fantasma impecável", que daria prazer à mãe, mas estaria morto? Ou se 
trataria, antes, de alguma outra coisa? Sem dúvida, o triângulo das 
Bermudas é um lugar perigoso no mar, onde os barcos desaparecem, são 
tragados, mas o lugar é localizado e pode-se escapar dele. Para isso ele 
desenhou um avião-tubarão que podia atacar no ar e na água, evocando 
a ereção onde ele tinha um lugar protegido. Existia o monstro do Lago 
Ness, mas podia-se matá-lo ou evitá-lo e ele encontrou um suporte na 
lenda de David e Golias. 
Neste ponto o tratamento foi interrompido pela intrusão materna. 
A mãe toda 
Este trabalho feito com David é um questionamento da castração e do 
desejo m'atemo. No começo do tratamento, ele se defendeu contra a mãe 
imaginária, não-barrada, fáHca, tampando todos os orifícios de seu 
corpo, com exceção das orelhas. e assim ele se fez parede, fugindo para 
o irreal, o extraterrestre: ele era o •homem que fracassou·, e assim 
fracassava em toda a parte_ mas recebia na sessão, logo de saída, a 
injunção contrária à da mie: você não deve copiar, não lbe peço que 
seja meu espelho, nem que seja uma mulher. Durante algum tempo, em 
seguida, saindo de suas leituras - que dizia fazer para que todos tives-
sem sossego - interrogou-se sobre como, com uma chave que nio abria 
porta alguma, se podia, a partir do mesmo, fazer a diferença. 
Num terceiro tempo, para agradar o Outro matemo, desvhilizou-se, 
fez-se furo, e foi inclusive atingido em seu corpo. um cravo o trespas-
sou. Foi então que sua mãe me disse: .. David quer ser o mártir, e Pbilippe 
quer arrasar o mundo". Lembremo-nos de que o irmão mais velho é 
aquele e111 quem a mãe se reconhece. 
72 a criança no d iscurso analítioo 
A partir desse extremo da castração onde ele disse sua virilidade 
impossível, alguma coisa vai se tomar possível. A intrusão real da mãe 
de David interrompeu o trabalho que, depois da oferenda de castração, 
iria permitir a David descobrir que ele não deixava de ter e que o Outro, 
como ele, era barrado. 
Quer se trate de seu gozo na psicose, ou de seu desejo na neurose, é 
da intrusão do Outro primordial que se fez questão em meu trabalho. 
O psicótico, à falta de referência ao terceiro simbólico, permanece 
na díade imaginária mãe/filho, mas também pai/filho, onde um e outro 
se confundem. por falta de introdução do Nome-do-Pai num mais-além 
da mãe, e por isso ele não tem acesso ao um que conta e que se conta. 
O Outro, como lugar da lei, permanece impossível. 
David se confrontou com a mãe-toda, imaginária, cujo desejo onipo-
tente exigiria sua virilidade para que se perpetuasse o idêntico, o 
mesmo, a ordem. 
O Outro impossível ou não-barrado impede o advento do sujeito ·ser 
de não-ser" representado pelo significante binário que só pode surgir da 
castração. -A castração quer dizer que é preciso que o g·ozo seja 
recusado para que ela possa ser alcançada pela escala invertida da lei 
do desejo" (J. Lacan, '"Subversão do sujeito e dialética do desejo", in 
Écrits, p. 827). 
O Outro quer me perder? 
Françoise Koehler 
A clínica analítica de crianças autistas parece trazer uma interrogação 
sobre o que pode estar recoberto pelo conceito de autismo. Os analistas 
qu~ atende~ e~sas crianças bem sabem que existem diferenças entre os 
autistas. Ha cnanças que são qualificadas como mais ou menos autistas 
h~ cr~anças par~ as quais o tratamento analítico é efetivo, e outras qu~ 
nao. Ouve-se as vezes falar de verdadeiros e falsos autistas. Uma 
questão permanece: o que acontece ãs crianças ditas autistas, das· quais 
se pode desconfiar que sejam psicóticas, quando não encontram um 
analista? 
Um diagnóstico em questão 
~téph~ne me foi e~cam!n?ado aos ~ês anos, pelo serviço de psiquiatria 
mfanul, com um dtagnos~tco de auusmo. Era esta, com efe~to, a questão 
que se l_evav_a a c?locar d1ante daquela criança sem ling~agem, que não 
se ~ex1a, nao bnncava e permanecia imóvel, o olhar fixo, como que 
fasctnada por um estranho espetáculo. Sua mãe me dizia que, comple-
tame~te assoberbada _por suas ocupações profissionais, não tivera tempo 
de _cutdar dele, que_ foJ confiado a uma ama, que, só muito tempo depois 
veJo _a _perce~r, ~ao ~alava com a criança, e, absorvida pelos afaieres 
d<?m~ucos, Jamats bnneava com ela. Ep1bora Stéphane tivesse irmãos 
e trmas educados da mesma maneira, ela dizia que nunca se dera conta · 
realmente, da gravidade de seu estado. Foi por ocasião c;le sua enttacb 
na. escola maternal que os professores, alertados pela inércia da criança, 
onentaram os pais para uma consulta. 
O que nos indicou a anamnese foi o fato de Stéphane ter sido 
c~mpletamen~ abandonado durante seus primeiros anos. A criança era 
alimentada, bem tratada, suas necessidades satisfeitas, mas o Outro 
nunca considerou seus apelos em seus significantes, o que lhe teria 
permitido constituir os significantes de sua demanda e, para além desta 
demanda, enunciar seu desejo. Seu mutismo, s ua inércia estavam ali 
73 
72 a criança no d iscurso analítioo 
A partir desse extremo da castração onde ele disse sua virilidade 
impossível, alguma coisa vai se tomar possível. A intrusão real da mãe 
de David interrompeu o trabalho que, depois da oferenda de castração, 
iria permitir a David descobrir que ele não deixava de ter e que o Outro, 
como ele, era barrado. 
Quer se trate de seu gozo na psicose, ou de seu desejo na neurose, é 
da intrusão do Outro primordial que se fez questão em meutrabalho. 
O psicótico, à falta de referência ao terceiro simbólico, permanece 
na díade imaginária mãe/filho, mas também pai/filho, onde um e outro 
se confundem. por falta de introdução do Nome-do-Pai num mais-além 
da mãe, e por isso ele não tem acesso ao um que conta e que se conta. 
O Outro, como lugar da lei, permanece impossível. 
David se confrontou com a mãe-toda, imaginária, cujo desejo onipo-
tente exigiria sua virilidade para que se perpetuasse o idêntico, o 
mesmo, a ordem. 
O Outro impossível ou não-barrado impede o advento do sujeito ·ser 
de não-ser" representado pelo significante binário que só pode surgir da 
castração. -A castração quer dizer que é preciso que o g·ozo seja 
recusado para que ela possa ser alcançada pela escala invertida da lei 
do desejo" (J. Lacan, '"Subversão do sujeito e dialética do desejo", in 
Écrits, p. 827). 
O Outro quer me perder? 
Françoise Koehler 
A clínica analítica de crianças autistas parece trazer uma interrogação 
sobre o que pode estar recoberto pelo conceito de autismo. Os analistas 
qu~ atende~ e~sas crianças bem sabem que existem diferenças entre os 
autistas. Ha cnanças que são qualificadas como mais ou menos autistas 
h~ cr~anças par~ as quais o tratamento analítico é efetivo, e outras qu~ 
nao. Ouve-se as vezes falar de verdadeiros e falsos autistas. Uma 
questão permanece: o que acontece ãs crianças ditas autistas, das· quais 
se pode desconfiar que sejam psicóticas, quando não encontram um 
analista? 
Um diagnóstico em questão 
~téph~ne me foi e~cam!n?ado aos ~ês anos, pelo serviço de psiquiatria 
mfanul, com um dtagnos~tco de auusmo. Era esta, com efe~to, a questão 
que se l_evav_a a c?locar d1ante daquela criança sem ling~agem, que não 
se ~ex1a, nao bnncava e permanecia imóvel, o olhar fixo, como que 
fasctnada por um estranho espetáculo. Sua mãe me dizia que, comple-
tame~te assoberbada _por suas ocupações profissionais, não tivera tempo 
de _cutdar dele, que_ foJ confiado a uma ama, que, só muito tempo depois 
veJo _a _perce~r, ~ao ~alava com a criança, e, absorvida pelos afaieres 
d<?m~ucos, Jamats bnneava com ela. Ep1bora Stéphane tivesse irmãos 
e trmas educados da mesma maneira, ela dizia que nunca se dera conta · 
realmente, da gravidade de seu estado. Foi por ocasião c;le sua enttacb 
na. escola maternal que os professores, alertados pela inércia da criança, 
onentaram os pais para uma consulta. 
O que nos indicou a anamnese foi o fato de Stéphane ter sido 
c~mpletamen~ abandonado durante seus primeiros anos. A criança era 
alimentada, bem tratada, suas necessidades satisfeitas, mas o Outro 
nunca considerou seus apelos em seus significantes, o que lhe teria 
permitido constituir os significantes de sua demanda e, para além desta 
demanda, enunciar seu desejo. Seu mutismo, s ua inércia estavam ali 
73 
74 a criança no diswrso analítico 
como outras tantas respostas ao Che vuoi? Diante da questão do que 
o Outro queria dele, encontrava o nada. Diante dessa não-resposta do 
Outro, lá onde os significantes da demanda faltam, o que a criança vai 
pôr em jogo é um fantasma que se poderia enunciar assim: o Outro quer 
me perder? 
Nas primeiras sessões, Stépbane mostrou que tinha acesso ao simbó-
lico, utilizando a bola que ofereci como uma arma. Atingiu-me com a 
bola, e, quando a devolvi, atirou-se no chão, fazendo-se de morto. O 
começo do tratamento instituiu o equívoco significante: tu és. Será 
como morto que o Outro o deseja? Através desses jogos, ele institui na 
transferência o .analista no lugar do Outro, a quem poderia dirigir essas 
perguntas. 
Depois de alguns meses de tratamento, Stéphane, que já adquirira um 
certo número de significantes, me contou histórias. Desenhou um ani-
ma4 do qual me disse: ·É uma cobra que come cocô .. , e depois, f a zen do 
pontos numa folha: -sei escrever o meu nome·, e se desenhou. Apare-
ciam desde então em seus desenhos traços e cruzes, prenúncios de uma 
escrita. 
Na sessão seguinte Stéphane fez tris desenhos. Primeiro desenhou 
um círculo vazio, enunciando: ·Isto é a mamãe, não tem nada .. , depois, 
com grande júbilo, preencheu o círculo, desenhou enumerando: -Eis os 
olhos, o nariz, a boca .. ; em seguida, fez um sol. No segundo desenho, 
fez uma mamãe cocô. Depois desenhou dizendo: -Na barriga da mamãe 
tem um tudo, um tudo é isso.,. 
A cobra que come cocô remete à teoría cloaca!. Esta teoria traz uma 
solução ao enigma ·da origem das crianças, solução que não oferece mais 
nada de originário. Come-se uma certa coisa, e isso faz com que se tenha 
um bebê. Stépbane se identificou ao órgão fálico da mãe, a cobra que 
come cocôs, sua maneira própria de fazer filhos no Outro, na trans fe-
rência. 
Seis meses depois do começo do tratamento, Stéphane empreendeu 
uma importante atividade de recorte: inicialmente, desenhou sua mãe, 
da qual cortou as extremidades. Numa sessão posterior, começou a 
cortar tiras. de papel. Perguntei-lhe o que fazia e me respondeu que 
cortava peixes. -mes estão mortos, os peixes .. , dizia ele, recortando S'l!as 
tiras com extremo júbilo, fazendo barulhos, -clack, clack, clack .. , sol-
tando gritinhos agudos visando imitar o grito do peixe que se mata. É 
preciso que eu diga, aqui, que os pais de Stépbane faziam comércio de 
peixes e foi devido a este comércio que a mie ficou totalmente assober-
bada depois de seu casamento e mais particularmente quando do nasci-
mento de Stéphane. 
Na sessão seguinte, Stêphane brincou de me matar com a bola, depois 
apagou a luz e, indicando-me o divã, obrigou-me a deitar, di~endo: 
75 
·Dona Cólera vamos mimir ... Reagi, e ele respondeu por um ·num 
~um .. , voltou a acender a luz e me disse: .. Acorde ... Bu lhe perguntei; 
Quem tem medo do lobo? .. Respondeu: ·o galo". Seu sobrenome 
evocava o nome de um predador de galinheiros. Em seguida, ele apa-
nhou uma caixa cheia de contas, esvaziou-a e disse: '"Não tem nada 
aqui ... Depois saiu e foi até a sala de espera constatar a ausência da mãe 
que fora fazer compras. Chamou-me, para que eu constatasse com el~ 
aquela ausência, e voltou a entrar tranqüilamente no consultório. 
. Essas sessões foram um momento crucial no tratamento. Elas permi-
tiram compreender aquilo que Stéphane atualizou desde o início de seu 
tra!Jimento, nesse movimento que consistia em maw - ser morto. Ele 
permanecia estancado na imobilidade do peixe morto identificado . .. . ' 
~m~gtnartamente com o objeto do desejo de sua mãe. A criança nos 
~ndt~ o lugar que o fantasma matemo visava lhe indicar, procurando 
tdenuficar-se com o objeto que Lacan designa como objeto a do fantas-
ma. Procura, identificando-se com esse objeto, saturar o modo de falta 
no qual se especifica o desejo da mãe. Se a ausência vem indicar que é 
o falo que a mãe deseja, então, para agradar a mãe e a f1m de retê-la a 
criança não. pr~isa mais do que se identificar com o falo, ou ao obj~to 
que o. substitui .. No caso, para Stéphane, o que atraía a mãe para junto 
do pat e a mantmha afastada dele eram os peixes. 
A sessão em que Stéphane cortou os peixes veio introduzir uma 
vir:-da ~m s~a posição subjetiva. Stéphane pôde passar da posição do 
objeto Jdennficado com o objeto do desejo da mãe a uma posição de 
agente, identificado então com aquele que operava o corte. Houve um 
efeito de corte entre a mãe e o objeto, e a criança pôde constatar que 
tem poder sobre o mundo. Essa hipótese pareceu se confirmar nas 
sessões seguintes: qua~do ele me mandou deitar no divã estava m~ 
pondo no lugar de objeto, no lugar onde se tem que assumir a angústia 
da castração de que ele se fez o agente. Era este poder sobre o mundo 
que lhe permitia aceitar a ausência da mãe, a mãe pôde então se ausentar 
sem deixá-lo presa de uma angústia dilacerante. 
O que aconteceu no tratamento naquele momento iria ter um efeito 
singular sobre a mãe. Ela me explicou que durante as festas de Nata) 
havia sido presa de uma estafa que a obrigara a interromper seu trabalho. 
Efeito de fading, sem dúvida, produzi~o pela mudança delugar de 
Stépbane, ocasionando para ela uma perda de gozo. 
Uma falta vem recobrir outra 
Na sessão seguinte, ele desenhou um menino e o recortou, operando o 
corte em diversos níveis do corpo, dizendo-me: -EJe está morto, ele está 
74 a criança no diswrso analítico 
como outras tantas respostas ao Che vuoi? Diante da questão do que 
o Outro queria dele, encontrava o nada. Diante dessa não-resposta do 
Outro, lá onde os significantes da demanda faltam, o que a criança vai 
pôr em jogo é um fantasma que se poderia enunciar assim: o Outro quer 
me perder? 
Nas primeiras sessões, Stépbane mostrou que tinha acesso ao simbó-
lico, utilizando a bola que ofereci como uma arma. Atingiu-me com a 
bola, e, quando a devolvi, atirou-se no chão, fazendo-se de morto. O 
começo do tratamento instituiu o equívoco significante: tu és. Será 
como morto que o Outro o deseja? Através desses jogos, ele institui na 
transferência o .analista no lugar do Outro, a quem poderia dirigir essas 
perguntas. 
Depois de alguns meses de tratamento, Stéphane, que já adquirira um 
certo número de significantes, me contou histórias. Desenhou um ani-
ma4 do qual me disse: ·É uma cobra que come cocô .. , e depois, f a zen do 
pontos numa folha: -sei escrever o meu nome·, e se desenhou. Apare-
ciam desde então em seus desenhos traços e cruzes, prenúncios de uma 
escrita. 
Na sessão seguinte Stéphane fez tris desenhos. Primeiro desenhou 
um círculo vazio, enunciando: ·Isto é a mamãe, não tem nada .. , depois, 
com grande júbilo, preencheu o círculo, desenhou enumerando: -Eis os 
olhos, o nariz, a boca .. ; em seguida, fez um sol. No segundo desenho, 
fez uma mamãe cocô. Depois desenhou dizendo: -Na barriga da mamãe 
tem um tudo, um tudo é isso.,. 
A cobra que come cocô remete à teoría cloaca!. Esta teoria traz uma 
solução ao enigma ·da origem das crianças, solução que não oferece mais 
nada de originário. Come-se uma certa coisa, e isso faz com que se tenha 
um bebê. Stépbane se identificou ao órgão fálico da mãe, a cobra que 
come cocôs, sua maneira própria de fazer filhos no Outro, na trans fe-
rência. 
Seis meses depois do começo do tratamento, Stéphane empreendeu 
uma importante atividade de recorte: inicialmente, desenhou sua mãe, 
da qual cortou as extremidades. Numa sessão posterior, começou a 
cortar tiras. de papel. Perguntei-lhe o que fazia e me respondeu que 
cortava peixes. -mes estão mortos, os peixes .. , dizia ele, recortando S'l!as 
tiras com extremo júbilo, fazendo barulhos, -clack, clack, clack .. , sol-
tando gritinhos agudos visando imitar o grito do peixe que se mata. É 
preciso que eu diga, aqui, que os pais de Stépbane faziam comércio de 
peixes e foi devido a este comércio que a mie ficou totalmente assober-
bada depois de seu casamento e mais particularmente quando do nasci-
mento de Stéphane. 
Na sessão seguinte, Stêphane brincou de me matar com a bola, depois 
apagou a luz e, indicando-me o divã, obrigou-me a deitar, di~endo: 
75 
·Dona Cólera vamos mimir ... Reagi, e ele respondeu por um ·num 
~um .. , voltou a acender a luz e me disse: .. Acorde ... Bu lhe perguntei; 
Quem tem medo do lobo? .. Respondeu: ·o galo". Seu sobrenome 
evocava o nome de um predador de galinheiros. Em seguida, ele apa-
nhou uma caixa cheia de contas, esvaziou-a e disse: '"Não tem nada 
aqui ... Depois saiu e foi até a sala de espera constatar a ausência da mãe 
que fora fazer compras. Chamou-me, para que eu constatasse com el~ 
aquela ausência, e voltou a entrar tranqüilamente no consultório. 
. Essas sessões foram um momento crucial no tratamento. Elas permi-
tiram compreender aquilo que Stéphane atualizou desde o início de seu 
tra!Jimento, nesse movimento que consistia em maw - ser morto. Ele 
permanecia estancado na imobilidade do peixe morto identificado . .. . ' 
~m~gtnartamente com o objeto do desejo de sua mãe. A criança nos 
~ndt~ o lugar que o fantasma matemo visava lhe indicar, procurando 
tdenuficar-se com o objeto que Lacan designa como objeto a do fantas-
ma. Procura, identificando-se com esse objeto, saturar o modo de falta 
no qual se especifica o desejo da mãe. Se a ausência vem indicar que é 
o falo que a mãe deseja, então, para agradar a mãe e a f1m de retê-la a 
criança não. pr~isa mais do que se identificar com o falo, ou ao obj~to 
que o. substitui .. No caso, para Stéphane, o que atraía a mãe para junto 
do pat e a mantmha afastada dele eram os peixes. 
A sessão em que Stéphane cortou os peixes veio introduzir uma 
vir:-da ~m s~a posição subjetiva. Stéphane pôde passar da posição do 
objeto Jdennficado com o objeto do desejo da mãe a uma posição de 
agente, identificado então com aquele que operava o corte. Houve um 
efeito de corte entre a mãe e o objeto, e a criança pôde constatar que 
tem poder sobre o mundo. Essa hipótese pareceu se confirmar nas 
sessões seguintes: qua~do ele me mandou deitar no divã estava m~ 
pondo no lugar de objeto, no lugar onde se tem que assumir a angústia 
da castração de que ele se fez o agente. Era este poder sobre o mundo 
que lhe permitia aceitar a ausência da mãe, a mãe pôde então se ausentar 
sem deixá-lo presa de uma angústia dilacerante. 
O que aconteceu no tratamento naquele momento iria ter um efeito 
singular sobre a mãe. Ela me explicou que durante as festas de Nata) 
havia sido presa de uma estafa que a obrigara a interromper seu trabalho. 
Efeito de fading, sem dúvida, produzi~o pela mudança de lugar de 
Stépbane, ocasionando para ela uma perda de gozo. 
Uma falta vem recobrir outra 
Na sessão seguinte, ele desenhou um menino e o recortou, operando o 
corte em diversos níveis do corpo, dizendo-me: -EJe está morto, ele está 
76 a criança no discurso analítico 
ferido ... Perguntqu como me chamava, desenhando um homem. Disse 
meu nome e lhe perguntei: e você? Ele me respondeu: .. Stéphane". 
Repeti seu nome, acot:npanhado do sobrenome. Então ele riscou seu 
homem, amassou o papel e o jogou no lixo, dizendo-me algo que não 
entendi. E constatei, depois de sua safda, que carregara o desenho sem 
que eu visse. 
Esta seqüência, a propósito da nomeação, pôs em jogo a vertente 
simbólica. Ele pôde, assim, tanto se considerar como morto ou ferido 
por intermédio do desenho como se fazer desaparecer simbolicamente. 
Era o fantasma de sua morte e desaparecimento que ele encenava. O 
Outro podia perdê-lo? No começo do tratamento tínhamos o fantasma 
em sua vertente imaginária; agora ele podia ser retomado na vertente 
simbólica. Quando escamoteou o desenho, deixou-me privada, faltosa, 
uma falta recobrindo outra. 
Durante as sessões seguintes, desenhou inicialmente um robô, que 
cortou, dizendo: .. É um robô que tem mais", deixando o equívoco entre 
~mais .. e "'mais", pondo em jogo sua castração de · menino. Depois, 
pegou bichos de pelúcia: um peixe, uma abelha que prudentemente 
chamou de libélula (as libélulas não picam), dizendo-me: .. A libélula 
come o peixe ... Apanhou garrafas de boliche, que guardava na caixa, 
dizendo: .. Que ótimo!". Depois contou, 1-2-3, perguntando-me: .. E 
depois de três, quanto é?" e em seguida, depois de 4, de 5, até 9. Então 
me disse: .. só falta um. só um ... O um, daqui por diante, pôde faltar, ele 
pôde contar a partir da· falta, do zero. 
Durante as sessões que iriam se seguir, apanhou livros com figuras 
e · fingiu ler. Leu Pinóquio para mim: ~Pinóquio apanhou os peixes 
1-2-3, e comeu, e agora a baleia malvada vai comer Pinóquio", e 
encadeou: .. Papai caiu na água e morreu". Recuperou-se depressa: 
.. Mas existe uma mágica, e assim Pinóquio não morreu". Tomou, então, 
um catálogo de brinquedos e fez a lista de todos os brinquedos que 
queria que eu comprasse para ele, eliminando aqueles que considerava 
como sendo para bebês e só deixando os que julgava serem para 
meninos, dos quais dizia: ~Isso é para meninos". Quando sua mãe veio 
buscá-lo no f1nal da sessão, ele pegou o catálogo e enumerou para ela 
os brinquedos que queria ganhar no seu aniversário. A mãe disse: .. Está 
bem, mas não tudo". Fui escandiro ~não tudo", e então ele me olhou 
dizendo: .. Esqueci meus revólveres em casa .. , indicando-me que o que 
tinha estava em casa. Stépbane exprimiu ao mesmo tempo que não era 
mais um bebê, que era um menino e por isso estava confrontado com a 
castração, como todos os meninos de cinco anos às voltas com a 
problemática edi piana . Introduzia pela primeira vez o significante ·pai .. 
nas sessões, num registro que unia a morte e a paternidade. 
casos n 
Ele construiu uma casa em Lego e instaurou um jogo. Fez entrarem 
dois ratinhos, dizendo: .. Ding, ding, entre, quem está aí? Sou eu ... 
Inr.talou uma mesa na casa, dizendo-me: .. Olhe só, Dona Cólera, estou 
pondo a mesa e os pratos, vamos comer os peixes e as galinhas .. , pondo 
em jogo os s ignificantes nos seus valores de uso. 
Se a questão inaugural do tratamento de Stéphane era a do autismo, 
'~S coisas se resolveram muito depressa. Stéphane está estruturado no 
registro neurótico. No entanto, quando veio me ver, Stéphane parecia 
fixado sob o significante ·unário, o S., o que lhe dava essa aparente 
petrificação, essa presença maciça. Parecia não haver possibilidade para 
ele de advir como sujeito barrado. Stéphane havia feito a escolha do ser. 
Fazer a escolha do sentido o teria remetido, pelo lado do Outro, a uma 
resposta mortífera. O trabalho do tratamento ia lhe pennitir escolher o 
sentido colocando a barra no Outro. 
76 a criança no discurso analítico 
ferido ... Perguntqu como me chamava, desenhando um homem. Disse 
meu nome e lhe perguntei: e você? Ele me respondeu: .. Stéphane". 
Repeti seu nome, acot:npanhado do sobrenome. Então ele riscou seu 
homem, amassou o papel e o jogou no lixo, dizendo-me algo que não 
entendi. E constatei, depois de sua safda, que carregara o desenho sem 
que eu visse. 
Esta seqüência, a propósito da nomeação, pôs em jogo a vertente 
simbólica. Ele pôde, assim, tanto se considerar como morto ou ferido 
por intermédio do desenho como se fazer desaparecer simbolicamente. 
Era o fantasma de sua morte e desaparecimento que ele encenava. O 
Outro podia perdê-lo? No começo do tratamento tínhamos o fantasma 
em sua vertente imaginária; agora ele podia ser retomado na vertente 
simbólica. Quando escamoteou o desenho, deixou-me privada, faltosa, 
uma falta recobrindo outra. 
Durante as sessões seguintes, desenhou inicialmente um robô, que 
cortou, dizendo: .. É um robô que tem mais", deixando o equívoco entre 
~mais .. e "'mais", pondo em jogo sua castração de · menino. Depois, 
pegou bichos de pelúcia: um peixe, uma abelha que prudentemente 
chamou de libélula (as libélulas não picam), dizendo-me: .. A libélula 
come o peixe ... Apanhou garrafas de boliche, que guardava na caixa, 
dizendo: .. Que ótimo!". Depois contou, 1-2-3, perguntando-me: .. E 
depois de três, quanto é?" e em seguida, depois de 4, de 5, até 9. Então 
me disse: .. só falta um. só um ... O um, daqui por diante, pôde faltar, ele 
pôde contar a partir da· falta, do zero. 
Durante as sessões que iriam se seguir, apanhou livros com figuras 
e · fingiu ler. Leu Pinóquio para mim: ~Pinóquio apanhou os peixes 
1-2-3, e comeu, e agora a baleia malvada vai comer Pinóquio", e 
encadeou: .. Papai caiu na água e morreu". Recuperou-se depressa: 
.. Mas existe uma mágica, e assim Pinóquio não morreu". Tomou, então, 
um catálogo de brinquedos e fez a lista de todos os brinquedos que 
queria que eu comprasse para ele, eliminando aqueles que considerava 
como sendo para bebês e só deixando os que julgava serem para 
meninos, dos quais dizia: ~Isso é para meninos". Quando sua mãe veio 
buscá-lo no f1nal da sessão, ele pegou o catálogo e enumerou para ela 
os brinquedos que queria ganhar no seu aniversário. A mãe disse: .. Está 
bem, mas não tudo". Fui escandir o ~não tudo", e então ele me olhou 
dizendo: .. Esqueci meus revólveres em casa .. , indicando-me que o que 
tinha estava em casa. Stépbane exprimiu ao mesmo tempo que não era 
mais um bebê, que era um menino e por isso estava confrontado com a 
castração, como todos os meninos de cinco anos às voltas com a 
problemática edi piana . Introduzia pela primeira vez o significante ·pai .. 
nas sessões, num registro que unia a morte e a paternidade. 
casos n 
Ele construiu uma casa em Lego e instaurou um jogo. Fez entrarem 
dois ratinhos, dizendo: .. Ding, ding, entre, quem está aí? Sou eu ... 
Inr.talou uma mesa na casa, dizendo-me: .. Olhe só, Dona Cólera, estou 
pondo a mesa e os pratos, vamos comer os peixes e as galinhas .. , pondo 
em jogo os s ignificantes nos seus valores de uso. 
Se a questão inaugural do tratamento de Stéphane era a do autismo, 
'~S coisas se resolveram muito depressa. Stéphane está estruturado no 
registro neurótico. No entanto, quando veio me ver, Stéphane parecia 
fixado sob o significante ·unário, o S., o que lhe dava essa aparente 
petrificação, essa presença maciça. Parecia não haver possibilidade para 
ele de advir como sujeito barrado. Stéphane havia feito a escolha do ser. 
Fazer a escolha do sentido o teria remetido, pelo lado do Outro, a uma 
resposta mortífera. O trabalho do tratamento ia lhe pennitir escolher o 
sentido colocando a barra no Outro. 
O dejeto 
Esthela Solano-Suarez 
O encontro 
Marine não falava. Tinha quatro anos e meio. Seu olhar era selvagem, 
assustado. Ela foi tratada de uma suposta surdez não constatada pelos 
exames realizados. 
Embora tivesse aprendido a andar, caía a toda hora. Isso acabou 
preocupando seus pais. Insônia, enurese, encopresia e anorexia vinham 
completar esse quadro inicial. .. Não há causa orgânica .. , diziam os mé-
dicos do hospital de Trousseau, que recomendaram uma psicoterapia. 
O im'cio da análise 
A análise começou na presença da mãe, pois qualquer tentativa de 
separação provocava em Marine o maior tenor. 
Num primeiro tempo, ela dedicou-se energicamente a rasgar em dois 
as folhas nas quais acabava de rabiscar uma série de traços. Seguiu-se 
uma tentativa fracassada de colagem: a fita gomada era impotente, 
depois de cada corte, para ftxar o nada, os pequenos traços ou o rasgado. 
Isso não colava, e Marine caiu. 
Mais tarde, inventou um jogo que ia lhe dar grande satisfação: um 
objeto era modelado; depois ela ia arrancando pedaços dele, atirando-os 
ao chão um após o outro, com gritos de alegria e excitação. Desses 
pedaços que caíam, separou um. Dessa vez, sim, ele foi ftxado com 
durex na folha de papel, tal como um ponto que viria estancar a 
cachoeira de pedaços que se precipitavam numa queda infinita. 
Desse ponto, ela não deixou de tirar conseqüências: uma forma 
emergiu dentre os traços que escreveu, uma forma que denunciava os 
contornos de um rosto patético. Este era seguido por quatro círculos, 
cada um diferenciado por sua cor. Marine fez um corte no meio de cada 
circulo, o que os dividiu em duas metades. 
78 
casos 
As leis da linguagem 
Vamos acompanhar Marine no caminho que ela abria a golpes de 
tesoura, e saibamos reconhecer nos pequenos traços que desenhava na 
pura diferença introduzida pela cor, no corte de superfície que exec~ta­
va, as próprias leis da linguagem. 
Mesmo que ~isso não falasse .. nela, em sua volta .. isso falava dela" 
e ia se verificar que nossos encontros tinham o lugar de campo d~ 
linguagem. Por ai se abriu um caminho onde se destacava que, entre o 
sujeito e o Outro, o inconsciente é o seu corte em ato, tal como Lacan 
o definia em Posição do Inconsciente . 
Que nossa preocupação de nada querer saber não nos faça esquecer 
de que este corte em ato, até mesmo o conceito do inconsciente são 
dirigidos ao analista: ele faz parte deles, diz Lacan. 
"Pontinha!" 
Marine modelara um anel, que depois achatou (I); em seguida, fez um 
corte nele (2 ); tomou a fechar o anel (3); cortou-o de novo, em dois 
@ 
Figura l Figura 2 Figura 3 
© (QJ 
Figura 4 Figura 5 
ooo. 
o. orE o 
Figura 6 Figura 7 
O dejeto 
Esthela Solano-Suarez 
O encontro 
Marine não falava. Tinha quatro anos e meio. Seu olhar era selvagem, 
assustado. Ela foi tratada de uma supostasurdez não constatada pelos 
exames realizados. 
Embora tivesse aprendido a andar, caía a toda hora. Isso acabou 
preocupando seus pais. Insônia, enurese, encopresia e anorexia vinham 
completar esse quadro inicial. .. Não há causa orgânica .. , diziam os mé-
dicos do hospital de Trousseau, que recomendaram uma psicoterapia. 
O im'cio da análise 
A análise começou na presença da mãe, pois qualquer tentativa de 
separação provocava em Marine o maior tenor. 
Num primeiro tempo, ela dedicou-se energicamente a rasgar em dois 
as folhas nas quais acabava de rabiscar uma série de traços. Seguiu-se 
uma tentativa fracassada de colagem: a fita gomada era impotente, 
depois de cada corte, para ftxar o nada, os pequenos traços ou o rasgado. 
Isso não colava, e Marine caiu. 
Mais tarde, inventou um jogo que ia lhe dar grande satisfação: um 
objeto era modelado; depois ela ia arrancando pedaços dele, atirando-os 
ao chão um após o outro, com gritos de alegria e excitação. Desses 
pedaços que caíam, separou um. Dessa vez, sim, ele foi ftxado com 
durex na folha de papel, tal como um ponto que viria estancar a 
cachoeira de pedaços que se precipitavam numa queda infinita. 
Desse ponto, ela não deixou de tirar conseqüências: uma forma 
emergiu dentre os traços que escreveu, uma forma que denunciava os 
contornos de um rosto patético. Este era seguido por quatro círculos, 
cada um diferenciado por sua cor. Marine fez um corte no meio de cada 
circulo, o que os dividiu em duas metades. 
78 
casos 
As leis da linguagem 
Vamos acompanhar Marine no caminho que ela abria a golpes de 
tesoura, e saibamos reconhecer nos pequenos traços que desenhava na 
pura diferença introduzida pela cor, no corte de superfície que exec~ta­
va, as próprias leis da linguagem. 
Mesmo que ~isso não falasse .. nela, em sua volta .. isso falava dela" 
e ia se verificar que nossos encontros tinham o lugar de campo d~ 
linguagem. Por ai se abriu um caminho onde se destacava que, entre o 
sujeito e o Outro, o inconsciente é o seu corte em ato, tal como Lacan 
o definia em Posição do Inconsciente . 
Que nossa preocupação de nada querer saber não nos faça esquecer 
de que este corte em ato, até mesmo o conceito do inconsciente são 
dirigidos ao analista: ele faz parte deles, diz Lacan. 
"Pontinha!" 
Marine modelara um anel, que depois achatou (I); em seguida, fez um 
corte nele (2 ); tomou a fechar o anel (3); cortou-o de novo, em dois 
@ 
Figura l Figura 2 Figura 3 
© (QJ 
Figura 4 Figura 5 
ooo. 
o. orE o 
Figura 6 Figura 7 
80 a c:rianQI no disrurso analítico 
pontos diferentes (4); depois, fechou o anel mais uma vez (S); cortou-o 
em seis lugares (6); fechou-o ainda uma vez (7). 
Durante todo esse tempo ·eJa chupou a própria lfngua ; em seguida, 
colocou um pedaço de massa de rtrodelagem no buraco central do anel, 
o furo desapareceu e ela pronunciou a primeira palavra: "Pontinha!"' 
O que havia ali de pronto a falar, diz Lacan, desaparecia por não ser 
mais que um significante. O que havia em Marine de pronto a falar, 
falou, depois deste curioso trabalho onde o corte despertou o batimento 
que carac teriza a pulsação temporal do inconsciente. A pontinha é o 
nome daquilo que vem no lugar do furo central, furo delimitado pela 
borda dessa superfície que se abre e toma a fechar numa alternância de 
sucção. 
Fort/Da 
Marine brincava: a pontinha era colada na palma da mão de sua mãe, e 
esta devia bater palmas de modo que a pontinha aparecesse e desapare-
cesse entre suas mãos. Marine, exultante, pedia para repetir! Em segui-
da, e ra e la quem vinha presentificar a pontinha, escondendo-se e 
desaparecendo para reaparecer, chamada pelos -pára!" enunciados pela 
mãe. Este jogo de aparecer e desaparecer foi sucedido por uma sessão 
na qual Marine brincou de nos fazer desaparecer, eu e sua mãe. Ela nos 
matou. Nos dias que se seguiram, você e eu apareceram em suas frases. 
Esse aniquilamento que ela operou por intermédio de seu jogo fez 
com que se sentisse culpada, culpada dessa fa lta que consistia em nada 
mais do que aquilo que fazia fa ltà. A falta da qual ela nos iria tratar era 
chamada -dodói ... Apesar dos cuidados, um -dodói .. voltava sempre ao 
mesmo lugar, em sua mãe. -Mamãe dodói .. , disse Marine , ao mesmo 
tempo em que indicava o seio da mãe. Chupou o polegar e rasgou uma 
folna em dois. 
A partir daí Marine fez as sessões sozinha, isto i, decidiu deixar a 
mãe na sala de espera. Esta aceitou, imperturbável, tal como se mani-
festava desde o começo da análise da filha. Esta separação produzida 
era, portanto, corte, já observável nessa possibilidade de corte introdu-
zida pelo significante no real. 
O objeto oral 
O - dodói .. no seio indicava, talvez, esse corte que devia passar entre o 
seio e a mãe, para que aquele pudesse ser dado à criança. O esforço de 
Marine no que se seguiu fo i concentrado em produzir a queda deste 
objelo . 
81 
O ·dooói .. se deslocou. então, para a boca. Ela brincou de comidinha 
e reproduziu uma cena onde o bebê não queria comer, mostrou-se 
violenta e brutal: ·você não quer!• Jogou tudo no chão e acrescentou: 
"Agora é você quem vai apanhar!"' 
Uma outra cena: ela deu de comer à rãzinha de brinquedo e, quando 
introduziu um bocado na boca desta. estremeceu e disse "Ai!": Em seu 
rosto podia-se ler uma expressão de hoiTor. De que bocado se tratava 
de fazer engolir, para produzir tamanho hottor? Seja como for, o bebê 
preferiu não se alimentar de nada. E com razão! 
Nesse ponto Marine voltou às superfícies. Numa fo lha de papel, 
desenhou um círculo (o fonema "rond" (círculo] faz parte de seu 
sobrenome). A borda do círculo foi delimitada várias vezes com um 
lápis; depois cortou o interior do círculo, um pedacinho central se 
destacou dele e Marine caiu, segurando o pedaço de papel. . 
Ela observou o furo feito na folha e apanhou uma outra, que dividiu 
com um traço para ali inscrever uma escrita em quatro lugares: 
L LLL 
LLJ..t. L LL L.L 
O que ela lia assim: mam~e ~-Maladoé o nome peloqualdesig-
. mamac matauo 
nava sua anahsta. . 
Logo depois de ter produzido este corte, que instaurou o furo, Mario e 
ordenou a escrita, na qual pudemos reconhecer aquela .. estrutura qua-
dripartite desde o inconsciente, sempre exigível na construção de um 
ordenamento subjetivo .. , tal como nos indica Lacan em Kant com Sade. 
Para Marine, isto foi a escrita de um nome. 
Marine contou Jltla primeira vez uma his tória: uma menina come, 
man(ge). O -je .. (eu) era elidido de todas as palavras em que aparecia 
como fonema; um bebê dorme no berço, o bebê toma seu ·bron .. 
(abreviatura de bibero11 , mamadeira), mamãe dá .. bron", papai dá 
·bron". 
Nessa série de enunciados podemos ler um desejo submetido ao 
fantasma. A mamade ira entrou na dialética do dom. O objeto causa do 
desejo é acessível na medida em que é tomado no movimento pacifica-
dor instaurado pelo significante fático. 
80 a c:rianQI no disrurso analítico 
pontos diferentes (4); depois, fechou o anel mais uma vez (S); cortou-o 
em seis lugares (6); fechou-o ainda uma vez (7). 
Durante todo esse tempo ·eJa chupou a própria lfngua ; em seguida, 
colocou um pedaço de massa de rtrodelagem no buraco central do anel, 
o furo desapareceu e ela pronunciou a primeira palavra: "Pontinha!"' 
O que havia ali de pronto a falar, diz Lacan, desaparecia por não ser 
mais que um significante. O que havia em Marine de pronto a falar, 
falou, depois deste curioso trabalho onde o corte despertou o batimento 
que carac teriza a pulsação temporal do inconsciente. A pontinha é o 
nome daquilo que vem no lugar do furo central, furo delimitado pela 
borda dessa superfície que se abre e toma a fechar numa alternância de 
sucção. 
Fort/Da 
Marine brincava: a pontinha era colada na palma da mão de sua mãe, e 
esta devia bater palmas de modo que a pontinha aparecesse e desapare-
cesse entre suas mãos. Marine, exultante, pedia para repetir! Em segui-
da, e ra e la quem vinha presentificar a pontinha, escondendo-se e 
desaparecendopara reaparecer, chamada pelos -pára!" enunciados pela 
mãe. Este jogo de aparecer e desaparecer foi sucedido por uma sessão 
na qual Marine brincou de nos fazer desaparecer, eu e sua mãe. Ela nos 
matou. Nos dias que se seguiram, você e eu apareceram em suas frases. 
Esse aniquilamento que ela operou por intermédio de seu jogo fez 
com que se sentisse culpada, culpada dessa fa lta que consistia em nada 
mais do que aquilo que fazia fa ltà. A falta da qual ela nos iria tratar era 
chamada -dodói ... Apesar dos cuidados, um -dodói .. voltava sempre ao 
mesmo lugar, em sua mãe. -Mamãe dodói .. , disse Marine , ao mesmo 
tempo em que indicava o seio da mãe. Chupou o polegar e rasgou uma 
folna em dois. 
A partir daí Marine fez as sessões sozinha, isto i, decidiu deixar a 
mãe na sala de espera. Esta aceitou, imperturbável, tal como se mani-
festava desde o começo da análise da filha. Esta separação produzida 
era, portanto, corte, já observável nessa possibilidade de corte introdu-
zida pelo significante no real. 
O objeto oral 
O - dodói .. no seio indicava, talvez, esse corte que devia passar entre o 
seio e a mãe, para que aquele pudesse ser dado à criança. O esforço de 
Marine no que se seguiu fo i concentrado em produzir a queda deste 
objelo . 
81 
O ·dooói .. se deslocou. então, para a boca. Ela brincou de comidinha 
e reproduziu uma cena onde o bebê não queria comer, mostrou-se 
violenta e brutal: ·você não quer!• Jogou tudo no chão e acrescentou: 
"Agora é você quem vai apanhar!"' 
Uma outra cena: ela deu de comer à rãzinha de brinquedo e, quando 
introduziu um bocado na boca desta. estremeceu e disse "Ai!": Em seu 
rosto podia-se ler uma expressão de hoiTor. De que bocado se tratava 
de fazer engolir, para produzir tamanho hottor? Seja como for, o bebê 
preferiu não se alimentar de nada. E com razão! 
Nesse ponto Marine voltou às superfícies. Numa fo lha de papel, 
desenhou um círculo (o fonema "rond" (círculo] faz parte de seu 
sobrenome). A borda do círculo foi delimitada várias vezes com um 
lápis; depois cortou o interior do círculo, um pedacinho central se 
destacou dele e Marine caiu, segurando o pedaço de papel. . 
Ela observou o furo feito na folha e apanhou uma outra, que dividiu 
com um traço para ali inscrever uma escrita em quatro lugares: 
L LLL 
LLJ..t. L LL L.L 
O que ela lia assim: mam~e ~-Maladoé o nome peloqualdesig-
. mamac matauo 
nava sua anahsta. . 
Logo depois de ter produzido este corte, que instaurou o furo, Mario e 
ordenou a escrita, na qual pudemos reconhecer aquela .. estrutura qua-
dripartite desde o inconsciente, sempre exigível na construção de um 
ordenamento subjetivo .. , tal como nos indica Lacan em Kant com Sade. 
Para Marine, isto foi a escrita de um nome. 
Marine contou Jltla primeira vez uma his tória: uma menina come, 
man(ge). O -je .. (eu) era elidido de todas as palavras em que aparecia 
como fonema; um bebê dorme no berço, o bebê toma seu ·bron .. 
(abreviatura de bibero11 , mamadeira), mamãe dá .. bron", papai dá 
·bron". 
Nessa série de enunciados podemos ler um desejo submetido ao 
fantasma. A mamade ira entrou na dialética do dom. O objeto causa do 
desejo é acessível na medida em que é tomado no movimento pacifica-
dor instaurado pelo significante fático. 
12 
O objeto anal 
Um outro objeto veio ocupar Marine: o objeto anal. Durante esse 
período de sua análise, grande parte de seu trabalho seria feita fora do 
alcance de minha visão. 
Marine escreveu numa folha com um lápis branco e constatou, 
espantada, que sua escrita não deixara traços. Quando refez os traços a 
lápis preto, gritou .. enganada", apagou os traços e a folha, tal como 
dejeto da operação de apagamento foi para o lixo. Dedicou-se a esva~ 
ziar. Esvaziou os potes de massa· de modelagem. O conteúdo caiu ao 
chão. Em tomo da borda de um desses potes ela colou durex . Seu dedo 
e meu dedo deviam girar sucessivamente em tomo do bordo assim 
definido. Cada volta era escandida por um .. Ai!., proferido por Marine. 
Do conteúdo do pote ela fez um presente para mim, envolvido em papel 
e bem amarrado com durex. Verificou que o pote estava vazio, jogou o 
resto no lixo, foi ao quadro e escreveu seu nome e o meu. Como meu 
nome, escreveu: .. Eo". E isso não se fez. 
Podemos observar, nas duas seqüências transmitidas em que se trata 
de objeto, primeiro oral, depois anal, o que é que se repete: a produção 
de um vazio. No primeiro caso, é o furo na folha, e no segundo caso, 
cria volume, pois é o vazio de um pote, seguido por uma queda que se 
pontua pela escrita de um nome. 
O "je" - eu 
Dissemos acima que nos enunciados de Marine o .. je" - eu -era elidido, 
bem como na enunciação. 
Um dia, ela nos mostrou um boneco que trouxera e a que chamava 
de .. menino Jesus". Era, portanto, inaugural. 
Bem mais tarde, desenhou duas casas, .. a casa da mamãe e a minha 
casa ... Daquela que representava a sua casa ela cortou o teto, pondo-o 
de lado, e me disse: ~o teto eu vou colar noutro lugar". O eu (}e) vinha 
à luz em seu enunciado. · 
O agente do tormento 
Este tratamento, que já está durando quatro anos, ainda não terminou. 
Encontra dificuldades que têm a mais estreita relação com o lugar 
ocupado por essa criança no fantasma de sua mãe. 
Dizer que sua queda era comandada pelo fato de sua posição, em 
lugar de objeto, que pudemos destacar desde o inicio do tratamento, 
casos 13 
não nos parecia suficiente. A questão permanecia, portanto, a de saber 
em que economia, e em favor de que gozo ela tinha vindo ocupar este 
lugar. 
A mãe nos veio dar a resposta, acompanhada de seu marido. Era 
surpreendente, sua filha não apresentava mais nenhuma das dificulda~ 
des que haviam motivado a demanda de análise. No entanto, eles 
vinham me dizer que as coisas corriam muito mal. 
Para o pai, isso se exprimia por um vel: ·se continuar assim, ou 
minha mulher vai enlouquecer, ou então a menina vai para uma insti-
tuição para débeis mentais ... Para a mãe, essa criança era .. o pior dos 
tormentos ... Nos últimos dias, ela dissera a Marine: .. Venha fazer sua 
leitura, minha querida ... Esta lhe respondeu: .. Não quero ... A mãe retor-
quira : .. Se você não fizer sua leitura, mamãe vai chorar". E Marine: 
-chore se quiser, eu não vou ler". Uma vez relatada essa anedota, a mãe 
acrescenta: .. Eu sempre sofri tanto ... meu pai me batia, isso me levou a 
sair de casa e me refugiar no casamento ... 
Marine estaria no lugar de agente do tormento de sua mãe? Seja como 
for, a petrificação de que dava provas no começo de seu tratamento., o 
mutismo, ao mesmo tempo que o destacamento e a total impenetrabili~ 
dade, presentificavam nela esta pura presença do dejeto, que nos remete 
ao .. impensável da coisa em si", cujo lugar Lacan designa em Kant com 
Sade. 
É certo que ela mudou de posição, pois está tomada no movimento 
de alienação inerente a toda emergência do sujeito no campo do Outro. 
Por esse fato, uma aparelhagem de gozo se operou na linguagem. 
Entretanto, a revelação do fantasma da mãe e do lugar nele ocupado 
por Marine nos fazem crer que, se Marine não contribui mais com seu 
grão de areia para o gozo dela, uma perda de realidade- se o fantasma 
falhar -é de se temer pelo lado da mãe, a menos que, para preservar 
essa realidade, Marine siga definitivamente o caminho dos dejetos e vá 
para uma instituição de anormais. 
Constatamos desse modo que a análise de crianças, mais além 
do objetivo terapêutico, não cessa de se inscrever contra os ideais 
estabelecidos. 
12 
O objeto anal 
Um outro objeto veio ocupar Marine: o objeto anal. Durante esse 
período de sua análise, grande parte de seu trabalho seria feita fora do 
alcance de minha visão. 
Marine escreveu numa folha com um lápis branco e constatou, 
espantada, que sua escrita não deixara traços. Quando refez os traços a 
lápis preto, gritou .. enganada", apagou os traços e a folha, tal como 
dejeto da operação de apagamento foi para o lixo. Dedicou-se a esva~ 
ziar. Esvaziou os potes de massa· de modelagem.O conteúdo caiu ao 
chão. Em tomo da borda de um desses potes ela colou durex . Seu dedo 
e meu dedo deviam girar sucessivamente em tomo do bordo assim 
definido. Cada volta era escandida por um .. Ai!., proferido por Marine. 
Do conteúdo do pote ela fez um presente para mim, envolvido em papel 
e bem amarrado com durex. Verificou que o pote estava vazio, jogou o 
resto no lixo, foi ao quadro e escreveu seu nome e o meu. Como meu 
nome, escreveu: .. Eo". E isso não se fez. 
Podemos observar, nas duas seqüências transmitidas em que se trata 
de objeto, primeiro oral, depois anal, o que é que se repete: a produção 
de um vazio. No primeiro caso, é o furo na folha, e no segundo caso, 
cria volume, pois é o vazio de um pote, seguido por uma queda que se 
pontua pela escrita de um nome. 
O "je" - eu 
Dissemos acima que nos enunciados de Marine o .. je" - eu -era elidido, 
bem como na enunciação. 
Um dia, ela nos mostrou um boneco que trouxera e a que chamava 
de .. menino Jesus". Era, portanto, inaugural. 
Bem mais tarde, desenhou duas casas, .. a casa da mamãe e a minha 
casa ... Daquela que representava a sua casa ela cortou o teto, pondo-o 
de lado, e me disse: ~o teto eu vou colar noutro lugar". O eu (}e) vinha 
à luz em seu enunciado. · 
O agente do tormento 
Este tratamento, que já está durando quatro anos, ainda não terminou. 
Encontra dificuldades que têm a mais estreita relação com o lugar 
ocupado por essa criança no fantasma de sua mãe. 
Dizer que sua queda era comandada pelo fato de sua posição, em 
lugar de objeto, que pudemos destacar desde o inicio do tratamento, 
casos 13 
não nos parecia suficiente. A questão permanecia, portanto, a de saber 
em que economia, e em favor de que gozo ela tinha vindo ocupar este 
lugar. 
A mãe nos veio dar a resposta, acompanhada de seu marido. Era 
surpreendente, sua filha não apresentava mais nenhuma das dificulda~ 
des que haviam motivado a demanda de análise. No entanto, eles 
vinham me dizer que as coisas corriam muito mal. 
Para o pai, isso se exprimia por um vel: ·se continuar assim, ou 
minha mulher vai enlouquecer, ou então a menina vai para uma insti-
tuição para débeis mentais ... Para a mãe, essa criança era .. o pior dos 
tormentos ... Nos últimos dias, ela dissera a Marine: .. Venha fazer sua 
leitura, minha querida ... Esta lhe respondeu: .. Não quero ... A mãe retor-
quira : .. Se você não fizer sua leitura, mamãe vai chorar". E Marine: 
-chore se quiser, eu não vou ler". Uma vez relatada essa anedota, a mãe 
acrescenta: .. Eu sempre sofri tanto ... meu pai me batia, isso me levou a 
sair de casa e me refugiar no casamento ... 
Marine estaria no lugar de agente do tormento de sua mãe? Seja como 
for, a petrificação de que dava provas no começo de seu tratamento., o 
mutismo, ao mesmo tempo que o destacamento e a total impenetrabili~ 
dade, presentificavam nela esta pura presença do dejeto, que nos remete 
ao .. impensável da coisa em si", cujo lugar Lacan designa em Kant com 
Sade. 
É certo que ela mudou de posição, pois está tomada no movimento 
de alienação inerente a toda emergência do sujeito no campo do Outro. 
Por esse fato, uma aparelhagem de gozo se operou na linguagem. 
Entretanto, a revelação do fantasma da mãe e do lugar nele ocupado 
por Marine nos fazem crer que, se Marine não contribui mais com seu 
grão de areia para o gozo dela, uma perda de realidade- se o fantasma 
falhar -é de se temer pelo lado da mãe, a menos que, para preservar 
essa realidade, Marine siga definitivamente o caminho dos dejetos e vá 
para uma instituição de anormais. 
Constatamos desse modo que a análise de crianças, mais além 
do objetivo terapêutico, não cessa de se inscrever contra os ideais 
estabelecidos. 
Em busca do sangue perdido 
Annick Anglade 
Yohanna é uma criança de raça negra. Vai-se ~tarde cores durante 
toda a sua análise, do vermelho e do negro, poderíamos dizer. O trajeto 
de sua análise será o de seu sangue, através cb máquina -o rim artificial 
- na qual ela está condenada a viver desde a idade de três anos e meio, 
devido a uma grave doença renal; a!~m disso, será também a busca de 
suas origens perdidas, pois ela pusera a máquina no lugar do Outro. 
Confiada à DDAss• com um mês de idade, Yohanna trocou freqüen· 
temente de creche e de pessoas que dela cuidavam. O começo de seu 
tratamento coincidiu com a saída da casa de sua última guardiã. 
considerada muito distante do hospital pelo pessoal da DDASS. Ela foi 
então entregue a uma creche próxima do serviço de nefrologia. Nessa 
ocasião, fez uma regressão maciça, perdeu a fala , a marcha e quase 
todas as suas atividades motoras. Permanecia durante todo o dia deita-
da em posição fetal , sem o menor contato. Foi preciso mesmo alimen-
tá-la artificialmente. 
· Durante as sessões de diálise, em compensação, ficava agitada, 
gritava e era necessário amarrá-la na cama. Um dia, com efeito, rendo 
arrancado seu cateter, quase mon:eu de uma grave hemorragia externa: 
seu sangue esguichava diretamente da fístula, inundando o chio. as 
paredes do quarto, como também a superfície de seu corpo. Não foi essa 
a única complicação, pois submeteu-se em seguida a quinze interven-
ções cinirgicas. 
Aos seis anos , Yohanna foi recolhida por uma família de adoção de 
Orléaos. Ali retomou, progressivamente, seu desenvolvimento, mas 
continuou encolhida, muda e recusando-se a se alimentar. Fizeram-na 
comer à força durante horas, apertando-lhe o nariz_ Seus problemas 
• -Di~tioo Depertaroentalc dc:s Savices Sociwx· (Direção Dw:pertame:Dtal de Saviço6 
Sociais). Nos departaroentos (raru:eses é a entida4k que ~be e eaauainba aodcs os peclidoli 
de assist.enda soc:íal. Nela atuamjuíze$. peda&oaos. médioos, psiquialniS, p6ianalisaas. alia 
da burocncia estatal. (N.It) 
M 
casos 
motores eram consideráveis. Eram atribuídos a uma intoxicação pela 
uréia, assim como seu odor, quase insuporlável. 
As primeiras sessões 
A primeira vez que a vi, estava com seis anos e meio. Seu aspecto era 
miserável, estava caquétíca, não pesando mais que doze quilos. Seu 
rosto, no entanto, estava edemaciado. Sua mímica era inexistente- ela 
não olhava para ninguém - , mantinha os olhos baixos, a boca caída. 
Quando se deslocava, com dificuldade, era de uma maneira totàlmente 
descoordenada, como se a fizessem andar contra a vontade. No entanto, 
seguiu-me, resignada. 
Na sala de atendimento, dispus ~lguos objetos para ela. Não os viu. 
Ajoelhou-se no chão e procurou com os olhos o que era inacessível. Nas 
prateleiras do alto, flxou os olhos numa caixa que lhe ofereci, embora 
ela não manifestasse demanda alguma. Era uma caixa de peões de cores 
diferentes; ela os jogou no chão, olhou para eles c atirou para longe o 
único peão branco. 
.. É porque ele não é da mesma cor?" Ela fez sinal que sim. '"Então, 
quem vai ficar com ele?" Surpresa, ela me olhou pela primeira vez, 
depois baixou os olhos e viu, no chão, um objeto que ficara, pode-se 
dizer que por acaso, ao lado do aquecedor: era uma régua cilíndrica 
oca, aberta nas duas extremidades. Apanhou-a e fez passar por dentro 
dela, maquinalmente, tudo o que pôde encontrar de microscópico: 
pontas de lápis, migalhas de massa de modelagem, poeiras, etc. Foi 
um longo jogo, obsessivo, que ela repetiu incansavelmente, sem o 
menor prazer. 
Falei-lhe de seu sangue que passava por um tubo e depois voltava 
para dentro dela. Ela se imobilizou, parou seu jogo, olhou-me por um 
momento e concordou com a cabeça. Perguntei-lhe se aquilo doia. Ela 
sacudiu a cabeça negativamente e coçou a cabeça, depois .as bochechas, 
ao mesmo tempo em que percebia pela primeira vez que seu nariz estava 
escorrendo~ fungou um pouco, levantando a cabeça e olhando para uma 
outra caixa. Mas desta vez olhou para mim logo depois, como que para 
pedi-la. Estava feito o laço entre sua demanda para mim, a diálise, a 
caixa. Dei-a, ela a abriu. . 
Era uma caixa retangular formada por quatr{) compartimenaos, duas 
panes ocas servindo de reserva para os. peõe.s e duas .perfuradaspor 
pequenos buracos de encaixe, n.os quais se pode dispor os peões. Esses 
compartimentos ficavam dispostos especularmence com relação ao cen-
tro da caixa, de tal maneira que os dois vazios e os dois com encaixes 
Em busca do sangue perdido 
Annick Anglade 
Yohanna é uma criança de raça negra. Vai-se ~tarde cores durante 
toda a sua análise, do vermelho e do negro, poderíamos dizer. O trajeto 
de sua análise será o de seu sangue, através cb máquina -o rim artificial 
- na qual ela está condenada a viver desde a idade de três anos e meio, 
devido a uma grave doença renal; a!~m disso, será também a busca de 
suas origens perdidas, pois ela pusera a máquina no lugar do Outro. 
Confiada à DDAss• com um mês de idade, Yohanna trocou freqüen· 
temente de creche e de pessoas que dela cuidavam. O começo de seu 
tratamento coincidiu com a saída da casa de sua última guardiã. 
considerada muito distante do hospital pelo pessoal da DDASS. Ela foi 
então entregue a uma creche próxima do serviço de nefrologia. Nessa 
ocasião, fez uma regressão maciça, perdeu a fala , a marcha e quase 
todas as suas atividades motoras. Permanecia durante todo o dia deita-
da em posição fetal , sem o menor contato. Foi preciso mesmo alimen-
tá-la artificialmente. 
· Durante as sessões de diálise, em compensação, ficava agitada, 
gritava e era necessário amarrá-la na cama. Um dia, com efeito, rendo 
arrancado seu cateter, quase mon:eu de uma grave hemorragia externa: 
seu sangue esguichava diretamente da fístula, inundando o chio. as 
paredes do quarto, como também a superfície de seu corpo. Não foi essa 
a única complicação, pois submeteu-se em seguida a quinze interven-
ções cinirgicas. 
Aos seis anos , Yohanna foi recolhida por uma família de adoção de 
Orléaos. Ali retomou, progressivamente, seu desenvolvimento, mas 
continuou encolhida, muda e recusando-se a se alimentar. Fizeram-na 
comer à força durante horas, apertando-lhe o nariz_ Seus problemas 
• -Di~tioo Depertaroentalc dc:s Savices Sociwx· (Direção Dw:pertame:Dtal de Saviço6 
Sociais). Nos departaroentos (raru:eses é a entida4k que ~be e eaauainba aodcs os peclidoli 
de assist.enda soc:íal. Nela atuamjuíze$. peda&oaos. médioos, psiquialniS, p6ianalisaas. alia 
da burocncia estatal. (N.It) 
M 
casos 
motores eram consideráveis. Eram atribuídos a uma intoxicação pela 
uréia, assim como seu odor, quase insuporlável. 
As primeiras sessões 
A primeira vez que a vi, estava com seis anos e meio. Seu aspecto era 
miserável, estava caquétíca, não pesando mais que doze quilos. Seu 
rosto, no entanto, estava edemaciado. Sua mímica era inexistente- ela 
não olhava para ninguém - , mantinha os olhos baixos, a boca caída. 
Quando se deslocava, com dificuldade, era de uma maneira totàlmente 
descoordenada, como se a fizessem andar contra a vontade. No entanto, 
seguiu-me, resignada. 
Na sala de atendimento, dispus ~lguos objetos para ela. Não os viu. 
Ajoelhou-se no chão e procurou com os olhos o que era inacessível. Nas 
prateleiras do alto, flxou os olhos numa caixa que lhe ofereci, embora 
ela não manifestasse demanda alguma. Era uma caixa de peões de cores 
diferentes; ela os jogou no chão, olhou para eles c atirou para longe o 
único peão branco. 
.. É porque ele não é da mesma cor?" Ela fez sinal que sim. '"Então, 
quem vai ficar com ele?" Surpresa, ela me olhou pela primeira vez, 
depois baixou os olhos e viu, no chão, um objeto que ficara, pode-se 
dizer que por acaso, ao lado do aquecedor: era uma régua cilíndrica 
oca, aberta nas duas extremidades. Apanhou-a e fez passar por dentro 
dela, maquinalmente, tudo o que pôde encontrar de microscópico: 
pontas de lápis, migalhas de massa de modelagem, poeiras, etc. Foi 
um longo jogo, obsessivo, que ela repetiu incansavelmente, sem o 
menor prazer. 
Falei-lhe de seu sangue que passava por um tubo e depois voltava 
para dentro dela. Ela se imobilizou, parou seu jogo, olhou-me por um 
momento e concordou com a cabeça. Perguntei-lhe se aquilo doia. Ela 
sacudiu a cabeça negativamente e coçou a cabeça, depois .as bochechas, 
ao mesmo tempo em que percebia pela primeira vez que seu nariz estava 
escorrendo~ fungou um pouco, levantando a cabeça e olhando para uma 
outra caixa. Mas desta vez olhou para mim logo depois, como que para 
pedi-la. Estava feito o laço entre sua demanda para mim, a diálise, a 
caixa. Dei-a, ela a abriu. . 
Era uma caixa retangular formada por quatr{) compartimenaos, duas 
panes ocas servindo de reserva para os. peõe.s e duas .perfuradas por 
pequenos buracos de encaixe, n.os quais se pode dispor os peões. Esses 
compartimentos ficavam dispostos especularmence com relação ao cen-
tro da caixa, de tal maneira que os dois vazios e os dois com encaixes 
86 a cr1ança no discurso analilioo 
estavam em diagonal. Essa caixa continha dois tipos de peões: cilin-
dros e pequenas pessoas rudimentares, de seis cores diferentes (cem 
ao todo) . 
Num dos compartimentos, Yohanna colocou os peões cilíndricos, 
noutro as pessoas. Mas tomou muito cuidado em alinhá-los por cores, 
o que lhe fiz observar. Ela continuou seu jogo, mas alternando-os, e 
reprimiu um leve sorriso: todos os peões estavam arrumados. 
000000000000 
000000000000 
000000000000 
o oooooooooooo 
o ooooooooogoo 
o ooooooooo 00 
o 00 o o o o o o o o o 
oooooooooooo 
000000000000 
ooooooooooo'!' 
o 000 00000001~ 
00000000000 
o cilindro 
peões 
ô pessoa 
Figura 1 - A caixa 
o 
: 
1-
1--. 
compartimento 
de reserva 
para os peões 
1--
encaixes des-
tinados aos 
peões 
Restavam buracos vazios dos dois ladoS, pois ba_via mais buracos do 
que peões. Ela disse, agora para minha grande surpresa, com uma 
espécie de voz de siotetizador, como a que sai dos computadores, suas 
primeiras palavras: ·Faltam outros .. , fazendo beicinho ... Você não gosta 
de lugares vazios?" Fez sinal que ·não ... E onde seria o seu lugar?" 
Surpresa, ela completou com algumas pessoas o compartimento dos 
cilindros, significando-me dessa forma que não seria ali, e me mostrou, 
no compartimento das pessoas, os buracos. Hesitou e · mudou várias 
vezes cada uma das pessoas de lugar. Disse-lhe que ela mesma mudara 
freqüentemente de lugar, de quem a cuidava, de cidade, e que isso não 
deve ser fácil de recuperar. 
oooo 
O : lugares deixados vazios 
1/1/ : encaixes preenchidos com cilindros 
: encaixes preenchidos oom pessoas 
Figura 2- "Faltam outros" 
Ela apanhou um lápis preto, uma folba de papel e desenhou uma 
espécie de triângulo de onde partiam dois traços paralelos - como um 
cordão. Enquanto eu olhava pan seu desenho, ela se encolheu em 
posição fetal e começou a coçar, lentamente, meticulosamente, diria 
mesmo que religiosamente todo o corpo, principalmente as pernas. Saiu, 
levando seu desenho apertado contra si. 
Revi-a um mês depois, para uma segunda sessão. Ao entrar na sala, 
ela apanhou uma caixa colocada em cima do aquecedor e levou-a para 
a sala de atendimento. Ali encontrou, misturados, cartas de jogo e três 
peões. Tirou em primeiro lugar o peão preto e o pôs no chão, mas sem 
jogá -lo. Tirou, do mesmo modo, o peão vermelho, depois o amarelo. 
Colocou, em seguida, todas as cartas no mesmo sentido e procurou o 
compartimento que lhes convinha. Ali elas ficavam bem guardadas, 
bem juntas. Disse isso a ela. 
Seu rosto se iluminou, olhou para mim e sorriu longamente. Em 
seguida, arrumou os peões: o vennelho e o preto juntos num comparti-
mento, o amarelo à parte, e me olhou de novo, encantada. No final desta 
sessão, descobriu que não estava bem instalada. Deslocou sua cadeira, 
que estava em falso, encostou-se confortavelmente e quando lhe apre-
sentei, sem nada dizer; a caixa, deu um grande sorriso de beatitude . 
Tomou as pessoas e as dispôs em duas filas, uma com as vermelhas, 
outra com as amarelas. · 
Na terceira sessão, Yobanna marcou a primeira escansilo e decidiu 
permanecer no escritório. Dispunha de duas peças contiguas: o escritó-
rio, onde recebia a nutriz para combinar horários - era a abertura para 
86 a cr1ançano discurso analilioo 
estavam em diagonal. Essa caixa continha dois tipos de peões: cilin-
dros e pequenas pessoas rudimentares, de seis cores diferentes (cem 
ao todo) . 
Num dos compartimentos, Yohanna colocou os peões cilíndricos, 
noutro as pessoas. Mas tomou muito cuidado em alinhá-los por cores, 
o que lhe fiz observar. Ela continuou seu jogo, mas alternando-os, e 
reprimiu um leve sorriso: todos os peões estavam arrumados. 
000000000000 
000000000000 
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o oooooooooooo 
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o 00 o o o o o o o o o 
oooooooooooo 
000000000000 
ooooooooooo'!' 
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o cilindro 
peões 
ô pessoa 
Figura 1 - A caixa 
o 
: 
1-
1--. 
compartimento 
de reserva 
para os peões 
1--
encaixes des-
tinados aos 
peões 
Restavam buracos vazios dos dois ladoS, pois ba_via mais buracos do 
que peões. Ela disse, agora para minha grande surpresa, com uma 
espécie de voz de siotetizador, como a que sai dos computadores, suas 
primeiras palavras: ·Faltam outros .. , fazendo beicinho ... Você não gosta 
de lugares vazios?" Fez sinal que ·não ... E onde seria o seu lugar?" 
Surpresa, ela completou com algumas pessoas o compartimento dos 
cilindros, significando-me dessa forma que não seria ali, e me mostrou, 
no compartimento das pessoas, os buracos. Hesitou e · mudou várias 
vezes cada uma das pessoas de lugar. Disse-lhe que ela mesma mudara 
freqüentemente de lugar, de quem a cuidava, de cidade, e que isso não 
deve ser fácil de recuperar. 
oooo 
O : lugares deixados vazios 
1/1/ : encaixes preenchidos com cilindros 
: encaixes preenchidos oom pessoas 
Figura 2- "Faltam outros" 
Ela apanhou um lápis preto, uma folba de papel e desenhou uma 
espécie de triângulo de onde partiam dois traços paralelos - como um 
cordão. Enquanto eu olhava pan seu desenho, ela se encolheu em 
posição fetal e começou a coçar, lentamente, meticulosamente, diria 
mesmo que religiosamente todo o corpo, principalmente as pernas. Saiu, 
levando seu desenho apertado contra si. 
Revi-a um mês depois, para uma segunda sessão. Ao entrar na sala, 
ela apanhou uma caixa colocada em cima do aquecedor e levou-a para 
a sala de atendimento. Ali encontrou, misturados, cartas de jogo e três 
peões. Tirou em primeiro lugar o peão preto e o pôs no chão, mas sem 
jogá -lo. Tirou, do mesmo modo, o peão vermelho, depois o amarelo. 
Colocou, em seguida, todas as cartas no mesmo sentido e procurou o 
compartimento que lhes convinha. Ali elas ficavam bem guardadas, 
bem juntas. Disse isso a ela. 
Seu rosto se iluminou, olhou para mim e sorriu longamente. Em 
seguida, arrumou os peões: o vennelho e o preto juntos num comparti-
mento, o amarelo à parte, e me olhou de novo, encantada. No final desta 
sessão, descobriu que não estava bem instalada. Deslocou sua cadeira, 
que estava em falso, encostou-se confortavelmente e quando lhe apre-
sentei, sem nada dizer; a caixa, deu um grande sorriso de beatitude . 
Tomou as pessoas e as dispôs em duas filas, uma com as vermelhas, 
outra com as amarelas. · 
Na terceira sessão, Yobanna marcou a primeira escansilo e decidiu 
permanecer no escritório. Dispunha de duas peças contiguas: o escritó-
rio, onde recebia a nutriz para combinar horários - era a abertura para 
.. a criança no disQ.Irto analílioo 
o real - e a sala onde se passavam as sessões. Esta só tinha saída para 
o escritório. Ali recebia sempre Yohanna sozinha: era o lugar do 
imaginário. 
Ora, por cinco vezes no decorrer de sua análise, Yohanna iria esco-
lher o escritório como lugar da sessão, escandindo assim, ela mesma, 
os grandes movimentos dessa análise. Era ali que ela vinha me dizer a 
quantas andava seu esforço de amarrar o real, o imaginário e o simbólico. 
Essa terceira sessão foi notável por essa primeira escansão e pelo 
encadeamento direto com a sessão anterior, e pela aparição da fala 
espontânea: .. Quero sentar direito, aproxime minha cadeira, estou dese-
nhando um castelo cor de laranja, é a minha casa, está estragada, vou 
jogar no lixo!- Levantou-se e foi buscar a caixa de jogos na sala vizinha. 
Dessa vez, a caixa foi vista em duas partes, uma para ela e uma para 
mim. Tomou os peões amarelos ,. me deu os vermelhos - .. porque não 
gosto de misturar cores" - disse e Ja. Misturou, no entanto, os cilindros 
e as pessoas, colocou os seus e pr.diu que eu pusesse os meus '"igual" -
o que quer dizer em frente, simelricamente, mas não invertidos. 
Depois, introduziu em seus peões um cilindro marrom, era o bebê. 
Após um momento, ele preferiu ir -lá fora" . Ela o fez então passar para 
o meu lado e o instalou entre uma pessoa vermelha, minha, e uma 
amarela, dela, ·que também deu para mim. 
Era o fim do primeiro período de sua análise, período muito curto, 
ao fun do qual Yohanna conseguiu chegar à representação do seu corpo 
no espaço, c reencontrar a fala . 
O sangue perdido 
Num segundo movimento, Yohanna iria me dizer o que fora feito de seu 
corpo, c principalmcnte.de sua doença. Ela guardou duas coisas: 
- no hospital, lava-se o seu saiwue. Se o lavam é porque ele é sujo, 
mas é também porque ele está na superfície. Aliás ela o viu no dia de 
sua hemorragia, ele estava por toda a parte; 
- o aparelho de diálise: é ligada a ele por um cateter que ·parte do 
pulso, mas não vê o sangue dentro do tubo: sente, confusamente, que 
ele circula no intcríor da máquina, mas, principalmente, não sabe que 
ele volta. 
A lavagem do sangue e a máquina constituíam o hospital - eau-pital, 
como ela dizia. Iria desenhar além di~so, a lápis de cor, um coelho 
vermelho, esquartejado, coin um enonne olho único, como uma mancha 
de sangue. Pensei que fosse ela mesma no leito de diálise. 
A s mãos do coelho cs1avam sep.aradas dos seus braços por um 
intervalo livre como se, para além do cate ler · de diálise, ela não se 
pertencesse mais. Mostrando-me o olho ensangüentado, ela disse: -Te-
nho medo, queria que você me ajudasse a apagar isso ... 
Num segundo movimento, bastante longo, que chamarei de .. ~ sangue 
perdido .. , Yohanna fez uma tentativa desesperada para rearttcular a 
diálise à oralidade perdida. 
Ela me anunciou sua intenção a partir da quarta sessão, quando, 
tendo-me falado pela primeira vez do •hospit.d de Paris .. , viu precisa-
mente neste dia, pela primeira vez também, a mamade~ra na .sala das 
sessões. Alguns dias mais tarde, retomando a famosa catxa, almhou as 
pessoas amarelas num dos compartimentos: •são crianças ... eles passam 
para o outro lado ... vão à piscina ... mas estão em perigo e talvez um lobo 
as coma ... 
Na décima sessão, Yobanna me pediu para segurar a colher diante 
do quadro-negro, pois queria desenhar seu contorno: '"é difícil .. , no 
entanto ela iria traçar duas, duas colheres iguais. Disse-lhe que, quando 
era pequena, era uma outra pessoa que segurava a c?lher para que ~la 
comesse, numa época em que sentia fome e achava tsso bom. ~ gmsa 
de resposta, trocou de giz e traçou, em vermelho, um grande trtangulo 
cujo vtrtice subia até o alto do quadro. Ficou na ponta dos pés, pergun-
tei-lhe aonde ele ia desse jeito. -A Paris, ver o lobo ... 
Alguns dias mais tarde, diria que o quadro estava chei? de san.gue. 
Ela passou a esponja, ·porque está sujo, é o sangue do bebe, ele vat ver 
o lobo". 
Na vez seguinte, explicou-me que em Paris há uma mulher que 
lavava. Respondi-lhe que no hospital, de fato, lava-se o se~ sangue e 
lhe perguntei o que era que o bebê da outra vez perdera com seu sangue: 
-ooldorack-. Ela pegou então um giz amarelo e desenhou duas bolas: 
~É para o lobo, mas eu vou :eficonder". Mordiscou o giz rindo, e bem 
ereta, diante de mim, cantou uma canção inteira. Disse a ela que, no 
hospital, sem dúvida devia pensar: -se minha mamãe estivesse aqui ela 
não me deixaria morrer". Talvez ela tivesse imaginado também que o 
lobo poderia ter comido sua mãe? · 
Nesse dia Yohanna encontrou, então, coragem para representar o 
lobo e sua b~ca grande que lhe dava muito medo, em seguida amass~u 
a folha e me anunciou: -Não temmais lobo-. Com o mesmo gtz 
vermelho, desenhou grandes ondas. Disse-lhe que era o mar. -Não, ~ã~ 
ondas ... Disse-lhe que as ond.as estavam no mar. '"Não, ~orno voe~ e 
boba são as meninas que estão dentro do mar" ... -e os memnos tamhem, 
hem'Í .. 1 Ela pôs o desenho na boca e uivou correndo por toda a sala. 
1 Trata-se do par de homófonos mert (mãe) e me r (mar). ambo.~ ~ubscantivos felllininos 
em francês (N.T.) ' 
.. a criança no disQ.Irto analílioo 
o real - e a sala onde se passavam as sessões. Esta só tinha saída para 
o escritório. Ali recebia sempre Yohanna sozinha: era o lugar do 
imaginário. 
Ora, por cinco vezes no decorrer de sua análise, Yohanna iria esco-
lher o escritório como lugar da sessão, escandindo assim, ela mesma, 
os grandes movimentos dessa análise. Era ali que ela vinha me dizer a 
quantas andava seu esforço de amarrar o real, o imaginário e o simbólico. 
Essa terceira sessão foi notável por essa primeira escansão e pelo 
encadeamento direto com a sessão anterior, e pela aparição da fala 
espontânea: .. Quero sentar direito, aproxime minha cadeira, estou dese-
nhando um castelo cor de laranja, é a minha casa, está estragada, vou 
jogar no lixo!- Levantou-se e foi buscar a caixa de jogos na sala vizinha. 
Dessa vez, a caixa foi vista em duas partes, uma para ela e uma para 
mim. Tomou os peões amarelos ,. me deu os vermelhos - .. porque não 
gosto de misturar cores" - disse e Ja. Misturou, no entanto, os cilindros 
e as pessoas, colocou os seus e pr.diu que eu pusesse os meus '"igual" -
o que quer dizer em frente, simelricamente, mas não invertidos. 
Depois, introduziu em seus peões um cilindro marrom, era o bebê. 
Após um momento, ele preferiu ir -lá fora" . Ela o fez então passar para 
o meu lado e o instalou entre uma pessoa vermelha, minha, e uma 
amarela, dela, ·que também deu para mim. 
Era o fim do primeiro período de sua análise, período muito curto, 
ao fun do qual Yohanna conseguiu chegar à representação do seu corpo 
no espaço, c reencontrar a fala . 
O sangue perdido 
Num segundo movimento, Yohanna iria me dizer o que fora feito de seu 
corpo, c principalmcnte.de sua doença. Ela guardou duas coisas: 
- no hospital, lava-se o seu saiwue. Se o lavam é porque ele é sujo, 
mas é também porque ele está na superfície. Aliás ela o viu no dia de 
sua hemorragia, ele estava por toda a parte; 
- o aparelho de diálise: é ligada a ele por um cateter que ·parte do 
pulso, mas não vê o sangue dentro do tubo: sente, confusamente, que 
ele circula no intcríor da máquina, mas, principalmente, não sabe que 
ele volta. 
A lavagem do sangue e a máquina constituíam o hospital - eau-pital, 
como ela dizia. Iria desenhar além di~so, a lápis de cor, um coelho 
vermelho, esquartejado, coin um enonne olho único, como uma mancha 
de sangue. Pensei que fosse ela mesma no leito de diálise. 
A s mãos do coelho cs1avam sep.aradas dos seus braços por um 
intervalo livre como se, para além do cate ler · de diálise, ela não se 
pertencesse mais. Mostrando-me o olho ensangüentado, ela disse: -Te-
nho medo, queria que você me ajudasse a apagar isso ... 
Num segundo movimento, bastante longo, que chamarei de .. ~ sangue 
perdido .. , Yohanna fez uma tentativa desesperada para rearttcular a 
diálise à oralidade perdida. 
Ela me anunciou sua intenção a partir da quarta sessão, quando, 
tendo-me falado pela primeira vez do •hospit.d de Paris .. , viu precisa-
mente neste dia, pela primeira vez também, a mamade~ra na .sala das 
sessões. Alguns dias mais tarde, retomando a famosa catxa, almhou as 
pessoas amarelas num dos compartimentos: •são crianças ... eles passam 
para o outro lado ... vão à piscina ... mas estão em perigo e talvez um lobo 
as coma ... 
Na décima sessão, Yobanna me pediu para segurar a colher diante 
do quadro-negro, pois queria desenhar seu contorno: '"é difícil .. , no 
entanto ela iria traçar duas, duas colheres iguais. Disse-lhe que, quando 
era pequena, era uma outra pessoa que segurava a c?lher para que ~la 
comesse, numa época em que sentia fome e achava tsso bom. ~ gmsa 
de resposta, trocou de giz e traçou, em vermelho, um grande trtangulo 
cujo vtrtice subia até o alto do quadro. Ficou na ponta dos pés, pergun-
tei-lhe aonde ele ia desse jeito. -A Paris, ver o lobo ... 
Alguns dias mais tarde, diria que o quadro estava chei? de san.gue. 
Ela passou a esponja, ·porque está sujo, é o sangue do bebe, ele vat ver 
o lobo". 
Na vez seguinte, explicou-me que em Paris há uma mulher que 
lavava. Respondi-lhe que no hospital, de fato, lava-se o se~ sangue e 
lhe perguntei o que era que o bebê da outra vez perdera com seu sangue: 
-ooldorack-. Ela pegou então um giz amarelo e desenhou duas bolas: 
~É para o lobo, mas eu vou :eficonder". Mordiscou o giz rindo, e bem 
ereta, diante de mim, cantou uma canção inteira. Disse a ela que, no 
hospital, sem dúvida devia pensar: -se minha mamãe estivesse aqui ela 
não me deixaria morrer". Talvez ela tivesse imaginado também que o 
lobo poderia ter comido sua mãe? · 
Nesse dia Yohanna encontrou, então, coragem para representar o 
lobo e sua b~ca grande que lhe dava muito medo, em seguida amass~u 
a folha e me anunciou: -Não tem mais lobo-. Com o mesmo gtz 
vermelho, desenhou grandes ondas. Disse-lhe que era o mar. -Não, ~ã~ 
ondas ... Disse-lhe que as ond.as estavam no mar. '"Não, ~orno voe~ e 
boba são as meninas que estão dentro do mar" ... -e os memnos tamhem, 
hem'Í .. 1 Ela pôs o desenho na boca e uivou correndo por toda a sala. 
1 Trata-se do par de homófonos mert (mãe) e me r (mar). ambo.~ ~ubscantivos felllininos 
em francês (N.T.) ' 
a criança no dlact~~ anelilloo 
Alguns dias depois, desenhou DO meu caderno duas bolas azuis, como 
dois seios, com dois mamilos, dizendo-me que ela lavava louça . .. Você 
lava'? .. "Sim, é isso ... Lambuzou, em seguida, meu caderno e desenhou 
no quadro uma tenda: •ni9 se tem medo, não é, dentro da tenda? 
Desenhou tam~m uma cama uul: .. É a cama de Mme. Anglade. É para 
o bebê tam~m". 
Disse-lhe que ela bem gostaria de ter sido meu bebê e que eu a tivesse 
trazido na barriga, mas que não foi assim. Emocionada, ela se apoiou 
contra mim e começou a lambuzar a pele, os cabelos e as roupas com o 
giz azul. Lambuzou a mim tam~m e, depois de tê-las começado no meu 
caderno, desenhou no quadro e nas paredes grandes ondas azuis . .. Olha 
o mar ... Depois, voltou-se se para mim: .. Como se chama a sua mãe? .. 
No final desse segundo período, Yohanna iria marcar uma nova 
escansão, escolhendo meu eS<:ritório como lugar da sessão. Como ela 
iniciara a sessão dizendo-me .. Não me lembro mais do seu nome .. , eu 
lhe disse, pela primeira vez, seu nome e sobrenome que lhe haviam sido 
tirados. Neste dia, desenhou em três folhas de papel com giz amarelo: 
-um coelho e a casa dele, ele não pode ir lá porque não pode andar", 
.. Um coelho que pode andar mas não tem casa .. - enftm, .. Uma casa, 
sem coelho .. , que levou com ela. 
O sangue reencontrado 
Veio em seguida um terceiro período bastante longo e logorréico, 
durante o qual Yohanna iria dispender uma energia considerável negan-
do sua depressão, inventando toda a sorte de histórias nas quais me 
punha no lugar do -papai", o que lhe permitia ser a ·mamãe ... Foi um 
engano, mas senti que ainda não podia lhe dizer isso. 
Entretanto, Uf:J.l dia, depois de haver anunciado, como de hábito: 
-Agora eu sou a mamãe .. , ela se corrigiu e ouvi-a murmurar: ·som, vou 
parar!- Acrescentou que sua mamãe sentira frio, mas ela não. Depois 
tentou descolar um pedaço de massa de modelagem: .. Vou tentardes-
colar este aqui. Está duro." Depois, quando o pedaço se solta: ·oh! 
Mamãe!" Era a primeira vez que essa expressão lhe escapara: alguma 
coisa adveio. 
Restava-lhe articulá-la, como de hábito, no consultório. Ela se dirigiu 
então para a porta e tentou abri-la, mas chocou-se com uma impossibi-
lidade. Ela não conseguia abrir a porta nesse dia. Tam~m não pediu 
que eu a ajudasse e decidi não fazer nada. Era doloroso, tanto para ela 
quantopara mim. Depois de se ter atirado contra a porta, que esmurrava 
com todas as suas forças, com os pés e com as mãos, aos gritos, mas 
sem lágrimas, desabou diante da porta e perdeu os sentidos. · 
casos 
Era, portanto, para uma criança inconsciente, os olhos revirados, tão 
branca quanto podia ser, em estado de colapso periférico (mais sangue 
sobre a pele), que iria evocar longamente seu episódio regressivo. Iria 
falar-lhe de sua mãe verdadeira, que ela perdera, para ser confiada a 
uma outra mulher que não a havia carregado no ventre. lria dizer-lhe 
também de toda a sua cólera, que a fizera perder a fala e quase a vida. 
Ela se levantou sozinha, penosamente, e veio soluçar por muito tempo 
nos meus braços. 
O quarto movimento é muito curto: vou chamá-lo de sangue reen-
contrado. Durante três sessões, devido às festas de Natal, Yohanna iria 
evocar os Reis Magos do presépio, o bolo de Reis com a fava dentro. 
Curiosamente, iria usar durante essas três sessões uma voz que não era 
a sua - nem a minha, que ela utilizava às vezes - , que era, muito 
distintamente, a voz de uma mulher negra. 
A vigésima-sétima sessão foi fundamental. Yohanna chegou trans-
formada, bem plantada nas pernas afastadas, as mãos nos bolsos; olhou-
me com ar de desafio: ~Está vendo, estou de calças". De fato, era a 
primeira vez. Neste dia, ainda~ ela escolheu meu escritório como local 
da sessão e desenhou, cantando, um grande sol preto. Ao lado, no céu, 
uma casa também preta. Perguntei a ela o que aquele sol estava aque-
cendo: -um papai e uma mamãe! .. Isso lbe escapara e ela se espantou, 
vivamente: ·Ora essa, nunca vi isso! .. - ~É verdade que você nunca viu 
seu papai e sua mamãe de verdade·. 
Ela se precipitou sobre o desenho: .. Nbam! Nbam! Comi tudo". Foi 
buscar um giz branco na sala vizinha e tentou embranquecer o sol e a 
casa: não conseguiu. Quis desenhar um grande coelho branco, mas isso 
também não deu para se ver. Experimentou, então, vários lápis de cor 
sucessivamente, mas eles não lhe agradaram: ·Ha! Hal Estou mudando 
de cores o tempo todo!" - .. Seu papai e sua mamãe mudaram de cor, 
mas você não ... Ela riu e terminou o coelho grande em preto, depois, na 
parte inferior da folha, desenhou um pequeno coelho negro deitado. 
•Ete está deitado, este aí? .. - .. Sim, ele está doente." - ~Doente de 
quê?" - .. Está com dor de cabeça ... - ·Talvez, quando ele tiver com-
preendido toda a sua história, não tenha mais dor de cabeça 7" - Ela me 
respondeu, gravemente: .. É.por isso que eu digo!" 
Apanhou o giz vermelho que lhe havia servido para desenhar o 
triângulo grande no quadro, aquele que ia ver o lobo, e também o c~lbo 
esquartejado com seu olho único, e acrescentou, ao pé do codhinh;o 
preto, uma espécie de poça. · Traçou, em seguida, as bocas dos dots 
coelhos, com o mesmo giz. e depois ficou deprimida, a cabeç~ entre as 
mãos deitada sobre o desenho, cansada, esgotada: .. Ab, nao posso 
mais.:.não sei mais ... é duro, bem!" Então, lhe disse: '"Escute, pro~avel­
mente é alguma coisa que ele gostaria de comer, já que sua boca é Jgual, 
a criança no dlact~~ anelilloo 
Alguns dias depois, desenhou DO meu caderno duas bolas azuis, como 
dois seios, com dois mamilos, dizendo-me que ela lavava louça . .. Você 
lava'? .. "Sim, é isso ... Lambuzou, em seguida, meu caderno e desenhou 
no quadro uma tenda: •ni9 se tem medo, não é, dentro da tenda? 
Desenhou tam~m uma cama uul: .. É a cama de Mme. Anglade. É para 
o bebê tam~m". 
Disse-lhe que ela bem gostaria de ter sido meu bebê e que eu a tivesse 
trazido na barriga, mas que não foi assim. Emocionada, ela se apoiou 
contra mim e começou a lambuzar a pele, os cabelos e as roupas com o 
giz azul. Lambuzou a mim tam~m e, depois de tê-las começado no meu 
caderno, desenhou no quadro e nas paredes grandes ondas azuis . .. Olha 
o mar ... Depois, voltou-se se para mim: .. Como se chama a sua mãe? .. 
No final desse segundo período, Yohanna iria marcar uma nova 
escansão, escolhendo meu eS<:ritório como lugar da sessão. Como ela 
iniciara a sessão dizendo-me .. Não me lembro mais do seu nome .. , eu 
lhe disse, pela primeira vez, seu nome e sobrenome que lhe haviam sido 
tirados. Neste dia, desenhou em três folhas de papel com giz amarelo: 
-um coelho e a casa dele, ele não pode ir lá porque não pode andar", 
.. Um coelho que pode andar mas não tem casa .. - enftm, .. Uma casa, 
sem coelho .. , que levou com ela. 
O sangue reencontrado 
Veio em seguida um terceiro período bastante longo e logorréico, 
durante o qual Yohanna iria dispender uma energia considerável negan-
do sua depressão, inventando toda a sorte de histórias nas quais me 
punha no lugar do -papai", o que lhe permitia ser a ·mamãe ... Foi um 
engano, mas senti que ainda não podia lhe dizer isso. 
Entretanto, Uf:J.l dia, depois de haver anunciado, como de hábito: 
-Agora eu sou a mamãe .. , ela se corrigiu e ouvi-a murmurar: ·som, vou 
parar!- Acrescentou que sua mamãe sentira frio, mas ela não. Depois 
tentou descolar um pedaço de massa de modelagem: .. Vou tentardes-
colar este aqui. Está duro." Depois, quando o pedaço se solta: ·oh! 
Mamãe!" Era a primeira vez que essa expressão lhe escapara: alguma 
coisa adveio. 
Restava-lhe articulá-la, como de hábito, no consultório. Ela se dirigiu 
então para a porta e tentou abri-la, mas chocou-se com uma impossibi-
lidade. Ela não conseguia abrir a porta nesse dia. Tam~m não pediu 
que eu a ajudasse e decidi não fazer nada. Era doloroso, tanto para ela 
quanto para mim. Depois de se ter atirado contra a porta, que esmurrava 
com todas as suas forças, com os pés e com as mãos, aos gritos, mas 
sem lágrimas, desabou diante da porta e perdeu os sentidos. · 
casos 
Era, portanto, para uma criança inconsciente, os olhos revirados, tão 
branca quanto podia ser, em estado de colapso periférico (mais sangue 
sobre a pele), que iria evocar longamente seu episódio regressivo. Iria 
falar-lhe de sua mãe verdadeira, que ela perdera, para ser confiada a 
uma outra mulher que não a havia carregado no ventre. lria dizer-lhe 
também de toda a sua cólera, que a fizera perder a fala e quase a vida. 
Ela se levantou sozinha, penosamente, e veio soluçar por muito tempo 
nos meus braços. 
O quarto movimento é muito curto: vou chamá-lo de sangue reen-
contrado. Durante três sessões, devido às festas de Natal, Yohanna iria 
evocar os Reis Magos do presépio, o bolo de Reis com a fava dentro. 
Curiosamente, iria usar durante essas três sessões uma voz que não era 
a sua - nem a minha, que ela utilizava às vezes - , que era, muito 
distintamente, a voz de uma mulher negra. 
A vigésima-sétima sessão foi fundamental. Yohanna chegou trans-
formada, bem plantada nas pernas afastadas, as mãos nos bolsos; olhou-
me com ar de desafio: ~Está vendo, estou de calças". De fato, era a 
primeira vez. Neste dia, ainda~ ela escolheu meu escritório como local 
da sessão e desenhou, cantando, um grande sol preto. Ao lado, no céu, 
uma casa também preta. Perguntei a ela o que aquele sol estava aque-
cendo: -um papai e uma mamãe! .. Isso lbe escapara e ela se espantou, 
vivamente: ·Ora essa, nunca vi isso! .. - ~É verdade que você nunca viu 
seu papai e sua mamãe de verdade·. 
Ela se precipitou sobre o desenho: .. Nbam! Nbam! Comi tudo". Foi 
buscar um giz branco na sala vizinha e tentou embranquecer o sol e a 
casa: não conseguiu. Quis desenhar um grande coelho branco, mas isso 
também não deu para se ver. Experimentou, então, vários lápis de cor 
sucessivamente, mas eles não lhe agradaram: ·Ha! Hal Estou mudando 
de cores o tempo todo!" - .. Seu papai e sua mamãe mudaram de cor, 
mas você não ... Ela riu e terminou o coelho grande em preto, depois, na 
parte inferior da folha, desenhou um pequeno coelho negro deitado. 
•Ete está deitado, este aí? .. - .. Sim, ele está doente." - ~Doente de 
quê?" - .. Está com dor de cabeça ... - ·Talvez, quando ele tiver com-
preendido toda a sua história, não tenha mais dor de cabeça 7" - Ela me 
respondeu, gravemente: .. É.por isso que eudigo!" 
Apanhou o giz vermelho que lhe havia servido para desenhar o 
triângulo grande no quadro, aquele que ia ver o lobo, e também o c~lbo 
esquartejado com seu olho único, e acrescentou, ao pé do codhinh;o 
preto, uma espécie de poça. · Traçou, em seguida, as bocas dos dots 
coelhos, com o mesmo giz. e depois ficou deprimida, a cabeç~ entre as 
mãos deitada sobre o desenho, cansada, esgotada: .. Ab, nao posso 
mais.:.não sei mais ... é duro, bem!" Então, lhe disse: '"Escute, pro~avel­
mente é alguma coisa que ele gostaria de comer, já que sua boca é Jgual, 
a criança no díscurso analítico 
talvez ele não esteja conseguindo alcançá-la". Ela se levantou, num 
ímpeto: ·Mas ele pode alcançar, olhe só!- De pé, traçou um grande 
cordão de fumaça que partia da casa preta e envolveu o coelho pequeno, 
até encostar na poça vermelha. Não conseguiu mais falar, tamanha era 
sua emoção. ' 
Depois dessa sessão, Yohanna passou a comer normalmente e seus 
distúrbios motores foram progressivamente desaparecendo. Ela voltou 
à caixa de jogos algum tempo depois, mas para se interessar pela tampa 
da caixa. Colocou-a ao seu lado e olhou para ela, pela primeira vez, 
atentamente. 
Viam-se ali crianças e adultos jogando uma partida. Ela tentou 
servir-se daquilo como modelo, para representar as mesmas disposi-
ções. Depois, improvisou , alinhando o pai, o bebê, a mãe: .. 0 papai e o 
bebê são pretos, a mamãe é azul ... Deslooo14 em seguida, o bebê e o pôs 
mais para a frente; em seu lugar, ent~e os pais, pôs um peão marrom. 
Depois, ao lado do bebê preto, sozinho à frente, colocou um outro peão 
negro: .. É porque este é como ele". 
Tentou em seguida adivinhar, no desenho da tampa, quem era filho 
de quem: .. Aquele ali é filho deste, porque tem o cabelo igual" . .. E você, 
tem o cabelo como o de quem?" - .. Como o seu!" Ela teve, então, um 
grande ímpeto de ternura em direção a mim, envolveu-me em seus 
braços e veio apoiar a cabeça no meu ombro. Retirando então a mamãe 
azul, ao lado do bebê marrom, disse muito comovida: .. Você não podia 
me dizer que você não tinha mamãe?" 
A inversão especular 
Yohanna iria passar, em seguida, numerosas sessões assegurando-se de 
que era capaz de abrir facilmente a porta entre a sala de atendimento e 
o escritório, diante da qual se havia chocado com o impossível e 
revivido sua regressão. · 
Enftm, um dia, ela decidiu deixar essa porta aberta. Pôs a caixa de 
jogos entre as duas salas, e ela mesma se instalou no escritório. Numa 
das extremidades da caixa ela dispôs três peões manons: o papai, o 
bebê, a mamãe. O bebê está entre os pais. Na outra extremidade, 
reproduziu inicialmente a mesma disposição, depois, corrigindo-se, 
decidiu inverter especularmeme: deixou o bebê no centro, mas permu-
tou o papai e a mamãe. 
Esse detalhe era notável~ porque os peões eram absolutamente idên-
ticos. Para ela, entio, era só o peso da sua fala que contava. Os dois 
compartimentos va.zios enm piscinas. Preencheu, em seguida, um com-
casos 
o : lugar deixado vazio 
• : cilindro marrom 
1//1 : encaixes cheios de cilindros 
: encaixes cheios de pessoas 
Figura 3 - A inversão especular 
parti.mento com cilindros, como na primeira sessão, e me pediu para 
fazer a mesma coisa do outro lado, com as pessoas. Rindo, ela disse : 
.. Você se lembra, antes, aqueles ali não podiam andar. Agora eles podem 
cair na piscina e vo.ltar." 
Yobanna serviu-se então da caixa para articular sua relação com o 
espelho. A inversão só pôde se produzir através da representação do 
retom o do sangue para o interior do seu corpo. Assistiu-se, talvez, 
graças a uma patologia um pouco particular, a um remanejamento que 
evocava o rolar da esfera. 
O círculo se fechou. A caixa de jogos, agora, perdeu o sentido. Ela 
não a utilizou mais. 
A não ser uma vez, em forma de brincadeira, com um piscar de olhos 
para mim, a frm de me mos trar que ela agora sabia contar os peões: um, 
dois, três, quatro ... 
a criança no díscurso analítico 
talvez ele não esteja conseguindo alcançá-la". Ela se levantou, num 
ímpeto: ·Mas ele pode alcançar, olhe só!- De pé, traçou um grande 
cordão de fumaça que partia da casa preta e envolveu o coelho pequeno, 
até encostar na poça vermelha. Não conseguiu mais falar, tamanha era 
sua emoção. ' 
Depois dessa sessão, Yohanna passou a comer normalmente e seus 
distúrbios motores foram progressivamente desaparecendo. Ela voltou 
à caixa de jogos algum tempo depois, mas para se interessar pela tampa 
da caixa. Colocou-a ao seu lado e olhou para ela, pela primeira vez, 
atentamente. 
Viam-se ali crianças e adultos jogando uma partida. Ela tentou 
servir-se daquilo como modelo, para representar as mesmas disposi-
ções. Depois, improvisou , alinhando o pai, o bebê, a mãe: .. 0 papai e o 
bebê são pretos, a mamãe é azul ... Deslooo14 em seguida, o bebê e o pôs 
mais para a frente; em seu lugar, ent~e os pais, pôs um peão marrom. 
Depois, ao lado do bebê preto, sozinho à frente, colocou um outro peão 
negro: .. É porque este é como ele". 
Tentou em seguida adivinhar, no desenho da tampa, quem era filho 
de quem: .. Aquele ali é filho deste, porque tem o cabelo igual" . .. E você, 
tem o cabelo como o de quem?" - .. Como o seu!" Ela teve, então, um 
grande ímpeto de ternura em direção a mim, envolveu-me em seus 
braços e veio apoiar a cabeça no meu ombro. Retirando então a mamãe 
azul, ao lado do bebê marrom, disse muito comovida: .. Você não podia 
me dizer que você não tinha mamãe?" 
A inversão especular 
Yohanna iria passar, em seguida, numerosas sessões assegurando-se de 
que era capaz de abrir facilmente a porta entre a sala de atendimento e 
o escritório, diante da qual se havia chocado com o impossível e 
revivido sua regressão. · 
Enftm, um dia, ela decidiu deixar essa porta aberta. Pôs a caixa de 
jogos entre as duas salas, e ela mesma se instalou no escritório. Numa 
das extremidades da caixa ela dispôs três peões manons: o papai, o 
bebê, a mamãe. O bebê está entre os pais. Na outra extremidade, 
reproduziu inicialmente a mesma disposição, depois, corrigindo-se, 
decidiu inverter especularmeme: deixou o bebê no centro, mas permu-
tou o papai e a mamãe. 
Esse detalhe era notável~ porque os peões eram absolutamente idên-
ticos. Para ela, entio, era só o peso da sua fala que contava. Os dois 
compartimentos va.zios enm piscinas. Preencheu, em seguida, um com-
casos 
o : lugar deixado vazio 
• : cilindro marrom 
1//1 : encaixes cheios de cilindros 
: encaixes cheios de pessoas 
Figura 3 - A inversão especular 
parti.mento com cilindros, como na primeira sessão, e me pediu para 
fazer a mesma coisa do outro lado, com as pessoas. Rindo, ela disse : 
.. Você se lembra, antes, aqueles ali não podiam andar. Agora eles podem 
cair na piscina e vo.ltar." 
Yobanna serviu-se então da caixa para articular sua relação com o 
espelho. A inversão só pôde se produzir através da representação do 
retom o do sangue para o interior do seu corpo. Assistiu-se, talvez, 
graças a uma patologia um pouco particular, a um remanejamento que 
evocava o rolar da esfera. 
O círculo se fechou. A caixa de jogos, agora, perdeu o sentido. Ela 
não a utilizou mais. 
A não ser uma vez, em forma de brincadeira, com um piscar de olhos 
para mim, a frm de me mos trar que ela agora sabia contar os peões: um, 
dois, três, quatro ... 
Semblante e transmissão 
Marc Strauss 
Vou lhes falar de uma pessoa normal. Entendamos, normal na medida 
em que está normativizada, normalizada mesmo, a ponto de, à primeira 
vista, nada a distinguir particularmente das outtas crianças de sua idade: 
doze anos. No máximo, para particularizá-la, pode-se observar que ela 
é de origem norte-africana, que está vestida de maneira simples, mas 
cuidada, e que seu olhar arregalado, um pouco assustado talvez, lhe dê 
certo encanto. 
Quando lhes tiver indicado que ela se comporta com perfeita discri-
ção, sem parecer, no entanto, ausente, que cumprimenta com cortesia 
quem se dirigir a ela, terei descrito essa pessoa.Quebrado(a) 
Nem sempre ela foi assim. Aos dois anos, não falava. O médico, 
consultado por esse motivo, assegurou aos pais que ela falaria bem cedo. 
Aos quatro anos, como continuasse sem falar, foi colocada num exter-
nato, com uma tarde de psicoterapia de grupo por semana. Mostrou-se 
ali, por certo, silenciosa, arredia, solitária, com uma predileção particu-
lar pelos brinquedos com água e areia. Rabiscava alguns traços sobre 
uma folha de papel quando lhe pediam que desenhasse. Traços, mas não 
superffcies fechadas, e menos ainda esse homenzinho disforme chama-
do de .. cabeçudo" pelos especialistas. 
Quando a vi pela primeira vez, encaminhada pelo CMPP• após uma 
mudança de residência de seus pais, estava frágil, curvada, corcunda 
quase como se ao mesmo tempo em que avançasse desejasse fugir às 
pressas, ao mesmo tempo em que olhava para o outro de um modo 
,. •een1re Medico-Psydm-Pedagogique· (Cenlro Médico·Psico-Pedag6gico). Ambula· 
tório que recebe e encaminha crianças para consultas médicas, psicológicas, psiquiátricas 
e psicanalíticas na França. (N.R.) 
casos 85 
suplicante e espantado. Em suma, tinha todo o comportamento desses 
animais domésticos, cães ou cavalos, de que se diz que foram .. quebra-
dos'", por terem sido demasiadamente espancados por seus donos. Que-
brado, justamente, foi uma das primeiras palavras que ela pronunciou. 
Mas no início, durante algumas sessões, preencheu com rabiscos todas, 
absolutamente todas as folhas à sua disposição, e se dedicou mais tarde 
a tirar de suas caixas os brinquedos que ali estavam guardados, e 
nomeá-los. Quando não conhecia algum, perguntava, apontando o dedo: 
.. 0 que é?" Parecia não escutar a resposta e continuava, até que a caixa 
ficou vazia; depois, arrumou meticulosamente todos esses objetos, desta 
vez sem nomeá-los e ficou aguardando, passiva. 
Em seguida, desenhou uma forma vagamente arredondada, que cha-
mou de mamãe, e fez um homem com a massa de modelagem. Não o 
moldou, mas foi pondo os pedaços de massa uns sobre os outtos. 
Quando o homenzinho ficou pronto socou-o raivosamente, num júbilo 
que não deixava de ser mesclado por um toque de inquietação: ·Ele está 
quebrado! .. 
Um pouco mais tarde ela quebrou, desta vez sem querer, um lápis. 
Engoliu em seco, ficou paralisada e deixou escapar, penosamente, a 
palavra •quebrado ... Mais tarde ainda, desenhou uma casa, sem porta, 
como a fiz observar. Desenhou então um homem que ia quebrar a porta 
e a casa, pintando-o depois de vermelho. Nesse ínterim, mostrou-me 
com insistência uma pequena pele peri-ungueal que a incomodava de 
maneira obsessiva e que tocava, fascinada. Diversas vezes desenhou 
uma mulher, que em seguida riscava com raiva, dizendo: .. Ela está 
morta, ela fez bobagens, brigou". 
Modificações 
À medida que o tempo passou, foi ficando mais ousada, e entre o mo-
mento em que apanhava alguma coisa e aquele em que a largava, 
poderíamos dizer que estava .. ganhando tempo ... Levava todo um tempo 
para desenhar, manipular os brinquedos, explorar as gavetas às quais 
tinha acesso. Não era fácil, aliás, limitá-Ja a essas gavetas a que tinha 
direito. As outras, as gavetas proibidas, eram objeto de investidas 
furiosas ou jubilosas, mas ela sabia também se fazer suplicante, impe-
riosa ou amuada, muito feminina, p<}rtanto. Essas condutas repetitivas 
em face do interdito foram aparecendo progressivamente, para desapa-
recerem d~ modo ainda mais progressivo. 
Vou comentar, neste trabalho, apenas duas condutas particulares, 
extraídas de um material que não é muito considerável. 
Semblante e transmissão 
Marc Strauss 
Vou lhes falar de uma pessoa normal. Entendamos, normal na medida 
em que está normativizada, normalizada mesmo, a ponto de, à primeira 
vista, nada a distinguir particularmente das outtas crianças de sua idade: 
doze anos. No máximo, para particularizá-la, pode-se observar que ela 
é de origem norte-africana, que está vestida de maneira simples, mas 
cuidada, e que seu olhar arregalado, um pouco assustado talvez, lhe dê 
certo encanto. 
Quando lhes tiver indicado que ela se comporta com perfeita discri-
ção, sem parecer, no entanto, ausente, que cumprimenta com cortesia 
quem se dirigir a ela, terei descrito essa pessoa. 
Quebrado(a) 
Nem sempre ela foi assim. Aos dois anos, não falava. O médico, 
consultado por esse motivo, assegurou aos pais que ela falaria bem cedo. 
Aos quatro anos, como continuasse sem falar, foi colocada num exter-
nato, com uma tarde de psicoterapia de grupo por semana. Mostrou-se 
ali, por certo, silenciosa, arredia, solitária, com uma predileção particu-
lar pelos brinquedos com água e areia. Rabiscava alguns traços sobre 
uma folha de papel quando lhe pediam que desenhasse. Traços, mas não 
superffcies fechadas, e menos ainda esse homenzinho disforme chama-
do de .. cabeçudo" pelos especialistas. 
Quando a vi pela primeira vez, encaminhada pelo CMPP• após uma 
mudança de residência de seus pais, estava frágil, curvada, corcunda 
quase como se ao mesmo tempo em que avançasse desejasse fugir às 
pressas, ao mesmo tempo em que olhava para o outro de um modo 
,. •een1re Medico-Psydm-Pedagogique· (Cenlro Médico·Psico-Pedag6gico). Ambula· 
tório que recebe e encaminha crianças para consultas médicas, psicológicas, psiquiátricas 
e psicanalíticas na França. (N.R.) 
casos 85 
suplicante e espantado. Em suma, tinha todo o comportamento desses 
animais domésticos, cães ou cavalos, de que se diz que foram .. quebra-
dos'", por terem sido demasiadamente espancados por seus donos. Que-
brado, justamente, foi uma das primeiras palavras que ela pronunciou. 
Mas no início, durante algumas sessões, preencheu com rabiscos todas, 
absolutamente todas as folhas à sua disposição, e se dedicou mais tarde 
a tirar de suas caixas os brinquedos que ali estavam guardados, e 
nomeá-los. Quando não conhecia algum, perguntava, apontando o dedo: 
.. 0 que é?" Parecia não escutar a resposta e continuava, até que a caixa 
ficou vazia; depois, arrumou meticulosamente todos esses objetos, desta 
vez sem nomeá-los e ficou aguardando, passiva. 
Em seguida, desenhou uma forma vagamente arredondada, que cha-
mou de mamãe, e fez um homem com a massa de modelagem. Não o 
moldou, mas foi pondo os pedaços de massa uns sobre os outtos. 
Quando o homenzinho ficou pronto socou-o raivosamente, num júbilo 
que não deixava de ser mesclado por um toque de inquietação: ·Ele está 
quebrado! .. 
Um pouco mais tarde ela quebrou, desta vez sem querer, um lápis. 
Engoliu em seco, ficou paralisada e deixou escapar, penosamente, a 
palavra •quebrado ... Mais tarde ainda, desenhou uma casa, sem porta, 
como a fiz observar. Desenhou então um homem que ia quebrar a porta 
e a casa, pintando-o depois de vermelho. Nesse ínterim, mostrou-me 
com insistência uma pequena pele peri-ungueal que a incomodava de 
maneira obsessiva e que tocava, fascinada. Diversas vezes desenhou 
uma mulher, que em seguida riscava com raiva, dizendo: .. Ela está 
morta, ela fez bobagens, brigou". 
Modificações 
À medida que o tempo passou, foi ficando mais ousada, e entre o mo-
mento em que apanhava alguma coisa e aquele em que a largava, 
poderíamos dizer que estava .. ganhando tempo ... Levava todo um tempo 
para desenhar, manipular os brinquedos, explorar as gavetas às quais 
tinha acesso. Não era fácil, aliás, limitá-Ja a essas gavetas a que tinha 
direito. As outras, as gavetas proibidas, eram objeto de investidas 
furiosas ou jubilosas, mas ela sabia também se fazer suplicante, impe-
riosa ou amuada, muito feminina, p<}rtanto. Essas condutas repetitivas 
em face do interdito foram aparecendo progressivamente, para desapa-
recerem d~ modo ainda mais progressivo. 
Vou comentar, neste trabalho, apenas duas condutas particulares, 
extraídas de um material que não é muito considerável. 
a criança no discurso analítico 
A primeira se refere aos seus desenhos de pessoas. Assim que 
acabava de desenhar uma, ela a recobria completamente de traços de 
lápis. Agora este hábito desapareceu,e ela desenha pessoas e casas 
bonitas, verossímeis, mas completamente estereotipadas! como fazem 
algumas crianças que aprenderam a desenhar na escola. V e-se uma casa, 
a árvore e o automóvel ao lado, o jardim com pequenas flores, uma 
menina, o sol, tudo está ali, menos ela. 
A segunda dessas condutas se refere aos seus jogos ~e escri~. ~o 
começo escrevia, dizia ela, o que significa que pre~n~bta um~ pagma 
inteira de linhas sinuosas, antes de passar para a pag10a segutote. Ao 
mesmo tempo, aprendeu a escrever seu nome, ou melhor, seu prenome, 
que cercava de uma linha, como a um hieróglifo. A e~cr~ta d? nome era, 
manifestamente, decorada, sem que ela pudesse dtstmgutr as letras 
desse nome ou reconhecê-las num outto contexto. Sei disso porque ela 
me pedia para ensiná-la a escrever, ou pelo menos enunciava essa 
demanda. Era assim que me pedia para escrever um A, um O, etc., numa 
situação em que apenas a repetição da ordem e sua execução contavam. 
Quando apanhava o papel, decidindo que era sua vez de escrever, eu 
devia dizer-lhe que letra escrever, mediante o que rabiscava qualquer 
coisa, dizendo ~de novo ... É preciso dizer que minhas tentativas de 
correção pedagógica se chocavam com uma comple~ indi~erença ~ E~ 
seguida, ela preenchia folhas com - cálculos", ou seja, sénes de smats 
+, - e -,com uma aplicação entusiástica. 
Ainda agora, seis anos passados, acontece-lhe apanhar as canetas 
hidrográficas quando estão bem arrumadas em seus estojos de plástico 
transparente (as canetas avulsas não têm absolutamente a mesma função 
incitadora). Ela apanha uma, faz um traço numa folha, torna a tampar a 
caneta, arruma-a, toma a seguinte e recomeça. Em geral, basta-lhe 
percorrer o estojo uma só vez. Se faltar uma no conjunto, ela não deixa 
de perceber e a procura para colocá-la em seu lugar, assim como se 
aplica a tampar as canetas que outros antes dela tenham deixado negli-
gentemente abertas. 
Continuemos a explicar o que faz atualmente e o que podemos notar 
de diferente com relação ao quadro inaugural. Está infinitamente menos 
temerosa. Ao contrário, está sorridente, contente de reencontrar os 
objetos conheddos, retomar seus j~gos, principalmente os desenhos, 
que consis tem num arranjo de pontos ou traços numa folha . Raramen-
te me pergunta o nome de algum objeto, ela os conhece bem, e seu 
vocabulário é extenso, mas me pergunta , a propósito dos objetos 
novos: ~oc quem é? É seu? Vou pegar .. , meio sorridente, meio séria . 
Quando encontra um objeto quebrado, não fica mais petrificada, mas 
anima-se ativamente na procura de seus pedaços esparsos para con-
sertá -lo. Se não consegue, considera que cabe a mim fazê-lo imedia-
casos 
tamente. O fato de que nem tudo seja consertável não a angustia, mas é 
simplesmente ignorado. . 
Notemos ainda que ela é, ocasionalmente, capaz de atitudes de 
sedução inequivocamente provocantes, o que arrisca a lhe trazer alguns 
aborrecimentos futuros se perseverar, o que é provável. 
Portanto, são sensíveis as modificações evocadas no início como uma 
normalização; está até freqüentando a escola, sem resultados notáveis, 
mas sem problemas. 
Foraclusão irremediável 
Vejamos agora o que não mudou, que é no fundo aquil~ que enqu_adra, 
que constitui a borda do espaço de mudança, e que podena se classtficar 
sob dois títulos: a demanda e o jogo, situando-os com relaç~o~a um 
mesmo termo: a trama. . 
Primeiro a demanda. Essa menininha não demanda nada. ·Pode ' . . . exigir, mas não tem uma demanda que seJa uma expectativa, CUJa 
satisfação dependa do outro. Assim, não manifesta aquilo que caracte-
riza a demanda do neurótico dirigida a quem conta para ele, qualquer 
que seja a maneira, de autentificar de volta sua identidade,_ seu c~iste, 
suas proezas, sua infelicidade ... Esta demanda de autenuficaçao ao 
Outro se situa na ordem da verdade, mais do que da exatidão ou da 
rea!ldade, e é necessária para que o sujeito se reconheça, assim com? é 
necessária a passag~m pelo outro no circuito da fala. Uma outra maneua 
de dizê-lo é que não há, nela, apelo ao significante segundo (S
2
) do 
saber, ao sujeito suposto saber. O Outro nio é convocado a re_Presentar 
este sujeito suposto saber. Também não há apelo nessa mentna a que 
lhe seja dada assistência em sua tentativa, que na psicose também pode 
ser uma tarefa, de encontrar o ideal. Esta tentativa de igualar-se ao ideal 
é ocasionalmente o voto enunciado pelo neurótico, mas. não é seu 
·:'él~sejo . É um voto que ele não quer. Por menos que se erga no'boriZ?~te 
a possibilidade de sua realização, a angústia aparece e lembra ao SUJeito 
que sua demanda era só de fazer de conta, .. fazer se~D;blant~". O que 
caracteriza o neurótico é o fracasso: por um pouco, sena aqutlo ... mas 
não é. O fracasso é devido ã defesa que é o próprio ~esejo, que preserva. 
o desejo, esquivando-se diante da satisfação, do devoramento ou da· 
impossibilidade desta insatisfação. Mas unir-se ao ideal pode ser:o voto 
e o desejo, a tarefa imperativa do psicótico. François Leguil op~a a 
neurose como clínica da identificação. à psicose, como a clínica do 
ideal . P~a o neurótico, viu-se que a identificação é sempre significante, 
que, pelo próprio princlpio da recorrência do si~nifi~nte,~ a verdade 
está sempre alhures. Se o neurótico procura, por tdenuficaçao, superar 
a criança no discurso analítico 
A primeira se refere aos seus desenhos de pessoas. Assim que 
acabava de desenhar uma, ela a recobria completamente de traços de 
lápis. Agora este hábito desapareceu, e ela desenha pessoas e casas 
bonitas, verossímeis, mas completamente estereotipadas! como fazem 
algumas crianças que aprenderam a desenhar na escola. V e-se uma casa, 
a árvore e o automóvel ao lado, o jardim com pequenas flores, uma 
menina, o sol, tudo está ali, menos ela. 
A segunda dessas condutas se refere aos seus jogos ~e escri~. ~o 
começo escrevia, dizia ela, o que significa que pre~n~bta um~ pagma 
inteira de linhas sinuosas, antes de passar para a pag10a segutote. Ao 
mesmo tempo, aprendeu a escrever seu nome, ou melhor, seu prenome, 
que cercava de uma linha, como a um hieróglifo. A e~cr~ta d? nome era, 
manifestamente, decorada, sem que ela pudesse dtstmgutr as letras 
desse nome ou reconhecê-las num outto contexto. Sei disso porque ela 
me pedia para ensiná-la a escrever, ou pelo menos enunciava essa 
demanda. Era assim que me pedia para escrever um A, um O, etc., numa 
situação em que apenas a repetição da ordem e sua execução contavam. 
Quando apanhava o papel, decidindo que era sua vez de escrever, eu 
devia dizer-lhe que letra escrever, mediante o que rabiscava qualquer 
coisa, dizendo ~de novo ... É preciso dizer que minhas tentativas de 
correção pedagógica se chocavam com uma comple~ indi~erença ~ E~ 
seguida, ela preenchia folhas com - cálculos", ou seja, sénes de smats 
+, - e -,com uma aplicação entusiástica. 
Ainda agora, seis anos passados, acontece-lhe apanhar as canetas 
hidrográficas quando estão bem arrumadas em seus estojos de plástico 
transparente (as canetas avulsas não têm absolutamente a mesma função 
incitadora). Ela apanha uma, faz um traço numa folha, torna a tampar a 
caneta, arruma-a, toma a seguinte e recomeça. Em geral, basta-lhe 
percorrer o estojo uma só vez. Se faltar uma no conjunto, ela não deixa 
de perceber e a procura para colocá-la em seu lugar, assim como se 
aplica a tampar as canetas que outros antes dela tenham deixado negli-
gentemente abertas. 
Continuemos a explicar o que faz atualmente e o que podemos notar 
de diferente com relação ao quadro inaugural. Está infinitamente menos 
temerosa. Ao contrário, está sorridente, contente de reencontrar os 
objetos conheddos, retomar seus j~gos, principalmente os desenhos, 
que consis tem num arranjo de pontos ou traços numa folha . Raramen-
te me pergunta o nome de algum objeto, ela os conhece bem, e seu 
vocabulário é extenso, mas me pergunta , a propósito dos objetos 
novos: ~oc quem é? É seu? Vou pegar .. , meio sorridente, meio séria . 
Quandoencontra um objeto quebrado, não fica mais petrificada, mas 
anima-se ativamente na procura de seus pedaços esparsos para con-
sertá -lo. Se não consegue, considera que cabe a mim fazê-lo imedia-
casos 
tamente. O fato de que nem tudo seja consertável não a angustia, mas é 
simplesmente ignorado. . 
Notemos ainda que ela é, ocasionalmente, capaz de atitudes de 
sedução inequivocamente provocantes, o que arrisca a lhe trazer alguns 
aborrecimentos futuros se perseverar, o que é provável. 
Portanto, são sensíveis as modificações evocadas no início como uma 
normalização; está até freqüentando a escola, sem resultados notáveis, 
mas sem problemas. 
Foraclusão irremediável 
Vejamos agora o que não mudou, que é no fundo aquil~ que enqu_adra, 
que constitui a borda do espaço de mudança, e que podena se classtficar 
sob dois títulos: a demanda e o jogo, situando-os com relaç~o~a um 
mesmo termo: a trama. . 
Primeiro a demanda. Essa menininha não demanda nada. ·Pode ' . . . exigir, mas não tem uma demanda que seJa uma expectativa, CUJa 
satisfação dependa do outro. Assim, não manifesta aquilo que caracte-
riza a demanda do neurótico dirigida a quem conta para ele, qualquer 
que seja a maneira, de autentificar de volta sua identidade,_ seu c~iste, 
suas proezas, sua infelicidade ... Esta demanda de autenuficaçao ao 
Outro se situa na ordem da verdade, mais do que da exatidão ou da 
rea!ldade, e é necessária para que o sujeito se reconheça, assim com? é 
necessária a passag~m pelo outro no circuito da fala. Uma outra maneua 
de dizê-lo é que não há, nela, apelo ao significante segundo (S
2
) do 
saber, ao sujeito suposto saber. O Outro nio é convocado a re_Presentar 
este sujeito suposto saber. Também não há apelo nessa mentna a que 
lhe seja dada assistência em sua tentativa, que na psicose também pode 
ser uma tarefa, de encontrar o ideal. Esta tentativa de igualar-se ao ideal 
é ocasionalmente o voto enunciado pelo neurótico, mas. não é seu 
·:'él~sejo . É um voto que ele não quer. Por menos que se erga no'boriZ?~te 
a possibilidade de sua realização, a angústia aparece e lembra ao SUJeito 
que sua demanda era só de fazer de conta, .. fazer se~D;blant~". O que 
caracteriza o neurótico é o fracasso: por um pouco, sena aqutlo ... mas 
não é. O fracasso é devido ã defesa que é o próprio ~esejo, que preserva. 
o desejo, esquivando-se diante da satisfação, do devoramento ou da· 
impossibilidade desta insatisfação. Mas unir-se ao ideal pode ser:o voto 
e o desejo, a tarefa imperativa do psicótico. François Leguil op~a a 
neurose como clínica da identificação. à psicose, como a clínica do 
ideal . P~a o neurótico, viu-se que a identificação é sempre significante, 
que, pelo próprio princlpio da recorrência do si~nifi~nte,~ a verdade 
está sempre alhures. Se o neurótico procura, por tdenuficaçao, superar 
a Ctlança no disc:u rso analitioo 
a falta-a-ser instalada em seu coração pelo significante, ao mesmo 
tempo ele não quer a petrificação, a alienação que o Outro lhe promete 
pelo fato dessa identificação significante. Isso lhe dá o seu estilo de 
valsa-hesitação, sua fraqueza, e também seu lado "sem-nome .. de que 
nos fala Lacan. A verdade está sempre alhures, e onde a encontra ele'? 
No referente do discurso do Outro, naquilo que faz a sua verdade. Este 
referente é o objeto, que é pulsional, na medida em que é perdido, e é 
em torno dessa perda que se constitui a troca. 
O sujeito se faz esta parte, objeto parcial e não-eqüitativo, para 
reencontrar o ser que o significante lhe furta . Ora, esse objeto não é um 
objeto da realidade, um objeto do mundo, mas um objeto perdido, nem 
de um nem de outro. O fato de ser perdido faz, inclusive, a localização 
do furo deixado por ele, e a partir daí de sua borda. Neste sentido, é bem 
ao corpo, enquanto furado, que se devolve por esta perda o significante 
que é ao mesmo tempo aquilo que institui a perda e faz o seu lugar. É 
um circuito do furo à perda, pelo significante, fórmula que evoca para 
nós, mais imediatamente, a castração. Mas para que o furo seja o lugar 
da perda, do um da parcialidade, para que o objeto da pulsão seja 
convocado como representante do sujeito junto ao Outro, a partir da sua 
demanda, para que o significante faça apelo ao Um como referente, is to 
é, ao Um como totalidade, e não seja apenas recorrente ou inconsistente, 
despedaçado, produzindo o Um da fragmentação, é necessário o princí-
pio bem conhecido do Nome-do-Pai, oü do falo, já que Nome-do-Pai e 
falo são a mesma coisa, como precisa Lacan no Seminário do ano 
1970/71. 
O furo se faz perda pela operação do significante, do significante 
fático como podemos precisar agora, e ao mesmo tempo esta perda é 
também, para' o sujeito, a perda do significante da relação sexual e do 
outro sexo, o acesso a este só sendo possi~el pela pulsão. . 
Algumas frases desse Seminário de 1970/1971, ~v 'un discours qui 
ne serait pas du semblanr-, dizem isso muito claramente. Lacan fala da 
repartição entre homens e mulheres, e articulà o fato de que essa 
repartição só pode ser estabelecida a partir da experiência da fala: -para 
dizer tudo, encontramo-nos de saída na dimensão do semblante e é 
igualmente testemunha disso a referência à exibição sexual( ... ) a saber. 
um nível etológico que é propriamente o do semblante . É certo que o 
comportamento sexual humano consiste n(l manutenção desse semblan-
te anima). A única coisa que o diferencia dele é que esse semblante é 
veiculado por um discurso". 
Mais adiante, a propósito do objeto pulsiooal, o objeto a, ele sublinha 
que o mais -gozar só se nonnaliza por uma relação que se estabelece com 
o gozo sexual, que ele próprio só se articula pelo falo. O falo, o 
Nome-do-Pai é propriamente o gozo sexual enquanto coordenado, en-
quanto solidário a um semblante. 
O semblante não é, pois, apenas a irrealização ~Jo simbólico, ou a 
imagem ilusória sujeita a todas as variações, mas a imagem enquanto 
organizada pelo significante, e enquanto precipita um real do corpo em 
ato. É, mais do que uma imagem falsa ou enganadora, a im.ago funda-
dora do primeiro tempo do ensinamento de Lacan. Nada mais verdadei-
ro, pois, que o semblante, intersecção entre o real e a verdade, a qual 
está do lado do significante. 
É por isso que podemos fazer equivaler a proposição de que a neurose 
é uma clínica de identificações com a de que a neurose é uma clínica do 
semblante. Pois, na neurose, o que é transmitido pelo significante- isto 
é, pelo pai, mais além das identificações - é a falta, como castração. 
Transmite-se a barra que afeta o s ignificante. Assim, em Scilicet n° 5, 
Lacan nos diz, a propósito do Um: .. Este lugar é o do semblante, ou seja, 
de lá onde o ser se faz letra, pode-se dizer". 
Na psicose, em compensação, esta foraclusào da barra não irrealiza 
o significante, mas o congela num ideal, ao mesmo tempo em que não 
irrealiza o objeto. O psicótico, portanto, é destinado a realizar suas 
identificações; da mesma forma, não é como semblante na montagem 
puls ional que ele é objeto de gozo do Outro. 
Fazer igual 
Ele pode, ocasionalmente, solicitar o outro - e o psicanalista, por que 
não 1 - não para autentificar suas identificações num circuito de retomo, 
mas para atestá-las, certificá-las, do lugar de expert que o discurso 
social lhe confere. Ele pode demandar um certificado, mas pode também 
solicitar este outro como um especialista para ajudá-lo a melhor realizar 
suas identificações. Concebe-se, assim, que um paranóico redentor do 
universo não terá o mesm0 tipo de atestação, de certificado, que o tran-
sexual, assim como não terá o mesmo tipo de dificuldades a enfrentar. 
Evocarei, rapidamente, nesse sentido, um transexual que nos foi 
apresentado na Sessão Clínica 1• Veio pedir um certificado, mas o que 
demandava, de fato, era um significado - o signifi cado do s ignificante 
não-dialetizado que era o seu ser de mulher. Testemunhava perfeita-
mente, por sua dor, o desvio entre seu eu e seu ideal, e o lugar onde 
colocavao outro, seu analista, no desvio entre o eu e o i( a), assegurando 
a articulação entre os dois, bem como a promessa assintótíca de seu 
reencontro numa realização tota l. 
I Seção dúüca e de estudos aprofundados da Universidade de Paris VIIJ . 
a Ctlança no disc:u rso analitioo 
a falta-a-ser instalada em seu coração pelo significante, ao mesmo 
tempo ele não quer a petrificação, a alienação que o Outro lhe promete 
pelo fato dessa identificação significante. Isso lhe dá o seu estilo de 
valsa-hesitação, sua fraqueza, e também seu lado "sem-nome .. de que 
nos fala Lacan. A verdade está sempre alhures, e onde a encontra ele'? 
No referente do discurso do Outro, naquilo que faz a sua verdade. Este 
referente é o objeto, que é pulsional, na medida em que é perdido, e é 
em torno dessa perda que se constitui a troca. 
O sujeito se faz esta parte, objeto parcial e não-eqüitativo, para 
reencontrar o ser que o significante lhe furta . Ora, esse objeto não é um 
objeto da realidade, um objeto do mundo, mas um objeto perdido, nem 
de um nem de outro. O fato de ser perdido faz, inclusive, a localização 
do furo deixado por ele, e a partir daí de sua borda. Neste sentido, é bem 
ao corpo, enquanto furado, que se devolve por esta perda o significante 
que é ao mesmo tempo aquilo que institui a perda e faz o seu lugar. É 
um circuito do furo à perda, pelo significante, fórmula que evoca para 
nós, mais imediatamente, a castração. Mas para que o furo seja o lugar 
da perda, do um da parcialidade, para que o objeto da pulsão seja 
convocado como representante do sujeito junto ao Outro, a partir da sua 
demanda, para que o significante faça apelo ao Um como referente, is to 
é, ao Um como totalidade, e não seja apenas recorrente ou inconsistente, 
despedaçado, produzindo o Um da fragmentação, é necessário o princí-
pio bem conhecido do Nome-do-Pai, oü do falo, já que Nome-do-Pai e 
falo são a mesma coisa, como precisa Lacan no Seminário do ano 
1970/71. 
O furo se faz perda pela operação do significante, do significante 
fático como podemos precisar agora, e ao mesmo tempo esta perda é 
também, para' o sujeito, a perda do significante da relação sexual e do 
outro sexo, o acesso a este só sendo possi~el pela pulsão. . 
Algumas frases desse Seminário de 1970/1971, ~v 'un discours qui 
ne serait pas du semblanr-, dizem isso muito claramente. Lacan fala da 
repartição entre homens e mulheres, e articulà o fato de que essa 
repartição só pode ser estabelecida a partir da experiência da fala: -para 
dizer tudo, encontramo-nos de saída na dimensão do semblante e é 
igualmente testemunha disso a referência à exibição sexual( ... ) a saber. 
um nível etológico que é propriamente o do semblante . É certo que o 
comportamento sexual humano consiste n(l manutenção desse semblan-
te anima). A única coisa que o diferencia dele é que esse semblante é 
veiculado por um discurso". 
Mais adiante, a propósito do objeto pulsiooal, o objeto a, ele sublinha 
que o mais -gozar só se nonnaliza por uma relação que se estabelece com 
o gozo sexual, que ele próprio só se articula pelo falo. O falo, o 
Nome-do-Pai é propriamente o gozo sexual enquanto coordenado, en-
quanto solidário a um semblante. 
O semblante não é, pois, apenas a irrealização ~Jo simbólico, ou a 
imagem ilusória sujeita a todas as variações, mas a imagem enquanto 
organizada pelo significante, e enquanto precipita um real do corpo em 
ato. É, mais do que uma imagem falsa ou enganadora, a im.ago funda-
dora do primeiro tempo do ensinamento de Lacan. Nada mais verdadei-
ro, pois, que o semblante, intersecção entre o real e a verdade, a qual 
está do lado do significante. 
É por isso que podemos fazer equivaler a proposição de que a neurose 
é uma clínica de identificações com a de que a neurose é uma clínica do 
semblante. Pois, na neurose, o que é transmitido pelo significante- isto 
é, pelo pai, mais além das identificações - é a falta, como castração. 
Transmite-se a barra que afeta o s ignificante. Assim, em Scilicet n° 5, 
Lacan nos diz, a propósito do Um: .. Este lugar é o do semblante, ou seja, 
de lá onde o ser se faz letra, pode-se dizer". 
Na psicose, em compensação, esta foraclusào da barra não irrealiza 
o significante, mas o congela num ideal, ao mesmo tempo em que não 
irrealiza o objeto. O psicótico, portanto, é destinado a realizar suas 
identificações; da mesma forma, não é como semblante na montagem 
puls ional que ele é objeto de gozo do Outro. 
Fazer igual 
Ele pode, ocasionalmente, solicitar o outro - e o psicanalista, por que 
não 1 - não para autentificar suas identificações num circuito de retomo, 
mas para atestá-las, certificá-las, do lugar de expert que o discurso 
social lhe confere. Ele pode demandar um certificado, mas pode também 
solicitar este outro como um especialista para ajudá-lo a melhor realizar 
suas identificações. Concebe-se, assim, que um paranóico redentor do 
universo não terá o mesm0 tipo de atestação, de certificado, que o tran-
sexual, assim como não terá o mesmo tipo de dificuldades a enfrentar. 
Evocarei, rapidamente, nesse sentido, um transexual que nos foi 
apresentado na Sessão Clínica 1• Veio pedir um certificado, mas o que 
demandava, de fato, era um significado - o signifi cado do s ignificante 
não-dialetizado que era o seu ser de mulher. Testemunhava perfeita-
mente, por sua dor, o desvio entre seu eu e seu ideal, e o lugar onde 
colocava o outro, seu analista, no desvio entre o eu e o i( a), assegurando 
a articulação entre os dois, bem como a promessa assintótíca de seu 
reencontro numa realização tota l. 
I Seção dúüca e de estudos aprofundados da Universidade de Paris VIIJ . 
100 a criança no discurso anatítico 
Essa bela observação nos demonstrava, assim, a tarefa do analista: 
manter este lugar de articulação, mas também de desvio, para evitar a 
passagêm ao ato éirúrgico, ou à encenaçio sexual, que, rebatendo a 
im(g.~m sobre o eu, desest.abilizaria a suplência significante _numa 
realização, com as conseqüências dramáticas que se podem segou. 
O psicótico deve, graças ao auxílio q~e encontra do psicanalista,. se 
manter ali onde o próprio significante o aloja. no nível do dizer, da éuca 
do bem dizer. 
-Para voltar à nossa jovem paciente, sua demanda não era a de uma 
assistência técnica para uma realização futura. nem 0 0 horizonte do 
tempo, nem no de um certificado. Sua demanda, se é que ~e pode.falar 
de demanda, era a de manter as coisas num estado de relativa pactfica-: 
ção onde o outro, como ela mesma, se manteria numa .. domesticação .. 
de boa qualidade, pennitindo a repetição indefinida do exercício do 
~controle" sobre o esmigalhamento, o despedaçamento. Esta deman-
da não implica em nenhuma trama por vir, maS constitui em si mesma 
uma realização; ela não implica em nenhuma trama além de seus 
jogos. onde nada se perde nem se ganha, mas onde o quebrado da 
oposição binária pode se articular, se inscrever na escrita, sem esva-
ziar o sujeito do seu ser. · 
Numerosos pós-freudianos se voltaram para essa tentativa de articu-
lação de uma clínica diferencial da verdade e do real, para além do 
comport.amento, do fenômeno, ainda que .. normal .. : Hélene Deutch, 
com as personalidades as íf, M. Mahler, M. Klein, D. Winnicott com 
seu -falso se/f" e outros . 
. Mas vamos consagrar alguns instantes ao estudo de D. Melzer sobre 
o autismo. Ele distingue, no mecanismo do estado autístico, o desman-
telamento como esmigalhameqto do mundo, que ele refere à sensação, 
desconhecendo que é o significante que recorta a reálídade. Assim, dá 
o exemplo de uma criança autista que pode assimilar o aspecto liso de 
uma mesa ao ventre de sua mãe, pois não leva em conta outros fatores 
sensoriais como a rugosidade, a dens idade. a temperatura, sem parecer 
perceber que essas qualidades diferenciais são introduzidas no mundo 
pelo significante. Dito isto. há um efeito de fragmen~ç~o unári~ do 
significante, quando o vazio responde ao apelo do suje1to. Além dtsso, 
o que convoca a bidi.mensionalidade

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